O controle das gigantes da nuvem sobre as economias e sociedades só tende a crescer, transformando-se em concentrações de poder privado sem mecanismos de prestação de contas que nenhuma democracia pode aceitar
Por Cecilia Rikap – Valor – 27/08/2026
Quando o Google (Alphabet) divulgou seus resultados trimestrais mais recentes, em 22 de julho, os investidores reagiram mal ao fluxo de caixa livre negativo da empresa e ao aumento dos investimentos em centros de dados. Mas o Google não é como a OpenAI e a Anthropic, que ainda tentam encontrar um modelo de negócios lucrativo enquanto queimam caixa. A empresa continua sendo uma gigante da computação em nuvem, e os resultados de sua divisão de nuvem no segundo trimestre foram nada menos do que extraordinários.
As receitas da Google Cloud cresceram 82% em relação ao mesmo período do ano passado e são agora equivalentes a 40% da receita gerada pela Google Search. A margem operacional também impressionou, subindo 15 pontos porcentuais para 36%. A era em que o Google gerava lucros exclusivamente com a publicidade ficou para trás.
Duas outras gigantes tecnológicas, Microsoft e Amazon, estão na mesma situação. A operação de nuvem da Microsoft é a sua divisão que mais cresce, gerando lucros recordes em 2026, enquanto as vendas líquidas da Amazon Web Services (AWS) cresceram 37% sobre o segundo trimestre de 2025, no que a empresa descreveu como o crescimento mais rápido em 18 trimestres. O lucro operacional da AWS cresceu ainda mais: 60% em comparação ao mesmo período de 2025. Assim como o Google, o fluxo de caixa livre da Amazon ficou negativo no período. Mas, diante dos demais resultados, isso não é um sinal de fraqueza, e sim uma busca por crescimento futuro.
A inteligência artificial é o Cavalo de Troia das gigantes da nuvem. Quanto maior o entusiasmo em torno da IA, maior o uso da computação em nuvem, o que expande seus negócios. Como são donas da nuvem, elas controlam toda a cadeia digital. Tudo, de dados e software a semicondutores e modelos de IA de ponta, é oferecido pela nuvem, que funciona como o supermercado indispensável para quem desenvolve ou utiliza (consome) tecnologias digitais.
Como terceiros também oferecem tecnologias digitais como serviços, eles ampliam a atratividade da nuvem como um balcão único. O resultado é uma vasta rede de milhares de empresas incluindo outras gigantes como SAP, Oracle e IBM – que oferecem suas tecnologias por meio de plataformas pertencentes à Amazon, Microsoft e Google.
Assim, é na nuvem que as tecnologias digitais são coproduzidas por muitos, em benefício desproporcional de poucos. Controlar a nuvem diferenciou Amazon, Microsoft e Google até mesmo de outras Big Techs como Oracle e Nvidia. As vantagens dessas últimas dependem mais diretamente da IA, embora a Nvidia, por ocupar uma posição estratégica no design de chips, tenha mais margem de manobra dentro da cadeia de valor da IA. A Oracle, por sua vez, tenta se reinventar como fornecedora de infraestrutura de IA em nuvem nos centros de dados da Microsoft. Da mesma forma, os investimentos recentes da Meta em infraestrutura refletem, em grande parte, suas ambições na área de IA.
Quanto maior o entusiasmo em torno da IA, maior o uso da computação em nuvem, o que expande seus negócios. Como são donas da nuvem, elas controlam toda a cadeia digital. Tudo, de dados e software a semicondutores e modelos de IA de ponta, é oferecido pela nuvem
Ao contrário da Oracle ou Meta, as gigantes da nuvem estão investindo em centros de dados não só para treinar e executar modelos de IA, como também para atrair mais clientes para seus ecossistemas já existentes. Empresas de todos os setores, juntamente com governos e até mesmo organizações internacionais, alugam da Amazon, Microsoft e Google grandes e personalizados conjuntos de serviços digitais. Entre eles estão armazenamento em servidores virtuais, redes de distribuição de conteúdo, softwares de segurança cibernética, tecnologias para direcionar o tráfego de usuários e centenas de outros serviços.
Essa atividade muito mais diversificada explica por que as gigantes da nuvem estão menos expostas aos riscos da indústria de IA do que a Oracle, Nvidia e Meta, sem mencionar companhias como OpenAI e Anthropic. Para as líderes do mercado de nuvem, a IA é apenas mais um recurso a ser integrado a um conjunto já existente de milhares de outros serviços em nuvem.
Quanto maior a competição entre os modelos de IA, mais fortes ficarão as gigantes da nuvem. Mais modelos de IA significam mais desenvolvimento e consumo de tecnologias digitais e, portanto, mais negócios para a nuvem. Como laboratórios de IA como OpenAI e Anthropic sofrem sempre que uma startup chinesa ou americana lança um modelo competitivo de pesos abertos (open weight), eles não conseguem seguir uma estratégia independente das gigantes da nuvem. Eles precisam dedicar todo o seu tempo e atenção no lançamento de modelos cada vez mais avançados, o que os leva a consumir ainda mais serviços de nuvem.
Se a promessa da IA não se concretizar, serão empresas como Oracle e Nvidia que sentirão o aperto. Diante do crescente descontentamento com a construção de centros de dados e da narrativa cada vez mais questionável sobre o retorno dos investimentos em IA, essas empresas têm bons motivos para se preocupar. Mas Amazon, Microsoft e Google sairiam tão fortes quanto antes, ou até mais, graças à sua maior folga financeira e a um negócio mais diversificado.
As empresas e órgãos públicos que estão migrando para a nuvem pelo medo de “perder o trem” da IA continuarão dependentes da nuvem mesmo que o boom dos investimentos em IA se revele uma bolha. A arquitetura digital é cada vez mais a espinha dorsal da maioria das organizações e atividades hoje, e construir sistemas semelhantes fora dos ecossistemas das gigantes da nuvem seria extremamente caro e complexo, quando não impossível.
Independentemente do que acontecer com a IA, o controle das gigantes da nuvem sobre nossas economias e sociedades só tende a crescer, transformando-se em concentrações de poder privado sem mecanismos de prestação de contas que nenhuma democracia pode aceitar. Com todos os olhos voltados para a IA, corremos o risco de perder de vista o todo, por causa dos detalhes. (Tradução de Mário Zamarian)
Cecilia Rikap é professora associada de Economia, chefe de pesquisa no Instituto de Inovação e Propósito Público do University College London, e autora de “The Rulers: Corporate Power in the Age of AI and the Cloud” (Verso Books, 2026). Copyright: Project Syndicate, 2026.
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