Qualquer lugar virou opção, menos a sala de aula. A desilusão tem causas objetivas: Salário baixo, sala superlotada, violência escolar, desprestígio social, pais que desautorizam, celulares que disputam a atenção, redes sociais que difamam o docente por esporte
Por Leandro Karnal – Estadão – 20/09/2026
Os números assustam quem quiser olhar. Entre 2010 e 2021, houve uma redução de cerca de 26% nas matrículas em cursos de formação de professores no Brasil, segundo o Censo da Educação Superior do Inep. Um quarto dos aspirantes simplesmente desapareceu. Evaporaram para onde? Para cursos tecnológicos, para o empreendedorismo digital, para a vida adulta precoce dos aplicativos de entrega. Qualquer lugar virou opção, menos a sala de aula.
Há um dado que eu repetiria em qualquer mesa de jantar, só para ver a reação dos comensais. Das 2,8 milhões de vagas ofertadas em cursos de licenciatura em 2021, apenas 300 mil foram preenchidas. Apenas 15% dos quase 4 milhões de ingressantes em cursos superiores optam por licenciatura. Mais de 50% dos matriculados abandonam a formação antes de concluí-la. Traduzo: abrimos as portas da vocação, e os corredores estão vazios. Quem entra desiste. Quem não desiste chega ao fim desencantado e, por vezes, endividado. Minha área de formação virou um território de crise.
A desilusão tem causas objetivas. Salário baixo, sala superlotada, violência escolar, desprestígio social, pais que desautorizam, celulares que disputam a atenção, redes sociais que difamam o docente por esporte. O rendimento médio do professor brasileiro da educação básica com nível superior foi de cerca de R$ 5.500 em 2024, segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica (Todos pela Educação, com dados do Inep e da RAIS), enquanto a média da OCDE chega praticamente ao dobro. Mas há também uma causa subjetiva, menos discutida: o professor deixou de ser figura de aspiração. O menino que admirava o mestre passou a admirar o influenciador. A menina que queria ser professora agora quer ser algo, qualquer coisa, que produza conteúdo em vídeo vertical. Pesquisa Varkey de 2018, em 35 países, colocou o Brasil em último lugar em prestígio docente: ficamos atrás inclusive da Argentina, da Colômbia e do Peru.
A máquina pública vê o precipício. Segundo projeções, se não houver mudanças significativas, em 2040 o país precisará de aproximadamente 235 mil docentes adicionais para atender à demanda estudantil. O governo respondeu com o programa Pé-de-Meia Licenciaturas, inspirado no Mais Médicos, oferecendo bolsas mensais para atrair jovens à carreira. É um paliativo bem-intencionado. Não basta. Nenhum subsídio de mil reais compete com a fantasia de enriquecimento instantâneo que o algoritmo vende todo dia no café da manhã.
Há uma perversidade estrutural que merece destaque. Entre 2015 e 2024, houve ampliação de 8,26% do número de professores no Brasil, enquanto as matrículas escolares se reduziram em 8,55% (Le Monde Diplomatique). Paradoxo aparente? Não. Reflexo do envelhecimento da categoria, aquilo que pesquisadores chamam, com precisão melancólica, de “adulti-idosificação do magistério”. A idade média dos docentes efetivos das redes estaduais já beira os 46 anos, e o número de professores da educação básica com 50 anos ou mais cresceu 109% entre 2009 e 2021, segundo o Instituto Semesp, com base em dados do Inep. Os professores envelhecem em serviço porque ninguém chega atrás deles. O que parece sobra é, na verdade, represamento. Quando essa geração se aposentar em bloco (e ela vai), a cadeira ficará vazia.
Há também a questão das áreas críticas. O Tribunal de Contas da União, em 2014, já apontava física, química, sociologia e filosofia como as disciplinas com maior escassez de professores. Mais de uma década depois, a deficiência não só persiste como se agravou. Uma geração inteira de adolescentes brasileiros termina o ensino médio sem nunca ter aberto uma equação de Schrödinger, sem jamais ter ouvido o nome de Comte, sem saber a diferença entre planalto e planície. Não sabem porque não há quem ensine. O resultado salta no PISA 2022: o Brasil ficou na 65.ª posição em matemática entre 81 países avaliados, com 73% dos jovens de 15 anos em nível abaixo do básico.
A crise não é somente da escola. É da sociedade que produziu essa escola. Quando um país trata o professor como o Brasil trata, o professor é o espelho daquilo que o país pensa de si mesmo. Pagamos mal porque nos julgamos mal. Desvalorizamos o magistério porque desprezamos o conhecimento formal. No fundo, muitos acreditam que a esperteza basta. O grito substitui o estudo paciente. Anísio Teixeira, em 1936, advertiu: “Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias: a escola pública”. A máquina nunca foi montada de fato. Hannah Arendt, em A Crise na Educação (1958), foi mais longe: “A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumir a responsabilidade por ele”.
Montaigne dizia que é melhor uma cabeça bem-feita do que uma cabeça bem-cheia. Mas as duas dependem de alguém que tenha dedicado a vida a fazê-las. Se esse alguém desaparece, o que sobra? Suspeito que seja o improviso com tutorial de YouTube. Talvez seja esse o horizonte que se anuncia. A inteligência artificial ensinando jovens criados sem mestres. O professor será visto como personagem de outra época, talvez como olhamos acendedores de lampiões de eras passadas. Paulo Freire dizia que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua produção. Sem professor, não há possibilidade. Tudo vira conteúdo sem curadoria e vídeos superam gente preparada para trabalhar com alunos.
Os números deveriam estar sendo debatidos de forma séria na campanha eleitoral. O que vejo? Imbecis dizendo que a escola está doutrinando alunos. A realidade? A escola perdeu a força de convencer. Alunos e professores desejam o modelo mais recente de celular. Sou professor há 44 anos e nunca vi nada tão grave. Peço licença para manifestar o que vem do fundo do meu coração de forma contundente: “Candidatos: parem de falar mer(…) e comecem a avaliar o mundo real da sala de aula”. Não aguentamos mais. Perdão pela falta de esperança e pelo palavrão. Não é comum no meu texto, como a querida leitora e o estimado leitor sabem há uma década. Por vezes, porém, a moderação deve ser derrubada. Sem professores bem formados, bem pagos e com boas condições profissionais, não haverá um Brasil que valha a pena no futuro imediato. Por favor, ouçam a voz dos profissionais da educação. Comecem, enfim, a discutir o Brasil nesta campanha.
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