Matemática na primeira infância

A desigualdade começa cedo e tem várias dimensões

Por Naercio Menezes Filho – Valor – 22/05/2026 

É professor titular da Cátedra Ruth Cardoso no Insper e professor associado da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP)

Há muitas evidências mostrando que o brasileiro não costuma tomar as melhores decisões financeiras no seu dia a dia. Muitos compram produtos acima da sua capacidade de pagamento, não planejam seu orçamento e tomam decisões impulsivas. Assim, muitas famílias brasileiras estão muito endividadas, muitas vezes pagando juros altos. Porque será que isto ocorre? Será que estes problemas começam na primeira infância?

Uma pesquisa lançada recentemente esclarece várias destas questões. Trata-se do “Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância”, desenvolvida pela OCDE em vários países, que teve os resultados sistematizados no Brasil pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. A parte brasileira foi conduzida com crianças de 5 anos de idade que frequentavam a educação infantil em três Estados brasileiros: São Paulo, Ceará e Pará. O que mostram os resultados?

O estudo mostra, em primeiro lugar, que as crianças brasileiras têm um conhecimento satisfatório dos primeiros passos para o letramento, mas que seu aprendizado sobre os princípios de matemática deixa muito a desejar. A criança letrada nesta faixa etária consegue compreender narrativas, sentenças curtas e o significado de algumas palavras. Nestes quesitos, as crianças brasileiras estão em linha com as dos demais países que fizeram parte da pesquisa. Em termos de habilidades matemáticas, os pesquisadores avaliaram se as crianças sabem reconhecer e contar os números e comparar quantidades e tamanhos de objetos, por exemplo. Nestes quesitos, porém, as crianças brasileiras ficaram muito abaixo de países como Coreia, Inglaterra, Holanda, Emirados Árabes e Azerbaijão.

O estudo também mostra como esta deficiência na matemática vai se ampliando ao longo do ciclo escolar. Exames internacionais realizados com alunos do 4 e do 8 ano do ensino fundamental (TIMSS), mostram que os alunos brasileiros neste ciclo têm um desempenho ainda menor do que a média internacional. Os resultados de outro teste internacional (Pisa) mostram que a maior parte dos alunos brasileiros de 15 anos de idade não consegue resolver problemas matemáticos elementares.

Assim, nossos problemas com a matemática começam bem cedo. A falta de familiaridade com esta disciplina vai tornando o seu aprendizado cada vez mais difícil, até que ela se torna um obstáculo intransponível. Assim, não surpreende que os brasileiros estejam tão endividados, apostem em bets para tentar ganhar dinheiro, comprem títulos de capitalização com retorno zero e sejam tão facilmente enganados por agentes financeiros. E explica também porque os cursos de educação financeira, rotineiramente oferecidos por várias instituições, não têm nenhum impacto na vida dos participantes. Lhes falta a base.

Em termos de desigualdade, os resultados de matemática também são preocupantes, pois os alunos mais ricos têm habilidades matemáticas iniciais bastante superiores às dos alunos mais pobres, já aos 5 anos de idade. Mas, vale notar que mesmo as crianças brasileiras mais ricas têm desempenho abaixo da média obtida pelas crianças coreanas e inglesas. Também há diferença significativas entre crianças que frequentam pré-escolas públicas e privadas, que persistem mesmo após levarmos em conta as diferenças de nível socioeconômico.

Outro ponto importante avaliado pela pesquisa diz respeito às chamadas “funções executivas” das crianças de 5 anos de idade. Estas funções refletem a capacidade das crianças de organizar as suas atividades no dia a dia, planejar e executar tarefas, concluir estas tarefas apesar das interrupções e distrações, controlar impulsos, manter o foco e realizar diferentes ações simultaneamente. O principal período de desenvolvimento destas funções na vida das pessoas ocorre dos 0 a 6 anos de idade.

Os resultados nestas dimensões também foram decepcionantes para as crianças brasileiras. Em termos da “memória de trabalho”, que mede a capacidade de armazenar informações e seguir instruções, que são habilidades essenciais para o aprendizado, as crianças brasileiras ficaram muito atrás da média internacional. Em termos do “controle inibitório”, que mede a capacidade de controlar e filtrar pensamentos inconvenientes e de controlar sua atenção e comportamento, as crianças brasileiras também estão muito atrás das demais. O estudo também mostrou grandes diferenças nestes indicadores entre crianças mais ricas e mais pobres. A desigualdade começa cedo e tem várias dimensões.

O baixo desenvolvimento das funções executivas pode explicar porque a maior parte dos alunos brasileiros não conseguem terminar a prova do Pisa, por exemplo, abandonando o exame logo nas primeiras questões, ao contrário dos jovens de outros países, que fazem a prova até o fim com concentração e determinação. Sem estas habilidades plenamente desenvolvidas, fica muito difícil prosseguir nos estudos e ter sucesso profissional. Outro problema que surge é que as crianças brasileiras tem baixa capacidade de estabelecer relações confiáveis com pessoas próximas. Isto pode explicar porque os brasileiros adultos são o povo que menos confia nos seus compatriotas.

O que os pais podem fazer para melhorar esta situação? A pesquisa mostra que somente metade dos pais brasileiros conversam sobre sentimentos com as crianças, bem menos do que nos outros países. Além disto, apenas 14% dos pais leem livros para as crianças pelo menos 3 dias na semana, ao passo que a média nos demais países é 54%. Além disto, metade das crianças brasileiras usam o celular todos os dias, o que está associado a uma diminuição de 10 pontos no aprendizado de letramento e habilidades matemáticas. Assim, mudanças no comportamento dos pais certamente poderiam melhorar o aprendizado das nossas crianças.

Do ponto de vista dos professores, os resultados da Prova Nacional Docente divulgada esta semana pelo governo mostram como será difícil contar com eles para melhorar o aprendizado de matemática. Os resultados mostram que, entre os concluintes das licenciaturas no ano passado, 42% não alcançaram o desempenho mínimo. Entre os concluintes do curso de Matemática, 56% estavam no nível abaixo do básico. E entre os alunos de cursos à distância (que a são maioria atualmente) o desempenho foi ainda pior. Em suma, será bem difícil melhorar o aprendizado de matemática no Brasil.

Naercio Menezes Filho é professor titular da Cátedra Ruth Cardoso no Insper, professor associado da FEA-USP e membro da Academia Brasileira de Ciências.

https://valor.globo.com/opiniao/naercio-menezes-filho/coluna/matematica-na-primeira-infancia.ghtml 

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Quem é o millennial que aposta em robôs assassinos e drones autônomos para derrotar Putin

Mykhailo Fedorov, ministro da Defesa da Ucrânia, de 35 anos, considera a tecnologia militar futurista crucial para a sobrevivência do seu país

Por Andrew E. Kramer Estadão/The New York Times – 21/05/2026

Enquanto o ministro da Defesa da Ucrânia, Mykhailo Fedorov, de 35 anos, caminhava de tênis, jeans e um casaco de lã, observando as exposições das mais recentes e excêntricas armas do país, ele parou para admirar um dispositivo gigantesco e desajeitado.

Era um drone com braços musculosos de fibra de carbono que se estendiam por quase dois metros e meio para cada lado, hélices do tamanho de foices e uma profusão de fios, antenas salientes e tiras de velcro. O drone substitui um obus de 155 milímetros, transportando projéteis até os alvos e lançando-os.

“Vocês conseguem fazer um maior?”, perguntou o ministro, Mykhailo Fedorov, aos desenvolvedores do drone durante uma recente exposição de defesa. Eles responderam que estavam trabalhando nisso.

O futuro da guerra está sendo escrito na Ucrânia, e Fedorov, um entusiasta da tecnologia que está no cargo há quatro meses, é um de seus autores.

Assim como os aplicativos transformaram os serviços de táxi e entrega de comida, Fedorov acredita que a guerra está pronta para ser revolucionada. Isso, segundo ele, significa transferir o máximo possível do combate para as máquinas — incluindo, um dia, aquelas que poderão tomar decisões letais por conta própria.

“O mundo precisa de segurança, e somente armas autônomas podem garanti-la”, disse Fedorov em entrevista em seu escritório no Ministério da Defesa. “Armas autônomas são as novas armas nucleares. Os países que as possuírem estarão protegidos.”

Embora robôs assassinos possam parecer uma perspectiva assustadora, algo saído de um filme de ficção científica distópico, a corrida por eles já começou no mundo todo.

Na Ucrânia, o uso de inteligência artificial em armamentos ainda está em seus primórdios. Atualmente, ela é mais útil no reconhecimento de alvos, como ajudar um piloto de drone a identificar um tanque camuflado escondido em uma floresta. Mas a tecnologia está melhorando, e Fedorov a considera um pilar da adoção mais ampla de armas de nova geração pela Ucrânia, que têm mantido suas forças armadas, em menor número, na luta.

Essas armas alimentam uma estratégia, idealizada por Fedorov e endossada pelo presidente Volodmir Zelenski, que visa forçar a Rússia a um acordo para pôr fim à guerra.

A estratégia, chamada Ar, Terra e Economia, prevê o uso de drones e outras armas avançadas para interceptar pelo menos 95% dos drones e mísseis russos que se aproximarem; matar ou ferir gravemente mais soldados do que Moscou consegue recrutar; e enfraquecer a economia russa explodindo terminais de exportação de petróleo.

Houve resistência dentro das forças armadas ucranianas contra o discurso futurista de Fedorov sobre guerra robótica, o que levou ao que analistas descrevem como uma luta pelo poder entre ele e os generais. Alguns comandantes afirmam que a ideia de uma transição rápida para o combate não tripulado está desconectada da dura realidade das trincheiras lamacentas e dos corpos mutilados.

Fedorov parece determinado. Na entrevista, ele disse que realizava cerca de uma dúzia de reuniões por dia, trabalhando de 10 a 12 horas, como parte de sua missão de pressionar as forças armadas a adotarem a tecnologia mais rapidamente. Ele se mantém com uma dieta restritiva que inclui saladas e pão de trigo sarraceno.

Seu interesse por tecnologia começou com os videogames que jogava na adolescência na cidade siderúrgica de Zaporizhzhia. Ele transformou seu hobby em uma carreira na área de tecnologia, abrindo uma empresa de publicidade digital antes mesmo de se formar na faculdade e tornando-se parceiro do Facebook na venda de anúncios segmentados na plataforma.

Zelenski contratou Fedorov para gerenciar a publicidade em mídias sociais de sua campanha presidencial de 2019 e, aos 28 anos, o nomeou para liderar o ministério responsável pela digitalização dos serviços governamentais.

Quando Fedorov, que nunca serviu às forças armadas, assumiu o Ministério da Defesa em janeiro deste ano, trouxe consigo uma equipe de assessores e analistas de dados. Em sua maioria jovens, eles se destacam por usar moletons no trabalho. Fedorov instalou uma mesa de pingue-pongue em um dos corredores.

Vale do Silício

Durante a guerra em grande escala que começou em 2022, Fedorov tem sido o principal contato da Ucrânia com o Vale do Silício. Para atrair tecnologia militar, ele promoveu a guerra como um campo de testes para empreendimentos de defesa.

Ele se reuniu na Ucrânia com Alex Karp, CEO da Palantir, empresa de análise de dados voltada para a defesa, e com Eric Schmidt, ex-CEO do Google e fundador do fundo de investimento D3, focado no desenvolvimento de armamentos na Ucrânia.

Após uma reunião esta semana com Karp, Fedorov afirmou que a Ucrânia está trabalhando com a Palantir para integrar ainda mais a inteligência artificial (IA) à guerra, incluindo sistemas para analisar ataques aéreos, processar dados de inteligência e planejar ataques de longo alcance contra a Rússia.

Durante a recente exposição de tecnologia de defesa da qual Fedorov participou, uma vasta gama de produtos inovadores ucranianos para o campo de batalha — o tipo de produto que ele defende — estava em exibição.

Havia bobinas de fibra óptica que guiam drones imunes a interferências eletrônicas. Havia uma arma feita de um balão, um drone de vigilância do tamanho da palma da mão e um veículo terrestre não tripulado verde que parecia uma mesa montada em um mini-trator. Existiram dezenas de protótipos de pequenas armas “inteligentes” para substituir metralhadoras, rifles de precisão, tanques e sistemas de artilharia.

Fedorov observou um avião de controle remoto do tamanho de um forno de micro-ondas, com uma fuselagem de plástico em formato de pão. A arma, um drone explosivo extremamente barato, chamava-se Pão. “Isso muda tudo”, disse ele.

Como grande parte da tecnologia ucraniana para o campo de batalha, os dispositivos pareciam ter sido soldados ou remendados com fita adesiva na garagem de alguém. Fedorov perguntou sobre os preços. Tudo tinha que ser barato e descartável, disse ele, porque muitos seriam abatidos ou destruídos.

Fedorov quer usar essa tecnologia para eliminar o máximo possível de soldados russos.

‘Destruição direcionada’

Ambos os exércitos sofrem altas baixas, já que os drones sobrevoam continuamente o campo de batalha, representando perigos letais para qualquer soldado ou veículo que se mova dentro da “zona de morte”, uma faixa de quilômetros de largura ao longo da linha de frente dominada por armas não tripuladas.

Fedorov chamou essa fase da guerra de “destruição direcionada”. Ele afirmou que seu objetivo era aumentar o número de baixas russas de cerca de 35 mil mortos e feridos por mês para mais de 50 mil, um nível que, segundo ele, desaceleraria a invasão e, em seguida, a interromperia.

Uma assessora, Valeriya Ionan, disse que Fedorov acredita na matemática da guerra.

No futuro, disse Fedorov na entrevista, sistemas robóticos farão todo o trabalho de combate. A zona de combate ficará completamente vazia de pessoas, afirmou. Sistemas não tripulados lutarão entre si, acrescentou, em terra e no ar.

À medida que os sistemas robóticos melhorarem, disse ele, haverá um entendimento de que perdas humanas em larga escala na guerra “são insustentáveis, e a guerra evoluirá novamente”.

As guerras, no entanto, tendem a tomar rumos imprevisíveis, e excluir os humanos do processo poderia agravar esse risco.

Conflito

A visão de Fedorov, por vezes, entrou em conflito com a dos líderes militares da Ucrânia.

O comandante-em-chefe das Forças Armadas, General Oleksandr Sirski, não se esquivou de batalhas travadas com táticas tradicionais de veículos blindados e manobras de infantaria em campo aberto. Ele obteve importantes vitórias no início da guerra com essas estratégias.

Uma disputa entre Fedorov e o comando militar veio à tona no mês passado.

Uma unidade ucraniana chamada Skala tentou um ataque arriscado com veículos blindados perto da cidade de Pokrovsk, no leste da Ucrânia, perdendo quatro veículos. Soldados foram mortos e feridos, embora os números sejam contestados.

Posteriormente, um assessor de Fedorov, Serhii Sternenko, criticou duramente as táticas em uma publicação nas redes sociais. “Costumamos rir do inimigo quando ele envia suas tropas em colunas”, escreveu Sternenko, referindo-se às colunas blindadas. “Tratar nosso povo dessa maneira é um crime. Deve haver responsabilização.”

A Skala reagiu, acusando Sternenko de nutrir ideias fantasiosas, desvinculadas da realidade do campo de batalha.

Em uma publicação em sua página no Facebook, a unidade escreveu que o grupo de assalto assumiu os riscos necessários para salvar soldados que precisavam de reforços. “Se Sternenko sabe como organizar ações de assalto contra os pontos fortes do inimigo em Pokrovsk”, dizia a publicação, “ele deveria se alistar no exército e lutar”.

Ainda assim, as brigadas da linha de frente geralmente adotaram toda a tecnologia de ponta que ela pode oferecer.

“Temos um ministro jovem que entende de tecnologia, que está na mesma sintonia que nós”, disse Kyrylo Veres, comandante da brigada K-2, uma das primeiras a adotar drones de visão explosivos no início da guerra. Com Fedorov, “não precisamos explicar nada”, acrescentou Veres.

Pesquisas de opinião pública mostram amplo apoio ao trabalho de Fedorov como ministro da Defesa. Zelenski o elogiou, dizendo estar “grato pelo crescente número” de drones que chegam às forças armadas.

Quem é o millennial que aposta em robôs assassinos e drones autônomos para derrotar Putin – Estadão 

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The Economist: Google está destronando a OpenAI como rei da IA ​​para o consumidor

Gigante da tecnologia revela agentes de IA que prometem revolucionar tarefas diárias e desafiar a OpenAI com velocidade quatro vezes maior

Por The Economist – 24/05/2026

O complexo do anfiteatro, onde o Google realiza sua conferência anual de desenvolvedores de software, tem um ar brega, de parque de diversões. Trailers estão estacionados no local. Funcionários chegam em alta velocidade nas bicicletas multicoloridas da empresa de tecnologia. Há estandes e atrações por toda parte. No palco, Sundar Pichai, o chefe da empresa, conta uma piada sem graça sobre os chips sobrecarregados do Google, conhecidos como TPUs, fazendo “teraflops na cama”.

O evento não é tão sofisticado quanto o encontro de desenvolvedores da Apple realizado em junho, que tenta preservar parte do minimalismo elegante do falecido Steve Jobs. Mas, quando se trata de inteligência artificial, o Google já ultrapassou há muito tempo a fabricante do iPhone (seus modelos irão impulsionar muitos dos recursos de IA da Apple daqui para frente). Agora, parece que também poderá roubar a coroa da IA ​​para o consumidor da OpenAI, criadora do Chat GPT.

Em 19 de maio, o Google apresentou uma nova linha de agentes de IA baseados em seu mais recente modelo Gemini 3.5 Flash. A linha inclui programadores de IA que rivalizam com os oferecidos pela OpenAI e Anthropic, além de agentes projetados para realizar diversas tarefas para pessoas comuns em seu dia a dia.

Alguns estarão disponíveis no aplicativo Gemini, usado por 900 milhões de pessoas todos os meses. Outros serão incorporados diretamente à Busca do Google, usada por mais de 3 bilhões de pessoas. Em resumo, a empresa está levando os agentes para as massas.

Como é comum no Vale do Silício, os exemplos usados ​​pelos executivos no palco causaram bastante surpresa. Com que frequência alguém precisaria de um agente de IA para fazer uma apresentação de slides para uma festa com pula-pula? No entanto, as ferramentas apresentadas também se mostram promissoras.

Um agente chamado Gemini Spark poderá realizar tarefas como analisar e-mails ou organizar viagens em grupo, mesmo depois que o usuário fechar o laptop ou largar o celular, enquanto “agentes de informação” na Busca do Google poderão acompanhar torneios esportivos, promoções de compras ou o mercado de ações.

Tudo isso parece particularmente preocupante para a OpenAI, que até agora liderou o campo da IA ​​voltada para o consumidor. Pouco depois do lançamento da família de modelos Gemini 3 pelo Google, em novembro, Sam Altman, CEO da OpenAI, emitiu um alerta de emergência (“Código Vermelho”) para mobilizar os funcionários e acelerar as melhorias no ChatGPT.

Desde então, o foco do laboratório mudou para seu agente de codificação. Mas o lançamento do Gemini 3.5 Flash, que o Google afirma ser quatro vezes mais rápido que outros modelos de ponta, e o novo conjunto de agentes provavelmente levantarão novas questões sobre o que a OpenAI está fazendo com seu chatbot principal.

Uma das preocupações do Google é o aumento do número de tokens consumidos por seus serviços, de 480 trilhões por mês para 3,2 quatrilhões 

Os investidores estão, sem dúvida, otimistas em relação às perspectivas do Google. O valor de mercado da Alphabet, sua empresa controladora, está agora muito próximo de US$ 5 trilhões, tendo ultrapassado os US$ 4 trilhões apenas em janeiro. No entanto, o sucesso do Google em IA também está criando problemas. De acordo com Pichai, o número de tokens — a medida preferida do Vale do Silício para o uso de IA — consumidos por seus serviços subiu para 3,2 quatrilhões por mês, ante 480 trilhões no ano passado.

Cada token requer poder computacional e, portanto, dinheiro para ser gerado, razão pela qual o investimento de capital do Google este ano chegará a US$ 190 bilhões, seis vezes mais do que há quatro anos. Além disso, esse dinheiro não rende tanto quanto antes, porque tudo, de chips a energia, ficou mais caro. Mesmo para o Google, há limites para o quanto ele pode gastar.

Existem algumas soluções potenciais. Uma delas é reduzir o custo por token, tornando a tecnologia mais eficiente, o que o Google certamente fará. Outra é impor limites ao uso da IA. Tais restrições não foram anunciadas no evento, mas os assinantes do Gemini foram avisados ​​posteriormente de que elas se aplicariam, embora com limites mais altos do que para não assinantes, de acordo com Richard Windsor, da Radio Free Mobile, uma empresa de pesquisa. Limites de uso também podem incentivar mais pessoas a pagar por uma assinatura.

Uma terceira solução é investir mais em anúncios. O Google acredita que o maior nível de detalhamento nas consultas de IA atrairá os profissionais de marketing. Embora ainda não tenha incorporado anúncios ao seu aplicativo Gemini, a empresa os intercala nas respostas de IA que seu serviço de busca agora gera e, em breve, exibirá explicações de produtos geradas por IA ao lado desses anúncios.

Pichai observou na conferência que algumas empresas já estão “estourando seus orçamentos anuais de tokens — e ainda estamos em maio”. Os consumidores não estão “maximizando tokens” na mesma proporção. Mas quanto mais eles usam agentes, mais os provedores de IA precisarão encontrar novas maneiras de lucrar com eles.

The Economist: Google está destronando a OpenAI como rei da IA ​​para o consumidor – Estadão 

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O currículo está mudando de nome

O colunista Sergio Chaia escreve sobre a transição do CV tradicional para uma nova era de profissionais alavancados por inteligência artificial

Por Sergio Chaia – Valor – 22/05/2026 

Em outubro do ano passado, em San Francisco, entre reuniões, peguei um Uber na Union Square. O motorista, Vjay, rapidamente saiu do script esperado. Havia clareza, estrutura de pensamento e uma capacidade de articulação incomuns. Perguntei onde havia estudado. Ele me contou que era recém formado com mestrado em computer science pela New York University.

Em seguida, o dado que realmente importa: tinha feito mais de 300 processos seletivos, mas não havia recebido nenhuma oferta. Dirigia para sobreviver enquanto tentava reconciliar formação, expectativa e dívida.

Longe de ser um caso isolado, uma reportagem recente do The New York Times aponta o mesmo padrão: jovens graduados em boas universidades sem conseguir ofertas nas áreas que gostariam e aceitando alternativas bem diferentes que previam.

O que esses episódios revelam não é uma anomalia conjuntural. É um sinal de mudança estrutural. A inteligência artificial já começou a alterar a lógica de empregabilidade antes mesmo de capturar plenamente o seu potencial dentro das empresas. No estágio atual, a IA tem sido aplicada sobretudo à eficiência: redução de custos, enxugamento de estruturas, automação de tarefas repetitivas.

A fase de crescimento exponencial ainda está por vir, mas o mercado de trabalho já reagiu. Recentemente, em conversa com um executivo C-Level global, ouvi uma leitura direta e provocativa: “no médio prazo, histórico profissional será condição necessária, mas não suficiente. O diferencial será quem você é e como você amplia sua capacidade por meio de seus agentes de IA.”

Essa é a mudança central. O curriculum vitae foi concebido para um mundo em que experiência acumulada era o melhor proxy de valor futuro. Esse mundo está ficando para trás. O novo critério é capacidade de execução ampliada.

Chame como quiser; a lógica é inequívoca: seu CV vai virar VA (você + agentes). O que começa a diferenciar executivos não é apenas o que fizeram, mas o que conseguem fazer agora e com alavancagem, quais problemas de negócio resolvem, com que velocidade, com que escala e com quanta dependência de estrutura tradicional.

Isso redefine o jogo do talento. Se, por décadas, programar foi uma barreira de entrada, essa fronteira está desaparecendo. Em seu lugar, emergem novas competências críticas: clareza de raciocínio, capacidade de estruturar problemas e formular perguntas de alta qualidade. Executivos que dominam essas habilidades ampliam exponencialmente seu impacto ao interagir com a IA.

É aqui que entra um fator frequentemente subestimado e decisivo na prática: repertório. O repertório é a capacidade de leitura de contexto. Executivos com repertório identificam nuances, antecipam movimentos e formulam as perguntas certas mais cedo. Sem isso, a interação com a IA tende à superficialidade, e os resultados acompanham.

Repertório não é um subproduto. É uma construção deliberada: exposição a contextos diversos, conversas fora da bolha, curiosidade disciplinada. É agenda, não acaso.

A terceira história ilustra o ponto de forma concreta. Mauro (nome fictício) operava no limite: agenda fragmentada, sobrecarga constante, impacto direto na qualidade das decisões e na vida pessoal.

Na última semana, encontrei um executivo diferente: mais focado, mais calmo, mais efetivo. A mudança tinha nome: Alfred. Seu agente pessoal.

Alfred absorve grande parte do operacional: comunicações não críticas, acompanhamento de prioridades, síntese de reuniões, organização de agenda , acompanhamento de prioridades e logística pessoal.

O ganho não é marginal. Mais de 50% da carga operacional de Mauro foi transferida, evidência confirmada pela análise de sua agenda. Com isso, ele saiu do modo reativo e reposicionou sua atenção no que realmente transforma o negócio e amplia seu impacto.

Perguntei como ele tinha construído o Alfred. “Tirei uma semana de férias, gastei uma grana boa em tokens do Claude e resolvi isso“. Quando eu ia questionar o fato dele ter dedicado tempo de férias para questões profissionais, ele se adiantou: “com o Alfred, tenho certeza que minhas próximas férias serão de muito mais qualidade que todas as últimas“. Esse é o ponto.

As três histórias — Vjay, os recém-formados e Mauro — convergem para a mesma conclusão: o mercado deixou de precificar apenas experiência. Começa a precificar capacidade ampliada. E isso tem implicações diretas para qualquer executivo em posição de liderança.

A pergunta não é se a IA vai impactar o seu papel. Ela já impactou.

A pergunta relevante é outra: quanto da sua agenda ainda depende exclusivamente de você e quanto já está alavancado?

Porque, no limite, o novo “currículo” não será o que você fez. Será o que você — e seus agentes — conseguem fazer.

É isso que irá aproximar ou afastar seu próximo salto na carreira.

Sergio Chaia é coach de CEOs e de treinadores de atletas de alto rendimento. Atua em conselhos e faz mentoria. Foi CEO da Nextel e da Sodexo Pass.

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Mais importante que saber “usar a IA” é saber quando duvidar dela

Por Paulo Silvestre – Estadão – 21/05/2026 

Cresci com a crença de que “TI era a profissão do futuro”. Mas agora que a inteligência artificial parece estar nos entregando o tal futuro, essas carreiras estão entre as que mais sofrem nas ondas de demissões associadas a essa tecnologia. Isso não significa que essas habilidades tenham deixado de ser importantes, mas a nossa relação com o digital está mudando.

Durante décadas, programar e operar softwares corporativos exigiam habilidades específicas. Agora a IA busca automatizar essas tarefas e tornar o uso desses sistemas tão intuitivo, que eles quase “desaparecem”.

Essa mudança começa a transparecer nos principais eventos de tecnologia do mundo, como o SAP Sapphire, que aconteceu em Orlando (EUA), nos dias 12 e 13 de maio. A IA está se tornando uma espécie de interface universal para o trabalho corporativo. Em vez de navegar por sistemas complexos, funcionários de qualquer área passam a conversar com agentes, formular pedidos e supervisionar fluxos automatizados, invadindo domínios antes restritos aos profissionais de TI.

Não se trata apenas de uma evolução operacional.

O teórico da comunicação canadense Marshall McLuhan dizia, já na década de 1960, que “o meio é a mensagem”, defendendo que tecnologias transformam a sociedade pelo conteúdo que carregam e pela forma como reorganizam comportamento, percepção e relações humanas. Obviamente o contexto era outro, mas isso se aplica de novo agora.

Historicamente, softwares corporativos moldaram os usuários ao obrigá-los a pensar de maneira procedural. Agora, tudo isso começa a ser escondido atrás de plataformas conversacionais que simplificam drasticamente a interação humana com a máquina.

Sistemas complexos, como ERPs, deixam de ser “visíveis” para se tornarem uma infraestrutura silenciosa. O usuário não precisa mais entender onde a informação está, nem quais sistemas participam do processo. Basta perguntar à IA.

A promessa é sedutora, mas existe uma consequência importante nessa mudança. Quanto mais simples a interface fica, maior pode se tornar a distância entre a ação e a compreensão.

A socióloga americana Sherry Turkle estuda há décadas como tecnologias digitais alteram relações humanas, capacidade reflexiva e percepção de autonomia. Parte importante de sua obra alerta justamente para o risco de terceirizarmos processos cognitivos para sistemas que executam tarefas de forma aparentemente mágica.

Agora a IA simplifica o acesso às respostas, mas também pode reduzir o contato humano com os próprios processos que geram essas informações. Em outras palavras, pessoas podem começar a executar decisões sem necessariamente compreender os mecanismos que levaram até elas. A própria SAP parece perceber esse risco, pois, em diversos momentos do Sapphire, seus executivos reforçaram que decisões estratégicas devem continuar sob responsabilidade de humanos, que precisam entender o que acontece “embaixo do capô da IA”.

Mas a transformação é inevitável, e ela acontecerá mais no campo cognitivo que tecnológico. As pessoas tendem a escolher o mais fácil, mesmo que isso lhes traga perdas. Se esses movimentos se consolidarem, o trabalho migrará da execução operacional para a formulação de boas perguntas, supervisão de agentes, interpretação de contexto e questionamento de respostas de plataformas cada vez mais opacas.

O profissional valorizado deixará de ser aquele que domina ferramentas específicas e passará a ser aquele capaz de entender contexto, conectar repertórios, identificar inconsistências e manter capacidade crítica, mesmo diante de sistemas extremamente convincentes. Afinal, quando a tecnologia se torna invisível, ela também se torna mais difícil de questionar.

Portanto, a habilidade mais valorizada dos próximos anos não será técnica, e sim a capacidade de preservar autonomia intelectual em um ambiente cada vez mais automatizado. Saber operar IA será importante, mas saber quando questioná-la será ainda mais.

Opinião por Paulo Silvestre

É doutorando em inteligência artificial e mestre em reputação digital pela PUC-SP. Articulista do Estadão, atua como consultor e palestrante de IA, experiência do cliente e transformação digital. É professor da Universidade Mackenzie e da PUC–SP. Foi executivo do Estadão, Samsung, AOL, Saraiva e Editora Abril, e é LinkedIn Top Voice desde 2016.

Mais importante que saber “usar a IA” é saber quando duvidar dela – Estadão 

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Traficantes do Comando Vermelho compram drones com capacidade para transportar até 20 fuzis entre favelas; vídeo

Polícia identificou treinamento de criminosos do Complexo do Alemão com aeronaves de grande porte usadas em áreas agrícolas; equipamento pode levar até 80kg e teria sido operado com auxílio de brasileiro que lutou na guerra da Ucrânia

Por Marcos Nunes – O Globo – 21/05/2026

CV faz treinamentos com drones agrícolas para transportar armas e drogas

CV faz treinamentos com drones agrícolas para transportar armas e drogas — Foto: Reprodução

Que o tráfico usa, há algum tempo, drones para monitorar e atacar rivais e forças policiais, já é sabido. Os criminosos, porém, começaram a investir em equipamentos cada vez mais robustos e modernos e em treinamento para operá-los. A polícia descobriu que traficantes do Complexo do Alemão, na Zona Norte, controlado pelo Comando Vermelho (CV), adquiriram drones de grande porte para transportar armas e drogas. São aeronaves de carga ou para uso agrícola, com capacidade de transportar até 80kg — o equivalente a 20 fuzis FAL ou AR-15.

A imagem de um treinamento com um veículo aéreo não tripulado, com cerca de três metros de comprimento, foi flagrada pela câmera de uma aeronave da Polícia Militar. A data em que o voo ocorreu não foi divulgada.

De acordo com informações recebidas pela Subsecretaria de Inteligência da Secretaria estadual de Segurança Pública, o treinamento para operar esses drones estaria sendo feito por um brasileiro que voltou da guerra na Ucrânia, no Leste Europeu, onde teria atuado como voluntário no conflito contra a Rússia. Além disso, ele também seria o encarregado de repassar para os traficantes algumas técnicas usadas em combates militares. Já se sabe que o suspeito chegou a permanecer por pelo menos um ano participando do confronto militar.

Souvenir da guerra

Ao retornar para o Rio, segundo a Subsecretaria de Inteligência, o homem presenteou o traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca, um dos integrantes da cúpula do CV, com uma espécie de souvenir de guerra: uma placa balística (peça que faz parte do colete à prova de balas) usada pelo próprio soldado durante sua participação no conflito.

Numa das imagens flagradas por policiais durante o monitoramento aéreo, é possível contar pelo menos dez pessoas ao lado de um drone que se prepara para decolar. O sobrevoo aconteceu em uma área aberta e com poucas residências próximas.

O veículo aéreo não tripulado que aparece na gravação, do tipo usado em campos agrícolas para pulverização ou em entregas, pode percorrer uma distância de até 12 quilômetros e tem custo estimado em mais de R$ 200 mil. A partir do Complexo do Alemão, um drone desse tipo tem autonomia para chegar a outras favelas controladas pelo CV, como Cidade de Deus, Jacarezinho, Complexo do Lins e Complexo do Chapadão.

A aeronave também tem capacidade para percorrer a distância entre as comunidades da Gardênia Azul, em Jacarepaguá, e da Muzema, no Itanhangá (ida e volta). As duas favelas têm territórios controlados pelo CV e estão separadas, uma da outra, por cerca de cinco quilômetros.

Traficantes do CV inovam e compram drones de grande porte para transporte de drogas — Foto: Arte O GLOBO

É das duas comunidades que homens armados costumam sair para tentar invadir Rio das Pedras. A localidade é considerada berço de nascimento da milícia, sendo a única da região do Itanhangá que continua em poder de paramilitares.

— O nosso novo foco é impedir que eles usem essa nova ferramenta para implementar o fluxo de armas e drogas entre as comunidades sem o perigo de interceptação pela polícia — diz o delegado Pablo Sartori, subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança do estado.

De acordo com a polícia, os treinamentos com drones são feitos em uma área do Complexo do Alemão. É na comunidade citada e no Complexo da Penha, que fica ao lado, que está escondida a maior parte dos bandidos da cúpula do CV ainda em liberdade. Além de Doca, estariam lá Carlos da Costa Neves, o Gardenal, apontado como o responsável pela segurança do bando e pela expansão territorial do tráfico na área de Jacarepaguá, e Pedro Paulo Guedes, o Pedro Bala. Este último seria gerente-geral do tráfico.

Outro chefe da facção criminosa que estaria no Alemão é Luciano Martiniano da Silva, o Pezão. De acordo com dados do site do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), junto, o quarteto soma 82 mandados de prisão expedidos pela Justiça em seus respectivos nomes. Todos são considerados foragidos.

Não é a primeira vez que o tráfico usa militares ou ex-militares para operacionalizar drones. Em setembro de 2024, o então cabo da Marinha Rian Maurício Tavares foi preso por policiais federais após uma investigação apontá-lo como suspeito de ser o responsável por operar drones para o CV. Uma aeronave não tripulada teria sido usada, inclusive, para lançar granadas na Gardênia Azul, em fevereiro do mesmo ano, quando a comunidade ainda era controlada por milicianos.

Segundo a Marinha, o ex-cabo foi licenciado do serviço ativo da corporação, “a bem da disciplina”, em 27 de fevereiro de 2025, deixando de integrar os quadros da corporação. O ex-militar está preso na Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná — os advogados Orlando Clímaco e Rafael Teixeira, responsáveis pela defesa de Rian, informaram que um pedido de relaxamento da prisão já foi apresentado à Justiça. O recurso ainda não foi julgado.

Já em 28 de outubro de 2025, drones de pequeno porte voltaram a ser usados por bandidos do CV, durante uma operação nos complexos da Penha e do Alemão. Na ocasião, as aeronaves foram utilizadas, segundo a polícia, para monitorar os carros da Polícia Civil e da Polícia Militar. A ação acarretou um tiroteio que durou nove horas. O confronto deixou 117 suspeitos mortos. Cinco policiais também morreram na troca de tiros.

Aliado da polícia

Em maio de 2026, a Polícia Civil criou a Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (Coant), estrutura responsável por organizar e planejar o “uso institucional de drones” em ações de investigação e inteligência e em missões emergenciais em todo o Estado do Rio. A corporação acredita que o serviço poderá auxiliar, entre outras coisas, na realização de levantamentos, buscas por criminosos e acompanhamento de operações em tempo real, além da coleta de provas visuais.

Importados da China, os drones de seis modelos diferentes — entre eles, os que têm sensores térmicos para localizar suspeitos escondidos em área de mata e aqueles que fazem imagens noturnas — poderão ajudar ainda na realização de operações policiais. Eles têm capacidade para captar e transmitir imagens, em tempo real, para um centro de monitoramento, localizado na Cidade da Polícia, no Jacaré. Segundo a polícia, o equipamento será operado por um agente treinado e capacitado.

Segundo a corporação, cada drone foi comprado para atender a determinada ação da polícia. Alguns, por exemplo, têm câmeras com zoom para fazer imagens a longa distância e autonomia de voo que pode chegar a mais de uma hora.

Um dos modelos comprados pela polícia também é equipado com câmeras de reconhecimento facial e de leitura de placas, podendo ser interligado ao sistema usado pela corporação para fazer a identificação de pessoas procuradas pela polícia ou de veículos roubados. Já uma outra aeronave é própria para fazer voos furtivos, ou seja, sem que a presença dela seja notada com facilidade.

Os valores gastos com os drones fazem parte de um pacote de compra de equipamentos de inovações tecnológicas para a corporação. Nos dois últimos anos, os gastos — que incluem ainda a aquisição de softwares para extração de dados telemáticos — chegaram à casa de R$ 2,1 milhões.

Traficantes do Comando Vermelho compram drones com capacidade para transportar até 20 fuzis entre favelas; vídeo 

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Está começando o momento da IA física

Foto: Copilot

Evandro Milet – Portal SimNotícias – 3 de maio de 2026

“O momento ChatGPT da robótica chegou”, disse Jensen Huang, fundador e CEO da Nvidia, a empresa com o maior valor de mercado atual, com mais de 5 trilhões de dólares, fazendo analogia com o impacto causado pelo lançamento do ChatGPT.

A robótica e a IA se desenvolveram em caminhos separados. A pesquisa em robótica se concentrou principalmente em sistemas mecânicos, incluindo motores, juntas e algoritmos de controle. Por outro lado, a pesquisa em IA se concentrou em raciocínio e aprendizado em ambientes digitais, incluindo grandes modelos de linguagem. Essa separação limitou o progresso na robótica de propósito geral. 

A IA avançou, nos últimos anos, com modelos capazes de gerar texto, imagem, código e respostas em linguagem natural. No entanto, uma nova etapa passou a ganhar atenção: a IA física, isto é, sistemas de IA que não apenas processam informações, mas também percebem o ambiente, raciocinam sobre ele e agem no mundo real por meio de sensores, atuadores, robôs, veículos, drones e outros dispositivos. 

Se a IA generativa ampliou a produtividade no ambiente digital, a IA física aponta para uma expansão da inteligência artificial em operações industriais, logística, mobilidade, agricultura, saúde, serviços, atividades domésticas e infraestrutura, além de abrir novas fronteiras científicas. 

A IA física faz a convergência da IA, IoT, visão computacional e robótica. Em outras palavras, refere-se a sistemas inteligentes capazes de perceber, entender e interagir com o ambiente físico, indo além de softwares que operam apenas em telas ou servidores. Diferentemente da IA tradicional, que lida com dados digitais, a IA física precisa lidar com gravidade, atrito, colisões, situações inesperadas e condições não estruturadas. 

Para entender melhor a relevância da IA física, vale compará-la com os outros dois tipos de inteligência artificial principais. A primeira é a IA generativa, focada em produzir conteúdos digitais, como texto, imagem, áudio e código, como nos ensinou o ChatGPT em 2022. A segunda é a IA agêntica, voltada à execução de tarefas digitais com mais autonomia, em crescimento vertiginoso na utilização de agentes autônomos atualmente. Já a IA física aplica percepção, raciocínio e autonomia ao trabalho no mundo material. Essa está apenas começando em atividades midiáticas, vencendo competições esportivas, fazendo malabarismos e nos espantando com a aparência humana, enquanto se espalha pelas ruas em alguns países com os veículos autônomos. 

Esse avanço também se conecta ao conceito de inteligência espacial. Fei-Fei Li, nascida chinesa, mas naturalizada americana, uma das cientistas de IA mais notórias da atualidade, argumenta que os modelos atuais são muito fortes em linguagem, mas continuam limitados quando precisam compreender espaço, contexto e relações físicas. 

Li afirma que, por mais que os modelos de linguagem dominem o texto, produzam código e gerem imagens, eles não entendem que o mundo tem três dimensões. Não sabem que a gravidade puxa os objetos para baixo, que a luz se comporta de determinada maneira, que um braço robótico precisa calcular força e equilíbrio para segurar uma xícara sem quebrá-la. Para Li, é a inteligência espacial que representa a próxima fronteira da IA. “A inteligência espacial vai transformar a forma como criamos e interagimos com os mundos real e virtual, revolucionando a narrativa, a criatividade, a robótica, as descobertas científicas e muito mais”, diz a cientista. 

O mercado de IA física pode atingir de US$ 500 bilhões a US$ 1,4 trilhão até 2035, com veículos autônomos representando quase metade desse crescimento. A implementação tende a começar com veículos autônomos e drones, seguida por automação industrial e robôs humanoides de uso geral. A China lidera a adoção, com mais de 85% das novas instalações de robôs humanoides em 2025, seguida pelos Estados Unidos. 

Para lidar com a IA física, as engenharias Mecatrônica, Elétrica/Eletrônica, Computação/Software e Mecânica são cruciais. Lamentável que, no Brasil, o ensino de engenharia esteja tão pouco prestigiado. Quando acordarmos, mais uma vez o momento de estar alinhados com a tecnologia de ponta terá passado. Poderemos usá-la , mas não participaremos do seu desenvolvimento.

Está começando o momento da IA física – Sim Notícias

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China quer cobrar empresas por danos gerados por namorados e conselheiros de IA

  • Nova regulação mira serviços que simulam a identidade humana e oferecem apoio afetivo
  • Em meio à febre de companhias virtuais, Pequim determina regras que podem afetar big techs

Victoria Damasceno – Folha – 19.mai.2026

Pequim

Uma nova regulamentação da China quer responsabilizar empresas que oferecem serviços de inteligência artificial, como big techs, por danos emocionais causados aos usuários. O movimento quer colocar limites no conteúdo gerado pelas plataformas e evitar que a tecnologia afete menores de idade.

A nova medida, publicada por diversos órgãos, como a Administração do Ciberespaço da China e o Ministério da Segurança Pública, é direcionada a empresas fornecedoras dos chamados “serviços interativos antropomorfizados”, isto é, aqueles que simulam personalidades humanas, e estabelece que as companhias devem evitar danos psíquicos e identificar padrões que podem levar à dependência emocional dos usuários.

Segundo Scott Singer, pesquisador de tecnologia da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, não é a primeira vez que Pequim cria regras para evitar a “captura emocional dos usuários”.

Em 2021, por exemplo, o regime determinou que menores de idade só podem participar de jogos online por uma hora por dia aos finais de semana e em feriados nacionais, exigindo que as plataformas fizessem cadastros com nomes reais.

“A regulação chinesa sobre IA antropomórfica representa um passo importante no tipo de preocupação refletida na governança chinesa de IA”, diz o pesquisador.

“Nos primeiros anos da política chinesa para inteligência artificial, o Partido [Comunista da China] estava focado sobretudo no controle de conteúdo e em garantir que o que os modelos produziam não contradissesse as narrativas centrais do PCCh. As prioridades mudaram e se ampliaram.”

China, terra do meio

A norma, que entra em vigor em julho, mira a IA que imita seres humanos em qualquer formato, como imagem, texto ou voz, e oferece interação emocional contínua. O uso da tecnologia como forma de companhia virtual tem sido tratado pelas autoridades chinesas como um problema de proteção a menores e um risco à saúde.

Em redes sociais como o RedNote, com funcionamento similar ao TikTok, jovens compartilham suas experiências com namorados virtuais e apresentam personagens que respondem de forma aprofundada sobre medos e inseguranças, ao passo que fazem brincadeiras e simulam uma rotina comum.

Uma pesquisa do Tencent Research Institute, que ouviu mil internautas chineses em 2024, já mostrava que 98% dos entrevistados estavam dispostos a testar serviços de companhia por inteligência artificial. Oito em cada dez disseram que a plataforma é um local seguro para falar sobre emoções negativas pela ausência do risco de julgamento do interlocutor.

O novo texto determina que empresas e prestadores de serviços não devem promover conteúdo de manipulação emocional, que implique autolesão ou suicídio, e que atenda excessivamente ao usuário, induzindo dependência emocional, vício ou prejudicando relacionamentos reais.

Também determina que a IA não pode gerar conteúdo de discriminação étnica, pornografia, jogos de azar, violência, nem espalhar rumores e difamações, além de obrigar as empresas a identificar conteúdo gerado pela tecnologia e proibir o serviço de companhia virtual para menores.

A plataforma pode, portanto, disponibilizar tecnologias que criam parentes ou namorados virtuais para adultos, mas com limites de atuação.

“Os fornecedores de serviços interativos antropomórficos devem possuir recursos de segurança, como a proteção da privacidade e das informações pessoais do usuário, o fornecimento de alertas precoces sobre riscos de dependência excessiva, a orientação de limites emocionais e a proteção da saúde mental”, diz a determinação.

A lei afirma ainda que, se a empresa identificar que o usuário está vivendo “emoções extremas”, a tecnologia deve “gerar conteúdo relevante”, como apoio emocional ou incentivo para buscar ajuda.

O desrespeito ao regulamento inclui advertência, ordem de correção, suspensão de cadastro de usuários ou do serviço e, em casos mais graves, multas que podem chegar a 200 mil yuans (R$ 144,8 mil).

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The Economist: O dilema da China de avançar na automação sem eliminar mão de obra

Uma abordagem centrada no ser humano para a automação

Por Estadão/The Economist – 18/05/2026

Há um ano, a cidade de Qingdao tinha apenas alguns veículos autônomos. Agora, tem mais do que quase qualquer outro lugar na Terra. Uma empresa, a Neolix, colocou cerca de 1,2 mil vans de entrega não tripuladas nas ruas locais; a expectativa é chegar a 4 mil até o final do ano. Com diversos outros projetos de táxis autônomos e entrega de comida em andamento, Qingdao exemplifica a rapidez com que a inteligência artificial está transformando a China. É também a linha de frente do embate entre veículos autônomos e motoristas.

Carros autônomos e drones estão sendo implantados na China em um ritmo vertiginoso. Cerca de 33 mil veículos de entrega de curto alcance, incluindo os de Qingdao, circulavam pelas ruas chinesas no final de 2025. O número de táxis autônomos deve chegar a 14 mil até o final de 2026. O banco Goldman Sachs estima que mais de 700 mil robotáxis (o que representa 12% de todos os veículos de transporte por aplicativo) estarão circulando pelas cidades chinesas em cinco anos. O Meituan, um superaplicativo de entregas, acredita que poderá usar drones para 10% das entregas instantâneas de comida do país, que somaram 60 bilhões no ano passado.

Embora cada entrega desse tipo seja um milagre tecnológico, a curto prazo pode privar um motorista humano de sua corrida. Isso coloca os líderes chineses em uma situação delicada: eles querem liderar o mundo em IA e automação, mas não querem destruir empregos.

Um plano econômico para os próximos cinco anos afirma que o país deve “prevenir e resolver os riscos de desemprego em larga escala”. Em abril, um órgão de vigilância em segurança cibernética alertou os desenvolvedores, em um documento preliminar, que eles “não deveriam aplicar IA com o objetivo de substituir o emprego humano”.

A primeira questão é se a tecnologia será capaz de substituir milhões de motoristas em pouco tempo. Projetos foram lançados em dezenas de cidades chinesas, mas o crescimento desacelerou devido ao congestionamento e a problemas técnicos. Nenhuma empresa implantou mais de 1,2 mil veículos em uma única cidade. O tamanho da frota da Neolix em Qingdao tem variado em resposta aos congestionamentos causados ​​por suas vans.

Embora elas tenham permissão para circular a qualquer hora, só podem fazer entregas fora dos horários de pico, durante o dia. Mesmo assim, em uma manhã de abril, perto de um grande mercado atacadista, era possível ver grupos de veículos da Neolix congestionando a rua, sob buzinas e vaias.

Na cidade de Wuhan, lar de um dos maiores projetos de robotáxis do mundo, os veículos autônomos também causaram congestionamentos. A Baidu, gigante da tecnologia e principal operadora de táxis autônomos de Wuhan, tem uma frota de cerca de 1 mil veículos há mais de um ano. E esse número pode não crescer tão cedo.

Em março, dezenas de táxis da Baidu congelaram repentinamente, causando engarrafamentos e exigindo o resgate de passageiros presos. Desde então, o governo central suspendeu a emissão de novas licenças para robotáxis.

Uma segunda questão é quais empregos estão ameaçados e quais estão seguros a longo prazo. As autoridades de Qingdao não estão preocupadas com o desemprego causado pela Neolix, afirma Wang Honglei, executivo da empresa. Aliás, altos funcionários da província de Shandong querem até 15 mil veículos autônomos de entrega de curta distância circulando nas ruas até o final de 2027.

Um dos motivos para essa despreocupação é o tipo de motorista humano que esses veículos podem substituir. A Neolix opera apenas serviços de empresa para empresa, como a entrega de carne de mercados para restaurantes. Muitas pessoas que fazem esse trabalho têm mais de 60 anos e dirigem pequenos veículos de três rodas que capotam no trânsito.

Poucos jovens querem substituí-los quando se aposentam, porque esse trabalho perigoso paga mal e exige muito esforço físico. Isso torna as máquinas a escolha óbvia para a tarefa.

Os motoristas que transportam pessoas aos seus destinos e encomendas aos consumidores são outra questão. As plataformas tecnológicas empregam cerca de 22 milhões desses trabalhadores; muitos mais conduzem táxis urbanos. Os trabalhadores das plataformas são geralmente jovens migrantes rurais nas cidades e pessoas que perderam outros empregos. O desemprego juvenil já é elevado e as autoridades não querem agravar a situação.

Outra diferença crucial é que os motoristas de táxi e entregadores têm se mostrado mais eficientes na organização de greves e protestos. Foi exatamente o que aconteceu em Wuhan, em 2024, quando o projeto da Baidu estava ganhando força. Em resposta, as autoridades municipais ordenaram que a Baidu parasse de divulgar os números de seus robôs-táxis. As autoridades, embora apoiem a tecnologia, temem a desordem social muito mais do que as falhas técnicas.

Para dissipar esses receios, as maiores empresas de automação estão oferecendo ajuda aos descontentes. A Meituan começou a treinar motoristas de entrega para operar entregas por drones em Xangai. As funções variam desde o carregamento de alimentos nos drones até o monitoramento dos voos a partir de uma central de comando.

Até o momento, apenas 200 pessoas fazem parte dessa equipe, em comparação com os milhões de motoristas. Mas esse número irá aumentar, afirma Mao Yinian, da Meituan. Enquanto antes a empresa treinava apenas seus próprios funcionários para esse tipo de trabalho, agora ela também treina outros trabalhadores, incluindo funcionários de hospitais, onde drones já entregam algumas amostras para exames.

O objetivo final da automação é substituir trabalhadores que precisam receber um salário regular por robôs, que não precisam. Isso acabará acontecendo também na China. Enquanto isso, um mundo ansioso com o apocalipse dos empregos causado pela IA observará atentamente o experimento chinês de automação que prioriza o ser humano.

The Economist: O dilema da China de avançar na automação sem eliminar mão de obra – Estadão 

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Citações falsas e comandos ocultos: o caos da IA nos tribunais

Casos com citações fictícias e argumentos inventados expõem riscos do uso de IA no Direito

Chris Stokel-Walker – Fast Company Brasil – 16-05-2026

O uso de IA está se tornando cada vez mais comum no sistema jurídico. Tanto profissionais experientes quanto novatos estão recorrendo ao ChatGPT e outras ferramentas para tentar construir o caso mais persuasivo possível ao chegar aos tribunais.

No mês passado, o prestigiado escritório Sullivan & Cromwell, dos EUA, foi forçado a pedir desculpas após apresentar nomes fictícios de processos e citações inventadas em um documento submetido à justiça, além de citar incorretamente trechos do Código de Falências dos Estados Unidos.

“Lamentamos profundamente que isso tenha ocorrido”, escreveu o escritório em uma carta de retratação enviada ao juiz responsável por um caso envolvendo uma suposta operação de golpe no Camboja (acusação negada pelo réu).

E esse está longe de ser um caso isolado envolvendo IA no judiciário.

No Brasil, duas advogadas foram multadas em R$ 84,2 mil por tentarem utilizar um mecanismo para manipular a inteligência artificial de um tribunal no Pará, segundo reportado pelo portal de notícias g1.

A dupla inseriu, na petição inicial, um comando em letras brancas sobre fundo branco (não visível a olhos humanos) determinando que qualquer resposta da IA à petição fosse “superficial” e que não fosse capaz de superar os argumentos iniciais.

A técnica é conhecida como “prompt injection” – quando alguém insere instruções escondidas para enganar ou manipular uma ferramenta de IA. Mas o juiz do trabalho Luis Carlos de Araújo Santos Júnior identificou a tentativa de manipular a IA do tribunal.

JÁ VIROU TENDÊNCIA

O amplamente divulgado caso Mata versus Avianca, em 2023, foi um dos primeiros grandes exemplos de um advogado usando o ChatGPT para redigir uma petição baseada inteiramente em precedentes judiciais inexistentes.

De lá para cá, os exemplos vêm se multiplicando. No ano passado, em um processo na Alta Corte do Reino Unido, um advogado apresentou 18 citações fictícias de jurisprudência, de um total de 45 referências. Em outro caso, também em 2025, um advogado utilizou IA para se preparar para uma audiência e tentou esconder citações fabricadas.

O impacto da IA sobre o sistema jurídico começa a aparecer também nos números. Um estudo recente sugere que os tribunais federais dos Estados Unidos já começam a registrar aumentos consideráveis no volume de processos.

“A participação de ações movidas por pessoas sem representação legal estava em torno de 11% há bastante tempo”, afirma Anand Shah, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) que liderou o estudo. “No mundo pós-IA, vemos isso saltar para algo como 18%.”

Ao lado de Joshua Levy, da Universidade do Sul da Califórnia, Shah analisou a proporção de textos gerados por IA em petições judiciais usando uma amostra aleatória de 1,6 mil documentos distribuídos ao longo de oito anos.

Eles descobriram que o uso de texto gerado por IA saltou de “praticamente 0%” antes da IA generativa para cerca de 18% no início de 2026. “Ficamos absolutamente chocados”, diz Shah.

Leia mais: O que é o “prompt injection”, técnica usada para manipular modelos de IA

Ao examinar os documentos mais profundamente, os pesquisadores perceberam que o crescimento estava concentrado em tipos de casos mais simples e facilmente padronizáveis, e não em áreas altamente técnicas, como patentes ou direito societário.

Segundo Shah, isso pode indicar que a IA está ajudando pessoas a ingressarem com ações que antes talvez jamais tentassem mover, já que se tornou muito mais fácil gerar a estrutura de um argumento jurídico e a documentação necessária com esforço mínimo.

NA PRESSÃO

Embora histórias engraçadas sugiram que a enxurrada de IA já esteja começando a pressionar o sistema jurídico dos EUA, Shah afirma que a disrupção ainda não apareceu totalmente nos dados.

“Os casos não estão sendo resolvidos nem mais rápido nem mais devagar, o que por si só é um pouco surpreendente”, afirma.

Mas ele observa que o volume de trocas processuais entre as partes aumentou consideravelmente, ampliando muito o número de documentos que juízes precisam analisar. Segundo Shah, esse número cresceu cerca de 158%.

Um estudo recente sugere que os tribunais federais dos EUA começam a registrar aumento no volume de processos.

Para o pesquisador, é preciso começar a estabelecer limites para o uso de IA nos tribunais antes que a pressão se torne severa o suficiente para desacelerar o funcionamento da justiça.

Shah afirma que os tribunais de instâncias inferiores já operam sob forte pressão e alerta que o problema tende a crescer rapidamente à medida que os modelos de IA melhoram e mais pessoas percebem que podem utilizá-los para gerar petições judiciais.

Isso significa que será necessário mais trabalho para estabelecer regras e normas que definam como e quando a IA deve ser utilizada no sistema jurídico.

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“Definitivamente não deveríamos tratar essa transição de qualquer jeito, deixando tribunais movidos por IA surgirem aleatoriamente e testarem todo tipo de coisa”, alerta Shah.

Com informações da redação da Fast Company Brasil


SOBRE O AUTOR

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