A exportação deve ser no sentido correto, de materiais processados, certificados e de baixa pegada de carbono
Rafael Leão e Jorge Arbache – Valor – 29/10/2026
Alguns países são subdesenvolvidos porque são subdesenvolvidos. Assim Ragnar Nurkse resumiu, nos anos 1950, o círculo vicioso da pobreza: mercados pequenos e de baixa renda geram pouca poupança e pouco investimento, o que mantém a produtividade baixa e o mercado pequeno. A lógica ajuda a entender um problema concreto do Brasil: como agregar valor a terras raras e outros minerais críticos quando a demanda industrial doméstica é estreita e as capacidades produtivas são limitadas?
O refino e a transformação de minérios encontram no setor industrial praticamente toda a sua demanda, como insumos de baterias, carros eletrificados, equipamentos elétricos e bens de capital da transição energética. Uma economia que perdeu densidade industrial perde também o mercado que justificaria investir nessa etapa intermediária da cadeia, o midstream. Segundo as Contas Nacionais do IBGE, a indústria de transformação, que passava de 20% do valor adicionado na década de 1990, ficou em torno de 12% entre 2012 e 2020 e chegou a cerca de 15% em 2023. Na balança de produtos de média e alta tecnologia, o déficit saltou de US$ 1,8 bilhão em 2005 para US$ 112 bilhões em 2024, segundo a Unido.
O mercado de veículos eletrificados, que concentra a demanda futura por minerais críticos, não muda o quadro. Estudos do Ipea mostram que esses veículos responderão por 82% da expansão da demanda por terras raras até 2050, 92% da de lítio e 67% da de grafita (Leão, Oliveira e Cunha, 2026). Mas o Brasil comprou 180 mil carros eletrificados em 2025, menos de 1% dos 21 milhões vendidos no mundo, e a Agência Internacional de Energia (IEA) estima que toda a América Latina responderá por menos de 4% de um mercado global próximo de 55 milhões de unidades em 2035. A demanda doméstica não sustentará, sozinha, a escala necessária.
A saída mais factível está do lado de fora. A China domina cadeias verticalizadas e respondeu, em 2024, por 91% da oferta mundial de terras-raras refinadas e 95% da de grafita, segundo a IEA. A Europa, que representa cerca de 20% do mercado de eletrificados e pode chegar a 25% em 2035, vive um dilema: compete com as empresas chinesas no downstream, mas depende delas no midstream. Sua competitividade e suas metas de descarbonização exigem diversificar fornecedores e garantir insumos com qualidade, rastreabilidade e atributos compatíveis com a regulação europeia. O que é dilema estratégico para a Europa pode ser, para o Brasil, a escala de demanda que o mercado doméstico não oferece. Em termos de Nurkse, parte do círculo vicioso pode ser rompida de fora para dentro.
Aqui o conceito de powershoring ajuda a organizar os problemas e oportunidades para Brasil e Europa. Objetivamente, trata-se da localização de etapas produtivas intensivas em energia em regiões com energia limpa, abundante e competitiva, conectadas aos mercados por comércio e cadeias de valor (Arbache, 2026). Para os minerais há uma particularidade: a mina está presa à geologia. O que pode ser reorganizado são as etapas posteriores e comercializáveis da cadeia, como refino e transformação em insumos químicos e metalúrgicos, várias delas intensivas em eletricidade. A vantagem brasileira não é só geológica: combina recursos minerais, energia de baixo carbono, água, logística, experiência industrial e acesso a mercados. A divisão de trabalho resultante é realista: o Brasil avança em beneficiamento, refino e materiais intermediários de menor intensidade de carbono; a Europa preserva engenharia, manufatura avançada e integração de sistemas. É interdependência estratégica, nem autarquia nem offshoring convencional.
O Brasil não precisa esperar que seu mercado doméstico de veículos elétricos, baterias e equipamentos verdes adquira escala chinesa ou europeia para industrializar parte de seus minerais críticos: a escala pode vir do comércio
Essa complementaridade, porém, não se materializa sozinha. O Brasil precisa chegar à mesa com oferta crível, e é aqui que a Lei nº 15.506/2026 e a atuação do BNDES ganham sentido além do plano doméstico. A lei criou instrumentos para as duas pontas da cadeia: um fundo garantidor, com aporte da União de até R$ 2 bilhões, para mitigar a ausência de garantias que afasta o crédito da mineração; um programa de crédito fiscal para beneficiamento e transformação, de até R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034; a inclusão do setor nas debêntures incentivadas de infraestrutura, com dedução de IRPJ e CSLL; e o Certificado Mineral de Baixo Carbono, voluntário, que ainda depende de regulamentação. Já o edital conjunto do BNDES e da FINEP selecionou 56 projetos de transformação de minerais estratégicos, que demandam quase R$ 46 bilhões em investimentos, sinalizando que há possibilidades concretas de agregação de valor à mineração no Brasil.
Instrumentos e projetos funcionam como cartão de visita da diplomacia comercial brasileira: mostram a compradores e investidores europeus que há regras, financiamento e projetos concretos em carteira. Há limites a superar, como o horizonte do crédito fiscal, que só começa em 2030, e a pendência do certificado. Mas cartão de visita não fecha negócio. Projetos de processamento são de longo prazo, intensivos em capital e dependem de acesso previsível ao mercado. Se compradores europeus assumirem compromissos de offtake de longo prazo, com especificações de qualidade, rastreabilidade e desempenho ambiental acordadas, parte do risco de receita diminui e capital privado, bancos e instituições de desenvolvimento passam a avaliar os projetos com mais clareza. A sequência deve começar pelo comprador, não pela fábrica.
Em contrapartida, o acordo precisa prever formação de capacidades, como parcerias tecnológicas, qualificação, desenvolvimento de fornecedores e metas verificáveis de agregação de valor. Assim, diversificar a oferta europeia não significará trocar uma dependência por outra, nem reduzir a estratégia brasileira a exportar recursos naturais com mais eficiência.
O Brasil não precisa esperar que seu mercado doméstico de veículos, baterias e equipamentos verdes adquira escala chinesa ou europeia para industrializar parte de seus minerais críticos: a escala pode vir do comércio. Exportar é preciso, mas no sentido correto. Exportar minério bruto resolve pouco; exportar materiais processados, certificados e de baixa pegada de carbono pode criar a base de demanda para investimento, aprendizado e produtividade. Para a Europa, isso significa fornecedores diversificados e insumos competitivos para sua indústria; para o Brasil, a chance de transformar geologia em indústria. A geologia fixa a localização da mina, não a de toda a cadeia de valor. A mina não se move. A cadeia de valor, sim.
Arbache, J. (2026). Powershoring for Europe: Clean Industrial Value Chains Beyond Energy Self-sufficiency. June 2026.
LEÃO, Rafael; OLIVEIRA, Mariano de; CUNHA, Danúbia da. TD 3174 – Qual a importância do Brasil na cadeia global de minerais críticos da transição energética? Uma análise sobre reservas, produção, comércio exterior e investimentos. Brasília, DF: Ipea, 2026.
Rafael Leão é doutorando em economia pelo CEDEPLAR/UFMG.
Jorge Arbache é professor de economia da UnB.
https://valor.globo.com/opiniao/coluna/exportar-minerais-criticos-e-preciso.ghtml
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