Como a Embrapa transformou o Brasil de importador de alimentos numa potência agrícola?

Avanços tecnológicos como a adaptação se sementes e do solo para a plantação de soja fizeram a produtividade no campo saltar e ajudar toda a economia

Por Carlos Eduardo Valim – Estadão – 24/09/2026

Criada em dezembro de 1972 e implementada em abril de 1973 para desenvolver tecnologias aplicáveis à agricultura nacional, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é considerada uma das principais responsáveis por transformar o Brasil de importador líquido de alimentos em uma das maiores potências globais no campo.

Tudo começou com a capacitação de pesquisadores nacionais. Em 1974, quando ela ainda se estruturava, havia 273 pesquisadores em cursos de mestrado em agricultura, sendo que 20 estavam no exterior. Por um período de 12 anos, a Embrapa promoveu o envio de mais de 2 mil pessoas para estudar nos melhores centros acadêmicos do exterior voltados a cultivos que precisavam ser desenvolvidos no Brasil.

“Havia uma demanda do País de garantir segurança alimentar e fazer com que as tecnologias chegassem ao campo, para que fosse possível ampliar a extensão rural. E, para isso, a gente precisava treinar pesquisadores para adaptar as tecnologias à nossa realidade de clima tropical”, afirma a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá.

Hoje, já são mais de 2,5 mil pessoas que passaram por essa formação externa, a cargo da empresa e de suas fontes financiadoras, como o próprio governo e mecanismos de fomento internacionais, como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Quando eles começaram a voltar ao Brasil, ajudaram a revolucionar o campo, criando soluções para produzir no Cerrado e aproveitar melhor o solo nacional, além de aprimorar a criação de animais e a fruticultura. Tudo isso permitiu que o País virasse a maior potência global em soja.

Para realizar esse feito, foi necessário gerar ciência tropical de ponta, com a adaptação de sementes aos solos locais, que também sofreram correção e houve avanços para fixar o nitrogênio na terra. Este último avanço graças aos esforços da cientista Mariangela Hungria, que chegou a ser lembrada pela revista Time como uma das pessoas mais influentes do mundo. O trabalho dela permitiu que os agricultores economizassem custos ao não precisarem introduzir adubos sintéticos no solo para produzir soja.

Nova presidente da Embrapa, Silvia Massruhá: ‘Temos uma agricultura que é referência para o mundo todo’ 

Outro grande nome dentre os diversos pesquisadores marcantes da história da Embrapa está o do chamado “pai da soja tropical”, o apelido recebido pelo engenheiro agrônomo Romeu Afonso de Souza Kiihl. Hoje, com 84 anos, ele desenvolveu, durante 60 anos de profissão, mais de 150 variedades de sementes de soja adaptadas a várias regiões do País, em especial para o Cerrado.

“O sucesso da soja no Brasil central é a combinação de três coisas. A genética, que fez a soja com o período juvenil longo; os solos, que foram corrigidos por meio de calagem e fertilização; e o agricultor brasileiro”, afirmou Kiihl, no ano passado, ao Estadão. “Eu sou admirador do agricultor brasileiro porque a coragem que esse pessoal tem, eu acho incrível.”

Dessa forma, com as inovações da Embrapa, o agro pôde avançar além das suas áreas mais tradicionais no Sul e Sudeste do Brasil, desenvolvendo o Centro-Oeste e a região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), e criou riquezas para se tornar o “celeiro do mundo”. Um dos pontos primordiais do projeto, inclusive, foi a distribuição das 43 unidades da Embrapa por meio de uma rede descentralizada, dividida em zonas ecológicas, o que permitiu espalhar as pesquisas de acordo com as culturas e desafios de cada região.

A expansão rural contou com uma geração de agricultores gaúchos que saiu do Rio Grande do Sul, rumando para o norte, se abrigando em lonas pretas amarradas no caminhão, com um cachorro e um trator, como costuma caracterizar o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues.

“Bem no começo da minha vida, passei por um lugar chamado Chapadão dos Gaúchos. Era um posto de gasolina. Hoje é a cidade Chapadão do Sul, no norte de Mato Grosso do Sul. É uma cidade enorme, com grande progresso”, conta Kiihl. “Quando a soja entra numa região, leva muita coisa além dela: tecnologia, progresso e IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) para a região. Pode pegar as cidades do Brasil Central, vai para Sinop (MT), vai para Lucas do Rio Verde (MT), Primavera do Leste (MT), Chapadão do Sul. É uma maravilha.”

Resultados para a economia ao longo dos anos

Esses importantes avanços deram o impulso que o agronegócio brasileiro precisava para continuar se desenvolvendo pelas décadas seguintes. De 2002 até 2019, a produtividade da economia brasileira cresceu 18,7%, um resultado que seria bastante pior se não fosse o agro. O setor promoveu um aumento de produtividade, nesse período, de 80,1%, contra apenas 10,3% dos serviços e 5,4% da indústria, segundo levantamento realizado pelos pesquisadores Alan Bueno e Diogo Ferraz, com base em informações oficiais.

Um outro estudo, de pesquisadores das universidades MIT, Princeton e Notre Dame, com o BID, concluiu que o investimento público em pesquisa agrária gerou retorno de R$ 17 para cada R$ 1 investido.

“Hoje, a gente tem uma agricultura que é referência para o mundo todo. A gente gera esse incômodo todo, inclusive para os EUA, por ser um grande produtor de alimentos”, afirma Silvia. “A nossa visão hoje é de uma agricultura multifuncional. Além da produção de alimentos, temos fibras e energia. Podemos produzir biocombustíveis sem prejudicar a produção de alimentos, tendo duas ou três safras.” Dessa forma, a segurança alimentar não é mais um problema para o Brasil, como foi percebido por outros países durante a pandemia de covid-19.

Origens e protagonistas da Embrapa

Quem simplesmente acompanha os fluxos de comércio internacional e como o Brasil abastece diversas regiões do planeta com alimentos dificilmente sabe que, na década de 1970, o País precisava importar comida para alimentar a própria população, que na época ainda contava com apenas “90 milhões em ação”, como dizia a canção símbolo da seleção brasileira na Copa de 1970.

Foi nesse cenário que a estatal surgiu para promover mudanças necessárias. Mas a sua origem e o papel de cada personagem relevante para estabelecer o projeto eram pouco conhecidos até poucos anos.

A Embrapa, durante as suas cinco décadas de operação, tinha uma área de comunicação forte, dando prioridade a divulgar os conhecimentos gerados pelos pesquisadores da estatal, para que fossem aplicados, de fato, pelos agricultores. Ela abastecia o popular programa Globo Rural, da TV Globo, nas manhãs de domingo, com novidades para o plantio e a pecuária, fazendo com que chegassem aos produtores.

“Houve cidades do interior que precisaram mudar a hora da missa porque as pessoas queriam ver o Globo Rural”, diz Elisio Contini, que entrou como pesquisador da Embrapa em 1976, se especializando nos mecanismos de financiamento dos projetos e que já escreveu artigos e livros sobre a história da agricultura brasileira.

Os agricultores podiam nem saber que as inovações tinham saído da Embrapa, mas elas chegavam ao campo. E os governantes também sabiam o papel da estatal no sucesso do agronegócio, a ponto de evitarem interferir no trabalho técnico feito e fazerem indicações políticas para cargos na empresa, o que é tão comum em tantas estatais, sob risco de estragar o que funcionava.

A sociedade interessada só começou a conhecer nos últimos anos as contribuições de figuras como a do agrônomo Eliseu Alves, hoje unanimemente considerado o principal responsável pelo sucesso do projeto, e do economista José Pastore, reconhecido especialista em trabalho e colunista do Estadão, responsável pelo início dos estudos que mostravam a necessidade de criação da empresa. Também foram essenciais o primeiro presidente da instituição, José Irineu Cabral, os ministros da Agricultura, Luiz Fernando Cirne Lima e Alysson Paolinelli, que, respectivamente, deram início e depois permitiram que a estatal engrenasse, e até o ministro da Fazenda da época, Antonio Delfim Netto. Todos eles foram nomes importantes para que a estatal se estabelecesse nos primeiros anos e alcançasse os seus primeiros resultados relevantes.

“No início da década, com a industrialização avançando, o País passava por um processo de urbanização, e começava a ter problemas para abastecer a cidade”, diz Contini. “Enquanto as pessoas estavam no campo, tinha a agricultura de subsistência para prover seus alimentos. A partir do momento em que migraram para as cidades, o Brasil começou a precisar empregar tecnologia para aumentar a produção.”

Durante décadas, Pastore e Eliseu não quiseram fazer propaganda sobre como tiveram a ideia de criação da Embrapa. E muito da fama coube a Paolinelli, que assumiu o Ministério da Agricultura em 1974 e foi responsável por promover a abertura de diversas unidades da Embrapa. A história mais detalhada sobre o surgimento da estatal começou a ser contada a partir de livro-entrevista de 2018 com Eliseu, feito por Jorge Duarte e chamado “Prosa com Eliseu”.

Pastore também contou, por sua vez, para esta reportagem como tudo aconteceu. A semente da Embrapa começou na Abcar (Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural), que trabalhava com extensão rural e era sediada no Rio de Janeiro. O presidente da associação, Aloisio Campelo, convidou o economista, que havia retornado de estudos nos EUA, para prestar consultoria de como difundir melhor as tecnologias, e o apresentou a Eliseu, que fazia consultoria para uma afiliada mineira da Abcar.

Pastore aceitou prestar o serviço, com uma visita semanal à sede da associação, para não perder o trabalho a que se dedicava na Universidade de São Paulo (USP). “Ao chegar ao Rio, para começar o projeto, conheci pessoalmente o Eliseu, com quem falava apenas por telefone”, diz.

“Começamos a trabalhar, mas logo o Eliseu saiu com uma que foi genial: ‘Estamos aqui trabalhando para difundir tecnologia. Mas o problema não é este. O problema é que não existe tecnologia adequada para o Brasil. Estamos trabalhando no problema errado. Precisamos trabalhar do lado da pesquisa, para gerar a tecnologia, para depois o pessoal difundir para o campo’.”

Essa conclusão foi levada a Campelo, que concordou e decidiu apresentar os dois ao ministro Cirne Lima. “Ele virou para mim à queima-roupa e perguntou o que precisava para ter um sistema eficiente de pesquisa no Brasil, e eu respondi também à queima-roupa: você precisa ter bons pesquisadores e mais nada”, conta Pastore.

O País historicamente era um grande exportador de café, cana-de-açúcar e algodão. E os pesquisadores da época gostavam de estudar essas culturas, já que os resultados interessavam às universidades internacionais e davam mais visibilidade a eles. Mas poucos se dedicavam à mandioca ou ao feijão. Assim, o Brasil precisava importar produtos que fazem parte da mesa do brasileiro, como também o arroz, milho, frutas, carnes e trigo.

Eliseu, então, sugeriu ao ministro mandar pesquisadores para as melhores universidades do mundo para estudarem as coisas básicas, como genética, semente especializada e solo, e depois pesquisarem esses produtos.

Pastore e Eliseu receberam um jetom simbólico para desenvolver um projeto que Cirne Lima apresentou ao presidente Emílio Garrastazu Médici. O trabalho indicava que seria necessário treinar 1 mil pessoas no exterior, a partir de uma empresa pública ligada ao Ministério da Agricultura, que daria mais segurança financeira e agilidade ao projeto, do que se fosse por meio de uma fundação ou associação.

Médici aceitou sem mexer no projeto ou fazer sugestões. Apenas tentou demover Cirne Lima de treinar tanta gente e pediu para enxugar o projeto. O ministro, no entanto, o convenceu de que o número era importante para trazer resultados concretos. A única observação para se criar a Embrapa era de que Pastore e Eliseu deveriam fazer contato com instituições de financiamento internacionais para garantir recursos ao plano.

Depois de colocada de pé a estatal, Pastore e Eliseu queriam voltar a seus projetos anteriores. Pastore, por estar mais ligado à economia e ciências sociais, conseguiu retornar à USP para se preparar para se tornar professor titular. Eliseu queria voltar a Minas Gerais, mas recebeu a sugestão, conforme conta em entrevista a seu livro, de que isso desagradaria os militares e que não conseguiria mais trabalho no País. Então, aceitou o cargo de diretor de recursos humanos e depois se tornou presidente da Embrapa nos anos 1980.

Mas, só depois de ter o seu nome limpo entre os militares, já que o agrônomo conta que era visto como um “criptocomunista”. Ou seja, “quem parecia ser uma pessoa comum, mas escondia uma ideologia”.

“Segundo eles, eu protegia estudantes que, para se subtraírem da perseguição do regime, pediam para fazer doutorado”, contou Eliseu. Isso acontecia por evitar fazer demissões pedidas por militares que observavam as instituições e lutar contra indicações políticas para cargos.

O político contrariado buscava, então, denegrir a sua imagem junto a esferas do governo e do comando militar. Enquanto isso, para proteger o projeto da Embrapa, Eliseu recorria a ministros que o apoiavam, como Delfim e os ministros da agricultura, ou até mesmo ao presidente João Figueiredo. Era a forma de preservar o caráter radicalmente meritocrático e técnico da Embrapa.

Quando a estatal completou 50 anos de atividade em 2023, Eliseu, Pastore e Cirne Lima participaram de comemoração em Brasília. Do palco, o presidente da Embrapa se dirigiu a eles, conforme conta Pastore: “Estamos aqui porque esses caras bolaram esta empresa. Eles sugeriram treinarmos 2 mil brasileiros nas melhores universidades do mundo. Agora, vou dar uma notícia para eles que vão se espantar. Treinamos 2,5 mil brasileiros.”

“Eu e o Cirne nos espantamos mesmo. O Eliseu não, porque ele manteve contato com a Embrapa”, diz Pastore. “Nós festejamos isso.” A Embrapa ainda continua treinando pessoas. Os primeiros estão se aposentando e uma nova geração vem chegando.

Agora, com novos desafios, segundo conta a atual presidente, Silvia Massruhá. Diversos problemas já foram solucionados e alguns campos de estudos desenvolvidos pela Embrapa foram assumidos pela iniciativa privada nos últimos anos. Agora, o foco de criação de conhecimento vem se voltando para áreas que envolvem mudanças climáticas, como o fenômeno do El Niño, recuperações de pastagens, restauração florestal, integração lavoura e pecuária, análise biológica do solo e uma transição global para uma agricultura mais sustentável para o meio ambiente.

Como a Embrapa transformou o Brasil de importador de alimentos numa potência agrícola? – Estadão 

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Taiwan prepara uma ‘armadilha infernal’ para a China com a ajuda de drones e IA

Plano ‘Hellscape’ baseia-se em lições aprendidas na Ucrânia e no Irã sobre o uso de grandes quantidades de drones de baixa tecnologia, combinados com inteligência artificial, para conter um adversário muito mais poderoso

Por The Economist – 21/09/2026

Em um prédio de escritórios nos arredores de Taipei, Chan Hsiang-chih abre a porta de uma oficina e oferece um vislumbre do futuro da guerra no Estreito de Taiwan. Lá dentro, encontram-se dois drones submarinos em forma de torpedo, protótipos para a marinha de Taiwan. “É ali que vai a bomba”, diz ele, apontando para a parte traseira de um deles. O equipamento pode identificar alvos e entregar sua carga explosiva ou realizar um ataque kamikaze, operando sozinho ou em enxame.

Em 2015, o Dr. Chan fundou sua empresa, a AwareOcean, para fornecer equipamentos a parques eólicos offshore. Agora, ele fabrica o tipo de arma autônoma de baixo custo de que Taiwan e os Estados Unidos precisam para seu novo plano de frustrar uma invasão chinesa.

Apelidado de “Hellscape” (Paisagem do Inferno), o plano baseia-se em lições aprendidas na Ucrânia e no Irã sobre o uso de grandes quantidades de drones de baixa tecnologia, combinados com inteligência artificial, para conter um adversário muito mais poderoso. A estratégia prevê inundar o Estreito de Taiwan com drones aéreos, de superfície e submarinos relativamente baratos no momento em que as forças chinesas lançarem um ataque.

Caso a China bloqueie as comunicações com esses equipamentos, eles atacarão navios chineses utilizando navegação inercial, reconhecimento de imagem ou IA embarcada — capaz de priorizar alvos, escapar de contramedidas e coordenar ataques com outros drones. Isso não impedirá uma invasão, mas pode elevar os custos da operação e garantir tempo e espaço para que navios de guerra e aeronaves dos EUA cheguem a Taiwan.

O presidente dos EUA, Donald Trump, com seu homólogo chinês, Xi Jinping, em Pequim, em maio de 2026 Foto: Brendan Smialowski/Pool via AP

A questão de saber se os EUA realmente interviriam permanece em aberto, especialmente após o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Em visita a Pequim, em maio, ele questionou a lógica de lutar tão longe dos EUA e afirmou que usaria a venda de armas a Taiwan como moeda de troca nas negociações com Xi Jinping.

De fato, às vésperas da visita de Xi a Washington, em 24 de setembro, Trump adiou a aprovação de um pacote de armas de US$ 14 bilhões para Taiwan, que já havia sido autorizado pelo Congresso em janeiro. Autoridades taiwanesas temem que novas concessões à China, visando acordos comerciais e tecnológicos, possam ocorrer na sequência. Preocupam-se também com a possibilidade de que as entregas de pacotes de armas americanos anteriores sofram atrasos devido à escassez causada pela guerra contra o Irã.

Ainda assim, comandantes militares americanos e taiwaneses seguem avançando discretamente com o “Hellscape”, plano concebido durante a presidência de Joe Biden. Eles acreditam ser pouco provável que a China ataque antes do final da década, quando os EUA já terão um novo líder.

E eles acreditam que suas chances de sucesso aumentaram à luz das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, mesmo levando em conta as capacidades crescentes da China. Estrategistas americanos há muito ensinam que uma força de ataque precisa de três vezes o poder de fogo de um defensor para garantir a vitória. Agora, eles consideram que o atacante precisa de uma vantagem mais próxima de 20 ou até 30 para um.

“Sistemas não tripulados são para os conflitos de hoje o que a metralhadora foi na 1ª Guerra Mundial e o tanque na 2ª: uma tecnologia que muda as regras do jogo e redefine o campo de batalha”, disse Raymond Greene, embaixador de facto dos EUA em Taipei, durante uma conferência na cidade em 9 de setembro. Taiwan poderia facilmente aproveitar as lições da Ucrânia e do Irã graças à sua indústria de semicondutores líder mundial, à sua forte base manufatureira e à sua economia em expansão. O país também tem acesso a drones aéreos americanos testados em combate (dos quais Taiwan comprou 2 mil em agosto). Além disso, colabora com os EUA no desenvolvimento de drones marítimos e tecnologia de enxames habilitada por IA, afirmou ele.

O desafio é fazer o plano funcionar. Os EUA precisam de vontade política e de toda a capacidade de drones e mísseis que conseguirem obter. Os defensores do plano olham além de Trump, apostando no apoio bipartidário do Congresso a Taiwan (que permanece sólido) e na importância da ilha para a indústria americana de IA.

No entanto, alguns temem a influência, dentro do Partido Republicano, de uma ala que defende a contenção do intervencionismo e é favorável ao abandono de Taiwan. Outros preocupam-se com o fato de Trump ter intensificado a oposição pública a guerras no exterior e causado danos duradouros às relações com aliados asiáticos, cujo apoio é essencial para viabilizar a estratégia “Hellscape”.

Os esforços americanos para produzir mais drones de baixo custo deram frutos. O país realizou a engenharia reversa de um drone de ataque aéreo iraniano em 18 meses, e o Pentágono planeja adquirir 200 mil VANTs (veículos aéreos não tripulados) baratos até 2027. Contudo, atrasos nos testes e a escassez de componentes não chineses desaceleraram o progresso.

A estratégia “Hellscape” exige muito menos drones marítimos: um único ataque bem-sucedido pode afundar ou inutilizar um navio de guerra, como a Ucrânia demonstrou no Mar Negro. Alguns modelos americanos projetados para um conflito por Taiwan já foram utilizados contra o Irã. Além disso, tropas americanas testaram um barco kamikaze ucraniano nas Filipinas em abril. Ainda assim, trata-se, em sua maioria, de sistemas experimentais produzidos em quantidades insignificantes, afirma o professor Michael Horowitz, da Universidade da Pensilvânia, que liderou a iniciativa do Pentágono sobre drones durante a gestão de Joe Biden.

Ele e outros também alertam que tais drones não podem substituir armas maiores, mais antigas e mais caras. O plano é que os drones esgotem os interceptadores de mísseis da China e danifiquem sua frota de invasão o suficiente para facilitar que porta-aviões, submarinos e outras plataformas americanas atinjam seus alvos.

A preocupação é que a guerra envolvendo o Irã tenha desviado as forças americanas do Pacífico e esgotado seus estoques de armas, especialmente de mísseis de precisão e interceptadores de mísseis. Repor os arsenais americanos levará anos. Alguns temem que Xi possa tentar a sorte antes disso, possivelmente já em 2028, quando Taiwan realizará sua próxima eleição presidencial — cerca de dez meses antes de Trump deixar o cargo.

“Outra coisa a se ter em mente”, diz um ex-funcionário do Pentágono, “é que não seria consistente com a política americana… colocar grandes quantidades de armas americanas em Taiwan que nós mesmos viríamos a utilizar.” Mudar essa política provocaria um conflito diplomático grave com a China. É por isso, diz o ex-funcionário, que “é ainda mais importante treinar e equipar adequadamente as forças taiwanesas”.

O maior desafio de Taiwan é produzir drones em quantidade suficiente. Logo após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, Taiwan começou a desenvolver uma indústria de drones livre de componentes chineses. O objetivo é adquirir 208 mil drones de ataque aéreo e 1.320 barcos-suicidas de fabricação local até 2032. A produção e as exportações cresceram nos últimos dois anos. No entanto, disputas sobre o financiamento — aprovado apenas em agosto — atrasaram o plano.

Queixas sobre os drones

O principal obstáculo foi o Kuomintang, o maior partido de oposição de Taiwan, que defende laços mais estreitos com a China. Caso o partido retorne ao poder em 2028, novos atrasos poderão ocorrer. “Se uma crise real surgir, o cronograma provavelmente seria significativamente comprimido, assim como aconteceu na Ucrânia”, diz Chen Ping-hei, professor da Universidade Nacional de Taiwan que trabalha no projeto dos drones. Mas, no momento, “a mão de obra e o financiamento são claramente insuficientes”. Ele acredita que Taiwan precisa de 4 milhões de VANTs (veículos aéreos não tripulados) e 10 mil drones marítimos.

Há também céticos nas forças armadas de Taiwan. Há receio de que o investimento em drones ocorra em detrimento de itens de maior custo, como mísseis Patriot para novos sistemas de defesa aérea. Alguns também defendem a aquisição de caças e navios de guerra para ajudar a conter ações chinesas que não cheguem a configurar uma invasão total, como um bloqueio – embarcações da alfândega chinesa iniciaram recentemente patrulhas regulares a leste de Taiwan. Outros priorizam ataques iniciais ao território continental da China e a preservação das forças de Taiwan para um contra-ataque.

A reação da China levanta questões preocupantes. Inicialmente, o país ridicularizou a estratégia “Hellscape”; um órgão oficial das forças armadas classificou-a como um “plano psicótico” e descreveu os EUA como um “tigre de papel”, incapaz de produzir os enxames de drones necessários.

O Exército de Libertação Popular (ELP) ainda detém uma vantagem esmagadora em termos de quantidade de drones e capacidade de produção. A força tem testado seus próprios sistemas não tripulados em exercícios militares ao redor de Taiwan, ao mesmo tempo em que analisa os desdobramentos dos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio. Além disso, enviou oficiais à Rússia para treinamento conjunto com homólogos russos em operações com drones e contramedidas contra drones, bem como para obter acesso a dados relevantes provenientes das linhas de frente.

No entanto, sinais de preocupação surgiram recentemente no seio do ELP. As purgas promovidas por Xi Jinping dificultaram o cumprimento de sua ordem para que a força esteja pronta para executar uma invasão — caso receba tal instrução — até 2027. Alguns especialistas militares chineses sugerem agora que a estratégia “Hellscape” exige que o ELP atualize seus planos de invasão e invista mais em armamentos embarcados capazes de identificar e destruir drones.

Os defensores do “Hellscape” reconhecem que os obstáculos são formidáveis. Contudo, argumentam que, para dissuadir um conflito, Taiwan e os EUA não precisam demonstrar capacidade de derrotar a China de forma decisiva. Basta convencer Xi Jinping de que ele teria dificuldades para alcançar a vitória rápida e de baixo custo que almeja.

Taiwan prepara uma ‘armadilha infernal’ para a China com a ajuda de drones e IA – Estadão 

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Eleições e crescimento

É fundamental que a indústria ganhe cada vez mais destaque nos planos, nos debates e, principalmente, nas mentes dos candidatos e das suas equipes

Por Fabio Rua – Valor – 21/09/2026

A cada quatro anos, os eleitores, em maior ou menor grau, refletem sobre o que os governos realizaram e sobre o que esperam dos próximos. As eleições majoritárias são, portanto, momentos de avaliação, mas também de escolha. Escolha sobre as prioridades que devem orientar o país nos anos seguintes.

Aproveitando a proximidade de um novo ciclo eleitoral, tive a curiosidade de me debruçar sobre algumas das principais propostas dos candidatos à Presidência da República. Grata surpresa, nelas encontrei ideias bastante instigantes sobre responsabilidade fiscal, educação, economia, segurança, infraestrutura, tecnologia e combate às desigualdades.

Mas confesso que, mesmo reconhecendo que o tema indústria aparece em diferentes graus, senti falta de vê-la ocupar um espaço mais central nos planos e, principalmente, nos debates, como entendo que deveria ocorrer em qualquer discussão sobre crescimento econômico de longo prazo.

Não estou falando da defesa de um setor específico. Refiro-me à habilidade de um país de produzir, com destaque e competitividade, coisas complexas. De formar engenheiros e técnicos de ponta, desenvolver fornecedores de classe mundial, melhorar a infraestrutura, o financiamento de pesquisa aplicada, o estímulo à propriedade intelectual e, não menos importante, a ampliação de acordos comerciais.

A conexão entre industrialização robusta, renda, desenvolvimento humano e competitividade não é apenas percepção, é sustentada por dados. Estudo recente da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido) mostra que a América Latina, atravessou décadas de desindustrialização precoce. O valor adicionado da manufatura per capita na região ainda está abaixo do registrado no início do século.

Em contraste, no mesmo período, economias industriais classificadas como emergentes, como China, Índia, Indonésia e Vietnã, registraram crescimento médio anual de 8,7% nesse mesmo indicador entre 2000 e 2025.

A comparação entre América Latina e Ásia pode ser ainda mais reveladora. A Ásia não cresceu apenas por causa da industrialização, assim como a América Latina não deixou de crescer apenas por perder sua base industrial. Mas as trajetórias coincidem em um ponto que merece atenção. Enquanto economias asiáticas ampliaram sua capacidade produtiva, a América Latina se afastou dela. E, segundo o Banco Mundial, economias emergentes – excluídas China e Índia – e em desenvolvimento, o que inclui o Brasil, caminham para quase uma década sem avanços significativos na convergência de renda com os países desenvolvidos.

A China, por exemplo, tomou sua decisão há décadas. Coordenou infraestrutura, crédito, educação técnica, incentivos fiscais, atração de investimento estrangeiro, política comercial e desenvolvimento de fornecedores para aumentar gradualmente o conteúdo tecnológico produzido internamente.

Os Estados Unidos também mudaram de direção. Depois de um longo período em que a eficiência econômica recomendava transferir etapas produtivas para outros países, eles, passaram a tratar semicondutores, baterias, minerais críticos, energia e outras cadeias como ativos estratégicos. O CHIPS Act, incentivos fiscais, compras públicas e, mais recentemente, tarifas fazem parte desse esforço.

Em agosto deste ano, por exemplo, o governo americano atuou para reconstruir sua cadeia de polisilício, material usado em painéis solares, cuja participação americana na capacidade mundial caiu cerca de 50% em 2005 para menos de 2% em 2024.

Enquanto a China verticalizou suas cadeias, os Estados Unidos estão investindo bilhões para reconstruir algumas das suas. Nenhum deles pretende fabricar tudo. Mas ambos parecem entender que há uma diferença entre simplesmente comprar um produto e manter a capacidade de desenvolvê-lo e produzi-lo. É uma distinção que o Brasil também precisa fazer.

Importante destacar que verticalização não é mais sinônimo de autarquia, assim como política industrial não é protecionismo. Trata-se de identificar, em cada cadeia, os elos que concentram conhecimento, tecnologia, mão de obra qualificada, capacidade de inovação e criar condições que tornem economicamente viável desenvolvê-los aqui.

Isso exige política industrial renovada. Mas, antes de tudo, fundamentos econômicos que permitam que ela funcione. Não faz sentido pedir à indústria brasileira que concorra por investimentos com países que oferecem capital, infraestrutura, logística e previsibilidade muito mais competitivos e acreditar que incentivos pontuais resolverão essa diferença. Uma fábrica imobiliza capital por anos em máquinas, engenharia, ferramentas, pessoas, estoques e fornecedores antes de gerar retorno. Por isso, juros estruturalmente altos não apenas encarecem o dinheiro; eles encarecem o futuro.

Também não se trata de proteger empresas da concorrência. O Brasil precisa de comércio, investimento estrangeiro, novas tecnologias e novos concorrentes. O capital estrangeiro que investe, emprega, pesquisa e produz aqui faz parte da indústria brasileira.

A questão é outra: estabelecer uma régua coerente entre quem apenas acessa o mercado e quem assume o compromisso de construir capacidade produtiva dentro dele. Uma política industrial ineficaz protege empresas. Uma boa política industrial constrói capacidades. O assunto é complexo, não tem solução mágica e muito menos fim em si próprio.

Por essa razão, é fundamental que a indústria ganhe cada vez mais destaque nos planos, nos debates e, principalmente, nas mentes dos candidatos e das suas equipes. Não estou falando de quantas fábricas cada um deles, se eleito, pretende atrair. Nem de quantos empregos industriais pretendem gerar. Mas de qual papel imaginam para o Brasil na economia global de 2040. Quais tecnologias queremos dominar. Em quais cadeias podemos agregar mais valor. Como transformar tributos em aliados da competitividade. E infraestrutura, tecnologia e capacitação, em produtividade.

As respostas a essas reflexões ultrapassam o debate eleitoral. Mas não podem ficar fora dele.

Fabio Rua é Vice-Presidente da General Motors para a América do Sul.

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Gestores homens contratam mais mulheres após se tornarem pais de menina, indica pesquisa

  • Mudanças de liderança surgem imediatamente após o nascimento da primeira filha e persistem ao longo do tempo
  • Ter filhos homens não parece afetar decisões de homens no trabalho

Folha/The Economist – 21.set.2026 

Em todo o mundo rico as mulheres ainda ganham 12% menos que os homens. Medidas destinadas a reduzir essa diferença —como cotas e treinamentos sobre diversidade— muitas vezes produzem o efeito contrário.

Mas um estudo publicado na revista acadêmica Review of Economic Studies identificou algo que de fato muda a forma como gestores homens veem as mulheres no ambiente de trabalho: ter uma filha.

Ter filhos homens ou ter mais filhas após já ser pai de menina não mudou escolhas dos gestores, indicam os pesquisadores 

Nina Smith, da Universidade de Aarhus, e Maddalena Ronchi, da Universidade Northwestern, usaram registros administrativos para acompanhar todos os trabalhadores e empresas da Dinamarca entre 1992 e 2017. Elas constataram que, quando gestores homens tiveram sua primeira filha, a diferença salarial entre homens e mulheres em suas empresas diminuiu.

As autoras restringiram a amostra a pequenas empresas comandadas por um único gestor, para que pudessem identificar quem era responsável pelas decisões de negócios. Essas empresas representam mais de 90% das companhias dinamarquesas.

Quando a primeira filha de um gestor homem era também sua primogênita, a proporção dos rendimentos das mulheres —uma medida de sua remuneração em relação à dos homens— aumentava 4,1%. A participação feminina no quadro de funcionários da empresa crescia 4,5%.

A mudança começava imediatamente após o nascimento e persistia enquanto o gestor permanecesse na empresa. Ter um filho homem não fazia diferença significativa, tampouco ter outras filhas depois.

Os avanços vieram principalmente de novas contratações e promoções, e não de aumentos salariais para funcionárias já contratadas ou de mulheres serem poupadas de demissões. Os dados indicam que as novas contratadas têm qualificações e experiência semelhantes às dos homens admitidos em empresas cujos gestores não acabaram de se tornar pais de menina.

Diante de homens e mulheres igualmente qualificados, o novo pai parece optar pelas mulheres, sobretudo para cargos de tempo integral e bem remunerados. A probabilidade de a pessoa mais bem paga de sua empresa ser uma mulher aumenta dois pontos percentuais.

Esse entusiasmo pela contratação de mulheres não teve efeito sobre o desempenho das empresas —provavelmente porque as mulheres contratadas não eram mais qualificadas que os candidatos homens. As vendas, o nível geral de emprego e o valor agregado por trabalhador praticamente não se alteraram.

O que se pode aprender com isso? 80% dos gestores estudados eram homens; havia poucas gestoras para verificar se a maternidade produz o mesmo impacto.

Isso dificulta determinar se o efeito de ter uma filha revela algo sobre a psicologia da paternidade ou sobre as consequências de manter uma relação próxima com alguém de outro gênero. Ainda não se sabe se existem maneiras de reproduzir esse efeito —talvez por meio de programas de mentoria que aproximem colegas de diferentes origens.

Ordenar que chefes homens tenham filhas infelizmente não é uma política adequada de recursos humanos.

Texto da The Economist, traduzido por Helena Schuster e publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em http://www.economist.com 

Homens contratam mais mulheres após terem filhas meninas – 21/09/2026 – Negócios – C-Level 

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Proeminência de TV e rádio irrita ‘big techs’ porque ameaça venda de dados e negociação de espaço nobre

Visibilidade da TV aberta e de conteúdos públicos já é realidade em diversos países; no Brasil, discussão do tema irá esquentar após eleições

Não me considero um total ignorante quando o tema é a intersecção entre tecnologia e TV. O começo da minha formação foi na infância, no alto do telhado girando uma antena “espinha de peixe”. Booster de sinal, cabo coaxial, conector rosqueado, Bombril na antena interna. Vivi tudo isso e ainda instalei videocassete, videogame em dezenas de aparelhos de TV. Até home theater já montei, além de instalar Chromecast, Apple TV,  Roku, e mais recentemente, aplicativos.

Ainda assim, durante a Copa do Mundo, precisei recorrer a uma pesquisa na internet e gastar quase 40 minutos para conseguir fazer os canais da TV aberta funcionarem na minha Smart TV. Mas essa dificuldade não é uma limitação da tecnologia ou erro de projeto. Ao contrário, é uma estratégia para acelerar uma crescente fonte de receita de fabricantes de TV.

Nos últimos anos, empresas de tecnologia e de produtos eletroeletrônicos entenderam que podem lucrar muito mais vendendo os dados de seus usuários, e também publicidade, do que propriamente comercializando produtos tradicionais como TVs.

Alguns casos recentes, como o revelado semana passada por uma investigação do canal no YouTube Gamers Nexus com o Level1Techs e pesquisadores independentes, revelam a extensão dos esforços das empresas para monetizar informações dos consumidores.

De acordo com a investigação, televisores OLED da LG coletavam dados de usuários mesmo com o aparelho em modo standby. Ou seja, até com a tela apagada a TV seguia gravando o áudio captado pelos microfones do aparelho e comandos de voz.

Análises de tráfego também mostraram as TVs varrendo a rede doméstica, identificando celulares e relógios inteligentes conectados e coletando IPs internos, nomes de redes Wi-Fi próximas, intensidade de sinal e dados de localização. Ao desconectar a TV da internet, a coleta também não parava.

Os dados ficavam armazenados localmente e eram transmitidos assim que a conexão voltava. Segundo a investigação, parte desse material abasteceria a LG Ad Solutions, braço publicitário da LG que vende publicidade nos eletroeletrônicos da marca.

O Gamers Nexus afirma que a maior parte dos problemas identificados está relacionada à tecnologia de Reconhecimento Automático de Conteúdo (ACR) da LG, que usa essas capacidades de escuta para descobrir o que o usuário está assistindo, qual aplicativo está usando e quais dispositivos se conectam à TV.

“Sabemos quem está dentro da casa LG”, disse um representante da LG em um vídeo corporativo da LG incluído na investigação do Gamers Nexus. “Sabemos quais dispositivos estão ali”. Em outro vídeo, um executivo da LG Ad Solutions afirma: “Somos os donos da tela”.

A LG afirmou em um post publicado em seu blog que recursos como reconhecimento automático de conteúdo, reconhecimento de voz e publicidade baseada em interesses são de adesão voluntária (opt-in) e não vêm ativados por padrão. Segundo a companhia, as TVs da LG processamdados de voz apenas quando o botão de voz do controle remoto é pressionado e mantido apertado, ou quando o cliente pronuncia a “palavra de ativação” do aparelho.

Se de fato a LG “espiona” seus usuários é uma questão aberta. Porém, é evidente que um número assombroso de informações dos usuários é usado para vender mais publicidade em smart TVs e outros eletroeletrônicos.

Na prática, isso coloca empresas de mídia tradicional em desvantagem. No caso do rádio e da TV aberta, por exemplo, o sinal é transmitido em uma única via, dificultando a coleta massiva de dados de usuários, o que tende a depreciar o valor da publicidade e dificulta a segmentação de campanhas publicitárias menores usualmennte realizadas por pequenas e médias empresas.

Mudança estrutural do mercado

Com o crescimento da internet e do streaming, o número de plataformas de conteúdo e de produção audiovisual disparou. Se há alguns anos havia somente um punhado de canais na TV aberta e a cabo, hoje até mesmo os fabricantes de TV e sistemas operacionais de televisores oferecem dezenas, quando não centenas, de alternativas gratuitas de canais que são monetizados por meio de publicidade.

É positivo termos mais alternativas de conteúdo, e ainda por cima de graça. O problema é que com uma dezena de gigantes de tecnologia controlando TVs e plataformas de streaming, o conteúdo nacional tende a desaparecer, a qualidade do conteúdo tende a cair e os preços sobem (seja com mais anúncios ou valores mais altos por assinaturas sem publicidade).

Quanto mais informações uma empresa tem sobre seus usuários, em detrimento da privacidade dos consumidores (vale lembrar), maior tende a ser o volume de vendas de anúncios. As empresas afirmam que não revelam os nomes dos usuários nesses processos de extração de dados, eles apenas viram “perfis anônimos”. Porém, a riqueza dos dados (conhecidos como metadados ou dados sobre dados) é tão grande que mesmo anônimos esses dados permitem a fácil identificação de qualquer usuário. Um estudo clássico de Latanya Sweeney (pesquisadora de Harvard) mostrou que CEP, data de nascimento e sexo são suficientes para identificar 87% dos americanos.

No atual mercado de TVs conectadas à internet, além da privacidade, outro grande perdedor são canais de TV aberta e serviços de interesse público, que têm cada vez menos espaço nas TVs, assim como o conteúdo nacional.

Como as TVs e plataformas de streaming são controladas por multinacionais estrangeiras com alcance mundial, é mais fácil comprar um único conteúdo “enlatado” e distribuir para o mundo inteiro do que produzir localmente ou fazer jornalismo. No modelo das “big techs”, a lógica artística e jornalística dá lugar à lógica do engajamento.

O modelo de engajamento, não raro feito por influenciadores, IA ou produtores de países menos desenvolvidos e menos regras trabalhistas, também deprecia os valores de salários e cachês de profissionais. Indiretamente, o modelo das plataformas promove a “uberização” dos produtores de conteúdo.

A importância da porta de entrada

Neste cenário, a proeminência importa porque quem controla as TVs, aparelhos eletroeletrônicos e principalmente, os sistemas operacionais destes equipamentos, controla a porta de entrada, e principalmente, domina os dados dos usuários.

A Amazon conseguiu habilmente capturar este novo modelo. A gigante de e-commerce ao longo dos últimos anos desenvolveu seu próprio sistema operacional para aparelhos de TV. Os televisores na realidade dão pouco lucro, ou até prejuízo, em um mercado altamente competitivo com margens que dificilmente ultrapassam 3% para os fabricantes de TV.

A Amazon licencia seu sistema Fire TV OS para terceiros como como TCL, Hisense, Toshiba, Panasonic e Xiaomi, que vendem TVs com a interface da Amazon embarcada.

A Amazon não precisa fabricar a TV, basta controlar o sistema operacional para definir o que aparece na tela inicial, coletar os dados de visualização e vender o inventário publicitário via Amazon Ads e Fire TV ads. O fabricante fica com a margem apertada do hardware, enquanto a Amazon fica com o dado e com a receita publicitária recorrente.

A Amazon Ads já é a terceira maior plataforma de publicidade digital do mundo, com cerca de 11% do gasto global em publicidade digital, atrás apenas do Google e da Meta. A Amazon faturou US$ 68,6 bilhões com publicidade em 2025, em comparação a US$ 56,2 bilhões em 2024, uma alta de 22%. O ritmo acelerou em 2026, alcançando US$ 17,24 bilhões no primeiro trimestre (+22%) e US$ 19,81 bilhões no segundo (+26%), um acréscimo de US$ 4,1 bilhões sobre o mesmo período de 2025. A publicidade já responde por cerca de 9,9% das vendas líquidas trimestrais da companhia, que somaram US$ 200,6 bilhões.

É o mesmo padrão do Google (Google TV, licenciado para Sony, TCL, Hisense) e do Roku (Roku TV, licenciado para Sony, TCL, Hisense) e do Roku (Roku TV, licenciado para TCL, Hisense, Philips). Neste caso, três empresas americanas controlam a interface de entrada de boa parte das TVs vendidas globalmente, enquanto os fabricantes asiáticos (Samsung e LG, com seus próprios sistemas, respectivamente, Tizen e webOS) tentam abocanhar o que resta do mercado.

Por que a proeminência importa

Em um momento no qual o debate sobre soberania digital cresce no mundo todo, a proeminência audiovisual é a camada mais visível da soberania digital no cotidiano das pessoas. Não adianta um país ter cota de conteúdo nacional se o conteúdo nacional não aparece na primeira tela dos dispositivos. Na prática, são executivos na Califórnia ou Seul que decidem o que veremos.

Oito países já legislaram sobre quem aparece primeiro na tela da smart TV. Alemanha, França e Austrália têm regras em vigor. A legislação alemã garante que serviços de valor público sejam facilmente encontráveis em smart TVs, interfaces e guias eletrônicos, com proibição expressa de discriminação na ordenação. A França aplica o conceito de “visibilité appropriée” pelo Art. 20-7 da Lei 86-1067, sob fiscalização da Arcom, alcançando home, busca, recomendações e até o controle remoto. A Austrália foi mais direta: o Broadcasting Services Act e as Minimum Prominence Requirements Regulations de 2024 impõem requisitos aos próprios fabricantes, como a TV aberta local ser fácil de achar em toda smart TV nova conectada.

O Canadá foi além do aparelho. O Online Streaming Act de 2023 (a Lei C-11) alcança plataformas online, inclusive serviços de compartilhamento de vídeo como o YouTube, obrigando-as a promover a descobribilidade de conteúdo canadense e indígena via recomendação e resultado de busca. A aplicação veio com a Política CRTC 2026-95, de maio deste ano.

No Reino Unido, o Media Act 2024 criou obrigações de proeminência para os serviços públicos (BBC, ITV, Channel 4) justamente porque se percebeu que, sem regra, o conteúdo nacional e de interesse público simplesmente desaparece da interface, enterrado sob camadas de menu. A UE discute o mesmo.

Em junho de 2026, um green paper (documento de consulta pública que precede projeto de lei no Reino Unido) chamado “Watch this space”, apresentado ao Parlamento britânico, trouxe um dos mais consistentes relatórios sobre o desafio da proeminência e propõe medidas práticas para melhorar o mercado.

“Em seu melhor, nossa mídia fornece a base de um país coeso e de uma democracia saudável”, afirma o relatório. “Ela tem o poder de promover entendimento compartilhado, fatos compartilhados e experiências compartilhadas, que ajudam as pessoas a confiar umas nas outras e a se compreender mutuamente. É sobre esse terreno comum que um país se constrói. No entanto, como tantos outros de nossos espaços cívicos, ela enfrenta desafios fundamentais que colocam esses benefícios em risco”.

O documento lembra ainda que a televisão passa por uma transformação profunda e rápida, tendo migrado de um sistema de canais de radiodifusão limitados para um ambiente de ‘conteúdo em toda parte’, no qual os maiores players são serviços globais de streaming, plataformas de compartilhamento de vídeo e empresas de redes sociais.

“Nossos radiodifusores nacionais, incluindo a mídia de serviço público, lutam para ser vistos e ouvidos em um mercado cada vez mais competitivo e fragmentado. As pessoas acessam notícias cada vez mais pela internet, e não por espaços mais regulados, como o Freeview em seus aparelhos de TV. Isso enfraquece a capacidade de fontes confiáveis d notícia de alcançar audiências e moldar o debate público informado”, conclui.

Plataformas de vídeo e streaming já respondem por 74% do tempo de vídeo do público de 16 a 24 anos no Reino Unido. O YouTube é o serviço mais assistido por crianças de 4 a 15 anos, e apenas 45% dos adultos se dizem capazes de julgar se uma fonte de notícia é verdadeira.

O documento propõe sete frentes de trabalho. A mais original é criar um regime para conteúdo de serviço público, alcançando veículos nacionais e locais. A segunda é garantir proeminência do conteúdo dos radiodifusores públicos em plataformas de terceiros. Neste sentido, o governo prefere acordos voluntários e cita o pacto entre BBC e YouTube, de janeiro de 2026, mas avisa que irá legislar se as parcerias não bastarem.

O paper propõe ainda uma transição de infraestrutura e de marco regulatório. O Freeview (plataforma de TV digital aberta do Reino Unido) ficaria garantido até o fim de 2034, com desligamento gerenciado ou extensão até 2044. Mais de 4 milhões de domicílios ainda dependem dele, mas o custo da rede terrestre é descrito como insustentável para os radiodifusores.

Basicamente, a reforma regulatória propõe sair de um sistema baseado em como o conteúdo é entregue para um baseado em onde a audiência o consome, com padrões iguais independentemente da plataforma. O sistema de serviço público deixaria de ser regulado por licenças de radiodifusão, o que permitiria exigir que os provedores produzam conteúdo para redes sociais.

Somam-se um novo dever de letramento midiático e a extensão das “joias da coroa” do esporte aos direitos sob demanda.

A proposta brasileira de proeminência

No Brasil, o debate sobre regulação do streaming (o PL 2331/2022 e correlatos) toca nisso, mas de forma incipiente. Sem regra de proeminência, o conteúdo brasileiro compete por visibilidade numa tela cujo layout é definido por executivos em Seul ou na Califórnia.

Países que já legislaram sobre a proeminência perceberam que a cota de conteúdo nacional vale pouco se o conteúdo local estiver enterrado no terceiro submenu.

No Brasil, o PL 5873/2025 aguarda aprovação no Senado desde novembro de 2025. O texto cria o marco regulatório do streaming no Brasil. De acordo com o projeto de lei, haveria credenciamento obrigatório dos provedores na Ancine, cota mínima de 10% de conteúdo brasileiro no catálogo (metade independente, com implementação progressiva a partir de 2%), Condecine sobre a receita bruta anual dos serviços em alíquotas de 0,5% a 4%, dedução de até 60% para quem investir em produção nacional, e representante legal no país para plataformas estrangeiras. Serviços de compartilhamento de vídeo, o YouTube entre eles, pagam alíquota menor, de 0,1% a 0,8%.

Um dos trechos mais relevantes também foi um dos menos discutidos. O artigo 15 alcança os fabricantes de aparelhos, não só os aplicativos. De acordo com o PL, quem vende TV no país terá de oferecer, na interface inicial, acesso direto e irrestrito à plataforma comum de comunicação pública e aos serviços de radiodifusão como a TV aberta. E quando recomendar conteúdo de terceiros na própria interface, o fabricante será equiparado a provedor de streaming e herda as obrigações de proeminência de conteúdo brasileiro.

Os artigos 5º e 6º determinam ainda destaque para o conteúdo nacional na página inicial (home) e tratamento igual, sem discriminação, nos algoritmos de recomendação. É o modelo australiano, que regula também o aparelho, e não apenas o serviço como acontece na Europa.

Vale dizer que a proeminência de conteúdo e de canais não impede a captura de dados dos usuários, porém ela cria uma alternativa para que o consumidor assista a um conteúdo que não será necessariamente monetizado de maneira direta pelo dono do sistema operacional.

Opositores da proeminência alegam que a mudança beneficiaria principalmente incumbentes como Globo, SBT, Record e Band. Entretanto, como o relatório do Reino Unido destaca, há uma clara mudança na infraestrutura que a legislação até aqui não levava em conta. O mercado de TV Conectada (CTV) no Brasil alcança mais de 88 milhões de pessoas, o que representa cerca de 67% da população online do país.

E mais, se o Brasil não tem uma gigante pública como a BBC dos ingleses, o alcance e relevância da TV aberta no país é maior do que a da TV pública no Reino Unido. A TV aberta ainda representa mais de dois terços do consumo de vídeo dos brasileiros, segundo dados do Ibope.

A questão da isonomia costuma ser a parte mais criticada, apontada pelas empresas contrárias como uma forma de intervenção estatal em um produto privado. Porém, não se trata do Estado escolher o que está na vitrine, mas sim desenvolver mecanismos para impedir que a vitrine seja usada para eliminar concorrentes.

É justamente essa possibilidade que assusta as gigantes de tecnologia. Ao cederem espaço em suas plataformas para conteúdos que não controlam, diminui também sua capacidade de monetizar os dados dos usuários, e mesmo de vender publicidade, já que ela é negociada pelas próprias emissoras quando se trata de TV. Em contrapartida, os brasileiros voltam a ter acesso amplo ao conteúdo gratuito e acessível a todos gerado pela radiodifusão nacional, e também ao jornalismo de fontes verificadas.

Após as eleições, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), deverá lançar uma campanha nacional para discutir o tema da proeminência. Um dos pleitos da entidade é ter um botão de TV aberta nos controles das novas TVs.

Um botão de TV aberta no controle do televisor seria um alívio. Na próxima Copa, eu e milhares de brasileiros, não precisaríamos gastar um longo tempo em tentativas de assistir à TV aberta no aparelho em casa.

PS.: O tema da proeminência esteve na pauta da Abert durante a posse de sua nova diretoria, que aconteceu no final de agosto, em Brasília. Participei como convidado do evento e viajei a convite da entidade para falar a seus membros na abertura do encontro.

*Guilherme Ravache é consultor e atua em projetos de jornalismo digital no Brasil e exterior. Nos últimos anos, especializou-se na cobertura do mercado de mídia

https://valor.globo.com/empresas/marketing/coluna/proeminencia-de-tv-e-radio-irrita-big-techs-porque-ameaca-venda-de-dados-e-negociacao-de-espaco-nobre.ghtml

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Quando a admiração pelo professor passa ao influenciador, a crise não é da escola – é da sociedade

Qualquer lugar virou opção, menos a sala de aula. A desilusão tem causas objetivas: Salário baixo, sala superlotada, violência escolar, desprestígio social, pais que desautorizam, celulares que disputam a atenção, redes sociais que difamam o docente por esporte

Por Leandro Karnal – Estadão – 20/09/2026

Os números assustam quem quiser olhar. Entre 2010 e 2021, houve uma redução de cerca de 26% nas matrículas em cursos de formação de professores no Brasil, segundo o Censo da Educação Superior do Inep. Um quarto dos aspirantes simplesmente desapareceu. Evaporaram para onde? Para cursos tecnológicos, para o empreendedorismo digital, para a vida adulta precoce dos aplicativos de entrega. Qualquer lugar virou opção, menos a sala de aula.

Há um dado que eu repetiria em qualquer mesa de jantar, só para ver a reação dos comensais. Das 2,8 milhões de vagas ofertadas em cursos de licenciatura em 2021, apenas 300 mil foram preenchidas. Apenas 15% dos quase 4 milhões de ingressantes em cursos superiores optam por licenciatura. Mais de 50% dos matriculados abandonam a formação antes de concluí-la. Traduzo: abrimos as portas da vocação, e os corredores estão vazios. Quem entra desiste. Quem não desiste chega ao fim desencantado e, por vezes, endividado. Minha área de formação virou um território de crise.

A desilusão tem causas objetivas. Salário baixo, sala superlotada, violência escolar, desprestígio social, pais que desautorizam, celulares que disputam a atenção, redes sociais que difamam o docente por esporte. O rendimento médio do professor brasileiro da educação básica com nível superior foi de cerca de R$ 5.500 em 2024, segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica (Todos pela Educação, com dados do Inep e da RAIS), enquanto a média da OCDE chega praticamente ao dobro. Mas há também uma causa subjetiva, menos discutida: o professor deixou de ser figura de aspiração. O menino que admirava o mestre passou a admirar o influenciador. A menina que queria ser professora agora quer ser algo, qualquer coisa, que produza conteúdo em vídeo vertical. Pesquisa Varkey de 2018, em 35 países, colocou o Brasil em último lugar em prestígio docente: ficamos atrás inclusive da Argentina, da Colômbia e do Peru.

A máquina pública vê o precipício. Segundo projeções, se não houver mudanças significativas, em 2040 o país precisará de aproximadamente 235 mil docentes adicionais para atender à demanda estudantil. O governo respondeu com o programa Pé-de-Meia Licenciaturas, inspirado no Mais Médicos, oferecendo bolsas mensais para atrair jovens à carreira. É um paliativo bem-intencionado. Não basta. Nenhum subsídio de mil reais compete com a fantasia de enriquecimento instantâneo que o algoritmo vende todo dia no café da manhã.

Há uma perversidade estrutural que merece destaque. Entre 2015 e 2024, houve ampliação de 8,26% do número de professores no Brasil, enquanto as matrículas escolares se reduziram em 8,55% (Le Monde Diplomatique). Paradoxo aparente? Não. Reflexo do envelhecimento da categoria, aquilo que pesquisadores chamam, com precisão melancólica, de “adulti-idosificação do magistério”. A idade média dos docentes efetivos das redes estaduais já beira os 46 anos, e o número de professores da educação básica com 50 anos ou mais cresceu 109% entre 2009 e 2021, segundo o Instituto Semesp, com base em dados do Inep. Os professores envelhecem em serviço porque ninguém chega atrás deles. O que parece sobra é, na verdade, represamento. Quando essa geração se aposentar em bloco (e ela vai), a cadeira ficará vazia.

Há também a questão das áreas críticas. O Tribunal de Contas da União, em 2014, já apontava física, química, sociologia e filosofia como as disciplinas com maior escassez de professores. Mais de uma década depois, a deficiência não só persiste como se agravou. Uma geração inteira de adolescentes brasileiros termina o ensino médio sem nunca ter aberto uma equação de Schrödinger, sem jamais ter ouvido o nome de Comte, sem saber a diferença entre planalto e planície. Não sabem porque não há quem ensine. O resultado salta no PISA 2022: o Brasil ficou na 65.ª posição em matemática entre 81 países avaliados, com 73% dos jovens de 15 anos em nível abaixo do básico.

A crise não é somente da escola. É da sociedade que produziu essa escola. Quando um país trata o professor como o Brasil trata, o professor é o espelho daquilo que o país pensa de si mesmo. Pagamos mal porque nos julgamos mal. Desvalorizamos o magistério porque desprezamos o conhecimento formal. No fundo, muitos acreditam que a esperteza basta. O grito substitui o estudo paciente. Anísio Teixeira, em 1936, advertiu: “Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias: a escola pública”. A máquina nunca foi montada de fato. Hannah Arendt, em A Crise na Educação (1958), foi mais longe: “A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumir a responsabilidade por ele”.

Montaigne dizia que é melhor uma cabeça bem-feita do que uma cabeça bem-cheia. Mas as duas dependem de alguém que tenha dedicado a vida a fazê-las. Se esse alguém desaparece, o que sobra? Suspeito que seja o improviso com tutorial de YouTube. Talvez seja esse o horizonte que se anuncia. A inteligência artificial ensinando jovens criados sem mestres. O professor será visto como personagem de outra época, talvez como olhamos acendedores de lampiões de eras passadas. Paulo Freire dizia que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua produção. Sem professor, não há possibilidade. Tudo vira conteúdo sem curadoria e vídeos superam gente preparada para trabalhar com alunos.

Os números deveriam estar sendo debatidos de forma séria na campanha eleitoral. O que vejo? Imbecis dizendo que a escola está doutrinando alunos. A realidade? A escola perdeu a força de convencer. Alunos e professores desejam o modelo mais recente de celular. Sou professor há 44 anos e nunca vi nada tão grave. Peço licença para manifestar o que vem do fundo do meu coração de forma contundente: “Candidatos: parem de falar mer(…) e comecem a avaliar o mundo real da sala de aula”. Não aguentamos mais. Perdão pela falta de esperança e pelo palavrão. Não é comum no meu texto, como a querida leitora e o estimado leitor sabem há uma década. Por vezes, porém, a moderação deve ser derrubada. Sem professores bem formados, bem pagos e com boas condições profissionais, não haverá um Brasil que valha a pena no futuro imediato. Por favor, ouçam a voz dos profissionais da educação. Comecem, enfim, a discutir o Brasil nesta campanha.

Quando a admiração pelo professor passa ao influenciador, a crise não é da escola – é da sociedade – Estadão 

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Economia chinesa desacelera, mas exportações disparam

O segundo choque chinês é bem mais que uma válvula de escape para as agruras do consumo interno

Por Editorial – Valor – 16/09/2026 

A economia chinesa está desacelerando aos poucos, em um movimento equilibrado pelo avanço de sua formidável capacidade exportadora. O consumo interno e os investimentos estão caindo, mas não a produção industrial, que tem permitido mega-superávits comerciais com o resto do mundo. Desde o estouro da bolha imobiliária chinesa, em 2021, o governo teve incentivos para substituir os motores do crescimento, das exportações para o consumo interno, o que exige estímulos para o aumento da renda doméstica. Isso não aconteceu, e o boom de exportações indica que não deverá ocorrer tão cedo.

Os números de agosto revelam os dois lados da economia chinesa. O varejo cresceu apenas 0,4% em relação ao mesmo mesmo mês de 2025, ante 0,6% na mesma comparação em julho. Os investimentos declinam há cinco meses consecutivos, e, nos oito primeiros meses do ano, diminuíram 7,2%. A atividade industrial, no entanto, está em alta e evoluiu 5,2% comparada à de agosto de 2025, ante 4,8% um mês antes. Cinco anos depois da debacle imobiliária, os preços dos imóveis ainda estão em declínio. No segundo trimestre, o PIB do país avançou 4,3%, a menor marca em décadas e abaixo da previsão de 4,5%-5% feita pelos governantes chineses.

Mas a China se tornou um grande exportador de produtos de alta tecnologia, superando o atraso em uma série de setores estratégicos e competindo com vantagens nos mercados antes cativos, dos países ricos. O objetivo do presidente Xi Jinping com seu “Made in China 2025”, de transformar o país em uma potência tecnológica, foi praticamente cumprido. Mesmo transtornos enfrentados no caminho — como o excesso de capacidade produtiva, a feroz competição doméstica que reduziu significativamente as margens de lucros das empresas e a ameaça de deflação com redução por anos a fio dos preços dos produtores — serviram à atual ofensiva exportadora de grande escala.

Competitividade, capacidade ociosa e juros baixos e subsídios fizeram o prodígio de a China ter obtido um superávit comercial de US$ 1,2 trilhão em 2025, ano em que as barreiras protecionistas americanas foram intensificadas e políticas de substituição de importações, com viés geopolítico, foram impulsionadas em vários países desenvolvidos. A capacidade da máquina exportadora foi ajudada por uma política dirigida de desvalorização cambial, arma tradicionalmente usada por Pequim para conquistar mercados. O Fundo Monetário Internacional estima que o yuan esteja depreciado em 20%. Há estimativas que apontam 35%.

A depreciação foi uma defesa contra o protecionismo tarifário de Donald Trump, mas serviu de coadjuvante para impulsionar  as vendas em meio a tendências em desenvolvimento, bastante favoráveis aos produtos de média e alta tecnologia chineses, como aponta a consultoria Oxford Economics. O país é um grande fornecedor de produtos de eletrônica, largamente consumidos e utilizados nas exportações do Leste Asiático, como Vietnã, cujas vendas para os EUA dispararam.

Além disso, em disputa com os EUA, a China deu enormes passos na inteligência artificial (IA) e nos insumos necessários para construir sua infraestrutura, e a demanda para esses bens tem sido imensas. E, por fim, com a guerra na Ucrânia e no Irã, que catapultaram os preços da energia, a China preencheu seu mercado doméstico, e invadiu o mundo, com seus veículos elétricos e baterias — ela produz quase 75% desses carros vendidos no mundo e 86% dos painéis de energia solar.

Os produtos baratos de baixa tecnologia, que arruinaram indústrias congêneres de países em desenvolvimento no início dos anos 2000, foram agora substituídos por bens de alta tecnologia extremamente competitivos, que igualmente provocam estragos nos rivais desenvolvidos. A Unido, órgão da ONU para desenvolvimento industrial, estima que a fatia da China no valor agregado da manufatura global passará de 30% em 2020 para 45% em 2030. Essa fatia de 30% é produzida por cerca de 123 milhões de trabalhadores, e para equiparar-se à produtividade chinesa, todos os bens manufaturados do mundo poderiam ser feitos por 400 milhões de trabalhadores, ou 7% da população mundial em idade de trabalho (Adair Turner, Valor, 11-9).

Há desequilíbrios que colocam barreiras no caminho dessa prosperidade. Os países ricos, em especial EUA e Europa, estão se protegendo com tarifas da invasão chinesa, assim como países emergentes. A forte depreciação do yuan reduz os salários domésticos e retira fôlego do consumo, além de encarecer os insumos necessários à produção de bens de alta tecnologia. Isso não é um problema para um país hoje ameaçado de deflação, mas pode se tornar um no futuro. A nova onda exportadora, que economistas apelidaram de “China Shock 2.0”, foi bem mais que uma válvula de escape para as agruras do consumo interno. Pragmáticos, os líderes de Pequim consolidaram novas posições de força no mercado global, e os problemas domésticos só ganharão a atenção em outro momento, quando as tensões domésticas se acumularem.

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/economia-chinesa-desacelera-mas-exportacoes-disparam.ghtml 

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Brasil e Mercosul miram boom do petróleo em Guiana e Suriname para exportar bens e serviços

Descobertas de óleo e gás impulsionam aproximação estratégica, com foco em exportação de bens e serviços ligados ao setor de óleo e gás

Por João Caires (Broadcast) e Renan Monteiro (Broadcast) – Estadão – 17/09/2026

BRASÍLIA – A descoberta de grandes reservas de petróleo na margem norte da América do Sul tem impulsionado uma aproximação comercial entre o Mercosul e países como Suriname e Guiana, que passaram a ser vistos pelo bloco não apenas como parceiros para integração regional, mas também como mercados estratégicos para exportação de bens, serviços e infraestrutura ligados à indústria de óleo e gás, segundo relatos de fontes do governo ao Estadão/Broadcast.

As tratativas com o Suriname estão atualmente mais avançadas, e exclusivamente com o Brasil, por meio de um acordo bilateral. O Ministério das Relações Exteriores e a contraparte no Suriname assinaram, em maio deste ano, os termos de referência para negociar a ampliação do acordo comercial bilateral, hoje restrito basicamente a uma cota de exportação de arroz do país caribenho para o mercado brasileiro.

Embora a aproximação entre Mercosul, Guiana e Suriname remonte ao fim dos anos 1990 — quando o objetivo era fortalecer os laços entre o bloco sul-americano e a Comunidade do Caribe (Caricom) —, o cenário se intensificou com as oportunidades abertas após as descobertas de petróleo e gás nos dois países.

O principal interesse brasileiro está na abertura de espaço para exportação de equipamentos, serviços especializados e máquinas para a indústria petrolífera, que mais tem apoiado o avanço de acordos e negociações junto ao Itamaraty. O setor de bens e serviços para exploração offshore é apontado como uma das áreas com maior potencial de avanço nas negociações com o País.

Além da cadeia de óleo e gás, o Brasil também vê oportunidades para ampliar exportações de alimentos, produtos agrícolas, medicamentos, equipamentos médicos e bens de capital à medida que as economias da região ganham renda e atraem investimentos.

Já a Guiana, que registra forte expansão econômica impulsionada pela produção de petróleo, desperta atenção especial dentro do Mercosul. Nesse caso, o crescimento acelerado do País aumentou o interesse dos demais sócios do bloco em aprofundar a relação comercial com Georgetown.

No ano de 2025, a corrente de comércio com Suriname foi de US$ 54,9 milhões, quase 99% em exportações brasileiras para o vizinho. Já com a Guiana, o cenário é bem diferente: a corrente de US$ 118,8 milhões foi deficitária em US$ 62,4 milhões para o Brasil — unicamente pela importação de óleo bruto.

O presidente-executivo da Associação Brasileira das Empresas de Bens e Serviços de Petróleo (ABESPetro), Telmo Ghiorzi, defende que o Brasil deve aumentar a prospecção de petróleo, pensando na manutenção do nível de empregabilidade e geração de receita do setor. “O Brasil não pode ficar sem perfurar. A Noruega, que nem precisa, está perfurando quatro vezes mais que o Brasil. Guiana, Suriname, África, todo mundo está buscando petróleo desesperadamente”, declarou.

Para Walberto L. Oliveira Filho, sócio do escritório Ernesto Borges Advogados, Guiana e Suriname são países que precisam construir rapidamente uma cadeia de fornecedores que o Brasil já tem. Segundo ele, há uma combinação positiva: proximidade geográfica, escala industrial e experiência consolidada em águas profundas.

“A frente mais imediata é a exportação de equipamentos e serviços offshore: a cadeia de engenharia submarina desenvolvida no Pré-Sal (FPSOs, embarcações de apoio, válvulas, tubulações, risers, árvores de natal submarinas, manutenção e inspeção). A segunda frente é infraestrutura e integração regional”, avaliou.

Porta de entrada para o Caribe

Além do potencial energético, Guiana e Suriname são vistos pelo governo brasileiro como corredores estratégicos para ampliar a presença comercial do Mercosul no Caribe.

A avaliação é que o fortalecimento da infraestrutura logística entre o Norte do Brasil e os dois países poderá facilitar o acesso a portos voltados para os mercados caribenhos, reduzindo distâncias e custos para exportadores brasileiros.

Nesse contexto, o governo brasileiro estaria trabalhando para ampliar a integração terrestre entre os países, com projetos de conexão rodoviária via Roraima (RR), por meio da BR-401, ou pelo Amapá (AP), pela BR-156.

O Mercosul também busca ampliar sua presença comercial no Caribe por meio de uma aproximação com a República Dominicana. O Brasil coordena as negociações do bloco com Santo Domingo desde 2020, mas os avanços têm sido limitados pela resistência dominicana a novos acordos comerciais.

O setor privado do País teme repetir experiências anteriores em que acordos de livre comércio resultaram em aumento das importações sem expansão equivalente das exportações. Diante desse cenário, os sócios do Mercosul passaram a discutir a possibilidade de um acordo-quadro semelhante ao firmado com o Panamá, que permitiria negociações bilaterais posteriores entre os países interessados. Entretanto, a República Dominicana ainda não respondeu formalmente às propostas apresentadas pelo Mercosul nos últimos anos.

Brasil e Mercosul miram boom do petróleo em Guiana e Suriname para exportar bens e serviços – Estadão 

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‘A métrica não é mais o clique, é a reputação na busca generativa’

Regina Moura, que dirige a comunicação corporativa da Roche Farma Brasil, diz que “a reputação, na busca generativa, se constrói pela qualidade das fontes que te citam, que te referendam, que falam sobre o tema que você domina”

Por Andrea Assef – Valor – 14/09/2026 

A inteligência artificial mudou a forma como uma empresa precisa se posicionar no ambiente digital. As ferramentas de IA pesquisam prioritariamente o que o mercado chama de mídia espontânea, conteúdo publicado pelos veículos de comunicação e pelos formadores de opinião com credibilidade.

A avaliação é de Regina Moura, que dirige a comunicação corporativa da Roche Farma Brasil. “A métrica não é mais o clique. É a reputação. E a reputação, na busca generativa, se constrói pela qualidade das fontes que te citam, que te referendam, que falam sobre o tema que você domina”, afirma a executiva. Moura observa que na lógica do SEO, sigla para Search Engine Optimization (otimização para mecanismos de busca), vencia quem tinha mais volume de conteúdo e palavras-chave bem otimizadas. Agora, na busca generativa, com o GEO (Generative Engine Optimization), o que importa é a confiança. A seguir, a entrevista ao Valor.

Valor: De que forma a inteligência artificial está presente na rotina de comunicação de uma empresa farmacêutica?

Regina Moura: A IA está sendo testada e estudada de diferentes maneiras. Em uma empresa como a Roche, por exemplo, é utilizada desde o início da cadeia, na pesquisa e desenvolvimento de novas moléculas. Na comunicação, a adoção veio no início de 2023. Naquele momento já havia o entendimento claro de que quem não dominasse aquela ferramenta ficaria para trás. Hoje ela está no dia a dia, na estruturação de textos, na resposta a e-mails, na produção de vídeos para comunicação interna, em apresentações, no monitoramento de marca. Para mim é uma espécie de “assistente de pensamento”.

Valor: Como assim?

Moura: A IA ajuda a pensar a partir do momento que desafia suas perguntas, aponta perspectivas que você não havia considerado, levanta riscos de comunicação que o olho humano pode ter perdido. É quase um treino executivo disponível o tempo todo. O time se concentra no conteúdo, que é o que faz diferença.

Valor: A IA muda a forma como uma empresa precisa estar presente no ambiente digital?

Moura: Completamente. Na lógica do SEO, vencia quem tinha mais volume de conteúdo e palavras-chave bem otimizadas. Na busca generativa, o que importa é confiança. As ferramentas de IA buscam prioritariamente o que o mercado chama de mídia espontânea, conteúdo publicado pelos veículos de comunicação e pelos formadores de opinião com credibilidade. Uma pesquisa publicada recentemente na “Vogue” americana mostrou que 80% das respostas da IA generativa às buscas dos usuários vieram desse tipo de conteúdo. O GEO, Generative Engine Optimization, está sendo chamado de o novo SEO. A métrica não é mais o clique. É a reputação. E a reputação, na busca generativa, se constrói pela qualidade das fontes que te citam, que te referendam, que falam sobre o tema que você domina.

Valor: O setor farmacêutico opera sob restrições rígidas de divulgação publicitária no Brasil. Como a comunicação constrói presença de marca nesse contexto?

Moura: O mercado de medicamentos de prescrição é extremamente regulado, e isso não é uma limitação, é algo fundamental. Imagine um paciente oncológico sendo influenciado por uma campanha publicitária a pedir determinado medicamento ao médico. Quem tem condições de avaliar o subtipo do câncer, a linha de tratamento adequada, o perfil do tumor, é o médico, não o marketing. A cadeia é clara: a empresa comunica a ciência, o médico interpreta e leva ao paciente. Em oncologia, em hemofilia, em doenças neurológicas raras, a seriedade do quadro clínico já tornaria imprópria qualquer campanha voltada diretamente ao consumidor. Confiança, aqui, não é atributo de marca. É condição para operar.

Valor: Com públicos tão distintos, como médicos, pacientes, jornalistas e investidores, como a comunicação define o que diz, para quem diz e por qual canal?

Moura: O que cabe à comunicação no segmento farmacêutico é garantir que as informações científicas de qualidade e o letramento em saúde estejam disponíveis nos canais certos: nas revistas especializadas, nos sites médicos, nos grandes congressos, nos fóruns de associações de pacientes, ambiente digital e nos grandes veículos de imprensa.

Valor: Como funciona na prática?

Moura: A área médica fala com o médico. É médico conversando com médico. No digital, isso se organiza em torno do que o mercado chama de Digital Opinion Leaders, os DOLs, médicos com presença relevante nas redes que conversam com outros médicos sobre moléculas e áreas terapêuticas. Muitas vezes nem citam a empresa. Falam da molécula, não do nome comercial. É uma comunicação sobre ciência, não sobre produto. Há também pacientes que falam espontaneamente sobre o tratamento que fazem, de forma completamente orgânica, não promovida, e esses depoimentos têm um peso enorme em termos de reputação. Além disso, a IA ao buscar sobre determinada área terapêutica deve encontrar um conteúdo bem produzido e útil que a empresa ajudou a colocar em circulação.

Valor: Quais são os pilares que sustentam a reputação de uma empresa no setor farmacêutico?

Moura: Reputação é a distância cada vez menor entre o que digo, o que faço e o que as pessoas pensam de mim. Quanto menor esse espaço, mais sólida a reputação. Os pilares, em resumo, são confiança, relevância e autoridade. Confiança porque sem ela não há licença para operar nesse mercado. Relevância porque é preciso estar nas conversas que importam para a sociedade, falar de diagnóstico precoce, de prevenção, de acesso ao tratamento. E autoridade porque, para ser reconhecida, a empresa precisa ter ciência real por trás. Não se constrói autoridade por comunicação. A comunicação revela a autoridade que a empresa já conquistou na prática, nos estudos clínicos, nos resultados terapêuticos, na aprovação pelas agências regulatórias mais exigentes do mundo.

Valor: Na indústria farmacêutica, um remédio começa como uma molécula em laboratório e pode levar dez anos até chegar ao paciente. Como a comunicação acompanha esse desenvolvimento?

Moura: Fazemos o que o setor chama de ponta a ponta. Há marcos nesse processo que podem ser comunicados. O primeiro resultado de uma pesquisa clínica pode ser divulgado em grandes congressos médicos. Quando uma molécula promissora é apresentada em um grande congresso de medicina, a notícia sai nas grandes agências internacionais de notícias no mesmo dia e a imprensa de todo o mundo cobre. Quando a Anvisa aprova, enviamos um comunicado informando que a molécula chegou ao Brasil. Depois há ainda a aprovação da ANS para os convênios e da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) para o SUS. Cada etapa é um marco de comunicação possível. Mas nenhuma delas é campanha e sim informação. A linha entre informar e promover, nesse setor, é muito clara.

Valor: Como gerenciar uma crise de comunicação num setor que lida diretamente com a saúde das pessoas?

Moura: A crise mais grave que pode acontecer aqui é a falta de um medicamento. Uma pessoa em tratamento oncológico sem o produto disponível, por um problema de distribuição ou por atraso na compra pelo sistema público, é uma situação gravíssima. A imprensa liga imediatamente. O princípio é rapidez e transparência e o posicionamento precisa ser verdadeiro e imediato. Ao mesmo tempo, monitora-se as redes sociais em tempo real, porque associações de pacientes e médicos começam a se manifestar antes de qualquer resposta oficial, e o diálogo muda rápido. Há um comitê de crise, com representantes de comunicação, regulatório, jurídico e da área terapêutica envolvida. A área de experiência do paciente contata as associações. A área médica informa os médicos. Tudo de forma concatenada e simultânea. Silêncio, nesse mercado, nunca é uma opção.

Valor: Quando uma empresa precisa falar com públicos tão distintos, o risco é perder o fio que os une. Como esse fio é mantido?

Moura: O ponto de partida não é o canal, mas a coerência da marca. No caso do segmento farmacêutico, essa mensagem central é sempre ancorada na transformação da vida dos pacientes e no valor da inovação em saúde. O que muda para cada público é a lente de interesses. Para médicos e comunidade científica: A linguagem da ciência, evidências clínicas e rigor analítico, nosso time médico é expert nesse contato. Para pacientes e associações: a empatia, o acesso à informação clara, o letramento em saúde e a jornada de cuidado, a Roche conta com um time de experiência do paciente diferenciado. Para a imprensa e os DOL (Digital Opinion Leaders): valor social, inovação em políticas de saúde, dados de mercado, letramento e transparência.

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O trabalho não remunerado na era da IA

A ‘produção doméstica’ ainda é pouco discutida nas políticas pública

Por Diane Coyle – Valor – 09/09/2026 

As discussões sobre como a inteligência artificial pode transformar a economia apresentam uma lacuna: em grande parte, não levam em conta as atividades valiosas que as pessoas realizam fora do trabalho remunerado. Os estatísticos chamam essas atividades de “produção doméstica”, mas coletam pouquíssimos dados sobre ela. A pesquisa American Time Use Survey (Atus) é realizada anualmente nos Estados Unidos, mas sua escala é pequena e a maior parte dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) recolhe essas informações com menos frequência. Como resultado, há pouquíssima pesquisa econômica e quase nenhum debate sobre políticas públicas, ou sobre como a maioria de nós passa a maior parte do nosso tempo.

Mas investidores e autoridades deveriam se preocupar com as atividades não remuneradas. Quando mudanças sociais ou tecnológicas transferem atividades de um lado para o outro da fronteira de produção – do trabalho remunerado para o não remunerado, ou vice-versa – nossa interpretação dos sinais econômicos também precisa mudar. Nos anos 70 e 80, os números oficiais do PIB e da produtividade avançaram em países como o Reino Unido e os EUA, em parte porque as mudanças nas convenções sociais estavam levando mais mulheres casadas a dedicar uma parcela maior do seu tempo a atividades remuneradas.

A tecnologia digital já provocou grandes mudanças nessa fronteira da produção, principalmente no sentido do trabalho remunerado para o não remunerado. Hoje, as pessoas usam ferramentas digitais para realizar uma ampla variedade de tarefas, de operações bancárias ao planejamento de viagens, que antes exigiam a consulta de um profissional, sem falar em passar as próprias compras no caixa do supermercado. Enquanto isso, muitas pessoas compartilham gratuitamente na internet aquilo que produzem – softwares de código aberto, vídeos de entretenimento, aulas de música ou tutoriais do tipo faça-você-mesmo.

Esses exemplos representam a substituição do trabalho não remunerado pelo remunerado. Na maior parte, eles criaram um valor significativo ao consumidor. Com a IA prometendo transferir ainda mais atividades para além da fronteira da produção, a questão é como garantir que isso também se mostre valioso para as famílias.

Para responder essa pergunta, precisamos entender em que situações as pessoas consideram a IA mais útil fora do trabalho remunerado. O projeto ATLAS, do Google (do qual fui um dos consultores) oferece algumas pistas iniciais. Ele mapeou milhões de interações anonimizadas com o Gemini, associando-as às categorias de tarefas utilizadas pela pesquisa Atus, e comparou o volume de conversas de usuários dos EUA com a IA sobre cada categoria, com o tempo real que as pessoas dedicam a elas.

Lidar com a burocracia governamental e do setor privado consome uma enorme quantidade do tempo livre das pessoas. As ferramentas de IA têm potencial de mudar esse cenário, com implicações importantes para a economia

Segundo esse critério, tópicos como “alimentação e bebidas” e “deslocamentos” tiveram uma representação significativamente baixa nas interações com a IA em comparação com o tempo real gasto nessas atividades. Já as interações relacionadas à “socialização, relaxamento e lazer” – categoria que registra o maior uso geral da IA – ficaram em um patamar relativamente próximo ao tempo real dedicado a elas.

Por outro lado, a categoria “educação” teve uma representação acima da média: sua participação nas interações com a IA foi cerca de 5,8 vezes maior do que sua participação no tempo das pessoas. “Serviços profissionais e de cuidados pessoais” e “compras do consumidor” também registraram índices elevados. Mas nada se comparou à super-representação de “serviços governamentais e obrigações cívicas”, que apareceram quase 20 vezes mais frequentemente nas interações com a IA do que nos dados oficiais sobre o uso do tempo.

Em seu novo livro, “The Time Tax”, Annie Lowrey aponta que, nos EUA, as pessoas passam em média seis dias de trabalho porano lidando com a burocracia governamental e realizando tarefas como renovar licenças, declarar impostos e solicitar auxílios. A burocracia do setor privado – que vai desde negociações com seguradoras até o cancelamento de assinaturas – agrava ainda mais esse “imposto do tempo”.

A IA pode ajudar a reduzir esse fardo. Bons serviços digitais governamentais já oferecem eficiência e conveniência: recentemente, vi um amigo solicitar um passaporte on-line em poucos minutos. A regra “clique para cancelar”, proposta pelo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, mostra como as políticas públicas também podem aliviar a carga administrativa imposta pelo setor privado.

Os governos deveriam aproveitar a IA para promover avanços em ambas as frentes. Infelizmente, embora muitos governos estejam interessados em usar a IA para tornar as burocracias públicas mais eficientes, até agora eles tenderam a se concentrar na redução de custos para o Estado, e não na economia de tempo para os cidadãos.

Mesmo sem a ação do governo, o uso de ferramentas de IA pode poupar tempo e dinheiro para as pessoas. Um advogado do Reino Unido poderia cobrar 12.000 libras (US$ 16.220) de um cliente para tratar do inventário e administrar o espólio de um pai falecido, mas modelos de linguagem de grande porte (LLMs) são cada vez mais capazes de providenciar grande parte da documentação gratuitamente. Outros exemplos de tarefas que podem ser resolvidas com o chatbot, ou até delegadas a um agente de IA, incluem o design de interiores ou jardins, pesquisas de produtos para consumo e a espera na fila virtual por itens como ingressos para shows. A lista é extensa.

Assim como as tecnologias digitais levaram à desintermediação e à reintermediação de muitos serviços, os modelos de IA generativa provocarão rupturas em uma ampla gama de serviços. Novas startups de tecnologia jurídica (law-techs) poderão se ver competindo com chatbots ou agentes gratuitos, em vez de com escritórios de advocacia tradicionais e caros. Dinâmicas semelhantes surgirão em setores como educação, saúde, finanças e entretenimento.

Isso não precisa ser uma notícia ruim aos prestadores de serviços. O acesso gratuito à IA ampliará o mercado para esses tipos de serviços, além de substituir versões mais caras deles. Haverá um crescimento em produtos complementares: se eu puder redesenhar minha própria sala de jantar gratuitamente, talvez eu fique mais propensa a comprar papel de parede, cortinas e móveis novos.

Enquanto isso, os ganhos de produtividade no trabalho não remunerado – que possui valor econômico, apesar de ser amplamente excluído das estatísticas oficiais – poderiam ser enormes. Qualquer economista que tente prever como a IA vai transformar a economia, e qualquer autoridade que busque atualizar as proteções ao consumidor para a era da IA, terá de levar em conta a dimensão doméstica da fronteira de produção. (Tradução de Mário Zamarian)

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