30 tendências de negócios para 2030

Para onde o mundo vai nos próximos anos em relação a tecnologia, clima, saúde e economia

Luís Rasquilha MIT Sloan Review 20 de Setembro 2022

Artigo 30 tendências de negócios para 2030

Neste artigo, divido as principais tendências retiradas do relatório What’s Next 2030, divididas por forças-motrizes. O relatório completo, a apresentação do relatório e o curso gratuito sobre o relatório podem ser acessados nos links.

1- Tecnologia e conectividade

Transformação digital

Uma nova abordagem, em que as TIC desempenham um papel-chave na transformação da estratégia, estrutura, cultura e processos de uma empresa, utilizando o alcance e o poder da conectividade, da internet e da tecnologia. Por meio de novos investimentos em tecnologias e modelos de negócio, espera-se melhorar o envolvimento dos clientes em todos os pontos de contato no ciclo de vida de sua experiência.

Data driven enterprise

Ter bases construídas em anos de resultados consistentes é ótimo, mas, hoje, é fundamental entender que a experiência anterior das empresas não garante sucesso no mercado digital. A hora é a de olhar para o futuro, e não há forma de fazer isso se a companhia não tiver informação qualificada.

Aqui falamos de dados e da habilidade de trabalhá-los. É necessário ter uma cultura guiada por dados, uma cultura data driven, na qual as informações certas são captadas constantemente, servindo como base para as tomadas de decisão.

Tecnologias exponenciais

A tecnologia é um meio a serviço da melhoria transversal das empresas, dos negócios, da sociedade e da vida, para que todos possam ganhar com isso. A evolução da tecnologia, cada vez mais acessível, tem transformado mercados, empresas e pessoas.

A velocidade de produção e difusão de informação tem impactado e continuará a impactar a forma como as empresas desenvolvem os seus negócios e se relacionam com os seus públicos. Nesse sentido, existe a oportunidade de aplicar o conhecimento atualmente disponível para a criação, facilitação e implementação dessas tecnologias, com conteúdo relevante para clientes e para a sociedade.

Trabalho híbrido

Um modelo de trabalho que vai cada vez mais possibilitar que a jornada seja cumprida na empresa, presencialmente e, também, à distância, em sua casa ou outro local. Dessa forma, o profissional pode desempenhar suas funções dando resposta ao desejo de maior flexibilidade e liberdade de trabalho, alinhado à nova revolução industrial.

Negócios de plataforma e de ecossistema

A dependência de plataformas e ecossistemas tirará as empresas do “eu” e as levará para o ”nós”. A construção de ecossistemas integrados de gestão gera melhor entrega e diferenciação no mercado, além da adoção de sistemas que se ajustem ao contexto. A integração das funções com transição para um sistema empresarial com o mínimo de silos – de fora para dentro – criará plataformas capazes de incorporar pessoas e tecnologias, automatizando os processos.

2- Ambiente e clima

ESG

Governança ambiental, social e corporativa é uma avaliação da consciência coletiva de uma empresa em relação aos fatores sociais e ambientais. Normalmente, é uma pontuação compilada de dados coletados em torno de métricas específicas relacionadas a ativos intangíveis dentro da empresa e que agora ganha mais uma denominação com o foco econômico que defende a geração de resultados sustentáveis, permitindo manter a performance responsável de forma sistemática.

3 R’s: reduza, reuse, recicle

Alinhado com a preocupação crescente com a saúde do planeta, os comportamentos estão caminhando na direção de uma maior sustentabilidade. Hoje e no futuro, o ato de adotar a filosofia dos 3 R’s da sustentabilidade contribuirá para uma maior relevância no mercado, deixando um legado mais relevante na sociedade e no mundo.

O maior desafio estará na capacidade de transformação que as empresas e pessoas precisarão ter para manter novos comportamentos mais alinhados com essa nova realidade. Reuse, recicle e reutilize serão palavras-chave nas estratégias e nas missões das empresas no futuro.

Logística reversa

Alinhado com a preocupação ambiental e de otimização dos recursos, cresce a abordagem da logística que trata do fluxo físico de produtos, embalagens ou outros materiais, desde o ponto de consumo até o local de origem.

Uso racional de recursos

Reforçando os movimentos sustentáveis, a preocupação com o não desperdício e o uso correto (e racional) dos recursos é tema corrente nas pautas da gestão, não apenas por uma questão de pressão externa, mas também pela adoção empresarial de posturas mais responsáveis com o devido impacto no crescimento e nos resultados.

Resultados responsáveis

O “Environment Value Add” (EVA) tradicional é um indicador que demonstra a criação ou destruição de valor, e representa o custo de oportunidade do capital aplicado por credores e acionistas como forma de compensar o risco assumido no negócio. Agora, com o emergir de conceitos mais sustentáveis e responsáveis, o conceito evolui para a compensação de forma mais sustentável e integrada com o ecossistema, respeitando o entorno. Ou seja, não vale focar no resultado a qualquer custo.

3 – Política e economia

Governança corporativa

Governança corporativa ou governo das sociedades ou das empresas representa o conjunto de processos, costumes, políticas, leis e regras que regulam a maneira como uma empresa é dirigida, administrada ou controlada. Para estruturar e responder ao contexto de transformação, esse é um tema cada vez mais relevante na forma de administrar e regular as empresas e os negócios.

Compliance

Do verbo inglês “to comply”, que significa agir de acordo com uma ordem, um conjunto de regras. Estar em conformidade com tais regras, que também se refere aos controles internos e de governança corporativa, é hoje o que garante às empresas a atuação dentro dos parâmetros legais e acordados por todos.

Reset (de verdades, ideologias e modelos)

Novas realidades estão desenhando o presente e o futuro das empresas com a certeza de que as práticas definidas no século 20 são hoje bem diferentes. Nos dias atuais, as empresas precisam de revisão e readequação a um mundo em constante mudança.

Novos centros de poder e de produção

Diversos estudos têm mostrado a mudança de poder global com o crescimento de China e Índia em contraponto à queda de Europa e EUA. Aqueles que antes eram países não estratégicos estão mudando a tabela da classificação, seja pela adoção de novas tecnologias, seja pela mudança de mentalidade e maior capacidade de adaptação e flexibilidade. Israel, Norte da Europa, algumas cidades na América Latina, sem esquecer a sempre imprevisível África, terão papéis importantes. O mapa do mundo terá novos desenhos.

Economia circular, comportamental, donut e plataforma

O surgimento dos conceitos de capitalismo consciente ou social, de economia circular, de economia criativa, entre outros, têm ganhado força, desde que em 2016 o Fórum Econômico Mundial se referiu à necessidade de encontrar um novo modelo econômico, que consiga, ao mesmo tempo, entregar resultado às empresas e pessoas, mas também garantir o bem-estar de todos, mesmo dos mais necessitados, possibilitando o acesso universal a meios de energia limpa, à comida saudável e, no limite, a um planeta mais equitativo e justo para todos, reduzindo as desigualdades e as intolerâncias.

4 – Social e humano

Intrageracionalidade

Com o aumento da expectativa de vida, crescem situações de coexistência geracional nas empresas. É cada vez mais comum ver equipes de trabalho com pessoas de diferentes gerações, com o desafio crescente de gerenciar expectativas, opiniões, energias e aspirações de grupos com diversas visões e comportamentos.

Colaboração & cocriação

São as palavras do momento. Não há super-heróis isolados, mas sim heróis que trabalham juntos, compartilham conhecimento e ideias e que, conjuntamente, desenvolvem soluções ajustadas aos contextos em que se vive. Capacitar para o trabalho colaborativo ajudará a ultrapassar as barreiras que se avizinham

Diversidade, inclusão e equidade

Diversidade nada mais é do que variedade. A diversidade está presente em todos os âmbitos da nossa vida, mas quando falamos de empresas, diversidade se refere a pessoas com características, backgrounds e formas de pensar diferentes. Diversidade no ambiente corporativo é sempre algo que precisa ser olhado e evoluído – avanços sempre são possíveis.

Inclusão, por sua vez, é a sensação de pertencimento. Apenas a existência de pessoas diversas em uma empresa não significa, necessariamente, que elas se sentirão incluídas naquele ambiente. A inclusão é algo que passa por cultura organizacional, comportamento dos colaboradores e segurança para todos compartilharem (e serem apreciados por) suas ideias.

Equidade é busca por igualdade por meio de processos e práticas que entendam que cada jornada é individual. A equidade entende que as pessoas não partem do mesmo lugar e que enquanto alguns começam com vantagens, outros começam com barreiras.

Liderança colaborativa e compartilhada

Sistemas hierárquicos tradicionais estão perdendo espaço para modelos de empresa mais flexíveis, participativos e focados em exposição, engajamento e cocriação, colaboração e competição. Cada vez mais a retenção do talento humano está na ordem do dia nas empresas.

Mais do que reter pessoas, é necessário engajá-las e motivá-las para novos desafios e novas metas, nunca alcançadas. A liderança assume um papel de mentoria e orientação colaborativa, abandonando as visões puramente impositivas. Em tempos de mudança exponencial motivada pelo avanço tecnológico, as empresas adotarão estruturas mais flexíveis, menos hierarquizadas e principalmente capazes de se adaptar na mesma velocidade em que os mercados e os clientes mudam.

Complementaridade de competências

Mais do que as competências técnicas, as comportamentais e as de gestão surgem como preponderantes na preparação dos gestores do presente e do futuro, alterando as lógicas de gestão, liderança e treinamento.

5- Saúde e bem-estar

Valorização das soft skills

Está provado que pessoas felizes produzem mais, são mais criativas e conseguem resultados surpreendentemente melhores do que pessoas cujo estado de espírito é considerado como um estado neutro ou negativo. E para garantir um ambiente saudável que possibilite melhores índices e melhores performances, é necessário garantir o equilíbrio das competências técnicas com as comportamentais e as de gestão, incluindo de forma permanente e efetiva a gestão dos chamadas soft skills.

Segurança psicológica

A segurança psicológica diz respeito a um ambiente detentor de um clima no qual as pessoas se sentem confortáveis para falar as suas opiniões e compartilhar experiências e ideias. Dessa forma, todos ficam tranquilos e seguros para se expor diante de outros colaboradores da empresa. Essa possibilidade se torna cada dia mais importante quando se trata de inovar ou apenas lidar com os contextos de mudança que estamos vivendo.

Clima de autenticidade

Um dos muitos significados da palavra autenticidade é “aquilo que é verdadeiro”. A pessoa que age com verdade expressa os seus sentimentos e opiniões sem temer retaliação. Ela não possui segundas intenções e, quando quer alguma coisa, expressa a sua vontade para que não haja desentendimentos futuros.

Na gestão, um clima autêntico reforça a inovação e a relevância das empresas nos mercados. Tal atitude obriga a uma mudança de valores culturais na busca de maior autonomia e flexibilidade (mas também de autorresponsabilização) de todos.

Automação de funções operacionais

A adoção de soluções tecnológicas tem aumentado a discussão sobre o quanto a automação pode eliminar empregos, mas a realidade nos mostra que a automação ocorrerá de qualquer forma.

Vestíveis e implantáveis

A chegada dos smart watches mudou a forma como passamos a entender a tecnologia ao serviço das pessoas. Gadgets vestíveis são hoje lugar-comum, mas, no futuro, o que hoje é usado no corpo estará embutido nele. Chips farão parte das nossas vidas, abrindo um mundo de oportunidades para quem conseguir utilizar essa informação e alimentar a sua base de conhecimento para decidir quais iniciativas deve aplicar.

6 – Educação, empresas e negócios

Ambidestria corporativa

A evolução tecnológica, a mudança do comportamento do consumidor, a turbulência política e a incerteza econômica reafirmaram aos gestores a importância da adaptabilidade (a capacidade de se mover rapidamente em direção a novas oportunidades, se ajustar a mercados voláteis e evitar complacências), sem prejudicar o negócio atual. Para uma empresa ter sucesso a longo prazo, ela precisa dominar a adaptabilidade e o alinhamento – um atributo que às vezes é conhecido como ambidestria.

Cultura ágil e estratégia adaptável

A cultura ágil vem ajudando muitas equipes a encarar a imprevisibilidades por meio de entregas incrementais e ciclos interativos, sendo uma alternativa aos métodos tradicionais. Essa capacidade gera vantagem competitiva e reflete uma abordagem estratégica mais flexível, que transformará o planejamento e a gestão tradicionais.

Educação híbrida e continuada (lifelong learning)

Com a velocidade do avanço do conhecimento humano, é fácil perceber o quanto nos desatualizamos em tão pouco tempo. A educação formal, que, antigamente, se garantia com uma graduação e um MBA, já não é mais fator de diferenciação. Estar antenado e preparado para o futuro nos obriga a uma educação continuada que consiga manter uma base permanente de conhecimento sobre o que está acontecendo no mundo, no mercado e nas empresas.

Identificação de tendências

É provado, ano após ano, que os gestores de sucesso são aqueles que olham para fora, identificam cenários e tendências e, munidos desse conhecimento, se viram para dentro para desenvolver iniciativas alinhadas com o que os mercados estão solicitando. Mais que uma metodologia, essa é uma mentalidade que se propõe a inovar por meio das tendências.

Centralidade do cliente, poder de marca e reputação

Conhecer o cliente, identificar as suas necessidades e descobrir a tarefa para a qual somos contratados são iniciativas que farão a diferença na gestão de portfólios, estratégias de comunicação e de relacionamento futuros. Branding é definido como o conjunto de ações que a empresa define em termos de marketing e comunicação, alinhadas com o seu propósito, posicionamento e valores defendidos e que visam a fortalecer a relação e reputação com os clientes. Em um mundo onde as marcas são cada vez mais importantes, a diferenciação delas estará mais centrada na sua capacidade de contar histórias verdadeiras e que se conectem emocionalmente com o seu cliente. Para as marcas, é fundamental essa abordagem.

Colunista

Luís Rasquilha

CEO da Inova TrendsInnovation Ecosystem e professor da Fundação Dom Cabral (FDC), Hospital Albert Einstein e Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP).

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Inteligência Artificial: riscos e oportunidades

                Resenha do livro de Kissinger et al. “A Era da Inteligência Artificial e o nosso futuro humano” (Dom Quixote, 2021)           

                                                   Antonio Carlos Barbosa de Oliveira – Revista Cebri     ANO 1 / 3 / JUL-SET 2022                                                                            

Em janeiro de 1956, o futuro Prêmio Nobel de Economia Herbert Simon anunciou, no início de uma aula, que ele e seu colega Allen Newell haviam inventado, nos feriados de Natal, uma “máquina de pensar” (McCorduck 1979).  Alguns meses depois, durante o verão, John McCarthy – um jovem matemático – organizou um projeto de pesquisa que reuniu durante dois meses no Dartmouth College os pequenos grupos que estavam se dedicando a essa área. Precisando de um nome para atrair pessoas e ideias, McCarthy usa pela primeira vez a denominação Artificial Intelligence. O único software pronto e funcionando apresentado nessa conferência foi o programa de Simon e Newell, que demonstrava teoremas de lógica formal. 

A partir deste início singelo, a Inteligência Artificial (IA) cresceu e se transformou. Está hoje integrada, muitas vezes sem nos darmos conta, a inúmeras atividades humanas. Os três autores deste livro trabalharam durante quatro anos motivados pela visão de que a IA terá enormes impactos no futuro da humanidade. Eles são expoentes em suas respectivas áreas de atuação. Henry Kissinger é ex-secretário de Estado dos EUA e um dos mais influentes intelectuais na área de segurança e diplomacia. Eric Schmidt é empresário e ex-CEO da Google, responsável por liderar a empresa no período 2001-2011. Daniel Huttenlocher é diretor do MIT College of Computing, criado em 2018 com investimento de US$1 bilhão para coordenar as atividades do Instituto na área de computação. O livro não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas se propõe a fornecer ao leitor não especializado os instrumentos e a base intelectual para participar da construção de nosso futuro populado por máquinas inteligentes. 

Por meio de três exemplos (jogo de xadrez, descoberta de antibióticos e entendimento de linguagem), os autores introduzem o leitor ao mundo da IA. A programação de computadores para jogar foi sempre um foco das pesquisas em IA. Em 2017 o programa AlphaZero passou a liderar o ranking de programas de xadrez, após vencer outros programas em torneios. Até então, todos os programas escritos para jogar xadrez utilizavam técnicas que os humanos haviam desenvolvido e, através de sua grande capacidade computacional, eram capazes de explorar a enorme árvore de possíveis jogadas com maior eficiência. AlphaZero foi criado apenas com as regras do jogo, sem nenhuma codificação de estratégias ou jogadas humanas. O conhecimento que permitiu ao AlphaZero ser o melhor foi obtido através de aprendizado jogando contra ele mesmo. Em apenas quatro horas e somente avaliando seus resultados jogando contra uma cópia do programa, AlphaZero desenvolveu estratégias incríveis nunca consideradas por jogadores humanos. 

Halicina é um novo antibiótico descoberto no MIT em 2020 mediante uso de IA. O processo de descoberta de novas drogas envolve anos de experimentos em laboratórios em que milhares de moléculas são analisadas. A abordagem por meio de IA começou com a elaboração de um banco de dados contendo duas mil moléculas conhecidas. Para cada uma delas foram registrados dados químicos e efeitos biológicos. Com a técnica de deep learning, o software de IA analisou essas moléculas e aprendeu como detectar moléculas efetivas em matar bactérias e que não sejam tóxicas. Esse programa, treinado pelos exemplos codificados em sua base de dados, foi então alimentado com 61 mil novas moléculas e identificou uma delas com as propriedades desejadas. 

GPT-3 é um programa capaz de produzir frases e miniensaios sobre qualquer assunto ao ser alimentado com uma pergunta ou algumas frases. O texto produzido pelo programa a partir de curtas questões filosóficas colocadas pelos autores do livro é incrível. Essa capacidade de produzir textos coerentes e assustadoramente similares a frases humanas foi adquirida sem nenhuma codificação de regras, mas apenas por meio da análise da enorme quantidade de textos disponíveis na internet.

Os três exemplos escolhidos pelos autores são representativos da moderna abordagem da IA e muito diferentes dos programas desenvolvidos após a conferência em Dartmouth. Estes eram baseados em algoritmos detalhados e cuidadosamente codificados após análise de como a mente humana funciona. Esta abordagem, conhecida como a fase simbólica da IA, chegou aos anos 1980 com alguns resultados importantes, mas acabou estagnada. Durante cerca de dez anos, conhecidos como o inverno da IA, as verbas de pesquisa diminuíram e os resultados se tornaram cada vez mais escassos.  

Em 1990 uma revolução transformou a metodologia da IA. Uma nova abordagem baseada em redes neurais permitiu a construção de programas capazes de aprender. 

Em 1990 uma revolução transformou a metodologia da IA. Uma nova abordagem baseada em redes neurais permitiu a construção de programas capazes de aprender. As redes neurais, inventadas na década de 1950 e inspiradas no funcionamento dos neurônios biológicos, tiveram um renascimento após terem sido esquecidas no período da IA simbólica. Curiosamente foram os chips desenvolvidos para processamento de videogames que permitiram a construção de redes neurais com milhares de componentes interligados. Novos algoritmos matemáticos utilizando essas unidades de processamento gráfico consolidaram a abordagem que passou a ser conhecida como machine learning –  aprendizado de máquina. 

No aprendizado de máquina, a rede neural é treinada utilizando uma base de dados. Por exemplo, um programa para identificar gatos em fotos pode ser alimentado com milhares de fotos rotuladas se têm ou não um gato. A rede neural, contendo milhares de componentes, será configurada automaticamente sem nenhuma necessidade de intervenção do programador humano. Na etapa seguinte, o programa será capaz de fazer inferências: dada uma nova foto, detectar ou não a presença de um gato. A disponibilidade na internet de uma enorme quantidade de imagens e textos facilita o processo da aprendizagem de máquina. Essa metodologia é conhecida como aprendizado supervisionado. Outra técnica importante é o aprendizado não supervisionado, em que os dados brutos sem serem rotulados previamente são analisados, e a rede neural se configura para agrupar casos similares e identificar anomalias.

Uma outra técnica, conhecida como aprendizagem reforçada (reinforcement learning), não se limita a analisar os dados disponíveis. O método é baseado no conceito de um agente que observa seu entorno, executa ações e recebe recompensas em função da qualidade de suas decisões. À medida que este agente toma decisões e recebe recompensas, vai aprendendo, de maneira que, no final do processo, possui um conjunto de políticas que permitem executar decisões com alta qualidade – como no caso do AlphaZero, que utiliza essa metodologia.

A origem e evolução da IA ocupa os autores nos primeiros capítulos e, em seguida, dá lugar a uma análise profunda e detalhada do impacto da IA nas plataformas de rede e na segurança e ordem mundial. As plataformas de rede são os aplicativos que usamos diariamente: redes sociais, buscas na internet, streaming de vídeos, navegação e transporte urbano. A principal característica desses sistemas é que sua utilidade aumenta exponencialmente à medida que novos usuários são incorporados. Este efeito positivo favorece uma configuração com algumas poucas empresas, cada uma com um grande número de usuários. A IA tem sido incorporada às plataformas de rede de maneira quase imperceptível, mas muito intensa. Nossa vida diária já está marcada pela interação com uma forma de inteligência não humana. 

A IA tem sido incorporada às plataformas de rede de maneira quase imperceptível, mas muito intensa. Nossa vida diária já está marcada pela interação com uma forma de inteligência não humana.

Os algoritmos de busca da Google foram inicialmente codificados por programadores que sabiam exatamente quais resultados seriam obtidos. Em 2015 a Google passou a utilizar IA com uma significativa melhora na qualidade das respostas obtidas. Entretanto, os programadores perderam a capacidade de entender como as respostas eram produzidas. Eles sabem que a IA melhorou o resultado de uma busca, mas não é mais possível explicar como o sistema chegou a esta resposta.

No caso do Facebook, a atividade de remoção de conteúdo impróprio, que chega a um bilhão de postagens por trimestre, só é possível com a utilização de IA em conjunto com milhares de pessoas dedicadas a essa tarefa. IA também é usada pela Amazon, Netflix e outras plataformas, em que a história passada de consumo é analisada e comparada com outros usuários para sugerir novas recomendações. 

A crescente utilização de IA nas plataformas de rede está criando um novo tipo de relacionamento entre usuários e essa tecnologia, que opera com uma lógica não humana. Segundo os autores, isto é algo absolutamente novo e que nunca existiu na história. As plataformas de rede foram concebidas e criadas para atender a necessidades imediatas de seus usuários, mas acabaram adquirindo uma dimensão social e política completamente inesperada. O exemplo mais claro é o impacto das redes sociais no processo de informação (e desinformação) política, que podem  impactar a sociedade e as estruturas de governo.

A interação de plataformas de rede baseadas em IA com governos nacionais tende a ser extremamente complexa, na medida em que tentativas de regulamentação podem gerar conflitos com as empresas e com os usuários, produzindo crises imprevisíveis. A IA vem sendo utilizada de forma crescente, tanto na elaboração como na neutralização de desinformação. A tecnologia atual chamada deep fake permite a criação de textos e imagens com conteúdo totalmente falso, mas com uma precisão e qualidade que nos enganam. A supressão desse tipo de desinformação em larga escala só será possível por meio da IA. 

As plataformas de rede estão tendo um impacto geopolítico, na medida em que as empresas, apesar de sediadas em um país, atendem consumidores globais. Os autores mostram EUA e China como líderes no desenvolvimento de plataformas e constatam que a Europa, apesar de sua tradição acadêmica e científica, não mostrou interesse em desenvolver plataformas de rede próprias, procurando liderar na regulamentação das plataformas existentes. A Rússia também ficou fora da competição internacional desenvolvendo algumas plataformas para uso interno. Em um ranking[1] de países segundo sua capacitação em IA, EUA e China lideram, enquanto o Brasil ocupa o trigésimo nono lugar.

Os países que não produzem plataformas de rede incorporando IA e que têm grande parte de sua atividade econômica dependente dessas plataformas estão vulneráveis às restrições criadas por governos hostis. Podem administrar esse risco incentivando a operação simultânea de várias plataformas, ou mesmo a criação de plataformas nacionais.

A análise feita pelos autores do impacto da IA na segurança e na ordem mundial parte do estudo dos mecanismos que funcionaram na Guerra Fria evitando o confronto nuclear. Enquanto as armas atômicas são entes físicos que podem ser contados e avaliados objetivamente, as tecnologias de ciberataques (cyber), incorporadas recentemente pelas grandes potências ao seu arsenal, têm uma natureza completamente diferente. É muito difícil avaliar a capacidade cyber dos adversários, com a tecnologia evoluindo rapidamente e os mecanismos de ataque mantidos em segredo.

A estratégia cyber consiste em detectar falhas ou vulnerabilidades em sistemas computacionais e, através de programas enviados remotamente, desabilitar esses sistemas. A IA pode ser usada para incrementar os mecanismos de defesa, detectando e corrigindo falhas antes que os inimigos possam lançar um ataque. Na área ofensiva, os vírus utilizando IA podem se transformar e mutar, evitando a detecção e atacando com maior velocidade e persistência. A efetividade de uma arma cyber muitas vezes depende de mantê-la em segredo, o que complica muito qualquer negociação visando à não proliferação. 

Outro aspecto analisado pelos autores é o impacto do uso da IA, com sua lógica não humana, nos sistemas militares. A força aérea americana já testou aviões autônomos que selecionam alvos e decidem ataques sem intervenção humana. A lógica do conflito militar sempre envolveu a avaliação das estratégias do adversário. Quando ambos os lados estão usando IA, entender a lógica das decisões do inimigo fica muito mais difícil, senão impossível.

Os autores propõem que cada país líder no uso de IA crie um organismo nacional para discutir os aspectos de defesa e segurança da IA, com o objetivo de garantir a competitividade e limitar a escalada sem controle em uma crise. Em um artigo publicado depois do livro, um dos autores, E. Schmidt (2022a), coloca EUA e China como os dois únicos países capazes de liderar a IA e defende vigorosamente a criação de um programa nacional para manter a liderança americana.

Ao tentar antever a direção da pesquisa em IA, os autores analisam a Inteligência Geral Artificial (IGA). Até agora, todos os programas utilizando IA têm objetivos claros definidos pelos seus programadores para executar uma tarefa específica, como jogar xadrez ou achar novos antibióticos. Os sistemas com IGA serão capazes de definir seus próprios objetivos e criar os algoritmos e programas para lograr esses objetivos. Os especialistas divergem sobre a viabilidade da IGA. Alguns consideram impossível, enquanto outros acham que em 20 anos teremos IGA (Schmidt 2022b).

IGA será capaz de obter novos conhecimentos científicos que poderão ter enormes impactos econômicos. Como provavelmente essa tecnologia necessitará enorme poder computacional, só disponível em grandes organizações, segundo os autores será necessário que governos, universidades e o setor privado definam limites para que IGA possa ser usada de maneira justa e democrática.  

Para os autores, ao longo da história, a humanidade entendeu o mundo através da fé e da razão. A IA seria uma terceira maneira. Estamos acostumados ao monopólio da inteligência, e a IA desafia essa visão e transforma a experiência humana.  

Para os autores, ao longo da história, a humanidade entendeu o mundo através da fé e da razão. A IA seria uma terceira maneira. Estamos acostumados ao monopólio da inteligência, e a IA desafia essa visão e transforma a experiência humana.  O livro coloca mais questões do que fornece respostas, mas deixa clara a necessidade de pensar seriamente como controlar a explosiva evolução da IA e garantir que seu uso seja para nosso benefício.

Notas

[1] The Global AI Index (Tortoise s.d.): https://www.tortoisemedia.com/intelligence/global-ai/.   

Referências Bibliográficas 

Kissinger, Henry, Eric Schmidt & Daniel Huttenlocher. 2021. The Age of AI and Our Human Future. New York: Little, Brown and Company. 

Kissinger, Henry, Eric Schmidt & Daniel Huttenlocher. 2021. A Era da Inteligência Artificial e o nosso futuro humano. Lisboa: Dom Quixote. 

McCorduck, Pamela.  1979. Machines Who Think: A Personal Inquiry Into the History and Prospects of Artificial Intelligence. San Francisco: WH Freeman. 

Schmidt, Eric. 2022a. “AI, Great Power Competition & National Security”. Daedalus 151 (2):288-298. https://doi.org/10.1162/daed_a_01916.  

Schmidt, Eric. 2022b. “#280 – The future of Artificial Intelligence. A Conversation with Eric Schmidt”. Produced by Sam Harris. Making Sense, April 22, 2022. Podcast, Online Streaming, 38:03. https://www.samharris.org/podcasts/making-sense-episodes/280-the-future-of-artificial-intelligence

Tortoise. s.d. “The Global AI Index”. Acessado em 6 de agosto de 2022. https://www.tortoisemedia.com/intelligence/global-ai/

Como citar: Oliveira, Antonio Carlos Barbosa de. “Inteligência Artificial: riscos e oportunidades”. Resenha de A Era da Inteligência Artificial e o nosso futuro humano (Lisboa: Dom Quixote, 2021), de Kissinger et al. CEBRI-Revista Ano 1, Número 3 (Jul-Set): 175-181.

Inteligência Artificial: riscos e oportunidades

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Navegações Vikings, afinal, como eram orientadas?

Por João Lara Mesquita – Estadão/Mar sem fim – 21 de setembro de 2022

Navegações Vikings, afinal, como eram orientadas?

Todos os povos antigos que lograram se tornar os mais poderosos em suas respectivas épocas o fizeram dominando a navegação. A história aí está para provar. Assim foi com os fenícios, cartagineses, egípcios, gregos, romanos e, mais tarde, os portugueses entre tantos outros. E duas habilidades superiores eram essenciais: a engenharia náutica capaz de desenvolver um barco melhor que os anteriores, e a arte da navegação, ou seja, a orientação em mar aberto. Os vikings, por exemplo, desenvolveram o fantástico Drakkar, superando a engenharia náutica de seu tempo. Mas, e as navegações vikings, como, afinal, eles conseguiam se orientar em mar aberto?

Drakkar (réplica) navegando em mar forte. Imagem, http://www.vikingeskibsmuseet.dk.

Navegações Vikings, o Drakkar

Como já mostramos, o Drakkar surgiu no século 9 (Não foi único tipo, havia muitos outros). Tinha um comprimento médio de 28m. Largura, 3m. Velocidade de até 12 nós (22 Km), excelente para a época, e forte o suficiente para os tempestuosos mares do Norte em que navegava.

Construído com toras de carvalho, o Drakkar era comprido (longships), e podia levar até 40 tripulantes, ou mais. Em média tinha 32 remos, 16 de cada lado, além da vela quadrada. O drakkar enfrentava bem o mar, e tinha pouco calado (mas com quilha, uma novidade para a época) o que permitia que encalhasse facilmente nas praias, e um dos poucos barcos oceânicos capazes de, igualmente, navegar por rios.

área das navegações vikingsÁrea das navegações vikings em mar aberto.

Com estes barcos, os habitantes do que hoje conhecemos por Escandinávia, colonizaram a Groenlândia, a 1.600 Km de distância, e a Islândia; aterrorizaram a Europa desde o final do século 8, desembarcaram na América do Norte, e foram os primeiros a chegar aos Açores, além de cruzarem o continente europeu pelos rios (fundaram o primeiro Estado russo cuja capital era Kiev), estabelecendo redes comerciais até Constantinopla – hoje Istambul, Turquia.

O www.lifeofsailing.com, por exemplo, calcula que para navegar à Inglaterra ou ao norte da Grã-Bretanha em particular, os vikings levariam cerca de 3 a 6 dias em condições boas e favoráveis ​​a uma velocidade média de 8 nós. Mas com mau tempo, poderiam atrasar sua partida, correr à frente da tempestade ou viajar a uma velocidade média de 3 nós com várias paradas, o que significa que levariam até oito semanas se uma tempestade séria explodisse.

A arte da navegação viking

A bússola, por exemplo, só chegou à Europa por volta do fim do século 12, começo do século 13. Então, como os vikings navegavam? Como todos os antigos, quando possível eles simplesmente seguiam o litoral, mantendo-se longe o suficiente da costa e dos bancos de areia e recifes.

navegações vikingsPintura de 1893 de Christian Krogh supõe a viagem de Leif Erikson para a América do Norte por volta de 1000 d.C. Domínio Público.

Para atingirem a Europa, a navegação era costeira, enxergando terra quase todo o tempo. O www.viking.archeurope diz que evidências de topônimos indicam que marcos proeminentes na costa ajudaram a navegação. A maioria dos ataques à França e à Inglaterra poderia ter sido realizada dessa maneira.

Além disso, contribuía para a orientação, observações do sol, nuvens, estrelas, aves, mamíferos marinhos, bem como o comportamento dos ventos, das ondas, e até mesmo a temperatura da água e a circulação das correntes. E, sempre que possível, esperavam em terra firme até que o vento fosse favorável. Com as velas quadradas que usavam, significava vento a favor, ou seja, de popa. Os remos eram usados sobretudo em rios, ou para manobras de atracamento especialmente.

Ainda assim, deve ter sido muito difícil. Quanto mais ao Norte, maior a chance de cerração, ou céus  claros durante todo o verão, o que lhes impediria a observação dos astros.

Pedra de sol e o prumo

Contudo, para atingir a Groenlândia e a América, tiveram que atravessar grandes porções de mar aberto. Como? Segundo matéria do New York Times, “As sagas nórdicas referem-se a um  “sunstone” (pedra de sol, em tradução livre) que tinha propriedades especiais quando apontadas para o céu.”

“Em 1967, um arqueólogo dinamarquês, Thorkild Ramskou, propôs que estes cristais revelavam padrões distintos da luz no céu, causados ​​pela polarização que existe mesmo em tempo nublado ou quando o sol se põe abaixo do horizonte.”

Drakkar viking Drakkar viking. A navegação viking tem fascinado estudiosos e curiosos há anos. A Feira Mundial de 1893 em Chicago apresentou esta réplica de um navio do século IX escavado em Gokstad, Noruega. DOMÍNIO PÚBLICO.

“Um estudo publicado na Royal Society Open Science avança essa ideia, sugerindo que os vikings tinham uma grande chance de chegar a um destino como a Groenlândia (apesar de a terem descoberto por acaso) em dias nublados ou de neblina se usassem pedras do sol e as verificassem pelo menos a cada três horas.

Se de fato a pedra do sol ajudava, os vikings teriam noção da latitude. E até sem ela poderiam fazê-lo pela observação do sol e das estrelas, especialmente a estrela polar, ou marcando a altura máxima do sol ao meio-dia e comparando sua latitude com lugares conhecidos. Esta seria outra forma de ajudar na sua localização, assim navegavam os nautas lusitanos pelo Atlântico Sul, Norte, e Índico.

Lembremos que a latitude nos dá a posição em relação ao eixo Norte-Sul; para sabermos a posição no eixo Leste-Oeste, só com o cronômetro muitos séculos depois.

Experimentos modernos com a pedra do sol

Segundo o atlasobscura.com, a pedra do sol era na verdade pedaços de cristal de calcita. Thorkild Ramskou, um arqueólogo dinamarquês, apontou como a calcita trata a luz polarizada – ou seja, ondas de luz vibrando em um único plano, em vez de em todas as direções – de uma maneira que cria padrões que os observadores podem ver.

Rotas das navegações vikings. Ilustração, http://www.iro.umontreal.ca.

Pesquisa da Universidade de Rennes identifica o sol 

“Em 2011, um grupo de pesquisa da Universidade de Rennes relatou sucesso ao identificar o sol,  colocando um ponto em cima de um cristal de calcita e observando-o de baixo. Ramskou propôs que os marinheiros poderiam ter usado o cristal para acompanhar a posição do sol e, em seguida, manobrar o navio na direção geral que eles queriam.”

A mesma fonte diz que, no início de 2018, Dénes Szás e Gábor Horváth, físicos da Universidade Eotvos de Budapeste, publicaram um relatório na Royal Society Open Science descrevendo como eles modelaram 36.000 viagens durante várias estações. 

Réplica do Drakkar. Imagem, http://www.vikingeskibsmuseet.dk.

“Com base em seus cálculos, os pesquisadores relatam que, se uma equipe viking calibrasse uma pedra do sol e a verificasse a cada três horas, havia mais de 90% de chance de chegar perto o suficiente para ver a costa da Groenlândia.”

Além dela, usavam o prumo. Com este simples instrumento, também usado pelos nautas e outros antigos navegadores, ao aproximarem-se de terra podiam saber não só a profundidade, mas igualmente o material do fundo do mar.

Contudo, é certo que, por sua importância, os conhecimentos de navegação provavelmente eram passados ​​de uma geração para outra em razão de seus sucessos pioneiros.

Os vikings desempenharam um papel fundamental na história escandinava e europeia. Grande parte de sua capacidade de controlar várias regiões do norte da Europa e contribuir para o comércio e o transporte dependia de sua capacidade de criar embarcações incríveis e nelas saberem navegar.

1948, descoberta de um disco de madeira

De uma forma ou de outra, não resta dúvida de que os vikings conheciam os segredos da navegação. Em 1948, diz o www.viking.archeurope.info, arqueólogos descobriram um fragmento de um disco de madeira em um local na Groenlândia que havia sido ocupado por colonos nórdicos no século X.

Disco de madeiraO disco de madeira descoberto em 1948. Imagem,

Este disco foi interpretado por alguns estudiosos como uma forma simples de bússola solar, mas um estudo recente sugere que pode ser um dispositivo para determinar a latitude. Este disco foi igualmente objeto de estudo publicado na National Library of Medicine.

Alguns feitos de uma sociedade extraordinária

Nossa fonte, a partir de agora, passa a ser o escritor Neil Price, autor do esplêndido Vikings – A história definitiva dos povos do Norte (Ed. Crítica).

Claramente, um dos principais componentes do fenômeno viking foi o navio. Os rápidos avanços na tecnologia da energia do poder naval não foram de forma alguma o único gatilho, mas as aventuras escandinavas no mundo mais amplo não poderiam ter acontecido sem os barcos.

Por sorte os reis vikings eram enterrados com seus barcos. Desse modo a arqueologia pode descobri-los. A imagem mostra a descoberta do navio Gokstad em 1904.

Neil Price diz que não foi apenas uma questão de desenho aprimorado, de navios com calado mais raso e melhor manejo. O mais importante destes fatores, pois por sua própria natureza era fundamental para o sucesso da navegação viking, foi a introdução da vela.

Velas no hemisfério Norte a partir do século 8

E conclui: embora comum nas culturas clássicas do Mediterrâneo, as velas parecem ter aparecido pela primeira vez no Norte durante o século 8. Para que ficassem menos permeáveis ao fluxo de ar, as velas eram untadas com sebo, óleo de peixe ou outras substâncias como alcatrão.

E o autor nos mostra que a produção de barcos, mesmo naquele período, era ‘quase’ industrial. ‘No século 10, frotas de 200 navios ou mais não eram incomuns nas campanhas fluviais europeias.’ E mais: ‘Isso exigiu nada menos que uma reorganização da economia fundiária.’

São dados que provam a organização da sociedade viking muitos antes do que seria imaginável. Price mostra a que ponto chegava esta ‘organização’. Tente imaginar, por exemplo, a quantidade de tecido necessária para a produção de velas, e roupas de frio, para uma frota de 200 embarcações (às vezes mais…).

O autor conta que arqueólogos calcularam que as necessidades de tecidos, por volta do século 11, ‘teriam chegado a cerca de 1 milhão de metros quadrados, em outras palavras, a produção anual de cerca de 2 milhões de ovelhas.’

Necessidade de madeira

Para o autor, não só a construção de navios, mas também de edifícios, aspectos de infraestrutura e obras de defesa exigiam tempo, conhecimento especializado e imensas quantidades de madeira de florestas cuidadosamente gerenciadas.

Por último, Neil Price conta sobre a reconstrução de um navio viking ‘meticulosamente’ utilizando as mesmas técnicas tradicionais. E diz: ‘Daí se deduziu que sua fabricação teria levado 2.650 dias/pessoa. Além de 13.500 horas adicionais de trabalho no ferro para os rebites e outros acessórios. Todo o processo também teria usado mais de dois quilômetros de cordas e 120 metros quadrados de vela.”

Manejo de florestas pelos vikings

“O acesso a terras florestadas e o direito de explorá-las eram, portanto, fatores de grande importância na economia e transmitidos através das gerações. A gestão de ambientes florestais complexos exigia planejamento e, sobretudo, investimentos a longo prazo. Um carvalho totalmente crescido que era derrubado para a construção de um navio podia ter sido plantado para essa finalidade sessenta anos antes ou mais.”

Navio Gokstad reconstruído, hoje no Museu de História Cultural da Universidade de Oslo.

Portanto, fica claro que, ao contrário do estereótipo que mostra ‘hordas de  sanguinários guerreiros em aparente baderna’ investindo contra inimigos e usando capacetes com chifres laterais (que nunca existiram), era uma sociedade bem organizada. Ainda que de fato sanguinária, cujo maior feito foi a descoberta e controle das rotas comerciais do período e em uso até hoje.

Rotas estas que incluíam não apenas o Mar do Norte e o Oceano Ártico. “Seu alcance se estendia para além de Bizâncio e até mesmo do mundo Árabe (vikings negociavam com Bagdá, entre muitos outros),  adentrando a estepe asiática para se conectar com as lendárias Rotas da Seda.”

A saga viking e a saga lusitana

Para o Mar Sem Fim, estes aspectos que demonstram a organização da sociedade viking em seu périplo marítimo comercial só teve equivalência com a saga náutica lusitana, séculos mais tarde. Ela começou com o rei D. Diniz que, depois da reconquista aos muçulmanos, organizou a marinha portuguesa ainda em 1317, sem a qual nada seria possível.

Em seguida, os reis que o sucederam, assim como fizeram os vikings, cuidaram de plantar e proteger florestas ainda nos séculos 13 e 14 para que, a partir de século 15, com as melhorias da engenharia naval aplicada à caravela no que foi o drakkar para os vikings, pudessem, a partir de 1415, iniciar seu movimento expansionista quando o país descobriu o sistema de ventos e correntes, em consequência, controlou as rotas comerciais do Atlântico Sul, e do Índico, dominando a Carreira das Índias por mais de cem anos. As mesmas rotas do comércio mundial usadas até hoje.

Desse modo, Portugal também deixou uma herança, a exemplo dos vikings. Ou seja, levou sua língua e cultura aos cinco continentes, estendendo o território aos arquipélagos dos Açores e da Madeira, assim estabelecendo um regime colonial em vários países africanos, Timor-Leste e até mesmo na Índia.

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Como a saúde se transformou em uma das prioridades do consumidor

Física, mental, social e espiritual: os bons resultados do setor farmacêutico e de beleza mostram que a pandemia colocou a saúde em destaque

Farmácia: o setor teve crescimento bruto de mais de 19% (Leandro Fonseca/Exame)

Farmácia: o setor teve crescimento bruto de mais de 19% (Leandro Fonseca/Exame)

Darcio Oliveira – Exame -Publicado em 13/09/2022 

Desde que a britânica Margaret Keenan, uma avó de 90 anos na época, deu o ombro para a primeira agulhada mundial de uma vacina contra a covid-19, o mundo parece ter não apenas experimentado certo alívio com a chegada do premente e promissor antídoto, mas também despertado pelo simbolismo das palavras de Maggie.

“Estou muito orgulhosa por ter sido a primeira, por rolar a bola e mostrar que esse é o caminho”, declarou, no histórico 8 de dezembro de 2020, diante das câmeras de TV aglomeradas no University Hospital em Coventry, na Inglaterra. “Agora, espero a segunda dose [ministrada 18 meses depois] para sair de férias, viajar e ver meus filhos e netos… Estou sozinha há mais de um ano.”

O antídoto, a esperança, a vontade de viajar, um toque de spray no cabelo — que ela pediu à enfermeira May Parsons que lhe aplicasse antes da vacinação transmitida via satélite; afinal, autoestima também é saúde —, são todos símbolos de algo que aflorou no início da pandemia e se estendeu por 2021: a busca prioritária e incessante pelo bem-estar, uma busca que se traduz na percepção de que não há nada mais importante do que isso no momento.

É como se o mundo parasse (e parou) para que as pessoas refletissem sobre a real necessidade de se cuidar, de todas as formas. Parafraseando James Carville, assessor e marqueteiro preferido de Bill Clinton: “É a saúde, estúpido!” Física, mental, social e até espiritual. Todo o resto é detalhe.

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Ora, parece um tanto óbvio dizer que a prioridade de um mundo curvado a um vírus letal é a incessante corrida para debelar a doença ou, pelo menos, mitigar seus danos, seja com campanhas públicas de saúde, com estímulo ao isolamento, seja com medidas individuais preventivas, entre elas a corrida aos balcões de farmácia.

Em cenários assim, a venda de produtos que ajudam a fortalecer mente e corpo tende a aumentar, o que explica, em parte, o crescimento bruto de mais de 19% do setor farmacêutico e de beleza na comparação com 2020, como mostra o ranking da EXAME MELHORES E MAIORES.

“Estamos falando de um crescimento líquido de 9% e de uma rentabilidade média de 17%, margem não tão usual assim para esses setores”, diz Samuel Barros, pró-reitor de pós-graduação no ­Ibmec do Rio de Janeiro e no de Belo Horizonte e coordenador técnico do anuário.

Dados do Sindusfarma, o sindicato que reúne a indústria farmacêutica, mostram que a procura por vitaminas, em geral a C e a D, cresceu mais de 70% no biênio 2020/2021, e a compra de antitussígenos e antigripais foi 28% maior do que em 2020. Isso sem contar o aumento do recei­tuá­rio de produtos para o sistema nervoso central.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), houve um crescimento de mais de 25% nos casos mundiais de depressão e ansiedade durante a pandemia. “Tivemos, por um lado, uma atitude preventiva, a busca por maior proteção física por meio de vitaminas, antigripais. Por outro, a busca pelo equilíbrio mental”, afirma Nelson Mussolini, presidente do Sindusfarma.

É essa atitude preventiva, elevada a padrões inéditos, que conta mais do que os números. Dito de outra forma: a percepção do que realmente importa. “As pessoas sabem que essa não é a última pandemia do mundo e estão cada vez mais atentas ao futuro e à qualidade de vida”, diz Mussolini.

A consultoria McKinsey mapeou recentemente — e pela primeira vez — a percepção do que se pode chamar de wellbeing ou wellness (o bem-estar), por meio de uma pesquisa com 1.000 cidadãos de 19 países. As perguntas foram formuladas com base nas quatro dimensões do que os especialistas do recém-criado McKinsey Health Institute estruturaram para compor a sensação holística do mens sana in corpore sano.

São elas: saúde física, mental, social e espiritual (que nada tem a ver com religião, e sim com aspectos como o propósito de fazer algo, a identidade no mundo ou a sensação de pertencimento). “Segundo a OMS, saúde é um estado de bem-estar completo, e não somente a ausência de doenças e enfermidades”, diz Marcus Frank, sócio da McKinsey.

“Um mapa de percepção teria, portanto, de ser holístico, buscar algo além do físico e do mental.” Entre outras conclusões, a pesquisa apontou que a saúde física e mental é considerada prioridade para 92% dos brasileiros, ante a média de 85% no mundo. Na saúde social, os índices ficam em 83% para o Brasil e 70% para o mundo e, na espiritual, em 78% e 62%, respectivamente.

Se a ausência de uma série histórica do recém-criado instituto impede a comparação de percepção de bem-estar com períodos pré-pandemia, outro estudo da McKinsey dá uma boa ideia da transformação provocada pelo evento covid-19 na mente e no bolso de 7.500 consumidores em seis países.

A pesquisa mostra que o mercado global do bem-estar é uma arena de 1,5 trilhão de dólares, formada por seis categorias, que cresceram entre 5% e 10% em 2021: saúde médica; saúde física; nutrição; estética e aparência; qualidade do sono; e equilíbrio psicológico.

Também revela que o investimento do brasileiro em bem-estar aumentou na pandemia, chegando a ser duas vezes maior do que o de consumidores dos outros países pesquisados (estamos falando, claro, de um estrato social com alguma renda, capaz de driblar a conjuntura e comprar bem-estar sem precisar fazer escolhas — uma parcela cada vez menor da população).

Em valores, esse gasto equivale a 1.200 reais per capita por ano, sobretudo com as categorias saúde médica e bem-estar psicológico. A tendência, segundo o estudo, é de que 80% dos consumidores mantenham ou aumentem os gastos com corpo e mente.

“A visão geral é de investimento maior no ‘eu’, no equilíbrio interno”, diz Frank. “Observe as novas gerações, o apego ao propósito, às questões sociais, ao bem-estar… É um movimento que já vinha se consolidando, a pandemia foi só o acelerador da tendência.”

Essa mudança de percepção sobre as várias dimensões da saúde, claro, alcançou as empresas. Cresce o número de companhias que adicionaram a seus benefícios a categoria mental health, com psicólogos à disposição dos funcionários, ou que estudam novas formas de manter o equilíbrio emocional do time, sem comprometer a produtividade.

Experiências recentes na Europa e nos Estados Unidos — e algumas no Brasil — com a semana de quatro dias mostram que a produtividade se manteve intacta ou até mesmo cresceu ao se instituir o respiro de um dia, geralmente às quartas-feiras.

É inteligente de todas as formas. Reduz custos com estrutura, algo que já se observava com o advento dos sistemas híbridos de expediente, preserva a saúde física e mental do funcionário e aumenta os níveis de engajamento.

“O mundo precisa descansar. Como diz um amigo do mercado financeiro, a gente vem nos últimos 40 anos numa batida de fundo de investimento, em que tudo tem de gerar resultado financeiro a qualquer custo”, diz Barros, do Ibmec. “Isso não é necessariamente uma verdade. As empresas também têm de gerar riqueza num aspecto mais amplo para a sociedade, e isso passa pelo bem-estar coletivo.”

LEIA TAMBÉM:

https://exame.com/revista-exame/voce-em-primeiro-lugar/

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NASA cria plataforma para controlar cada árvore do mundo

A CTrees usa inteligência artificial para rastrear árvores por todo o planeta, fornecendo uma importante ferramenta para a medição do carbono

Redação Fast Company – 20-09-2022 

Enquanto startups se esforçam para construir dispositivos que retirem CO2 do ar, as três trilhões de árvores do mundo já fazem a mesma coisa, em escala massiva. Uma nova plataforma monitora exatamente o quanto elas contribuem, contando a quantidade de carbono armazenada em cada árvore do planeta.

Uma nova entidade sem fins lucrativos, a CTrees (seu lema: “veja a floresta e as árvores”), usa inteligência artificial para analisar dados e imagens de satélite, junto com informações sobre o número de árvores.

Conforme elas crescem, ou quando desaparecem (cortadas ou queimadas, por exemplo) a CTrees vai usando novas imagens de satélite para manter atualizadas as estimativas da quantidade de carbono capturado.

O método, baseado em duas décadas de pesquisas científicas, “tem uma precisão que é quase padrão ouro” em termos de mensuração, garante Sassan Saatchi, cientista do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA e um dos líderes do projeto.

 Algumas startups, como a Pachama, localizada em San Francisco (Califórnia) também utilizam IA e sensoriamento remoto para rastrear alterações em florestas para projetos específicos de sequestro de carbono. Mas a CTress olha o panorama global.

Estima-se que, no ano passado, o conjunto de todas as árvores do planeta armazenou 400 bilhões de toneladas de carbono.

Ela também consegue identificar o que está acontecendo em regiões específicas. Dados em alta resolução captados por satélites comerciais tornam possível até focar em uma determinada árvore, individualmente.

Os dados serão cruciais para países que dependem de florestas para capturar a quantidade de carbono necessária de modo a conseguir cumprir com os compromissos firmados no Acordo de Paris.

Empresas e ONGs que vendem créditos de carbono para proteger e restaurar áreas de mata também precisam de uma ferramenta desse tipo para ajudar a convencer os compradores de que estão mensurando de forma legítima o valor de seu trabalho.

“Elas precisam ter dados confiáveis para monitorar a floresta e esses dados têm que ser muito precisos”, diz Saatchi.

Dados anuais serão liberados para consulta pública no website do projeto, incluindo números globais e por país. Clientes que queiram projetos específicos de medição pagarão uma taxa, cujo valor ainda não foi fixado.

A plataforma pode ser usada pelos mais variados motivos, do monitoramento de árvores em áreas urbanas à identificação de áreas desmatadas. Segundo Satchi, grupos que trabalhem com comunidades indígenas ou com pequenos agricultores em ações de reflorestamento ou de créditos de carbono também podem usar os dados.

“Ao mesmo tempo, vamos incluir os esforços de todos para ver exatamente como estamos nos saindo globalmente”, informa. Pesquisadores estimam que, no ano passado, o conjunto de todas as árvores do planeta armazenou 400 bilhões de toneladas de carbono.

Com base em reportagem de Adele Peters.


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ESG: Por que a busca pelo termo cresceu 1200% em 2 anos

Levantamento no Google Trends revela aumento exponencial de busca pela sigla. Diretora da Exame explica por que ela não pode mais ser ignorada

Da Redação – Exame – Publicado em 12/09/2022 

São Paulo — Em 2004, o então secretário das Nações Unidas Kofi Annan publicou um artigo para o Banco Mundial, em que convidou os 55 CEOs de algumas das maiores empresas do mundo a incorporarem três letras nos seus resultados: ESG.

A sigla para Ambiental, Social e Governança, no inglês, era um chamado para que as grandes corporações incluíssem em suas estratégias algumas variáveis que até então não eram levadas em conta em seus balanços.

“Em um mundo em que 69 das maiores organizações do mundo são empresas e apenas 31 países, as empresas não podem mais entender os seus impactos sócio-ambientais como meras externalidades negativas”, explica Renata Faber, diretora de ESG da Exame e autora do Ebook Empresa de Impacto ESG, que pode ser baixado de graça aqui.

Embora o termo ESG tenha sido usado pela primeira vez há mais de 20 anos — e o conceito de sustentabilidade nos negócios exista há ainda mais tempo — foram nos últimos anos, contudo, que o termo entrou de vez no vocabulário da alta liderança das empresas.

Um levantamento no Google Trends revela que, após flutuar mais de uma década, a busca pelo assunto cresceu mais de 1200% no Brasil só nos últimos dois anos. 

Quer alavancar os resultados da sua empresa com ESG? Baixe de graça o Ebook Gratuito Empresa de Impacto ESG aqui.

Enquanto isso, uma pesquisa recente da Aberje mostrou que 95% das empresas brasileiras têm ESG como prioridade em suas agendas.

E um levantamento do IBM Institute for Business Value (IBV) deste ano mostrou que o assunto está sendo tratado como prioridade máxima por 48% dos CEOs brasileiros, o que representa um aumento de 65% em relação ao ano anterior.

Mas, afinal, porque o interesse pelo tema cresceu exponencialmente em tão pouco tempo? 

“Nós temos percebido empiricamente a busca pelo assunto crescer muito, sobretudo no top-management das empresas”, afirma Faber. Segundo a executiva, há pelo menos três fatores que explicam essa tendência:

1 – A crise climática se tornou uma emergência

O que já era consenso na comunidade científica passou a encontrar respaldo no universo corporativo: a crise climática se tornou uma emergência.

“Os empresários têm cada vez mais consciência de que se não houver planeta, também não há empresa. E muitas empresas já estão percebendo isso da pior forma”, explica Faber. 

Para ficar em alguns exemplos, a ocorrência de eventos extremos pode comprometer a infraestrutura de transportes e toda a cadeia de suprimentos de uma região. 

Na agricultura, a escassez de chuvas pode inviabilizar safras inteiras. 

Nos oceanos, a mudança de 1 grau na temperatura é suficiente para elevar sua acidez e alterar sua química, ameaçando a biodiversidade e impossibilitando a pesca em regiões costeiras. 

“Já temos visto desastres naturais sacudindo inclusive o mercado de seguros, tornando inelegíveis empresas com muita exposição ao risco climático”, destaca Faber. 

Um estudo divulgado recentemente pela Allianz com 2650 especialistas em 89 países mostra que, no Brasil, as catástrofes naturais representam o segundo maior risco para as empresas.

Em um escopo mais amplo, o Banco Mundial estima que a crise climática irá causar a migração de mais de 216 milhões de pessoas até 2050 (praticamente um Brasil inteiro), potencializando conflitos por recursos como água e alimentos.

Para evitar eventos dessa magnitude, o Acordo de Paris em 2015, que contou também com forte apoio da iniciativa privada, impôs a meta de limitar o aquecimento global entre 1,5 e 2 graus celsius acima dos níveis pré-industriais até 2026.

Hoje, mais de 90% do PIB global já se comprometeu a neutralizar suas emissões líquidas de carbono, o chamado net zero. “Isso significa que se a pauta ambiental ainda não chegou em alguma empresa, é questão de tempo para que ela chegue por força de lei.”

2 – O mercado de investimentos

Faber lembra que, há 5 anos, poucos investidores olhavam para dados como pegada de carbono, condições de trabalho e diversidade no conselho em suas análises. “Hoje, esses números são analisados com lupa.” 

Para cada 3 dólares investidos globalmente hoje, 1 está alocado em ativos ligados à sustentabilidade. É uma área que já movimenta mais de US$ 35 trilhões no mundo, e esse número deve chegar a US$ 53 trilhões em 2025, segundo uma análise da agência americana Bloomberg.

Em plena pandemia, quando os mercados derretiam mundo afora, o presidente do banco UBS anunciou que as emissões de títulos de dívida com metas sustentáveis, os chamados green bonds, triplicaram em apenas um ano. 

No Brasil, 20% dos bonds, que são os títulos de dívida emitidos por empresas brasileiras, já têm aspectos ESG, o dobro da média mundial. 

E a mensagem por trás desses números é clara. Em 2020, Larry Fink, CEO da BlackRock, declarou em uma carta endereçada a CEOs que vai punir em suas estratégias de investimento empresas que não estiverem promovendo práticas ambientais, sociais e de governança.

“Em outras palavras, além de ser melhor para o planeta, uma estratégia sólida de ESG se tornou uma espécie de bilhete de entrada, ou permanência, das empresas no universo dos financiamentos”, ressalta a diretora da Exame.

Faber ressalta, ainda, que os gestores de fundos não fazem isso porque são bonzinhos, mas porque as práticas ESG dão resultado. 

“Diversos estudos em toda parte do mundo já demonstraram que, historicamente, empresas com uma estratégia ESG consolidada performam melhor do que seus pares em horizontes mais curtos de tempo”, destaca.

3 – A chegada da Geração Z ao mercado consumidor e de trabalho 

Para Faber, a Geração Z — os jovens nascidos após a virada do milênio — é a melhor expressão de uma mudança de paradigma já iniciada pelos millennials — estes nascidos após o início da década de 1980.  

“Essa é uma geração que leva o propósito para atitudes práticas. E o que isso significa? Que na hora de comprar um tênis, por exemplo, o jovem da geração Z não avalia apenas o conforto e o preço, mas também sua pegada de carbono”, diz. 

“Ao investir, ela busca empresas com crescimento sustentável, que contribuam para o progresso social. E na hora de escolher um trabalho, essa geração não quer mais apenas ganhar dinheiro. Ela quer uma missão.” 

Segundo Faber, essa mudança de comportamento também obriga as empresas a se manifestar sobre temas em que antes elas não se posicionavam. “Não dá mais para ficar em cima do muro”, diz.

Uma pesquisa recente da Fiep revelou que  87% dos brasileiros preferem comprar produtos e serviços de empresas sustentáveis. 

O mais interessante, contudo, é que 70% dos entrevistados dizem não se importar em pagar a mais por isso. 

“Ou seja, não olhar para essa agenda, além de ser ruim para o planeta, também significa deixar dinheiro na mesa”, afirma a diretora.

Como implementar uma estratégia ESG

Faber comemora que cada vez mais líderes se deem conta das oportunidades que o ESG representa para suas empresas.Ainda assim, avalia que existe um abismo entre uma “vontade genuína” de iniciar essa jornada e uma “estratégia consolidada” no tema. “ESG não é só propósito. É método”, defende.

Pensando nisso, a diretora da Exame publicou um Ebook gratuito para mostrar como implementar como você pode implementar na sua empresa a estratégia que se tornou obrigatória entre os grandes CEOs.

https://exame.com/esg/esg-por-que-a-busca-pelo-termo-cresceu-1200-em-2-anos/

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O que temos a aprender com o país mais inovador do mundo?

Ricardo Amorim no Linkedin  em 1 de agosto de 2022

Ricardo Amorim

Economista mais influente do Brasil de acordo com a Forbes, maior influenciador brasileiro no LinkedIn e ganhador do Prêmio iBest de Economia e Negócios.

271 artigos

Imagine um país com uma área de 1/6 a do estado de São Paulo e uma população menor do que a da cidade de São Paulo. O Fórum Econômico Mundial apontou este país como o mais inovador do mundo… pela 11ª vez. Some a isso, 28 ganhadores do Prêmio Nobel, mais do que qualquer outro país do mundo proporcionalmente ao tamanho da população. Estou falando da Suíça.

Recentemente, pude visitá-la, a convite do Turismo na Suíça. Lá, interagi com seu ecossistema de inovação com uma pergunta na cabeça: o que torna a Suíça o país mais inovador do mundo? A resposta curta é que a Suíça tem condições únicas para atrair e desenvolver os melhores cérebros do mundo, mas como ela consegue fazer isso?

Para começo de conversa, ela é a porta de entrada perfeita para testar e desenvolver produtos para o maior mercado de consumo global: a Europa. Com quatro idiomas e culturas distintas em seu pequeno território, ela é um campo de provas perfeito para produtos e serviços. Quem têm sucesso lá está pronto para ter sucesso em toda a Europa e no resto do mundo.

Além disso, a Suíça tem previsibilidade jurídica, estabilidade econômica e reguladores com a missão de fomentar negócios e o desenvolvimento, não de fiscalizar empresas para puni-las.

Como a Suíça criou este ambiente econômico? Uma confluência de fatores. Sua neutralidade ajudou a elevá-la a um dos principais centros financeiros globais. Valorização de pluralidade de pensamento ajudou a construir instituições de ensino e pesquisa de primeira, atraindo líderes científicos do calibre de Albert Einstein. No campo das ciências humanas, vieram de lá a psicologia analítica de Carl Gustav Jung, a Reforma Protestante de Calvino e Lutero e a filosofia iluminista de Jean-Jacques Rousseau, por exemplo. Com tudo isso, a Suíça também dá a luz a inovações mais corriqueiras, como os melhores relógios e chocolates do mundo.

Apesar da importância inegável dos fatores anteriores, se eu tivesse que escolher um único pilar fundamental para explicar o sucesso da inovação na Suíça, eu ficaria com o sistema de voto participativo. Indiretamente, ele criou as condições para a população suíça entender o valor de uma cultura de inovação forte no país. Os suíços sabem que só inovações garantem a melhoria da qualidade de vida e a elevação da riqueza das pessoas de forma sustentada. Não há desenvolvimento que se sustente sem um sistema que estimule continuamente a inovação

Na Suíça, questões fundamentais são votadas diretamente pelos eleitores, não por seus representantes. Com esta responsabilidade, os suíços desenvolveram uma compreensão de como a economia realmente funciona e uma qualidade de tomada de decisões que não existe em nenhum outro país. Toda proposta de um novo gasto público vem acompanhada de uma especificação de onde virá o aumento de impostos para bancá-la. Na Suíça, as pessoas sabem que dinheiro público não brota em árvores. Recentemente, os suíços rejeitaram um projeto que aumentaria suas férias em uma semana e outro que reduziria a sua carga horária diária de trabalho em duas horas. Por que? Porque sabem que uma redução da carga de trabalho aumentaria os custos de produção no país, reduzindo sua competitividade, o que acabaria diminuindo o número de empregos e os salários. Com este grau de maturidade, decisões que criaram um ecossistema de inovação que é líder global tornaram-se consequências naturais. E o sucesso do país em inovar explica porque ele tem uma renda per capita oito vezes maior do que a brasileira, a maior do mundo com exceção de Luxemburgo, que tem menos de 600 mil habitantes.

Tive a oportunidade de ver, na prática e in loco, os resultados de tudo isso a convite do Switzerland Global Enterprise. Visitei, por exemplo, o centro de pesquisa do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH), onde Einstein deu aulas e desenvolveu suas mais importantes pesquisas. Lá, encontrei gente de todo o mundo desenvolvendo, apoiando e financiando projetos que vão da regeneração do sistema nervoso central ferido a robôs voadores avançados e a replicação da percepção visual de seres humanos em robôs. Vi ainda projetos de robótica autônoma para substituir pessoas em trabalhos perigosos ou repetitivos em funções de segurança e monitoramento, como os da Ascento Robotics, desenvolvido no próprio ETH e os da ANYbotics, que já tem até clientes de peso no Brasil. Provei também um “peito de frango” produzido apenas com ingredientes vegetais pela Planted. Pelo gosto e consistência, ninguém diria que não é frango.

Voltei ao Brasil com três convicções fortes:

1.     As mudanças na nossa forma de viver, trabalhar e consumir serão muito maiores e vão acontecer muito rapidamente do que a maioria imagina. Se você acha que a vida mudou muito durante a pandemia, espere para ver as mudanças dos próximos anos;

2.     No Brasil, cada um de nós, cada empresa e o país como um todo precisam estar prontos para estas transformações o mais rapidamente possível. As consequências de ficar de fora delas serão dramáticas e as oportunidades que elas trarão para quem participar delas serão fantásticas;

3.     Uma maior conexão com o ecossistema suíço de inovação pode ser um ótimo caminho para acelerar a inovação para nós brasileiros, nossas empresas e nosso país.

Ricardo Amorim, autor do bestseller Depois da Tempestade, o economista mais influente do Brasil segundo a revista Forbes, o brasileiro mais influente no LinkedIn, único brasileiro entre os melhores palestrantes mundiais do Speakers Corner, ganhador do prêmio Os + Admirados da Imprensa de Economia, Negócios e Finanças, presidente da Ricam Consultoria e cofundador da Smartrips.co e da AAA Plataforma de Inovação.

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Fábricas fechadas, empregos suspensos: alta da energia paralisa indústria europeia

Gás disparou após Guerra na Ucrânia. ArcelorMittal, maior siderúrgica da Europa, paralisa altos-fornos na Alemanha, Alcoa reduz produção na Noruega e nem papel higiênico escapa da crise

Por The New York Times/O Globo 20/09/2022 

A fornalha, a 1.500 graus Celsius, irradiava um vermelho brilhante. Trabalhadores da Arc International, fabricante francesa de louças de vidro, inseriam aos poucos areia e massa fundida no forno. Logo depois, máquinas transformavam o líquido incandescente que saía da fornalha em milhares de taças de vinho, que seriam vendidas para restaurantes e famílias ao redor do mundo.

Por anos, as fábricas da Arc foram abastecidas por energia barata que ajudou a empresa a se tornar a maior produtora global de utensílios de mesa feitos de vidro – e um empregador crucial para o norte da França.

Mas o impacto do corte abrupto no fornecimento de gás russo para Europa, após a eclosão da guerra na Ucrânia, trouxe novos riscos ao negócio. Os preços da energia subiram tanto que o CEO da Arc, Nicholas Hodler, teve de refazer as previsões para o desempenho de sua atividade seis vezes nos últimos dois meses.

Recentemente, ele teve que colocar um terço dos 4.500 funcionários da companhia em licença parcial para economizar. Quatro das nove fornalhas da fábrica serão paralisadas. As demais serão convertidas para uso do diesel, em substituição ao gás, um combustível mais barato porém mais poluente.

– É a mais dramática situação por que já passamos. Para negócios intensivos em energia como o nosso, isso é devastador – disse Hodler.

A Arc não é um caso isolado. Os preços altos de energia estão golpeando a indústria europeia, forçando fábricas a cortar produção rapidamente e colocando milhares de empregados em suspensão temporária de contratos.

A produção industrial na zona do euro caiu 2,3% em julho em relação a igual mês no ano passado, a maior queda em mais de dois anos, ampliando o risco de recessão.

Produtores de metais, papel, fertilizantes e outros produtos que dependem de gás e eletricidade apertaram os cintos. Metade da produção de alumínio e de zinco na Europa foi paralisada, segundo a Eurometaux, que reúne os comercializadores de metais.

Entre eles está a Arcelor Mittal, maior siderúrgica da Europa, que está paralisando altos-fornos na Alemanha. A Alcoa, uma produtora global de produtos de alumínio, está cortando um terço da produção em sua fundição na Noruega. Na Holanda, a Nyrstar, maior produtora de zinco do mundo, está pausando a produção até novo aviso.

Nem mesmo o papel higiênico está imune: na Alemanha, a Hakle, uma das maiores fabricantes, anunciou que entrou em insolvência por causa de uma “crise energética histórica”.

O turbilhão enervou os habitantes de Arques, uma cidade cujas fortunas estão ligadas à fabricação de vidro há mais de um século. O arco moderno foi fundado em 1825 como a Verrerie Cristallerie d’Arques, então uma pequena fabricante local de taças de cristal fino.

Hoje, as operações da Arc são enormes, abrangendo uma área com quase metade do tamanho do Central Park de Nova York. Sua massa é tal que a Arc gera indiretamente outros 15.000 empregos na região, desde fábricas de papelão que embalam seus vidros até empresas de transporte que transportam seus produtos. As outras fábricas da Arc estão na China; Dubai, Emirados Árabes Unidos; e Nova Jersey.

“O desligamento dos fornos é uma má notícia”, disse um trabalhador, um veterano de 28 anos da fábrica, que falou sob condição de anonimato por medo de comprometer seu emprego. “Claro, os altos preços da energia estão tendo um impacto”, acrescentou, “mas é assustador a rapidez com que está acontecendo”.

Até certo ponto, a crise é um retrocesso das sanções europeias que pretendiam punir a Rússia por sua invasão da Ucrânia. A dor minou a confiança nas empresas europeias e sua capacidade de planejar.

Na semana passada, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs compensar o impacto limitando a receita de geradores de eletricidade de baixo custo e forçando as empresas de combustíveis fósseis a compartilhar o lucro que obtêm com os preços crescentes da energia.

Mas as soluções podem não ser rápidas o suficiente. Os custos já subiram além do que muitos fabricantes podem pagar. Milhares de empresas europeias estão perto do fim dos contratos fixos de energia assinados quando os preços eram mais baratos, e devem renová-los em outubro a preços atuais.

Os preços da eletricidade com um ano de antecedência, vinculados ao custo do gás, estão em torno de 1.000 euros (cerca de US$ 1.000) por megawatt-hora na Alemanha e na França, enquanto o gás natural está em recordes de cerca de 230 euros por megawatt-hora.

A porcelana Eschenbach sobreviveu à transição da Alemanha do comunismo para o capitalismo depois de 1989. Mas quando seus contratos de energia terminarem no final deste ano, a empresa terá contas anuais de energia de 5,5 milhões de euros, ou cerca de seis vezes o que está pagando agora, disse Rolf Frowein, seu diretor.

“Isso significa que temos que dobrar nossos preços, e ninguém pagará isso por nossos copos e pratos”, disse ele. A Eschenbach, uma empresa de 130 anos no estado oriental da Turíngia, está conversando com políticos locais sobre uma possível solução. É uma das dezenas de pequenas e médias empresas na Alemanha que temem fechar definitivamente.

A uma hora ao norte da fábrica Arc, a Aluminium Dunkerque, maior produtora de alumínio da França, dispensará parte de sua força de trabalho de 620 pessoas e reduzirá a produção em mais de 20%, pois enfrenta um potencial aumento de quatro vezes em seus custos de energia.

“O tempo que passamos lidando com questões de energia foi multiplicado por 10”, disse Guillaume de Goÿs, CEO. “Esperamos que a crise seja de curta duração, mas se durar, a indústria europeia estará com grandes problemas.”

Hodler está trabalhando para afastar a Arc dos problemas, após anos de dificuldades financeiras ligadas à superexpansão e, mais recentemente, bloqueios pandêmicos. Em dezembro, logo após Holder assumir o cargo em uma mudança de gestão, Arc recebeu um empréstimo de emergência de 45 milhões de euros apoiado pelo Estado francês e agora está pedindo ao governo um alívio adicional das altas contas de energia.

O local, que consome tanta energia quanto 200.000 casas, produz “arts de table”, incluindo pratos Luminarc e utensílios de mesa e bar da marca Cristal d’Arques. Ao todo, a Arc produz 4 milhões de copos por dia, além de itens como castiçais para Bath & Body Works e copos promocionais para Heineken e McDonald’s.

Funcionário verifica uma máquina de produção de vidros na Arc International, especializada no design e na fabricação de vidraria de mesa — Foto: Denis Charlet/AFP

Funcionário verifica uma máquina de produção de vidros na Arc International, especializada no design e na fabricação de vidraria de mesa — Foto: Denis Charlet/AFP

Isso requer calor intenso para derreter a areia em vidro em fornos que devem permanecer acesos 24 horas por dia. No verão, a crise de energia na Europa elevou a conta de energia da Arc para US$ 75 milhões, de 19 milhões de euros um ano atrás. Além disso, os consumidores de repente pararam de comprar itens como castiçais e máquinas de lavar, para os quais a Arc fabrica janelas de vidro, com os pedidos despencando.

“As pessoas estão preocupadas com suas contas de energia no inverno e estão dizendo: ‘Vou esperar para comprar esse item não essencial’”, disse Hodler.

O golpe duplo fez com que a equipe de gerenciamento da Arc lutasse por soluções – todas elas menos do que desejáveis.

Este mês, 1.600 trabalhadores foram convidados a ficar em casa dois dias por semana para cortar custos. E, pela primeira vez, os fornos da Arc passarão a ser movidos a diesel em vez de gás natural, que é alimentado diretamente para a fábrica por meio de um gasoduto. O diesel aumentará a pegada de carbono da Arc em 30% e deve ser entregue em grandes quantidades por caminhões-tanque.

Ainda mais assustadora era a perspectiva de fornos Arcs inativos. “Você não pode simplesmente desligar um forno de vidro, isso o destruiria”, disse Hodler. “Se eles forem desligados suavemente, eles sobreviverão, mas levarão mais de um mês para serem reaquecidos.”

Dois fornos que foram planejados para manutenção programada podem agora permanecer fora de serviço num futuro próximo. Outros dois serão temporariamente suspensos para compensar a queda na demanda.

“Não queremos interromper completamente as operações”, disse Hodler. “Mas não vamos produzir se perdermos dinheiro.”

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O que falta para as indústrias fazerem maior uso da energia solar térmica?

Para o presidente da Associação Brasileira de Energia Solar Térmica (Abrasol), Luiz Antonio dos Santos Pinto, uma série de fatores precisa mudar no Brasil para a plena adoção da energia solar térmica

Marina Filippe – Exame – 08/09/2022 

O Brasil é um país rico em sol, que apresenta boas condições para a implantação da energia solar térmica, de acordo com especialistas. Por receber uma radiação solar média entre 4,2 e 6,2 kWh/m² por dia, há um potencial anual de energia solar de 1.500 a 2.264 kWh/m², que pode ser absorvido pelos coletores solares térmicos. Além disso, e apesar das adversidades macroeconômicas, há um significativo parque industrial. Então, o que falta para as indústrias fazerem maior uso desse tipo de energia?

Para o presidente da Associação Brasileira de Energia Solar Térmica (Abrasol), Luiz Antonio dos Santos Pinto, uma série de fatores atrapalha a plena adoção da tecnologia já tão utilizada em outros países com menos insolação: legislação desfavorável para investimentos em eficiência energética; ausência ou não adequação de linhas de financiamento; falta de incentivo das autoridades; e desconhecimento em relação à tecnologia.

Segundo ele, ampliar o uso dos aquecedores solares neste momento seria uma contribuição relevante ao Brasil para reduzir os custos de produção e atender ao Acordo de Paris (tratado mundial que tem como objetivo reduzir o aquecimento global). “O setor industrial consome apenas 4% das vendas de aquecedores solares — um número pequeno em comparação aos segmentos residencial (76%) e comercial (14%)”, afirma.

É importante destacar que a produção brasileira de aquecedores solares em 2021 somou 1,81 milhão de metros quadrados, o que significou um aumento de 28% em relação a 2020. “Nos últimos 25 anos, chegamos à marca de 21 milhões de metros quadrados instalados, com potência energética superior à Usina de Itaipu, evitando anualmente a emissão de mais de 4 milhões de toneladas de CO₂ no meio ambiente brasileiro”, diz Santos Pinto.

Energia solar na indústria

A energia solar térmica pode ser utilizada para fornecer água quente até 100 ºC ou vapor para uma grande variedade de processos de produção: lavagem, branqueamento e tingimento na indústria têxtil; fabricação de cerveja; recurtimento em fábricas de couro; pasteurização de leite em laticínios; limpeza e tratamento de superfícies de máquinas de produção e chapas metálicas; além de secagem de dejetos orgânicos e lodo de esgoto para produção de fertilizantes agrícolas. Ou seja, seu uso pode ocorrer em segmentos como Alimentos e Bebidas, Papel e Celulose, Químico, Têxtil e Couro, entre outros.

Segundo o presidente da Abrasol, boa parte da demanda de calor industrial está abaixo de 90 ºC e consegue ser atendida de forma eficiente por tecnologias termossolares produzidas atualmente pelas indústrias nacionais de aquecedores que já vendem para residências e comércios, com suas instalações projetadas e instaladas por engenheiros e técnicos.

Há também uma grande demanda de calor até 150 ºC atingida facilmente por coletores importados de tubo a vácuo e fornecidos por várias indústrias brasileiras, com possibilidade de serem produzidas no País se houver maior demanda. Além disso, equipamentos específicos de aquecimento solar podem atingir mais de 1.000 ºC e atender quase toda a demanda de calor nas indústrias, mas ainda são economicamente inviáveis, embora com tecnologia totalmente dominada pelas indústrias nacionais.

“O aquecimento solar para processos industriais pode economizar uma quantidade significativa de custos de energia e combustíveis fósseis ao longo dos 30 anos de vida útil dos equipamentos, contribuindo significativamente para a competitividade industrial brasileira. As aplicações podem produzir calor o ano inteiro e incluir sistemas de armazenamento, que permitem operar durante a noite”, diz.

De toda a energia demandada pela indústria, apenas cerca de 20% é energia elétrica; o restante, cerca de 80%, é energia térmica, dos quais cerca de 35% com temperatura até 150 ºC, viável tecnicamente e economicamente para ser produzida por aquecedores solares no País como já mencionado. Para atender apenas esta demanda seriam necessários 170 milhões de m² de aquecedor solar, que evitariam a emissão de mais de 35 milhões de toneladas de CO₂ no meio ambiente e gerariam dezenas de milhares de empregos.

https://exame.com/esg/o-que-falta-para-as-industrias-fazerem-maior-uso-da-energia-solar-termica/

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Paul Krugman: O mundo está ficando menos globalizado

Por Paul Krugman – NYT/Estadão – 08/09/2022 

Podemos estar vendo os primeiros indícios de um recuo parcial da globalização, e isso não é necessariamente uma coisa boa

Lembram-se das guerras comerciais de Donald Trump? Na verdade, muitas das tarifas impostas por Trump ainda estão em vigor apenas, eu suspeito, porque Joe Biden não quer dar aos republicanos uma desculpa para que o acusem de ser brando com a China. Mas, de qualquer forma, as questões comerciais estão sendo ofuscadas por tudo, desde a inflação até a guerra na Ucrânia.

Sob o radar, no entanto, parte do que Trump queria, mas não conseguiu – um retorno da fabricação aos Estados Unidos – pode realmente estar acontecendo sob seu sucessor. Uma recente análise da Bloomberg encontra uma enorme onda de palavras-chave do economês como onshoring, reshoring e nearshoring, todos indicadores de planos para produzir nos Estados Unidos (ou possivelmente em países próximos) e não na Ásia.

Também houve uma enxurrada de notícias, apoiadas por alguns dados inconsistentes, sugerindo que as empresas realmente estão construindo novas fábricas nos Estados Unidos e em outros países de alta renda.

Portanto, podemos estar vendo os primeiros indícios de um recuo parcial da globalização. Isso não é necessariamente uma coisa boa, o que é assunto para outro dia. Por enquanto, vamos falar sobre por que isso pode estar acontecendo.

A primeira coisa a saber é que, se virmos algum declínio no comércio mundial nos próximos anos, não será a primeira vez que isso acontecerá. É comum supor que o mundo está cada vez menor, mais “plano”, que a crescente interdependência internacional é uma tendência contra a qual não se poder lutar. Mas a história diz o contrário.

Na verdade, a economia mundial foi surpreendentemente integrada às vésperas da 1ª Guerra. Em “As Consequências Econômicas da Paz”, John Maynard Keynes escreveu sobre o “episódio extraordinário” que ele afirmou ter terminado em agosto de 1914 – uma era em que “o habitante de Londres poderia encomendar por telefone, tomando seu chá matinal na cama, os vários produtos de toda a terra, na quantidade que lhe aprouvesse, e razoavelmente esperar a entrega antecipada à sua porta”.

E essa primeira era da globalização, de fato, retrocedeu após a Grande Guerra. As estimativas do comércio mundial total – exportações mais importações – como porcentagem do produto interno bruto para anos selecionados desde 1913 mostram isso. Houve um grande declínio no comércio entre o início da 1ª Guerra e as consequências da 2ª Guerra. A recuperação levou muito tempo: até 1980, o comércio dificilmente era maior, em relação à economia mundial, do que havia sido no final da era eduardiana.

O que se seguiu, no entanto, foi de fato um salto sem precedentes no comércio, às vezes chamado de “hiperglobalização”. Esta foi a era descrita no famoso livro do meu colega Tom Friedman, “The World Is Flat” (O mundo é plano), publicado pela primeira vez em 2005; muitas pessoas esperavam que o comércio crescente continuasse indefinidamente.

Na verdade, porém, a hiperglobalização parou por volta de 2008; o comércio internacional como parte da economia mundial tem estado mais ou menos estável por 14 anos. E há três razões para acreditar que a globalização realmente recuará nos próximos anos, embora provavelmente não na medida em que ocorreu nos anos entre guerras.

A primeira razão, a mais benigna, é a ascensão dos robôs – com isso me refiro à tecnologia que economiza mão-de-obra em geral. As pessoas geralmente assumem que melhorias na tecnologia de transporte significam necessariamente mais comércio. Mas isso só é verdade se o progresso no transporte for mais rápido que o progresso na tecnologia de produção. Eu escrevi um pequeno modelo sobre isso alguns anos atrás, mas aqui está um reductio ad absurdum: imagine que todos nós tivéssemos acesso aos replicadores em Jornada nas Estrelas – máquinas que sintetizariam qualquer coisa que você quisesse na hora. Se tudo o que você tivesse que fazer fosse dizer “Chá, Earl Grey, quente” e uma xícara fumegante se materializasse, você não precisaria importar as coisas do Sri Lanka.

De fato, as empresas que falam em reordenar a produção muitas vezes afirmam que técnicas modernas, em alguns casos, permitem que produzam com relativamente poucos trabalhadores, caso em que as economias de custos da terceirização para países de baixos salários são mínimas – e são superadas pelas vantagens logísticas de produzir perto de casa.

Uma segunda razão, menos benigna, para o declínio da globalização é a crescente percepção de que o mundo é um lugar perigoso. É especialmente perigoso permitir-se depender economicamente de países com regimes autoritários, que podem subitamente interromper as relações como parte de um jogo de poder ou simplesmente porque os ditadores tendem a se comportar de forma errática. A Europa está percebendo agora que tornar-se dependente do gás natural russo foi um erro terrível. A China não se envolveu em chantagem econômica – ainda não, pelo menos – mas tanto o exemplo russo quanto a arbitrariedade dos lockdowns por causa da covid de Xi Jinping deixaram as empresas temerosas sobre depender de fornecedores chineses.

Aliás, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio – o documento fundamental para o moderno sistema de comércio mundial – dá explicitamente a cada nação o direito de tomar “qualquer ação que considere necessária para a proteção de seus interesses essenciais de segurança”. Esse direito às vezes foi abusado – Trump, de forma absurda, invocou a segurança nacional para impor tarifas ao alumínio canadense – mas, dados os eventos recentes, é difícil negar o sucesso de políticas como o Science Act que subsidiam a produção de semicondutores nos EUA.

Finalmente, vamos admitir: agora que os Estados Unidos estão finalmente fazendo algo sobre as mudanças climáticas, algumas das políticas que estão introduzindo serão, na prática, pelo menos levemente protecionistas. O novo crédito fiscal para compras de veículos elétricos se aplicará apenas a veículos montados na América do Norte.

Por que fazer isso? Política – política por uma boa causa, eu diria, mas política mesmo assim. Conseguir uma ação climática foi um grande impulso político; alguns de nós ainda estão se beliscando para saber se realmente aconteceu. Mas, para vendê-lo, os democratas precisavam ser capazes de mostrá-lo como um programa que criaria empregos, o que significava incluir cláusulas de compra de produtos americanos.

Essas cláusulas violam os acordos comerciais existentes? Possivelmente. Mas vamos encarar os fatos: honrar a carta de acordos comerciais é menos importante do que salvar o planeta. Se é isso que é necessário para combater as emissões de carbono, que assim seja. Mas voltando ao meu tema original: por essas e outras, parece provável que estejamos prestes a ver algum recuo da globalização.

Paul Krugman é Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2008, e colunista do The New York Times

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