No GTC 2026, Jensen Huang, fundador e CEO da Nvidia, trocou a linguagem dos chips pela da produção industrial: data centers viraram fábricas de tokens, e a empresa quer ser a engrenagem central.
André Lopes – Exame – 16 de março de 2026
*SAN JOSE – No palco do GTC 2026, a conferência anual da Nvidia, o fundador da companhia Jensen Huang fez mais do que apresentar produtos. Ele tentou redesenhar a forma de enxergar a própria indústria da qual sua empresa faz parte. Durante o painel de abertura do evento, que começou segunda-feira, 16, o CEO definiu a inteligência artificial em três fases — geração, raciocínio e agentes — e usou essa linha do tempo para defender uma tese muito maior do que a venda de novos chips: a de que o mundo entrou numa era em que computação virou uma indústria por si só, e a Nvidia deve ser a fornecedora central dessa nova fábrica global de inteligência.
Há um ano, disse Huang, a empresa via cerca de US$ 500 bilhões em demanda para Blackwell e Rubin, até então as duas famílias mais recentes de sistemas e chips da companhia. Agora, com uma leva nova de semicondutores ainda mais poderosos, afirmou enxergar pelo menos US$ 1 trilhão até 2027.
Cada nova fase, na visão da Nvidia, exige mais processamento. Modelos que raciocinam precisam de mais contexto, mais etapas intermediárias, mais tempo de inferência, o momento em que a IA gera a resposta. “Agentes exigem ainda mais, porque deixam de ser apenas interfaces de conversa e passam a operar sobre o mundo digital”, disse o CEO, que afirma que a demanda por computação explodiu, mas ainda está longe do teto.
Essa leitura é importante porque desloca a Nvidia do território tradicional da indústria de semicondutores. A empresa não quer mais vender apenas o chip mais rápido, ainda que faça isso ano após ano. Quer vender a infraestrutura que reduz o custo por token — ou seja, o custo de produzir inteligência em escala. Huang chegou a afirmar que o ganho entregue pela nova geração da companhia está muito acima do que a velha Lei de Moore, a regra histórica de evolução dos chips, sugeriria. A implicação é clara: se a IA virou fábrica, a Nvidia quer ser a máquina que melhora sua produtividade.
O keynote também deixou claro que esse argumento vai além da IA generativa. Em um dos blocos mais relevantes da apresentação, Huang voltou os holofotes para os dados estruturados, o universo das tabelas, planilhas e sistemas corporativos que sustentam a rotina das empresas. Ali estão plataformas como SQL, Spark, Pandas, Snowflake, Databricks e BigQuery. A mensagem foi simples: o entusiasmo do mercado está nos modelos generativos, mas o coração da computação empresarial ainda vive em dataframes e bancos de dados. Para capturar esse orçamento, a Nvidia quer acelerar não só LLMs, os grandes modelos de linguagem, mas também o trabalho pesado do mundo corporativo.
Esse movimento ajuda a explicar a profusão de parceiros citados no palco. Dell apareceu como parceira em infraestrutura de dados. Google Cloud, AWS, Azure e Oracle entraram como canais de distribuição e escalonamento. A Nvidia se apresenta como a camada que integra hardware, bibliotecas, software e nuvem para acelerar aplicações e, ao mesmo tempo, reduzir custos. Num dos casos mostrados, com o Snapchat, Huang disse que a parceria com o Google Cloud reduziu o custo de computação em quase 80%.
Esse reposicionamento aparece também na lista de setores que a empresa passou a atacar com mais ênfase: finanças, saúde, automotivo, indústria, mídia, entretenimento, robótica. No palco, Huang falou do “momento ChatGPT” da saúde, do uso de IA em finanças e do maior ciclo de construção industrial da história, com fábricas de chips, de computadores e de IA sendo erguidas em vários países. O objetivo é ampliar o mercado endereçável da Nvidia para muito além do treinamento de modelos de linguagem.
O GTC 2026 teve, claro, anúncios de produto. O principal para o público gamer foi o DLSS 5, a nova geração da tecnologia da Nvidia para gráficos, que usa inteligência artificial para melhorar desempenho e qualidade visual em jogos e aplicações gráficas. Huang tratou a novidade como parte de um movimento maior, o da renderização neural, a fusão entre computação gráfica e IA.
Huang passou a manhã tentando convencer a indústria de que a Nvidia não é apenas uma vencedora do boom recente da IA. É a empresa que pretende organizar o próximo ciclo da computação. Na visão da Nvidia, a IA já deixou de ser software chamativo para virar infraestrutura produtiva. E, nessa fábrica, o produto final não é mais só resposta, é token que ela produz.
*O jornalista viajou a convite da Nvidia.
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