Temos de deixar de ser meros usuários de modelos estrangeiros
Pablo Ortellado – O Globo – 03/07/2026
Professor de Gestão de Políticas Públicas na USP
Uma reportagem publicada ontem no Financial Times revelou que a OpenAI, empresa por trás do ChatGPT, ofereceu uma participação de 5% ao governo americano. O objetivo é duplo. Com a participação direta do governo, a OpenAI espera diminuir obstáculos políticos e regulatórios trazidos pela administração Trump. Além disso, a oferta atende parcialmente a uma demanda da esquerda, que defende a nacionalização de metade das ações das grandes empresas de inteligência artificial para socializar os dividendos da automação (a proposta é do senador Bernie Sanders).
A proposta está ainda em fase inicial, mas deveria acender o alerta sobre a vulnerabilidade de nações como o Brasil — países que não detêm controle sobre a infraestrutura crítica em IA passam a depender da boa vontade do governo americano, que fica no comando direto do desenvolvimento e do acesso a uma tecnologia crítica. Dois outros incidentes recentes reforçam a preocupação.
Mesmo sem participação acionária, o governo Donald Trump proibiu a Anthropic, empresa por trás do Claude, de dar acesso a seu modelo Fable 5 a não americanos no começo de junho. A alegação para o controle de exportação foi que a tecnologia pode ser usada por atores estrangeiros maliciosos em ciberataques. A suspensão só foi revertida na terça-feira desta semana, depois de a Anthropic comprovar melhorias na segurança do produto e depois de crescer o temor de que não lançar o modelo no mercado global favoreceria concorrentes chinesas.
O bloqueio efetivo da exportação do Fable 5, ainda que por preocupações de segurança possivelmente razoáveis, mostra que, se os Estados Unidos controlarem o mercado da IA de ponta, podem tratar empresas nacionais e estrangeiras de forma não isonômica.
O último incidente preocupante foi revelado em fevereiro. Reportagem do Wall Street Journal revelou que funcionários da OpenAI não acionaram a polícia quando tiveram ciência de que um jovem, em conversa com o ChatGPT, planejava o ataque a uma escola. A ameaça não relatada à polícia terminou num massacre que deixou mortas cinco crianças de 12 e 13 anos.
Mais que falta de agilidade em acionar a polícia, o incidente revelou que a OpenAI, desde agosto de 2025, vinha escaneando conversas dos usuários para identificar crimes. A infraestrutura que faz varredura nas conversas procurando crimes violentos é a mesma que identifica segredos industriais, pesquisas científicas de ponta ou planejamento estratégico de governos. Como as revelações de Edward Snowden em 2013 mostraram, o risco de usar uma tecnologia como essa para espionagem não é especulativo, ainda mais se a empresa for diretamente controlada pelo governo americano.
Esses incidentes mostram que a posição de países como o Brasil pode ser muito vulnerável e que construir soberania é estrategicamente mais importante que regular a IA — afinal, a capacidade de garantir o acesso à tecnologia precede a definição de como ela deve ser usada.
O Brasil não pode aspirar ao controle vertical de toda a cadeia da IA, como faz a China, que pretende criar aplicações, modelos próprios, data centers e uma indústria nacional de chips. Mas pode fazer movimentos que tornem sua posição menos desfavorável.
Temos de deixar de ser meros usuários de modelos estrangeiros e passar a operar e adaptar modelos abertos em infraestrutura própria — o que nos protege da ingerência de americanos e chineses. Isso implica ter data centers domésticos com chips potentes e tratar os acervos públicos brasileiros — jurídicos e de saúde — como ativos estratégicos.
A posição diplomática do Brasil é um trunfo, pois manter laços fortes simultaneamente com Estados Unidos e China dá acesso tanto aos chips avançados ocidentais quanto aos modelos abertos chineses, que rivalizam com os americanos a uma fração do custo.
Nada disso, porém, se sustenta sem tratar a soberania tecnológica como política de Estado, acima da polarização. A direita precisa ser lembrada de que, antes de aliados ideológicos de Trump, são brasileiros. E a esquerda, de que foi o progressista Barack Obama que espionou a Petrobras e a Presidência da República.
Soberania em IA é mais importante que regulação
Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/GeLUPi5zQ2582nGKD6JFey para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal Tribuna online, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Acesse o link abaixo para entrar no meu grupo do WhatsApp onde publico meus artigos semanais e entrevistas que faço no rádio e TV Tribuna, bem como outras publicações e notícias, sempre na temática inovação e negócios: https://chat.whatsapp.com/CNud8bQUUYM4n8ryXA3ZaW
Por mudanças profissionais com a instituição onde publicava outros artigos meus e informações sobre inovações, tive que criar um novo grupo no WhatsApp https://chat.whatsapp.com/CNud8bQUUYM4n8ryXA3ZaW e parar de publicar em https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B . Quem tiver interesse pode sair do anterior e entrar nesse novo. Desculpem os transtornos.
Sugestão: Se estiver procurando alguém para implementar uma solução de IA com agentes e SLM veja a Aumo | Transformamos dados em soluções de IA avançadas
Se tiver interesse em gêmeos digitais para a indústria procure a Neo Vision – Captura Digital da Realidade
Para IoT chame a 2solve

