Veja também quais as carreiras em ascensão e formas de turbiná-las
Folha – 18.jun.2026
A automação de tarefas e serviços já é uma realidade nas grandes (e nas médias e pequenas) empresas. Mas isso não quer dizer que os empregos estão acabando. O mundo do trabalho está, na verdade, se transformando. E exige profissionais com novas habilidades e capacidades.
IA muda o escritório e motiva a reinvenção de diversos profissionais
Com a inteligência artificial avançando sobre tarefas antes exclusivamente humanas, a grande questão do mercado de trabalho já não é se a mudança vai acontecer, mas como se preparar para ela
Que a inteligência artificial já está mexendo com a rotina de profissionais de setores como advocacia, administração, finanças e engenharia todo mundo já sabe. A dúvida que paira sobre o ambiente do trabalho é como conviver com essa nova tecnologia de uma maneira que as competências humanas continuem sendo protagonistas.
Para a futurista e pesquisadora Ligia Zotini, é um desafio que deve ser encarado. Segundo ela, as organizações vivem velocidades diferentes de transformação. Empresas mais preparadas para incorporar novas tecnologias costumam ter também mais recursos e disposição para investir no desenvolvimento humano necessário para lidar com elas.
Os impactos mais imediatos têm sido sentidos, pelo menos até agora, por profissionais cujo trabalho ocorre principalmente no ambiente digital. “Todas as profissões mais ligadas à tecnologia sofreram mudanças frontais nos últimos três anos”, diz ela. Já as atividades que estão mais fincadas no mundo físico enfrentam um ritmo diferente de transformação.
“As profissões do fazer, em que parte do trabalho tem a ver com mover pessoas, mover matéria, mover objetos, mover animais ou mover alimentos, seguem em um ritmo mais lento. A disrupção vem naquilo que é possível digitalizar com mais rapidez.”
Mas essa avaliação não quer dizer que essas áreas estejam protegidas das influências das IAs, principalmente nos escritórios. Para Ligia, “se o núcleo do negócio não está sofrendo disrupção neste momento, o profissional tem de aproveitar o tempo para se planejar e construir repertório para quando isso acontecer”.
O direito é um dos exemplos mais evidentes dessa transformação. Ferramentas de IA já são capazes de pesquisar jurisprudência, localizar referências e produzir documentos em segundos, tarefas que tradicionalmente ficavam sob a responsabilidade de estagiários e profissionais em início de carreira.
Para Ligia, essa mudança de cenário não elimina a necessidade dos cargos juniores. “Se a gente substituir 100% dos jovens e tirá-los do ambiente de trabalho, onde será formada a próxima geração? Ninguém está pensando nisso agora. Eu presumo que vamos continuar precisando deles.”
Ela afirma que boa parte da formação profissional continua acontecendo na prática. “Por mais que as faculdades se esforcem para reproduzir o mundo real, é no mundo real que o aprendizado acontece.”
Além disso, a supervisão humana permanece indispensável. A pesquisadora cita casos recentes nos Estados Unidos em que advogados foram punidos por utilizar informações inexistentes produzidas por sistemas de IA.
“Temos casos recentes de juízes que multaram e afastaram advogados porque usaram referências, repertórios e jurisprudências que não existiam. Nem o estagiário, nem o advogado, ninguém tinha revisado o material.”
Por isso, ela defende a manutenção do chamado “humano no circuito”, um responsável por verificar as informações e validar os resultados antes que eles sejam utilizados na prática.
PSICOLOGIA
No caso dos psicólogos, a realidade é um pouco diferente. Apesar do crescimento dos chamados terapeutas virtuais e assistentes conversacionais, Ligia acredita que a inteligência artificial está longe de substituir os profissionais da área.
“Ela pode até tentar nos ajudar, mas, quando eu preciso interpretar sentimentos, dores, emoções e minha psique, eu vou procurar um profissional reconhecido dentro do meu ecossistema.”
Segundo ela, os modelos atuais simulam empatia, mas não possuem consciência nem compreensão genuína da experiência humana. “Ela está bem longe de substituir um psicólogo. O que eu vejo é que ela funciona muito mais como um espelho.”
A adaptação às IAs parece mais natural para administradores, engenheiros e gestores, acostumados a trabalhar com dados, processos e ferramentas digitais. Ainda assim, a principal barreira, segundo Ligia, não é tecnológica.
“São pessoas altamente inteligentes. A armadilha é a falta de tempo para se aprofundar nos assuntos.” Para ela, muitos líderes passaram anos delegando tarefas operacionais e agora encontram dificuldades para desenvolver uma relação prática com as novas ferramentas.
“A IA requer treino, processo, experimentação, pôr a mão na máquina. Não tem outra forma de aprender.”
Essa experiência direta, afirma, será cada vez mais importante. Embora a chamada engenharia de prompts esteja ganhando espaço, a pesquisadora aponta que a competência central não é apenas saber formular comandos.
“A maioria hoje usa IA para corrigir texto, escrever melhor, fazer um post para o LinkedIn, mandar email para o chefe ou para o cliente. É assim que as pessoas estão usando no dia a dia, como assistentes de comunicação.”
O domínio mais sofisticado dessas ferramentas exige tempo e aprendizado contínuo. E esse é justamente um dos obstáculos enfrentados por muitos profissionais experientes. “Pensam no que se pode aprender agora, neste momento. Porque as pessoas não têm tempo.”
Para os profissionais mais experientes que começam a sentir a pressão das mudanças, a recomendação é abandonar a postura de observador e começar a experimentar. “Você não aprende a usar IA se não usar IA.”
Ela sugere transformar o próprio conhecimento em um “patrimônio digital”. “Transporte o que você sabe para uma IA segura. Faça a construção desse segundo cérebro.”
Na visão de Ligia, um dos cenários possíveis para a próxima década é que as empresas passem a contratar não apenas pessoas, mas também versões digitais treinadas por elas. “As empresas poderão contratar você e o seu gêmeo digital. A sua IA vai carregar o repertório que você construiu ao longo da vida.”
*conteúdo patrocinado produzido pelo Estúdio Folha
COMO USAR A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL A SEU FAVOR – 18/06/2026 – Especial Educação – Estúdio Folha
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