Obra compara as realidades das duas maiores potências globais, EUA e China, de um ângulo pouco usual
Por Armando Castelar – Valor – 10/07/2026
Pesquisador do IBRE/FGV, professor do Instituto de Economia da UFRJ, Castelar é PhD em economia por Berkeley e foi chefe do Departamento Econômico do BNDES
Faz um tempo que penso em escrever sobre o livro de Dan Wang, “Breakneck: China’s Quest to Engineer the Future” (W W Norton & Company, 2025). Nele, o autor compara as realidades das duas maiores potências globais, mas de um ângulo pouco usual: o das profissões que dominam a política em cada país, engenheiros na China, advogados nos EUA. O livro foca especialmente na China, onde o autor nasceu, emigrando ainda criança para o Canadá, e onde depois trabalhou durante alguns anos.
O livro tem essencialmente duas partes. Na primeira, Wang louva a capacidade dos engenheiros avançarem na construção da infraestrutura e na industrialização da China. Me lembrou do comentário de um colega de faculdade, muitos anos atrás, quando disse que os engenheiros são treinados para nunca dizer não sei, mas sim quanto tempo eu tenho para resolver o problema? Aqui o autor realça o fato de que, nos EUA, em contraste, o foco recai sobre o processo, não o resultado, tornando tudo mais complicado. Em especial, isso explicaria suas carências de infraestrutura e a dificuldade de (re-)avançar com a industrialização.
Wang exemplifica com a instalação do trem-bala, com os dois países iniciando projetos em 2008: entre Pequim e Xangai, na China, entre São Francisco e Los Angeles, nos EUA, ambos com extensões de cerca de 800 milhas. Na China, o projeto foi concluído em 2011, ao custo de US$ 36 bilhões e na sua primeira década de operação transportou US$ 1,35 bilhão. Nos EUA, há apenas um pequeno trecho central concluído e a estimativa é que o trem só entre em operação entre 2030 e 2033, a um custo de US$ 128 bilhões: “[e]m outras palavras, a margem de erro na previsão da data de inauguração de apenas um trecho da ferrovia de alta velocidade da Califórnia equivale ao tempo que a China levou para construir integralmente a linha Pequim-Xangai”.
Engenheiros dominam a política na China e, nos EUA, os advogados. No Brasil, tivemos os dois de forma alternada
Na segunda parte do livro, porém, a coisa muda. Aí o autor passa a analisar os problemas que advêm desse foco total em resolver problemas, mesmo quando se sabe pouco sobre eles. São particularmente impactantes as descrições das políticas de controle de natalidade, de limitar os casais a terem um único filho, e a forma como a China lidou com a pandemia do covid-19. Mesmo que se possa argumentar ter havido foco no interesse coletivo, o livro aponta para uma falta de respeito a direitos humanos básicos que impressiona.
Esse tipo de dicotomia até certo ponto ajuda a pensar as transformações por que passou o Brasil no último século. A partir dos anos 1930, e com mais força em meados do século XX, passamos a dar grande foco à engenharia. Em seu “Politics within the State”( Univ. Pittsburgh Press, 1991), Ben Scheneider observa, por exemplo, que “[d]ois desenvolvimentos complementares das décadas de 1940 e 1950 — a expansão do ensino técnico (engenharia e economia) e o crescimento do aparato estatal de planejamento e produção (que absorveu os novos graduados) — criaram um quadro de novos burocratas”. O caso com que Schneider abre o livro, dos diretores da Vale desistindo das demoradas negociações com investidores japoneses e decidindo avançar com uma fábrica própria de alumínio, é um bom exemplo de como a visão dos engenheiros guiava decisões e ações na economia.
Esse período registrou elevados investimentos em infraestrutura — rodovias, energia elétrica, telecomunicações etc. — e amplo processo de industrialização, com a participação da indústria de transformação no PIB indo de 20% em 1947 para 36% em 1985. De 1931 e 1985, o PIB cresceu 6% ao ano. A Estrada de Ferro Carajás, com 892 km, foi construída em pouco mais de três anos. Projetos da época, como Itaipu e a Ponte Rio-Niteroi, seriam quase impensáveis atualmente. Por outro lado, menos atenção foi dada aos direitos humanos, por exemplo.
Com a redemocratização, o social ganhou ênfase, com mais atenção a temas como o combate à pobreza e a proteção do meio ambiente, por exemplo. Por outro lado, o investimento em infraestrutura despencou, a industrialização retrocedeu — com a indústria de transformação indo para 12% do PIB — e o crescimento do PIB caiu para 2,3% ao ano (1986-2025). A administração pública ficou mais burocrática e em várias áreas a privatização se tornou o único caminho para implementar certas políticas e investimentos. O Brasil de hoje é mais dos advogados do que dos engenheiros, mostram meus colegas Antonio Porto e Isabel Veloso em análise do mesmo livro.
O que é melhor, crescer a renda per capita rapidamente, com elevados investimentos e crescente sofisticação econômica, ou focar no respeito aos direitos individuais e em processos transparentes e regras socialmente aceitas? O livro não responde. Ele se inclina mais para a segunda opção, mas não fica claro se essa inclinação seria a mesma para todos os níveis de renda per capita.
Essa é, porém, uma falsa dicotomia. Há bons exemplos de países, na Europa e na Ásia, que conciliaram as duas coisas. Há bons projetos de trem-bala na França e no Japão, por exemplo. Por aqui também podemos ir para uma combinação mais equilibrada, com mais ênfase na engenharia, em resolver nossos problemas, e menos em intermináveis e inseguros procedimentos, sem que isso signifique sacrificar direitos básicos.
Armando Castelar Pinheiro, professor da FGV Direito Rio e do Instituto de Economia da UFRJ, é PhD em economia pela Universidade da Califórnia, Berkeley.
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