O que para muitos brasileiros parece comum costuma causar surpresa em turistas e imigrantes acostumados a modelos de saúde bem diferentes
Por Luís Fernando Correia – Estadão – 07/07/2026
Em junho do ano passado, o jornalista Terrence McCoy, correspondente do Washington Post no Rio de Janeiro, estava de férias em Paraty quando a tampa do porta-malas do carro se soltou e caiu sobre sua cabeça. Sangrando, tonto, ele desmaiou. E, enquanto era levado de ambulância, teve, nas palavras dele, “um pensamento teimosamente americano”: “Quanto isso vai me custar?” Seis horas depois, com tomografia, raio-X do crânio e seis pontos na cabeça, veio a resposta: nada. McCoy morava no Brasil há seis anos, sempre usava a rede privada, e aquele foi seu primeiro contato com o Sistema Único de Saúde (SUS). O espanto virou reportagem no jornal americano.
Esse não é um caso isolado. Tem uma enxurrada de estrangeiros gravando vídeos abismados com a mesma descoberta: “Fui atendido no Brasil e não paguei nada”. Para nós, isso é rotina. Para eles, é quase um choque civilizatório. E vale a pena entender por que a reação deles é um espelho do que a gente construiu e naturalizou.
A criação do SUS e seus princípios
O SUS nasceu na Constituição de 1988, com aquela frase que virou princípio: “A saúde é direito de todos e dever do Estado”. Antes disso, o Brasil era outro país. Só quem tinha carteira assinada e contribuía para a Previdência tinha atendimento garantido – na prática, eram cerca de 30 milhões de pessoas. O resto dependia de caridade, de Santa Casa, ou pagava do próprio bolso. Quem não tinha, não era atendido.
Em 1990, a Lei 8.080 organizou o sistema sobre três princípios que vale guardar: universalidade (atende todo mundo); integralidade (cuida da pessoa inteira, e da vacina ao transplante); e equidade (investe-se mais onde a necessidade é maior). Não é tratar todo mundo igual. É tratar de forma desigual os desiguais, para reduzir distâncias.
O SUS nasceu na Constituição de 1988 e se baseia em três princípios: universalidade, integralidade e equidade.
O que impressiona no relato do McCoy não é só o “custo zero”. É que ele, jornalista experiente, foi honesto dos dois lados. Escreveu, sim, que a saúde no Brasil é um direito consagrado na Constituição, e que os 215 milhões de brasileiros, mais os residentes estrangeiros, têm direito a atendimento gratuito no maior sistema público de saúde do mundo. Só que não transformou isso em cartão-postal: ponderou que o sistema está longe de ser perfeito, com filas longas para ver especialistas, falta de recursos, greves frequentes e hospitais sobrecarregados na pandemia. Mas fechou com uma frase que eu queria que mais brasileiros ouvissem: foi atendido com dignidade, mesmo sem plano e sendo estrangeiro – e isso diz muito sobre a ideia de civilização que um país escolhe defender.
E os números dão lastro ao espanto dele. Hoje, 76% da população brasileira — de um total de 213 milhões de pessoas – depende diretamente do SUS. São 2,8 bilhões de atendimentos por ano, com cerca de 3,5 milhões de profissionais. Em Estados como Roraima, Amapá e Piauí, a cobertura chega perto de 100%.
E cabe um olhar para além do volume de atendimentos. O Brasil tem a maior rede pública de transplantes do mundo, alcançando 30 mil procedimentos em 2024. Tem o maior programa de vacinação da América Latina, que erradicou a poliomielite em 1994. E a mortalidade infantil caiu de 22 para 12 mortes a cada mil nascidos vivos entre 2000 e 2023.
Existem outros sistemas universais no mundo, e alguns excelentes: o NHS britânico, o canadense, os europeus. O Reino Unido, aliás, inspirou o nosso. Mas há uma diferença de escala que muda tudo. Nenhum desses países combina, ao mesmo tempo, o tamanho populacional do Brasil, a extensão continental e a desigualdade que o SUS enfrenta. O NHS atende cerca de 68 milhões de pessoas num território menor que o Pará. O Canadá tem 40 milhões de habitantes, mas com um dos maiores PIBs per capita do planeta. O SUS atende mais de 200 milhões, em uma nação de dimensões continentais, com uma fração do orçamento por habitante desses países e ainda leva atendimento à Amazônia, ao sertão, à terra indígena.
Por isso se diz que temos o maior sistema universal do mundo. Não que seja o melhor em cada indicador: não é, e seria desonesto afirmar isso. Mas nenhum outro país oferece cobertura universal e gratuita nessa escala, nessa geografia, e com esse grau de desigualdade para vencer. E, para dar dimensão do contraste: mais de 800 milhões de pessoas no mundo gastam pelo menos 10% do orçamento familiar com saúde. Cerca de 4,6 bilhões seguem sem acesso a serviços essenciais. O turista que se espanta ao não pagar a conta está reagindo a algo real. Afinal, em boa parte do planeta, adoecer é um risco financeiro sério.
Há poucos dias, uma influenciadora americana do Alasca, Jesseka Martin, ficou 12 dias internada em um hospital público do Rio de Janeiro. Ou seja, não falamos de um atendimento rápido de pronto-socorro, mas sim do sistema sob pressão real, dia após dia. Ainda no leito, antes mesmo da alta, ela gravou um vídeo. Disse que, como americana, não sabia o que esperar, mas que, desde o primeiro dia, foi tratada com respeito, atenção e carinho pela equipe. E fez uma comparação que dói: nos Estados Unidos, ela sente que o paciente é tratado como cliente, numa relação fria. No SUS, disse ela, todos ali a tratavam como uma pessoa, e não como uma cliente. Guardem essa frase. Porque ela aponta para algo que nenhuma estatística captura: não é só o “de graça”. É o modelo. Um sistema onde você é cidadão com direito, e não consumidor com fatura.
Agora, para não cair no ufanismo: o SUS tem problemas graves e conhecidos. A fila de espera para atendimento com especialistas e realização de cirurgia eletiva é o maior deles. O subfinanciamento é crônico. Há desigualdades brutais de qualidade entre regiões — o SUS de uma capital não é o SUS de um município pequeno do interior.
Celebrar o sistema não é fingir que está tudo resolvido. É reconhecer o que ele entrega (apesar de tudo) e defender que precisa de mais recursos, não de menos.
Então, da próxima vez que você vir um estrangeiro emocionado com o atendimento gratuito no Brasil, seja um jornalista do Washington Post ou uma influenciadora do Alasca, lembre-se de que o espanto deles é um espelho. Mostra o valor de uma coisa com a qual a gente convive todo dia, mas esquece de enxergar. O SUS é imperfeito, subfinanciado, injusto em muitos lugares. E, ainda assim, é uma das construções mais generosas e ambiciosas que este País já fez. Vale defender, vale melhorar. E vale, de vez em quando, olhar com os olhos de quem vem de fora e se impressiona.
Opinião por Luís Fernando Correia
Médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNIRIO), especialista em Clínica Médica e Terapia Intensiva com MBA em Gestão de Saúde pelo Ibmec – RJ e possui Executive Certificate – MIT (Boston, USA). Atua como comentarista em rádio, TV e internet.
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