A China muda de rumo, e o Brasil não percebe

A Systemiq estima uma redução de 36% nas importações chinesas de soja vindas do Brasil nos próximos 15 anos

Por Ricardo Abramovay – Valor – 18/05/2026 

Aquilo que a China conquistou nas últimas três décadas na pesquisa e na oferta dos componentes essenciais da transição energética está agora se voltando a promover sua soberania alimentar. O vínculo entre segurança alimentar e interdependência global, por meio da liberalização comercial, se rompeu. A integração entre a oferta de proteínas vegetais vinda das Américas (e sobretudo do Brasil) para alimentar o rebanho suíno chinês está com os dias contados.

O que está em questão vai muito além das relações de troca com a China. É o padrão de crescimento econômico cujo epicentro são as matérias-primas agrícolas e minerais e que é a marca decisiva da economia brasileira do século 21, que não tem como persistir, apesar dos números vigorosos que hoje ostenta. Por mais que haja ciência e tecnologia embutidas na oferta de commodities agrícolas e apesar do esforço em desacoplar sua expansão do desmatamento, o fato é que a expectativa de que este é o caminho mais promissor de inserção do Brasil no mundo precisa urgentemente ser revista. O que impressiona não é tanto a rapidez desse processo e sim seu tratamento, no Brasil, como episódico, movido por circunstâncias passageiras e não como mudança estrutural que exige nada menos que uma profunda revisão da própria estratégia de crescimento econômico do país.

Esta é a principal conclusão que se pode extrair de dois relatórios recentes publicados pela consultoria britânica Systemiq e pela Gordon and Betty Moore Foundation. O primeiro (“At the Crossroads: Food in an Age of Uncertainty Shaping the Future of Food Systems”) constata que os padrões de produção, de distribuição, de consumo e as bases tecnológicas da agropecuária a partir dos anos 1960 estão esgotados.

Produtos e insumos concentrados em um pequeno número de países e de regiões, alcançam, é verdade, alta produção. Mas, contrariando a visão convencional sobre segurança alimentar, não é simplesmente de mais produção que o mundo precisa hoje. O sucesso da Revolução Verde baseou-se na simplicidade de seus objetivos: produzir mais, com custos decrescentes. As políticas públicas e os comportamentos empresariais brasileiros não parecem se dar conta de que esse mundo está desabando.

A monotonia na produção, no consumo (com o avanço dos ultraprocessados) e o poder concentrado num punhado de corporações oligopolistas são incompatíveis com a fragmentação e a busca de soberania alimentar, que se torna decisivas em diversos países. É ilusório imaginar que, baixando os custos, os mercados vão absorver as capacidades brasileiras em oferecer commodities na escala em que o fizeram até aqui.

É o que mostra o outro relatório da Systemiq, desta vez sobre os métodos pelos quais a China quer reduzir sua dependência alimentar e o déficit de US$ 124 bilhões em sua balança comercial agrícola. Os mecanismos para isso vão em duas direções. Em primeiro lugar, conforme apresentado em reportagem recente do Fantástico, a agricultura urbana e periurbana da China, por meio de estufas geridas com o uso de dispositivos de inteligência artificial, contribuem para a oferta diversificada de produtos vegetais que incluem alguns originalmente vindos dos trópicos, como a banana.

A demanda chinesa por proteínas vegetais do Brasil para alimentar seu rebanho suíno está com os dias contados. A China deve, em 2040, se se tornar um exportador líquido de aves, leite, ovos, peixes e a principal fonte global de “carnes cultivadas”

O mais importante, porém, é o esforço de emancipar o país de sua dependência das proteínas vegetais vindas das Américas. Isso passa por atividades industriais na produção de aminoácidos para ração animal (dos quais a China domina 70% do mercado mundial), proteína microbiana, milho de alta proteína entre outras inovações. Estas inovações e os ganhos de eficiência produtiva devem fazer da China em 2040 um exportador líquido de aves, leite, ovos, peixes e a principal fonte global de “carnes cultivadas”. A Systemiq estima uma redução de 86% nas importações chinesas de soja vinda dos Estados Unidos e 36% nas originárias do Brasil nos próximos 15 anos.

Mas se o rebanho suíno da China depende de um insumo fundamental vindo do outro lado do mundo (a soja) este insumo, por sua vez, é dependente da importação em larga escala de um conjunto tecnológico formado por agrotóxicos e fertilizantes sintéticos, com custos cada vez maiores. A atual dependência da agropecuária brasileira com relação aos insumos que utiliza tornou-se dramática em função dos conflitos militares recentes.

Além disso, o domínio do conjunto da base tecnológica da agropecuária brasileira por corporações oligopolistas, das sementes à genética de aves, resulta no que os economistas costumam chamar de lock-in, ou seja, uma estrutura de financiamento, de pesquisa, de assistência técnica e de mercado, em suma, uma cultura produtiva em que mesmo com o uso crescente destes insumos e seu encarecimento constante, eles continuam a ser empregados. O agricultor se vê numa espécie de esteira rolante em que não pode parar de produzir sobre a base das técnicas que conhece, pois sem isso não consegue sequer renegociar suas dívidas. Ao mesmo tempo, os impactos da crise climática, os custos e os danos ambientais provocados por estes insumos vão limitando seus ganhos.

Por mais que as exportações de commodities estejam baseadas em tecnologias avançadas, se elas não provarem que contribuem a preservar e regenerar serviços ecossistêmicos que, até aqui, o crescimento agropecuário tem destruído, elas perderão relevância. Zerar o desmatamento, nesse sentido, é ponto de partida e não de chegada. A ameaça à segurança alimentar não vem do risco de escassez produtiva. Vem de tecnologias das quais o Brasil é dependente, que oneram os custos de produção e têm impactos ambientais cada vez mais graves. Além disso, o que está em jogo são as infraestruturas de produção e distribuição voltadas a um produto sob o risco de ser oferecido muito além do que a demanda global pede.

O Brasil possui pesquisa e iniciativas que abrem caminho a métodos produtivos baseados no conhecimento de recursos locais, que valorizam os conhecimentos acumulados em cada território, descentralizam as bases tecnológicas da agropecuária e se apoiam naquilo que a ciência contemporânea tem produzido de melhor no que se refere ao estudo e ao uso da interação entre microorganismos, plantas, solos, fungos e animais. É o que mostram as apresentações feitas no seminário sobre a regulação de bioinsumos organizado pelo Instituto de Estudos Avançados da USP, pelo Instituto Biológico de São Paulo, pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia “Superar a tríplice monotonia do sistema agroalimentar” e pelo Instituto Folio (shorturl.at/xukLr).

Ricardo Abramovay é coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologica “Superar a tríplice monotonia do sistema agroalimentar”, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP e coorganizador de “Caminhos para a transição do sistema agroalimentar. Desafios para o Brasil” (Senac).

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O Brasil é o celeiro do mundo? Não, mas é peça central do supermercado global

Nenhum país quer entregar sua segurança alimentar a terceiros; o Brasil é fornecedor grande, confiável e pontual de commodities em dez cadeias agroindustriais

Marcos Jank – Estadão – 29/05/2026

“O Brasil é o maior celeiro do mundo” — e poderia ser também o maior supermercado do mundo! Ouço essas duas afirmações o tempo todo nas minhas andanças pelo País e resolvi examiná-las à luz dos dados disponíveis. As evidências revelam um quadro bem diferente das percepções usuais.

O Brasil responde por cerca de 6% da produção agropecuária mundial (em volume calórico), atrás da China (16%), dos Estados Unidos (11%) e da Índia (9%). Nas exportações, somos o segundo maior exportador mundial (US$ 170 bilhões em 2025) — o equivalente a 9% do valor total do comércio agrícola global —, e já consolidamos nossa posição de líderes na exportação de commodities agropecuárias.

No mundo de hoje, não acredito que exista qualquer país que possa ser chamado de “celeiro do mundo”, por uma razão muito simples: nenhuma nação quer depender de outra para se alimentar.

Os países fazem de tudo para serem seus próprios celeiros, sem depender de importações. Basta observar que apenas 22% da produção agropecuária mundial se destina ao comércio internacional — ou seja, 78% vai para autoconsumo nos próprios países produtores. No caso do Brasil, se convertermos toda a produção agrícola em equivalente calórico, 60% permanece no país e 40% é exportado.

Seria ingenuidade imaginar que qualquer país com mais de 50 milhões de habitantes entregaria sua segurança alimentar a terceiros. Se o fizer, é porque lhe faltam de fato agricultores, recursos naturais ou tecnologia.

Basta olhar para a China, hoje o maior produtor, consumidor e importador mundial de produtos agropecuários e alimentos: compra no exterior apenas 15% do que consome — sendo a soja o principal item, com 85% de dependência externa.

É exatamente nesta lacuna que o Brasil se encaixa: fornecedor grande, confiável e pontual de commodities em dez cadeias agroindustriais que complementam os desequilíbrios globais de oferta e demanda.

Mas, se não há celeiros do mundo, o Brasil está muito mais presente nos “supermercados do mundo” do que as pessoas imaginam — e não apenas em supermercados, mas também em mercearias, açougues, serviços de alimentação, lojas de conveniência, hotéis, restaurantes e cafeterias.

É verdade que raramente encontramos produtos ou marcas do agro brasileiro nesses canais de distribuição no exterior, mas isso não significa que o setor não esteja lá. Mais de 190 países importam commodities brasileiras, que em geral se destinam às indústrias de processamento de alimentos e bebidas nos países-destino, gerando milhares de produtos e marcas finais que “carregam” insumos brasileiros em sua formulação, sem que o varejista ou o consumidor final o saibam.

Se entendermos “celeiro” como produção agropecuária e “supermercado” como vendas finais ao consumidor, o Brasil se encaixa muito mais como um pilar central do supermercado global do que como celeiro do mundo — afinal, os celeiros estão nos próprios países.

Opinião por Marcos Jank

Professor sênior e coordenador do centro Insper Agro Global, conselheiro de empresas, palestrante e analista de agronegócio e bioenergia.

O Brasil é o celeiro do mundo? Não, mas é peça central do supermercado global – Estadão 

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O pseudo-ocupado é o novo lento do mercado corporativo

Cultura da hiperocupação transforma agendas lotadas em símbolo de prestígio, mas esconde um problema crescente: profissionais cada vez mais ocupados e cada vez menos focados no que realmente gera impacto

Por Ricardo Basaglia – Estadão – 19/05/2026

Insights de carreira com o headhunter mais influente do Brasil e um estudioso dos hábitos, comportamentos e habilidades que levaram os maiores líderes ao seu lugar de potência

Poucas frases são tão aceitas no mundo corporativo quanto “minha agenda está impossível”.

A frase parece reclamação. Muitas vezes é defesa.

Porque dizer que a agenda está impossível preserva uma imagem confortável: a de que fomos sequestrados pelo sistema. A empresa demanda demais. O chefe chama demais. O cliente pressiona demais. O time interrompe demais. Tudo isso pode ser verdade. Mas raramente é a verdade inteira.

Em muitos casos, a agenda não foi sequestrada. Foi entregue.

Reunião por reunião. Grupo por grupo. Urgência por urgência. Concessão por concessão.

Durante muito tempo, o profissional lento era aquele que demorava para responder, entregar ou decidir. Hoje, o novo lento é frequentemente o contrário: aquele que está sempre em reunião, sempre no WhatsApp, sempre atrasado para o próximo compromisso, sempre “no limite”, mas raramente produzindo algo que mexe o ponteiro.

O pseudo-ocupado não parece lento. Esse é o perigo. Ele parece indispensável.

Responde rápido. Participa de tudo. Dá opinião em todos os fóruns. Encaminha, valida, alinha, comenta, confirma. Termina o dia exausto. Mas exaustão não é métrica de contribuição.

Trabalhar muito faz parte. Crises acontecem. Projetos importantes exigem esforço extra. Liderar, muitas vezes, é carregar mais peso do que aparece no organograma. O que está em discussão é outra coisa: a transformação da ocupação permanente em identidade profissional.

Pior: em prova de valor.

Hoje o novo lento é aquele que está sempre em reunião, sempre no WhatsApp, sempre atrasado para o próximo compromisso, sempre “no limite”, mas raramente produzindo algo que mexe o ponteiro Foto: Bina – stock.adobe.com

A professora Silvia Bellezza, de Columbia, estudou a ocupação como símbolo de status. A ideia é simples: em determinados ambientes, estar ocupado virou sinal de prestígio. Antes, status era poder parar. Hoje, em boa parte da economia do conhecimento, status virou não conseguir parar.

A inversão tem nome. O comportamento que sustenta a inversão também precisa.

Em quase vinte anos conduzindo entrevistas executivas, vi um padrão se repetir tantas vezes que vou chamar de concessão silenciosa.

Pouca gente perde o controle da agenda em uma grande decisão. A maioria perde em pequenas permissões que parecem triviais quando isoladas. A reunião semanal que ninguém cancela. A conversa que poderia ser e-mail. O grupo de WhatsApp que todo mundo quer sair e ninguém sai. O “café rápido” que vira obrigação. A resposta imediata que vira expectativa. A urgência dos outros que, por falta de filtro, vira prioridade sua.

Não existe um momento solene em que o profissional decide perder a própria semana. Existe uma sequência de momentos em que ele decide não brigar por ela.

Em uma conversa recente, uma diretora me procurou para falar de transição. Estava exausta. Falava da empresa como ambiente tóxico, dos pares como pouco colaborativos, do chefe como ausente. Pedimos a agenda dela das últimas seis semanas e olhamos juntos. Perguntei quantas daquelas reuniões recorrentes ela tinha tentado cancelar no período. Nenhuma. Perguntei quantas, quando foram convocadas pela primeira vez, ela poderia ter recusado sem custo real. Ficou em silêncio uns segundos. Depois disse uma frase que fica. “Acho que aceitei tudo, achando que era profissional aceitar.”

Não era profissional. Era reflexo.

Dizer “minha agenda está impossível” coloca o profissional no papel de vítima. Perguntar “o que eu aceitei sem questionar?” devolve a ele algum grau de autoria. E autoria, no mundo corporativo, costuma ser menos popular do que ocupação.

Porque estar ocupado protege.

Protege da cobrança objetiva. Protege da conversa difícil. Protege da escolha. Protege até da reflexão. Quando alguém está sempre sem tempo, fica mais difícil perguntar por que aquilo que era realmente importante não avançou.

Afinal, a pessoa estava ocupada.

Ocupação dá álibi. Prioridade exige coragem.

A Microsoft chamou esse fenômeno de “jornada de trabalho infinita” em seu Work Trend Index. O relatório descreve uma rotina cada vez mais fragmentada por e-mails, reuniões, mensagens, notificações e interrupções constantes. O dado importa, mas a interpretação importa mais. Falta fronteira. Entre o que é urgente e o que é importante, entre colaborar e ser interrompido, entre estar disponível e ser refém.

Muita gente diz que não tem tempo para pensar estrategicamente. A agenda entrega a verdade.

Não adianta dizer que pessoas são prioridade se não há espaço real para conversar com talentos importantes. Não adianta dizer que inovação é prioridade se toda semana é consumida por operação. Não adianta dizer que estratégia é prioridade se não existe nenhum bloco protegido para pensar.

O PowerPoint aceita qualquer narrativa. A agenda, não.

A agenda é o extrato bancário da atenção. Mostra onde você investiu, onde desperdiçou e quais prioridades ficaram apenas no discurso.

O ponto é mais grave para líderes. Porque a agenda de um líder não organiza apenas o tempo dele. Educa a organização.

Se o líder aceita reuniões sem pauta, ensina que pauta é opcional. Se responde mensagens a qualquer hora, ensina que disponibilidade permanente é virtude. Se vive apagando incêndio, ensina que urgência vale mais do que prevenção. Se nunca protege tempo para pensar, ensina que reflexão é luxo.

Depois, a empresa reclama que falta foco.

Foco não é um cartaz na parede. É uma sequência de renúncias no calendário.

Reuniões demais são, em muitos casos, procrastinação coletiva com convite no calendário. Parecem trabalho porque têm link, pauta, participantes e alguém compartilhando tela. Mas, se ninguém decide, se ninguém sai com clareza, se tudo termina em “vamos marcar uma próxima”, talvez não tenha sido trabalho. Talvez tenha sido apenas uma forma educada de adiar o trabalho real.

Sou suspeito para falar. Já marquei algumas.

Organizações dizem premiar resultado, mas frequentemente enxergam movimento antes de enxergar contribuição. Movimento aparece rápido. Está na agenda cheia, no Teams, no e-mail, no grupo, na reunião. Contribuição real, muitas vezes, demora mais para aparecer. Uma decisão melhor. Uma contratação mais bem feita. Uma conversa difícil conduzida no momento certo. Um problema prevenido antes de virar crise.

O profissional ocupado parece comprometido antes que o profissional estratégico consiga provar que estava certo.

Por isso, tantas culturas seguem premiando disponibilidade, mesmo dizendo que querem impacto. Reclamam da falta de foco, mas celebram quem está em tudo. Reclamam da baixa produtividade, mas desconfiam de agenda vazia. E quando alguém aponta a contradição, o problema vira a pessoa que apontou.

E aqui está a armadilha: quanto mais ocupado você parece, menos precisa explicar o que de fato está construindo.

Só que a conta chega.

Chega quando a carreira fica cheia de movimento e pobre em direção. Chega quando o líder percebe que passou meses respondendo a tudo, menos ao que realmente importava. Chega quando a empresa descobre que todos estavam ocupados demais para fazer a pergunta simples: por que estamos fazendo isso?

O espaço na agenda não é luxo. É infraestrutura.

É no espaço que você antecipa problemas antes que virem incêndios. É no espaço que prepara uma conversa difícil. É no espaço que se percebe que determinada reunião poderia ser cancelada, mas também que determinado e-mail deveria virar conversa. É no espaço que conecta pontos que a urgência separa.

A pressa dá sensação de progresso. A clareza entrega progresso.

O pseudo-ocupado é o novo lento porque perdeu autoria sobre a própria atenção. Quando perdemos autoria sobre a atenção, perdemos qualidade de decisão. Quando perdemos qualidade de decisão, precisamos de mais reuniões para corrigir o que não pensamos direito. Quando precisamos de mais reuniões, temos menos espaço para pensar. O ciclo se alimenta.

Agenda não é destino. É decisão acumulada.

E toda decisão acumulada, quando não é revista, começa a parecer inevitável.

Talvez a pergunta não seja se você tem tempo.

Seja: quem está autorizado a usar sua atenção?

O pseudo-ocupado é o novo lento do mercado corporativo – Estadão 

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EUA investirão US$ 2 bi na IBM e em outras empresas de computação quântica

Governo Trump quer fortalecer produção de tecnologia avançada nos EUA e reduzir dependência da China com aportes bilionários em empresas do setor.

G1/Reuters – 22/05/2026 

O governo dos Estados Unidos anunciou um pacote de US$ 2 bilhões em investimentos em empresas ligadas à computação quântica, tecnologia considerada estratégica na disputa global por inovação e liderança industrial.

Os recursos serão direcionados a novos projetos de companhias como IBM, GlobalFoundries, D-Wave, Rigetti Computing, Infleqtion e Diraq.

A iniciativa faz parte dos esforços do governo Donald Trump para fortalecer a produção de tecnologia dentro do país e reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros, especialmente da China.

A computação quântica é vista como uma nova geração de computadores capazes de resolver problemas complexos muito mais rapidamente do que os sistemas atuais.

Entre as aplicações esperadas estão o desenvolvimento de medicamentos, sistemas de segurança digital, inteligência artificial e análises financeiras.

Segundo o Departamento de Comércio dos EUA, a IBM receberá US$ 1 bilhão para criar uma empresa voltada à fabricação de chips para computadores quânticos. Já a GlobalFoundries deve receber US$ 375 milhões para construir uma fábrica destinada à produção de componentes usados nesse tipo de tecnologia.

Outras empresas do setor também serão beneficiadas. D-Wave, Rigetti Computing e Infleqtion receberão cerca de US$ 100 milhões cada. Já a Diraq poderá receber até US$ 38 milhões para desenvolver soluções voltadas aos principais desafios técnicos da computação quântica.

Parte das empresas contempladas possui ligação com integrantes do governo americano. Emil Michael, principal autoridade de tecnologia do Pentágono, participou da abertura de capital da D-Wave em 2022. Já a PsiQuantum anunciou no ano passado um investimento de US$ 1 bilhão vindo de grupos que incluem o braço de venture capital da Nvidia e a 1789 Capital, apoiada por Donald Trump Jr.

Após o anúncio, as ações das empresas envolvidas registraram altas entre 6% e 31%.

Os investimentos fazem parte do CHIPS and Science Act, programa aprovado durante o governo do ex-presidente Joe Biden para ampliar a produção de tecnologia e semicondutores nos EUA.

EUA investirão US$ 2 bi na IBM e em outras empresas de computação quântica | G1 

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Matemática na primeira infância

A desigualdade começa cedo e tem várias dimensões

Por Naercio Menezes Filho – Valor – 22/05/2026 

É professor titular da Cátedra Ruth Cardoso no Insper e professor associado da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP)

Há muitas evidências mostrando que o brasileiro não costuma tomar as melhores decisões financeiras no seu dia a dia. Muitos compram produtos acima da sua capacidade de pagamento, não planejam seu orçamento e tomam decisões impulsivas. Assim, muitas famílias brasileiras estão muito endividadas, muitas vezes pagando juros altos. Porque será que isto ocorre? Será que estes problemas começam na primeira infância?

Uma pesquisa lançada recentemente esclarece várias destas questões. Trata-se do “Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância”, desenvolvida pela OCDE em vários países, que teve os resultados sistematizados no Brasil pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. A parte brasileira foi conduzida com crianças de 5 anos de idade que frequentavam a educação infantil em três Estados brasileiros: São Paulo, Ceará e Pará. O que mostram os resultados?

O estudo mostra, em primeiro lugar, que as crianças brasileiras têm um conhecimento satisfatório dos primeiros passos para o letramento, mas que seu aprendizado sobre os princípios de matemática deixa muito a desejar. A criança letrada nesta faixa etária consegue compreender narrativas, sentenças curtas e o significado de algumas palavras. Nestes quesitos, as crianças brasileiras estão em linha com as dos demais países que fizeram parte da pesquisa. Em termos de habilidades matemáticas, os pesquisadores avaliaram se as crianças sabem reconhecer e contar os números e comparar quantidades e tamanhos de objetos, por exemplo. Nestes quesitos, porém, as crianças brasileiras ficaram muito abaixo de países como Coreia, Inglaterra, Holanda, Emirados Árabes e Azerbaijão.

O estudo também mostra como esta deficiência na matemática vai se ampliando ao longo do ciclo escolar. Exames internacionais realizados com alunos do 4 e do 8 ano do ensino fundamental (TIMSS), mostram que os alunos brasileiros neste ciclo têm um desempenho ainda menor do que a média internacional. Os resultados de outro teste internacional (Pisa) mostram que a maior parte dos alunos brasileiros de 15 anos de idade não consegue resolver problemas matemáticos elementares.

Assim, nossos problemas com a matemática começam bem cedo. A falta de familiaridade com esta disciplina vai tornando o seu aprendizado cada vez mais difícil, até que ela se torna um obstáculo intransponível. Assim, não surpreende que os brasileiros estejam tão endividados, apostem em bets para tentar ganhar dinheiro, comprem títulos de capitalização com retorno zero e sejam tão facilmente enganados por agentes financeiros. E explica também porque os cursos de educação financeira, rotineiramente oferecidos por várias instituições, não têm nenhum impacto na vida dos participantes. Lhes falta a base.

Em termos de desigualdade, os resultados de matemática também são preocupantes, pois os alunos mais ricos têm habilidades matemáticas iniciais bastante superiores às dos alunos mais pobres, já aos 5 anos de idade. Mas, vale notar que mesmo as crianças brasileiras mais ricas têm desempenho abaixo da média obtida pelas crianças coreanas e inglesas. Também há diferença significativas entre crianças que frequentam pré-escolas públicas e privadas, que persistem mesmo após levarmos em conta as diferenças de nível socioeconômico.

Outro ponto importante avaliado pela pesquisa diz respeito às chamadas “funções executivas” das crianças de 5 anos de idade. Estas funções refletem a capacidade das crianças de organizar as suas atividades no dia a dia, planejar e executar tarefas, concluir estas tarefas apesar das interrupções e distrações, controlar impulsos, manter o foco e realizar diferentes ações simultaneamente. O principal período de desenvolvimento destas funções na vida das pessoas ocorre dos 0 a 6 anos de idade.

Os resultados nestas dimensões também foram decepcionantes para as crianças brasileiras. Em termos da “memória de trabalho”, que mede a capacidade de armazenar informações e seguir instruções, que são habilidades essenciais para o aprendizado, as crianças brasileiras ficaram muito atrás da média internacional. Em termos do “controle inibitório”, que mede a capacidade de controlar e filtrar pensamentos inconvenientes e de controlar sua atenção e comportamento, as crianças brasileiras também estão muito atrás das demais. O estudo também mostrou grandes diferenças nestes indicadores entre crianças mais ricas e mais pobres. A desigualdade começa cedo e tem várias dimensões.

O baixo desenvolvimento das funções executivas pode explicar porque a maior parte dos alunos brasileiros não conseguem terminar a prova do Pisa, por exemplo, abandonando o exame logo nas primeiras questões, ao contrário dos jovens de outros países, que fazem a prova até o fim com concentração e determinação. Sem estas habilidades plenamente desenvolvidas, fica muito difícil prosseguir nos estudos e ter sucesso profissional. Outro problema que surge é que as crianças brasileiras tem baixa capacidade de estabelecer relações confiáveis com pessoas próximas. Isto pode explicar porque os brasileiros adultos são o povo que menos confia nos seus compatriotas.

O que os pais podem fazer para melhorar esta situação? A pesquisa mostra que somente metade dos pais brasileiros conversam sobre sentimentos com as crianças, bem menos do que nos outros países. Além disto, apenas 14% dos pais leem livros para as crianças pelo menos 3 dias na semana, ao passo que a média nos demais países é 54%. Além disto, metade das crianças brasileiras usam o celular todos os dias, o que está associado a uma diminuição de 10 pontos no aprendizado de letramento e habilidades matemáticas. Assim, mudanças no comportamento dos pais certamente poderiam melhorar o aprendizado das nossas crianças.

Do ponto de vista dos professores, os resultados da Prova Nacional Docente divulgada esta semana pelo governo mostram como será difícil contar com eles para melhorar o aprendizado de matemática. Os resultados mostram que, entre os concluintes das licenciaturas no ano passado, 42% não alcançaram o desempenho mínimo. Entre os concluintes do curso de Matemática, 56% estavam no nível abaixo do básico. E entre os alunos de cursos à distância (que a são maioria atualmente) o desempenho foi ainda pior. Em suma, será bem difícil melhorar o aprendizado de matemática no Brasil.

Naercio Menezes Filho é professor titular da Cátedra Ruth Cardoso no Insper, professor associado da FEA-USP e membro da Academia Brasileira de Ciências.

https://valor.globo.com/opiniao/naercio-menezes-filho/coluna/matematica-na-primeira-infancia.ghtml 

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Quem é o millennial que aposta em robôs assassinos e drones autônomos para derrotar Putin

Mykhailo Fedorov, ministro da Defesa da Ucrânia, de 35 anos, considera a tecnologia militar futurista crucial para a sobrevivência do seu país

Por Andrew E. Kramer Estadão/The New York Times – 21/05/2026

Enquanto o ministro da Defesa da Ucrânia, Mykhailo Fedorov, de 35 anos, caminhava de tênis, jeans e um casaco de lã, observando as exposições das mais recentes e excêntricas armas do país, ele parou para admirar um dispositivo gigantesco e desajeitado.

Era um drone com braços musculosos de fibra de carbono que se estendiam por quase dois metros e meio para cada lado, hélices do tamanho de foices e uma profusão de fios, antenas salientes e tiras de velcro. O drone substitui um obus de 155 milímetros, transportando projéteis até os alvos e lançando-os.

“Vocês conseguem fazer um maior?”, perguntou o ministro, Mykhailo Fedorov, aos desenvolvedores do drone durante uma recente exposição de defesa. Eles responderam que estavam trabalhando nisso.

O futuro da guerra está sendo escrito na Ucrânia, e Fedorov, um entusiasta da tecnologia que está no cargo há quatro meses, é um de seus autores.

Assim como os aplicativos transformaram os serviços de táxi e entrega de comida, Fedorov acredita que a guerra está pronta para ser revolucionada. Isso, segundo ele, significa transferir o máximo possível do combate para as máquinas — incluindo, um dia, aquelas que poderão tomar decisões letais por conta própria.

“O mundo precisa de segurança, e somente armas autônomas podem garanti-la”, disse Fedorov em entrevista em seu escritório no Ministério da Defesa. “Armas autônomas são as novas armas nucleares. Os países que as possuírem estarão protegidos.”

Embora robôs assassinos possam parecer uma perspectiva assustadora, algo saído de um filme de ficção científica distópico, a corrida por eles já começou no mundo todo.

Na Ucrânia, o uso de inteligência artificial em armamentos ainda está em seus primórdios. Atualmente, ela é mais útil no reconhecimento de alvos, como ajudar um piloto de drone a identificar um tanque camuflado escondido em uma floresta. Mas a tecnologia está melhorando, e Fedorov a considera um pilar da adoção mais ampla de armas de nova geração pela Ucrânia, que têm mantido suas forças armadas, em menor número, na luta.

Essas armas alimentam uma estratégia, idealizada por Fedorov e endossada pelo presidente Volodmir Zelenski, que visa forçar a Rússia a um acordo para pôr fim à guerra.

A estratégia, chamada Ar, Terra e Economia, prevê o uso de drones e outras armas avançadas para interceptar pelo menos 95% dos drones e mísseis russos que se aproximarem; matar ou ferir gravemente mais soldados do que Moscou consegue recrutar; e enfraquecer a economia russa explodindo terminais de exportação de petróleo.

Houve resistência dentro das forças armadas ucranianas contra o discurso futurista de Fedorov sobre guerra robótica, o que levou ao que analistas descrevem como uma luta pelo poder entre ele e os generais. Alguns comandantes afirmam que a ideia de uma transição rápida para o combate não tripulado está desconectada da dura realidade das trincheiras lamacentas e dos corpos mutilados.

Fedorov parece determinado. Na entrevista, ele disse que realizava cerca de uma dúzia de reuniões por dia, trabalhando de 10 a 12 horas, como parte de sua missão de pressionar as forças armadas a adotarem a tecnologia mais rapidamente. Ele se mantém com uma dieta restritiva que inclui saladas e pão de trigo sarraceno.

Seu interesse por tecnologia começou com os videogames que jogava na adolescência na cidade siderúrgica de Zaporizhzhia. Ele transformou seu hobby em uma carreira na área de tecnologia, abrindo uma empresa de publicidade digital antes mesmo de se formar na faculdade e tornando-se parceiro do Facebook na venda de anúncios segmentados na plataforma.

Zelenski contratou Fedorov para gerenciar a publicidade em mídias sociais de sua campanha presidencial de 2019 e, aos 28 anos, o nomeou para liderar o ministério responsável pela digitalização dos serviços governamentais.

Quando Fedorov, que nunca serviu às forças armadas, assumiu o Ministério da Defesa em janeiro deste ano, trouxe consigo uma equipe de assessores e analistas de dados. Em sua maioria jovens, eles se destacam por usar moletons no trabalho. Fedorov instalou uma mesa de pingue-pongue em um dos corredores.

Vale do Silício

Durante a guerra em grande escala que começou em 2022, Fedorov tem sido o principal contato da Ucrânia com o Vale do Silício. Para atrair tecnologia militar, ele promoveu a guerra como um campo de testes para empreendimentos de defesa.

Ele se reuniu na Ucrânia com Alex Karp, CEO da Palantir, empresa de análise de dados voltada para a defesa, e com Eric Schmidt, ex-CEO do Google e fundador do fundo de investimento D3, focado no desenvolvimento de armamentos na Ucrânia.

Após uma reunião esta semana com Karp, Fedorov afirmou que a Ucrânia está trabalhando com a Palantir para integrar ainda mais a inteligência artificial (IA) à guerra, incluindo sistemas para analisar ataques aéreos, processar dados de inteligência e planejar ataques de longo alcance contra a Rússia.

Durante a recente exposição de tecnologia de defesa da qual Fedorov participou, uma vasta gama de produtos inovadores ucranianos para o campo de batalha — o tipo de produto que ele defende — estava em exibição.

Havia bobinas de fibra óptica que guiam drones imunes a interferências eletrônicas. Havia uma arma feita de um balão, um drone de vigilância do tamanho da palma da mão e um veículo terrestre não tripulado verde que parecia uma mesa montada em um mini-trator. Existiram dezenas de protótipos de pequenas armas “inteligentes” para substituir metralhadoras, rifles de precisão, tanques e sistemas de artilharia.

Fedorov observou um avião de controle remoto do tamanho de um forno de micro-ondas, com uma fuselagem de plástico em formato de pão. A arma, um drone explosivo extremamente barato, chamava-se Pão. “Isso muda tudo”, disse ele.

Como grande parte da tecnologia ucraniana para o campo de batalha, os dispositivos pareciam ter sido soldados ou remendados com fita adesiva na garagem de alguém. Fedorov perguntou sobre os preços. Tudo tinha que ser barato e descartável, disse ele, porque muitos seriam abatidos ou destruídos.

Fedorov quer usar essa tecnologia para eliminar o máximo possível de soldados russos.

‘Destruição direcionada’

Ambos os exércitos sofrem altas baixas, já que os drones sobrevoam continuamente o campo de batalha, representando perigos letais para qualquer soldado ou veículo que se mova dentro da “zona de morte”, uma faixa de quilômetros de largura ao longo da linha de frente dominada por armas não tripuladas.

Fedorov chamou essa fase da guerra de “destruição direcionada”. Ele afirmou que seu objetivo era aumentar o número de baixas russas de cerca de 35 mil mortos e feridos por mês para mais de 50 mil, um nível que, segundo ele, desaceleraria a invasão e, em seguida, a interromperia.

Uma assessora, Valeriya Ionan, disse que Fedorov acredita na matemática da guerra.

No futuro, disse Fedorov na entrevista, sistemas robóticos farão todo o trabalho de combate. A zona de combate ficará completamente vazia de pessoas, afirmou. Sistemas não tripulados lutarão entre si, acrescentou, em terra e no ar.

À medida que os sistemas robóticos melhorarem, disse ele, haverá um entendimento de que perdas humanas em larga escala na guerra “são insustentáveis, e a guerra evoluirá novamente”.

As guerras, no entanto, tendem a tomar rumos imprevisíveis, e excluir os humanos do processo poderia agravar esse risco.

Conflito

A visão de Fedorov, por vezes, entrou em conflito com a dos líderes militares da Ucrânia.

O comandante-em-chefe das Forças Armadas, General Oleksandr Sirski, não se esquivou de batalhas travadas com táticas tradicionais de veículos blindados e manobras de infantaria em campo aberto. Ele obteve importantes vitórias no início da guerra com essas estratégias.

Uma disputa entre Fedorov e o comando militar veio à tona no mês passado.

Uma unidade ucraniana chamada Skala tentou um ataque arriscado com veículos blindados perto da cidade de Pokrovsk, no leste da Ucrânia, perdendo quatro veículos. Soldados foram mortos e feridos, embora os números sejam contestados.

Posteriormente, um assessor de Fedorov, Serhii Sternenko, criticou duramente as táticas em uma publicação nas redes sociais. “Costumamos rir do inimigo quando ele envia suas tropas em colunas”, escreveu Sternenko, referindo-se às colunas blindadas. “Tratar nosso povo dessa maneira é um crime. Deve haver responsabilização.”

A Skala reagiu, acusando Sternenko de nutrir ideias fantasiosas, desvinculadas da realidade do campo de batalha.

Em uma publicação em sua página no Facebook, a unidade escreveu que o grupo de assalto assumiu os riscos necessários para salvar soldados que precisavam de reforços. “Se Sternenko sabe como organizar ações de assalto contra os pontos fortes do inimigo em Pokrovsk”, dizia a publicação, “ele deveria se alistar no exército e lutar”.

Ainda assim, as brigadas da linha de frente geralmente adotaram toda a tecnologia de ponta que ela pode oferecer.

“Temos um ministro jovem que entende de tecnologia, que está na mesma sintonia que nós”, disse Kyrylo Veres, comandante da brigada K-2, uma das primeiras a adotar drones de visão explosivos no início da guerra. Com Fedorov, “não precisamos explicar nada”, acrescentou Veres.

Pesquisas de opinião pública mostram amplo apoio ao trabalho de Fedorov como ministro da Defesa. Zelenski o elogiou, dizendo estar “grato pelo crescente número” de drones que chegam às forças armadas.

Quem é o millennial que aposta em robôs assassinos e drones autônomos para derrotar Putin – Estadão 

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The Economist: Google está destronando a OpenAI como rei da IA ​​para o consumidor

Gigante da tecnologia revela agentes de IA que prometem revolucionar tarefas diárias e desafiar a OpenAI com velocidade quatro vezes maior

Por The Economist – 24/05/2026

O complexo do anfiteatro, onde o Google realiza sua conferência anual de desenvolvedores de software, tem um ar brega, de parque de diversões. Trailers estão estacionados no local. Funcionários chegam em alta velocidade nas bicicletas multicoloridas da empresa de tecnologia. Há estandes e atrações por toda parte. No palco, Sundar Pichai, o chefe da empresa, conta uma piada sem graça sobre os chips sobrecarregados do Google, conhecidos como TPUs, fazendo “teraflops na cama”.

O evento não é tão sofisticado quanto o encontro de desenvolvedores da Apple realizado em junho, que tenta preservar parte do minimalismo elegante do falecido Steve Jobs. Mas, quando se trata de inteligência artificial, o Google já ultrapassou há muito tempo a fabricante do iPhone (seus modelos irão impulsionar muitos dos recursos de IA da Apple daqui para frente). Agora, parece que também poderá roubar a coroa da IA ​​para o consumidor da OpenAI, criadora do Chat GPT.

Em 19 de maio, o Google apresentou uma nova linha de agentes de IA baseados em seu mais recente modelo Gemini 3.5 Flash. A linha inclui programadores de IA que rivalizam com os oferecidos pela OpenAI e Anthropic, além de agentes projetados para realizar diversas tarefas para pessoas comuns em seu dia a dia.

Alguns estarão disponíveis no aplicativo Gemini, usado por 900 milhões de pessoas todos os meses. Outros serão incorporados diretamente à Busca do Google, usada por mais de 3 bilhões de pessoas. Em resumo, a empresa está levando os agentes para as massas.

Como é comum no Vale do Silício, os exemplos usados ​​pelos executivos no palco causaram bastante surpresa. Com que frequência alguém precisaria de um agente de IA para fazer uma apresentação de slides para uma festa com pula-pula? No entanto, as ferramentas apresentadas também se mostram promissoras.

Um agente chamado Gemini Spark poderá realizar tarefas como analisar e-mails ou organizar viagens em grupo, mesmo depois que o usuário fechar o laptop ou largar o celular, enquanto “agentes de informação” na Busca do Google poderão acompanhar torneios esportivos, promoções de compras ou o mercado de ações.

Tudo isso parece particularmente preocupante para a OpenAI, que até agora liderou o campo da IA ​​voltada para o consumidor. Pouco depois do lançamento da família de modelos Gemini 3 pelo Google, em novembro, Sam Altman, CEO da OpenAI, emitiu um alerta de emergência (“Código Vermelho”) para mobilizar os funcionários e acelerar as melhorias no ChatGPT.

Desde então, o foco do laboratório mudou para seu agente de codificação. Mas o lançamento do Gemini 3.5 Flash, que o Google afirma ser quatro vezes mais rápido que outros modelos de ponta, e o novo conjunto de agentes provavelmente levantarão novas questões sobre o que a OpenAI está fazendo com seu chatbot principal.

Uma das preocupações do Google é o aumento do número de tokens consumidos por seus serviços, de 480 trilhões por mês para 3,2 quatrilhões 

Os investidores estão, sem dúvida, otimistas em relação às perspectivas do Google. O valor de mercado da Alphabet, sua empresa controladora, está agora muito próximo de US$ 5 trilhões, tendo ultrapassado os US$ 4 trilhões apenas em janeiro. No entanto, o sucesso do Google em IA também está criando problemas. De acordo com Pichai, o número de tokens — a medida preferida do Vale do Silício para o uso de IA — consumidos por seus serviços subiu para 3,2 quatrilhões por mês, ante 480 trilhões no ano passado.

Cada token requer poder computacional e, portanto, dinheiro para ser gerado, razão pela qual o investimento de capital do Google este ano chegará a US$ 190 bilhões, seis vezes mais do que há quatro anos. Além disso, esse dinheiro não rende tanto quanto antes, porque tudo, de chips a energia, ficou mais caro. Mesmo para o Google, há limites para o quanto ele pode gastar.

Existem algumas soluções potenciais. Uma delas é reduzir o custo por token, tornando a tecnologia mais eficiente, o que o Google certamente fará. Outra é impor limites ao uso da IA. Tais restrições não foram anunciadas no evento, mas os assinantes do Gemini foram avisados ​​posteriormente de que elas se aplicariam, embora com limites mais altos do que para não assinantes, de acordo com Richard Windsor, da Radio Free Mobile, uma empresa de pesquisa. Limites de uso também podem incentivar mais pessoas a pagar por uma assinatura.

Uma terceira solução é investir mais em anúncios. O Google acredita que o maior nível de detalhamento nas consultas de IA atrairá os profissionais de marketing. Embora ainda não tenha incorporado anúncios ao seu aplicativo Gemini, a empresa os intercala nas respostas de IA que seu serviço de busca agora gera e, em breve, exibirá explicações de produtos geradas por IA ao lado desses anúncios.

Pichai observou na conferência que algumas empresas já estão “estourando seus orçamentos anuais de tokens — e ainda estamos em maio”. Os consumidores não estão “maximizando tokens” na mesma proporção. Mas quanto mais eles usam agentes, mais os provedores de IA precisarão encontrar novas maneiras de lucrar com eles.

The Economist: Google está destronando a OpenAI como rei da IA ​​para o consumidor – Estadão 

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O currículo está mudando de nome

O colunista Sergio Chaia escreve sobre a transição do CV tradicional para uma nova era de profissionais alavancados por inteligência artificial

Por Sergio Chaia – Valor – 22/05/2026 

Em outubro do ano passado, em San Francisco, entre reuniões, peguei um Uber na Union Square. O motorista, Vjay, rapidamente saiu do script esperado. Havia clareza, estrutura de pensamento e uma capacidade de articulação incomuns. Perguntei onde havia estudado. Ele me contou que era recém formado com mestrado em computer science pela New York University.

Em seguida, o dado que realmente importa: tinha feito mais de 300 processos seletivos, mas não havia recebido nenhuma oferta. Dirigia para sobreviver enquanto tentava reconciliar formação, expectativa e dívida.

Longe de ser um caso isolado, uma reportagem recente do The New York Times aponta o mesmo padrão: jovens graduados em boas universidades sem conseguir ofertas nas áreas que gostariam e aceitando alternativas bem diferentes que previam.

O que esses episódios revelam não é uma anomalia conjuntural. É um sinal de mudança estrutural. A inteligência artificial já começou a alterar a lógica de empregabilidade antes mesmo de capturar plenamente o seu potencial dentro das empresas. No estágio atual, a IA tem sido aplicada sobretudo à eficiência: redução de custos, enxugamento de estruturas, automação de tarefas repetitivas.

A fase de crescimento exponencial ainda está por vir, mas o mercado de trabalho já reagiu. Recentemente, em conversa com um executivo C-Level global, ouvi uma leitura direta e provocativa: “no médio prazo, histórico profissional será condição necessária, mas não suficiente. O diferencial será quem você é e como você amplia sua capacidade por meio de seus agentes de IA.”

Essa é a mudança central. O curriculum vitae foi concebido para um mundo em que experiência acumulada era o melhor proxy de valor futuro. Esse mundo está ficando para trás. O novo critério é capacidade de execução ampliada.

Chame como quiser; a lógica é inequívoca: seu CV vai virar VA (você + agentes). O que começa a diferenciar executivos não é apenas o que fizeram, mas o que conseguem fazer agora e com alavancagem, quais problemas de negócio resolvem, com que velocidade, com que escala e com quanta dependência de estrutura tradicional.

Isso redefine o jogo do talento. Se, por décadas, programar foi uma barreira de entrada, essa fronteira está desaparecendo. Em seu lugar, emergem novas competências críticas: clareza de raciocínio, capacidade de estruturar problemas e formular perguntas de alta qualidade. Executivos que dominam essas habilidades ampliam exponencialmente seu impacto ao interagir com a IA.

É aqui que entra um fator frequentemente subestimado e decisivo na prática: repertório. O repertório é a capacidade de leitura de contexto. Executivos com repertório identificam nuances, antecipam movimentos e formulam as perguntas certas mais cedo. Sem isso, a interação com a IA tende à superficialidade, e os resultados acompanham.

Repertório não é um subproduto. É uma construção deliberada: exposição a contextos diversos, conversas fora da bolha, curiosidade disciplinada. É agenda, não acaso.

A terceira história ilustra o ponto de forma concreta. Mauro (nome fictício) operava no limite: agenda fragmentada, sobrecarga constante, impacto direto na qualidade das decisões e na vida pessoal.

Na última semana, encontrei um executivo diferente: mais focado, mais calmo, mais efetivo. A mudança tinha nome: Alfred. Seu agente pessoal.

Alfred absorve grande parte do operacional: comunicações não críticas, acompanhamento de prioridades, síntese de reuniões, organização de agenda , acompanhamento de prioridades e logística pessoal.

O ganho não é marginal. Mais de 50% da carga operacional de Mauro foi transferida, evidência confirmada pela análise de sua agenda. Com isso, ele saiu do modo reativo e reposicionou sua atenção no que realmente transforma o negócio e amplia seu impacto.

Perguntei como ele tinha construído o Alfred. “Tirei uma semana de férias, gastei uma grana boa em tokens do Claude e resolvi isso“. Quando eu ia questionar o fato dele ter dedicado tempo de férias para questões profissionais, ele se adiantou: “com o Alfred, tenho certeza que minhas próximas férias serão de muito mais qualidade que todas as últimas“. Esse é o ponto.

As três histórias — Vjay, os recém-formados e Mauro — convergem para a mesma conclusão: o mercado deixou de precificar apenas experiência. Começa a precificar capacidade ampliada. E isso tem implicações diretas para qualquer executivo em posição de liderança.

A pergunta não é se a IA vai impactar o seu papel. Ela já impactou.

A pergunta relevante é outra: quanto da sua agenda ainda depende exclusivamente de você e quanto já está alavancado?

Porque, no limite, o novo “currículo” não será o que você fez. Será o que você — e seus agentes — conseguem fazer.

É isso que irá aproximar ou afastar seu próximo salto na carreira.

Sergio Chaia é coach de CEOs e de treinadores de atletas de alto rendimento. Atua em conselhos e faz mentoria. Foi CEO da Nextel e da Sodexo Pass.

https://valor.globo.com/opiniao/sergio-chaia/coluna/o-curriculo-esta-mudando-de-nome.ghtml?utm_source=Whatsapp&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar 

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Mais importante que saber “usar a IA” é saber quando duvidar dela

Por Paulo Silvestre – Estadão – 21/05/2026 

Cresci com a crença de que “TI era a profissão do futuro”. Mas agora que a inteligência artificial parece estar nos entregando o tal futuro, essas carreiras estão entre as que mais sofrem nas ondas de demissões associadas a essa tecnologia. Isso não significa que essas habilidades tenham deixado de ser importantes, mas a nossa relação com o digital está mudando.

Durante décadas, programar e operar softwares corporativos exigiam habilidades específicas. Agora a IA busca automatizar essas tarefas e tornar o uso desses sistemas tão intuitivo, que eles quase “desaparecem”.

Essa mudança começa a transparecer nos principais eventos de tecnologia do mundo, como o SAP Sapphire, que aconteceu em Orlando (EUA), nos dias 12 e 13 de maio. A IA está se tornando uma espécie de interface universal para o trabalho corporativo. Em vez de navegar por sistemas complexos, funcionários de qualquer área passam a conversar com agentes, formular pedidos e supervisionar fluxos automatizados, invadindo domínios antes restritos aos profissionais de TI.

Não se trata apenas de uma evolução operacional.

O teórico da comunicação canadense Marshall McLuhan dizia, já na década de 1960, que “o meio é a mensagem”, defendendo que tecnologias transformam a sociedade pelo conteúdo que carregam e pela forma como reorganizam comportamento, percepção e relações humanas. Obviamente o contexto era outro, mas isso se aplica de novo agora.

Historicamente, softwares corporativos moldaram os usuários ao obrigá-los a pensar de maneira procedural. Agora, tudo isso começa a ser escondido atrás de plataformas conversacionais que simplificam drasticamente a interação humana com a máquina.

Sistemas complexos, como ERPs, deixam de ser “visíveis” para se tornarem uma infraestrutura silenciosa. O usuário não precisa mais entender onde a informação está, nem quais sistemas participam do processo. Basta perguntar à IA.

A promessa é sedutora, mas existe uma consequência importante nessa mudança. Quanto mais simples a interface fica, maior pode se tornar a distância entre a ação e a compreensão.

A socióloga americana Sherry Turkle estuda há décadas como tecnologias digitais alteram relações humanas, capacidade reflexiva e percepção de autonomia. Parte importante de sua obra alerta justamente para o risco de terceirizarmos processos cognitivos para sistemas que executam tarefas de forma aparentemente mágica.

Agora a IA simplifica o acesso às respostas, mas também pode reduzir o contato humano com os próprios processos que geram essas informações. Em outras palavras, pessoas podem começar a executar decisões sem necessariamente compreender os mecanismos que levaram até elas. A própria SAP parece perceber esse risco, pois, em diversos momentos do Sapphire, seus executivos reforçaram que decisões estratégicas devem continuar sob responsabilidade de humanos, que precisam entender o que acontece “embaixo do capô da IA”.

Mas a transformação é inevitável, e ela acontecerá mais no campo cognitivo que tecnológico. As pessoas tendem a escolher o mais fácil, mesmo que isso lhes traga perdas. Se esses movimentos se consolidarem, o trabalho migrará da execução operacional para a formulação de boas perguntas, supervisão de agentes, interpretação de contexto e questionamento de respostas de plataformas cada vez mais opacas.

O profissional valorizado deixará de ser aquele que domina ferramentas específicas e passará a ser aquele capaz de entender contexto, conectar repertórios, identificar inconsistências e manter capacidade crítica, mesmo diante de sistemas extremamente convincentes. Afinal, quando a tecnologia se torna invisível, ela também se torna mais difícil de questionar.

Portanto, a habilidade mais valorizada dos próximos anos não será técnica, e sim a capacidade de preservar autonomia intelectual em um ambiente cada vez mais automatizado. Saber operar IA será importante, mas saber quando questioná-la será ainda mais.

Opinião por Paulo Silvestre

É doutorando em inteligência artificial e mestre em reputação digital pela PUC-SP. Articulista do Estadão, atua como consultor e palestrante de IA, experiência do cliente e transformação digital. É professor da Universidade Mackenzie e da PUC–SP. Foi executivo do Estadão, Samsung, AOL, Saraiva e Editora Abril, e é LinkedIn Top Voice desde 2016.

Mais importante que saber “usar a IA” é saber quando duvidar dela – Estadão 

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Traficantes do Comando Vermelho compram drones com capacidade para transportar até 20 fuzis entre favelas; vídeo

Polícia identificou treinamento de criminosos do Complexo do Alemão com aeronaves de grande porte usadas em áreas agrícolas; equipamento pode levar até 80kg e teria sido operado com auxílio de brasileiro que lutou na guerra da Ucrânia

Por Marcos Nunes – O Globo – 21/05/2026

CV faz treinamentos com drones agrícolas para transportar armas e drogas

CV faz treinamentos com drones agrícolas para transportar armas e drogas — Foto: Reprodução

Que o tráfico usa, há algum tempo, drones para monitorar e atacar rivais e forças policiais, já é sabido. Os criminosos, porém, começaram a investir em equipamentos cada vez mais robustos e modernos e em treinamento para operá-los. A polícia descobriu que traficantes do Complexo do Alemão, na Zona Norte, controlado pelo Comando Vermelho (CV), adquiriram drones de grande porte para transportar armas e drogas. São aeronaves de carga ou para uso agrícola, com capacidade de transportar até 80kg — o equivalente a 20 fuzis FAL ou AR-15.

A imagem de um treinamento com um veículo aéreo não tripulado, com cerca de três metros de comprimento, foi flagrada pela câmera de uma aeronave da Polícia Militar. A data em que o voo ocorreu não foi divulgada.

De acordo com informações recebidas pela Subsecretaria de Inteligência da Secretaria estadual de Segurança Pública, o treinamento para operar esses drones estaria sendo feito por um brasileiro que voltou da guerra na Ucrânia, no Leste Europeu, onde teria atuado como voluntário no conflito contra a Rússia. Além disso, ele também seria o encarregado de repassar para os traficantes algumas técnicas usadas em combates militares. Já se sabe que o suspeito chegou a permanecer por pelo menos um ano participando do confronto militar.

Souvenir da guerra

Ao retornar para o Rio, segundo a Subsecretaria de Inteligência, o homem presenteou o traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca, um dos integrantes da cúpula do CV, com uma espécie de souvenir de guerra: uma placa balística (peça que faz parte do colete à prova de balas) usada pelo próprio soldado durante sua participação no conflito.

Numa das imagens flagradas por policiais durante o monitoramento aéreo, é possível contar pelo menos dez pessoas ao lado de um drone que se prepara para decolar. O sobrevoo aconteceu em uma área aberta e com poucas residências próximas.

O veículo aéreo não tripulado que aparece na gravação, do tipo usado em campos agrícolas para pulverização ou em entregas, pode percorrer uma distância de até 12 quilômetros e tem custo estimado em mais de R$ 200 mil. A partir do Complexo do Alemão, um drone desse tipo tem autonomia para chegar a outras favelas controladas pelo CV, como Cidade de Deus, Jacarezinho, Complexo do Lins e Complexo do Chapadão.

A aeronave também tem capacidade para percorrer a distância entre as comunidades da Gardênia Azul, em Jacarepaguá, e da Muzema, no Itanhangá (ida e volta). As duas favelas têm territórios controlados pelo CV e estão separadas, uma da outra, por cerca de cinco quilômetros.

Traficantes do CV inovam e compram drones de grande porte para transporte de drogas — Foto: Arte O GLOBO

É das duas comunidades que homens armados costumam sair para tentar invadir Rio das Pedras. A localidade é considerada berço de nascimento da milícia, sendo a única da região do Itanhangá que continua em poder de paramilitares.

— O nosso novo foco é impedir que eles usem essa nova ferramenta para implementar o fluxo de armas e drogas entre as comunidades sem o perigo de interceptação pela polícia — diz o delegado Pablo Sartori, subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança do estado.

De acordo com a polícia, os treinamentos com drones são feitos em uma área do Complexo do Alemão. É na comunidade citada e no Complexo da Penha, que fica ao lado, que está escondida a maior parte dos bandidos da cúpula do CV ainda em liberdade. Além de Doca, estariam lá Carlos da Costa Neves, o Gardenal, apontado como o responsável pela segurança do bando e pela expansão territorial do tráfico na área de Jacarepaguá, e Pedro Paulo Guedes, o Pedro Bala. Este último seria gerente-geral do tráfico.

Outro chefe da facção criminosa que estaria no Alemão é Luciano Martiniano da Silva, o Pezão. De acordo com dados do site do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), junto, o quarteto soma 82 mandados de prisão expedidos pela Justiça em seus respectivos nomes. Todos são considerados foragidos.

Não é a primeira vez que o tráfico usa militares ou ex-militares para operacionalizar drones. Em setembro de 2024, o então cabo da Marinha Rian Maurício Tavares foi preso por policiais federais após uma investigação apontá-lo como suspeito de ser o responsável por operar drones para o CV. Uma aeronave não tripulada teria sido usada, inclusive, para lançar granadas na Gardênia Azul, em fevereiro do mesmo ano, quando a comunidade ainda era controlada por milicianos.

Segundo a Marinha, o ex-cabo foi licenciado do serviço ativo da corporação, “a bem da disciplina”, em 27 de fevereiro de 2025, deixando de integrar os quadros da corporação. O ex-militar está preso na Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná — os advogados Orlando Clímaco e Rafael Teixeira, responsáveis pela defesa de Rian, informaram que um pedido de relaxamento da prisão já foi apresentado à Justiça. O recurso ainda não foi julgado.

Já em 28 de outubro de 2025, drones de pequeno porte voltaram a ser usados por bandidos do CV, durante uma operação nos complexos da Penha e do Alemão. Na ocasião, as aeronaves foram utilizadas, segundo a polícia, para monitorar os carros da Polícia Civil e da Polícia Militar. A ação acarretou um tiroteio que durou nove horas. O confronto deixou 117 suspeitos mortos. Cinco policiais também morreram na troca de tiros.

Aliado da polícia

Em maio de 2026, a Polícia Civil criou a Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (Coant), estrutura responsável por organizar e planejar o “uso institucional de drones” em ações de investigação e inteligência e em missões emergenciais em todo o Estado do Rio. A corporação acredita que o serviço poderá auxiliar, entre outras coisas, na realização de levantamentos, buscas por criminosos e acompanhamento de operações em tempo real, além da coleta de provas visuais.

Importados da China, os drones de seis modelos diferentes — entre eles, os que têm sensores térmicos para localizar suspeitos escondidos em área de mata e aqueles que fazem imagens noturnas — poderão ajudar ainda na realização de operações policiais. Eles têm capacidade para captar e transmitir imagens, em tempo real, para um centro de monitoramento, localizado na Cidade da Polícia, no Jacaré. Segundo a polícia, o equipamento será operado por um agente treinado e capacitado.

Segundo a corporação, cada drone foi comprado para atender a determinada ação da polícia. Alguns, por exemplo, têm câmeras com zoom para fazer imagens a longa distância e autonomia de voo que pode chegar a mais de uma hora.

Um dos modelos comprados pela polícia também é equipado com câmeras de reconhecimento facial e de leitura de placas, podendo ser interligado ao sistema usado pela corporação para fazer a identificação de pessoas procuradas pela polícia ou de veículos roubados. Já uma outra aeronave é própria para fazer voos furtivos, ou seja, sem que a presença dela seja notada com facilidade.

Os valores gastos com os drones fazem parte de um pacote de compra de equipamentos de inovações tecnológicas para a corporação. Nos dois últimos anos, os gastos — que incluem ainda a aquisição de softwares para extração de dados telemáticos — chegaram à casa de R$ 2,1 milhões.

Traficantes do Comando Vermelho compram drones com capacidade para transportar até 20 fuzis entre favelas; vídeo 

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