Gestores homens contratam mais mulheres após se tornarem pais de menina, indica pesquisa

  • Mudanças de liderança surgem imediatamente após o nascimento da primeira filha e persistem ao longo do tempo
  • Ter filhos homens não parece afetar decisões de homens no trabalho

Folha/The Economist – 21.set.2026 

Em todo o mundo rico as mulheres ainda ganham 12% menos que os homens. Medidas destinadas a reduzir essa diferença —como cotas e treinamentos sobre diversidade— muitas vezes produzem o efeito contrário.

Mas um estudo publicado na revista acadêmica Review of Economic Studies identificou algo que de fato muda a forma como gestores homens veem as mulheres no ambiente de trabalho: ter uma filha.

Ter filhos homens ou ter mais filhas após já ser pai de menina não mudou escolhas dos gestores, indicam os pesquisadores 

Nina Smith, da Universidade de Aarhus, e Maddalena Ronchi, da Universidade Northwestern, usaram registros administrativos para acompanhar todos os trabalhadores e empresas da Dinamarca entre 1992 e 2017. Elas constataram que, quando gestores homens tiveram sua primeira filha, a diferença salarial entre homens e mulheres em suas empresas diminuiu.

As autoras restringiram a amostra a pequenas empresas comandadas por um único gestor, para que pudessem identificar quem era responsável pelas decisões de negócios. Essas empresas representam mais de 90% das companhias dinamarquesas.

Quando a primeira filha de um gestor homem era também sua primogênita, a proporção dos rendimentos das mulheres —uma medida de sua remuneração em relação à dos homens— aumentava 4,1%. A participação feminina no quadro de funcionários da empresa crescia 4,5%.

A mudança começava imediatamente após o nascimento e persistia enquanto o gestor permanecesse na empresa. Ter um filho homem não fazia diferença significativa, tampouco ter outras filhas depois.

Os avanços vieram principalmente de novas contratações e promoções, e não de aumentos salariais para funcionárias já contratadas ou de mulheres serem poupadas de demissões. Os dados indicam que as novas contratadas têm qualificações e experiência semelhantes às dos homens admitidos em empresas cujos gestores não acabaram de se tornar pais de menina.

Diante de homens e mulheres igualmente qualificados, o novo pai parece optar pelas mulheres, sobretudo para cargos de tempo integral e bem remunerados. A probabilidade de a pessoa mais bem paga de sua empresa ser uma mulher aumenta dois pontos percentuais.

Esse entusiasmo pela contratação de mulheres não teve efeito sobre o desempenho das empresas —provavelmente porque as mulheres contratadas não eram mais qualificadas que os candidatos homens. As vendas, o nível geral de emprego e o valor agregado por trabalhador praticamente não se alteraram.

O que se pode aprender com isso? 80% dos gestores estudados eram homens; havia poucas gestoras para verificar se a maternidade produz o mesmo impacto.

Isso dificulta determinar se o efeito de ter uma filha revela algo sobre a psicologia da paternidade ou sobre as consequências de manter uma relação próxima com alguém de outro gênero. Ainda não se sabe se existem maneiras de reproduzir esse efeito —talvez por meio de programas de mentoria que aproximem colegas de diferentes origens.

Ordenar que chefes homens tenham filhas infelizmente não é uma política adequada de recursos humanos.

Texto da The Economist, traduzido por Helena Schuster e publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em http://www.economist.com 

Homens contratam mais mulheres após terem filhas meninas – 21/09/2026 – Negócios – C-Level 

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Proeminência de TV e rádio irrita ‘big techs’ porque ameaça venda de dados e negociação de espaço nobre

Visibilidade da TV aberta e de conteúdos públicos já é realidade em diversos países; no Brasil, discussão do tema irá esquentar após eleições

Não me considero um total ignorante quando o tema é a intersecção entre tecnologia e TV. O começo da minha formação foi na infância, no alto do telhado girando uma antena “espinha de peixe”. Booster de sinal, cabo coaxial, conector rosqueado, Bombril na antena interna. Vivi tudo isso e ainda instalei videocassete, videogame em dezenas de aparelhos de TV. Até home theater já montei, além de instalar Chromecast, Apple TV,  Roku, e mais recentemente, aplicativos.

Ainda assim, durante a Copa do Mundo, precisei recorrer a uma pesquisa na internet e gastar quase 40 minutos para conseguir fazer os canais da TV aberta funcionarem na minha Smart TV. Mas essa dificuldade não é uma limitação da tecnologia ou erro de projeto. Ao contrário, é uma estratégia para acelerar uma crescente fonte de receita de fabricantes de TV.

Nos últimos anos, empresas de tecnologia e de produtos eletroeletrônicos entenderam que podem lucrar muito mais vendendo os dados de seus usuários, e também publicidade, do que propriamente comercializando produtos tradicionais como TVs.

Alguns casos recentes, como o revelado semana passada por uma investigação do canal no YouTube Gamers Nexus com o Level1Techs e pesquisadores independentes, revelam a extensão dos esforços das empresas para monetizar informações dos consumidores.

De acordo com a investigação, televisores OLED da LG coletavam dados de usuários mesmo com o aparelho em modo standby. Ou seja, até com a tela apagada a TV seguia gravando o áudio captado pelos microfones do aparelho e comandos de voz.

Análises de tráfego também mostraram as TVs varrendo a rede doméstica, identificando celulares e relógios inteligentes conectados e coletando IPs internos, nomes de redes Wi-Fi próximas, intensidade de sinal e dados de localização. Ao desconectar a TV da internet, a coleta também não parava.

Os dados ficavam armazenados localmente e eram transmitidos assim que a conexão voltava. Segundo a investigação, parte desse material abasteceria a LG Ad Solutions, braço publicitário da LG que vende publicidade nos eletroeletrônicos da marca.

O Gamers Nexus afirma que a maior parte dos problemas identificados está relacionada à tecnologia de Reconhecimento Automático de Conteúdo (ACR) da LG, que usa essas capacidades de escuta para descobrir o que o usuário está assistindo, qual aplicativo está usando e quais dispositivos se conectam à TV.

“Sabemos quem está dentro da casa LG”, disse um representante da LG em um vídeo corporativo da LG incluído na investigação do Gamers Nexus. “Sabemos quais dispositivos estão ali”. Em outro vídeo, um executivo da LG Ad Solutions afirma: “Somos os donos da tela”.

A LG afirmou em um post publicado em seu blog que recursos como reconhecimento automático de conteúdo, reconhecimento de voz e publicidade baseada em interesses são de adesão voluntária (opt-in) e não vêm ativados por padrão. Segundo a companhia, as TVs da LG processamdados de voz apenas quando o botão de voz do controle remoto é pressionado e mantido apertado, ou quando o cliente pronuncia a “palavra de ativação” do aparelho.

Se de fato a LG “espiona” seus usuários é uma questão aberta. Porém, é evidente que um número assombroso de informações dos usuários é usado para vender mais publicidade em smart TVs e outros eletroeletrônicos.

Na prática, isso coloca empresas de mídia tradicional em desvantagem. No caso do rádio e da TV aberta, por exemplo, o sinal é transmitido em uma única via, dificultando a coleta massiva de dados de usuários, o que tende a depreciar o valor da publicidade e dificulta a segmentação de campanhas publicitárias menores usualmennte realizadas por pequenas e médias empresas.

Mudança estrutural do mercado

Com o crescimento da internet e do streaming, o número de plataformas de conteúdo e de produção audiovisual disparou. Se há alguns anos havia somente um punhado de canais na TV aberta e a cabo, hoje até mesmo os fabricantes de TV e sistemas operacionais de televisores oferecem dezenas, quando não centenas, de alternativas gratuitas de canais que são monetizados por meio de publicidade.

É positivo termos mais alternativas de conteúdo, e ainda por cima de graça. O problema é que com uma dezena de gigantes de tecnologia controlando TVs e plataformas de streaming, o conteúdo nacional tende a desaparecer, a qualidade do conteúdo tende a cair e os preços sobem (seja com mais anúncios ou valores mais altos por assinaturas sem publicidade).

Quanto mais informações uma empresa tem sobre seus usuários, em detrimento da privacidade dos consumidores (vale lembrar), maior tende a ser o volume de vendas de anúncios. As empresas afirmam que não revelam os nomes dos usuários nesses processos de extração de dados, eles apenas viram “perfis anônimos”. Porém, a riqueza dos dados (conhecidos como metadados ou dados sobre dados) é tão grande que mesmo anônimos esses dados permitem a fácil identificação de qualquer usuário. Um estudo clássico de Latanya Sweeney (pesquisadora de Harvard) mostrou que CEP, data de nascimento e sexo são suficientes para identificar 87% dos americanos.

No atual mercado de TVs conectadas à internet, além da privacidade, outro grande perdedor são canais de TV aberta e serviços de interesse público, que têm cada vez menos espaço nas TVs, assim como o conteúdo nacional.

Como as TVs e plataformas de streaming são controladas por multinacionais estrangeiras com alcance mundial, é mais fácil comprar um único conteúdo “enlatado” e distribuir para o mundo inteiro do que produzir localmente ou fazer jornalismo. No modelo das “big techs”, a lógica artística e jornalística dá lugar à lógica do engajamento.

O modelo de engajamento, não raro feito por influenciadores, IA ou produtores de países menos desenvolvidos e menos regras trabalhistas, também deprecia os valores de salários e cachês de profissionais. Indiretamente, o modelo das plataformas promove a “uberização” dos produtores de conteúdo.

A importância da porta de entrada

Neste cenário, a proeminência importa porque quem controla as TVs, aparelhos eletroeletrônicos e principalmente, os sistemas operacionais destes equipamentos, controla a porta de entrada, e principalmente, domina os dados dos usuários.

A Amazon conseguiu habilmente capturar este novo modelo. A gigante de e-commerce ao longo dos últimos anos desenvolveu seu próprio sistema operacional para aparelhos de TV. Os televisores na realidade dão pouco lucro, ou até prejuízo, em um mercado altamente competitivo com margens que dificilmente ultrapassam 3% para os fabricantes de TV.

A Amazon licencia seu sistema Fire TV OS para terceiros como como TCL, Hisense, Toshiba, Panasonic e Xiaomi, que vendem TVs com a interface da Amazon embarcada.

A Amazon não precisa fabricar a TV, basta controlar o sistema operacional para definir o que aparece na tela inicial, coletar os dados de visualização e vender o inventário publicitário via Amazon Ads e Fire TV ads. O fabricante fica com a margem apertada do hardware, enquanto a Amazon fica com o dado e com a receita publicitária recorrente.

A Amazon Ads já é a terceira maior plataforma de publicidade digital do mundo, com cerca de 11% do gasto global em publicidade digital, atrás apenas do Google e da Meta. A Amazon faturou US$ 68,6 bilhões com publicidade em 2025, em comparação a US$ 56,2 bilhões em 2024, uma alta de 22%. O ritmo acelerou em 2026, alcançando US$ 17,24 bilhões no primeiro trimestre (+22%) e US$ 19,81 bilhões no segundo (+26%), um acréscimo de US$ 4,1 bilhões sobre o mesmo período de 2025. A publicidade já responde por cerca de 9,9% das vendas líquidas trimestrais da companhia, que somaram US$ 200,6 bilhões.

É o mesmo padrão do Google (Google TV, licenciado para Sony, TCL, Hisense) e do Roku (Roku TV, licenciado para Sony, TCL, Hisense) e do Roku (Roku TV, licenciado para TCL, Hisense, Philips). Neste caso, três empresas americanas controlam a interface de entrada de boa parte das TVs vendidas globalmente, enquanto os fabricantes asiáticos (Samsung e LG, com seus próprios sistemas, respectivamente, Tizen e webOS) tentam abocanhar o que resta do mercado.

Por que a proeminência importa

Em um momento no qual o debate sobre soberania digital cresce no mundo todo, a proeminência audiovisual é a camada mais visível da soberania digital no cotidiano das pessoas. Não adianta um país ter cota de conteúdo nacional se o conteúdo nacional não aparece na primeira tela dos dispositivos. Na prática, são executivos na Califórnia ou Seul que decidem o que veremos.

Oito países já legislaram sobre quem aparece primeiro na tela da smart TV. Alemanha, França e Austrália têm regras em vigor. A legislação alemã garante que serviços de valor público sejam facilmente encontráveis em smart TVs, interfaces e guias eletrônicos, com proibição expressa de discriminação na ordenação. A França aplica o conceito de “visibilité appropriée” pelo Art. 20-7 da Lei 86-1067, sob fiscalização da Arcom, alcançando home, busca, recomendações e até o controle remoto. A Austrália foi mais direta: o Broadcasting Services Act e as Minimum Prominence Requirements Regulations de 2024 impõem requisitos aos próprios fabricantes, como a TV aberta local ser fácil de achar em toda smart TV nova conectada.

O Canadá foi além do aparelho. O Online Streaming Act de 2023 (a Lei C-11) alcança plataformas online, inclusive serviços de compartilhamento de vídeo como o YouTube, obrigando-as a promover a descobribilidade de conteúdo canadense e indígena via recomendação e resultado de busca. A aplicação veio com a Política CRTC 2026-95, de maio deste ano.

No Reino Unido, o Media Act 2024 criou obrigações de proeminência para os serviços públicos (BBC, ITV, Channel 4) justamente porque se percebeu que, sem regra, o conteúdo nacional e de interesse público simplesmente desaparece da interface, enterrado sob camadas de menu. A UE discute o mesmo.

Em junho de 2026, um green paper (documento de consulta pública que precede projeto de lei no Reino Unido) chamado “Watch this space”, apresentado ao Parlamento britânico, trouxe um dos mais consistentes relatórios sobre o desafio da proeminência e propõe medidas práticas para melhorar o mercado.

“Em seu melhor, nossa mídia fornece a base de um país coeso e de uma democracia saudável”, afirma o relatório. “Ela tem o poder de promover entendimento compartilhado, fatos compartilhados e experiências compartilhadas, que ajudam as pessoas a confiar umas nas outras e a se compreender mutuamente. É sobre esse terreno comum que um país se constrói. No entanto, como tantos outros de nossos espaços cívicos, ela enfrenta desafios fundamentais que colocam esses benefícios em risco”.

O documento lembra ainda que a televisão passa por uma transformação profunda e rápida, tendo migrado de um sistema de canais de radiodifusão limitados para um ambiente de ‘conteúdo em toda parte’, no qual os maiores players são serviços globais de streaming, plataformas de compartilhamento de vídeo e empresas de redes sociais.

“Nossos radiodifusores nacionais, incluindo a mídia de serviço público, lutam para ser vistos e ouvidos em um mercado cada vez mais competitivo e fragmentado. As pessoas acessam notícias cada vez mais pela internet, e não por espaços mais regulados, como o Freeview em seus aparelhos de TV. Isso enfraquece a capacidade de fontes confiáveis d notícia de alcançar audiências e moldar o debate público informado”, conclui.

Plataformas de vídeo e streaming já respondem por 74% do tempo de vídeo do público de 16 a 24 anos no Reino Unido. O YouTube é o serviço mais assistido por crianças de 4 a 15 anos, e apenas 45% dos adultos se dizem capazes de julgar se uma fonte de notícia é verdadeira.

O documento propõe sete frentes de trabalho. A mais original é criar um regime para conteúdo de serviço público, alcançando veículos nacionais e locais. A segunda é garantir proeminência do conteúdo dos radiodifusores públicos em plataformas de terceiros. Neste sentido, o governo prefere acordos voluntários e cita o pacto entre BBC e YouTube, de janeiro de 2026, mas avisa que irá legislar se as parcerias não bastarem.

O paper propõe ainda uma transição de infraestrutura e de marco regulatório. O Freeview (plataforma de TV digital aberta do Reino Unido) ficaria garantido até o fim de 2034, com desligamento gerenciado ou extensão até 2044. Mais de 4 milhões de domicílios ainda dependem dele, mas o custo da rede terrestre é descrito como insustentável para os radiodifusores.

Basicamente, a reforma regulatória propõe sair de um sistema baseado em como o conteúdo é entregue para um baseado em onde a audiência o consome, com padrões iguais independentemente da plataforma. O sistema de serviço público deixaria de ser regulado por licenças de radiodifusão, o que permitiria exigir que os provedores produzam conteúdo para redes sociais.

Somam-se um novo dever de letramento midiático e a extensão das “joias da coroa” do esporte aos direitos sob demanda.

A proposta brasileira de proeminência

No Brasil, o debate sobre regulação do streaming (o PL 2331/2022 e correlatos) toca nisso, mas de forma incipiente. Sem regra de proeminência, o conteúdo brasileiro compete por visibilidade numa tela cujo layout é definido por executivos em Seul ou na Califórnia.

Países que já legislaram sobre a proeminência perceberam que a cota de conteúdo nacional vale pouco se o conteúdo local estiver enterrado no terceiro submenu.

No Brasil, o PL 5873/2025 aguarda aprovação no Senado desde novembro de 2025. O texto cria o marco regulatório do streaming no Brasil. De acordo com o projeto de lei, haveria credenciamento obrigatório dos provedores na Ancine, cota mínima de 10% de conteúdo brasileiro no catálogo (metade independente, com implementação progressiva a partir de 2%), Condecine sobre a receita bruta anual dos serviços em alíquotas de 0,5% a 4%, dedução de até 60% para quem investir em produção nacional, e representante legal no país para plataformas estrangeiras. Serviços de compartilhamento de vídeo, o YouTube entre eles, pagam alíquota menor, de 0,1% a 0,8%.

Um dos trechos mais relevantes também foi um dos menos discutidos. O artigo 15 alcança os fabricantes de aparelhos, não só os aplicativos. De acordo com o PL, quem vende TV no país terá de oferecer, na interface inicial, acesso direto e irrestrito à plataforma comum de comunicação pública e aos serviços de radiodifusão como a TV aberta. E quando recomendar conteúdo de terceiros na própria interface, o fabricante será equiparado a provedor de streaming e herda as obrigações de proeminência de conteúdo brasileiro.

Os artigos 5º e 6º determinam ainda destaque para o conteúdo nacional na página inicial (home) e tratamento igual, sem discriminação, nos algoritmos de recomendação. É o modelo australiano, que regula também o aparelho, e não apenas o serviço como acontece na Europa.

Vale dizer que a proeminência de conteúdo e de canais não impede a captura de dados dos usuários, porém ela cria uma alternativa para que o consumidor assista a um conteúdo que não será necessariamente monetizado de maneira direta pelo dono do sistema operacional.

Opositores da proeminência alegam que a mudança beneficiaria principalmente incumbentes como Globo, SBT, Record e Band. Entretanto, como o relatório do Reino Unido destaca, há uma clara mudança na infraestrutura que a legislação até aqui não levava em conta. O mercado de TV Conectada (CTV) no Brasil alcança mais de 88 milhões de pessoas, o que representa cerca de 67% da população online do país.

E mais, se o Brasil não tem uma gigante pública como a BBC dos ingleses, o alcance e relevância da TV aberta no país é maior do que a da TV pública no Reino Unido. A TV aberta ainda representa mais de dois terços do consumo de vídeo dos brasileiros, segundo dados do Ibope.

A questão da isonomia costuma ser a parte mais criticada, apontada pelas empresas contrárias como uma forma de intervenção estatal em um produto privado. Porém, não se trata do Estado escolher o que está na vitrine, mas sim desenvolver mecanismos para impedir que a vitrine seja usada para eliminar concorrentes.

É justamente essa possibilidade que assusta as gigantes de tecnologia. Ao cederem espaço em suas plataformas para conteúdos que não controlam, diminui também sua capacidade de monetizar os dados dos usuários, e mesmo de vender publicidade, já que ela é negociada pelas próprias emissoras quando se trata de TV. Em contrapartida, os brasileiros voltam a ter acesso amplo ao conteúdo gratuito e acessível a todos gerado pela radiodifusão nacional, e também ao jornalismo de fontes verificadas.

Após as eleições, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), deverá lançar uma campanha nacional para discutir o tema da proeminência. Um dos pleitos da entidade é ter um botão de TV aberta nos controles das novas TVs.

Um botão de TV aberta no controle do televisor seria um alívio. Na próxima Copa, eu e milhares de brasileiros, não precisaríamos gastar um longo tempo em tentativas de assistir à TV aberta no aparelho em casa.

PS.: O tema da proeminência esteve na pauta da Abert durante a posse de sua nova diretoria, que aconteceu no final de agosto, em Brasília. Participei como convidado do evento e viajei a convite da entidade para falar a seus membros na abertura do encontro.

*Guilherme Ravache é consultor e atua em projetos de jornalismo digital no Brasil e exterior. Nos últimos anos, especializou-se na cobertura do mercado de mídia

https://valor.globo.com/empresas/marketing/coluna/proeminencia-de-tv-e-radio-irrita-big-techs-porque-ameaca-venda-de-dados-e-negociacao-de-espaco-nobre.ghtml

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Quando a admiração pelo professor passa ao influenciador, a crise não é da escola – é da sociedade

Qualquer lugar virou opção, menos a sala de aula. A desilusão tem causas objetivas: Salário baixo, sala superlotada, violência escolar, desprestígio social, pais que desautorizam, celulares que disputam a atenção, redes sociais que difamam o docente por esporte

Por Leandro Karnal – Estadão – 20/09/2026

Os números assustam quem quiser olhar. Entre 2010 e 2021, houve uma redução de cerca de 26% nas matrículas em cursos de formação de professores no Brasil, segundo o Censo da Educação Superior do Inep. Um quarto dos aspirantes simplesmente desapareceu. Evaporaram para onde? Para cursos tecnológicos, para o empreendedorismo digital, para a vida adulta precoce dos aplicativos de entrega. Qualquer lugar virou opção, menos a sala de aula.

Há um dado que eu repetiria em qualquer mesa de jantar, só para ver a reação dos comensais. Das 2,8 milhões de vagas ofertadas em cursos de licenciatura em 2021, apenas 300 mil foram preenchidas. Apenas 15% dos quase 4 milhões de ingressantes em cursos superiores optam por licenciatura. Mais de 50% dos matriculados abandonam a formação antes de concluí-la. Traduzo: abrimos as portas da vocação, e os corredores estão vazios. Quem entra desiste. Quem não desiste chega ao fim desencantado e, por vezes, endividado. Minha área de formação virou um território de crise.

A desilusão tem causas objetivas. Salário baixo, sala superlotada, violência escolar, desprestígio social, pais que desautorizam, celulares que disputam a atenção, redes sociais que difamam o docente por esporte. O rendimento médio do professor brasileiro da educação básica com nível superior foi de cerca de R$ 5.500 em 2024, segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica (Todos pela Educação, com dados do Inep e da RAIS), enquanto a média da OCDE chega praticamente ao dobro. Mas há também uma causa subjetiva, menos discutida: o professor deixou de ser figura de aspiração. O menino que admirava o mestre passou a admirar o influenciador. A menina que queria ser professora agora quer ser algo, qualquer coisa, que produza conteúdo em vídeo vertical. Pesquisa Varkey de 2018, em 35 países, colocou o Brasil em último lugar em prestígio docente: ficamos atrás inclusive da Argentina, da Colômbia e do Peru.

A máquina pública vê o precipício. Segundo projeções, se não houver mudanças significativas, em 2040 o país precisará de aproximadamente 235 mil docentes adicionais para atender à demanda estudantil. O governo respondeu com o programa Pé-de-Meia Licenciaturas, inspirado no Mais Médicos, oferecendo bolsas mensais para atrair jovens à carreira. É um paliativo bem-intencionado. Não basta. Nenhum subsídio de mil reais compete com a fantasia de enriquecimento instantâneo que o algoritmo vende todo dia no café da manhã.

Há uma perversidade estrutural que merece destaque. Entre 2015 e 2024, houve ampliação de 8,26% do número de professores no Brasil, enquanto as matrículas escolares se reduziram em 8,55% (Le Monde Diplomatique). Paradoxo aparente? Não. Reflexo do envelhecimento da categoria, aquilo que pesquisadores chamam, com precisão melancólica, de “adulti-idosificação do magistério”. A idade média dos docentes efetivos das redes estaduais já beira os 46 anos, e o número de professores da educação básica com 50 anos ou mais cresceu 109% entre 2009 e 2021, segundo o Instituto Semesp, com base em dados do Inep. Os professores envelhecem em serviço porque ninguém chega atrás deles. O que parece sobra é, na verdade, represamento. Quando essa geração se aposentar em bloco (e ela vai), a cadeira ficará vazia.

Há também a questão das áreas críticas. O Tribunal de Contas da União, em 2014, já apontava física, química, sociologia e filosofia como as disciplinas com maior escassez de professores. Mais de uma década depois, a deficiência não só persiste como se agravou. Uma geração inteira de adolescentes brasileiros termina o ensino médio sem nunca ter aberto uma equação de Schrödinger, sem jamais ter ouvido o nome de Comte, sem saber a diferença entre planalto e planície. Não sabem porque não há quem ensine. O resultado salta no PISA 2022: o Brasil ficou na 65.ª posição em matemática entre 81 países avaliados, com 73% dos jovens de 15 anos em nível abaixo do básico.

A crise não é somente da escola. É da sociedade que produziu essa escola. Quando um país trata o professor como o Brasil trata, o professor é o espelho daquilo que o país pensa de si mesmo. Pagamos mal porque nos julgamos mal. Desvalorizamos o magistério porque desprezamos o conhecimento formal. No fundo, muitos acreditam que a esperteza basta. O grito substitui o estudo paciente. Anísio Teixeira, em 1936, advertiu: “Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias: a escola pública”. A máquina nunca foi montada de fato. Hannah Arendt, em A Crise na Educação (1958), foi mais longe: “A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumir a responsabilidade por ele”.

Montaigne dizia que é melhor uma cabeça bem-feita do que uma cabeça bem-cheia. Mas as duas dependem de alguém que tenha dedicado a vida a fazê-las. Se esse alguém desaparece, o que sobra? Suspeito que seja o improviso com tutorial de YouTube. Talvez seja esse o horizonte que se anuncia. A inteligência artificial ensinando jovens criados sem mestres. O professor será visto como personagem de outra época, talvez como olhamos acendedores de lampiões de eras passadas. Paulo Freire dizia que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua produção. Sem professor, não há possibilidade. Tudo vira conteúdo sem curadoria e vídeos superam gente preparada para trabalhar com alunos.

Os números deveriam estar sendo debatidos de forma séria na campanha eleitoral. O que vejo? Imbecis dizendo que a escola está doutrinando alunos. A realidade? A escola perdeu a força de convencer. Alunos e professores desejam o modelo mais recente de celular. Sou professor há 44 anos e nunca vi nada tão grave. Peço licença para manifestar o que vem do fundo do meu coração de forma contundente: “Candidatos: parem de falar mer(…) e comecem a avaliar o mundo real da sala de aula”. Não aguentamos mais. Perdão pela falta de esperança e pelo palavrão. Não é comum no meu texto, como a querida leitora e o estimado leitor sabem há uma década. Por vezes, porém, a moderação deve ser derrubada. Sem professores bem formados, bem pagos e com boas condições profissionais, não haverá um Brasil que valha a pena no futuro imediato. Por favor, ouçam a voz dos profissionais da educação. Comecem, enfim, a discutir o Brasil nesta campanha.

Quando a admiração pelo professor passa ao influenciador, a crise não é da escola – é da sociedade – Estadão 

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Economia chinesa desacelera, mas exportações disparam

O segundo choque chinês é bem mais que uma válvula de escape para as agruras do consumo interno

Por Editorial – Valor – 16/09/2026 

A economia chinesa está desacelerando aos poucos, em um movimento equilibrado pelo avanço de sua formidável capacidade exportadora. O consumo interno e os investimentos estão caindo, mas não a produção industrial, que tem permitido mega-superávits comerciais com o resto do mundo. Desde o estouro da bolha imobiliária chinesa, em 2021, o governo teve incentivos para substituir os motores do crescimento, das exportações para o consumo interno, o que exige estímulos para o aumento da renda doméstica. Isso não aconteceu, e o boom de exportações indica que não deverá ocorrer tão cedo.

Os números de agosto revelam os dois lados da economia chinesa. O varejo cresceu apenas 0,4% em relação ao mesmo mesmo mês de 2025, ante 0,6% na mesma comparação em julho. Os investimentos declinam há cinco meses consecutivos, e, nos oito primeiros meses do ano, diminuíram 7,2%. A atividade industrial, no entanto, está em alta e evoluiu 5,2% comparada à de agosto de 2025, ante 4,8% um mês antes. Cinco anos depois da debacle imobiliária, os preços dos imóveis ainda estão em declínio. No segundo trimestre, o PIB do país avançou 4,3%, a menor marca em décadas e abaixo da previsão de 4,5%-5% feita pelos governantes chineses.

Mas a China se tornou um grande exportador de produtos de alta tecnologia, superando o atraso em uma série de setores estratégicos e competindo com vantagens nos mercados antes cativos, dos países ricos. O objetivo do presidente Xi Jinping com seu “Made in China 2025”, de transformar o país em uma potência tecnológica, foi praticamente cumprido. Mesmo transtornos enfrentados no caminho — como o excesso de capacidade produtiva, a feroz competição doméstica que reduziu significativamente as margens de lucros das empresas e a ameaça de deflação com redução por anos a fio dos preços dos produtores — serviram à atual ofensiva exportadora de grande escala.

Competitividade, capacidade ociosa e juros baixos e subsídios fizeram o prodígio de a China ter obtido um superávit comercial de US$ 1,2 trilhão em 2025, ano em que as barreiras protecionistas americanas foram intensificadas e políticas de substituição de importações, com viés geopolítico, foram impulsionadas em vários países desenvolvidos. A capacidade da máquina exportadora foi ajudada por uma política dirigida de desvalorização cambial, arma tradicionalmente usada por Pequim para conquistar mercados. O Fundo Monetário Internacional estima que o yuan esteja depreciado em 20%. Há estimativas que apontam 35%.

A depreciação foi uma defesa contra o protecionismo tarifário de Donald Trump, mas serviu de coadjuvante para impulsionar  as vendas em meio a tendências em desenvolvimento, bastante favoráveis aos produtos de média e alta tecnologia chineses, como aponta a consultoria Oxford Economics. O país é um grande fornecedor de produtos de eletrônica, largamente consumidos e utilizados nas exportações do Leste Asiático, como Vietnã, cujas vendas para os EUA dispararam.

Além disso, em disputa com os EUA, a China deu enormes passos na inteligência artificial (IA) e nos insumos necessários para construir sua infraestrutura, e a demanda para esses bens tem sido imensas. E, por fim, com a guerra na Ucrânia e no Irã, que catapultaram os preços da energia, a China preencheu seu mercado doméstico, e invadiu o mundo, com seus veículos elétricos e baterias — ela produz quase 75% desses carros vendidos no mundo e 86% dos painéis de energia solar.

Os produtos baratos de baixa tecnologia, que arruinaram indústrias congêneres de países em desenvolvimento no início dos anos 2000, foram agora substituídos por bens de alta tecnologia extremamente competitivos, que igualmente provocam estragos nos rivais desenvolvidos. A Unido, órgão da ONU para desenvolvimento industrial, estima que a fatia da China no valor agregado da manufatura global passará de 30% em 2020 para 45% em 2030. Essa fatia de 30% é produzida por cerca de 123 milhões de trabalhadores, e para equiparar-se à produtividade chinesa, todos os bens manufaturados do mundo poderiam ser feitos por 400 milhões de trabalhadores, ou 7% da população mundial em idade de trabalho (Adair Turner, Valor, 11-9).

Há desequilíbrios que colocam barreiras no caminho dessa prosperidade. Os países ricos, em especial EUA e Europa, estão se protegendo com tarifas da invasão chinesa, assim como países emergentes. A forte depreciação do yuan reduz os salários domésticos e retira fôlego do consumo, além de encarecer os insumos necessários à produção de bens de alta tecnologia. Isso não é um problema para um país hoje ameaçado de deflação, mas pode se tornar um no futuro. A nova onda exportadora, que economistas apelidaram de “China Shock 2.0”, foi bem mais que uma válvula de escape para as agruras do consumo interno. Pragmáticos, os líderes de Pequim consolidaram novas posições de força no mercado global, e os problemas domésticos só ganharão a atenção em outro momento, quando as tensões domésticas se acumularem.

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/economia-chinesa-desacelera-mas-exportacoes-disparam.ghtml 

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Brasil e Mercosul miram boom do petróleo em Guiana e Suriname para exportar bens e serviços

Descobertas de óleo e gás impulsionam aproximação estratégica, com foco em exportação de bens e serviços ligados ao setor de óleo e gás

Por João Caires (Broadcast) e Renan Monteiro (Broadcast) – Estadão – 17/09/2026

BRASÍLIA – A descoberta de grandes reservas de petróleo na margem norte da América do Sul tem impulsionado uma aproximação comercial entre o Mercosul e países como Suriname e Guiana, que passaram a ser vistos pelo bloco não apenas como parceiros para integração regional, mas também como mercados estratégicos para exportação de bens, serviços e infraestrutura ligados à indústria de óleo e gás, segundo relatos de fontes do governo ao Estadão/Broadcast.

As tratativas com o Suriname estão atualmente mais avançadas, e exclusivamente com o Brasil, por meio de um acordo bilateral. O Ministério das Relações Exteriores e a contraparte no Suriname assinaram, em maio deste ano, os termos de referência para negociar a ampliação do acordo comercial bilateral, hoje restrito basicamente a uma cota de exportação de arroz do país caribenho para o mercado brasileiro.

Embora a aproximação entre Mercosul, Guiana e Suriname remonte ao fim dos anos 1990 — quando o objetivo era fortalecer os laços entre o bloco sul-americano e a Comunidade do Caribe (Caricom) —, o cenário se intensificou com as oportunidades abertas após as descobertas de petróleo e gás nos dois países.

O principal interesse brasileiro está na abertura de espaço para exportação de equipamentos, serviços especializados e máquinas para a indústria petrolífera, que mais tem apoiado o avanço de acordos e negociações junto ao Itamaraty. O setor de bens e serviços para exploração offshore é apontado como uma das áreas com maior potencial de avanço nas negociações com o País.

Além da cadeia de óleo e gás, o Brasil também vê oportunidades para ampliar exportações de alimentos, produtos agrícolas, medicamentos, equipamentos médicos e bens de capital à medida que as economias da região ganham renda e atraem investimentos.

Já a Guiana, que registra forte expansão econômica impulsionada pela produção de petróleo, desperta atenção especial dentro do Mercosul. Nesse caso, o crescimento acelerado do País aumentou o interesse dos demais sócios do bloco em aprofundar a relação comercial com Georgetown.

No ano de 2025, a corrente de comércio com Suriname foi de US$ 54,9 milhões, quase 99% em exportações brasileiras para o vizinho. Já com a Guiana, o cenário é bem diferente: a corrente de US$ 118,8 milhões foi deficitária em US$ 62,4 milhões para o Brasil — unicamente pela importação de óleo bruto.

O presidente-executivo da Associação Brasileira das Empresas de Bens e Serviços de Petróleo (ABESPetro), Telmo Ghiorzi, defende que o Brasil deve aumentar a prospecção de petróleo, pensando na manutenção do nível de empregabilidade e geração de receita do setor. “O Brasil não pode ficar sem perfurar. A Noruega, que nem precisa, está perfurando quatro vezes mais que o Brasil. Guiana, Suriname, África, todo mundo está buscando petróleo desesperadamente”, declarou.

Para Walberto L. Oliveira Filho, sócio do escritório Ernesto Borges Advogados, Guiana e Suriname são países que precisam construir rapidamente uma cadeia de fornecedores que o Brasil já tem. Segundo ele, há uma combinação positiva: proximidade geográfica, escala industrial e experiência consolidada em águas profundas.

“A frente mais imediata é a exportação de equipamentos e serviços offshore: a cadeia de engenharia submarina desenvolvida no Pré-Sal (FPSOs, embarcações de apoio, válvulas, tubulações, risers, árvores de natal submarinas, manutenção e inspeção). A segunda frente é infraestrutura e integração regional”, avaliou.

Porta de entrada para o Caribe

Além do potencial energético, Guiana e Suriname são vistos pelo governo brasileiro como corredores estratégicos para ampliar a presença comercial do Mercosul no Caribe.

A avaliação é que o fortalecimento da infraestrutura logística entre o Norte do Brasil e os dois países poderá facilitar o acesso a portos voltados para os mercados caribenhos, reduzindo distâncias e custos para exportadores brasileiros.

Nesse contexto, o governo brasileiro estaria trabalhando para ampliar a integração terrestre entre os países, com projetos de conexão rodoviária via Roraima (RR), por meio da BR-401, ou pelo Amapá (AP), pela BR-156.

O Mercosul também busca ampliar sua presença comercial no Caribe por meio de uma aproximação com a República Dominicana. O Brasil coordena as negociações do bloco com Santo Domingo desde 2020, mas os avanços têm sido limitados pela resistência dominicana a novos acordos comerciais.

O setor privado do País teme repetir experiências anteriores em que acordos de livre comércio resultaram em aumento das importações sem expansão equivalente das exportações. Diante desse cenário, os sócios do Mercosul passaram a discutir a possibilidade de um acordo-quadro semelhante ao firmado com o Panamá, que permitiria negociações bilaterais posteriores entre os países interessados. Entretanto, a República Dominicana ainda não respondeu formalmente às propostas apresentadas pelo Mercosul nos últimos anos.

Brasil e Mercosul miram boom do petróleo em Guiana e Suriname para exportar bens e serviços – Estadão 

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‘A métrica não é mais o clique, é a reputação na busca generativa’

Regina Moura, que dirige a comunicação corporativa da Roche Farma Brasil, diz que “a reputação, na busca generativa, se constrói pela qualidade das fontes que te citam, que te referendam, que falam sobre o tema que você domina”

Por Andrea Assef – Valor – 14/09/2026 

A inteligência artificial mudou a forma como uma empresa precisa se posicionar no ambiente digital. As ferramentas de IA pesquisam prioritariamente o que o mercado chama de mídia espontânea, conteúdo publicado pelos veículos de comunicação e pelos formadores de opinião com credibilidade.

A avaliação é de Regina Moura, que dirige a comunicação corporativa da Roche Farma Brasil. “A métrica não é mais o clique. É a reputação. E a reputação, na busca generativa, se constrói pela qualidade das fontes que te citam, que te referendam, que falam sobre o tema que você domina”, afirma a executiva. Moura observa que na lógica do SEO, sigla para Search Engine Optimization (otimização para mecanismos de busca), vencia quem tinha mais volume de conteúdo e palavras-chave bem otimizadas. Agora, na busca generativa, com o GEO (Generative Engine Optimization), o que importa é a confiança. A seguir, a entrevista ao Valor.

Valor: De que forma a inteligência artificial está presente na rotina de comunicação de uma empresa farmacêutica?

Regina Moura: A IA está sendo testada e estudada de diferentes maneiras. Em uma empresa como a Roche, por exemplo, é utilizada desde o início da cadeia, na pesquisa e desenvolvimento de novas moléculas. Na comunicação, a adoção veio no início de 2023. Naquele momento já havia o entendimento claro de que quem não dominasse aquela ferramenta ficaria para trás. Hoje ela está no dia a dia, na estruturação de textos, na resposta a e-mails, na produção de vídeos para comunicação interna, em apresentações, no monitoramento de marca. Para mim é uma espécie de “assistente de pensamento”.

Valor: Como assim?

Moura: A IA ajuda a pensar a partir do momento que desafia suas perguntas, aponta perspectivas que você não havia considerado, levanta riscos de comunicação que o olho humano pode ter perdido. É quase um treino executivo disponível o tempo todo. O time se concentra no conteúdo, que é o que faz diferença.

Valor: A IA muda a forma como uma empresa precisa estar presente no ambiente digital?

Moura: Completamente. Na lógica do SEO, vencia quem tinha mais volume de conteúdo e palavras-chave bem otimizadas. Na busca generativa, o que importa é confiança. As ferramentas de IA buscam prioritariamente o que o mercado chama de mídia espontânea, conteúdo publicado pelos veículos de comunicação e pelos formadores de opinião com credibilidade. Uma pesquisa publicada recentemente na “Vogue” americana mostrou que 80% das respostas da IA generativa às buscas dos usuários vieram desse tipo de conteúdo. O GEO, Generative Engine Optimization, está sendo chamado de o novo SEO. A métrica não é mais o clique. É a reputação. E a reputação, na busca generativa, se constrói pela qualidade das fontes que te citam, que te referendam, que falam sobre o tema que você domina.

Valor: O setor farmacêutico opera sob restrições rígidas de divulgação publicitária no Brasil. Como a comunicação constrói presença de marca nesse contexto?

Moura: O mercado de medicamentos de prescrição é extremamente regulado, e isso não é uma limitação, é algo fundamental. Imagine um paciente oncológico sendo influenciado por uma campanha publicitária a pedir determinado medicamento ao médico. Quem tem condições de avaliar o subtipo do câncer, a linha de tratamento adequada, o perfil do tumor, é o médico, não o marketing. A cadeia é clara: a empresa comunica a ciência, o médico interpreta e leva ao paciente. Em oncologia, em hemofilia, em doenças neurológicas raras, a seriedade do quadro clínico já tornaria imprópria qualquer campanha voltada diretamente ao consumidor. Confiança, aqui, não é atributo de marca. É condição para operar.

Valor: Com públicos tão distintos, como médicos, pacientes, jornalistas e investidores, como a comunicação define o que diz, para quem diz e por qual canal?

Moura: O que cabe à comunicação no segmento farmacêutico é garantir que as informações científicas de qualidade e o letramento em saúde estejam disponíveis nos canais certos: nas revistas especializadas, nos sites médicos, nos grandes congressos, nos fóruns de associações de pacientes, ambiente digital e nos grandes veículos de imprensa.

Valor: Como funciona na prática?

Moura: A área médica fala com o médico. É médico conversando com médico. No digital, isso se organiza em torno do que o mercado chama de Digital Opinion Leaders, os DOLs, médicos com presença relevante nas redes que conversam com outros médicos sobre moléculas e áreas terapêuticas. Muitas vezes nem citam a empresa. Falam da molécula, não do nome comercial. É uma comunicação sobre ciência, não sobre produto. Há também pacientes que falam espontaneamente sobre o tratamento que fazem, de forma completamente orgânica, não promovida, e esses depoimentos têm um peso enorme em termos de reputação. Além disso, a IA ao buscar sobre determinada área terapêutica deve encontrar um conteúdo bem produzido e útil que a empresa ajudou a colocar em circulação.

Valor: Quais são os pilares que sustentam a reputação de uma empresa no setor farmacêutico?

Moura: Reputação é a distância cada vez menor entre o que digo, o que faço e o que as pessoas pensam de mim. Quanto menor esse espaço, mais sólida a reputação. Os pilares, em resumo, são confiança, relevância e autoridade. Confiança porque sem ela não há licença para operar nesse mercado. Relevância porque é preciso estar nas conversas que importam para a sociedade, falar de diagnóstico precoce, de prevenção, de acesso ao tratamento. E autoridade porque, para ser reconhecida, a empresa precisa ter ciência real por trás. Não se constrói autoridade por comunicação. A comunicação revela a autoridade que a empresa já conquistou na prática, nos estudos clínicos, nos resultados terapêuticos, na aprovação pelas agências regulatórias mais exigentes do mundo.

Valor: Na indústria farmacêutica, um remédio começa como uma molécula em laboratório e pode levar dez anos até chegar ao paciente. Como a comunicação acompanha esse desenvolvimento?

Moura: Fazemos o que o setor chama de ponta a ponta. Há marcos nesse processo que podem ser comunicados. O primeiro resultado de uma pesquisa clínica pode ser divulgado em grandes congressos médicos. Quando uma molécula promissora é apresentada em um grande congresso de medicina, a notícia sai nas grandes agências internacionais de notícias no mesmo dia e a imprensa de todo o mundo cobre. Quando a Anvisa aprova, enviamos um comunicado informando que a molécula chegou ao Brasil. Depois há ainda a aprovação da ANS para os convênios e da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) para o SUS. Cada etapa é um marco de comunicação possível. Mas nenhuma delas é campanha e sim informação. A linha entre informar e promover, nesse setor, é muito clara.

Valor: Como gerenciar uma crise de comunicação num setor que lida diretamente com a saúde das pessoas?

Moura: A crise mais grave que pode acontecer aqui é a falta de um medicamento. Uma pessoa em tratamento oncológico sem o produto disponível, por um problema de distribuição ou por atraso na compra pelo sistema público, é uma situação gravíssima. A imprensa liga imediatamente. O princípio é rapidez e transparência e o posicionamento precisa ser verdadeiro e imediato. Ao mesmo tempo, monitora-se as redes sociais em tempo real, porque associações de pacientes e médicos começam a se manifestar antes de qualquer resposta oficial, e o diálogo muda rápido. Há um comitê de crise, com representantes de comunicação, regulatório, jurídico e da área terapêutica envolvida. A área de experiência do paciente contata as associações. A área médica informa os médicos. Tudo de forma concatenada e simultânea. Silêncio, nesse mercado, nunca é uma opção.

Valor: Quando uma empresa precisa falar com públicos tão distintos, o risco é perder o fio que os une. Como esse fio é mantido?

Moura: O ponto de partida não é o canal, mas a coerência da marca. No caso do segmento farmacêutico, essa mensagem central é sempre ancorada na transformação da vida dos pacientes e no valor da inovação em saúde. O que muda para cada público é a lente de interesses. Para médicos e comunidade científica: A linguagem da ciência, evidências clínicas e rigor analítico, nosso time médico é expert nesse contato. Para pacientes e associações: a empatia, o acesso à informação clara, o letramento em saúde e a jornada de cuidado, a Roche conta com um time de experiência do paciente diferenciado. Para a imprensa e os DOL (Digital Opinion Leaders): valor social, inovação em políticas de saúde, dados de mercado, letramento e transparência.

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O trabalho não remunerado na era da IA

A ‘produção doméstica’ ainda é pouco discutida nas políticas pública

Por Diane Coyle – Valor – 09/09/2026 

As discussões sobre como a inteligência artificial pode transformar a economia apresentam uma lacuna: em grande parte, não levam em conta as atividades valiosas que as pessoas realizam fora do trabalho remunerado. Os estatísticos chamam essas atividades de “produção doméstica”, mas coletam pouquíssimos dados sobre ela. A pesquisa American Time Use Survey (Atus) é realizada anualmente nos Estados Unidos, mas sua escala é pequena e a maior parte dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) recolhe essas informações com menos frequência. Como resultado, há pouquíssima pesquisa econômica e quase nenhum debate sobre políticas públicas, ou sobre como a maioria de nós passa a maior parte do nosso tempo.

Mas investidores e autoridades deveriam se preocupar com as atividades não remuneradas. Quando mudanças sociais ou tecnológicas transferem atividades de um lado para o outro da fronteira de produção – do trabalho remunerado para o não remunerado, ou vice-versa – nossa interpretação dos sinais econômicos também precisa mudar. Nos anos 70 e 80, os números oficiais do PIB e da produtividade avançaram em países como o Reino Unido e os EUA, em parte porque as mudanças nas convenções sociais estavam levando mais mulheres casadas a dedicar uma parcela maior do seu tempo a atividades remuneradas.

A tecnologia digital já provocou grandes mudanças nessa fronteira da produção, principalmente no sentido do trabalho remunerado para o não remunerado. Hoje, as pessoas usam ferramentas digitais para realizar uma ampla variedade de tarefas, de operações bancárias ao planejamento de viagens, que antes exigiam a consulta de um profissional, sem falar em passar as próprias compras no caixa do supermercado. Enquanto isso, muitas pessoas compartilham gratuitamente na internet aquilo que produzem – softwares de código aberto, vídeos de entretenimento, aulas de música ou tutoriais do tipo faça-você-mesmo.

Esses exemplos representam a substituição do trabalho não remunerado pelo remunerado. Na maior parte, eles criaram um valor significativo ao consumidor. Com a IA prometendo transferir ainda mais atividades para além da fronteira da produção, a questão é como garantir que isso também se mostre valioso para as famílias.

Para responder essa pergunta, precisamos entender em que situações as pessoas consideram a IA mais útil fora do trabalho remunerado. O projeto ATLAS, do Google (do qual fui um dos consultores) oferece algumas pistas iniciais. Ele mapeou milhões de interações anonimizadas com o Gemini, associando-as às categorias de tarefas utilizadas pela pesquisa Atus, e comparou o volume de conversas de usuários dos EUA com a IA sobre cada categoria, com o tempo real que as pessoas dedicam a elas.

Lidar com a burocracia governamental e do setor privado consome uma enorme quantidade do tempo livre das pessoas. As ferramentas de IA têm potencial de mudar esse cenário, com implicações importantes para a economia

Segundo esse critério, tópicos como “alimentação e bebidas” e “deslocamentos” tiveram uma representação significativamente baixa nas interações com a IA em comparação com o tempo real gasto nessas atividades. Já as interações relacionadas à “socialização, relaxamento e lazer” – categoria que registra o maior uso geral da IA – ficaram em um patamar relativamente próximo ao tempo real dedicado a elas.

Por outro lado, a categoria “educação” teve uma representação acima da média: sua participação nas interações com a IA foi cerca de 5,8 vezes maior do que sua participação no tempo das pessoas. “Serviços profissionais e de cuidados pessoais” e “compras do consumidor” também registraram índices elevados. Mas nada se comparou à super-representação de “serviços governamentais e obrigações cívicas”, que apareceram quase 20 vezes mais frequentemente nas interações com a IA do que nos dados oficiais sobre o uso do tempo.

Em seu novo livro, “The Time Tax”, Annie Lowrey aponta que, nos EUA, as pessoas passam em média seis dias de trabalho porano lidando com a burocracia governamental e realizando tarefas como renovar licenças, declarar impostos e solicitar auxílios. A burocracia do setor privado – que vai desde negociações com seguradoras até o cancelamento de assinaturas – agrava ainda mais esse “imposto do tempo”.

A IA pode ajudar a reduzir esse fardo. Bons serviços digitais governamentais já oferecem eficiência e conveniência: recentemente, vi um amigo solicitar um passaporte on-line em poucos minutos. A regra “clique para cancelar”, proposta pelo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, mostra como as políticas públicas também podem aliviar a carga administrativa imposta pelo setor privado.

Os governos deveriam aproveitar a IA para promover avanços em ambas as frentes. Infelizmente, embora muitos governos estejam interessados em usar a IA para tornar as burocracias públicas mais eficientes, até agora eles tenderam a se concentrar na redução de custos para o Estado, e não na economia de tempo para os cidadãos.

Mesmo sem a ação do governo, o uso de ferramentas de IA pode poupar tempo e dinheiro para as pessoas. Um advogado do Reino Unido poderia cobrar 12.000 libras (US$ 16.220) de um cliente para tratar do inventário e administrar o espólio de um pai falecido, mas modelos de linguagem de grande porte (LLMs) são cada vez mais capazes de providenciar grande parte da documentação gratuitamente. Outros exemplos de tarefas que podem ser resolvidas com o chatbot, ou até delegadas a um agente de IA, incluem o design de interiores ou jardins, pesquisas de produtos para consumo e a espera na fila virtual por itens como ingressos para shows. A lista é extensa.

Assim como as tecnologias digitais levaram à desintermediação e à reintermediação de muitos serviços, os modelos de IA generativa provocarão rupturas em uma ampla gama de serviços. Novas startups de tecnologia jurídica (law-techs) poderão se ver competindo com chatbots ou agentes gratuitos, em vez de com escritórios de advocacia tradicionais e caros. Dinâmicas semelhantes surgirão em setores como educação, saúde, finanças e entretenimento.

Isso não precisa ser uma notícia ruim aos prestadores de serviços. O acesso gratuito à IA ampliará o mercado para esses tipos de serviços, além de substituir versões mais caras deles. Haverá um crescimento em produtos complementares: se eu puder redesenhar minha própria sala de jantar gratuitamente, talvez eu fique mais propensa a comprar papel de parede, cortinas e móveis novos.

Enquanto isso, os ganhos de produtividade no trabalho não remunerado – que possui valor econômico, apesar de ser amplamente excluído das estatísticas oficiais – poderiam ser enormes. Qualquer economista que tente prever como a IA vai transformar a economia, e qualquer autoridade que busque atualizar as proteções ao consumidor para a era da IA, terá de levar em conta a dimensão doméstica da fronteira de produção. (Tradução de Mário Zamarian)

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Utopia tecnológica de Moscou, em que tudo funciona por biometria, é armadilha de vigilância de Putin

Tecnologias de ponta remodelaram a capital russa, tornando-a mais segura, mais prática — e mais vigiada

Por Ivan Nechepurenko – Estadão/The New York Times – 15/09/2026

À primeira vista, a Moscou de hoje é um paraíso tecnológico. É possível usar o rosto para pagar quase tudo, como passagens de metrô, ou até mesmo para finalizar a compra de um apartamento. Robôs circulam pelas calçadas fazendo entregas de mantimentos em 15 minutos, e táxis autônomos devem começar a operar comercialmente ainda este ano.

Por trás de muitas dessas comodidades modernas está uma robusta infraestrutura digital desenvolvida pela prefeitura, que tornou a vida não apenas mais fácil, mas também mais segura. O policiamento auxiliado por ferramentas digitais ajudou a consolidar a transformação de Moscou, que há 25 anos era um lugar rude e implacável, assolado por roubos residenciais, assaltos nas ruas e homicídios.

Mas há um custo para essa conveniência e segurança: um estado de vigilância em expansão.

As cerca de 300 mil câmeras de vigilância de Moscou fazem dela uma das cidades mais vigiadas do mundo. É impossível escapar das lentes ao simplesmente caminhar pela cidade. As mesmas câmeras que conduzem os passageiros do metrô pelas catracas também são usadas para monitorar e sinalizar pessoas.

Em abril, um músico de rock russo foi detido pela polícia em uma estação ferroviária em São Petersburgo depois que as câmeras de vigilância o confundiram com uma figura pública ucraniana de aparência semelhante, procurada pelo Estado. Depois de verificar seu rosto e puxar seu cabelo para garantir que não fosse uma peruca, eles o liberaram.

A rede de vigilância está conectada a bancos de dados biométricos. O fornecimento de dados biométricos é voluntário na Rússia, mas é incentivado por meio de anúncios generalizados, e os cidadãos não podem aproveitar plenamente os serviços digitais sem cumprir essa exigência.

Essas bases de dados ajudam as autoridades a combater a dissidência política, além do crime. Os dados biométricos podem ser usados para localizar críticos do governo após a realização de manifestações. Os dias em que russos que se manifestavam abertamente podiam fugir para cidades remotas para escapar das autoridades, como faziam durante os expurgos de Stalin, acabaram, em grande parte.

Em julho, cerca de 10 milhões de russos utilizavam, de alguma forma, aplicativos baseados em biometria, e o Kremlin quer aumentar esse número, incentivando os cidadãos a adotarem essas ferramentas de identificação não apenas em estações de trem, mas também em aeroportos. Este ano, a Prefeitura de Moscou anunciou que um sistema biométrico reconheceria passageiros em ônibus e bondes, deduzindo automaticamente a tarifa assim que eles confirmassem a transação em um aplicativo.

Outras grandes cidades europeias também possuem amplas redes de câmeras de segurança, principalmente Londres. A de Moscou, no entanto, é mais centralizada e utiliza a biometria para identificar pessoas flagradas pelas câmeras com menos restrições.

Com a guerra da Rússia na Ucrânia, os riscos por trás da crescente vigilância tornaram-se maiores.

Rumores de uma nova onda de alistamento militar — a primeira grande mobilização desde os primeiros meses da guerra — se espalharam pela Rússia. Enquanto, no passado recente, era relativamente simples escapar do alistamento porque os escritórios de recrutamento estavam sobrecarregados com arquivos em papel, os sistemas digitalizados aprimorados por inteligência artificial tornam isso quase impossível agora. As autoridades introduziram intimações eletrônicas que têm o mesmo valor legal das notificações em papel, depois que milhares de russos fugiram do alistamento em 2022.

Em março, Vlad, de 28 anos, fotógrafo de arte e moda, recebeu uma intimação para comparecer a um escritório de alistamento militar para um exame médico obrigatório. Por meio do aplicativo “Serviços do Estado” — um portal centralizado para serviços governamentais, assistência médica e verificação de identidade —, ele descobriu que havia sido impedido de deixar o país até que cumprisse a intimação.

Vlad, que pediu que seu sobrenome não fosse divulgado por medo de represálias, disse que agora vive “com medo” por ter desobedecido à intimação, o que ele acredita que possa ser um prelúdio para ser enviado para a guerra.

“Há um controle total porque você fornece tantos dados que cada passo seu pode ser rastreado”, disse ele. Ele parou de usar o metrô, aterrorizado pelas câmeras.

Analistas alinhados ao Kremlin argumentam que o governo está usando aplicativos práticos e a coleta de dados para construir um sistema que atenda melhor às necessidades das pessoas do que o oferecido pelas democracias ocidentais, que têm dificuldade em fazer planos de longo prazo devido às mudanças no governo e, em alguns casos, limitam os serviços digitais por questões de privacidade.

A Rússia ainda está a alguns passos do sistema de “crédito social” da China, que classifica as pessoas com base em seu comportamento em questões financeiras, jurídicas e outras, e limita a liberdade dos infratores. Mas os tecnocratas russos claramente veem a arquitetura digital de Pequim como um modelo a ser seguido.

Gleb Kuznetsov, analista político que já trabalhou para um importante centro de estudos alinhado ao Kremlin, apontou Moscou, sob o comando de seu prefeito de longa data, Sergei Sobyanin, e Shenzhen, a megacidade chinesa de alta tecnologia, como modelos urbanos superiores às capitais ocidentais.

“O índice de aprovação de Sobyanin é alto não porque ‘as eleições carecem de concorrência’”, afirmou Kuznetsov em resposta a perguntas por escrito, “mas porque o governo municipal trabalha genuinamente em prol dos interesses de seus moradores”.

As autoridades russas, no entanto, podem agir rapidamente para desligar as redes que sustentam esses serviços digitais quando percebem uma ameaça à segurança, o que destaca uma tensão entre órgãos tecnocráticos e os serviços de segurança.

Em março, por exemplo, os serviços de internet móvel foram abruptamente interrompidos por mais de duas semanas em grande parte do centro de Moscou, inclusive no metrô, tornando temporariamente inúteis muitos dos serviços digitais mais valorizados da cidade.

Os moradores ficaram perplexos com o apagão, que, segundo especulações de alguns analistas, foi resultado de uma intensa paranoia do Estado após o assassinato do aiatolá Ali Khamenei no Irã.

“A Rússia vai voltar a uma situação de 25 anos atrás, em que se tem uma ‘globalização fragmentada’”, disse Jeremy Morris, um etnógrafo que é um dos poucos acadêmicos ocidentais que continuam realizando pesquisa de campo na Rússia.

“Você poderia entrar em um lugar e ele seria super, super cibernético e tecnológico”, acrescentou ele, “e então, ao sair da zona de cobertura, voltaria a uma economia básica”.

Serviços de internet foram interrompidos em vários momentos deste ano, desativando muitos dos serviços digitais da cidade  Foto: Nanna Heitmann/The New York Times

De acordo com uma autoridade russa envolvida no desenvolvimento da infraestrutura digital, que falou sob condição de anonimato por não estar autorizada a se pronunciar publicamente, uma guerra silenciosa está sendo travada dentro do Estado.

Órgãos tecnocráticos como o Ministério do Desenvolvimento Digital, disse ele, estão entrando em conflito com o Serviço Federal de Segurança, ou FSB (na sigla em russo) — especificamente seu notório departamento de policiamento político. Embora tenha acesso a ferramentas digitais, o FSB não esteve envolvido em sua criação. Ele prefere métodos analógicos tradicionais de monitoramento e controle da sociedade, disse a autoridade, mesmo que isso signifique sabotar a tecnologia que os tecnocratas gastaram bilhões para construir.

A postura do FSB é em parte motivada pela autopreservação institucional, já que a IA ameaça minar a justificativa para seu extenso aparato de agentes humanos, disse o funcionário.

Em última análise, tanto as agências digitais quanto as de segurança estão competindo pela atenção e pela opinião de um único homem: o presidente Vladimir Putin, que exigiu que o governo desenvolvesse a IA ao mesmo tempo em que a isolasse da influência ocidental.

Em abril, ao discursar em uma reunião de alto nível no Kremlin sobre IA, Putin enquadrou o que está em jogo em termos existenciais. “A soberania do Estado russo no futuro próximo — e, sem exagero, sua própria existência — depende de nossa capacidade de ter um bom desempenho em IA, juntamente com plataformas digitais e sistemas autônomos”, afirmou.

No entanto, apesar de todas as suas ambições, a Rússia carece da infraestrutura e do hardware necessários para desenvolver a tecnologia isoladamente da China e dos Estados Unidos. As sanções ocidentais relacionadas à invasão da Ucrânia limitaram o acesso da Rússia a chips de última geração, e muitos de seus principais especialistas técnicos deixaram o país desde o início da guerra, em 2022.

Os dois principais modelos de IA da Rússia — um desenvolvido pelo maior banco estatal do país e o outro pela principal empresa de tecnologia nacional — foram “inspirados” por arquiteturas chinesas de código aberto ou dependem fortemente delas.

No fim das contas, disse Ilya Grashchenkov, analista político baseado em Moscou, a Rússia provavelmente será definida pelo que ele chamou de tentativa de “combinar o que parece incompatível”. Isso, segundo ele, envolve a construção de um “perímetro digital externo” para isolar o país do mundo, ao mesmo tempo em que se acelera a digitalização dentro da Rússia.

Vlad, o fotógrafo que recebeu a convocação militar, disse que abriria mão de bom grado das conveniências de alta tecnologia e sem atritos se isso significasse recuperar a liberdade que realmente lhe faltava.

A vida na Rússia, disse ele, agora se assemelha a “viver com uma máscara de oxigênio”.

Utopia tecnológica de Moscou, em que tudo funciona por biometria, é armadilha de vigilância de Putin – Estadão 

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Brasil chega tarde na corrida dos data centers, mas com vantagens competitivas

Congresso cumpriu seu papel ao desenhar o arcabouço fiscal inicial; o desafio, agora, é regulatório: transformar vantagem energética e incentivo fiscal em um polo de atração

Por Welber Barral – Estadão – 14/09/2026

O Congresso acaba de aprovar o Redata, regime especial de tributação estruturado para tornar o Brasil competitivo na crescente disputa global por data centers. Se sancionado nos termos de sua aprovação, o programa reduzirá substancialmente o ônus fiscal sobre a importação e aquisição de equipamentos inerentes a essas estruturas.

O tema pode soar como uma exclusividade de engenheiros e técnicos, mas não é. No estágio atual da economia, a capacidade computacional consolidou-se como fator de infraestrutura primária. Da mesma forma que portos acompanharam a expansão do comércio marítimo e cabos submarinos viabilizaram a globalização das comunicações, os data centers formam a infraestrutura crítica que sustenta a expansão da inteligência artificial.

O Brasil chega tarde nessa corrida, mas com vantagens competitivas. E chega em um momento peculiar, no qual economias centrais (que primeiro abraçaram o fenômeno) começam a descobrir os inconvenientes de hospedar a infraestrutura que o mundo inteiro deseja utilizar.

Não haverá empregos tecnológicos massivos nestes projetos: data centers são estruturas intensivas em capital e altamente automatizadas

O Redata tenta corrigir uma desvantagem concreta: a maior parte do custo de implantação de um data center reside em equipamentos importados de alta tecnologia. A carga tributária brasileira transformava essa despesa em um obstáculo proibitivo num setor em que outras jurisdições disputam agressivamente investimentos com isenções, infraestrutura e energia barata.

O texto aprovado pelo Senado acerta ao prever a suspensão de tributos federais sobre o maquinário, mas sem abdicar de contrapartidas. Exige-se que as empresas reservem ao menos 10% da capacidade beneficiada ao mercado brasileiro, apliquem 2% das aquisições em investimentos locais e cumpram rigorosos requisitos ambientais, notadamente a utilização de energia de fontes renováveis e a observância de índices máximos de consumo hídrico no resfriamento dos servidores. É um equilíbrio regulatório razoável para um setor no qual há bilhões de dólares esperando para serem alocados.

Para conseguir hospedar dados, a infraestrutura requer variáveis concretas: energia abundante, barata e confiável; cabos submarinos e de fibra óptica; segurança jurídica; e, a depender do resfriamento, acesso à água. O Brasil dispõe de boa parte dessa combinação, com um ativo frequentemente subestimado. Em 2025, 86,8% da eletricidade brasileira teve origem em fontes renováveis; dado positivo, mas há que se considerar a intermitência. Para gigantes da tecnologia pressionadas por metas climáticas globais, esse indicador pode se tornar um diferencial econômico decisivo.

Contudo, energia renovável não significa energia inesgotável. Data centers são consumidores eletrointensivos e inflexíveis. Servidores de inteligência artificial operam ininterruptamente e não aceitam falhas de transmissão como desculpa para indisponibilidade. A expansão dessas cargas exigirá investimentos paralelos pesados na estabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN). Caso contrário, o Brasil terá a curiosa façanha de atrair a infraestrutura do século 21 apenas para descobrir que falhou em prover a infraestrutura elétrica do século 20.

Como desafio em todo o mundo, há ainda a restrição hídrica. O Redata exige um índice de eficiência igual ou inferior a 0,05 litro por kWh. A métrica é adequada, mas dependerá da capacidade fiscalizatória do Estado após o início das operações. A experiência norte-americana oferece uma advertência incontornável: durante anos, governadores competiram por data centers; hoje, comunidades nos EUA passaram a barrar novos projetos devido à exaustão de bacias hídricas, à competição por energia e ao risco de encarecimento das tarifas residenciais. A oposição local atrasou ou suspendeu, recentemente, cerca de 46 projetos, travando bilhões em investimentos anunciados. É o paradoxo similar ao das torres de telefonia: todos exigem sinal forte, desde que a antena seja instalada no quintal do vizinho.

Evitar esse gargalo no Brasil exige não incorrer em erros simétricos. Primeiro, há que se considerar que o país não pode renunciar à nuvem e à inteligência artificial. Tampouco podem ser mantidos subsídios indiscriminados. Os incentivos devem permanecer estritamente vinculados aos investimentos efetivos, às metas de eficiência e aos benefícios tecnológicos.

Nesse aspecto, surge oportunidade estratégica (e frequentemente ignorada): a exportação de capacidade computacional. Graças às recentes expansões regulatórias, as Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) brasileiras, como a do Pecém, passaram a comportar data centers voltados à prestação de serviços ao exterior. A implicação macroeconômica é brutal: uma ZPE combinada a cabos submarinos transforma a matriz energética renovável brasileira em serviços digitais exportáveis, mesmo considerada a latência. Em vez de exportar commodities em contêineres, o Brasil passa a exportar processamento em gigabytes.

Convém, no entanto, ancorar as expectativas. Não haverá empregos tecnológicos massivos nestes projetos. Data centers são estruturas intensivas em capital e altamente automatizadas. O ativo estratégico está nos encadeamentos tecnológicos que essa infraestrutura trará: demanda por engenheiros, especialistas em segurança cibernética e fornecedores de cloud computing. Aqui, a exigência de reinvestimento local (2% no Redata) pode, se aplicada criteriosamente, fomentar todo um ecossistema nacional de software e inovação.

A cadeia de valor do comércio global mudou e abrange pauta transversal de segurança energética, política industrial e comércio exterior. O Congresso cumpriu seu papel ao desenhar o arcabouço fiscal inicial. O desafio, agora, é regulatório: transformar vantagem energética e incentivo fiscal em um polo de atração que posicione o Brasil não como mero hospedeiro da inteligência artificial alheia, mas como exportador na nova economia digital.

Opinião por Welber Barral

Conselheiro da Fiesp, presidente do IBCI e ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil

Brasil chega tarde na corrida dos data centers, mas com vantagens competitivas – Estadão 

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Data centers no Ceará podem consumir energia equivalente a 7 milhões de residências

Expansão de cargas especiais pode representar até 12,9% do consumo elétrico da região Nordeste.

Mariana Lemos – Diário do Nordeste – 31 de Agosto de 2026 – 06:00

O Brasil e, em especial, o Ceará estão na mira de empresas de tecnologia interessadas em instalar data centers de hiperescala, equipamentos voltados ao processamento de inteligência artificial (IA), ao armazenamento de dados e à sustentação de computação em nuvem, que demandam consumo intensivo de energia.

O território cearense pode receber pelo menos seis projetos de data centers eletrointensivos até 2035, com consumo de energia previsto de 2,7 GW, conforme o Plano Decenal de Expansão de Energia da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). 

O montante é equivalente ao consumo de 7,1 milhões de residências cearenses, considerando um consumo mensal de 274 kWh por residência medido pelo Anuário Estatístico de Energia Elétrica.

O número pode ser bem maior, já que, segundo a Zona de Processamento de Exportação do Ceará (ZPE Ceará), 11 empreendimentos já tiveram aprovação para se instalarem no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp).

Um dos projetos mais avançados é o Data Center Pecém, que processará dados da ByteDance, dona do TikTok, e pode se tornar o maior empreendimento do tipo no Brasil. 

O empreendimento terá capacidade instalada de até 300 MW, com consumo de energia superior ao de 99% das cidades brasileiras, segundo laudo elaborado pelo Centro Nacional de Perícia do Ministério Público Federal (MPF). O projeto é tocado pela Omnia.

Outro mega data center do Estado, que deve ser anunciado em breve pela Tecto Data Centers, terá investimento de R$ 350 bilhões. A capacidade prevista do equipamento não foi divulgada, mas a dimensão sugere alto consumo energético.

A Voltalia, empresa de energias renováveis com atuação no Estado, também recebeu aval para construir um empreendimento de processamento de dados no Pecém

A empresa tem garantia de 322 MW de potência no grid elétrico do Complexo do Pecém e deve investir cerca de R$ 181 bilhões no negócio.

A Casa dos Ventos, que irá fornecer energia renovável para o data center do TikTok, também pode construir o próprio empreendimento na região. A cearense comprou direitos da Voltalia para 650 MW de acesso à rede elétrica, que podem ser usados em novos projetos de data centers. 

Após a publicação desta coluna, o Governo do Ceará entrou em contato para se posicionar sobre o tema. De acordo com ele, o primeiro empreendimento de data center (Omnia/TikTok) no Ceará deve operar no último trimestre de 2027 com 300 MW de consumo bruto (200 MW para TI), com um investimento inicial de R$ 3,7 bilhões em parques renováveis no Estado. A projeção de demanda total do setor é escalonada, segundo o governo, podendo atingir até 3,34 GW entre 2027 e 2035, sob aprovação inicial do CZPE de 20 anos (prorrogável por até 40), com números sujeitos a ajustes conforme o avanço do licenciamento e da operação.

A Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) disse que essas estimativas consideram a capacidade máxima para dimensionamento e afirmou que comparações diretas com o consumo residencial devem ser analisadas com cautela. Segundo a pasta, enquanto os data centers operam em regime ininterrupto (24/7) com carga concentrada para processamento e refrigeração, o consumo das residências flutua conforme hábitos e número de moradores, além de a métrica doméstica não contabilizar o uso indireto de energia por serviços e espaços públicos.

EQUIPAMENTOS ELETROINTENSIVOS EXIGEM CAUTELA

O crescimento exponencial da demanda por energia com o surgimento de data centers deve ser avaliado com atenção pelas entidades locais e do setor elétrico devido aos riscos ambientais, aponta o doutor em Informática, mestre em Engenharia Elétrica e pesquisador do IFCE, Mauro Oliveira. 

“No Ceará, temos energia sobrando, então isso pode ser um bom negócio. Só que esse bom negócio precisa ser supervisionado, precisa ter transparência, métricas auditáveis”, comenta. 

Uma das preocupações ambientais é o elevado uso de água, já que os equipamentos eletrointensivos precisam de resfriamento para que permaneçam funcionando ininterruptamente. 

O Data Center do TikTok recebeu aval para explorar poços que podem retirar 144 mil litros de água por dia. Já o consumo previsto, informado no pedido de licenciamento, é de 19,7 mil litros de água ao dia. 

Além disso, a região deve sofrer efeitos da construção dos grandes empreendimentos e dos parques de usinas renováveis necessários. O projeto, que terá operação da Bytedance, envolve a instalação de quatro usinas de energia solar e eólica. 

A implantação de data centers deve estar associada à expansão de geração renovável, mas não significa que que cada centro precisará dispor de uma usina exclusiva, segundo o doutorando em Planejamento Energético e pesquisador do Grupo de Estados do Setor Elétrico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Gesel/UFRJ), Igor Barreto Julião. 

“No Ceará, onde já existe uma forte base de geração renovável e grande potencial de expansão, essa nova demanda pode reforçar a complementaridade entre os investimentos em infraestrutura digital e o desenvolvimento do setor de energia renovável”, aponta.

Pela legislação, os empreendimentos instalados em ZPEs devem utilizar exclusivamente energia de fontes renováveis. Mas a ausência de emissões não elimina os impactos socioambientais da instalação dos parques.

Para Oliveira, é essencial que sejam firmadas contrapartidas para a contratação de investimentos de data centers na região. Entre as medidas bem-vindas, estão a reparação de efeitos colaterais, atração de novos negócios correlatos e geração de empregos. 

“O data center não vai parar, a IA não tem volta. O que a gente não pode ter é um ‘entusiasmo de colonizado’, de ver muito dinheiro e já ficar entusiasmado. É preciso negociar, perguntar. Não é porque temos energia barata que podemos fazer tudo que as empresas querem”, opina.

ALTA DEMANDA EXIGE REPLANEJAMENTO DO SISTEMA

A necessidade de fornecer volumes elevados de energia a data centers de forma contínua exige disponibilidade de grande parcela da rede de transmissão. O porte inédito dos empreendimentos exigiu mudanças nos critérios de operação e planejamento do sistema.

A Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST), instituída em dezembro de 2025, busca otimizar o acesso de geradores e consumidores à Rede Básica do Sistema Interligado Nacional (SIN).

Na prática, podem ser priorizados empreendimentos considerados estratégicos para conexão ao sistema elétrico. Na primeira chamada, foram admitidos 367 projetos, sendo 288 de geradores de energia e 79 de consumidores. 

Para viabilizar os acessos, serão necessárias expansões da transmissão para ampliar a capacidade de conexão dessas novas cargas, destaca Igor Barreto Julião. 

“Entre as obras consideradas na alternativa recomendada pela EPE estão a implantação da nova Subestação Pecém e aproximadamente 1.848 quilômetros de novas linhas de transmissão em 500 kV, interligando instalações nos estados do Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí”, aponta. 

O especialista ressalta que a expansão será escalonável, devido ao grau de incerteza quanto à concretização dos investimentos. Para o Ceará, é necessário assegurar o planejamento coordenado da entrada de novas cargas.

A EPE avalia que a preparação do sistema elétrico para atender a essas novas demandas com segurança, eficiência e racionalidade econômica representa um grande desafio. 

Um dos dilemas do planejamento é que as decisões de investimentos em plantas de grandes cargas requerem garantias de conexão, porém a decisão de expansão do sistema de transmissão exige confirmação da demanda da rede. 

Por outro lado, os centros digitais exercerão um papel importante em reduzir a disparidade entre a demanda e a oferta de energia. O “excesso de geração” é um dos fatores de sobrecarga da rede elétrica

A Superintendência de Estudos Econômicos e Energéticos da EPE destaca que o Nordeste terá um papel importante na expansão de demanda energética relacionada a data centers, com previsão de conexão de mais de 5 GW nos próximos anos.  

A expansão de cargas especiais, correspondente a data centers, usinas de hidrogênio verde e veículos eletrificados, pode representar até 12,9% do consumo elétrico da região Nordeste. Em um cenário mais restritivo, corresponderia a 1,4% do consumo elétrico. 

Atualmente, existem 27 contratos assinados e 30 pedidos de acesso favoráveis emitidos. O segmento de hidrogênio verde, que avança a passos mais lentos, pode ter um consumo energético ainda maior. 

Para o Ceará, a EPE projeta que 10 usinas de hidrogênio verde devem demandar 12,47 gigawatts. O Ceará é o estado com mais solicitações no segmento de hidrogênio renovável.

Data centers no Ceará podem consumir energia equivalente a 7 milhões de residências – Mariana Lemos – Diário do Nordeste 

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