IA pode adicionar R$ 1 tri ao PIB até 2030, diz estudo da OpenAI; veja em quais setores

O levantamento encomendado pela dona do ChatGPT e realizado pelo Reglab indicou níveis diferentes de impacto da tecnologia para trabalhadores e para sistemas e maquinário das empresas

Por Lucas Agrela – Estadão – 13/08/2026

Um estudo encomendado pela OpenAI (dona do ChatGPT) para o centro de pesquisa Reglab apontou que o uso da inteligência artificial (IA) no Brasil pode adicionar R$ 986,7 bilhões à economia nacional até 2030.

O estudo avaliou o impacto tanto de trabalhadores usando recursos de IA para aumentar a produtividade quanto o uso da tecnologia em máquinas e processos. Os resultados apontam que o maior ganho é na combinação de humanos e IA, responsável por 65%, ante 35% do segundo caso.

Os setores que a pesquisa estima que terão os maiores ganhos de produtividade são a indústria de transformação (R$ 264,2 bilhões), o setor de serviços (R$ 165,4 bilhões) e o comércio (R$ 131,2 bilhões).

Apesar de ter sido financiado pela OpenAI, o estudo abrange o impacto de todas as plataformas de IA do mercado, incluindo concorrentes como Claude e Gemini assim como outras soluções voltadas ao segmento corporativo.

Segundo os autores do estudo Thaís Palanca, pesquisadora de economia do Reglab, e Pedro Henrique Ramos, diretor executivo do Reglab, o crescimento do impacto da adoção da IA na economia brasileira se dará em uma tendência chamada S de Gompertz. Na prática, isso significa que a adoção começa de forma mais lenta, passa por uma subida forte (um ponto de inflexão) e depois se estabiliza. É isso que o levantamento estima que acontecerá com a IA no Brasil.

A previsão dos pesquisadores se dá com base no cenário atual da regulação da IA no País. Ou seja, se forem aprovadas regras que dificultam a adoção da IA nas empresas, a estimativa pode ser diferente de hoje até 2030.

“Nós não vamos sentir um impacto de forma tão bruta, como, por exemplo, seria um impacto de uma crise econômica aguda. Será um impacto gradual, máquina por máquina, trabalhador por trabalhador. Você vai percebendo de forma gradual o aumento grande que vai receber nessas pequenas incrementalidades”, afirma Ramos.

Sobre o impacto de humanos usando IA para aumentar a produtividade, os maiores impactos estimados pelo estudo serão na administração pública, na informática e comunicação e nas atividades financeiras. Já os maiores impactos de capital (maquinário e processos) serão em setores onde o impacto humano com a IA será baixo, como é o caso de atividades imobiliárias, agropecuária e construção civil (veja o gráfico abaixo).

Falta de preparo é problema para empresas brasileiras na era da IA

Durante o festival Rio Innovation Week, realizado neste mês, Flávio Loução, sócio de IA e dados na Deloitte, apresentou um levantamento da empresa com mais de 3 mil executivos em mais de 20 países que apontou a governança de dados, os sistemas corporativos e o letramento das pessoas em IA como os gargalos mais importantes do que a tecnologia em si para as empresas inovarem com IA.

Segundo ele, o estudo apontou que 42% das empresas brasileiras dizem estar usando IA, ante 34% da média global. No entanto, no quesito extrair valor da IA para os negócios, a média brasileira ficou em 23% ante 27% da global. “Nosso apetite é maior do que a nossa preparação”, diz Loução.

No mesmo evento, Marcelo Billi, líder de inovação da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), apresentou um estudo feito com empresas brasileiras sobre o uso de IA que indicou que o nível de adoção da tecnologia está avançando, mas ainda está longe da maturidade.

Segundo o levantamento, o índice médio de maturidade de IA nas empresas brasileiras, numa escala de 0 a 5, ficou em 2,7 pontos, indicando que o mercado superou a fase exploratória e está na etapa de estabilização. Billi diz que hoje 39% das organizações ainda estão nos níveis iniciais de adoção da tecnologia, 40% já alcançaram a fase de estabilização e apenas 13% podem ser consideradas avançadas.

IA pode adicionar R$ 1 tri ao PIB até 2030, diz estudo da OpenAI; veja em quais setores – Estadão 

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Médicos criados por IA promovem terapias falsas e já superam 70 milhões de visualizações no YouTube

Com identidades e currículos fictícios, personagens criados por inteligência artificial promovem e vendem soluções sem comprovação científica; YouTube diz que conteúdo está sujeito às regras contra desinformação médica, mas muitos dos canais identificados seguem no ar

Por Victória Ribeiro – Estadão – 11/08/2026

Os “gurus de IA”: a rede de perfis falsos que vende curas milagrosas nas redes sociais

“Saúde prática e honesta para quem tem mais de 60 anos.” É assim que o cardiologista e geriatra Roberto Fontes se apresenta na descrição de seu canal no YouTube. Com mais de 35 anos de experiência, ele acumula 95 mil seguidores oferecendo orientações “baseadas em evidências” sobre prevenção de doenças, controle da pressão e longevidade. Tudo isso, porém, não passa de ficção. Isso porque Fontes — um homem grisalho, sempre de terno e jaleco bem passados — é um personagem criado por inteligência artificial.

Segundo levantamento da CTRL+Z, organização que monitora o impacto das plataformas digitais e é dirigida por Daniela Silva, ex-head de Políticas Públicas do WhatsApp no Brasil, há ao menos 29 perfis semelhantes ao de Fontes no YouTube. Embora grande parte tenha sido criada em 2026, as contas já somam mais de 70 milhões de visualizações, sendo 10 milhões apenas em junho.

Levantamento da CTRL+Z identificou ao menos 29 perfis de falsos médicos de IA operando no YouTube Foto: Reprodução/Youtube

O roteiro é semelhante: os médicos de IA aparecem em consultórios, usam jaleco, exibem currículos fictícios, falam de forma calma e contam histórias de supostos pacientes – como se décadas de experiência lhes permitissem desvendar grandes enigmas diagnósticos.

Além de atrair audiência, muitos desses perfis também são usados para promover a venda de “infoprodutos”, como e-books. É o caso da Dra. Sofia Ferreira, apresentada como “especialista” em cardiologia pela Universidade de Lisboa. Por R$ 38, a “médica” oferece um guia com receitas naturais e listas de compras que prometem “reviver o coração, defender as artérias e repará-las enquanto você dorme”.

Apesar de muitos desses perfis serem personagens inventados, criados do zero, a IA também pode ser usada para “clonar” a imagem de pessoas reais. Foi esse o problema enfrentado pelo médico otorrinolaringologista Hélio Brasileiro: após a divulgação do levantamento da CTRL+Z e de reportagem sobre o tema na BBC News Brasil, ele descobriu que ao menos cinco canais no YouTube usavam sua imagem, sem autorização, para divulgar “fórmulas” de saúde. O caso levou o médico a registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil de São Paulo.

Procurado pelo Pulsa, o Google, responsável pelo YouTube, afirmou que conteúdos produzidos com inteligência artificial “devem seguir as Diretrizes da Comunidade, incluindo as políticas de desinformação médica” e que tomou “medidas cabíveis com base nos Termos de Serviço”.

A reportagem também procurou o Ministério da Saúde e tentou ouvir os responsáveis pelos perfis gerados por IA. Como essas contas costumam usar identidades fictícias e outros mecanismos que dificultam a identificação de seus criadores, não foi possível localizá-los. Por isso, foram enviadas mensagens aos próprios perfis, como o da Dra. Sofia Ferreira, na tentativa de obter um posicionamento. Os retornos recebidos podem ser conferidos, na íntegra, ao final do texto.

‘Perfis exploram medos e jogam com a confiança’

As imagens ultrarrealistas são apenas uma das artimanhas utilizadas. Pequenos detalhes são cuidadosamente construídos — a começar pelo tom de alarme. As contas apostam em vídeos com títulos como “nunca ignore a coceira nessas cinco áreas do corpo, pode ser câncer” ou “seu rosto fica inchado de manhã? Pode ser grave”.

Outro recurso comum é apresentar soluções simples — e sem respaldo científico — para problemas complexos, como diabetes, obesidade e demências. As promessas costumam vir acompanhadas de frases que sugerem a existência de uma verdade escondida, como “aquilo que nenhum médico te contou até hoje”.

Com quase 95 mil inscritos em seu canal, o falso médico de IA Roberto Fontes diz ser cardiologista e geriatra Foto: Reprodução/Youtube

Em um desses vídeos, a “médica” Sofia caminha por um consultório e dirige a conversa a pessoas com diabetes. “Toda manhã você acorda, fura o dedo e espera o número aparecer. E é sempre a mesma decepção. Você se alimenta direito, faz tudo o que o médico manda, e o número não desce. Eu vou dizer o que esse médico não te diz: seu pâncreas não desistiu”, diz a personagem antes de recomendar o uso de feno-grego — uma erva originária da Ásia e do Mediterrâneo — como substituto da insulina.

Outras publicações recomendam, por exemplo, o uso de vinagre de maçã para controlar a glicemia e o consumo diário de azeite para tratar gordura no fígado. Há também orientações que desencorajam o uso de remédios já consagrados para hipertensão e colesterol.

“Esses perfis simulam a autoridade de profissionais de saúde para explorar medos e jogar com a confiança das pessoas”, observa o ortopedista Carlos Eduardo Viterbo, divulgador científico da medicina baseada em evidências. “Eles escolhem doenças de grande prevalência e usam o alarmismo para capturar a atenção. Um dos principais riscos é colocar em xeque tratamentos sérios.”

Não se trata de condenar o uso de chás, ervas e determinados alimentos. A questão está em atribuir a eles efeitos terapêuticos sem comprovação ou apresentá-los como substitutos de métodos realmente eficazes.

Além disso, não é correto tratá-los como “inofensivos”. Dependendo da dose, da frequência de uso e da combinação com outras substâncias, eles podem reduzir o efeito de medicamentos e até provocar reações adversas, como lesões no fígado.

“Cada pessoa tem características, histórico e necessidades diferentes. A decisão médica leva tudo isso em conta — algo que um vídeo gerado por IA é incapaz de fazer”, observa a cardiologista Maria Emília Teixeira, da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Falsos médicos de IA afirmam ter diversas especialidades, como nefrologia, cardiologia e geriatria Foto: Reprodução/Youtube

Nos comentários, porém, fica claro que as orientações ultrapassam as telas. Em um deles, uma mulher relata ter interrompido um medicamento prescrito pela ginecologista para passar a consumir óleo de abóbora no tratamento da incontinência urinária.

“O que a gente percebe é que esse tipo de conteúdo atinge as pessoas mais vulneráveis: aquelas com pouca familiaridade com tecnologia, mais velhas ou que estão enfrentando algum problema de saúde”, observa Ana Carolina Monari, do Laboratório de Inteligência Artificial (Recod.ai) da Unicamp. “Também pode atingir pessoas com dificuldade de acesso ao sistema de saúde, como quem está há meses esperando por uma consulta.”

Médicos criados por IA são ‘a nova face da desinformação’

Para a pesquisadora Nicole Sanchotene, do NetLab da UFRJ, os perfis de médicos de IA representam uma “nova face da desinformação”. “Antes, para produzir esse tipo de conteúdo (ultrarrealista), era necessário ter conhecimentos técnicos. Hoje, qualquer pessoa pode fazer isso em questão de minutos.”

Nem mesmo o médico Drauzio Varella e a atriz Fernanda Montenegro escaparam. Em 2025, Varella teve seu rosto reproduzido por IA para promover um suplemento supostamente indicado para artrite e hérnia de disco. Já em julho deste ano, Montenegro foi às redes sociais para protestar contra uma propaganda que usava sua imagem para divulgar um suposto remédio capaz de curar “até Alzheimer”.

Os “gurus de IA”, revelados pelo Pulsa, também fazem parte dessa nova era. São perfis que exploram estereótipos de “avós” chinesas, indígenas, monges budistas e até freiras para divulgar receitas sem comprovação científica. No Brasil, essas contas costumam vender e-books e “remédios naturais” personalizados. Já no exterior, direcionam os seguidores para a compra de cosméticos e suplementos.

“Isso mostra que a desinformação se tornou um mercado extremamente lucrativo”, destaca Nicole.

Lógica de negócio vai além da venda de produtos

Por trás desses perfis existe uma lógica de negócio que vai além da venda de produtos. Segundo a pesquisadora do NetLab, alguns deles podem estar associados a práticas fraudulentas, como a não entrega dos itens comercializados.

Durante a apuração dos “gurus de IA”, a reportagem pagou R$ 29 pelo e-book Farmácia da Roça, vendido pela personagem Dona Odete, uma suposta senhora que vive no campo. O material, que reúne 100 receitas sem comprovação científica — assim como as divulgadas em seu perfil no Instagram —, foi enviado logo após a confirmação do pagamento. O mesmo, porém, não aconteceu na tentativa de comprar um livro digital atribuído a outra personagem, chamada Antônia Folha.

“São muitos perfis e não dá para afirmar como cada um opera”, diz Nicole. “E mesmo quando a compra é concluída, não se pode descartar o uso indevido de dados pessoais ou tentativas de obter informações bancárias.”

Os produtos, porém, são apenas uma das fontes de receita. Essas páginas também lucram com a atenção dos usuários: quanto mais um perfil acumula visualizações, seguidores e comentários, maior é seu valor comercial. Essa audiência pode ser convertida em dinheiro por meio de parcerias e programas de remuneração oferecidos pelas próprias plataformas.

“É um negócio barato e rápido de fazer”, observa Ana Carolina. “Quem está por trás dessas contas gasta pouco para produzir e consegue colocar grande quantidade de conteúdo em circulação”. A rede de falsos médicos dá uma dimensão: juntas, as contas publicam, em média, 10,7 vídeos por dia e alcançam 266.880 visualizações diárias.

Outro fator que ajuda a explicar o crescimento é a lógica dos algoritmos das plataformas. Eles analisam o comportamento do usuário e, quanto mais ele consome um assunto, mais conteúdos similares são oferecidos. Durante a apuração do Pulsa sobre os “médicos” de IA no YouTube, por exemplo, a plataforma passou a sugerir uma sequência de vídeos de outros médicos “sintéticos” com conteúdos semelhantes.

“Ou seja: por meio dos algoritmos, as próprias plataformas entregam o conteúdo para as vítimas ideais”, diz Nicole.

Gargalos no combate aos perfis

Uma das principais respostas das plataformas ao avanço da IA como ferramenta de desinformação é a rotulagem do conteúdo. Nesse sistema, os próprios criadores informam quando um vídeo foi produzido com a tecnologia. A partir dessa declaração, a plataforma exibe uma etiqueta abaixo da publicação com a informação.

Mas pesquisadores afirmam que essa medida não é suficiente. Muitos criadores não divulgam essa informação. E, mesmo quando há um aviso, muita gente ainda tem dificuldade em distinguir o que é verdadeiro ou não, como mostram comentários nos “posts”.

“Não basta colocar uma etiqueta. Essas contas imitam pessoas reais, reproduzem a linguagem de médicos, simulam histórias de vida e exploram justamente a sensação de autenticidade”, opina Ana Carolina.

Além das medidas de moderação, o YouTube, assim como outras plataformas, afirma que vem ampliando a transparência por meio de relatórios periódicos com dados sobre a aplicação de suas políticas, como remoção de vídeos e canais que espalham desinformação.

Mas, na avaliação dos pesquisadores, essa medida também falha porque a classificação inicial do conteúdo é feita justamente por quem o produz. “Se eu estou veiculando um golpe, nunca vou dizer que aquilo é um golpe”, resume Nicole.

A maior parte dos vídeos protagonizados por médicos de IA, por exemplo, foi classificada como “conteúdo educativo”. Isso significa que se o sistema não identifica que aquele material dissemina desinformação, ele pode continuar circulando como vídeo educacional. “Justamente por isso a literatura vem chamando essa transparência de ‘teatro da transparência’”, diz a pesquisadora do NetLab.

Dessa forma, medidas como remoção de conteúdo enganoso muitas vezes dependem de denúncias de espectadores que percebem as fraudes.

Outro desafio é identificar quem está por trás dessas operações. Com nomes falsos, e-mails temporários e contas que mudam constantemente, rastrear os responsáveis não é uma tarefa simples. “Esse é um problema que as plataformas se eximem de resolver”, avalia Nicole.

Para ela, a dificuldade não é apenas operacional. Como as empresas lucram com a atenção, conteúdos capazes de gerar engajamento, mesmo quando enganosos, podem se tornar rentáveis — e esse é um ponto que deveria mudar.

“Se não houver uma mudança sistêmica na lógica que premia esse tipo de conteúdo com engajamento e monetização, outros criadores seguirão se aproveitando dessa lógica”, avalia a diretora de programas da CTRL+Z, Juliana Dias.

O que diz o YouTube?

Questionado sobre os “médicos” criados por IA, o Google, responsável pelo YouTube, afirmou que “todo conteúdo da plataforma, incluindo aquele gerado com ferramentas de IA, deve seguir as Diretrizes da Comunidade”. Segundo a empresa, isso inclui as políticas de desinformação médica, que proíbem informações falsas sobre prevenção, diagnóstico e tratamento capazes de causar danos graves no mundo real.

O Google informou ainda que o YouTube conta com rótulos para identificar conteúdos produzidos com IA e que, após analisar o material compartilhado pela reportagem, adotou as medidas cabíveis com base nos Termos de Serviço, nas regras do Programa de Parcerias e nas Diretrizes da Comunidade.

Desde a conclusão do levantamento da CTRL+Z, alguns vídeos foram removidos, entre eles os publicados pelo perfil do “Dr. Roberto Fontes”. Mais de um mês depois, porém, muitos dos canais identificados seguem no ar. No mesmo período, o conjunto desses perfis registrou um aumento de mais de 30% nas visualizações — o equivalente a cerca de 9 milhões de novos cliques.

Como o YouTube não permite o envio de mensagens diretas, o Pulsa tentou contato com os responsáveis pelos canais “Dra. Alina Vitta”, “Dra. Sofia Ferreira”, “Dra. Serena Vidal” e “Dr. André Tavares” por meio do campo dedicado aos comentários. A reportagem questionou a divulgação de receitas sem evidências científicas e a venda de “infoprodutos” — práticas que, segundo Maíra Fernandes, professora da FGV Direito Rio, podem configurar crimes previstos no Código Penal, como falsa identidade, estelionato e charlatanismo. Até o momento, não houve resposta.

Procurado, o Ministério da Saúde afirmou que tem conhecimento da circulação desse tipo de conteúdo e declarou monitorar informações falsas sobre saúde em parceria com a Advocacia-Geral da União (AGU).

“Em março deste ano, o Ministério encaminhou denúncia à Polícia Federal contra perfis que espalhavam conteúdos antivacina, pelos crimes de charlatanismo, estelionato e infração de medida sanitária preventiva”, informou a pasta.

No dia 22 de julho, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também se pronunciou sobre o tema, alertando para o uso de IAs que simulam médicos e celebridades.

A agência orienta checar as credenciais dos profissionais de saúde no site do Conselho Federal de Medicina antes de seguir qualquer recomendação divulgada em redes sociais. Essa busca pelos registros profissionais pode ser feita clicando aqui.

Médicos criados por IA promovem terapias falsas e já superam 70 milhões de visualizações no YouTube – Estadão 

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Por que empresas de IA estão destruindo milhares de livros antigos ao redor do mundo

Matías Zibell – BBC News Mundo – 10 agosto 2026

Em 30 de abril, Marçal Font recebeu uma encomenda que chamou sua atenção na Livraria Fénix, uma referência no comércio de livros antigos na cidade catalã de Badalona, na Espanha.

“Há 20 anos me dedico a ser livreiro de livros usados, ou seja, já tive milhões de compras estranhas, então isso já não me alarma”, conta à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, o também poeta e professor de Literatura Comparada da Universidade de Barcelona.

A encomenda vinha de uma empresa localizada no Canadá, mas não era a primeira vez que a livraria enviava livros em catalão para o exterior. “Mandamos livros até para o Japão, não é algo incomum; mas o padrão (de compra) era estranho”.

Quando, no início de maio, chegou uma nova série de pedidos, Font decidiu investigar por receio de que se tratasse de uma fraude.

“Não é frequente procurar saber quem compra de nós, mas naquele caso começamos a olhar, principalmente porque eram pedidos em uma janela de uma hora ou 40 minutos. 

Tínhamos três ou quatro e-mails pedindo uma quantidade incomum de livros. E os custos de envio associados eram absurdos.”

Então ele consultou seu amigo Xavier Vinaixa, com quem compartilha, além do amor pelos livros e pelo humanismo, a paixão pela inteligência artificial.

“Ele me ligou e disse: ‘olha, estou recebendo pedidos com padrões estranhos, o mesmo cliente, envio para o exterior e pagando três vezes os custos de envio’. E a primeira coisa em que ele pensou foi que talvez fosse um golpe”, lembra Vinaixa em entrevista à BBC Mundo.

“Foi aí que começamos a seguir a pista e encontramos outras pessoas, com as mesmas preocupações de Marçal, na Alemanha, na Nova Zelândia… E então ficou muito claro para nós”, acrescenta Vinaixa, que é pesquisador de inteligência artificial e diretor técnico da empresa de tecnologia Sorensen.ai.

Se alguém fizer uma busca na internet pelos termos “livros antigos” e “inteligência artificial”, encontrará rapidamente essas “preocupações” às quais Vinaixa se refere.

Em um artigo do jornal britânico The Telegraph intitulado “Barbárie cultural: como as empresas de IA estão destruindo os livros do mundo”, um livreiro de Haarlem, na Holanda, relata a surpresa que sentiu ao receber uma encomenda em massa de livros:

“No comércio de livros antigos é muito raro que as pessoas queiram comprar mais de um livro. Portanto, se alguém chega e diz ‘quero algumas centenas dos seus livros’, isso é muito estranho”, contou o antiquário Pieter de Vries.

O jornal The Guardian citou uma livreira no Estado australiano de Victoria que recebeu um pedido da mesma empresa que comprou de Marçal Font: “Eles fizeram o pedido, pagaram antecipadamente e não questionaram os custos de envio”, explicou Delfina Manor.

Ambos os artigos, assim como aqueles que contaram a história do livreiro catalão, fazem referência à investigação jornalística que revelou o que é conhecido como o “Projeto Panamá”.

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Destruição

Em setembro de 2025, a empresa de IA Anthropic concordou em pagar US$ 1,5 bilhão (R$ 7,2 bi) para encerrar uma ação coletiva movida por autores que alegavam que a companhia havia utilizado suas obras sem permissão para treinar seus modelos de IA.

Quatro meses depois, o jornal Washington Post publicou com exclusividade um documento que fez parte do processo judicial, no qual era mencionada a existência de um plano para digitalizar todas as obras escritas pela humanidade.

“O Projeto Panamá é nosso esforço para escanear de forma destrutiva todos os livros do mundo”, dizia o texto vazado, que mais adiante especificava: “Não queremos que se saiba que estamos trabalhando nisso”.

Maximiliano Firtman, professor argentino e autor de livros sobre programação e inteligência artificial, foi um dos autores que processaram a Anthropic nessa ação coletiva.

Segundo contou à BBC Mundo, o juiz determinou que, se a empresa comprasse o exemplar do livro, poderia utilizá-lo para treinar a IA.

“E então começaram a surgir os relatos de livreiros ao redor do mundo que recebiam pedidos de livros que ninguém procurava, e de algumas empresas que se dedicam a escanear esses livros e fornecer o texto já digitalizado às empresas de inteligência artificial. 

É aí que surge a questão da destruição dos livros.”

Rodrigo Álvarez, jornalista especializado em tecnologia do veículo argentino Todo Noticias (TN), explica que existem dois métodos para digitalizar livros, um dos quais não implica a destruição do exemplar, pois utiliza escâneres planos ou dispositivos em forma de V que digitalizam as páginas sem desmontar a encadernação.

“O procedimento ‘destrutivo’ é basicamente um processo que começa com o corte da lombada para que as folhas fiquem soltas; as páginas já separadas são introduzidas em escâneres industriais de alta velocidade que as digitalizam muito mais rapidamente, de forma automática”, explica.

Uma vez digitalizadas as páginas, o livro já não pode ser montado novamente e seus restos costumam ser enviados para reciclagem.

“As empresas escolhem essa segunda alternativa por uma questão de escala: ela permite digitalizar milhões de exemplares com mais rapidez e a um custo menor. No caso documentado da Anthropic, para o Projeto Panamá foi utilizado esse procedimento”, conclui Álvarez.

Treinamento

Digitalizar livros permite preservar os textos escritos ao longo da história humana, mas o objetivo principal parece obedecer mais ao treinamento da inteligência artificial do que a um espírito de conservação.

“Quando falamos de IA, normalmente subentende-se que estamos falando de um LLM (sigla em inglês para Large Language Model), um grande modelo de linguagem”, esclarece Xavier Vinaixa.

Os LLMs, como, por exemplo, o ChatGPT, são programas de inteligência artificial que aprendem a compreender, resumir, traduzir e gerar texto ou outros conteúdos prevendo a palavra ou o trecho seguinte.

“Todos usamos o teclado preditivo em nossos telefones. Você escreve ‘olá, estou chegando…’ e talvez ele sugira a palavra ‘atrasado’. Como funciona esse teclado preditivo? Com base em estatísticas de textos anteriores que você escreveu. Isso mesmo, mas elevado à milionésima potência, é um LLM”, exemplifica Maximiliano Firtman.

Então, para treinar esses grandes modelos de linguagem na complexa arte de encontrar conexões entre palavras, eles foram inicialmente “alimentados” com toda a informação disponível na internet, como Wikipédia, blogs e fóruns. Quando isso começou a se esgotar, passaram a ser treinados com matérias de jornais e até com legendas de vídeos do YouTube.

“Tudo o que tinham à mão era dado a essa máquina que engole textos e, quando isso acabou, começaram a procurar nos livros impressos que já estavam digitalizados, depois nas bibliotecas e agora começaram a procurar livros estranhos que não são comerciais. E onde eles estão? Em livrarias de livros usados e antiquários”, acrescenta Firtman.

“No caso de Marçal”, diz Xavier Vinaixa, “ele me comentava sobre pedidos que recebia, por exemplo, de obras sobre a história dos embutidos catalães, coisas que certamente ainda não foram usadas para treinamento”.

Dados sem contexto não são dados

A destruição dos livros digitalizados para treinar a IA tem gerado questionamentos e dúvidas em diversos círculos.

Miguel Ángel Ortega, presidente da Associação Profissional do Livro e do Colecionismo Antigos da Espanha, diz que se deveria distinguir se se trata de exemplares de grandes tiragens ou de tiragens limitadas.

“Como comerciantes que preservamos o patrimônio e realizamos um trabalho de conservação, acreditamos que o destino final de uma obra, de uma edição muito limitada, rara ou única, logicamente, não deveria ser a destruição.”

Nisso concorda Rodrigo Álvarez, o jornalista de tecnologia da TN, para quem o maior risco “é que as compras indiscriminadas destruam exemplares raros ou esgotados sem verificar antes quantos desses exemplares ainda restam nos estoques de distribuidoras e livrarias, ou mesmo em posse das pessoas”.

Marçal Font, por outro lado, não se preocupa tanto com a destruição de livros: “Não sou nada romântico nesse sentido”.

“Assim como os veterinários que estudam para salvar os animais acabam sendo os que mais sacrificam animais, meu ponto de vista é que não há ninguém que destrua mais livros do que um livreiro de livros usados, porque compramos bibliotecas inteiras, salvamos tudo o que é possível salvar, mas há muita coisa que não se salva.”

Font explica que, se um livro possui depósito legal, o que garante a conservação de pelo menos cinco ou dez exemplares, “que um exemplar seja destruído para que toda essa informação vá para um novo formato de conhecimento me parece até positivo”.

Sua preocupação está no fato de que a digitalização de todo o material produzido pela humanidade deixe de lado aquilo que não possui ISBN (International Standard Book Number), o número que identifica cada livro publicado.

“Toda a dissidência política do mundo, a luta LGBT, todos os fanzines de rebeldia, a contracultura, tudo o que é underground foi produzido sem ISBN”, afirma, advertindo que esse material pode se perder para as futuras gerações se também não for digitalizado.

Por essa razão, tanto Álvarez quanto Font destacam que não se deve confundir digitalização com conservação.

“A digitalização de um livro não é a mesma coisa que a conservação de um livro; geralmente esse arquivo digital fica em uma base de dados privada, fora do alcance de leitores, bibliotecas e pesquisadores”, adverte Álvarez.

O jornalista de tecnologia acrescenta que, nessa digitalização extrema, também podem se perder características que vão além do texto, como sua encadernação, anotações, ilustrações, qualidade de impressão, procedência e outras particularidades.

Para Font, a ausência desses “metadados” deixa de lado elementos fundamentais para a boa interpretação de um texto, de modo que os dados produzidos até mesmo para a própria indústria de IA são, na sua opinião, deficientes.

“Que haja uma transferência de conhecimento do formato livro para os novos formatos me parece muito positivo; nos séculos 15 e 16 já houve um processo semelhante com aqueles livros da recém-inaugurada imprensa, e também se perdia a qualidade dos dados de um formato para outro. Como isso foi resolvido? Com metadados.”

Ele cita o exemplo de quando informações inscritas em pedras foram transpostas para o papel: “Não bastava transcrever o texto que estava na pedra; era preciso até desenhar a pedra, falar sobre seus materiais, sua localização. Todos esses metadados são o que hoje nos permite reconstruir o que aquela pedra realmente dizia”.

O presidente da Associação Profissional do Livro e do Colecionismo Antigos da Espanha explica que até mesmo dois livros com o mesmo texto podem ter valores culturais muito diferentes.

“Eles podem ter a mesma informação, mas um possui um ex libris (uma pequena etiqueta decorativa colada na parte interna da capa frontal para indicar quem é seu proprietário), uma encadernação artesanal ou anotações, elementos que não poderão ser transferidos para o formato digital, um pouco como ocorre com o formato do livro eletrônico.”

O resumo do resumo do resumo…

Para evitar a digitalização que destrói livros e deixa de lado informações essenciais, tanto Font quanto Vinaixa propõem eliminar os intermediários.

“A solução que propomos é que nós mesmos digitalizemos nosso patrimônio em nossa língua, guardemos isso e licenciemos os dados; se você quiser os dados, eu os forneço da melhor forma possível e fico com o livro, porque para quem faz pesquisa também é importante saber como é a capa do livro, como ele foi costurado, não apenas o conteúdo”, diz Vinaixa.

O diretor técnico da empresa de tecnologia Sorensen.ai acrescenta que a demanda por dados continuará até que já não haja mais com o que alimentar a inteligência artificial.

“Achávamos que a IA atingiria seu limite quando não houvesse mais capacidade de processamento. Pois não, o limite são os dados; a IA ficou limitada porque já não há mais dados.”

Para Firtman, ainda não sabemos o que acontecerá quando a informação gerada por humanos acabar:

“O próximo passo são os dados sintéticos, os textos escritos pela própria IA. O maior risco daqui a algumas décadas é que, quando passarmos a perguntar tudo a uma IA sem recorrer às fontes, essa IA comece a se degradar porque estará sendo treinada com a mesma informação que ela própria gerou.”

O jornalista Rodrigo Álvarez ilustra essa degradação com a imagem de uma serpente que devora a própria cauda:

“As empresas alimentariam seus modelos com conteúdo gerado por outras inteligências artificiais e, nesse caso, os erros poderiam se multiplicar, tornando a linguagem cada vez mais básica, como um resumo de um resumo de um resumo, cada vez mais simples, uma síntese de uma síntese que se afasta da informação original.”

Enquanto isso, na Livraria Fénix de Marçal Font, a situação foi mudando após as compras “estranhas” de abril e maio.

“Eles foram mudando a logística e a empresa. Também começaram a nos pedir para enviar os livros não apenas para a América do Norte, mas também para a Alemanha.”

E, após um mês sem novidades, Font recebeu uma nova encomenda justamente esta semana, o que, para ele, só pode significar uma coisa:

“O Projeto Panamá continua em andamento.”

Por que empresas de IA estão destruindo milhares de livros antigos ao redor do mundo – BBC News Brasil 

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A cultura do resumo está nos fazendo desaprender a pensar

Resumos economizam tempo, mas podem eliminar justamente o atrito necessário para desenvolver pensamento crítico e tomar decisões melhores


Ajay Tejasvi – Fast Company Brasil – 10-08-2026

No mês passado, um CEO me contou algo que me fez parar no meio da frase. Antes de uma reunião do conselho, ele havia lido seis resumos gerados por IA de relatórios, apresentações e documentos de briefing. Mas não havia lido os materiais originais.

Quando o conselho questionou uma premissa estratégica escondida em um daqueles relatórios, ele tinha um resumo, não uma resposta. Esse CEO não está sozinho. E é isso que me preocupa.

A IA resume artigos. O Slack resume conversas. Assistentes de reunião resumem discussões. Aplicativos prometem condensar livros inteiros em conclusões que podem ser absorvidas em cinco minutos. As informações já são processadas, filtradas e interpretadas antes de chegarem até nós.

Resumos sempre existiram e executivos sempre dependeram de briefings. Mas a escala e a origem mudaram. Quando quase toda informação chega pré-condensada e otimizada para a eficiência, e não para o que é relevante para você, o efeito sobre a maneira como você pensa se acumula.

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O apelo é óbvio quando os líderes estão sobrecarregados e o tempo é escasso. Os resumos parecem uma resposta racional. Mas existe um custo que raramente aparece na matemática da eficiência.

O QUE DESCOBRI QUANDO LI OS LIVROS

Há alguns anos, assinei um dos populares aplicativos de resumo de livros. A promessa era tentadora: os principais insights de centenas de livros, em apenas alguns minutos cada.

No começo, parecia produtivo. Eu estava economizando tempo e sentia que estava aprendendo muito. Então comecei a ler alguns dos livros originais.

O que ficou comigo foram os momentos que tiveram um impacto diferente em mim do que teriam em qualquer outra pessoa. Meu pensamento mudou por causa de exemplos que nem sempre eram os destacados como importantes.

Robô segurando livroCrédito: Freepik

As passagens que ficaram comigo muitas vezes estavam enterradas no meio do texto, sem nada de extraordinário para outra pessoa, mas ressoavam em mim por causa de algo que eu havia vivido.

Os resumos têm um limite embutido em seu próprio design. Aprender é uma interação entre a informação e a pessoa que a recebe. A vida e o significado são subjetivos.

Os insights que você extrai de um artigo ou livro são moldados pela sua experiência, suas premissas e pelas perguntas que você por acaso carregava consigo quando se sentou para ler.

Quando outra pessoa, seja um ser humano ou uma IA, condensa essa experiência, você herda a interpretação dela. Existe o risco de isso se tornar a sua perspectiva sem que você jamais tenha chegado a ela por conta própria.

O PENSAMENTO CRÍTICO EXIGE ATRITO

O valor da leitura está tanto no processo quanto no destino – e no que sua mente faz ao percorrer esse caminho.

envolvimento exige passar tempo com as ideias antes que outra pessoa decida o que elas significam.

Enquanto você lê, está constantemente avaliando, comparando, questionando. Você concorda com alguma coisa. Discorda de outra. Percebe quando um argumento não se sustenta ou até muda de posição no meio de um parágrafo e se pergunta por quê.

É nesse processo, cheio de atrito e de envolvimento genuíno, que o pensamento crítico realmente se desenvolve. Um resumo muitas vezes pula o trabalho que leva às conclusões, justamente onde está o verdadeiro valor.

Quando tudo chega pré-digerido, aos poucos terceirizamos as próprias capacidades de que os líderes mais precisam, incluindo discernimento, a capacidade de conviver com a ambiguidade e o instinto de questionar o enquadramento antes de aceitar a conclusão.

O QUE ISSO SIGNIFICA PARA OS LÍDERES

Os próximos cinco anos vão exigir mais aprendizado, não menos. A IA transforma setores mais rapidamente do que a maioria das organizações consegue acompanhar. Nesse ambiente, a vantagem competitiva vem da capacidade de pensar com clareza em meio à complexidade.

Essa é uma capacidade que você desenvolve com a prática. E a prática exige envolvimento. No meu trabalho, acredito que é uma habilidade preservar a capacidade de se concentrar, conviver com uma ideia difícil e resistir à atração pela resposta rápida. Essa habilidade atrofia quando não é usada.

Leia mais: Quando a IA escreve por você, quem está pensando?

Práticas de meditação e respiração que fortalecem a atenção e a autoconsciência sempre aparecem nas pesquisas sobre flexibilidade cognitiva e regulação emocional. Isso acontece justamente porque elas treinam a capacidade de continuar presente diante da dificuldade, em vez de fugir dela.

A mesma lógica se aplica à leitura. Escolher se envolver com o original, e não apenas com o resumo, é uma forma de prática que mantém esse músculo forte.

NÃO TERCEIRIZE SUA PERSPECTIVA

Todo resumo é uma interpretação, que reflete as premissas de alguém sobre o que é mais importante. Quando dependemos exclusivamente dessas interpretações, aos poucos abrimos mão do nosso próprio julgamento sobre o que é verdadeiro, o que é importante e o que fazer em seguida.

A liderança depende de julgamento, que vem da experiência. A experiência vem do envolvimento genuíno. E o envolvimento exige passar tempo com as ideias antes que outra pessoa decida o que elas significam.

O futuro pertence aos líderes capazes de ir além do resumo e se debruçar sobre o conteúdo. Porque o insight mais importante muitas vezes é aquele que nunca aparece na recapitulação.


SOBRE O AUTOR

Ajay Tejasvi trabalha com líderes seniores em temas como desempenho, bem-estar e navegação pela complexidade. 

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IA ajudaria países a fazer em uma década o que demoraria um século, diz estudo do Banco Mundial

O relatório ‘A Promessa da Inteligência Artificial’ observa que os empregos em países de renda elevada estão mais de três vezes sob o risco da automação derivada da IA generativa do que os de renda média ou baixa

Por Luís Eduardo Leal — Valor – 04/08/2026

A Inteligência Artificial (IA) pode ajudar países em desenvolvimento a fazer em uma década o que, sem ela, levaria um século para ser feito, diz um estudo do Banco Mundial sobre o tema divulgado nesta terça-feira (4). Para isso, avalia o banco, os governos precisam atuar com determinação para evitar falhas que podem deixá-los para trás em questões como energia, conectividade, capacitação e qualificação institucional.

O relatório “A Promessa da Inteligência Artificial” observa que os empregos em países de renda elevada estão mais de três vezes sob o risco da automação derivada da IA generativa do que os de renda média ou baixa, onde apenas 4,5% dos empregos hoje existentes seriam afetados, em comparação a 14,2% nos países de renda elevada.

Ao mesmo tempo, 16,2% dos empregos nas economias em desenvolvimento teriam ganhos significativos de produtividade decorrentes da IA, perto dos 18,7% projetados para os países de renda alta, aponta o relatório do Banco Mundial. A maior promessa da IA para os países em desenvolvimento, avalia a instituição, não está na substituição de trabalhadores, mas na amplificação do que eles podem fazer.

“A IA é como uma tábua de salvação para as economias em desenvolvimento, que elas devem agarrar”, diz Indermit Gill, economista-chefe do Banco Mundial. “Não são necessários modelos de larga proporção ou grandes data centers para colher os benefícios”, ressalta.

Segundo ele, ao adaptar pequenas ferramentas de IA e de baixo custo às condições locais, é possível melhorar atendimento médico, serviços jurídicos e de educação, bem como as condições para a agricultura, ao alcance de milhões. “Mas é preciso correr: a IA está crescendo muito rapidamente e é mais sensível a especificidades de contexto do que grandes transformações gerais ocorridas no passado, como a eletricidade e a internet”, acrescenta o economista-chefe.

O relatório do Banco Mundial é a primeira avaliação abrangente da instituição sobre as implicações da IA para países em desenvolvimento, mostrando também como empresas e governos nesses países começam a usar a inteligência artificial. O Banco Mundial observa ainda que as economias em desenvolvimento estão hoje diante de seu menor ritmo de crescimento médio em três décadas.

Por outro lado, ao se considerar que o desenvolvimento da IA está concentrado em um pequeno número de países com infraestrutura e conhecimento avançado, as debilidades intrínsecas aos países de menor renda podem aumentar a distância que os separam das nações desenvolvidas, observa também a instituição, em movimento que ampliaria a desigualdade.

Dessa forma, sem uma atuação deliberada para evitar que tal risco se materialize, a IA pode ampliar a distância que separa os países por nível de renda, aumentando a desigualdade, concentrando poder de mercado em um número menor de agentes e enfraquecendo a confiança nas instituições públicas, observa o relatório, com efeitos para os direitos, a segurança e a coesão social, ressalta o Banco Mundial.

O relatório aponta que, entre os países de menor renda, o básico ainda precisa ser feito. Entre os países da África Subsaariana, por exemplo, quase um terço das escolas em zonas rurais não têm acesso confiável à energia elétrica e mais de dois terços não têm acesso estável à internet.

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2026/08/04/ia-ajudaria-paises-a-fazer-em-uma-decada-o-que-demoraria-um-seculo-diz-estudo-do-banco-mundial.ghtml

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A suspeita dos suíços sobre carros ‘espiões’ da China

Cada vez mais setores e categorias de bens podem ter importância simultaneamente civil e militar e, por isso, são classificados como críticos ou estratégicos

Por Assis Moreira – Valor – 06/08/2026

É correspondente do Valor em Genebra desde 2005. Cobriu 28 vezes o Fórum Mundial de Economia e numerosas conferências ministeriais em dezenas de países.

Em relatório intitulado “A indústria europeia face ao rolo compressor chinês”, o Alto Comissariado para a Estratégia e o Planejamento da França chamou a atenção recentemente para o que chama de uma segunda onda de concorrência sem precedentes, que atinge o coração produtivo da Europa.

Aponta riscos crescentes para todo o continente e a Alemanha, em particular, como a economia mais exposta a essa “onda avassaladora” chinesa, que atinge setores intensivos em emprego, como o automotivo, máquinas-ferramentas, baterias, química e outros. O relatório conclama a Europa a “abrir os olhos” e preparar uma proteção maciça, considerada “urgente e vital”, diante da China.

Na semana passada, foi a vez de o Serviço de Inteligência do governo suíço – uma agência que é mais que apenas um serviço de espionagem – publicar relatório sobre a segurança da Suíça. Na mesma linha de procurar “abrir os olhos” para ameaças emergentes, o documento traz uma novidade ao dar um exemplo adicional de risco: o de carros chineses poderem servir como instrumentos de coleta de dados para fins de espionagem.

Para o Serviço de Inteligência suíço, a “ameaça” proveniente da China dependerá fortemente do grau de interdependência econômica. Isso gera dados, e o relatório considera extremamente provável que Pequim processe essas informações também para fins de inteligência.

Segundo o documento, os serviços chineses já dispõem de recursos técnicos e humanos que lhes permitem processar gigantescos volumes de dados e utilizá-los em benefício de suas necessidades, mas também das do Partido Comunista, do exército, do aparato estatal e das empresas chinesas.

Como exemplo, considera plausível supor que os dados gerados pelos veículos modernos fabricados na China e que inundam mercados no mundo todo possam ser transmitidos aos serviços chineses por meio das montadoras, ou que os serviços de inteligência disponham – ou venham a dispor – de acesso a essas informações por meio de interfaces digitais.

Para Serge Bavaud, diretor do serviço de inteligência suíço, esses veículos são “smartphones sobre rodas”. As autoridades chinesas trabalhariam em estreita colaboração com os fabricantes, e os serviços secretos poderiam ter acesso, por exemplo, a conversas registradas pelos automóveis. As marcas chinesas negaram essa prática. Em todo caso, a Suíça não é o único país com suspeitas. Jornais alemães publicaram que os serviços secretos do país teriam feito testes em várias marcas chinesas.

O Departamento Federal de Defesa suíço restringiu o acesso de veículos desse tipo próximos a zonas consideradas sensíveis no país. Mas não explicou se os veículos Tesla americanos adquiridos pelo Exército suíço para uso de seus oficiais estão submetidos às mesmas restrições.

No relatório, o Serviço de Inteligência suíço avalia que, nesta fase de transição da ordem internacional, os contornos de uma confrontação global começam a se delinear, sobretudo entre os Estados Unidos e a China, caminhando para um mundo dividido em duas esferas, marcado por uma disputa estratégica pela supremacia.

Constata que as grandes potências recorrem cada vez mais frequentemente a sanções, controles de exportação, subsídios, instrumentos financeiros e outros meios de pressão, tanto para impedir que seus adversários tenham acesso a mercadorias e tecnologias essenciais quanto para preservar e fortalecer suas próprias capacidades.

Cada vez mais setores e categorias de bens podem ter importância simultaneamente civil e militar e, por isso, são classificados como críticos ou estratégicos. É o caso das terras raras, semicondutores, inteligência artificial, robótica, energias renováveis, tecnologias quânticas, biotecnologias, drones e dados em geral.

Os Estados estão incorporando a proteção econômica e tecnológica aos seus conceitos de segurança nacional. O relatório entende que a Europa está ameaçada e que é muito provável que essa ameaça não diminua nos próximos anos.

Como muitos outros países, a Suíça é fortemente dependente das cadeias de abastecimento chinesas. E, com sua ideia de nova ordem mundial, Pequim corteja e seduz, e continuará a utilizar o exterior como fator essencial para apoiar a modernização de sua economia e de seu exército, além de ampliar sua influência internacional.

Conforme o relatório, a segurança econômica da Suíça, assim como a da Europa, continuará dependente da relação entre Estados Unidos e China. Primeiro, porque as decisões chinesas, mesmo quando dirigidas prioritariamente contra os Estados Unidos, também produzem efeitos sobre a Europa. Segundo, porque é provável que Washington continue pressionando os países europeus a reduzir sua colaboração com atores considerados problemáticos, especialmente empresas chinesas.

Avalia que Pequim deverá expandir seu domínio sobre bens e matérias-primas de importância estratégica. E o excesso de capacidade industrial permitirá aos chineses continuar inundando o mercado europeu, e mantendo sob pressão a base industrial da Europa. As tensões entre a China e a Europa têm caráter estrutural e deverão persistir, tendo os carros chineses como um dos principais focos de atrito.

Assis Moreira é correspondente em Genebra e escreve quinzenalmente

E-mail: assis.moreira@valor.com.br

https://valor.globo.com/brasil/coluna/a-suspeita-dos-suicos-sobre-carros-espioes-da-china.ghtml 

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Se tiver interesse em gêmeos digitais para a indústria procure a Neo Vision – Captura Digital da Realidade

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Gêmeos digitais: como a tecnologia que permite simular o mundo vai transformar indústria, varejo, saúde e cidades

A tecnologia dos digital twins permite que empresas façam testes em réplicas perfeitas do mundo real

Por Thâmara Kaoru – Época negócios – 27/01/2026 06h00  

Já imaginou ter uma réplica bem fiel de um objeto, sistema, processo, cidade ou até de você mesmo? Só que, em vez de algo físico, e se a cópia fosse digital? Esse é basicamente o conceito dos gêmeos digitais, ou digital twins, uma tecnologia que está mudando – e pode mudar ainda mais — indústrias, varejo, saúde e cidades.

Para se ter uma ideia do tamanho da aposta nesta tecnologia, relatório da Fortune Business Insights indica que o mercado de gêmeos digitais foi avaliado em US$ 24,48 bilhões em 2025 e projeta-se que cresça de US$ 33,97 bilhões em 2026 para US$ 384,79 bilhões em 2034.

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“A ideia do gêmeo digital é construir uma contraparte digital a partir dos dados do mundo real. Mas qual é o intuito disso? É poder simular situações novas a partir daquela réplica do mundo real”, diz John Paul Hempel Lima, diretor acadêmico dos cursos de graduação online da FIAP.

O especialista cita um exemplo. Se fosse feito um gêmeo digital de um avião, de maneira que seus dados, sensores, mecanismos e sistemas fossem transmitidos para o mundo digital, seria possível ter uma representação de como aquele avião está operando e detectar eventuais falhas. A equipe de manutenção de uma companhia aérea poderia, a partir do gêmeo digital do avião, que está recebendo essas informações em tempo real, saber que precisa tomar alguma medida rápida para evitar problemas.

O gêmeo digital permite que as empresas façam simulações, testes e prognósticos. Elas podem, por exemplo, entender se determinada mudança no produto vai de fato causar o efeito esperado. Dessa maneira, não é preciso implementar uma ação para depois descobrir ela que não funciona.

Quais as vantagens dos gêmeos digitais?

Kevin Janzen, CEO do Gaming & EdTech AI Studio na consultoria Globant, diz que os gêmeos digitais estão se tornando uma ferramenta fundamental para empresas de diversos setores, e suas vantagens são múltiplas.

“Em primeiro lugar, eles permitem otimizar processos ao simular e analisar operações em tempo real. Isso ajuda a identificar ineficiências e áreas de melhoria, o que pode resultar em uma redução de custos e no aumento da produtividade. Além disso, os gêmeos digitais facilitam a manutenção preditiva. Ao monitorar o desempenho dos ativos, as empresas podem antecipar falhas antes que ocorram, permitindo o agendamento da manutenção de maneira mais eficaz e minimizando o tempo de inatividade”, diz Janzen.

O CEO destaca ainda a possibilidade de tomadas de decisão mais seguras. Segundo ele, com dados e análises em tempo real, as empresas conseguem avaliar diferentes cenários e resultados potenciais, o que vai ajudar a tomar decisões estratégicas mais acertadas.

Já no desenvolvimento de produtos, os gêmeos digitais possibilitam a realização de testes virtuais e simulações, acelerando o processo de inovação e reduzindo o tempo necessário para colocar um produto no mercado, disse o especialista.

“Da mesma forma, essas ferramentas podem contribuir para uma experiência mais personalizada para os clientes. Ao analisar seus comportamentos e preferências, ele permite oferecer produtos e serviços adaptados às suas necessidades. Por fim, eles também são valiosos na capacitação de colaboradores, pois permitem praticar seu uso em um ambiente simulado antes de enfrentar situações reais.”

Parece ficção, mas já é realidade

Apesar de a ideia parecer saída de um filme de ficção científica, o conceito de gêmeo digital não é novo. Até recentemente, muitos casos de uso desta tecnologia estavam na indústria, na manufatura e na engenharia, justamente em manutenção preditiva e simulação de falhas. Agora, porém, novas aplicações surgem todos os dias.

Quer um exemplo prático? Em agosto de 2025, a Nasa e a IBM anunciaram o Surya, um modelo de inteligência artificial treinado com dados de observações solares que os desenvolvedores descrevem como um “gêmeo digital do Sol”. A ferramenta cria uma representação digital dinâmica, permitindo prever tempestades solares que podem afetar satélites, redes elétricas e comunicações na Terra. O Surya funciona como um laboratório virtual, testando cenários e antecipando eventos que seriam difíceis de simular no mundo físico. Esse é um exemplo de como gêmeos digitais podem ser aplicados até mesmo a fenômenos naturais.

A ideia é que, no futuro, o conceito de gêmeos digitais possa ser aplicado mais amplamente também para o corpo humano. “Eu estou usando um smartwatch. Ele mede todos os meus sinais vitais, a minha frequência cardíaca, como eu durmo. No futuro, com muito mais sensores, poderá ser possível construir um John virtual”, diz o especialista. Empresas como a francesa Dassault Systèmes, pioneira em mundos virtuais, já desenvolvem um trabalho relevante na área usando digital twins para testar medicamentos e fazer prognósticos.

Outro potencial uso dos gêmeos digitais é nas smart cities, ou cidades inteligentes, que usam tecnologia e análise de dados para melhorar a eficiência urbana e a qualidade de vida da população. Segundo Luis Kondo, diretor de Planejamento & Operações Latam da Dassault Systèmes, a principal diferença dessa aplicação é que as cidades estão em constante transformação. “No caso das cidades, há aquela foto momentânea que você pode tirar, sabendo que daqui a meses ou semanas pode estar diferente”, afirma ele, citando mudanças climáticas, crescimento populacional ou até eventos de saúde pública.

Nesse contexto, os gêmeos digitais — ou gêmeos virtuais, como a empresa prefere chamá-los –, permitem simular enchentes, planejar obras urbanas e organizar serviços públicos, ajudando gestores a testar decisões antes de executá-las. Kondo cita como exemplo comum ruas recém-recapeadas que são abertas novamente pouco depois para obras de infraestrutura. Com o conceito aplicado, esse tipo de problema poderia ser reduzido, evitando que a população sofresse por mais tempo com trânsito, sujeira e ruído.

Para Kondo, smart cities não são projetos pontuais, mas um exercício contínuo de atualização. “Não adianta falar em inovação se, no fim, a tecnologia não melhora a vida da população.”

Avanços tecnológicos colaboram para expansão

Para Lima, da FIAP, a possibilidade de trabalhar com gêmeos digitais está ligada à IoT, a internet das coisas, que se refere a uma vasta rede de objetos físicos equipados com sensores, softwares e tecnologias de conexão que coletam dados via internet.

“Os gêmeos digitais só existem porque a gente começou a falar de IoT, internet das coisas. Começamos a colocar muitos sensores em objetos, carros, no mundo físico e fomos jogando tudo isso na internet. Daí ficou mais fácil pegar todos esses dados e consolidar tudo isso numa representação no mundo virtual daquele objeto ou daquele elemento do mundo físico”.

Nesse processo de expansão, vale citar também a inteligência artificial. Janzen afirma que a IA permite analisar grandes volumes de dados gerados pelos gêmeos digitais. Isso significa que as empresas podem extrair informações valiosas e padrões ocultos que, de outra forma, seriam difíceis de identificar.

“Por meio de algoritmos de aprendizado de máquina, esses sistemas conseguem antecipar comportamentos e falhas nos ativos, o que permite às empresas implementarem estratégias de manutenção preditiva mais eficazes. Isso não apenas reduz o tempo de inatividade, mas também otimiza os custos operacionais”, diz ele.

“A inteligência artificial não apenas potencializa a funcionalidade dos gêmeos digitais, mas também amplia sua aplicação em diversas áreas, desde a otimização de processos até a melhoria na tomada de decisões”, afirma Janzen.

O que falta para que os gêmeos digitais avancem?

Antes mesmo de falar em implementar gêmeos digitais, Lima diz que é preciso discutir a digitalização dos processos. “Imagine uma fábrica. Se eu não tenho sensores coletando informações e mandando para um dashboard, eu nem posso pensar num gêmeo digital. O primeiro passo, então, é a gente fazer a digitalização das linhas de fábrica, dos carros, dos objetos, etc”, diz Lima.

Num segundo momento, entra uma outra fase, em que se começa a construir esses modelos virtuais a partir dos dados reais. E a terceira fase que é poder fazer simulações e diagnósticos para auxiliar na tomada de decisão. “Temos empresas já nesse terceiro estágio, e outras que estão começando a sonhar em ter um gêmeo digital e colocando sensores em suas linhas de produção”.

Segundo Lima, o metaverso também acaba entrando no âmbito dos gêmeos digitais. “Falar de gêmeos digitais é também trazer o assunto do metaverso. Ele não será necessariamente como foi vendido inicialmente, mas sim um universo digital.”

Para Janzen, o futuro está na IA Física, onde os ambientes digitais se tornam indispensáveis para treinar agentes físicos antes que a IA se mude para o mundo real.

“Os gêmeos digitais fornecerão simulações realistas para que robôs e sistemas autônomos aprendam habilidades generalizadas em ambientes seguros, minimizando riscos e custos de prototipagem física. O uso de world models, ou modelos de mundo, permitirá que essas máquinas interajam com o mundo físico de forma mais segura, inteligente e eficaz”, conclui.

Gêmeos digitais: como a tecnologia que permite simular o mundo vai transformar indústria, varejo, saúde e cidades 

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O salto da Índia na economia digital global

País obteve superávit de US$ 202,6 bilhões no comércio de serviços prestados por meios digitais

Por Assis Moreira – Valor – 02/08/2026

É correspondente do Valor em Genebra desde 2005. Cobriu 28 vezes o Fórum Mundial de Economia e numerosas conferências ministeriais em dezenas de países.

No recente exame da política comercial da Índia, um dos países com maior crescimento do mundo, os membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) procuraram entender a ascensão indiana no setor de serviços e na economia digital global.

No ano fiscal de 2024-2025, as exportações indianas de bens e serviços atingiram o recorde de US$ 825,3 bilhões. O comércio de serviços já representa 47% das exportações totais do país. E o que chamou a atenção foi que somente nos serviços prestados por meios digitais a Índia obteve um superávit extraordinário de US$ 202,6 bilhões no ano passado — e a tendência é de expansão acelerada desse segmento.

A economia digital da Índia cresce a um ritmo duas vezes superior ao da economia como um todo e deve representar um quinto do PIB até 2029. Em 2022/23, respondeu por 11,7% do PIB (US$ 402 bilhões) e empregou 14,7 milhões de trabalhadores, o equivalente a 2,5% da força de trabalho.

Sem surpresa, a promoção do comércio transfronteiriço na economia digital aparece como uma nova área prioritária para Nova Deli. As exportações de serviços prestados por via digital aumentaram quase 90% em valor nos últimos anos. Os serviços comercializados internacionalmente por meio de redes de computadores — incluindo serviços financeiros, de informática e profissionais, entre outros — são considerados bastante competitivos.

Os serviços de software e os serviços profissionais e de gestão representam cerca de 65% das exportações totais de serviços indianos. Os principais clientes são os Estados Unidos, o Reino Unido, a Alemanha e a Irlanda.

Nesse cenário, a Índia consolidou sua posição como o quinto maior exportador mundial de serviços prestados por via digital. Globalmente, essas exportações atingiram US$ 5,26 trilhões em 2025, um aumento de 10%. Os Estados Unidos permanecem como o maior exportador, com US$ 915 bilhões (15,5% do total mundial), e também o maior importador, com US$ 490 bilhões (11,2% das importações globais). O Brasil subiu uma posição, tornando-se o 26º maior exportador mundial, mas ainda com uma modesta participação de 0,6%.

Entre os fatores que explicam a crescente digitalização das exportações de serviços da Índia destaca-se a disponibilidade de mão de obra qualificada a custos competitivos, que permite a empresas globais se estabelecerem no país para atender mercados estrangeiros à distância. Além disso, a computação em nuvem, as plataformas digitais e as ferramentas de colaboração remota reduziram significativamente a necessidade de proximidade física entre prestadores e consumidores de serviços.

Uma explicação para o sucesso indiano no segmento inclui a rápida adoção da infraestrutura digital pública, com a chamada “trindade JAM” — formada pelo programa Jan Dhan de contas bancárias, pela identificação biométrica Aadhaar e pela conectividade móvel —, além da Interface de Pagamento Unificada (UPI) e das soluções do India Stack.

Segundo relatório da OMC, a interoperabilidade é uma característica inerente ao India Stack, um conjunto de interfaces abertas de programação de aplicativos (APIs) e de bens públicos digitais. Empresas estrangeiras podem participar desse ecossistema oferecendo serviços ou concorrendo em licitações públicas relacionadas ao programa.

O governo indiano adotou um plano de longo prazo, de 25 anos (2022-2047), denominado Viksit Bharat, de Índia Desenvolvida. A estratégia prevê transformar o país em uma economia autônoma, inclusiva, inovadora até 2047, quando será celebrado o centenário da independência. Atualmente, a Índia continua sendo uma economia de renda média-baixa, com PIB per capita de US$ 2.671 no exercício de 2024/25. Para alcançar o status de país de alta renda até 2047, a Índia precisaria sustentar um crescimento real do PIB de cerca de 8% ao ano. É um desafio do tamanho do país. Mas pelo menos os indianos sabem para onde querem ir.

Além da expansão do setor de serviços, impulsionada pela competitividade digital, a Índia quer elevar sua participação nas exportações mundiais de mercadorias de 1,8% em 2024 para cerca de 10% até 2047. Para estimular as exportações, mantém diversos programas de isenções, reembolsos e incentivos fiscais.

Para superar gargalos estruturais, o governo lançou iniciativas como o Make in India, a Política Nacional de Manufatura e o Programa Nacional de Desenvolvimento de Corredores Industriais.

O Programa de Incentivo à Produção (PLI) quer fortalecer a indústria manufatureira por meio de incentivos vinculados ao desempenho. A iniciativa foi ampliada para 14 setores, incluindo automóveis e autopeças, têxteis, aços especiais e módulos fotovoltaicos solares. Empresas nacionais e estrangeiras podem participar, desde que cumpram critérios de produção e investimento mínimo.

A Índia tornou-se o segundo maior produtor mundial de telefones celulares e o quarto maior fabricante de automóveis. A produção de equipamentos eletrônicos aumentou seis vezes desde 2014/15, enquanto as exportações do setor cresceram oito vezes. A indústria farmacêutica indiana fornece cerca de 20% dos medicamentos genéricos consumidos no mundo e ocupa o terceiro lugar em volume de produção e o 11º em valor. Já a fabricação de componentes ligados às energias renováveis expandiu-se em ritmo excepcional, segundo a OMC.

Importantes obstáculos afetam o desenvolvimento do setor manufatureiro. Entre eles estão o elevado custo dos insumos — em parte decorrente das tarifas de importação —, os altos custos de equipamentos, a infraestrutura industrial ainda insuficiente, a dependência de transferência de tecnologia, entraves regulatórios à atividade empresarial e as dificuldades de acesso a terrenos para projetos industriais e de infraestrutura.

Durante a revisão da política comercial, vários membros da OMC defenderam que a Índia exerça um papel “mais construtivo” nas negociações multilaterais. O país bloqueou importantes acordos multilaterais no passado e continua se opondo agora a iniciativas plurilaterais — nas quais participam apenas os membros interessados —, inclusive sobre comércio eletrônico, apesar de ser um dos principais beneficiários desse segmento.

O governo indiano respondeu que, com a revolução digital ainda em curso, é necessário compreender melhor as dimensões “complexas e multifacetadas” das questões relacionadas ao comércio eletrônico.

Quase paralelo ao exame da Índia na OMC, jovens manifestavam em Nova Deli para denunciar fraudes nos exames universitários. Seriamente contestado pela primeira vez desde sua reeleição em 2024, o primeiro-ministro Narenda Modi demitiu o ministro da Educação. Para os jovens, os concursos para entrar nas grandes escolas e de função pública são o principal mecanismo de mobilidade social.

Para certos observadores, a economia da Índia pode estar crescendo a um ritmo saudável, incluindo na área digital, mas ainda oferece pouca esperança à sua juventude. – os menos de 25 anos representam 40% da população.

https://valor.globo.com/opiniao/assis-moreira/coluna/o-salto-da-india-na-economia-digital-global.ghtml 

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Como fazer para saber menos?

Graças à IA, não só estamos com uma sensação inflada de conhecimento, como podemos estar consumindo informações equivocadas

Por Pedro Pacífico – O Globo – 05/08/2026 

Sou hipocondríaco não diagnosticado. Desde criança, sei o nome de diversos remédios e suas funções, até porque esse meu traço foi herdado dos meus pais. Sempre viajei com vários tipos de remédios, tentando me proteger de qualquer patógeno que pudesse atravessar o meu roteiro. Por muitos anos, o Dr. Google foi meu companheiro (e que, por vezes, alimentou a minha ansiedade). Qualquer sintoma virava pesquisa, e as respostas nunca eram tranquilizadoras. A morte era quase iminente.

Presenciamos uma grande mudança com as ferramentas de inteligência artificial. Elas são capazes de responder a qualquer pergunta sobre a minha saúde. Analisar exames, avaliar sintomas e até trazer recomendações. O problema: elas aparentam saber demais e, para quem busca ter o controle de tudo, isso pode ser perigoso e induzir a erros. O Google antes vinha com várias opções de resposta e possíveis divergências. Agora, recebemos uma resposta pronta e cheia de confiança.

E isso não se restringe a temas de saúde. Um dos problemas que venho percebendo é o uso quase instintivo de dar um novo comando para tentar buscar qualquer tipo de informação. Mas será que precisamos “saber tudo” a todo momento? Será que preciso saber quantos cachorros existem em São Paulo ou quantos grãos de arroz cabem em uma panela? A dúvida não vale mais nada?

Na verdade, estamos falando de uma sensação de saber, porque passamos a avaliar mal a nossa própria capacidade de absorver um conteúdo. O fato de uma informação estar disponível facilmente a partir de uma rápida pergunta não significa que eu tenho o conhecimento daquilo ou que consegui registrar as informações do que pesquisei. 

Perde-se, ainda, o esforço de procurar, comparar e até de duvidar dos próprios achados.

Fiz uma pergunta para o Claude, um dos modelos que oferecem respostas: “Você sabe tudo?” A resposta: “Não.” Continuei: “Então por que há resposta para tudo?” “Gerar uma resposta é o comportamento padrão (…) Consigo escrever com a mesma segurança algo verificável e algo inventado.” Ou seja, não só estamos com uma sensação inflada de conhecimento, como podemos estar consumindo informações equivocadas.

Até porque as consequências são sérias: ansiedade, disseminação de informações falsas, tomada de decisões sem respaldo adequado… Um estudo publicado em 2025 por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia concluiu que participantes que recorreram à inteligência artificial demonstraram uma compreensão mais superficial do conteúdo do que aqueles que fizeram uma pesquisa tradicional. Sei mais nomes de doenças e sintomas do que nunca, mas continuo sem saber muito sobre o meu corpo.

A inteligência artificial já faz parte da realidade e não sei se vou deixar de fazer as minhas perguntas hipocondríacas para uma tela. Se a sua presença é irreversível, o que sobra é desconfiar, até porque uma informação não se torna verdadeira só pelo seu tom seguro.

No fim, tenho tentado ficar com mais dúvidas e evitar o impulso automático de fazer perguntas. Mas uma coisa é certa: continuo viajando com minha mala cheia de remédios.

Como fazer para saber menos? 

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O Google Earth Quase Deixou de Mostrar o Mundo para Começar a Fabricá-lo.

Vera Moraes – Tech Gossip™ – 3 de agosto de 2026

Strategic Advisor in Innovation | Founder da Tech Gossip™ | 100 Innovative Women Award | Innovation, Global Trends | Strong global ecosystem links (EU, Canada, Brazil) | Futurism | Writer | Columnist Olhar Digital

Um recurso de IA permitiu inserir ataques, protestos, refugiados, acidentes e instalações inexistentes em imagens de satélite. O Google recuou, mas o episódio expôs algo mais grave: as plataformas que organizam a realidade estão transformando evidência em conteúdo editável.

O Google Earth Quase Deixou de Mostrar o Mundo para Começar a Fabricá-lo

Um recurso de IA permitiu inserir ataques, protestos, refugiados, acidentes e instalações inexistentes em imagens de satélite. O Google recuou, mas o episódio expôs algo mais grave: as plataformas que organizam a realidade estão transformando evidência em conteúdo editável.

O que aconteceu

O Google introduziu no Google Earth uma ferramenta de inteligência artificial capaz de modificar imagens de satélite por meio de comandos de texto. Bastava posicionar o cursor sobre uma região e descrever o que deveria aparecer naquele local. Nos testes relatados pela 404 Media e por pesquisadores de inteligência de fontes abertas, foi possível acrescentar arranha-céus em áreas rurais, criar explosões, simular ataques de drones, inserir refugiados próximos à fronteira entre México e Estados Unidos, inventar uma usina nuclear no Irã e fabricar protestos diante dos próprios edifícios do Google.

O recurso era alimentado pelo modelo Nano Banana e transformava uma plataforma historicamente associada à observação geográfica em um ambiente de geração visual. Essa mudança pode parecer apenas uma nova função criativa, mas ela alterava silenciosamente a natureza do produto. O Google Earth deixava de ser apenas uma interface para consultar imagens do mundo e passava a funcionar também como uma ferramenta capaz de produzir versões sintéticas desse mesmo mundo.

Depois da repercussão negativa, o Google informou que estava revertendo a funcionalidade enquanto trabalhava em proteções mais rigorosas. A empresa reconheceu que as pessoas confiam no Google Earth como uma representação confiável da realidade e afirmou ter observado compartilhamentos de imagens geradas que aparentemente violavam suas políticas.

O recuo foi necessário, mas não elimina o problema. Ele apenas mostra que o risco previsível não foi tratado como prioridade antes do lançamento.

O problema não é criar imagens falsas. É criá-las dentro de uma infraestrutura de confiança

Imagens falsas já existiam muito antes da inteligência artificial. Softwares de edição sempre permitiram manipular fotografias, mapas e registros visuais. A diferença é que, nesse caso, a falsificação foi incorporada diretamente a uma plataforma que construiu sua autoridade justamente sobre a promessa de mostrar o planeta como ele é.

Essa é a ruptura central.

Uma montagem feita em um editor de imagens costuma carregar algum grau de suspeita. Uma captura de tela do Google Earth, por outro lado, herda a credibilidade da plataforma. Ela parece documental porque vem de uma infraestrutura associada a satélites, mapas, coordenadas e registros geográficos. Ao permitir a geração de elementos falsos dentro desse ambiente, o Google misturou duas categorias que deveriam permanecer claramente separadas: observação e simulação.

O que está em risco não é apenas a precisão de uma imagem isolada. É o valor simbólico da fonte. Quando uma plataforma confiável também passa a fabricar cenas, cada imagem legítima produzida por ela pode ser recebida com mais desconfiança. O dano não ocorre somente quando alguém acredita em uma falsificação. Ele também ocorre quando o público deixa de acreditar em registros verdadeiros.

Esse é o efeito mais profundo da desinformação sintética: ela não precisa convencer todos de uma mentira específica. Basta tornar toda evidência discutível.

A transformação da geografia em conteúdo gerativo

Até agora, o debate sobre deepfakes esteve concentrado em rostos, vozes e vídeos. O episódio do Google Earth revela uma nova etapa: a falsificação de contextos geográficos inteiros.

Isso muda a escala do problema.

Uma imagem sintética de uma pessoa pode destruir uma reputação. Uma imagem sintética de uma região pode alimentar tensão diplomática, manipular uma narrativa eleitoral, criar pânico financeiro, justificar perseguições ou gerar falsas acusações sobre governos, empresas e movimentos sociais.

Uma instalação militar inexistente pode ser apresentada como prova de uma ameaça. Um protesto fabricado pode ser usado para inflar ou desacreditar uma mobilização. Uma cratera criada por IA pode circular como registro de um ataque. Um acampamento falso pode ser utilizado para reforçar discursos políticos sobre imigração, pobreza ou segurança pública.

O risco não está apenas na qualidade visual da imagem, mas no contexto em que ela circula. Em ambientes de crise, guerra ou polarização, a velocidade da narrativa costuma vencer a lentidão da verificação. Quando o desmentido chega, a imagem já cumpriu sua função emocional.

Ela já produziu medo, raiva, indignação ou confirmação ideológica.

O Google deslocou o problema para o usuário

A defesa apresentada pelo Google foi baseada principalmente no uso do SynthID, uma marca d’água digital destinada a indicar que a imagem foi gerada por inteligência artificial. A empresa também afirmou que o conteúdo poderia ser verificado por meio do Gemini ou do Google Lens.

Tecnicamente, isso oferece algum mecanismo de rastreamento. Estruturalmente, porém, a solução transfere a responsabilidade da plataforma para o público.

O usuário recebe uma imagem aparentemente convincente e precisa suspeitar dela, localizar uma ferramenta, realizar a checagem e interpretar corretamente o resultado. Enquanto isso, quem publica a falsificação precisa apenas gerar uma captura de tela e colocá-la em circulação.

Essa assimetria favorece a desinformação.

Fabricar leva segundos. Verificar exige intenção, tempo e conhecimento. Espalhar é simples. Corrigir é trabalhoso. A imagem falsa circula como afirmação; a contestação circula como explicação. E explicações quase sempre perdem para imagens em velocidade, impacto e alcance.

A marca d’água pode ajudar investigadores e jornalistas, mas não resolve o comportamento real das redes. Muitas pessoas não verificam conteúdos que confirmam aquilo em que já desejam acreditar. Além disso, capturas de tela, recortes, reedições e novas compressões podem dificultar a preservação ou a leitura desses sinais técnicos.

A proteção existe, mas chega depois da sedução.

O que está por trás desse tipo de lançamento

O episódio revela o conflito entre velocidade comercial e responsabilidade pública. Empresas de tecnologia são pressionadas a incorporar inteligência artificial em todos os produtos, mesmo quando a utilidade da função não está claramente separada do risco que ela cria.

A lógica dominante é lançar primeiro, observar a reação e corrigir depois.

Esse modelo funciona relativamente bem quando o problema é um botão confuso ou uma interface instável. Torna-se perigoso quando o produto interfere na percepção pública da realidade. Nesse caso, o teste não acontece apenas dentro da plataforma. Ele acontece sobre jornalistas, investigadores, governos, comunidades vulneráveis e pessoas que podem ser afetadas por imagens falsas.

O Google provavelmente enxergou o recurso como uma ferramenta de visualização, planejamento ou simulação. Profissionais da área geoespacial poderiam utilizá-lo para imaginar cenários urbanos, ambientais ou logísticos. O problema é que uma ferramenta não opera apenas dentro da intenção declarada pelo fabricante. Ela também opera dentro dos incentivos do ambiente em que é lançada.

E o ambiente atual recompensa choque, velocidade, conflito e imagens que provoquem reação imediata.

A empresa criou a capacidade técnica, mas aparentemente não delimitou de forma suficiente a fronteira entre uso profissional, experimentação visual e falsificação documental. Esse não foi apenas um erro de moderação. Foi um erro de arquitetura do produto.

Quem ganha e quem perde

Quem ganha com esse tipo de ferramenta são criadores de conteúdo sensacionalista, operadores de propaganda, golpistas, campanhas políticas e qualquer grupo interessado em fabricar provas visuais rapidamente. Eles não precisam que a imagem sobreviva a uma investigação técnica. Precisam apenas que ela circule por tempo suficiente para produzir impacto.

As plataformas também ganham enquanto o conteúdo sintético gera curiosidade, compartilhamento e uso de seus produtos. Mesmo quando uma funcionalidade é retirada, o lançamento reforça a imagem de avanço tecnológico e mantém a empresa no centro da corrida pela inteligência artificial.

Quem perde são os profissionais que dependem de imagens geográficas para verificar fatos. Pesquisadores de OSINT, jornalistas, organizações humanitárias, investigadores e analistas passam a carregar uma nova carga de trabalho: antes de interpretar uma imagem, precisam provar que ela não foi gerada.

Também perde o público, que passa a viver num ambiente em que a origem visual já não basta como evidência.

O custo da inovação é distribuído para a sociedade. O benefício estratégico permanece concentrado na empresa.

O ponto cego: a desinformação não precisa esconder a falsificação

Existe uma crença ingênua de que, se uma imagem puder ser identificada como artificial, o problema estará resolvido. Isso ignora a forma como a propaganda funciona.

Quem espalha desinformação nem sempre pretende construir uma mentira duradoura. Muitas vezes, pretende apenas ocupar o espaço informacional durante algumas horas, criar uma impressão inicial ou oferecer uma imagem que alimente uma narrativa já desejada.

Mesmo quando a falsificação é descoberta, ela pode continuar funcionando como símbolo. Parte do público aceitará a correção. Outra parte dirá que a checagem é censura, manipulação ou tentativa de encobrimento. A discussão deixa de ser sobre o que a imagem mostra e passa a ser sobre quem tem autoridade para declarar o que é real.

Nesse cenário, a falsificação vence duas vezes. Primeiro, porque engana. Depois, porque destrói a confiança no processo usado para desmenti-la.

Não estamos apenas perdendo a confiança nas imagens. Estamos terceirizando a realidade

O episódio do Google Earth expõe uma tendência maior: as mesmas empresas que armazenam, organizam e apresentam a realidade estão construindo ferramentas para modificá-la.

Google, plataformas sociais e empresas de IA não são apenas fornecedoras de tecnologia. Elas administram as interfaces pelas quais bilhões de pessoas percebem acontecimentos, lugares e conflitos. Quando essas interfaces misturam registro e geração sem separações claras, elas não estão apenas oferecendo criatividade. Estão alterando a estrutura de confiança do ambiente informacional.

Quem controla a interface controla o primeiro enquadramento da realidade. A questão, portanto, não é se a inteligência artificial pode criar uma cratera falsa, uma usina inexistente ou um ataque inventado. Isso já está demonstrado.

A questão é por que uma empresa com o alcance e a responsabilidade do Google colocou essa capacidade dentro de uma ferramenta documental antes de estabelecer barreiras proporcionais ao risco.

O recurso foi retirado. A lógica que permitiu seu lançamento continua intacta.

Perguntas para o leitor

Você ainda consideraria uma captura de tela do Google Earth uma evidência confiável?

Uma marca d’água digital protege o público ou apenas oferece uma defesa jurídica para a plataforma?

Empresas deveriam ser autorizadas a testar ferramentas de simulação dentro de produtos usados como fontes documentais?

Quem deve assumir o custo da verificação: o usuário, o jornalista ou a empresa que tornou a falsificação possível?

Quando uma plataforma pode mostrar o mundo e fabricar o mundo no mesmo lugar, quem decide qual versão será considerada real?

Acompanhe o Tech Gossip para análises sobre inteligência artificial, poder tecnológico, desinformação e os mecanismos que as Big Techs preferem chamar apenas de inovação: www.techgossip.com.br

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