Claude, chatbot da Anthropic, sai do nicho corporativo, amplia base de usuários e ganha até apelido no Brasil. Embora desafie a liderança do assistente de inteligência artificial da OpenAI, a diferença entre os dois está ficando menor
Por Bruno Romani e Beatriz Paulino* – O Globo – 12/07/2026.

O ChatGPT, da OpenAI, tem sido sinônimo de inteligência artificial (IA) desde o fim de 2022, quando foi apresentado ao mundo. O Gemini, do Google, está em serviços acessados por bilhões de usuários. Meta, Microsoft, Amazon, xAI e até Apple tentam conquistar espaço com suas ferramentas de IA. Mas, com respostas espertas e boa capacidade de automação, o chatbot que tem conquistado corações e mentes é o Claude, da Anthropic. O principal rival do ChatGPT furou as bolhas corporativas e agora ganha terreno entre usuários comuns, de diferentes perfis, como estudantes, jovens profissionais e entusiastas de tecnologia.
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Entre executivos e programadores, o Claude já vinha agradando desde o fim do ano passado, especialmente pelo desempenho de suas versões especializadas, o Code e o Cowork — essa última passou a funcionar na web nesta semana. Isso catapultou a receita e o valor de mercado da Anthropic, que superou a OpenAI nesses dois quesitos neste ano. A startup americana liderada por Dario Amodei atingiu US$ 47 bilhões contra US$ 30 bilhões da rival. Na segunda métrica, a Anthropic está avaliada em US$ 965 bilhões contra US$ 852 bilhões da OpenAI, também americana, que tem Sam Altman à frente.
A estratégia de crescimento no mundo corporativo catapultou a Anthropic para a liderança da corrida tecnológica da IA. Com a popularidade em alta nas empresas, a fama do Claude começou a se espalhar para usos fora do escritório. Foi assim também no Brasil. E já que a pronúncia afrancesada não é a das mais preferidas por aqui, ele já ganhou apelidos como “Cláudio”, “Claudinho” e “Cráudio”, repetindo o que transformou o WhatsApp em “zap”, um verdadeiro atestado de popularidade no país.
O engenheiro de software, Fabio Lima, de 40 anos, conta como usa o seu “Claudião” para agilizar sua rotina diária:
— O uso vai além do profissional. Também uso para estudar novas tecnologias, entender assuntos complexos de forma mais rápida, resumir conteúdos, avaliar ideias e até organizar melhor pensamentos e decisões do dia a dia. Antes, para entender um assunto novo, eu precisava abrir vários sites, ler artigos longos, comparar informações e organizar tudo manualmente. Hoje, o Claude me ajuda a criar uma visão mais rápida para então eu me aprofundar nos pontos que realmente importam.
Contexto e execução
Ao contrário do ChatGPT, que se popularizou a partir do usuário comum, o Claude começou a ganhar mais corpo entre profissionais que já faziam uso intensivo de tecnologia e transbordou posteriormente. Usuário do Claude desde 2024, o estudante de design digital Gustavo Souza, de 20 anos, conta que o chatbot ganhou a sua preferência somente nos últimos meses:
— O Claude passa de uma ferramenta e começa a se tornar uma espécie de copiloto quando a gente começa a dividir o nosso dia a dia com ele. Sempre utilizei muito para aprendizado, para sintetizar e fazer trabalho operacional, que muitas vezes eu demorava muito para fazer. Sinto que ajuda muito em produtividade, porque, às vezes, a maior dificuldade é o primeiro passo em algumas tarefas.
Em maio, o brasileiro Mike Krieger, atual diretor de Produtos da Anthropic (e cofundador do Instagram), afirmou que a companhia ganha diariamente 1 milhão de novos inscritos como Lima. É uma métrica rara por parte da empresa, que, assim como a OpenAI, não costuma compartilhar seus números. A empresa de análise de dados Apptopia estima que o Claude atingiu em maio, nos EUA, 17% do mercado de chatbots comerciais em app para celular. No fim de 2025, não chegava a 2%.
“O crescimento do Claude vem acompanhado de engajamento real, não só de um pico em métricas, e esse engajamento supera o do ChatGPT. Os usuários mais assíduos do Claude passam mais de duas horas por dia na plataforma, um comportamento que é difícil para outro concorrente copiar ou reconquistar”, escreveu Tom Grant, vice-presidente de pesquisa da Apptopia.
Já a Similarweb, que analisa tráfego na internet, aponta que, em maio, a versão web do Claude teve 952 milhões de acessos, quase dez vezes a marca do mesmo mês no ano passado (99,7 milhões). A empresa de dados também afirma que o ChatGPT perdeu espaço, apesar de ainda liderar o setor. Em maio de 2025, a ferramenta da OpenAI tinha 76,4% de todo o tráfego de chatbots de IA e caiu para 52,7% neste ano. O Claude foi de 1,6% para 9%, e outros chatbots, como o Gemini, também avançaram.
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Com a alta procura, usuários do Claude têm convivido, desde março, com mais engasgos na plataforma, diz Lima, o que joga contra a popularidade:
— Já vi instabilidade, inclusive recentemente. Quando você se acostuma com a velocidade e o volume de entrega que uma ferramenta como o Claude proporciona, qualquer instabilidade acaba tendo um impacto grande. É como se você estivesse acostumado a trabalhar em uma velocidade e, de repente, precisasse reduzir muito o ritmo.
O problema está na falta de capacidade computacional disponível para tantas requisições. Amodei já revelou que havia se programado para um crescimento de dez vezes para 2026, mas a demanda foi muito além disso. O fundador e CEO estimou um crescimento de 80 vezes na base de usuários neste ano, o que classificou como “uma loucura” e “muito difícil de lidar”.
Diferencial na memória
Para aliviar, a companhia fechou ao menos três megacontratos neste ano com outras big techs para uso de data centers: um com a SpaceX, de Elon Musk, para usar a capacidade total do data center Colossus 1, com 300 megawatts e mais de 220 mil GPUs; outro com a Amazon, que prevê até 5 gigawatts de capacidade; e um terceiro com a TeraWulf para até 400 megawatts.
Em termos de preços e recursos, os dois rivais não são muito diferentes, e devem ficar ainda mais parecidos após a OpenAI lançar, na semana passada, o ChatGPT Work, além da nova família de modelos GPT-5.6. Os planos vão de gratuitos a R$ 500. Mas, Anderson Soares, vice-presidente da AI Brasil, explica como a Anthropic conseguiu extrair valor de grandes janelas de contexto, nome técnico dado ao volume de texto que o modelo consegue entender antes de “perder a memória”:
— O Claude foi um dos primeiros a implementar uma janela de 1 milhão de tokens (como são chamados os pedacinhos de palavras processados e gerados pela máquina; estima-se que a Bíblia tenha 1 milhão). Na prática, ele vai se lembrar do usuário com mais frequência e isso melhora a qualidade das interações, sem que seja necessário repetir coisas.
Apesar de grandes janelas de contexto serem comuns em rivais como Gemini e ChatGPT, os fãs do Claude afirmam que as respostas têm mais “personalidade” e podem ter maior profundidade quando acionados modelos mais sofisticados dos planos pagos da Anthropic. A capacidade de customização também surge como fator que impulsiona o chatbot.
— Eu destacaria as skills, as habilidades específicas para áreas de interesse que o usuário pode criar no Claude. Existem skills que representam bem a “voz” e o estilo de uma marca ou pessoa. Além disso, tem o Cowork, que traz uma visão de IA agêntica para o usuário final — observa Diogo Cortiz, cientista cognitivo e professor da PUC-SP.
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Outra característica apontada por especialistas é que a Anthropic conseguiu desenvolver melhor a infraestrutura de software, as ferramentas, a memória e as regras que cercam os seus modelos para um melhor aproveitamento — o nome dado a esse conceito é harness. Ele permite ao chatbot ir além de respostas, gerenciando a execução do projetos, dividindo-se em subtarefas e até testando seus resultados. Foi o que conquistou o estudante de ciência de dados, Lucas Chini, de 20 anos:
— Não consigo imaginar minha rotina sem o Claude. Uso para pesquisar, revisar arquitetura de software e fazer algumas provas de conceito. O uso frequente mudou um pouco o meu fluxo de pensamento e decisões. Não acho que tenha como usar IA com frequência sem ser afetado.
Reação na OpenAI
Para defender sua liderança, a OpenAI se reorganizou internamente e priorizou esforços no Codex, sua ferramenta voltada para programadores, que foi integrada ao ChatGPT, na tentativa de firmá-lo como um superapp de IA, além de trabalhar para evoluir o harness. Parece colher resultados: em junho, o ChatGPT alcançou 5 milhões de usuários ativos por semana. No nicho dos programadores, muitas conversas já concluem que não há mais diferenças entre ele e o Claude.
Burburinho e controvérsias estimulam curiosidade
O burburinho atual em torno da Anthropic também contribui para a popularidade do Claude. A empresa está constantemente envolvida em controvérsias, como a recusa em dar ao Departamento de Defesa dos EUA acesso total a seus modelos para fins militares, o que levou Donald Trump a banir a empresa do governo americano.
A disputa foi parar na Justiça e, atualmente, a Anthropic tem uma decisão de um tribunal da Califórnia que suspende o bloqueio enquanto a Casa Branca recorre em uma corte de Washington. Sem falar nas provocações públicas entre Dario Amodei, da Anthropic, e Sam Altman, do ChatGPT.
— Além dos aspectos de funcionalidades, a Anthropic está passando por um momento “hypado”, especialmente após o embate com a Casa Branca — observa Diogo Cortiz, professor da PUC-SP. — Muita gente que ficava mais no ambiente do ChatGPT ficou curiosa e estourou a bolha. Do ponto de vista da comunicação, a disputa foi importante.
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No início do ano, o app do Claude chegou ao primeiro lugar da App Store, loja de aplicativos da Apple, após a Casa Branca barrar a Anthropic do governo americano. Na mesma época, foi divulgado que o Claude virou ferramenta da Operação Fúria Épica, contra o Irã. Posteriormente, apelando para a imagem de empresa responsável de IA, a Anthropic esteve ao lado do Papa Leão XIV na apresentação de sua primeira encíclica, crítica do impacto da IA na sociedade.
Recentemente, a big tech decidiu restringir seus supermodelos de IA, como o Mythos (hoje chamado de Fable), por questões de cibersegurança, o que levou o governo Trump a exigir avaliação de riscos de novas IAs e a suspender o acesso a esses modelos por outros países. A OpenAI também foi afetada e teve o lançamento do GPT-5.6 atrasado. Após queixas, as duas puderam lançar neste mês suas novas IAs.
*Estagiária sob supervisão de Bruno Romani
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