A história começa com uma caneta feita para tratar diabetes e obesidade. Mas talvez não termine na balança.
Nos últimos anos, medicamentos como a semaglutida ficaram famosos por ajudarem pacientes a perder peso. Primeiro vieram as imagens de antes e depois. Depois, os debates sobre uso estético, escassez nas farmácias, efeitos colaterais e a transformação de um tratamento médico em fenômeno cultural.
Mas uma surpresa apareceu no consultório.
Alguns pacientes começaram a relatar algo curioso. Não era apenas a fome que diminuía. Era o pensamento em comida que perdia força. O doce na gaveta chamava menos. A taça de vinho no fim do dia deixava de parecer inevitável. O cigarro depois do almoço perdia urgência. Algumas pessoas relatavam até menos vontade de comprar por impulso, beliscar sem fome ou abrir a geladeira como quem procura uma resposta que não está lá.
Era como se alguém tivesse abaixado o volume de uma rádio interna.
Essa talvez seja a parte mais fascinante da história. Por muito tempo, tratamos fome, vício, compulsão e impulso como problemas separados. A comida ficou com a nutrição. O álcool com a psiquiatria. O cigarro com a pneumologia. A obesidade com a endocrinologia. Cada excesso em sua gaveta. Cada comportamento com sua explicação.
O cérebro, porém, não organiza a vida em especialidades médicas.
Por trás de muitos desses comportamentos existe uma rede comum ligada à recompensa. É o sistema que nos faz buscar prazer, repetir experiências agradáveis e aprender o que vale a pena procurar de novo. Ele é essencial para a sobrevivência. O problema começa quando passa a trabalhar alto demais, insistente demais, como um alarme que não desliga.
É aí que entram os medicamentos da família do GLP-1. O GLP-1 é um hormônio produzido no intestino depois das refeições. Ajuda o corpo a regular a glicose, aumenta a saciedade e retarda o esvaziamento do estômago. Por isso, tornou-se uma ferramenta importante no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Mas sua ação não parece se limitar ao estômago e ao pâncreas. Existem receptores de GLP-1 também no cérebro, inclusive em áreas envolvidas com motivação, prazer e impulso.
Em outras palavras: esses remédios não conversam apenas com a barriga. Eles também parecem conversar com a vontade.
Isso não significa que sejam “remédios contra vícios”. A realidade é mais cautelosa do que a manchete gostaria. Estudos observacionais recentes sugerem que pessoas em uso de semaglutida podem ter menor risco de alguns transtornos relacionados ao álcool, cannabis e opioides. Ensaios clínicos começam a investigar esse caminho de forma mais direta. Há sinais promissores, especialmente em pacientes com obesidade e consumo abusivo de álcool. Mas ainda estamos no começo.
E começo de história, em medicina, exige freio.
Nem todo achado vira tratamento. Nem toda associação prova causa. Esses medicamentos têm efeitos colaterais, principalmente gastrointestinais, e não devem ser usados como atalho, moda ou promessa de autocontrole químico. Para várias compulsões, a evidência ainda é preliminar. No Brasil, faltam dados próprios.
Mesmo assim, há uma mudança importante em curso.
Durante décadas, compulsões foram tratadas como falhas de caráter. Quem bebia demais “não tinha limite”. Quem comia sem fome “não tinha força de vontade”. Quem fumava “não queria parar”. Claro que escolhas importam. Ambiente importa. Comportamento importa. Mas a biologia também importa.
A ideia de que um hormônio intestinal possa interferir em desejos, urgências e recompensas mostra que o impulso não mora apenas na moral. Mora também no corpo. Mora em circuitos cerebrais. Mora em sinais químicos que aproximam intestino, metabolismo e comportamento.
Talvez a grande notícia não seja que medicamentos como o Ozempic possam, um dia, ajudar em algumas compulsões. Talvez a grande notícia seja outra: estamos começando a entender que o excesso nem sempre é excesso de desejo. Às vezes, é excesso de ruído.
E quando a medicina aprende a escutar esse ruído, fica mais perto de ajudar o paciente a encontrar silêncio.
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Corrida para construir a infraestrutura do futuro é a mais importante desde a era nuclear
Álvaro Machado Dias – Folha – 8.mar.2025
Neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind e colunista da Folha
[RESUMO] Disputa para liderar a revolução tecnológica desencadeada pela inteligência artificial promete remodelar a geopolítica nas próximas décadas, de forma tão acentuada quanto a Guerra Fria. EUA e China protagonizam os embates, mas Europa, Coreia do Sul e Taiwan também ocupam papéis importantes no tabuleiro de acordos, embargos e transferência de tecnologia deste jogo de resultados imprevisíveis.
A evolução tecnológica acelera-se com o tempo e, com ela, a tendência a enxergar as coisas que inventamos como uma segunda natureza. Inteligências artificiais (IAs) generativas são uma etapa desse processo no domínio das criações que externalizam e automatizam a nossa inteligência. A fase seguinte envolverá robôs com sensores e sistemas motores que replicam os nossos, afinal, o mundo não se resume a telas.
Os incentivos para liderar a evolução tecnológica são tremendos e estão sendo discutidos nos grandes centros de poder sob o prisma da infraestrutura.
Tal como a internet baseia-se em cabos interoceânicos, satélites e protocolos universais de comunicação, não tardará o momento de estabelecer protocolos para que as IAs e os sistemas físicos em que são embarcadas possam interagir globalmente e multiplicar seu impacto, o que deve ser decidido em função da relevância das alternativas. Isso faz da corrida pela supremacia em IA a mais importante desde a era nuclear.
Estados Unidos e China dominam a cena, que não é mero replay da antiga Guerra Fria. Ainda que as faíscas estejam por todos os lados, os adversários são interdependentes, sem contar que estão no negócio de oferecer alternativas para o mundo livre, o que a União Soviética via com ceticismo.
Até aqui, os dois gigantes vêm adotando estratégias opostas. O incumbente ocidental opta pela defesa exaustiva de seus segredos, enquanto o desafiante aposta na pulverização do conhecimento por meio da distribuição de soluções de código livre.
A intenção é evitar que o consórcio público-privado americano consolide seu monopólio, enquanto corre para reduzir o gap tecnológico que subsiste, a despeito de os chineses contarem com ativos valiosos: alunos mais bem formados em exatas, 200% mais engenheiros de software e ética de trabalho superior.
Uma vantagem potencial de Pequim é ser mais simpática para os países em desenvolvimento, consolidando sua liderança entre o Brics, que hoje representa 40% da população mundial e 35% do PIB por paridade de compra. Enquanto Trump distribui cotoveladas, Xi Jinping, líder chinês, pensa obsessivamente em destravar a demanda reprimida das economias médias. No entanto, a missão é mais difícil do que parece.
O segredo das IAs atuais é colocar o processador (GPU) para resolver matrizes de comparação de palavras, até o ponto em que dê para assumir que uma é boa. O mesmo vale para imagens, vídeos e tudo o mais.
A mágica, portanto, não emerge somente dos algoritmos generativos, mas do hardware, onde as demandas a serem destravadas encontram embargos e outros obstáculos de natureza geopolítica, que os chineses não conseguem contrapor com seus próprios trunfos materiais, como a hegemonia no refinamento das terras raras, fundamentais para a indústria tecnológica.
A contenda sobre os segredos industriais desses hardwares é antiga e já envolveu múltiplas empresas e países. Ela começou a ganhar contornos quando William Shockley descobriu uma propriedade fascinante do germânio, utilizado na construção de radares. Dependendo da corrente aplicada, o material se torna condutor ou isolante.
Isso o remeteu a Alan Turing, que inventou o processador universal para quebrar a criptografia nazista (Enigma), abrindo as portas para uma revolução produtiva e intelectual. O problema é que a máquina de Turing dependia de técnicos, os “computadores”, que faziam as operações usando switches.
A descoberta de Shockley permite a substituição desse trabalho manual pela própria eletricidade. Quando ela passa, temos o “1”; quando não, temos o “0”. Assim surgiram os semicondutores e, moto-contínuo, o Vale do Silício.
O desafio decorrente nunca deixou de ser atual: como compactar mais semicondutores em um único circuito? Esse fator é crucial, já que o aumento da distância entre eles reduz o poder de processamento, de nada adiantando construir circuitos do tamanho de uma cidade.
A resposta veio do entendimento de que os próprios circuitos poderiam ser feitos de semicondutores, o que deu origem ao chip, criado por dissidentes do grupo de Shockley (fundadores da Intel) e considerado a invenção mais importante do século 20 pelos historiadores da tecnologia.
O material era caríssimo, a construção complicada e o mercado incipiente, mas em 1957 os russos lançaram o Sputnik, primeiro satélite a orbitar a Terra, levando a Nasa a procurar inovações capazes de tirar o atraso americano.
Chips prometiam reduzir substancialmente o peso dos controladores a bordo dos satélites, alterando o curso da corrida espacial e talvez até levando o homem à Lua, o que de fato aconteceu em 1969 para o espanto do mundo.
A década de 1960 foi de imensa tensão entre os Estados Unidos e a União Soviética, a qual também desenvolveu sua indústria de semicondutores, com o objetivo de se preparar para a corrida armamentista.
Na ocasião, surgiram as primeiras restrições à exportação de circuitos eletrônicos e os primeiros esquemas para burlá-las, com os soviéticos montando empresas de fachada ao redor do mundo para comprar e repassar os chips para os russos, que os replicavam em um complexo industrial perto de Moscou. Funcionou bem por uma década.
Mais de 90% dos microprocessadores fabricados na década de 1960 tinham destinação militar. A obsessão com a Terceira Guerra Mundial canalizou as verbas estatais para pesquisa e desenvolvimento, o que levou ao barateamento dos chips e, por consequência, ao fortalecimento da indústria de eletroeletrônicos, que já na década seguinte havia ultrapassado a militar e hoje produz mais de 1,5 trilhão de chips por ano. Foi exatamente aí que a natureza planificada da economia soviética cobrou o seu preço.
Entre a metade da década de 1960 e a reestruturação econômica de 1986 (Perestroika), a distância entre a qualidade dos bens produzidos no Ocidente e a do mundo soviético acentuou-se dramaticamente, justamente porque a eletrônica era incipiente.
Quem se lembra do Lada sabe do que estou falando: mecânica de tanque, experiência de carroça. A razão é a ausência de circuitos integrados nas montadoras, o que se estendia às fábricas de geladeiras, telecom, máquinas industriais e aos computadores pessoais, que ninguém tinha em casa.
Boa parte da insatisfação da população soviética advinha do conhecimento de que havia televisões coloridas e máquinas automáticas de café do outro lado da Cortina de Ferro.
Chips elevam tremendamente as experiências sensoriais e tiveram papel muito maior para a sublevação contra o comunismo soviético do que aparece nos livros de história.
Esses pequenos geradores de experiências tecnológicas também são fundamentais para a compreensão da inserção da Rússia capitalista na ordem mundial. O país atropelou os Estados Unidos e seus aliados em uma invasão em plena Europa —sendo que modelos empíricos mostram que é cerca de três vezes mais difícil invadir um país do que defendê-lo—, ao mesmo tempo que foi incapaz de registrar uma única patente relevante neste século.
O fator que fez com que os russos ficassem na poeira é o mesmo que explica a emergência da China, na esteira de outros países asiáticos: a priorização da indústria de eletroeletrônicos, composta de bilhões de consumidores, em vez da bélica, composta de um punhado. No mercado global de tecnologia, mais do que em qualquer outro, ser o melhor decide o jogo.
Foi exatamente por essa via que o primeiro grande rearranjo produtivo do pós-guerra ocorreu, durante a década de 1980, com a emergência do Japão como potência criativa e econômica da então chamada terceira revolução industrial.
Livre de embargos, os japoneses foram de importadores de semicondutores americanos para líderes incontestes no mercado civil de alta tecnologia e donos de 50% das fábricas do mundo. Nada ilustra melhor essa história do que o walkman,uma invenção do brasileiro Andreas Pavel convertida em produto de mercado em 1979, que entrou para o dicionário Oxford em 1986, por ter se tornado sinônimo da categoria.
O toca-fitas portátil, com seus quatro chips, foi o segundo produto tecnológico moderno mais importante da história, só perdendo para o iPhone (2007). Porém, no ano de sua consagração vernacular, os americanos forçaram os japoneses a assinar um acordo que limitava severamente suas exportações de chips, ao mesmo tempo que passaram a fazer transmissões maciças de tecnologia para a Coreia do Sul, cuja indústria era incipiente.
A economia do Japão tomou um tombo do qual nunca se recuperou, ao passo que a do tigre asiático cresceu sob princípios que impedem o país de se tornar um novo Japão.
Por outro lado, conseguiu embargar a exportação de tecnologias não militares de ponta para a China, arquiteta da invasão da parte Sul pela Norte (Guerra da Coreia, 1950-1953), ainda que essa restrição não fosse crítica para os americanos. Enquanto isso, no Ocidente, livros sobre inovação e livre mercado eram impressos para as massas.
A globalização tecnológica
A entrada dos computadores pessoais na casa das pessoas, durante a década de 1980, levou a uma especialização dramática da cadeia produtiva de eletrônicos, mas um princípio se mantinha: os fabricantes de semicondutores tanto concebiam quanto produziam os dispositivos responsáveis pela experiência de magia.
Suas fábricas custavam bilhões, e toda vez que alguém aparecia com uma descoberta digna de um Prêmio Nobel —foram vários— iniciava-se uma guerra orçamentária para definir se valeria ou não a pena reconstruir o parque industrial para acomodá-la.
Essa é a narrativa de alguns dos “nãos” mais desastrosos da história da tecnologia, como o da Kodak, que rejeitou a criação de máquinas fotográficas digitais (1976), e o da Blackberry, que fez o mesmo em relação às telas sensíveis ao toque (2007).
Em 1987, Morris Chang, então com 55 anos (o equivalente profissional de 65 anos atuais), migrou dos Estados Unidos para Taiwan, onde colocou em prática a ideia que molda a atual geopolítica da IA: uma indústria de semicondutores exclusivamente dedicada à fabricação de chips para outras empresas, que ele batizou de TSMC.
Chips são a criação em escala mais complexa da história da humanidade. Eles são prédios microscópicos, com pavimentos de plantas gigantescas, com uma profusão de detalhes obsessivamente ordenados. O WSE-3 da Cerebras (fabricação TSMC), chip de IA mais avançado do mundo, possui 4 trilhões de transistores ao longo dos seus pavimentos.
Como se observa nesse caso e em todos os outros, os avanços produzidos são a verdadeira expressão do que a parceria científico-empresarial significa. Eles raramente acontecem sem saltos teóricos extraordinários, seguidos por invenções produtivas capazes de convertê-los em existências ordinárias.
Assim, é de se entender por que ninguém deu atenção àquilo que o ex-engenheiro da Texas Instruments se meteu a fazer, numa época em que o Japão dominava, com um modelo produtivo em que chips e produtos eram vistos como uma coisa só.
No entanto, o mundo estava errado, e Chang, certo. A partir da virada do milênio, os gigantes da tecnologia passaram a abandonar a fabricação do segredo do seu negócio para se concentrarem em seu design.
Surgia assim o conceito de “fabless”, as empresas de tecnologia sem fábricas de supercondutores, que hoje se aplica à Apple, à Microsoft, à Tesla e até à Nvidia, que equipa todas as outras com chips fabricados por Morris Chang.
A relevância geopolítica da TSMC, responsável por 15% do PIB de Taiwan em 2023/2024, excede a da grande maioria dos países e faz dela a empresa mais importante do mundo. Apenas ela é capaz de fabricar os chips que estão na fronteira da virada para a IA, que caminha para se consolidar como um dos três grandes pilares da dominância global, junto com a moeda de reserva e o parque de armas, que vem se fundindo à IA.
A empresa taiwanesa exerce papel correspondente ao das grandes petroleiras na estratégia dos americanos para tentar assegurar sua hegemonia global pelo maior tempo possível.
Nos últimos cem anos, o pilar central do imperialismo americano foi o controle da distribuição do petróleo, maná do mundo moderno. Durante a Segunda Guerra, 60% do óleo do mundo era produzido pelos Estados Unidos, o que permitiu ao país endividar os aliados (Lend-Lease Act, 1941), antes mesmo de qualquer discussão sobre a reconstrução da Europa, criando as bases para acordos que consolidaram a hegemonia americana no “Oeste”.
A ideia agora é abrigar, sob as asas de águia do Estado, as empresas responsáveis por tornar a IA a infraestrutura do mundo digital, robótico e militar. Esse é o prisma pelo qual o risco de uma invasão chinesa a Taiwan precisa ser visto.
O que está em jogo não é só a soberania de um protetorado ocidental no Mar da China, mas o risco de disrupção da indústria que hoje alicerça a principal estratégia para a manutenção da supremacia global dos americanos, em meio aos indicadores de declínio da unipolaridade.
A situação é séria a ponto de existirem planos para a implosão das fábricas da TSMC no caso de uma invasão chinesa. O mundo entraria em recessão, mas os chineses pagariam seu preço.
Paralelamente, os americanos correm para internalizar a cadeia produtiva da IA. Em 2022, foi promulgado o Chips & Science Act, uma lei de incentivo multibilionária para fomentar a indústria de semicondutores do país, com apoio de republicanos e democratas, da Câmara e do Senado e do governo federal.
O impulso foi um acordo com Morris Chang para a construção de unidades da TSMC nos EUA. A primeira está prestes a entrar em operação (no Arizona em 2025), mas já é certo que permanecerá distante da capacidade de fabricar em escala os chips que definirão o futuro da IA.
A razão é que a TSMC não é simplesmente a líder na criação das pecinhas mais complexas do mundo; ela é a arquiteta de uma cadeia logística sem precedentes.
No centro desta está a ASML, da Holanda, que comercializa as máquinas usadas na indústria desses chips avançados, as quais custam US$ 380 milhões cada uma e são consideradas as mais sofisticadas peças de engenharia de todos os tempos.
A empresa holandesa detém sozinha o segredo da fotolitografia por raios ultravioleta extremos (EUV), uma técnica para criar circuitos em escala atômica, usando pulsos de laser em plasma que geram raios ultravioleta a 13,5 nanômetros, direcionados pelos espelhos ultraprecisos para printar os circuitos. É bem complexo, mas lembra o mimeógrafo.
A única indústria capaz de produzir esses espelhos é a alemã Carl Zeiss. Mais de cem outros componentes do equipamento só têm um fornecedor mundial, quase todos na Europa e no Japão. A máquina de EUV tem sua venda proibida para a China desde 2019 e há um cuidadoso controle para outros países, supervisionado pelos governos holandês e americano.
Essa cadeia logística traduz o que é a globalização na atualidade. Trata-se de algo diferente do que cantou Gilberto Gil em “Parabolicamará” (1991) e pode ser sumarizado assim:
1) Ainda que Trump esteja subtraindo o protagonismo americano em boa parte das instituições globais e taxando amigos e inimigos, segue totalmente investido na blindagem da cadeia logística que verdadeiramente importará para a supremacia americana nas próximas décadas. Salvo exceções de método, o ponto é consensual nos Estados Unidos há décadas.
2) A Europa, o Japão e, claro, Taiwan têm papéis bem mais importantes na revolução da IA do que uma análise da procedência dos softwares sugere. Como se diz nesse meio, a TSCM tem o poder de paralisar o mundo, e a ASML tem o poder de paralisar a TSMC.
A corrida para estabelecer a IA como a nova infraestrutura global nem sempre passa pelas empresas que ocupam as manchetes, como a OpenAI e o Google. Aliás, ela cada vez mais tende a estar relacionada a fabricantes de armas autônomas e outros sistemas robóticos, que vêm fazendo o caminho inverso ao que nos trouxe até aqui, incorporando avanços das tecnologias civis na criação de máquinas de matar que não geram publicidade negativa em casa.
3) A despeito de todos os avanços conseguidos, a China está de três a cinco anos atrás dos americanos no que se refere à fabricação de chips de última geração, uma vez que esta emerge de uma miríade de patentes embargadas, as quais são oriundas de décadas de trabalho em centros de pesquisa espalhados pelo Ocidente e Japão.
Mesmo que os chineses tomassem as fábricas de Taiwan e passassem a produzir chips de última geração, seguiriam sem acesso continuado às máquinas de fotolitografia da ASML, necessárias para a próxima e mais crítica fase da IA.
4) Os embargos vêm obrigando a China a colocar todos os esforços na internalização da cadeia produtiva completa dos chips de IA e a fazer o mesmo na translação à produção de robôs de trabalho e armas autônomas. Os avanços são notáveis, como mostram os novos chips de IA da Huawei.
No entanto, a verdade é que eles apenas decorrem de usos mais espertos de máquinas antigas da ASML e não do domínio sobre a litografia de ponta.
Se esta for dominada, o que em algum momento deve acontecer, o padrão dólar será o último bastião da hegemonia americana, que desse modo tende a sucumbir. Alijar a China da cadeia produtiva mais importante do mundo é vantajoso para os EUA em curto prazo, mas introduz riscos altíssimos de médio e longo tempo.
Toda disputa tem um fim
Os chips mais avançados da atualidade são os da TSMC de 3 nm (nanômetros), sendo que um fio de cabelo tem cerca de 100.000 nm. A empresa, assim como Samsung, Intel e a startup japonesa Rapidus, tem planos de lançar uma versão de 2 nm em 2027 e seguir em direção aos angstroms (décimos de nanômetros), o tamanho dos próprios átomos.
Os incentivos são bilionários, e as consequências, planetárias, o que sugere que os empecilhos fabris serão superados. Todavia, o repto não acaba aí.
A partir de 2 nm —e, sobretudo, 1nm—, fenômenos quânticos tomam conta, fazendo com que os elétrons atravessem as barreiras estabelecidas pelos semicondutores como se esses não existissem, o que torna estéril a própria noção de design de circuito.
Soluções hipotéticas estão cobrindo sucessivas capas da revista Nature, em geral pela manipulação de outros efeitos quânticos para neutralizar os indesejáveis.
No Vale do Silício e em Shenzhen, a aposta é que haverá uma transição tecnológica, durante a primeira metade da década que vem, por meio da qual mesmo os processadores digitais serão semiquânticos.
A mecânica quântica é centenária, mas a aplicação dos seus princípios para computar é nova e radicalmente complexa. Isso significa que a conjuntura pode voltar a ser como na época em que Alan Turing bateu o Enigma pela capacidade de tratar a ciência fundamental de modo superior.
Essa é justamente a aposta em curso na China, que vem multiplicando seus investimentos, enquanto Trump e seu tecnologista-mor passam a faca no Orçamento.
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Segundo estudo, aumento da inserção do Brasil no mercado chinês pode ocorrer por meio de parcerias com redes de hotpot chinesas e supermercados físicos e digitais
Por Rafael Walendorff – Valor – 18/05/2026
Trabalhadores na fábrica de snacks Chongqing Lilai Food; empresa processa carne brasileira e de outras origens — Foto: Abiec/Divulgação
O principal segmento atendido atualmente pela carne bovina brasileira na China é o food service. A estimativa é que o produto já responda por mais de 60% da carne utilizada em restaurantes populares, redes de fast food e restaurantes de hotpot, aponta o estudo do adido agrícola em Pequim, Leandro Feijó.
O aumento da inserção do Brasil no mercado chinês pode ocorrer, por exemplo, por meio de parcerias com redes de hotpot chinesas e supermercados físicos e digitais, pela comercialização de kits de carnes e vegetais para preparo de hotpot doméstico, pela inserção em aplicativos de delivery de refeições e estratégias de degustações com transmissões ao vivo pela internet, sugere o estudo.
Chongqing é uma das quatro cidades administradas pelo governo central ao lado de Pequim, Xangai e Tianjin. Com mais de três mil anos de história, foi construída às margens do rio Yangtze. Tem mais de 20 mil pontes e viadutos que também interligam a estrutura multinível da cidade, com ruas e praças a dezenas de metros de altura e até uma linha de metrô que passa literalmente dentro de um prédio residencial.
Motor do desenvolvimento da região central e oeste do país, a cidade tem crescido rapidamente e já tem mais de 32 milhões de habitantes no centro urbano e nos diversos distritos espalhados nos mais de 80 mil quilômetros quadrados de extensão do município, tamanho parecido com o Estado de Santa Catarina.
Mas não é só no hotpot que o consumo da carne brasileira pode crescer na China. Durante o evento da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) em Chongqing, o renomado chef de cozinha Mao Xiaojun fez releituras de outros pratos da culinária chinesa com carne brasileira, como rolinho primavera e carne multissaborizada ao estilo Sichuan, província vizinha de Chonqing. Ele é dono do Silver Pot, restaurante na cidade de Chengdu que ganhou estrela Michelin por quatro anos consecutivos.
“São pratos que combinam ingredientes globais com a culinária local. É a globalização da culinária”, disse durante o preparo das receitas. “A carne bovina brasileira tem excelente qualidade”, elogiou.
O produto nacional também é usado pela indústria de processamento chinesa. A Chongqing Lilai Food é uma delas. A empresa, visitada pela reportagem, fabrica snacks de carne seca, um produto considerado patrimônio cultural imaterial. Com faturamento anual de cerca de R$ 370 milhões, a Lilai Food lidera o mercado local. Além de atuar no varejo, tem forte estratégia de vendas digitais por aplicativos, como TikTok e WeChat.
Diversas empresas brasileiras exportam cortes do dianteiro para a fábrica localizada a 25 quilômetros do centro da cidade. No estoque, havia produtos de ao menos três frigoríficos brasileiros: Naturafrig, MBRF e Minerva. “Procuramos colaboração estável e de longo prazo com fornecedores brasileiros”, disse Wendy Liu, assistente de gerente geral da empresa.
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O ChatGPT pode identificar doenças com precisão impressionante. Decidir o que fazer com essa informação ainda é uma tarefa profundamente humana.
Estudos indicam que sistemas de IA já conseguem diagnosticar algumas doenças com precisão comparável à de médicos. O desafio começa quando é preciso decidir o tratamento.
Andrew Parsons – Fast Company Brasil – 06-06-2026
Um pai está preocupado com seu filho pequeno, que está com febre há dois dias e puxando uma das orelhas. Uma mulher de 65 anos começou a sentir falta de ar durante suas caminhadas matinais e está mais cansada do que o habitual. Ambos pegam seus celulares e digitam os sintomas em um chatbot de inteligência artificial.
“Seu filho provavelmente está com uma infecção de ouvido”, descobre o pai.
“Seus sintomas podem indicar uma condição cardíaca”, lê a mulher.
São respostas úteis — e há uma boa chance de estarem corretas. A inteligência artificial está se aproximando, e em alguns casos até superando, a capacidade dos médicos de fazer diagnósticos precisos. Um estudo publicado em abril de 2026 na revista Science constatou que o modelo o1, da OpenAI, alcançou uma taxa de acerto de 78% em casos diagnósticos complexos publicados no The New England Journal of Medicine. O sistema também superou médicos experientes na avaliação de pacientes reais em pronto-socorros.
Acertar o diagnóstico, porém, é apenas metade do trabalho de um médico. A outra metade é saber o que fazer com essa informação, ou seja, decidir como lidar com a condição de saúde de um paciente.
Sou médico e pesquisador da educação médica. Estudo como os profissionais da medicina tomam esse tipo de decisão, um processo conhecido como raciocínio de manejo clínico, e como profissionais em formação desenvolvem essa habilidade.
Para problemas de saúde mais simples, um diagnóstico feito por IA pode ser suficiente para que alguém procure o atendimento adequado. Talvez seja o caso de usar um creme anestésico para aliviar a gengiva de um bebê ou marcar uma consulta com um cardiologista.
Mas a incerteza é comum na prática clínica. Muitas vezes, saber o que está acontecendo com um paciente é necessário, mas não suficiente para determinar como cuidar dele. E decidir qual é a melhor forma de conduzir um caso, mesmo quando o diagnóstico já está estabelecido, é uma questão complexa.
Diagnóstico categoriza. O manejo prioriza
Acertar o diagnóstico, porém, é apenas metade do trabalho de um médico. A outra metade é saber o que fazer com essa informação, ou seja, decidir como lidar com a condição de saúde de um paciente.
Médicos experientes não avaliam cada paciente do zero. Ao longo dos anos de prática, eles desenvolvem atalhos mentais conhecidos como illness scripts.
Esses modelos mentais vão muito além de listas de sintomas. Eles reúnem informações sobre como uma doença costuma se apresentar, quem tende a desenvolvê-la e como normalmente evolui. Quando um médico atende um novo paciente, compara aquilo que observa com esses modelos, em um processo de categorização e reconhecimento de padrões.
Quando um paciente apresenta um conjunto familiar de sinais e sintomas, o médico acessa rapidamente o modelo correspondente, quase sem perceber. Isso permite que ele identifique elementos que não se encaixam perfeitamente: um sintoma inesperado ou um detalhe do histórico do paciente, como uma viagem recente ao exterior ou uma exposição incomum no trabalho, que pode apontar para outro diagnóstico.
Modelos de linguagem de grande porte, como o ChatGPT, funcionam de maneira semelhante. Eles preveem qual palavra deve vir em seguida com base em padrões aprendidos a partir de enormes volumes de texto, incluindo literatura médica.
Nessa literatura, por exemplo, a palavra “pneumonia” costuma aparecer associada a determinados padrões de sintomas, como febre e uma área opaca observada em uma radiografia de tórax. Nesse nível, o reconhecimento de padrões é essencialmente o mesmo processo que um médico utiliza ao relacionar sintomas a um modelo mental de doença.
Mas decidir o que fazer a seguir — quais exames solicitar, quais tratamentos tentar, o que monitorar e quais acompanhamentos realizar — funciona de forma diferente.
Em vez de uma única resposta correta, o médico se depara com várias opções razoáveis. A arte do manejo clínico está justamente em definir qual delas é a melhor para o paciente que está à sua frente.
A IA não sabe o que você viveu nem quais riscos está disposto a aceitar.
A VANTAGEM HUMANA NA MEDICINA
Como um médico passa do diagnóstico para a decisão sobre o melhor cuidado possível? A resposta quase sempre é a mesma: depende.
Considere dois homens, Marcus e Tomás. Ambos têm 68 anos e acabam de receber o diagnóstico de câncer de próstata em estágio inicial. As biópsias mostram exatamente a mesma situação: um tumor de crescimento lento, restrito à próstata.
Os dois recebem as mesmas opções de manejo.
A primeira é iniciar imediatamente o tratamento, por meio de cirurgia ou radioterapia, aceitando riscos como incontinência urinária e alterações na função sexual. A segunda é acompanhar a evolução do tumor por meio de exames e biópsias regulares, tratando-o apenas se houver crescimento.
Um estudo que acompanhou mais de 82 mil homens com câncer de próstata em estágio inicial durante 15 anos constatou que menos de três em cada cem morreram em decorrência da doença, independentemente da estratégia escolhida. Por outro lado, aqueles que optaram pelo monitoramento tiveram aproximadamente o dobro de chance de apresentar disseminação do câncer.
A IA consegue apresentar essas duas opções, juntamente com os dados estatísticos.
O que um médico acrescenta é o conhecimento sobre a pessoa sentada à sua frente. Marcus não possui outras condições de saúde relevantes. Seu médico sabe disso. Também o conhece bem o suficiente para saber que ele lida mal com a incerteza.
Para um paciente sem outros problemas graves de saúde, um tumor de crescimento lento pode ter tempo suficiente para evoluir e se tornar algo mais sério. Ambas as opções são razoáveis, mas Marcus não consegue conviver com a espera. Saber que há um câncer em seu corpo, mesmo sendo monitorado, é algo que ele não consegue ignorar.
Ele escolhe o tratamento.
Tomás vive uma situação diferente. Ele sofre de insuficiência cardíaca avançada, uma condição que sua médica acompanha há anos.
Ela sabe que o problema cardíaco representa uma ameaça muito mais imediata à sua saúde do que o tumor de crescimento lento. Sabe também que ele viu um amigo passar pela radioterapia e sair profundamente debilitado. Nesse contexto, um tratamento agressivo significaria assumir custos reais em troca de um benefício que talvez nunca se concretize.
Ela recomenda a vigilância ativa.
Para Tomás, essa é a resposta certa e um alívio. Tomar decisões diferentes faz parte da medicina. O melhor caminho depende de quem é o paciente, do que ele valoriza e do julgamento do médico sobre até que ponto as evidências disponíveis são confiáveis ou ainda cercadas por incertezas.
JULGAR RISCOS E INCERTEZAS
Para decidir como conduzir um caso, o médico primeiro considera as evidências científicas disponíveis e depois aplica as opções de tratamento à realidade específica daquele paciente.
Isso exige comunicação honesta, tomada de decisão compartilhada, avaliação conjunta de riscos e reconhecimento das incertezas envolvidas. Parte desses riscos pode ser medida.
Em casos de dor no peito, por exemplo, os médicos utilizam sistemas de pontuação que estimam a probabilidade de um infarto com base nos sintomas e nos resultados dos exames. A IA provavelmente consegue fazer esses cálculos mais rápido do que a maioria dos profissionais.
Mas o risco e a incerteza encontrados no consultório ou à beira do leito são mais difíceis de quantificar. Sistemas de pontuação e diretrizes clínicas são projetados para o paciente médio, uma pessoa idealizada que, na prática, não existe.
Além disso, tanto a percepção de risco dos médicos quanto a dos pacientes é moldada por suas experiências. Para muitos pacientes, isso inclui uma longa e justificada história de desconfiança em relação ao sistema de saúde.
A IA não sabe o que você viveu nem quais riscos está disposto a aceitar.
Ela não consegue reconhecer a incerteza da mesma forma que um bom médico, voltando a discutir essas questões com você à medida que suas circunstâncias mudam.
É aqui que diagnóstico e manejo seguem caminhos diferentes.
O pai da criança com febre provavelmente recebeu uma resposta útil. A IA já analisou casos suficientes de crianças febris na literatura médica para fazer uma avaliação razoável.
Mas saber o que fazer em seguida — incluindo quando continuar observando e quando começar a se preocupar — ainda é uma conversa que vale a pena ter com seu médico.
Esse artigo foi traduzido e republicado do The Conversation sob a licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui.
SOBRE O AUTOR
Andrew Parsons, MD, MPH, é professor associado de medicina na Universidade da Virgínia (UVA) e diretor de pesquisa e desenvolvimento acadêmico da Divisão de Medicina Hospitalar da instituição. Atua no atendimento de pacientes internados com diferentes condições de saúde, tanto no período pré quanto pós-operatório.
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Plano inclui estratégias para nuvem, código aberto e IA
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João Caminoto – Folha – 4.jun.2026
Paris
Soberania no papel
A Comissão Europeia escolheu esta quarta-feira (3) para anunciar um plano de soberania tecnológica. O pacote de medidas lançado promete reduzir a dependência do continente em chips, nuvem, inteligência artificial (IA) e código aberto.
“Não podemos nos dar ao luxo de depender de outros para as tecnologias que mantêm nossos hospitais funcionando, nossas redes de energia estáveis e nossos serviços seguros”, afirmou a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen.
“Trata-se de proteger nossos cidadãos, defender nossos interesses e fazer nossas próprias escolhas.”
Curiosamente, o problema da dependência ficou explícito nesta semana, em dois lugares ao mesmo tempo. O primeiro é digital. A peça mais sensível do pacote, o Cloud and AI Development Act (Lei de Desenvolvimento de Nuvem e IA), quer barrar provedores de nuvem americanos das licitações públicas europeias para dados críticos.
Levada a sério, a exigência praticamente exclui as empresas americanas do nível mais alto de soberania. A razão é a lei dos EUA que permite a Washington exigir os dados dessas companhias onde quer que estejam armazenados.
Em paralelo, a Agência da União Europeia para a Cibersegurança negocia acesso ao Mythos, o modelo de IA da americana Anthropic usado para encontrar falhas de segurança.
Seria a primeira vez que a ferramenta sairia dos EUA e do Reino Unido. O ponto ainda em aberto é quanto dos próprios sistemas europeus a empresa americana enxergaria em troca —exatamente o tipo de dependência que o pacote quer combater.
O segundo lugar é o campo de batalha. Na madrugada de 2 de junho, a Rússia lançou um ataque recorde sobre a Ucrânia: 23 mortos, mais de cem feridos, Kiev e Dnipro no alvo.
Os mísseis mais difíceis de abater, os hipersônicos Zircon, encontram no interceptador PAC-3 sua resposta mais eficaz —fabricado pela americana Lockheed Martin e disparado pelo sistema Patriot.
A resposta europeia existe —o sistema franco-italiano SAMP/T NG—, mas ainda não foi testada em combate na versão mais recente, e a produção de seus mísseis não dá conta da demanda. A Dinamarca já o escolheu no lugar do Patriot, justamente para escapar da tutela americana.
Chips, nuvem, cibersegurança, defesa antiaérea: em todas as frentes, a Europa tem o diagnóstico certo e a ambição declarada. O que falta é o que não se aprova por decreto.
Os defensores do pacote têm um argumento legítimo. Reconhecer a dependência é o primeiro passo para sair dela, e usar uma ferramenta americana hoje não impede de construir a própria amanhã.
Bruxelas insiste que não se trata de protecionismo, mas de concorrência justa. Do outro lado, há quem alerte para o risco oposto: o comando da Siemens avisou que frear a adoção de IA em nome da soberania custaria caro à indústria europeia.
A tensão é real, e vai durar. A Europa produz menos de 10% dos semicondutores do mundo e quase nenhum dos mais avançados. Triplicar a capacidade de data centers em cinco a sete anos, como o pacote propõe, esbarra em energia, licenças e mão de obra especializada que não existem ainda.
Soberania não se anuncia em coletiva. Mede-se em capacidade instalada. E, nesse quesito, a distância entre o que Bruxelas quer ser e o que consegue entregar vai continuar sendo notícia.
OCDE, Paris —a reunião que ficou animada
A sede da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) fica no bairro de La Muette, no 16º arrondissement de Paris. As reuniões ministeriais anuais que acontecem no Château de La Muette costumam ser concorridas, mas previsíveis, quase entediantes: discursos bem-comportados, declarações de consenso, defesa de reformas estruturais mundo afora. A exceção quase sempre é o Economic Outlook —o relatório com as projeções para a economia mundial, que esta semana veio repleto de alertas.
Desde que Donald Trump voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, o tom em La Muette mudou. As reuniões ganharam uma tensão que não era comum — e esta semana não foi diferente. Na pauta: o impacto econômico da guerra no Oriente Médio e as novas tarifas anunciadas por Washington nos últimos dias, que incluíram o Brasil.
O Outlook projeta crescimento global caindo de 3,4% em 2025 para 2,8% em 2026, com energia e fertilizantes pressionando a inflação e corroendo a confiança. Para o Brasil: 1,6% este ano, freado pelos juros altos.
Nos corredores, uma cena resumiu bem o clima. Na manhã de quarta (3), o governo americano anunciou tarifas adicionais contra o Brasil e outros 58 países e a União Europeia. Todos foram acusados de não coibir importações produzidas com trabalho forçado. Um dia antes, o USTR havia concluído uma investigação aberta contra o Brasil em 2025 e proposto uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros.
O responsável pelas medidas, o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, estava no evento. Ele cruzou com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, num intervalo. Foi Greer quem se aproximou: disse que o diálogo com o Brasil segue fluido e que quer mantê-lo. Vieira confirmou a disposição brasileira. Lembrou que as negociações precisam se intensificar, ainda dentro do prazo de 30 dias acordado pelos dois presidentes em Washington. O constrangimento na OCDE, no entanto, era geral. Há limites para o que a diplomacia de corredor consegue atenuar.
A Noruega olha para dentro
Por duas vezes, em 1972 e em 1994, os noruegueses disseram não à Europa. Agora, Oslo admite que talvez seja hora de rever a resposta.
O chanceler Espen Barth Eide afirmou ao Financial Times que o “mundo benigno” em que seu país recusou a adesão deixou de existir. Não foi um lapso de entrevista: três semanas antes, em discurso ao Parlamento, ele havia avisado que comércio, tarifas e energia viraram armas e que, num mundo assim, ficar sozinho é ficar exposto.
A Noruega está no mercado único, mas sem assento nas decisões: acata as regras do bloco sem ajudar a escrevê-las.
O que mudou foi o entorno. As guerras tarifárias de Washington e as divisões dentro da Otan tornaram a adesão mais atraente. E há um gatilho próximo: a Islândia marcou para agosto um referendo sobre retomar as negociações de entrada.
Para a UE, seria um troféu. A Noruega é a maior produtora de petróleo e gás da Europa, e o bloco já tem nove candidatos na fila, incluindo a Ucrânia. O recado da semana é esse: no “mundo louco”, o clube europeu vira abrigo. Até quem sempre preferiu ficar na porta começa a olhar para dentro.
Frase da semana
“Esta crise também demonstra que a necessidade de desvincular nossas economias da dependência de importações de combustíveis fósseis é cada vez mais urgente”
Stefano Scarpetta
economista-chefe da OCDE, ao apresentar o Economic Outlook, em Paris, 3 de junho
No radar
5 de junho — Cúpula UE-Bálcãs Ocidentais em Tivat, Montenegro. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o presidente francês, Emmanuel Macron, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, na mesa. O tema é alargamento —o mais relevante em anos. Montenegro e Albânia são os favoritos; a Sérvia segue complicada.
A semana toda:
Negociações Brasil-EUA sobre tarifas. O prazo de 30 dias acordado pelos presidentes está correndo. O encontro Vieira-Greer em Paris foi o sinal mais recente de que o canal está aberto.
Ucrânia. Após o ataque recorde russo de 2 de junho — 23 mortos, Kiev e Dnipro no alvo —, olho nos próximos movimentos de Moscou e nas negociações em curso.
Oriente Médio. As negociações pelo fim do conflito com o Irã continuam. O impacto sobre energia e commodities segue como termômetro da economia global.
Fora da pauta
Os Demônios, de Fiódor Dostoiévski, foi publicado em 1872. Mas é difícil ler sobre fanatismo, manipulação e violência política na Europa de hoje sem pensar nele. Dostoiévski escreveu o livro a partir de um assassinato político real na Rússia czarista. O que ele encontrou por trás do crime —o niilismo, o ressentimento transformado em projeto, a destruição como ideologia— não envelheceu. Envelhecemos nós, que de tempos em tempos, precisamos redescobrir o aviso.
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Comentarista-chefe de economia no Financial Times, doutor em economia pela London School of Economics
Como alguém que não sabe quase nada sobre IA (inteligência artificial) deveria pensar sobre suas implicações para a humanidade? Embora seja ousado, não é absurdo usar a formulação do sábio judeu Maimônides ao abordar a relação entre revelação e filosofia. Afinal, nem mesmo o maior dos sábios consegue compreender plenamente a divindade.
Portanto, o fato de eu não entender as implicações da IA não deveria me impedir de lutar para entendê-las. Talvez minhas dificuldades também ajudem outras pessoas.
Então, vamos lá. A pergunta que desejo considerar é: “IA é bênção, maldição ou bolha?” Além disso, uma vez que tenhamos observado as respostas, há alguma escolha que a humanidade possa realisticamente fazer para garantir que seja muito mais a primeira do que a segunda, ou estamos condenados a ser arrastados pela carruagem da IA, queiramos ou não, para onde quer que ela vá?
A resposta à pergunta sobre se é apenas uma bolha ajudará a estabelecer a base para responder a essas questões também. Então, o que significaria a IA ser uma bolha? Há duas possibilidades.
Uma é que algo importante está de fato acontecendo, mas os mercados não conseguem estimar os retornos e estão sendo levados a um frenesi especulativo. Isso, por sua vez, está alimentando uma onda insustentável (e em certa medida não lucrativa) de investimentos.
Mais cedo ou mais tarde, essa bolha vai estourar, os preços das ações vão desabar, muitas empresas antigas e novas vão falir e o investimento vai diminuir. Mas, ainda assim, ficaremos como ficamos após os booms ferroviários do século 19 e a bolha das pontocom dos anos 1990: com infraestrutura útil. A herança foram trilhos, no caso do primeiro, e cabos de fibra óptica, no caso do segundo. Tais bolhas podem transformar o mundo.
A outra possibilidade é que a IA seja um disparate. As bolhas do Mississippi e dos Mares do Sul do início do século 18 na França e na Inglaterra vêm à mente: estouraram, arruinaram alguns e mudaram pouco.
Então, o que está acontecendo com a IA é uma bolha e, se for, de qual tipo? O consenso, que eu (tentativamente) compartilho, é que a IA é real. Se estamos no limiar da inteligência artificial geral, como argumenta Demis Hassabis do Google DeepMind, não faço ideia. Mas os modelos atuais parecem impressionantes, especialmente em seu papel “agêntico”.
Além disso, como observa o investidor de capital de risco Rubén Domínguez Ibar em sua newsletter “The AI Corner”, alguns provedores, notadamente a Anthropic, estão gerando aumentos enormes de receita, o que ajuda a explicar as enormes avaliações esperadas em IPOs (ofertas públicas iniciais, na sigla em inglês). Então, o mercado está de fato efervescente, mas parece baseado na realidade.
Alguns fizeram comparações entre a espetacular alta das ações da Nvidia com o desempenho não muito diferente da Cisco na bolha das pontocom. Mas eles notam uma diferença: os lucros da Nvidia dispararam, enquanto o lucro líquido da Cisco apenas dobrou nos dois anos até julho de 2000. Além disso, uma análise do PIIE (Peterson Institute for International Economics) sugere que a IA já está gerando um enorme salto oculto no PIB (Produto Interno Bruto) real dos EUA.
É impossível dizer que os mercados estão “certos” ao julgar a lucratividade dos atuais e futuros campeões da IA. Também é possível que os lucros que estamos vendo na Nvidia (ou mesmo a receita da Anthropic) não se sustentem quando a onda de investimentos e o hype da IA diminuírem. Mas a IA não é apenas uma bolha, ela tem realidade.
Isso nos leva então à questão “bênção ou maldição”. Tive uma discussão com o ChatGPT sobre isso. Após algumas idas e vindas entre nós, acabamos listando as principais bênçãos e maldições da seguinte forma.
Primeiro, as bênçãos: melhor assistência médica; aceleração da ciência; produtividade muito maior; educação em escala; progresso mais rápido em clima e energia limpa; melhor acessibilidade e inclusão (conversão de fala em texto e tradução automática); melhores serviços públicos; melhor transporte e ambientes de trabalho mais seguros; melhorias na criatividade e expressão cultural; e melhor acesso ao conhecimento humano em todo o mundo.
Depois, as maldições: perda de controle e responsabilização humana; novas armas letais (notadamente patógenos, mas também outros armamentos, alguns nas mãos de terroristas); desemprego em massa; vastas concentrações de poder nas mãos de monstros; vigilância em massa e controle autoritário; ainda mais desinformação e manipulação; enormes ameaças à segurança cibernética; consolidação de vieses e discriminação mascarados como “objetividade”; erosão da agência e das habilidades humanas; e os custos ambientais de sistemas que consomem vastos recursos.
O que pensar dessas listas (inteiramente plausíveis)? Minha primeira conclusão é que a IA não é apenas mais uma “tecnologia de propósito geral”. Se ela se desenvolver das maneiras que parecem prováveis, pode mudar quase tudo: a IA é de fato existencial. Se a humanidade tivesse algum senso coletivo (o que não tem) e tivesse a capacidade de se deter (o que não tem), ela, penso eu, pausaria tudo isso.
Minha segunda conclusão é que a IA inevitavelmente desencadeou uma competição entre empresas e governos. Minha suposição é que qualquer coisa que tal tecnologia possa fazer será feita. Então, veremos corridas competitivas tanto pelas bênçãos quanto pelas maldições.
Minha terceira conclusão é que os controles relativamente bem-sucedidos sobre a proliferação nuclear e a disponibilidade de novos medicamentos não podem servir de precedentes. Isso porque a IA não será propriedade exclusiva de Estados, como as armas nucleares têm sido (até agora), e não é uma única classe de produtos, como medicamentos. Ela é polivalente.
O ChatGPT sugeriu que a humanidade deveria parar de tratar capacidade tecnológica como sinônimo de progresso, que deveria significar florescimento em condições de “segurança, liberdade e legitimidade”. O papa Leão concorda: construir “para o bem comum”, diz ele em sua encíclica. Mas isso é possível e, se for, como? Vou considerar isso na próxima semana.
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Um avião da Força Aérea Real Britânica (RAF), que transportava o Secretário de Defesa do Reino Unido, John Healey, sobrevoava a Estônia perto da fronteira com a Rússia na semana passada quando algo estranho aconteceu.
De acordo com dados de voo analisados pelo Serviço Mundial da BBC, o transponder da aeronave repentinamente começou a indicar que ela estava em território russo, a 300 quilômetros de distância de onde estava segundos antes.
Supostamente, o avião estava voando a apenas 11 quilômetros por hora sobre um lago perto de São Petersburgo. Mas nada disso era verdade. O sistema de navegação da aeronave havia sido afetado por um ataque cibernético. Isso ocorre quando uma área é inundada por sinais de rádio que imitam os de GPS.
Como os sinais de satélite são relativamente fracos quando chegam à Terra, um transmissor terrestre pode emitir sinais falsificados mais fortes, que podem ser captados por sistemas de navegação, incluindo os de aeronaves.
A prática, conhecida como spoofing, é normalmente realizada por militares que buscam reduzir a precisão de armas inimigas que usam navegação por GPS, como mísseis de longo alcance e pequenos drones.
Muitas forças armadas possuem unidades especializadas que constroem transmissores em bases fixas ou os instalam em veículos. Mas voos comerciais agora estão sendo afetados por essa guerra eletrônica.
Pilotos da Força Aérea Real foram forçados a guiar a aeronave usando um sistema de navegação mais antigo e menos preciso, que opera em paralelo com o GPS. O Ministério da Defesa britânico declarou que a segurança da aeronave não foi comprometida.
Na verdade, não foi a única aeronave na área afetada naquele dia. Dados compartilhados com a BBC pela consultoria de aviação SkAI Data Services mostram que mais de cem aeronaves com passageiros a bordo estavam transmitindo localizações incorretas como resultado de falsificação de sinal.
Os mesmos dados indicam que a falsificação e o bloqueio de sinal — outro tipo de interferência que mascara os sinais de satélite para impedir o funcionamento do GPS — estão se tornando cada vez mais comuns em áreas próximas a zonas de guerra ou onde há muita atividade militar, como a região do Mar Báltico, o Golfo Pérsico, o Mar Vermelho, a Índia, o Paquistão e a área ao redor de Mianmar.
No Golfo Pérsico, por exemplo, houve um aumento repentino no número de voos que relataram falsificação de GPS após o início da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro.
Em março, 5.381 voos relataram falsificação, um aumento em relação aos 99 de fevereiro e aos 14 de janeiro, segundo a SkAI Data Services.
Os casos na região do Báltico dispararam de 17.243 em 2024 para 59.447 em 2025, ainda de acordo com a SkAI Data Services.
Esse aumento coincide com o crescente uso de ataques com drones no conflito entre a Rússia e Ucrânia.
Outras rotas aéreas movimentadas na Europa, no Oriente Médio e na Ásia também sofreram com falsificação ou interferência de GPS, com uma média de mais de 800 voos afetados diariamente em todo o mundo neste ano.
Considerando que a tecnologia necessária para isso é facilmente encontrada na maioria dos países, especialistas temem que esse fenômeno se torne generalizado.
Falsificação atrapalha mesmo pilotos experientes
Este foi o problema que o piloto britânico Sam Rutherford enfrentou quando pilotava um avião de quatro lugares da Arábia Saudita para Omã no mês passado.
Quando estava próximo da fronteira entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, os sistemas de navegação e o piloto automático pararam de funcionar.
A princípio, ele pensou que poderia ser um problema com o avião, mas várias companhias aéreas na região relataram o mesmo problema.
Descobriu-se que tanto a falsificação dos sinais do GPS quanto o bloqueio das ondas estavam afetando sua aeronave.
Rutherford, que pilotou helicópteros no Exército Britânico por oito anos, usou a bússola magnética de seu avião e contatou o controle de tráfego aéreo para obter ajuda na navegação até seu destino.
Embora tenha pousado em segurança, ele afirma: “Se eu tivesse encontrado mau tempo, pouco combustível e fosse noite, a situação teria sido muito diferente”.
Os riscos da falsificação
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
Um dos riscos da falsificação de sinais de navegação é que, ao serem levados a acreditar que estão em uma posição diferente da real, os pilotos podem acabar desativando ou ignorando os alertas dos sistemas de prevenção de colisão com o solo, afirma Tanja Harter, presidente da European Cockpit Association, entidade que representa cerca de 40 mil pilotos.
Esse sistema alerta os pilotos quando identifica risco iminente de colisão com o solo ou com obstáculos, como montanhas.
Harter afirma que há inúmeros relatos de pilotos recebendo alertas falsos para ganhar altitude, mesmo quando a aeronave voa a 37 mil pés (cerca de 11,3 mil metros).
Sistemas de radar que ajudam as aeronaves a evitar condições climáticas adversas também podem apresentar mau funcionamento, acrescenta.
Embora muitas companhias aéreas façam um bom trabalho ao fornecer informações aos pilotos, Harter diz que a combinação desses problemas “está comprometendo a segurança a bordo das aeronaves”.
O piloto Artur Rodionov conta que um “salto da Lituânia para o Mar do Norte” foi a maior discrepância entre a realidade e a localização exibida na tela que ele já presenciou. “São mais de 1.600 quilômetros”, diz Rodionov, que pilota pequenos aviões de passageiros para a empresa de fretamento estoniana Diamond Sky Aviation.
Em resposta a essas ocorrências, Rodionov conta que sua empresa desenvolveu protocolos para lidar com a falsificação de sinal, incluindo a desativação do GPS pelos pilotos ao sobrevoarem áreas conhecidas por interferências.
Isso permite que o piloto monitore se os sinais da aeronave estão sendo falsificados, evitando que o restante do equipamento de navegação seja afetado.
Rodionov afirma que a falsificação de sinal pode causar problemas especialmente para pilotos inexperientes ou quando as aeronaves apresentam outros problemas, como uma pane mecânica ou falha de equipamento. “Sem dúvida, isso representa uma carga de trabalho adicional”, conclui.
Interferências permitidas
Não é ilegal que países interfiram no GPS.
O órgão das Nações Unidas (ONU) que regula os sinais de radiodifusão, a União Internacional de Telecomunicações, autoriza a prática para fins de segurança ou defesa, embora tenha expressado a sua “profunda preocupação” com o fato de a sua utilização generalizada estar ameaçando a segurança das aeronaves.
A instituição europeia de segurança da navegação aérea, Eurocontrol, afirma que as aeronaves têm “medidas de mitigação em vigor para garantir a manutenção da segurança” durante a falsificação de sinais e que a tecnologia de navegação aérea e o controle de tráfego em terra podem guiar a aeronave.
Os fabricantes de aeronaves estão trabalhando com os fornecedores da aviação para encontrar soluções técnicas contra a falsificação de sinais, acrescenta a Eurocontrol.
Mas a BBC apurou que há indícios de que as organizações da aviação, incluindo a Eurocontrol, estão mais preocupadas.
Em uma apresentação identificada como “não destinada ao público geral”, à qual a BBC teve acesso, há um alerta de que a falsificação de sinais “mina os princípios atuais de segurança da cabine de comando”.
Especialistas do setor sugerem que existe uma urgência maior em encontrar uma solução para o problema do que a reconhecida publicamente. “As companhias aéreas estão clamando por melhorias”, diz Todd Humphreys, professor de engenharia aeroespacial da Universidade do Texas, nos Estados Unidos.
“O que teremos que fazer é desenvolver novas tecnologias muito mais resilientes”, acrescenta.
Soluções possíveis
Possíveis soluções incluem a atualização do software das aeronaves para filtrar interferências, o uso de antenas direcionais para que os equipamentos possam ignorar sinais falsificados vindos do solo e sistemas de navegação totalmente novos que funcionem em conjunto com o GPS.
Mas implementar mudanças em equipamentos críticos para a segurança pode levar tempo. Humphreys alerta que não é apenas o transporte marítimo comercial que pode ser afetado por falsificação e bloqueio de GPS. Isso pode impactar até mesmo aplicativos de mapas para celulares.
“Trata-se do tráfego marítimo, das pessoas dirigindo nas estradas”, diz ele. “Sempre que um conflito eclodir no futuro, podemos esperar que o GPS seja uma das primeiras vítimas.”
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O País gera energia de sobra, mas gerar não é o mesmo que entregar
Rodrigo da Silva – Estadão – 02/06/2026
Não há nada mais imaterial, à primeira vista, do que digitar uma pergunta num assistente de IA e ver a resposta surgir na tela em questão de instantes. E, no entanto, poucos gestos do nosso a dia a dia mobilizam tanta matéria.
Cada pergunta consome energia: uma trivial gasta o equivalente a uma busca no Google; uma que exija um raciocínio mais pesado pode custar dez vezes mais. Parece pouco – até a gente multiplicar por bilhões de consultas diárias.
E não é só energia. Cada pergunta também consome água, porque os servidores que processam a resposta precisam ser resfriados. Consome espaço, linhas de transmissão, fibra óptica.
Só os quatro primeiros grandes complexos de IA anunciados no nosso país já têm consumo potencial equivalente ao de mais de 16 milhões de residências. Na Irlanda, a previsão é que os data centers respondam por 1/3 de toda a demanda elétrica nacional em 2026. E nós estamos só no começo dessa tecnologia.
Nos anos 1950, as grandes potências competiam por bombas atômicas; nos anos 1980, por mísseis intercontinentais. Em 2026, a corrida estratégica é por energia.
Nos últimos meses, os Estados Unidos aprovaram pacotes bilionários para ampliar a sua capacidade de geração – reatores nucleares de nova geração, fazendas solares do tamanho de cidades inteiras, parques eólicos. A China instalou, só em 2023, tanta capacidade solar quanto o mundo inteiro havia instalado no ano anterior, e mantém esse ritmo numa escala sem precedentes. Os países do Golfo despejam bilhões de petrodólares em projetos que combinam energia barata, vastas extensões de terra e políticas agressivas de atração de empresas de tecnologia.
Energia virou sinônimo de capacidade de IA, e capacidade de IA está se tornando sinônimo de poder militar e independência tecnológica. O país que conseguir alimentar mais data centers com energia barata e confiável treinará os melhores modelos e dominará as indústrias do futuro.
Mas alimentar um data center não significa só gerar eletricidade. Significa entregar essa eletricidade de forma estável, em escala e com velocidade. Um modelo de inteligência artificial pode levar meses sendo treinado em milhares de processadores trabalhando simultaneamente; se a energia oscila ou falha, o treinamento inteiro pode ser interrompido, e com ele milhões de dólares. Por isso esses complexos vêm sendo concebidos quase como infraestruturas críticas – mais próximos de uma refinaria ou de uma base militar do que de um centro tecnológico convencional.
Por décadas, as empresas do Vale do Silício podiam nascer numa garagem e alcançar bilhões de pessoas sem ocupar muito mais do que alguns metros quadrados. Os grandes clusters de IA romperam com essa lógica. A IA precisa de áreas enormes, próximas a linhas de transmissão robustas, com acesso a água e boa conectividade.
Um único data center moderno pode consumir milhões de litros de água por dia para resfriar os seus servidores. No condado de Newton, na Geórgia, uma única instalação da Meta consome 500 mil galões por dia – o equivalente a 10% de todo o consumo de água do condado. No Texas, a projeção é que os data centers cheguem a consumir quase um trilhão e meio de litros de água por ano até 2030.
Para situar essa cifra: um brasileiro consome, em média, 175 litros de água por dia para tudo – beber, cozinhar, tomar banho, lavar roupa, dar descarga. São 64 mil litros por pessoa ao ano. A água que os data centers texanos devem consumir em 2030 abasteceria, por um ano inteiro, mais de 23 milhões de brasileiros: mais do que toda a população da Grande São Paulo.
Vale a pena descrever o percurso. Quando alguém usa um serviço como o ChatGPT, a pergunta sai do celular, viaja por cabos submarinos e redes de fibra óptica, chega a um data center provavelmente instalado nos Estados Unidos, é processada por milhares de chips em paralelo, e a resposta retorna em poucos segundos. Não se paga diretamente por isso – ou se paga uma assinatura de vinte dólares por mês. Parece barato, quase gratuito. Mas não é: a experiência só existe porque empresas americanas investiram bilhões para construir essa infraestrutura.
É aqui que o caldo engrossa. Quando uma empresa brasileira usa inteligência artificial, ela está, na prática, alugando inteligência. E esse movimento se aprofunda com o tempo.
No começo, a empresa contrata um serviço estrangeiro de IA porque é fácil, rápido e funcional. Aos poucos, ela adapta processos a essa ferramenta – integra sistemas, treina equipes, acumula dados dentro da plataforma. Três anos depois, trocar de fornecedor vira uma tarefa quase impossível: os dados estão lá, os fluxos de trabalho estão lá, o conhecimento da equipe é sobre aquele produto. Mudar significaria parar tudo, retreinar tudo, migrar tudo – um custo que a maioria não está disposta a pagar. A economia tem um nome para isso: lock-in. Você entra com facilidade, mas sair é bem caro.
O salto vem quando isso deixa de valer para uma empresa e passa a valer para um país inteiro. Quando o sistema de saúde roda em IA americana, o sistema judiciário roda em IA americana, o sistema financeiro roda em IA americana. Nesse caso, o que o país tem não é uma escolha de fornecedor: é uma dependência estrutural.
Nessa corrida, alguns países são estratégicos. O Brasil é um deles, e por razões que pouquíssimos lugares conseguem reunir ao mesmo tempo.
A primeira vantagem é a matriz elétrica: quase 90% da nossa eletricidade vem de fontes renováveis – hidrelétricas, eólicas, solar e biomassa. É uma raridade. Boa parte dos nossos concorrentes na corrida da IA ainda depende muito de gás natural e carvão, e isso pesa porque as grandes empresas de tecnologia assumiram compromissos públicos de neutralidade de carbono e precisam de energia limpa.
A segunda é a água. O Brasil detém 12% de toda a água doce do mundo e abriga a maior bacia hidrográfica do planeta. Diante do que nós vimos no Texas e na Geórgia, isso não é um detalhe.
A terceira é o território. Data centers de grande porte exigem áreas imensas. Em boa parte da Europa e da Ásia, o custo da terra inviabiliza essa indústria. No Brasil há espaço de sobra.
A quarta é o mercado. O Brasil tem 214 milhões de habitantes e a maior economia da América Latina, com um sistema financeiro sofisticado, um agronegócio de referência mundial, um sistema de saúde que atende 190 milhões de pessoas e um Judiciário que processa dezenas de milhões de casos por ano. Todos esses setores são candidatos naturais à adoção em massa de inteligência artificial – e quanto maior a adoção local, maior o incentivo para que os modelos sejam treinados aqui, calibrados para a realidade brasileira.
Há ainda vantagens de posição. O Brasil está conectado por cabos submarinos à América do Norte, à Europa e à África. Como escrevi dia desses nessa coluna, Fortaleza virou um dos principais pontos de conexão transatlântica do mundo.
Mas os nossos desafios não são pequenos. O Brasil gera energia de sobra, mas gerar não é o mesmo que entregar. Entre a hidrelétrica e o data center há milhares de quilômetros de linhas de transmissão a construir ou modernizar, e isso no nosso país não avança na velocidade necessária. Os pedidos de conexão de data centers à rede elétrica já ultrapassam 26 gigawatts; como o pico de consumo de todo o país é de 105 gigawatts, só as solicitações já protocoladas representam 1/4 da nossa demanda máxima.
A energia existe. O que falta é que ela chegue. Os leilões de transmissão são lentos, os licenciamentos ambientais se arrastam, as filas de conexão travam – e, enquanto isso, empresas dispostas a investir aguardam, e muitas acabam migrando para outro país.
Soma-se a esse gargalo o excesso de burocracia: para erguer um data center no Brasil são necessárias licenças federais, estaduais e municipais, passando por Anatel, Ibama, secretarias de meio ambiente e prefeituras – camadas e mais camadas de aprovação. Enquanto nós discutimos licenças, os outros países estão ligando os servidores.
E esse nem é o problema mais grave. O mais grave é que o Brasil ainda não decidiu que papel pretende ocupar nessa corrida. A política brasileira tem se concentrado, até aqui, numa única ambição: trazer os servidores para cá. Oferecer incentivo fiscal, energia barata, terreno, e torcer para que as grandes empresas escolham o Brasil.
Isso não é uma estratégia. É uma concessão. Atrair um data center da Microsoft ou da Amazon para o interior de São Paulo é ótimo para a arrecadação e para a construção civil. Mas se essa instalação processa dados de outros países e a inteligência produzida ali serve a clientes estrangeiros, o Brasil está apenas alugando território, energia e água, e recebendo em troca uma fração mínima do valor gerado.
A França condicionou os seus incentivos fiscais à criação de centros de pesquisa; os Emirados Árabes Unidos vincularam a atração de investimento à transferência de conhecimento. O Brasil, hoje, vende luz e água mais baratas.
Por fim, falta gente. Nós formamos bons engenheiros, bons cientistas da computação, bons matemáticos – mas formamos poucos, e perdemos muitos. Um pesquisador de IA formado na USP ou na Unicamp recebe aqui uma fração do que receberia no Vale do Silício ou em Londres. Como o trabalho remoto virou uma norma nessa indústria, muitos sequer precisam deixar o país para trabalhar lá fora, o que significa que o talento brasileiro está sendo usado para construir a infraestrutura de IA de outras nações.
Não há soberania tecnológica sem pessoas. É possível ter toda a energia, toda a água e todo o território do mundo; sem os cérebros que convertem esses recursos em modelos e produtos, um país segue sendo só um fornecedor de matéria-prima.
O fato é que a janela está aberta. As vantagens são reais. Mas uma janela aberta sem ninguém capaz de atravessá-la não passa de um buraco na parede.
Cada leilão de transmissão atrasado, cada licença emperrada, cada data center que termina no Chile ou no México, é um pedaço de futuro decidido à nossa revelia.
O Brasil já viveu esse roteiro. Exportou pau-brasil, açúcar, ouro, café e minério – sempre a matéria bruta. A energia limpa que nós temos hoje é uma oportunidade para também ficar com a parte que pensa, e não só com a que se extrai. Mas chance não é destino. E a escolha que não se faz também é uma escolha – só que tomada no escuro, no exato instante em que se decide não decidir.
Opinião por Rodrigo da Silva
É jornalista e criador do canal Spotniks, do YouTube. Em suas colunas, usa texto, vídeo, gráfico, mapa e fotografia para ajudar o público a entender os maiores eventos globais, com clareza e contexto.
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Governos locais vêm instalando novos sistemas que permitem policiamento “preditivo”
Por Eleanor Olcott – Valor/Financial Times 01/06/2026
A China vem reformando a maior rede de vigilância do mundo com tecnologias de inteligência artificial (IA) de ponta que dão ao Estado poderes mais automatizados para rastrear pessoas, analisar comportamentos e prever possíveis distúrbios em tempo real.
Uma análise do Financial Times feita com base em mais de dez documentos de compras públicas e em entrevistas com fontes a par dos contratos revela que governos locais em vários lugares da China vêm instalando novos sistemas de vigilância alimentados por IA, em meio à iniciativa de Pequim para que as forças policiais façam o chamado policiamento “preditivo”.
A atualização representa o maior esforço da China em muitos anos para modernizar um aparato de vigilância montado há dez anos, que as autoridades já usam maciçamente para monitorar a população, reduzir a criminalidade nas ruas, reprimir dissidências e administrar a estabilidade social.
Embora o Estado de vigilância chinês há muito seja alardeado como estando na vanguarda da tecnologia, seus sistemas ficaram limitados diante do envelhecimento do hardware, do uso de uma colcha de retalhos de plataformas de software e dos poucos recursos de IA disponíveis.
Agora, o país vem investindo em novas gerações de câmeras e softwares habilitados com IA, capazes de interpretar cenas, identificar padrões de comportamento e acessar imagens por meio de comandos escritos, o que permite reduzir imensamente a necessidade de revisão manual por policiais.
“O antigo sistema de vigilância da China é reativo. Não é bom em adivinhar e compreender as intenções de pessoas que não estão sob vigilância explícita”, disse Minxin Pei, especialista em governança e sistemas de vigilância na China no Claremont McKenna College.
Nos últimos dois anos, empresas chinesas como a Hikvision e a Huawei lançaram produtos integrados com visão computacional (a tecnologia que permite aos computadores “enxergar” imagens) e com modelos de linguagem de grande escala (LLMs, na sigla em inglês) de IA. São produtos que rodam com chips mais potentes, capazes de processar dados diretamente nos aparelhos, permitindo que as imagens sejam analisadas no momento da captura.
Esses sistemas são treinados para prever e emitir alertas sobre comportamentos como a condução errática de veículos, a formação de aglomerações, o ingresso de pessoas não autorizadas e comportamentos suicidas, como ficar parado em uma ponte.
Os produtos mais recentes da Hikvision permitem aos operadores pesquisar imagens usando comandos como “mulher usando chapéu vermelho” e obter automaticamente os vídeos relevantes, um avanço possibilitado pela integração de LLMs aos dispositivos.
“A polícia não precisa mais revisar as imagens manualmente. Ela pode inserir um comando de texto no sistema e encontrar o vídeo”, disse um executivo da Hikvision, a maior firma chinesa de tecnologia de vigilância por vídeo. O sistema anterior não conseguia fazer buscas por texto e só obtinha imagens automaticamente se o usuário já tivesse imagem correspondente.
A Hikvision informa que seus produtos têm o propósito de aprimorar a “eficiência operacional digitalizando tarefas rotineiras que antes dependiam pesadamente de revisão manual humana”.
A China já opera um dos sistemas de vigilância mais abrangentes do mundo, que tem sido usado para vigiar a minoria uigur em Xinjiang. Embora as redes tenham dado à polícia mais capacidade de vigilância, elas também melhoraram o tempo de resposta a incêndios e enchentes, além de aprimorar a segurança viária. A iniciativa para modernizar os sistemas de vigilância se dá em meio ao aumento de atos esporádicos de violência nas ruas nos últimos anos.
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Quando as respostas estão disponíveis instantaneamente, pré-fabricadas e entregues com confiança, a motivação para explorar diminui
Tomas Chamorro-Premuzic – Fast Company Brasil – 30-05-2026
A curiosidade é uma das forças mais consequentes da história humana. Cada descoberta científica, salto tecnológico e avanço cultural começa não com o conhecimento, mas com o desejo de saber.
Em sua essência, a curiosidade nos impulsiona a fechar a lacuna entre o que sabemos e o que queremos saber, uma coceira cognitiva desencadeada pela incerteza e resolvida por meio do aprendizado e da busca por significado.
A CURIOSIDADE COMO VANTAGEM EVOLUTIVA
Os primeiros humanos que exploraram seus ambientes, experimentaram ferramentas e aprenderam com novos estímulos tinham maior probabilidade de garantir recursos, evitar ameaças e transmitir seus genes.
Nessa linha, pesquisas neurocientíficas mostram que a curiosidade ativa as vias dopaminérgicas do cérebro, os mesmos circuitos envolvidos na motivação e na recompensa, o que explica a correlação positiva entre curiosidade e impulsividade.
Quando encontramos uma lacuna em nosso conhecimento, vivenciamos uma forma leve de desconforto cognitivo. Preencher essa lacuna produz satisfação, reforçando a exploração futura. Nesse sentido, a curiosidade é um ciclo de feedback integrado e codificado biologicamente para o aprendizado.
No entanto, a evolução também impôs restrições. A curiosidade, como qualquer característica adaptativa, é benéfica apenas dentro de certos limites. Por exemplo, existem muitos cenários em que a exploração excessiva poderia ser fatal.
Um caçador-coletor que se afastasse demais de sua tribo corria o risco de encontrar predadores ou grupos hostis. Nesses contextos, a contenção era adaptativa. A curiosidade tinha que ser expressa com cautela.
Essa tensão entre exploração e explotação (o aproveitamento do que já se conhece) permanece conosco hoje. Estamos programados tanto para buscar a novidade quanto para preferir a previsibilidade. O familiar é eficiente, mas tedioso; o desconhecido é empolgante, mas custoso.
A história oferece padrões semelhantes. Durante períodos de repressão intelectual, como a Inquisição, a curiosidade era ativamente punida, tornando a investigação individual perigosa.
Em contrapartida, o Iluminismo celebrou a curiosidade como uma virtude, desencadeando o progresso científico e filosófico. O mesmo impulso humano subjacente manifestou-se de forma diferente dependendo das condições culturais. A curiosidade, portanto, é universal, mas sua expressão é altamente variável.
O PARADOXO DA IA: UM TRIUNFO QUE AMEAÇA SUA PRÓPRIA FUNDAÇÃO
Avançando para o presente, estamos testemunhando uma das maiores conquistas da humanidade: a inteligência artificial (IA). A convergência da matemática, da ciência da computação e dos dados permitiu que as máquinas simulassem aspectos da cognição humana. Construímos, de fato, sistemas que podem se aproximar, emular e até superar o nosso pensamento.
Mesmo que a IA parasse de evoluir amanhã (o que parece improvável), suas implicações já são profundas. A IA pode aumentar a capacidade humana, acelerar a resolução de problemas e democratizar o acesso ao conhecimento. Ela funciona como um copiloto cognitivo, permitindo que indivíduos realizem tarefas que antes exigiam equipes inteiras.
Mas todo avanço tecnológico também traz consequências não intencionais. E, no caso da IA, os riscos não são apenas econômicos e éticos, mas também psicológicos. Especificamente, a IA ameaça corroer a curiosidade.
A EROSÃO DA CURIOSIDADE NA ERA DA CERTEZA ARTIFICIAL
A curiosidade depende da incerteza. Ela exige uma lacuna entre o que sabemos e o que queremos saber. A IA, por design, colapsa essa lacuna.
Quando as respostas estão instantaneamente disponíveis, pré-embaladas e entregues com confiança, a motivação para explorar diminui. Por que se debruçar sobre um problema quando uma máquina pode resolvê-lo em segundos? Por que se engajar em um aprendizado profundo quando a compreensão superficial é suficiente para seguir em frente?
Isso é o que descrevi em outro lugar como “certeza artificial“. A IA não fornece apenas respostas; ela cria a ilusão de que as compreendemos. O resultado gerado é coerente, fluído e persuasivo.
Mas coerência não é compreensão. O resultado é uma mudança da cognição ativa para a passiva. Consumimos conhecimento em vez de gerá-lo. Terceirizamos o pensamento em vez de exercitá-lo.
Uma analogia útil é a aptidão física. Imagine un mundo onde as máquinas fazem todo o levantamento de peso por você. Seus músculos atrofiariam. O mesmo se aplica à mente. A curiosidade é um músculo mental e, como qualquer músculo, enfraquece com o desuso.
Nesse sentido, a IA é o equivalente a um micro-ondas para as ideias. Ela entrega resultados rápidos e convenientes, mas muitas vezes às custas da profundidade e do refinamento. Mudamos do “pensamento lento”, que é trabalhoso e reflexivo, para o “consumo rápido”, que é sem esforço, mas raso.
Há também uma ironia linguística que vale a pena notar. O “aprendizado profundo”, que antes era uma aspiração humana, agora está associado principalmente às máquinas. Enquanto isso, o aprendizado humano corre o risco de se tornar cada vez mais superficial, se não adormecido.
Certamente, tais preocupações podem, no final das contas, revelar-se exageradas, como frequentemente aconteceu no passado. Sócrates, afinal, alertou que a escrita corroeria a memória, temendo que a dependência de ferramentas externas enfraquecesse as capacidades internas. No entanto, a história também sugere que o excesso de zelo é mais seguro do que a complacência.
De fato, existem boas razões para estarmos vigilantes: quando o esforço é removido do processo de aprendizagem, o engajamento tende a declinar; quando as respostas estão prontamente disponíveis, o incentivo para questionar diminui; e quando a cognição é terceirizada com muita facilidade, as habilidades subjacentes podem atrofiar.
O ponto não é resistir ao progresso tecnológico, mas garantir que a conveniência não substitua silenciosamente os próprios hábitos mentais que tornaram tal progresso possível em primeiro lugar.
O QUE A CIÊNCIA DIZ SOBRE CULTIVAR A CURIOSIDADE
Se a curiosidade é ao mesmo tempo essencial e está em risco, a pergunta óbvia é: ela pode ser desenvolvida?
A resposta é sim, mas não da maneira simplista que costuma ser sugerida. A curiosidade é influenciada tanto por traços estáveis quanto por fatores situacionais. Embora alguns indivíduos sejam naturalmente mais curiosos que outros, os ambientes e os hábitos desempenham um papel crítico.
O primeiro passo é uma autoavaliação adequada. Não a versão lisonjeira que você pode ter de si mesmo, mas uma visão mais objetiva, fundamentada em dados e feedback externo.
A curiosidade está intimamente ligada a traços de personalidade bem estabelecidos, particularmente a abertura à experiência (um dos Big Five), que abrange a curiosidade intelectual, a imaginação e a preferência pela novidade.
Avaliações baseadas na ciência podem fornecer uma linha de base confiável aqui. O mesmo vale para o feedback de 360 graus, que frequentemente revela uma lacuna entre o quão curiosos pensamos que somos e como somos percebidos pelos outros.
Mesmo a percepção informal de colegas, amigos ou mentores pode ser esclarecedora, especialmente quando destaca se você faz perguntas profundas, contesta premissas ou se engaja genuinamente com novas ideias.
Igualmente importante é a especificidade. A curiosidade não é um traço uniforme. As pessoas raramente são igualmente curiosas sobre tudo. Reflita sobre onde sua curiosidade surge naturalmente e onde ela não aparece.
Você pode ser profundamente inquisitivo sobre ideias, mas indiferente às pessoas; ou fascinado por tecnologia, mas desinteressado por história, cultura ou pontos de vista opostos.
Mapear esses padrões importa porque desenvolver a curiosidade não significa passar a se interessar universalmente por tudo. Significa entender seus pontos cegos e expandir-se deliberadamente para áreas onde seu instinto seria se afastar.
Primeiro, a motivação intrínseca importa. Estudos baseados na teoria da autodeterminação mostram que a curiosidade floresce quando os indivíduos se sentem autônomos, competentes e conectados uns aos outros.
Em termos práticos, isso significa que as pessoas são mais curiosas quando buscam tópicos que genuinamente as interessam, em vez daqueles impostos externamente. A implicação para as organizações é clara: o aprendizado forçado raramente produz curiosidade genuína.
Segundo, a exposição à novidade é fundamental. A curiosidade prospera com a diversidade de estímulos. Interagir com pessoas de diferentes origens, disciplinas e perspectivas aumenta a probabilidade de encontrar lacunas de informação. É por isso que ambientes interdisciplinares costumam ser mais inovadores. Eles criam atrito entre as ideias.
Terceiro, hábitos de reflexão potencializam a curiosidade. Pesquisas sobre aprendizagem e memória sugerem que o engajamento ativo — como escrever, ensinar ou debater — aprofunda a compreensão e sustenta a curiosidade. O consumo passivo, por outro lado, leva à ilusão de conhecimento sem um entendimento real.
Quarto, a alocação de tempo importa. A curiosidade exige espaço cognitivo. Em ambientes dominados pela urgência e pela eficiência, há pouco espaço para a exploração. Reservar tempo para leitura, reflexão e investigação não estruturada não é um luxo; é uma necessidade.
Quinto, a tolerância à incerteza é crucial. Indivíduos com uma alta necessidade de fechamento cognitivo preferem respostas rápidas e são menos propensos a se engajar em explorações abertas. Desenvolver o conforto com a ambiguidade, por meio de práticas como o questionamento socrático ou a exposição deliberada a problemas complexos, pode aumentar a curiosidade.
Da mesma forma, enquadrar tarefas como quebra-cabeças ou desafios pode ativar a motivação movida pela curiosidade. Essas descobertas alinham-se com o argumento mais amplo de que a curiosidade não é um traço estático, mas uma capacidade dinâmica moldada por fatores internos e externos.
O PAPEL DOS LÍDERES EM MODELAR A CURIOSIDADE
Embora as estratégias individuais importem, a curiosidade é, em última análise, um fenômeno social. Ela é moldada, amplificada ou suprimida pelas normas culturais.
Desde a primeira infância, a curiosidade não é simplesmente um traço individual, mas o produto de um contexto de desenvolvimento. Pais, professores e as primeiras experiências ambientais desempenham um papel decisivo em moldar como, e se, a curiosidade resiste até a idade adulta.
Pesquisas em psicologia do desenvolvimento mostram que crianças cujos cuidadores respondem de forma atenta às suas perguntas, incentivam a exploração e toleram a incerteza tendem a desenvolver níveis mais altos de curiosidade intrínseca.
Por outro lado, ambientes que enfatizam a conformidade, as respostas corretas e o desempenho em detrimento da investigação podem suprimir o comportamento exploratório ao longo do tempo.
Estudos educacionais também constatam que climas escolares que priorizam a memorização e os resultados padronizados muitas vezes corroem a curiosidade natural dos alunos, mesmo quando a curiosidade de base é alta.
Evidências longitudinais sugerem que esses padrões iniciais persistem, moldando as tendências adultas em direção à tomada de riscos intelectuais, à abertura e ao aprendizado contínuo.
Em suma, a curiosidade é cultivada ou restringida cedo, mas sua trajetória pode ser reforçada ou revertida mais tarde, especialmente por meio de contextos sociais e organizacionais. É aqui que a liderança se torna crítica.
Os líderes definem o tom do que é valorizado. Se eles priorizarem a certeza, a velocidade e a eficiência acima de tudo, a curiosidade diminuirá. Os funcionários aprenderão a evitar perguntas, a minimizar a exploração e a focar nos resultados imediatos.
Por outro lado, líderes que modelam a curiosidade criam ambientes onde a investigação é recompensada. Isso não significa celebrar a aleatoriedade ou a distração. Significa demonstrar humildade intelectual, fazer perguntas melhores e mostrar disposição para desafiar premissas.
Um dos sinais mais poderosos que um líder pode enviar é admitir o que não sabe. Isso reduz o custo percebido da ignorância e incentiva os outros a se engajarem no aprendizado. Também neutraliza o excesso de confiança, que é uma das principais barreiras à curiosidade.
Os líderes também podem desenhar sistemas que embutem a curiosidade nos fluxos de trabalho. Isso inclui alocar tempo para experimentação, incentivar a colaboração interfuncional e mensurar não apenas os resultados, mas também os processos de aprendizagem.
Mais importante ainda, a curiosidade deve estar ligada ao desempenho. Não se trata de fazer mais perguntas pelo simples prazer de perguntar, mas de fazer perguntas melhores que levem a decisões melhores.
Na era da IA, isso se torna ainda mais importante. À medida que as máquinas assumem tarefas cognitivas rotineiras, a vantagem humana migra para áreas que exigem julgamento, interpretação e criatividade.
Tudo isso deriva da curiosidade. Mas o julgamento sem experiência não tem significado. A IA pode simular respostas, mas não pode substituir a profundidade que vem do engajamento real com o mundo.
Existe uma diferença entre consumir uma refeição de micro-ondas e cozinhar uma do zero, escolhendo os ingredientes, entendendo como eles interagem e fazendo ajustes ao longo do caminho.
O primeiro processo é eficiente e conveniente; o segundo constrói intuição, conhecimento tácito e expertise real. Da mesma forma, confiar nos resultados gerados por IA sem cultivar experiências de aprendizado em primeira mão produz uma versão rasa de competência, o que poderíamos chamar de compreensão artificial.
A curiosidade, quando colocada em prática, nos empurra para essas experiências mais ricas que dão substância ao julgamento e tornam o nosso pensamento genuinamente nosso.
A CURIOSIDADE COMO UM IMPERATIVO ESTRATÉGICO
A ascensão da IA não apenas expandiu o acesso à informação; ela corrompeu silenciosamente o valor que antes existia em detê-la. Quando praticamente todas as respostas são instantâneas, abundantes e convincentemente embaladas, o diferencial não é mais o que você sabe, mas como você se engaja com o que pode ser conhecido.
Nesse sentido, a economia da expertise está mudando. O conhecimento, ao menos em suas formas mais acessíveis, está se tornando uma commodity, enquanto a capacidade de interrogar, refinar e construir sobre esse conhecimento está se tornando mais escassa e valiosa.
É aqui que a curiosidade ganha seu valor, não como um traço brando ou algo “bom de se ter”, mas como o mecanismo subjacente que sustenta o aprendizado ao longo do tempo.
Sem curiosidade, o risco não é a ignorância, mas algo mais insidioso: a ilusão de compreensão. A IA pode gerar explicações coerentes, resumir a complexidade e produzir percepções plausíveis em escala.
Mas, a menos que esses resultados sejam recebidos com questionamento, ceticismo e o desejo de ir além do que é dado, é improvável que se traduzam em discernimento genuíno ou em decisões melhores.
O perigo, portanto, não é que as máquinas pensem por nós, mas que gradualmente terceirizemos o próprio esforço necessário para pensar bem, confundindo fluência com profundidade e acesso com maestria.
Isso impõe uma demanda diferente sobre os indivíduos e as organizações. A tarefa já não é simplesmente adotar ferramentas de IA ou aumentar seu uso, mas integrá-las de maneiras que aumentem, em vez de atrofiarem, o julgamento humano.
No nível individual, isso implica um grau de intencionalidade que muitas vezes é subestimado: cultivar hábitos que priorizem a investigação sobre a conveniência, a profundidade sobre a velocidade e a exploração sobre o encerramento rápido.
No nível organizacional, requer mais do que retórica sobre inovação. Exige ambientes onde o questionamento não seja penalizado pelas pressões da eficiência e onde o tempo gasto explorando não seja automaticamente visto como tempo perdido.
E no nível da liderança, exige um compromisso visível com a curiosidade como norma, expresso menos por meio de slogans e mais por meio do comportamento: as perguntas que os executivos seniores fazem, a incerteza que toleram e as premissas que estão dispostos a revisitar moldarão o nível de curiosidade e o apetite por aprendizado da organização.
Há uma ironia óbvia aqui. Quanto mais capazes nossas máquinas se tornam em produzir respostas, mais valioso se torna continuar interessado nas perguntas. Isso não é uma defesa nostálgica da singularidade humana, mas um reconhecimento pragmático de onde reside a vantagem competitiva agora.
Em um mundo onde todos têm acesso às mesmas ferramentas, e a IA se torna tão onipresente quanto os smartphones, o Wi-Fi ou a eletricidade, o fator de diferenciação muda para a forma como essas ferramentas são usadas e isso, por sua vez, depende da qualidade da curiosidade humana direcionada a elas.
Vista sob essa luz, a curiosidade torna-se uma necessidade estratégica, que molda não apenas como os indivíduos aprendem, mas como as organizações se adaptam e competem em um ambiente onde saber é fácil, mas compreender continua sendo difícil — e está se tornando, silenciosamente, uma atividade de nicho.
SOBRE O AUTOR
Tomas Chamorro-Premuzic é diretor de inovação do ManpowerGroup, professor de psicologia empresarial na University College London e na Columbia University, cofundador da deepsignals.com e associado do Harvard’s Entrepreneurial Finance Lab.
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