- País tem reservas relevantes, mas mobiliza capital nacional insuficiente e investe pouco em tecnologia e capacidade industrial
- No Congresso, o Brasil confunde estratégia nacional com controle estatal
Rodrigo Tavares – Folha – 7.mai.2026
Professor catedrático convidado na NOVA School of Business and Economics, em Portugal. Nomeado Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial, em 2017
O debate no Congresso sobre a política nacional de minerais críticos revela que o Brasil ainda não encontrou o seu ponto de equilíbrio sobre este tema. Mistura a legítima ambição de abrasileirar esse mercado com uma tentação intervencionista de controlar transações comerciais e societárias. Ao mesmo tempo, confunde a necessidade de atrair capital e tecnologia estrangeiros com a desconfiança, herdada do velho repertório nacional-desenvolvimentista, em relação ao próprio capital vindo de fora. Daí nascem as ilusões que ainda marcam o debate nacional sobre minerais críticos.
A venda da Serra Verde em Goiás por US$ 2,8 bilhões a uma empresa americana transmitiu a ideia de que os projetos minerais em terras raras no Brasil começam agora a cair nas garras do capital estrangeiro. É como se o país estivesse na iminência de perder o controle dos seus ativos. Mas não é bem assim. A quase totalidade dos cerca de 15 projetos de terras raras em desenvolvimento no país já se encontra nas mãos de grupos estrangeiros. A Aclara é canadense e peruana; a Meteoric, a Viridis e a Brazilian Critical Minerals são australianas; Atlas Critical Minerals e Energy Fuels são americanas. Aliás, a própria manchete desta Folha indicou que a Serra Verde é originalmente brasileira, quando, na verdade, sempre foi detida por capitais americanos e britânicos. As grandes empresas de mineração brasileiras —como a Vale ou a Nexa— deixaram passar essa oportunidade. Os estrangeiros chegaram primeiro às terras raras brasileiras e há muitos anos. São eles que, desde o início, vêm desenvolvendo esses projetos minerais no país. Mérito deles, demérito do Brasil.
Entre os maiores projetos do setor ainda em mãos brasileiras estão a Cabo Verde Mineração, dona do maior empreendimento de terras raras do país em área, e a Terra Brasil Minerals. Mas mesmo neste último caso, a imprensa tem noticiado as diligências da empresa para uma venda a investidores japoneses, americanos, chineses ou australianos.
A Faria Lima também chegou tarde. Contam-se nos dedos as gestoras de ativos alternativos que têm mandato para investir em mineração (Ore/Régia, MadCap), que estão desenvolvendo novos fundos dedicados ao tema (BTG, Kinea) ou que avaliam entrar nesse mercado (Flying Rivers, IG4). E há uma dificuldade estrutural. O Brasil tem gestores de ativos de elevada qualidade em análise financeira, mas com pouca familiaridade técnica com mineração. E tem muitos profissionais de mineração, especialistas em geologia, metalurgia e engenharia, mas sem experiência em asset management.
Isso é particularmente preocupante porque a vastíssima maioria dos projetos de terras raras no Brasil ainda está em fase pré-certificação, antes de um relatório NI 43-101 ou JORC. Em termos financeiros, isso significa mais risco, maior assimetria de informação e uma competência técnica muito mais exigente. A tendência natural dos gestores menos experientes será evitar projetos tão precoces. Mas esperar demais tem custo. Em mineração, quando o recurso já está certificado, a rota metalúrgica, validada, o licenciamento, encaminhado, e o offtake, estruturado, boa parte do upside econômico já ficou para trás. Na prática, isso significa que boa parte do valor será capturada pelos primeiros investidores em minerais críticos que, reforço, no caso brasileiro, tendem a ser estrangeiros. Eles apostaram cedo; o Brasil hesitou.
Também parecemos hipnotizados pela ideia de que o Brasil teria a “segunda maior reserva de terras raras do mundo, depois da China“. Lê-se quase como uma promessa de abundância súbita. O Brasil seria o golfo Pérsico dos anos 1960 ou a Califórnia do século 19. Mas terras raras não são petróleo nem ouro. Na prática, terras raras existem em muitos lugares. Provavelmente há terras raras no quintal de sua casa. Como o Brasil é um país continental, é natural que o volume agregado de recursos seja expressivo. Mas ter grandes reservas não transforma automaticamente um país em potência de terras raras.
O que importa é a qualidade econômica do recurso. Nem todos os 17 elementos de terras raras têm o mesmo valor comercial. A prioridade industrial está nos elementos magnéticos, sobretudo neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, essenciais para ímãs permanentes de alto desempenho. E esses são os mais raros. Nem todas as mineralizações são facilmente extraíveis. Há uma diferença enorme entre depósitos em rocha dura e argilas iônicas, tanto em custo como em complexidade metalúrgica. E, quando o minério contém elementos radioativos, como tório ou urânio, o risco ambiental, regulatório e operacional aumenta substancialmente.
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Em outras palavras, reserva não é sinônimo de riqueza. Por isso, é fundamental que os fundos brasileiros de private equity saibam separar o trigo do joio. Nem toda oportunidade mineral é uma boa oportunidade de investimento. Aliás, a maioria não é.
Se extrair terras raras do solo já é complexo, separá-las exige outro patamar de conhecimento científico e tecnológico. A separação de terras raras combina química fina, engenharia de processos, domínio metalúrgico e capacidade industrial. A China transformou essa competência única numa infraestrutura de poder global e protege seus especialistas em separação e processamento como ativos soberanos do Estado.
Ao acompanhar o debate público sobre minerais críticos, fica-se com a impressão de que o Brasil está morto nessa dimensão tecnológica da cadeia. Não está. Há, por exemplo, competências relevantes em instituições como o Citi-Senai (Centro de Inovação e Tecnologia), Cetem/MCTI (Centro de Tecnologia Mineral), Senai Cimatec, IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas, Prof. Maciel Luz) e Poli-USP (Prof. Fernando Landgraf). O problema é que essas competências continuam subfinanciadas, dispersas e ainda distantes da escala industrial necessária para transformar conhecimento científico em soberania produtiva.
Além disso, iniciativas privadas de separação, refino ou processamento avançado de terras raras no Brasil, como a joint venture entre a Ionic Rare Earths e a Viridis, em Poços de Caldas (MG), e a planta da Brazilian Rare Earths em Camaçari (BA), apesar de relevantes, revelam a mesma assimetria: capital, tecnologia e liderança empresarial vêm sobretudo de grupos estrangeiros. Eles fizeram a aposta; o Brasil ficou para trás. Mas a resposta não é nacionalizar a cadeia à força. Verticalizar integralmente esse setor no Brasil levará, na melhor das hipóteses, décadas. A solução mais realista é construir parcerias estratégicas, atrair capital paciente, absorver tecnologia estrangeira, formar competências locais e negociar, desde já, uma participação maior do país nos elos de maior valor agregado.
No último ano dediquei uma grande parte da minha vida acadêmica aos minerais críticos. Em outubro de 2025, estive em Brasília discutindo com várias entidades governamentais o mercado nacional de terras raras. A resposta que mais ouvi foi: “Em abril de 2026, a maior parte dos seus interlocutores já terá deixado os cargos. E em outubro, teremos eleições. Ou seja, voltaremos às terras raras em 2027.”
Não foi exatamente assim. Desde então, o governo brasileiro assinou acordos com a Coreia do Sul, Índia, Alemanha e Espanha em minerais críticos. União Europeia deverá vir em seguida. E nos EUA Lula (PT) discutiu esse tema com Donald Trump. Mas, até agora, são acordos flácidos, geralmente protocolos de intenção. A iniciativa do Congresso de criar uma política nacional para minerais críticos é bem-vinda. O Brasil precisa, sim, organizar e profissionalizar a forma como fala com o mundo sobre esses ativos estratégicos. Mas essa política não pode converter estratégia industrial em tutela estatal, nem sufocar a livre concorrência, a abertura de mercados e a autonomia do setor privado brasileiro. Além disso, a nova política não pode ignorar que o mercado de minerais críticos é global. Se for fechado ou nacionalizado por decreto, morre. O Brasil precisa capturar mais valor sem se isolar das cadeias internacionais que tornam esse valor possível.
As ilusões sobre as terras raras no Brasil – 07/05/2026 – Rodrigo Tavares – Folha
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