Conflito reforça a imagem da China, no mundo em desenvolvimento e desenvolvido, como um parceiro mais estável em comparação aos EUA
Por Tej Parikh – Valor – 01/04/2026
A guerra no Irã representa uma grande ameaça para a China, maior importadora mundial de petróleo. No entanto, Pequim vem se preparando há anos para uma crise como esta e está bem posicionada para transformar o conflito em uma vantagem na corrida pela supremacia econômica mundial.
Em 2025, a China importou do Oriente Médio cerca de metade de seu petróleo e quase um terço de seu gás natural liquefeito (GNL). O país, entretanto, acumulou vigorosamente estoques estratégicos de combustíveis fósseis. Estima-se que a China tenha as maiores reservas emergenciais de petróleo do mundo, de 1,3 bilhão de barris.
De qualquer forma, o Irã já informou que embarcações ligadas a parceiros “não hostis” (o que inclui Pequim) podem cruzar o Estreito de Ormuz. Quase metade do gás importado pela China chega da Rússia e do Turcomenistão por gasodutos, em contratos de longo prazo. O Partido Comunista da China já aproveitou seu poder centralizado para restringir as exportações das refinarias do país, e poder usá-lo para conter os preços e também para migrar para fontes de energia alternativas.
A China fez grandes investimentos em eletrificação. A eletricidade representa 30% do consumo total de energia do país, cerca de 50% a mais do que nos EUA ou na Europa, o que a deixa mais protegida contra a alta dos preços internacionais do petróleo. A China já tem cerca de 35% da capacidade de geração de energia renovável no mundo, graças à sua rápida expansão nas energias eólica e solar.
Como a China conta com uma matriz energética diversificada, com inúmeros fornecedores de fontes de energia e com acesso a rotas que não passam pelo Golfo Pérsico, apenas cerca de 6% do consumo total de energia da China está diretamente exposto às interrupções no suprimento que passa pelo Estreito de Ormuz, segundo estima o Goldman Sachs.
Em resumo, a China conseguiria suportar um conflito mais longo, ao mesmo tempo que o fato de estar mais protegida contra as oscilações dos preços da energia mundial tornaria seus exportadores mais competitivos.
Graças à aposta da China em tecnologias limpas, com 35% da capacidade de geração de energia renovável do mundo, e na independência industrial de ponta a ponta, o país também poderá ter ganhos diplomáticos e econômicos duradouros
Graças à aposta da China em tecnologias limpas e na independência industrial de ponta a ponta, o país também poderá ter ganhos diplomáticos e econômicos duradouros com a guerra.
Primeiro, o conflito colocou em evidência a importância de depender menos da importação de hidrocarbonetos. As firmas chinesas possuem pelo menos 70% da capacidade de produção mundial de importantes tecnologias verdes, como componentes para a energia solar, baterias e veículos elétricos. O país também domina a extração e o refino dos elementos de terras raras usados nesses componentes.
Por isso, os investidores se apressaram a comprar ações de empresas chinesas ligadas a energias limpas, antecipando-se ao aumento da demanda mundial por fontes renováveis. O valor de mercado das principais fabricantes chinesas de baterias aumentou mais de US$ 70 bilhões desde que os EUA e Israel atacaram o Irã.
Além disso, como alguns países dependem dos recursos do Oriente Médio, a China pode se posicionar como fornecedora de última instância, tendo em vista seu estoque de combustíveis fósseis e de materiais industriais críticos. O país também é um exportador, em termos líquidos, de petróleo refinado (Taiwan, por exemplo, já recusou uma oferta de ajuda energética feita por Pequim).
A China é o segundo fabricante mundial de fertilizantes. Embora tenha limitado as exportações para reforçar a segurança interna, poderia atender a países cujo setor agrícola esteja em dificuldades. Também tem reservas estratégicas de enxofre, um elemento fundamental para o processamento de metais e a nutrição de plantas, cujo suprimento passa em grande medida pelo Estreito de Ormuz.
O país também avançou muito no esforço para reduzir a dependência em relação às importações de hélio, depois da recente descoberta de uma grande reserva local e das notícias de inovações na área de purificação. O suprimento de elementos químicos provenientes do Catar é vital para a indústria de chips da Ásia.
Uma guerra mais demorada também poderia fortalecer as cartas de Pequim antes do encontro de cúpula planejado para maio entre os presidentes da China, Xi Jinping, e dos EUA, Donald Trump, segundo Agathe Demarais, pesquisadora sênior no centro de estudos European Council on Foreign Relations. “Muitos dos mísseis, caças de combate e outros armamentos que os EUA precisam em seu esforço de guerra funcionam com terras raras produzidas na China. Mas os EUA têm apenas estoques para cerca de dois meses”, disse ela.
As sólidas relações da China com os países do Golfo Pérsico e o histórico chinês em obras de infraestrutura permitem que suas empresas estejam em posição privilegiada para reconstruir a região após a guerra, acrescentou Demarais. “Eles podem fornecer financiamento e materiais para reativar portos, instalações de energia e usinas de dessalinização”.
Os esforços de Pequim para elevar o status internacional do yuan também podem ser impulsionados pela guerra. A tendência de afastamento para longe do petróleo, negociado em dólares, e de aproximação às fontes de energia locais e de tecnologias verdes chinesas terá um papel importante. O Irã também estaria em negociação com alguns países para permitir a passagem de navios, desde que os pagamentos sejam feitos em yuan.
“O conflito pode ser o catalisador para uma erosão do domínio do petrodólar e para os princípios do ‘petroyuan’”, diz Mallika Sachdeva, do Deutsche Bank. A guerra de Trump poderia normalizar as vendas de fontes de energia em outras moedas que não o dólar.
O conflito reforça a imagem da China, no mundo em desenvolvimento e desenvolvido, como um parceiro mais estável em comparação aos EUA. Ainda na semana passada, o premiê da China, Li Qiang, reuniu mais de 70 CEOs do mundo no Fórum de Desenvolvimento da China para apregoar a confiabilidade do país e de suas cadeias de suprimentos. A percepção favorável da China em comparação aos EUA está, de fato, aumentando, segundo dados de pesquisa exclusivos da Morning Consult.
A economia da China não emergirá ilesa. À medida que a guerra continua, o país enfrentará custos cada vez maiores, mais escassez de suprimentos e o risco de novos racionamentos. No cenário de um conflito prolongado, uma profunda recessão mundial afetaria a demanda por suas exportações. Parceiros estrangeiros também se mostrarão cautelosos quanto a desequilíbrios comerciais e à possibilidade de se tornarem dependentes demais em relação ao país.
No entanto, aqueles que esperam ver a guerra enfraquecer o status de superpotência da China – um ponto de vista comum entre o pessoal do Maga – estão errando feio. O foco no longo prazo, a diversificação e a agilidade de Pequim tornam o país singularmente resiliente e bem posicionado para explorar novas oportunidades. (Tradução de Sabino Ahumada)
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