A nova economia do trabalho em casa segundo pesquisa de Stanford


O economista de Stanford, Nicholas Bloom, discute os impactos sociais de uma nova “economia do trabalho em casa” e os desafios colocados pela transição maciça para o trabalho remoto generalizado.

POR MAY WONG – 29 DE JUNHO DE 2020 (tradução Evandro Milet)

A nova “economia do trabalho em casa”, que provavelmente continuará muito além da pandemia de coronavírus que a gerou, apresenta novos desafios – de uma bomba-relógio pela desigualdade à erosão dos centros das cidades – segundo Nicholas Bloom, economista de Stanford.

Os resultados de várias pesquisas nacionais que Bloom vem realizando durante o lockdown relacionado ao COVID fornecem um instantâneo da nova realidade emergente. 

Bloom, professor de economia William D. Eberle na Escola de Humanidades e Ciências de Stanford e membro sênior do Standard Institute for Economic Policy Research(SIEPR), concentra-se na economia do trabalho, práticas de gestão e incerteza. Desde o início da crise do coronavírus, seu estudo de 2014 sobre trabalho em casa e pesquisas em andamento com outros colegas de empresas privadas tem sido muito procurado, enquanto os formuladores de políticas e outros se esforçam para entender melhor a dinâmica de mudança da força de trabalho e suas implicações econômicas.

Aqui, Bloom discute os impactos sociais do trabalho em casa e o que sua pesquisa mais recente revela. E em um trabalho de Política do SIEPR relacionado, ele expande suas descobertas e oferece aos formuladores de políticas e líderes de negócios sugestões para tornar o trabalho remoto uma parte permanente do cenário de trabalho. 

Vivemos em uma economia da informação e uma economia de bico(gig economy). Agora você identificou uma nova “economia do trabalho em casa”. Por que isso?

Vemos incríveis 42% da força de trabalho dos EUA trabalhando agora em casa em tempo integral. Cerca de outros 33% não estão trabalhando – uma prova do impacto selvagem da recessão. E os 26% restantes – principalmente trabalhadores de serviços essenciais – estão trabalhando em instalações normais. Então, em números absolutos, os EUA são uma economia que trabalha em casa. Quase o dobro de funcionários que trabalha em escritórios trabalha em casa. 

O mais impressionante é que, se considerarmos a contribuição para o produto interno bruto dos EUA com base em seus ganhos, esse grupo ampliado de funcionários que trabalham em casa agora representa mais de dois terços da atividade econômica dos EUA. 

Quão vital foi a rápida mudança para trabalhar em casa durante a crise do COVID?

Sem essa mudança histórica para trabalhar em casa, o lockdown nunca poderia ter durado. A economia entraria em colapso, forçando-nos a voltar ao trabalho, aumentando as taxas de infecção. Trabalhar em casa não é apenas economicamente essencial, é uma arma crítica em nossa luta contra o COVID-19 – e futuras pandemias. 

Por que você acha que trabalhar remotamente está se transformando em uma realidade mais permanente?

O estigma associado ao trabalho em casa antes do COVID-19 desapareceu. E trabalhar remotamente agora é extremamente comum, embora sob condições muito desafiadoras, como escrevi anteriormente. E várias empresas estão desenvolvendo planos para mais opções de trabalho em casa além da pandemia. Uma recente pesquisa separada de empresas da Pesquisa de Incerteza Empresarial que administro com o Federal Reserve de Atlanta e a Universidade de Chicago indicou que a parcela de dias úteis passados em casa deve aumentar quatro vezes em relação aos níveis anteriores ao COVID, de 5% para 20 porcento. Das dezenas de empresas com as quais conversei, o plano típico é que os funcionários trabalhem em casa um a três dias por semana e venham no escritório o resto do tempo. 

Que problemas mais complicados você está vendo?

Nem todo mundo pode trabalhar em casa. Apenas 51% dos participantes da pesquisa – principalmente gerentes, profissionais e trabalhadores financeiros que podem realizar seus trabalhos em computadores – relataram poder trabalhar em casa a uma taxa de eficiência de 80% ou mais. A metade restante (quase) não pode trabalhar remotamente. Eles trabalham nos serviços em varejo, saúde, transporte e atividades de escritório, e precisam ver clientes ou trabalhar com produtos ou equipamentos.

Muitos americanos também não têm as instalações ou a capacidade suficiente da Internet para trabalhar efetivamente em casa. Mais da metade dos pesquisados que agora trabalham em casa o fazem em quartos compartilhados ou em seus quartos. E apenas 65% dos americanos relataram ter capacidade de internet suficientemente rápida para suportar videochamadas razoáveis para trabalhar. Os 35% restantes têm internet tão ruim em casa – ou nenhuma internet – que impede o teletrabalho eficaz. 

E como todos esses fatos negativos se somam?

Tomados em conjunto, isso está gerando uma bomba-relógio pela desigualdade. Nossos resultados mostram que funcionários mais instruídos e com maior salário têm muito mais probabilidade de trabalhar em casa – então eles continuam a ser pagos, desenvolvem suas habilidades e avançam em suas carreiras. Ao mesmo tempo, aqueles que não conseguem trabalhar em casa – devido à natureza de seus empregos ou à falta de espaço adequado ou de conexões à Internet – estão sendo deixados para trás. Eles enfrentam perspectivas sombrias se suas habilidades e experiência de trabalho se desgastarem durante um prolongado período de fechamento. 

Que outros impactos devemos observar nessa transição para um trabalho mais remoto?

O crescimento dos centros das cidades vai parar. Durante a pandemia, a grande maioria dos funcionários que passaram para o teletrabalho trabalhava anteriormente em escritórios nas cidades. Estimo que a perda de sua presença física reduziu em mais da metade o gasto diário total em restaurantes, bares e lojas do centro da cidade. 

Esse aumento no trabalho em casa chegou em grande parte para ficar, e vejo um declínio de longo prazo nos centros das cidades. As maiores cidades dos EUA tiveram um crescimento incrível desde a década de 1980, quando americanos mais jovens e instruídos afluiram em massa para centros revitalizados. Mas parece que essa tendência será revertida em 2020 – com uma fuga de atividade econômica para fora dos centros das cidades. 

Para onde irá a força de trabalho?

A vantagem é que isso será um boom para subúrbios e áreas rurais. Dada a necessidade de distanciamento social, as empresas com quem converso normalmente pensam em reduzir pela metade a densidade de escritórios, o que levaria a um aumento na demanda geral por espaço para escritórios. Mas, em vez de construir mais arranha-céus de escritórios – que tem sido o tema dominante nos últimos 40 anos – prevejo que o COVID-19 mudará dramaticamente a tendência para parques industriais com prédios baixos. 

Arranha-céus nas cidades enfrentam dois grandes desafios pós-COVID. Primeiro, o transporte coletivo – o metrô, trens e ônibus. Como você pode imaginar vários milhões de trabalhadores dentro e fora das principais cidades como Nova York, Londres ou Tóquio todos os dias com distanciamento social? 

Segundo, elevadores. Normalmente, antes do COVID, era possível espremer as pessoas para dentro de um elevador, com cada pessoa ocupando menos de meio metro quadrado de espaço. Mas se aplicamos um metro e meio de distanciamento social, precisamos de mais de 30 metros quadrados de espaço, reduzindo a capacidade dos elevadores em mais de 90%, impossibilitando que os funcionários cheguem a suas mesas nas horas de pico. 

E se o distanciamento social não for mais necessário?

Ninguém sabe ao certo, mas se uma vacina COVID-19 aparecer, minha previsão é que a sociedade tenha se acostumado ao distanciamento social. E, dadas outras pandemias recentes como SARS, Ebola, MERS e gripe aviária, ou as anteriores pandemias de influenza de 1957-58 e 1968, empresas e funcionários vão temer a necessidade potencial de retornar ao distanciamento social. Portanto, prevejo que muitas empresas relutem em retornar rapidamente a escritórios densos. 

Meus resultados mais recentes de pesquisa parecem confirmar isso: os funcionários relataram uma queda de 25% na demanda para trabalhar em escritórios altos em 2021, presumivelmente após o COVID. 

Se eu fosse uma empresa agora planejando o futuro do meu escritório, estaria olhando para as regiões fora do centro e arredores.

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