Eleita uma das pessoas mais influentes do mundo pela revista Time, a engenheira agrônoma Mariangela Hungria lamenta falta de incentivo à pesquisa no país
Por Maria da Paz Trefaut – Valor – 21/08/2026
Ao refletir sobre sua carreira e o caminho que a levou a ser consagrada como uma das 100 personalidades mais influentes do mundo pela revista americana Time, a cientista brasileira Mariangela Hungria é incisiva: “Gostaria de ter tido mais estímulo”, diz. “De ter encontrado mais pessoas que me apoiassem verdadeiramente.”
Hoje, seu reconhecimento internacional é incontestável. No ano passado, ela foi a primeira brasileira a receber o World Food Prize (Prêmio Mundial da Alimentação), conhecido como o “Nobel da Agricultura”, por sua pesquisa sobre fertilizantes biológicos que substituem os químicos. Mais recentemente, recebeu o Prêmio Faz Diferença, do jornal O Globo, na categoria economia, pelo trabalho em prol da produção agrícola brasileira.
Graças ao uso desses produtos, hoje adotados por 85% dos agricultores na produção de soja, o Brasil economizou US$ 29 bilhões na última safra. “Tão importante quanto isso é que deixamos de emitir 278 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera. Isso é abstrato? É o equivalente a 60 milhões de carros de porte médio rodando por um ano”, explica Hungria.
Chegar a esse patamar foi consequência de 40 anos como pesquisadora da Embrapa e da obstinação por uma carreira que, muitas vezes, teve que conviver com momentos pessoais turbulentos e dolorosos.
No fim de uma tarde fria, Mariangela Hungria, de 68 anos, chega à Le Blé – Casa de Pães, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, para tomar um lanche. Ela nunca havia estado ali e sobe ao primeiro andar acompanhada pelo gerente Roberto Silas, já conversando sobre ovos caipiras, horta e produtos orgânicos como se os dois fossem velhos conhecidos. Seus cabelos são negros, ela está maquiada e vestida com uma camisa vermelha e calças compridas pretas.
Sobre o Brasil agora ter uma mulher laureada com o “Nobel da Agricultura”, ela ri com simplicidade. “Foram muitos anos de trabalho, sou apaixonada pela microbiologia desde os oito anos, quando minha avó me deu de presente o livro ‘Caçadores de micróbios’, do microbiologista americano Paul de Kruif, escrito em 1926. Esse livro mudou minha vida, na hora decidi o que queria ser.”
Em todas as entrevistas que deu nos últimos tempos, Hungria sempre fez questão de colocar a avó em destaque como uma das personagens mais marcantes na sua formação. “Minha avó sempre me incentivou. Fez de tudo para que eu tivesse uma profissão e uma carreira”, diz. “Ela trabalhava, era professora, cuidava da casa, mas achava tempo pra mim e tinha muita paciência. Ao perceber que eu tinha essa vocação, lia livros de ciência que tinha em casa e fazíamos experiências.”
O fato de descobrir que existe um mundo que não podemos ver, povoado por seres invisíveis aos nossos olhos, não fez dela uma criança marginalizada. Lia ciência e muito Monteiro Lobato também. O livro seguinte que marcou sua infância foi a biografia de Marie Curie, a física pioneira da radioatividade. Com ele, percebeu que as mulheres podiam ser cientistas, e se isso era possível, ela seria uma delas.
Ela cresceu em Itapetininga, no interior de São Paulo. Como a mãe se separou muito cedo, Hungria foi criada por ela e pelas avós numa família em que todas as mulheres eram professoras de escola pública. “Coisa que naquela época era uma profissão de prestígio”, diz, e faz um desabafo: “Me parte o coração ver como essa profissão ficou desmoralizada”.
Sua família era de classe média, sem muitos recursos extras, tanto que quando vieram para São Paulo ela foi para o Rio Branco como bolsista para cursar o secundário e colegial. Deixou a capital mais tarde quando ingressou na Escola Superior de Agronomia da Universidade de São Paulo (Esalq), em Piracicaba, numa época em que pouquíssimas mulheres seguiam esse curso. De um modo geral, ser engenheiro agrônomo era uma subcarreira.
“Até os anos 1970 o Brasil importava alimentos e o agricultor era uma pessoa de baixa renda, com um nível educacional baixo. Havia até o estereótipo do homem do campo. Era o Jeca Tatu, o Mazzaropi, uma caricatura. E a faculdade interessava principalmente aos filhos dos grandes proprietários, e eu não era nada disso”, lembra. Era uma menina da cidade, que escolheu essa carreira com o sonho de fazer alguma coisa para vencer a fome.
Na faculdade, a vida mudou de forma radical. Logo no segundo ano se casou e engravidou rapidamente. Teve duas filhas: Carol Hungria, 48 anos, publisher do site CH News, especializado em lifestyle, e Marcela, dez meses mais jovem e portadora de necessidades especiais.
O casamento durou pouco: talvez nem cinco anos, “mas somos super amigos até hoje”. Quando se viu sozinha com as duas meninas, ela teve que largar a unidade de microbiologia da Embrapa em Seropédica, no Rio, onde moravam, e partir para uma cidade pequena, onde pudesse encontrar assistência especializada para a filha menor. Foi assim que chegou a Londrina, deixando para trás um laboratório com uma ótima estrutura e tendo que montar um outro, a partir do zero.
Ao falar da filha, ela se emociona. “Não tenho um diagnóstico preciso da Marcela, o caso dela é uma coisa meio múltipla, ela foi muito doente. Diziam que nunca ia andar, nunca ia falar e, pra complicar, teve uma série de outros problemas. Daí chegou uma hora que desisti de classificar e falei: vamos fazer de tudo para ela se desenvolver o melhor possível.” Hungria faz uma pausa: “Nossa, ela não ia falar? Quem disse! Quando você conhecê-la, vai ver. Porque ela fala o tempo inteiro sem parar. Ela vai pra cima e pra baixo comigo”.
Diariamente, a filha a lembra de coisas que vamos perdendo ao longo da vida, como a pureza e a simplicidade. “Ninguém é mau para ela, todo mundo é lindo, todo mundo é maravilhoso. A pessoa pode estar suja, fora de moda, não importa. Ela nos lembra de coisas que um dia tivemos, como se fosse uma eterna lembrança dos valores que perdemos.”
Com a filha pequena sempre doente e a adaptação a um emprego novo, a chegada a Londrina foi permeada por problemas. “Passei por muitas, muitas, muitas dificuldades. Nossa, como eu chorei durante dias, semanas, meses. A vantagem de chegar ao fundo do poço é que a partir daí você percebe o que é realmente importante. Daí que hoje, diante de algo, já digo: deixa pra lá, isso é bobagem, não é importante. A gente transforma tanta bobagem em problema…”
O laboratório da Embrapa Soja não ficava nem no centro de Londrina, mas em Warta, um pequeno distrito. E não tinha nada. “Decidi ir pra lá como mãe, mas profissionalmente acabou por ser a grande oportunidade da minha vida. Porque criei meu laboratório, meu grupo de pesquisa, e não estava subordinada a ninguém. Isso me permitiu fazer o que eu achava que devia ser feito.”
Fertilizantes biológicos eram vistos como coisas pequenas com sentido apenas para agricultura familiar. Ela queria uma coisa grande, que funcionasse para altos rendimentos: para pequenos, médios e grandes agricultores. “Os primeiros quatro, cinco anos, foram difíceis, era preciso construir o mínimo ali. Eu tinha dado as costas para um centro famoso, onde tinha tudo. A pesquisa no Brasil, até hoje, é muito concentrada. E o dinheiro está em primeiro lugar em São Paulo, depois Minas e Rio.”
E hoje, com todos esses prêmios, isso mudou? Ela sorri. “Dinheiro mais fácil? De jeito nenhum. Nenhum dinheiro pra pesquisa é fácil no Brasil. É um horror, um sofrimento. E não tem continuidade, não tem constância. É uma eterna batalha”, diz. “Sempre digo que no Brasil a gente não faz ciência, faz milagre.”
Sua pesquisa sobre os biológicos quebrou um paradigma de que esse tipo de fertilizante só serviria para pequenos produtores. “Mostramos que era possível utilizar em uma cultura que estava crescendo muito como a soja. Agora, mostramos que também é possível utilizar no milho. Sabemos que é possível para várias culturas”, diz. “Hoje, o uso dos biológicos atinge 40 milhões de hectares no Brasil, uma escala que não existe no mundo. Sem eles estaríamos usando nitrogênio fertilizante, o mais poluente.”
A ideia de que a monocultura da soja está destruindo a terra e a diversidade no Brasil é uma velha polêmica. A agricultura salva o Brasil ou destrói?
“Quando fui para a Embrapa Soja, achava que cientificamente era tudo ruim. Tinha essa ideia de que a soja devastava e tal. Não é assim, ela é uma cultura fantástica”, diz. E explica: “O que degrada é o mau manejo da soja. A gente tem rotação de culturas, e as pessoas fazem o manejo adequado, com plantio direto. Elas sabem que se não fizerem, não vão mais conseguir produzir. E as grandes empresas querem produtividade”.
Estatisticamente, hoje temos 65% da área preservada, de floresta e biomas nativos. Somadas, todas as culturas de grãos e árvores ocupam apenas 7%. O gado, sim, é o grande problema ambiental. As pastagens respondem por 19%, ocupam 160 milhões de hectares, e 50% a 60% dessa área está em estágio de degradação. “Podemos recuperar uma parte significativa. Esse sim é nosso grande problema ambiental, ao qual quero dedicar o resto da minha vida.”
Em sua avaliação, há ainda que diferenciar agricultores de criminosos. “Aquele que quer desmatar não é agricultor, é criminoso. É aquele que diz que quer produzir e não quer produzir nada. Você encontra eles em todo lugar do país, de norte a sul, especialmente em áreas novas. O criminoso tem que ser tratado como tal. Porque hoje temos tecnologia para recuperação de pastagens e podemos dobrar a produção de todas as culturas que há no Brasil sem ter que derrubar uma árvore.”
O garçom se aproxima com o cardápio e conta a ela que a coxinha com catupiri da casa já foi premiada várias vezes como a melhor de São Paulo. Ela não vacila: “então, vamos experimentar”. E durante toda a conversa come apenas uma coxinha e toma um cappuccino. Em sua casa, a preocupação com a qualidade da alimentação sempre foi uma constante. “Temos arroz, feijão, carne e salada todos os dias.”
Aquele que quer desmatar não é agricultor, é criminoso.”
— Mariangela Hungria
Mas ela não tem uma relação amorosa com a cozinha. “Minha avó cozinhava muito bem, mas não me ensinou. Outro dia pensei nisso e cheguei à conclusão de que ela queria tanto que eu não fosse dona de casa, que não quis me ensinar… Ela sempre foi uma mulher super à frente de seu tempo e tinha essa coisa de me estimular a ser uma mulher independente.”
Com a mãe, sua relação sempre foi mais distante, e ela volta a falar da avó em vários momentos da entrevista. Inclusive a lamentar que ela não está mais presente agora, em seu reconhecimento. Além da avó, outra mulher determinante em seu caminho foi a engenheira agrônoma Johanna Dobereiner, de origem tcheca, com quem trabalhou no início da carreira.
“Com a maturidade de hoje adoraria poder conversar com elas. Acho que a doutora Johanna foi a pessoa mais feminista que conheci. Ela não tinha nenhum preconceito contra mulheres. E você sabe que muitas mulheres têm um preconceito horrível contra mulheres.”
A sucessão de premiações causou uma reviravolta na vida de Hungria. “Nunca imaginei.” O primeiro prêmio, com valor de US$ 50 mil, foi da Academia Mundial de Ciências. Agora, depois de falar com Carol, a filha mais velha, decidiu que não ficarão com o dinheiro dos outros prêmios e vão fazer um instituto, o H3. “Somos três Hungrias totalmente diferentes. Meuprêmio será para mulheres na pesquisa, o da Carol, para mulheres na comunicação, e o da Marcela, para as que tenham ações positivas para pessoas especiais.”
Além da ciência, ela gosta de plantas. Em sua casa há um jardim grande que “tem de tudo, só não tem soja”. Mas seu tempo é escasso. Trabalha muito, tem que cuidar de Marcela e lamenta o fim das videolocadoras, onde ia no fim de semana para escolher filmes. Numa de suas vindas a São Paulo descobriu a Livraria da Travessa e ficou encantada. Na adolescência, gostava muito de ler, e entre seus escritores favoritos cita Liev Tolstói e Gabriel García Márquez. “Nossa, perdi a conta de quantas vezes reli ‘Cem anos de solidão’.”
Hoje não encontra disponibilidade para ir ao cinema ver os filmes que gostaria. Em compensação, conhece todos os lançamentos infantis, aos quais leva Marcela. “Ela só gosta de desenho. Já fui no ‘Toy Story’ e agora vou ver ‘Moana’.”
No dia a dia é uma pessoa despojada, que se veste de calças jeans e botinas para ir ao campo. Mas, como a filha Carol é especialista em moda, consulta-se com ela sempre que precisa ir adequadamente vestida a uma premiação. “Quando recebi o World Food Prize, disse que queria uma roupa melhor, mas de uma estilista brasileira e mulher. Ela me levou na Gloria Coelho e compramos um terninho. O mesmo que usei novamente na festa da Time.”
Para ela, vale a máxima americana de que para preservar o planeta não devemos comprar mais do que cinco peças por ano. “Acho que compro até menos do que isso. As coisas duram tanto… sou muito cuidadosa e tenho apego a coisas antigas.”
Um de seus prazeres é tirar férias no verão e passar uma temporada na casa de praia que tem em Cumuruxatiba, uma aldeia de pescadores no sul da Bahia. Outro momento especial que cultiva é organizar uma viagem anual com toda a família para o exterior. Neste ano, o destino escolhido foi a Escandinávia.
Por último, pergunto se ela é uma mulher romântica. Primeiro, respondeque já foi. Mas logo corrige: “Sou, sou sim. Acho que não dei muito certo nos casamentos. Tive quatro grandes relacionamentos. E é impressionante a forma como a mulher apoia o homem e como ele não apoia a mulher”.
Ela reflete por alguns momentos e continua: “Todos os relacionamentos que tive foram um problema, era um boicote total. Tinha sempre coisinhas e comentários, que podem parecer simples, mas que eram de crítica permanente ao meu trabalho. Tipo: por que você precisa trabalhar e estudar tanto? Ame a mim, não a pesquisa”.
Por parte de muitas mulheres também sentiu pouco apoio. Quando engravidou, foi um escândalo na faculdade. “As pessoas me diziam: você não vai longe, não vai ser ninguém na vida.” Mas o que a mais a magoou, mais tarde, foi o preconceito contra a filha de necessidades especiais. Em ambientes profissionais não a levava porque sabia que havia uma barreira. Até que um dia resolveu abrir o jogo durante uma conferência e foi uma comoção geral.
“Muita gente pensa que recebi esses prêmios porque tive uma vida fácil. Olha, se você soubesse quantas vezes me disseram: ‘Você não vai dar em nada, você é improvável, você só faz escolhas erradas’… E tudo deu certo. Então, acho que preciso contar para as pessoas que o caminho foi difícil, mas muito gratificante. Quando recebi o World Food Prize, fiquei tão tensa, mas tão tensa, que nem curti. Na hora pensei: Deus, nunca na vida imaginei ganhar algo assim, e estar aqui como representante das mulheres e da ciência do Brasil. Se a Carol não estivesse lá pra me apoiar, acho que eu teria surtado.”
https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2026/08/21/a-gente-nao-faz-ciencia-faz-milagre-diz-a-brasileira-que-ganhou-o-nobel-da-agricultura.ghtml
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