Eles começaram como lanchas modificadas. Agora, os drones marítimos ucranianos funcionam como porta-aviões em miniatura, e outros países querem participar
Por Maria Varenikova – Estadão/The New York Times – 04/10/2026
Os drones navais ucranianos percorrem o Mar Negro equipados com mísseis terra-ar, prontos para abater aeronaves de guerra inimigas. Eles transportam drones de ataque aéreo para mais perto dos alvos. E, neste mês, um drone ucraniano foi filmado em uma batalha aquática entre drones contra um equivalente russo.
Quando a Rússia iniciou sua guerra em grande escala contra a Ucrânia, Moscou dominava as vias navegáveis. Kiev ampliou suas operações com drones, acabando por afundar cerca de um terço da tão alardeada frota russa do Mar Negro com o que equivalia a lanchas explosivas controladas remotamente.
Agora, a Ucrânia está dando um passo adiante ao estabelecer camadas offshore de defesa e ataque com drones, transformando a guerra naval nesse processo.
Novas tecnologias chegam ao mar a cada mês. Em um caso, um barco-drone depositou um veículo terrestre de quatro rodas, controlado remotamente e equipado com uma metralhadora, em uma península ocupada pela Rússia, no que a Ucrânia chamou de o primeiro ataque anfíbio totalmente robótico da história.
Embarcações navais operadas remotamente não são exclusividade da Ucrânia. Os rebeldes houthis do Iêmen utilizaram um barco-drone em um ataque a uma fragata saudita há quase uma década. No meio desde ano, os Estados Unidos utilizaram Corsairs não tripulados para resgatar a tripulação de um helicóptero abatido e para atacar uma instalação naval. Mas o sucesso da Ucrânia no combate a uma Marinha russa muito maior está sendo estudado por planejadores militares de Taipé a Tallinn.
“Países em todo o mundo estão olhando para a Ucrânia como um exemplo de como utilizá-los em suas próprias marinhas”, disse Emma Salisbury, pesquisadora sênior do Programa de Segurança Nacional do Instituto de Pesquisa em Política Externa.
Embarcações controladas remotamente não substituem uma marinha tradicional, afirmou Sam J. Tangredi, professor da Escola Superior de Guerra Naval dos EUA. “Os drones são ferramentas no conjunto de ferramentas”, disse ele. “São sistemas úteis. Serão utilizados em guerras. Mas não alteram o equilíbrio de forças.”
Ainda assim, o fato de a frota de drones da Ucrânia ser barata e composta por equipamentos prontos para uso significa que as barreiras à entrada são baixas para potenciais fornecedores do setor de defesa. Vinte e sete empresas ucranianas estão experimentando novas plataformas e tecnologias navais, testando diferentes modelos e capacidades, o que impulsiona a inovação, segundo Dennis Kanin, diretor da Associação Naval Não Tripulada da Ucrânia, um grupo setorial.
“Pelo custo de manutenção de um único navio de guerra, com drones aquáticos seria possível garantir a segurança de um país pequeno”, disse Kanin.
Interesse do exterior
A tecnologia de drones marítimos da Ucrânia chamou a atenção do mundo. A UFORCE, empresa fundada na Ucrânia, fechou recentemente um acordo para uma joint venture com o objetivo de iniciar a produção nos Estados Unidos. A empresa fabrica os drones marítimos Magura, os primeiros drones kamikaze utilizados pela Ucrânia.
A maior empresa de defesa da Noruega, a Kongsberg, abriu um escritório na Ucrânia e começou a colaborar com a fabricante ucraniana dos drones marítimos Sargan. Outros países nórdicos, os países bálticos e o Japão também propuseram colaboração, afirmam empresários ucranianos.
“Todos esses anos, desde que os drones marítimos começaram a afundar a frota russa, os países vêm nos procurando com o objetivo de adquirir essas embarcações para si mesmos ou estabelecer produção nacional, incluindo países do Golfo Pérsico”, disse Kyrylo Budanov, chefe de gabinete do presidente da Ucrânia.
Em março, o presidente Volodymyr Zelensky afirmou que a Ucrânia estava negociando com os países do Golfo a entrega de seus drones navais, juntamente com sistemas de defesa aérea, embora não esteja claro em que pé estão esses acordos atualmente.
Ao contrário de Kiev, que fica a mais de 160 quilômetros da fronteira russa, protegida por várias camadas de defesa aérea, áreas costeiras como Odessa — ou mesmo Abu Dhabi ou Dubai — têm pouco tempo de aviso antes de um ataque com um Shahed, um drone explosivo de projeto iraniano. Implantar defesas aéreas no mar proporciona mais tempo para detectar e abater drones que se aproximam.
“Para os países do Golfo, isso pode ser extremamente relevante”, afirmou Oleksiy Honcharuk, ex-primeiro-ministro ucraniano e presidente do conselho da UFORCE. “O tempo de voo dos Shaheds até seus alvos é curto, enquanto eles possuem muitas cidades litorâneas e terminais de petróleo localizados na costa.”
Para empresas do setor de defesa e planejadores militares, a tecnologia ucraniana oferece vantagens. Os sistemas ucranianos foram testados em combate, tendo operado sob fogo russo em ambientes sem sinal de GPS. Além disso, as Forças Armadas da Ucrânia e as startups de defesa que as abastecem têm se concentrado em drones baratos e fáceis de construir, plataformas que podem ser ampliadas rapidamente.
“Em vez de pensar em um B-52 voando por 75 anos, você pensa em algo que, se não for usado em conflitos do primeiro ao quinto ano, talvez possa ser desmontado para sucata e utilizado em uma nova missão”, disse Cynthia R. Cook, pesquisadora sênior do Centro para a Base Industrial do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. “Os programas menores permitem uma renovação mais rápida.”
Tecnologia testada em combate
Essa nova forma de poder naval começou, como tantas invenções, com uma série de fracassos.
Os primeiros drones Magura foram baseados em uma lancha civil produzida em Odessa. Os ucranianos começaram a testar os drones marítimos no início de 2023, e os drones se tornaram mais sofisticados com o tempo.
“Nós perdíamos o drone, depois íamos atrás dele, o rebocávamos de volta, mexíamos nele, consertávamos alguma coisa, e isso se repetia várias vezes”, disse um comandante com o codinome “Treze”, enquanto seus pilotos testavam drones marítimos em um local secreto. Ele comanda uma unidade de drones marítimos administrada pela agência de espionagem militar da Ucrânia, conhecida como HUR.
Em um dia escaldante deste verão, em um campo de treinamento diferente, outro comandante de unidade da agência, conhecido como “Nono”, sentou-se em um balanço infantil à beira de um lago na região central da Ucrânia. Enquanto o balanço oscilava suavemente, ele observava a versão mais recente de sua tecnologia sulcar as águas calmas do interior.
Tanto Treze quanto Nono pediram para serem identificados apenas por seus codinomes, de acordo com as regras de sua agência.
O lago próximo a onde Nono estava sentado era um local de testes para barcos-drones que lançam drones aéreos — essencialmente porta-aviões em miniatura —, utilizados pela primeira vez no ano passado.
Na época, os planejadores militares ucranianos estavam preparando um ataque aos portos marítimos russos de Tuapse e Novorossiysk, disse Nono. Os russos haviam instalado antenas de radar em plataformas de petróleo offshore que estavam ajudando a identificar os barcos-drones que se aproximavam. Os ucranianos precisavam destruir essas antenas na fase inicial de um ataque.
Nono percebeu que drones aéreos interceptadores poderiam ajudar. Ele poderia acomodar muitos deles no convés de um drone marítimo Katran de três toneladas e meia e usá-los para bombardear alvos costeiros a partir do mar — ou, nesse caso, para atingir uma plataforma de petróleo.
Ao anoitecer, Nono ordenou o lançamento de seus drones porta-aviões, disse ele. Eles decolaram dos conveses e voaram em direção aos alvos, guiados por operadores. Os interceptadores reaproveitados destruíram as antenas e mataram os soldados russos que as operavam. Com os radares neutralizados, outros drones marítimos passaram despercebidos e atacaram os portos russos.
Outro novo uso para as embarcações surgiu em abril deste ano, quando a 412ª Brigada de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia abateu dois Shaheds russos usando drones interceptadores lançados de uma plataforma aquática.
Os sistemas precisam se adaptar continuamente a novas ameaças, utilizando robôs aéreos, marítimos e terrestres em diferentes combinações. A próxima fase para a tecnologia ucraniana, segundo o Nono, será equipar os drones marítimos com armas pesadas de longo alcance.
Os comandantes ucranianos veem a chave para a guerra com drones não em nenhum dispositivo específico, mas nas equipes que se adaptam rapidamente.
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“A tecnologia não é o que mais importa”, disse o tenente-coronel Yuriy Kochevenko, que comanda o batalhão marítimo da 412ª brigada. “O que importa são as pessoas.”
Drones navais da Ucrânia estão transformando a guerra com a Rússia no mar – Estadão
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