Etanol de milho cresce e desafio é ser sustentável

Mercado externo deve exigir maior controle de toda a cadeia, especialmente para uso em navios e aviões

Mario Camera – Valor – 29/10/2026

A expansão do etanol de milho trouxe consigo preocupações ambientais e sociais. Na Europa, o movimento “food or fuel” (comida ou combustível, em inglês) questiona o uso da terra para a produção do biocombustível – inclusive o avanço sobre áreas de floresta -, enquanto no Brasil há o temor da utilização de lenha proveniente do desmatamento ilegal para abastecer caldeiras de usinas.

Em maio, a eurodeputada dinamarquesa Sigfriid Friis voltou a questionar o cultivo de grãos para abastecer veículos um mês após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em visita à Alemanha, rebater o que chamou de “mitos” sobre os biocombustíveis brasileiros. “Ninguém come biodiesel, ninguém come gasolina. As pessoas comem comida.”

Por outro lado, a ex-presidente da Irlanda Mary Robinson contestou as críticas europeias durante o Global Agribusiness Festival, realizado em outubro, em São Paulo. Para ela, a resistência tem motivações políticas e comerciais, ou seja, são concorrenciais. “É apenas política. Simples assim”, declarou ao The AgriBiz.

Analistas destacam que, diferentemente da Europa, o Brasil produz duas safras por ano, reduzindo a competição por terra e por área para a produção de alimentos. O etanol do cereal utiliza especialmente o milho safrinha, geralmente plantado após a colheita da soja, na mesma área. Além disso, o biocombustível tem como subproduto uma insumo para a pecuária: o DDG, farelo rico em proteínas que sobra do processamento do milho e alimenta o gado. Seu uso permite criar mais animais em menos espaço, diminuindo a necessidade de pastagem.

Para Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global, o modelo brasileiro mostra que as duas atividades podem crescer juntas, graças à integração entre agricultura e pecuária e ao aproveitamento da segunda safra. A produção de soja e milho aumentou juntamente com a de etanol, sem exigir uma expansão proporcional das áreas cultivadas, destaca.

A produção brasileira de grãos deve alcançar 367,1 milhões de toneladas na safra 2026/27, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Um dos principais motores desse crescimento será o milho, cuja colheita deve chegar a 148 milhões de toneladas, 2,4% acima da safra anterior, estimulado pela indústria do etanol, que em menos de uma década abriu novas oportunidades para agricultores.

A produção brasileira de etanol de milho deu um salto a partir de 2017, com a inauguração da primeira usina dedicada exclusivamente ao cereal, em Lucas do do Rio Verde (MT). Em menos de dez anos, chegou a cerca de 10 bilhões de litros e deve responder por quase 30% de todo o etanol fabricado no país nesta safra, projeta a Conab. No mesmo período, a produção de milho safrinha deverá ter crescido quase 70%, também segundo a companhia.

Uma das vantagens dessa indústria é sua proximidade com a matéria-prima, o que pode ter contribuído para reduzir perdas no transporte do grão. A FS, segunda maior produtora de etanol de milho do país e pioneira no setor, nasceu após empresários americanos ficarem surpresos ao ver, durante visita a lavouras de Mato Grosso em 2011, parte da produção local do cereal apodrecendo à beira das estradas.

“O milho valia um terço do que custava o frete para levar para Santos”, conta Rafael Abud, presidente da empresa, ao explicar que uma saca chegava a valer até R$ 8, enquanto o transporte custava R$ 25. O governo federal precisava subsidiar o frete para ajudar os produtores.

Para os investidores, acostumados a produzir etanol de milho nos EUA, fazia sentido instalar usinas perto das lavouras e transformar aquele excedente em combustível. Hoje já são 29 biorrefinarias em operação e quase 30 novos projetos, entre autorizados e previstos, pelo levantamento da União Nacional do Etanol de Milho. Algumas das novas usinas inclusive podem operar tanto com cana quanto com milho, garantindo produção o ano todo.

Ampliar loucamente a produção de etanol de milho e não saber qual é a demanda pode ser um risco”

— Marcos Jank

Mato Grosso concentra a maior parte da atividade, seguido por Mato Grosso do Sul. Em apenas duas safras, a quantidade de milho processada pelas usinas cresceu quase 70%, calcula o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). A Datagro estima que a produção alcance 11,8 bilhões de litros de etanol na safra 2026/27. A indústria também ampliou a oferta de ingredientes para alimentação animal (além do DDG), aproveitando uma parte do grão que não é transformada em combustível.

Para 2033/34, a Unem projeta uma produção de 16,63 bilhões de litros, mas esse salto dependerá da novas usinas e mais compradores – o setor aposta em mercados como navegação e a aviação. Em outubro, a Maersk, gigante mundial da logística, abasteceu um navio com bioetanol em Singapura, na maior operação desse tipo já realizada. O porto de Santos (SP), após operação-piloto realizada em julho, anunciou na semana passada que fará o abastecimento regular de navios com etanol. A Autoridade Portuária de Santos informou que 159 embarcações já podem usar o biocombustível e outras 450 devem ser entregues até 2030.

A adoção do biocombustível, porém, ainda depende de fatores como custo de produção e regras internacionais de redução de emissões do transporte marítimo. Na aviação, o etanol pode ser utilizado na produção de combustível sustentável (SAF), mas o preço ainda elevado em relação ao querosene convencional dificulta sua expansão.

Em Paulínia (SP), a JetBio, ligada ao grupo controlador da FS, planeja produzir renováveis a partir do etanol em um projeto que prevê investimentos de US$ 2 bilhões e capacidade de processamento de até 1,8 bilhão de litros por ano. “Essa refinaria vai poder fazer 100% SAF ou 100% diesel renovável a partir do etanol”, diz Abud. A decisão sobre o investimento está prevista para 2027.

Jank avalia que o país pode ampliar a sua produção, mas teme que os investimentos avancem sem que se saiba quanto os novos mercados serão capazes de consumir. “Ampliar loucamente a produção de etanol de milho e não saber qual é a demanda pode ser um risco.”

A entrada em mercados internacionais também poderá exigir maior controle sobre a origem do milho e as emissões associadas à sua produção. Na aviação, as regras sustentáveis consideram toda a cadeia, do cultivo da matéria-prima ao consumo final, incluindo possíveis mudanças no uso da terra. Alice Thuault, diretora executiva do Instituto Centro de Vida (ICV), lembra que o Brasil dispõe de instrumentos para monitorar o desmatamento, mas ainda faltam acordos entre os setores envolvidos e acesso a informações sobre a regularidade ambiental dos fornecedores.

O Ministério Público do Estado de Mato Grosso investiga a possível derrubada de mata para abastecer caldeiras de usinas. A Associação dos Reflorestadores de Mato Grosso afirma que mais da metade da lenha consumida pelo setor vem de vegetação nativa, vendida por até metade do preço do eucalipto plantado. Para Jank, essa dependência compromete a proposta ambiental do combustível. “É um enorme contrassenso você derrubar a floresta para fazer biocombustível”, afirma.

Relatório do Itaú BBA destaca que o abastecimento das fornalhas das usinas poderá exigir cerca de 440 mil hectares de eucalipto plantados até o fim de 2026. Essa área poderá quase dobrar até 2030, caso a indústria dependa exclusivamente dessa fonte de biomassa.

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/10/29/etanol-de-milho-cresce-e-desafio-e-ser-sustentavel.ghtml

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Brasil tem vantagem para operar data centers verdes

Infraestrutura física precisa de energia, e 90% da eletricidade brasileira é gerada por fontes renováveis

Renan Lima Alves, Luis Tossi e Leonardo Santos – O Globo – 23/10/2026

Quando fazemos um Pix, pagamos uma compra com cartão, chamamos um carro por aplicativo ou assistimos a uma série, colocamos em movimento uma extensa infraestrutura digital. São milhões de operações cotidianas que dependem da geração, transmissão, armazenamento e processamento de dados. É essa engrenagem que sustenta a nova economia digital, movida a dados. Embora falemos em “nuvem”, a infraestrutura é física. As informações são processadas em data centers que funcionam 24 horas por dia e demandam uma capacidade computacional sem precedentes.

Essa infraestrutura necessita de energia, e é aí que o Brasil possui vantagens únicas. Aproximadamente 90% da eletricidade brasileira é gerada por fontes renováveis. Em outros grandes mercados, como os Estados Unidos, as fontes renováveis representam cerca de 25% da geração elétrica. Enquanto outras economias precisam descarbonizar sua infraestrutura digital, o Brasil já oferece capacidade computacional com baixa emissão de carbono.

Para aproveitar essa oportunidade, precisamos corrigir uma percepção equivocada: a ideia de que data centers necessariamente consomem grandes volumes de água para refrigerar suas máquinas. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Data Center (ABDC), mais de 95% dos data centers em operação no país usam soluções que dispensam o consumo contínuo de água na refrigeração. Na maior parte dessas instalações, o resfriamento é feito a ar ou por sistemas de circuito fechado. A comparação mais simples é com o radiador de um automóvel: o sistema é preenchido inicialmente, e o fluido circula continuamente para transportar o calor. Circulação de água não significa consumo de água.

Essa característica não surgiu por acaso. Durante a primeira grande expansão do setor, entre 2010 e 2014, o Sudeste enfrentou uma grave crise hídrica. A insegurança no abastecimento levou operadores e projetistas a adotar sistemas capazes de funcionar sem depender do consumo contínuo de água, elevando o custo por demandarem mais energia para funcionar.

Essa limitação transformou-se em vantagem competitiva. Estudo da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e de Tecnologias Digitais — com apoio da ABDC e revisão técnica da Fundação Apolônio Salles de Desenvolvimento Educacional — estimou que o setor respondeu por apenas 0,003% do consumo de água do Brasil em 2022.

Isso não dispensa planejamento, licenciamento ambiental ou fiscalização. Na verdade, aponta para a necessidade de o debate público considerar as tecnologias efetivamente empregadas no país, sem importar automaticamente problemas de outros mercados.

A aprovação do Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center permite que a inteligência artificial abra uma nova fronteira para o Brasil. O treinamento de modelos, as análises maciças e outras cargas computacionais não precisam estar próximas do usuário final. Podem ser processadas onde houver energia renovável, conectividade, capacidade técnica e segurança jurídica.

O Brasil entra num seleto grupo de países capazes de ofertar capacidade computacional, transformando energia renovável em serviços digitais de alto valor agregado. A ABDC estima em até R$ 1,58 trilhão o potencial de investimentos diretos até 2030. Essa expansão movimenta construção civil, engenharia, energia, telecomunicações, equipamentos, pesquisa, inovação e formação profissional.

O país acaba de dar um passo para ser um dos grandes fornecedores mundiais de infraestrutura digital sustentável.

Brasil tem vantagem para operar data centers verdes

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Crescimento surpreendente do comércio global, com boom de IA, mascara problemas, diz diretora-geral da OMC

No início do mês, a OMC praticamente dobrou projeção de crescimento do comércio exterior este ano, para uma alta de 3,9%, ante a estimativa anterior de avanço de 1,9%. A de 2027 passou para 4,1%, acima dos 2,6% previstos antes

Por Vinicius Neder – O Globo – 28/10/2026

O boom de investimentos em data centers, puxados pela inteligência artificial (IA), vem impulsionando exportações e importações, mas, dessa forma, está mascarando os desafios que o sistema multilateral enfrenta, os maiores em seus 80 anos de existência, afirmou nesta terça-feira a diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala.

No início do mês, a OMC praticamente dobrou sua projeção de crescimento do comércio exterior este ano, para uma alta de 3,9%, ante a estimativa anterior de avanço de 1,9%. Já a projeção de crescimento de 2027 passou para 4,1%, acima dos 2,6% previstos antes, segundo o relatório Perspectivas e Estatísticas do Comércio Global, divulgado no último dia 8.

A surpresa veio do fato de que as estimativas anteriores da OMC estavam marcadas pela guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, deflagrada em março. O conflito atingiu em cheio o comércio de petróleo e combustíveis, já que 20% do transporte da matéria-prima passava pelo Estreito de Ormuz, que acabou fechado por ataques da reação iraniana.

Por um lado, exportações e importações de petróleo não caíram tanto no agregado mundial, porque houve um aumento de vendas de fornecedores de fora do Oriente Médio, como o Brasil. Por outro, o comércio de componentes usados em data centers — como servidores, semicondutores e placas de memória — seguiu de vento em popa, puxando a alta de 3,5% nas trocas de mercadorias no primeiro semestre do ano, já superando as expectativas.

— Acho que o crescimento está mascarando um pouco os desafios nos outros setores. Desse modo, os problemas decorrentes das tarifas (o tarifaço aplicado pelo presidente dos EUA, Donald Trump), das guerras no Mar Negro (entre a Rússia e a Ucrânia, após a invasão russa, iniciada em fevereiro de 2022) ou no Estreito de Ormuz estão sendo mascarados por essa tendência muito positiva da IA — disse Okonjo-Iweala, numa entrevista a jornalistas na sede da OMC, em Genebra.

Segundo o relatório do início do mês da OMC, bens usados na infraestrutura de IA responderam por 47% do crescimento do comércio global de mercadorias no primeiro semestre — o comércio desses produtos aumentou 67% em relação a igual período do ano anterior, acelerando ainda mais a rápida expansão observada em 2024 e 2025.

Embora o crescimento do comércio global acima do previsto inicialmente seja uma boa notícia em meio ao desafio criado pelo tarifaço de Trump e, mais recentemente, pela guerra no Irã, Okonjo-Iweala alertou que o boom de IA tem seus problemas. Os dois principais são a concentração desse comércio em poucos fornecedores e compradores e a sustentabilidade, ao longo do tempo, do atual ritmo de investimentos em data centers e infraestrutura para IA.

— Quando decompomos os números, vemos uma concentração dos benefícios do comércio de IA em duas regiões: América do Norte e Leste da Ásia. E, na América do Norte, trata-se, principalmente, dos EUA. Logo, o resto do mundo não está tão incluído nos benefícios desse comércio — afirmou a diretora-geral da OMC. — Então é bom, mas a questão é como tornar esse comércio mais inclusivo e como garantir que seja sustentável.

As turbulências no comércio global ocorrem num momento em que a OMC está em xeque. Criado em 1995, o organismo multilateral do comércio está parado por causa dos EUA. Desde o primeiro governo Trump, os americanos estão bloqueando a indicação de juízes para o Órgão de Apelação, instância máxima da OMC. Sem membros, o Órgão de Apelação fica impedido de exercer sua função, que é julgar disputas comerciais entre os membros da OMC, uma das principais funções da entidade.

No segundo governo, iniciado em janeiro do ano passado, com o lançamento do tarifaço contra praticamente todos os países, Trump dobrou a aposta contra a OMC, enquanto Okonjo-Iweala vem negando que o organismo multilateral esteja paralisado ou tenha caído na irrelevância.

Segundo seu relatório anual, divulgado em setembro, a OMC apresentou um estudo estimando que a economia global poderá chegar a 2050 com um Produto Interno Bruto (PIB, o valor de todos os serviços e produtos produzidos na economia) agregado 6,9% abaixo do nível que atingiria na projeção base de crescimento até lá, se prevalecerem apenas acordos comerciais bilaterais entre os países.

O jornalista viajou como participante do Programa de Intercâmbio para Jornalistas da OMC e da Konrad Adenauer Stiftung (KAS)

Crescimento surpreendente do comércio global, com boom de IA, mascara problemas, diz diretora-geral da OMC

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Novas fronteiras, velhos desafios

Inovar, digitalizar e reduzir o impacto ambiental formam uma ‘tríade competitiva’

João Carlos Ferraz – Valor – 26/10/2026

Sete em cada dez empresas industriais brasileiras com 100 ou mais pessoas ocupadas inovam. Quase nove em cada dez usam alguma tecnologia digital avançada. Cerca de três quartos têm gastos com proteção ambiental. Os números sugerem uma indústria em transformação, mas um dado muda a leitura: apenas três em cada cem apresentam desempenho elevado nas três frentes ao mesmo tempo.

A evidência é convergente em dez informes produzidos por especialistas de oito instituições de pesquisa, a partir da Pintec Semestral, iniciativa realizada por IBGE, ABDI e UFRJ. Entre 2022 e 2025, sete rodadas de pesquisas de campo investigaram os esforços em inovação, digitalização e práticas ambientais de empresas industriais com mais de 100 empregados. Elas são responsáveis por mais de 60% do pessoal ocupado, mais de 85% da receita líquida de vendas e mais de 90% do dispêndio empresarial em P&D no país. A Pintec Semestral apresenta evidência de qualidade e muito recente sobre práticas decisivas para a competitividade empresarial.

Inovar, digitalizar e reduzir o impacto ambiental deixaram de ser agendas independentes. Formam uma “tríade competitiva”: tecnologias digitais ampliam a capacidade de inovar; inovações de processo reduzem o consumo de energia, água e matérias-primas; exigências ambientais de clientes e reguladores estimulam novas soluções. Quem avança em uma frente encontra melhores condições para avançar nas outras. Quem fica para trás acumula desvantagens.

O problema é que a adoção é ampla, mas rasa. Na inovação, houve avanços: a parcela de empresas com P&D interno subiu de 24%, em 2017, para 34%, em 2021, e a das que cooperam para inovar, de 29% para 42%. Mas só cerca de 15% introduzem algo inédito no mercado nacional ou mundial, e os gastos em P&D seguem concentrados em poucas grandes empresas. Predominam esforços localizados que buscam melhorias incrementais, não liderança tecnológica.

Na digitalização, chama atenção o salto da inteligência artificial: em dois anos, sua adoção passou de 17% para 42% das empresas, mas sobretudo nas áreas administrativas e comerciais, não no chão de fábrica. E apenas 5% usam as seis tecnologias pesquisadas (big data, nuvem, IA, internet das coisas, manufatura aditiva e robótica). É a combinação que faz diferença: quem integra as seis tem probabilidade significativamente maior de inovar; o uso isolado de uma tecnologia não tem efeito significativo.

Mais de 70% das empresas realizam dispêndios em práticas ambientais. E mais de 40% possuem planos estruturados em algum dos seis temas investigados (entre eles gestão de resíduos sólidos, emissões, reciclagem e uso). Entre as menos engajadas, sobretudo as de 100 a 249 pessoas ocupadas, quase 40% não realiza nenhum dispêndio. O principal motor é o cumprimento da legislação.

Três resultados de síntese merecem atenção. Primeiro, o porte pesa mais do que o setor: numa mesma indústria convivem empresas muito digitalizadas e outras quase analógicas. Segundo, crescer ou ganhar mercado recentemente não leva uma empresa ao grupo líder; contam as capacidades acumuladas e a estratégia. Terceiro, quem já faz tende a fazer mais: é muito mais fácil ampliar o P&D de quem já investe do que levar outras a começar. As retardatárias enfrentam custos altos, falta de pessoal qualificado e dificuldades de integração – e muitas nem percebem benefícios que justifiquem o investimento.

Não há razão, portanto, para esperar que a distância entre líderes e retardatárias se feche sozinha. Ela pode aumentar.

O apoio público está associado a melhores resultados na inovação, mesmo entre empresas semelhantes em porte, setor, origem do capital e salários. Mas a direção dos instrumentos varia: financiamento e subvenção ligam-se a inovações novas para o mercado mundial; o uso de incentivos fiscais, a inovações para a empresa ou para o mercado brasileiro. A ação pública, porém, alcança um universo limitado de empresas.

E, prospectivamente, as escolhas de política são difíceis: priorizar as empresas mais atrasadas, fortalecer o segmento intermediário ou concentrar recursos nas de fronteira? Como tornar visíveis as empresas “invisíveis”, que dificilmente acessam os instrumentos públicos? Como desenhar instrumentos que reconheçam e ampliem capacidades em diferentes estágios, sem perder de vista os recursos disponíveis e a avaliação de resultados?

Mas a agenda não é só pública. A posição de cada empresa na tríade é decidida em conselhos e diretorias. Inovação é investimento de longo prazo ou despesa a cortar na primeira crise? Digitalização é projeto de TI ou mudança no modelo de negócio? A agenda ambiental é custo de conformidade ou fonte de vantagem competitiva?

As evidências sugerem cinco temas a serem considerados em estratégias empresariais voltadas à tríade. O primeiro é a integração: tratar inovação, digitalização e práticas ambientais como uma agenda única, com governança e metas na alta direção, já que os ganhos vêm da combinação. O segundo é a profundidade: levar as tecnologias digitais, a começar pela IA, do escritório ao chão de fábrica e conectá-las entre funções, além de dar ao P&D orçamento estável, e não eventual. O terceiro são as pessoas: formar e reter equipes qualificadas, condição para integrar sistemas e absorver conhecimento externo. O quarto é a cooperação com universidades, centros de pesquisa, fornecedores e startups – empresas que cooperam investem, em média, seis vezes mais em P&D -, e as grandes podem levar suas cadeias de fornecedores junto. O quinto é a ambição: ir além da imitação e da mera conformidade, mirando inovações novas para o mercado e enxergando nas exigências ambientais oportunidades de negócio.

A Pintec Semestral mostra que competitividade industrial é um jogo de capacidades combinadas. O Brasil tem muitos jogadores, mas poucos craques: só 3 em cada 100 empresas brilham nas três posições. E a mobilização de craques não se faz só em Brasília. A política pode reduzir custos e riscos, mas não substitui a decisão de investir. Para o país, se nada mudar, as novas fronteiras tecnológicas e ambientais não corrigirão a velha heterogeneidade da indústria brasileira; podem reproduzi-la em outro patamar. A tríade competitiva não é uma agenda entre outras. É o critério pelo qual cada empresa industrial brasileira será julgada nos próximos anos por clientes, concorrentes e investidores.

João Carlos Ferraz é professor do Instituto de Economia da UFRJ, foi diretor e vice-presidente do BNDES (2007-2016) e diretor da Cepal/ONU (2003-2007).

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/novas-fronteiras-velhos-desafios.ghtml

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O caminho do SEO para o GEO

De ajustes técnicos no site à reputação em plataformas de avaliação, quatro estratégias ajudam marcas a ganhar espaço nas respostas geradas por IA

Anton Storzhuk – Fast Company Brasil – 26-10-2026

Um bom produto e um site fácil de usar já foram suficientes para atrair clientes por meio das buscas. Hoje, porém, os potenciais clientes recorrem cada vez mais a assistentes de inteligência artificial para perguntar qual serviço escolher antes mesmo de abrir o Google. Se a marca não aparecer na resposta gerada pela IA, o cliente talvez nunca chegue ao site.

Um ano após o lançamento do AI Overviews, do Google, a proporção de buscas que terminam sem um único clique para um site passou de 56% para 69%. Uma pesquisa com profissionais de empresas B2B revelou que a IA já influencia 92% das listas de fornecedores pré-selecionados e 83% das decisões finais de compra de fornecedores.

Veja também

O reconhecimento da marca é determinante para a pré-seleção em apenas 7% dos casos. Uma correspondência precisa com o que o cliente procura tem muito mais peso. A IA ainda favorece nomes consolidados em cada categoria, mas, em 93% dos casos, a precisão supera o reconhecimento da marca.

O que faz a diferença é o quanto uma marca corresponde à solicitação. Essa é a oportunidade para uma empresa menos conhecida superar um líder de mercado.

COMO A IA MUDOU AS REGRAS DAS BUSCAS

A otimização para mecanismos de busca (SEO, na sigla em inglês) e a otimização para mecanismos generativos (GEO, também na sigla em inglês) resolvem o mesmo problema de maneiras diferentes: como um algoritmo decide o que mostrar em resposta a uma consulta?

O SEO combinava palavras-chave, links e metatags de uma página para produzir uma lista de sites. Com o GEO, os sistemas de IA leem diversas fontes sobre um tema para gerar uma única resposta coerente.

Backlinks e menções à marca continuam importantes tanto para o SEO quanto para o GEO. O que mudou foi o critério usado pelo algoritmo para determinar o que é confiável. Antes de citar um fato, um assistente de IA o verifica em várias fontes independentes.

Antes, o volume era o critério mais importante: quanto mais backlinks levassem a um site, melhor seria sua posição. Isso tornava o sistema fácil de manipular por meio de esquemas de criação artificial de links.

Os sistemas de IA funcionam de outra maneira. O número de menções não é o que importa. O que conta é a autoridade das fontes em que essas menções aparecem e a consistência das informações. A IA não vai considerar confiável um site sustentado por mil backlinks, mas sem cobertura real na imprensa.

Leia mais: Como posicionar sua marca para a era da busca por inteligência artificial

Os dados confirmam isso: se você classificar 100 marcas pelo número de backlinks e, depois, pela visibilidade nas AI Overviews, as duas listas terão pouquíssimas marcas em comum. Se, em vez disso, classificá-las pelas menções em fontes independentes, as listas serão muito mais parecidas.

Como os assistentes de IA dependem do conteúdo e da consistência das menções, priorize as ações de GEO na ordem a seguir.

1. Descubra o que a IA já está dizendo sobre sua marca

Primeiro, faça a um assistente de IA as mesmas perguntas que um cliente faria e observe quais fontes ele cita. Uma verificação isolada não oferece uma visão completa, porque as respostas podem mudar diariamente, dependendo da maneira como você formula a mesma pergunta.

Para evitar o trabalho manual, uso o Brand24, que monitora automaticamente as menções às marcas nas respostas do ChatGPT, do Gemini e do Perplexity e mostra o share of voice em comparação com a dos concorrentes.

2. Torne seu site acessível aos robôs e coloque as respostas em destaque

Para conquistar citações da IA, duas condições precisam ser atendidas: os robôs devem ter acesso ao seu site e as informações essenciais precisam estar imediatamente visíveis.

Primeiro, nunca bloqueie robôs como GPTBot e ClaudeBot no arquivo robots.txt. Se um rastreador não conseguir acessar uma página, nada vai resolver o problema, nem mesmo a inclusão de marcação de dados estruturados. Segundo, 44,2% das citações vêm dos primeiros 30% de uma página. Por isso, os principais pontos devem aparecer no início.

Uso o Yoast SEO para verificar se as páginas do meu site atendem às duas condições. A ferramenta sinaliza se o rastreador está bloqueado e se a hierarquia dos títulos está correta. Para os links internos, uso o InLinks, que ajuda os sistemas de IA a encontrar mais rapidamente o conteúdo relevante do meu site.

3. Publique conteúdo regularmente na imprensa independente

Segundo a Muck Rack, 82% de todas as citações feitas por sistemas de IA vêm de mídia espontânea: cobertura independente, e não conteúdo produzido pela própria empresa.

Publicamos regularmente conteúdo sobre nossa empresa em veículos de comunicação relevantes. Como negociar individualmente com cada veículo exige tempo e os assistentes de IA não distinguem mídia espontânea de mídia paga, uso o PRNEWS e o Medialister.

Essas plataformas dão acesso a um conjunto de veículos de comunicação de uma só vez. Assim, conseguimos obter cobertura mais rapidamente do que por meio de negociações diretas.

4. Gerencie sua reputação nas plataformas de avaliação

Os assistentes de IA reproduzem avaliações literalmente. O ChatGPT, por exemplo, pode formular uma resposta da seguinte maneira: “A avaliação da empresa no Trustpilot é…”.

A IA também absorve o tom emocional das avaliações. Se uma marca tiver predominantemente comentários negativos, a resposta do modelo tenderá a ser negativa. O mesmo vale para avaliações positivas.

O volume e a atualidade das avaliações também importam. Um perfil com cinco comentários publicados há três anos é percebido de maneira diferente de outro que recebe atualizações frequentes e inclui respostas da empresa. Os assistentes de IA considerarão o segundo uma fonte mais confiável.

Por isso, peço aos clientes que publiquem avaliações no Trustpilot e no G2. Também monitoro menções à marca em comunidades relevantes no Reddit. Esse canal é menos previsível do que as plataformas especializadas em avaliações, mas uma recomendação espontânea por lá é um sinal importante para a IA.

Leia mais: O novo território das marcas quando o comprador é uma IA

Nenhuma dessas quatro etapas produz resultados isoladamente. Um site sem menções na imprensa não será citado pela IA. Menções sem avaliações não ajudarão a estabelecer o tom desejado.

POR QUE ESPERAR CUSTA MAIS

Nos resultados tradicionais do Google, os usuários percorriam 10 links e escolhiam um por conta própria. Em uma resposta gerada por IA, essa possibilidade não existe da mesma maneira, porque a ferramenta menciona apenas um pequeno grupo de marcas. A sua está ali ou não está.

Quanto mais ampla e consolidada for uma categoria, mais difícil será entrar nessa lista restrita partindo do zero. Uma empresa precisa definir seu nicho com precisão. Em vez de usar “CRM”, por exemplo, prefira “CRM para equipes de vendas B2B distribuídas”.

Certa vez, um cliente me contou que havia procurado no ChatGPT um sistema de gestão do relacionamento com clientes para sua equipe de vendas remota, sem sequer recorrer ao Google.

Veja também

Apenas três marcas apareceram na resposta – e ele nem chegou a abrir os sites das demais empresas. As companhias que ficaram de fora perderam a oportunidade de fechar negócio antes mesmo de saber que aquele cliente existia.

Se você não está investindo em GEO, talvez já tenha perdido centenas de negócios.


SOBRE O AUTOR

Anton Storzhuk é CEO da Metria Software.

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/GeLUPi5zQ2582nGKD6JFey para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal Tribuna online, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

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Por mudanças profissionais com a instituição onde publicava outros artigos meus e informações sobre inovações, tive que criar um novo grupo no WhatsApp https://chat.whatsapp.com/CNud8bQUUYM4n8ryXA3ZaW e parar de publicar em  https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B . Quem tiver interesse pode sair do anterior e entrar nesse novo. Desculpem os transtornos.

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O Cliente Moderno Tem Instintos Antigos


Junior Bornelli – Entrelinhas – out/2026

Quando as vendas não funcionam, talvez a solução seja voltar ao que nunca mudou no ser humano.Quando as vendas começam a cair, as empresas procuram novas tecnologias, novos canais, novas campanhas e novas estratégias. Mas, às vezes, a solução pode estar justamente no passado.Muito antes dos algoritmos, do marketing digital e dos programas de fidelidade, o ser humano já carregava alguns desejos fundamentais: ser reconhecido, sentir que está levando vantagem, receber algo inesperado e pertencer a um grupo. A tecnologia mudou profundamente o comércio. Mas essas motivações continuam presentes.Em 1759, Adam Smith escreveu, em A Teoria dos Sentimentos Morais, que o homem deseja não apenas ser amado, mas também ser digno de amor. Ele estava tratando de reconhecimento e aprovação social, muito antes de existir o conceito moderno de experiência do cliente. Todo mundo gosta de ser bem tratado, de ser lembrado e de se sentir importante.É o restaurante que conhece seu prato favorito. O hotel que lembra suas preferências. A loja onde o vendedor chama você pelo nome. Pequenos gestos que fazem o cliente sentir que não é apenas mais um.Em 1985, o economista Richard Thaler apresentou o conceito de utilidade da transação. Sua ideia era que a satisfação de uma compra não depende apenas do produto adquirido, mas também da percepção de ter feito um bom negócio. É a velha sensação de levar vantagem.Pense nas batatas do McDonald’s. Quando a diferença de preço entre a média e a grande é pequena, a grande pode parecer uma oportunidade irresistível. Por um pouquinho a mais, você leva muito mais. Talvez nem estivesse com tanta fome, mas sai satisfeito com a escolha.O mesmo acontece quando você coloca mais um produto no carrinho para atingir o valor mínimo do frete grátis. Ou compra três unidades de algo que precisava apenas de duas porque a terceira está em promoção. Às vezes, o prazer de sentir que fez um bom negócio supera o interesse pelo próprio produto.Outro impulso antigo é a reciprocidade. Em 1925, o antropólogo Marcel Mauss estudou como a troca de presentes ajudava a construir relações e obrigações sociais. Décadas depois, pesquisadores demonstraram esse mecanismo em um experimento bastante curioso.Em 2002, um estudo publicado no Journal of Applied Social Psychology mostrou que clientes de restaurantes que recebiam um pequeno chocolate junto com a conta deixavam gorjetas maiores. O valor do presente era insignificante. O gesto fazia diferença.É o biscoitinho que acompanha o café, o brinde inesperado dentro da embalagem ou a sobremesa oferecida como cortesia. Às vezes, aquilo que o cliente não pagou é justamente o que faz ele valorizar mais a experiência.E existe ainda o desejo de pertencimento e distinção. É o cartão que oferece acesso a uma sala VIP. O cliente que recebe um benefício exclusivo. O programa de fidelidade que faz alguém sentir que pertence a um grupo especial.Perceba que não estamos falando de grandes inovações. Estamos falando de comportamentos que atravessam gerações.Naturalmente, nada disso substitui um bom produto, um preço justo ou uma operação eficiente. E elogios falsos, descontos artificiais e brindes sem propósito podem produzir o efeito contrário.Mas existe uma lição importante aqui. Empresas ficam tão preocupadas em modernizar suas estratégias comerciais que, muitas vezes, esquecem de compreender a natureza humana.Se as coisas não estão funcionando, experimente fazer perguntas mais fundamentais: Seu cliente se sente importante? Ele percebe que está fazendo um bom negócio? Você oferece algo que supera suas expectativas? Ele sente que pertence a alguma coisa?Talvez a próxima grande inovação comercial não esteja em descobrir um novo comportamento do consumidor. Mas sim em redescobrir aquilo que o ser humano nunca deixou de desejar.

Junior Borneli, autor de Entrelinhas. <juniorborneli@substack.com>

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EUA propõem regras para restringir investimentos em tecnologias estratégicas no exterior

Proposta do Tesouro prevê proibições e notificações obrigatórias para operações em setores como IA, semicondutores, computação quântica e biotecnologia

Alice Labate – Estadão – 23/10/2026

O Departamento do Tesouro dos EUA publicou na quinta-feira, 22, uma proposta de regulamentação para ampliar o controle sobre investimentos americanos no exterior em tecnologias consideradas estratégicas para a segurança nacional. As regras preveem a proibição de determinadas operações e a obrigação de comunicar outras ao governo, com o objetivo de impedir que recursos dos EUA contribuam para o desenvolvimento de capacidades militares, de inteligência e de vigilância de países considerados adversários.

A proposta implementa a Lei Abrangente de Segurança de Investimentos no Exterior (COINS, na sigla em inglês), aprovada como parte da Lei de Autorização de Defesa Nacional para o ano fiscal de 2026. O texto amplia o Programa de Segurança de Investimentos no Exterior (OISP), já existente, e estabelece critérios técnicos para identificar as transações sujeitas às restrições.

Segundo o Tesouro, a iniciativa busca proteger os interesses de segurança nacional e de política externa dos EUA sem comprometer a abertura do ambiente de investimentos.

Regras abrangem seis setores tecnológicos

A regulamentação proposta abrange cinco áreas previstas na lei: semicondutores e microeletrônica, inteligência artificial (IA), tecnologias de informação quântica, computação de alto desempenho e supercomputação e sistemas hipersônicos. O Tesouro também incluiu a biotecnologia, com base na autorização legal para acrescentar setores capazes de ampliar as capacidades militares, de inteligência, de vigilância ou cibernéticas de países considerados de interesse.

As exigências variam conforme o tipo de operação e a tecnologia envolvida. Pessoas e empresas americanas, incluindo entidades estrangeiras sob seu controle, poderão ter de notificar o Tesouro sobre determinadas transações com pessoas estrangeiras abrangidas pelas regras ou ficar impedidas de realizar outras operações. A proposta também detalha as informações que deverão ser fornecidas, os critérios de diligência exigidos dos investidores, as exceções previstas e as possíveis penalidades por descumprimento.

O governo abriu consulta pública para receber contribuições de empresas, investidores e outras partes interessadas sobre o alcance das restrições, as definições técnicas, as obrigações de comunicação e os procedimentos de fiscalização. O Tesouro afirma que avaliará os comentários antes de publicar a versão definitiva das regras.

EUA propõem regras para restringir investimentos em tecnologias estratégicas no exterior – Estadão

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Os desconfortos na Era dos Confortos (por Claudio de Moura Castro)

Claudio de Moura Castro – outubro , 2026

Historiadores apontam duas transformações drásticas na nossa história. A primeira, faz dez mil anos, sedentarização de muitos grupos humanos que abandonaram o nomadismo. Esta criação de cidades trouxe enormes consequências.

A segunda foi a Revolução Industrial – cujos salpicos ainda persistem.

Com o aumento dramático de produtividade (na indústria e agricultura), tornou-se possível oferecer uma vida digna para quase todos, pelo menos, nas sociedades em que esta revolução ocorreu. Mas, O Capital e o Manifesto, de K. Marx são suficientes para lembrar dos sacolejos ocorridos e que os benefícios custaram a chegar para os mais pobres.

A era dos confortos

Obliterado por essas transformações explosivas e controvertidas, há uma outra revolução, bem menos lembrada: o aumento no conforto pessoal da vida cotidiana. O movimento nasce na Inglaterra, no século XIX. De um privilégio das elites, vai se democratizando. Atinge classes mais baixas e sociedades mais pobres.

Hoje, não nos damos conta das asperezas no dia a dia de então.

Nem sequer existia a própria noção de que a vida poderia ser mais confortável.

O século XIX presenciou uma enxurrada de inovações, criando um novo cotidiano. O penico e a “casinha” lá fora dão lugar a vasos sanitários, confortáveis e inodoros. Banheiras e chuveiros substituem as tinas. A água quente, antes trazida em chaleiras, passa a jorrar das torneiras. Esgotos substituem regos a céu aberto – trazendo uma redução dramática nas doenças infeciosas.

Não existia algo tão simples como uma cadeira confortável. Sofás e poltronas, nem pensar. Não havia sabão, para lavar roupas e o próprio corpo.

Mais adiante, vem a iluminação elétrica. E não subestimemos o impacto dos fogões a gás. Quando nada, eliminaram o exercício diário de rachar lenha. Os elevadores, máquinas de lavar roupa e automóveis chegam mais adiante. O ar condicionado se difunde na segunda metade do século XX. E provoca, nos Estados Unidos, um progressivo deslocamento das gentes, do Norte frio para o Sul mais tépido.

Promover o conforto pessoal virou quase uma religião – impulsionada pelos avanços da indústria. Do colossal shopping center, até o celular, há uma corrida desabalada para inventar soluções e traquitanas – algumas até resolvem problemas que nem sabíamos existir.

Nossas vidas cotidianas estão intimamente empapadas nesses instrumentos que reduzem desconfortos. Porém – sempre há essa preposição adversativa – a evolução é imperfeita. Restam pequenos estorvos e tropeços que azedam o nosso cotidiano. O presente ensaio é sobre tais chatices.

As areias movediças da burocracia digital

Nosso mundo parece moderno e eficiente. Mas esconde armadilhas no caminho. Muitas estão nas inevitáveis confrontações com as burocracias digitais – públicas e privadas – mais, as ciladas nelas espreitando. Comecemos com uma coleção de pequenos aborrecimentos, diante dos quais, somos inexplicavelmente vulneráveis e impotentes.

Assinamos uma revista, um contrato de fibra ótica ou com uma empresa telefônica. Estávamos acostumados, se cansamos daquele pão, mudamos de padaria. Mas como cancelar uma dessas assinaturas ou contratos? Somos vítimas de máquinas infernais, capazes de bloquear indefinidamente a nossa decisão de recusar o produto ou serviço. Seria bem fácil criar uma legislação para facilitar tais divórcios, mas até agora…

Costumo dar uma espiada nos muitos leilões que andam por aí. Durante o COVID, passaram todos para a Internet, permitindo consultar o catálogo e dar lances, mesmo do outro lado do mundo. Mais ainda, há um sistema integrado de acesso e regras comuns. Grandes avanços.

Porém, os regulamentos são arcaicos, parecem feitos por advogados parados no tempo. Uma devolução só pode ser aceita se precedida por uma perícia da peça comprada. Quase sempre, vence o prazo para contestar, antes de chegar a peça arrematada. Quem compraria uma máquina fotográfica cara, se pode não estar funcionando e não há devoluções? É uma burrice, pois só será vendida se o preço for ridiculamente baixo, compensando o risco de ter defeitos. Nos pagamentos, como há o antiquário e o leiloeiro, não são infrequentes as confusões. E, por aí afora.

Nos países de tradições árabes, demoradas negociações entre clientes e vendedores chegam a ser passatempo nacional. Impensável uma compra sem longas e tortuosas trocas verbais. Nesse particular, estão à nossa frente, pois temos piores desafios, diante de múltiplos becos sem saída da informática. Com frequência, lutamos contra máquinas dotadas de paciência ilimitada e labirintos impenetráveis. Em vez dos floreios da barganha árabe, lutamos sem quartel e sem sucesso para convencer as máquinas.

Comprar na Internet é um avanço espantoso. Porém, nem sempre o final é feliz. Trava, some o botão a ser pressionado, volta para o mesmo lugar. O sapato vem do tamanho errado. Recebi uma pulseira de contas plásticas, em vez de uma ferramenta de marcenaria. Troca sem sucesso. Não há a quem reclamar, pois é inexpugnável o acesso a seres humanos. Por vezes, recebemos uma resposta sem sentido, pois a máquina traduziu – errado – do chinês para o inglês e, dai, para o português – ainda mais errado.

Parece que a interfaces dos sites e aplicativos foram construídas por uma garotada que já nasceu mergulhada no digital e deriva um certo prazer sádico em oferecer desafios ao usuário. Para eles, o site é concebido como um desses videogames, nos quais são criados sucessivos desafios a serem vencidos. Vemos o anúncio de uma panela, baratíssima. Abrindo o site, é apenas o preço da tampa. E por aí afora. E a batalha das senhas?

Podemos embirrar com o Mercado Livre ou o Amazon. Mas lidar ou não com o serviço público não é uma opção. Como deixar de buscar a guia de impostos a serem pagos? Pior, as barreiras informáticas estão criando dificuldades sérias para os mais velhos. Quem passou mais de meio século enfrentando filas e guichês, agora tem que decifrar os meandros de links misteriosos e traiçoeiros. E sempre há o risco de alguma cilada.

A batalha da privacidade

Um dos grandes avanços, desencadeados pela Revolução Industrial, foi o direito à privacidade. Parece inacreditável, mas ter seu próprio quarto é uma novidade com menos de dois séculos.

Avançamos nesta e em outras linhas. Mas há escorregões. Será que não temos o direito de não sermos aborrecidos por um dilúvio de chamadas telefônicas, tentando vender alguma coisa? Há antídotos, mas ainda são bem imperfeitos. Quando eram telemarketeiros humanos, ainda tínhamos o consolo de reservar para eles os mais horrendos palavrões. Mas de nada adianta esbravejar contra gravações.

Domamos um pouco melhor o spam no e-mail. Ainda assim, espreitam riscos e dá um trabalhinho proteger-se dos múltiplos contos do vigário digitais.

Direito ao silêncio faz parte do portfólio da privacidade. Mas, o barateamento da eletrônica milita contra. Os alto-falantes berram. Há o sermão do padre, as pregações para os crentes, os anúncios de pamonhas! Para não falar nas festas do vizinho. Faz tempo, escrevi um ensaio sobre barulho. Contou-me um leitor que estava sendo processados criminalmente, por haver abatido a tiros o sistema de som do vizinho.

E na madrugada, as motos? Um bom psicólogo deve ser capaz de explicar o supremo deleite de incomodar os ouvidos de outrem. No caso, as vítimas podem ser quarteirões inteiros.

As pequenas complicações na Era do Conforto

Quantos brasileiros entendem juros compostos? Quantos sabem calculá-los? Pois bem, em tudo que compramos a prazo, pagamos juros. Será a taxa extorsiva? Como sabê-lo? Por que não tornar obrigatória a sua menção, ao mostrar o preço?

Os aparelhos que nos cercam podem ser maravilhas da modernidade. Nada mais amigável do que uma geladeira. Basta ligar na tomada. O resto, ela decide, ela faz. Talvez peça socorro, ao cabo de trinta anos.

Mas, como é possível que um único televisor requeira dois controles remotos, cada um com dezenas de teclas. E quantas centenas de canais? Como não tenho TV, nunca tentei decifrar esses assuntos. Mas vejo pessoas perfeitamente normais que, ano após ano, não conseguem se fazer obedecidas pelos seus aparelhos.

O que parece ser outra manifestação da guerra entre gerações está nos manuais de instrução dos aparelhos que compramos. Não chequei, mas uma betoneira deve vir com um par de páginas impressas, tamanho ofício. Porém, ao reduzir-se o tamanho do artefato, as letras do manual vão também ficando menores.  Um relógio digital traz um papelzinho indecifrável, mesmo com uma boa lente.  Uma hipótese é que foi tudo feito por garotos com visão 20/20 e profundo desprezo pela velharia.

Para quem vos escreve, permanece o mistério. Nos vidrinhos oferecidos nos hotéis, por que são praticamente ilegíveis as letrinhas que identificam o xampu e o condicionador? Há que sair pingando do chuveiro, para pegar os óculos.

Já que falamos de iluminação, vale lembrar muitos elevadores, cuja iluminação está no teto, bem fraquinha. Dado o ângulo, não ilumina as teclas. Felizmente, os celulares agora têm lanternas. Porém, a saída para a rua pode ser “P”, “T” ou “L”. Como sabê-lo?

Cronicamente, os quartos de hotel ofereciam uma iluminação que não permitia a leitura. Que poucos reclamassem ilustra o grau de analfabetismo de nossa sociedade. Aleluia! O barateamento dos LEDs melhorou a situação em alguns hotéis. Em compensação, a mais reles birosca tem à sua porta uma dessas lâmpadas poderosíssimas, capazes de ofuscar quem passe perto. Elas por elas, ganhamos ou perdemos?

Faz pouco, o The Economist noticiou o grande aumento na frota de motos na América Latina. Louvavam-se os benefícios para os menos endinheirados. Porém, pelo menos em Belo Horizonte, motos não podem estacionar nas ruas mais movimentadas. Apenas autos são permitidos. Para os plebeus motoqueiros, há áreas reservadas. Mas são pouquíssimas e estão sempre abarrotadas. Na lógica da mobilidade, no espaço de parqueio de um carro, cabem umas dez motos. E os que saem  às compras de carro, por não poder estacionar a moto? Terminam por obstruir muito mais o trânsito.

Um policial ou um funcionário público que cometa um desatino ou desfalque, arrisca-se a um bom período no xilindró. Porém, terá impunidade total se cometer, a cada dia, uma sequência de pequenos deslises, ofensas, sabotagem burocrática ou a prática de outros atos que incomodam o cidadão comum. Contra esses espinhos pequenos, mas incômodos, nada conseguimos fazer. Somando a infinidade de horrores que nos infringe a burocracia, será não que trazem mais estorvos à sociedade do que aquele ato, suficientemente grande, para despertar a justiça do seu torpor? Nada a se fazer?

As maravilhas na arte da embalagem – e os horrores

No início dos anos noventa, meu trabalho me levou à Rússia. A iniciativa privada despontava. Soube de um plantador de ameixas que despachou a sua colheita para vender em Moscou. Ao chegar, no caminhão, havia apenas suco de frutas. Lá, a indústria da embalagem não havia dados os seus primeiros passos. Em contraste, subestimamos os avanços nessas artes, desafiadas para transportar ovos ou taças de cristal. Mais de vinte mil produtos diferentes chegam a um supermercado, testemunhando a competência do setor.

Ainda assim, há pequenos tropeços. Quem é capaz de desembalar um pacotinho de paçoca, sem que o bloco se esboroe em suas mãos? Quem consegue abrir uma geleinha de hotel, sem lambuzar os dedos? E as torradinhas que se espatifam, ao lutarmos para abrir as suas embalagens? E as tampas exigindo dedos de aço? E as embalagens plásticas, duras e transparentes, responsáveis por muita sangueira nas mãos?

Epílogo: há curas?

Não paremos de louvar esse bendito conforto, inaugurado na Revolução Industrial. Trouxe imenso bem estar material às nossas vidas. São quase dois séculos de trajetória, entre o abandono do penico e ter um celular com Waze.

Porém, os acertos são no atacado. Sobrevivem muitos tropeços no varejinho do nosso cotidiano. Temos que aceitar tais incômodos?

Nenhum desses entraves seria difícil de resolver. Por que isso não acontece? Uma hipótese é que catástrofes mobilizam impulsos poderosos. Há que domar o Covid, há que conter a enchente. Mas as pequenas chatices não atingem um limiar de irritação que gere providências eficazes.

Claudio de Moura Castro é Ph.D. em Economia pela Universidade de Vanderbilt. Foi Professor Visitante em várias Universidades, como Chicago, Genebra, Borgonha, FGV, Brasília. Foi Presidente da CAPES. Autor, Prêmio Jabuti.

Os desconfortos na Era dos Confortos (por Claudio de Moura Castro) – CapaBrasil

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Energia: uma proposta de agenda para o Brasil

Nosso diferencial repousa em sermos uma potência híbrida, desempenhando um papel relevante como produtor de petróleo, biocombustíveis sustentáveis e eletricidade renovável

Clarissa Lins – Valor – 19/10/2026

À medida que o país se prepara para ir novamente às urnas, é oportuno oferecer propostas para uma agenda de Estado na pauta de energia. Isso ganha ainda mais relevância no atual quadro de acentuada tensão global em países essenciais ao fornecimento de commodities energéticas, em um momento no qual o Brasil pode ocupar um espaço singular.

Como tenho ilustrado nesta coluna, o país detém uma posição diferenciada, tanto em termos energéticos quanto elétricos. Com efeito, nossa matriz energética já se baseia em um equilíbrio entre fontes fósseis e renováveis, em grande medida em função do papel histórico da biomassa (33% da matriz). Adicionalmente, a produção atual de petróleo nos coloca como 8º  maior produtor global, com um volume de 4,6 milhões de barris/dia, sendo competitivo em termos de custo de produção e de intensidade de carbono. Na perspectiva da matriz elétrica, o legado da hidroeletricidade, acoplado à penetração mais recente das fontes eólica e solar, nos garante uma matriz quase 90% renovável.

A conclusão óbvia, portanto, é que o Brasil está muito bem-posicionado em termos de oferta e diversidade de fontes energéticas, um atributo essencial em tempos de guerra e ênfase no binômio segurança e transição energética. Nossa dotação de recursos e a competitividade em explorá-los permite afirmar que nosso diferencial repousa em sermos uma potência híbrida, desempenhando um papel relevante como produtor de petróleo, biocombustíveis sustentáveis e eletricidade renovável.

Se isto nos garante um ponto de partida favorável em um mundo que valoriza diversidade de fontes e de produtores, não nos permite repousar em berço esplêndido. De fato, a era atual valoriza a entrega eficiente, resiliente e sustentável de serviço energético. Isto pressupõe, portanto, ser competitivo e eficiente nos diferentes usos finais da energia (na indústria, no transporte e nas edificações), ancorado em um sistema alinhado às tendências globais.

Em uma contribuição recente para o Centro de Debate em Políticas Públicas (CDPP), argumento que o Brasil pode e deve apropriar-se de maneira ágil e eficiente da oportunidade dada pelo contexto atual. Para tanto, é necessário priorizar algumas ações que, tomadas em conjunto, podem compor uma agenda de governo para os próximos anos.

A primeira prioridade passa por estabelecer uma visão de longo prazo para o setor energético como um todo, a qual esteja alinhada com as suas vocações e diferenciais competitivos, bem como com seus objetivos climáticos e de desenvolvimento econômico. A ausência de uma visão clara e integrada intensifica os dilemas de curto prazo e prejudica a harmonia das políticas públicas, gerando incerteza em investimentos.

O Brasil dispõe de planejamento decenal, elaborado pela Empresa dePesquisa Energética (EPE) ouvindo diferentes atores, o qual pode ser fortalecido institucionalmente. Dar transparência aos trade-offs e dilemas de diferentes mix energéticos possíveis e trabalhar com cenários de longo prazo são elementos que podem contribuir para um debate saudável acerca dos caminhos a serem seguidos, seus custos e benefícios.

A segunda prioridade passa por robustecer o ambiente de negócios, no intuito de atrair investimentos privados de longo prazo. Projeções recentes indicam necessidade vultosa de alocação de capital na área de energia, de modo a apoiar o aumento da demanda projetada de 20% nos próximos 10 anos. Ainda que disponha de condições de partida favoráveis, o Brasil compete por capital internacional nesta corrida por investimentos.

Neste contexto, são elementos chave na percepção de risco dos investidores a estabilidade macroeconômica, a qualidade das políticas públicas, a segurança jurídica, a robustez do mercado de capitais, bem como a solidez das instituições. Desta forma, contar com agências reguladoras independentes, nas áreas de energia, mineração e meio ambiente, dotadas de quadros técnicos de excelência, com mandatos claros e autonomia orçamentária é condição necessária para fortalecer nosso ambiente institucional. Isto também contribui para melhorar a previsibilidade regulatória e despolitizar alguns processos, aumentando a eficiência e a transparência do sistema.

Adicionalmente, pressupõe-se que este seja o momento ideal para criar condições equânimes de competição entre as diversas fontes energéticas, valorizando seus atributos, retirando subsídios ineficientes e melhorando os sinais de preço ao mercado. Em um mundo que caminha para maior eletrificação da economia, garantir um arcabouço regulatório moderno e que valorize o papel do consumidor é importante elemento de competitividade.

A terceira prioridade diz respeito à maior integração às cadeias globais de valor. Ter capacidade de gerar energia a partir de recursos domésticos e entregar de maneira competitiva e resiliente serviços de qualidade não significa isolar-se do mundo, nem buscar autossuficiência a qualquer custo. Significa sim priorizar opções nas quais somos competitivos, reforçar nosso papel de parceiro confiável no comércio global, além de influenciar fóruns internacionais de decisão para que os atributos de nossos produtos energéticos sejam corretamente valorizados.

Há espaço, portanto, para que o Brasil exerça um papel diferenciado em diversas instâncias, tanto mostrando que soluções baseadas em combustíveis sustentáveis são eficientes em setores de difícil eletrificação, quanto reforçando que diferenciar produtos e serviços energéticos com base na intensidade de carbono contribui para a descarbonização global. Da mesma forma, participar ativamente das tecnologias de eletrificação faz sentido e é necessário para reforçar nossa competitividade em cadeias de baixo carbono.

Tendo em vista que ainda se espera um intenso desenvolvimento tecnológico em várias frentes, estimular a pesquisa e desenvolvimento (P&D) na indústria de energia deve manter-se como prioridade, além de reforçar o contínuo contato entre academia e setor privado. As cláusulas de P&D em vigor tanto no setor de óleo e gás, quanto no de energia elétrica, constituem uma importante fonte de recursos para tanto, cabendo sempre o cuidado com a eficiência de sua utilização.

Outras prioridades podem ser elencadas, tais como melhoria de governança e transparência na alocação de recursos oriundos da atividade energética, qualificação da mão de obra para as novas competências necessárias e aprimoramento do conhecimento geológico de nosso território. Isso ilustra a riqueza de nossa pauta energética. Que o novo governo saiba aproveitá-la de maneira eficiente e competitiva.

Clarissa Lins é economista e sócia fundadora da Catavento Consultoria.

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/energia-uma-proposta-de-agenda-para-o-brasil.ghtml

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Duas economias, dois destinos: por que os Estados Unidos pagam salários altos e o Brasil não

Muita gente acha que um país é rico porque seus trabalhadores se esforçam mais, ou pobre porque falta vontade. A explicação é outra. O que determina o nível de salários de um país é, antes de tudo, onde as pessoas trabalham. Em que setores está o emprego, e quanto cada setor consegue pagar.

Vamos comparar duas economias de forma bem simples.

A primeira economia: muito emprego onde se paga pouco

Imagine um país com um setor agropecuário grande e um setor de serviços tradicionais enorme: comércio, alimentação, serviços pessoais, transporte, trabalho doméstico. Esses setores empregam muita gente, mas pagam salários baixos, porque a produtividade de cada trabalhador é limitada e há pouca tecnologia embutida no que se faz.

Esse país também tem uma indústria sofisticada e serviços sofisticados, como engenharia, software, finanças, pesquisa e design. Esses setores pagam muito bem, mas são pequenos. Empregam pouca gente.

Resultado: a grande maioria dos trabalhadores está nos setores de baixo salário. A média salarial do país fica lá embaixo. O PIB per capita também.

Esse é o Brasil.

A segunda economia: muito emprego onde se paga muito

Agora imagine o inverso. Um país com um agro pequeno em termos de emprego e um setor de serviços tradicionais menor. Em compensação, uma parcela enorme dos trabalhadores está em serviços sofisticados e em indústria de alta tecnologia: semicondutores, aeronáutica, farmacêutica, software, inteligência artificial, consultoria, finanças.

Como esses setores são muito produtivos e difíceis de copiar, conseguem pagar salários altos. E como empregam muita gente, a média salarial do país sobe. O PIB per capita vai junto.

Esses são os Estados Unidos.

Um exemplo com números

Repare: o salário de cada setor é igual nos dois países. A única diferença é a distribuição do emprego. Mesmo assim, a segunda economia paga quase o dobro em média. A riqueza vem da estrutura produtiva, não do esforço individual.

E tem mais: o efeito transbordamento

Na vida real, a diferença é ainda maior. Quando um país tem muita gente ganhando bem nos setores sofisticados, essa renda se espalha. Quem ganha bem consome mais serviços, e isso puxa para cima até o salário do barbeiro, do garçom e do motorista. Um cabeleireiro em Nova York ganha muito mais que um cabeleireiro em São Paulo fazendo exatamente o mesmo corte. Não porque seja mais produtivo, mas porque vive numa economia em que os setores de ponta elevam o nível geral de salários.

A lição para o Brasil

O desafio brasileiro não é só crescer, é mudar a composição do emprego. Precisamos levar milhões de trabalhadores de atividades simples para atividades complexas. Isso significa ter mais indústria de alta tecnologia, mais serviços intensivos em conhecimento, mais empresas que dominam capacidades produtivas difíceis de reproduzir.

Enquanto a maior parte dos brasileiros trabalhar em setores que pagam pouco, o país continuará pagando pouco. Não há atalho: país rico é país que sabe fazer coisas difíceis, e que emprega muita gente fazendo essas coisas.


Serviços sofisticados: mais gente e trabalho mais complexo

Nos Estados Unidos, cerca de 20% dos trabalhadores estão em informação, finanças, serviços profissionais, científicos e técnicos e gestão de empresas. No Brasil, são 12%. A diferença não é só de tamanho, é de conteúdo. Nos EUA, esse grupo reúne engenheiros de software, cientistas de dados, pesquisadores, advogados corporativos, consultores, designers e analistas financeiros, que trabalham para empresas que vendem tecnologia e conhecimento para o mundo inteiro. No Brasil, uma parte importante do mesmo grupo é formada por serviços administrativos de menor complexidade, como teleatendimento, limpeza terceirizada, vigilância e apoio de escritório. Por isso os serviços sofisticados americanos pagam bem acima da média: informação paga quase 60% a mais que o salário médio do setor privado. São os empregos que a economia do conhecimento cria quando o país está na fronteira tecnológica.

Indústria: menos gente, muito mais complexidade

O dado curioso é que a indústria emprega proporcionalmente menos nos EUA (cerca de 8%) do que no Brasil (cerca de 13%). Mas as duas indústrias são muito diferentes. A americana está concentrada em semicondutores, aeronáutica, equipamentos médicos, farmacêutica, química fina, máquinas de precisão e defesa. São produtos difíceis de fazer, que poucos países dominam e que geram margens altas e salários acima da média. A brasileira é dominada por alimentos, bebidas, processamento de commodities, metalurgia básica e montagem de bens de menor conteúdo tecnológico. É uma indústria mais intensiva em mão de obra e com menor capacidade de pagar salários altos. Os EUA automatizaram e terceirizaram as etapas simples da produção e ficaram com as etapas mais complexas: projeto, P&D, componentes críticos e engenharia.

Indústria e serviços sofisticados andam juntos

Os dois fenômenos estão ligados. Os serviços sofisticados americanos existem em grande parte porque há uma base industrial e tecnológica complexa que demanda engenharia, software, design, finanças e pesquisa. A empresa que projeta um chip, um avião ou um remédio contrata milhares de profissionais de serviços altamente qualificados, muitos deles registrados nas estatísticas como “serviços” e não como “indústria”. No Brasil, uma indústria de baixa complexidade gera pouca demanda por esses serviços, e o resultado é um setor de serviços sofisticados menor e mais simples. A lição é que o Brasil não precisa necessariamente de mais empregos industriais, e sim de uma indústria mais complexa, capaz de puxar junto um ecossistema de serviços intensivos em conhecimento. É aí que estão os bons salários.

Duas economias, dois destinos: por que os Estados Unidos pagam salários altos e o Brasil não – Paulo Gala / Economia & Finanças

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