Em um país marcado por grande heterogeneidade no acesso e na qualidade assistencial, a IA pode funcionar como um equalizador, elevando o padrão de cuidado onde hoje é mais frágil
Por Ludhmila Hajjar – O Globo – 24/04/2026
Por muito tempo, imaginou-se que a inteligência artificial (IA) transformaria a medicina dentro dos hospitais. Mas a mudança mais profunda já começou fora deles, na palma da mão dos pacientes.
Hoje, milhões de pessoas recorrem a sistemas de IA para interpretar sintomas, entender exames e decidir se devem procurar atendimento. No Reino Unido, mais de um terço da população já utiliza essas ferramentas como apoio em saúde mental. Na prática, a IA se tornou uma nova porta de entrada para o sistema de saúde, sem regulação, sem supervisão e, muitas vezes, sem segurança. Esse movimento é irreversível.
O problema é que a tecnologia ainda está longe de ser plenamente confiável. Estudos recentes mostram que até 43% das respostas fornecidas por chatbots em cenários clínicos podem conter informações problemáticas. Não se trata de um erro marginal, mas de uma falha estrutural. Além disso, as respostas variam conforme a forma como a pergunta é feita, o que torna o sistema imprevisível.
Há ainda um risco silencioso: o viés. A maioria dos modelos é treinada com dados de países ricos e populações pouco diversas. Isso significa que as recomendações podem não refletir a realidade brasileira e, em alguns casos, podem até ser inadequadas ou perigosas. Em vez de reduzir desigualdades, a IA pode ampliá-las. Mas seria um erro enxergar apenas os riscos. Ela representa uma das maiores oportunidades já vistas para reorganizar sistemas de saúde.
O conceito de hospital inteligente deixou de ser futurista e passou a ser uma necessidade. Isso envolve integração de dados em tempo real, apoio à decisão clínica, automação de processos e monitoramento contínuo de pacientes. Em um país marcado por grande heterogeneidade no acesso e na qualidade assistencial, a IA pode funcionar como um equalizador, elevando o padrão de cuidado onde hoje é mais frágil. Essa é a base do que podemos chamar de medicina inteligente, que não substitui o raciocínio clínico, mas o amplia. O médico deixa de atuar isoladamente e passa a trabalhar com sistemas capazes de sintetizar informação em uma escala impossível para um ser humano. O resultado esperado não é a perda de protagonismo, mas o aumento da precisão e da segurança.
Mas há uma condição essencial para que esse futuro funcione: soberania tecnológica. O Brasil não pode depender exclusivamente de modelos desenvolvidos em outros contextos. É necessário desenvolver IA própria, treinada com dados locais e alinhada às características epidemiológicas, sociais e culturais do país.
Há também um elemento novo que começa a ganhar relevância: a incorporação de uma camada de inteligência emocional a esses sistemas. A relação entre paciente e tecnologia não é apenas informacional; ela também é afetiva. Sistemas capazes de reconhecer contexto, modular a linguagem e oferecer respostas mais humanizadas tendem a ser mais eficazes e mais seguros. Essa nova dimensão da IA pode ser decisiva para a adesão ao cuidado e para o manejo de condições como ansiedade e doenças crônicas.
Nesse contexto, iniciativas internacionais como a COMPASS-GH ganham relevância ao propor padrões globais para o uso seguro, ético e equitativo da IA em saúde. O objetivo é estabelecer métricas claras de qualidade, transparência e segurança. Trata-se de um primeiro passo importante, mas ainda insuficiente diante da velocidade de adoção dessas tecnologias.
É urgente estabelecer marcos regulatórios claros, com definição de responsabilidades, auditoria contínua, transparência e validação clínica. A IA em saúde precisa ser tratada com o mesmo nível de exigência aplicado a medicamentos e dispositivos médicos. O Brasil tem uma oportunidade rara: não apenas adotar a tecnologia, mas liderar sua aplicação em sistemas públicos de grande escala. Com o SUS, temos um ambiente único para desenvolver, pesquisar e implementar soluções que podem se tornar referência global.
A inteligência artificial já entrou no sistema de saúde. Agora, cabe a nós decidir se ela será uma força de desorganização ou o pilar de uma nova medicina mais eficiente, mais equitativa e mais humana.
Brasil precisa assumir o controle da inteligência artificial na saúde
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