País obteve superávit de US$ 202,6 bilhões no comércio de serviços prestados por meios digitais
Por Assis Moreira – Valor – 02/08/2026
É correspondente do Valor em Genebra desde 2005. Cobriu 28 vezes o Fórum Mundial de Economia e numerosas conferências ministeriais em dezenas de países.
No recente exame da política comercial da Índia, um dos países com maior crescimento do mundo, os membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) procuraram entender a ascensão indiana no setor de serviços e na economia digital global.
No ano fiscal de 2024-2025, as exportações indianas de bens e serviços atingiram o recorde de US$ 825,3 bilhões. O comércio de serviços já representa 47% das exportações totais do país. E o que chamou a atenção foi que somente nos serviços prestados por meios digitais a Índia obteve um superávit extraordinário de US$ 202,6 bilhões no ano passado — e a tendência é de expansão acelerada desse segmento.
A economia digital da Índia cresce a um ritmo duas vezes superior ao da economia como um todo e deve representar um quinto do PIB até 2029. Em 2022/23, respondeu por 11,7% do PIB (US$ 402 bilhões) e empregou 14,7 milhões de trabalhadores, o equivalente a 2,5% da força de trabalho.
Sem surpresa, a promoção do comércio transfronteiriço na economia digital aparece como uma nova área prioritária para Nova Deli. As exportações de serviços prestados por via digital aumentaram quase 90% em valor nos últimos anos. Os serviços comercializados internacionalmente por meio de redes de computadores — incluindo serviços financeiros, de informática e profissionais, entre outros — são considerados bastante competitivos.
Os serviços de software e os serviços profissionais e de gestão representam cerca de 65% das exportações totais de serviços indianos. Os principais clientes são os Estados Unidos, o Reino Unido, a Alemanha e a Irlanda.
Nesse cenário, a Índia consolidou sua posição como o quinto maior exportador mundial de serviços prestados por via digital. Globalmente, essas exportações atingiram US$ 5,26 trilhões em 2025, um aumento de 10%. Os Estados Unidos permanecem como o maior exportador, com US$ 915 bilhões (15,5% do total mundial), e também o maior importador, com US$ 490 bilhões (11,2% das importações globais). O Brasil subiu uma posição, tornando-se o 26º maior exportador mundial, mas ainda com uma modesta participação de 0,6%.
Entre os fatores que explicam a crescente digitalização das exportações de serviços da Índia destaca-se a disponibilidade de mão de obra qualificada a custos competitivos, que permite a empresas globais se estabelecerem no país para atender mercados estrangeiros à distância. Além disso, a computação em nuvem, as plataformas digitais e as ferramentas de colaboração remota reduziram significativamente a necessidade de proximidade física entre prestadores e consumidores de serviços.
Uma explicação para o sucesso indiano no segmento inclui a rápida adoção da infraestrutura digital pública, com a chamada “trindade JAM” — formada pelo programa Jan Dhan de contas bancárias, pela identificação biométrica Aadhaar e pela conectividade móvel —, além da Interface de Pagamento Unificada (UPI) e das soluções do India Stack.
Segundo relatório da OMC, a interoperabilidade é uma característica inerente ao India Stack, um conjunto de interfaces abertas de programação de aplicativos (APIs) e de bens públicos digitais. Empresas estrangeiras podem participar desse ecossistema oferecendo serviços ou concorrendo em licitações públicas relacionadas ao programa.
O governo indiano adotou um plano de longo prazo, de 25 anos (2022-2047), denominado Viksit Bharat, de Índia Desenvolvida. A estratégia prevê transformar o país em uma economia autônoma, inclusiva, inovadora até 2047, quando será celebrado o centenário da independência. Atualmente, a Índia continua sendo uma economia de renda média-baixa, com PIB per capita de US$ 2.671 no exercício de 2024/25. Para alcançar o status de país de alta renda até 2047, a Índia precisaria sustentar um crescimento real do PIB de cerca de 8% ao ano. É um desafio do tamanho do país. Mas pelo menos os indianos sabem para onde querem ir.
Além da expansão do setor de serviços, impulsionada pela competitividade digital, a Índia quer elevar sua participação nas exportações mundiais de mercadorias de 1,8% em 2024 para cerca de 10% até 2047. Para estimular as exportações, mantém diversos programas de isenções, reembolsos e incentivos fiscais.
Para superar gargalos estruturais, o governo lançou iniciativas como o Make in India, a Política Nacional de Manufatura e o Programa Nacional de Desenvolvimento de Corredores Industriais.
O Programa de Incentivo à Produção (PLI) quer fortalecer a indústria manufatureira por meio de incentivos vinculados ao desempenho. A iniciativa foi ampliada para 14 setores, incluindo automóveis e autopeças, têxteis, aços especiais e módulos fotovoltaicos solares. Empresas nacionais e estrangeiras podem participar, desde que cumpram critérios de produção e investimento mínimo.
A Índia tornou-se o segundo maior produtor mundial de telefones celulares e o quarto maior fabricante de automóveis. A produção de equipamentos eletrônicos aumentou seis vezes desde 2014/15, enquanto as exportações do setor cresceram oito vezes. A indústria farmacêutica indiana fornece cerca de 20% dos medicamentos genéricos consumidos no mundo e ocupa o terceiro lugar em volume de produção e o 11º em valor. Já a fabricação de componentes ligados às energias renováveis expandiu-se em ritmo excepcional, segundo a OMC.
Importantes obstáculos afetam o desenvolvimento do setor manufatureiro. Entre eles estão o elevado custo dos insumos — em parte decorrente das tarifas de importação —, os altos custos de equipamentos, a infraestrutura industrial ainda insuficiente, a dependência de transferência de tecnologia, entraves regulatórios à atividade empresarial e as dificuldades de acesso a terrenos para projetos industriais e de infraestrutura.
Durante a revisão da política comercial, vários membros da OMC defenderam que a Índia exerça um papel “mais construtivo” nas negociações multilaterais. O país bloqueou importantes acordos multilaterais no passado e continua se opondo agora a iniciativas plurilaterais — nas quais participam apenas os membros interessados —, inclusive sobre comércio eletrônico, apesar de ser um dos principais beneficiários desse segmento.
O governo indiano respondeu que, com a revolução digital ainda em curso, é necessário compreender melhor as dimensões “complexas e multifacetadas” das questões relacionadas ao comércio eletrônico.
Quase paralelo ao exame da Índia na OMC, jovens manifestavam em Nova Deli para denunciar fraudes nos exames universitários. Seriamente contestado pela primeira vez desde sua reeleição em 2024, o primeiro-ministro Narenda Modi demitiu o ministro da Educação. Para os jovens, os concursos para entrar nas grandes escolas e de função pública são o principal mecanismo de mobilidade social.
Para certos observadores, a economia da Índia pode estar crescendo a um ritmo saudável, incluindo na área digital, mas ainda oferece pouca esperança à sua juventude. – os menos de 25 anos representam 40% da população.
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