Um país com vastos recursos naturais e humanos se acostumou a administrar uma projeção internacional medíocre. O Brasil precisa ser ambicioso sem ser quimérico, e prudente sem ser tímido
Editorial – Estadão – 10/10/2026
Há décadas, a envergadura do Brasil promete mais do que seu protagonismo internacional entrega. Um país continental, de mercado vasto e recursos abundantes, com tradição diplomática e algumas competências de classe mundial, ainda converte parte modesta desse patrimônio em influência, poder de barganha e liberdade de ação. O potencial existe. Há muito o que fazer para transformá-lo em poder.
Essa distância pesa mais num mundo em que a interdependência ganhou uma face coercitiva. Comércio, tecnologia e insumos estratégicos continuam a gerar prosperidade, mas também podem limitar escolhas alheias. Estados Unidos, China e União Europeia já demonstram, por meios distintos, o quanto acesso a mercados ou tecnologia pode servir como instrumento de poder. Para o Brasil, já não basta medir independência pela mera equidistância entre potências; autonomia exige alternativas reais.
A abertura é parte dessa construção. A exposição ao exterior força empresas a aprender, facilita o acesso a tecnologia e abre mercados que a economia doméstica não consegue reproduzir. O isolamento pode até preservar setores por algum tempo. Também preserva hábitos, tecnologias e empresas que a competição obrigaria a melhorar. Internacionalizar a economia amplia referências, atrai tecnologia e capital, multiplica mercados e parceiros. Isso também é poder.
Abertura, porém, não dispensa estratégia. Algumas dependências pesam mais que outras; certos ativos só ganham valor estratégico quando o País domina os elos que lhes dão utilidade. As cobiçadas terras raras rendem pouco se o País não integrar parte do conhecimento e da tecnologia que transformam minério em posição numa cadeia valiosa. Até a potência agropecuária expõe uma vulnerabilidade desse tipo na dependência de fertilizantes importados. A Embraer prova o movimento inverso: engenharia de ponta transformada em empresa competitiva e presença global. É preciso agir onde um gargalo realmente reduz liberdade ou onde uma vantagem nacional permite ocupar um elo valioso, em vez de usar soberania como senha protecionista.
A diplomacia amplia essas capacidades quando transforma relações políticas em acesso econômico e tecnológico. Também preserva canais entre polos rivais, condição importante para que o País diversifique parceiros sem converter autonomia em isolamento. O Brasil é continental e atlântico, pacífico e culturalmente plural. Sua própria formação lhe dá uma facilidade incomum de conversar com sociedades muito diferentes. Essa singularidade só pesa quando o País consegue transformá-la em algo que outros valorizem e tenham interesse em preservar. Sem isso, identidade vira decoração e potencial continua promessa.
Daí uma pergunta que se faz pouco: o que o Brasil pode oferecer ao mundo além de commodities? A influência do País cresce quando parceiros nos consideram úteis, confiáveis e capazes de entregar. A América do Sul é o teste mais próximo. O tamanho do mapa não assegura liderança; ela precisa ser conquistada por iniciativas que também tornem os vizinhos mais prósperos, conectados e seguros. Em escala maior, a lógica permanece: relações ficam mais favoráveis quando o Brasil oferece algo cuja ausência também teria custo para os outros.
Essa estratégia exige continuidade. Presidentes têm mandato para mudar prioridades, mas afinidades ideológicas e disputas partidárias não deveriam consumir canais, conhecimento e projetos que levam anos para amadurecer. O Itamaraty e as demais instituições que acumulam capacidade internacional precisam atravessar mandatos sem que o País seja obrigado a recomeçar do zero. Política de Estado, aqui, não significa imobilizar escolhas democráticas, mas acumular força através dos governos.
Rivalizar em todos os terrenos com Estados Unidos ou China seria fantasia. Uma ambição plausível é construir força suficiente para negociar com os grandes polos sem posição estruturalmente subalterna nos domínios em que o Brasil pode ser relevante. Uma potência, nesse sentido, tem opções, algo valioso a oferecer e margem para defender seus interesses. O Brasil já dispõe de boa parte da matéria-prima. A tarefa é convertê-la em força suficiente para que sua presença no mundo pese mais nas escolhas alheias e dependa menos delas.
O poder que o Brasil nem sabe que tem – Estadão
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