ChatGPT perde espaço para rival Claude na tela dos executivos

Profissionais identificam na IA da Anthropic funções que vão além do chatbot: plataforma é capaz de executar tarefas complexas nos negócios

Por Bruno Romani – O Globo – 05/04/2026 

Depois de algum tempo experimentando as possibilidades de ferramentas como ChatGPT, Gemini e Copilot, altos executivos e empresários brasileiros têm um novo amor na era da inteligência artificial(IA): o Claude. Nos últimos meses, muitas conversas entre esses profissionais na cúpula das empresas têm sido sobre descobertas de novas funções da ferramenta da Anthropic que permitem o uso da tecnologia na execução de tarefas complexas, como monitoramento de negócios e programação, o que está gerando uma espécie de novo encantamento tecnológico entre executivos.

— Eu estou “viciada” em Claude. Acordo e vou dormir falando com ele — diz Manoella Neves, de 30 anos, cofundadora da startup Kobi.

Ela não está sozinha. No Vale do Silício, nos Estados Unidos, o fenômeno ganhou até nome: “Claude-pilled”. Ele descreve o momento em que profissionais percebem que a ferramenta digital não serve apenas para “conversar”, como a maioria das pessoas faz ao usar chatbots de IA, mas “pensa” e executa tarefas.

Para muitos desses profissionais, o Claude está funcionando como porta de entrada para o conceito de agentes de IA, programas com capacidade de realizar tarefas de maneira autônoma, com pouca ou nenhuma supervisão, permitindo automações que antes não eram possíveis. Esse é considerado o próximo estágio na era da IA. É o que tem conquistado Manoella:

— Na Kobi, eu cuido de negócios e da captação de investimentos. Então, sou responsável por toda a parte de receita da empresa. São duas cadeiras gigantescas das quais tenho de dar conta, e o Claude me ajuda a potencializar.

As principais formas como ela utiliza a ferramenta incluem priorização de leads (potenciais clientes), análise de dados e gargalos, gestão de vendas e automação de processos. Para isso, a executiva criou funções específicas dentro do Claude, fornecendo informações detalhadas sobre o perfil de cliente ideal e sobre o modelo de negócios da companhia, além de dar ao sistema acesso a dados da startup. Segundo Manoella, a ferramenta ocupa posições reais na empresa, que precisaria ter uma equipe humana quatro vezes maior para realizar o mesmo nível de entrega. Atualmente, a Kobi tem cinco funcionários.

Foco corporativo

Mesmo que a descoberta do Claude tenha esse tipo de impacto, o fenômeno é novo e acompanha a própria evolução do carro-chefe da Anthropic, que sempre teve o público corporativo como principal alvo. A ferramenta foi lançada em 2023 no formato de chatbot, como era o ChatGPT. Em fevereiro de 2025, ganhou uma versão voltada para programadores, o Claude Code. Ainda que use os mesmos grandes modelos de linguagem (LLMs) acessíveis pela versão chat, o Code foi treinado especificamente para entender lógica de programação complexa.

No entanto, alguns profissionais perceberam que o sistema funcionava para tarefas mais amplas, como organizar arquivos, compilar pesquisas e redigir documentos. Ou seja, descobriram que o Code poderia se tornar um assistente digital, realizando diferentes funções dentro de empresas. Mas havia um detalhe: o Code opera com uma interface de linha de comando que lembra o antigo MS-DOS, o que exige que o usuário saiba digitar comandos técnicos em vez de apenas clicar em botões. Ou seja, ele era pouco amigável.

Assim, a equipe da Anthropic usou o Code para construir o Claude Cowork, com o objetivo de tornar o “cérebro” da ferramenta mais acessível para uma base mais ampla de clientes. Ele foi lançado em janeiro deste ano, em caráter de teste, e está disponível como aplicativo para macOS (sistema operacional dos computadores Mac, da Apple) e Windows, em planos que variam de US$ 17 a US$ 200 (R$ 88 a R$ 1.030 mensais).

Personalidade

Para a IA atuar em diferentes ocupações, os executivos têm à disposição um recurso chamado skill, que permite configurar o Claude para atuar em papéis específicos. É o que faz Marco Andolfato, cofundador da TBO, ecossistema de soluções voltado ao mercado imobiliário:

— Com skills, você pode pedir para o Claude atuar como um engenheiro de software. Quando você adiciona isso, ele identifica algumas palavras-chaves e se comporta da maneira que você determinou.

Andolfato, de 32 anos, tem mais de dez agentes rodando em paralelo, que executam tarefas de automação, curadoria de notícias do mercado imobiliário, disparo de e-mails e análise de performance de clientes. Assim, ele diz que consegue reduzir custos e manter enxuta a operação da companhia, que conta com 15 pessoas atualmente:

— O Claude é uma ferramenta absurda. Com ele você não precisa entender sobre códigos. Você precisa ter o repertório necessário para conversar com ele — diz o empresário. — Eu era heavy user (usuário intensivo) do ChatGPT, mas cancelei as assinaturas de todas as outras IAs depois do Claude.

O avanço no mercado corporativo é um dos grandes trunfos da Anthropic contra sua maior rival, a OpenAI, criadora do ChatGPT, para a qual esse sucesso todo é um pesadelo. A empresa de Sam Altman, que levantou US$ 122 bilhões em uma rodada de investimentos na semana passada e atingiu o valor de mercado de US$ 852 bilhões (cerca de R$ 4,4 trilhões), tem quase o mesmo nível de receita da Anthropic, com avaliação estimada em US$ 380 bilhões (R$ 2 trilhões). A OpenAI tem receita anualizada de US$ 25 bilhões, e a dona do Claude, de US$ 20 bilhões.

Com 300 mil clientes corporativos, a Anthropic se tornou um espelho para a reorganização da OpenAI. Segundo o Wall Street Journal, a dona do ChatGPT comunicou a seus funcionários que é hora de focar no mundo corporativo e em ferramentas de programação, o que significa abandonar outros projetos. Uma prova disso foi o cancelamento da Sora, a IA de geração de vídeos da OpenAI que impressionava tanto pela qualidade quanto pelo custo de operação: US$ 1 milhão por dia. A Anthropic, por exemplo, nunca teve uma IA de vídeos, devido ao alto custo.

Produtividade turbinada

Mesmo quem trabalha perto das grandes empresas envolvidas na revolução da IA se surpreende com a capacidade do Claude. É o caso de Sérgio Vital, 39, diretor de produtos de IA na Dell nos EUA:

— No começo do ano, sentei com minha esposa para fazer revisão de despesas. Mandamos uma fatura do cartão de crédito para o Claude, que fez um ótimo dashboard. Funcionou e eu mandei todas as faturas do ano e pedi para que a IA agisse feito um conselheiro financeiro. Eu me empolguei. O ChatGPT nunca me daria isso.

Da vida pessoal para a vida profissional, ele conta que a adoção do Claude foi um pulo. Ele passou a fazer automações, mapeando processos internos, como a extração automática de dados de arquivos PDF diretamente para planilhas de Excel. Também passou a usar o assistente para programar testes de projetos em apenas uma noite.

— O Claude aumentou a minha produtividade dez vezes, em alguns casos 100 vezes. Quando eu comecei a comparar o ChatGPT com o Claude, vi que as respostas eram completamente diferentes — diz Vital, que tem analisado vulnerabilidades em sistemas de IA, focando em riscos de segurança como a “injeção de prompt”, risco de manipulação da ferramenta por comandos de usuários externos.

A empolgação inicial de executivos brasileiros é uma pista do potencial da ferramenta, que por enquanto ainda tem baixa adoção no país. Um ranking com 116 países divulgado pela Anthropic em março aponta o Brasil na posição 61, abaixo de Colômbia e Jamaica, num grupo com adoção “intermediária baixa”, levando em conta o tamanho da população. No entanto, a atual corrida tecnológica não para de surpreender e nada impede que novas coqueluches no mundo da IA surjam.

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Entregador chinês narra exaustão física e emocional do trabalho em delivery

  • Hu Anyan virou best-seller na China com o registro de seus trabalhos precarizados
  • Autor detalha custos escondidos como o preço de pausar dois minutos para o banheiro

Victoria Damasceno – Folha – 3.abr.2026 

Correspondente na Ásia, é baseada em Pequim, capital da China

Pequim

Viver em Pequim significa escorar-se em entregas. A sensação é que qualquer produto pode ser entregue, seja uma refeição pronta, seja uma roupa, seja um scooter (sim, a moto). Assim, circular pela cidade também exige atenção, uma vez que os entregadores com seus capacetes amarelos, azuis ou laranjas, seguindo a cor da plataforma à qual pertencem, dominam o trânsito.

Não à toa, mercados físicos mal sobrevivem, e a cidade tem a fama de abrigar comércios que abrem e fecham em questão de poucos meses.

É nesse contexto que Hu Anyan escreve seu primeiro livro, um compilado das memórias que acumulou em trabalhos precarizados no país, em especial como entregador de plataformas online.

Em “Faço Entregas em Pequim – Memórias de um Trabalhador”, lançado no Brasil pela Record, o autor detalha rotinas extenuantes de mais de 70 horas semanais batendo nas portas dos clientes, lidando com os poucos benefícios sociais oferecidos pelos empregadores, o pagamento que mal cobria as contas e a falta de descanso adequado.

“O tipo de pessoa que eu era dependia mais do ambiente em que eu estava do que da minha natureza. Na verdade, já naquela época eu percebia que a situação no trabalho estava me transformando aos poucos. Eu ficava mais impaciente, mais irritado, menos responsável”, escreve Hu.

O livro, que retrata a realidade de quem atua na engrenagem do gigante comércio eletrônico chinês, nasceu de um blog criado por Hu durante a pandemia para registrar seu cotidiano. O que ele não esperava é que o projeto se tornaria viral e, mais tarde, suas histórias seriam publicadas como um livro que viraria best-seller na China.

De um lado, argumentam que a voz de Hu expõe com simplicidade a realidade de muitos tipos de trabalho. De outro, que o autor traz um relato pessoal que evidencia as dinâmicas dos empregos precarizados a que muitos ainda são submetidos.

Hu, porém, não refletiu longamente sobre a tensão entre trabalho, desigualdade e mobilidade social quando decidiu compartilhar suas memórias.

“Só depois da publicação, quando comecei a ser questionado sobre isso, passei a refletir mais sobre o tema. Pessoalmente, vejo o livro como um memorial centrado nas minhas experiências profissionais. Talvez algo entre autobiografia e documentário social”, diz à Folha.

O autor expõe que teve de aguentar dias de trabalho não remunerado para, talvez, conseguir uma colocação em uma empresa de entregas. Mostra que parar para comer ou ir ao banheiro dependia de um cálculo sobre quanto dinheiro seria perdido com aquela pausa.

Revela detalhes que muitas vezes escapam a quem utiliza esse tipo de serviço —como o fato de que os entregadores arcam com os prejuízos em grande parte das ocorrências. Um desses casos lhe rendeu uma perda de 1.000 yuans (cerca de R$ 750).

“Por exemplo, como meu minuto valia meio yuan, ir ao banheiro me custava 1 yuan, mesmo que o sanitário público fosse de graça, porque eu gastava dois minutos. Almoçar levava 20 minutos —metade deles só esperando a comida ficar pronta—, ou seja, 10 yuans. Se um prato feito custasse 15 yuans, o custo total do meu almoço seria 25 yuans, um luxo que eu não podia me dar”, escreve.

Hu conta que, ao publicar a obra, ficou surpreso com o desconhecimento dos clientes sobre o nível de automação da indústria da qual são consumidores. Muitos acreditam, diz ele, que o trabalho desempenhado nas madrugadas por trabalhadores braçais já seja feito por máquinas.

“Alguns leitores ficaram chocados ao descobrir que eu trabalhava no turno da noite separando encomendas em uma empresa de logística. Eles não sabiam que esse tipo de trabalho físico pesado ainda existe nas operações logísticas modernas.”

O autor opta por não identificar parte das empresas onde trabalhou, citando apenas algumas participantes do mercado. As mais conhecidas de delivery, como a Meituan —dona do braço brasileiro Keeta—, acabam ficando em segundo plano, já que sua experiência se resume à entrega de produtos comprados por outras plataformas.

A obra não se limita, porém, ao período em que Hu atuou como entregador. O chinês reúne relatos pessoais de 19 empregos em diferentes localidades.

Além de Pequim, apresenta ao leitor passagens em que trabalhou em Xangai como faz-tudo em uma loja de conveniências ou auxiliando na venda de bicicletas. O registro pessoal se mantém ao longo de todo o texto, evidenciando que, apesar das diferenças entre as colocações, a exaustão física e emocional e a baixa remuneração são, quase sempre, o denominador comum.

Faço Entregas em Pequim – Memórias de um Trabalhador

  • Preço R$ 79,90 (252 págs.)
  • Autoria Hu Anyan
  • Editora Record
  • Tradução Amilton Reis

Entregador escreve sobre a exaustão em atuar no delivery – 03/04/2026 – Economia – Folha

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FT: Wall Street alerta que guerra levará a crise energética longa, e analista fala em ‘apocalipse do petróleo’

Para analistas, há poucos sinais de uma rápida resolução do conflito no Oriente Médio, e escassez de oferta logo deixaria o mercado sem combustíveis de transporte e outros produtos

Por Jamie Smyth e Myles McCormick, Valor/Financial Times – 03/04/2026

Wall Street alertou que os preços do petróleo vão subir acentuadamente à medida que a guerra dos EUA no Irã e o fechamento prolongado do Estreito de Ormuz interrompem as exportações do Oriente Médio por meses.

Operadores e analistas disseram, nesta sexta-feira (3), que havia poucos sinais de uma rápida resolução do conflito, que tem abalado os mercados e elevado o preço do petróleo Brent para acima de US$ 100 por barril. A escassez de oferta logo deixaria o mercado sem combustíveis de transporte e outros produtos, acrescentaram, à medida que a crise se espalha para a economia mais ampla.

Natasha Kaneva, analista do J.P. Morgan, disse, em nota: “Até o fim da próxima semana, esperamos que os cortes na oferta de petróleo bruto se aproximem de 12 milhões de barris por dia, tornando o déficit altamente visível nos mercados físicos.”

“O mercado enfrenta uma escassez aguda de produtos – diesel, combustível de aviação, [gás liquefeito de petróleo] e nafta – que simplesmente não podem ser consumidos porque não estão disponíveis.”

O RBC Capital Markets afirmou que espera que os preços do petróleo superem o pico de US$ 128 atingido poucas semanas após a Rússia lançar sua invasão em larga escala da Ucrânia em 2022 e ultrapassem o recorde de cerca de US$ 147 registrado em 2008.

“Estamos revisando nossa estimativa de duração da guerra com o Irã e os impactos simultâneos nos preços do petróleo”, disse Helima Croft, chefe global de commodities do RBC. O conflito pode “entrar bem pela primavera”, acrescentou.

O Goldman Sachs estima que os fluxos através do Estreito de Ormuz caíram para 600 mil barris por dia, abaixo dos níveis normais superiores a 19 milhões – próximo da produção total de petróleo dos EUA.

Os alertas surgem enquanto a guerra entra em sua terceira semana, com o presidente dos EUA, Donald Trump, dizendo que Washington tem “munição ilimitada” e poderia continuar lutando contra o Irã “para sempre”.

Teerã retaliou lançando ataques contra infraestrutura energética em todo o Golfo e efetivamente fechando o Estreito de Ormuz, a estreita via marítima por onde normalmente passa um quinto do fornecimento de petróleo e gás natural liquefeito.

Um ataque de drone iraniano nesta sexta-feira (3) provocou caos no distrito financeiro de Dubai, enquanto países europeus buscavam abrir negociações com Teerã para retomar os fluxos através do estreito.

“Apocalipse do petróleo”

“Fechar o Estreito de Ormuz deveria ser o apocalipse do petróleo”, disse Jim Krane, do Baker Institute da Universidade Rice. “Pode ficar muito pior do que já está.”

O petróleo Brent, referência internacional, subiu cerca de 40% desde que Trump iniciou a guerra. Os preços de tudo, de combustível de aviação a diesel, dispararam na Ásia, Europa e América do Norte. Nos EUA, o preço da gasolina atingiu US$ 3,63 por galão nesta sexta-feira, aproximando-se do patamar crítico de US$ 4 após 13 dias consecutivos de alta.

O J.P. Morgan afirmou que o mercado de petróleo já está sentindo o impacto físico da interrupção de oferta causada pelo fechamento do estreito, apesar dos esforços de Washington e seus aliados para evitar uma crise economicamente prejudicial.

O governo Trump tentou acalmar os mercados propondo escoltas navais e seguros emergenciais para petroleiros que navegam pelo estreito, além de suspender sanções ao petróleo russo e se juntar a outros países do G7 em uma liberação recorde de petróleo de reservas estratégicas.

Teerã alertou sobre petróleo a US$ 200

Mas o novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, emitiu mensagem desafiadora, na quinta-feira (2), declarando que as forças militares do país manteriam o estreito fechado enquanto busca aumentar sua vantagem contra os EUA e Israel. Teerã alertou o mundo para se preparar para petróleo a US$ 200.

“O novo líder supremo não parece disposto a negociar até extrair um preço mais alto para restabelecer a dissuasão”, disse Daleep Singh, que atuou como vice-conselheiro de segurança nacional para economia internacional no governo de Joe Biden.

Países de toda a Ásia estão entre os mais afetados pelas interrupções de oferta, pois dependem de energia e outras importações que passam pelo estreito. A Austrália disse nesta sexta-feira que liberaria reservas domésticas de combustível para conter possíveis faltas de abastecimento e compras por pânico.

“Preços mais altos de energia vão começar a afetar o comportamento do consumidor”, disse Ben Cahill, pesquisador sênior do Center for Strategic and International Studies. “As pessoas vão abrir mão de algumas viagens não essenciais, seja de avião ou por estrada.”

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Com o mote de ‘cidade de 15 minutos’, Paris virou o grande laboratório urbano

  • Conceito valoriza vida local para que ninguém precise gastar muito tempo para acessar suas atividades cotidianas
  • Novo prefeito Emmanuel Gregoire se elege com mesma plataforma de Anne Hidalgo de tirar carros da rua e privilegiar áreas verdes

Mauro Calliari – Folha – 3.abr.2026 

Administrador de empresas pela FGV, doutor em urbanismo pela FAU-USP e autor do livro ‘Espaço Público e Urbanidade em São Paulo’

No dia 22 de março, Emmanuel Gregoire foi eleito prefeito de Paris, pegou a bicicleta número 90157 da Velib, o serviço gratuito de bikes, e foi celebrar pedalando pela noite parisiense. No dia seguinte, entusiastas criaram uma conta no X só para encontrar a tal bicicleta usada pelo prefeito eleito. Ela já havia sido usada por mais de 20 pessoas nas horas depois da posse e promete ser uma estrela das redes.

O gesto de usar uma bicicleta de aluguel e não uma limusine ou um carro blindado é, evidentemente, simbólico. A prefeita anterior, Anne Hidalgo, quando assumiu em 2014, prometeu transformar a cidade e adotou o mote da “cidade de 15 minutos”. Gregoire foi seu vice-prefeito e, apesar de ela ter apoiado outro candidato da esquerda, promete dar continuidade e ampliar as reformas que modificaram a paisagem da capital francesa.

A cidade de 15 minutos

O conceito da cidade de 15 minutos é valorizar a vida local e garantir que ninguém precise mais do que 15 minutos a pé ou em bicicleta para acessar suas atividades cotidianas: a escola, o posto de saúde, a boulangerie, o parque, o centro cultural, o trabalho e o lazer.

A ideia não é nova, ela tem raízes na Unidade de Vizinhança, uma ideia do começo do século 20, mas a prefeita Anne Hidalgo encontrou em Carlos Moreno*, um professor franco-colombiano, o entusiasmo para criar seu plano de governo, que ela definiu como um verdadeiro “choque de proximidade”.

Alguns urbanistas torcem o nariz para o apelo mercadológico do nome. Um deles, Alain Bertauld, diz que Paris já é uma cidade de 15 minutos e que a Prefeitura não tem ingerência sobre negócios privados. A ideia também pode gerar reações inflamadas —anos atrás, na Inglaterra, houve até uma patética marcha dos mal-informados de plantão contra a fake news de que as pessoas seriam proibidas de saírem de seus bairros se a cidade de 15 minutos fosse adotada.

O fato é que a ideia se expandiu, surgiu até um sub-slogan para a “metrópole de 30 minutos” e a Prefeitura de Paris mostrou que a qualidade de vida pode, sim, melhorar quando se mexe bem no espaço público.

O que mudou

Quem andou por Paris nos últimos tempos certamente percebeu nas ruas o efeito das mudanças.

Ruas tomadas pelos carros, como a importante Rue de Rivoli ou a Rue de Vaugirard, abriram espaço para ciclovias, calçadas maiores e prioridade para o transporte público. Hoje, as bicicletas já ultrapassaram os carros em número de viagens na região central. SUVs pagam taxa extra para circular no centro.

Calçadas cinzas estão sendo refeitas com mais árvores e áreas verdes. Mais de 60 mil vagas de carro devem dar lugar a jardins de chuva. O Sena está mais limpo, a via Georges Pompidou cede espaço a uma enorme área de lazer e a praia parisiense é um sucesso.

As maiores mudanças aconteceram ao redor das escolas infantis. Ruas tiveram velocidade reduzida ou até foram fechadas para estimular os alunos a ir e voltar a pé.

A poluição sonora caiu. Com menos carros e mais árvores, há 50% menos dióxido de nitrogênio no ar. Estima-se 30% a menos nas mortes causadas por poluição atmosférica.

As mudanças nunca vêm sem oposição. Menos espaço para carros sempre gera reações de motoristas e moradores, mas a estrutura de transporte público de Paris dá conta da maior parte dos deslocamentos. Com uma divisão de votos entre distritos mais ricos e mais pobres, não há vida fácil para nenhum gestor público, mas o projeto passou no crivo eleitoral, com a eleição de um prefeito comprometido com as mudanças.

É melhor não pensar na cidade de 15 minutos como um mantra, mas como um bom conceito, que pode ser adaptado por gestores em todo o mundo. No Brasil, poderíamos pensar num “choque de urbanidade”, transformando bairros e principalmente periferias com mais verde, mais calçadas, estimulando o comércio local e aumentando o acesso aos serviços públicos e ao transporte público.

*Para quem tiver interesse, sugiro o livro de Carlos Moreno “A cidade de 15 minutos”, lançado no Brasil no ano passado pela Editora Bei.

Com ‘cidade de 15 minutos’, Paris virou laboratório urbano – 03/04/2026 – Mauro Calliari – Folha

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IA vai mudar empresas, não só empregos

Um possível resultado é que a tecnologia dará continuidade ao processo de achatamento das organizações, permitindo que elas terceirizem cada vez mais mão de obra

Por Diane Coyle – Valor – 19/02/2026 

Muitas pessoas temem que a Inteligência Artificial (IA) possa provocar um “apocalipse dos empregos”. A reunião deste ano em Davos disparou os alarmes a respeito das implicações da tecnologia para o emprego, ao mesmo tempo em que os recentes anúncios de cortes de postos de trabalho em setores de colarinho branco foram vistos por muitos como os primeiros sinais da tempestade por vir.

Por outro lado, os impactos gerais da IA nas empresas não receberam nem de perto a mesma atenção. Embora, de acordo com maioria das pesquisas confiáveis, a maioria das firmas até agora não tenha aderido à IA, é provável que a continuidade na adoção venha acompanhada de uma grande reorganização nas empresas. Isso porque a IA é uma tecnologia da informação que afeta os processos de tomada de decisão.

As ondas anteriores de tecnologias digitais vistas a partir dos anos 1990 transformaram as empresas de várias formas. Avanços computacionais e nas comunicações deram sustentação à internet, que depois de tornou móvel com a chegada dos smartphones e das tecnologias de rede sem fio. Isso permitiu a mudança de uma produção de integração vertical para cadeias de suprimento distribuídas internacionalmente e a mudança de um sistema de hierarquias nas empresas para um “sem camadas” hierárquicas.

Sem dúvida, mudanças nas regulamentações e nas políticas de governo ajudaram na ascensão da produção globalizada e no impressionante crescimento do comércio de componentes entre países. No entanto, essas mudanças não teriam sido possíveis sem as inovações tecnológicas.

Outra consequência da digitalização tem sido a ascensão dos modelos de negócios baseados em plataformas, que usam ferramentas algorítmicas para intermediações entre fornecedores e clientes, formando amplas redes logísticas em infraestrutura digital. Plataformas guiadas por dados e algoritmos já operam em muitos setores e, em muitos casos, passaram a dominar seus mercados, tendo transformado tanto os padrões de emprego quanto os de consumo.

A questão agora é como a IA vai rearranjar as empresas ainda mais. Em 2025, na Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), Vivek Mohindra, vice-presidente sênior e assessor especial do vice-presidente do conselho de administração e diretor operacional da Dell Technologies, argumentou que as “capacidades organizacionais” são a fonte das vantagens competitivas contínuas de uma empresa (sendo o principal ativo intangível da Dell a sua cadeia de suprimentos). No entanto, a IA, acrescentou Mohindra, vem mudando as capacidades que importam mais e tornando-as difíceis de mensurar.

Alguns setores parecem ser particularmente vulneráveis às rupturas provocadas pela IA. Vários comentaristas já notaram o potencial da tecnologia para automatizar empregos de nível básico em setores como os de contabilidade, advocacia e finanças. De forma similar, empresas de tecnologia vêm usando cada vez mais seus próprios modelos de IA para reduzir o tempo e o custo do desenvolvimento de softwares e sinalizando que no futuro menos programadores de computador serão necessários.

No entanto, se a mão de obra nos níveis básicos das empresas for enxugada, como as empresas garantirão que os futuros funcionários adquiram a experiência necessária? Por exemplo, há evidências emergentes de que usar IA para escrever os códigos de programação compromete a obtenção de habilidades pelos trabalhadores humanos.

Se a mão de obra nos níveis básicos das empresas for enxugada, como elas garantirão que os futuros funcionários adquiram experiência necessária? Há evidência de que usar IA para escrever os códigos de programação prejudica a obtenção de habilidades pelos trabalhadores

A IA generativa também vai reconfigurar as estruturas das empresas. Um possível resultado é que a tecnologia dará continuidade ao processo de achatamento das organizações, permitindo que elas terceirizem cada vez mais mão de obra. Sam Altman, da OpenAI, chegou a prever a possibilidade de um “unicórnio” (startups avaliadas em US$ 1 bilhão) formada por só uma pessoa. Agentes de IA poderiam atenuar as fricções inerentes às negociações entre diferentes entidades e monitorar cadeias de suprimentos complexas.

No entanto, alguns economistas preveem que a IA generativa voltará a trazer uma maior centralização das decisões das organizações, pois ela terá a capacidade de capturar o conhecimento “tácito” incorporado na percepção e na prática humana – conhecimento do qual todas as empresas dependem.

Considere um pequeno exemplo: o engenheiro de manutenção que trabalhava no metrô de Londres e percebeu que as rodas dos vagões da linha Victoria precisam de um pouco mais de graxa em razão de seus trilhos atipicamente curvos. Quando esse funcionário se aposentou, esse know-how desapareceu, e os trens da linha Victoria começaram a quebrar com mais frequência à medida que suas rodas sucumbiam ao desgaste.

Conhecimentos tácitos como o do engenheiro de manutenção raramente são escritos ou ensinados formalmente. Ainda assim, se eles estiverem refletidos nas ações repetidas dos trabalhadores humanos, novas aplicações de IA podem ser capazes de capturar esse know-how e codificá-lo.

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Estamos perdendo competitividade. E agora?

Germano Aguiar Vieira – Revista Opiniões – 

Diretor Florestal da Eldorado Brasil

Produtos de origem florestal fazem parte do dia a dia das pessoas desde o início da humanidade. Desde sua utilização como combustível para fogo, coisa que ainda fazemos hoje em dia, até suas aplicações mais recentes em produtos de alta tecnologia como curativos, cosméticos e alimentos. Há também suas utilizações mais tradicionais, como produção de celulose, para indústrias de papéis e embalagens, geração de madeira serrada e painéis de madeira, direcionados para móveis e construção civil, produção de carvão vegetal, ambos para cocção de alimentos e como biorredutor na siderurgia.

Em contrapartida, apesar da importância dos produtos de origem florestal na história da humanidade, a cada dia novas alternativas surgem para substituir a madeira em diversos mercados, desde novas tecnologias para construção civil a opções de geração de energia.

Este cenário fez com que a demanda por madeira a nível global (Quadro1) permanecesse praticamente estável nos últimos 20 anos, com um discreto incremento de apenas 0,7% ao ano, impulsionado principalmente pelo aumento da demanda por celulose química no período, que cresceu aproximadamente 1% a.a.

Esta estabilidade na demanda global acaba sendo refletida nos preços de comercialização de produtos do setor florestal, que permaneceu muito estável entre 2010 e 2020, atingindo seu máximo em 2022 durante o auge da pandemia, mas já mostrando sinais de retração em 2023 e 2024. (Quadro2)

Entretanto, a estrutura de mercado destes produtos também vem mudando ao longo do tempo. Hoje, a árvore plantada no Mato Grosso do Sul pode ser transformada em celulose em São Paulo, exportada para a China para virar papel, para então ser utilizada na embalagem de um celular que será vendida Reino Unido. Outra árvore plantada em Santa Catarina pode ser levada a uma serraria no Paraná, virar tábuas de madeira que serão usadas numa cerca nos Estados Unidos, enquanto a serragem gerada foi transformada em pellets que irão virar aquecimento residencial na Alemanha. Isso significa que o local onde a floresta será plantada não é mais determinado pelo mercado consumidor, mas sim pela localização onde é mais barato de ser produzido.

Neste mesmo período, vemos uma mudança significativa na origem da madeira consumida no mundo. Nos anos 2000, a América do Norte era disparadamente o maior produtor de toras de madeira no mundo, representando 38% do share global. (Quadro 3) Entretanto, desde 2007 eles perderam esta posição e vêm caindo ano após ano. Esta fatia de mercado vem sendo absorvida pela Ásia e América do Sul ao longo dos anos, principalmente em função da alta competitividade de custos nestas regiões.

Uma das principais vantagens que estes continentes possuem para conseguir capturar esta fatia de mercado é a sua maior produtividade florestal, que, aliada a menores custos de produção, proporciona um ambiente extremamente competitivo. (Quadro 4).

Entretanto, para o Brasil, este cenário vem sofrendo alterações ao longo dos anos. Como exemplo, o preço dos fertilizantes aumentou quase 300% neste mesmo período. (Quadro 5)

Fertilizantes são apenas um dos muitos custos envolvidos na produção florestal. Anualmente, a IBA divulga seu indicador de custos florestais, que compreende a evolução de todos os fatores que afetam o setor, desde salários, preço de fertilizantes, mudas, herbicidas, arrendamento de terras, combustível etc. 

Este indicador mostra que entre 2016 e 2020, o País possuía um aumento discreto de custos, entretanto, após a pandemia, os custos relacionados à atividade florestal dispararam. Contudo, no sentido contrário, as produtividades florestais neste mesmo período apresentaram uma queda significativa. (Quadro 6)

A combinação destes fatores representa uma potencial perda de competitividade brasileira frente ao mercado mundial de produtos de madeira, ocasionando uma pressão nos produtores florestais brasileiros.

A madeira é o insumo mais relevante no nosso principal produto florestal de exportação, a celulose de mercado, e esse custo representa valores acima de 50% em todos os produtores do mundo e, por isso, é o grande item a ser melhorado se queremos nos manter competitivos, como sempre fomos. 

Veja os detalhes da composição do  Custo Caixa no Quadro 7.

Em cima de tudo isto, temos mais um desafio crescente à frente, o clima. Quando olhamos o histórico climatológico no vale da celulose, Mato Grosso do Sul, que é um dos maiores produtores de floresta do Brasil, é possível identificar uma redução na pluviosidade média anual da região, sendo que nos últimos 8 anos, apenas um deles atingiu a média histórica da região, que é de 1220 mm de chuva anual. (Quadro 8)

O Brasil ainda é líder mundial em produtividade de florestas plantadas de eucalipto, com médias de 30–45 m³/ha/ano em muitas regiões. Mas os custos da terra, logísticos e operacionais têm reduzido essa vantagem quando somos comparados com outros países produtores, principalmente em alguns países da Ásia. 

Para compensar essa distorção, temos de rever nossos esforços para aumentar rapidamente a produtividade de nossas florestas, e minha melhor aposta seria na biologia molecular, genética, fisiologia e ciência de dados. Com aplicação desse conhecimento, poderíamos conseguir um novo salto de produtividade e sustentabilidade. 

Vamos explorar caminhos como a metabolômica (seleção precoce e redução de risco), a metagenômica (menor uso de fertilizantes), a poliploidia (maior biomassa), o melhoramento genético rigoroso (ganho genético a médio e longo prazo) e o OGM (ganho genético acelerado, salto de produtividade, resistência a pragas) e transformar as florestas de eucalipto.

A Tecnologia da Árvore representa a evolução natural da silvicultura brasileira. Se no passado a revolução foi silvicultural, o futuro será genômico, metabólico e microbiológico.

O eucalipto deixa de ser apenas uma cultura florestal de alta produtividade e passa a ser um organismo modelado com precisão científica, capaz de responder aos desafios climáticos, industriais e ambientais do século XXI. A floresta do futuro já começou — e ela nasce no DNA da árvore. 

ILUSTRAÇÃO:

1. DEMANDA MUNDIAL DE MADEIRA: de 2000 à 2024

2. ÍNDICE DE PREÇOS DE EXPORTAÇÃO DOS PRINCIPAIS PRODUTOS (2016 = 100): de 2001 à 2024, envolvendo Celulose (azul), Madeira serrada (amarela) e Painéis de madeira (vermelho).

3. SHARE MUNDIAL: de 2000 à 2024, envolvendo Europa (azul), América do Norte (laranja), Ásia (verde), América do Sul (azul claro) e Outros (liláz).

4. PRODUTIVIDADE MÉDIA DO EUCALIPTO: envolvendo Brasil, CHina, América do Sul, Sudeste da Ásia, Moçambique, Oceania, Europa, Russia, Escandinávia, Países Bálticos e Canada.

5. PREÇO DOS FERTILIZANTES (US$ por tonelada): de 2000 à 2026: 

6. ÍNDICE DE CUSTOS FLORESTAIS (vermelho) versus PRODUTIVIDADE MÉDIA (azul): de 2016 à 2024. 

7. COMPOSIÇÃO DO CUSTO CAIXA – BHKP –  FOB FÁBRICA (USD/t): comparando Madeira (verde), Quimicos (bordoux), Energia (cinza) e Custos Fixos (verde claro), envolvendo Indonésia, Brasil, Chile/Uruguai, China, Países gerais da África e outros paises da Ásia, Leste Europeu, Japão, Ibéria, Canadá, Bélgica/França, Suécia, Finlândia, Estados Unidos e Média Ponderada.

8. PRECIPITAÇÃO ANUAL (barras em azul) – CLIMATOLOGIA (vermelho) – PERCENTUAL DE DESVIO (azul): de 2001 à 2025

 Estamos perdendo competitividade. E agora?

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Inovação patina no Brasil com juro alto e baixo crescimento

O governo tem de indicar sua estratégia de desenvolvimento, algo diferente de tornar disponíveis os recursos e ignorar a eficácia seu destino

Por Editorial Valor – 30/03/2026 

O Brasil continua patinando em inovação e pesquisa e desenvolvimento (P&D), como revela a mais recente Pesquisa de Inovação Semestral (Pintec), do IBGE. Em 2024, a taxa de inovação das empresas industriais com 100 ou mais pessoas ocupadas no Brasil foi de 64,4%, terceira queda consecutiva e a menor taxa desde 2021, quando estava em 70,5%. Essa queda coincide com um período de forte elevação da taxa Selic, que saiu de 2% em dezembro de 2020 no auge da pandemia de covid-19, para 7,75% no fim de 2021 e 13,75% no fim de 2022, o que desestimulou o investimento das empresas.

A perspectiva para este ano não é das melhores diante da instabilidade global provocada pela guerra dos EUA e Israel contra o Irã. Apesar do peso do fator externo, o fraco desempenho do país em inovação é resultado principalmente de problemas crônicos domésticos que desestimulam as empresas a investirem na criação de produtos e processos originais. Entre os entraves há ineficiência na elaboração de políticas públicas que fomentem o ambiente de inovação no país, resultando em um mercado com pouca exposição à concorrência externa, excesso de burocracia para as empresas acessarem instrumentos públicos de apoio e para registro de patentes, oferta limitada de profissionais de ciências e engenharia e, principalmente, instabilidade econômica.

A pesquisa do IBGE, que investiga a dimensão e o perfil dos recursos voltados para a inovação no Brasil, corrobora os dados de outra pesquisa, o Índice Global de Inovação (IGI), da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), de setembro de 2025. Em ambas, o país aparece praticamente estagnado há um bom tempo nas posições intermediárias do ranking, com pequenas alterações entre um ano e outro. 

Em um momento que a incorporação da inteligência artificial em todas as áreas promete gerar transformações profundas na atividade econômica, com ganhos significativos na produtividade e rentabilidade das empresas, o Brasil arrisca perder novamente o bonde do desenvolvimento. O investimento em P&D é essencial para que uma empresa incorpore uma nova tecnologia em seu sistema produtivo ou para renovar seus produtos – tanto pela inovação pioneira quanto pela imitação seguidora.

Um dos fatores que desestimula a inovação e P&D no Brasil é o excesso de proteção do mercado interno. Enquanto as empresas não sentirem necessidade de inovar, por pressão competitiva, pouco será mudado. Também é preciso sair do viés de oferta que caracterizou as iniciativas das políticas públicas das últimas décadas, como isenção de impostos e crédito subsidiado. A inovação precisa ser um imperativo para a estratégia de uma empresa. Mas ela precisa ver potencial de lucratividade no mercado para se arriscar e, para isso, é preciso haver crescimento econômico sustentável.

Com uma das taxas de juro reais mais altas do mundo, de mais de 9%, inferior apenas à da Turquia, e que tende a permanecer elevada diante da deterioração do cenário externo, já se antecipa que o Brasil crescerá menos que os 2,3% de 2025. Por serem mais ativas na busca de novos mercados e mais expostas à competição externa, as grandes empresas são as que mais realizam investimentos em P&D no Brasil. Em 2024, as companhias com 500 ou mais pessoas ocupadas concentraram 87,4% das aplicações nessa área, com aumento de 84,6% em relação a 2023, segundo a Pintec. Logo, elas registraram a maior taxa de inovação, chegando a 75,4% no grupo.

Vale lembrar que P&D não é sinônimo de inovação, mas uma atividade desenvolvida pelas empresas para chegarem a aprimoramento de produtos e/ou de processos de negócio, e que nem sempre vai levar à um novo produto ou processo. Porém, o retorno da inovação compensa o risco do investimento. Pesquisa inédita da Confederação Nacional da Indústria (25 de março), mostra que entre as empresas que realizaram atividade de inovação nos últimos três anos, 38% relatavam que obtiveram aumento na produtividade como principal resultado, seguido por acesso a novos mercados (21%) e redução de custos (19%).

No IGI, o Brasil caiu de uma modesta 47ª posição em 2011 para o 52º lugar em 2025, e ainda perdeu a liderança regional para o Chile – uma economia muito menor que a brasileira e com uma base industrial mais estreita. Segundo os dados do IGI, o gasto com educação no Chile e no Brasil são equivalentes, de 5% e 5,5% do PIB, respectivamente, em 2021. Porém, enquanto no Chile 21,38% do total de graduados em 2022 eram das áreas de ciências e engenharia, no Brasil esse percentual foi de 16,27%.

Com oferta maior de capital humano de qualidade, em 2024, o emprego intensivo em conhecimento – que pagam salários melhores – correspondia a 33,9% da força de trabalho no Chile, ante 25,13% no Brasil. Há algo errado quando o governo gasta R$ 310 bilhões em  renúncias fiscais e subvenções em duas décadas e não sai do lugar em produtividade, apontam Victor Prodonoff Jr e Hugo Resende (Valor, 18/3). A alta direção das empresas têm de dar prioridade, comandar e guiar o processo. O governo tem de indicar sua estratégia de desenvolvimento, algo diferente de tornar disponíveis os recursos e ignorar a eficácia do seu destino.

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The Economist: Dietas e canetas emagrecedoras deixam empresas de alimentos em situação delicada

Companhias de alimentos embalados perdem valor no S&P 500; estudo aponta que remédios para emagrecer podem reduzir em bilhões as vendas de snacks na próxima década

Por The Economist – 29/03/2026

Há quase um século, a improvável combinação de uma empresa de margarina e uma fabricante de sabão criou a Unilever, um dos maiores conglomerados do mundo. Agora, ela está sendo desmembrada. Em 20 de março, a empresa britânica anunciou que está estudando a venda de seu portfólio restante de produtos alimentícios, que inclui a maionese Hellmann’s, as sopas Knorr e o Marmite, para a McCormick, uma fabricante americana de especiarias, após ter se desfeito de sua divisão de sorvetes no ano passado. Isso deixaria a empresa focada em produtos de higiene pessoal e limpeza doméstica.

Os últimos anos têm sido difíceis para os fabricantes de salgadinhos, pastas e outros produtos alimentícios industrializados. O valor das empresas de alimentos embalados no índice S&P 500 caiu um terço em relação ao pico em meados de 2023, mesmo com o índice como um todo tendo subido três quintos. O setor teve um desempenho superior durante o aumento da inflação pós-pandemia, período em que conseguiu repassar os custos crescentes aos consumidores – e até superá-los. Entre 2021 e 2024, as grandes marcas de alimentos aumentaram seus preços nos Estados Unidos em um total de 11 pontos porcentuais acima da inflação, segundo analistas do banco de investimentos TD Cowen.

Isso, no entanto, os deixou vulneráveis ​​à concorrência. Os consumidores passaram a optar por marcas próprias mais baratas de varejistas como Costco e Aldi, bem como de novas empresas. A Goodles, uma marca de macarrão com queijo lançada em 2020 e endossada pela atriz Gal Gadot, já conquistou 6% do mercado americano. Isso tem sido uma má notícia, em particular, para a Kraft Heinz, que no ano passado anunciou que se dividiria. Seu novo CEO, que assumiu o cargo em janeiro, suspendeu a separação para primeiro consolidar a empresa.

Isso não será fácil. A guerra com o Irã e a consequente alta nos preços da energia aumentaram a possibilidade de uma nova onda de inflação. Já existem preocupações de que a indústria enfrentará um aumento no custo das embalagens plásticas. Aumentar os preços para os consumidores, cuja paciência já foi testada, pode se mostrar difícil.

A pressão sobre a indústria também está aumentando devido ao crescente interesse dos consumidores por uma alimentação saudável. As buscas no Google relacionadas a alimentos ultraprocessados ​​aumentaram 30 vezes em todo o mundo desde o início de 2022, impulsionadas por ativistas como Robert F. Kennedy Jr., secretário de saúde dos Estados Unidos.

Em janeiro, cinco Estados americanos proibiram os beneficiários de vales-alimentação federais de usá-los para comprar doces e outros itens de valor nutricional duvidoso. Vários outros devem seguir o mesmo caminho. E o governo americano não é o único a travar uma guerra contra as grandes empresas alimentícias. Em janeiro, os órgãos reguladores britânicos anunciaram a proibição da publicidade de alimentos não saudáveis ​​online e antes das 21h na televisão.

Há também o impacto de medicamentos para emagrecer, como Wegovy e Zepbound, que estão se espalhando rapidamente pelos Estados Unidos e outros países, e não apenas entre os obesos. Uma pesquisa publicada no ano passado pela EY, uma empresa de serviços profissionais, examinou a mudança nos padrões de gastos de consumidores que já utilizam esses medicamentos e concluiu que eles podem eliminar um total de US$ 12 bilhões em vendas de salgadinhos nos Estados Unidos na próxima década, cerca de 3% do total. E, embora a maioria dos usuários atualmente viva em países desenvolvidos, versões genéricas estão começando a ser lançadas na Índia e em outros mercados do Sul Global, que os executivos das empresas já consideravam uma fonte de crescimento futuro.

As grandes empresas alimentícias estão cientes das dificuldades que têm pela frente. Muitas das maiores empresas do setor desenvolveram novas linhas de produtos voltadas para consumidores preocupados com a saúde. E quase todas nomearam um novo diretor executivo desde o início de 2025.

Isso inclui a Nestlé, a maior delas, que no mês passado anunciou que também venderia sua divisão de sorvetes. Entre outras coisas, a empresa suíça está apostando em refeições congeladas saudáveis. Em 23 de março, a Danone, gigante francesa do setor lácteo que se beneficiou da crescente popularidade do iogurte, anunciou a aquisição da Huel, fabricante britânica de bebidas proteicas para substituição de refeições. Para a Unilever, no entanto, a hora da refeição está chegando ao fim.

The Economist: Dietas e canetas emagrecedoras deixam empresas de alimentos em situação delicada – Estadão

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Nvidia quer ser a fábrica da era da IA e se prepara para gerar US$ 1 trilhão até 2027

No GTC 2026, Jensen Huang, fundador e CEO da Nvidia, trocou a linguagem dos chips pela da produção industrial: data centers viraram fábricas de tokens, e a empresa quer ser a engrenagem central.

André Lopes – Exame – 16 de março de 2026

*SAN JOSE – No palco do GTC 2026, a conferência anual da Nvidia,  o fundador da companhia Jensen Huang fez mais do que apresentar produtos. Ele tentou redesenhar a forma de enxergar a própria indústria da qual sua empresa faz parte. Durante o painel de abertura do evento, que começou segunda-feira, 16, o CEO definiu a inteligência artificial em três fases — geração, raciocínio e agentes — e usou essa linha do tempo para defender uma tese muito maior do que a venda de novos chips: a de que o mundo entrou numa era em que computação virou uma indústria por si só, e a Nvidia deve ser a fornecedora central dessa nova fábrica global de inteligência.

Há um ano, disse Huang, a empresa via cerca de US$ 500 bilhões em demanda para Blackwell e Rubin, até então as duas famílias mais recentes de sistemas e chips da companhia. Agora, com uma leva nova de semicondutores ainda mais poderosos, afirmou enxergar pelo menos US$ 1 trilhão até 2027.

Cada nova fase, na visão da Nvidia, exige mais processamento. Modelos que raciocinam precisam de mais contexto, mais etapas intermediárias, mais tempo de inferência, o momento em que a IA gera a resposta. “Agentes exigem ainda mais, porque deixam de ser apenas interfaces de conversa e passam a operar sobre o mundo digital”, disse o CEO, que afirma que a demanda por computação explodiu, mas ainda está longe do teto.

Essa leitura é importante porque desloca a Nvidia do território tradicional da indústria de semicondutores. A empresa não quer mais vender apenas o chip mais rápido, ainda que faça isso ano após ano. Quer vender a infraestrutura que reduz o custo por token — ou seja, o custo de produzir inteligência em escala. Huang chegou a afirmar que o ganho entregue pela nova geração da companhia está muito acima do que a velha Lei de Moore, a regra histórica de evolução dos chips, sugeriria. A implicação é clara: se a IA virou fábrica, a Nvidia quer ser a máquina que melhora sua produtividade.

O keynote também deixou claro que esse argumento vai além da IA generativa. Em um dos blocos mais relevantes da apresentação, Huang voltou os holofotes para os dados estruturados, o universo das tabelas, planilhas e sistemas corporativos que sustentam a rotina das empresas. Ali estão plataformas como SQL, Spark, Pandas, Snowflake, Databricks e BigQuery. A mensagem foi simples: o entusiasmo do mercado está nos modelos generativos, mas o coração da computação empresarial ainda vive em dataframes e bancos de dados. Para capturar esse orçamento, a Nvidia quer acelerar não só LLMs, os grandes modelos de linguagem, mas também o trabalho pesado do mundo corporativo.

Esse movimento ajuda a explicar a profusão de parceiros citados no palco. Dell apareceu como parceira em infraestrutura de dados. Google Cloud, AWS, Azure e Oracle entraram como canais de distribuição e escalonamento. A Nvidia se apresenta como a camada que integra hardware, bibliotecas, software e nuvem para acelerar aplicações e, ao mesmo tempo, reduzir custos. Num dos casos mostrados, com o Snapchat, Huang disse que a parceria com o Google Cloud reduziu o custo de computação em quase 80%.

Esse reposicionamento aparece também na lista de setores que a empresa passou a atacar com mais ênfase: finanças, saúde, automotivo, indústria, mídia, entretenimento, robótica. No palco, Huang falou do “momento ChatGPT” da saúde, do uso de IA em finanças e do maior ciclo de construção industrial da história, com fábricas de chips, de computadores e de IA sendo erguidas em vários países. O objetivo é ampliar o mercado endereçável da Nvidia para muito além do treinamento de modelos de linguagem.

O GTC 2026 teve, claro, anúncios de produto. O principal para o público gamer foi o DLSS 5, a nova geração da tecnologia da Nvidia para gráficos, que usa inteligência artificial para melhorar desempenho e qualidade visual em jogos e aplicações gráficas. Huang tratou a novidade como parte de um movimento maior, o da renderização neural, a fusão entre computação gráfica e IA.

Huang passou a manhã tentando convencer a indústria de que a Nvidia não é apenas uma vencedora do boom recente da IA. É a empresa que pretende organizar o próximo ciclo da computação. Na visão da Nvidia, a IA já deixou de ser software chamativo para virar infraestrutura produtiva. E, nessa fábrica, o produto final não é mais só resposta, é token que ela produz.

*O jornalista viajou a convite da Nvidia.

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A moda dos colégios bilíngues

Alta na procura por escolas bilíngues reflete o projeto de internacionalização de famílias ricas, enquanto o inglês se consolida menos como idioma e mais como ativo de distinção social

DANIELA KLAIMAN – Fast Company Brasil – 27-03-2026 

O avanço das escolas bilíngues no Brasil deixou de ser tendência e virou estratégia explícita de posicionamento social. O país possui hoje mais de 1.200 escolas bilíngues, cerca de 3% do total  das instituições privadas. Esse número representa crescimento de aproximadamente 10% nos  últimos seis anos. Entre 2019 e 2023, a procura por escolas bilíngues aumentou 64%, segundo  dados do Ministério da Educação. 

O movimento não é isolado. Ele acompanha uma decisão maior das famílias de alta renda: preparar os filhos para ir para fora. Em 2023, o número de brasileiros matriculados em instituições de ensino dos Estados Unidos atingiu um recorde histórico de 41.704 estudantes, crescimento  de 10% em relação ao ano anterior, segundo levantamento da Viva América. O Brasil passou a  ocupar a quinta posição entre os países que mais enviam alunos para universidades norte-americanas. 

Leia mais: Educação como tecnologia social

E o investimento não para na escola. Na Universidade da Pensilvânia, o custo anual estimado  ultrapassa US$ 92 mil, somando mensalidade, taxas e moradia.Cornell supera esse valor. Dartmouth e Brown também ficam acima de US$ 91 mil por ano. Em valores atuais, isso equivale a mais de R$ 550 mil anuais. São cifras muito acima da renda familiar média nos próprios Estados Unidos, o que deixa claro que estamos falando de uma parcela muito específica da sociedade brasileira. 

Em algumas escolas particulares de São Paulo, o índice de alunos aprovados em universidades no exterior chegou a 40% em 2024. Nessas instituições, o planejamento para estudar fora começa cedo. Pais e estudantes são orientados desde o ensino fundamental sobre caminhos para universidades norte-americanas ou europeias. O bilinguismo é estruturado como parte desse projeto. 

A NARRATIVA COSTUMA ENQUADRAR ESSE MOVIMENTO COMO PREPARAÇÃO PARA UM MUNDO GLOBALIZADO.  MAS A QUESTÃO CENTRAL É OUTRA: NETWORKING. 

A narrativa costuma enquadrar esse movimento como preparação para um mundo globalizado.  Mas a questão central é outra: networking. 

Universidades de elite não oferecem apenas formação acadêmica. Funcionam como plataformas de networking internacional. O acesso a fundos de investimento, grandes empresas, escritórios globais, centros de pesquisa e governos ocorre muito menos pelo currículo formal e muito mais pelas conexões construídas ao longo do percurso. O inglês, nesse cenário, não é apenas idioma. É o código de entrada. 

Leia mais: 5 podcasts americanos de IA para entender o que vem por aí

E aqui está a imensa contradição que estamos vendo: vivemos a era da tradução ubíqua. Ferramentas como Google Translate evoluíram para tradução instantânea por voz e imagem. Reuniões no Zoom e no Microsoft Teams já contam com legendas e tradução simultânea  automática. Smartphones da Samsung traduzem conversas por telefone em tempo real, enquanto seus fones com inteligência artificial fazem interpretação simultânea em uma conversa ao vivo e modelos generativos produzem textos sofisticados em múltiplas línguas em segundos. 

ESTUDAR FORA VIRA NÃO SÓ UMA ESTRATÉGIA PROFISSIONAL, MAS UM SÍMBOLO DE ASCENSÃO SOCIAL, UMA TENTATIVA DE VALIDAÇÃO EXTERNA.

Acontece que no Brasil, essa corrida pelo inglês carrega um traço histórico conhecido: a síndrome de vira-lata. A ideia persistente de que o “melhor” está sempre fora. Estudar fora vira não só uma estratégia profissional, mas um símbolo de ascensão social, uma tentativa de validação externa. Falar inglês deixa de ser ferramenta e passa a ser identidade. 

O problema é que esse movimento tem efeitos colaterais claros, especialmente na educação básica. 

Leia mais: Amazon, Walmart e Starbucks estão entre 20 empresas com baixos salários

Na ânsia de se tornarem bilíngues, muitas escolas brasileiras passaram a trocar profundidade por verniz. Cresce a contratação de professores que falam inglês, mas não necessariamente dominam pedagogia, didática ou o conteúdo da disciplina que ensinam. O resultado são aulas em inglês com menos rigor conceitual, menos pensamento crítico e mais superficialidade. 

Ensina-se matemática em inglês, mas pior matemática. Ensina-se ciências em inglês, mas com  menos ciência. O idioma vira um fim em si mesmo, não um meio e o discurso de “preparação global” acaba mascarando uma queda silenciosa na qualidade do ensino.

ENQUANTO O MERCADO DE ESCOLAS BILÍNGUES CRESCE E A PROCURA DISPARA, A PROFICIÊNCIA MÉDIA DO PAÍS CAI. 

Há um dado que expõe outra camada dessa tensão. De 2023 para 2024, o Brasil caiu da 70ª para a 81ª posição no ranking mundial de proficiência em inglês da EF, entre 116 países. O país obteve  466 pontos, desempenho classificado como baixo pela metodologia do estudo. Ou seja,  enquanto o mercado de escolas bilíngues cresce e a procura dispara, a proficiência média do país cai. 

Leia mais: O fado tropical de quem não foi para Austin ouvir o que já sabe

O verniz se expande mas a substância encolhe e, assim, o inglês vira embalagem de valor, não de conhecimento consolidando uma nova camada de desigualdade. Uma elite conectada internacionalmente e uma maioria que depende de traduções.  

E afinal, se oportunidades circulam em inglês e o país não fala inglês, quem realmente participa do futuro que estamos desenhando?


SOBRE A AUTORA

Daniela Klaiman é CEO da FutureFuture, consultora e um dos principais nomes do futurismo do Brasil e da América Latina. saiba mais

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