País está prestes a perder posto de maior exportador agrícola do mundo para o Brasil
Por Susannah Savage e Michael Pooler — Valor/Financial Times – 22/07/2026
Desde a época em que o pai de Corey Goodhue cultivava suas terras em Carlisle, no Estado de Iowa, há meio século, quase tudo aumentou de tamanho. A fazenda agora se estende por 1.200 hectares. O pneu traseiro de um de seus tratores modernos tem cerca de 2,6 metros de altura, superando com folga os dois tratores John Deere 4020 que seu pai comprou em 1967. Mas as margens de lucro estão desaparecendo, à medida que as tensões comerciais e os preços baixos deixam sua marca no Meio-Oeste e no status dos Estados Unidos como superpotência agrícola.
No ano passado, a fazenda de Goodhue registrou a melhor safra de soja de sua história e, ainda assim, perdeu dinheiro com ela. Neste ano, se a produtividade corresponder às expectativas e nenhum equipamento caro quebrar, a fazenda deverá gerar um lucro operacional de US$ 60 mil, ante de despesas superiores a US$ 2 milhões.
“Não está exatamente maravilhoso no momento”, diz ele, sorrindo. “Eu me pergunto… será que é viável continuarmos?”
Goodhue está longe de ser um caso isolado. A American Farm Bureau Federation projeta que os agricultores americanos terão dificuldades no próximo ano para produzir as culturas básicas que transformaram os EUA em uma potência agrícola, com prejuízos de US$ 138 por acre (0,4 hectare) na soja, US$ 167 no milho, US$ 145 no trigo e US$ 406 no algodão.

Após mais de um século, os Estados Unidos estão prestes a perder o posto de maior exportador agrícola do mundo.
No ano passado, o país exportou US$ 171 bilhões em produtos agropecuários, segundo o Departamento de Agricultura, apenas US$ 2 bilhões a mais do que o Brasil, cujo total de exportações chegou a US$ 169 bilhões. (ver gráfico) Muitos analistas atribuem parte desse avanço brasileiro às distorções no comércio internacional provocadas pelas tarifas impostas pelo presidente Donald Trump.
Com as exportações americanas em queda e as brasileiras em alta (elas cresceram 6% no primeiro semestre, atingindo o recorde de US$ 87 bilhões), 2026 poderá entrar para a história como o ano em que os EUA perderam sua supremacia agrícola no comércio mundial.
O Brasil já é o maior produtor mundial de soja, carnes bovina e de frango e ultrapassou os EUA como principal exportador de algodão, em parte porque a China passou a substituir compras de produtos americanos por brasileiros.
Essa transferência de poder não está só redesenhando o setor agropecuário nos dois países, com mudanças nas cadeias de suprimento e nos padrões de investimento. Ela também tem repercussões sociais e políticas muito mais amplas.
Os EUA continuam capazes de produzir safras extraordinárias, mas cada vez mais em propriedades de grande porte, com margens de lucro enormes e uma dependência crescente de apoio governamental. No Brasil, a expansão da agricultura deu origem a cidades em rápido crescimento e expôs gargalos na infraestrutura, ao mesmo tempo em que intensificou as preocupações ambientais.
Em breve os americanos talvez tenham que se acostumar com a condição de vice-líder mundial. “Já não somos o principal fornecedor mundial de soja; somos o fornecedor de última instância”, diz Goodhue. “Os clientes recorrem aos EUA quando o Brasil fica sem produto ou enfrenta algum problema… e não mais o contrário.”
O fator China
Ao longo do século XX, os EUA transformaram suas terras férteis, suas fazendas mecanizadas e sua densa rede de silos, ferrovias, hidrovias e portos em um poderoso instrumento de domínio do comércio agrícola mundial.
O sistema permitia ao país produzir muito mais grãos do que era capaz de consumir e escoar o excedente ao exterior a baixo custo. A China tornou-se cliente e fez esse modelo prosperar. À medida que sua população enriqueceu e passou a consumir mais carne, a indústria pecuária chinesa passou a demandar grandes quantidades de farelo de soja para ração animal.
Os agricultores americanos ampliaram o plantio de soja e investiram em máquinas, armazenagem e terminais de exportação, apostando que as compras chinesas continuariam a crescer.
Essa relação, porém, foi rompida em 2018, quando Trump impôs tarifas sobre centenas de bilhões de dólares em produtos chineses. Pequim retaliou taxando produtos agrícolas cultivados em Estados que haviam contribuído para a eleição de Trump, e as compras de soja americana despencaram.
“Nossos acordos comerciais estão sendo alterados por capricho, e todo o trabalho árduo dedicado à construção dessas relações, à negociação de boa-fé e à busca de soluções para os problemas, pode ser anulado da noite para o dia”, diz Aaron Lehman, presidente do Sindicato dos Agricultores de Iowa.
As fazendas, no entanto, não tinham como simplesmente parar a produção. As terras já haviam sido arrendadas ou financiadas, as parcelas das máquinas continuavam vencendo e sementes e fertilizantes já tinham sido comprados. Em resposta, o governo Trump distribuiu cerca de US$ 23 bilhões em subsídios em 2018 e 2019.
“É uma questão de oferta e demanda, e distribuir dinheiro não resolve isso”, diz Goodhue. “O que queremos não é receber subsídios diretamente; queremos vender nossa produção”, acrescenta.
Em vez disso, a China comprou mais soja do Brasil.
O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) projetava que o Brasil ultrapassaria os americanos em participação no mercado mundial de soja, mas de forma gradual. “E aí houve aquela guerra comercial de 2018 e foi simplesmente como uma explosão”, diz Joseph Glauber, ex-economista-chefe do USDA. “Em 2020, já tinham uma participação no mercado mundial maior do que a que projetávamos que teriam em 2025. É espantoso. É isso que essas guerras comerciais fazem.”
Na época em que Trump voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, o Brasil era o fornecedor da maior parte das compras de soja da China. As relações, a capacidade de processamento e as rotas comerciais desenvolvidas ao longo dos anos tinham se consolidado.
“Cinco anos atrás, perdemos alguns consumidores, nossos consumidores no exterior”, diz Lehman, do Iowa Farmers Union, organização representativa dos agricultores do Estado. “Eles não voltaram a ser nossos clientes.”
Muitos se queixam de que o segundo governo Trump trouxe uma nova rodada de tarifas e incertezas comerciais. Para os produtores, cujas decisões de plantio são tomadas meses antes da colheita e da venda da safra, essas mudanças rápidas tornaram ainda mais difícil um cálculo que já era complicado.
O modelo de mais de uma safra no ano ajuda a diluir os custos fixos e melhora margens”
— Raphael Bulascoschi
A resposta do governo é que ele reduziu um déficit no comércio agrícola herdado da gestão do ex-presidente Joe Biden por meio de medidas como créditos de exportação e missões comerciais.
“Longe de perder sua posição, os EUA estão conseguindo um recorde de US$ 174 bilhões em exportações agrícolas”, afirma o USDA em um comunicado referente à sua previsão para o período de 12 meses que vai até o fim de setembro deste ano. “Este governo trabalha de forma agressiva para expandir os mercados existentes, desenvolver novos mercados e conectar nossos esforçados produtores a compradores no exterior… garantindo que nossos esforçados produtores nunca dependam de apenas um único comprador.”
Os EUA continuam a ser o maior exportador de milho do mundo, mas sua participação no comércio mundial do cereal caiu ao longo do tempo, de 68% há duas décadas para cerca de 30% hoje.
O Texas brasileiro
A força do setor agrícola do Brasil não é apenas uma consequência da política comercial dos EUA. Dependente de importações para alimentar sua população até os anos 1970, o país desenvolveu uma indústria que fornece alimentos para grande parte do mundo.
Hoje sua posição de líder na exportação de carne bovina e soja soma-se a seu predomínio tradicional nas exportações de café, açúcar e suco de laranja. Na avaliação de Raphael Bulascoschi, analista da StoneX, o principal motivo para o Brasil estar no rumo de superar os EUA como o maior exportador agrícola do mundo é que grande parte de seu território é capaz de colher duas safras no mesmo ano.
“Esse modelo de mais de uma safra durante o ano ajuda a diluir os custos fixos e normalmente melhora as margens da produção agrícola”, explica ele.
No Estado de Mato Grosso, onde o setor da soja explodiu, mais da metade das terras usadas para cultivo têm uma segunda safra de milho ou algodão. O Estado é chamado às vezes de “Texas brasileiro” pelos seus enormes rebanhos bovinos, grandes áreas de cultivo e seu espírito de fronteira.
No município de Sorriso (MT), as plantações se estendem dos dois lados da rodovia principal, interrompidas por silos e processadoras operadas por empresas internacionais de comércio de commodities, entre elas a chinesa Cofco.
A produção nacional de cereais, leguminosas e oleaginosas mais do que dobrou em 13 anos e chegou a 346,1 milhões de toneladas em 2025. A expansão em direção ao Cerrado foi um feito da agronomia moderna, que envolveu o tratamento de solos pobres em nutrientes e o desenvolvimento de melhorias genéticas para adaptar as plantas ao clima. Mesmo assim, os agricultores brasileiros não estão imunes às crises geopolíticas que têm prejudicado a agricultura em todo o mundo.
O país importa cerca de 85% da demanda de fertilizantes, e os preços dos insumos subiram com a guerra. Os juros altos e a queda nos preços das safras já tinham aumentado a pressão financeira antes mesmo do início do conflito.
Pesquisadores da Universidade Purdue, em Indiana, estimam que os lucros com a soja em Mato Grosso despencaram para seu menor nível em duas décadas, de US$ 10 por acre (ou cerca de US$ 25 por hectare) na última safra. “O momento atual não é muito animador”, diz Fernando Pozzobon, cuja família tem propriedade de 3 mil hectares em Mato Grosso, com lavouras, pecuária e processamento.
Mas o Brasil e os EUA entraram nesse choque em situações diferentes. O Brasil tinha a maior fatia do mercado chinês de soja. Já os americanos tinham perdido esse mercado – o que transformou o que poderia parecer apenas mais uma fase ruim no ciclo das commodities em uma crise que ameaça sua sobrevivência.
“Não estamos realmente cultivando alimentos”
A perda da demanda externa tornou os agricultores americanos cada vez mais dependentes de compradores criados pelas políticas governamentais dos EUA.
Wendy Johnson tem plantações no norte de Iowa, perto de uma usina de etanol. O milho é uma das poucas culturas que geram retornos confiáveis aos agricultores, porque a usina atende a um mercado garantido. “É só isso que realmente está nos salvando agora”, disse ela ao FT em fevereiro.
A indústria do etanol consome cerca de 40% do milho dos EUA e é beneficiada por incentivos tributários e regras federais que exigem a mistura de biocombustíveis ao combustível no país. “Estamos realmente plantando para o governo, e de um jeito que não é realmente muito independente”, afirmou.
Em março, em meio à alta das cotações do petróleo após a eclosão da guerra contra o Irã, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, na sigla em inglês) estabeleceu as maiores exigências gerais de mistura de biocombustíveis na história do programa.
Isenções emergenciais emitidas após os problemas no Oriente Médio abrandaram as regras para a venda de E15, uma mistura de gasolina com 15% de etanol. “Não estamos realmente plantando alimentos; estamos plantando etanol”, disse Wendy Johnson.
Mais escala, menos agricultores
Quando uma fazenda americana desaparece, seus campos raramente deixam de produzir. Normalmente, são incorporados por alguém maior. A escala permite que distribuam por extensões maiores de terras o custo de maquinário, mão de obra e de uma tecnologia cada vez mais cara.
Isso, contudo, também vem tirando o lugar de um modo de vida mais antigo. Perto da fazenda de Johnson, por exemplo, há cultivo, mas algumas das casas e celeiros que antes ficavam no centro deles desapareceram ou estão vazios.
Com menos fazendas, menos famílias gastam dinheiro em lojas locais, mandam os filhos para escolas e sustentam igrejas, concessionárias de maquinário e outros negócios. Também há menos agricultores com voz no governo local. “Nós meio que perdemos nossa voz no condado”, diz Bob Stewart, da quinta geração de uma família de fazendeiros, em Illinois, “porque há bem menos agricultores.” (Tradução: Mario Zamarian, Sabino Ahumada e Liliana Carmona)
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