O Google Earth Quase Deixou de Mostrar o Mundo para Começar a Fabricá-lo.

Vera Moraes – Tech Gossip™ – 3 de agosto de 2026

Strategic Advisor in Innovation | Founder da Tech Gossip™ | 100 Innovative Women Award | Innovation, Global Trends | Strong global ecosystem links (EU, Canada, Brazil) | Futurism | Writer | Columnist Olhar Digital

Um recurso de IA permitiu inserir ataques, protestos, refugiados, acidentes e instalações inexistentes em imagens de satélite. O Google recuou, mas o episódio expôs algo mais grave: as plataformas que organizam a realidade estão transformando evidência em conteúdo editável.

O Google Earth Quase Deixou de Mostrar o Mundo para Começar a Fabricá-lo

Um recurso de IA permitiu inserir ataques, protestos, refugiados, acidentes e instalações inexistentes em imagens de satélite. O Google recuou, mas o episódio expôs algo mais grave: as plataformas que organizam a realidade estão transformando evidência em conteúdo editável.

O que aconteceu

O Google introduziu no Google Earth uma ferramenta de inteligência artificial capaz de modificar imagens de satélite por meio de comandos de texto. Bastava posicionar o cursor sobre uma região e descrever o que deveria aparecer naquele local. Nos testes relatados pela 404 Media e por pesquisadores de inteligência de fontes abertas, foi possível acrescentar arranha-céus em áreas rurais, criar explosões, simular ataques de drones, inserir refugiados próximos à fronteira entre México e Estados Unidos, inventar uma usina nuclear no Irã e fabricar protestos diante dos próprios edifícios do Google.

O recurso era alimentado pelo modelo Nano Banana e transformava uma plataforma historicamente associada à observação geográfica em um ambiente de geração visual. Essa mudança pode parecer apenas uma nova função criativa, mas ela alterava silenciosamente a natureza do produto. O Google Earth deixava de ser apenas uma interface para consultar imagens do mundo e passava a funcionar também como uma ferramenta capaz de produzir versões sintéticas desse mesmo mundo.

Depois da repercussão negativa, o Google informou que estava revertendo a funcionalidade enquanto trabalhava em proteções mais rigorosas. A empresa reconheceu que as pessoas confiam no Google Earth como uma representação confiável da realidade e afirmou ter observado compartilhamentos de imagens geradas que aparentemente violavam suas políticas.

O recuo foi necessário, mas não elimina o problema. Ele apenas mostra que o risco previsível não foi tratado como prioridade antes do lançamento.

O problema não é criar imagens falsas. É criá-las dentro de uma infraestrutura de confiança

Imagens falsas já existiam muito antes da inteligência artificial. Softwares de edição sempre permitiram manipular fotografias, mapas e registros visuais. A diferença é que, nesse caso, a falsificação foi incorporada diretamente a uma plataforma que construiu sua autoridade justamente sobre a promessa de mostrar o planeta como ele é.

Essa é a ruptura central.

Uma montagem feita em um editor de imagens costuma carregar algum grau de suspeita. Uma captura de tela do Google Earth, por outro lado, herda a credibilidade da plataforma. Ela parece documental porque vem de uma infraestrutura associada a satélites, mapas, coordenadas e registros geográficos. Ao permitir a geração de elementos falsos dentro desse ambiente, o Google misturou duas categorias que deveriam permanecer claramente separadas: observação e simulação.

O que está em risco não é apenas a precisão de uma imagem isolada. É o valor simbólico da fonte. Quando uma plataforma confiável também passa a fabricar cenas, cada imagem legítima produzida por ela pode ser recebida com mais desconfiança. O dano não ocorre somente quando alguém acredita em uma falsificação. Ele também ocorre quando o público deixa de acreditar em registros verdadeiros.

Esse é o efeito mais profundo da desinformação sintética: ela não precisa convencer todos de uma mentira específica. Basta tornar toda evidência discutível.

A transformação da geografia em conteúdo gerativo

Até agora, o debate sobre deepfakes esteve concentrado em rostos, vozes e vídeos. O episódio do Google Earth revela uma nova etapa: a falsificação de contextos geográficos inteiros.

Isso muda a escala do problema.

Uma imagem sintética de uma pessoa pode destruir uma reputação. Uma imagem sintética de uma região pode alimentar tensão diplomática, manipular uma narrativa eleitoral, criar pânico financeiro, justificar perseguições ou gerar falsas acusações sobre governos, empresas e movimentos sociais.

Uma instalação militar inexistente pode ser apresentada como prova de uma ameaça. Um protesto fabricado pode ser usado para inflar ou desacreditar uma mobilização. Uma cratera criada por IA pode circular como registro de um ataque. Um acampamento falso pode ser utilizado para reforçar discursos políticos sobre imigração, pobreza ou segurança pública.

O risco não está apenas na qualidade visual da imagem, mas no contexto em que ela circula. Em ambientes de crise, guerra ou polarização, a velocidade da narrativa costuma vencer a lentidão da verificação. Quando o desmentido chega, a imagem já cumpriu sua função emocional.

Ela já produziu medo, raiva, indignação ou confirmação ideológica.

O Google deslocou o problema para o usuário

A defesa apresentada pelo Google foi baseada principalmente no uso do SynthID, uma marca d’água digital destinada a indicar que a imagem foi gerada por inteligência artificial. A empresa também afirmou que o conteúdo poderia ser verificado por meio do Gemini ou do Google Lens.

Tecnicamente, isso oferece algum mecanismo de rastreamento. Estruturalmente, porém, a solução transfere a responsabilidade da plataforma para o público.

O usuário recebe uma imagem aparentemente convincente e precisa suspeitar dela, localizar uma ferramenta, realizar a checagem e interpretar corretamente o resultado. Enquanto isso, quem publica a falsificação precisa apenas gerar uma captura de tela e colocá-la em circulação.

Essa assimetria favorece a desinformação.

Fabricar leva segundos. Verificar exige intenção, tempo e conhecimento. Espalhar é simples. Corrigir é trabalhoso. A imagem falsa circula como afirmação; a contestação circula como explicação. E explicações quase sempre perdem para imagens em velocidade, impacto e alcance.

A marca d’água pode ajudar investigadores e jornalistas, mas não resolve o comportamento real das redes. Muitas pessoas não verificam conteúdos que confirmam aquilo em que já desejam acreditar. Além disso, capturas de tela, recortes, reedições e novas compressões podem dificultar a preservação ou a leitura desses sinais técnicos.

A proteção existe, mas chega depois da sedução.

O que está por trás desse tipo de lançamento

O episódio revela o conflito entre velocidade comercial e responsabilidade pública. Empresas de tecnologia são pressionadas a incorporar inteligência artificial em todos os produtos, mesmo quando a utilidade da função não está claramente separada do risco que ela cria.

A lógica dominante é lançar primeiro, observar a reação e corrigir depois.

Esse modelo funciona relativamente bem quando o problema é um botão confuso ou uma interface instável. Torna-se perigoso quando o produto interfere na percepção pública da realidade. Nesse caso, o teste não acontece apenas dentro da plataforma. Ele acontece sobre jornalistas, investigadores, governos, comunidades vulneráveis e pessoas que podem ser afetadas por imagens falsas.

O Google provavelmente enxergou o recurso como uma ferramenta de visualização, planejamento ou simulação. Profissionais da área geoespacial poderiam utilizá-lo para imaginar cenários urbanos, ambientais ou logísticos. O problema é que uma ferramenta não opera apenas dentro da intenção declarada pelo fabricante. Ela também opera dentro dos incentivos do ambiente em que é lançada.

E o ambiente atual recompensa choque, velocidade, conflito e imagens que provoquem reação imediata.

A empresa criou a capacidade técnica, mas aparentemente não delimitou de forma suficiente a fronteira entre uso profissional, experimentação visual e falsificação documental. Esse não foi apenas um erro de moderação. Foi um erro de arquitetura do produto.

Quem ganha e quem perde

Quem ganha com esse tipo de ferramenta são criadores de conteúdo sensacionalista, operadores de propaganda, golpistas, campanhas políticas e qualquer grupo interessado em fabricar provas visuais rapidamente. Eles não precisam que a imagem sobreviva a uma investigação técnica. Precisam apenas que ela circule por tempo suficiente para produzir impacto.

As plataformas também ganham enquanto o conteúdo sintético gera curiosidade, compartilhamento e uso de seus produtos. Mesmo quando uma funcionalidade é retirada, o lançamento reforça a imagem de avanço tecnológico e mantém a empresa no centro da corrida pela inteligência artificial.

Quem perde são os profissionais que dependem de imagens geográficas para verificar fatos. Pesquisadores de OSINT, jornalistas, organizações humanitárias, investigadores e analistas passam a carregar uma nova carga de trabalho: antes de interpretar uma imagem, precisam provar que ela não foi gerada.

Também perde o público, que passa a viver num ambiente em que a origem visual já não basta como evidência.

O custo da inovação é distribuído para a sociedade. O benefício estratégico permanece concentrado na empresa.

O ponto cego: a desinformação não precisa esconder a falsificação

Existe uma crença ingênua de que, se uma imagem puder ser identificada como artificial, o problema estará resolvido. Isso ignora a forma como a propaganda funciona.

Quem espalha desinformação nem sempre pretende construir uma mentira duradoura. Muitas vezes, pretende apenas ocupar o espaço informacional durante algumas horas, criar uma impressão inicial ou oferecer uma imagem que alimente uma narrativa já desejada.

Mesmo quando a falsificação é descoberta, ela pode continuar funcionando como símbolo. Parte do público aceitará a correção. Outra parte dirá que a checagem é censura, manipulação ou tentativa de encobrimento. A discussão deixa de ser sobre o que a imagem mostra e passa a ser sobre quem tem autoridade para declarar o que é real.

Nesse cenário, a falsificação vence duas vezes. Primeiro, porque engana. Depois, porque destrói a confiança no processo usado para desmenti-la.

Não estamos apenas perdendo a confiança nas imagens. Estamos terceirizando a realidade

O episódio do Google Earth expõe uma tendência maior: as mesmas empresas que armazenam, organizam e apresentam a realidade estão construindo ferramentas para modificá-la.

Google, plataformas sociais e empresas de IA não são apenas fornecedoras de tecnologia. Elas administram as interfaces pelas quais bilhões de pessoas percebem acontecimentos, lugares e conflitos. Quando essas interfaces misturam registro e geração sem separações claras, elas não estão apenas oferecendo criatividade. Estão alterando a estrutura de confiança do ambiente informacional.

Quem controla a interface controla o primeiro enquadramento da realidade. A questão, portanto, não é se a inteligência artificial pode criar uma cratera falsa, uma usina inexistente ou um ataque inventado. Isso já está demonstrado.

A questão é por que uma empresa com o alcance e a responsabilidade do Google colocou essa capacidade dentro de uma ferramenta documental antes de estabelecer barreiras proporcionais ao risco.

O recurso foi retirado. A lógica que permitiu seu lançamento continua intacta.

Perguntas para o leitor

Você ainda consideraria uma captura de tela do Google Earth uma evidência confiável?

Uma marca d’água digital protege o público ou apenas oferece uma defesa jurídica para a plataforma?

Empresas deveriam ser autorizadas a testar ferramentas de simulação dentro de produtos usados como fontes documentais?

Quem deve assumir o custo da verificação: o usuário, o jornalista ou a empresa que tornou a falsificação possível?

Quando uma plataforma pode mostrar o mundo e fabricar o mundo no mesmo lugar, quem decide qual versão será considerada real?

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Como os seres humanos serão no futuro?

Os cientistas afirmam que os seres humanos ainda estão evoluindo. Mas, com as novas tecnologias, como a edição genética, nossa aparência futura pode se alterar de formas inesperadas.

Catherine Heathwood – Época Negócios/BBC – 02/08/2026 

Poderá ainda haver no futuro versões de nós que sejam mais baixas ou mais altas, que tenham características diferentes ou até que sejam geneticamente projetadas conforme certas especificações?

À medida que a civilização se desenvolveu, a medicina moderna, as condições de higiene e o fácil acesso a alimentos reduziram muitas das pressões geradas pela seleção natural que formaram a nossa espécie, como as doenças, a fome e condições ambientais desfavoráveis.

Mas, para o antropólogo e geneticista evolutivo Jason Hodgson, da Universidade Anglia Ruskin, no Reino Unido, a evolução “sem dúvida” continua até hoje.

Podemos afirmar isso porque certos genes estão se tornando mais comuns em algumas populações. Mas este fenômeno acontece ao longo de muitas gerações e, por isso, “ninguém irá presenciar mudanças evolutivas ao longo de uma única vida”.

Variações humanas

A paleontóloga Briana Pobiner, do Museu de História Natural do Instituto Smithsoniano, nos Estados Unidos, afirma que a alimentação desempenhou papel importante na nossa evolução recente.

“Cerca de um terço das pessoas do planeta hoje em dia podem digerir leite na idade adulta”, explica ela. Mas, entre 5 mil e 10 mil anos atrás, quase ninguém conseguia fazer esta digestão.

“É uma mudança evolutiva extremamente rápida.”

Esta evolução surgiu quando os seres humanos começaram a criar animais produtores de leite.

Durante as épocas de fome, as pessoas que, por acaso, conseguiam digerir o leite (que é rico em gorduras e proteínas) apresentavam maior probabilidade de sobreviver e transmitir estes genes, que “se espalharam com muita rapidez”, segundo Pobiner.

E outros fatores ambientais também influenciaram a evolução humana, muito tempo atrás.

Pesquisas indicam que os seres humanos evoluíram para criar diversos tons de pele em regiões com diferentes tipos de clima, a fim de produzir vitamina D em quantidade suficiente para suas necessidades

Quando a nossa espécie migrou da África para diferentes partes do mundo, milhares de anos atrás, nossos antepassados encontraram uma série de climas diferentes e desenvolveram novas adaptações físicas.

A pele mais clara, por exemplo, evoluiu em lugares onde havia menos luz ultravioleta, para ajudar a sintetizar a vitamina D.

As variações locais se desenvolveram “a partir de pessoas que se movimentavam para longe umas das outras”, explica Hodgson.

“Agora, todos nós nos reunimos novamente, de diversas formas: pela migração, pela globalização e assim por diante.”

A globalização indica que iremos possivelmente observar reduções das variações biológicas. Mas nem tudo é necessariamente tão simples.

Hodgson pesquisa o chamado acasalamento associativo, o que, segundo ele, ocorre “quando os organismos escolhem preferencialmente parceiros mais similares a eles próprios”.

Hodgson acredita que, se o acasalamento associativo for interrompido, a globalização poderá gerar menos variações biológicas entre os seres humanos 

Hodgson explica que o acasalamento associativo pode “sobrecarregar” eventuais seleções naturais que já estejam acontecendo, ajudando a promover certas características em uma dada população.

Os pesquisadores observaram que “provavelmente, quanto mais alto você for, mais alto será o seu cônjuge”, por exemplo.

“A altura, o peso e a estrutura facial são tipos de características que se demonstraram associativas em alguns grupos, mas não em outros”, segundo ele, o que “em última análise, influencia a frequência dos genes”.

Parte deste fenômeno ocorre por razões sociais e culturais, como pessoas que se casam dentro do seu grupo étnico, por exemplo. E estes fatores podem estar se alterando em algumas populações.

“Muitas mudanças acontecem e alteram a evolução humana todo o tempo”, explica Hodgson.

‘Em mãos humanas’

Mas existem algumas decisões humanas que não alteram a nossa evolução.

Por exemplo, “se você frequentar a academia, se exercitar e ganhar músculos, isso não significa necessariamente que você irá transmitir genes que geram músculos grandes para os seus filhos”, explica Pobiner.

De procedimentos ortodônticos até cosméticos, podemos, agora, alterar muitas características ao longo da vida, com base em preferências sociais, não em seleção natural.

Em 2024, foram realizados cerca de 38 milhões de procedimentos estéticos cirúrgicos e não cirúrgicos em todo o mundo, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS, na sigla em inglês). Este número representa um aumento de 40% desde 2020.

A cirurgia das pálpebras passou a ser o procedimento cirúrgico estético mais popular em 2024, segundo uma pesquisa global realizada pelo ISAPS 

Com esta capacidade cada vez maior de remodelar a nossa aparência, “você não se parece necessariamente com o que os seus genes dizem que você deveria se parecer”, explica Thomas Mailund, ex-professor de bioinformática da Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

No futuro, talvez não sejam apenas ajustes superficiais na nossa aparência. Os cientistas estão usando uma técnica chamada Crispr para editar genes humanos.

Ela funciona essencialmente como um par guiado de tesouras moleculares. Uma parte encontra o DNA alvo e a outra o edita.

Esta tecnologia está sendo aprimorada e já começou a ser usada para tratar uma quantidade limitada de condições genéticas, como certos distúrbios sanguíneos.

Se esta técnica avançar o bastante para se tornar disponível para o público em geral, teoricamente, talvez seja possível, algum dia, alterar ainda mais características humanas em nível genético — não gradualmente, ao longo de várias gerações, mas deliberadamente, de uma só vez.

E, se fizermos este procedimento em células de linhagem germinativa (que se transformam em esperma e óvulos), as gerações futuras poderão até herdar eventuais edições genéticas.

Mas estamos muito longe de poder fazer isso de forma segura e com resultados garantidos. E a técnica levanta questões éticas em relação à geração de “bebês sob encomenda” e à estigmatização das incapacidades, entre muitas outras.

A tecnologia Crispr é aprovada em algumas partes do mundo para o tratamento de transtornos sanguíneos, como anemia falciforme, mas os seus custos ainda são muito altos 

“É aceito de forma praticamente universal hoje em dia que não é algo que faremos em seres humanos, seria totalmente antiético”, segundo Hodgson.

Mas ele especula o que isso poderá mudar no futuro.

“[Em] 5 mil anos… provavelmente, será o contrário, acho eu.”

“Chegará um tempo em que deixará de ser antiético editar o genoma, até o ponto em que será antiético não fazê-lo, pois poderemos eliminar características como doenças hereditárias”, explica ele.

Se a tecnologia se tornar amplamente disponível, ela poderá até oferecer aos pais a opção de escolher a aparência dos seus filhos, editando os genes para selecionar características desejáveis.

“Acho que o futuro da nossa evolução, em um sentido mais amplo, realmente será passar a ficar em mãos humanas, mas estamos muito longe de chegar a este ponto”, segundo Hodgson.

Com tantos pontos ainda a serem esclarecidos sobre esta tecnologia, “espero não ver nada disso enquanto eu viver”, destaca ele.

Nova espécie?

Para Mailund, é impossível prever a aparência dos seres humanos no futuro, sem saber quais serão as alterações do nosso ambiente.

Se pensarmos em um futuro muito distante, poderemos até nos tornar uma nova espécie.

Um milhão de anos atrás, espécies humanas como o Homo erectus andavam pelo planeta. A nossa espécie, Homo sapiens, só apareceu cerca de 300 mil anos atrás.

“Por isso, daqui a um milhão de anos, nossos descendentes serão tão diferentes de nós… quanto o Homo erectus dos humanos atuais”, explica Mailund.

O Homo erectus foi o primeiro dos nossos ancestrais a ter proporções corporais similares aos seres humanos. A espécie existiu até pelo menos 250 mil anos atrás 

Mas ele destaca que, mesmo depois de tanto tempo, as diferenças entre as espécies poderão ser menos óbvias do que pensamos.

“Não tenho certeza se reconheceríamos alguém como sendo drasticamente diferente de nós, se fôssemos Homo erectus”, explica ele.

É até possível que a nossa espécie se divida em duas, por exemplo, se alguns de nós nos estabelecermos em novos ambientes, como no espaço.

“Se você viver na Lua, a gravidade é baixa. Em Marte, também. Precisaremos nos adaptar a isso”, afirma Mailund.

Para realmente observarmos o desenvolvimento de uma nova espécie, estas populações precisarão ficar totalmente isoladas da Terra por muitas gerações.

E se não deixarmos a evolução ocorrer ao acaso?

Com o potencial de mudar os nossos genes com a tecnologia, Mailund acredita que “a questão real é ‘o que iremos escolher?’, não ‘o que a biologia fará conosco?'”

Como os seres humanos serão no futuro? 

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Esqueça a Airbus e a Boeing. A Embraer está voando alto

Seu CEO tem planos ambiciosos para o futuro

The Economist(tradução IA) – 30 de julho de 2026 

Alguns aviões de passageiros são batizados com códigos alfanuméricos puramente utilitários: pense no A380 da Airbus. Ocasionalmente, as gigantes aeroespaciais tentam transmitir algo mais elevado. O 787 Dreamliner da Boeing projeta uma imagem de conforto moderno; o A320neo da Airbus destaca o uso do que há de mais recente em tecnologia de aviação.

A Embraer, a terceira maior fabricante de jatos de passageiros do mundo, adota uma abordagem mais direta. Desde 2017, a empresa comercializa seu jato regional E2, eficiente em consumo de combustível, como o “Profit Hunter” (Caçador de Lucros).

A empresa brasileira tem uma fração do tamanho da Airbus e da Boeing. No entanto, ela teve alguns anos notáveis. A demanda está disparando não apenas para seus aviões de passageiros menores, mas também para os jatos privados e militares que ela oferece.

Em 2021, a companhia entregou um total de 141 aviões. Este ano, pode chegar a 255. Em 24 de julho, a empresa informou que sua carteira de pedidos (backlog) atingiu o recorde de US$ 34,5 bilhões. Francisco Gomes Neto, o CEO da Embraer, enxerga uma oportunidade de “crescimento substancial” pela frente.

Os investidores concordam. Desde o início de 2021, o preço de suas ações subiu cerca de dez vezes, superando de longe os da Airbus ou da Boeing. Alguns agora especulam que a Embraer pode tentar uma investida no mercado de jatos maiores, batendo de frente com as duas gigantes da indústria aeroespacial.

A Embraer está se beneficiando de uma série de ventos a favor. Hoje em dia, as companhias aéreas precisam esperar de oito a dez anos por um avião comercial de corredor único (narrow-body) de grande porte da Airbus ou da Boeing, que acumulam uma carteira combinada de 16.000 jatos de passageiros devido ao aumento na demanda por viagens aéreas e a problemas antigos na cadeia de suprimentos que remontam à pandemia de covid-19.

Isso levou a uma explosão na demanda pelo E2, que é menor e pode ser entregue em menos de dois anos. Uma preferência crescente por viagens diretas entre aeroportos menores, em vez de passar por grandes centros de conexão (hubs), impulsionará ainda mais a demanda por aviões menores para operar novas rotas, diz Ron Baur, da Azorra, uma empresa de leasing que tem mais de 50 modelos E2 encomendados. O único concorrente direto da aeronave em termos de tamanho é o A220 da Airbus, em um mercado que a Embraer projeta em 8.500 aviões desse tipo nas próximas duas décadas. Como aponta Gomes Neto, mesmo que o mercado seja de apenas metade desse número e a Embraer consiga metade dos pedidos, a demanda ainda ocupará sua capacidade de produção por 20 anos. Além disso, o jato E175 da Embraer, que é ainda menor, é a única aeronave em produção disponível para companhias aéreas regionais de conexão na América [do Norte], devido a acordos de negociação coletiva com sindicatos de pilotos que restringem o tamanho máximo de avião que elas podem utilizar.

Há também a explosão nas vendas de jatos privados que está em andamento desde a pandemia. A Embraer é dominante no mercado de modelos de pequeno e médio porte. Seu Phenom 300, que acomoda até dez passageiros, é o mais vendido em sua categoria há 14 anos. O aumento nos gastos com defesa ao redor do mundo também elevou os pedidos do KC390, um avião de transporte militar. E uma participação controladora na Eve, uma empresa de táxis voadores, parece uma aposta melhor agora que o vasto número de startups na área foi reduzido a um punhado de sobreviventes plausíveis.

No entanto, Gomes Neto pensa que deve “preparar a empresa para um novo ciclo de produtos que sustentará um crescimento mais ambicioso”. Uma possibilidade é fabricar um jato privado de grande porte. Um passo mais ousado e arriscado seria desenvolver um jato comercial maior para enfrentar a Airbus e a Boeing, que devem lançar substitutos para seus principais aviões de corredor único (narrow-body) por volta do final da década de 2030. Nenhuma das duas tem muito incentivo para fazer grandes investimentos enquanto os modelos atuais estão vendendo bem, o que poderia criar uma abertura para a Embraer.

Quebrar o domínio desse duopólio seria uma tarefa gigantesca. A tentativa da Bombardier quase a levou à falência e terminou em uma venda forçada do programa por uma quantia simbólica para a Airbus em 2018 (onde se tornou o A220). Guillaume Faury, o chefe da Airbus, alertou a Embraer a “pensar duas vezes”. Contudo, as recompensas de abocanhar mesmo uma pequena fatia de um mercado que a Boeing estima em 36.000 jatos nas próximas duas décadas também seriam muito maiores do que as de um novo jato privado. Ron Epstein, do Bank of America, diz que isso levaria a Embraer para o “próximo nível”.

A Embraer pode nunca mais ter uma oportunidade como essa para colocar em prática sua experiência na fabricação e comercialização de jatos comerciais. Gomes Neto destaca que, ao longo de cerca de 20 anos, a empresa certificou quase 20 novas aeronaves — um desempenho impressionante. A reputação da companhia significa que os clientes potenciais a levariam a sério. Mas ela precisaria encontrar parceiros para desembolsar parte dos cerca de US$ 10 bilhões que o novo avião custaria para ser desenvolvido, diz Alberto Valério, do banco UBS, incluindo talvez uma fabricante de motores e outros fornecedores, além de clientes e investidores externos.

Há rumores de que a questão de avançar ou não contra o duopólio divide opiniões na Embraer. Felizmente, ela tem bastante tempo para tomar uma decisão. Como insiste  Gomes Neto: “Estamos muito confortáveis com a situação que temos hoje”.

The Economist | Go beyond breaking news 

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Novo normal: segurança energética e segurança alimentar tornaram-se indissociáveis

No Brasil, deveríamos aproveitar as nossas vantagens comparativas de sermos um dos responsáveis pela segurança alimentar no mundo e de termos uma grande diversidade energética e mineral para nos posicionarmos na pole position

Por Adriano Pires – Estadão – 31/07/2026

O mundo vive mudanças profundas na geopolítica da energia que vieram para ficar. Mais do que provocar oscilações nos preços do petróleo, presenciamos agora que a principal preocupação é com a segurança energética. O mundo entrou em um novo cenário, no qual petróleo, gás natural e fertilizantes passaram a compor uma mesma equação estratégica. Garantir o abastecimento de energia deixou de significar apenas assegurar combustíveis; passou também a ser condição essencial para a produção de alimentos. Em outras palavras, segurança energética e segurança alimentar tornaram-se indissociáveis. Ou seja, estamos vivendo um “novo normal”.

O principal foco de atenção hoje é o Estreito de Ormuz. Por essa rota estratégica transitam aproximadamente 25% do petróleo consumido no mundo, além de volumes expressivos de gás natural e fertilizantes. Qualquer ameaça à livre navegação eleva a percepção de risco nos mercados, amplia a volatilidade das cotações internacionais de energia e pressiona os custos dos insumos agrícolas e dos alimentos.

Entretanto, atribuir esse “novo normal” apenas ao Oriente Médio seria ignorar uma transformação mais profunda que começou com a guerra entre Rússia e Ucrânia. As sanções impostas à Rússia evidenciaram que o gás deixou de ser apenas uma fonte de energia para tornar-se insumo estratégico para a produção de fertilizantes. Ficou claro, desde então, que interrupções no abastecimento energético podem comprometer a produção agrícola e acelerar a inflação dos alimentos.

Três protagonistas da segurança energética e alimentar global estão diretamente envolvidos na construção desse “novo normal”. A Rússia, o Oriente Médio e os Estados Unidos, todos envolvidos em conflitos e guerras sem prazo para terminar.

No Brasil, deveríamos aproveitar as nossas vantagens comparativas de sermos um dos responsáveis pela segurança alimentar no mundo e de termos uma grande diversidade energética e mineral para nos posicionarmos na pole position do novo normal. Para isso, precisamos começar revendo a nossa política de licenciamento ambiental, que hoje impede investimentos que levariam o País a uma maior soberania energética, alimentar, mineral e tecnológica.

A grande lição desse novo contexto é que petróleo, gás e fertilizantes deixaram de ser mercados independentes. Hoje, choques geopolíticos repercutem simultaneamente sobre os mercados de energia, a produção de alimentos e, consequentemente, na inflação. Mais do que acompanhar a cotação do barril, compreender o mercado de petróleo passou a exigir uma visão integrada da segurança energética e da segurança alimentar – duas agendas que permanecerão no centro das discussões econômicas e geopolíticas.

Opinião por Adriano Pires

Diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE)

Novo normal: segurança energética e segurança alimentar tornaram-se indissociáveis – Estadão 

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Riscos à soberania digital precisam entrar no radar

A segurança digital não deve ser vista como um luxo ou uma prioridade de países ricos, isso seria um erro estratégico

Por Editorial Valor – 31/07/2026

O debate eleitoral brasileiro tem dado destaque a temas de soberania nacional clássica, como as politizadas tarifas comerciais aplicadas pelos EUA ou a improvável ameaça de uma invasão militar americana. Mas riscos tão ou mais graves estão emergindo em questões de soberania digital, sobre as quais pouco se fala. Está em formação uma tempestade digital perfeita, alimentada por três frentes: a hospedagem externa dos dados, o uso agressivo da inteligência artificial (IA) e os avanços da computação quântica.

A primeira ameaça reside na infraestrutura mais essencial da economia da informação. Governos, empresas e cidadãos de países emergentes se acostumaram a armazenar dados sensíveis no exterior ou controlados por poucas grandes empresas estrangeiras – quase todas sob a jurisdição americana – pode embutir riscos.

A história recente ilustra o perigo dessa dependência. O governo americano solicita regularmente, por meio da lei chamada Cloud Act, dados sobre cidadãos e empresas estrangeiros armazenados por companhias americanas, mesmo que os servidores estejam fora dos EUA. Esses dados só podem ser usados em processos criminais, mas se suspeita de que investigações financeiras ou de cibersegurança possam permitir a Washington obter essas informações confidenciais.

Além disso, em momentos de crises diplomáticas, conflitos comerciais ou sanções econômicas, o acesso a esses dados arquivados fora do país pode se tornar uma forma de pressão ou até mesmo ser interrompido. O armazenamento de dados no exterior cria assim uma dependência que reduz fortemente a margem de manobra política de países soberanos.

O Brasil detém o maior parque de data centers da América Latina, com 218 unidades (37,1% do total regional), segundo o Data Center Map, bem à frente do México (66) e do Chile (63). Mas isso é insuficiente para o volume de dados do país. A Espanha, país com economia e população menores que as do Brasil, tem 215 data centers. Especialistas estimam que entre 60% e 70% dos dados gerados por brasileiros são arquivados e processados no exterior.

O segundo vetor é o avanço na IA. O desenvolvimento de modelos de IA que conseguem identificar e explorar vulnerabilidades de sistemas de TI transformou a segurança digital numa disputa assimétrica. Empresas privadas e órgãos estatais estrangeiros podem agora dispor com antecedência de ferramentas avançadas capazes de encontrar brechas de segurança em redes financeiras e de telecomunicações, sistemas de energia elétrica e bancos de dados de outros países, especialmente aqueles em desenvolvimento.

Trata-se do uso antecipado e abrangente das mais sofisticadas ferramentas de IA por entidades estrangeiras, que conseguem acesso em primeira mão a esses modelos. Sem verba e capacidade de desenvolver defesas de IA no mesmo ritmo e com o mesmo grau de sofisticação, países como o Brasil podem se tornar alvos fáceis. É bom lembrar que os EUA, sob o democrata Barack Obama, espionaram várias autoridades brasileiras, inclusive a então presidente Dilma Rousseff, e a maior empresa do país, a Petrobras. Grampearam ainda outras autoridades pelo mundo, como a premiê alemã Angela Merkel. À época, Washington mantinha relações muito boas com Brasil e Alemanha. O que pode fazer um governo muito mais agressivo, como o de Donald Trump?

É nesse cenário já preocupante que a computação quântica desponta como uma ameaça às comunicações globais. A criptografia que hoje protege todas as trocas de dados, desde segredos de Estado até transações bancárias e mensagens de texto, baseia-se na incapacidade dos computadores convencionais de quebrar rapidamente chaves de segurança. A computação quântica alterará radicalmente essa premissa e será capaz de quebrar senhas tradicionais em minutos. Isso proporcionará, a quem detiver essa supremacia tecnológica, a capacidade de violar comunicação e acessar sistemas de países rivais.

Países como o Brasil enfrentam um dilema: o dinheiro necessário para erguer defesas digitais é disputado por demandas sociais urgentes em áreas como saúde, segurança pública, educação e infraestrutura. Mas a segurança digital não deve ser vista como um luxo ou uma prioridade de países ricos. Seria um erro estratégico, que pode comprometer o próprio desenvolvimento socioeconômico no longo prazo.

Isso não significa adotar políticas isolacionistas ou nacionalistas anacrônicas, mas sim buscar as melhores alternativas para lidar com esse risco geopolítico. Governos e o setor privado de potências médias, como o Brasil, precisam, por exemplo, coordenar esforços para incentivar a criação de infraestruturas locais de nuvem, fomentar a cooperação internacional em segurança digital e acelerar a adoção de padrões de criptografia mais avançados. O governo brasileiro pode ainda melhorar o ambiente regulatório e tributário para favorecer a atuação do capital privado. O importante é que o debate sobre como enfrentar essa tempestade digital seja alçado ao topo da agenda de segurança nacional.

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/riscos-a-soberania-digital-precisam-entrar-no-radar.ghtml 

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Soberania Intelectual: engenharia e inovação nas multinacionais brasileiras

Evandro Milet – Publicado no portal Tribuna online em  | 05/07/2026 

Nos debates sobre o desenvolvimento no Brasil, três temas são recorrentes: a desindustrialização, a concentração em commodities e a deficiência na educação, representada pela fraca formação em engenharia, principalmente em quantidade.

No entanto, a internacionalização das multinacionais industriais brasileiras é um caso exemplar de resiliência e inovação, contrapondo-se a esses argumentos. Empresas nascidas em um ambiente instável, marcado por inflação e infraestrutura complexa, transformaram desafios em vantagens competitivas. Longe de serem meras exportadoras de commodities, companhias como Embraer, Petrobras, Vale, Gerdau, JBS, Natura, Suzano, WEG e Marcopolo utilizam táticas sofisticadas que colocam o domínio tecnológico como escudo global, provando que a inteligência de engenharia e de processos é mais valiosa do que a simples origem dos materiais utilizados.

Na vanguarda da alta tecnologia, Embraer e Petrobras ilustram como o controle do conhecimento supera a dependência de insumos globais. A Embraer opera em uma cadeia global utilizando turbinas e aviônicos importados. No entanto, seu trunfo reside na capacidade única de integrar sistemas complexos, desenhar aerodinâmicas revolucionárias e criar aeronaves com custos operacionais imbatíveis para rotas de médio alcance, superando rivais com mais capital.

Já a Petrobras transformou o Brasil no centro mundial da engenharia oceânica. A estatal desenvolveu patentes e robótica proprietárias para perfurar quilômetros sob o pré-sal. Mesmo comprando plataformas em estaleiros asiáticos, é o software, a física e o método de exploração brasileiros que garantem uma eficiência que a protege das oscilações de mercado.

Nos setores industriais e de recursos naturais, a soberania tecnológica dita o ritmo da competição. A Vale concorre com gigantes anglo-australianas pela inovação em metalurgia e logística. Seu minério de ferro de alta pureza exige engenharia avançada para ser processado e transportado em navios inteligentes desenhados pela própria empresa.

Na siderurgia, a Gerdau driblou o protecionismo ao inovar no modelo fabril. Como a maior recicladora das Américas, comprou usinas nos EUA e implementou a tecnologia de mini-mills (usinas compactas), transformando sucata local em aço de alto valor agregado sem barreiras tarifárias.

No mesmo sentido, a Suzano superou concorrentes de clima temperado ao dominar o ciclo da biotecnologia florestal, desenvolvendo genética de plantas que garante a maior produtividade de eucalipto por hectare do planeta.

Por outro lado, bens de capital e varejo exigem processos ágeis e flexibilidade. A WEG enfrenta multinacionais alemãs, americanas e chinesas por meio de uma agilidade em customização rara no setor. A empresa importa componentes eletrônicos, mas seu diferencial está no desenvolvimento de softwares de automação próprios e motores de alta eficiência entregues em tempo recorde.

Sob essa mesma lógica de alfaiataria industrial, a Marcopolo tornou-se uma das maiores encarroçadoras de ônibus do mundo. Importando ou utilizando chassis de terceiros, a empresa domina o design estrutural, a engenharia de materiais leves e a customização em massa de carrocerias para as severas topografias de dezenas de países.

Na indústria de alimentos, a JBS inovou ao aplicar uma rigorosa eficiência logística e gestão de marcas adquiridas no exterior com tecnologias de rastreabilidade.

Por fim, a Natura constrói sua vantagem unindo a biotecnologia à sustentabilidade real, transformando bioativos da Amazônia em cosméticos de alta performance.

O segredo das multinacionais brasileiras para vencer a concorrência estrangeira não reside apenas no tamanho de suas operações, mas em sua soberania intelectual. Ao dominarem o ciclo de inovação, o design de produtos e o controle de processos complexos, essas marcas provam que não é necessário fabricar cada parafuso ou extrair cada insumo dentro de casa. A resiliência desenvolvida no Brasil mostrou que, no mercado moderno, a tecnologia proprietária e a capacidade de adaptação são as armas mais eficientes para conquistar o mundo.

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Soberania em IA: o que o Brasil precisa fazer para reduzir a dependência de outros países

Embora dependa de tecnologias estrangeiras para hardware e infraestrutura, especialistas afirmam que o Brasil pode fortalecer sua soberania em inteligência artificial ao desenvolver modelos e aplicações adaptados às necessidades do País

Por Lucas Agrela – Estadão – 28/07/2026

A soberania brasileira na era da inteligência artificial (IA) é um assunto complexo devido às suas diferentes camadas. À primeira vista, pode-se pensar que bastaria ter uma IA falando português com servidores funcionando em território nacional, mas toda a tecnologia, do hardware ao software, vem do exterior.

A arquitetura Transformer, o T do ChatGPT, foi desenvolvida pelo Google e é a base das plataformas de IA generativa conhecidas hoje. Trata-se da tecnologia que permite à IA ler todo o contexto de um texto ao mesmo tempo, entendendo o significado exato de cada palavra.

Mas é no hardware que o Brasil, assim como inúmeros países, está mais dependente de outros mercados. O País está fora da cadeia de design e produção de chips de memória usados para o processamento de demandas de inteligência artificial. Ou seja, para que tenha autonomia nas aplicações de IA, é necessário comprar os componentes vindos de fora.

A cadeia de produção de chips envolve diversas etapas e empresas especializadas. A taiwanesa TSMC é responsável pela fabricação desses componentes, enquanto a holandesa ASML fornece as máquinas de litografia essenciais para produzi-los. Antes da fabricação, porém, empresas americanas como Nvidia e AMD desenvolvem a arquitetura e o design de processadores e chips de memória. Esse trabalho, no entanto, depende de programas especializados para realizar o trabalho de design de chips fornecidos pelas americanas Cadence e Synopsys, indispensáveis para o desenvolvimento dos chips.

Tornar o Brasil uma referência na fabricação de semicondutores, por exemplo, não dependeria apenas do investimento de centenas de bilhões de dólares, mas também do fator tempo para refinamento de processos. Taiwan, que é a referência global nesse mercado, investe na fabricação de chips desde os anos 70 e seus esforços resultaram na criação da TSMC em 1987. Ou seja, foram mais de 50 anos de investimentos públicos e privados para que o mercado se tornasse o polo mundial da manufatura de chips.

Diante desse cenário, as aplicações locais da IA, segundo especialistas, são uma forma de soberania que pode ser mantida pelo País. Seja por meio da criação de modelos de linguagem (LLMs) que sejam adaptados ao português e suas regionalidades, ou com a aplicação em mercados nos quais o País é forte, como no setor financeiro e no agronegócio.

Para Carlos Rafael Neves, professor de ciência de dados e negócios da ESPM, a missão de trazer soberania total ao Brasil na era da IA é bastante difícil. Por isso, o melhor a se fazer é criar aplicações específicas.

“Na área de criação de aplicações comerciais, o Brasil tem milhares de excelentes exemplos de ferramentas e sistemas criados com base em soluções ou modelos de IA”, diz Neves. Mas esse último quesito não serve, necessariamente, como termômetro de soberania em IA, porque ele depende de absolutamente todos os quesitos anteriores. 

“Então, apesar de o Brasil estar produzindo dentro de casa muitas soluções de qualidade com IA, ele só está fazendo isso graças a tecnologias estrangeiras.”

O professor diz ainda que até existem equipamentos capazes de viabilizar a criação de modelos de IA avançados, mas não o suficiente para competir com soluções de outros países, como Estados Unidos e China.

“Na capacidade de processamento, o Brasil já conta com alguns data centers e supercomputadores bastante poderosos, como o supercomputador Santos Dumont, que conta com hardware de ponta (apesar de ser hardware importado, não fabricado no país) e é capaz de processar 20 quatrilhões de operações por segundo (20 Petaflop/s). Isso seria o suficiente para criar ou treinar modelos avançados de IA. Ainda assim, isso é um caso isolado, e há bastante carência por mais data centers de grande capacidade”, afirma.

Na visão de Fabro Steibel, diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS-Rio), a soberania em IA não deve ser vista como uma independência total, mas como resiliência. Para ele, ser soberano significa ter a capacidade de continuar funcionando mesmo diante de interrupções externas, comparando a situação à indústria aeronáutica brasileira, que produz aviões, mas depende de motores importados.

“Em um cenário futuro, em que a IA se torne uma commodity, com todos os modelos oferecendo coisas parecidas, os modelos open source que podem ser instalados e usados aqui serão tão bons quanto os que são de fora. Os modelos de fronteira podem ter restrições e circular apenas entre os amigos, como aconteceu com a Anthropic, que não ofereceu, por um tempo, um de seus modelos para quem não fosse americano”, afirma Steibel.

País tem plano de IA com investimentos de R$ 23 bilhões

O governo federal mantém o que chama de Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê investimentos de R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028. Coordenado pelo Comitê Interministerial para a Transformação Digital (CIT Digital), o plano combina ações de curto prazo com iniciativas de médio e longo prazo.

No horizonte imediato, o plano prioriza projetos capazes de gerar resultados concretos em até 12 meses. Na saúde, as iniciativas incluem a automatização de prontuários de teleconsultas do SUS, o uso de IA para apoiar a compra de medicamentos, o aprimoramento de diagnósticos de doenças e o desenvolvimento de ferramentas para a detecção precoce de enfermidades neurodegenerativas.

Na educação, o plano prevê sistemas inteligentes para combater a evasão escolar, monitorar a qualidade da alimentação oferecida nas escolas e oferecer tutoria personalizada em matemática. Também estão previstas soluções para modernizar a gestão pública, como chatbots para atendimento de brasileiros no exterior e ferramentas de apoio à Receita Federal.

Já as ações estruturantes, que concentram 98% dos recursos previstos, têm como objetivo fortalecer a soberania tecnológica do país e estão distribuídas em cinco eixos: ampliação da infraestrutura computacional e da rede nacional de dados; formação e capacitação de profissionais; adoção de inteligência artificial no serviço público; incentivo à inovação empresarial e ao ecossistema de startups; e desenvolvimento de mecanismos de regulação e governança para o uso ético da tecnologia.

O PBIA também estabelece metas para os próximos três a cinco anos, incluindo a expansão da capacidade computacional nacional, a formação de milhares de profissionais especializados e a consolidação do Brasil entre os cinco países com maior capacidade computacional para IA, além da ampliação do uso da tecnologia pelos órgãos federais.

Procurado, o MCTIC informou que, até junho de 2026, R$ 7,8 bilhões haviam sido executados, o que corresponde a 34% dos R$ 23 bilhões previstos para o período 2024–2028.

“A execução acompanha o desenho do plano: o eixo de inovação empresarial responde por 60% do orçamento total previsto e concentra a maior parte do valor já executado, por operar instrumentos consolidados de crédito e subvenção da Finep e do BNDES. Os demais eixos tiveram, em 2024 e 2025, sua fase de estruturação e agora entram na fase de contratação: o FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) aprovou cerca de R$ 1 bilhão para ações dos cinco eixos em 2026, e há R$ 7,1 bilhões programados no âmbito do fundo para os próximos anos”, informou o ministério.

Entre os principais marcos do período estão a quadruplicação da capacidade do supercomputador Santos Dumont, que atingiu 18,85 petaflops, o apoio a 547 projetos de IA aplicada em empresas por meio da Finep e do BNDES, e a realização da primeira Olimpíada Nacional de IA, que reuniu 716 mil estudantes inscritos.

Para a próxima fase, o foco do ministério será na soberania tecnológica, com a estruturação da compra de um novo supercomputador nacional e a contratação de projetos aprovados em 2026, como o modelo de linguagem em português baseado em dados locais e o Instituto Nacional de IA. O cronograma prevê ainda o lançamento de editais de bolsas e retenção de talentos em dezembro, a ampliação dos CENAPADs (Centros Nacionais de Processamento de Alto Desempenho) em 2027 e a continuidade do monitoramento público do plano.

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Piauí criou projeto SoberanIA, em 2024

Um projeto conhecido como SoberanIA foi criado em 2024 no Piauí, a partir da criação da Secretaria Estadual de Inteligência Artificial. O projeto foi concebido com o objetivo de realizar uma ação transversal de tecnologia dentro do governo, visando a transformação digital como uma ferramenta de transformação social.

De um lado, o intuito é oferecer treinamentos em IA para servidores públicos. Do outro, é permitir interações da população com os serviços estaduais por meio da IA.

Embora o ecossistema se chame SoberanIA, os modelos de linguagem (LLMs) desenvolvidos com base em soluções de código aberto são denominados Soberano. Eles foram treinados em território nacional, utilizando servidores e dados brasileiros.

“O Soberano é voltado para ser usado no setor público. Não tem a intenção de ser o ChatGPT”, afirma André Macedo Santana, secretário de Inteligência Artificial, Economia Digital, Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado do Piauí (SIA),

O projeto utiliza um vasto inventário de cerca de 800 bases de dados públicas (saúde, segurança, educação) e sistemas de processos eletrônicos para treinar a IA. Também incorpora dados culturais, como livros de autores piauienses e videoaulas da rede estadual.

Santana diz que o intuito da IA do Estado é ser especialista no contexto nacional e regional, entendendo gírias, sotaques e a cultura local para facilitar a comunicação com a população.

Entre as aplicações, Santana cita que já é possível registrar um boletim de ocorrência via WhatsApp por mensagens de voz ou texto, graças ao projeto Soberania. Entre as diversas iniciativas do projeto, o secretário estima que o investimento já realizado supere a cifra de R$ 40 milhões. “A meta é tornar o Soberania a base do governo conversacional”, afirma Santana.

Para realizar isso, o secretário conta que busca o apoio do MCTIC para comprar placas de processamento gráfico para as demandas de IA. Além disso, a secretaria anunciou no fim do ano passado um projeto de instalar um data center no litoral do Estado em parceria com a Scala Data Center. A ideia é manter os dados processados localmente. Segundo Santana, ainda faltam detalhes técnicos para que isso ocorra. Procurada, a empresa não se pronunciou.

Setor energético brasileiro tem grande potencial na era da IA

A energia renovável brasileira, especialmente a eólica, já é vista por especialistas como um dos grandes destaques mundiais para alimentar os data centers especializados em processar cargas de trabalho de IA.

Segundo o relatório Latin America Data Center Report 2025, da JLL, o País tem 48% da capacidade de data centers em operação na América Latina e também tem 71% da capacidade em fase de construção na região.

Esses espaços precisam de tanta energia quanto uma cidade de pequeno ou médio porte, e isso pode impactar na conta de luz da população se não houver planejamento prévio e uso de fontes renováveis e métodos eficientes de resfriamento dos servidores.

Por isso, grandes empresas já apostam no Brasil para abrigar data centers, como é o caso do TikTok, que estrutura um projeto de R$ 200 bilhões no Porto Pecém junto com a Omnia Data Centers, empresa criada pelo fundo Pátria Investimentos.

No interior de SP, na cidade de Sumaré, a Ascenty prepara um data center que será dedicado ao processamento de demandas de IA. O cliente, porém, não foi revelado — embora as possibilidades de empresas com capital e necessidade de tanto processamento sejam poucas no mundo, como Meta, Microsoft, Google, OpenAI e Anthropic.

No começo do ano, o setor teve as expectativas frustradas pela perda de validade da medida provisória do Redata, que traria benefícios para empresas que instalassem data centers no Brasil. A MP acabou não sendo votada pelo Congresso e segue sem previsão de vigência. O Retada previa a suspensão de tributos federais na compra de equipamentos, estímulo à economia digital e redução de custos para instalação de data centers.

Steibel, do ITS-Rio, lembra que, embora o Brasil tenha potencial para o mercado de data centers, ainda é pequeno globalmente nessa área.

“O Brasil tem 1% dos data centers do mundo. Por mais que cresçamos muito, não teremos a mesma capacidade de processamento de dados da Europa, EUA ou China. Nosso potencial é verídico, mas precisa ser colocado em escala. Para nós, é ótimo (ter energia renovável) porque poderemos usar energia verde para o processamento de dados que precisarmos”, diz Steibel.

Soberania em IA: o que o Brasil precisa fazer para reduzir a dependência de outros países – Estadão 

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ChatGPT já faz profissionais trabalharem fora da própria área

Análise de mais de 800 mil mensagens mostra como a inteligência artificial está tornando mais fluidas as fronteiras entre profissões

Redação Fast Company Brasil – 27-07-2026 

A inteligência artificial pode transformar o mercado de trabalho antes mesmo de eliminar vagas. Uma nova análise da OpenAI mostra que profissionais já recorrem ao ChatGPT para executar atividades normalmente associadas a outras áreas — como criar materiais de marketing, resolver problemas de software, fazer cálculos financeiros ou interpretar normas.

O levantamento, obtido com exclusividade pela Axios, analisou mais de 800 mil mensagens relacionadas ao trabalho enviadas por usuários empresariais do ChatGPT nos Estados Unidos.

Entre os pedidos ligados a uma profissão específica, 44% envolviam atividades mais comumente realizadas por profissionais de outra área. Solicitações genéricas, como escrever e-mails ou agendar reuniões, foram excluídas desse cálculo.

Na prática, o ChatGPT está permitindo que profissionais ultrapassem os limites tradicionais de seus cargos — ainda que isso não signifique que tenham adquirido o conhecimento ou a experiência de um especialista.

“É provável que as fronteiras entre os empregos já estejam se tornando mais flexíveis por causa da IA”, afirmou Ronnie Chatterji, economista-chefe da OpenAI, à Axios.

QUAIS PROFISSÕES MAIS USAM A IA PARA ATRAVESSAR FRONTEIRAS

O cruzamento entre funções apareceu com maior frequência entre profissionais de atendimento ao cliente, design e recursos humanos. Nessas áreas, cerca de três quartos dos pedidos relacionados a uma ocupação envolviam atividades mais associadas a outro campo profissional.

Os percentuais apresentados pela OpenAI foram:

  • atendimento ao cliente: 77%;
  • design: 75%;
  • recursos humanos: 69%;
  • jurídico: 56%;
  • marketing: 53%;
  • vendas: 40%;
  • finanças: 40%;
  • engenharia: 28%.

Isso não significa, por exemplo, que 75% de todo o trabalho feito por designers tenha migrado para outras áreas. O percentual considera apenas as solicitações ao ChatGPT classificadas como ligadas a uma ocupação específica, depois da exclusão de tarefas comuns a diferentes profissões.

Os exemplos citados no levantamento incluem profissionais pedindo ajuda para produzir campanhas, solucionar questões técnicas, analisar números financeiros e compreender regulamentações.

O movimento ajuda a explicar por que a IA pode mudar primeiro o conteúdo dos empregos — e somente depois aparecer nas estatísticas de contratações e demissões. Enquanto isso, a inteligência artificial já se tornou uma das principais preocupações dos profissionais.

PEQUENAS EMPRESAS USAM A IA PARA PREENCHER LACUNAS

A tendência foi um pouco mais forte nas empresas menores. Entre usuários típicos do ChatGPT, quase 19% das solicitações profissionais feitas em pequenos negócios ultrapassavam as fronteiras da ocupação de quem havia enviado o pedido. Nas empresas maiores, o índice ficou perto de 16%.

Uma possível explicação é estrutural. Companhias menores nem sempre têm equipes especializadas em jurídico, tecnologia, marketing ou finanças. Nesses ambientes, a IA pode funcionar como uma primeira camada de orientação para problemas que, em uma organização maior, seriam encaminhados a outro departamento.

Essa leitura, porém, ainda é uma hipótese. O levantamento não demonstra que a ferramenta esteja substituindo especialistas ou que as empresas tenham deixado de contratar profissionais dessas áreas.

O ESTUDO NÃO MEDE QUALIDADE NEM PRODUTIVIDADE

Os próprios pesquisadores alertam que os dados não permitem saber se o ChatGPT está levando profissionais a assumir novas responsabilidades ou apenas ajudando-os a executar tarefas que já faziam parte de seus cargos.

A análise também não avaliou a qualidade das respostas, o ganho de produtividade ou os efeitos sobre decisões de contratação.

Essa é uma limitação especialmente importante em áreas como direito, finanças e tecnologia. Conseguir gerar uma explicação, um cálculo ou um trecho de código não garante que o resultado esteja correto — nem elimina a necessidade de revisão por alguém com conhecimento especializado.

Uma pesquisa anterior da OpenAI, publicada em 2025, já havia identificado que o uso profissional do ChatGPT se concentra principalmente em obtenção e interpretação de informações, tomada de decisões e resolução de problemas. O novo levantamento acrescenta outra dimensão: essas atividades nem sempre permanecem dentro dos limites formais do cargo de cada usuário.

Mais do que substituir profissões inteiras, a IA começa a redistribuir pequenas tarefas entre pessoas, ferramentas e departamentos. A mudança pode parecer discreta, mas altera o que se espera de cada profissional — e quais conhecimentos as empresas consideram indispensáveis dentro de suas equipes.


SOBRE O(A) AUTOR(A)

Conteúdo produzido pela Redação da Fast Company Brasil. 

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Tarifas de Trump contra o Brasil tornam diversificação de mercados ainda mais urgente

Acordos pontuais podem mitigar danos, mas a era do acesso previsível ao mercado americano acabou

Por Oliver Stuenkel – Estadão – 27/07/2026

O novo tarifaço de Donald Trump contra o Brasil, que combina uma sobretaxa de 25% sobre parte do que o país vende aos EUA com a tarifa adicional de 12,5% em vigor desde sexta-feira sob a rubrica de “trabalho forçado”, revela menos sobre supostas falhas brasileiras do que sobre uma nova realidade: o protecionismo americano não é passageiro, e uma das principais respostas duradouras ao alcance do Brasil é acelerar a diversificação de seus mercados.

O histórico recente não deixa dúvida sobre a disposição de Washington: quando a Suprema Corte derrubou, em fevereiro, as tarifas do “Dia da Libertação”, o governo Trump simplesmente as reconstruiu sobre novas bases jurídicas. Acordos pontuais podem mitigar danos, mas a era do acesso previsível ao mercado americano acabou.

A boa notícia é que o Brasil está menos exposto do que esteve durante a maior parte de sua história. Em 2002, os EUA compravam 26% de tudo o que o país exportava. Em 2025, absorveram apenas 10,8% das exportações brasileiras, US$ 37,7 bilhões de um total recorde de US$ 349 bilhões. Entre agosto de 2025 e maio de 2026, a fatia caiu a 9,3%, a menor da série histórica iniciada em 1997. As opções realistas de reação são conhecidas: negociar exclusões produto a produto; lançar mão da Lei da Reciprocidade com parcimônia, já que retaliar custaria caro e resolveria pouco; e, sobretudo, acelerar a diversificação de mercados.

Nesse front, a agenda é promissora. O acordo Mercosul-União Europeia, assinado em janeiro, teve seu pilar comercial aplicado a partir de maio, e, segundo o governo brasileiro, nos primeiros dois meses de vigência, as exportações do Brasil para a Europa cresceram R$10 bilhões, alta de 26% sobre o mesmo período de 2025. O tratado com a EFTA (a Associação Europeia de Livre Comércio, formada por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein), assinado no ano passado e já ratificado pelo Congresso brasileiro, ainda não entrou em vigor.

Outro caso com potencial é o do Canadá. Alvo, nesta semana, do anúncio de tarifas americanas de 50% sobre uma lista de produtos, com vigência prevista para agosto, Ottawa tem hoje todos os incentivos para concluir logo o acordo com o Mercosul, cujas negociações avançaram em ritmo recorde. A assinatura pode sair ainda neste ano. Na cúpula de junho, o bloco lançou negociações com o Japão e mantém tratativas com Emirados Árabes Unidos e Vietnã, além de buscar aprofundar o acordo preferencial com a Índia. O acordo com Cingapura, já ratificado pelo Brasil, entra em vigor em 1º de agosto; e o bloco ainda mantém negociações ou diálogos exploratórios com Coreia do Sul, Indonésia, Malásia, Reino Unido, El Salvador e República Dominicana.

Crescimento e diversificação

Os números mostram que a diversificação já dá frutos. Entre 2020 e 2025, as exportações brasileiras cresceram dois terços. As vendas para mercados relevantes como Espanha, Filipinas, Cingapura, Índia, México, Argentina e Uruguai mais que dobraram no período, e dezenas de destinos registraram recordes de compras em 2025. Em valores absolutos, o maior salto veio da China, que ampliou suas aquisições em US$ 32 bilhões, seguida de Estados Unidos (reflexo da base deprimida da pandemia, que o tarifaço já começou a reverter), Argentina, Países Baixos, Espanha e Índia.

Tudo isso confirma o acerto da estratégia brasileira de longo prazo. Durante anos, a aposta na diversificação, dos acordos Sul-Sul à aproximação com a Ásia, foi tratada por críticos como capricho ideológico. A comparação com México e Canadá é instrutiva. Ambos apostaram alto na integração com os EUA, que hoje absorvem mais de 80% das exportações mexicanas e cerca de 70% das canadenses. Viraram reféns. O Brasil, justamente por nunca ter colocado todos os ovos na cesta americana, tem alternativas. Isso, é claro, desde que evite trocar uma dependência por outra: a China já responde por quase 29% das exportações.

A diversificação comercial deveria vir acompanhada de um esforço mais amplo para reduzir dependências também em defesa, tecnologia e parcerias diplomáticas. Os intercâmbios universitários, por exemplo, ilustram o tamanho do desafio: a formação internacional das elites brasileiras segue voltada, em grande parte, para o Ocidente, enquanto os laços acadêmicos com outras regiões, como Ásia, África e o Oriente Médio, permanecem limitados. A quantidade de brasileiros que acompanham de perto o cenário econômico e político em países como Indonésia, Vietnã e Arábia Saudita precisa aumentar. Preparar a próxima geração para transitar com desenvoltura num mundo menos centrado no Ocidente é tão estratégico quanto assinar acordos comerciais.

Opinião por Oliver Stuenkel

Pesquisador do Carnegie Endowment, na Harvard Kennedy School, e professor de Relações Internacionais da FGV-SP. Escreve quinzenalmente.

Tarifas de Trump contra o Brasil tornam diversificação de mercados ainda mais urgente – Estadão 

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Grupos de tecnologia dos EUA cortam 140 mil empregos apesar do aumento nos gastos com IA

Onda de investimentos remodela o Vale do Silício, enquanto o mercado de trabalho se mantém estável Amazon, Alphabet, Meta e Microsoft devem injetar US$ 725 bilhões em infraestrutura de data centers

Rafe Rosner-Uddin e Clara Murray – Folha/FT – 26.jul.2026

San Francisco e Londres | Financial Times

As empresas de tecnologia dos Estados Unidos eliminaram quase 140 mil empregos desde o início de 2026, dando continuidade a uma onda de demissões no setor, mesmo com os investimentos em inteligência artificial atingindo níveis recordes.

O setor de tecnologia responde por mais de um terço das demissões anunciadas nos EUA durante o período, segundo análise do Financial Times com base em documentos corporativos e dados da empresa de recolocação profissional Challenger, Gray & Christmas.

Amazon, Oracle, Meta e Microsoft respondem por quase 50 mil desses cortes, o que representa cerca de 6% do total de seus funcionários.

Cortes drásticos de empregos se tornaram a norma no Vale do Silício desde a pandemia de Covid-19 , quando as empresas iniciaram uma onda de contratações baseada na expectativa de demanda sustentada por serviços digitais. Muitas continuaram a reduzir o número de funcionários enquanto investiam pesado em infraestrutura de IA.

O destino dos trabalhadores da área de tecnologia contrasta com um mercado de trabalho mais amplo, relativamente resiliente. Embora as contratações tenham arrefecido desde o boom pós-pandemia, a taxa de desemprego nos EUA permanece baixa, em 4,2%, segundo dados do Departamento de Estatísticas do Trabalho.

Os quatro maiores provedores de hiperescala —Amazon, Alphabet, Meta e Microsoft— esperam investir um total de US$ 725 bilhões (R$ 3,7 trilhões) este ano em infraestrutura de data centers.

A Oracle, por sua vez, planeja investir US$ 70 bilhões (R$ 354,6 bilhões) em instalações semelhantes para atender clientes como a OpenAI. Rishi Jaluria, analista do RBC, afirmou que as empresas de tecnologia estão fazendo cortes para compensar as contratações excessivas do passado e liberar capital para investimentos em IA. “O dinheiro precisa vir de algum lugar”, disse.

A Oracle encerrou o ano fiscal de 2026 com 21 mil funcionários a menos do que no ano anterior, após cortes realizados em março. Essas demissões ocorreram em meio à crescente pressão sobre o balanço patrimonial da empresa. Neste mês, a S&P rebaixou a classificação de crédito da companhia para um nível acima do grau especulativo, citando fluxo de caixa mais fraco e incerteza quanto ao retorno sobre investimentos em inteligência artificial.

Paralelamente aos investimentos em IA , os grupos de tecnologia têm se mobilizado para reestruturar unidades de negócios nas quais antes apostavam como oportunidades de crescimento.

No início deste mês, a Microsoft cortou 4.800 postos de trabalho, a maioria deles na sua unidade de jogos Xbox, numa reestruturação conduzida apenas três anos após a aquisição da Activision Blizzard por US$ 75 bilhões (R$ 380 bilhões).

“Eles estão passando de uma aposta para outra”, disse Jaluria, do RBC.

Algumas empresas de tecnologia atribuíram os cortes de pessoal aos ganhos de produtividade associados às capacidades da IA. Segundo a Challenger, até 170 mil demissões corporativas foram relacionadas à tecnologia desde maio de 2023.

Em maio, o diretor executivo da Block, Jack Dorsey, demitiu quase metade dos 10.000 funcionários da empresa. Ele informou aos colaboradores, em um comunicado, que a inteligência artificial estava alterando as necessidades de pessoal.

CONTRATAÇÃO EM EXCESSO

No entanto, acadêmicos questionaram essa lógica, argumentando que os cortes relacionados à IA são um pretexto para que executivos corrijam erros do passado.

“A atitude típica dos executivos de tecnologia tem sido dizer que a IA nos permite ganhar eficiência, em vez de admitir que contrataram funcionários em excesso”, disse Enrico Moretti, professor de economia da UC Berkeley. “É uma saída fácil.”

Uma análise do Financial Times mostrou que as empresas que citaram a inteligência artificial como fator para os cortes de empregos tiveram um desempenho quase 10% inferior ao do Nasdaq nos 30 dias úteis seguintes ao anúncio. Em comparação, a diferença foi de aproximadamente 4% para aquelas que atribuíram os cortes a outros fatores.

Diversas grandes empresas de tecnologia tomaram medidas para evitar usar a IA como justificativa para cortes de pessoal, incluindo a Amazon e a Microsoft, que afirmaram explicitamente que a implementação da tecnologia não foi o motivo da decisão de reduzir o quadro de funcionários.

Apesar do aumento das demissões no setor de tecnologia, startups focadas em IA, como a Anthropic e a OpenAI, estão expandindo rapidamente seus quadros de funcionários, ajudando a amenizar o impacto dos cortes em toda a indústria de tecnologia.

“O emprego em IA está crescendo em ritmo acelerado”, disse Moretti, da UC Berkeley. “O que as empresas de tecnologia estão cortando é todo o resto.”

(Colaborou Claire Jones, de Washington)

Tecnologia dos EUA corta 140 mil empregos apesar de IA – 26/07/2026 – Economia – Folha 

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