A Revolução da Transformação Digital

por Evandro Milet – uma versão reduzida desse artigo foi publicada no Jornal A Gazeta

Na primeira revolução industrial, as fontes fixas de energia, primeiro as rodas d’água e depois o carvão, definiam a localização, o formato, o tamanho, a capacidade, o projeto das fábricas e os métodos de trabalho. A eletrificação no final do século XIX mudou tudo, mas as fábricas demoraram a perceber a extensão das mudanças. Coube às novas startups de geração de energia elétrica da época pregar a inovação e até emprestar motores elétricos para demonstrar as novas tecnologias.

O mesmo acontece agora com a transformação digital(TD) que tem a ver com estratégia, reimaginação e reinvenção do core business e não só com automação, robôs, IA ou IoT. O conceito é mais amplo que Indústria 4.0 e se aplica não só em empresas, mas também em governos, com as adaptações específicas de termos.

A TD exige uma visão holística da estratégia de negócios em 5 domínios: clientes, competição, dados, inovação e valor, bem retratadas no livro Transformação Digital de David L. Rogers.

No primeiro domínio o importante era atingir, com um produto e comunicação o máximo de clientes possível. As ferramentas digitais mudaram como os clientes descobrem, avaliam, compram e usam os produtos, se influenciando em redes que constroem e destroem marcas e reputações. O marketing digital criou uma gama enorme de ferramentas para captar e fidelizar os clientes.

O segundo domínio da TD é a competição. Fronteiras setoriais fluidas trazem concorrentes de outros setores, obrigam concorrentes a cooperar, a desintermediação faz parceiros de longa data virarem concorrentes e as plataformas criam um modelo de negócios novo aproximando empresas e clientes. Mas surgem também novas formas de intermediação como, por exemplo, a parceria do Google com órgãos de imprensa para divulgação de reportagens.

O terceiro domínio são os dados que eram parte dos processos de negócios – fabricação, operações, vendas e marketing, e usados para previsões, avaliações e tomadas de decisões. As fontes se multiplicaram, com as mídias sociais, os dispositivos móveis e os sensores gerando uma enxurrada de dados, permitindo novas previsões, um conhecimento profundo dos clientes, a descoberta de padrões inesperados e novas fontes de valor. Novas profissões, como cientistas e engenheiros de dados, são criadas para organizar e aproveitar essa nova fonte de valor.

O quarto domínio é a inovação, onde a grande novidade é a possibilidade de experimentação rápida usada não só pelas startups, que permitem feedback do mercado desde o início do processo de inovação e sempre, em inovação constante. Também a inovação aberta, onde as empresas vão buscar externamente soluções para suas dores e desafios, cresceu e se espalhou como tendência.

O quinto domínio é a proposta de valor, antes duradoura ou quase constante e agora tendo que mudar sempre para acompanhar as mudanças rápidas dos próprios clientes, assediados por novos concorrentes, vindos muitas vezes de outros setores.

Enfim, a nova realidade: ou a empresa faz sua transformação digital, nos seus vários domínios, ou estará fora do mercado, como tem sistematicamente acontecido no mundo empresarial. 

https://link.estadao.com.br/noticias/inovacao,quarenteners-as-startups-lancadas-em-meio-ao-isolamento-social,70003371742

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Quarenteners: as startups lançadas em meio ao isolamento social

De app que recomenda filmes a serviço que ajuda a economizar na conta de luz, novas empresas ‘abrem as portas’ com trabalho remoto e conectadas com novas tendências de comportamento e mercado

22/07/2020  Por Bruno Capelas – O Estado de S. Paulo

Elas não sabem o que é escritório físico, parede colorida ou mesa de pingue-pongue. Começaram a operar a distância, com trabalho remoto, usando a nuvem, as videochamadas e apostando nas tendências de comportamento de um mundo que ninguém sabe como funciona direito. Em meio às incertezas do período de isolamento social, uma geração de startups – as “quarenteners” – está “abrindo suas portas” e conquistando seus primeiros clientes. De um app que recomenda filmes para quem decidiu ficar em casa a um serviço que ajuda a economizar na conta de luz, essas empresas já nascem adaptadas a hábitos que, seja pela crise econômica ou sanitária, podem se tornar padrões nos próximos tempos. 

Algumas delas foram inclusive fundadas a partir da segunda quinzena de março, quando a pandemia do coronavírus fez uma parte dos brasileiros ficarem em casa. É o caso da Chippu (“dica”, em japonês), que dá dicas de filmes e animes para quem não sabe o que assistir em meio ao tédio da quarentena. “Muita gente gasta meia hora só tentando escolher um filme na Netflix. Podemos resolver isso com algoritmo e curadoria, dando dicas em alguns segundos”, diz o jornalista Thiago Romariz, que se uniu a dois amigos para lançar o serviço. Só que não presencialmente. 

De Curitiba, ele executou a parte editorial e de conteúdo do app, enquanto os dois sócios, em Brasília, programavam o aplicativo, lançado no final de maio. “Era um projeto que eu tinha há uns dois anos. Quando começou a quarentena, vi que o problema das pessoas em escolher o que assistir aumentou. Aí resolvi ir pra cima”, conta ele. Em dois meses, o serviço já tem mais de 100 mil usuários e 1 milhão de dicas dadas. “A gente não esperava que fosse tão bem, tivemos até problema de servidor no começo. Mas o timing foi mais importante que a execução”, afirma. 

Além do sucesso em downloads, a empresa também já conseguiu parcerias comerciais com empresas como Telecine e James Delivery. Para os próximos meses, os planos são ambiciosos: até o final do ano, o app da Chippu ganhará versões em inglês e espanhol, para entrar nos EUA e no mercado latino. “Escolher o que assistir é um problema universal, então vamos aproveitar a oportunidade”, diz o empreendedor, que já lidera uma equipe de dez pessoas e negocia uma próxima rodada de aportes com investidores brasileiros e americanos. 

Recomeço

Algumas das quarenteners vem de veteranos do ecossistema brasileiro. Fundador do iFood, Michel Eberhardt vendeu sua parte no app de delivery há alguns anos. Passou um tempo estudando e decidiu que era hora de recomeçar no início de 2019, quando criou a 2be Live, startup que é dona de um sistema para educação a distância. “Nossa ideia era criar um sistema para professores particulares darem aulas para alunos em qualquer parte do mundo, com plataforma já traduzida e preparada para educação. No máximo, para 20, 30 alunos”, afirma o executivo, que fundou a empresa ao lado de Antonio Curi, ex-Qualcomm e Electronics Arts. “O nosso plano era lançar o serviço em abril. Aí veio o coronavírus e passarmos a ser requisitados por escolas inteiras de uma vez só.” 

Segundo Eberhardt, o diferencial da 2be Live é que ela foi pensado desde o início para servir para educação – ao contrário de plataformas de gigantes de tecnologia, que adaptaram produtos corporativos para o universo das escolas. Entre as funções, há a possibilidade de alunos e professores desenharem na tela e a de fazer quizzes durante aula, bem como uma playlist de atividades pré-determinadas. O plano mais barato da empresa custa R$ 99 ao mês e aumenta conforme a quantidade de horas de aula e de alunos conectados. 

Além de atender o Brasil, a startup também está de olho no mercado internacional – já tem clientes nos EUA e um representante no Canadá; em breve, ganhará uma nova executiva na Europa. “Muitas faculdades já decidiram que vão ficar online no próximo ano letivo, mas ainda não sabem o que fazer, então podemos ajudar”, diz o executivo, que comanda uma equipe de quatro pessoas, numa conexão entre São Paulo e San Diego, onde mora Curi. 

Questão de hábito

Se para a 2be Live as videochamadas são uma forma de comunicação interna e um mercado, para a recifense Hent elas se transformaram em uma oportunidade de acessar novos clientes. Criada no final de 2019 e com operações ativas desde março, a empresa é dona de um software que faz gestão para loteamentos residenciais, facilitando a cobrança desse tipo de empreendimento imobiliário. 

“Uma boa parte dos nossos clientes é ‘raiz’. Normalmente, eles pediriam que a gente viajasse até a cidade deles para uma reunião”, diz o presidente executivo Leo Pinho, que em 2015 vendeu sua primeira empresa, a Kaplen, para o Itaú. “Com a pandemia, eles começaram a topar falar por videoconferência. Para nós, a quarentena ajudou porque mudou os hábitos dos clientes.”

Além de começar a operar na pandemia, a empresa também está crescendo seu time durante a quarentena – hoje, tem sete pessoas e deve contratar mais quatro nos próximos meses. As contratações estão sendo bancadas com recursos de uma rodada recente de aportes, avaliada em R$ 5 milhões e liderada pelos fundos Canary e Norte Capital, além de investidores-anjo como Brian Requarth, cofundador do VivaReal. Antes disso, a Hent passou pela aceleração da Y Combinator (de Rappi e Airbnb), no Vale do Silício. Até o final do ano, a empresa espera administrar 45 mil lotes e também entrar em um novo pilar de negócios: crédito, tanto para os loteadores quanto para os clientes. 

Luz

Companheira de fundo da Hent, a startup Clarke recebeu seu primeiro aporte da Canary em janeiro e lançou seu primeiro aplicativo em junho. Sua meta? Ajudar as pessoas a lidar melhor com sua própria de conta de luz, identificando gastos, parcelando a tarifa ou identificando serviços que podem reduzir custos – como a indicação de serviços de instalação de energia solar. A companhia, liderada pelo engenheiro Pedro Rio, também ajuda clientes corporativos a lidarem com os gastos de energia – mostrando, por exemplo, se eles podem gastar menos ao adotar a tarifa branca, com precificação em faixas horárias, do que a tarifa normal. 

“Usamos inteligência artificial pra identificar tendências de gastos e analisar a conta de luz. No futuro, queremos ser uma solução única para energia, até ajudando as empresas a usar energia limpa e barata”, diz Rio, que hoje tem cerca de 80 clientes. Essa visão de futuro depende, no entanto, de mudanças regulatórias, como a criação de um mercado livre de energia – em prática nos EUA, por exemplo, esse sistema permite que o consumidor escolha de qual tipo de usina deseja comprar a força que abastece sua casa. 

Antes disso, porém, a empresa, que tem 9 funcionários, enxerga boas oportunidades para os próximos meses. “Somos feitos para os tempos de crise, porque podemos ajudar as empresas a cortarem custos”, diz Rio. Para ele, é um paradigma que as startups criadas agora vão ter de enxergar. 

Tempos de crise

Quem também acredita nisso é Flávia Coelho, criadora da Mobees – startup carioca que quer ajudar motoristas de aplicativo a ter uma renda extra colocando telas de LED no topos dos carros, para exibição de publicidade. “O setor de mídia fora de casa (out of home, no jargão do termo) sempre teve muito problema para gerar números confiáveis, mas podemos fazer isso com tecnologia”, explica ela, que, junto a dois sócios, criou um sistema capaz de medir quantas pessoas estão na rua sendo expostas aos anúncios. 

Por enquanto, as telas de LED estão rodando em 100 carros no Rio de Janeiro – são duas telas por carro, que exibem anúncios rotativamente de acordo com a demanda dos clientes, em uma lista que já inclui nomes como Descomplica, Unimed Rio e Motorola. “Podemos exibir uma campanha dependendo da rua, da temperatura e até mesmo da hora do dia”, explica Flávia. 

Segundo ela, mais de 10 mil motoristas estão na fila de espera da empresa, que paga R$ 1 mil para os condutores rodarem por aí com seu sistema. Apesar de já ter captado recursos – em um aporte de R$ 5 milhões –, a empresa espera passar pouco tempo rodando no vermelho, até pelo momento difícil da economia. “Não queremos ser uma empresa que consome recursos do caixa por meses a fio, não faz sentido”, diz Flávia. 

Pinho, da Hent, vai na mesma linha. “Nascemos na crise e mesmo se as coisas melhorarem, vamos continuar assim. O desejo de toda startup é ser unicórnio, mas nós vamos ser o camelo”, diz, fazendo referência a um termo que também ganhou popularidade no setor durante a quarentena. “Afinal, o camelo consegue suportar condições adversas, caminhar pelo deserto e sobreviver. É o que queremos fazer.” 

https://link.estadao.com.br/noticias/inovacao,quarenteners-as-startups-lancadas-em-meio-ao-isolamento-social,70003371742

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

O que o e-commerce chinês pode revelar sobre o comércio eletrônico brasileiro

Em 2003, quando a epidemia da SARS eclodiu na China, o e-commerce deu um grande salto e mudou para sempre o modo de consumo da população. Um estudo do Itaú BBA, revelado com exclusividade ao NeoFeed, traça esse paralelo e os possíveis efeitos do coronavírus para o setor no Brasil

Moacir Drska •17/07/20 

Com boa parte das pessoas confinadas em casa, o e-commerce brasileiro vem experimentando taxas chinesas de crescimento. Segundo a Ebit Nielsen, já nas primeiras semanas da Covid-19, entre 17 de março e 27 de abril, a receita do setor avançou 48,3% no País, ante igual período de 2019.

No rastro do salto expressivo nos cliques, há quem entenda que a pandemia vai acelerar a consolidação dos carrinhos de compra virtuais como uma via de consumo de alto tráfego no Brasil. E para avaliar as perspectivas desse cenário, o Itaú BBA produziu uma nova edição do estudo “The Covid-19 Series”.

O relatório, adiantado com exclusividade ao NeoFeed, parte da possível influência da epidemia de SARS, em 2003, no avanço substancial do comércio eletrônico da China para traçar paralelos com o contexto atual e o futuro do e-commerce no Brasil, a partir do novo coronavírus.

Para Enrico Trotta, analista de tecnologia do Itaú BBA, a SARS pode ter sido o pontapé para o e-commerce chinês. “Mas não foi o fator determinante para o avanço do setor que, na época, era incipiente no país”, diz. “No pós-pandemia, outras questões foram muito mais decisivas.”

Essa constatação inicial poderia frear as expectativas de um crescimento exponencial para o setor no Brasil nos próximos anos, sob o impulso da Covid-19. Mas a comparação dos estágios de desenvolvimento dos dois países nesses respectivos períodos traz, na realidade, uma boa projeção para o e-commerce local.

“O Brasil está muito mais preparado do que a China estava na época”, observa Thiago Macruz, analista de varejo do Itaú BBA. “Então, sem sombras de dúvidas, essa pandemia pode ser um vento de cauda importante para a aceleração definitiva do comércio eletrônico no País.”

A pesquisa destaca cinco componentes que foram fundamentais na consolidação da China como uma referência global no segmento. E analisa a maturidade do Brasil em cada um desses tópicos. Em todos eles, apesar dos desafios, o País tem um cenário bem mais favorável que aquele observado no mercado chinês, em 2003.

O primeiro ponto em que o Brasil está à frente é a penetração da internet entre a população, na casa de 70,2%. O índice é maior mesmo na comparação com a fatia atual dos chineses, de 59,35%. Em contrapartida, o País tem a maior carga tributária em conexões fixas de banda larga do mundo, segundo a União Internacional de Telecomunicações, o que limita o acesso de mais brasileiros ao serviço.

O custo também pesa no bolso dos brasileiros em outra frente que ajuda a explicar o avanço chinês: a penetração dos smartphones. “Os chineses praticamente pularam a fase do PC em casa e foram direto para o smartphone”, diz Trotta, sobre o país, no qual 55,3% dos habitantes têm aparelhos desse tipo.

Com essa transição, a participação das compras via smartphone no e-commerce chinês saltou de 1,5%, em 2011, para 61,7%, em 2018. “Essa presença elevada do mobile-commerce é fundamental, pois impulsiona as melhorias na experiência de compra”, afirma Trotta.

A fatia brasileira do mobile commerce no e-commerce é de 43,1%, enquanto a penetração dos smartphones está na casa de 40%

Aqui, mesmo com índices menos expressivos, o Brasil ganha de lavada no paralelo traçado com a China de 17 anos atrás, já que esses dispositivos nem existiam. A fatia local do mobile commerce no e-commerce é de 43,1%, enquanto a penetração dos smartphones está na casa de 40%.

Alta velocidade

Nesse jogo, porém, o principal desafio do Brasil na visão dos analistas é a questão da infraestrutura e da logística. A China começou a superar esse gargalo, de fato, a partir de 2008, quando passou a investir pesado em sua rede ferroviária e nos trens de alta velocidade. O maior salto dessa estratégia veio no ano seguinte, com um aumento de 50% dos aportes na área.

Até então, as compras do e-commerce estavam restritas aos grandes centros urbanos, como Pequim. Hoje, o país tem uma rede de 139 mil quilômetros, o que ajudou a desbravar novas fronteiras para o segmento.

Com a estratégia, o e-commerce da China conseguiu reduzir o tempo de entrega para o prazo médio de um dia, além de diminuir os custos nesse processo. Também com dimensões continentais, o Brasil, por sua vez, tem uma malha ferroviária de 29,1 mil quilômetros. E o prazo médio para que encomenda chegue até o consumidor é de 11 dias.

Na China, o tempo médio de entrega de um produto é de um dia. No Brasil, o prazo é, em média, de 11 dias

“O governo chinês foi muito importante para resolver essa fricção”, ressalta Trotta. “Aqui, até pela situação fiscal do Estado não dá para esperar grandes investimentos. O caminho para destravar essa questão virá da iniciativa privada.”

Se não há perspectiva de solução a partir do Estado, o mercado brasileiro começa a enxergar a evolução de alternativas propostas pelas próprias empresas de comércio eletrônico para superar essas lacunas no País.

Nessa direção, o analista Thiago Macruz destaca duas vias: as estratégias multicanal e as ofertas no modelo de fulfillment, no qual um varejista oferece aos lojistas parceiros de seu marketplace serviços que vão desde a coleta e o armazenamento até o empacotamento e a entrega dos produtos aos clientes.

“O Magazine Luiza tem sido extremamente eficiente ao usar suas lojas para melhorar o serviço, o tempo de entrega, a assertividade e reduzir o custo”, diz Macruz, sobre o primeiro formato. “Já o Mercado Livre conseguiu atingir uma marca expressiva, de 20% de penetração no fulfillment.”

As diferenças entre o papel estatal dos dois países também envolvem os outros dois fatores apontados no estudo como responsáveis pelo desenvolvimento do e-commerce na China: os superapps e os pagamentos digitais.

“O governo chinês foi o grande patrocinador das empresas que consolidaram esse formato”, diz Trotta, sobre as duas companhias locais que dominam amplamente esses mercados, Alibaba, com serviços com o Alipay, e a Tencent, com o WeChat. “No Brasil, dificilmente esse modelo será replicado, porque o mercado é mais livre e aberto a competição, o que, no fim do dia, é mais benéfico.”

Macruz reforça essa visão: “Se você é um pequeno varejo na China, precisa se associar a essas duas plataformas, ou não cresce. E fica obrigado a pagar as taxas que elas definem”, afirma. “No Brasil, só em marketplaces, por exemplo, temos cinco ou seis players estabelecidos e competindo de forma franca.”

Ele destaca outra questão que também deve estimular a competição e, ao mesmo tempo, impulsionar o e-commerce local. “O PIX, do Banco Central, vai tornar o pagamento digital uma alternativa muito mais interessante e consistente no País”, observa Macruz.

Valorização

Se o cenário é favorável para a competição e o crescimento mais acelerado do segmento nos próximos anos, no curto prazo, as empresas brasileiras puramente de e-commerce ou com forte operações nesse campo listadas em bolsa já estão capturando bons indicadores com a pandemia.

A valorização das ações dessas companhias no acumulado de 2020 é um bom termômetro. A alta da B2W no período foi de 77,77%; seguida pelo Magazine Luiza, com 69,1%; e pelo Mercado Livre, com 66,4%. Completam a relação a Via Varejo, com 65,53% e a Lojas Americanas, com 51,44%.

Para os analistas do Itaú BBA, todas elas estão sabendo, em diferentes níveis, surfar na onda da digitalização. A B2W, por exemplo, com o acréscimo acelerado de novos parceiros em seu marketplace, o aumento na recorrência de compra a partir do impulso a categorias como alimentos e o desenvolvimento dos esforços multicanais em parceria com a Lojas Americanas.

“O Magazine Luiza e a Via Varejo são players de varejo físico e e-commerce tradicional se aventurando, com bons números, no marketplace”, diz Macruz, que destaca ainda o tráfego orgânico “gigantesco” do Mercado Livre. “E é a empresa com maior penetração em serviços de fintech, com o Mercado Pago. E quem está mais próximo de construir um ecossistema.”

A valorização das ações das companhias do setor no acumulado de 2020 é um bom termômetro. A alta da B2W no período, por exemplo, foi de 77,77%

As boas perspectivas do e-commerce não estão restritas a quem está no mercado de capitais. Nessa seara, duas empresas são apontadas entre as que avançaram nesse período de crise e podem ganhar ainda mais escala: iFood e Rappi.

Na avaliação dos analistas, as duas, no entanto, escolheram caminhos distintos. Enquanto o iFood decidiu se concentrar mais em dar tração ao seu negócio principal, o delivery de comida, a Rappi está ampliando sua oferta em diversas categorias, em direção à consolidação do modelo de superapp.

“A estratégia do iFood está muito mais em linha com os superapps asiáticos, de crescer primeiro em uma vertical e, depois, aproveitar sua base de usuários para expandir”, diz Trotta. “É uma escolha muito menos intensiva em queima de caixa e mais eficiente que a Rappi.”

Ele ressalta, porém, que a dupla deve ganhar, em breve, a concorrência pesada do Facebook. “Eles vêm reforçando a ideia de integrar o Facebook com o Instagram, o WhatsApp e ofertas de e-commerce e de pagamento”, diz. “Se a empresa, de fato, entrar nessa briga, ela supera qualquer outro player no Brasil.”

Mesmo sob esse cenário, Macruz entende, por sua vez, que é cedo para eleger quem mais se beneficiará no jogo do e-commerce brasileiro. “O mercado vai ter crescimento para todas essas empresas”, diz. “Temos muito avanço nos próximos anos antes de nos preocuparmos em escolher quem será o vencedor.”

Siga o NeoFeed nas redes sociais. Estamos no Facebook, no LinkedIn, no Twitter e no Instagram. Assista aos nossos vídeos no canal do YouTube e assine a nossa newsletter para receber notícias diariamente.

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Apocalipse causado por coronavírus pode tornar o trabalho mais criativo e afetuoso

É melhor tirar proveito da pandemia para redesenhar nossa sociedade, diz Domenico De Masi

26.jun.2020 Domenico De Masi – Sociólogo italiano, é autor dos livros “Ócio Criativo” e “O Futuro do Trabalho”

[RESUMO] Imposto a milhões de pessoas em todo o mundo em decorrência da pandemia, modelo de home office pode significar o início de uma reorganização do trabalho e, de forma mais ampla, de nosso modelo sociopolítico, garantindo mais autonomia e criatividade para trabalhadores, mais produtividade para as empresas e um desenvolvimento mais igualitário da coletividade.

CISNE NEGRO, CISNE BRANCO

Em grego clássico, a palavra apocalipse não significa apenas destruição, mas também revelação de coisas ocultas. O que este apocalipse me revelou? Antes de tudo, revelou-me uma nova diferença entre os economistas e os sociólogos.

Quando não sabem explicar o inexplicável, os economistas recorrem à literatura. Adam Smith pegou emprestado de Shakespeare a ideia de “mão invisível” para creditar o equilíbrio do mercado. Nassim Nicholas Taleb tomou o cisne negro de Juvenal para explicar os eventos imprevisíveis, e os economistas roubaram sua ideia. 

O colapso de 1929 foi um cisne negro, assim como o de 2008, e, sobretudo, a Covid-19, mesmo que Taleb o negue.

Para os sociólogos, ao contrário, a pandemia atual representa um cisne branco, previsível e previsto, que veio confirmar as hipóteses muitas vezes propostas pela Escola de Frankfurt e pelo Clube de Roma, por Noam Chomsky, Zygmunt Bauman, Serge Latouche e por muitos outros que atribuem à sociologia a tarefa de assediar, criticar os regulamentos vigentes e indicar, para além desses, outros melhores.

Ainda em 2007, quando Taleb publicava “A Lógica do Cisne Negro”, Dominique Belpomme, um dos maiores especialistas em saúde ambiental do mundo, escrevia que há cinco cenários possíveis para o nosso desaparecimento: “o suicídio violento do planeta, por exemplo, uma guerra atômica; o aparecimento de doenças graves, como uma pandemia infecciosa ou uma esterilização, que levaria a um declínio demográfico irreversível; o esgotamento dos recursos naturais; a destruição da biodiversidade e, finalmente, as mudanças extremas em nosso meio ambiente, como o desaparecimento do ozônio estratosférico e o agravamento do efeito estufa”.

Neste ano bíblico de 2020, não felizes em experimentar uma pandemia infecciosa furiosa, continuamos indiferentes, visto que ainda destruímos a biodiversidade, esgotamos os recursos naturais, provocamos o desaparecimento do ozônio e agravamos o efeito estufa.

Diante do cataclismo histórico do coronavírus, tão assimétrico em relação à pequenez do morcego chinês que o desencadeou, o escritor italiano Sandro Veronesi insinuou que a Covid-19 não é um vírus, mas um anticorpo da natureza, que a natureza, destruída pelo homem, libertou contra o homem que a devasta. Em outras palavras, o verdadeiro vírus que a Terra pretende apagar de seu rosto seria justamente o homem, pois é ele quem reduz os rios a fossas, desmatando as florestas, queimando a Amazônia, poluindo o ar, aquecendo o planeta e ameaçando imprudentemente seu equilíbrio.

SEDE DE COCA-COLA

O comunismo sabia distribuir riqueza, porém não sabia produzi-la, enquanto o capitalismo sabe produzi-la, mas é incapaz de distribuí-la. No ano passado, o PIB do nosso planeta, para cuja produção contribuíram bilhões de trabalhadores, cresceu 3%. No entanto, 85% dessa imensa riqueza extra foi parar no bolso de apenas 1.200 pessoas.

Segundo a revista Forbes, as oito pessoas mais ricas do mundo têm a mesma riqueza de metade da humanidade, o que corresponde a 3,6 bilhões de pessoas.

Essa desproporção é provocada por um modelo socioeconômico neoliberal no qual a economia emprega a política para seus próprios interesses. O rabo das finanças move o cão da economia, as agências de classificação abrem caminhos para as finanças.

E esse moedor de carne tritura, reduzindo-os a resíduos humanos, todos aqueles que se tornam supérfluos para seu funcionamento ou que obstruem sua marcha insensata em direção a uma meta econômica que se desloca incansavelmente para frente, como uma miragem.

Segundo o sociólogo francês Serge Latouche, tal dinâmica é causada pela ação inteligentemente combinada de cinco fatores: a publicidade que nos leva aos consumos desnecessários, manipulando nossas necessidades; os bancos que nos levam ao endividamento para satisfazê-los; as dívidas que nos forçam a trabalhar mais para pagá-las; a vaidade que nos leva a ostentar coisas compradas como símbolo de status; a obsolescência dos bens, tornada intencionalmente mais rápida para acelerar a dinâmica do mercado.

É graças a essa paranoia induzida que são alcançados os resultados paradoxais: ter sede, agora, significa ter sede de Coca-Cola; depois de termos inventado um material indestrutível como o plástico, usamo-lo para objetos de uso único; uma pequena minoria da população mundial enriquece fazendo com que as classes menos favorecidas e as gerações futuras paguem o preço pela destruição do ecossistema.

Para escaparmos dessas garras, Ivan Illich, fundador do Centro Intercultural de Documentação em Cuernavaca, México, sugeriu que aprendêssemos com a sabedoria do caracol, o qual ele nos oferece como metáfora.

O caracol constrói sua concha adicionando pacientemente, uma após a outra, espirais cada vez mais largas. Alcançado um certo ponto, ele instintivamente percebe que, se desse uma única volta, a concha se tornaria tão pesada que superaria a força física necessária para carregá-la.

Então, o caracol inverte a marcha e começa a construir espirais cada vez mais estreitas, dando à sua concha a bela forma que é conhecida por nós. A pandemia produzida pelo coronavírus se projeta como uma imensa narrativa planetária dessa metáfora.

DESENVOLVIMENTO SEM TRABALHO

Abaixo e dentro da díade produção-consumo, há o trabalho que confere valor a ambos. Ao longo de todos os milênios da sociedade rural, prever tarefas cansativas e trabalhar para os outros eram consideradas condições desonrosas.

Segundo Aristóteles, “só é perfeito o cidadão livre das tarefas necessárias, as quais são feitas por escravos, artesãos e trabalhadores”. Cícero acrescenta: “A condição salarial é sempre sórdida e indigna de um homem livre”.

Locke, Smith, Marx e, em seguida, a sociedade industrial, que durou de meados do século 18 a meados do século 20, colocaram, pela primeira vez na história da humanidade, o trabalho livre no centro do sistema social, tornando-o motor da economia e a própria essência do homem.

Mas, em 1958, a filósofa alemã Hannah Arendt se questionava: “O que acontece em uma sociedade fundada no trabalho quando o trabalho vem a faltar?”.

Antes da pandemia, os empregos entravam em colapso de tempos em tempos, abruptamente, devido aos ciclos depressivos da economia, mas também diminuíam constantemente, porque o homem, desde sempre, tentava descarregar seu cansaço nas máquinas: rápidas, precisas, que não entram em greve e não precisam de pausas.

Durante os 200 anos da sociedade industrial, as máquinas mecânicas e eletromecânicas substituíram uma parte considerável do trabalho dos operários. A partir do período do pós-guerra, a sociedade pós-industrial começou a substituir trabalhadores por robôs e funcionários por computadores.

Por fim, a inteligência artificial está substituindo grande parte do trabalho que acolhe as atividades criativas. Em outras palavras, antes da pandemia, aprendíamos a produzir cada vez mais bens e serviços com cada vez menos trabalho humano, ou seja, aprendíamos a resolver o problema econômico.

Essa era a situação do trabalho e da produção nos últimos meses de 2019. Na era pré-histórica, que remonta a quatro meses atrás, discutia-se esse fenômeno, que chamamos de “jobless growth” (crescimento sem emprego) e que muitos economistas insistiram em negar, afirmando, contra todas as evidências, que as novas tecnologias criariam mais trabalho do que destruiriam.

No entanto, o mais inteligente deles, John Maynard Keynes, com uma perspicácia humanística e sociológica, antes mesmo que econômica, já havia escrito, em 1930, que “o desemprego devido à descoberta de instrumentos poupadores de mão de obra avança com ritmo mais rápido que a nossa capacidade de encontrar novos empregos para a mesma mão de obra. Mas essa é apenas uma fase de desequilíbrio transitória. De fato, visto em perspectiva, isso significa que a humanidade está resolvendo seu problema econômico”.

À espera de que tudo possa ser concentrado nas máquinas, “o pouco trabalho que resta ainda é distribuído entre o maior número possível de pessoas. Turnos de três horas e semana de 15 horas de trabalho podem manter o problema sob controle por um bom período”. Em suma, trabalhar pouco, para que todos possam trabalhar.

Nesse ponto, “pela primeira vez desde sua criação, o homem se encontrará diante de seu maior e mais constante problema: como usar o tempo livre que a ciência e o juro composto terão retirado dele, para que possa viver bem, agradavelmente e com sabedoria”.

De 1930 até hoje, o progresso tecnológico abriu caminho para as máquinas! Como se sabe, de acordo com a Lei de Moore, o poder de um microprocessador dobra a cada 18 meses. Hoje. um chip é cerca de 70 bilhões de vezes mais potente de que quando foi inventado, e em dez anos será centenas de bilhões de vezes mais potente que hoje.

O século 21 será marcado pela engenharia genética com a qual conseguiremos vencer muitas doenças, pela inteligência artificial com a qual poderemos substituir muito trabalho intelectual, pelas nanotecnologias com as quais os objetos se relacionarão entre si e conosco, a partir de impressoras 3D com as quais poderemos produzir muitos objetos em casa.Whatsapp

No entanto, por mais intrusivas que sejam, as tecnologias jamais serão capazes de despojar o homem das atividades criativas, estéticas, éticas, colaborativas, críticas e de resolução de problemas.

“SMART WORKING”

Tomemos o caso da Itália: há 130 anos, havia apenas 40 milhões de italianos, e apenas em um ano trabalharam 70 bilhões de horas —principalmente em serviços físicos, realizados por trabalhadores que manipulavam matérias-primas usando fornos imensos e linhas de montagem.

Hoje 60 milhões de italianos trabalham 40 bilhões de horas e, no entanto, produzem infinitamente mais. Além disso, hoje o trabalho é principalmente intelectual, realizado por empregados, funcionários, empresários e profissionais que manipulam informações, usando um minúsculo laptop. Algo semelhante também aconteceu no Brasil.

Graças à internet, as informações podem ser transferidas de um extremo a outro do planeta em tempo real e a custos insignificantes. A internet completou 50 anos, a web, 30, o Instagram, apenas dez. Uma geração de “digitais” cresceu com eles, substituindo a geração de “analógicos”, e a “nuvem” informática transformou o mundo inteiro em um único agora: podemos teleaprender, telenegociar, teledivertir, teleamar.

E teletrabalhar. Tudo o que precisamos é de um smartphone para operar remotamente onde for mais cômodo para nós, conectados telematicamente com chefes, colegas, colaboradores, clientes e fornecedores.

A história do “smart working” representa um caso emblemático da relação entre organizações e inovações. Antes da pandemia, todo o mundo fazia teletrabalho, mas só informalmente. Era apenas necessário pôr a orelha à escuta, quando se estava no trem, no avião, na rua ou em um local público para ouvir pessoas que, em seus celulares, conversavam sobre trabalho, consultavam-se, davam ou recebiam ordens.

Talvez não soubessem, mas estavam fazendo smart working. No nível formal e contratual, no entanto, as gerências das empresas resistiam obstinadamente à introdução do trabalho ágil, e os sindicatos, coniventes, não lutaram para obtê-lo.

Entretanto, as vantagens teriam sido muitas e notáveis. Para os trabalhadores, a possibilidade de autorregular tempos, locais e ritmos ​​aumentaria com a autonomia; a separação entre trabalho e vida teria sido reduzida; as condições de trabalho e a gestão da vida familiar e social teriam melhorado; tempo, cansaço, despesa e riscos de deslocamento seriam economizados.

Para as empresas, a produtividade teria aumentado de 15% a 20% e, ao mesmo tempo, o absenteísmo, a rotatividade, o microconflito, as despesas com imóveis e serviços teriam diminuído.

Para a coletividade, o deslocamento, a poluição e os gastos com manutenção de estradas teriam sido reduzidos; as áreas superlotadas teriam sido descongestionadas; empregos teriam sido levados para regiões periféricas, isoladas ou sem perspectivas; o trabalho seria estendido para donas de casa e inválidos.

Na Itália, no Brasil, em todo o mundo, antes do início da pandemia, apenas pouquíssimos trabalhadores operavam remotamente. Depois, em uma semana, sob o chicote do coronavírus, o número de “smart workers” (trabalhadores inteligentes) ultrapassou 200 milhões. Já em 2 de fevereiro, o Daily Herald, de Chicago, publicou um longo artigo com o título: “O coronavírus compele ao mais vasto experimento de teletrabalho no mundo”.

Acima de 200 milhões de trabalhadores, há pelo menos 20 milhões de chefes que, devido a uma resistência obtusa às mudanças e de acordo com sua concepção arcaica de poder, dificultaram o smart working, roubando, por muitos anos, de seus colaboradores uma vida mais equilibrada, de suas cidades, uma convivência mais limpa, de suas empresas, uma maior produtividade.

Uma vez cessada a pandemia, esses mesmos 20 milhões de chefes irão conspirar, de todas as formas, para trazerem os funcionários de volta para a empresa, com o objetivo de restaurar completamente seu poder mórbido.

TRABALHO ONÍVORO

Durante os últimos dois séculos, tanto na Itália como no Brasil, trabalhamos cada vez menos, mas, graças à tecnologia e à globalização, produzimos cada vez mais.

Neste ano, devido à pandemia, a produção e o consumo pararam simultaneamente. Como se por magia, mesmo em regiões distantes do contágio, milhões de pessoas que antes viviam quase apenas para produzir e consumir foram subitamente forçadas pela angústia e pelos decretos de lei a parar.

Muitas não conseguiram parar. Sua existência se identificava de maneira muito consubstancial com o trabalho. Nem mesmo o medo da morte as impediu de abandonar fábricas ou escritórios —algumas, para não sucumbirem à concorrência; outras, por horror à inércia; outras ainda, por um sentido calvinista de dever. E, também, aquelas forçadas pelos empregadores e pela fome.

Nas regiões italianas mais ricas e afetadas pela pandemia, as vítimas não foram cremadas em tempo, mas a dois passos dos hospitais e dos cemitérios empresas produtoras de armas insistiam em não interromper a produção desses instrumentos de morte.

Milhares de empresas foram as últimas a fechar e, imediatamente depois, seus lobbies começaram a pressionar para reabrirem o mais rápido possível. Foi assim que começou o cabo de guerra: de um lado, virologistas e sindicatos optaram pela prudência em nome da saúde; do outro, os empreendedores tentavam reabrir as empresas em nome da economia. No final, os empresários venceram.

COMO CHUVA DE GRANIZO NA COLHEITA

A queda vertical e repentina da demanda e da oferta esfriou os mercados, bloqueando a marcha triunfante do PIB mundial, acostumado a crescer de 3 a 5% ao ano.

Na Itália, neste ano, a taxa de déficit em relação ao PIB chegará a 10%, em comparação aos 2,2% estimados antes do coronavírus, e a dívida chegará de 155% a 160% do PIB. No Brasil, não acredito que será melhor.

Muitas pequenas e médias empresas, que já estavam nos limites da manutenção antes da pandemia, agora correm risco de extinção. Milhões de trabalhadores, que até então viviam de redes informais e familiares, agora estão desprovidos de paraquedas.

O desemprego atribuível à longa onda de progresso tecnológico —incorporada, de 2008 em diante, à curta onda da crise econômica— explodiu, com a súbita chegada da Covid-19, na Itália, no Brasil e também nos Estados Unidos.

Segundo a Oxfam, haverá meio bilhão a mais de pessoas pobres no mundo e um retrocesso de 30 anos na luta contra a pobreza absoluta. Na Itália, em três meses, os pobres passaram de 5 milhões para 10 milhões.

Com a produção e o consumo entrando em colapso simultaneamente, em apenas dois meses todos ficamos mais pobres, como camponeses que perderam a colheita para a chuva de granizo, e por mais que possam blasfemar contra Deus ou contra o Diabo, ninguém jamais lhes devolverá a colheita.

Muitas vezes ouvimos a comparação da pandemia do novo coronavírus com uma guerra, mas a guerra destrói homens e coisas, enquanto a pandemia deixa as coisas ilesas e mais espaço para os sobreviventes.

Em relação há 75 anos, quando a Segunda Guerra Mundial terminou, nós, italianos, não tivemos que reconstruir as fábricas: bastou reabri-las. Embora, porém, a libertação do fascismo e da guerra tenha levado a um desejo entusiasta de reconstrução das casas, das fábricas e da economia por meio do sacrifício.

Hoje, todos —empresários, trabalhadores, desempregados, sindicatos— de repente se tornaram keynesianos e invocam subsídios, anistias, prazos, auxílios e amortecedores dos governos nacionais e europeu, que, entretanto, também se tornaram mais pobres.

A ÚLTIMA ESPIRAL

Com sua linguagem lúgubre, a Covid-19 nos alertou que, antes da pandemia, havíamos alcançado a última e maior espiral do caracol: se ousarmos construir uma ainda maior, insistindo nos mesmos erros, seremos esmagados sob nossa própria construção.

Portanto, aconselhou-nos a redesenhar nosso modelo sociopolítico e, antes de tudo, o trabalho que representa seu elemento fundamental e que deve ser libertado de todas as incrustações paradoxais acumuladas nos 200 anos de gloriosa, porém imperfeita, história industrial.

Isso implica uma revolução estrutural e cultural. A estrutural deve começar modificando a Constituição, que não pode mais alavancar o trabalho, a partir do momento que ele cobre apenas um décimo de nossas vidas. Portanto, a democracia não pode ser fundada apenas nesse décimo.

Em uma sociedade em que, para a maioria dos cidadãos, o trabalho está destinado a perder quantidade e centralidade, ao lado dele emergem outros pilares do sistema democrático, todos inscritos na esfera do não trabalho, que inclui formação, introspecção, amizade, amor, diversão, beleza e convívio.

Também inclui um modelo de família em que os idosos não são alojados nos hospícios, como acontece nas áreas mais ricas da Itália —e, no caso de uma pandemia, metade deles não deve ser imolada pelo egoísmo dos filhos, possuídos pelo demônio do trabalho.

Se hoje os pais trabalham dez horas por dia e, também por esse motivo, os filhos permanecem desempregados, é necessário também redistribuir igualmente, com o pouco trabalho que resta, riquezas, poderes, conhecimentos, oportunidades e proteções.

Se o trabalho não for redistribuído, mesmo recorrendo à escamoteação dos contratos de solidariedade, um número crescente de desempregados e de Neet (termo em inglês para jovens fora do mercado) será forçado a consumir sem produzir. A consequência disso será uma estagnação econômica e um aumento ininterrupto dos conflitos sociais.

A natureza intermitente do trabalho, inerente à sua natureza pós-industrial, torna necessário preencher as fases de vazio ocupacional com uma renda universal razoável, enquanto será necessário garantir, a qualquer pessoa que trabalhe, um salário mínimo constantemente atualizado com base no aumento da produtividade.

Essa revolução estrutural deve ser acompanhada por uma cultural que possa partir precisamente das recomendações que Keynes deu a seus netos, nossos contemporâneos: “Precisamos ter a coragem de atribuir à motivação ‘dinheiro’ o seu verdadeiro valor. O amor ao dinheiro como posse, e distinto do amor ao dinheiro como meio para desfrutar os prazeres da vida, será reconhecido por aquilo que é: uma paixão mórbida, um pouco repulsiva, uma daquelas tendências meio-criminais e meio-patológicas que geralmente são transmitidas com um calafrio ao especialista de doenças mentais”.

Depois, devemos condenar a ganância com a qual todas as agências de socialização —a família, a escola, a mídia— se esforçam para focar a educação dos jovens apenas no trabalho, e não voltada à vida inteira.

Até agora, o trabalho, valorizando principalmente a força física e a esfera racional das pessoas, criou um mundo competitivo, todo masculino, separado da esfera dos amigos e da família.

A partir de agora, será necessário recompor profissão e vida, valorizando com o “smart working” a desestruturação espaço-temporal do trabalho; encorajando a irrupção da emoção, da fantasia e da afetividade na esfera produtiva; garantindo uma igualdade de gênero concreta, um respeito seguro às diversidades, um crescimento cultural dos indivíduos e de toda a comunidade para cuja administração o município, a escola e as empresas contribuem.

Empreendedores e empresários, propensos a se trancar nas empresas, devem ser incentivados à exploração do contexto social, orientados a conjugar o trabalho com a vida, motivados a cultivar a ética e a estética.

A partir momento que a delegação do trabalho às máquinas e à inteligência artificial oferecer ao homem atividades cada vez mais criativas, na organização do trabalho será necessário concentrar-se na motivação muito mais que no controle, na autonomia e não na burocracia, no mérito e não em alianças, na liderança participativa e não autoritária, na emulação de solidariedade e não na competitividade sem sentido.

O coronavírus é uma terrível calamidade; inútil dizer que teria sido infinitamente melhor se jamais tivesse aparecido. Porém, visto que está causando danos, é melhor tirar proveito deles para mudar algo em direção ao significado e à organização do trabalho.

No entanto, os que conduziam as danças, quando entramos no túnel, são os mesmos que as conduzirão, quando sairmos dele. Isso torna improvável qualquer renascimento.

Em um muro de Madrid, cidade também violentada pela pandemia, uma mão guiada pelo otimismo da vontade escreveu: “No volveremos a la normalidad porque la normalidad era el problema”. Mas nada nos assegura que não voltaremos.


Tradução de Davi Pessoa.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/06/apocalipse-causado-por-coronavirus-pode-tornar-o-trabalho-mais-criativo-e-afetuoso.shtml

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Economia compartilhada é colocada em xeque na pandemia

Temor de contágio provoca o renascimento do antigo status quo: carro próprio e casas grandes

Por Marília Almeida, Carolina Ingizza, Karin Salomão

Publicado em: 16/07/2020 às 07h00

Enquanto diversos setores buscam se reerguer dos efeitos da pandemia da covid-19, uma dúvida fundamental tem afligido empresas e investidores: como fica a cultura do compartilhamento, uma tendência que surgiu com força nesta década entre os jovens e vinha ditando as principais tendências nos negócios? Diante do temor de contágio, quem vai continuar usando carros de aplicativo ou dividindo áreas comuns nos condomínios?

Pelo menos no curto e no médio prazo, pesquisas mostram que os consumidores pretendem usar meios de transporte que permitam manter o distanciamento social. Nesse cenário, modais individuais, como bicicletas, patinetes e carros particulares, são os vencedores, enquanto ônibus, trens e apps como Uber, 99 e Cabify devem sofrer.

Uma pesquisa global realizada pela consultoria Capgemini mostra que 35% dos consumidores pensam em adquirir um carro em 2020. No público abaixo dos 35 anos de idade, nota-se a maior intenção, admitida por 45% — uma reversão da preferência histórica por evitar a compra e pagar apenas pelo uso.

Mesmo assim, Regis Nieto, sócio da consultoria Boston Consulting Group, diz acreditar que o modelo tradicional de posse de automóveis sofrerá mudanças. O mais provável, em sua opinião, é que novos modelos, como o aluguel mensal de veículos, cresçam.

Nesse segmento está a brasileira Turbi, que conta com uma frota de 700 carros em estacionamentos 24 horas prontos para ser acionados pelo app. Na pandemia, a startup acabou com o valor mínimo de aluguel e notou que as viagens dos clientes ficaram mais curtas e frequentes: 40% estão pegando os carros para ir ao supermercado.

Outro levantamento, do Grupo Zap, indica que a busca por casas disparou 390% na crise, e a procura por apartamentos de um quarto caiu de 25% para 21% do total. “Os usuários buscam também imóveis mais distantes das grandes cidades”, afirma Deborah Seabra, economista do grupo imobiliário.

Para a construtora Tecnisa, os consumidores vão querer mais espaço nos apartamentos, mas, com as limitações de orçamento, as áreas compartilhadas ainda serão valorizadas.

A empresa tem adicionado aos empreendimentos espaços colaborativos de trabalho para que os moradores tenham um home office mais estruturado. Para ajudar pequenos empreen­dedores, a construtora criou um espaço para embalar, testar e preparar produtos para envio. “Em vez de fazer uma sauna ou uma biblioteca, vamos construir esse tipo de espaço colaborativo”, diz Romeo Busarello, vice-presidente de marketing e ambientes digitais da Tecnisa.

Mas essas tendências vieram mesmo para ficar? Na opinião de Robin Chase, empreendedora serial americana, autora do livro Economia Compartilhada e fundadora de um dos maiores apps de caronas do mundo, o Zipcar, tudo dependerá da evolução da pandemia e do segmento de atuação da startup do nicho colaborativo. “Não é possível ver a economia compartilhada como um bloco só”, diz Chase.

Segundo ela, a demanda por apps de caronas, como o Blablacar, retornou a patamares pré-crise em países como a França. O Airbnb estava pessimista, mas já detectou um aumento na demanda por casas próximas das cidades, que possam ser acessadas de carro, já que o avião será evitado.

Assim, uma crise global de saúde pública pode se tornar uma oportunidade para tais serviços. “É hora de pedir aos governos o aumento de ciclovias e infraestrutura para transporte individual barato e seguro”, diz Chase. “Isso já está acontecendo em algumas cidades e pode mudá-las de forma permanente.”

https://exame.com/revista-exame/economia-compartilhada-e-colocada-em-xeque-na-pandemia/

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Pandemia não foi ‘cisne negro’, pois poderia ter sido prevista, diz Nassim Taleb

Facilidade de viajar e reunir pessoas tornou ambiente fértil para disseminação em larga escala, algo que as pessoas falharam em perceber, segundo escritor

Por Sérgio Tauhata e Rafael Gregorio, Valor — São Paulo

17/07/2020 

Ao contrário do que pode sugerir o senso comum, a pandemia não deve ser considerada um evento “cisne negro”, ou seja, algo inesperado, imprevisível e de impactos extremos. Quem contesta essa definição relacionada à covid-19 é o próprio criador do conceito, o matemático e analista de riscos Nassim Nicholas Taleb. 

Autor de obras como “A Lógica do Cisne Negro”, “Antifrágil: Coisas que se Beneficiam com o Caos” e “Arriscando a própria Pele: Assimetrias Ocultas no Cotidiano”, ele falou durante a Expert XP, evento promovido pela plataforma de investimentos de mesmo nome.

Para o especialista em riscos e finanças comportamentais, a história é repleta de casos de pandemias e quarentenas. O autor citou o período do Império Otomano, no século 19, quando viajantes do Oriente Médio eram confinados em locais conhecidos como “Lazzarettos” e permaneciam em quarentena antes de entrar nos portos do Mediterrâneo. “Sabemos há anos sobre pandemias, temos até filmes sobre isso”, ponderou. Conforme Taleb, “depende do ponto de vista do observador; algo que você espera – ou poderia esperar – não pode ser um evento cisne negro”.

O especialista exemplificou a questão com uma metáfora curiosa: “o cisne negro do peru é diferente daquele do açougueiro”. Segundo Taleb, “para o animal, o açougueiro o ama, mas, de repente, corta sua cabeça”. Entretanto, do ponto de vista do açougueiro, aquele é um evento comum.

Apesar de ser historicamente documentado, existe um fator na atualidade que “as pessoas falharam em perceber” em relação à pandemia de covid-19, disse Taleb: a facilidade de viajar e reunir pessoas, que tornou o ambiente “fértil como nunca foi” para uma pandemia em larga escala. “Por exemplo, uma conferência em São Paulo pode reunir 30 mil pessoas do mundo todo e, em alguns dias, tudo o que aprenderam ali estará espalhado por todo o planeta.”

Na visão do autor, existem muitas ideias e percepções de probabilidade enviesadas no mercado financeiro. Usando o conceito visitado na obra “Antifrágil”, citou negócios côncavos, ou seja, com possibilidades ilimitadas de perdas, e convexos, que funcionam ao contrário, com perdas limitadas, mas possibilidade de ganhos ilimitados. No mundo dos investimentos, afirmou, “[a missão é] procurar opções que sejam convexas por natureza”.

Concentração x diversificação

Matemático de formação, Taleb descreveu a demanda por especialização necessária para o sucesso, e não só no mercado financeiro. Para isso, usou como ilustração o mercado financeiro dos EUA.

Há entre 10 mil e 18 mil companhias listadas em bolsas nos EUA, mas cerca de apenas 200 (0,2%) concentram metade da capitalização total do mercado – proporção que, em certos pregões, pode chegar a só 40 empresas, conforme a flutuação dos preços dos ativos. 

“O mundo das finanças nem é tão concentrado quanto outros setores, como o de biofarma, mas ainda assim requer muita disciplina”, comentou, para emendar em outro exemplo célebre em seus livros, o da indústria de livros. 

“Há 1 milhão de romances à procura de um editor. Não qualquer um, mas um grande, que revise e divulgue bem a obra. Entre essas grandes editoras, há um volume total de apostas de até 30 mil livros. Mas apenas 5 a 25 deles vão gerar mais da metade do faturamento. Por que gigantes como Penguin e Random House atravessaram um oceano para se unirem [nota : a primeira é originalmente inglesa, e a segunda, americana]? Porque para viver nesse mercado, você precisa ter ao menos 20% de tudo o que é publicado. Caso contrário, não terá geração estável de receita. Isso se aplica às finanças. Se você quer comprar ações, precisa ter um portfólio vasto, porque em um horizonte de longo prazo, é só uma pequena porção delas que vai gerar dinheiro”.

Volatilidade nem sempre é ruim

Outra ideia equivocada, segundo o autor, é a do papel negativo da volatilidade na análise de riscos. Em um exemplo tirado de uma de suas obras, Taleb conta a história de dois irmãos gêmeos que trabalharam desde os 20 anos e agora estão com 55 anos. Um deles se tornou taxista e outro conseguiu um emprego com um salário estável em uma grande empresa. “O motorista tem bons e maus meses, saiu do táxi e foi para o Uber, e cada mês ruim o obriga a se ajustar rapidamente. Nessa época de covid-19, agora faz mais dinheiro com entrega de delivery.”

São pólos opostos, considerou. “Se perguntar a um analista sobre o risco, ele diria que o taxista tem mais volatilidade e, portanto, é mais arriscado, enquanto o irmão que trabalha na empresa com salário regular tem menos risco”, afirmou. Porém, na pandemia, o irmão que tem o salário foi demitido. “Agora, qual a possibilidade de essa pessoa, aos 55 anos, voltar a fazer a mesma coisa? Trabalhou para a mesma empresa por 35 anos e, com isso, matou sua habilidade de se adaptar a qualquer circunstância, ou seja, não tem volatilidade, mas também não tem adaptação”, resume.

Conforme Taleb, o mesmo conceito pode ser aplicado às empresas. “O melhor indicador de uma futura falência de uma empresa é ter uma receita estável”, afirmou, citando análises de dados de fundos de investimentos entre 2008 e 2009. “Quem tinha os mais altos índices de sharp teve a pior performance [quando a crise eclodiu], porque, de repente, tiveram um grande revés e não souberam reagir”.

Acolher o fracasso do empreendedor

Questionado pelo entrevistador Alberto Bernal, chefe de mercados emergentes e estrategista global da XP, sobre se o empreendedorismo pode ser ensinado, ou se há algo que governos possam fazer para estimular suas populações, Taleb respondeu que sim, em partes. Em sua visão, a inquietude e outras características para empreender são inatas: “Para pessoas como eu, por exemplo, é fisicamente impossível ter chefes. Posso até ter sócios, mas não chefes. É algo que descobri cedo”, disse.

“Por outro lado”, ressalvou, “há elementos das culturas dos países que são ruins e que podem ser trabalhados. Por exemplo: sabe qual o país onde acontecem mais falências? Os EUA. E sabe onde mais acontecem falências lá? Em Silicon Valley”, disse, citando a região na Califórnia famosa por concentrar as maiores empresas de tecnologia da atualidade, como Google, Facebook, Twitter e Apple.

“Quando ouço as pessoas dizerem que falir é ruim”, comentou Taleb, “costumo dar risada e responder: será mesmo? A ideia do fracasso deveria ser revista. Não deveria haver nada errado em começar uma empresa e dar errado. Afinal, só uma em dez dão certo. Então, essa é uma coisa que governos podem fazer: encorajar as pessoas a abrirem negócios, e disponibilizar uma rede de proteção para quando elas falharem.”

https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/07/17/pandemia-nao-foi-cisne-negro-pois-poderia-ter-sido-prevista-diz-nassim-taleb.ghtml

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

A ciência tem que desfilar em carro aberto

por Evandro Milet( artigo publicado no Gazeta online em 18/07/2020)

Após a comprovação da Teoria da Relatividade Geral em 1919(por um eclipse em Sobral no Ceará), Einstein foi, pela primeira vez aos Estados Unidos em 1921, em um evento singular na história da ciência, e extraordinário para todas as áreas: uma grande marcha de dois meses de duração pelo leste e meio-oeste dos Estados Unidos, que fazia lembrar o frenesi e a adulação da imprensa seguindo o turnê de uma estrela do rock, com direito a desfile em carro aberto pelas ruas de Nova York. 

A descrição da viagem, na biografia de Albert Einstein escrita por Walter Isaacson, mostra o prestígio e a importância dada à ciência e aos cientistas cem anos atrás nos Estados Unidos. 

E não é fácil entender a Teoria da Relatividade. Na estreia de Luzes da Cidade, em Hollywood, em 1931, onde chegaram juntos, Charles Chaplin observou para Einstein, de forma memorável(e precisa): “Eles me aplaudem porque me entendem, e o aplaudem porque ninguém o entende”.

Quase 200 anos antes, em 1727, sir Isaac Newton era sepultado na Abadia de Westminster em um funeral digno de um rei. Alexander Pope, um dos maiores poetas britânicos da história, escreveu os dizeres para o seu túmulo (apesar do que não foi permitido colocá-lo na Abadia de Westminster): “A natureza e as leis da natureza estavam imersas em trevas; Deus disse “Haja Newton” e tudo se iluminou”. 

Por muitos considerado o maior cientista que já viveu, Newton formou-se em 1664 e ganhou uma bolsa de pós-graduação para continuar na Universidade. Mas sua estadia em Cambridge foi interrompida pela grande praga de Londres que matou quase 100.000 pessoas e que o obrigou a ficar em casa. Confinado por 18 meses desenvolveu ideias de matemática e ótica, e começou a trabalhar na Lei da Gravitação Universal. Em 1667 concluiu a formulação do Cálculo Diferencial e Integral, um de seus mais importantes trabalhos(entre muitos outros fundamentais na matemática, na física e na astronomia). 

Esperamos que esse surto de criatividade acometa também muita gente confinada nesse período de pandemia que vivemos. E que a ciência seja valorizada. Talvez a ciência nunca tenha estado tão em evidência como agora, onde todo o mundo acompanha ansioso notícias diárias dos cientistas sobre vírus e vacinas enquanto, de outro lado, os obscurantistas acompanham os pajés da política com seus remédios milagrosos e seu negacionismo na saúde e no meio ambiente. 

É fundamental que o Brasil avance no ensino das disciplinas do STEM(sigla em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática) para que não fiquemos, em pleno século 21, replicando charlatães na internet e com desfiles em carro aberto e funerais concorridos só para políticos populistas, astros de rock(ou de funk) e jogadores de futebol – tudo bem, alguns até merecidos. 

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

A nova economia do trabalho em casa segundo pesquisa de Stanford

O economista de Stanford, Nicholas Bloom, discute os impactos sociais de uma nova “economia do trabalho em casa” e os desafios colocados pela transição maciça para o trabalho remoto generalizado.

POR MAY WONG – 29 DE JUNHO DE 2020 (tradução Evandro Milet)

A nova “economia do trabalho em casa”, que provavelmente continuará muito além da pandemia de coronavírus que a gerou, apresenta novos desafios – de uma bomba-relógio pela desigualdade à erosão dos centros das cidades – segundo Nicholas Bloom, economista de Stanford.

Os resultados de várias pesquisas nacionais que Bloom vem realizando durante o lockdown relacionado ao COVID fornecem um instantâneo da nova realidade emergente. 

Bloom, professor de economia William D. Eberle na Escola de Humanidades e Ciências de Stanford e membro sênior do Standard Institute for Economic Policy Research(SIEPR), concentra-se na economia do trabalho, práticas de gestão e incerteza. Desde o início da crise do coronavírus, seu estudo de 2014 sobre trabalho em casa e pesquisas em andamento com outros colegas de empresas privadas tem sido muito procurado, enquanto os formuladores de políticas e outros se esforçam para entender melhor a dinâmica de mudança da força de trabalho e suas implicações econômicas.

Aqui, Bloom discute os impactos sociais do trabalho em casa e o que sua pesquisa mais recente revela. E em um trabalho de Política do SIEPR relacionado, ele expande suas descobertas e oferece aos formuladores de políticas e líderes de negócios sugestões para tornar o trabalho remoto uma parte permanente do cenário de trabalho. 

Vivemos em uma economia da informação e uma economia de bico(gig economy). Agora você identificou uma nova “economia do trabalho em casa”. Por que isso?

Vemos incríveis 42% da força de trabalho dos EUA trabalhando agora em casa em tempo integral. Cerca de outros 33% não estão trabalhando – uma prova do impacto selvagem da recessão. E os 26% restantes – principalmente trabalhadores de serviços essenciais – estão trabalhando em instalações normais. Então, em números absolutos, os EUA são uma economia que trabalha em casa. Quase o dobro de funcionários que trabalha em escritórios trabalha em casa. 

O mais impressionante é que, se considerarmos a contribuição para o produto interno bruto dos EUA com base em seus ganhos, esse grupo ampliado de funcionários que trabalham em casa agora representa mais de dois terços da atividade econômica dos EUA. 

Quão vital foi a rápida mudança para trabalhar em casa durante a crise do COVID?

Sem essa mudança histórica para trabalhar em casa, o lockdown nunca poderia ter durado. A economia entraria em colapso, forçando-nos a voltar ao trabalho, aumentando as taxas de infecção. Trabalhar em casa não é apenas economicamente essencial, é uma arma crítica em nossa luta contra o COVID-19 – e futuras pandemias. 

Por que você acha que trabalhar remotamente está se transformando em uma realidade mais permanente?

O estigma associado ao trabalho em casa antes do COVID-19 desapareceu. E trabalhar remotamente agora é extremamente comum, embora sob condições muito desafiadoras, como escrevi anteriormente. E várias empresas estão desenvolvendo planos para mais opções de trabalho em casa além da pandemia. Uma recente pesquisa separada de empresas da Pesquisa de Incerteza Empresarial que administro com o Federal Reserve de Atlanta e a Universidade de Chicago indicou que a parcela de dias úteis passados em casa deve aumentar quatro vezes em relação aos níveis anteriores ao COVID, de 5% para 20 porcento. Das dezenas de empresas com as quais conversei, o plano típico é que os funcionários trabalhem em casa um a três dias por semana e venham no escritório o resto do tempo. 

Que problemas mais complicados você está vendo?

Nem todo mundo pode trabalhar em casa. Apenas 51% dos participantes da pesquisa – principalmente gerentes, profissionais e trabalhadores financeiros que podem realizar seus trabalhos em computadores – relataram poder trabalhar em casa a uma taxa de eficiência de 80% ou mais. A metade restante (quase) não pode trabalhar remotamente. Eles trabalham nos serviços em varejo, saúde, transporte e atividades de escritório, e precisam ver clientes ou trabalhar com produtos ou equipamentos.

Muitos americanos também não têm as instalações ou a capacidade suficiente da Internet para trabalhar efetivamente em casa. Mais da metade dos pesquisados que agora trabalham em casa o fazem em quartos compartilhados ou em seus quartos. E apenas 65% dos americanos relataram ter capacidade de internet suficientemente rápida para suportar videochamadas razoáveis para trabalhar. Os 35% restantes têm internet tão ruim em casa – ou nenhuma internet – que impede o teletrabalho eficaz. 

E como todos esses fatos negativos se somam?

Tomados em conjunto, isso está gerando uma bomba-relógio pela desigualdade. Nossos resultados mostram que funcionários mais instruídos e com maior salário têm muito mais probabilidade de trabalhar em casa – então eles continuam a ser pagos, desenvolvem suas habilidades e avançam em suas carreiras. Ao mesmo tempo, aqueles que não conseguem trabalhar em casa – devido à natureza de seus empregos ou à falta de espaço adequado ou de conexões à Internet – estão sendo deixados para trás. Eles enfrentam perspectivas sombrias se suas habilidades e experiência de trabalho se desgastarem durante um prolongado período de fechamento. 

Que outros impactos devemos observar nessa transição para um trabalho mais remoto?

O crescimento dos centros das cidades vai parar. Durante a pandemia, a grande maioria dos funcionários que passaram para o teletrabalho trabalhava anteriormente em escritórios nas cidades. Estimo que a perda de sua presença física reduziu em mais da metade o gasto diário total em restaurantes, bares e lojas do centro da cidade. 

Esse aumento no trabalho em casa chegou em grande parte para ficar, e vejo um declínio de longo prazo nos centros das cidades. As maiores cidades dos EUA tiveram um crescimento incrível desde a década de 1980, quando americanos mais jovens e instruídos afluiram em massa para centros revitalizados. Mas parece que essa tendência será revertida em 2020 – com uma fuga de atividade econômica para fora dos centros das cidades. 

Para onde irá a força de trabalho?

A vantagem é que isso será um boom para subúrbios e áreas rurais. Dada a necessidade de distanciamento social, as empresas com quem converso normalmente pensam em reduzir pela metade a densidade de escritórios, o que levaria a um aumento na demanda geral por espaço para escritórios. Mas, em vez de construir mais arranha-céus de escritórios – que tem sido o tema dominante nos últimos 40 anos – prevejo que o COVID-19 mudará dramaticamente a tendência para parques industriais com prédios baixos. 

Arranha-céus nas cidades enfrentam dois grandes desafios pós-COVID. Primeiro, o transporte coletivo – o metrô, trens e ônibus. Como você pode imaginar vários milhões de trabalhadores dentro e fora das principais cidades como Nova York, Londres ou Tóquio todos os dias com distanciamento social? 

Segundo, elevadores. Normalmente, antes do COVID, era possível espremer as pessoas para dentro de um elevador, com cada pessoa ocupando menos de meio metro quadrado de espaço. Mas se aplicamos um metro e meio de distanciamento social, precisamos de mais de 30 metros quadrados de espaço, reduzindo a capacidade dos elevadores em mais de 90%, impossibilitando que os funcionários cheguem a suas mesas nas horas de pico. 

E se o distanciamento social não for mais necessário?

Ninguém sabe ao certo, mas se uma vacina COVID-19 aparecer, minha previsão é que a sociedade tenha se acostumado ao distanciamento social. E, dadas outras pandemias recentes como SARS, Ebola, MERS e gripe aviária, ou as anteriores pandemias de influenza de 1957-58 e 1968, empresas e funcionários vão temer a necessidade potencial de retornar ao distanciamento social. Portanto, prevejo que muitas empresas relutem em retornar rapidamente a escritórios densos. 

Meus resultados mais recentes de pesquisa parecem confirmar isso: os funcionários relataram uma queda de 25% na demanda para trabalhar em escritórios altos em 2021, presumivelmente após o COVID. 

Se eu fosse uma empresa agora planejando o futuro do meu escritório, estaria olhando para as regiões fora do centro e arredores.

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Algoritmos confusos pedem a ajuda de humanos

O colunista Claudio Garcia analisa como o avanço da inteligência artificial depende ainda mais de profissionais qualificados

16/07/2020 por Cláudio Garcia no Valor Econômico

O recente anúncio de Elon Musk que a Tesla deverá, ainda esse ano, ter carros com nível 5 de automação – que podem ser completamente autônomos em qualquer situação – veio no momento em que pouco se tem ouvido sobre avanços na área de inteligência artificial (IA). Por trás desse quase silêncio, existe o fato que nunca se teve tanto trabalho humano no no setor. Mas em vez de novas aplicações e fantásticos avanços, o foco tem sido em retreinar os algoritmos que ficaram confusos com a rápida mudança de comportamento provocada pela covid-19.

A IA precisa de uma grande quantidade de dados, que usualmente são rotulados manualmente para treinar os algoritmos. São anos de investimento, de pessoas dedicadas a compreender um contexto para se aplicar a tecnologia, incluindo todas as variáveis e condições possíveis que possam fazer sentido para se replicar uma dinâmica.

De certa forma, as condições para desenvolvimento de algoritmos para carros autônomos não mudam por causa do vírus. As ruas não ficaram menores, os obstáculos não se deformaram e os sensores não ficaram doentes. Mas não se pode falar o mesmo dos sistemas que são desenvolvidos para interpretar e influenciar o comportamento de humanos.

Sistemas que utilizam IA para marketing, planejamento de produção, armazenamento, fraude, recomendação de conteúdo ou análise de sentimento de clientes foram treinados para uma normalidade que em poucas semanas desapareceu. Não adianta o algoritmo tentar ganhar o cliente com preço promocional para um produto que só pode ser entregue em três meses, quando ele quer pagar mais, mas tê-lo amanhã.

Mesmo no combate à covid-19, a contribuição de IA tem sido menor do que era esperado. A ONU e a OMS, em março, lançaram um relatório sobre o uso de IA em tomografias para identificar deformações causadas pelo vírus. Os resultados ficaram aquém do prometido. A maioria das ações mais precisas na covid-19 vieram de técnicas de estatística e pesquisas médicas tradicionais.

Sem dúvida a IA tem progredido, não só na automação de veículos, como no campo da medicina que viu avanços no combate a vários tipos de câncer. Mas temos que estar alertas ao ‘hype’ por trás da realidade. Sistemas de IA ainda estão distantes de serem eficientes perante o inusitado.

Dados traduzem o que aconteceu no passado e, baseado neles, tentam prever o que pode, não o que irá ocorrer no futuro. Além disso, a IA modifica nossos comportamentos (vide o impacto das rede sociais nas conversas políticas). E, nossos novos comportamentos geram a necessidade dos algoritmos se atualizarem (eliminar o discurso de ódio). Só que esses não se atualizam sozinhos. Não à toa, empresas que dependem de IA, possuem uma dependência enorme de um grande número de cientistas de dados para interpretar anomalias e retreinar algoritmos quando o contexto muda. Muitas que investiram pesado em IA estão, neste momento, lamentando a falta de profissionais para manter esses sistemas. Mais delicada é a imprevisibilidade da influência da IA em nós. É quase impossível prever como comportamentos se ajustam quando influenciados.

No fim, grandes possibilidades tecnológicas caminham em realidades bem humanas, seja quando precisamos desenvolver pessoas para uma relação convoluta com algoritmos ou quando precisamos lidar com as consequências imprevisíveis dessa relação. Esse é o paradoxo que empresas tem muita dificuldade de compreender e gerenciar. A parte tecnológica é observável, testável, mas ilusoriamente previsível, já que dependem, de um não tão preciso ser humano.

*Cláudio Garcia vive em Nova York onde atua como empreendedor, conselheiro de empresas e pesquisador sobre pessoas e organizações.

https://valor.globo.com/carreira/coluna/algoritmos-confusos-pedem-a-ajuda-de-humanos.ghtml

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Soft Power – a força internacional que o Brasil poderia desenvolver

Por Evandro Milet

O professor de Harvard Joseph Nye propôs o termo soft power (ou poder brando), em um livro de 2004, para designar a forma como uma nação impõe sua influência no resto do mundo por meios diferentes da coerção, do dinheiro e da supremacia militar — o chamado hard power. Poder é a capacidade de influenciar os outros para que façam o que você quer. Há três maneiras de fazer isso: ameaçá-los com porretes, recompensá-los com cenouras ou atraí-los para que queiram o mesmo que você. Essa terceira opção é o soft power e necessita que o estado influenciado tenha alguma admiração pelo estado influenciador.

De acordo com Nye, há três fontes básicas de soft power: cultura, valores políticos e política externa, vista como legítima e com autoridade moral. Segundo Nye, a cultura dos Estados Unidos permite que sua capacidade de influência seja maior que a força militar, diferente do que ocorreu com os impérios Romano e Soviético. É fácil perceber a influência de Hollywood, Disney, Netflix, Spotify, Harvard, Stanford, Google, Apple, Microsoft, Amazon e dezenas de outras siglas. Milhares de estudantes estrangeiros vão estudar nos Estados Unidos e disseminam os valores da cultura americana nos seus países.

O Brasil não terá durante muitos anos capacidade de influência econômica no mundo e muito menos poder militar. Mas poderia ter alguma influência pela cultura, onde despontam a música e as novelas de TV e até pelo futebol. A cena do então ministro da cultura Gilberto Gil colocando todo mundo para cantar e dançar na Assembleia da ONU em 2003, acompanhado no atabaque pelo então secretário geral Kofi Annan, é simbólica dessa posição. A novela Avenida Brasil da TV Globo foi vendida para 130 países com enorme sucesso em muitos deles, provocando até mudanças de hábitos. Assim como é conhecida a fama da novela Escrava Isaura pelo mundo, onde foi vista por mais de 450 milhões de pessoas, incluindo enorme sucesso na China. O carnaval, o samba e a bossa nova marcaram também o nome do Brasil no exterior, numa visão simpática.

Também conta a lenda futebolística, contestada por pesquisadores, que o time galático do Santos, em 1969, parou a chamada guerra de Biafra, na Nigéria, para disputar uma partida contra o time local. Verdade ou lenda, se foi apenas uma forma do governo local de demonstrar domínio da situação, o fato é que o futebol brasileiro, e particularmente Pelé, tinham a capacidade de abrir portas e de levar positivamente o nome do país em um aspecto específico de influência.

Porém, atualmente, o maior ativo de soft power do Brasil poderia ser o meio ambiente. A nossa matriz energética é constituída de 43% de energia renovável, enquanto o mundo usa apenas 14%. Temos 12% das florestas do mundo, e a Amazônia é um ativo inestimável por concentrar a maior diversidade do planeta. Existe um entendimento que o Brasil poderia ser um grande líder de soft power nesse tema, que cresce na opinião pública mundial, se despertar o respeito e a admiração de outros países. 

Se acabar com o negacionismo e os delírios conspiratórios,  e a ameaça de sair do Acordo de Paris, poderia criar essa autoridade moral, se efetivamente atuar para resolver os problemas existentes. É claro que a geopolítica e os interesses comerciais definem muita coisa, mas uma política séria e reconhecida de meio ambiente seria um trunfo no apoio às demandas de entrada na OCDE, no Conselho de Segurança da ONU e para acordos de comércio, que estão cada vez mais exigentes no tema sustentabilidade ambiental. 

Poderíamos transformar o limão em uma limonada, propondo um grande acordo de cooperação internacional com recursos para rastreamento de madeira ilegal, manejo sustentável e aproveitamento da biodiversidade nas indústrias de alimentos, farmacêutica e de cosméticos. Mas soft power exige firmeza, inteligência, menos barulho e mais diplomacia.

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/