Líder de companhia recebeu financiamento americano de R$ 3 bilhões afirma que país tem grande oportunidade no setor
Por Eliane Oliveira – O Globo – 01/03/2026
O nome Minaçu vem de uma composição tupi-guarani, em que açu significa “grande”, resultando em “mina grande” — um reflexo da tradição mineradora da região. É nesse município, no estado de Goiás, que a Serra Verde opera sua mina de terras-raras e planta de beneficiamento, tornando-se um dos poucos produtores em escala fora da Ásia desses minerais essenciais à indústria moderna.
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A empresa recebeu US$ 565 milhões, ou o equivalente a quase R$ 3 bilhões, da U.S. Development Finance Corporation (DFC), em fevereiro de 2026. Nesse acordo, o DFC pode assumir uma participação minoritária na empresa. Seria uma iniciativa pouco comum para um órgão de fomento dos EUA, de tornar o Estado americano sócio em uma atividade privada, e que reflete como o acesso a terras-raras se tornou crucial na nova política comercial do país sob a presidência de Donald Trump. Desde que voltou à Casa Branca, Trump aplicou um choque de tarifas contra seus principais parceiros comerciais e colocou a disponibilidade de minerais críticos aos EUA como estratégico para a economia americana.
Em entrevista, o presidente da Serra Verde, Ricardo Grossi, ressalta que a empresa é o único produtor em escala fora da Ásia de terras-raras pesadas e que o Brasil tem oportunidade de usar esses minerais para entrar num mercado que hoje tem poucos players.
A Serra Verde foi procurada por outros países além dos Estados Unidos?
A China domina esse mercado, que envolve cinco etapas: mineração, produção do carbonato concentrado, separação das terras-raras elemento por elemento, produção de ligas e produção de superímãs. A Serra Verde atua nas duas primeiras etapas. A China possui a cadeia completa e cerca de 90% do mercado está concentrado na Ásia. A separação das terras-raras pesadas é feita, em 99% dos casos, na China. Começamos a produzir em 2024 e vendemos para a Ásia. Sim, fomos procurados por vários países, tanto da Europa quanto da Ásia, justamente por sermos a única operação em produção fora do continente asiático. As demais alternativas ainda são projetos.
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Como você vê a posição da Serra Verde no cenário global e sua competitividade frente à China?
Nossa história começou em 2008, o que nos deu uma vantagem de tempo importante. Hoje, um projeto de mineração do zero leva em média 20 anos entre pesquisa mineral e produção. No nosso caso, levamos cerca de 15 anos desde a prospecção até a produção. As terras-raras incluem 17 elementos; focamos nos 15 principais, de alto peso atômico, com mais de 200 aplicações. Estimamos crescimento de mercado entre 8% e 10% ao ano até 2035. Estamos em posição favorável por já termos uma operação em funcionamento e um mix de produtos competitivo.
Usina de mineradora Serra Verde, no norte de Goiás. Empresa, controladas por fundos americanos, é a única que produz terras-raras no Brasil. — Foto: Divulgação/Serra Verde
Quais os desafios e oportunidades para ampliar a produção até 2027?
Quando iniciamos a produção, fomos pioneiros: não havia ninguém fora da Ásia fazendo o que fazemos. Trabalhei em commodities por mais de 20 anos, mas o que estamos construindo aqui é único. Não havia modelo para copiar, então aprendemos fazendo. A maior parte do financiamento que vamos receber será destinada à otimização da planta. Outro percentual servirá para refinanciar uma dívida antiga, e há uma parcela que abre a possibilidade de termos o DFC como sócio minoritário, sem qualquer alteração na gestão da empresa.
Não faz sentido aumentar a produção sem antes tornar o processo mais eficiente. Nas terras-raras pesadas, focamos em quatro elementos magnéticos: neodímio e praseodímio, que são leves, e disprósio e térbio, que são pesados. A Serra Verde é o maior produtor em escala fora da Ásia desses dois elementos pesados. Com a otimização completa do processo, esperamos produzir um volume maior de todos os componentes.
Qual a meta? O financiamento do DFC muda a estrutura da empresa?
Até o final de 2027, a meta é chegar a cerca de 6,5 mil toneladas de óxido de terras-raras. Hoje, produzimos um volume menor, suficiente para manter nossas vendas, mas ainda abaixo do potencial que teremos após a otimização da planta. O financiamento do DFC garante os recursos necessários até 2027 para atingir o patamar planejado. Estaremos plenamente financiados. Há possibilidade de participação minoritária do DFC, sem presença no conselho ou na gestão.
Existe alguma obrigação contratual de destinar parte da produção ao mercado americano, para setores como defesa ou mobilidade elétrica?
Temos offtakes (contratos de compra antecipada) com empresas asiáticas, e a destinação da produção ainda está em negociação. De fato, existe um compromisso vigente até o fim de 2026. A partir de 1º de janeiro de 2027, teremos liberdade para fornecer para qualquer país ou empresa.
Como equilibrar contratos históricos com a crescente demanda ocidental?
Isso é uma oportunidade. Os contratos atuais estão em discussão, abrindo um leque de opções, inclusive com diferentes possibilidades de precificação. Nossa condição de produtores nos dá vantagem competitiva nas negociações com clientes europeus, americanos e asiáticos.
O Brasil é visto como um fornecedor estratégico de terras-raras. Qual papel o país pode desempenhar nessas cadeias de suprimento?
A Serra Verde inicia um negócio com poucos players no mercado, e o que estamos fazendo abre um mercado novo para outros projetos, oferecendo opções que o Brasil antes não tinha. A demanda existente é concentrada e ainda instável. Se conseguirmos atender a tempo e com custo competitivo, o Brasil, que tem a segunda maior reserva de terras-raras do mundo, pode aproveitar uma oportunidade gigantesca de entrar em um mercado com poucos players.
Há planos de verticalização, como refino ou produção de ímãs no Brasil?
Estamos sempre avaliando iniciativas que façam sentido para o negócio e que possam compartilhar benefícios com a sociedade. Já realizamos a primeira agregação de valor ao exportar um concentrado de terras-raras, e não o minério. Há países que exportam minério; nós exportamos um produto. Estamos abertos a discutir oportunidades ao longo de toda a cadeia, inclusive até a produção de superímãs, seja no Brasil ou em outras estruturas, caso faça sentido para o negócio.
O Brasil precisa de uma política nacional de mineração?
Qualquer iniciativa que fomente o desenvolvimento de projetos, especialmente de minerais críticos, é bem-vinda, desde que dentro das regras legais. É muito desafiador licenciar e produzir projetos como o nosso, e discussões que possam contribuir para esse desenvolvimento tendem a ser positivas.
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