O Brasil tem políticas de Estado ou remendos imediatistas que respondem a interesses e pressões?

Há 50 anos, os programas de agricultura tropical e de bioenergia são exemplos de políticas de Estado

Por Marcos Jank – Estadão – 22/08/2026

O Brasil tem políticas de Estado voltadas para o médio e o longo prazo? A resposta que recebo para essa pergunta em minhas palestras é sempre a mesma: não temos. O que temos hoje no Brasil são remendos imediatistas que respondem a interesses e pressões setoriais, que raramente olham além do mandato do governo de plantão. Faltam projetos de país que sobrevivam às trocas de governo e tenham como bússola o interesse nacional de longo prazo.

Mas nem sempre foi assim. Duas das melhores Políticas de Estado que o Brasil já concebeu – uma agrícola, outra energética – nasceram na década de 1970, sob um regime autoritário, mas com visão estratégica que se revelou de longuíssimo prazo: o desenvolvimento da agricultura tropical moderna e a criação de um programa nacional de bioenergia.

Sem elas, o Brasil jamais seria hoje protagonista global nesses dois campos, justamente agora que segurança alimentar e energética voltaram ao epicentro da geopolítica mundial. Em ambas, o roteiro foi o mesmo: o governo abriu o caminho, e o setor privado assumiu a continuidade.

Na agricultura tropical, o marco foram as instituições e os programas governamentais dos anos 1970. O símbolo maior foi a Embrapa, criada em 1973, que se somou aos esforços anteriores de grandes universidades agrícolas e institutos estaduais de pesquisa – como o Instituto Agronômico de Campinas e vários outros, em São Paulo e em outros Estados.

Esses esforços permitiram transformar o Cerrado, um bioma ácido e pobre em nutrientes, na última fronteira agrícola eficiente do planeta. Naquele período, o Estado também ofereceu crédito abundante e barato, programas de assistência técnica e extensão rural (Emater), programas de colonização como o Prodecer, no Cerrado, e uma estrutura de defesa agropecuária.

A partir de um certo ponto, porém, foi o setor privado que assumiu o comando da transformação e multiplicou os resultados: empresas nacionais e multinacionais desenvolveram genética avançada, biotecnologia agroquímicos, máquinas e equipamentos agrícolas, agricultura de precisão, plantio direto, segunda safra, irrigação e os sistemas integrados de lavoura-pecuária-floresta. Esse foi o pacote público-privado que transformou o Brasil em potência agrícola — em grãos, carnes, açúcar, celulose, algodão e muitos outros produtos.

Na bioenergia, o marco inicial foi o Proálcool, lançado em 1975 como resposta ao choque do petróleo: o governo colocou carros a álcool nas ruas, obrigou a distribuição de etanol nos postos, fixou misturas obrigatórias — de etanol na gasolina (hoje E32) e de biodiesel no diesel (hoje B15) — e incentivou a cogeração de bioeletricidade a partir do bagaço da cana.

No começo dos anos 1990, o protagonismo mudou de mãos: o setor privado trouxe os veículos flex e o RenovaBio e, mais recentemente, novos usos da bioenergia — frotas pesadas, combustível de aviação sustentável (SAF), bio-bunker marítimo, biogás, biometano, eteno, hidrogênio verde e biorrefinarias.

Nesses dois exemplos de políticas de Estado bem-sucedidas, o governo não bancou um projeto estatizante permanente: ele induziu, financiou a P&D básica e assumiu o risco inicial para, em seguida, diminuir seu papel e deixar que o mercado competisse e escalasse o que funcionava. Esse é o modelo replicável.

As cinco décadas de sucesso dessas duas extraordinárias iniciativas nos convidam a avançar em áreas vulneráveis que, infelizmente, não contaram com políticas do mesmo quilate. Entre os temas que hoje mereceriam ser priorizados por políticas público-privadas estruturantes estão: fertilizantes, bioinsumos, mineração, internacionalização da bioenergia, logística, armazenagem, seguro rural e resiliência climática.

Às vésperas de uma eleição importantíssima, deveríamos nos inspirar nas grandes lideranças que há 50 anos pensaram estrategicamente as bases do Brasil que vivemos hoje no agro tropical e na bioenergia, e as implementaram. O que nos falta hoje não são recursos naturais, pessoas motivadas ou tecnologia de ponta.

O que nos falta é visão estratégica e organização da sociedade, a começar pelo Governo Federal. Se soubermos recuperá-la na própria experiência brasileira, a resposta à pergunta desse artigo finalmente poderá mudar.

Opinião por Marcos Jank

Professor sênior e coordenador do centro Insper Agro Global, conselheiro de empresas, palestrante e analista de agronegócio e bioenergia.

O Brasil tem políticas de Estado ou remendos imediatistas que respondem a interesses e pressões? – Estadão 

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A invasão chinesa nas máquinas agrícolas: o que aconteceu com os carros já começou no agro

“Vale a pena olhar os números com calma, porque eles contam uma história que já vimos antes”

Paulo Gala – Brasil247 – 22/8/2026

Paulo Gala é economista e professor da FGV

O que aconteceu com os automóveis está começando a acontecer com as máquinas agrícolas. E poucos no agronegócio brasileiro estão prestando atenção no tamanho disso.

Vale a pena olhar os números com calma, porque eles contam uma história que já vimos antes — e que terminou com fábricas chinesas em Camaçari e em Iracemápolis.

O recorde nos tratores

O Brasil importou 14.985 tratores apenas no primeiro semestre de 2026. É mais do que o país importou em todo o ano de 2025. O volume vindo da China cresce a 86% ao ano e já responde por 67% de tudo que entra no país nessa categoria.

Dois terços das importações de tratores do maior produtor agrícola tropical do mundo vêm hoje de um único fornecedor. Não é uma tendência incipiente. É uma mudança de patamar que já ocorreu, enquanto o setor discutia outras coisas.

Zero fábricas — por enquanto

Nenhuma montadora chinesa de tratores tem fábrica operando no Brasil hoje. Esse “hoje” é a palavra importante da frase.

A YTO já anunciou uma planta em Pernambuco. A Zoomlion mira o Centro-Oeste. A Foton Lovol negocia em Goiás. Quem acompanhou a chegada dos carros elétricos reconhece a coreografia imediatamente: primeiro testar o mercado com importação, depois montar a rede de distribuição e assistência técnica, e só então nacionalizar a produção. A sequência é sempre a mesma, e ela funciona porque cada etapa financia a seguinte.

Quando a fábrica é anunciada, a disputa comercial já foi vencida. A planta industrial é a consolidação de uma posição conquistada antes, não o começo da investida.

A vantagem de custo é estrutural

Aqui está o ponto que mais incomoda quem defende soluções puramente tarifárias: estamos falando de uma vantagem de custo de até 27% em relação à produção nacional, com descontos de 30% a 40% já praticados por marcas como a YTO.

Isso não é dumping oportunista. É escala industrial, preço do aço e custo de mão de obra jogando a favor da China. Um país que produz mais da metade do aço do planeta, que consolidou uma cadeia de componentes densa e que trata máquinas agrícolas como setor estratégico de política industrial não precisa vender abaixo do custo para ganhar mercado. Ele ganha mercado no custo.

A diferença é crucial. Contra dumping, existem instrumentos de defesa comercial. Contra vantagem competitiva estrutural, construída ao longo de duas décadas de política industrial, tarifa é anestesia — alivia por um tempo, não trata a causa.

Colheitadeiras: a fronteira mais protegida também caiu

O segmento de colheitadeiras sempre foi o mais fechado do maquinário agrícola. Exige precisão mecânica, eletrônica embarcada, rede de assistência capilarizada e confiança do produtor, porque uma quebra em plena janela de colheita custa a safra inteira. Era o fosso que separava os incumbentes dos desafiantes.

Sete fabricantes chineses já testam ou vendem colheitadeiras no Brasil. A CRCHI opera cadeia completa de colheita e beneficiamento de algodão no Mato Grosso — não uma máquina avulsa, mas o sistema inteiro.

Quando o segmento mais difícil começa a ser testado, o recado é claro: a estratégia não é entrar pela base do mercado e ficar lá. É subir a escada tecnológica.

O espelho automotivo é quase didático

Quem quiser saber como termina esse filme não precisa de bola de cristal. Basta olhar o que aconteceu no mercado de veículos.

A BYD entrou no Top 10 do mercado brasileiro de automóveis com um salto de 328% em vendas, transformou o antigo complexo da Ford em Camaçari em fábrica própria e mira 50% de conteúdo nacional. A GWM inaugurou planta em Iracemápolis e saiu do zero para disputar o pódio em poucos anos. Hoje são 15 marcas chinesas vendendo carros no Brasil, com projeções de que cheguem a 30% ou 40% do mercado de veículos leves até 2030.

Em menos de uma década, uma indústria que parecia estruturalmente estável — dominada por montadoras instaladas aqui desde os anos 1950 e 1960 — foi reorganizada. Não apenas por preço baixo, mas por preço baixo somado a tecnologia competitiva e a uma política industrial de Estado que sustentou a aposta por vinte anos até ela maturar.

O que realmente está em jogo

O ponto central é que essa já não é uma disputa de commodity barata. É tecnologia, capital e política industrial chinesa aplicando ao agro exatamente a estratégia que reescreveu o mercado automotivo — só que agora em cima do maquinário que sustenta a produção de grãos, fibra e proteína do país.

E aqui o problema deixa de ser setorial e vira macroeconômico.

Máquinas agrícolas são um dos poucos elos de alta complexidade que o Brasil ainda mantém funcionando dentro de uma cadeia produtiva na qual somos competitivos mundialmente. O agro brasileiro exporta soja, milho, carne e algodão — produtos de baixa complexidade no espaço-produto. O que agrega conhecimento tácito, capacidade de engenharia e emprego qualificado não é a lavoura em si, é a indústria que a equipa: tratores, colheitadeiras, implementos, eletrônica embarcada, agricultura de precisão.

Perder esse elo significa aprofundar o padrão que já conhecemos bem demais. Exportar o produto primário e importar o bem de capital que o produz é a definição operacional de especialização regressiva. É trocar a parte densa da cadeia pela parte rala, e depois estranhar por que a produtividade agregada não sobe e por que a indústria encolhe como proporção do PIB.

Não se trata de fechar mercado nem de proteger ineficiência. Trata-se de reconhecer que a competitividade chinesa nesse setor foi construída deliberadamente, com crédito de longo prazo, escala planejada e coordenação entre Estado e empresas. Quem enfrenta política industrial com discurso de livre mercado costuma perder — e, o que é pior, perde achando que o resultado foi natural.

O mercado automotivo brasileiro já deu essa aula. A questão é se o agro vai assistir à mesma aula duas vezes.

Diesel primeiro, elétrico depois. Vale registrar uma diferença importante em relação aos automóveis. Nos carros, a China entrou por leapfrog: pulou a etapa do motor a combustão e atacou justamente onde os incumbentes eram estruturalmente frágeis, o elétrico. No agro, a ofensiva atual é de tratores diesel convencionais, disputando no mesmo terreno tecnológico das marcas tradicionais — a YTO, afinal, é uma fabricante de motores a diesel com capacidade de 230 mil unidades por ano, e a linha vendida no Brasil vai de 75 a 175 cv. A eletrificação vem como segunda camada, não como porta de entrada: a Zoomlion já estreou na Agrishow 2026 com tratores híbridos, a XCMG apresentou equipamentos elétricos voltados ao campo, e há projetos de híbridos acima de 600 cv aproveitando o aprendizado acumulado em baterias e powertrain no setor automotivo. O recado é mais desconfortável do que parece. Eles estão ganhando participação em manufatura pura, no jogo em que os incumbentes deveriam ser imbatíveis, antes de acionar a vantagem tecnológica que já têm guardada. Quando o elétrico chegar de fato ao campo, a rede de distribuição, a assistência técnica e a fábrica em Caruaru já vão estar montadas.

A invasão chinesa nas máquinas agrícolas: o que aconteceu com os carros já começou no agro – Paulo Gala – Brasil 247 

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‘A gente não faz ciência, faz milagre’, diz a brasileira que ganhou o ‘Nobel’ da agricultura

Eleita uma das pessoas mais influentes do mundo pela revista Time, a engenheira agrônoma Mariangela Hungria lamenta falta de incentivo à pesquisa no país

Por Maria da Paz Trefaut – Valor – 21/08/2026 

Ao refletir sobre sua carreira e o caminho que a levou a ser consagrada como uma das 100 personalidades mais influentes do mundo pela revista americana Time, a cientista brasileira Mariangela Hungria é incisiva: “Gostaria de ter tido mais estímulo”, diz. “De ter encontrado mais pessoas que me apoiassem verdadeiramente.”

Hoje, seu reconhecimento internacional é incontestável. No ano passado, ela foi a primeira brasileira a receber o World Food Prize (Prêmio Mundial da Alimentação), conhecido como o “Nobel da Agricultura”, por sua pesquisa sobre fertilizantes biológicos que substituem os químicos. Mais recentemente, recebeu o Prêmio Faz Diferença, do jornal O Globo, na categoria economia, pelo trabalho em prol da produção agrícola brasileira.

Graças ao uso desses produtos, hoje adotados por 85% dos agricultores na produção de soja, o Brasil economizou US$ 29 bilhões na última safra. “Tão importante quanto isso é que deixamos de emitir 278 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera. Isso é abstrato? É o equivalente a 60 milhões de carros de porte médio rodando por um ano”, explica Hungria.

Chegar a esse patamar foi consequência de 40 anos como pesquisadora da Embrapa e da obstinação por uma carreira que, muitas vezes, teve que conviver com momentos pessoais turbulentos e dolorosos.

No fim de uma tarde fria, Mariangela Hungria, de 68 anos, chega à Le Blé – Casa de Pães, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, para tomar um lanche. Ela nunca havia estado ali e sobe ao primeiro andar acompanhada pelo gerente Roberto Silas, já conversando sobre ovos caipiras, horta e produtos orgânicos como se os dois fossem velhos conhecidos. Seus cabelos são negros, ela está maquiada e vestida com uma camisa vermelha e calças compridas pretas.

Sobre o Brasil agora ter uma mulher laureada com o “Nobel da Agricultura”, ela ri com simplicidade. “Foram muitos anos de trabalho, sou apaixonada pela microbiologia desde os oito anos, quando minha avó me deu de presente o livro ‘Caçadores de micróbios’, do microbiologista americano Paul de Kruif, escrito em 1926. Esse livro mudou minha vida, na hora decidi o que queria ser.”

Em todas as entrevistas que deu nos últimos tempos, Hungria sempre fez questão de colocar a avó em destaque como uma das personagens mais marcantes na sua formação. “Minha avó sempre me incentivou. Fez de tudo para que eu tivesse uma profissão e uma carreira”, diz. “Ela trabalhava, era professora, cuidava da casa, mas achava tempo pra mim e tinha muita paciência. Ao perceber que eu tinha essa vocação, lia livros de ciência que tinha em casa e fazíamos experiências.”

O fato de descobrir que existe um mundo que não podemos ver, povoado por seres invisíveis aos nossos olhos, não fez dela uma criança marginalizada. Lia ciência e muito Monteiro Lobato também. O livro seguinte que marcou sua infância foi a biografia de Marie Curie, a física pioneira da radioatividade. Com ele, percebeu que as mulheres podiam ser cientistas, e se isso era possível, ela seria uma delas.

Ela cresceu em Itapetininga, no interior de São Paulo. Como a mãe se separou muito cedo, Hungria foi criada por ela e pelas avós numa família em que todas as mulheres eram professoras de escola pública. “Coisa que naquela época era uma profissão de prestígio”, diz, e faz um desabafo: “Me parte o coração ver como essa profissão ficou desmoralizada”.

Sua família era de classe média, sem muitos recursos extras, tanto que quando vieram para São Paulo ela foi para o Rio Branco como bolsista para cursar o secundário e colegial. Deixou a capital mais tarde quando ingressou na Escola Superior de Agronomia da Universidade de São Paulo (Esalq), em Piracicaba, numa época em que pouquíssimas mulheres seguiam esse curso. De um modo geral, ser engenheiro agrônomo era uma subcarreira.

“Até os anos 1970 o Brasil importava alimentos e o agricultor era uma pessoa de baixa renda, com um nível educacional baixo. Havia até o estereótipo do homem do campo. Era o Jeca Tatu, o Mazzaropi, uma caricatura. E a faculdade interessava principalmente aos filhos dos  grandes proprietários, e eu não era nada disso”, lembra. Era uma menina da cidade, que escolheu essa carreira com o sonho de fazer alguma coisa para vencer a fome.

Na faculdade, a vida mudou de forma radical. Logo no segundo ano se casou e engravidou rapidamente. Teve duas filhas: Carol Hungria, 48 anos, publisher do site CH News, especializado em lifestyle, e Marcela, dez meses mais jovem e portadora de necessidades especiais.

O casamento durou pouco: talvez nem cinco anos, “mas somos super amigos até hoje”. Quando se viu sozinha com as duas meninas, ela teve que largar a unidade de microbiologia da Embrapa em Seropédica, no Rio, onde moravam, e partir para uma cidade pequena, onde pudesse encontrar assistência especializada para a filha menor. Foi assim que chegou a Londrina, deixando para trás um laboratório com uma ótima estrutura e tendo que montar um outro, a partir do zero.

Ao falar da filha, ela se emociona. “Não tenho um diagnóstico preciso da Marcela, o caso dela é uma coisa meio múltipla, ela foi muito doente. Diziam que nunca ia andar, nunca ia falar e, pra complicar, teve uma série de outros problemas. Daí chegou uma hora que desisti de classificar e falei: vamos fazer de tudo para ela se desenvolver o melhor possível.” Hungria faz uma pausa: “Nossa, ela não ia falar? Quem disse! Quando você conhecê-la, vai ver. Porque ela fala o tempo inteiro sem parar. Ela vai pra cima e pra baixo comigo”.

Diariamente, a filha a lembra de coisas que vamos perdendo ao longo da vida, como a pureza e a simplicidade. “Ninguém é mau para ela, todo mundo é lindo, todo mundo é maravilhoso. A pessoa pode estar suja, fora de moda, não importa. Ela nos lembra de coisas que um dia tivemos, como se fosse uma eterna lembrança dos valores que perdemos.”

Com a filha pequena sempre doente e a adaptação a um emprego novo, a chegada a Londrina foi permeada por problemas. “Passei por muitas, muitas, muitas dificuldades. Nossa, como eu chorei durante dias, semanas, meses. A vantagem de chegar ao fundo do poço é que a partir daí você percebe o que é realmente importante. Daí que hoje, diante de algo, já digo: deixa pra lá, isso é bobagem, não é importante. A gente transforma tanta bobagem em problema…”

O laboratório da Embrapa Soja não ficava nem no centro de Londrina, mas em Warta, um pequeno distrito. E não tinha nada. “Decidi ir pra lá como mãe, mas profissionalmente acabou por ser a grande oportunidade da minha vida. Porque criei meu laboratório, meu grupo de pesquisa, e não estava subordinada a ninguém. Isso me permitiu fazer o que eu achava que devia ser feito.”

Fertilizantes biológicos eram vistos como coisas pequenas com sentido apenas para agricultura familiar. Ela queria uma coisa grande, que funcionasse para altos rendimentos: para pequenos, médios e grandes agricultores. “Os primeiros quatro, cinco anos, foram difíceis, era preciso construir o mínimo ali. Eu tinha dado as costas para um centro famoso, onde tinha tudo. A pesquisa no Brasil, até hoje, é muito concentrada. E o dinheiro está em primeiro lugar em São Paulo, depois Minas e Rio.”

E hoje, com todos esses prêmios, isso mudou? Ela sorri. “Dinheiro mais fácil? De jeito nenhum. Nenhum dinheiro pra pesquisa é fácil no Brasil. É um horror, um sofrimento. E não tem continuidade, não tem constância. É uma eterna batalha”, diz. “Sempre digo que no Brasil a gente não faz ciência, faz milagre.”

Sua pesquisa sobre os biológicos quebrou um paradigma de que esse tipo de fertilizante só serviria para pequenos produtores. “Mostramos que era possível utilizar em uma cultura que estava crescendo muito como a soja. Agora, mostramos que também é possível utilizar no milho. Sabemos que é possível para várias culturas”, diz. “Hoje, o uso dos biológicos atinge 40 milhões de hectares no Brasil, uma escala que não existe no mundo. Sem eles estaríamos usando nitrogênio fertilizante, o mais poluente.”

A ideia de que a monocultura da soja está destruindo a terra e a diversidade no Brasil é uma velha polêmica. A agricultura salva o Brasil ou destrói?

“Quando fui para a Embrapa Soja, achava que cientificamente era tudo ruim. Tinha essa ideia de que a soja devastava e tal. Não é assim, ela é uma cultura fantástica”, diz. E explica: “O que degrada é o mau manejo da soja. A gente tem rotação de culturas, e as pessoas fazem o manejo adequado, com plantio direto. Elas sabem que se não fizerem, não vão mais conseguir produzir. E as grandes empresas querem produtividade”.

Estatisticamente, hoje temos 65% da área preservada, de floresta e biomas nativos. Somadas, todas as culturas de grãos e árvores ocupam apenas 7%. O gado, sim, é o grande problema ambiental. As pastagens respondem por 19%, ocupam 160 milhões de hectares, e 50% a 60% dessa área está em estágio de degradação. “Podemos recuperar uma parte significativa. Esse sim é nosso grande problema ambiental, ao qual quero dedicar o resto da minha vida.”

Em sua avaliação, há ainda que diferenciar agricultores de criminosos. “Aquele que quer desmatar não é agricultor, é criminoso. É aquele que diz que quer produzir e não quer produzir nada. Você encontra eles em todo lugar do país, de norte a sul, especialmente em áreas novas. O criminoso tem que ser tratado como tal. Porque hoje temos tecnologia para recuperação de pastagens e podemos dobrar a produção de todas as culturas que há no Brasil sem ter que derrubar uma árvore.”

O garçom se aproxima com o cardápio e conta a ela que a coxinha com catupiri da casa já foi premiada várias vezes como a melhor de São Paulo. Ela não vacila: “então, vamos experimentar”. E durante toda a conversa come apenas uma coxinha e toma um cappuccino. Em sua casa, a preocupação com a qualidade da alimentação sempre foi uma constante. “Temos arroz, feijão, carne e salada todos os dias.”

Aquele que quer desmatar não é agricultor, é criminoso.”

— Mariangela Hungria

Mas ela não tem uma relação amorosa com a cozinha. “Minha avó cozinhava muito bem, mas não me ensinou. Outro dia pensei nisso e cheguei à conclusão de que ela queria tanto que eu não fosse dona de casa, que não quis me ensinar… Ela sempre foi uma mulher super à frente de seu tempo e tinha essa coisa de me estimular a ser uma mulher independente.”

Com a mãe, sua relação sempre foi mais distante, e ela volta a falar da avó em vários momentos da entrevista. Inclusive a lamentar que ela não está mais presente agora, em seu reconhecimento. Além da avó, outra mulher determinante em seu caminho foi a engenheira agrônoma Johanna Dobereiner, de origem tcheca, com quem trabalhou no início da carreira.

“Com a maturidade de hoje adoraria poder conversar com elas. Acho que a doutora Johanna foi a pessoa mais feminista que conheci. Ela não tinha nenhum preconceito contra mulheres. E você sabe que muitas mulheres têm um preconceito horrível contra mulheres.”

A sucessão de premiações causou uma reviravolta na vida de Hungria. “Nunca imaginei.” O primeiro prêmio, com valor de US$ 50 mil, foi da Academia Mundial de Ciências. Agora, depois de falar com Carol, a filha mais velha, decidiu que não ficarão com o dinheiro dos outros prêmios e vão fazer um instituto, o H3. “Somos três Hungrias totalmente diferentes. Meuprêmio será para mulheres na pesquisa, o da Carol, para mulheres na comunicação, e o da Marcela, para as que tenham ações positivas para pessoas especiais.”

Além da ciência, ela gosta de plantas. Em sua casa há um jardim grande que “tem de tudo, só não tem soja”. Mas seu tempo é escasso. Trabalha muito, tem que cuidar de Marcela e lamenta o fim das videolocadoras, onde ia no fim de semana para escolher filmes. Numa de suas vindas a São Paulo descobriu a Livraria da Travessa e ficou encantada. Na adolescência, gostava muito de ler, e entre seus escritores favoritos cita Liev Tolstói e Gabriel García Márquez. “Nossa, perdi a conta de quantas vezes reli ‘Cem anos de solidão’.”

Hoje não encontra disponibilidade para ir ao cinema ver os filmes que gostaria. Em compensação, conhece todos os lançamentos infantis, aos quais leva Marcela. “Ela só gosta de desenho. Já fui no ‘Toy Story’ e agora vou ver ‘Moana’.”

No dia a dia é uma pessoa despojada, que se veste de calças jeans e botinas para ir ao campo. Mas, como a filha Carol é especialista em moda, consulta-se com ela sempre que precisa ir adequadamente vestida a uma premiação. “Quando recebi o World Food Prize, disse que queria uma roupa melhor, mas de uma estilista brasileira e mulher. Ela me levou na Gloria Coelho e compramos um terninho. O mesmo que usei novamente na festa da Time.”

Para ela, vale a máxima americana de que para preservar o planeta não devemos comprar mais do que cinco peças por ano. “Acho que compro até menos do que isso. As coisas duram tanto… sou muito cuidadosa e tenho apego a coisas antigas.”

Um de seus prazeres é tirar férias no verão e passar uma temporada na casa de praia que tem em Cumuruxatiba, uma aldeia de pescadores no sul da Bahia. Outro momento especial que cultiva é organizar uma viagem anual com toda a família para o exterior. Neste ano, o destino escolhido foi a Escandinávia.

Por último, pergunto se ela é uma mulher romântica. Primeiro, respondeque já foi. Mas logo corrige: “Sou, sou sim. Acho que não dei muito certo nos casamentos. Tive quatro grandes relacionamentos. E é impressionante a forma como a mulher apoia o homem e como ele não apoia a mulher”.

Ela reflete por alguns momentos e continua: “Todos os relacionamentos que tive foram um problema, era um boicote total. Tinha sempre coisinhas e comentários, que podem parecer simples, mas que eram de crítica permanente ao meu trabalho. Tipo: por que você precisa trabalhar e estudar tanto? Ame a mim, não a pesquisa”.

Por parte de muitas mulheres também sentiu pouco apoio. Quando engravidou, foi um escândalo na faculdade. “As pessoas me diziam: você não vai longe, não vai ser ninguém na vida.” Mas o que a mais a magoou, mais tarde, foi o preconceito contra a filha de necessidades especiais. Em ambientes profissionais não a levava porque sabia que havia uma barreira. Até que um dia resolveu abrir o jogo durante uma conferência e foi uma comoção geral.

“Muita gente pensa que recebi esses prêmios porque tive uma vida fácil. Olha, se você soubesse quantas vezes me disseram: ‘Você não vai dar em nada, você é improvável, você só faz escolhas erradas’… E tudo deu certo. Então, acho que preciso contar para as pessoas que o caminho foi difícil, mas muito gratificante. Quando recebi o World Food Prize, fiquei tão tensa, mas tão tensa, que nem curti. Na hora pensei: Deus, nunca na vida imaginei ganhar algo assim, e estar aqui como representante das mulheres e da ciência do Brasil. Se a Carol não estivesse lá pra me apoiar, acho que eu teria surtado.”

https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2026/08/21/a-gente-nao-faz-ciencia-faz-milagre-diz-a-brasileira-que-ganhou-o-nobel-da-agricultura.ghtml 

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‘AItenticidade’

Trazer o que só você pode trazer à mesa é o novo padrão-ouro da empregabilidade. De certa forma, sempre foi assim. Mas, antes, quem trazia entrega de alta qualidade, mesmo que dentro do padrão, tinha enorme valor

Por Nizan Guanaes – Valor – 18/08/2026 

Muitos anos atrás, na primeira reunião de trabalho com um cliente, ele gostou muito da ideia que apresentei. Mas fez uma ressalva: eu estou lhe pagando tanto para você resolver isso em poucos minutos? Eu respondi que aqueles poucos minutos vieram acompanhados de décadas de trabalho, toda a minha história de vida, meu veio popular, minha visão da propaganda.

Relato isso porque muita gente me pergunta como será o futuro dos jovens num mercado de trabalho saturado de inteligência artificial, apps de serviços, “bots” e “gadgets” cada vez mais potentes, inteligentes, abrangentes e muito mais baratos que o custo de mão de obra especializada.

A resposta a esse drama do século 21 é a autenticidade. Trazer o que só você pode trazer à mesa é o novo padrão-ouro da empregabilidade. De certa forma, sempre foi assim. Mas, antes, quem trazia entrega de alta qualidade, mesmo que dentro do padrão, tinha enorme valor.

Para mim, autenticidade sempre foi necessidade. Eu nasci no Pelourinho, longe dos centros de poder formal. Estudei administração na UFBA e fiz pós-graduação na imensa riqueza criativa e intelectual do povo da Bahia. Aprendi cedo que quem nasce fora do eixo não pode competir copiando. Quem imita chega atrasado. A saída é encontrar uma voz própria.

Passei a vida inteira fazendo isso. E enfrentando uma dose nada pequena de preconceito. Nunca fui o publicitário clássico, o executivo convencional, o baiano que esperavam. Minha carreira teve uma boa dose de desvios, mas hoje percebo que o que às vezes parecia defeito foi um grande patrimônio. Minha autenticidade virou meu ativo.

A inteligência artificial democratizou a competência técnica, o que é extraordinário. Hoje, qualquer pessoa entrega em minutos um bom texto, uma apresentação impecável, uma campanha estruturada. A IA escreve bem, resume bem, traduz bem, organiza bem. Mas há um problema. Quando todo mundo escreve bem, ninguém se destaca por escrever bem. Estamos entrando na era em que o texto perfeito e a apresentação impecável viraram commodities.

A comunicação muito polida começa até a despertar aversão. Reconhecer uma pessoa por trás das palavras ganhou valor. E já há um movimento curioso. Enquanto a inteligência artificial acelera a comunicação digital, as empresas investem no mundo físico. Grandes eventos voltaram a ser estratégicos. E não é só o palco principal que importa. Muitas vezes, o maior valor está nos jantares, nas conversas de corredor, no cafezinho. É assim que a confiança e a reputação são construídas e as relações deixam de ser conexões e voltam a ser encontros.

As melhores ideias aparecem numa conversa aleatória e inesperada. Nenhum algoritmo substitui um olhar, uma gargalhada ou uma boa história na hora certa. As empresas já perceberam isso. Algumas já criam guias de comunicação para impedir que executivos pareçam falar como qualquer outro executivo usando IA. O objetivo não deve ser só melhorar os textos, mas preservar personalidade, ritmo, imperfeições, identidade. Porque a (sua) voz virou patrimônio. Sempre foi, mas agora ela vale mais e talvez seja o maior agregador de valor às suas competências profissionais.

Isso vale para empresas, para marcas e ainda mais para pessoas. Contratávamos profissionais pelo currículo, e agora vamos escolher mais pelo repertório, pelo gosto, pelo julgamento, pela curiosidade, pela capacidade de conectar assuntos improváveis, pelo que nenhuma atualização de software consegue instalar.

A IA sabe quase tudo, mas nunca viveu nada. Ela não caminhou pelo Pelourinho. Não ouviu um trio elétrico atravessar Salvador. Não aprendeu a se comunicar como locutor de rádio na madrugada. A IA não errou, não tomou tombo, não recomeçou. Não teve o projeto de agência balançar quando o Collor congelou a poupança dos brasileiros. Ela não se apaixonou, não criou filhos, não levou um “não” que mudou sua vida inteira.

É dessas experiências que nasce a autenticidade. E é isso que passa a valer mais quando o resto fica barato. A inteligência artificial vai continuar evoluindo em velocidade impressionante. Nós também precisamos evoluir, mas não tentando parecer máquinas e sim tentando parecer ainda mais com nós mesmos, humanos. Por isso a brincadeira do título desta coluna, de juntar a IA com a autenticidade.

No fim das contas, o futuro pode ser uma enorme volta às origens. Porque, quando todos dominarem as mesmas ferramentas, a única vantagem competitiva que seguirá apenas sua será exatamente aquela que você passou a vida inteira construindo sem perceber: você.

https://valor.globo.com/empresas/coluna/aitenticidade.ghtml 

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Por que outros países estão investindo bilhões em cultura?

  • EUA, França, Canadá e Coreia do Sul usam incentivos fiscais para fotalecer o setor e desenvolvimento nacional
  • No Brasil, Lei Rouanet segue associada a desinformação, apesar de mover cadeias produtivas e atrair investimentos

Vanessa Pires – Folha – 21.ago.2026 

CEO da Brada (Associação Brasileira de Design Autoral)

Quando a California Film Commission anunciou a destinação de US$ 193 milhões (R$ 978 milhões) em créditos tributários para 38 produções audiovisuais, o objetivo ia muito além de incentivar novos filmes. A medida buscou manter empregos, atrair investimentos, fortalecer a economia e preservar a competitividade da indústria cinematográfica local.

O episódio é um exemplo entre muitos espalhados pelo mundo de como tratar a cultura como um ativo econômico e social. Essa visão está longe de ser uma exclusividade dos Estados Unidos. Segundo a Unesco, as indústrias culturais e criativas representam 3,1% do PIB mundial, movimentam mais de US$ 2 trilhões (R$ 10 trilhões) por ano e geram cerca de 50 milhões de empregos, empregando mais jovens entre 15 e 29 anos do que qualquer outro setor da economia.

A criatividade deixou de ser apenas expressão artística para se tornar um importante vetor de desenvolvimento, inovação e competitividade. No Brasil, entretanto, o debate sobre incentivos fiscais à cultura ainda costuma ser cercado de desinformação.

A Lei Rouanet, criada em 1991, frequentemente é apresentada como uma exceção ou um privilégio brasileiro, quando, na realidade, faz parte de um modelo amplamente adotado em diversas economias desenvolvidas.

Por meio do mecanismo, empresas e pessoas físicas podem destinar parte do imposto devido ao financiamento de projetos culturais previamente aprovados, fortalecendo um setor que emprega milhares de profissionais e movimenta uma extensa cadeia produtiva.

Em mais de três décadas, diferentes projetos receberam aporte, abrangendo produções audiovisuais, exposições, festivais, espetáculos, museus, ações de preservação do patrimônio histórico e iniciativas de formação artística.

Mais do que financiar cultura, ela contribui para descentralizar investimentos, democratizar o acesso e impulsionar economias locais. Mas basta olhar para fora para perceber que esse modelo está longe de ser uma peculiaridade brasileira.

Nos Estados Unidos, diversos estados utilizam programas de incentivos fiscais para atrair produções audiovisuais, movimentando bilhões de dólares e disputando investimentos entre si.

Já na França, a Lei Aillagon permite que empresas deduzam até 60% do valor investido em projetos culturais, respeitando limites proporcionais ao faturamento. Reino Unido e Canadá mantêm fundos nacionais voltados ao fortalecimento da produção cultural.

Já a Coreia do Sul tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos do impacto econômico da cultura. Ao longo de décadas, o país estruturou políticas públicas de incentivo às indústrias criativas que ajudaram a transformar o chamado Hallyu, a onda cultural coreana, em um dos maiores fenômenos de exportação cultural do planeta.

Apesar das diferenças, existe um consenso entre as nações: cultura não é apenas expressão artística, é também política de desenvolvimento. Ao criar mecanismos para estimular investimentos culturais, os benefícios ultrapassam o palco, as telas ou os museus.

Cada projeto realizado mobiliza profissionais das mais diversas áreas, como técnicos, produtores, cenógrafos, figurinistas, empresas de tecnologia, hotéis, restaurantes e prestadores de serviços. Trata-se de uma cadeia econômica extensa, capaz de gerar emprego, renda, arrecadação tributária e dinamizar o comércio local.

Nesse contexto, reduzir os incentivos culturais a uma simples renúncia fiscal significa ignorar seu potencial como instrumento de desenvolvimento. Países que disputam protagonismo global compreenderam que investir em cultura é investir também em educação, economia, inovação e reputação internacional.

Enquanto algumas nações ainda discutem quanto investir em cultura, outras já entenderam que a verdadeira pergunta é quanto custa deixar de investir.

Em uma economia cada vez mais baseada em conhecimento, criatividade e propriedade intelectual, fomentar a cultura deixou de ser apenas uma política cultural. Tornou-se uma estratégia de desenvolvimento econômico, geração de oportunidades e construção de futuro.

Lei Rouanet: Por que investir bilhões em cultura? – 21/08/2026 – Papo de Responsa – Folha 

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Robôs estão prestes a viver ‘momento ChatGPT’, diz CEO da Unitree

  • Pequim acelera apoio à robótica para enfrentar escassez de mão de obra
  • Disputa tecnológica com os EUA pressiona expansão externa das fabricantes

Ju-min Park/Eduardo Baptista/Laurie Chen – Folha – 20.ago.2026

Pequim | Reuters

Wang Xingxing, presidente-executivo da Unitree, empresa chinesa de robôs humanoides considerada um “unicórnio” , afirmou nesta quinta-feira (20) que o setor está caminhando para um “momento ChatGPT” para os cérebros dos robôs, depois que a estreia em grande estilo da empresa na bolsa de Xangai cristalizou as ambições da China de liderar a próxima fronteira das máquinas movidas a inteligência artificial.

As ações da fabricante de robôs humanoides mais conhecida da China caíram 11% na quinta-feira, um dia após terem disparado quase seis vezes em sua estreia no mercado, destacando o intenso entusiasmo dos investidores por um setor incipiente que conta com forte apoio de Pequim.

“Estamos caminhando em direção a um ‘momento ChatGPT’ na inteligência incorporada”, disse Wang Xingxing, fundador e presidente-executivo da startup sediada em Hangzhou, em uma importante conferência sobre robótica em Pequim.

O boom global da IA, que remodelou a economia mundial, foi desencadeado no final de 2022 pelo inovador modelo de linguagem de grande porte do ChatGPT —um momento decisivo que impulsionou a adoção em massa. Ainda não surgiu nenhum ponto de inflexão comparável para os modelos do mundo real, os sistemas físicos de IA projetados para ajudar os robôs a compreender e navegar em ambientes do mundo real.

Wang disse que o setor está se aproximando de um avanço em que os robôs poderão ser colocados em ambientes desconhecidos e realizar a maioria das tarefas por meio de instruções simples de voz ou texto.

“Esperamos que, no futuro, possamos ver um robô sendo introduzido em uma residência desconhecida e que ele consiga realizar aproximadamente 80% das tarefas com sucesso por meio de comandos de voz ou texto”, disse ele.

“É um importante ponto de inflexão para que a indústria de robótica inicie um crescimento explosivo”, afirmou.

GRANDE AVANÇO NO SOFTWARE DE ROBÔS AINDA ESTÁ A ALGUNS ANOS DE DISTÂNCIA

Ao mesmo tempo, Wang alertou que um grande salto no software de robótica poderia ocorrer dentro de dois a três anos, em um cenário otimista, ou dentro de cinco a dez anos, no máximo.

“Em comparação com o clima em torno da World Robot Conference e da espetacular abertura de capital da Unitree, Wang Xingxing mostrou-se notavelmente sóbrio em relação às capacidades atuais”, disse Georg Stieler, chefe de automação da consultoria em robótica Stieler.

A Unitree é a maior produtora mundial de cães-robôs e a segunda maior fabricante de robôs humanoides em termos de remessas, de acordo com dados do setor.

A empresa ganhou fama com apresentações impressionantes de robôs dançando e praticando kung-fu, exibidas na televisão chinesa, e vem cada vez mais implantando suas máquinas em ambientes industriais reais. Seu prospecto de IPO (oferta pública inicial) mostra que a maioria dos clientes são universidades e instituições de pesquisa.

Wang He, fundador da startup chinesa de robótica Galbot, espera que o “momento ChatGPT” do setor chegue até 2028, definindo-o como o ponto em que os robôs poderão realizar cerca de 70% a 80% das tarefas cotidianas sem treinamento especializado.

“Com o acúmulo contínuo de dados e novos avanços tecnológicos, esperamos alcançar o ‘momento ChatGPT’ para a inteligência incorporada até 2028”, afirmou ele.

UNITREE FOCADA EM MODELOS MUNDIAIS

Wang, da Unitree, disse que o maior investimento atual da empresa em termos de capital e mão de obra está nos modelos globais e que ela está “ficando para trás” na aplicação no mundo real de modelos físicos de IA.

Ele também afirmou que os humanoides ainda não têm capacidade suficiente para uma implantação em massa, apontando as limitações dos modelos de IA que orientam a tomada de decisões e as interações dos robôs como o maior desafio do setor.

Mesmo assim, Wang espera que o setor entre em uma década de rápida evolução autônoma dos robôs humanoides, à medida que o boom da IA se acelera e os modelos de linguagem de IA aprendem a se aperfeiçoar.

CHINA TEM MONOPÓLIO NO MERCADO GLOBAL DE HUMANOIDES

A China entregou mais de 40 mil humanoides somente no primeiro semestre deste ano e é responsável por 97% das remessas globais de robôs humanoides, informou uma entidade do setor de humanoides chinês em um relatório divulgado nesta quinta-feira (20).

Pequim aposta que os robôs poderão, eventualmente, substituir a mão de obra humana em tarefas repetitivas, de baixo valor agregado e em ambientes perigosos, à medida que enfrenta uma redução da força de trabalho devido ao declínio demográfico.

Embora os robôs humanoides estejam sendo gradualmente introduzidos em chão de fábrica e armazéns de logística, eles continuam sendo menos eficientes do que os trabalhadores humanos na maioria das aplicações.

Os robôs humanoides também se tornaram uma nova frente na rivalidade tecnológica entre os EUA e a China.

No mês passado, a Comissão Federal de Comunicações dos EUA proibiu futuras importações de robôs humanoides e quadrúpedes fabricados no exterior, alegando preocupações com a segurança nacional — um grande golpe para os fabricantes chineses.

Várias empresas presentes na Conferência Mundial de Robótica, em Pequim, disseram à Reuters que buscavam expandir-se para o exterior.

Unitree diz que robôs viverão ‘momento ChatGPT’ – 20/08/2026 – Economia – Folha 

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Onde estão os futuros gênios do Brasil?

Em um mundo em que ciência, tecnologia e inovação são imprescindíveis, desperdiçar mentes capazes de operar na fronteira do conhecimento é um luxo que o Brasil não pode se dar

Por Ana Maria Diniz – Valor – 14/08/2026 

O que faz de alguém um gênio? O que está por trás das mentes que criaram a Teoria da Relatividade Especial, pintaram a Mona Lisa e compuseram a Nona Sinfonia? Nada indica que dentro da cabeça de Albert Einstein, Leonardo da Vinci ou Ludwig Van Beethoven houvesse algo diferente do que há na cabeça da maioria dos mortais: uma massa acinzentada e enrugada de cerca de 1,5 quilo composta basicamente de água, gordura e proteínas. Mesmo assim, esses cérebros aparentemente “normais” deixaram obras e contribuições que quebraram paradigmas e mudaram para sempre os rumos da humanidade.

Por definição, um gênio é uma pessoa com uma capacidade mental, inteligência ou talento criativo muito acima do normal, marcada não apenas por um QI elevado (geralmente acima de 140 ou 150), mas por uma combinação de intelecto superior, criatividade, alta resiliência, curiosidade obsessiva, persistência e, principalmente, pelo impacto transformador de suas criações, descobertas ou ideias. A genialidade tampouco é um dom isolado: a aptidão natural depende de oportunidades e de um ambiente propício para florescer.

Ao contrário do que muita gente pensa, os gênios estão distribuídos na sociedade numa curva que não tem nada a ver com classe social ou condição econômica e permeiam toda a população. No Censo Escolar de 2025, foram identificados 56 mil estudantes com altas habilidades ou superdotação no Brasil. As estimativas internacionais indicam que entre 2% e 5% da população mundial apresenta essas condições, o que aponta para algo entre 900 mil e 4 milhões de jovens prodígios não reconhecidos no país. Ou seja, não estamos sequer enxergando nossos talentos.

Recentemente, demos um passo importante para consertar essa situação. Em meados de junho, o Congresso sancionou a Lei nº 15.436, que institui a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação e cria o Cadastro Nacional desses alunos. A norma define altas habilidades ou superdotação como condição do neurodesenvolvimento, caracterizada por alto potencial intelectual e capacidade de aprendizado, intensa curiosidade e profundo envolvimento em temas de interesse, frequentemente acompanhada de alta sensibilidade e intensidade emocional. Também inclui a dupla excepcionalidade (superdotação associada a autismo, TDAH, dislexia etc). Prevê ainda identificação precoce, atendimento especializado, progressão flexível e formação de profissionais.

Identificar e nutrir esses talentos não é privilégio de elite: é estratégia de desenvolvimento

Na teoria, a lei é um avanço importante. Na prática, os desafios são enormes. Houve vetos parciais ao texto, entre eles, à triagem educacional anual obrigatória e à exigência de avaliação multidimensional como condição para formalizar a identificação, sob o argumento de que gerariam burocracia e atrasariam o atendimento. Além disso, a adesão de Estados e municípios é voluntária. Pais e especialistas temem que a lei fique só no papel, como já ocorreu com previsões anteriores (por exemplo, na LDB, desde 2015) de um cadastro que nunca existiu.

É nesse contexto que chega, neste mês de agosto, o livro “Inteligência: o ativo estratégico que o Brasil não pode desperdiçar”, de João Batista Araújo Oliveira. O autor defende que o sucesso das nações depende da capacidade de identificar, formar e mobilizar indivíduos capazes de operar na fronteira do conhecimento – cientistas, engenheiros, inventores, pesquisadores e visionários que expandem setores, criam mercados e sustentam vantagens competitivas duradouras.

Um dos fatores que distingue economias inovadoras de economias dependentes é a capacidade de identificá-los precocemente e de oferecer trajetórias compatíveis com o seu potencial. Segundo Oliveira, a identificação brasileira é subjetiva e dependente de professores sem a devida capacitação.

Em qualquer lugar do mundo, estereótipos atrapalham. Superdotados não são necessariamente quietos, organizados ou “gênios em tudo”. Muitos têm desempenho abaixo de seu potencial por falta de desafio, mascaram habilidades para se encaixar ou são diagnosticados erroneamente. Por isso, países como Cingapura e Estados Unidos investem sistematicamente em identificação precoce e em programas específicos para alunos com supercapacidades.

Criança prodígio, a ex-primeira-dama americana Michelle Obama participou de um desses programas. Ela aprendeu a ler sozinha aos quatro anos, pulou o segundo ano do fundamental e, no sexto ano, já frequentava turmas avançadas. No ensino médio, foi admitida na Whitney M. Young Magnet High School, a primeira escola para superdotados de Chicago. “Na Whitney Young, era seguro ser inteligente”, desabafou Michelle em seu livro “Minha História”, de 2018.

Identificar e nutrir esses talentos não é privilégio de elite: é estratégia de desenvolvimento. 

São os estudantes de famílias vulneráveis que mais perdem quando o sistema não os enxerga. Como mostrou o economista James Heckman, investimentos precoces em potencial humano geram retornos elevadíssimos em PIB, inovação e redução de desigualdades. Em um mundo em que ciência, tecnologia e inovação são imprescindíveis, desperdiçar mentes capazes de operar na fronteira do conhecimento é um luxo que o Brasil não pode se dar.

A nova lei oferece o arcabouço institucional. O livro de João Batista Araújo Oliveira coloca o diagnóstico e a urgência em evidência. Falta agora a implementação real: formação adequada de professores, protocolos claros e acessíveis de identificação e de aceleração, e a mudança cultural para tratar a inteligência como ativo estratégico. Os gênios do futuro estão, neste instante, nas cerca de 1,2 milhão de salas de aula brasileiras – muitos deles invisíveis, entediados ou rotulados como problemáticos. Cabe a nós decidir se vamos iluminá-los ou continuar apagando os nossos talentos.

Ana Maria Diniz é fundadora do Instituto Península, que atua na formação de professores; empresária e conselheira do Todos pela Educação e Parceiros pela Educação.

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/onde-estao-os-futuros-genios-do-brasil.ghtml 

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Na Corrida dos Robôs, o Corpo Importa Mais do que o Cérebro

Junior Bornelli – Entrelinhas – 17/8/2026

O cérebro dos robôs humanoides é americano. O corpo é chinês. Diante disso, quem controlará o produto final?Nos últimos dois anos, acompanhamos em detalhe como os Estados Unidos construíram e mantiveram uma posição de liderança na inteligência artificial de software, desde os modelos de linguagem que a OpenAI e a Anthropic desenvolvem até as GPUs da Nvidia que sustentam toda a cadeia de treinamento e inferência. Essa liderança é real, é documentada e, apesar da pressão crescente dos modelos chineses, ela continua sendo o ponto de referência global em capacidade de fronteira. Mas existe uma frente dessa mesma revolução tecnológica em que a posição americana é radicalmente diferente, e onde a vantagem estrutural da China é tão profunda que simplesmente não pode ser replicada com os instrumentos que funcionaram no mundo do software. Essa frente é a robótica humanoide, e o que está acontecendo nela merece uma atenção que ainda não recebeu.

Para entender por que essa corrida é fundamentalmente diferente da corrida pelos modelos de linguagem, é preciso entender o que separa software de hardware em termos de vantagem competitiva. Um modelo de IA pode ser construído em qualquer lugar do mundo onde exista talento de engenharia e acesso a computação suficiente. Os insumos são dados, algoritmos e capacidade de processamento, nenhum dos quais depende de proximidade geográfica com uma cadeia de suprimentos física. É por isso que os Estados Unidos lideram: eles possuem os melhores pesquisadores, as melhores universidades, o maior volume de capital de risco e acesso privilegiado ao hardware mais avançado da Nvidia e da ASML. Software escala com inteligência e computação. Mas um robô humanoide não é software. Ele é um objeto físico que precisa de motores, baterias, estruturas de alumínio, sensores, atuadores, fiação, juntas mecânicas e dezenas de outros componentes que precisam ser fabricados, montados, testados e entregues. E essa cadeia de fabricação, que determina quem consegue produzir robôs em escala e a que custo, está concentrada de forma esmagadora em um único país.

A China não apenas lidera na fabricação de robôs humanoides, bem como ela domina praticamente toda a cadeia de suprimentos que os torna possíveis, uma dominância que é o resultado direto do investimento que o país fez, ao longo da última década, na construção da maior indústria de veículos elétricos do mundo. As mesmas fábricas que produzem baterias de íons de lítio para carros elétricos produzem as baterias para robôs. Os mesmos fornecedores de motores elétricos que abastecem montadoras como BYD e NIO abastecem fabricantes de humanoides como Unitree e Agibot. O alumínio que compõe a estrutura dos robôs vem das mesmas cadeias de refino que alimentam a indústria automotiva chinesa. Os sensores, os atuadores, os conectores, os parafusos… tudo está disponível, a preços competitivos, a poucos quilômetros de distância da linha de montagem. Um fabricante de robôs na China que precisa de um componente específico consegue obtê-lo imediatamente. Nos Estados Unidos, o mesmo componente pode levar dias para chegar, se estiver disponível, e frequentemente vem da própria China.

A disparidade que essa infraestrutura produz já se manifesta em escala. No ano passado, as principais empresas americanas de robótica humanoide fabricaram, segundo estimativas de analistas, algumas centenas de unidades no total. São robôs que participam de projetos-piloto em armazéns e fábricas, que ainda não estão disponíveis para compra pelo público e cujos preços refletem os custos de uma produção artesanal feita em pequenos galpões industriais. Do lado chinês, apenas a Unitree e a Agibot produziram juntas cerca de dez mil robôs no mesmo período, uma diferença de escala que se traduz diretamente em diferença de custo por unidade, e que tende a se ampliar à medida que a produção chinesa continua crescendo. A Unitree prepara uma abertura de capital em Xangai que pode avaliá-la em nove bilhões de dólares, com o apoio de bilhões de dólares em investimento estatal que o governo chinês direcionou à robótica como prioridade estratégica nacional.

A decisão do governo americano, anunciada no mês passado pela FCC, de proibir a importação de novos modelos de robôs humanoides fabricados no exterior por razões de segurança nacional revela, ao mesmo tempo, a seriedade com que Washington trata a ameaça e a limitação dos instrumentos que possui para respondê-la. A medida não menciona a China explicitamente, mas a maior parte dos humanoides disponíveis no mercado é produzida por empresas chinesas, e a preocupação declarada é com o volume de dados que esses robôs poderiam coletar ao operar em ambientes domésticos, hospitalares e industriais americanos, dados sobre rotinas, comportamentos, layouts de instalações e hábitos pessoais que, em um cenário de tensão geopolítica, representariam um risco de vigilância que o governo considera inaceitável. A proibição faz sentido como medida de proteção. Mas como estratégia de competição, ela é apenas o primeiro passo, e possivelmente o mais fácil, porque proibir a importação sem construir uma capacidade de fabricação doméstica equivalente significa apenas que o mercado americano ficará sem robôs, não que terá robôs americanos.

Empreendedores que tentam construir essa capacidade nos Estados Unidos descrevem a dificuldade de competir com uma cadeia de suprimentos que a China levou mais de uma década para construir. A mão de obra americana é significativamente mais cara, as matérias-primas fundamentais, como o lítio e o alumínio, dependem em grande parte de fornecedores chineses, e a tentativa de eliminar completamente componentes chineses da produção resulta, na prática, em produtos muito mais caros que não conseguem competir em preço. A solução que muitos estão adotando é híbrida: importar da China os componentes que já estão perfeitamente desenvolvidos, como baterias e estruturas de alumínio, e fabricar internamente apenas as peças que envolvem propriedade intelectual sensível ou que podem ser diferenciadas pela engenharia americana. É uma solução pragmática, mas que reconhece, implicitamente, que a independência total da cadeia chinesa não é viável no curto prazo.

Quando conectamos essa realidade ao que analisamos sobre a Nvidia e o GR00T, o quadro que se forma é revelador de uma divisão que pode definir a próxima década da robótica: o “cérebro” dos robôs humanoides, os modelos de fundação que planejam, decidem e controlam, é predominantemente americano, desenvolvido em laboratórios como o da Nvidia, com sua plataforma de treinamento, simulação e inferência. Mas o “corpo” que esse cérebro habita, a estrutura física com suas baterias, motores, juntas e sensores, é predominantemente chinês. A separação entre inteligência e corpo que a Nvidia projetou na arquitetura do GR00T, onde o mesmo cérebro pode servir a corpos diferentes de fabricantes distintos, pode acabar se materializando não como uma escolha de engenharia, mas como uma realidade geopolítica: cérebros americanos em corpos chineses, com todas as tensões que essa combinação implica.

Há, contudo, um contraponto que merece ser registrado com a mesma honestidade analítica, porque ele modera o alarme que os números de escala produzem. A China lidera amplamente na fabricação de robôs humanoides, mas nenhuma empresa chinesa demonstrou, até agora, uma aplicação genuinamente transformadora para essa tecnologia. Os robôs que ganharam destaque internacional participaram de apresentações coreografadas em programas de televisão e em eventos esportivos, executando rotinas previamente programadas que impressionam visualmente mas não representam autonomia real. Desenvolver robôs capazes de tomar decisões complexas em ambientes dinâmicos e imprevisíveis, o tipo de capacidade que tornaria os humanoides verdadeiramente úteis em hospitais, residências e ambientes industriais não estruturados, ainda é um desafio que nem chineses nem americanos resolveram. E é nesse desafio que a vantagem americana em software e em modelos de IA pode se tornar decisiva, porque o corpo do robô é um problema de manufatura que a China domina, mas a inteligência que torna esse corpo útil é um problema de software que os Estados Unidos, por enquanto, dominam.

Para quem lidera negócios e acompanha a evolução da tecnologia, a leitura que esse cenário impõe é de que a competição por robôs humanoides não será uma reedição da competição por modelos de linguagem, onde o campo de batalha é virtual, os insumos são dados e computação, e a vantagem se constrói com talento e capital. Será uma competição híbrida, em que software e hardware precisam convergir, e em que quem controla a cadeia de suprimentos física tem uma vantagem que nenhum algoritmo consegue substituir. A China construiu essa cadeia. Os Estados Unidos precisam decidir se vão construir a sua, a um custo que será medido em décadas e em centenas de bilhões de dólares, ou se vão aceitar, pragmaticamente, que a robótica do futuro será feita de cérebros americanos e corpos chineses. E em ambos os cenários, a pergunta que resta é a mesma que percorre todas as grandes disputas tecnológicas deste momento: quem controlará o produto final, quem controla a inteligência ou quem controla o corpo que a inteligência habita?

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IA vai inundar o serviço público como um tsunami

  • Nos EUA, casos civis feitos sem advogado subiram de 11% para 17% e petições chegam a ter 600 páginas
  • Estudo em 166 países mostra que, quando o usuário usa a IA para tentar resolver sua questão, setor não consegue atender

Ronaldo Lemos – Folha – 16.ago.2026 

Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro

O uso da inteligência artificial vai afogar o serviço público com a força de um tsunami. Isso já é visível hoje em vários países. Como a IA facilitou redigir petições e recursos administrativos, órgãos públicos estão ficando assoberbados com a quantidade de demandas que recebem.

Na Inglaterra, as escolas relatam aumento de reclamações de pais redigidas por IA. Pedidos de acesso à informação subiram 60% de 2022 a 2025. No órgão que supervisiona a polícia, ao menos um quarto dos pedidos de revisão judicial já é feito com IA.

Nos EUA, o Judiciário já está sendo tomado pela inteligência artificial. Casos civis feitos sem advogado subiram de 11% para 17%. Petições que antes chegavam com duas páginas agora chegam a ter 600, feitas por IA. Um juiz classificou o fenômeno como “ameaça existencial” aos tribunais.

Na Alemanha, o Judiciário do estado mais populoso relata aumento de 55% nos processos de urgência, em parte com petições feitas com IA. A tendência é nacional. Em alguns órgãos administrativos, há expectativa de fechar 2026 com volume de recursos até 50% acima de 2022.

Muitas dessas demandas citam leis erradas, precedentes que não existem, teorias legais inventadas. Gerar uma petição ou um recurso administrativo ficou muito barato. Só que analisar tudo continua caro e dependente de humanos. Em suma, a IA não só entope o setor público, mas transfere a ele um custo enorme.

Diante disso, o que fazer? O primeiro ponto é que há um aspecto positivo. Pessoas que nunca tiveram acesso ao serviço público agora passam a tê-lo usando IA. Parte desse fenômeno consiste na ampliação do acesso à Justiça e à administração pública, o que é positivo.

No entanto, o serviço público está despreparado para o tsunami. O diagnóstico do despreparo pode ser lido no estudo de integrantes do Banco Mundial publicado em julho de 2026, co-liderado pelo brasileiro Tiago Peixoto, chamado Radar (sigla para Readiness for AI Discovery and Agentic Reach), do qual sou um dos contribuidores.

O estudo analisou 166 países medindo os dois lados da moeda: se uma IA consegue informar corretamente o cidadão sobre um serviço público e se um agente de IA consegue chegar ao serviço e navegá-lo para resolver a questão.

Cada vez mais gente terá o primeiro contato com o serviço público por meio de uma IA. Em vez de acessar sites governamentais para renovar sua carteira de motorista, o cidadão pedirá ajuda para a IA.

O estudo constata que as plataformas de IA analisadas são bastante capazes na descrição dos serviços públicos nos 166 países. O problema vem a seguir: quando o usuário usa a IA para tentar resolver sua questão, o setor público está despreparado para atender.

A consequência é clara. O serviço público precisará se transformar por causa da IA ou será afogado por ela. E, em breve, correremos o risco de estarmos usando IA de um lado como cidadãos e, do outro, uma IA (talvez a mesma) estará processando nossas demandas no Judiciário e no serviço público.

Já era ANPD cuidando só de dados pessoais

Já é ANPD cuidando de dados pessoais, proteção a crianças e adolescentes e limites da liberdade de expressão

Já vem ANPD cuidando de tudo acima e também de inteligência artificial

IA vai inundar o serviço público como um tsunami – 16/08/2026 – Ronaldo Lemos – Folha 

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Alstom investe R$ 130 mi em 5 anos para ampliar produção de trens em SP

  • Produzir para exportar é questão de sobrevivência para empresas do setor, afirma executiva
  • Fabricante tem projetos ferroviários em andamento para Romênia, Chile e Taiwan

Marcelo Toledo – Folha – 15.ago.2026

A fabricação dos 22 trens previstos em contrato para a linha 6-laranja do Metrô de São Paulo gerou cerca de 5.000 empregos, envolveu 120 fornecedores ferroviários no país e faz parte de um movimento da Alstom nos últimos anos para ampliar a produção de trens em sua planta no Vale do Paraíba, interior paulista.

A afirmação é da executiva Suely Sola, diretora geral da Alstom Brasil, que disse que o retrato da indústria em Taubaté é resultado de um investimento de R$ 130 milhões nos últimos cinco anos para atender os mercados interno e externo. Segundo ela, produzir para outros países é questão de sobrevivência para o setor ferroviário.

Inaugurada em 2015, a fábrica conta em sua carteira com mais de 170 trens entregues (940 carros de passageiros) nos últimos três anos, para projetos nacionais e internacionais, entre eles para atender pedidos de Chile, Romênia e Taiwan.

Do total previsto para a linha 6, 14 trens já foram entregues, o mais recente deles nesta sexta-feira (14), com capacidade para transportar até 2.044 passageiros por trem.

A composição, que foi entregue no Pátio Morro Grande, na zona norte da capital, poderá atingir até 80 quilômetros por hora e é dotada de tecnologia que permitirá intervalos de cerca de dois minutos entre os trens em horários de pico.

“[Temos] Quatro trens em operação, que são dois que fazem a operação e tem dois de backup. Estamos trabalhando com o cronograma oficial da linha, a gente tinha previsão de entrega de 11 trens até setembro, que é o primeiro marco. Os demais trens até o final do ano”, disse Suely.

Segundo ela, pouco antes da pandemia de Covid-19 a fábrica em Taubaté começou a ser preparada para ser uma fábrica de trens, tanto de subúrbio quanto de metrô, e não de VLTs (Veículos Leves sobre Trilhos) —são da empresa os trens do VLT Carioca, entregues para os Jogos Olímpicos de 2016.

Desde então, atendeu projetos das linhas 8 e 9 e outros fora do Brasil, como em Bucareste, capital da Romênia, e se preparou gradativamente ampliando a planta, conforme a executiva.

“Quando você olha para a mobilidade, os projetos de mobilidade no Brasil, você vai ver que tem as altas fases e os vales incríveis. Então, se a gente não tivesse desenvolvido essa estratégia de fornecer também para fora, a gente também já teria morrido, como muitas empresas que vieram e saíram. Vieram e saíram. Por quê? Elas vieram para fabricar para o Brasil, para o mercado local, nacional. Mas isso não se sustentava. Pode até ser que de hoje em diante se sustente, vamos acreditar que sim. Mas para nós, todos os vales que nós tivemos, o que nós fizemos? A gente pôde exportar conhecimento, fornecendo toda engenharia de sinalização para projetos fora do Brasil”, disse.

As indústrias ferroviárias instaladas no país projetam fechar o ano tendo produzido mais locomotivas, vagões e carros de passageiros, mas afirmam que o desempenho poderia ser melhor se houvesse igualdade de condições em relação à concorrência da China.

A projeção da Abifer (Associação Brasileira da Indústria Ferroviária) indica que serão fabricadas 72 locomotivas, 1.900 vagões de carga e 193 carros de passageiros em 2026, ante 66 locomotivas, 1.700 vagões e 122 carros do ano passado.

Suely disse que o mercado nacional deseja que as condições “sejam justas” para todos os envolvidos nas oportunidades.

A primeira fase da linha 6, com oito estações, estava prevista para abrir apenas em outubro. No entanto a inauguração de seis delas foi antecipada para o dia 2 de julho —assim, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) participou da cerimônia, dentro do prazo permitido pela legislação eleitoral, que veta a presença de candidatos em eventos do tipo desde 4 de julho.

A previsão do governo estadual é que a linha 6 transporte cerca de 633 mil passageiros por dia quando estiver em plena operação e que o ramal reduza de uma hora e meia para 23 minutos o tempo de deslocamento entre a Brasilândia e a estação São Joaquim.

De acordo com a concessionária Linha Uni, responsável pela construção e operação do ramal, foram transportados 42.239 passageiros entre 3 e 31 de julho, média de 2.223 por dia.

A estação de maior movimento foi a João Paulo 1º, na Brasilândia (zona norte), com média de 10.861 passageiros no dia, seguida por Sesc-Pompeia (7.398), Água Branca (6.717), Freguesia do Ó (6.373), Santa Marina (5.729) e Perdizes (5.161).

Quando estiver concluída, a linha 6-laranja terá 15,3 quilômetros de extensão e 15 estações.

Alstom investe R$ 130 mi para ampliar produção de trens – 15/08/2026 – Sobre Trilhos – Folha 

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