Esse segmento cresceu 10% no comércio global em 2025 e a tendência é de persistente expansão
Por Assis Moreira, Valor – 19/03/2026
É correspondente do Valor em Genebra desde 2005. Cobriu 28 vezes o Fórum Mundial de Economia e numerosas conferências ministeriais em dezenas de países.
As exportações globais de serviços prestados digitalmente atingiram US$ 5,26 trilhões em 2025, um aumento de 10%. O Brasil subiu uma posição, tornando-se o 26º maior exportador mundial. Tem uma modesta fatia de 0,6%, mas com potencial para ampliar suas vendas nessa área.
Esses serviços são comercializados internacionalmente por meio de redes de computadores e incluem serviços financeiros, de informática e profissionais, entre outros. Os EUA são o maior exportador, com US$ 915 bilhões (15,5% do total mundial), e também o maior importador, com US$ 490 bilhões (11,2% de fatia global).
A China surge como o sexto maior exportador nessa categoria, com US$ 245 bilhões e 4,7% de participação no mercado mundial. Fica atrás também da Índia, o quarto maior exportador, com US$ 328 bilhões, ou 6,2% do mercado.
O Brasil exportou US$ 32 bilhões no ano passado, numa alta de 10%, em linha com a expansão global. Por sua vez, importou US$ 48 bilhões, sendo o 20º maior importador.
O país mantém sua posição como 24º maior exportador mundial de mercadorias, com a mesma fatia de 1,3% do mercado global. Também é o 27º maior importador, com 1,1% de participação mundial.
Em serviços em geral, o país caiu uma posição, para o 23º lugar entre os maiores importadores.
O maior exportador mundial de mercadorias continua sendo a China, com US$ 3,772 trilhões, ou 14,4% do mercado global no ano passado. Os Estados Unidos são o maior importador, com US$ 3,507 trilhões, ou 13,2% de participação.
A OMC projeta que as exportações de mercadorias da América do Sul podem crescer 3,5% neste ano e desacelerar para 2,3% no ano que vem, no caso de uma guerra prolongada no Oriente Médio.
No caso das importações, a região deve registrar crescimento de 2,7% neste ano e de 3,6% no ano seguinte. A OMC projeta crescimento do PIB de 2,4% neste ano na América do Sul e de 2,9% no próximo.
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Empresa desenvolve maior data center do País e quer que fábricas substituam caldeiras a óleo ou a gás por modelos elétricos
Por Luciana Dyniewicz – Estadão – 18/03/2026
Se a autoprodução – modelo em que a usina é construída para fornecer energia para determinada empresa – impulsionou a Casa dos Ventos a fechar novos contratos nos últimos anos, a empresa tem agora nos data centers e na eletrificação de indústrias sua estratégia para continuar avançando. A meta da companhia é chegar a uma capacidade instalada de 11 GW até 2030 – hoje são 3,3 GW (cerca de 1,5% da capacidade instalada do País) e, até 2027, entrarão em operação mais 3,1 GW. Alcançar os 11 GW significaria um crescimento de 230% na comparação com a base atual.
O modelo de negócio da Casa dos Ventos sempre foi o de estimular a demanda por energia para construir novos parques eólicos e solares. A empresa aposta, agora, que existirá uma demanda por energia elétrica no País equivalente a 6 GW se indústrias substituírem suas caldeiras a óleo e a gás por modelos elétricos abastecidos por usinas eólicas ou solares — uma medida que pode fazer com que as fábricas diminuam suas emissões de gases poluentes.
A companhia ainda projeta mais 2 GW de capacidade instalada para atender data centers – nesse caso, os 2 GW não seriam o total da demanda do País, mas os projetos que a empresa já está desenvolvendo. Também vê as possibilidades de fornecer energia para fabricação de hidrogênio verde (600 MV) e de fechar novos contratos para autoprodução de empresas (300 MW por ano).
No caso da eletrificação de fábricas, o produto que seria oferecido pela Casa dos Ventos ainda não está completamente desenvolvido, segundo o CEO da empresa, Lucas Araripe. “Poderíamos fazer o investimento, que inclui caldeira e linhas de transmissão, se as empresas quisessem. Mas elas também poderiam fazer essa parte. Estamos conversando com as empresas.”
O executivo afirma que comparar custos de instalação e operação de um projeto elétrico com o de uma caldeira tradicional é difícil porque depende de fatores como a existência ou não de uma subestação de energia próxima à fábrica e a necessidade de linhas de transmissão mais ou menos longas. Ele, porém, garante que o projeto elétrico pode ser competitivo quando comparado aos que usam óleo ou gás.
Quando se trata de caldeiras abastecidas por biomassas, a vantagem é menor, admite Araripe. Mas o executivo destaca que, nos próximos 20 anos, a disponibilidade de matéria-prima (como cavaco de madeira e bagaço de cana) para abastecer essas caldeiras pode se tornar mais difícil — o que favorece a eletrificação.
A eletrificação de indústrias também é vista como uma das principais vertentes de crescimento para empresas de energia renovável pela presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), Elbia Gannoum. “A energia a vapor está em grande parte da indústria e tem um custo grande para as empresas. As usinas eólicas são uma alternativa competitiva para isso.”
Outra aposta da Casa dos Ventos, a geração de energia para o uso por data centers foi o que permitiu que o setor eólico começasse a se recuperar de uma crise que vinha desde, ao menos, 2022, de acordo com Gannoum. “Em 2025, vimos uma retomada de contratos de fornecimento de energia vinda de data centers”, diz a executiva.
A Casa dos Ventos tem hoje o maior data center em desenvolvimento do País. O projeto, cuja primeira parte é construída pela Omnia (do grupo Pátria Investimentos) para a Bytedance (dona do TikTok), demandará R$ 200 bilhões em investimentos e será instalado em Pecém, no Ceará.
Por ora, no entanto, apenas a primeira fase do projeto está contratada. Para ela, está prevista uma capacidade instalada de 300 MW. A segunda fase deverá ser de mais 600 MW e a terceira e a quarta fase, de 300 MW cada uma. Para a segunda, as negociações comerciais estão mais adiantadas e questões de infraestrutura, como área para construção e conexão com rede de energia, já estão resolvidas. Para as últimas duas, a Casa dos Ventos ainda está em conversa com possíveis parceiros.
CEO da Casa dos Ventos, Lucas Araripe, tem conversado com empresas para que elas substituam caldeiras a óleo ou a gás por modelos eletrificados Foto: Tiago Queiroz/Estadão
“Falta a questão comercial. Estamos mostrando para companhias como Microsoft e Google a competitividade do projeto e estamos vendo se vamos fazer direto com empresas de tecnologia ou se nos juntaremos a uma empresa de infraestrutura, como está acontecendo na primeira fase”, diz Araripe.
A empresa tem também dois projetos de fornecimento de energia para data centers no interior de São Paulo (um em Jundiaí e outro em Salto), que estão nessa mesma fase de desenvolvimento. Diferentemente dos projetos do Ceará — em que dados do exterior serão processados em um serviço que será exportado —, esses data centers deveriam ser construídos para atender à demanda doméstica.
De acordo com Alison Takano, líder de data centers para a América Latina na consultoria imobiliária CBRE, no entanto, o mercado de data center no Brasil tem “andado de lado” e a demanda das grandes big techs por esses espaços não cresceu em 2025. O projeto do TikTok no Ceará foi a única grande exceção a esse cenário de estagnação, diz ele.
O projeto do Ceará enfrenta também outros desafios. A Associação Nacional de Ação Indigenista (Anaí) tem se manifestado contra o empreendimento, alegando impactos graves para terras indígenas, especialmente para o povo Anacé, e dizendo que o data center começou a ser realizado sem consulta prévia, conforme prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A ONG Instituto Terramar também é contrária à construção do data center e questiona a falta de um estudo de impacto ambiental para o projeto como um todo, uma vez que suas aprovações têm sido dadas de forma fracionada. O instituto argumenta ainda que o alto consumo de água ameaça o aquífero Dunas, que abastece comunidades locais, além de o projeto interferir no modo de vida do povo indígena Anacé. A Casa dos Ventos, porém, afirma que cumpre todos os ritos regulatórios, incluindo estudos de impacto exigidos pela legislação.
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Estudo aponta que a empresa de carros autônomos da Alphabet avança rapidamente com seus robotáxis e pode desafiar o domínio de Uber e Lyft no transporte por aplicativo
GRACE SNELLING – Fast Company Brasil – 18-03-2026
Um novo estudo acaba de apelidar a Waymo de “Homem do Kool-Aid” da economia de transporte por aplicativo.
E isso pode deixar Uber, Lyft e Tesla correndo atrás do prejuízo.
O estudo, publicado em 16 de março pela empresa de pesquisa de Wall Street MoffettNathanson, é uma análise de 21 páginas sobre como a empresa de carros autônomos da Alphabet está prestes a revolucionar o cenário atual de transporte por aplicativo, à medida que continua a expandir agressivamente.
“A incursão da Waymo na narrativa de transporte por aplicativo nos EUA nos lembra dos comerciais de Kool-Aid da nossa infância”, começa a análise. “O Homem do Kool-Aid derruba paredes, causa estragos, grita ‘oh yeah’ e sai correndo para a próxima cena.”
No caso da Waymo, continua o estudo, “eles estão derrubando as paredes de uma indústria consolidada, causando pânico entre as grandes empresas e, em seguida, correndo para o próximo anúncio em uma cidade.”
Os analistas demonstram que a Waymo acumulou uma grande vantagem inicial sobre outros concorrentes no setor de veículos autônomos (VA) e está começando a representar uma ameaça competitiva para a Uber e a Lyft, que atualmente dominam o mercado de transporte por aplicativo nos Estados Unidos.
A EXPANSÃO DA WAYMO EM DIVERSAS GRANDES CIDADES ESTÁ DEIXANDO OS ESFORÇOS DA TESLA EM DIREÇÃO À DIREÇÃO AUTÔNOMA PARA TRÁS.
Enquanto isso, os pesquisadores argumentam que a expansão da Waymo em diversas grandes cidades está deixando os esforços da Tesla rumo à direção autônoma para trás, lançando dúvidas sobre se a empresa de veículos elétricos de Elon Musk algum dia conseguirá competir em um setor no qual tanto almeja entrar.
O QUE VEM A SEGUIR PARA A WAYMO?
A Waymo teve um grande ano em 2025, e os pesquisadores da MoffettNathanson acreditam que a trajetória ascendente da empresa está apenas começando.
No início de 2025, a Waymo estava totalmente operacional em 5 cidades dos EUA. No início de 2026, a empresa havia expandido seu alcance para operações ativas em 10 cidades dos EUA e estava testando seus serviços em pelo menos outras 19 localidades.
De acordo com a análise da MoffettNathanson, a empresa expandiu sua participação total no mercado de transporte por aplicativo de 0,2% para 0,8% ao longo de 2025, atingindo um total de 450.000 viagens semanais até o final do ano.
Embora esses números ainda sejam relativamente pequenos, eles preveem uma mudança iminente no setor com a expansão da tecnologia de direção autônoma.
CONSULTORIA PREVÊ QUE O TOTAL DE VIAGENS DA WAYMO CRESCERÁ MAIS DE 100% EM 2026.
A MoffettNathanson prevê que o total de viagens da Waymo crescerá mais de 100% em 2026, chegando a 34 milhões, em linha com a meta declarada da empresa de encerrar 2025 com uma taxa de 1 milhão de viagens por semana.
Se essas estimativas se confirmarem, a Waymo poderá conquistar 1,2% do mercado de transporte por aplicativo até o final de 2026 e 4% até o final de 2028 — uma perspectiva que os analistas da MoffettNathanson consideram “não excessivamente otimista”.
COMO FICAM UBER E LYFT?
A expansão projetada da Waymo coloca concorrentes como Uber e Lyft em uma posição um tanto delicada.
A Waymo e a Uber firmaram uma parceria para levar os serviços de robotáxi da Waymo a Austin, Atlanta e Phoenix. A MoffettNathanson observa que a parceria tem se mostrado promissora, mas os pesquisadores afirmaram que “ficariam surpresos” se ela continuasse a se expandir, considerando a vantagem inicial da Waymo em direção autônoma e seu sucesso em São Francisco.
Essencialmente, a Waymo está em uma posição única como uma das únicas empresas atuais do setor de veículos autônomos que está escalando amplamente — além, talvez, da Zoox, da Amazon, que está crescendo em uma escala muito menor — deixando a Uber com poucas cartas na manga.
Além disso, a análise da MoffettNathanson observa que a Waymo anunciou seus planos de realizar testes independentes em novas localidades.
COMO FICA A POSIÇÃO DA TESLA NA CORRIDA DOS AUTÔNOMOS?
Enquanto isso, a análise da MoffettNathanson praticamente exclui a Tesla da competição de transporte autônomo por aplicativo.
A Tesla lançou seus serviços de robotáxis em Austin, em junho de 2025, e na região da Baía de São Francisco, em julho.
Durante anos, o CEO Elon Musk vem promovendo os objetivos da empresa em relação à direção autônoma como um futuro inevitável — e esses objetivos se tornaram ainda mais importantes para a empresa em meio a um ano catastrófico para a Tesla em 2025 e ao crescente sucesso da Waymo no mercado.
No entanto, como relatado pela Fast Company, as aspirações da Tesla em relação aos robotáxis parecem, atualmente, mais um sonho distante do que uma realidade. Enquanto a Waymo opera veículos autônomos em diversas grandes cidades, quase todos os primeiros robotáxis da Tesla foram lançados com motoristas humanos ao volante, presumivelmente como uma medida adicional de segurança.
“Reconhecemos o potencial da tecnologia [de direção totalmente autônoma] da empresa, mas até que a Tesla esteja operando consistentemente em escala sem um humano no carro e sem taxas de acidentes superiores às dos humanos, acreditamos que o impacto dos robotáxis no mercado será limitado”, afirma a análise da MoffettNathanson.
SOBRE A AUTORA
Grace Snelling é colaboradora da Fast Company e escreve sobre design de produto, branding, publicidade e temas relacionados à geração Z.
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Planos escreveram trajetória de luta da Nova China, desde ‘levantar-se’, ‘enriquecer-se’ até ‘fortalecer-se’
Queremos contribuir ativamente para a construção de uma comunidade com futuro compartilhado sino-brasileira
Yu Peng – Folha – 17.mar.2026
Cônsul-geral da China em São Paulo
As Duas Sessões nacionais da China de 2026, as reuniões anuais da principal legislatura da China, a Assembleia Popular Nacional, e do principal órgão consultivo político, o Comitê Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, foram concluídas com sucesso em 12 de março.
A reunião aprovou o “Esboço do 15º Plano Quinquenal para o Desenvolvimento Econômico, Social e Nacional da República Popular da China”, marcando o início oficial da construção do período do 15º Plano Quinquenal da China.
Com mais de 70 mil caracteres chineses, o “Esboço do Plano” estabelece 20 indicadores principais e define 16 metas de construção de um “País Forte”, delineando o projeto para o desenvolvimento do país nos próximos cinco anos e demonstrando ao mundo, em meio a uma conjuntura internacional turbulenta e conflituosa, o charme único e o valor contemporâneo da “Governança da China”.
1. Um projeto, esforços contínuos
A formulação e implementação de planos quinquenais é uma importante experiência do Partido Comunista da China na governança do país, demonstrando a determinação estratégica de “trabalhar, de geração em geração, com base no mesmo projeto para torná-lo realidade”.
Desde 1953, 14 planos quinquenais (incluindo planejamentos anteriores) foram implementados sucessivamente, escrevendo a trajetória de luta da Nova China, desde “levantar-se”, “enriquecer-se” até “fortalecer-se”, e criando os dois milagres do rápido desenvolvimento econômico e da estabilidade social de longo prazo.
Nos últimos cinco anos, a economia chinesa cresceu a uma taxa média anual de 5,4%, mantendo uma contribuição de cerca de 30% para o crescimento global e, no ano passado, o volume econômico total ultrapassou a marca de 140 trilhões de yuans.
O 15º Plano Quinquenal não apenas dá continuidade aos conceitos e ideias do período do 14º Plano Quinquenal, mas também capta com precisão as tendências futuras do desenvolvimento, alcançando uma alta sinergia entre o planejamento de longo prazo e os esforços contínuos.
Um desenho de topo científico, expectativas políticas estáveis e uma forte capacidade de execução são a força determinante que economia chinesa, como um grande navio, a navegar com segurança e firmeza contra as ondas, avançando de forma estável e segura.
2. Centrado no povo, prioridade à vida do povo
A modernização chinesa tem como cerne a melhoria da vida do povo. Entre os 20 indicadores principais, aqueles relacionados à vida do povo ocupam sete, representando mais de um terço do total. O plano foca nas necessidades urgentes e difíceis da população, como emprego, renda, educação e saúde.
Este ano, as despesas do orçamento público geral nacional atingirão 30 trilhões de yuans (R$ 22 trilhões), com gastos em educação, seguridade social e emprego ultrapassando 4,5 trilhões de yuans (R$ 3,3 trilhões) cada.
As pensões básicas para residentes urbanos e rurais e os subsídios ao seguro médico continuarão a aumentar. Da tradicional ênfase na construção de “infraestrutura física”, a China está transitando para dar igual importância ao “investimento em infraestrutura” e ao “investimento no capital humano”, tomando medidas concretas para que os frutos do desenvolvimento beneficiem todas as pessoas de forma mais ampla e justa, buscando avanços substanciais e tangíveis na promoção da prosperidade comum.
3. Consolidar as bases, impulsionar pela inovação
O “Esboço do Plano” do 15º Plano Quinquenal coloca a “construção de um sistema industrial moderno e a consolidação do fortalecimento da base econômica real” como prioridade máxima entre as tarefas estratégicas, estabelecendo claramente uma meta de crescimento médio anual dos investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento de mais de 7% em todo o país, com o valor agregado do setor central das indústrias digitais atingindo 12,5% do PIB.
Desde o desenvolvimento de variedades de trigo resistentes a doenças para garantir a segurança alimentar, até a definição clara de circuitos integrados, aeroespacial, biomedicina e economia de baixa altitude como indústrias pilares emergentes, e a inclusão de energia do futuro, tecnologia quântica, inteligência incorporada (embodied AI) e interface cérebro-computador no layout das indústrias do futuro, a China está acelerando a conquista da autossuficiência e do fortalecimento em ciência e tecnologia de ponta.
Em 2025, o modelo de Inteligência Artificial de código aberto (open source) lançado por uma empresa chinesa teve o maior número de downloads do mundo; robôs humanoides “mostraram suas habilidades em grupo” no Gala do Festival da Primavera do Ano do Cavalo; durante o período das Duas Sessões, muitos jornalistas estrangeiros usaram óculos de IA chineses para concluir trabalhos de tradução e fotografia –o ímpeto inovador da China continua a se intensificar.
4. Abertura e inclusão, cooperação ganha-ganha
A grandeza de um país reside em beneficiar o mundo. Embora focado no desenvolvimento doméstico, o 15º Plano Quinquenal sempre insiste em expandir a abertura de alto padrão para o exterior. A China apoia firmemente a liberalização e facilitação do comércio e investimento, e a manutenção da estabilidade e fluidez das cadeias industriais e de suprimentos globais.
Em 2025, o comércio da China com os países parceiros na construção do “Cinturão e Rota” representou 51,9% do seu comércio total, sendo parceira comercial principal de mais de 160 países e regiões. No futuro, a China não será apenas a “fábrica do mundo”, mas também o “mercado do mundo”, continuando a fornecer novas oportunidades ao mundo com seu próprio novo desenvolvimento.
5. Desenvolvimento pacífico, comunidade com futuro compartilhado
O grande rejuvenescimento da nação chinesa não trilhará o velho caminho da busca pela hegemonia e expansão. O 15º Plano Quinquenal coordena desenvolvimento e segurança, enfatizando a adesão inabalável ao caminho do desenvolvimento pacífico, a participação ativa na reforma do sistema de governança global e, diante de desafios globais como guerras, pobreza e injustiça, defende a solidariedade, a cooperação e a ação conjunta para o bem comum do planeta.
O conceito de construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade já obteve o apoio de mais de 100 países e organizações internacionais e a aprovação de quase 80% da opinião pública mundial. A China continuará a defender a visão de que “o mundo pertence a todos”, dedicando-se a construir um mundo de paz duradoura, segurança universal e prosperidade comum, promovendo a constante transformação do conceito de comunidade com futuro compartilhado para a humanidade, da visão à realidade.
O desenvolvimento da China não pode ser separado do mundo, e a prosperidade do mundo também precisa da China. São Paulo e os três estados do sul, como polos econômicos importantes do Brasil, possuem uma base de cooperação sólida e amplas perspectivas de desenvolvimento com a China.
Esperamos, no futuro, trabalhar em conjunto com todos os setores da área de jurisdição consular, aproveitando o início do 15º Plano Quinquenal como oportunidade para fortalecer o alinhamento das estratégias de desenvolvimento, aprofundar a cooperação prática, compartilhar os frutos do desenvolvimento, promover o bem-estar dos povos de ambos os lados e contribuir ativamente para a construção de uma comunidade com futuro compartilhado sino-brasileira.
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Uma das apresentações mais esperadas do South by Southwest (SXSW) virou um enterro. E foi intencional. A futurista Amy Webb levou coroas de flores brancas, lenços de papel, uma playlist de “despedida” e velas (eletrônicas) para o salão principal do evento.
Antes de pisar no palco, a curiosidade das 1,5 mil pessoas da audiência era visível. Mais do que uma vez, perguntas sobre “apocalipse” e “fim do mundo” foram trocadas entre a audiência.
Quando entrou no palco, vestida de capa preta de veludo, a CEO do Future Today Strategy Group (FTSG) apresentou um vídeo de eulogia para o morto em questão: seu relatório anual de tecnologia emergente.
Publicado religiosamente no mês de março há 19 anos, o documento de cerca de mil páginas era uma mistura de bíblia e guia para as lideranças de inovação nos mais diversos setores.
“Essa eulogia não é só para o trend report, é para todos os relatórios de tendência. Um PDF estático até informa, mas, hoje em dia, torna-se obsoleto imediatamente porque tudo está mudando muito rapidamente”, afirmou. Amy não deixou nem o “corpo” do documento esfriar e logo citou a “destruição criativa” e chamou para uma celebração.
Foi aí que o enterro virou uma festa. A banda marcial da Universidade do Texas entrou na sala, tocando uma fanfarra. Alguns bateram palma, outros riram enquanto filmavam a cena inusitada.
A audiência ainda estava guardando os celulares quando Amy veio com um novo anúncio porque, embora o mundo esteja mudando rápido, ainda há uma forma de pensar estratégias para o futuro: as convergências.
Convergências ocorrem quando múltiplas tendências, forças e incertezas se cruzam e interagem entre si. Amy explicou que as tendências são mais como o dado de previsão de temperatura dos dias, enquanto as convergências são o radar meteorológico completo. Nas palavras da futurista, o novo modelo (também entregue em PDF) é um “rastreador de tormentas”.
“Convergências operam em nível sistêmico, abrangem diversas indústrias e criam novas realidades, de forma repentina. É uma tempestade inevitável”, disse a futurista.
Não é a primeira vez que a veterana do SXSW fala sobre tempestades e cenários catastróficos em Austin. Entre 2021 e 2025, ela repetiu a palavra “tempestade” 25 vezes em apresentações. É bom lembrar que Amy se apresenta em Austin há pelo menos 15 anos.
“Você não pode ficar olhando o céu ficar verde, a chuva chegar e voltar dizendo que alguém está exagerando”, afirmou.
Embora tenham ficado cada vez mais populares e mais extravagantes, as palestras de Amy Webb seguem a mesma estrutura: há um gancho sentimental, um exemplo exagerado, um aviso para notícias ruins e um chamado para ação, que culmina no lançamento do documento.
Em 2022 e 2023, ela disse que sua apresentação era para quem tinha estômago forte. Em 2024, dedicou tempo para tratar sobre o medo, a incerteza e a dúvida. Em 2025, ela afirmou que tinha chegado ao “ápice do pessimismo”.
Depois há exemplos de tecnologias que vão das mais inusitadas – este ano foi o caso do criador de conteúdo que fez uma réplica deepfake de si para fazer lives – até as que impressionam mais, como os exoesqueletos para melhorar a performance física das pessoas. Este ano, Amy Webb trouxe mais exemplos que vieram da China e de países asiáticos.
“NÃO EXISTEM MAIS PRODUTOS PARA VENDER. ENTÃO AS EMPRESAS VENDEM VOCÊ DE VOLTA PARA VOCÊ MESMO”
Ela não deixou de lado a crítica aos líderes de grandes empresas de tecnologia. Cada ano, a futurista critica um líder de big tech: em 2025 foi Elon Musk; em 2024, ela falou sobre os “tech bros”. Este ano, foi Sam Altman, o CEO da OpenAI.
Seguindo a estrutura das últimas apresentações, depois da tormenta vem o chamado para que líderes de empresas e pessoas tomem alguma atitude com relação à estratégia de futuro. Há sempre um chamado para ação, mas para que tipo de ação? Não fica tão claro.
Nos últimos anos, a parte mais otimista e propositiva da apresentação ocupou os 10 ou 20 minutos finais. Em 2026, a proposição de soluções teve menos tempo no palco do que a encenação do enterro. Foram oito minutos dedicados ao pedido final para as pessoas retomarem a agência com relação à estratégia de futuro.
“Ninguém vai te salvar”, avisou.
E O CONTEÚDO?
Amy Webb focou em três convergências este ano. A começar pela de “humanos aumentados”, que fala sobre o uso de biotecnologia e nanotecnologia para apoiar a performance física e mental das pessoas.
O tema remete à biologia sintética, apresentada em 2022, aos dispositivos vestíveis, mostrados em 2023 (mesmo ano em que ela se desdobrou para falar sobre o metaverso industrial) e ao conceito de “inteligência viva” apresentado no ano passado.
A outra convergência é a do trabalho ilimitado, que fala sobre agentes de IA e a possibilidade de fábricas “de luz desligada”, trabalhando sem a necessidade de humanos. Um desdobramento da computação assistida citada em 2023 e da IA agêntica, citadas desde 2024.
Já a terceirização emocional, que cruza a falta de conexão entre humanos e o uso de robôs para conversas e relacionamentos amorosos, é a evolução do fim da internet, decretado em 2023. E também de sistemas de IA que detectam emoção, citados em 2022.
Amy apresentou um cenário em que o capitalismo chega a sua “totalidade”. “O capitalismo não colapsa, ele se completou. Não existem mais produtos para vender. Então as empresas vendem você de volta para você mesmo”.
QUEM É VOCÊ NO CHURRASCO?
Em 75 minutos no palco, Amy Webb mostrou um pouco menos da sua visão do que nos 20 minutos informais de fala no FastCo Grill, evento paralelo da Fast Company no SXSW.
Sem a cenografia e a teatralidade, numa conversa mais intimista, Webb mostrou que está com raiva com o rumo que o mundo tecnológico tomou. E exasperada com a falta de ações coletivas de empresas e de indivíduos com relação a isso.
Para ela, consumimos as novidades tecnológicas sem pensar em seus objetivos de longo prazo. “Nós simplesmente abdicamos da responsabilidade. E não apenas nos Estados Unidos, aos meus amigos brasileiros: vocês também estão enfrentando o mesmo problema. A questão se entrelaça com política, cidadania e a forma de nos relacionarmos uns com os outros. Por mais quanto tempo vamos aceitar isso?˜, questionou.
“Precisamos ser mais céticos e desconfiar das tecnologias cool”, afirmou a futurista, que, há anos publica relatórios tratando exatamente sobre as tecnologias mais inusitadas do mundo.
A CRIATIVIDADE DESTRUTIVA DO QR CODE
Na palestra-funeral, Amy Webb citou rapidamente a ideia de criatividade destrutiva. O conceito, que deu o prêmio Nobel aos economistas Philippe Aghion, Peter Howitt, e Joel Mokyr em 2025, explica que o crescimento econômico sustentado pela inovação acontece quando novas tecnologias deixam as outras obsoletas.
A futurista evocou o conceito como um caminho para as empresas lidarem com o rol de incertezas e tempestades à frente.
Aparentemente, ela não aplicou a destruição que pregou. O chamado para a “autorreflexão” ficou mesmo para os executivos e para a audiência. Porque, depois do espetáculo teatral, a palestra de Amy Webb terminou da mesma forma de sempre: com um slide do QR code para o relatório de convergências. Em PDF.
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Astrofísico americano Adam Frank fala sobre suas investigações extraterrestres, financiamento à ciência, mudança climática e desenvolvimento da IA
Por Juliana Domingos de Lima – Estadão – 15/03/2026
Foto: University of Rochester/Divulgação
Entrevista com Adam Frank Astrofísico e professor da Universidade de Rochester
A busca por indícios de vida — e vida inteligente, capaz de criar tecnologia — em outros planetas pode estar a algumas décadas de encontrar respostas.
Professor do Departamento de Física e Astronomia da Universidade de Rochester, em Nova York, nos EUA, o astrofísico Adam Frank lidera as pesquisas para mapear essas “tecnoassinaturas” no Universo. Além desse trabalho, também é uma figura pop: como divulgador científico, escreve livros de sucesso, já participou de um documentário da Netflix e foi consultor científico da Marvel para o filme Doutor Estranho.
O cientista conversou com a reportagem sobre o motivo de o investimento público ser a “galinha dos ovos de ouro” da inovação, os riscos de uma inteligência artificial que nos torna “mais rasos” e como a crise climática deve ser lida sob a ótica da astrobiologia: não como uma missão para “salvar” a Terra, mas como uma questão de sobrevivência de uma civilização que deve aprender a conviver com as regras físicas do planeta.
Leia a entrevista completa abaixo.
A humanidade especula há milhares de anos sobre a vida em outros planetas. Quão perto estamos de saber se há vida fora da Terra?
Como você disse, essa pergunta tem 2.500 anos. É possível ver os gregos antigos discutindo sobre isso: Aristóteles tinha uma opinião e Demócrito, outra. É realmente uma das questões mais antigas da história. E a resposta pode ser “não”; pode ser que busquemos em milhares de estrelas e não encontremos nada. Isso não significaria que não existe vida, mas que ela não é comum. Ou pode ser que, de fato, encontremos algo.
O extraordinário é que esta geração, os jovens de hoje, provavelmente estará viva quando começarmos a ter respostas. É incrível estarmos a 10, 20 ou 30 anos de ter a tecnologia e a base teórica para observar planetas distantes, mundos alienígenas, e procurar por vida neles.
O conhecimento e a tecnologia nessas áreas têm se desenvolvido mais rapidamente nas últimas décadas?
O que eu chamo de “revolução dos exoplanetas” começou em 1995. Quando eu era estudante de pós-graduação, não conhecíamos nenhum planeta orbitando outras estrelas. Era perfeitamente possível que o Sistema Solar fosse uma raridade e que planetas fossem difíceis de se formar. Em vez disso, a partir de 1995, descobrimos que há muitos deles. Planetas existem aos montes.
Hoje sabemos que, ao olhar para o céu noturno, cada estrela possui sua própria família de planetas. Esse conhecimento tem, no máximo, 30 anos. Aconteceu agora, durante as nossas vidas. Mais do que isso: a capacidade de procurar evidências indiretas de vida (fora da Terra) é algo muito novo, de talvez 15 anos para cá.
Como essa evidência indireta é coletada?
Não conseguimos tirar uma foto do planeta; ele é muito distante e escuro. O que fazemos é analisar a luz que atravessa sua atmosfera. Quando um planeta orbita sua estrela, às vezes ele passa entre ela e nós. Nesse momento, parte da luz estelar atravessa a atmosfera do planeta e é absorvida. A luz que chega até nós carrega uma espécie de “impressão digital” dos elementos químicos ali presentes. Assim, descobrimos do que a atmosfera é feita e se existem substâncias que só poderiam estar lá por causa da vida.
Existem as bioassinaturas — rastros de uma biosfera, como florestas ou plâncton. E pode haver tecnoassinaturas — rastros de tecnologia de uma civilização. Eu liderei o primeiro grupo a receber uma verba da Nasa para buscar tecnoassinaturas em atmosferas; focar em vida tecnológica inteligente tem sido uma parte central do nosso trabalho.
Você defende que o financiamento público é a galinha dos ovos de ouro para a ciência. Esse modelo está em crise atualmente nos EUA, com os cortes federais a instituições como a Nasa?
Com certeza. A ciência dos EUA está sob enorme pressão. Se algo não mudar, a história dirá que este foi o maior exemplo de uma nação dando um “tiro no pé” sem motivo algum.
A excelência científica não é eterna. Em 1600, para estar na fronteira da ciência, você iria para a Itália. Em 1700, com o fim dos Médici e do financiamento, o destino seria Inglaterra ou França. Em 1900, seria a Alemanha, berço da mecânica quântica e da relatividade. Em 1965, seriam os Estados Unidos.
A nação na vanguarda é aquela que apoia a ciência. As ações do atual governo estão desmantelando partes importantes da ciência americana ou impondo restrições tão desnecessárias que corremos o risco de perder a liderança. O que ocorre hoje é uma ameaça. Outra pessoa assumirá o posto, porque a ciência vai continuar. Só pode não ser mais os EUA, o que seria um erro terrível (para nós).
Em países em desenvolvimento, como o Brasil, como convencer a sociedade de que o investimento em áreas de pesquisa abstrata, como a astrofísica, é o que gera inovação para as próximas décadas?
É preciso mostrar como algo tão abstrato quanto a astronomia gera consequências práticas e econômicas enormes.
Entre o fim dos anos 80 e início dos 90, um laboratório de astronomia tentava criar uma forma de transmitir imagens, já que a área depende muito delas. Isso contribuiu diretamente para a criação da internet — o melhor exemplo de como a ciência básica gera trilhões em crescimento econômico. Muitos dos algoritmos atuais nasceram ali.
Outro exemplo é o laser: em 1960, ocupava uma sala inteira e as pessoas perguntavam para que servia. Pense em quantas vezes você cruza com um laser hoje. São trilhões de dólares vindos de pesquisa básica financiada pelo governo. Mesmo para países com orçamentos menores, o retorno sobre o investimento é extraordinário. Além disso, a ciência básica permite parcerias internacionais que sempre rendem frutos no longo prazo.
Acha que essas parcerias são o caminho para países com menos recursos fortalecerem a ciência e a inovação?
Sim, com certeza. Já colaborei diversas vezes com cientistas brasileiros. A ciência brasileira tem um impacto real; vocês exportam e também mantêm ótimos pesquisadores. O Brasil é um país grande e tem todos os argumentos (para formar parcerias). Vocês podem ser uma potência neste século; imagino o Brasil se tornando uma verdadeira força científica.
Em seu novo livro, O Ponto Cego, escrito com o brasileiro Marcelo Gleiser e com o filósofo Evan Thompson, você argumenta que a ciência esqueceu de integrar a experiência humana. Essa crítica se aplica a grandes desenvolvimentos tecnológicos atuais, como a inteligência artificial?
Totalmente. Nas piores facetas da IA — o exagero do marketing e as consequências econômicas devastadoras — há uma incapacidade de reconhecer o que nos torna humanos.
Os debates sobre sistemas que se tornariam superinteligências e nos substituiriam são pura fantasia. Essas máquinas são réplicas medíocres; não chegam nem perto de nós. Mas, como bilionários estão empurrando essas tecnologias goela abaixo sem estarem devidamente testadas, acabaremos nos rebaixando ao nível delas. O risco não é a IA subir acima de nós, mas sermos forçados a descer ao nível raso e “menos que humano” delas, tornando nossa experiência de mundo muito mais plana e pobre.
Este é um caso onde as pessoas deveriam decidir que tipo de tecnologia querem, em vez de aceitá-la apenas porque alguém quer lucrar. Como cidadãos, temos o direito de dizer: “Há coisas ótimas nessa tecnologia e queremos usá-las para isso, mas, fora isso, não”. Nós é que devemos dizer aos tecnólogos o que queremos. Não vão conseguir ganhar dinheiro com o que não queremos, que achem outra forma.
E, na sua perspectiva, não é isso que está acontecendo agora?
Não. Há um ciclo interminável de hype forçando a adoção dessas tecnologias. O que eu, Marcelo e Evan Thompson defendemos no livro é que estamos no limiar de uma nova visão da natureza, onde nós, seres humanos, somos inseparáveis do Universo.
A ideia de que o Universo não tem sentido e somos apenas “átomos vazios colidindo no vácuo” é um erro enorme. Não é isso que a ciência nos diz. Nossos sistemas tecnológicos, econômicos e políticos precisam refletir essa visão de que a vida e a biosfera são centrais. Esse é o ponto de partida, não uma visão fantasiosa e externa de perfeição.
Você sugere que a crise climática atual não é algo único: do ponto de vista da astrobiologia, qualquer população ou civilização tecnológica que tenha vivido nesse planeta ou em outros, com uso intensivo de energia, deve ter enfrentado algo semelhante. Como essa perspectiva nos ajuda a encarar os desafios atuais?
Essa perspectiva astrobiológica ajuda a redefinir o debate. Sabemos há décadas que estamos empurrando a Terra para um novo estado climático. Lyndon Johnson foi o primeiro presidente americano a mencionar isso, em 1964. Faz tanto tempo e, como se vê, não fizemos praticamente nada. Provavelmente ultrapassaremos o limite de 1,5°C. Algo está errado.
Como civilização, sabemos do problema, mas não agimos. Isso revela algo disfuncional na história que contamos a nós mesmos. Quando falamos de clima, falamos da física de um planeta. Planetas têm regras: se você extrai muita energia para construir uma civilização, haverá uma reação. O planeta responderá a esse uso de energia mudando o clima.
Imagine que existam milhares de planetas com civilizações. A mudança climática pode ser um processo genérico pelo qual todos passaram. Apenas os que foram inteligentes o suficiente para mudar seu comportamento sobreviveram e construíram uma civilização duradoura.
A inovação tecnológica pode nos salvar dessa enrascada?
Precisamos de uma mudança sistêmica. A inovação ajuda e faz parte da solução, mas não faz tudo. Alguns aspectos dependem puramente do nosso comportamento. Precisamos de mudanças fundamentais para retomar uma relação de parceria com a biosfera.
Hoje, nos afastamos da biosfera e fingimos que a Terra é um lixão onde podemos descartar tudo sem consequências. Aprendemos que a biosfera não tolera isso.
Outro ponto dessa perspectiva: temos a ideia de que precisamos “salvar a Terra”. Não é isso. A Terra não é um coelhinho fofo; pense nela como uma deusa furiosa. Se a pressionarmos demais — e já estamos fazendo isso — veremos seu lado perverso. Nosso trabalho não é salvar a Terra, mas sim parar de irritá-la, porque ela nos sacudirá como pulgas em um cão. Essa visão muda o debate: não se trata de direita contra esquerda ou empresas contra ambientalistas. Trata-se de sobrevivência.
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A agricultura contemporânea deixou de ser apenas fornecedora de alimentos para se tornar uma plataforma tecnológica capaz de gerar insumos estratégicos para a indústria digital, a mineração e a transição energética. Pesquisas em biotecnologia, química verde e ciência dos materiais mostram que plantas, resíduos agrícolas e subprodutos do agro podem ser transformados em componentes essenciais para eletrônicos avançados, mineração de terras raras e novos processos industriais de baixo impacto ambiental.
Um exemplo simbólico dessa convergência está nos materiais usados em telas dobráveis e dispositivos flexíveis. Polímeros e filmes especiais utilizados nesses produtos podem ser produzidos a partir de carbonatos e biopolímeros derivados do milho. No Brasil, universidades como Unicamp e USP, em parceria com centros de pesquisa em materiais, desenvolvem biopolímeros avançados a partir de amido e açúcares vegetais, com foco em aplicações que exigem leveza, resistência mecânica e flexibilidade, características fundamentais para eletrônicos portáteis, sensores e componentes digitais.
Outro campo em rápida expansão é o uso de compostos agrícolas na mineração de terras raras, elementos indispensáveis para baterias, motores elétricos, turbinas eólicas, semicondutores e dispositivos de comunicação. Pesquisas brasileiras vêm explorando o potencial de biomateriais extraídos do arroz, especialmente da casca, que podem atuar como agentes no processamento de terras raras, substituindo reagentes químicos agressivos por alternativas renováveis e menos poluentes.
Nesse contexto, grupos de pesquisa ligados à Embrapa, à UFMG, à UFSCAR e à USP investigam o uso de biomassa agrícola, biocarvão e fibras vegetais como insumos para processos industriais avançados. Parte dessas pesquisas busca justamente integrar o conhecimento do agro à cadeia mineral e tecnológica, criando soluções que atendam à demanda crescente por minerais estratégicos com menor impacto ambiental.
Resíduos agrícolas como palha, bagaço, cascas e fibras podem servir de matéria-prima para sensores inteligentes, circuitos biodegradáveis e componentes eletrônicos de curta vida útil, aplicados em internet das coisas (IoT), rastreabilidade logística e monitoramento ambiental. Fibras naturais, lignina e celulose avançada, estudadas em centros brasileiros de pesquisa florestal e agrícola, podem substituir plásticos e metais em determinados componentes digitais, reduzindo custos e emissões.
O Brasil reúne condições singulares para liderar essa integração: grande produção agrícola, diversidade de biomassa, conhecimento científico acumulado e presença relevante de reservas minerais estratégicas. Quando pesquisas do agro são direcionadas para aplicações industriais digitais e minerais, cria-se uma ponte entre o campo, a indústria de alta tecnologia e a nova economia verde.
Um novo fundo, operado pela SP Ventures e Zera e articulado por Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, com recursos iniciais da CNA e gestão técnica da Embrapa, pretende apoiar pesquisas de ponta no agronegócio nas universidades, inclusive na direção dos exemplos citados.
Assim, a agricultura passa a desempenhar um papel central não apenas na segurança alimentar, mas também no fornecimento de insumos críticos para chips, baterias, mineração limpa e produtos digitais avançados, reposicionando o agro como um dos pilares da inovação tecnológica do século XXI no Brasil.
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A abertura do SXSW deste ano começou com uma tentativa de responder a uma pergunta simples: o que realmente importa agora na cultura, na tecnologia e nos negócios?
No palco do festival em Austin, o novo curador de programação, Greg Rosenbaum, apresentou os cinco grandes temas que, segundo ele, atravessam toda a edição do evento, do cinema à música, passando por tecnologia, educação e inovação.
A proposta é ajudar o público a navegar em uma programação que reúne dezenas de milhares de submissões e centenas de milhares de votos da comunidade. “Estamos trazendo para vocês o mundo do que vem a seguir”, afirmou.
Para Rosenbaum, cinco movimentos ajudam a entender para onde a conversa global está caminhando.
O primeiro é a humanidade na era da inteligência artificial. A tecnologia segue no centro do debate, mas o foco agora mudou. Em vez de discutir apenas capacidades técnicas, o festival busca entender como as pessoas evoluem junto com as máquinas. “Estamos explorando como preservar as partes únicas de ser humano”, disse.
O segundo tema é um novo renascimento criativo. Em meio à digitalização da cultura, o SXSW quer discutir como a criatividade humana não apenas sobrevive, mas lidera transformações culturais e econômicas.
Outro eixo central é a transformação do fandom. Segundo Rosenbaum, comunidades online deixaram de ser apenas audiência e passaram a atuar como força organizadora da cultura. “Seguidores podem construir movimentos, lançar tendências e até moldar indústrias inteiras quase da noite para o dia”, afirmou.
O quarto ponto envolve a evolução do comportamento do consumidor. Tecnologias e algoritmos passaram a influenciar de forma cada vez mais invisível as decisões de compra, consumo cultural e engajamento com marcas e criadores.
Por fim, Rosenbaum destacou a reconexão humana como uma resposta ao excesso de digitalização. Em um mundo marcado pelo isolamento online, cresce o interesse por experiências presenciais e comunidades reais.
“Estamos explorando como reconstruir conexões genuínas em um mundo fragmentado”, disse.
O próprio formato do SXSW reflete essa ideia. Segundo o curador, o festival volta a ocupar diferentes partes da cidade de Austin, transformando ruas, teatros e espaços inesperados em pontos de encontro. Mais do que assistir a palestras, o objetivo é provocar encontros.
“Às vezes, a pessoa sentada ao seu lado é tão impactante quanto quem está no palco”, afirmou Rosenbaum.
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Agronegócio precisa olhar para o mercado de tecnologia para inovar, diz Marcos Jank
Entrevista comMarcos JankProfessor sênior de agronegócios globais no Insper
Depois da adaptação de tecnologias para produção no agronegócio para o clima e o solo brasileiros, as principais inovações devem vir de fora do setor. Essa é a visão de Marcos Jank, professor de agronegócios globais no Insper e um dos nomes mais respeitados da área.
“Nas primeiras fases do desenvolvimento do agro, isso vinha de dentro do setor, com novas variedades de soja e os novos processos. Daqui para a frente, as maiores inovações vão vir de fora do agro. Será de fora para dentro. Virá de todo esse universo de inteligência artificial, de big data e de nanotecnologia”, afirma.
Segundo Jank, o Brasil tem uma longa história de inovação no agronegócio que o colocou como um dos maiores nomes do setor globalmente, exportando itens como soja, milho, algodão, carne e ovos. Agora, as evoluções devem ser para evitar problemas como o desmatamento ilegal, o menor uso de recursos e trazer maior eficiência de produção.
Para você
Jank fala também sobre a reconfiguração do comércio global provocada pela disputa entre Estados Unidos e China, que deslocou parte da produção brasileira para o mercado chinês. Por outro lado, ele vê a relação comercial do Brasil com a China como um risco diante da estratégia comercial que Donald Trump, presidente dos EUA, tem adotado no seu segundo mandato na Casa Branca.
O especialista afirma ainda que a dependência do agronegócio brasileiro de importar fertilizantes da Rússia é um fator de risco para o setor.
Jank e Ana Paula Malvestio, consultora e conselheira de empresas do agro, serão os curadores de agronegócios no São Paulo Innovation Week, que será realizado de 12 a 15 de maio na Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap. O festival é uma realização do Estadão, em parceria com a Base Eventos – os ingressos já estão à venda e os assinantes do jornal têm desconto.
A relação do agronegócio com a tecnologia é consolidada no imaginário dos brasileiros. Quais são as tecnologias que mais têm ajudado a fomentar o agronegócio?
O agronegócio é um setor muito antigo. A primeira atividade foi a cana de açúcar, em 1530. Durante 150 anos, nos destacamos com os produtos tropicais, como acontecia na época da colonização. Basicamente, com a cana de açúcar, o cacau, a borracha e depois o café. A partir dos anos 70, com o surgimento da Embrapa, dos institutos estaduais de pesquisa e dos esforços que foram feitos na área de tecnologia pelas universidades agrícolas, o Brasil deu um salto e conseguiu dominar os trópicos. Até então, a produção acontecia na faixa costeira do País. A partir de então, fomos para o Centro-Oeste.
Essa entrada se deu a partir de correção de solos, de manejo, de adubação em larga escala, porque são solos muito ácidos naquela região. Tivemos de corrigir e adubar esses solos, que eram pobres. Com isso, vários produtos foram tropicalizados. O principal deles é a soja, que estava no Sul do País e hoje já está sendo plantada perto do Equador. Depois, tivemos todo o melhoramento de capins africanos e de gado que veio da Índia (que é o gado zebu).
A partir dos anos 90, foi muito interessante porque surgiu o plantio direto, que é o plantio sem revolver a terra. Portanto, era muito mais conservacionista. Na sequência, surgiu a possibilidade de uma segunda safra. Plantamos, por exemplo, soja e milho ou soja e algodão. Vários locais fazem isso junto com a pecuária. Fazemos três atividades, que é o que se chama de integração lavoura-pecuária. Isso não se faz em clima temperado.
Essas inovações trouxeram ganhos palpáveis de produtividade ao setor?
A produtividade da agricultura brasileira saltou de 2,5% ao ano para 3,2% ao ano nos últimos 25 anos. A dos Estados Unidos, por exemplo, é 1% ao ano, e a média mundial é 1,5%. Estamos crescendo mais que o dobro dos Estados Unidos ou da Europa em produtividade, porque a gente consegue fazer sistemas integrados de produção. Não é mais como nos anos 70, que era basicamente soja ou boi. Começou a surgir então soja, milho, algodão, café, cana de açúcar, celulose, bovinos, suínos, aves, leite, tudo isso integrado ao sistema. Nosso sistema é o mais eficiente do mundo porque ele utiliza muito bem a fotossíntese. O Brasil hoje é o quarto maior produtor mundial e o terceiro maior exportador. Agora, se olharmos só na categoria das commodities, que são esses produtos cotados em bolsa, nós já somos o número um, passamos os Estados Unidos. Então, somos um player realmente global nessa área. Exportamos para 200 países e temos um papel muito importante na segurança alimentar global.
Na sua visão, quais são os principais desafios ambientais que o Brasil ainda não conseguiu vencer para conseguir vender mais produtos no agronegócio para o exterior?
A Europa tem uma legislação que exige que os produtos que entram lá não tenham nenhum traço de desmatamento. O nosso único problema que precisa ser resolvido na área da sustentabilidade é o desmatamento ilegal, que infelizmente acontece. Ele caiu nos últimos anos. Estava na faixa de 1 milhão de hectares por ano, agora está em 700 mil por ano, o que ainda é muito alto. O grande problema é que a maioria desse desmatamento é fora da lei. É grilagem, invasão de terra, posseiros, posse precária da terra e criminalidade. Isso é muito mais intenso principalmente na Região Norte. Temos de combater essa ilegalidade, até porque ela fere a lei brasileira e isso talvez seja o nosso problema em relação, por exemplo, à União Europeia, que vai nos exigir essa rastreabilidade. Agora, as nossas exportações só cresceram. O que fez a exportação do agro brasileiro saltar de US$ 20 bilhões em 2000 para US$ 170 bilhões ao ano hoje foi essencialmente a nossa eficiência.
O acesso à internet ainda é um entrave para a adoção de novas tecnologias no campo?
Esses pacotes tecnológicos, que foram criados em condições tropicais, exigem que haja uma conectividade mais ampla. Esse é um problema para o uso dessas máquinas, que funcionam de forma automatizada, dia e noite, por meio de GPS. Temos de melhorar a conectividade, mas temos bastante avanço nisso com várias tecnologias que estão sendo utilizadas.
O fato de ser um País tropical forçou o agronegócio a ser inovador?
O Brasil avançou com tecnologias próprias. No caso dos trópicos, tivemos de adaptar essas tecnologias. Por isso, foi tão importante a ida de pesquisadores brasileiros aos Estados Unidos e à Europa nos anos 70 para aprender um modelo de produção intensiva. Eles trouxeram para cá o que estava sendo feito nos países temperados e adaptaram aos trópicos de forma muito melhor, porque nós temos mais fotossíntese. Nós temos a obrigação de produzir mais, porque nós temos muito mais sol e temos condições climáticas para plantar o ano inteiro. Tivemos uma integração muito interessante com bioenergia. Nos anos 70, numa crise semelhante ao que estamos vendo no Oriente Médio, decidimos utilizar o etanol na mobilidade no Brasil, e assim surgiu o carro a álcool, que depois virou o carro flex, e surgiu também a mistura de etanol na gasolina.
Na área de mobilidade, existem duas tendências no mercado global: os biocombustíveis e os veículos elétricos. Como elas se relacionam? A ascensão da eletrificação é uma ameaça ao agronegócio brasileiro?
A eletrificação foi cantada como uma solução global de mobilidade. O que vemos hoje é que ela é uma solução parcial. É a mesma coisa que acontece hoje quando se fala de fertilizantes químicos e fertilizantes biológicos ou de pesticidas químicos ou biológicos. Precisamos combinar essas coisas. Não existe uma bala de prata na questão energética global. Vamos continuar a depender do petróleo. Os combustíveis fósseis respondem por 85% do consumo de energia do mundo. Mas 15% é renovável, se a gente somar eólica, solar, hídrica, nuclear e bioenergia.
Os biocombustíveis podem ser uma solução melhor do que a eletrificação dos veículos?
No Brasil, nós temos uma matriz que é 50% renovável. Nós temos petróleo, mas conseguimos diversificar nossa matriz energética e caminhamos para os biocombustíveis como nenhum outro país caminhou. Uma matriz muito integrada de biocombustíveis, não só de biocombustíveis para automóveis, mas também produção de bioeletricidade a partir do bagaço de cana, por exemplo, ou de resíduos industriais. Portanto, estamos usando fontes naturais, como água, sol, vento e fotossíntese. Basicamente, a bioenergia é fotossíntese. Temos uma solução que não é a do veículo elétrico. É uma solução para os carros a combustão. Estamos usando a bioenergia e isso é muito mais eficiente do que um carro elétrico na China, que tem de recarregar numa tomada cuja eletricidade está vindo de carvão. Quase 70% da energia da China vem da queima de carvão.
Por que o carro elétrico não é a única solução para a mobilidade?
O carro elétrico é bem-vindo, mas não é solução para todo mundo. Em muitos lugares do mundo, vai continuar sendo motor a combustão, até porque trocar toda a estrutura de postos que tem no mundo hoje para abastecer o motor da combustão para um sistema elétrico vai ser difícil, e nós estamos muito longe disso.
Fora a questão do tempo. Carregar um carro elétrico demora muito mais do que abastecer um carro com gasolina ou etanol.
Exatamente. Infelizmente, uma das áreas que avançaram pouco é a de baterias. Ainda estamos longe. Mesmo quando falamos da bateria do celular. O celular é uma maravilha, mas as baterias ainda têm muito a melhorar. Temos hoje uma solução viável de bioenergia no Brasil e nós também temos a segunda maior reserva mundial de minerais críticos, principalmente de terras raras. Ou seja, o Brasil pode atuar como um player global tanto na bioenergia como na questão das baterias e da produção de energia elétrica.
Voltando um pouco ao campo para falar de inovação e trabalho, há um temor dos trabalhadores em relação à substituição por soluções baseadas em inteligência artificial. No agronegócio, existe esse temor também?
A inteligência artificial veio para ficar. As duas coisas que estão mudando muito rapidamente no mundo são a geopolítica e a inteligência artificial. Nos eventos internacionais, essa agenda ganhou espaço enorme, inclusive substituindo até a agenda de sustentabilidade, que são pautas relacionadas. Até porque os Estados Unidos se posicionaram contra o Acordo de Paris. Isso mexe com toda a economia e não é diferente no agro. A inteligência artificial está sendo usada em larga escala na mecanização e na informatização.
O agro brasileiro, pela sua característica inovadora, é um usuário de inteligência artificial. Mas o que mais tenho visto nas minhas viagens de campo é falta de mão de obra. Os empresários conseguem contratar pessoas qualificadas para trabalharem no agro. Um dos problemas é do governo: é o nível educacional ainda muito baixo em parte da população, que não consegue operar máquinas e lidar com as novas demandas do setor. Falta tratorista, eletricista e operador de máquina. Outra reclamação é da legislação.
Agora, o que está em foco no agro é esse problema do fim da jornada de 6×1. Outra reclamação é que, como uma grande parcela de brasileiros vive de programas assistenciais, tipo o Bolsa Família, é mais difícil contratar no campo. As pessoas têm uma resistência a trabalhar no campo.
Qual deve ser o impacto do acordo Mercosul-UE para o agronegócio brasileiro?
O acordo Mercosul-UE é algo que ninguém esperava que fosse sair. Com essa nova geopolítica, na qual a Europa está apertada entre os Estados Unidos e a Rússia, ela precisa de aliados. Tanto que, depois que surgiu essa nova política, ela assinou vários acordos, até com a Índia. Conosco, fez acordos que estavam na gaveta. Infelizmente, não sabemos se o acordo vai ser implementado na sua totalidade, porque ele foi judicializado. Os franceses colocaram o acordo nas cortes da Europa e pode ser que ele não seja plenamente implementado, mas deve ser implementado na área de comércio de bens.
Houve uma grande celeuma porque disseram que invadiríamos a Europa. Mas isso é falso. As nossas exportações para a Europa sempre foram regidas por cotas. A Europa hoje representa 15% do que exportamos e a China representa 35%. Acabamos nos virando para a Ásia, que é 70% do que a gente exporta. No novo acordo, nos deram uma cota adicional. Eles deram 99 mil toneladas para quatro países do Mercosul para dividir. Só o Brasil hoje exporta mais de 3 milhões de toneladas. Estamos muito bloqueados. Não será um acesso volumoso, mas uma vitrine para dizer que vendemos para a Europa e para o Japão, que são mercados exigentes.
As salvaguardas da União Europeia no acordo prejudicam o objetivo de aumentar o comércio com o Mercosul?
A salvaguarda foi um gatilho criado em dezembro que fala o seguinte: se os volumes de comércio crescerem e os preços praticados caírem, podemos colocar uma salvaguarda que barra o comércio. O objetivo de fazer um bloco econômico deveria ser fazer o comércio crescer. Se você põe uma cota, ainda que pequena, o comércio vai crescer. Mas se crescer mais do que 5% da média dos últimos 3 anos a salvaguarda entra em vigor. Ou seja, o que a salvaguarda faz é anular o pouco que tinha sido conquistado com a cota adicional. Virou algo que foi muito midiático, mas sem nenhum impacto. Mas tem outras áreas importantes.
Por exemplo, na área de investimentos. Quando você põe 720 milhões de habitantes juntos, pode ter investimentos cruzados. A Europa é muito ruim na produção de commodities (soja, milho, algodão), mas é muito forte em valor adicionado. Todos nós aqui consumimos vinhos, queijos, presuntos, cervejas e até águas europeias. Temos muito a aprender com a Europa, por exemplo, em denominações de origem, em embalagens, em marketing. O agro é enorme, mas mesmo em café a gente podia fazer muito mais em termos de marca.
Como o agronegócio consegue contornar os desafios trazidos pelas guerras e continuar se mantendo relevante no mercado global?
Uma coisa que as pessoas não percebem quando falamos sobre soja ou milho é quanta tecnologia existe nesses produtos. Para chegar numa produção eficiente de soja, de milho, de algodão, de carne bovina, suíno ou ovos, é preciso ter muita tecnologia. Seja em genética, no manejo, na alimentação ou nos fertilizantes e pesticidas. Um tema que vamos tratar no São Paulo Innovation Week é o avanço dessas tecnologias, por exemplo, na agricultura de precisão. Hoje em dia estamos falando de 60% a 70% de redução de uso de pesticidas a partir de aplicação localizada, onde a máquina identifica a praga, doença. Trata-se de uma combinação de produtos químicos e orgânicos, produtos biológicos, por exemplo, na área de controle de pragas. Ou seja, o Brasil está avançando rápido nisso e isso explica a nossa presença lá fora. Obviamente, precisamos não perder esses mercados.
O País ainda importa muitos fertilizantes e defensivos agrícolas. Isso é um risco para o agronegócio brasileiro?
O Brasil hoje é o maior importador de fertilizantes do mundo. Importamos entre 85% e 90% do que precisamos. Por isso, dependemos de países que estão no foco da geopolítica atual. Nosso maior fornecedor é a Rússia, depois a China e temos grandes fornecedores no Oriente Médio, principalmente de ureia, muito importante na fertilização de solos. Corre-se o risco de ter um aumento de preços de ureia nesse momento.
Esses produtos importados chegam ao Brasil, vão até o Mato Grosso para servir como nutrição de soja, milho etc. Daí, produzimos a soja e o milho e eles vão para os portos a 2 mil km das regiões produtivas. Já temos trens e hidrovias funcionando, mas ainda dependemos muito do caminhão. Esses produtos pegam novamente o navio e vão para a China. São fluxos enormes. O fluxo de vinda de fertilizantes do Oriente para cá, o fluxo da ida de produtos, soja, milho, algodão, carne bovina, suínos, e aves para a Ásia. É uma cadeia longa e obviamente muito sensível a problemas geopolíticos.
O cenário geopolítico tem mudado muito, não só por causa das guerras, mas também pela política de tarifas do governo Donald Trump. Como a guerra tarifária reconfigurou as oportunidades do agronegócio brasileiro?
Curiosamente, o Brasil escapou um pouco das pressões do Trump. Trump usa tarifas como instrumento de dissuasão e pressão. No agronegócio, ele botou 50% de tarifa sobre o Brasil. Isso pegou de surpresa o agro que exporta para os Estados Unidos. Exportamos em torno de US$ 10 bilhões para os Estados Unidos. É pouco, para a China são US$ 55 bilhões. Mas atingiu um pouco os nossos produtos. O que aconteceu depois foi interessante. Os produtos que ele botou 50% sobre o Brasil são essenciais nos Estados Unidos. O americano adora café e o Brasil é o maior exportador de café do mundo. O americano adora hambúrguer. O Brasil é fornecedor de carne de hambúrguer para os Estados Unidos. O Brasil é fornecedor de celulose para os Estados Unidos fazerem sacolas e papéis. Eles adoram suco de laranja no café da manhã. Eles tiveram de isentar esses produtos porque havia uma pressão doméstica de consumidores.
A parceria comercial do Brasil com a China no agronegócio pode ser um risco diante da guerra tarifária de Trump?
Eles estão numa guerra tarifária com a China desde 2017, e não estão conseguindo exportar para a China. Nós roubamos a parcela de mercado dos Estados Unidos em mercados como soja, milho, algodão, carne bovina e carne de aves. Essa não é uma guerra de commodities agrícolas, é uma guerra hegemônica. Os produtores americanos estão furiosos que os Estados Unidos perderam o mercado e o Brasil ganhou. O Trump, por exemplo, iniciou recentemente uma investigação para olhar as relações do Brasil com a China. Ele pode tomar medidas que não sabemos quais serão. Fico mais preocupado com a pressão que os Estados Unidos estão fazendo na China, no Japão, na Coreia do Sul e na Índia. Vários países que são clientes nossos e que os americanos estão tentando entrar de uma maneira bruta.
Uma pergunta sobre futuro: olhando para o fim da década, qual tecnologia emergente que o sr. acredita que pode ser um divisor de águas para o agronegócio, tal qual foi o plantio direto?
Hoje temos dois grandes desafios. Um é aumentar a produtividade diminuindo o uso de recursos. Ou seja, produzir mais com menos insumos, como fertilizantes. Essa grande transformação vai acontecer em função de mais tecnologia. Nós vamos ter tecnologias aparecendo em várias áreas. Nós temos as tecnologias de georreferenciamento, de agricultura de precisão, de nanotecnologia, de biotecnologia, de inteligência artificial, de blockchains, de data lakes e de big data. Nas primeiras fases do desenvolvimento do agro, o desenvolvimento vinha de dentro do setor, com novas variedades de soja e os novos processos. Daqui para a frente, as maiores inovações vão vir de fora do agro. Será de fora para dentro. Virá de todo esse universo de inteligência artificial, de big data e de nanotecnologia. Isso é algo que está se consolidando no mundo inteiro
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Muitos de nós temos dificuldade em nos concentrar o suficiente para ler um livro inteiro; entenda o que está acontecendo e o que fazer
JESSICA STILLMAN – Fast Company Brasil – 11-03-2026
Você tem notado que está com dificuldade para terminar um livro? Se sim, tenho boas e más notícias. A má notícia é que perder a capacidade de ler pode ser algo comum atualmente, mas a neurociência afirma que isso é um sinal muito preocupante para o funcionamento do nosso cérebro.
A boa notícia é que a ciência também oferece um plano simples para recuperar sua capacidade de leitura profunda.
“Várias pessoas me disseram ultimamente que pararam de conseguir ler, o que coincide com a minha própria experiência”, confessou a autora Katherine May em seu boletim informativo recentemente.
Estatísticas sugerem que May e seus correspondentes com dificuldades de leitura estão longe de ser os únicos. Hoje em dia, somos bombardeados por textos curtos e constantemente lemos rapidamente manchetes, mensagens de texto, e-mails e anúncios.
Mas a leitura profunda é uma história bem diferente. Um estudo recente constatou que o número de americanos que leem livros em um dia qualquer caiu 40% entre 2003 e 2023.
Você talvez já tenha experimentado essa incapacidade de se concentrar em qualquer texto com mais de algumas linhas. Ou talvez você leia uma página e, ao chegar ao final, perceba que não faz ideia do que aconteceu no começo.
NEUROCIÊNCIA: ESTE É O SEU CÉREBRO EM ESTADO DE LEITURA PROFUNDA
Para leitores outrora dedicados, perder a capacidade de realmente mergulhar nos livros pode ser triste e frustrante. Para os neurocientistas, é alarmante.
Estudos mostram que nossos olhos se movem de maneira diferente quando estamos apenas folheando o conteúdo em comparação a quando estamos profundamente envolvidos com um texto. E diferentes padrões oculares refletem diferentes padrões cerebrais.
“Quando o cérebro lê superficialmente dessa forma, reduz o tempo dedicado aos processos de leitura profunda. Em outras palavras, não temos tempo para captar a complexidade, entender os sentimentos do outro, perceber a beleza e criar pensamentos próprios”, explica a neurocientista Maryanne Wolf, formada em Harvard.
“Isso afeta nossa capacidade de lidar com o bombardeio constante de informações. Incentiva um recuo para os silos de informação mais familiares e não verificados, que não exigem nem recebem análise, deixando-nos suscetíveis a informações falsas e demagogia”, alerta ela.
Perder nossa capacidade de leitura profunda significa perder parte da nossa capacidade de pensamento profundo. O pensamento crítico e o raciocínio lógico não são inatos. Essas habilidades são desenvolvidas por meio da prática ativa da leitura.
O professor e autor de Harvard, Joseph Henrich, explicou como a leitura “deixou você com uma área especializada na região occipital temporal ventral esquerda, deslocou o reconhecimento facial para o hemisfério direito, reduziu sua inclinação para o processamento visual holístico, aumentou sua memória verbal e engrossou o corpo caloso, que é a via de informação que conecta os hemisférios esquerdo e direito do cérebro”.
Deixando de lado o jargão da neurociência, a mensagem continua clara: a leitura profunda reconfigura fisicamente o seu cérebro para o pensamento complexo, sustentado e abstrato. Se você parar de ler por muito tempo, esses circuitos irão se deteriorar.
CONSELHOS BÁSICOS SOBRE COMO RECOMEÇAR A LER LIVROS
Se você quer combater essa “deterioração cerebral” relacionada à tecnologia e à ansiedade, o que fazer? Não é surpresa que a principal solução seja simples: comece a ler livros inteiros novamente.
Mas, como a seção acima deixa claro, isso é mais fácil dizer do que fazer. Muitos de nós sabemos que deveríamos ler mais, mas ainda assim temos dificuldade em fazê-lo.
May, por exemplo, sugere experimentar audiolivros (melhor do que nada, mas não é a mesma coisa), reler antigos favoritos e esconder o celular de si mesmo.
Todas essas são sugestões sólidas, ainda que não revolucionárias. A ciência tem algum conselho mais específico a acrescentar? Felizmente, sim.
FORMA COMPROVADA PELA NEUROCIÊNCIA
No The Conversation, o cientista cognitivo Jeff Saerys-Foy e o especialista em alfabetização JT Torres compartilharam recentemente um plano simples para ajudar você a voltar a ler livros.
A dupla começa com sua própria avaliação pessimista do estado de nossas habilidades de leitura: “Os índices de compreensão leitora continuam a cair”. A maioria dos pais da Geração Z não lê em voz alta para seus filhos pequenos porque consideram isso uma obrigação, e muitos estudantes universitários não conseguem terminar um livro inteiro. Sua solução:
1. Motive-se com a ciência.
Envolver-se profundamente em um texto exige esforço mental. Para obter a motivação necessária, lembre-se dos estudos científicos sobre como pular etapas da leitura aprofundada afeta o seu cérebro.
2. Diminua o ritmo intencionalmente.
Ler com atenção exige “diminuir o ritmo conforme necessário para lidar com passagens difíceis, saborear uma prosa marcante, avaliar criticamente as informações e refletir sobre o significado do texto. Envolve entrar em diálogo com o texto, em vez de apenas extrair informações”, escrevem os autores. Portanto, quando você se sentar para ler, lembre-se de que não há prêmios para a velocidade. Comece devagar.
4. Comece devagar.
Se um livro longo parecer fora do seu alcance, “você pode começar com algo mais simples, talvez poemas, contos ou ensaios, antes de passar para textos mais longos”.
5. Encontre um parceiro de leitura.
Ler profundamente é difícil, então vale a pena encontrar alguém para te ajudar a manter o foco e te dar aquela força de vontade. “Junte-se a um amigo ou familiar e estabeleçam a meta de ler um romance ou livro de não ficção completo”, sugerem os cientistas.
6. Leia em pequenas partes.
Não espere chegar ao final do livro para começar a discuti-lo com seu amigo. Estabeleça metas menores, como terminar um capítulo ou um número determinado de páginas por dia. Depois, conversem regularmente sobre o que estão lendo.
A tecnologia pode ajudar: falar sobre o que vocês estão lendo no BookTok vale tanto quanto um encontro presencial.
LEIA COMO SE AINDA FOSSE 1999
Essas etapas podem ajudar você a reeducar seu cérebro para a leitura profunda. Mas tudo começa com o mesmo primeiro passo: pegue um livro e se comprometa novamente com a leitura de textos longos.
Se conseguir fazer isso, seu cérebro não só agradecerá, como você também recuperará a magia de se perder em um livro. Quem não precisa de um pouco mais de imaginação, escapismo e encantamento neste momento?
Este artigo foi publicado originalmente no site o Inc.com. Leia o artigo original aqui.
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