O robô do futuro não quer parecer gente

A Genesis AI aposta contra a obsessão por robôs humanoides com um modelo geométrico e minimalista chamado Eno

Jesus Diaz – Fast Company Brasil – 19-06-2026 

A Genesis AI está apostando contra a obsessão da indústria de tecnologia por robôs bípedes que imitam humanos. Sua primeira máquina de uso geral combina mãos destras e parecidas com as humanas, com precisão milimétrica, a uma base minimalista com rodas que pode se dobrar até sumir de vista.

É um robô projetado para fazer qualquer coisa que você possa imaginar, de trabalhos em fábricas a tarefas domésticas. Mas sua primeira implementação será em laboratórios.

Em vez de construir outro humanoide que possa intimidar e deixar as pessoas desconfortáveis, o CEO e fundador da empresa, Zhou Xian, e o chefe de design, Daniel Hundt, decidiram que precisavam criar um agente físico gentil, “invisível” e agnóstico em relação ao caso de uso, que sai do caminho ao se dobrar no estilo origami.

Chamado de Eno, o robô com rodas tem um design que evita se parecer com um humano, mas opera com destreza de nível humano. Sempre que é chamado, ele “acorda”, erguendo-se à medida que desdobra sua estrutura dobrável, que segue um princípio de design que eles chamam de “inteligência calma”.

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“Acho que um robô deve parecer subserviente a você, deve ser um objeto que te ajuda, não deve parecer que pode te dominar. E há muitos humanoides por aí que parecem ser mais capazes do que você como humano. Acredito que isso, automaticamente, nos deixa um pouco desconfiados”, diz Hundt.

Assim como ele, Xian acredita que os consumidores comuns rejeitam a ideia de uma pessoa sintética andando pela casa. “Geralmente, as pessoas acham que humanoides muito parecidos com gente são tecnologia bacana, mas a maioria daqueles com quem conversamos diz: ‘não, não consigo me ver tendo um desses na minha casa’”, observa o fundador.

INTELIGÊNCIA CALMA

Toda a presença física do Eno gira em torno do conceito de se dobrar e sumir. Em vez de ficar ociosa no canto da sala como um manequim assustador, a máquina utiliza uma coluna central feita de painéis articulados.

Quando inativa, essa torre segmentada se recolhe por meio de uma série de movimentos, reduzindo a unidade inteira ao volume de uma mala de viagem.

Seguindo o mesmo princípio de inteligência calma, o objetivo da equipe era projetar um objeto que, esteticamente, parecesse um móvel de luxo e não um clone humano.

Encontrar esse equilíbrio exato levou mais de 50 iterações de design, aponta Hundt. O design geométrico inicial do Eno apresentava um esquema de cores verdes que realmente não agradou.

O projeto finalmente funcionou em um momento de virada, quando eles tiraram a cor completamente e adicionaram uma tela de interface cognitiva, que é um recurso opcional nos robôs de produção real que estão fabricando na China.

“Quando olhei para ele novamente, comecei a imaginar essa versão branca que é pura e não tenta chamar a sua atenção”, relembra Xian. “E então tivemos a ideia de desenvolver uma versão com tela, para colocar uma tela gigante na parte superior. De repente, tudo fez sentido.”

Leia mais: Design e inclusão: por que os robôs são sempre tão brancos?

Essa praticidade explica por que a máquina não tem rosto. O topo do corpo do robô precisa seguir a estrutura humana para permitir seu principal requisito funcional, a destreza dos braços e mãos.

Mas a equipe não queria forçar a aparência de algo que se parece com um humano. “Robôs não precisam necessariamente de uma cabeça”, diz ele. “Não há cérebro ali. O cérebro vive no chip.”

RODAS, TENDÕES E CÉREBROS

Essa mesma lógica ditou a base da máquina. Os criadores debateram a construção de um humanoide com pernas primeiro, reconhecendo que pernas mecânicas são úteis para subir escadas. Mas as demandas industriais forçaram uma mudança de rumo.

“A parte inferior do corpo é assim principalmente porque, quando conversamos com clientes em potencial, muitos deles querem que seja [com rodas], pois é mais eficiente do ponto de vista do consumo de energia”, aponta Xian.

As rodas maximizam a eficiência energética e a estabilidade operacional em comparação com pernas mecânicas, que precisam ajustar constantemente a postura para manter o robô de pé e estável.

Enquanto a metade inferior rola, o torso superior espelha nossa própria anatomia para manipular ferramentas já construídas para humanos. A máquina tem dois braços equipados com mãos robóticas projetadas para corresponder às mãos humanas em forma e função.

Imagine a mecânica dos seus próprios músculos e tendões. Quando você segura um copo, sua pegada é firme, mas maleável. Se alguém esbarra no seu braço, suas articulações cedem suavemente em vez de travarem rigidamente e quebrarem o copo.

Essa flexibilidade orgânica, segundo a empresa, dá à máquina a capacidade de manipular itens com uma precisão medida em frações de milímetro.

o robô tem um design que evita se parecer com um humano, mas opera com destreza de nível humano.

O intelecto de silício que impulsiona esse hardware é chamado de GENE. A empresa revelou recentemente esse modelo de fundação, que atua como o cérebro central do sistema. Pense em um modelo de fundação como uma biblioteca digital da experiência humana. 

Em vez de escrever linhas de código que dizem à máquina exatamente como girar uma chave inglesa, os cientistas alimentam o computador com centenas de milhares de horas de dados que mostram humanos realizando trabalhos cotidianos.

A máquina absorve esses padrões, basicamente ensinando a si mesma as leis fundamentais do movimento antes mesmo de tentar uma tarefa específica. Como o modelo utiliza dados humanos no treinamento, a máquina se move com uma fluidez natural.

SAINDO DO LABORATÓRIO

Mas a Genesis AI, assim como muitos de seus concorrentes nos Estados Unidos, enfrenta os mesmos desafios de escalabilidade. O primeiro lote de produção consistiu em cerca de dez unidades construídas na China. A empresa planeja transferir o processo de montagem para fora das instalações chinesas até o final do ano. 

Leia mais: Robôs humanoides made in China dão baile nos made in USA

Ainda este ano, a Genesis AI planeja começar implementações direcionadas com clientes. O primeiro alvo é o setor industrial: empresas de logística, laboratórios e linhas de fabricação automotiva que lidam com cabeamentos complexos.

A fase dois vai introduzir a máquina em setores de serviços que exigem interação humana, como hotéis e hospitais. Aplicações domésticas de consumo e tarefas ao ar livre serão a etapa final.


SOBRE O AUTOR

Jesus Diaz fundou o novo Sploid para a Gawker Media depois de sete anos trabalhando no Gizmodo. É diretor criativo, roteirista e produtor da The Magic Sauce e colaborador da Fast Company. 

O robô do futuro não quer parecer gente | Fast Company Brasil 

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Para gerar impacto real com IA, empresas reconstroem operações do zero

Estudos realizados pela Deloitte indicam 2026 como o ano da consolidação da tecnologia em larga escala e apontam que é necessário ir além da automatização de processos existentes

Por Deloitte – Valor – 31/03/2026

Depois de um período de experimentação nos últimos anos, a tendência atual é de diminuição da lacuna existente entre as expectativas geradas pela inteligência artificial (IA) e suas aplicações reais. O momento é de consolidação do uso da tecnologia em larga escala, com base no amadurecimento das soluções utilizando agentes, das novas aplicações em SaaS e dos impactos significativos em segmentos como mídia, robótica e conectividade via satélite.

Estas são algumas das principais constatações do TMT Predictions, levantamento publicado pela Deloitte. O trabalho aponta para o início de uma era mais silenciosa e madura entre as empresas do setor nativo da IA, Tecnologia, Mídia e Telecomunicações.

As conclusões estão alinhadas com outra pesquisa realizada pela Deloitte, a Tech Trends 2026. Em sua 17ª edição, o relatório mostra que as empresas líderes na adoção de IA não se limitam a realizar a automação básica de processos existentes; elas estão reconstruindo processos do zero para gerar impacto real. Desta forma, a tecnologia passa a ser utilizada de forma estratégica, e assim se consolida como fator central na transformação dos negócios.

Desafios e incertezas na implantação de IA

“A IA está mudando a lógica de funcionamento das empresas. Não se trata mais de automatizar tarefas isoladas, mas de redesenhar processos de ponta a ponta, com foco claro em eficiência, escala e impacto no negócio”, afirma Eduardo Rodrigues, líder do CIO Program da Deloitte.

Ronaldo Fragoso, sócio-líder para a indústria de Technology, Media & Telecommunications da Deloitte Brasil, reforça que 2026 deve ser o ano de trazer a visão dessa tecnologia para a prática e a aplicabilidade. “Em 2025 tivemos um ano piloto e de experimentação, em que foi discutido todo o potencial da IA. Mas vimos que ainda há um passo anterior de organização de dados, de treinamento de modelos e de análises que é fundamental para destravar o que ela pode trazer. Para extrair valor real da inovação, as empresas precisam equilibrar inovação com responsabilidade, preparando suas estruturas tecnológicas e seus times para operar em um ambiente cada vez mais integrado entre humanos e máquinas”

No Brasil, o avanço acelerado da IA ocorre em um contexto marcado por desafios econômicos, incertezas regulatórias e uma necessidade crescente de eficiência, o que torna ainda mais importante o investimento em inovação estratégica, escalável e orientada a resultados.

Ao mesmo tempo, algumas empresas ainda estão em estágios iniciais de maturidade quando se trata do uso mais avançado da tecnologia, avalia Rodrigues. “Nas conversas com CIOs, é comum ver os casos de uso muito concentrados em aplicações de inteligência artificial generativa via chat ou na automação de processos existentes, sem explorar plenamente as possibilidades”.

Tendências e previsões

O Tech Trends destaca cinco grandes tendências que estão redesenhando o ambiente corporativo: os robôs inteligentes e a chamada IA física, que deixam de ser sistemas pré-programados para atuar de forma autônoma em ambientes complexos; os agentes de inteligência artificial, capazes de executar tarefas, tomar decisões e colaborar com equipes humanas; a necessidade de evolução da infraestrutura tecnológica para sustentar o uso intensivo da IA; a transformação dos modelos operacionais de Tecnologia da Informação (TI); e o paradoxo da cibersegurança impulsionada pela própria inteligência artificial, que gera novos riscos na mesma velocidade com que oferece alternativas para combatê-los.

Por sua vez, o TMT Predictions lista 13 tópicos importantes para 2026 dentro do setor de TMT, sendo que mais de metade está relacionada a algum aspecto ligado à automação. Os temas incluem a exigência de mais poder computacional, o uso crescente de inteligência artificial para robótica industrial, robôs humanoides e drones, os avanços nas séries de vídeos curtos lançados diretamente para celular e a expansão dos serviços de internet via satélite.

“Essa indústria possui inúmeras possibilidades de uso diretamente no core business, seja na produção de conteúdo ou no provimento de infraestrutura para orquestrar dados e IA. Com isso, a tecnologia pode alavancar o setor, o seu propulsor de transformação, influenciando novos modelos de negócio e novas formas de operar”, diz Jefferson Denti, especialista de IA da Deloitte Brasil.

https://valor.globo.com/patrocinado/deloitte/impacting-the-future/noticia/2026/03/31/para-gerar-impacto-real-com-ia-empresas-reconstroem-operacoes-do-zero.ghtml 

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Casimiro(Cazé TV) quebrou o YouTube e mudou o mercado de mídia esportiva para sempre

Foram 12,7 milhões de dispositivos simultâneos num empate; o número que mostra muito mais que futebol

Por Camila Farani – Estadão – 17/06/2026 

O maior conglomerado de mídia transmite Copa do Mundo no Brasil desde 1970. Construiu gerações de narradores, criou rituais de audiência, transformou o jogo em produto televisivo com uma consistência que nenhuma outra emissora do País chegou perto de replicar.

Na última quinta-feira, 11, pela primeira vez em décadas, não foi ela que dominou a conversa sobre a estreia do torneio no Brasil. Foi um canal do YouTube fundado por um streamer de 28 anos que começou transmitindo jogos de videogame. A transmissão do empate em 1 a 1 entre Brasil e Marrocos pela CazéTV registrou pico de 12,7 milhões de aparelhos conectados simultaneamente no YouTube, o maior número já registrado por uma transmissão de futebol na plataforma em todo o mundo.

Doze vírgula sete milhões. Num empate. Num sábado. Em gratuito. O mercado de mídia esportiva brasileiro mudou de endereço, e a mudança foi confirmada com um recorde que não deixa margem para interpretação.

Lembro-me de que, em 2015, eu fazia parte do maior programa de empreendedorismo do mundo na TV. Eu já era do ambiente de tecnologia e sugeri que ele fosse transmitido no YouTube também e assim tivesse mais um canal de exibição. Era uma estratégia clara para navegar em um outro perfil de espectadores.

A resposta foi um severo não, porque, segundo eles, dividiria a audiência da TV. Agora, 11 anos depois, o programa tem uma visibilidade imensa graças ao YouTube e, pasmem, com um baita empurrão do próprio Cazé.

O número de sábado não nasceu no sábado. A CazéTV existe desde 2019, quando Casimiro Miguel resolveu criar conteúdo em suas próprias redes. Foi em 2022 que o canal saiu do nicho com a transmissão de jogos da Copa do Mundo. Em 2024, cobriu as Olimpíadas de Paris com expertise nativa digital que os canais tradicionais não tinham.

Em 2025, transmitiu a Copa do Mundo de Clubes. Cada evento foi maior que o anterior. Cada evento foi testado, aprendido e corrigido antes do seguinte. A Fifa ficou tão satisfeita com os resultados que confirmou a parceria para 2026, com direitos de todos os 104 jogos.

Não foi decisão sentimental. Foi decisão comercial baseada em dados que a própria Copa de Clubes havia gerado. Quando o YouTube entrega resultado que a televisão não entrega, o próximo contrato vai para onde o resultado estava.

A CazéTV existe desde 2019, quando Casimiro Miguel resolveu criar conteúdo em suas próprias redes 

Essa trajetória não é ascensão meteórica. É construção sistemática de capacidade, ativo por ativo, evento por evento, até chegar no maior torneio do planeta com credencial técnica e audiência instalada que nenhuma emissora tradicional construiu dessa forma. Isso é ótimo para quem acha que, ao abrir um negócio, você vai ter um resultado da noite para o dia.

O feito o colocou acima de transmissões históricas do YouTube, incluindo eventos fora do esporte. Esse dado não é curiosidade de trivia. É o mapa mais preciso de onde está a atenção do público jovem global em 2026. Não no cabo. Não no satélite. No telefone que está sempre no bolso, na plataforma que não cobra assinatura e no formato que permite comentar, reagir e compartilhar no mesmo gesto.

Lembro de uma conversa com o diretor de marketing de uma empresa de bens de consumo que me perguntou, no início deste ano, se deveria distribuir verba de Copa entre TV aberta e digital ou concentrar em um dos dois. A resposta que eu dei então e que os números de sábado confirmam é que a pergunta estava errada. Não é TV aberta versus digital, mas qual plataforma o seu cliente específico está usando para assistir ao jogo?

O que foi feito com a Copa do Mundo em quatro anos é o manual mais preciso de como um produto digital desafia um incumbente sem precisar derrubá-lo. Não competiu frontalmente. Escolheu o território que a Globo não dominava, o digital nativo, e foi construindo presença, credibilidade e audiência nesse território até o momento em que o maior evento do planeta chegou e o território que ele havia construído era exatamente onde a audiência mais jovem queria estar.

O recorde de 12,7 milhões de dispositivos simultâneos não foi resultado de um dia. Foi resultado de uma decisão tomada em 2019 de construir no lugar certo antes de todo mundo entender que era o lugar certo.

Opinião por Camila Farani

Investidora, presidente da G2 Capital e CEO da FEN educação para negócios. Nova coluna toda quarta-feira.

Casimiro quebrou o YouTube e mudou o mercado de mídia esportiva para sempre – Estadão 

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A maior transformação da liderança empresarial

E as empresas que entendem isso constroem reputações mais consistentes e duradouras

Por Nizan Guanaes – Valor – 16/06/2026

Enquanto todos estão colocando a tecnologia como principal vetor de transformação das empresas, eu, por dever de ofício e senso de realidade, divido esse pódio com a comunicação. Não porque os comunicadores tenham tomado o poder, mas porque a comunicação tomou conta de tudo.

O CEO virou mídia, e essa talvez seja a maior transformação da liderança empresarial contemporânea. Durante décadas, as empresas eram definidas pelo que produziam. Hoje, são definidas em grande parte pelo que as pessoas falam delas e pela velocidade com que falam. Steve Jobs, sempre visionário, percebeu isso lá atrás, com suas apresentações de produtos que de tão icônicas viraram até filme de Hollywood.

Uma crise que antes podia levar meses para ganhar corpo, hoje nasce pela manhã, viraliza à tarde e destrói valor à noite. Basta um post, uma declaração, um vídeo captado por câmeras onipresentes e lá se vão bilhões em valor de mercado e uma reputação construída arduamente ao longo de anos, décadas.

Mas existe uma razão ainda mais profunda para essa mudança. As redes aproximaram tudo de todos, tornaram o inacessível acessível. E agora as pessoas não querem ouvir o comunicado, o porta-voz, o organograma. Elas querem ouvir o líder. O CEO não pode terceirizar confiança. Por isso, o executivo moderno deixou de ser apenas gestor de operações. Ele virou também gestor de significado.

O líder de hoje precisa explicar a seus públicos para onde a empresa está indo, traduzir complexidades e gerar clareza. Em um mundo saturado de informação, ganha quem explica bem, quem cria sentido e quem sabe endereçar as dores e desejos do consumidor.

Líderes que conseguem vender ideias fortalecem suas organizações. Porque as pessoas não compram apenas produtos. Compram narrativas sobre o presente e o futuro. E toda narrativa precisa de alguém que a sustente. Diego Barreto, CEO do iFood, representa uma vertente dessa transformação. Ele não usa suas redes para falar apenas do iFood (“disclaimer”: o iFood é meu cliente). Ele as usa para discutir liderança, tecnologia, gestão, aprendizado contínuo e negócios. Ele entendeu que a influência de um CEO não nasce apenas da autoridade do cargo, mas da capacidade de gerar conhecimento relevante para o mercado. Sua comunicação não busca apenas audiência, busca relevância. E relevância é o ativo mais escasso da economia da atenção. Ao compartilhar aprendizados, erros, referências e reflexões, Diego ajuda a construir confiança, fundamental para toda grande empresa.

Outro ponto importante é a consistência. Num mundo onde qualquer pessoa publica qualquer coisa, credibilidade virou um prêmio raro. Mudar de posição não é problema. Afinal, toda empresa muda, toda estratégia evolui. O problema é mudar escondido. As pessoas aceitam mudanças, o que elas não aceitam são contradições sem explicação. O consumidor perdoa um erro. O funcionário perdoa uma decisão difícil. O investidor perdoa um trimestre ruim. O que ninguém perdoa é a sensação de estar sendo enganado. Por isso, a comunicação não é mais feita por quem controla mensagens, mas por quem constrói confiança.

Os CEOS modernos entendem que seu papel na organização não é só o de gestor de resultados, mas o de produtor de significado e construtor de confiança. Ou seja, um comunicador. Quem não entender isso ficará preso a um modelo de liderança que pertence ao século passado.

A comunicação deixou de ser departamento para se tornar infraestrutura. Como energia, tecnologia, logística. Isso mudou o papel do líder.

Se o CEO antigamente focava em administrar ativos, hoje ele administra atenção. Cuidar da operação agora inclui cuidar da narrativa. O velho CEO tinha um porta-voz. O novo CEO é o porta-voz. Porque liderança é presença, e presença gera confiança.

A tecnologia mudou (quase) tudo, mas um fundamento continua firme. Pessoas confiam em pessoas. E as empresas que entendem isso constroem reputações mais consistentes e duradouras.

Nizan Guanaes é estrategista da N. ideias.

Instagram @nizan_n.ideias

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EUA proíbem estrangeiros de usar modelo de IA mais avançado

  • Empresa suspende acesso global do modelo mais poderoso após ordem de Washington
  • China classifica ação americana como ‘estrangulamento’ e reforça aposta em IAs locais

Ronaldo Lemos – Folha – 13.jun.2026 

Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro

Na última sexta os EUA proibiram o uso do modelo de IA mais poderoso da Anthropic por “estrangeiros”. Você não leu errado. O critério da proibição é nacionalidade, algo inédito nesse contexto. Mesmo quem mora nos EUA mas não tem cidadania está proibido de usar o modelo. Estão banidos também os próprios funcionários estrangeiros da empresa.

Dada a impossibilidade de cumprir uma ordem assim, já que não é fácil determinar a cidadania de cada usuário, a Anthropic decidiu suspender o acesso do seu modelo mais avançado para todo mundo, indiscriminadamente.

A decisão de Washington acendeu um alerta global. E de quebra mostrou o que “soberania tecnológica” significa na prática (já volto a isso).

As empresas do setor de IA gostam de dizer que a inteligência artificial é a “nova eletricidade”: a nova infraestrutura em cima da qual pessoas, organizações e países vão construir suas atividades, fluxos de trabalho, estudo e até a gestão de serviços públicos. Só que os EUA não têm o poder de cortar a eletricidade de “estrangeiros”. Com a IA esse poder não só existe como acaba de ser usado.

A consequência é que pessoas, organizações e países vão precisar pensar muitas vezes antes de construir em cima de uma IA que pode ser suspensa. Usar inteligência artificial requer investimento, tempo, capacitação. Nada disso se justifica se a plataforma pode deixar de funcionar a qualquer momento de forma repentina, mesmo que você dependa dela.

A proibição dos EUA repercutiu fortemente na China. Lá a ação foi chamada de “qiabozi” (卡脖子), que em mandarim significa “estrangular o pescoço”. O termo foi usado em sentido duplo: a confirmação de que depender das IAs americanas implicaria o risco de ser estrangulado a qualquer momento. E a constatação de que a estratégia chinesa de apostar em modelos locais estava certa.

Se a geopolítica continuar interferindo na tecnologia como aconteceu desta vez, vai ser necessário pensar soberania digital em quatro níveis. O primeiro, mais elementar, é ter controle local sobre os dados no país. O segundo é ter independência na cadeia de software, auditando e mitigando a possibilidade de interferências externas. O terceiro é exigir que a infraestrutura de hardware e software seja controlada por cidadãos do próprio país. E o quarto, é ser capaz de desenvolver de forma autônoma sua própria tecnologia, incluindo modelos de inteligência artificial.

Não tirei esses níveis da minha cabeça. Essa é a classificação que a Comissão Europeia lançou no último dia 3 de junho no seu “Pacote de Soberania Tecnológica”. Dadas as circunstâncias, esse sim é um modelo europeu que o Brasil poderia almejar.

Nosso país copiou a Europa para fazer sua lei de IA, em tramitação no Congresso. Mas copiou a Europa de 2019. De lá para cá a lei europeia de IA foi drasticamente simplificada. Os europeus perceberam que regulação divorciada de política industrial tem como consequência apenas atrasar as capacidades locais e gerar ainda mais dependência externa.

E vale lembrar que o Brasil não alcança sequer o nível 1. Hoje, 60% da carga digital do país está hospedada em datacenters no estado da Virgínia nos EUA. Isso inclui sites, aplicativos, comércio eletrônico, operações bancárias, Pix e até serviços públicos como o SUS. As possibilidades de “qiabozi” são enormes.

E em inteligência artificial, o principal projeto público para desenvolver um modelo de IA local e soberano foi feito no Piauí, o “SoberanIA.ai”. Estive em Teresina nesta semana e lá ouvi o seguinte vaticínio: “o Ministério da Defesa ainda vai precisar do SoberanIA”. Talvez esse momento chegue antes do que imaginamos.

Já era – “Teoria do Domínio do Fato”, em voga na Lava Jato
Já é – “Constitucionalismo abusivo”, usar causas justas para passar por cima da Constituição
Já vem – “Relativismo Jurídico”, aplicar a Constituição de forma diferente dependendo da causa que estiver defendendo

EUA proíbem estrangeiros de usar modelo de IA – 13/06/2026 – Ronaldo Lemos – Folha 

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Procura-se um amigo

Estudo de Harvard concluiu que relações próximas são o maior segredo para uma vida feliz e saudável, mais até do que dinheiro ou sucesso

Por Marcio Atalla – O Globo – 20/08/2025 

Sabe aquela sensação de que os amigos de verdade estão ficando cada vez mais raros? Não é só coisa da sua cabeça. Estamos no meio do que alguns especialistas já chamam de “crise das amizades”, um fenômeno que vem se espalhando como uma sombra nas nossas vidas. Um artigo recente da Harvard Business Review jogou luz sobre isso, mostrando como as conexões profundas estão minguando. Nos Estados Unidos, o American Perspectives Survey revelou que 12% dos adultos dizem não ter nenhum amigo próximo, um número quatro vezes maior do que em 1990. E aqueles que têm uma turma grande, com dez ou mais amigos? Esse grupo encolheu um terço. Aqui no Brasil, a história não é tão diferente. Um estudo do IBGE de 2019 apontou que 21% dos brasileiros se sentem sozinhos com frequência, especialmente nas metrópoles como São Paulo e Recife, onde a correria do dia a dia parece engolir qualquer chance de criar laços mais fortes.

Houve um tempo em que era natural parar para conversar com alguém no ponto de ônibus ou no balcão de um bar. Hoje, é cada um por si, perdido nos fones de ouvido ou nas telas dos smartphones. Nos EUA, a quantidade de pessoas que comem sozinhas disparou 29% nos últimos dois anos. No Brasil, um levantamento da Fipe de 2023 mostrou que 34% dos trabalhadores urbanos almoçam sozinhos regularmente, muitas vezes porque não têm tempo — ou companhia — para compartilhar a refeição. A coisa está tão complicada que a Universidade de Stanford criou um curso chamado Design para Amizades Saudáveis, só para ensinar como construir e manter laços. Dá para acreditar que chegamos ao ponto de precisar de um manual para fazer amigos?

Essa crise não é só uma questão de convívio, é algo que mexe com nossa saúde e felicidade. A solidão, que antes podia ser uma escolha passageira, está virando rotina. E isso tem consequências graves: pesquisas mostram que o isolamento social aumenta o risco de problemas cardíacos, demência e até morte prematura — tão perigoso quanto fumar 15 cigarros por dia, segundo a American Psychological Association. No Brasil, a Fiocruz alertou em 2022 que a solidão está ligada a um aumento de 30% nos casos de ansiedade e depressão entre jovens, especialmente depois da pandemia. Por outro lado, amigos de verdade são como um remédio para a alma. Um estudo de Harvard, que acompanhou pessoas por oito décadas, concluiu que relações próximas são o maior segredo para uma vida feliz e saudável, mais até do que dinheiro ou sucesso.

E no trabalho, como fica? Ter amigos no ambiente corporativo pode transformar o dia a dia. Marissa King, professora de Yale e autora de Social Chemistry, explica que colegas que se tornam amigos ajudam a reduzir o estresse e aumentam o engajamento. Sua pesquisa mostra que profissionais com laços de amizade no trabalho têm 20% menos risco de burnout e são até 30% mais produtivos. Aqui no Brasil, estudo da Great Place to Work de 2024 confirmou que empresas que incentivam a camaradagem têm 25% mais chances de reter talentos. Então, aquele papo no intervalo ou um almoço com o colega pode ser mais valioso do que qualquer reunião.

Mas por que está tão difícil manter essas conexões? A vida moderna parece conspirar contra. Atividades que antes uniam as pessoas, como clubes de bairro, esportes amadores ou grupos religiosos, estão em baixa. No Brasil, o IBGE aponta que a participação em atividades comunitárias caiu 15% na última década. Em vez de encontrar amigos, a gente se esconde nas redes sociais, nas demandas da família ou até cuidando dos pets — há quem prefira ficar em casa com o gato a marcar um encontro com um amigo! A amizade virou algo que a gente empurra para o final da lista de tarefas, como se fosse um luxo dispensável.

Procura-se um amigo 

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A revolução da computação quântica está mais perto do que você imagina

  • Primeiras aplicações práticas são esperadas em química e descoberta de medicamentos
  • Empresas como Google e IBM têm como meta máquinas úteis até o final da década

Michael Peel – Folha – 13.jun.2026

Nova York | Financial Times

No interior de um data center em Manhattan, a empresa britânica Oxford Quantum Circuits instalou um computador quântico para uso de empresas via conexões de nuvem ou fibra óptica. Com o auxílio de hardware de IA (inteligência artificial) da Nvidia, a máquina alcança poderes de cálculo extraordinários, analisando sistemas complexos como fluxos financeiros ou reações químicas.

Após anos de falsas promessas, muitas das principais empresas de tecnologia do mundo agora apostam que os computadores quânticos começarão a superar seus equivalentes convencionais até 2030 —com um impacto potencialmente enorme em áreas que vão de criptomoedas à descoberta de medicamentos.

“Parece muito futurista e eu entendo perfeitamente isso”, diz Gerald Mullally, diretor-executivo da OQC, apontando para a base de clientes de sua empresa como um voto de confiança no potencial da tecnologia. “Essencialmente, é uma aposta que essas empresas estão fazendo de que ‘isso vai acontecer, vai ser importante e, portanto, quanto antes nos envolvermos, mais prática teremos’.”

Mas alguns cientistas temem que o enorme poder da tecnologia possa colocar em risco a privacidade e a segurança nacional, enquanto outros ainda duvidam que máquinas úteis possam ser construídas.

No entanto, os computadores quânticos não são mais encontrados apenas em laboratórios de pesquisa, à medida que empresas exploram as possibilidades comerciais da tecnologia. Observadores do setor estimam que existam dezenas de sistemas de computação quântica no mundo, um número que, segundo previsão da consultoria McKinsey, deve chegar a cerca de 5.000 até 2030.

O setor está atraindo investimentos crescentes. A Quantinuum, apoiada pela Honeywell, foi avaliada em mais de US$ 15 bilhões em sua recente abertura de capital, enquanto as ações da rival IonQ subiram mais de 700% desde setembro de 2024.

Gigantes como Google e IBM têm como meta máquinas úteis até 2030. O CEO do Google, Sundar Pichai, comparou o estado atual da tecnologia quântica ao estágio em que a IA estava cinco anos atrás. Enquanto isso, governos também estão se movimentando: os Estados Unidos anunciaram planos de adquirir participações acionárias no valor de US$ 2 bilhões em nove empresas de computação quântica.

COMO FUNCIONA

Computadores convencionais operam com bits que assumem o valor de zero ou um. Computadores quânticos usam “qubits”, que podem existir em ambos os estados simultaneamente —um fenômeno conhecido como superposição.

Isso permite que a máquina avalie múltiplas soluções potenciais ao mesmo tempo, em vez de lidar com elas uma por uma. O sistema é análogo a um labirinto: enquanto um computador tradicional tenta cada caminho até encontrar a saída, uma máquina quântica examina o mapa inteiro de uma só vez.

Apesar do potencial, a tecnologia ainda tem um longo caminho a percorrer. Pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia estimam que um computador quântico funcional exigirá pelo menos 1.000 qubits lógicos. O modelo atual da OQC, o Genesis, tem apenas 16.

APLICAÇÕES NO HORIZONTE

As primeiras aplicações práticas são esperadas em química e ciência dos materiais, áreas em que a natureza quântica dessas máquinas oferece uma vantagem natural na simulação de interações atômicas.

A ideia é que, devido ao seu próprio funcionamento e estrutura, os computadores serão mais capazes de analisar e prever o comportamento químico determinado por interações atômicas e subatômicas regidas por regras quânticas. De certa forma, eles estarão falando a mesma língua, em vez de traduzir uma análise em uma sequência de uns e zeros como faz um computador tradicional.

Como resultado, uma máquina quântica suficientemente poderosa deveria, em tese, ser capaz de prever as interações entre medicamentos e células vivas que determinam se um novo fármaco funcionará.

O Google colaborou com a farmacêutica Boehringer Ingelheim na descoberta de medicamentos, com a Bosch em ciência dos materiais e com a Mercedes-Benz em tecnologia de baterias. A Chevron investiu 260 milhões de libras na OQC, sinalizando interesse em aplicações de cibersegurança e otimização de sistemas complexos.

No setor de serviços financeiros, o J.P. Morgan Chase vê “benefícios iniciais” no processamento de grandes volumes de dados em tempo real, incluindo melhor gestão de riscos, precificação de investimentos e detecção de fraudes.

Testes conduzidos pela Unisys em parceria com a Paysafe e o Centro Nacional de Computação Quântica do Reino Unido mostraram zero falsos negativos na detecção de fraudes. Mastercard e OQC também colaboraram em um sistema experimental que produziu menos falsos positivos do que as técnicas existentes.

AMEAÇA À SEGURANÇA

Um dos riscos mais sérios representados pela computação quântica é o chamado Q-Day: o momento previsto em que essas máquinas serão capazes de quebrar os métodos criptográficos dos quais as sociedades modernas dependem.

A criptografia atual é baseada na dificuldade de fatorar números primos muito grandes —uma tarefa impraticável para computadores convencionais, mas potencialmente viável para uma máquina quântica suficientemente poderosa.

A ameaça é agravada pela estratégia “colha agora, decifre depois”, na qual hackers roubam dados hoje para decifrá-los no futuro. O setor de criptomoedas é particularmente vulnerável. Para se preparar, governos e empresas estão adotando algoritmos de “criptografia pós-quântica”, incluindo três desenvolvidos em 2024 sob a supervisão do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA.

LIMITES E CETICISMO

Quase ninguém no setor vê os computadores quânticos como substitutos das máquinas convencionais, e define a tecnologia como mais adequada para uma gama relativamente restrita de tarefas altamente complexas.

Timothy Costa, vice-presidente de computação quântica da Nvidia, acredita que as duas tecnologias se complementarão: “O que a computação faz é aumentar o bolo. A quântica fará isso também”.

O principal obstáculo técnico é o “ruído” —variações aleatórias que causam erros nos cálculos dos qubits. Os fenômenos quânticos são frágeis e vulneráveis a perturbações ambientais como calor ou campos magnéticos. Alguns pesquisadores, como o matemático Gil Kalai, da Universidade Hebraica de Jerusalém, questionam se as técnicas de correção de erros poderão algum dia se tornar suficientemente robustas.

Apesar do ceticismo, os defensores apontam para progressos concretos. A OQC prevê que, em meados da próxima década, o modelo Genesis será superado por gerações mais poderosas. Para Mullally, a linguagem mítica usada no setor não deve obscurecer os avanços reais que estão sendo feitos: “O setor realmente se inclina para esse tipo de mundo onírico de ficção científica no geral. Mas agora é muito mais real”.

Computação quântica está cada vez mais perto da realidade – 13/06/2026 – Tec – Folha 

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Biometano, etanol e elétricos: indústria defende rota brasileira para descarbonização

Executivos de WEG, Copersucar e Scania afirmam que coexistência de tecnologias pode transformar o Brasil em referência global na transição energética

Valeria Bursztein – Transporte Moderno – 10 de junho de 2026

A transição energética brasileira deverá seguir um caminho diferente daquele adotado por parte da Europa e de outros mercados desenvolvidos. Em vez de apostar em uma única tecnologia, o país deve construir uma estratégia baseada na coexistência de diferentes fontes de energia, combinando eletrificação, biocombustíveis, biometano e soluções híbridas para atender às necessidades de uma economia de dimensões continentais.

A avaliação foi compartilhada por Alberto Kuba, CEO da WEG; Tomás Manzano, CEO da Copersucar; e Christopher Podgorski, CEO da Scania América Latina, durante o painel “A Matriz Energética que Move o Brasil: Transição, Coexistência e Estratégia”, realizado no Anfavea Vision, evento que reuniu o setor automotivo em São Paulo.

Ao mesmo tempo em que a descarbonização do transporte ganha relevância global, o processo expõe diferenças importantes entre regiões. Enquanto parte dos países europeus concentra esforços na eletrificação, o Brasil busca aproveitar uma matriz energética considerada uma das mais limpas do mundo para desenvolver múltiplas rotas tecnológicas.

Para Alberto Kuba, a disponibilidade de energia renovável tende a se tornar um dos principais ativos geopolíticos deste século. “O século XX foi marcado pela importância estratégica do petróleo. Hoje, a grande vantagem competitiva é ter energia disponível, especialmente energia renovável”, afirmou.

Segundo o executivo, mais de 85% da geração elétrica brasileira já é proveniente de fontes renováveis, resultado da combinação entre hidrelétricas, parques eólicos e usinas solares. Kuba destacou ainda que o aumento da demanda global por eletricidade, impulsionado pela inteligência artificial, centros de dados e pela própria eletrificação da mobilidade, coloca o Brasil em posição privilegiada para atrair investimentos industriais.

A WEG, por exemplo, investiu R$ 1,3 bilhão no país em 2025 e prevê novos aportes de aproximadamente R$ 1,5 bilhão este ano para ampliar sua capacidade produtiva voltada à eletrificação e infraestrutura energética.

Carbono pode se tornar ativo estratégico

Na visão da Copersucar, a principal vantagem competitiva brasileira não está apenas na disponibilidade de energia, mas na baixa intensidade de carbono de sua produção agrícola e energética. Tomás Manzano defendeu que o país deixou para trás o modelo baseado apenas na extração de recursos naturais e passou a construir valor a partir da bioeconomia e da economia circular. “O Brasil tem um diferencial único que é o carbono. Talvez ainda não seja valorizado na velocidade que gostaríamos, mas existe um valor enorme a ser capturado”, afirmou.

Segundo o executivo, a produção de cana-de-açúcar exemplifica essa transformação ao permitir a geração simultânea de alimentos, combustíveis e energia na mesma área agrícola. Para Manzano, a combinação entre segurança alimentar e segurança energética coloca o Brasil em posição diferenciada diante dos desafios globais de crescimento populacional e descarbonização.

Biometano: alternativa ao diesel

Entre as apostas da Copersucar para os próximos anos está a expansão do biometano produzido a partir da vinhaça gerada na fabricação de etanol. O combustível tem a mesma composição química do gás natural, mas pode reduzir em até 90% as emissões de carbono em comparação às alternativas fósseis.

Segundo Manzano, o potencial brasileiro é incomparável devido à escala da indústria sucroenergética. “Para cada litro de etanol produzido são gerados cerca de 13 litros de vinhaça. É uma matéria-prima que já existe e que pode ser transformada em energia”, explicou.

O executivo destacou ainda que o biometano já apresenta competitividade econômica. Segundo ele, o combustível pode custar entre 20% e 30% menos do que o diesel, mantendo desempenho equivalente em aplicações de transporte rodoviário. A estratégia já começa a ganhar escala por meio do projeto BioRota, iniciativa que conecta produtores de biometano a operações logísticas e portuárias utilizando caminhões movidos a gás.

Soluções sustentáveis e rentáveis

Para Christopher Podgorski, a transição energética dos veículos comerciais precisa atender simultaneamente aos objetivos ambientais e financeiros. “O transporte sustentável precisa ser sustentável também do ponto de vista econômico”, afirmou.

Segundo o CEO da Scania América Latina, o maior desafio não é apenas desenvolver veículos, mas criar novos ecossistemas completos de abastecimento, recarga, manutenção e infraestrutura. Podgorski ressaltou que tecnologias como o biometano já demonstram viabilidade operacional e competitividade econômica, mas dependem de políticas públicas de longo prazo para alcançar escala.

Na avaliação do executivo, programas como Inovar-Auto, Rota 2030 e Mover contribuíram para orientar investimentos da indústria, mas o setor ainda precisa de maior previsibilidade regulatória. “Excelentes políticas públicas têm começo e fim. Talvez precisemos de uma política industrial de horizonte mais longo”, afirmou.

Brasil influencia decisões globais

Apesar de boa parte do desenvolvimento tecnológico da indústria automotiva ainda estar concentrada na Europa, os executivos destacaram que as soluções desenvolvidas no Brasil começam a ganhar relevância dentro das matrizes globais.

Podgorski afirmou que o conceito de “Global South” passou a ganhar espaço nas discussões estratégicas das montadoras, impulsionado pela necessidade de soluções adaptadas a mercados emergentes. “As dores e necessidades do transporte brasileiro são muito semelhantes às encontradas em outras regiões da América Latina, África e Índia”, afirmou.

Para Kuba, da WEG, o principal aprendizado brasileiro está justamente na capacidade de integrar diferentes tecnologias e construir soluções em parceria. “O Brasil se tornou um laboratório importante para testar modelos que combinam biocombustíveis, eletrificação e sistemas híbridos”, disse.

Coexistência deve prevalecer

Ao final do painel, os três executivos convergiram em uma mesma conclusão: a mobilidade do futuro será marcada pela coexistência de diferentes fontes energéticas. A WEG aposta na expansão da mobilidade elétrica associada à digitalização dos veículos e à integração com a rede elétrica, incluindo sistemas de recarga bidirecional que permitam utilizar a bateria do veículo como fonte de energia para residências ou empresas.

A Copersucar prevê crescimento do uso de etanol e biometano em aplicações cada vez mais diversificadas, incluindo veículos leves, caminhões, geração elétrica, aviação e transporte marítimo.

Já a Scania projeta avanço simultâneo da eletrificação, da conectividade e dos sistemas avançados de assistência ao motorista, mantendo diferentes tecnologias disponíveis para atender às particularidades de cada operação. “A sociedade exige descarbonização. Não estamos mais falando de mudança climática, mas de emergência climática. O caminho será construído com múltiplas tecnologias”, concluiu Podgorski.

Valeria Bursztein

Jornalista especializada nos setores de transporte, logística, infraestrutura, negócios e comércio exterior, com mais de 25 anos de experiência em comunicação empresarial, publicações técnicas e cobertura de eventos B2B. Atua na produção de reportagens, análises e conteúdos estratégicos voltados à cadeia de transporte de cargas e mobilidade, acompanhando tendências regulatórias, tecnológicas e de investimentos no Brasil e no exterior.

Biometano, etanol e elétricos: indústria defende rota brasileira para descarbonização – Transporte Moderno 

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 Magalu se Dividiu para se Multiplicar

A brasileira que aprendeu a vender na casa dos outros para transformar a própria casa em algo que ninguém consegue copiar.

Junior Bornelli – Entrelinhas – 8/6/2026


 
 A partir desta segunda-feira, quem buscar por televisão, geladeira ou tênis de corrida na Amazon vai se deparar com produtos vendidos pelo Magalu. Mais de 12 mil itens do catálogo do grupo, incluindo as marcas KaBuM!, Netshoes e Época Cosméticos, passam a estar disponíveis na plataforma americana, sendo entregues pela Magalog, a transportadora própria da varejista. O acordo, anunciado por Frederico Trajano, faz parte de um novo ciclo estratégico do Magalu que vai até 2031 e já inclui parcerias semelhantes com AliExpress, Livelo, Itaú Shop e Americanas. Visto isoladamente, o movimento parece tático: uma varejista ampliando canais de venda. Mas quando se conectam as peças do que Trajano vem montando nos últimos meses, o desenho que surge é consideravelmente mais ambicioso do que uma simples listagem de produtos.O ponto de partida para a análise é uma leitura de mercado que o próprio CEO verbalizou ao NeoFeed: “o Brasil não tem uma plataforma dominante de e-commerce; tem várias, com audiências significativas e parcialmente sobrepostas”.O empresário comparou, ainda, a estrutura nacional das plataformas de e-commerce ao modelo chinês, onde demonstrou que o TikTok Shop, o AliExpress e o Pinduoduo coexistem sem que nenhum deles monopolize a atenção do consumidor. Tal analogia não é uma simples retórica, no sentido em que ela traduz um diagnóstico estratégico que muda completamente a lógica do jogo, pois se o mercado dá sinais de que não está convergindo para um vencedor único, mas se fragmentando em ecossistemas paralelos, então insistir em concentrar todas as fichas no canal próprio deixa de ser prudência e passa a ser isolamento. E o Magalu decidiu, com clareza quase cirúrgica, não se isolar

A parceria com a Amazon é o capítulo mais visível dessa decisão, com sua dimensão mais relevante não estando na vitrine, mas na logística, afinal, foi acordado que tudo o que o Magalu vender na Amazon será entregue pela Magalog.

Em uma segunda fase, já em discussão, a Magalog passará a fazer entregas para a própria Amazon como prestadora de serviço. E é aqui que a lógica se inverte de maneira sutil, mas estruturalmente decisiva. Quando analisamos a Amazon anteriormente, o que identificamos foi que o verdadeiro fosso competitivo da empresa não está em preço, marca ou algoritmo, mas na infraestrutura logística construída ao longo de duas décadas, com centros de fulfillment regionalizados, rotas otimizadas e uma engenharia de custos desenhada para que cada centavo retirado da operação retorne ao cliente como preço mais baixo. Pois o Magalu está jogando sobre esse mesmo eixo, só que com uma inversão: em vez de construir uma infraestrutura para competir com a Amazon, está oferecendo a sua à Amazon – cobrando por isso.

Nesse contexto, a Magalog é, possivelmente, o ativo mais subestimado de todo o ecossistema Magalu. Com custos de entrega estimados entre 60% e 70% abaixo das alternativas de mercado e uma receita com clientes externos que cresceu 30% no último ano, a transportadora do grupo deixou seu papel de apêndice operacional e se tornou um negócio independente em aceleração, especialmente no cenário atual, onde os Correios enfrentam dificuldades estruturais conhecidas, e poucas empresas brasileiras estão posicionadas para ocupar essa lacuna com a mesma capilaridade.

Assim, o Magalu, com mais de 1.245 lojas físicas espalhadas por praticamente todos os estados, tem uma malha que nenhuma plataforma digital, por mais capitalizada que seja, replica com a mesma velocidade. E a possibilidade, já em avaliação, de transformar essas lojas em pontos de retirada para a Amazon converte o que sempre foi custo fixo do varejo físico em ativo estratégico de última milha. Uma reconversão silenciosa que pode ser, no longo prazo, o movimento mais coerente de toda a operação.

Trajano estima, também, que cerca de três quartos das vendas que o Magalu fará na Amazon virão de consumidores que não frequentam o ecossistema do grupo. Um dado extremamente relevante porque elimina o fantasma da canibalização, pois são clientes novos, acessados por um canal que já existe e, principalmente, sem investimento adicional em aquisição. Quando se soma isso ao fato de que apenas o marketplace do Itaú já se tornou, nas palavras do próprio CEO, um negócio de bilhão por ano, o potencial acumulado de todas essas parcerias começa a ganhar uma escala que o mercado, talvez, ainda não precificou.

Mas a sofisticação da jogada só se torna realmente visível quando se observa o que está acontecendo do outro lado, dentro de casa. Porque, ao mesmo tempo em que espalha seu estoque por plataformas alheias, o Magalu está fazendo algo que parece contraditório: está encolhendo o próprio canal. O app e o site do grupo estão migrando para um modelo que internamente se chama “brand place”, ou seja, menos produto e mais curadoria, foco em marcas com as quais o grupo tem vantagem competitiva, tíquetes mais altos e uma promessa de experiência superior.

A entrada de nomes como Tramontina, Westwing e Lacoste sinaliza tal reposicionamento, com essa decisão não acontecendo no vácuo. No primeiro trimestre de 2026, as vendas digitais do Magalu caíram 11% e o marketplace recuou 14,3%, enquanto as lojas físicas cresceram 7%. Com isso, o grupo optou, deliberadamente, por não entrar na guerra de preços e frete grátis que consome as margens dos concorrentes. Há quem leia esses números como fraqueza. A leitura mais precisa, porém, é que são consequência de uma escolha: vender mais onde a margem de contribuição seja positiva, sem entrar em leilão de subsídios.

O que emerge dessa dupla manobra de distribuição para fora e curadoria para dentro, é algo que o varejo brasileiro não havia visto nessa configuração. O Magalu está se tornando, funcionalmente, duas empresas ao mesmo tempo. Uma é uma máquina de distribuição agnóstica, que coloca produtos onde quer que haja demanda, usando qualquer plataforma como canal e qualquer parceiro como vitrine. A outra é uma marca com ponto de vista, que transforma seu canal próprio em um ambiente onde confiança, experiência e tecnologia criam um tipo de relação com o consumidor que nenhum marketplace generalista consegue replicar. A primeira gera volume e receita de curto prazo. A segunda constrói o fosso competitivo de longo prazo.

E é na segunda que reside a camada mais estratégica de todas. O canal próprio é onde a inteligência artificial deixa de ser uma ferramenta complementar e vira o sistema operacional da experiência, ou seja, é onde o Magalu se torna AI-First. O WhatsApp da Lu, lançado em parceria com a Meta no fim de 2025, ilustra isso com uma destreza que poucos exemplos no varejo global conseguem igualar: mais de 9 milhões de conversas; conversão três vezes superior à do aplicativo tradicional; NPS de 85; recordes consecutivos de pedidos; quase cinco mil álbuns de figurinhas da Copa; mil e oitocentos packs de cerveja; mil e quinhentas fraldas; e mil e cem panelas de pressão vendidos numa jornada integralmente agêntica, do início ao fim, dentro do WhatsApp.

É o mesmo padrão que a Revolut inaugurou nos serviços financeiros com o AIR: uma interface onde o usuário não navega, mas declara uma intenção, e o sistema executa. Trajano disse que nenhum concorrente tem nada parecido, nem no Brasil, nem no mundo (com os números sustentando sua afirmação). E o que torna esse dado ainda mais significativo é que o agentic commerce, por definição, exige controle total da jornada, dos dados, do catálogo, da logística e de todo relacionamento. Exige, portanto, exatamente aquilo que o brand place foi desenhado para preservar.

A inteligência artificial funciona melhor quando opera em território próprio. E o Magalu entendeu isso antes de a maioria dos concorrentes sequer formular a pergunta.

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Por fim, sabemos que a Amazon é a aposta mais recente dessa expansão multidirecional, mas o CEO deixou claro que não será a última, não mantendo obrigação de exclusividade com nenhum parceiro. O foco, de acordo com o executivo, é ampliar a dominância nas categorias em que o grupo já é líder. E é nessa frase, aparentemente operacional, que talvez esteja a síntese mais precisa de tudo o que está em curso. O Magalu não está tentando ser a maior plataforma de e-commerce do Brasil. Está tentando ser o parceiro de distribuição mais eficiente, o operador logístico mais capilarizado e, ao mesmo tempo, a experiência de compra mais inteligente, e está apostando que essas três coisas juntas valem mais do que qualquer marketplace isolado.

O varejo, como destino, começa a perder relevância. A infraestrutura que o sustenta, composta por logística, dados, inteligência artificial e a confiança de marca construída ao longo de décadas, é o que permanece. E é sobre essa base, invisível para quem olha apenas a vitrine, que o próximo capítulo do varejo brasileiro (e mundial) está sendo escrito.

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A surpresa que apareceu no consultório dos pacientes de Ozempic

Por Stephanie Rizk – O Globo – 08/06/2026 

A história começa com uma caneta feita para tratar diabetes e obesidade. Mas talvez não termine na balança.

Nos últimos anos, medicamentos como a semaglutida ficaram famosos por ajudarem pacientes a perder peso. Primeiro vieram as imagens de antes e depois. Depois, os debates sobre uso estético, escassez nas farmácias, efeitos colaterais e a transformação de um tratamento médico em fenômeno cultural.

Mas uma surpresa apareceu no consultório.

Alguns pacientes começaram a relatar algo curioso. Não era apenas a fome que diminuía. Era o pensamento em comida que perdia força. O doce na gaveta chamava menos. A taça de vinho no fim do dia deixava de parecer inevitável. O cigarro depois do almoço perdia urgência. Algumas pessoas relatavam até menos vontade de comprar por impulso, beliscar sem fome ou abrir a geladeira como quem procura uma resposta que não está lá.

Era como se alguém tivesse abaixado o volume de uma rádio interna.

Essa talvez seja a parte mais fascinante da história. Por muito tempo, tratamos fome, vício, compulsão e impulso como problemas separados. A comida ficou com a nutrição. O álcool com a psiquiatria. O cigarro com a pneumologia. A obesidade com a endocrinologia. Cada excesso em sua gaveta. Cada comportamento com sua explicação.

O cérebro, porém, não organiza a vida em especialidades médicas.

Por trás de muitos desses comportamentos existe uma rede comum ligada à recompensa. É o sistema que nos faz buscar prazer, repetir experiências agradáveis e aprender o que vale a pena procurar de novo. Ele é essencial para a sobrevivência. O problema começa quando passa a trabalhar alto demais, insistente demais, como um alarme que não desliga.

É aí que entram os medicamentos da família do GLP-1. O GLP-1 é um hormônio produzido no intestino depois das refeições. Ajuda o corpo a regular a glicose, aumenta a saciedade e retarda o esvaziamento do estômago. Por isso, tornou-se uma ferramenta importante no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Mas sua ação não parece se limitar ao estômago e ao pâncreas. Existem receptores de GLP-1 também no cérebro, inclusive em áreas envolvidas com motivação, prazer e impulso.

Em outras palavras: esses remédios não conversam apenas com a barriga. Eles também parecem conversar com a vontade.

Isso não significa que sejam “remédios contra vícios”. A realidade é mais cautelosa do que a manchete gostaria. Estudos observacionais recentes sugerem que pessoas em uso de semaglutida podem ter menor risco de alguns transtornos relacionados ao álcool, cannabis e opioides. Ensaios clínicos começam a investigar esse caminho de forma mais direta. Há sinais promissores, especialmente em pacientes com obesidade e consumo abusivo de álcool. Mas ainda estamos no começo.

E começo de história, em medicina, exige freio.

Nem todo achado vira tratamento. Nem toda associação prova causa. Esses medicamentos têm efeitos colaterais, principalmente gastrointestinais, e não devem ser usados como atalho, moda ou promessa de autocontrole químico. Para várias compulsões, a evidência ainda é preliminar. No Brasil, faltam dados próprios.

Mesmo assim, há uma mudança importante em curso.

Durante décadas, compulsões foram tratadas como falhas de caráter. Quem bebia demais “não tinha limite”. Quem comia sem fome “não tinha força de vontade”. Quem fumava “não queria parar”. Claro que escolhas importam. Ambiente importa. Comportamento importa. Mas a biologia também importa.

A ideia de que um hormônio intestinal possa interferir em desejos, urgências e recompensas mostra que o impulso não mora apenas na moral. Mora também no corpo. Mora em circuitos cerebrais. Mora em sinais químicos que aproximam intestino, metabolismo e comportamento.

Talvez a grande notícia não seja que medicamentos como o Ozempic possam, um dia, ajudar em algumas compulsões. Talvez a grande notícia seja outra: estamos começando a entender que o excesso nem sempre é excesso de desejo. Às vezes, é excesso de ruído.

E quando a medicina aprende a escutar esse ruído, fica mais perto de ajudar o paciente a encontrar silêncio.

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