Modelo suíço aposta em alíquotas reduzidas sobre grandes patrimônios, enquanto propostas de impostos mais altos nos EUA provocam resistência entre bilionários
Por Jason Ma – Estadão – 01/11/2026
A Suíça é conhecida há muito tempo como um refúgio para grandes fortunas, com contas em bancos suíços atraindo dinheiro de pessoas ricas de todo o mundo.
Considerando o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, o país é o quarto mais rico do mundo, com US$ 126.177 por habitante, atrás apenas de Liechtenstein, Luxemburgo e Irlanda. No caso irlandês, os indicadores econômicos são inflados pela presença de multinacionais que estabelecem suas sedes no país em busca de vantagens tributárias.
Isso ocorre apesar de os cantões suíços, divisões administrativas semelhantes aos estados brasileiros, cobrarem impostos sobre o patrimônio há mais de um século. Segundo Warren Gorlick, ex-assessor de políticas públicas do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, o segredo para a Suíça continuar atraindo grandes fortunas, mesmo tributando o patrimônio, está nas alíquotas reduzidas.
Em um artigo de opinião publicado no jornal americano The Washington Post na semana passada, Gorlick destacou que os impostos suíços sobre o patrimônio não afastaram os ricos. Na verdade, o número de adultos com patrimônio entre US$ 5 milhões e US$ 10 milhões cresceu 7,4% ao ano entre 2000 e 2025.
Embora cada cantão estabeleça sua própria alíquota, mesmo as mais elevadas são modestas em comparação com as propostas em discussão nos Estados Unidos, onde a tributação sobre grandes fortunas ganhou força política recentemente.
Em Zurique, por exemplo, um casal com patrimônio líquido de US$ 2,5 milhões paga uma alíquota efetiva de apenas 0,24%, o equivalente a cerca de US$ 6 mil por ano, segundo Gorlick. Para alguém com patrimônio líquido de US$ 1 bilhão, a alíquota efetiva é de 0,7%, ou US$ 7 milhões anuais.
Em contrapartida, a Proposta 40 (Proposition 40), iniciativa que será submetida à votação popular na Califórnia, prevê que residentes com patrimônio superior a US$ 1 bilhão paguem um imposto único equivalente a 5% de seus bens.
As pesquisas indicam uma disputa equilibrada, mas a Proposta 40 já levou algumas das pessoas mais ricas da Califórnia a deixar o Estado. Entre eles está Sergey Brin, cofundador do Google, que se mudou para Nevada e destinou mais de US$ 100 milhões à campanha contrária ao imposto sobre bilionários.
Travis Kalanick, cofundador do Uber, também confirmou que deixou a Califórnia e se mudou para o Texas.
Os defensores da Proposta 40 apontam para o avanço da inteligência artificial (IA) e argumentam que os ultrarricos da Califórnia continuariam entre as pessoas mais ricas do mundo.
Já os críticos alertam que dificilmente a cobrança seria feita uma única vez e que alguns fundadores de startups poderiam ser obrigados a vender suas participações de controle nas empresas para pagar o imposto, devido à forma como a proposta calcula o valor dos ativos.
Mesmo que a Proposta 40 seja rejeitada, a ideia de tributar grandes fortunas deve continuar em discussão. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, apontado por muitos como um possível candidato à Presidência dos Estados Unidos em um futuro não muito distante, é contrário à Proposta 40, mas defende a criação de um imposto nacional sobre grandes fortunas.
A senadora Elizabeth Warren propôs uma alíquota de 2% sobre a parcela do patrimônio que ultrapassar US$ 50 milhões e de 3% sobre valores superiores a US$ 1 bilhão.
Já o senador Bernie Sanders e o deputado Ro Khanna apresentaram um projeto de lei que prevê uma tributação de 5% sobre o patrimônio dos bilionários. Até mesmo Scott Kirby, CEO da United Airlines, afirmou que os Estados Unidos deveriam adotar um imposto nacional sobre grandes fortunas.
Enquanto isso, um grupo de economistas vencedores do Prêmio Nobel que apoiam a Proposta 40 afirmou que a medida poderia “dar início a um movimento” capaz de se espalhar para outros estados e países.
Gorlick, ex-assessor do Tesouro americano, observou que nem todo patrimônio gera renda regularmente. Isso significa que um imposto de 5% sobre ativos avaliados em US$ 1 bilhão resultaria em uma cobrança de US$ 50 milhões, que poderia exigir a venda de parte dos investimentos para quitar o valor.
“Poucas pessoas terão muita simpatia pelos problemas tributários de um bilionário. Mas um imposto sobre o patrimônio que parte do pressuposto de que o capital pode ser tributado indefinidamente a uma alíquota elevada é um imposto que, no fim das contas, não será pago, porque o patrimônio — ou seu proprietário — simplesmente terá desaparecido”, escreveu.
Em vez das alíquotas propostas por Warren, Gorlick argumentou que os Estados Unidos deveriam considerar um imposto sobre grandes fortunas inspirado no modelo suíço.
Uma alíquota máxima hipotética de 0,5% sobre um patrimônio de US$ 1 bilhão exigiria o pagamento de US$ 5 milhões por ano ao IRS, órgão equivalente à Receita Federal nos Estados Unidos, um valor que, na avaliação dele, dificilmente levaria bilionários a deixar o país.
Segundo suas estimativas, a aplicação de uma alíquota de 0,5% sobre o patrimônio do 1% mais rico das famílias dos Estados Unidos poderia gerar facilmente uma arrecadação de US$ 200 bilhões por ano.
É claro que esse valor representa apenas uma pequena parcela da dívida pública americana, de US$ 40 trilhões, ou mesmo dos US$ 7,4 trilhões gastos pelo governo federal no ano fiscal de 2026.
Ainda assim, um imposto sobre grandes fortunas poderia gerar uma arrecadação significativa sem a necessidade de elevar os impostos sobre a renda, afirmou Gorlick.
A discussão ocorre em um momento em que o governo federal planeja aumentar os gastos com defesa e enfrenta a perspectiva de esgotamento das reservas do fundo fiduciário que financia os benefícios de aposentadoria da Previdência Social americana (Social Security) dentro de seis anos.
“Um imposto modesto sobre o patrimônio não resolverá, por si só, o déficit anual de US$ 2 trilhões dos Estados Unidos”, reconheceu. “Mas representaria uma contribuição inicial significativa para enfrentar o desequilíbrio fiscal americano — uma medida que poderia conquistar o apoio dos dois lados do espectro político.”
Esta história foi originalmente apresentada em Fortune.com e foi traduzida com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial e revisada por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.
Suíça tributa milionários há mais de 100 anos e continua atraindo ricos – Estadão
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