Engenheiros, advogados e desenvolvimento

Obra compara as realidades das duas maiores potências globais, EUA e China, de um ângulo pouco usual

Por Armando Castelar – Valor – 10/07/2026

Pesquisador do IBRE/FGV, professor do Instituto de Economia da UFRJ, Castelar é PhD em economia por Berkeley e foi chefe do Departamento Econômico do BNDES

Faz um tempo que penso em escrever sobre o livro de Dan Wang, “Breakneck: China’s Quest to Engineer the Future” (W W Norton & Company, 2025). Nele, o autor compara as realidades das duas maiores potências globais, mas de um ângulo pouco usual: o das profissões que dominam a política em cada país, engenheiros na China, advogados nos EUA. O livro foca especialmente na China, onde o autor nasceu, emigrando ainda criança para o Canadá, e onde depois trabalhou durante alguns anos.

O livro tem essencialmente duas partes. Na primeira, Wang louva a capacidade dos engenheiros avançarem na construção da infraestrutura e na industrialização da China. Me lembrou do comentário de um colega de faculdade, muitos anos atrás, quando disse que os engenheiros são treinados para nunca dizer não sei, mas sim quanto tempo eu tenho para resolver o problema? Aqui o autor realça o fato de que, nos EUA, em contraste, o foco recai sobre o processo, não o resultado, tornando tudo mais complicado. Em especial, isso explicaria suas carências de infraestrutura e a dificuldade de (re-)avançar com a industrialização.

Wang exemplifica com a instalação do trem-bala, com os dois países iniciando projetos em 2008: entre Pequim e Xangai, na China, entre São Francisco e Los Angeles, nos EUA, ambos com extensões de cerca de 800 milhas. Na China, o projeto foi concluído em 2011, ao custo de US$ 36 bilhões e na sua primeira década de operação transportou US$ 1,35 bilhão. Nos EUA, há apenas um pequeno trecho central concluído e a estimativa é que o trem só entre em operação entre 2030 e 2033, a um custo de US$ 128 bilhões: “[e]m outras palavras, a margem de erro na previsão da data de inauguração de apenas um trecho da ferrovia de alta velocidade da Califórnia equivale ao tempo que a China levou para construir integralmente a linha Pequim-Xangai”.

Engenheiros dominam a política na China e, nos EUA, os advogados. No Brasil, tivemos os dois de forma alternada

Na segunda parte do livro, porém, a coisa muda. Aí o autor passa a analisar os problemas que advêm desse foco total em resolver problemas, mesmo quando se sabe pouco sobre eles. São particularmente impactantes as descrições das políticas de controle de natalidade, de limitar os casais a terem um único filho, e a forma como a China lidou com a pandemia do covid-19. Mesmo que se possa argumentar ter havido foco no interesse coletivo, o livro aponta para uma falta de respeito a direitos humanos básicos que impressiona.

Esse tipo de dicotomia até certo ponto ajuda a pensar as transformações por que passou o Brasil no último século. A partir dos anos 1930, e com mais força em meados do século XX, passamos a dar grande foco à engenharia. Em seu “Politics within the State”( Univ. Pittsburgh Press, 1991), Ben Scheneider observa, por exemplo, que “[d]ois desenvolvimentos complementares das décadas de 1940 e 1950 — a expansão do ensino técnico (engenharia e economia) e o crescimento do aparato estatal de planejamento e produção (que absorveu os novos graduados) — criaram um quadro de novos burocratas”. O caso com que Schneider abre o livro, dos diretores da Vale desistindo das demoradas negociações com investidores japoneses e decidindo avançar com uma fábrica própria de alumínio, é um bom exemplo de como a visão dos engenheiros guiava decisões e ações na economia.

Esse período registrou elevados investimentos em infraestrutura — rodovias, energia elétrica, telecomunicações etc. — e amplo processo de industrialização, com a participação da indústria de transformação no PIB indo de 20% em 1947 para 36% em 1985. De 1931 e 1985, o PIB cresceu 6% ao ano. A Estrada de Ferro Carajás, com 892 km, foi construída em pouco mais de três anos. Projetos da época, como Itaipu e a Ponte Rio-Niteroi, seriam quase impensáveis atualmente. Por outro lado, menos atenção foi dada aos direitos humanos, por exemplo.

Com a redemocratização, o social ganhou ênfase, com mais atenção a temas como o combate à pobreza e a proteção do meio ambiente, por exemplo. Por outro lado, o investimento em infraestrutura despencou, a industrialização retrocedeu — com a indústria de transformação indo para 12% do PIB — e o crescimento do PIB caiu para 2,3% ao ano (1986-2025). A administração pública ficou mais burocrática e em várias áreas a privatização se tornou o único caminho para implementar certas políticas e investimentos. O Brasil de hoje é mais dos advogados do que dos engenheiros, mostram meus colegas Antonio Porto e Isabel Veloso em análise do mesmo livro.

O que é melhor, crescer a renda per capita rapidamente, com elevados investimentos e crescente sofisticação econômica, ou focar no respeito aos direitos individuais e em processos transparentes e regras socialmente aceitas? O livro não responde. Ele se inclina mais para a segunda opção, mas não fica claro se essa inclinação seria a mesma para todos os níveis de renda per capita.

Essa é, porém, uma falsa dicotomia. Há bons exemplos de países, na Europa e na Ásia, que conciliaram as duas coisas. Há bons projetos de trem-bala na França e no Japão, por exemplo. Por aqui também podemos ir para uma combinação mais equilibrada, com mais ênfase na engenharia, em resolver nossos problemas, e menos em intermináveis e inseguros procedimentos, sem que isso signifique sacrificar direitos básicos.

Armando Castelar Pinheiro, professor da FGV Direito Rio e do Instituto de Economia da UFRJ, é PhD em economia pela Universidade da Califórnia, Berkeley.

https://valor.globo.com/opiniao/armando-castelar-pinheiro/coluna/engenheiros-advogados-e-desenvolvimento.ghtml 

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Os motivos para aprender logaritmo e química orgânica

Pergunta certa não é ‘onde vou usar logaritmo’, mas ‘o que aconteceu no meu cérebro quando aprendi a resolver um problema matemático com logaritmo’

Por Priscila Cruz – O Globo – 09/07/2026 

“Para que aprender logaritmo se eu não vou ser engenheiro?” “Por que estudar química orgânica se meu plano é empreender?” “Onde, na vida real, vou usar isso que a escola me ensinou?” Esse tipo de questionamento é muito repetido nos corredores escolares e também por adultos que já esqueceram quase todo o conteúdo que um dia aprenderam na escola. É uma crítica sedutora, quase óbvia. E é também profundamente equivocada, porque parte de uma pergunta errada. A pergunta certa não é “onde vou usar logaritmo”, mas “o que aconteceu no meu cérebro quando aprendi a resolver um problema matemático com logaritmo”.

Uma dimensão muito importante do período escolar é aprender a aprender, mesmo que não haja um uso óbvio do conteúdo em si. O percurso cognitivo percorrido para decorar cadeias montanhosas, resolver um problema matemático, compreender um período histórico e suas consequências, ter fluência leitora, entender uma sequência de eventos biológicos, tudo isso é musculação para o cérebro: identificar padrões, testar hipóteses, errar, ajustar, tentar outro caminho, memorizar, compreender. Essas são conexões neurais reais, que não desaparecem quando a fórmula é esquecida. Elas estarão disponíveis diante de outros problemas complexos que a vida vai apresentar, seja qual for a realidade de cada um.

O valor de ter enfrentado um conteúdo difícil, ter se frustrado com ele e ter conquistado a compreensão está sobretudo no desenvolvimento cognitivo e na confiança de que o próximo obstáculo difícil também pode ser vencido.

Aprender a aprender também tem como premissa que aprendizagens anteriores viabilizam futuras aprendizagens. Por exemplo, para resolver uma equação do segundo grau, é preciso ter aprendido as operações matemáticas, o conceito de equação e como resolver equações de primeiro grau. Então, mesmo quando uma aprendizagem parece de pouca utilidade, ela será escada para outras.

Com a esperança de que tenham concordado com meus argumentos, quero defender uma política pública, propor uma revisão e criticar uma prática recorrente na educação pública, nesta ordem: a recomposição da aprendizagem, a Base Nacional Comum Curricular e a aprovação automática.

Se um aprendizado é anterior a outros mais complexos ou difíceis, a recomposição da aprendizagem é absolutamente necessária. Ela acontece quando há intervenções pedagógicas para que um aluno não acumule defasagens, ou seja, a dificuldade é identificada, seja do ano vigente ou mesmo de anos anteriores, e há um processo intencional para que a aprendizagem seja efetivada no curso do ano letivo, sem carregar as deficiências basilares para outros anos. A recomposição não é apenas para períodos de exceção, como pandemias e eventos climáticos extremos, ela é sempre necessária, porque é fato da vida que algumas aprendizagens podem ficar para trás.

É esperado que, ao longo da trajetória escolar, alunos não consolidem de primeira o entendimento de alguns conceitos, fatos e raciocínios. O que não é aceitável é que os alunos não tenham outras oportunidades para voltar a esses aprendizados. É preciso identificar as lacunas e fechá-las com intervenções rápidas para que não se tornem bolas de neve, que é exatamente o que acontece em larga escala no Brasil. Em São Paulo, por exemplo, numa sala de aula de 9º ano, em média apenas 16% dos alunos têm o aprendizado esperado para essa etapa; o maior agrupamento está com aprendizado esperado relativo ao final do 5º ano. Importante deixar claro que a expansão da jornada, com mais horas na escola, é franca viabilizadora da recomposição, pois a dimensão do tempo é crucial.

Para acertarmos mais na recomposição, é preciso rever a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que é absurdamente inchada. Isso gera uma corrida que atropela alunos e o trabalho dos professores, ao invés de aprendizados em profundidade. Além disso, é preciso sequenciamento claro para que professores consigam planejar melhor suas aulas e desenvolver o trabalho de recomposição. Priorizar o que será aprendido não é cair na tentação de cortar apenas por não parecer necessário ou útil, mas de ter clareza em relação a quais aprendizagens vão viabilizar mais aprendizagens.

Por fim, é preciso acabar com a aprovação automática que tem substituído a progressão continuada, pela qual os alunos são aprovados sem terem necessariamente aprendido e, portanto, sem terem tido a oportunidade de recomposição da aprendizagem. Como aprovar mais faz subir o Ideb, infelizmente algumas redes de ensino têm colocado muita energia nesse disfarce. Ao invés de aprovação automática, é preciso progressão continuada, que tem como premissa a recomposição da aprendizagem e um currículo mais ajustado. Não se trata aqui de defender a reprovação, longe disso, pois ela raramente resolve defasagens e frequentemente empurra o estudante para fora da escola, mas sim o foco obsessivo na aprendizagem, que terá como consequência o aumento, com lastro, do Ideb.

O Ideb já deveria ter sido divulgado. Quando for, a dimensão da aprendizagem deve ser observada com atenção, e a dimensão da aprovação, analisada com cautela e visão crítica.

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Estrangeiros descobrem o SUS, ficam abismados e viralizam nas redes; entenda o que surpreende

O que para muitos brasileiros parece comum costuma causar surpresa em turistas e imigrantes acostumados a modelos de saúde bem diferentes

Por Luís Fernando Correia – Estadão – 07/07/2026 

Em junho do ano passado, o jornalista Terrence McCoy, correspondente do Washington Post no Rio de Janeiro, estava de férias em Paraty quando a tampa do porta-malas do carro se soltou e caiu sobre sua cabeça. Sangrando, tonto, ele desmaiou. E, enquanto era levado de ambulância, teve, nas palavras dele, “um pensamento teimosamente americano”: “Quanto isso vai me custar?” Seis horas depois, com tomografia, raio-X do crânio e seis pontos na cabeça, veio a resposta: nada. McCoy morava no Brasil há seis anos, sempre usava a rede privada, e aquele foi seu primeiro contato com o Sistema Único de Saúde (SUS). O espanto virou reportagem no jornal americano.

Esse não é um caso isolado. Tem uma enxurrada de estrangeiros gravando vídeos abismados com a mesma descoberta: “Fui atendido no Brasil e não paguei nada”. Para nós, isso é rotina. Para eles, é quase um choque civilizatório. E vale a pena entender por que a reação deles é um espelho do que a gente construiu e naturalizou.

A criação do SUS e seus princípios

O SUS nasceu na Constituição de 1988, com aquela frase que virou princípio: “A saúde é direito de todos e dever do Estado”. Antes disso, o Brasil era outro país. Só quem tinha carteira assinada e contribuía para a Previdência tinha atendimento garantido – na prática, eram cerca de 30 milhões de pessoas. O resto dependia de caridade, de Santa Casa, ou pagava do próprio bolso. Quem não tinha, não era atendido.

Em 1990, a Lei 8.080 organizou o sistema sobre três princípios que vale guardar: universalidade (atende todo mundo); integralidade (cuida da pessoa inteira, e da vacina ao transplante); e equidade (investe-se mais onde a necessidade é maior). Não é tratar todo mundo igual. É tratar de forma desigual os desiguais, para reduzir distâncias.

O SUS nasceu na Constituição de 1988 e se baseia em três princípios: universalidade, integralidade e equidade.

O que impressiona no relato do McCoy não é só o “custo zero”. É que ele, jornalista experiente, foi honesto dos dois lados. Escreveu, sim, que a saúde no Brasil é um direito consagrado na Constituição, e que os 215 milhões de brasileiros, mais os residentes estrangeiros, têm direito a atendimento gratuito no maior sistema público de saúde do mundo. Só que não transformou isso em cartão-postal: ponderou que o sistema está longe de ser perfeito, com filas longas para ver especialistas, falta de recursos, greves frequentes e hospitais sobrecarregados na pandemia. Mas fechou com uma frase que eu queria que mais brasileiros ouvissem: foi atendido com dignidade, mesmo sem plano e sendo estrangeiro – e isso diz muito sobre a ideia de civilização que um país escolhe defender.

E os números dão lastro ao espanto dele. Hoje, 76% da população brasileira — de um total de 213 milhões de pessoas – depende diretamente do SUS. São 2,8 bilhões de atendimentos por ano, com cerca de 3,5 milhões de profissionais. Em Estados como Roraima, Amapá e Piauí, a cobertura chega perto de 100%.

E cabe um olhar para além do volume de atendimentos. O Brasil tem a maior rede pública de transplantes do mundo, alcançando 30 mil procedimentos em 2024. Tem o maior programa de vacinação da América Latina, que erradicou a poliomielite em 1994. E a mortalidade infantil caiu de 22 para 12 mortes a cada mil nascidos vivos entre 2000 e 2023.

Existem outros sistemas universais no mundo, e alguns excelentes: o NHS britânico, o canadense, os europeus. O Reino Unido, aliás, inspirou o nosso. Mas há uma diferença de escala que muda tudo. Nenhum desses países combina, ao mesmo tempo, o tamanho populacional do Brasil, a extensão continental e a desigualdade que o SUS enfrenta. O NHS atende cerca de 68 milhões de pessoas num território menor que o Pará. O Canadá tem 40 milhões de habitantes, mas com um dos maiores PIBs per capita do planeta. O SUS atende mais de 200 milhões, em uma nação de dimensões continentais, com uma fração do orçamento por habitante desses países e ainda leva atendimento à Amazônia, ao sertão, à terra indígena.

Por isso se diz que temos o maior sistema universal do mundo. Não que seja o melhor em cada indicador: não é, e seria desonesto afirmar isso. Mas nenhum outro país oferece cobertura universal e gratuita nessa escala, nessa geografia, e com esse grau de desigualdade para vencer. E, para dar dimensão do contraste: mais de 800 milhões de pessoas no mundo gastam pelo menos 10% do orçamento familiar com saúde. Cerca de 4,6 bilhões seguem sem acesso a serviços essenciais. O turista que se espanta ao não pagar a conta está reagindo a algo real. Afinal, em boa parte do planeta, adoecer é um risco financeiro sério.

Há poucos dias, uma influenciadora americana do Alasca, Jesseka Martin, ficou 12 dias internada em um hospital público do Rio de Janeiro. Ou seja, não falamos de um atendimento rápido de pronto-socorro, mas sim do sistema sob pressão real, dia após dia. Ainda no leito, antes mesmo da alta, ela gravou um vídeo. Disse que, como americana, não sabia o que esperar, mas que, desde o primeiro dia, foi tratada com respeito, atenção e carinho pela equipe. E fez uma comparação que dói: nos Estados Unidos, ela sente que o paciente é tratado como cliente, numa relação fria. No SUS, disse ela, todos ali a tratavam como uma pessoa, e não como uma cliente. Guardem essa frase. Porque ela aponta para algo que nenhuma estatística captura: não é só o “de graça”. É o modelo. Um sistema onde você é cidadão com direito, e não consumidor com fatura.

Agora, para não cair no ufanismo: o SUS tem problemas graves e conhecidos. A fila de espera para atendimento com especialistas e realização de cirurgia eletiva é o maior deles. O subfinanciamento é crônico. Há desigualdades brutais de qualidade entre regiões — o SUS de uma capital não é o SUS de um município pequeno do interior.

Celebrar o sistema não é fingir que está tudo resolvido. É reconhecer o que ele entrega (apesar de tudo) e defender que precisa de mais recursos, não de menos.

Então, da próxima vez que você vir um estrangeiro emocionado com o atendimento gratuito no Brasil, seja um jornalista do Washington Post ou uma influenciadora do Alasca, lembre-se de que o espanto deles é um espelho. Mostra o valor de uma coisa com a qual a gente convive todo dia, mas esquece de enxergar. O SUS é imperfeito, subfinanciado, injusto em muitos lugares. E, ainda assim, é uma das construções mais generosas e ambiciosas que este País já fez. Vale defender, vale melhorar. E vale, de vez em quando, olhar com os olhos de quem vem de fora e se impressiona.

Opinião por Luís Fernando Correia

Médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNIRIO), especialista em Clínica Médica e Terapia Intensiva com MBA em Gestão de Saúde pelo Ibmec – RJ e possui Executive Certificate – MIT (Boston, USA). Atua como comentarista em rádio, TV e internet.

Estrangeiros descobrem o SUS, ficam abismados e viralizam nas redes; entenda o que surpreende – Estadão 

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Por mudanças profissionais com a instituição onde publicava outros artigos meus e informações sobre inovações, tive que criar um novo grupo no WhatsApp https://chat.whatsapp.com/CNud8bQUUYM4n8ryXA3ZaW e parar de publicar em  https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B . Quem tiver interesse pode sair do anterior e entrar nesse novo. Desculpem os transtornos. 

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Como funciona o fundo soberano da Noruega, um cofre de US$ 2 trilhões que ninguém pode abrir

País, algoz do Brasil na Copa da América do Norte, tem o maior empreendimento do gênero no mundo

Rodrigo da Silva – Estadão – 07/07/2026 | 09h30

A Noruega eliminou o Brasil da Copa do Mundo, e desde então debatemos o resultado à procura de um culpado.

Mas enquanto recolhemos os nossos cacos, o país de nossos adversários fechou o último ano com o maior fundo soberano do mundo: cerca de 21,3 trilhões de coroas, algo como US$ 2,2 trilhões – um montante equivalente a quase quatro vezes tudo o que a economia norueguesa produz num ano.

Dividido pela população, isso dá algo perto de US$ 375 mil para cada norueguês, do recém-nascido ao aposentado. Mas ninguém pode sacar um centavo.

Essa história começa com uma quase desistência. No fim dos anos 1960, diferentes petroleiras furaram o Mar do Norte à procura de óleo e só encontraram água salgada.

A americana Phillips estava pronta para ir embora. Tinha uma sonda alugada – a Ocean Viking –, e uma diária a pagar de qualquer jeito. Decidiu perfurar um último poço só para não jogar o aluguel fora. No dia 23 de dezembro de 1969, avisou o governo: havia petróleo. E muito. O campo se chamaria Ekofisk – e segue produzindo ouro negro, mais de meio século depois.

A Noruega não sabia o que fazer com aquilo. Nunca tinha gerido petróleo. A resposta chegou disfarçada de uma tragédia pessoal.

Uma ajuda iraquiana

Farouk Al-Kasim, geólogo nascido em Basra, no Iraque, era executivo de uma petroleira quando o filho caçula nasceu com paralisia cerebral. A Noruega, terra da sua esposa, tinha um dos melhores sistemas públicos do mundo para tratar a condição. Al-Kasim largou a carreira e mudou-se para Oslo. Num dia de 1968, com algumas horas de sobra antes de pegar um trem, entrou no Ministério da Indústria para perguntar sobre as empresas que operavam no país. Saiu de lá empregado. O ministério precisava justamente de alguém capaz de ler dados sísmicos, e ali estava alguém nessa condição.

Al-Kasim passou três meses debruçado sobre os registros de 13 poços e concluiu que a Noruega estava sentada sobre uma província petrolífera gigantesca. Mais do que isso: conseguiu convencer o governo de que a abundância podia ser uma cilada.

Ele conhecia a “doença holandesa”, o fenômeno em que o dinheiro fácil do petróleo valoriza a moeda, encarece tudo e sufoca a indústria que não é de energia. Por isso, ajudou a desenhar um modelo em que o Estado controlava o jogo sem afugentar o capital: uma petroleira estatal, a Statoil (hoje Equinor), uma agência reguladora independente e tributação pesada sobre a extração. Em 2012, Al-Kasim foi sagrado cavaleiro pela monarquia norueguesa. O homem que salvou a Noruega da maldição do próprio petróleo era um imigrante iraquiano.

Uma nova receita

O raciocínio técnico virou lei em 1971. O Parlamento aprovou os “dez mandamentos do petróleo”, redigidos sob a batuta do deputado Rolf Hellem. Os princípios diziam que o recurso pertencia ao povo, que o Estado supervisionaria tudo, que o gás não seria queimado à toa e que a extração seria tributada com força.

Os partidos combinaram nunca transformar os mandamentos em bandeira eleitoral – e cumpriram. Houve, até aqui, meio século de estabilidade regulatória, sem um governo desmontando o que o anterior havia montado.

Al-Kasim costumava dizer que foram três os milagres: os políticos concordaram com o documento, concordaram em não brigar por ele nas urnas, e mantiveram a palavra.

A disciplina chegou ao ponto da Noruega não gastar o dinheiro. O fundo só nasceu em 1990, quase vinte anos depois do início da produção. O primeiro depósito veio em 1996. A primeira retirada, só em 2016. O país passou quatro décadas construindo um cofre antes de tirar dele a primeira nota.

Como funciona o fundo soberano

O abastecimento é simples de descrever e difícil de imitar. Toda a receita líquida do petróleo entra no fundo: o imposto sobre as petroleiras, que na Noruega chega a uma alíquota marginal de 78%; os dividendos da Equinor; e a participação direta do Estado nos campos, um mecanismo em que o próprio governo é sócio da produção. Esse caixa não passa pelo orçamento comum. Vai direto para o fundo, que investe cada coroa fora da Noruega – de propósito, para não superaquecer a economia interna.

O governo não pode encostar no principal. Só gasta o retorno esperado, num limite apelidado de “regra fiscal”: eram 4% ao ano em 2001, viraram 3% em 2017. Mesmo assim, é dinheiro que banca mais de 1/4 do orçamento nacional. O petróleo paga hospital, escola e estrada sem que a Noruega precise tocar no bolo.

E um detalhe: embora ele seja chamado de “fundo do petróleo”, o petróleo já é minoria dele. Desde 1996, entraram cerca de 5,4 trilhões de coroas vindas do óleo e do gás. Os investimentos, sozinhos, renderam 13,5 trilhões. Mais da metade de todo o fundo não é petróleo: é juro sobre juro, dividendo reinvestido, ação que subiu. O barril plantou a semente. O mercado fez crescer a árvore. Se o Mar do Norte secar amanhã, o cofre continua rendendo sozinho.

Rendimentos impressionantes

E o cofre é grande a ponto de redesenhar o mapa da propriedade mundial. O fundo é dono, em média, de 1,5% de todas as ações negociadas no planeta. São participações em cerca de 7.200 empresas. Ele figura entre os maiores acionistas da Nvidia, da Apple e da Microsoft – hoje a Nvidia é a maior posição da carteira, empurrada pela euforia com inteligência artificial. Em 2025, o fundo rendeu 15,1%, ou 2,36 trilhões de coroas, o segundo melhor resultado da sua história.

E a Noruega faz questão de que o cidadão veja isso acontecer. O site do fundo exibe um contador que sobe (e desce) em tempo real, coroa a coroa. Foi acompanhando esse número que, em janeiro de 2014, os noruegueses viraram milionários no papel: o fundo cruzou a marca que dava mais de um milhão de coroas por habitante. Ninguém enriqueceu de fato – o dinheiro é intocável –, mas a conta virou motivo de orgulho nacional.

Nem toda a fortuna está em papel. O fundo é dono de tijolo em endereços que qualquer turista reconhece. Tem 25% da Regent Street, em Londres. Comprou a fatia da Crown Estate, o braço imobiliário da monarquia britânica, e virou sócio da Coroa numa das ruas mais movimentadas da cidade, com 113 prédios e inquilinos como Apple e Burberry. Tem também 100% de um edifício na Champs-Élysées, pago por 613 milhões de euros, recorde de preço por metro quadrado na avenida. E ainda torre na Times Square, prédios em Nova York e um pedaço de Covent Garden.

Regras mais éticas

O fundo também tem uma lista de proscritos. Um Conselho de Ética independente recomenda quais empresas ficam de fora, e os critérios são duros: fabricantes de armas nucleares, tabaco, carvão, companhias ligadas a violações graves de direitos humanos. Já foram barradas quase duas centenas de empresas. O Walmart caiu em 2006, por práticas trabalhistas, e o embaixador americano foi reclamar pessoalmente no Ministério das Finanças. Em 2025, a Caterpillar foi excluída porque suas escavadeiras eram usadas em demolições em Gaza e na Cisjordânia, ao lado de cinco bancos israelenses – o que rendeu à Noruega uma reprimenda formal do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

Empresas brasileiras conhecem o peso dessa lista. A Vale foi excluída depois de Mariana e Brumadinho, por risco de dano ambiental grave. A Eletrobras saiu por causa de Belo Monte e do impacto sobre as comunidades indígenas. Estar na carteira norueguesa é um selo. Ser expulso é um carimbo difícil de lavar.

A régua ética, no entanto, não é imóvel. Em novembro de 2025, sob pressão americana e diante de um mundo mais tenso, o Parlamento norueguês votou por suspender as exclusões por cerca de um ano, para revisar as próprias regras. O placar foi de 85 a 17.

A filosofia do fundo é ser entediante de propósito. Ele não aposta em palpites: acompanha o índice global, compra quase tudo, não pode deter mais de 10% de nenhuma empresa e não investe na própria Noruega. Nicolai Tangen, que comanda a gestora desde 2020, resume sem romantismo: se os mercados caem, o fundo cai junto.

Tangen é um personagem à parte. Ex-gestor de fundo de investimento em Londres, doou a própria fortuna – cerca de US$ 700 milhões – a uma fundação para poder assumir o cargo público sem conflito de interesse. Sua contratação virou escândalo: pouco antes de ser escolhido, ele havia levado convidados num jato particular a um evento com show de Sting que custou US$ 1 milhão. Hoje nada em fiorde gelado às seis da manhã, vai de patinete elétrico ao trabalho e apresenta um podcast em que entrevista gente como Sam Altman e Satya Nadella.

Sob o seu comando, o fundo apostou pesado em inteligência artificial. Ele gere US$ 2,2 trilhões com uma equipe de pouco mais de 600 pessoas – e congelou contratações porque a máquina passou a dar conta do serviço.

Metade dos funcionários programa as próprias ferramentas, que vasculham riscos de quase 9.000 empresas e leem notícias em 16 idiomas. Para filtrar dilemas éticos da carteira, a Noruega usa um modelo de inteligência artificial da Anthropic. Um fundo nascido do petróleo, curando a própria consciência com software de ponta. Há até um flerte involuntário com o mundo cripto: a Noruega não compra bitcoin, mas acabou exposta à moeda sem querer, através de ações de empresas como a Strategy e a Coinbase.

Em 2019, o fundo do petróleo se desfez de mais de uma centena de petroleiras puras da carteira. Oficialmente, para reduzir a exposição ao risco do próprio barril. Ao mesmo tempo, o país nunca deixou de bombear óleo e gás. Depois que a Rússia invadiu a Ucrânia, em 2022, a Noruega virou a maior fornecedora de gás da Europa e faturou uma fortuna com a disparada dos preços – dinheiro que engordou o mesmo fundo que se vende como investidor responsável. A Noruega vende o combustível e financia a transição verde com o troco.

Prejuízos acontecem

Nem tudo são recordes. Em 2022, o fundo perdeu 1,64 trilhão de coroas num único ano, com a guerra e a inflação. Mas ninguém em Oslo entrou em pânico – uma vantagem de quem pensa em décadas: um ano ruim vira ruído.

No fim, o segredo norueguês é menos financeiro do que cultural. Existe na Escandinávia uma regra social não escrita, a Janteloven, que desestimula a ostentação e prega que ninguém é melhor que o vizinho. Numa sociedade assim, é politicamente viável guardar trilhões em vez de distribuí-los na véspera da eleição. O eleitor norueguês aceita que o dinheiro do petróleo não é dele. É dos netos que ainda não nasceram.

É isso que torna o cofre de US$ 2 trilhões tão difícil de copiar. A engenharia é conhecida e está toda publicada na internet. O que não se importa é a paciência de um país que achou petróleo, fez as contas com a ajuda de um iraquiano, escreveu dez mandamentos, prometeu não brigar por eles e passou 50 anos sem gastar o principal.

Ninguém na Noruega parece estar à procura de culpados.

Opinião por Rodrigo da Silva

É jornalista e criador do canal Spotniks, do YouTube. Em suas colunas, usa texto, vídeo, gráfico, mapa e fotografia para ajudar o público a entender os maiores eventos globais, com clareza e contexto.

Como funciona o fundo soberano da Noruega, um cofre de US$ 2 trilhões que ninguém pode abrir – Estadão 

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Brasil é potência na matemática, mas fracasso no ensino básico

  • País faz parte de grupo de referência em pesquisa da área, ao lado de Alemanha, China, EUA e França
  • Especialista sugere criar categoria de IA em Olimpíada de Matemática das escolas públicas

Ronaldo Lemos – Folha – 5.jul.2026 

Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro

Há uma área em que o Brasil brilha e pode brilhar mais: a matemática. Desde 2018 fazemos parte do seleto “Grupo 5” da União Matemática Internacional, que reúne as nações mais desenvolvidas em pesquisa matemática. Estamos ao lado da Alemanha, da China, dos EUA e da França. Lá, somos o único país do hemisfério Sul.

Não temos Prêmio Nobel, mas temos a medalha Fields, igualmente importante, conquistada pelo brasileiro Artur Avila em 2014. É nossa maior conquista em ciência brasileira até hoje.

Respondemos por 2,35% da produção acadêmica em matemática global. Não é pouco, e o percentual está crescendo. As profissões ligadas à matemática correspondem a 4,6% do PIB brasileiro (pesquisa do Itaú Social) e geram inovação, empregabilidade e altos salários.

Por trás dessas conquistas está um trabalho de décadas, iniciado em 1946. No epicentro estão instituições como a PUC-Rio, o IME, o ITA e sobretudo o Impa, nosso Instituto de Matemática Pura e Aplicada criado em 1952, no Rio. Como diz a doutrina chinesa sobre o tema: “Toda potência mundial é necessariamente uma potência matemática”. E o Impa é nossa joia da coroa nesse quesito.

A boa nova é que o Impa está prestes a inaugurar uma unidade em Teresina (PI). A razão é estratégica. Um quarto das medalhas da Obmep (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas) vem do Nordeste. Cidades como Cocal dos Alves, no Piauí, são referência nacional na formação de medalhistas. Talentos regionais não vão precisar migrar para o Sudeste para poder brilhar.

A Obmep, aliás, é a maior olimpíada de matemática do mundo. Em 2025 contou com 18,6 milhões de estudantes, cobrindo 99,9% do território do país. Os medalhistas entram no programa de iniciação científica do CNPq, recebendo bolsas de R$ 300 por mês. Participam então de novas competições, que levam ao Impa. É um funil gigantesco de identificação de talentos.

Faço inclusive uma crítica amigável: em 2025 houve alunos desclassificados da Olimpíada porque usaram IA (inteligência artificial). A IA faz parte do futuro da matemática. Os modelos de inteligência artificial atuais não dominam plenamente a matemática. O futuro da matemática é justamente a integração entre os modelos de linguagem natural (LLMs) com computação simbólica (por exemplo, o Mathematica, da Wolfram) e verificação formal (como o Lean). Minha sugestão é que a Olimpíada crie uma categoria de IA e matemática, para receber os alunos que quiserem experimentar com essa junção.

Também vale lembrar que o Impa brilha por uma série de singularidades. Continuidade de gestão (teve apenas seis diretores desde 1952) e tecnologia institucional. Organiza-se como uma OS e pode contratar por CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e comprar equipamentos e serviços de forma ágil.

Por fim, o desafio do Brasil é enfrentar um paradoxo. Somos o único país que faz parte do cobiçado Grupo 5 e tem, ao mesmo tempo, 73% dos jovens de 15 anos abaixo do nível básico de matemática. Nesse sentido, é preciso qualificar: somos sim o país da matemática no topo, mas somos um deserto na base.

É possível mudar isso? Sem dúvidas. Falta o foco nos professores (a criação da Olimpíada de Matemática dos Professores é um avanço). E olhar as lições da Índia e do Vietnã, que têm criado impressionantes programas nessa área. E claro, construir nosso próprio caminho, que é a especialidade do Brasil que funciona. Mas só quando queremos de verdade.

Brasil é potência na matemática, mas fracasso na base – 05/07/2026 – Ronaldo Lemos – Folha 

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O Você de 2027 Vai Agradecer o Final de Semana que Você Perdeu em 2026

Pela primeira vez, uma única pessoa consegue transformar uma ideia em algo concreto com velocidade suficiente para competir com organizações inteiras. Leia na Entrelinhas de Junior Bornelli

O Você de 2027 Vai Agradecer o Final de Semana que Você Perdeu em 2026
Junior Bornelli – Entrelinhas – 04/07/2026
Existe uma decisão aparentemente pequena que pode mudar completamente a sua trajetória profissional nos próximos anos. Ela não exige um investimento alto, um curso caro ou uma mudança radical de carreira. Exige apenas coragem para fazer algo que a maioria ainda está evitando: passar um final de semana inteiro construindo ao lado da inteligência artificial.Perceba que eu não disse estudando IA. Também não falei em assistir vídeos, ler notícias ou acompanhar especialistas. O que proponho é algo muito mais importante: sentar em frente à máquina e começar a criar. Escrever, testar, errar, refazer, pedir, criticar, melhorar e repetir. Afinal, ninguém aprende a nadar assistindo vídeos sobre natação.


Vivemos um momento curioso. Nunca houve tanto conteúdo produzido sobre inteligência artificial e, ao mesmo tempo, tanta gente que ainda não construiu absolutamente nada com ela. A IA virou assunto de conversa, tema de palestras e pauta de reuniões. Mas continua distante do lugar onde realmente importa: o trabalho do dia a dia.Essa talvez seja a maior diferença entre quem apenas acompanha essa revolução e quem realmente será transformado por ela. Os primeiros continuam consumindo informação. Os segundos começaram a produzir com uma capacidade que simplesmente não existia há poucos anos.Durante décadas, transformar uma ideia em realidade exigia montar uma pequena força-tarefa. Um texto dependia de um redator. Uma apresentação precisava de um designer. Um software exigia um programador. Um vídeo dependia de um editor. Cada nova etapa criava uma fila entre a intenção e a execução. A inteligência artificial está comprimindo esse intervalo de uma forma que poucos perceberam. Pela primeira vez, uma única pessoa consegue transformar uma ideia em algo concreto com velocidade suficiente para competir com organizações inteiras.É por isso que acredito que estamos assistindo ao nascimento de uma nova categoria profissional: o Fazedor. Não é uma profissão no sentido tradicional, mas uma forma completamente diferente de trabalhar. O Fazedor não espera que alguém execute sua ideia. Ele utiliza a IA para tirar projetos da cabeça, construir protótipos, testar hipóteses, criar apresentações, desenvolver produtos, automatizar tarefas e aprender enquanto faz.Existe um detalhe importante nesse processo. A inteligência artificial não recompensa quem faz uma pergunta e espera um milagre. Ela recompensa quem aprende a trabalhar em conjunto com ela. A qualidade das respostas melhora à medida que melhora a qualidade da conversa. Em poucos dias, você deixa de tratar a IA como um mecanismo de busca sofisticado e começa a enxergá-la como um parceiro de construção. É uma mudança de comportamento muito maior do que parece.Talvez seja exatamente por isso que tanta gente ainda não percebeu o tamanho dessa transformação. A revolução não está acontecendo porque a IA responde perguntas melhor do que o Google. Ela está acontecendo porque a distância entre imaginar e executar está desaparecendo. Essa redução do tempo entre intenção e entrega pode ser uma das maiores mudanças na história do trabalho.Daqui a alguns anos, quando olharmos para trás, provavelmente perceberemos que a vantagem competitiva não ficou com quem mais estudou inteligência artificial. Ficou com quem perdeu o medo de construir com ela. Enquanto muitos passaram meses discutindo se a IA substituiria empregos, outros aproveitaram esse mesmo tempo para criar empresas, lançar produtos, reinventar processos e produzir dez vezes mais.Por isso, talvez o melhor investimento que você possa fazer neste ano seja desaparecer durante um final de semana. Não para descansar. Não para consumir mais conteúdo. Mas para construir. Feche a porta, abra o computador e coloque a inteligência artificial para trabalhar ao seu lado. Teste tudo o que sempre quis criar e nunca encontrou tempo, equipe ou recursos para realizar.Existe uma boa chance de que, quando 2027 chegar, você descubra que aquele não foi um final de semana perdido. Foi o momento em que você deixou de observar o futuro e decidiu começar a construí-lo.

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Ageless: por que todas as gerações exigem novos formatos de trabalho?

Exaustão mental e desejo por autonomia unem profissionais de todas as idades na busca por novos modelos contratuais e flexibilidade

Mauro Wainstock* – Exame – 2 de julho de 2026

A exaustão mental e o desejo por autonomia uniram colaboradores de todas as idades, colocando os novos modelos de trabalho no centro da agenda corporativa.

O esgotamento acelerou a busca por alternativas não tradicionais. Não se trata mais de uma insatisfação passageira, mas de uma revisão profunda sobre como a atividade profissional e a vida pessoal podem coexistir de forma saudável.

As discussões ultrapassaram a divisão entre atuação remota ou presencial. A pauta hoje envolve semana de quatro dias, direito à desconexão fora do expediente e saúde psicológica como indicador de governança.

As lideranças começam a perceber que a antiga estrutura simplesmente não aguenta as pressões.

O Impacto Financeiro da Rotatividade

Para entender o tamanho do problema, basta olhar os números.

De acordo com levantamento da Robert Half com base nos dados do Caged, o Brasil lidera o ranking mundial de rotatividade, com uma taxa superior a 50% ao ano.

Em setores como varejo e serviços, esse índice ultrapassa 80%.

Por sua vez, a pesquisa “Panorama da Gestão de Pessoas no Brasil Sólides/Offerwise” concluiu que o custo dessa saída constante chega a R$ 600 bilhões anuais,entre encargos trabalhistas, gastos com recrutamento, treinamento e o tempo até a plena produtividade do novo funcionário.

A conta não para aí. Em 2025, o país registrou mais de 9 milhões de pedidos de demissão voluntária e quase 550 mil afastamentos por transtornos mentais.

A Organização Internacional do Trabalho calcula que perdas vinculadas a doenças e acidentes laborais equivalem, em média,a 4% do PIB mundial.

No Brasil, com o PIB de 2024 em R$ 11,7 trilhões, isso representaria cerca de R$ 468 bilhões anuais (Ministério Público do Trabalho / SmartLab).

Convergência entre Gerações

Portanto, é fácil perceber que a busca por equilíbrio deixou de ser restrita a uma faixa etária específica.

A reality mostra que há muito mais convergência do que se imagina.

Profissionais de diferentes gerações estão igualmente cansados e querem controle sobre o próprio tempo, mesmo que usem caminhos diferentes para chegar lá.

Se a Geração Z constrói carreiras como criadores de conteúdo no mundo digital, muitos profissionais 50+ também ocupam posições relevantes nessa mesma economia.

Ricardo Amorim, Luiza Helena Trajano, Guilherme Benchimol, Max Gehringer e Sofia Esteves são exemplos de vozes com audiências expressivas no LinkedIn, cada um com trajetórias e áreas distintas.

Da mesma forma, se a bagagem acumulada ao longo dos anos permite que executivos veteranos atuem como conselheiros ou consultores independentes, os mais novos têm demonstrado disposição crescentemente para abrir negócios próprios e liderar startups.

Os pontos de partida são diferentes, mas o destino é semelhante: gerenciar os horários com maior grau de liberdade.

Novos Modelos e Tendências Globais

Essa mentalidade vem impulsionando a descentralização dos vínculos contratuais.

No Brasil, ganham força o cooperativismo de plataforma, as assessorias por projeto e os contratos intermitentes.

No exterior, formatos mais sofisticados já estão consolidados e começam a pressionar o mercado nacional.

As “Umbrella companies” europeias, por exemplo, assumem toda a burocracia tributária e obrigações jurídicas de trabalhadores independentes, que se concentram apenas na entrega técnica dos projetos.

Outra tendência que cresce fora do país é o modelo de portfólio de carreiras: em vez de um único vínculo formal, o especialista distribui sua atuação por múltiplas fontes de receita e projetos simultâneos.

No mercado de liderança, surgem os “Fractional executives”, gestores com histórico C-level que dedicam uma fração do tempo a diferentes organizações, geralmente em fase de crescimento ou reestruturação.

O modelo já é consolidado nos Estados Unidos e avança por aqui.

Segundo a revista Exame, CFOs, CMOs e CTOs estão aderindo cada vez mais a esse formato. A Gartner projeta que, até 2027, mais de 30% das médias empresas terão pelo menos um executivo nesse regime.

Há ainda os “Employer of record”, plataformas que contratam formalmente talentos em qualquer país, assumindo as obrigações trabalhistas locais enquanto o profissional trabalha para uma empresa em outro continente, sem precisar sair de casa.

Além das Soluções Paliativas

O que estamos questionando não são as soluções apresentadas hoje pelo mercado, mas os resultados que de fato alcançam. Por mais relevantes que sejam, seguem sendo paliativas.

Um dia extra de folga na semana produz algum efeito real quando o ambiente corporativo é tóxico ou a liderança é abusiva? A sexta livre elimina o acúmulo de estresse dos outros dias?

Da mesma forma, formalizar políticas de saúde mental ou impor multas administrativas raramente é suficiente para engajar uma equipe desmotivada, assim como nenhum pacote de benefícios compensa remuneração abaixo do mercado.

Será que palestras sobre equilíbrio eliminam o desgaste de quem passa várias horas diárias em transporte público superlotado, lidando com o tempo desperdiçado, as tensões do trânsito e a insegurança das metrópoles brasileiras?

O esgotamento é consequência de fatores individuais, organizacionais e sociais.

Ele representa um sintoma da própria cultura corporativa que exige redesenho profundo nos processos e não apenas aplicativos de relaxamento (por mais eficientes que eles sejam).

O Futuro Baseado na Autonomia

As organizações que querem estancar as perdas causadas pela rotatividade, o absenteísmo e o presenteísmo precisam atacar as causas.

Isso significa oferecer autonomia real, que engloba o poder de escolha sobre como, quando e de onde as metas serão cumpridas, com relações baseadas em confiança e entrega, não em vigilância de horário.

O futuro do trabalho não pertence a pacotes padronizados de benefícios nem a modelos que trocam constantemente de nome, mas mantêm a mesma essência.

A sustentabilidade das organizações depende de uma mudança de premissa. Hoje, flexibilidade, segurança psicológica e respeito ao tempo das pessoas deixaram de ser vantagens competitivas opcionais e viraram condição de permanência.

*Mauro Wainstock é palestrante sobre Gerações e consultor em turnover. Membro de 6 conselhos empresariais, foi nomeado 10º influenciador mundial em diversidade e inclusão e TOP RH Influencer América Latina. É jurado do Prêmio Ser Humano, promovido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos, LinkedIn Top Voice, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing e coautor de 15 livros. Foi idealizador e realizador do “Hacka4All”, o primeiro Hackaton sobre diversidade e inclusão do Brasil.

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Soberania em IA é mais importante que regulação

Temos de deixar de ser meros usuários de modelos estrangeiros

Pablo Ortellado – O Globo – 03/07/2026

Professor de Gestão de Políticas Públicas na USP

Uma reportagem publicada ontem no Financial Times revelou que a OpenAI, empresa por trás do ChatGPT, ofereceu uma participação de 5% ao governo americano. O objetivo é duplo. Com a participação direta do governo, a OpenAI espera diminuir obstáculos políticos e regulatórios trazidos pela administração Trump. Além disso, a oferta atende parcialmente a uma demanda da esquerda, que defende a nacionalização de metade das ações das grandes empresas de inteligência artificial para socializar os dividendos da automação (a proposta é do senador Bernie Sanders).

A proposta está ainda em fase inicial, mas deveria acender o alerta sobre a vulnerabilidade de nações como o Brasil — países que não detêm controle sobre a infraestrutura crítica em IA passam a depender da boa vontade do governo americano, que fica no comando direto do desenvolvimento e do acesso a uma tecnologia crítica. Dois outros incidentes recentes reforçam a preocupação.

Mesmo sem participação acionária, o governo Donald Trump proibiu a Anthropic, empresa por trás do Claude, de dar acesso a seu modelo Fable 5 a não americanos no começo de junho. A alegação para o controle de exportação foi que a tecnologia pode ser usada por atores estrangeiros maliciosos em ciberataques. A suspensão só foi revertida na terça-feira desta semana, depois de a Anthropic comprovar melhorias na segurança do produto e depois de crescer o temor de que não lançar o modelo no mercado global favoreceria concorrentes chinesas.

O bloqueio efetivo da exportação do Fable 5, ainda que por preocupações de segurança possivelmente razoáveis, mostra que, se os Estados Unidos controlarem o mercado da IA de ponta, podem tratar empresas nacionais e estrangeiras de forma não isonômica.

O último incidente preocupante foi revelado em fevereiro. Reportagem do Wall Street Journal revelou que funcionários da OpenAI não acionaram a polícia quando tiveram ciência de que um jovem, em conversa com o ChatGPT, planejava o ataque a uma escola. A ameaça não relatada à polícia terminou num massacre que deixou mortas cinco crianças de 12 e 13 anos.

Mais que falta de agilidade em acionar a polícia, o incidente revelou que a OpenAI, desde agosto de 2025, vinha escaneando conversas dos usuários para identificar crimes. A infraestrutura que faz varredura nas conversas procurando crimes violentos é a mesma que identifica segredos industriais, pesquisas científicas de ponta ou planejamento estratégico de governos. Como as revelações de Edward Snowden em 2013 mostraram, o risco de usar uma tecnologia como essa para espionagem não é especulativo, ainda mais se a empresa for diretamente controlada pelo governo americano.

Esses incidentes mostram que a posição de países como o Brasil pode ser muito vulnerável e que construir soberania é estrategicamente mais importante que regular a IA — afinal, a capacidade de garantir o acesso à tecnologia precede a definição de como ela deve ser usada.

O Brasil não pode aspirar ao controle vertical de toda a cadeia da IA, como faz a China, que pretende criar aplicações, modelos próprios, data centers e uma indústria nacional de chips. Mas pode fazer movimentos que tornem sua posição menos desfavorável.

Temos de deixar de ser meros usuários de modelos estrangeiros e passar a operar e adaptar modelos abertos em infraestrutura própria — o que nos protege da ingerência de americanos e chineses. Isso implica ter data centers domésticos com chips potentes e tratar os acervos públicos brasileiros — jurídicos e de saúde — como ativos estratégicos.

A posição diplomática do Brasil é um trunfo, pois manter laços fortes simultaneamente com Estados Unidos e China dá acesso tanto aos chips avançados ocidentais quanto aos modelos abertos chineses, que rivalizam com os americanos a uma fração do custo.

Nada disso, porém, se sustenta sem tratar a soberania tecnológica como política de Estado, acima da polarização. A direita precisa ser lembrada de que, antes de aliados ideológicos de Trump, são brasileiros. E a esquerda, de que foi o progressista Barack Obama que espionou a Petrobras e a Presidência da República.

Soberania em IA é mais importante que regulação 

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Le Monde elogia modelo de gestão, capacidade de inovação e crescimento da fabricante

Por RFI – O Globo – 02/07/2026 

Embraer é o terceiro maior construtor de aeronaves no mundo — Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

A edição impressa do jornal francês Le Monde desta quinta-feira (2) traz uma reportagem sobre a Embraer, apresentada como um dos maiores símbolos do sucesso industrial brasileiro. A publicação destaca que a fabricante, sediada em São José dos Campos, no interior de São Paulo, tornou-se a terceira maior produtora de aviões do mundo, atrás apenas da Airbus e da Boeing, transformando a cidade em uma espécie de Seattle ou Toulouse da América do Sul.

A reportagem atribui parte desse desempenho à adoção de métodos de gestão inspirados na japonesa Toyota. Segundo o diário, a aplicação de técnicas da indústria automobilística permitiu à empresa aumentar em 88% as entregas de aviões comerciais em seis anos, passando de 130 aeronaves em 2020 para 244 em 2025, em um momento em que o setor aeronáutico mundial enfrenta problemas nas cadeias de abastecimento.

O texto também ressalta a capacidade de inovação da fabricante brasileira. Com cerca de 25 mil funcionários em todo o mundo, incluindo mais de 4 mil engenheiros, a companhia opera uma ampla rede global de fornecedores e mantém unidades de produção no Brasil, nos Estados Unidos e em Portugal.

Apesar dos elogios, a análise lembra que a Embraer ainda está muito distante da escala alcançada por Airbus e Boeing. Faturamento, carteira de pedidos e capacidade de investimento continuam em patamares bem inferiores aos das duas líderes mundiais do setor.

Vale a pena competir com Airbus e Boeing?

A partir dessa constatação, a reportagem levanta uma questão estratégica: vale a pena para a Embraer avançar para o mercado de aeronaves maiores e competir diretamente com os modelos Airbus A320 e Boeing 737? Especialistas ouvidos pelo jornal ponderam que esse movimento representaria uma aposta de alto risco.

Na avaliação desses analistas, a empresa tem obtido resultados consistentes justamente por se concentrar no segmento de jatos regionais e aeronaves de médio porte. Como exemplo dos desafios envolvidos, o texto cita a experiência da canadense Bombardier, que enfrentou graves dificuldades financeiras ao tentar disputar espaço com as duas gigantes do setor.

‘A pérola brasileira’, diz Le Monde

Ao reconstituir a trajetória da fabricante, criada pelo Estado brasileiro em 1969 e privatizada em 1994, a reportagem conclui que a Embraer conseguiu superar obstáculos que pareciam intransponíveis e se consolidou como uma referência tecnológica global. Mas pondera que uma eventual entrada no mercado de aviões de maior capacidade exigiria investimentos bilionários e, muito provavelmente, a busca por parceiros internacionais.

Nesse contexto, o Le Monde recorda a tentativa de aquisição da divisão de aviação comercial da Embraer pela Boeing, anunciada em 2018 e cancelada em 2020. Para a publicação, caso decida um dia enfrentar diretamente Airbus e Boeing, a Embraer dificilmente poderá fazê-lo sozinha e deverá contar com apoio estratégico ou financeiro externo, possivelmente de investidores do Golfo, da Índia ou da Coreia do Sul.

Jornal francês chama Embraer de ‘pérola brasileira’ e destaca empresa como símbolo do sucesso industrial do país 

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Nessa Copa nem gol é gol sem a aprovação da tecnologia

Talvez a tecnologia consiga eliminar quase todos os erros, mas quanto dessa imprevisibilidade também faz parte da magia?

Daniela Klaiman – Fast Company Brasil – 01-07-2026

A Copa do Mundo de 2026 reúne o maior conjunto de tecnologias já utilizado em uma competição organizada pela FIFA e funciona como um laboratório para testar até onde inteligência artificial, sensores e visão computacional podem participar da condução de uma partida.

Entre as novidades estão as câmeras corporais instaladas nos árbitros, que permitem acompanhar determinados momentos da partida pela perspectiva de quem toma as decisões; os microfones capazes de transmitir ao estádio e à audiência as explicações dadas após revisões do VAR; a evolução do impedimento semiautomático que utiliza dezenas de câmeras e IA para reconstruir a posição de todos os jogadores em tempo real; e a bola inteligente equipada com um sensor inercial que envia centenas de leituras por segundo para determinar com precisão absoluta o instante exato em que cada toque acontece.

O resultado é que praticamente toda a partida passa a existir em uma versão digital paralela. Jogadores são rastreados continuamente, a bola transmite dados durante todo o jogo e algoritmos conseguem reconstruir cada lance em três dimensões poucos segundos depois de ele acontecer.

Na prática, o futebol começa a construir um verdadeiro gêmeo digital da partida, uma cópia computacional capaz de analisar cada movimento, cada contato e cada decisão com um nível de precisão que nunca existiu na história do esporte.

Essa infraestrutura apareceu de forma muito clara no lance envolvendo Vinícius Júnior no jogo contra a Escócia . O segundo gol da seleção brasileira acabou sendo anulado depois que a revisão identificou uma falta cometida na origem da jogada – um contato extremamente sutil, que passou despercebido durante o lance e só foi reconhecido após a reconstrução detalhada de toda a sequência.

O mesmo aconteceu com o gol da Colômbia sobre Portugal, impossível de ser visto pelo olho humano, mas 100% claro para a tecnologia.

praticamente toda a partida passa a existir em uma versão digital paralela.

Essas decisões provavelmente foram a mais precisas possíveis dentro das regras atuais, mas também revelam uma transformação muito maior do que um simples auxílio à arbitragem.

Durante décadas, o futebol foi um esporte vivido no instante. O grito de gol saía antes mesmo de a bola parar de balançar a rede. O juiz errava, o bandeira acertava, um clássico era decidido por um lance polêmico e aquela discussão atravessava décadas porque fazia parte da memória coletiva do esporte.

A imperfeição nunca foi apenas um defeito. Ela também ajudava a construir a identidade emocional do futebol.

Já hoje, cada lance entra em estado de espera enquanto sensores, inteligência artificial, visão computacional e dezenas de câmeras verificam se existe algum detalhe invisível capaz de alterar completamente o resultado da partida.

Talvez estejamos caminhando para o futebol mais preciso da história.Mas a pergunta é: queremos precisão absoluta no futebol?

Porque o futebol nunca foi apenas uma sequência de decisões corretas. Sempre foi um esporte de explosões emocionais, de injustiças inesquecíveis, de discussões de bar, de histórias contadas por gerações, de árbitros que erravam, de torcedores que reclamavam, de lances impossíveis de explicar – e, exatamente por isso, impossíveis de esquecer.

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Talvez a tecnologia consiga eliminar quase todos os erros, mas quanto dessa imprevisibilidade também fazia parte da magia?

Vamos ter que esperar para ver se o jogo mais preciso do mundo vai conseguir seguir emocionando o mundo inteiro.


SOBRE A AUTORA

Daniela Klaiman é um dos principais nomes do futurismo no Brasil e na América Latina. Ela é CEO da Future Future, consultoria especializada em ajudar líderes e organizações a se prepararem para futuros complexos. Com mestrado em Tecnologia e Futurismo pela Universidade Hebraica de Jerusalém e mais de 18 anos de experiência, também é membro do board de IA da Samsung. 

Nessa Copa nem gol é gol sem a aprovação da tecnologia | Fast Company Brasil 

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