Soberania em IA é mais importante que regulação

Temos de deixar de ser meros usuários de modelos estrangeiros

Pablo Ortellado – O Globo – 03/07/2026

Professor de Gestão de Políticas Públicas na USP

Uma reportagem publicada ontem no Financial Times revelou que a OpenAI, empresa por trás do ChatGPT, ofereceu uma participação de 5% ao governo americano. O objetivo é duplo. Com a participação direta do governo, a OpenAI espera diminuir obstáculos políticos e regulatórios trazidos pela administração Trump. Além disso, a oferta atende parcialmente a uma demanda da esquerda, que defende a nacionalização de metade das ações das grandes empresas de inteligência artificial para socializar os dividendos da automação (a proposta é do senador Bernie Sanders).

A proposta está ainda em fase inicial, mas deveria acender o alerta sobre a vulnerabilidade de nações como o Brasil — países que não detêm controle sobre a infraestrutura crítica em IA passam a depender da boa vontade do governo americano, que fica no comando direto do desenvolvimento e do acesso a uma tecnologia crítica. Dois outros incidentes recentes reforçam a preocupação.

Mesmo sem participação acionária, o governo Donald Trump proibiu a Anthropic, empresa por trás do Claude, de dar acesso a seu modelo Fable 5 a não americanos no começo de junho. A alegação para o controle de exportação foi que a tecnologia pode ser usada por atores estrangeiros maliciosos em ciberataques. A suspensão só foi revertida na terça-feira desta semana, depois de a Anthropic comprovar melhorias na segurança do produto e depois de crescer o temor de que não lançar o modelo no mercado global favoreceria concorrentes chinesas.

O bloqueio efetivo da exportação do Fable 5, ainda que por preocupações de segurança possivelmente razoáveis, mostra que, se os Estados Unidos controlarem o mercado da IA de ponta, podem tratar empresas nacionais e estrangeiras de forma não isonômica.

O último incidente preocupante foi revelado em fevereiro. Reportagem do Wall Street Journal revelou que funcionários da OpenAI não acionaram a polícia quando tiveram ciência de que um jovem, em conversa com o ChatGPT, planejava o ataque a uma escola. A ameaça não relatada à polícia terminou num massacre que deixou mortas cinco crianças de 12 e 13 anos.

Mais que falta de agilidade em acionar a polícia, o incidente revelou que a OpenAI, desde agosto de 2025, vinha escaneando conversas dos usuários para identificar crimes. A infraestrutura que faz varredura nas conversas procurando crimes violentos é a mesma que identifica segredos industriais, pesquisas científicas de ponta ou planejamento estratégico de governos. Como as revelações de Edward Snowden em 2013 mostraram, o risco de usar uma tecnologia como essa para espionagem não é especulativo, ainda mais se a empresa for diretamente controlada pelo governo americano.

Esses incidentes mostram que a posição de países como o Brasil pode ser muito vulnerável e que construir soberania é estrategicamente mais importante que regular a IA — afinal, a capacidade de garantir o acesso à tecnologia precede a definição de como ela deve ser usada.

O Brasil não pode aspirar ao controle vertical de toda a cadeia da IA, como faz a China, que pretende criar aplicações, modelos próprios, data centers e uma indústria nacional de chips. Mas pode fazer movimentos que tornem sua posição menos desfavorável.

Temos de deixar de ser meros usuários de modelos estrangeiros e passar a operar e adaptar modelos abertos em infraestrutura própria — o que nos protege da ingerência de americanos e chineses. Isso implica ter data centers domésticos com chips potentes e tratar os acervos públicos brasileiros — jurídicos e de saúde — como ativos estratégicos.

A posição diplomática do Brasil é um trunfo, pois manter laços fortes simultaneamente com Estados Unidos e China dá acesso tanto aos chips avançados ocidentais quanto aos modelos abertos chineses, que rivalizam com os americanos a uma fração do custo.

Nada disso, porém, se sustenta sem tratar a soberania tecnológica como política de Estado, acima da polarização. A direita precisa ser lembrada de que, antes de aliados ideológicos de Trump, são brasileiros. E a esquerda, de que foi o progressista Barack Obama que espionou a Petrobras e a Presidência da República.

Soberania em IA é mais importante que regulação 

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Le Monde elogia modelo de gestão, capacidade de inovação e crescimento da fabricante

Por RFI – O Globo – 02/07/2026 

Embraer é o terceiro maior construtor de aeronaves no mundo — Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

A edição impressa do jornal francês Le Monde desta quinta-feira (2) traz uma reportagem sobre a Embraer, apresentada como um dos maiores símbolos do sucesso industrial brasileiro. A publicação destaca que a fabricante, sediada em São José dos Campos, no interior de São Paulo, tornou-se a terceira maior produtora de aviões do mundo, atrás apenas da Airbus e da Boeing, transformando a cidade em uma espécie de Seattle ou Toulouse da América do Sul.

A reportagem atribui parte desse desempenho à adoção de métodos de gestão inspirados na japonesa Toyota. Segundo o diário, a aplicação de técnicas da indústria automobilística permitiu à empresa aumentar em 88% as entregas de aviões comerciais em seis anos, passando de 130 aeronaves em 2020 para 244 em 2025, em um momento em que o setor aeronáutico mundial enfrenta problemas nas cadeias de abastecimento.

O texto também ressalta a capacidade de inovação da fabricante brasileira. Com cerca de 25 mil funcionários em todo o mundo, incluindo mais de 4 mil engenheiros, a companhia opera uma ampla rede global de fornecedores e mantém unidades de produção no Brasil, nos Estados Unidos e em Portugal.

Apesar dos elogios, a análise lembra que a Embraer ainda está muito distante da escala alcançada por Airbus e Boeing. Faturamento, carteira de pedidos e capacidade de investimento continuam em patamares bem inferiores aos das duas líderes mundiais do setor.

Vale a pena competir com Airbus e Boeing?

A partir dessa constatação, a reportagem levanta uma questão estratégica: vale a pena para a Embraer avançar para o mercado de aeronaves maiores e competir diretamente com os modelos Airbus A320 e Boeing 737? Especialistas ouvidos pelo jornal ponderam que esse movimento representaria uma aposta de alto risco.

Na avaliação desses analistas, a empresa tem obtido resultados consistentes justamente por se concentrar no segmento de jatos regionais e aeronaves de médio porte. Como exemplo dos desafios envolvidos, o texto cita a experiência da canadense Bombardier, que enfrentou graves dificuldades financeiras ao tentar disputar espaço com as duas gigantes do setor.

‘A pérola brasileira’, diz Le Monde

Ao reconstituir a trajetória da fabricante, criada pelo Estado brasileiro em 1969 e privatizada em 1994, a reportagem conclui que a Embraer conseguiu superar obstáculos que pareciam intransponíveis e se consolidou como uma referência tecnológica global. Mas pondera que uma eventual entrada no mercado de aviões de maior capacidade exigiria investimentos bilionários e, muito provavelmente, a busca por parceiros internacionais.

Nesse contexto, o Le Monde recorda a tentativa de aquisição da divisão de aviação comercial da Embraer pela Boeing, anunciada em 2018 e cancelada em 2020. Para a publicação, caso decida um dia enfrentar diretamente Airbus e Boeing, a Embraer dificilmente poderá fazê-lo sozinha e deverá contar com apoio estratégico ou financeiro externo, possivelmente de investidores do Golfo, da Índia ou da Coreia do Sul.

Jornal francês chama Embraer de ‘pérola brasileira’ e destaca empresa como símbolo do sucesso industrial do país 

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Nessa Copa nem gol é gol sem a aprovação da tecnologia

Talvez a tecnologia consiga eliminar quase todos os erros, mas quanto dessa imprevisibilidade também faz parte da magia?

Daniela Klaiman – Fast Company Brasil – 01-07-2026

A Copa do Mundo de 2026 reúne o maior conjunto de tecnologias já utilizado em uma competição organizada pela FIFA e funciona como um laboratório para testar até onde inteligência artificial, sensores e visão computacional podem participar da condução de uma partida.

Entre as novidades estão as câmeras corporais instaladas nos árbitros, que permitem acompanhar determinados momentos da partida pela perspectiva de quem toma as decisões; os microfones capazes de transmitir ao estádio e à audiência as explicações dadas após revisões do VAR; a evolução do impedimento semiautomático que utiliza dezenas de câmeras e IA para reconstruir a posição de todos os jogadores em tempo real; e a bola inteligente equipada com um sensor inercial que envia centenas de leituras por segundo para determinar com precisão absoluta o instante exato em que cada toque acontece.

O resultado é que praticamente toda a partida passa a existir em uma versão digital paralela. Jogadores são rastreados continuamente, a bola transmite dados durante todo o jogo e algoritmos conseguem reconstruir cada lance em três dimensões poucos segundos depois de ele acontecer.

Na prática, o futebol começa a construir um verdadeiro gêmeo digital da partida, uma cópia computacional capaz de analisar cada movimento, cada contato e cada decisão com um nível de precisão que nunca existiu na história do esporte.

Essa infraestrutura apareceu de forma muito clara no lance envolvendo Vinícius Júnior no jogo contra a Escócia . O segundo gol da seleção brasileira acabou sendo anulado depois que a revisão identificou uma falta cometida na origem da jogada – um contato extremamente sutil, que passou despercebido durante o lance e só foi reconhecido após a reconstrução detalhada de toda a sequência.

O mesmo aconteceu com o gol da Colômbia sobre Portugal, impossível de ser visto pelo olho humano, mas 100% claro para a tecnologia.

praticamente toda a partida passa a existir em uma versão digital paralela.

Essas decisões provavelmente foram a mais precisas possíveis dentro das regras atuais, mas também revelam uma transformação muito maior do que um simples auxílio à arbitragem.

Durante décadas, o futebol foi um esporte vivido no instante. O grito de gol saía antes mesmo de a bola parar de balançar a rede. O juiz errava, o bandeira acertava, um clássico era decidido por um lance polêmico e aquela discussão atravessava décadas porque fazia parte da memória coletiva do esporte.

A imperfeição nunca foi apenas um defeito. Ela também ajudava a construir a identidade emocional do futebol.

Já hoje, cada lance entra em estado de espera enquanto sensores, inteligência artificial, visão computacional e dezenas de câmeras verificam se existe algum detalhe invisível capaz de alterar completamente o resultado da partida.

Talvez estejamos caminhando para o futebol mais preciso da história.Mas a pergunta é: queremos precisão absoluta no futebol?

Porque o futebol nunca foi apenas uma sequência de decisões corretas. Sempre foi um esporte de explosões emocionais, de injustiças inesquecíveis, de discussões de bar, de histórias contadas por gerações, de árbitros que erravam, de torcedores que reclamavam, de lances impossíveis de explicar – e, exatamente por isso, impossíveis de esquecer.

Leia mais: A Copa dos segundos: quem vai ver o gol primeiro?

Talvez a tecnologia consiga eliminar quase todos os erros, mas quanto dessa imprevisibilidade também fazia parte da magia?

Vamos ter que esperar para ver se o jogo mais preciso do mundo vai conseguir seguir emocionando o mundo inteiro.


SOBRE A AUTORA

Daniela Klaiman é um dos principais nomes do futurismo no Brasil e na América Latina. Ela é CEO da Future Future, consultoria especializada em ajudar líderes e organizações a se prepararem para futuros complexos. Com mestrado em Tecnologia e Futurismo pela Universidade Hebraica de Jerusalém e mais de 18 anos de experiência, também é membro do board de IA da Samsung. 

Nessa Copa nem gol é gol sem a aprovação da tecnologia | Fast Company Brasil 

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Rios voadores da Amazônia transportam mais água pelo ar do que o volume total descarregado pelo Rio Amazonas

Por Anne Silva – Revista Amazônia – 26 de junho de 2026

Os “rios voadores” da Amazônia constituem um dos fenômenos climáticos e hidrológicos mais colossais e vitais do planeta Terra, operando como uma gigantesca engrenagem de transporte de água doce invisível que dita o ritmo das chuvas, a produtividade agrícola e o equilíbrio ambiental de grande parte da América do Sul. Um fato científico surpreendente e verificável é que, enquanto o Rio Amazonas — o maior do mundo em volume de água líquido — descarrega diariamente cerca de 17 bilhões de toneladas (ou 17 bilhões de metros cúbicos) de água no Oceano Atlântico, a floresta amazônica consegue bombear para a atmosfera, no mesmo período de 24 horas, uma quantidade impressionante de aproximadamente 20 bilhões de toneladas de vapor d’água. Isso significa que o volume de água que corre invisivelmente pelos céus do continente é maior do que a vazão do próprio gigante dos rios terrestres, demonstrando que a vegetação nativa atua como uma bomba de umidade ativa sem a qual o regime climático sul-americano entraria em colapso definitivo.

O motor biológico da evapotranspiração

Para compreender como uma floresta consegue suspender uma massa de água tão superior à do leito do maior rio do mundo, é preciso analisar a fisiologia das árvores amazônicas e o conceito de evapotranspiração. A floresta funciona como um sistema de bombeamento hidráulico movido a energia solar. Composto por mais de 400 bilhões de árvores individuais dotadas de copas imensas e sistemas radiculares profundos, esse ecossistema suga a água subterrânea e a conduz até as folhas.

As árvores realizam trocas gasosas e fotossíntese através de estruturas celulares microscópicas localizadas nas superfícies das folhas chamadas estômatos. Ao se abrirem para absorver o dióxido de carbono ($CO_2$), as folhas perdem água para o ambiente na forma de vapor. Uma única árvore frondosa, com uma copa que chega a medir 20 metros de diâmetro, é capaz de transpirar sozinha mais de 1.000 litros de água por dia. Quando multiplicamos esse volume pela escala monumental da floresta contínua, o resultado é a injeção diária de bilhões de metros cúbicos de vapor na troposfera, formando massas de ar saturadas que se deslocam como verdadeiras correntes hídricas aéreas.

A hipótese da bomba biótica e a atração do oceano

A formação e a manutenção desse fluxo aéreo contínuo desafiavam a meteorologia clássica, que previa que a umidade deveria se dissipar à medida que se distanciava da costa oceânica. A explicação para a força e o direcionamento dos rios voadores reside na revolucionária hipótese científica da Bomba Biótica de Umidade, desenvolvida pelos físicos Anastassia Makarieva e Victor Gorshkov.

Segundo essa teoria, a evapotranspiração massiva da floresta reduz a pressão atmosférica na superfície ao converter água líquida em gás de forma acelerada. Como o vapor ocupa menos espaço que as moléculas de ar seco ao condensar, forma-se uma zona permanente de baixa pressão atmosférica sobre o coração da Amazônia. Essa depressão barométrica biológica funciona como um aspirador de pó meteorológico gigante de escala continental, sugando continuamente o ar úmido e carregado evaporado pelo Oceano Atlântico Tropical para o interior do continente. Esse ar oceânico, ao entrar no território brasileiro, recebe sucessivas “recargas” de umidade fornecidas pela transpiração das árvores ao longo de sua trajetória, mantendo o rio voador alimentado e em movimento veloz rumo ao interior.

O paredão dos Andes e a rota da umidade

O deslocamento dos rios voadores segue uma rota geográfica rígida e bem delimitada. Empurradas pelos ventos alísios que sopram de leste para oeste, essas imensas correntes de ar úmido viajam por milhares de quilômetros sobre a planície amazônica até encontrarem um obstáculo geológico monumental: a Cordilheira dos Andes.

Esta barreira de montanhas, com picos que ultrapassam os 6.000 metros de altitude, bloqueia fisicamente a passagem da massa de ar úmido em direção ao Oceano Pacífico. Ao colidirem contra o paredão andino, parte da umidade se condensa e precipita na forma de chuvas torrenciais que alimentam as próprias nascentes que formam o Rio Amazonas. No entanto, o restante da massa de ar, ainda densamente carregado de vapor, é forçado a fazer uma curva acentuada de quase 90° em direção ao sul, canalizando o fluxo de umidade em direção às regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, além de alcançar o Paraguai, o norte da Argentina e o Uruguai.

O equilíbrio hídrico e a segurança do agronegócio

A importância dos rios voadores vai muito além da manutenção do bioma amazônico; eles são os fiadores diretos da segurança hídrica, do abastecimento urbano de grandes metrópoles e do sucesso econômico do agronegócio brasileiro. Regiões situadas na mesma latitude do Sudeste e Sul do Brasil e do norte da Argentina — como o deserto do Atacama, no Chile, ou o deserto da Namíbia, na África — deveriam, por critérios de circulação global da atmosfera, ser zonas áridas ou desérticas.

É exclusivamente a irrigação aérea providenciada pelos rios voadores que quebra essa regra geográfica e transforma o Centro-Sul do continente em uma área altamente produtiva e rica em recursos hídricos. Estudos de modelagem climática indicam que o desmatamento progressivo e a savanização da Amazônia enfraquecem a capacidade de bombeamento biótico da floresta. Sem a densidade de árvores para recarregar as massas de ar, os rios voadores perdem força e volume, o que resulta na ocorrência de secas severas e prolongadas, quebras catastróficas de safras agrícolas e crises de desabastecimento nos reservatórios das grandes cidades do Sudeste e Centro-Oeste.

Compreender o funcionamento e a magnitude dos rios voadores da Amazônia transforma radicalmente a forma como devemos enxergar as políticas de conservação florestal. Manter a integridade da cobertura vegetal da Amazônia não é apenas uma pauta de preservação da fauna ou um compromisso estético com o meio ambiente; constitui uma medida de segurança nacional e de sobrevivência econômica e climática para o Brasil e seus países vizinhos. Proteger cada árvore da bacia amazônica significa garantir o funcionamento ininterrupto da maior infraestrutura hídrica natural do mundo, assegurando que os rios invisíveis continuem a correr pelos nossos céus e a fertilizar os solos que sustentam o futuro da América do Sul.

Para consultar dados meteorológicos em tempo real, monitoramento de massas de ar e relatórios científicos sobre as dinâmicas do clima na América do Sul, acesse o portal oficial do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Para explorar as pesquisas de ponta focadas na interação floresta-atmosfera, dinâmica de ciclo do carbono e monitoramento por satélite da umidade amazônica, visite a base de dados institucionais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Rios voadores da Amazônia transportam mais água pelo ar do que o volume total descarregado pelo Rio Amazonas – Revista Amazônia 

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‘A inteligência surge justamente no momento em que deixamos de saber o que fazer’, diz Manuel Martín-Loeches, neurocientista

Especialista reúne evidências científicas para explicar como aprendemos, tomamos decisões e desenvolvemos nossas capacidades cognitivas

Flávia Tomaello, O Globo/La Nacion – 28/06/2026 

O ato de pensar costuma ser imaginado como uma atividade limpa, quase cirúrgica, isolada do ruído das emoções. Uma espécie de laboratório interior onde as ideias se organizam sozinhas, como se o cérebro fosse uma máquina racional que funciona melhor quanto mais se aproxima de um algoritmo. No entanto, essa imagem é tão sedutora quanto incompleta. A mente humana se parece mais com um ecossistema do que com uma engrenagem, mais com uma conversa do que com uma equação.

É nesse território híbrido, onde convivem impulsos, memórias, intuições e raciocínios, que Manuel Martín-Loeches trabalha há décadas. Professor de Psicobiologia e responsável pela área de Neurociência Cognitiva do Centro Misto UCM-ISCIII de Evolução e Comportamento Humanos, ele reúne em sua trajetória mais de cem publicações científicas e diversos livros que procuram traduzir a complexidade do cérebro em perguntas cotidianas: para que serve a inteligência? Por que emoção e razão parecem inseparáveis? O que realmente define uma pessoa inteligente?

As respostas são mais importantes do que parecem. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que o desenvolvimento cognitivo nos primeiros anos de vida é fortemente influenciado pelo ambiente, com impactos que podem se estender por toda a trajetória escolar. Ao mesmo tempo, pesquisas em neurociência cognitiva indicam que as áreas do cérebro ligadas à emoção e ao raciocínio estão profundamente conectadas.

Estudos do neurologista Antonio Damasio, como os apresentados no livro O Erro de Descartes, demonstraram que a tomada de decisões é profundamente afetada quando os circuitos emocionais sofrem alterações. Na mesma linha, pesquisas publicadas na revista Nature Reviews Neuroscience apontam uma interação constante entre redes emocionais e cognitivas.

A partir daí, o debate científico avança entre mitos e evidências, passando pela discussão sobre inteligências múltiplas, o papel do ambiente, o amadurecimento cerebral e a relação entre conhecimento e bem-estar.

A inteligência mudou de definição ao longo do tempo?

Talvez nos últimos 150 anos, mas existe um consenso relativamente amplo sobre o conceito. Hoje, inteligência costuma ser definida como a capacidade de aprender, fazer julgamentos e resolver problemas de forma geral. Há outra definição de que gosto mais, atribuída ao psicólogo Carl Bereiter: inteligência é aquilo que você usa quando não sabe o que fazer. Aplicar algo já aprendido depende do conhecimento prévio. A inteligência aparece de forma mais clara em situações novas, sem precedentes, quando surgem ideias originais e soluções criativas.

O senhor discorda da teoria das inteligências múltiplas. Por quê?

O autor dessa teoria, Howard Gardner, propõe a existência de oito inteligências em muitas de suas formulações, mas esse número não possui uma base empírica clara. Trata-se mais de uma classificação conceitual do que de uma conclusão obtida pelo método científico. Os dados disponíveis mostram que diferentes habilidades cognitivas costumam estar relacionadas entre si. Pessoas que apresentam bom desempenho em uma área geralmente também se destacam em outras, ainda que existam diferenças individuais. Por isso, considero mais adequado falar em capacidades ou aptidões do que em inteligências independentes. A inteligência funciona como um fator geral que integra essas capacidades, e um único índice, como o quociente de inteligência (QI), costuma ser suficiente para descrevê-la de forma global.

Inteligência e maturidade caminham juntas?

Do ponto de vista evolutivo, cérebros que levam mais tempo para amadurecer tendem a alcançar níveis maiores de complexidade. O cérebro humano é um exemplo disso, já que pode completar seu desenvolvimento apenas entre os 21 e os 25 anos. Esse período prolongado existe porque precisamos adquirir aprendizagens complexas, especialmente no campo social e emocional. Mas um desenvolvimento mais lento não garante automaticamente melhores resultados. Existe uma janela de tempo em que determinadas habilidades precisam ser adquiridas. Se isso não acontece, a pessoa alcança a maturidade cerebral, mas com limitações que podem acompanhá-la ao longo da vida.

Como a vida digital afeta a inteligência?

Ela faz parte das experiências que moldam o cérebro. Como qualquer estímulo, seus efeitos dependem da qualidade e da diversidade das interações que proporciona. O cérebro humano evoluiu em contato direto com o ambiente físico. Experiências sensoriais, movimento e interação concreta com o mundo são elementos fundamentais para a construção do conhecimento. Uma vida excessivamente mediada por telas pode empobrecer parte dessa experiência, especialmente quando substitui o contato direto com a realidade.

Qual é a influência do ambiente na inteligência?

Enorme. Existe uma base genética, mas o desenvolvimento posterior depende fortemente das experiências vividas, sobretudo nos primeiros anos de vida. Nos três ou quatro primeiros anos, desenvolvem-se as áreas cerebrais ligadas à percepção e ao movimento. Elas funcionam como a base sobre a qual serão construídas as capacidades cognitivas mais complexas. A qualidade dos estímulos visuais, auditivos, táteis e motores, além de uma alimentação adequada, é determinante. Carências nesses aspectos podem comprometer o desenvolvimento de forma profunda e duradoura.

Se a inteligência não foi suficiente para evitar guerras e violência, o que deveríamos desenvolver?

A inteligência nos ajuda a compreender melhor a realidade, inclusive nossas próprias limitações. Esse conhecimento pode reduzir comportamentos prejudiciais, embora eliminá-los completamente seja algo mais complexo. A humanidade melhorou diversos indicadores de bem-estar ao longo do tempo, o que sugere um avanço gradual na compreensão de si mesma. Nesse contexto, habilidades ligadas ao autoconhecimento e à regulação emocional aparecem como complementos importantes para que a inteligência contribua de forma mais efetiva para o bem-estar coletivo.

Qual é a relação entre inteligência e emoções?

A relação é estreita e complexa. As áreas cerebrais envolvidas nesses dois processos estão diretamente conectadas, influenciando-se mutuamente o tempo todo. Pessoas com níveis mais elevados de inteligência costumam apresentar maior conhecimento sobre suas emoções e mais capacidade para regulá-las, embora existam exceções. Um conceito importante é o da granularidade emocional: a capacidade de identificar e nomear com precisão diferentes estados emocionais. Quanto mais amplo for esse vocabulário emocional, maior tende a ser a compreensão e o gerenciamento das próprias experiências internas. Do ponto de vista funcional, a inteligência está a serviço das emoções. O comportamento humano busca alcançar estados positivos e evitar os negativos, e a inteligência funciona como uma ferramenta para ajudar nesse processo.

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Novas fabricantes de carros elétricos continuam surgindo na China

  • Dreame, conhecida por robôs aspiradores, planeja vender veículos eletrificados em 2027
  • Das 143 marcas que venderam carros em 2025, 46 não atingiram mil unidades

Folha/The Economist – 27.jun.2026

No próximo ano, a Dreame, uma empresa chinesa mais conhecida por seus aspiradores robôs, planeja começar a vender elegantes veículos elétricos.

Ela não é a única firma expandindo de pequenos eletrodomésticos para máquinas capazes de transportar uma família inteira. A Rox Motor, que começou a vender SUVs elétricos em 2023, também foi fundada por um magnata dos aspiradores de pó. A Xiaomi, que ficou famosa produzindo smartphones baratos (e também fabrica aspiradores, entre outras coisas), começou a vender carros esportivos um ano depois.

Talvez mais surpreendente seja o fato de haver novos ingressantes no já lotado mercado chinês de veículos elétricos. Nada menos que 143 marcas venderam pelo menos um carro no ano passado. Mas 46 delas não venderam mais de mil unidades, segundo a consultoria AlixPartners. Mesmo assim, 23 novas marcas foram lançadas, enquanto apenas nove foram descontinuadas.

É verdade que muitas dessas são “submarcas”, criadas por grandes empresas para diferenciar seus veículos de alto padrão dos modelos populares. A Geely, terceira maior montadora da China em vendas, possui um portfólio de mais de dez marcas, incluindo Zeekr, Polestar e Lynk & Co.

Apenas dez empresas chinesas conseguiram vender pelo menos 1 milhão de carros cada em 2025, respondendo por 84% do total. No entanto, essa participação caiu ligeiramente em relação ao ano anterior, sugerindo que a consolidação do mercado chinês de veículos elétricos, há muito prevista por especialistas do setor, ainda não aconteceu.

Só ocasionalmente uma empresa inteira entra em colapso. A Hozon Auto, fabricante da marca Neta, está em processo de falência. Ela parou repentinamente de pagar muitos de seus funcionários no ano passado e ganhou manchetes quando funcionários revoltados encurralaram o fundador em seu escritório em Xangai exigindo seus salários.

Ainda assim, as perspectivas parecem bastante sombrias para o setor em 2026. As vendas totais de carros na China vêm caindo rapidamente. Em abril, recuaram um quinto em relação ao ano anterior, marcando o sétimo mês consecutivo de queda.

O governo central criticou as fabricantes de veículos elétricos por se envolverem em uma guerra de preços predatória desde 2023. Os preços começaram a subir em maio, sugerindo que o setor pode ter começado a ouvir o Estado. Mas a BYD, maior fabricante de elétricos do mundo, atribui isso ao aumento dos custos de componentes como chips e baterias, o que pode significar que as margens continuam sob pressão.

À medida que a demanda cai e os preços sobem internamente, as montadoras chinesas se tornarão ainda mais dependentes das vendas no exterior, que estão avançando a passos largos. Em abril, elas subiram 80% em relação ao ano anterior.

Estabelecer redes de distribuição no exterior é custoso e demorado. Mas, conforme a pressão sobre o setor continua a se intensificar, as vendas externas, que tendem a ter margens mais altas, farão toda a diferença. As fabricantes chinesas de carros elétricos estão ansiosas para abocanhar esse mercado.

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A próxima palavra que todo usuário de IA deveria conhecer é “alinhamento”

Sistemas autônomos podem cumprir todas as normas e ainda causar prejuízos se não estiverem alinhados ao julgamento humano

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Blake Brannon – Fast Company Brasil – 25-06-2026 

 Os gastos globais com inteligência artificial devem ultrapassar US$ 2,5 trilhões este ano, mas muitas empresas ainda não estão obtendo retornos significativos sobre esses investimentos.

Diante da crescente pressão para justificar esses aportes, elas apostam nos agentes de IA para mudar esse cenário. No entanto, se esses agentes realmente entregarem o valor esperado, o alinhamento com o julgamento humano não pode ser tratado como um detalhe.

Ao estruturar programas de governança de inteligência artificial, muitas empresas começam elaborando inventários de sistemas, definindo controles de segurança, políticas de acesso e mecanismos de monitoramento. Chamo essa etapa de contenção.

Pense nisso como os freios de um carro autônomo. É a programação que permite ao sistema obedecer a placas de pare, semáforos e outras regras formais de trânsito. A contenção determina aquilo que o sistema não pode fazer.

Mas os agentes de IA estão obrigando as empresas a enfrentar um desafio mais profundo: incorporar o julgamento humano a sistemas autônomos que tomam decisões na velocidade da inteligência artificial.

Como projetar uma IA capaz de operar de acordo com os valores, as políticas, a tolerância ao risco e a compreensão de contexto de uma organização, mesmo quando as circunstâncias mudam?

É aí que entra o alinhamento.

O alinhamento ajuda a definir o que o sistema deve fazer quando a resposta correta depende do contexto. Enquanto os guardrails impedem que um agente ultrapasse determinados limites, eles não ensinam como exercer julgamento quando não existe uma linha claramente traçada.

É como a capacidade de um carro autônomo de perceber que deve dar passagem a um cortejo fúnebre, mesmo que nenhuma lei determine esse comportamento.

Esse alinhamento envolve cumprir políticas internas, regras sobre uso de dados e princípios éticos, mas também significa manter os agentes focados nos resultados reais que a empresa pretende alcançar. Um agente que segue todas as regras, mas se distancia das prioridades estratégicas e da promessa da marca, continua desalinhado.

Funcionários costumam aplicar esse tipo de julgamento de forma intuitiva. Aprendemos a observar comportamentos, reconhecer diferenças culturais e regionais, questionar ideias que parecem boas no papel, mas falham na prática, e identificar quando um método compromete o resultado. Mas os agentes de IA não fazem isso naturalmente.

O RISCO DA OTIMIZAÇÃO CONTÍNUA

Costumo recorrer a um exemplo para ilustrar por que o alinhamento é indispensável. Imagine um serviço de assinatura de refeições que utiliza um agente de IA para otimizar campanhas de marketing.

Com um orçamento definido e metas claras, o agente acessa bases de dados, analisa registros de atendimento, identifica segmentos de clientes e cria promoções. Ao final da campanha, todas as metas de vendas e lucratividade foram atingidas. Mas, nos bastidores, aconteceu algo diferente.

Construir inteligência artificial pensando apenas em velocidade é uma visão de curto prazo.

O agente passou a direcionar publicidade agressiva e oferecer preços mais altos disfarçados de “descontos por tempo limitado” justamente para clientes que haviam mencionado dificuldades financeiras ou problemas de saúde em conversas anteriores com o suporte.

Quando essa prática vem a público, as consequências são devastadoras.

A exploração comercial dos clientes mais vulneráveis viola a política de uso ético da empresa e contradiz diretamente sua missão e seus valores. Em resposta, consumidores cancelam assinaturas em massa, órgãos reguladores iniciam investigações e toda a receita obtida na campanha acaba sendo perdida.

Esse exemplo mostra como um agente pode provocar enormes problemas sem jamais apresentar uma falha técnica. Explorar clientes vulneráveis nunca fez parte da instrução inicial. Foi apenas o padrão que o sistema identificou como mais eficiente para atingir seus objetivos.

Discriminação, violações de privacidade e descumprimento de políticas podem surgir independentemente da intenção da empresa.

Isso acontece porque agentes de IA são sistemas treinados para maximizar eficiência. A otimização contínua faz parte de sua natureza. E justamente por isso eles precisam de alinhamento.

Ao lado dos controles de segurança e das restrições de acesso, políticas de governança garantem que os agentes só otimizem resultados dentro dos limites definidos pelo negócio.

ESTAMOS EM UM PONTO DE INFLEXÃO

O Gartner prevê que grandes empresas terão mais de 150 mil agentes de IA em operação até 2028, frente às poucas dezenas existentes hoje em cada organização.

Esse número tende a crescer rapidamente, impulsionado por tendências como o tokenmaxxing e pelos incentivos corporativos para ampliar o uso da IA. O grande desafio passa a ser incorporar julgamento humano a milhares de agentes de forma escalável.

Os processos tradicionais de revisão manual foram concebidos para sistemas mais lentos e estáticos, em que havia tempo para identificar, analisar e corrigir problemas antes da entrada em produção.

Nenhuma estratégia baseada apenas em contratar mais pessoas vai conseguir acompanhar centenas – e, futuramente, milhares – de agentes operando na velocidade da IA.

A boa notícia é que hoje existem menos agentes de IA do que existirão no futuro. Por isso, este é o momento ideal para construir mecanismos automatizados de governança, catalogar todos os agentes, estabelecer políticas básicas e aplicá-las em conjunto com controles de segurança e guardrails.

É muito mais fácil escalar um programa de governança à medida que a força de trabalho baseada em agentes cresce do que tentar adaptá-lo depois.

Construir inteligência artificial pensando apenas em velocidade é uma visão de curto prazo. O verdadeiro objetivo deve ser desenvolver uma IA que seja rápida – mas, acima de tudo, que avance na direção certa.


SOBRE O AUTOR

Blake Brannon é diretor de inovação da plataforma de governança de IA OneTrust. 

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O Brasil no jogo global: ter commodities é poder, mas o País ainda não percebeu isso

Na nova geopolítica das commodities, a diplomacia é um ativo estratégico do Brasil

Marcos Jank – Estadão – 26/06/2026

O mundo atravessa três grandes transformações geopolíticas, e o Brasil tem a oportunidade de se posicionar como provedor líquido de segurança econômica global no suprimento agrícola, mineral e energético.

A primeira transformação é o novo equilíbrio de poder global: a transição do mundo unipolar, centrado nos EUA desde o fim da Guerra Fria, para o mundo bipolar da competição EUAChina.

Na última década, a distância de poder entre os dois países diminuiu e o hiato entre eles e o resto do mundo cresceu nas dimensões econômica, tecnológica e militar. Hoje, EUA e China são as únicas potências capazes de moldar o sistema internacional, redesenhando o mapa geoestratégico mundial.

O desafio estratégico chinês já dura mais de uma década e cria múltiplas zonas de atrito: a influência econômica global da China, inclusive no Hemisfério Ocidental; a visão de uma Eurásia integrada pela Nova Rota da Seda; a supremacia nos mares da China Meridional e Setentrional, artérias vitais do comércio; e a “parceria sem limites” com a Rússia, firmada em 2022, com implicações para a Europa, o Oriente Médio, a Ásia e o Ártico.

A segunda transformação é o fim da ordem liberal internacional, universalizada no “momento unipolar” do pós-Guerra Fria, e o início de um reordenamento bipolar impulsionado pelas duas grandes potências.

Uma ordem mundial estável requer objetivos compartilhados e equilíbrio entre grandes potências — condições que hoje faltam. A rede multilateral de instituições e regras perdeu seu lastro geopolítico. No seu lugar surgem ordenamentos parciais, novas coalizões e esferas comerciais e tecnológicas fragmentadas, criando os contornos de uma ordem mundial desarticulada.

A terceira transformação é a passagem da globalização econômica liberal para a bi-globalização geoeconômica — calcada na competição geopolítica e na segurança econômica. O comércio, os investimentos e as cadeias de suprimento passam a refletir as linhas divisórias da rivalidade entre grandes potências.

A integração global dos mercados cede espaço a imperativos de segurança. O uso de restrições a exportações de minerais críticos em disputas comerciais e a vulnerabilidade de “chokepoints” como o Estreito de Ormuz demonstram que o controle dos fluxos globais de commodities é agora parte central do jogo internacional.

Nesse cenário, ter commodities é poder. Do acesso ao alimento à transição energética, passando pelo suprimento de componentes vitais para as indústrias de alta tecnologia e de defesa, as commodities ganham caráter estratégico renovado. E sua produção está concentrada em poucos lugares do mundo, tornando o comércio internacional uma necessidade em um mundo onde os países hoje buscam suprimento estável e confiável.

O Brasil está em posição privilegiada para se tornar um provedor global de segurança alimentar, mineral e energética. As commodities respondem por 75% da pauta exportadora brasileira — US$ 263 bilhões de um total de US$ 350 bilhões em 2025.

Temos commodities bem consolidadas no mercado mundial: soja (60% das exportações mundiais), milho (20%), carne bovina (25%), carne de frango (30%), açúcar (50%), café (31%), suco de laranja (68%), algodão (33%), celulose (25%), petróleo (5%), minério de ferro (20%) e nióbio (80%).

Avançamos muito em biocombustíveis, mas esse mercado internacional ainda é incipiente no mundo. Temos, porém, vulnerabilidades relevantes em fertilizantes, derivados de petróleo, minerais críticos (incluindo terras raras) e infraestrutura. Mas em todos esses segmentos o Brasil conta com imensas reservas inexploradas e enorme potencial de crescimento.

Na nova geopolítica das commodities, a diplomacia é um ativo estratégico do Brasil. Em meio a tantas transformações, criar as condições políticas internacionais — por meio de alianças, acordos, parcerias e relacionamentos estratégicos — é essencial para inserir o Brasil como ator decisivo no jogo que se desenha para a segurança econômica global.

Marcos Jank, professor de agronegócio global do Insper.

Em coautoria com Braz Baracuhy, diplomata e especialista em geopolítica. Vai lançar o livro Geopolítica Global: o Mapa Estratégico do Mundo Contemporâneo em 13/08 no Insper. Escreve aqui em caráter pessoal.

Opinião por Marcos Jank

Professor sênior e coordenador do centro Insper Agro Global, conselheiro de empresas, palestrante e analista de agronegócio e bioenergia.

O Brasil no jogo global: ter commodities é poder, mas o País ainda não percebeu isso – Estadão 

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Tecnologia para impedimento avança na Copa e torna decisões mais rápidas

A Copa do Mundo de 2026 estreia uma nova geração do impedimento semiautomático, com inteligência artificial, sensores e câmeras capazes de analisar lances em tempo real. O sistema reduz o tempo de checagem para uma média de 25 a 70 segundos

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Por Debora Leite – Valor – 25/06/2026

O impedimento semiautomático utilizado na Copa do Mundo da Fifa de 2026 representa um avanço em relação às tecnologias de mundiais anteriores. Com o apoio de inteligência artificial, sensores e câmeras de alta frequência, o sistema permite analisar os lances com mais rapidez e precisão. A ferramenta consegue confirmar a posição dos jogadores e emitir alertas em questão de segundos, com tempo médio de checagem entre 25 e 70 segundos, segundo informações divulgadas pela Fifa. A nova versão também passou a utilizar avatares digitais dos atletas, criados a partir de modelos de IA.

Segundo a Fifa, o recurso, utilizado oficialmente pela primeira vez em uma Copa do Mundo, combina dados coletados por sensores instalados na bola e nas 16 câmeras espalhadas nos estádios para acompanhar os movimentos dos atletas em tempo real.

O sistema foi utilizado em fase de testes na Copa do Mundo de 2022, no Catar, e posteriormente passou a ser adotado em competições internacionais, como a Champions e a Premier League.

A principal evolução para esta Copa está na criação dos “avatares digitais”. Antes da competição, os jogadores das 48 seleções passaram por um processo de escaneamento corporal, que permitiu criar representações em 3D capazes de reproduzir características físicas individuais, como postura e dimensões do corpo.

Para Renan Borges, diretor de tecnologia da Agência End to End, empresa de gestão esportiva, a principal mudança está na “transição dos modelos esqueléticos genéricos” utilizados anteriormente. Segundo ele, o sistema atual utiliza escaneamentos prévios em 4K de todos os atletas, gerando “avatares em 3D fiéis que reproduzem a postura e as dimensões exatas do corpo de cada atleta em tempo real”.

A análise das câmeras monitora pontos anatômicos específicos do jogador dez vezes por segundo.

Além da identificação automática da posição irregular, a Fifa confirmou a nova funcionalidade para A Copa. Nas partidas, os árbitros assistentes recebem um alerta de áudio em tempo real quando um jogador estiver mais de 10 centímetros à frente da linha de impedimento. O aviso tem como objetivo acelerar a tomada de decisão e reduzir o tempo de análise pelo VAR, o árbitro assistente de vídeo.

Apesar do avanço tecnológico, o sistema continua sendo considerado semiautomático porque algumas decisões ainda dependem da interpretação humana. A ferramenta identifica a posição do jogador no momento do lançamento da bola, mas a avaliação sobre uma possível interferência na jogada continua sendo responsabilidade da equipe de arbitragem.

Sálvio Spínola, ex-árbitro de futebol credenciado pela Fifa, diz que o impedimento semiautomático é “automático no requisito número 1 da regra 11 do impedimento”, que trata da posição do jogador atacante: “Isso é totalmente automático. Onde ele é semi é em lances interpretativos, para saber se o jogador em posição de impedimento interferiu ou não na jogada”, explica.

Segundo o Livro de Regras da Fifa (Laws of the Game), o árbitro continua sendo a autoridade responsável pela decisão final. O documento estabelece que a equipe de arbitragem deve sempre tomar uma decisão inicial como se não houvesse VAR e que a tecnologia funciona como ferramenta de auxílio, não como substituta do julgamento humano.

O sistema também estabelece orientações sobre o uso do sinal sonoro eletrônico pelos árbitros assistentes, previsto nas regras do futebol. O recurso pode ser utilizado para chamar a atenção do árbitro em situações como impedimentos, infrações fora do campo de visão ou decisões difíceis envolvendo lances de jogo.

Para Spínola, a tecnologia representa uma mudança importante na arbitragem, mas não elimina a preparação dos profissionais. O recurso “veio para ajudar, não para substituir o árbitro de campo”, afirma.

A avaliação é compartilhada pela Comissão de Arbitragem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que considera a tecnologia uma ferramenta de apoio à tomada de decisão, sem substituir a autoridade do árbitro. Segundo a entidade, recursos como VAR, impedimento semiautomático e sistemas de comunicação avançada mudam a preparação dos profissionais, que passam a precisar de treinamentos específicos sobre protocolos tecnológicos, simulações operacionais e integração entre árbitros de campo e equipes de vídeo.

Raimundo Góes Netto, diretor de arbitragem da CBF, disse que o impacto da tecnologia será medido por indicadores como redução de erros, precisão das decisões e tempo de revisão. “O sucesso da tecnologia não se mede apenas pela quantidade de intervenções, mas pela capacidade de aumentar a justiça esportiva e fortalecer a credibilidade da arbitragem”, afirma.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/06/25/tecnologia-para-impedimento-avanca-na-copa-e-torna-decisoes-mais-rapidas.ghtml 

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IA está esvaziando a velha lógica da gestão

Talvez o maior legado não seja a criação de máquinas mais inteligentes, mas a criação de um ambiente em que indivíduos excepcionais possam gerar impacto antes reservado apenas às maiores organizações

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Wellington Vitorino – Valor – 24/06/2026 

Durante décadas, o mundo corporativo associou sucesso profissional à capacidade de liderar equipes cada vez maiores. O símbolo máximo de prestígio era subir a escada da gestão, acumulando subordinados, orçamento e poder de decisão. A inteligência artificial começa a inverter essa lógica de maneira profunda.

Nos últimos anos, ganhou força no Vale do Silício a discussão sobre os chamados “Individual Contributors” (ICs) e, mais recentemente, os “Super ICs”. Embora os termos tenham se popularizado recentemente, o fenômeno que descrevem está longe de ser novo.

Um “Individual Contributor” é um profissional que gera valor principalmente por sua capacidade técnica, intelectual ou criativa, sem depender da gestão direta de grandes equipes. Já um Super IC representa uma categoria rara de profissionais cujo impacto pode rivalizar com o de departamentos inteiros ou até de organizações completas.

A história oferece exemplos emblemáticos. Linus Torvalds, criador do Linux, transformou a infraestrutura digital do planeta sem jamais se tornar conhecido por liderar milhares de funcionários. O sistema operacional nascido de seu trabalho individual sustenta hoje boa parte da internet, da computação em nuvem e dos smartphones do mundo.

Outro exemplo é Jeff Dean, “distinguished engineer” do Google. Embora desconhecido do grande público, sua influência sobre a arquitetura tecnológica da empresa ajudou a moldar sistemas utilizados diariamente por bilhões de pessoas. Seu impacto não deriva do número de subordinados, mas da profundidade do conhecimento e da capacidade de resolver problemas que poucos conseguiam resolver.

Mais recentemente, Andrej Karpathy tornou-se uma das vozes mais influentes da inteligência artificial. Ex-pesquisador fundador da OpenAI e ex-diretor de IA da Tesla, Karpathy ajudou a popularizar conceitos que hoje estão no centro da revolução dos grandes modelos de linguagem. Sua influência global decorre da produção intelectual e da capacidade de ensinar, e não da ocupação de estruturas hierárquicas tradicionais.

O que muda agora é a escala. A inteligência artificial está ampliando a capacidade desses profissionais de forma sem precedentes. Um indivíduo equipado com ferramentas avançadas de IA consegue realizar análises, produzir conteúdo, desenvolver software, conduzir pesquisas e automatizar processos em velocidades que, até poucos anos atrás, exigiriam equipes inteiras.

Essa transformação já está sendo monitorada pelas principais universidades do mundo. O relatório AI Index 2026, da Stanford HAI, mostra que a adoção da IA continua acelerando e que especialistas enxergam impactos positivos crescentes sobre produtividade e trabalho. Ao mesmo tempo, cresce a demanda por competências ligadas ao uso estratégico dessas tecnologias.

Em Harvard, o professor Boris Groysberg tem chamado atenção para o conceito de “talent density”. A tese é clara. Na era da inteligência artificial, o diferencial competitivo não está apenas em contratar mais pessoas, mas em concentrar talentos excepcionais em posições nas quais a tecnologia amplifique seu potencial.

No MIT, pesquisadores como Thomas Davenport vêm defendendo que a grande transformação não será a substituição de humanos por máquinas, mas a construção de modelos de trabalho baseados na complementaridade entre inteligência humana e artificial. O profissional do futuro tende a atuar menos como executor e mais como arquiteto de decisões, conhecimento e sistemas.

Essa mudança ajuda a explicar por que tantas empresas de tecnologia vêm reduzindo camadas hierárquicas e aumentando a proporção entre especialistas e gestores. No Brasil, fintechs e startups de software já sentem esse movimento. A pergunta deixou de ser quantas pessoas você lidera e passou a ser qual problema você resolve, e com qual escala.

O debate, portanto, não é sobre o desaparecimento da gestão. Organizações continuarão precisando de líderes capazes de coordenar pessoas, cultura e estratégia. O que muda é a fonte de valor. Durante grande parte do século XX, o poder econômico esteve associado à escala industrial. Nas últimas décadas, migrou para a tecnologia. Agora, começa a migrar para a combinação entre conhecimento especializado, redes de influência e inteligência artificial.

Talvez o maior legado da era da IA não seja a criação de máquinas mais inteligentes. Talvez seja a criação de um ambiente no qual indivíduos excepcionais consigam gerar impactos antes reservados apenas às maiores organizações do mundo.

Nesse cenário, os Super ICs deixam de ser uma curiosidade do Vale do Silício para se tornar um dos principais arquétipos profissionais do século XXI. Com uma ressalva importante: nem toda organização está preparada para identificar, desenvolver e reter esse perfil. As que não aprenderem correm o risco de perder seus melhores talentos.

Wellington Vitorino é diretor-executivo do Instituto Four

E-mail: wvitorino@institutofour.org

https://valor.globo.com/empresas/coluna/ia-esta-esvaziando-a-velha-logica-da-gestao.ghtml 

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