A cultura do resumo está nos fazendo desaprender a pensar

Resumos economizam tempo, mas podem eliminar justamente o atrito necessário para desenvolver pensamento crítico e tomar decisões melhores


Ajay Tejasvi – Fast Company Brasil – 10-08-2026

No mês passado, um CEO me contou algo que me fez parar no meio da frase. Antes de uma reunião do conselho, ele havia lido seis resumos gerados por IA de relatórios, apresentações e documentos de briefing. Mas não havia lido os materiais originais.

Quando o conselho questionou uma premissa estratégica escondida em um daqueles relatórios, ele tinha um resumo, não uma resposta. Esse CEO não está sozinho. E é isso que me preocupa.

A IA resume artigos. O Slack resume conversas. Assistentes de reunião resumem discussões. Aplicativos prometem condensar livros inteiros em conclusões que podem ser absorvidas em cinco minutos. As informações já são processadas, filtradas e interpretadas antes de chegarem até nós.

Resumos sempre existiram e executivos sempre dependeram de briefings. Mas a escala e a origem mudaram. Quando quase toda informação chega pré-condensada e otimizada para a eficiência, e não para o que é relevante para você, o efeito sobre a maneira como você pensa se acumula.

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O apelo é óbvio quando os líderes estão sobrecarregados e o tempo é escasso. Os resumos parecem uma resposta racional. Mas existe um custo que raramente aparece na matemática da eficiência.

O QUE DESCOBRI QUANDO LI OS LIVROS

Há alguns anos, assinei um dos populares aplicativos de resumo de livros. A promessa era tentadora: os principais insights de centenas de livros, em apenas alguns minutos cada.

No começo, parecia produtivo. Eu estava economizando tempo e sentia que estava aprendendo muito. Então comecei a ler alguns dos livros originais.

O que ficou comigo foram os momentos que tiveram um impacto diferente em mim do que teriam em qualquer outra pessoa. Meu pensamento mudou por causa de exemplos que nem sempre eram os destacados como importantes.

Robô segurando livroCrédito: Freepik

As passagens que ficaram comigo muitas vezes estavam enterradas no meio do texto, sem nada de extraordinário para outra pessoa, mas ressoavam em mim por causa de algo que eu havia vivido.

Os resumos têm um limite embutido em seu próprio design. Aprender é uma interação entre a informação e a pessoa que a recebe. A vida e o significado são subjetivos.

Os insights que você extrai de um artigo ou livro são moldados pela sua experiência, suas premissas e pelas perguntas que você por acaso carregava consigo quando se sentou para ler.

Quando outra pessoa, seja um ser humano ou uma IA, condensa essa experiência, você herda a interpretação dela. Existe o risco de isso se tornar a sua perspectiva sem que você jamais tenha chegado a ela por conta própria.

O PENSAMENTO CRÍTICO EXIGE ATRITO

O valor da leitura está tanto no processo quanto no destino – e no que sua mente faz ao percorrer esse caminho.

envolvimento exige passar tempo com as ideias antes que outra pessoa decida o que elas significam.

Enquanto você lê, está constantemente avaliando, comparando, questionando. Você concorda com alguma coisa. Discorda de outra. Percebe quando um argumento não se sustenta ou até muda de posição no meio de um parágrafo e se pergunta por quê.

É nesse processo, cheio de atrito e de envolvimento genuíno, que o pensamento crítico realmente se desenvolve. Um resumo muitas vezes pula o trabalho que leva às conclusões, justamente onde está o verdadeiro valor.

Quando tudo chega pré-digerido, aos poucos terceirizamos as próprias capacidades de que os líderes mais precisam, incluindo discernimento, a capacidade de conviver com a ambiguidade e o instinto de questionar o enquadramento antes de aceitar a conclusão.

O QUE ISSO SIGNIFICA PARA OS LÍDERES

Os próximos cinco anos vão exigir mais aprendizado, não menos. A IA transforma setores mais rapidamente do que a maioria das organizações consegue acompanhar. Nesse ambiente, a vantagem competitiva vem da capacidade de pensar com clareza em meio à complexidade.

Essa é uma capacidade que você desenvolve com a prática. E a prática exige envolvimento. No meu trabalho, acredito que é uma habilidade preservar a capacidade de se concentrar, conviver com uma ideia difícil e resistir à atração pela resposta rápida. Essa habilidade atrofia quando não é usada.

Leia mais: Quando a IA escreve por você, quem está pensando?

Práticas de meditação e respiração que fortalecem a atenção e a autoconsciência sempre aparecem nas pesquisas sobre flexibilidade cognitiva e regulação emocional. Isso acontece justamente porque elas treinam a capacidade de continuar presente diante da dificuldade, em vez de fugir dela.

A mesma lógica se aplica à leitura. Escolher se envolver com o original, e não apenas com o resumo, é uma forma de prática que mantém esse músculo forte.

NÃO TERCEIRIZE SUA PERSPECTIVA

Todo resumo é uma interpretação, que reflete as premissas de alguém sobre o que é mais importante. Quando dependemos exclusivamente dessas interpretações, aos poucos abrimos mão do nosso próprio julgamento sobre o que é verdadeiro, o que é importante e o que fazer em seguida.

A liderança depende de julgamento, que vem da experiência. A experiência vem do envolvimento genuíno. E o envolvimento exige passar tempo com as ideias antes que outra pessoa decida o que elas significam.

O futuro pertence aos líderes capazes de ir além do resumo e se debruçar sobre o conteúdo. Porque o insight mais importante muitas vezes é aquele que nunca aparece na recapitulação.


SOBRE O AUTOR

Ajay Tejasvi trabalha com líderes seniores em temas como desempenho, bem-estar e navegação pela complexidade. 

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IA ajudaria países a fazer em uma década o que demoraria um século, diz estudo do Banco Mundial

O relatório ‘A Promessa da Inteligência Artificial’ observa que os empregos em países de renda elevada estão mais de três vezes sob o risco da automação derivada da IA generativa do que os de renda média ou baixa

Por Luís Eduardo Leal — Valor – 04/08/2026

A Inteligência Artificial (IA) pode ajudar países em desenvolvimento a fazer em uma década o que, sem ela, levaria um século para ser feito, diz um estudo do Banco Mundial sobre o tema divulgado nesta terça-feira (4). Para isso, avalia o banco, os governos precisam atuar com determinação para evitar falhas que podem deixá-los para trás em questões como energia, conectividade, capacitação e qualificação institucional.

O relatório “A Promessa da Inteligência Artificial” observa que os empregos em países de renda elevada estão mais de três vezes sob o risco da automação derivada da IA generativa do que os de renda média ou baixa, onde apenas 4,5% dos empregos hoje existentes seriam afetados, em comparação a 14,2% nos países de renda elevada.

Ao mesmo tempo, 16,2% dos empregos nas economias em desenvolvimento teriam ganhos significativos de produtividade decorrentes da IA, perto dos 18,7% projetados para os países de renda alta, aponta o relatório do Banco Mundial. A maior promessa da IA para os países em desenvolvimento, avalia a instituição, não está na substituição de trabalhadores, mas na amplificação do que eles podem fazer.

“A IA é como uma tábua de salvação para as economias em desenvolvimento, que elas devem agarrar”, diz Indermit Gill, economista-chefe do Banco Mundial. “Não são necessários modelos de larga proporção ou grandes data centers para colher os benefícios”, ressalta.

Segundo ele, ao adaptar pequenas ferramentas de IA e de baixo custo às condições locais, é possível melhorar atendimento médico, serviços jurídicos e de educação, bem como as condições para a agricultura, ao alcance de milhões. “Mas é preciso correr: a IA está crescendo muito rapidamente e é mais sensível a especificidades de contexto do que grandes transformações gerais ocorridas no passado, como a eletricidade e a internet”, acrescenta o economista-chefe.

O relatório do Banco Mundial é a primeira avaliação abrangente da instituição sobre as implicações da IA para países em desenvolvimento, mostrando também como empresas e governos nesses países começam a usar a inteligência artificial. O Banco Mundial observa ainda que as economias em desenvolvimento estão hoje diante de seu menor ritmo de crescimento médio em três décadas.

Por outro lado, ao se considerar que o desenvolvimento da IA está concentrado em um pequeno número de países com infraestrutura e conhecimento avançado, as debilidades intrínsecas aos países de menor renda podem aumentar a distância que os separam das nações desenvolvidas, observa também a instituição, em movimento que ampliaria a desigualdade.

Dessa forma, sem uma atuação deliberada para evitar que tal risco se materialize, a IA pode ampliar a distância que separa os países por nível de renda, aumentando a desigualdade, concentrando poder de mercado em um número menor de agentes e enfraquecendo a confiança nas instituições públicas, observa o relatório, com efeitos para os direitos, a segurança e a coesão social, ressalta o Banco Mundial.

O relatório aponta que, entre os países de menor renda, o básico ainda precisa ser feito. Entre os países da África Subsaariana, por exemplo, quase um terço das escolas em zonas rurais não têm acesso confiável à energia elétrica e mais de dois terços não têm acesso estável à internet.

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2026/08/04/ia-ajudaria-paises-a-fazer-em-uma-decada-o-que-demoraria-um-seculo-diz-estudo-do-banco-mundial.ghtml

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A suspeita dos suíços sobre carros ‘espiões’ da China

Cada vez mais setores e categorias de bens podem ter importância simultaneamente civil e militar e, por isso, são classificados como críticos ou estratégicos

Por Assis Moreira – Valor – 06/08/2026

É correspondente do Valor em Genebra desde 2005. Cobriu 28 vezes o Fórum Mundial de Economia e numerosas conferências ministeriais em dezenas de países.

Em relatório intitulado “A indústria europeia face ao rolo compressor chinês”, o Alto Comissariado para a Estratégia e o Planejamento da França chamou a atenção recentemente para o que chama de uma segunda onda de concorrência sem precedentes, que atinge o coração produtivo da Europa.

Aponta riscos crescentes para todo o continente e a Alemanha, em particular, como a economia mais exposta a essa “onda avassaladora” chinesa, que atinge setores intensivos em emprego, como o automotivo, máquinas-ferramentas, baterias, química e outros. O relatório conclama a Europa a “abrir os olhos” e preparar uma proteção maciça, considerada “urgente e vital”, diante da China.

Na semana passada, foi a vez de o Serviço de Inteligência do governo suíço – uma agência que é mais que apenas um serviço de espionagem – publicar relatório sobre a segurança da Suíça. Na mesma linha de procurar “abrir os olhos” para ameaças emergentes, o documento traz uma novidade ao dar um exemplo adicional de risco: o de carros chineses poderem servir como instrumentos de coleta de dados para fins de espionagem.

Para o Serviço de Inteligência suíço, a “ameaça” proveniente da China dependerá fortemente do grau de interdependência econômica. Isso gera dados, e o relatório considera extremamente provável que Pequim processe essas informações também para fins de inteligência.

Segundo o documento, os serviços chineses já dispõem de recursos técnicos e humanos que lhes permitem processar gigantescos volumes de dados e utilizá-los em benefício de suas necessidades, mas também das do Partido Comunista, do exército, do aparato estatal e das empresas chinesas.

Como exemplo, considera plausível supor que os dados gerados pelos veículos modernos fabricados na China e que inundam mercados no mundo todo possam ser transmitidos aos serviços chineses por meio das montadoras, ou que os serviços de inteligência disponham – ou venham a dispor – de acesso a essas informações por meio de interfaces digitais.

Para Serge Bavaud, diretor do serviço de inteligência suíço, esses veículos são “smartphones sobre rodas”. As autoridades chinesas trabalhariam em estreita colaboração com os fabricantes, e os serviços secretos poderiam ter acesso, por exemplo, a conversas registradas pelos automóveis. As marcas chinesas negaram essa prática. Em todo caso, a Suíça não é o único país com suspeitas. Jornais alemães publicaram que os serviços secretos do país teriam feito testes em várias marcas chinesas.

O Departamento Federal de Defesa suíço restringiu o acesso de veículos desse tipo próximos a zonas consideradas sensíveis no país. Mas não explicou se os veículos Tesla americanos adquiridos pelo Exército suíço para uso de seus oficiais estão submetidos às mesmas restrições.

No relatório, o Serviço de Inteligência suíço avalia que, nesta fase de transição da ordem internacional, os contornos de uma confrontação global começam a se delinear, sobretudo entre os Estados Unidos e a China, caminhando para um mundo dividido em duas esferas, marcado por uma disputa estratégica pela supremacia.

Constata que as grandes potências recorrem cada vez mais frequentemente a sanções, controles de exportação, subsídios, instrumentos financeiros e outros meios de pressão, tanto para impedir que seus adversários tenham acesso a mercadorias e tecnologias essenciais quanto para preservar e fortalecer suas próprias capacidades.

Cada vez mais setores e categorias de bens podem ter importância simultaneamente civil e militar e, por isso, são classificados como críticos ou estratégicos. É o caso das terras raras, semicondutores, inteligência artificial, robótica, energias renováveis, tecnologias quânticas, biotecnologias, drones e dados em geral.

Os Estados estão incorporando a proteção econômica e tecnológica aos seus conceitos de segurança nacional. O relatório entende que a Europa está ameaçada e que é muito provável que essa ameaça não diminua nos próximos anos.

Como muitos outros países, a Suíça é fortemente dependente das cadeias de abastecimento chinesas. E, com sua ideia de nova ordem mundial, Pequim corteja e seduz, e continuará a utilizar o exterior como fator essencial para apoiar a modernização de sua economia e de seu exército, além de ampliar sua influência internacional.

Conforme o relatório, a segurança econômica da Suíça, assim como a da Europa, continuará dependente da relação entre Estados Unidos e China. Primeiro, porque as decisões chinesas, mesmo quando dirigidas prioritariamente contra os Estados Unidos, também produzem efeitos sobre a Europa. Segundo, porque é provável que Washington continue pressionando os países europeus a reduzir sua colaboração com atores considerados problemáticos, especialmente empresas chinesas.

Avalia que Pequim deverá expandir seu domínio sobre bens e matérias-primas de importância estratégica. E o excesso de capacidade industrial permitirá aos chineses continuar inundando o mercado europeu, e mantendo sob pressão a base industrial da Europa. As tensões entre a China e a Europa têm caráter estrutural e deverão persistir, tendo os carros chineses como um dos principais focos de atrito.

Assis Moreira é correspondente em Genebra e escreve quinzenalmente

E-mail: assis.moreira@valor.com.br

https://valor.globo.com/brasil/coluna/a-suspeita-dos-suicos-sobre-carros-espioes-da-china.ghtml 

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Se tiver interesse em gêmeos digitais para a indústria procure a Neo Vision – Captura Digital da Realidade

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Gêmeos digitais: como a tecnologia que permite simular o mundo vai transformar indústria, varejo, saúde e cidades

A tecnologia dos digital twins permite que empresas façam testes em réplicas perfeitas do mundo real

Por Thâmara Kaoru – Época negócios – 27/01/2026 06h00  

Já imaginou ter uma réplica bem fiel de um objeto, sistema, processo, cidade ou até de você mesmo? Só que, em vez de algo físico, e se a cópia fosse digital? Esse é basicamente o conceito dos gêmeos digitais, ou digital twins, uma tecnologia que está mudando – e pode mudar ainda mais — indústrias, varejo, saúde e cidades.

Para se ter uma ideia do tamanho da aposta nesta tecnologia, relatório da Fortune Business Insights indica que o mercado de gêmeos digitais foi avaliado em US$ 24,48 bilhões em 2025 e projeta-se que cresça de US$ 33,97 bilhões em 2026 para US$ 384,79 bilhões em 2034.

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“A ideia do gêmeo digital é construir uma contraparte digital a partir dos dados do mundo real. Mas qual é o intuito disso? É poder simular situações novas a partir daquela réplica do mundo real”, diz John Paul Hempel Lima, diretor acadêmico dos cursos de graduação online da FIAP.

O especialista cita um exemplo. Se fosse feito um gêmeo digital de um avião, de maneira que seus dados, sensores, mecanismos e sistemas fossem transmitidos para o mundo digital, seria possível ter uma representação de como aquele avião está operando e detectar eventuais falhas. A equipe de manutenção de uma companhia aérea poderia, a partir do gêmeo digital do avião, que está recebendo essas informações em tempo real, saber que precisa tomar alguma medida rápida para evitar problemas.

O gêmeo digital permite que as empresas façam simulações, testes e prognósticos. Elas podem, por exemplo, entender se determinada mudança no produto vai de fato causar o efeito esperado. Dessa maneira, não é preciso implementar uma ação para depois descobrir ela que não funciona.

Quais as vantagens dos gêmeos digitais?

Kevin Janzen, CEO do Gaming & EdTech AI Studio na consultoria Globant, diz que os gêmeos digitais estão se tornando uma ferramenta fundamental para empresas de diversos setores, e suas vantagens são múltiplas.

“Em primeiro lugar, eles permitem otimizar processos ao simular e analisar operações em tempo real. Isso ajuda a identificar ineficiências e áreas de melhoria, o que pode resultar em uma redução de custos e no aumento da produtividade. Além disso, os gêmeos digitais facilitam a manutenção preditiva. Ao monitorar o desempenho dos ativos, as empresas podem antecipar falhas antes que ocorram, permitindo o agendamento da manutenção de maneira mais eficaz e minimizando o tempo de inatividade”, diz Janzen.

O CEO destaca ainda a possibilidade de tomadas de decisão mais seguras. Segundo ele, com dados e análises em tempo real, as empresas conseguem avaliar diferentes cenários e resultados potenciais, o que vai ajudar a tomar decisões estratégicas mais acertadas.

Já no desenvolvimento de produtos, os gêmeos digitais possibilitam a realização de testes virtuais e simulações, acelerando o processo de inovação e reduzindo o tempo necessário para colocar um produto no mercado, disse o especialista.

“Da mesma forma, essas ferramentas podem contribuir para uma experiência mais personalizada para os clientes. Ao analisar seus comportamentos e preferências, ele permite oferecer produtos e serviços adaptados às suas necessidades. Por fim, eles também são valiosos na capacitação de colaboradores, pois permitem praticar seu uso em um ambiente simulado antes de enfrentar situações reais.”

Parece ficção, mas já é realidade

Apesar de a ideia parecer saída de um filme de ficção científica, o conceito de gêmeo digital não é novo. Até recentemente, muitos casos de uso desta tecnologia estavam na indústria, na manufatura e na engenharia, justamente em manutenção preditiva e simulação de falhas. Agora, porém, novas aplicações surgem todos os dias.

Quer um exemplo prático? Em agosto de 2025, a Nasa e a IBM anunciaram o Surya, um modelo de inteligência artificial treinado com dados de observações solares que os desenvolvedores descrevem como um “gêmeo digital do Sol”. A ferramenta cria uma representação digital dinâmica, permitindo prever tempestades solares que podem afetar satélites, redes elétricas e comunicações na Terra. O Surya funciona como um laboratório virtual, testando cenários e antecipando eventos que seriam difíceis de simular no mundo físico. Esse é um exemplo de como gêmeos digitais podem ser aplicados até mesmo a fenômenos naturais.

A ideia é que, no futuro, o conceito de gêmeos digitais possa ser aplicado mais amplamente também para o corpo humano. “Eu estou usando um smartwatch. Ele mede todos os meus sinais vitais, a minha frequência cardíaca, como eu durmo. No futuro, com muito mais sensores, poderá ser possível construir um John virtual”, diz o especialista. Empresas como a francesa Dassault Systèmes, pioneira em mundos virtuais, já desenvolvem um trabalho relevante na área usando digital twins para testar medicamentos e fazer prognósticos.

Outro potencial uso dos gêmeos digitais é nas smart cities, ou cidades inteligentes, que usam tecnologia e análise de dados para melhorar a eficiência urbana e a qualidade de vida da população. Segundo Luis Kondo, diretor de Planejamento & Operações Latam da Dassault Systèmes, a principal diferença dessa aplicação é que as cidades estão em constante transformação. “No caso das cidades, há aquela foto momentânea que você pode tirar, sabendo que daqui a meses ou semanas pode estar diferente”, afirma ele, citando mudanças climáticas, crescimento populacional ou até eventos de saúde pública.

Nesse contexto, os gêmeos digitais — ou gêmeos virtuais, como a empresa prefere chamá-los –, permitem simular enchentes, planejar obras urbanas e organizar serviços públicos, ajudando gestores a testar decisões antes de executá-las. Kondo cita como exemplo comum ruas recém-recapeadas que são abertas novamente pouco depois para obras de infraestrutura. Com o conceito aplicado, esse tipo de problema poderia ser reduzido, evitando que a população sofresse por mais tempo com trânsito, sujeira e ruído.

Para Kondo, smart cities não são projetos pontuais, mas um exercício contínuo de atualização. “Não adianta falar em inovação se, no fim, a tecnologia não melhora a vida da população.”

Avanços tecnológicos colaboram para expansão

Para Lima, da FIAP, a possibilidade de trabalhar com gêmeos digitais está ligada à IoT, a internet das coisas, que se refere a uma vasta rede de objetos físicos equipados com sensores, softwares e tecnologias de conexão que coletam dados via internet.

“Os gêmeos digitais só existem porque a gente começou a falar de IoT, internet das coisas. Começamos a colocar muitos sensores em objetos, carros, no mundo físico e fomos jogando tudo isso na internet. Daí ficou mais fácil pegar todos esses dados e consolidar tudo isso numa representação no mundo virtual daquele objeto ou daquele elemento do mundo físico”.

Nesse processo de expansão, vale citar também a inteligência artificial. Janzen afirma que a IA permite analisar grandes volumes de dados gerados pelos gêmeos digitais. Isso significa que as empresas podem extrair informações valiosas e padrões ocultos que, de outra forma, seriam difíceis de identificar.

“Por meio de algoritmos de aprendizado de máquina, esses sistemas conseguem antecipar comportamentos e falhas nos ativos, o que permite às empresas implementarem estratégias de manutenção preditiva mais eficazes. Isso não apenas reduz o tempo de inatividade, mas também otimiza os custos operacionais”, diz ele.

“A inteligência artificial não apenas potencializa a funcionalidade dos gêmeos digitais, mas também amplia sua aplicação em diversas áreas, desde a otimização de processos até a melhoria na tomada de decisões”, afirma Janzen.

O que falta para que os gêmeos digitais avancem?

Antes mesmo de falar em implementar gêmeos digitais, Lima diz que é preciso discutir a digitalização dos processos. “Imagine uma fábrica. Se eu não tenho sensores coletando informações e mandando para um dashboard, eu nem posso pensar num gêmeo digital. O primeiro passo, então, é a gente fazer a digitalização das linhas de fábrica, dos carros, dos objetos, etc”, diz Lima.

Num segundo momento, entra uma outra fase, em que se começa a construir esses modelos virtuais a partir dos dados reais. E a terceira fase que é poder fazer simulações e diagnósticos para auxiliar na tomada de decisão. “Temos empresas já nesse terceiro estágio, e outras que estão começando a sonhar em ter um gêmeo digital e colocando sensores em suas linhas de produção”.

Segundo Lima, o metaverso também acaba entrando no âmbito dos gêmeos digitais. “Falar de gêmeos digitais é também trazer o assunto do metaverso. Ele não será necessariamente como foi vendido inicialmente, mas sim um universo digital.”

Para Janzen, o futuro está na IA Física, onde os ambientes digitais se tornam indispensáveis para treinar agentes físicos antes que a IA se mude para o mundo real.

“Os gêmeos digitais fornecerão simulações realistas para que robôs e sistemas autônomos aprendam habilidades generalizadas em ambientes seguros, minimizando riscos e custos de prototipagem física. O uso de world models, ou modelos de mundo, permitirá que essas máquinas interajam com o mundo físico de forma mais segura, inteligente e eficaz”, conclui.

Gêmeos digitais: como a tecnologia que permite simular o mundo vai transformar indústria, varejo, saúde e cidades 

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O salto da Índia na economia digital global

País obteve superávit de US$ 202,6 bilhões no comércio de serviços prestados por meios digitais

Por Assis Moreira – Valor – 02/08/2026

É correspondente do Valor em Genebra desde 2005. Cobriu 28 vezes o Fórum Mundial de Economia e numerosas conferências ministeriais em dezenas de países.

No recente exame da política comercial da Índia, um dos países com maior crescimento do mundo, os membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) procuraram entender a ascensão indiana no setor de serviços e na economia digital global.

No ano fiscal de 2024-2025, as exportações indianas de bens e serviços atingiram o recorde de US$ 825,3 bilhões. O comércio de serviços já representa 47% das exportações totais do país. E o que chamou a atenção foi que somente nos serviços prestados por meios digitais a Índia obteve um superávit extraordinário de US$ 202,6 bilhões no ano passado — e a tendência é de expansão acelerada desse segmento.

A economia digital da Índia cresce a um ritmo duas vezes superior ao da economia como um todo e deve representar um quinto do PIB até 2029. Em 2022/23, respondeu por 11,7% do PIB (US$ 402 bilhões) e empregou 14,7 milhões de trabalhadores, o equivalente a 2,5% da força de trabalho.

Sem surpresa, a promoção do comércio transfronteiriço na economia digital aparece como uma nova área prioritária para Nova Deli. As exportações de serviços prestados por via digital aumentaram quase 90% em valor nos últimos anos. Os serviços comercializados internacionalmente por meio de redes de computadores — incluindo serviços financeiros, de informática e profissionais, entre outros — são considerados bastante competitivos.

Os serviços de software e os serviços profissionais e de gestão representam cerca de 65% das exportações totais de serviços indianos. Os principais clientes são os Estados Unidos, o Reino Unido, a Alemanha e a Irlanda.

Nesse cenário, a Índia consolidou sua posição como o quinto maior exportador mundial de serviços prestados por via digital. Globalmente, essas exportações atingiram US$ 5,26 trilhões em 2025, um aumento de 10%. Os Estados Unidos permanecem como o maior exportador, com US$ 915 bilhões (15,5% do total mundial), e também o maior importador, com US$ 490 bilhões (11,2% das importações globais). O Brasil subiu uma posição, tornando-se o 26º maior exportador mundial, mas ainda com uma modesta participação de 0,6%.

Entre os fatores que explicam a crescente digitalização das exportações de serviços da Índia destaca-se a disponibilidade de mão de obra qualificada a custos competitivos, que permite a empresas globais se estabelecerem no país para atender mercados estrangeiros à distância. Além disso, a computação em nuvem, as plataformas digitais e as ferramentas de colaboração remota reduziram significativamente a necessidade de proximidade física entre prestadores e consumidores de serviços.

Uma explicação para o sucesso indiano no segmento inclui a rápida adoção da infraestrutura digital pública, com a chamada “trindade JAM” — formada pelo programa Jan Dhan de contas bancárias, pela identificação biométrica Aadhaar e pela conectividade móvel —, além da Interface de Pagamento Unificada (UPI) e das soluções do India Stack.

Segundo relatório da OMC, a interoperabilidade é uma característica inerente ao India Stack, um conjunto de interfaces abertas de programação de aplicativos (APIs) e de bens públicos digitais. Empresas estrangeiras podem participar desse ecossistema oferecendo serviços ou concorrendo em licitações públicas relacionadas ao programa.

O governo indiano adotou um plano de longo prazo, de 25 anos (2022-2047), denominado Viksit Bharat, de Índia Desenvolvida. A estratégia prevê transformar o país em uma economia autônoma, inclusiva, inovadora até 2047, quando será celebrado o centenário da independência. Atualmente, a Índia continua sendo uma economia de renda média-baixa, com PIB per capita de US$ 2.671 no exercício de 2024/25. Para alcançar o status de país de alta renda até 2047, a Índia precisaria sustentar um crescimento real do PIB de cerca de 8% ao ano. É um desafio do tamanho do país. Mas pelo menos os indianos sabem para onde querem ir.

Além da expansão do setor de serviços, impulsionada pela competitividade digital, a Índia quer elevar sua participação nas exportações mundiais de mercadorias de 1,8% em 2024 para cerca de 10% até 2047. Para estimular as exportações, mantém diversos programas de isenções, reembolsos e incentivos fiscais.

Para superar gargalos estruturais, o governo lançou iniciativas como o Make in India, a Política Nacional de Manufatura e o Programa Nacional de Desenvolvimento de Corredores Industriais.

O Programa de Incentivo à Produção (PLI) quer fortalecer a indústria manufatureira por meio de incentivos vinculados ao desempenho. A iniciativa foi ampliada para 14 setores, incluindo automóveis e autopeças, têxteis, aços especiais e módulos fotovoltaicos solares. Empresas nacionais e estrangeiras podem participar, desde que cumpram critérios de produção e investimento mínimo.

A Índia tornou-se o segundo maior produtor mundial de telefones celulares e o quarto maior fabricante de automóveis. A produção de equipamentos eletrônicos aumentou seis vezes desde 2014/15, enquanto as exportações do setor cresceram oito vezes. A indústria farmacêutica indiana fornece cerca de 20% dos medicamentos genéricos consumidos no mundo e ocupa o terceiro lugar em volume de produção e o 11º em valor. Já a fabricação de componentes ligados às energias renováveis expandiu-se em ritmo excepcional, segundo a OMC.

Importantes obstáculos afetam o desenvolvimento do setor manufatureiro. Entre eles estão o elevado custo dos insumos — em parte decorrente das tarifas de importação —, os altos custos de equipamentos, a infraestrutura industrial ainda insuficiente, a dependência de transferência de tecnologia, entraves regulatórios à atividade empresarial e as dificuldades de acesso a terrenos para projetos industriais e de infraestrutura.

Durante a revisão da política comercial, vários membros da OMC defenderam que a Índia exerça um papel “mais construtivo” nas negociações multilaterais. O país bloqueou importantes acordos multilaterais no passado e continua se opondo agora a iniciativas plurilaterais — nas quais participam apenas os membros interessados —, inclusive sobre comércio eletrônico, apesar de ser um dos principais beneficiários desse segmento.

O governo indiano respondeu que, com a revolução digital ainda em curso, é necessário compreender melhor as dimensões “complexas e multifacetadas” das questões relacionadas ao comércio eletrônico.

Quase paralelo ao exame da Índia na OMC, jovens manifestavam em Nova Deli para denunciar fraudes nos exames universitários. Seriamente contestado pela primeira vez desde sua reeleição em 2024, o primeiro-ministro Narenda Modi demitiu o ministro da Educação. Para os jovens, os concursos para entrar nas grandes escolas e de função pública são o principal mecanismo de mobilidade social.

Para certos observadores, a economia da Índia pode estar crescendo a um ritmo saudável, incluindo na área digital, mas ainda oferece pouca esperança à sua juventude. – os menos de 25 anos representam 40% da população.

https://valor.globo.com/opiniao/assis-moreira/coluna/o-salto-da-india-na-economia-digital-global.ghtml 

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Como fazer para saber menos?

Graças à IA, não só estamos com uma sensação inflada de conhecimento, como podemos estar consumindo informações equivocadas

Por Pedro Pacífico – O Globo – 05/08/2026 

Sou hipocondríaco não diagnosticado. Desde criança, sei o nome de diversos remédios e suas funções, até porque esse meu traço foi herdado dos meus pais. Sempre viajei com vários tipos de remédios, tentando me proteger de qualquer patógeno que pudesse atravessar o meu roteiro. Por muitos anos, o Dr. Google foi meu companheiro (e que, por vezes, alimentou a minha ansiedade). Qualquer sintoma virava pesquisa, e as respostas nunca eram tranquilizadoras. A morte era quase iminente.

Presenciamos uma grande mudança com as ferramentas de inteligência artificial. Elas são capazes de responder a qualquer pergunta sobre a minha saúde. Analisar exames, avaliar sintomas e até trazer recomendações. O problema: elas aparentam saber demais e, para quem busca ter o controle de tudo, isso pode ser perigoso e induzir a erros. O Google antes vinha com várias opções de resposta e possíveis divergências. Agora, recebemos uma resposta pronta e cheia de confiança.

E isso não se restringe a temas de saúde. Um dos problemas que venho percebendo é o uso quase instintivo de dar um novo comando para tentar buscar qualquer tipo de informação. Mas será que precisamos “saber tudo” a todo momento? Será que preciso saber quantos cachorros existem em São Paulo ou quantos grãos de arroz cabem em uma panela? A dúvida não vale mais nada?

Na verdade, estamos falando de uma sensação de saber, porque passamos a avaliar mal a nossa própria capacidade de absorver um conteúdo. O fato de uma informação estar disponível facilmente a partir de uma rápida pergunta não significa que eu tenho o conhecimento daquilo ou que consegui registrar as informações do que pesquisei. 

Perde-se, ainda, o esforço de procurar, comparar e até de duvidar dos próprios achados.

Fiz uma pergunta para o Claude, um dos modelos que oferecem respostas: “Você sabe tudo?” A resposta: “Não.” Continuei: “Então por que há resposta para tudo?” “Gerar uma resposta é o comportamento padrão (…) Consigo escrever com a mesma segurança algo verificável e algo inventado.” Ou seja, não só estamos com uma sensação inflada de conhecimento, como podemos estar consumindo informações equivocadas.

Até porque as consequências são sérias: ansiedade, disseminação de informações falsas, tomada de decisões sem respaldo adequado… Um estudo publicado em 2025 por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia concluiu que participantes que recorreram à inteligência artificial demonstraram uma compreensão mais superficial do conteúdo do que aqueles que fizeram uma pesquisa tradicional. Sei mais nomes de doenças e sintomas do que nunca, mas continuo sem saber muito sobre o meu corpo.

A inteligência artificial já faz parte da realidade e não sei se vou deixar de fazer as minhas perguntas hipocondríacas para uma tela. Se a sua presença é irreversível, o que sobra é desconfiar, até porque uma informação não se torna verdadeira só pelo seu tom seguro.

No fim, tenho tentado ficar com mais dúvidas e evitar o impulso automático de fazer perguntas. Mas uma coisa é certa: continuo viajando com minha mala cheia de remédios.

Como fazer para saber menos? 

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O Google Earth Quase Deixou de Mostrar o Mundo para Começar a Fabricá-lo.

Vera Moraes – Tech Gossip™ – 3 de agosto de 2026

Strategic Advisor in Innovation | Founder da Tech Gossip™ | 100 Innovative Women Award | Innovation, Global Trends | Strong global ecosystem links (EU, Canada, Brazil) | Futurism | Writer | Columnist Olhar Digital

Um recurso de IA permitiu inserir ataques, protestos, refugiados, acidentes e instalações inexistentes em imagens de satélite. O Google recuou, mas o episódio expôs algo mais grave: as plataformas que organizam a realidade estão transformando evidência em conteúdo editável.

O Google Earth Quase Deixou de Mostrar o Mundo para Começar a Fabricá-lo

Um recurso de IA permitiu inserir ataques, protestos, refugiados, acidentes e instalações inexistentes em imagens de satélite. O Google recuou, mas o episódio expôs algo mais grave: as plataformas que organizam a realidade estão transformando evidência em conteúdo editável.

O que aconteceu

O Google introduziu no Google Earth uma ferramenta de inteligência artificial capaz de modificar imagens de satélite por meio de comandos de texto. Bastava posicionar o cursor sobre uma região e descrever o que deveria aparecer naquele local. Nos testes relatados pela 404 Media e por pesquisadores de inteligência de fontes abertas, foi possível acrescentar arranha-céus em áreas rurais, criar explosões, simular ataques de drones, inserir refugiados próximos à fronteira entre México e Estados Unidos, inventar uma usina nuclear no Irã e fabricar protestos diante dos próprios edifícios do Google.

O recurso era alimentado pelo modelo Nano Banana e transformava uma plataforma historicamente associada à observação geográfica em um ambiente de geração visual. Essa mudança pode parecer apenas uma nova função criativa, mas ela alterava silenciosamente a natureza do produto. O Google Earth deixava de ser apenas uma interface para consultar imagens do mundo e passava a funcionar também como uma ferramenta capaz de produzir versões sintéticas desse mesmo mundo.

Depois da repercussão negativa, o Google informou que estava revertendo a funcionalidade enquanto trabalhava em proteções mais rigorosas. A empresa reconheceu que as pessoas confiam no Google Earth como uma representação confiável da realidade e afirmou ter observado compartilhamentos de imagens geradas que aparentemente violavam suas políticas.

O recuo foi necessário, mas não elimina o problema. Ele apenas mostra que o risco previsível não foi tratado como prioridade antes do lançamento.

O problema não é criar imagens falsas. É criá-las dentro de uma infraestrutura de confiança

Imagens falsas já existiam muito antes da inteligência artificial. Softwares de edição sempre permitiram manipular fotografias, mapas e registros visuais. A diferença é que, nesse caso, a falsificação foi incorporada diretamente a uma plataforma que construiu sua autoridade justamente sobre a promessa de mostrar o planeta como ele é.

Essa é a ruptura central.

Uma montagem feita em um editor de imagens costuma carregar algum grau de suspeita. Uma captura de tela do Google Earth, por outro lado, herda a credibilidade da plataforma. Ela parece documental porque vem de uma infraestrutura associada a satélites, mapas, coordenadas e registros geográficos. Ao permitir a geração de elementos falsos dentro desse ambiente, o Google misturou duas categorias que deveriam permanecer claramente separadas: observação e simulação.

O que está em risco não é apenas a precisão de uma imagem isolada. É o valor simbólico da fonte. Quando uma plataforma confiável também passa a fabricar cenas, cada imagem legítima produzida por ela pode ser recebida com mais desconfiança. O dano não ocorre somente quando alguém acredita em uma falsificação. Ele também ocorre quando o público deixa de acreditar em registros verdadeiros.

Esse é o efeito mais profundo da desinformação sintética: ela não precisa convencer todos de uma mentira específica. Basta tornar toda evidência discutível.

A transformação da geografia em conteúdo gerativo

Até agora, o debate sobre deepfakes esteve concentrado em rostos, vozes e vídeos. O episódio do Google Earth revela uma nova etapa: a falsificação de contextos geográficos inteiros.

Isso muda a escala do problema.

Uma imagem sintética de uma pessoa pode destruir uma reputação. Uma imagem sintética de uma região pode alimentar tensão diplomática, manipular uma narrativa eleitoral, criar pânico financeiro, justificar perseguições ou gerar falsas acusações sobre governos, empresas e movimentos sociais.

Uma instalação militar inexistente pode ser apresentada como prova de uma ameaça. Um protesto fabricado pode ser usado para inflar ou desacreditar uma mobilização. Uma cratera criada por IA pode circular como registro de um ataque. Um acampamento falso pode ser utilizado para reforçar discursos políticos sobre imigração, pobreza ou segurança pública.

O risco não está apenas na qualidade visual da imagem, mas no contexto em que ela circula. Em ambientes de crise, guerra ou polarização, a velocidade da narrativa costuma vencer a lentidão da verificação. Quando o desmentido chega, a imagem já cumpriu sua função emocional.

Ela já produziu medo, raiva, indignação ou confirmação ideológica.

O Google deslocou o problema para o usuário

A defesa apresentada pelo Google foi baseada principalmente no uso do SynthID, uma marca d’água digital destinada a indicar que a imagem foi gerada por inteligência artificial. A empresa também afirmou que o conteúdo poderia ser verificado por meio do Gemini ou do Google Lens.

Tecnicamente, isso oferece algum mecanismo de rastreamento. Estruturalmente, porém, a solução transfere a responsabilidade da plataforma para o público.

O usuário recebe uma imagem aparentemente convincente e precisa suspeitar dela, localizar uma ferramenta, realizar a checagem e interpretar corretamente o resultado. Enquanto isso, quem publica a falsificação precisa apenas gerar uma captura de tela e colocá-la em circulação.

Essa assimetria favorece a desinformação.

Fabricar leva segundos. Verificar exige intenção, tempo e conhecimento. Espalhar é simples. Corrigir é trabalhoso. A imagem falsa circula como afirmação; a contestação circula como explicação. E explicações quase sempre perdem para imagens em velocidade, impacto e alcance.

A marca d’água pode ajudar investigadores e jornalistas, mas não resolve o comportamento real das redes. Muitas pessoas não verificam conteúdos que confirmam aquilo em que já desejam acreditar. Além disso, capturas de tela, recortes, reedições e novas compressões podem dificultar a preservação ou a leitura desses sinais técnicos.

A proteção existe, mas chega depois da sedução.

O que está por trás desse tipo de lançamento

O episódio revela o conflito entre velocidade comercial e responsabilidade pública. Empresas de tecnologia são pressionadas a incorporar inteligência artificial em todos os produtos, mesmo quando a utilidade da função não está claramente separada do risco que ela cria.

A lógica dominante é lançar primeiro, observar a reação e corrigir depois.

Esse modelo funciona relativamente bem quando o problema é um botão confuso ou uma interface instável. Torna-se perigoso quando o produto interfere na percepção pública da realidade. Nesse caso, o teste não acontece apenas dentro da plataforma. Ele acontece sobre jornalistas, investigadores, governos, comunidades vulneráveis e pessoas que podem ser afetadas por imagens falsas.

O Google provavelmente enxergou o recurso como uma ferramenta de visualização, planejamento ou simulação. Profissionais da área geoespacial poderiam utilizá-lo para imaginar cenários urbanos, ambientais ou logísticos. O problema é que uma ferramenta não opera apenas dentro da intenção declarada pelo fabricante. Ela também opera dentro dos incentivos do ambiente em que é lançada.

E o ambiente atual recompensa choque, velocidade, conflito e imagens que provoquem reação imediata.

A empresa criou a capacidade técnica, mas aparentemente não delimitou de forma suficiente a fronteira entre uso profissional, experimentação visual e falsificação documental. Esse não foi apenas um erro de moderação. Foi um erro de arquitetura do produto.

Quem ganha e quem perde

Quem ganha com esse tipo de ferramenta são criadores de conteúdo sensacionalista, operadores de propaganda, golpistas, campanhas políticas e qualquer grupo interessado em fabricar provas visuais rapidamente. Eles não precisam que a imagem sobreviva a uma investigação técnica. Precisam apenas que ela circule por tempo suficiente para produzir impacto.

As plataformas também ganham enquanto o conteúdo sintético gera curiosidade, compartilhamento e uso de seus produtos. Mesmo quando uma funcionalidade é retirada, o lançamento reforça a imagem de avanço tecnológico e mantém a empresa no centro da corrida pela inteligência artificial.

Quem perde são os profissionais que dependem de imagens geográficas para verificar fatos. Pesquisadores de OSINT, jornalistas, organizações humanitárias, investigadores e analistas passam a carregar uma nova carga de trabalho: antes de interpretar uma imagem, precisam provar que ela não foi gerada.

Também perde o público, que passa a viver num ambiente em que a origem visual já não basta como evidência.

O custo da inovação é distribuído para a sociedade. O benefício estratégico permanece concentrado na empresa.

O ponto cego: a desinformação não precisa esconder a falsificação

Existe uma crença ingênua de que, se uma imagem puder ser identificada como artificial, o problema estará resolvido. Isso ignora a forma como a propaganda funciona.

Quem espalha desinformação nem sempre pretende construir uma mentira duradoura. Muitas vezes, pretende apenas ocupar o espaço informacional durante algumas horas, criar uma impressão inicial ou oferecer uma imagem que alimente uma narrativa já desejada.

Mesmo quando a falsificação é descoberta, ela pode continuar funcionando como símbolo. Parte do público aceitará a correção. Outra parte dirá que a checagem é censura, manipulação ou tentativa de encobrimento. A discussão deixa de ser sobre o que a imagem mostra e passa a ser sobre quem tem autoridade para declarar o que é real.

Nesse cenário, a falsificação vence duas vezes. Primeiro, porque engana. Depois, porque destrói a confiança no processo usado para desmenti-la.

Não estamos apenas perdendo a confiança nas imagens. Estamos terceirizando a realidade

O episódio do Google Earth expõe uma tendência maior: as mesmas empresas que armazenam, organizam e apresentam a realidade estão construindo ferramentas para modificá-la.

Google, plataformas sociais e empresas de IA não são apenas fornecedoras de tecnologia. Elas administram as interfaces pelas quais bilhões de pessoas percebem acontecimentos, lugares e conflitos. Quando essas interfaces misturam registro e geração sem separações claras, elas não estão apenas oferecendo criatividade. Estão alterando a estrutura de confiança do ambiente informacional.

Quem controla a interface controla o primeiro enquadramento da realidade. A questão, portanto, não é se a inteligência artificial pode criar uma cratera falsa, uma usina inexistente ou um ataque inventado. Isso já está demonstrado.

A questão é por que uma empresa com o alcance e a responsabilidade do Google colocou essa capacidade dentro de uma ferramenta documental antes de estabelecer barreiras proporcionais ao risco.

O recurso foi retirado. A lógica que permitiu seu lançamento continua intacta.

Perguntas para o leitor

Você ainda consideraria uma captura de tela do Google Earth uma evidência confiável?

Uma marca d’água digital protege o público ou apenas oferece uma defesa jurídica para a plataforma?

Empresas deveriam ser autorizadas a testar ferramentas de simulação dentro de produtos usados como fontes documentais?

Quem deve assumir o custo da verificação: o usuário, o jornalista ou a empresa que tornou a falsificação possível?

Quando uma plataforma pode mostrar o mundo e fabricar o mundo no mesmo lugar, quem decide qual versão será considerada real?

Acompanhe o Tech Gossip para análises sobre inteligência artificial, poder tecnológico, desinformação e os mecanismos que as Big Techs preferem chamar apenas de inovação: www.techgossip.com.br

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Como os seres humanos serão no futuro?

Os cientistas afirmam que os seres humanos ainda estão evoluindo. Mas, com as novas tecnologias, como a edição genética, nossa aparência futura pode se alterar de formas inesperadas.

Catherine Heathwood – Época Negócios/BBC – 02/08/2026 

Poderá ainda haver no futuro versões de nós que sejam mais baixas ou mais altas, que tenham características diferentes ou até que sejam geneticamente projetadas conforme certas especificações?

À medida que a civilização se desenvolveu, a medicina moderna, as condições de higiene e o fácil acesso a alimentos reduziram muitas das pressões geradas pela seleção natural que formaram a nossa espécie, como as doenças, a fome e condições ambientais desfavoráveis.

Mas, para o antropólogo e geneticista evolutivo Jason Hodgson, da Universidade Anglia Ruskin, no Reino Unido, a evolução “sem dúvida” continua até hoje.

Podemos afirmar isso porque certos genes estão se tornando mais comuns em algumas populações. Mas este fenômeno acontece ao longo de muitas gerações e, por isso, “ninguém irá presenciar mudanças evolutivas ao longo de uma única vida”.

Variações humanas

A paleontóloga Briana Pobiner, do Museu de História Natural do Instituto Smithsoniano, nos Estados Unidos, afirma que a alimentação desempenhou papel importante na nossa evolução recente.

“Cerca de um terço das pessoas do planeta hoje em dia podem digerir leite na idade adulta”, explica ela. Mas, entre 5 mil e 10 mil anos atrás, quase ninguém conseguia fazer esta digestão.

“É uma mudança evolutiva extremamente rápida.”

Esta evolução surgiu quando os seres humanos começaram a criar animais produtores de leite.

Durante as épocas de fome, as pessoas que, por acaso, conseguiam digerir o leite (que é rico em gorduras e proteínas) apresentavam maior probabilidade de sobreviver e transmitir estes genes, que “se espalharam com muita rapidez”, segundo Pobiner.

E outros fatores ambientais também influenciaram a evolução humana, muito tempo atrás.

Pesquisas indicam que os seres humanos evoluíram para criar diversos tons de pele em regiões com diferentes tipos de clima, a fim de produzir vitamina D em quantidade suficiente para suas necessidades

Quando a nossa espécie migrou da África para diferentes partes do mundo, milhares de anos atrás, nossos antepassados encontraram uma série de climas diferentes e desenvolveram novas adaptações físicas.

A pele mais clara, por exemplo, evoluiu em lugares onde havia menos luz ultravioleta, para ajudar a sintetizar a vitamina D.

As variações locais se desenvolveram “a partir de pessoas que se movimentavam para longe umas das outras”, explica Hodgson.

“Agora, todos nós nos reunimos novamente, de diversas formas: pela migração, pela globalização e assim por diante.”

A globalização indica que iremos possivelmente observar reduções das variações biológicas. Mas nem tudo é necessariamente tão simples.

Hodgson pesquisa o chamado acasalamento associativo, o que, segundo ele, ocorre “quando os organismos escolhem preferencialmente parceiros mais similares a eles próprios”.

Hodgson acredita que, se o acasalamento associativo for interrompido, a globalização poderá gerar menos variações biológicas entre os seres humanos 

Hodgson explica que o acasalamento associativo pode “sobrecarregar” eventuais seleções naturais que já estejam acontecendo, ajudando a promover certas características em uma dada população.

Os pesquisadores observaram que “provavelmente, quanto mais alto você for, mais alto será o seu cônjuge”, por exemplo.

“A altura, o peso e a estrutura facial são tipos de características que se demonstraram associativas em alguns grupos, mas não em outros”, segundo ele, o que “em última análise, influencia a frequência dos genes”.

Parte deste fenômeno ocorre por razões sociais e culturais, como pessoas que se casam dentro do seu grupo étnico, por exemplo. E estes fatores podem estar se alterando em algumas populações.

“Muitas mudanças acontecem e alteram a evolução humana todo o tempo”, explica Hodgson.

‘Em mãos humanas’

Mas existem algumas decisões humanas que não alteram a nossa evolução.

Por exemplo, “se você frequentar a academia, se exercitar e ganhar músculos, isso não significa necessariamente que você irá transmitir genes que geram músculos grandes para os seus filhos”, explica Pobiner.

De procedimentos ortodônticos até cosméticos, podemos, agora, alterar muitas características ao longo da vida, com base em preferências sociais, não em seleção natural.

Em 2024, foram realizados cerca de 38 milhões de procedimentos estéticos cirúrgicos e não cirúrgicos em todo o mundo, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS, na sigla em inglês). Este número representa um aumento de 40% desde 2020.

A cirurgia das pálpebras passou a ser o procedimento cirúrgico estético mais popular em 2024, segundo uma pesquisa global realizada pelo ISAPS 

Com esta capacidade cada vez maior de remodelar a nossa aparência, “você não se parece necessariamente com o que os seus genes dizem que você deveria se parecer”, explica Thomas Mailund, ex-professor de bioinformática da Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

No futuro, talvez não sejam apenas ajustes superficiais na nossa aparência. Os cientistas estão usando uma técnica chamada Crispr para editar genes humanos.

Ela funciona essencialmente como um par guiado de tesouras moleculares. Uma parte encontra o DNA alvo e a outra o edita.

Esta tecnologia está sendo aprimorada e já começou a ser usada para tratar uma quantidade limitada de condições genéticas, como certos distúrbios sanguíneos.

Se esta técnica avançar o bastante para se tornar disponível para o público em geral, teoricamente, talvez seja possível, algum dia, alterar ainda mais características humanas em nível genético — não gradualmente, ao longo de várias gerações, mas deliberadamente, de uma só vez.

E, se fizermos este procedimento em células de linhagem germinativa (que se transformam em esperma e óvulos), as gerações futuras poderão até herdar eventuais edições genéticas.

Mas estamos muito longe de poder fazer isso de forma segura e com resultados garantidos. E a técnica levanta questões éticas em relação à geração de “bebês sob encomenda” e à estigmatização das incapacidades, entre muitas outras.

A tecnologia Crispr é aprovada em algumas partes do mundo para o tratamento de transtornos sanguíneos, como anemia falciforme, mas os seus custos ainda são muito altos 

“É aceito de forma praticamente universal hoje em dia que não é algo que faremos em seres humanos, seria totalmente antiético”, segundo Hodgson.

Mas ele especula o que isso poderá mudar no futuro.

“[Em] 5 mil anos… provavelmente, será o contrário, acho eu.”

“Chegará um tempo em que deixará de ser antiético editar o genoma, até o ponto em que será antiético não fazê-lo, pois poderemos eliminar características como doenças hereditárias”, explica ele.

Se a tecnologia se tornar amplamente disponível, ela poderá até oferecer aos pais a opção de escolher a aparência dos seus filhos, editando os genes para selecionar características desejáveis.

“Acho que o futuro da nossa evolução, em um sentido mais amplo, realmente será passar a ficar em mãos humanas, mas estamos muito longe de chegar a este ponto”, segundo Hodgson.

Com tantos pontos ainda a serem esclarecidos sobre esta tecnologia, “espero não ver nada disso enquanto eu viver”, destaca ele.

Nova espécie?

Para Mailund, é impossível prever a aparência dos seres humanos no futuro, sem saber quais serão as alterações do nosso ambiente.

Se pensarmos em um futuro muito distante, poderemos até nos tornar uma nova espécie.

Um milhão de anos atrás, espécies humanas como o Homo erectus andavam pelo planeta. A nossa espécie, Homo sapiens, só apareceu cerca de 300 mil anos atrás.

“Por isso, daqui a um milhão de anos, nossos descendentes serão tão diferentes de nós… quanto o Homo erectus dos humanos atuais”, explica Mailund.

O Homo erectus foi o primeiro dos nossos ancestrais a ter proporções corporais similares aos seres humanos. A espécie existiu até pelo menos 250 mil anos atrás 

Mas ele destaca que, mesmo depois de tanto tempo, as diferenças entre as espécies poderão ser menos óbvias do que pensamos.

“Não tenho certeza se reconheceríamos alguém como sendo drasticamente diferente de nós, se fôssemos Homo erectus”, explica ele.

É até possível que a nossa espécie se divida em duas, por exemplo, se alguns de nós nos estabelecermos em novos ambientes, como no espaço.

“Se você viver na Lua, a gravidade é baixa. Em Marte, também. Precisaremos nos adaptar a isso”, afirma Mailund.

Para realmente observarmos o desenvolvimento de uma nova espécie, estas populações precisarão ficar totalmente isoladas da Terra por muitas gerações.

E se não deixarmos a evolução ocorrer ao acaso?

Com o potencial de mudar os nossos genes com a tecnologia, Mailund acredita que “a questão real é ‘o que iremos escolher?’, não ‘o que a biologia fará conosco?'”

Como os seres humanos serão no futuro? 

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Esqueça a Airbus e a Boeing. A Embraer está voando alto

Seu CEO tem planos ambiciosos para o futuro

The Economist(tradução IA) – 30 de julho de 2026 

Alguns aviões de passageiros são batizados com códigos alfanuméricos puramente utilitários: pense no A380 da Airbus. Ocasionalmente, as gigantes aeroespaciais tentam transmitir algo mais elevado. O 787 Dreamliner da Boeing projeta uma imagem de conforto moderno; o A320neo da Airbus destaca o uso do que há de mais recente em tecnologia de aviação.

A Embraer, a terceira maior fabricante de jatos de passageiros do mundo, adota uma abordagem mais direta. Desde 2017, a empresa comercializa seu jato regional E2, eficiente em consumo de combustível, como o “Profit Hunter” (Caçador de Lucros).

A empresa brasileira tem uma fração do tamanho da Airbus e da Boeing. No entanto, ela teve alguns anos notáveis. A demanda está disparando não apenas para seus aviões de passageiros menores, mas também para os jatos privados e militares que ela oferece.

Em 2021, a companhia entregou um total de 141 aviões. Este ano, pode chegar a 255. Em 24 de julho, a empresa informou que sua carteira de pedidos (backlog) atingiu o recorde de US$ 34,5 bilhões. Francisco Gomes Neto, o CEO da Embraer, enxerga uma oportunidade de “crescimento substancial” pela frente.

Os investidores concordam. Desde o início de 2021, o preço de suas ações subiu cerca de dez vezes, superando de longe os da Airbus ou da Boeing. Alguns agora especulam que a Embraer pode tentar uma investida no mercado de jatos maiores, batendo de frente com as duas gigantes da indústria aeroespacial.

A Embraer está se beneficiando de uma série de ventos a favor. Hoje em dia, as companhias aéreas precisam esperar de oito a dez anos por um avião comercial de corredor único (narrow-body) de grande porte da Airbus ou da Boeing, que acumulam uma carteira combinada de 16.000 jatos de passageiros devido ao aumento na demanda por viagens aéreas e a problemas antigos na cadeia de suprimentos que remontam à pandemia de covid-19.

Isso levou a uma explosão na demanda pelo E2, que é menor e pode ser entregue em menos de dois anos. Uma preferência crescente por viagens diretas entre aeroportos menores, em vez de passar por grandes centros de conexão (hubs), impulsionará ainda mais a demanda por aviões menores para operar novas rotas, diz Ron Baur, da Azorra, uma empresa de leasing que tem mais de 50 modelos E2 encomendados. O único concorrente direto da aeronave em termos de tamanho é o A220 da Airbus, em um mercado que a Embraer projeta em 8.500 aviões desse tipo nas próximas duas décadas. Como aponta Gomes Neto, mesmo que o mercado seja de apenas metade desse número e a Embraer consiga metade dos pedidos, a demanda ainda ocupará sua capacidade de produção por 20 anos. Além disso, o jato E175 da Embraer, que é ainda menor, é a única aeronave em produção disponível para companhias aéreas regionais de conexão na América [do Norte], devido a acordos de negociação coletiva com sindicatos de pilotos que restringem o tamanho máximo de avião que elas podem utilizar.

Há também a explosão nas vendas de jatos privados que está em andamento desde a pandemia. A Embraer é dominante no mercado de modelos de pequeno e médio porte. Seu Phenom 300, que acomoda até dez passageiros, é o mais vendido em sua categoria há 14 anos. O aumento nos gastos com defesa ao redor do mundo também elevou os pedidos do KC390, um avião de transporte militar. E uma participação controladora na Eve, uma empresa de táxis voadores, parece uma aposta melhor agora que o vasto número de startups na área foi reduzido a um punhado de sobreviventes plausíveis.

No entanto, Gomes Neto pensa que deve “preparar a empresa para um novo ciclo de produtos que sustentará um crescimento mais ambicioso”. Uma possibilidade é fabricar um jato privado de grande porte. Um passo mais ousado e arriscado seria desenvolver um jato comercial maior para enfrentar a Airbus e a Boeing, que devem lançar substitutos para seus principais aviões de corredor único (narrow-body) por volta do final da década de 2030. Nenhuma das duas tem muito incentivo para fazer grandes investimentos enquanto os modelos atuais estão vendendo bem, o que poderia criar uma abertura para a Embraer.

Quebrar o domínio desse duopólio seria uma tarefa gigantesca. A tentativa da Bombardier quase a levou à falência e terminou em uma venda forçada do programa por uma quantia simbólica para a Airbus em 2018 (onde se tornou o A220). Guillaume Faury, o chefe da Airbus, alertou a Embraer a “pensar duas vezes”. Contudo, as recompensas de abocanhar mesmo uma pequena fatia de um mercado que a Boeing estima em 36.000 jatos nas próximas duas décadas também seriam muito maiores do que as de um novo jato privado. Ron Epstein, do Bank of America, diz que isso levaria a Embraer para o “próximo nível”.

A Embraer pode nunca mais ter uma oportunidade como essa para colocar em prática sua experiência na fabricação e comercialização de jatos comerciais. Gomes Neto destaca que, ao longo de cerca de 20 anos, a empresa certificou quase 20 novas aeronaves — um desempenho impressionante. A reputação da companhia significa que os clientes potenciais a levariam a sério. Mas ela precisaria encontrar parceiros para desembolsar parte dos cerca de US$ 10 bilhões que o novo avião custaria para ser desenvolvido, diz Alberto Valério, do banco UBS, incluindo talvez uma fabricante de motores e outros fornecedores, além de clientes e investidores externos.

Há rumores de que a questão de avançar ou não contra o duopólio divide opiniões na Embraer. Felizmente, ela tem bastante tempo para tomar uma decisão. Como insiste  Gomes Neto: “Estamos muito confortáveis com a situação que temos hoje”.

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Novo normal: segurança energética e segurança alimentar tornaram-se indissociáveis

No Brasil, deveríamos aproveitar as nossas vantagens comparativas de sermos um dos responsáveis pela segurança alimentar no mundo e de termos uma grande diversidade energética e mineral para nos posicionarmos na pole position

Por Adriano Pires – Estadão – 31/07/2026

O mundo vive mudanças profundas na geopolítica da energia que vieram para ficar. Mais do que provocar oscilações nos preços do petróleo, presenciamos agora que a principal preocupação é com a segurança energética. O mundo entrou em um novo cenário, no qual petróleo, gás natural e fertilizantes passaram a compor uma mesma equação estratégica. Garantir o abastecimento de energia deixou de significar apenas assegurar combustíveis; passou também a ser condição essencial para a produção de alimentos. Em outras palavras, segurança energética e segurança alimentar tornaram-se indissociáveis. Ou seja, estamos vivendo um “novo normal”.

O principal foco de atenção hoje é o Estreito de Ormuz. Por essa rota estratégica transitam aproximadamente 25% do petróleo consumido no mundo, além de volumes expressivos de gás natural e fertilizantes. Qualquer ameaça à livre navegação eleva a percepção de risco nos mercados, amplia a volatilidade das cotações internacionais de energia e pressiona os custos dos insumos agrícolas e dos alimentos.

Entretanto, atribuir esse “novo normal” apenas ao Oriente Médio seria ignorar uma transformação mais profunda que começou com a guerra entre Rússia e Ucrânia. As sanções impostas à Rússia evidenciaram que o gás deixou de ser apenas uma fonte de energia para tornar-se insumo estratégico para a produção de fertilizantes. Ficou claro, desde então, que interrupções no abastecimento energético podem comprometer a produção agrícola e acelerar a inflação dos alimentos.

Três protagonistas da segurança energética e alimentar global estão diretamente envolvidos na construção desse “novo normal”. A Rússia, o Oriente Médio e os Estados Unidos, todos envolvidos em conflitos e guerras sem prazo para terminar.

No Brasil, deveríamos aproveitar as nossas vantagens comparativas de sermos um dos responsáveis pela segurança alimentar no mundo e de termos uma grande diversidade energética e mineral para nos posicionarmos na pole position do novo normal. Para isso, precisamos começar revendo a nossa política de licenciamento ambiental, que hoje impede investimentos que levariam o País a uma maior soberania energética, alimentar, mineral e tecnológica.

A grande lição desse novo contexto é que petróleo, gás e fertilizantes deixaram de ser mercados independentes. Hoje, choques geopolíticos repercutem simultaneamente sobre os mercados de energia, a produção de alimentos e, consequentemente, na inflação. Mais do que acompanhar a cotação do barril, compreender o mercado de petróleo passou a exigir uma visão integrada da segurança energética e da segurança alimentar – duas agendas que permanecerão no centro das discussões econômicas e geopolíticas.

Opinião por Adriano Pires

Diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE)

Novo normal: segurança energética e segurança alimentar tornaram-se indissociáveis – Estadão 

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