Rios voadores da Amazônia transportam mais água pelo ar do que o volume total descarregado pelo Rio Amazonas

Por Anne Silva – Revista Amazônia – 26 de junho de 2026

Os “rios voadores” da Amazônia constituem um dos fenômenos climáticos e hidrológicos mais colossais e vitais do planeta Terra, operando como uma gigantesca engrenagem de transporte de água doce invisível que dita o ritmo das chuvas, a produtividade agrícola e o equilíbrio ambiental de grande parte da América do Sul. Um fato científico surpreendente e verificável é que, enquanto o Rio Amazonas — o maior do mundo em volume de água líquido — descarrega diariamente cerca de 17 bilhões de toneladas (ou 17 bilhões de metros cúbicos) de água no Oceano Atlântico, a floresta amazônica consegue bombear para a atmosfera, no mesmo período de 24 horas, uma quantidade impressionante de aproximadamente 20 bilhões de toneladas de vapor d’água. Isso significa que o volume de água que corre invisivelmente pelos céus do continente é maior do que a vazão do próprio gigante dos rios terrestres, demonstrando que a vegetação nativa atua como uma bomba de umidade ativa sem a qual o regime climático sul-americano entraria em colapso definitivo.

O motor biológico da evapotranspiração

Para compreender como uma floresta consegue suspender uma massa de água tão superior à do leito do maior rio do mundo, é preciso analisar a fisiologia das árvores amazônicas e o conceito de evapotranspiração. A floresta funciona como um sistema de bombeamento hidráulico movido a energia solar. Composto por mais de 400 bilhões de árvores individuais dotadas de copas imensas e sistemas radiculares profundos, esse ecossistema suga a água subterrânea e a conduz até as folhas.

As árvores realizam trocas gasosas e fotossíntese através de estruturas celulares microscópicas localizadas nas superfícies das folhas chamadas estômatos. Ao se abrirem para absorver o dióxido de carbono ($CO_2$), as folhas perdem água para o ambiente na forma de vapor. Uma única árvore frondosa, com uma copa que chega a medir 20 metros de diâmetro, é capaz de transpirar sozinha mais de 1.000 litros de água por dia. Quando multiplicamos esse volume pela escala monumental da floresta contínua, o resultado é a injeção diária de bilhões de metros cúbicos de vapor na troposfera, formando massas de ar saturadas que se deslocam como verdadeiras correntes hídricas aéreas.

A hipótese da bomba biótica e a atração do oceano

A formação e a manutenção desse fluxo aéreo contínuo desafiavam a meteorologia clássica, que previa que a umidade deveria se dissipar à medida que se distanciava da costa oceânica. A explicação para a força e o direcionamento dos rios voadores reside na revolucionária hipótese científica da Bomba Biótica de Umidade, desenvolvida pelos físicos Anastassia Makarieva e Victor Gorshkov.

Segundo essa teoria, a evapotranspiração massiva da floresta reduz a pressão atmosférica na superfície ao converter água líquida em gás de forma acelerada. Como o vapor ocupa menos espaço que as moléculas de ar seco ao condensar, forma-se uma zona permanente de baixa pressão atmosférica sobre o coração da Amazônia. Essa depressão barométrica biológica funciona como um aspirador de pó meteorológico gigante de escala continental, sugando continuamente o ar úmido e carregado evaporado pelo Oceano Atlântico Tropical para o interior do continente. Esse ar oceânico, ao entrar no território brasileiro, recebe sucessivas “recargas” de umidade fornecidas pela transpiração das árvores ao longo de sua trajetória, mantendo o rio voador alimentado e em movimento veloz rumo ao interior.

O paredão dos Andes e a rota da umidade

O deslocamento dos rios voadores segue uma rota geográfica rígida e bem delimitada. Empurradas pelos ventos alísios que sopram de leste para oeste, essas imensas correntes de ar úmido viajam por milhares de quilômetros sobre a planície amazônica até encontrarem um obstáculo geológico monumental: a Cordilheira dos Andes.

Esta barreira de montanhas, com picos que ultrapassam os 6.000 metros de altitude, bloqueia fisicamente a passagem da massa de ar úmido em direção ao Oceano Pacífico. Ao colidirem contra o paredão andino, parte da umidade se condensa e precipita na forma de chuvas torrenciais que alimentam as próprias nascentes que formam o Rio Amazonas. No entanto, o restante da massa de ar, ainda densamente carregado de vapor, é forçado a fazer uma curva acentuada de quase 90° em direção ao sul, canalizando o fluxo de umidade em direção às regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, além de alcançar o Paraguai, o norte da Argentina e o Uruguai.

O equilíbrio hídrico e a segurança do agronegócio

A importância dos rios voadores vai muito além da manutenção do bioma amazônico; eles são os fiadores diretos da segurança hídrica, do abastecimento urbano de grandes metrópoles e do sucesso econômico do agronegócio brasileiro. Regiões situadas na mesma latitude do Sudeste e Sul do Brasil e do norte da Argentina — como o deserto do Atacama, no Chile, ou o deserto da Namíbia, na África — deveriam, por critérios de circulação global da atmosfera, ser zonas áridas ou desérticas.

É exclusivamente a irrigação aérea providenciada pelos rios voadores que quebra essa regra geográfica e transforma o Centro-Sul do continente em uma área altamente produtiva e rica em recursos hídricos. Estudos de modelagem climática indicam que o desmatamento progressivo e a savanização da Amazônia enfraquecem a capacidade de bombeamento biótico da floresta. Sem a densidade de árvores para recarregar as massas de ar, os rios voadores perdem força e volume, o que resulta na ocorrência de secas severas e prolongadas, quebras catastróficas de safras agrícolas e crises de desabastecimento nos reservatórios das grandes cidades do Sudeste e Centro-Oeste.

Compreender o funcionamento e a magnitude dos rios voadores da Amazônia transforma radicalmente a forma como devemos enxergar as políticas de conservação florestal. Manter a integridade da cobertura vegetal da Amazônia não é apenas uma pauta de preservação da fauna ou um compromisso estético com o meio ambiente; constitui uma medida de segurança nacional e de sobrevivência econômica e climática para o Brasil e seus países vizinhos. Proteger cada árvore da bacia amazônica significa garantir o funcionamento ininterrupto da maior infraestrutura hídrica natural do mundo, assegurando que os rios invisíveis continuem a correr pelos nossos céus e a fertilizar os solos que sustentam o futuro da América do Sul.

Para consultar dados meteorológicos em tempo real, monitoramento de massas de ar e relatórios científicos sobre as dinâmicas do clima na América do Sul, acesse o portal oficial do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Para explorar as pesquisas de ponta focadas na interação floresta-atmosfera, dinâmica de ciclo do carbono e monitoramento por satélite da umidade amazônica, visite a base de dados institucionais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Rios voadores da Amazônia transportam mais água pelo ar do que o volume total descarregado pelo Rio Amazonas – Revista Amazônia 

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‘A inteligência surge justamente no momento em que deixamos de saber o que fazer’, diz Manuel Martín-Loeches, neurocientista

Especialista reúne evidências científicas para explicar como aprendemos, tomamos decisões e desenvolvemos nossas capacidades cognitivas

Flávia Tomaello, O Globo/La Nacion – 28/06/2026 

O ato de pensar costuma ser imaginado como uma atividade limpa, quase cirúrgica, isolada do ruído das emoções. Uma espécie de laboratório interior onde as ideias se organizam sozinhas, como se o cérebro fosse uma máquina racional que funciona melhor quanto mais se aproxima de um algoritmo. No entanto, essa imagem é tão sedutora quanto incompleta. A mente humana se parece mais com um ecossistema do que com uma engrenagem, mais com uma conversa do que com uma equação.

É nesse território híbrido, onde convivem impulsos, memórias, intuições e raciocínios, que Manuel Martín-Loeches trabalha há décadas. Professor de Psicobiologia e responsável pela área de Neurociência Cognitiva do Centro Misto UCM-ISCIII de Evolução e Comportamento Humanos, ele reúne em sua trajetória mais de cem publicações científicas e diversos livros que procuram traduzir a complexidade do cérebro em perguntas cotidianas: para que serve a inteligência? Por que emoção e razão parecem inseparáveis? O que realmente define uma pessoa inteligente?

As respostas são mais importantes do que parecem. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que o desenvolvimento cognitivo nos primeiros anos de vida é fortemente influenciado pelo ambiente, com impactos que podem se estender por toda a trajetória escolar. Ao mesmo tempo, pesquisas em neurociência cognitiva indicam que as áreas do cérebro ligadas à emoção e ao raciocínio estão profundamente conectadas.

Estudos do neurologista Antonio Damasio, como os apresentados no livro O Erro de Descartes, demonstraram que a tomada de decisões é profundamente afetada quando os circuitos emocionais sofrem alterações. Na mesma linha, pesquisas publicadas na revista Nature Reviews Neuroscience apontam uma interação constante entre redes emocionais e cognitivas.

A partir daí, o debate científico avança entre mitos e evidências, passando pela discussão sobre inteligências múltiplas, o papel do ambiente, o amadurecimento cerebral e a relação entre conhecimento e bem-estar.

A inteligência mudou de definição ao longo do tempo?

Talvez nos últimos 150 anos, mas existe um consenso relativamente amplo sobre o conceito. Hoje, inteligência costuma ser definida como a capacidade de aprender, fazer julgamentos e resolver problemas de forma geral. Há outra definição de que gosto mais, atribuída ao psicólogo Carl Bereiter: inteligência é aquilo que você usa quando não sabe o que fazer. Aplicar algo já aprendido depende do conhecimento prévio. A inteligência aparece de forma mais clara em situações novas, sem precedentes, quando surgem ideias originais e soluções criativas.

O senhor discorda da teoria das inteligências múltiplas. Por quê?

O autor dessa teoria, Howard Gardner, propõe a existência de oito inteligências em muitas de suas formulações, mas esse número não possui uma base empírica clara. Trata-se mais de uma classificação conceitual do que de uma conclusão obtida pelo método científico. Os dados disponíveis mostram que diferentes habilidades cognitivas costumam estar relacionadas entre si. Pessoas que apresentam bom desempenho em uma área geralmente também se destacam em outras, ainda que existam diferenças individuais. Por isso, considero mais adequado falar em capacidades ou aptidões do que em inteligências independentes. A inteligência funciona como um fator geral que integra essas capacidades, e um único índice, como o quociente de inteligência (QI), costuma ser suficiente para descrevê-la de forma global.

Inteligência e maturidade caminham juntas?

Do ponto de vista evolutivo, cérebros que levam mais tempo para amadurecer tendem a alcançar níveis maiores de complexidade. O cérebro humano é um exemplo disso, já que pode completar seu desenvolvimento apenas entre os 21 e os 25 anos. Esse período prolongado existe porque precisamos adquirir aprendizagens complexas, especialmente no campo social e emocional. Mas um desenvolvimento mais lento não garante automaticamente melhores resultados. Existe uma janela de tempo em que determinadas habilidades precisam ser adquiridas. Se isso não acontece, a pessoa alcança a maturidade cerebral, mas com limitações que podem acompanhá-la ao longo da vida.

Como a vida digital afeta a inteligência?

Ela faz parte das experiências que moldam o cérebro. Como qualquer estímulo, seus efeitos dependem da qualidade e da diversidade das interações que proporciona. O cérebro humano evoluiu em contato direto com o ambiente físico. Experiências sensoriais, movimento e interação concreta com o mundo são elementos fundamentais para a construção do conhecimento. Uma vida excessivamente mediada por telas pode empobrecer parte dessa experiência, especialmente quando substitui o contato direto com a realidade.

Qual é a influência do ambiente na inteligência?

Enorme. Existe uma base genética, mas o desenvolvimento posterior depende fortemente das experiências vividas, sobretudo nos primeiros anos de vida. Nos três ou quatro primeiros anos, desenvolvem-se as áreas cerebrais ligadas à percepção e ao movimento. Elas funcionam como a base sobre a qual serão construídas as capacidades cognitivas mais complexas. A qualidade dos estímulos visuais, auditivos, táteis e motores, além de uma alimentação adequada, é determinante. Carências nesses aspectos podem comprometer o desenvolvimento de forma profunda e duradoura.

Se a inteligência não foi suficiente para evitar guerras e violência, o que deveríamos desenvolver?

A inteligência nos ajuda a compreender melhor a realidade, inclusive nossas próprias limitações. Esse conhecimento pode reduzir comportamentos prejudiciais, embora eliminá-los completamente seja algo mais complexo. A humanidade melhorou diversos indicadores de bem-estar ao longo do tempo, o que sugere um avanço gradual na compreensão de si mesma. Nesse contexto, habilidades ligadas ao autoconhecimento e à regulação emocional aparecem como complementos importantes para que a inteligência contribua de forma mais efetiva para o bem-estar coletivo.

Qual é a relação entre inteligência e emoções?

A relação é estreita e complexa. As áreas cerebrais envolvidas nesses dois processos estão diretamente conectadas, influenciando-se mutuamente o tempo todo. Pessoas com níveis mais elevados de inteligência costumam apresentar maior conhecimento sobre suas emoções e mais capacidade para regulá-las, embora existam exceções. Um conceito importante é o da granularidade emocional: a capacidade de identificar e nomear com precisão diferentes estados emocionais. Quanto mais amplo for esse vocabulário emocional, maior tende a ser a compreensão e o gerenciamento das próprias experiências internas. Do ponto de vista funcional, a inteligência está a serviço das emoções. O comportamento humano busca alcançar estados positivos e evitar os negativos, e a inteligência funciona como uma ferramenta para ajudar nesse processo.

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Novas fabricantes de carros elétricos continuam surgindo na China

  • Dreame, conhecida por robôs aspiradores, planeja vender veículos eletrificados em 2027
  • Das 143 marcas que venderam carros em 2025, 46 não atingiram mil unidades

Folha/The Economist – 27.jun.2026

No próximo ano, a Dreame, uma empresa chinesa mais conhecida por seus aspiradores robôs, planeja começar a vender elegantes veículos elétricos.

Ela não é a única firma expandindo de pequenos eletrodomésticos para máquinas capazes de transportar uma família inteira. A Rox Motor, que começou a vender SUVs elétricos em 2023, também foi fundada por um magnata dos aspiradores de pó. A Xiaomi, que ficou famosa produzindo smartphones baratos (e também fabrica aspiradores, entre outras coisas), começou a vender carros esportivos um ano depois.

Talvez mais surpreendente seja o fato de haver novos ingressantes no já lotado mercado chinês de veículos elétricos. Nada menos que 143 marcas venderam pelo menos um carro no ano passado. Mas 46 delas não venderam mais de mil unidades, segundo a consultoria AlixPartners. Mesmo assim, 23 novas marcas foram lançadas, enquanto apenas nove foram descontinuadas.

É verdade que muitas dessas são “submarcas”, criadas por grandes empresas para diferenciar seus veículos de alto padrão dos modelos populares. A Geely, terceira maior montadora da China em vendas, possui um portfólio de mais de dez marcas, incluindo Zeekr, Polestar e Lynk & Co.

Apenas dez empresas chinesas conseguiram vender pelo menos 1 milhão de carros cada em 2025, respondendo por 84% do total. No entanto, essa participação caiu ligeiramente em relação ao ano anterior, sugerindo que a consolidação do mercado chinês de veículos elétricos, há muito prevista por especialistas do setor, ainda não aconteceu.

Só ocasionalmente uma empresa inteira entra em colapso. A Hozon Auto, fabricante da marca Neta, está em processo de falência. Ela parou repentinamente de pagar muitos de seus funcionários no ano passado e ganhou manchetes quando funcionários revoltados encurralaram o fundador em seu escritório em Xangai exigindo seus salários.

Ainda assim, as perspectivas parecem bastante sombrias para o setor em 2026. As vendas totais de carros na China vêm caindo rapidamente. Em abril, recuaram um quinto em relação ao ano anterior, marcando o sétimo mês consecutivo de queda.

O governo central criticou as fabricantes de veículos elétricos por se envolverem em uma guerra de preços predatória desde 2023. Os preços começaram a subir em maio, sugerindo que o setor pode ter começado a ouvir o Estado. Mas a BYD, maior fabricante de elétricos do mundo, atribui isso ao aumento dos custos de componentes como chips e baterias, o que pode significar que as margens continuam sob pressão.

À medida que a demanda cai e os preços sobem internamente, as montadoras chinesas se tornarão ainda mais dependentes das vendas no exterior, que estão avançando a passos largos. Em abril, elas subiram 80% em relação ao ano anterior.

Estabelecer redes de distribuição no exterior é custoso e demorado. Mas, conforme a pressão sobre o setor continua a se intensificar, as vendas externas, que tendem a ter margens mais altas, farão toda a diferença. As fabricantes chinesas de carros elétricos estão ansiosas para abocanhar esse mercado.

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A próxima palavra que todo usuário de IA deveria conhecer é “alinhamento”

Sistemas autônomos podem cumprir todas as normas e ainda causar prejuízos se não estiverem alinhados ao julgamento humano

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Blake Brannon – Fast Company Brasil – 25-06-2026 

 Os gastos globais com inteligência artificial devem ultrapassar US$ 2,5 trilhões este ano, mas muitas empresas ainda não estão obtendo retornos significativos sobre esses investimentos.

Diante da crescente pressão para justificar esses aportes, elas apostam nos agentes de IA para mudar esse cenário. No entanto, se esses agentes realmente entregarem o valor esperado, o alinhamento com o julgamento humano não pode ser tratado como um detalhe.

Ao estruturar programas de governança de inteligência artificial, muitas empresas começam elaborando inventários de sistemas, definindo controles de segurança, políticas de acesso e mecanismos de monitoramento. Chamo essa etapa de contenção.

Pense nisso como os freios de um carro autônomo. É a programação que permite ao sistema obedecer a placas de pare, semáforos e outras regras formais de trânsito. A contenção determina aquilo que o sistema não pode fazer.

Mas os agentes de IA estão obrigando as empresas a enfrentar um desafio mais profundo: incorporar o julgamento humano a sistemas autônomos que tomam decisões na velocidade da inteligência artificial.

Como projetar uma IA capaz de operar de acordo com os valores, as políticas, a tolerância ao risco e a compreensão de contexto de uma organização, mesmo quando as circunstâncias mudam?

É aí que entra o alinhamento.

O alinhamento ajuda a definir o que o sistema deve fazer quando a resposta correta depende do contexto. Enquanto os guardrails impedem que um agente ultrapasse determinados limites, eles não ensinam como exercer julgamento quando não existe uma linha claramente traçada.

É como a capacidade de um carro autônomo de perceber que deve dar passagem a um cortejo fúnebre, mesmo que nenhuma lei determine esse comportamento.

Esse alinhamento envolve cumprir políticas internas, regras sobre uso de dados e princípios éticos, mas também significa manter os agentes focados nos resultados reais que a empresa pretende alcançar. Um agente que segue todas as regras, mas se distancia das prioridades estratégicas e da promessa da marca, continua desalinhado.

Funcionários costumam aplicar esse tipo de julgamento de forma intuitiva. Aprendemos a observar comportamentos, reconhecer diferenças culturais e regionais, questionar ideias que parecem boas no papel, mas falham na prática, e identificar quando um método compromete o resultado. Mas os agentes de IA não fazem isso naturalmente.

O RISCO DA OTIMIZAÇÃO CONTÍNUA

Costumo recorrer a um exemplo para ilustrar por que o alinhamento é indispensável. Imagine um serviço de assinatura de refeições que utiliza um agente de IA para otimizar campanhas de marketing.

Com um orçamento definido e metas claras, o agente acessa bases de dados, analisa registros de atendimento, identifica segmentos de clientes e cria promoções. Ao final da campanha, todas as metas de vendas e lucratividade foram atingidas. Mas, nos bastidores, aconteceu algo diferente.

Construir inteligência artificial pensando apenas em velocidade é uma visão de curto prazo.

O agente passou a direcionar publicidade agressiva e oferecer preços mais altos disfarçados de “descontos por tempo limitado” justamente para clientes que haviam mencionado dificuldades financeiras ou problemas de saúde em conversas anteriores com o suporte.

Quando essa prática vem a público, as consequências são devastadoras.

A exploração comercial dos clientes mais vulneráveis viola a política de uso ético da empresa e contradiz diretamente sua missão e seus valores. Em resposta, consumidores cancelam assinaturas em massa, órgãos reguladores iniciam investigações e toda a receita obtida na campanha acaba sendo perdida.

Esse exemplo mostra como um agente pode provocar enormes problemas sem jamais apresentar uma falha técnica. Explorar clientes vulneráveis nunca fez parte da instrução inicial. Foi apenas o padrão que o sistema identificou como mais eficiente para atingir seus objetivos.

Discriminação, violações de privacidade e descumprimento de políticas podem surgir independentemente da intenção da empresa.

Isso acontece porque agentes de IA são sistemas treinados para maximizar eficiência. A otimização contínua faz parte de sua natureza. E justamente por isso eles precisam de alinhamento.

Ao lado dos controles de segurança e das restrições de acesso, políticas de governança garantem que os agentes só otimizem resultados dentro dos limites definidos pelo negócio.

ESTAMOS EM UM PONTO DE INFLEXÃO

O Gartner prevê que grandes empresas terão mais de 150 mil agentes de IA em operação até 2028, frente às poucas dezenas existentes hoje em cada organização.

Esse número tende a crescer rapidamente, impulsionado por tendências como o tokenmaxxing e pelos incentivos corporativos para ampliar o uso da IA. O grande desafio passa a ser incorporar julgamento humano a milhares de agentes de forma escalável.

Os processos tradicionais de revisão manual foram concebidos para sistemas mais lentos e estáticos, em que havia tempo para identificar, analisar e corrigir problemas antes da entrada em produção.

Nenhuma estratégia baseada apenas em contratar mais pessoas vai conseguir acompanhar centenas – e, futuramente, milhares – de agentes operando na velocidade da IA.

A boa notícia é que hoje existem menos agentes de IA do que existirão no futuro. Por isso, este é o momento ideal para construir mecanismos automatizados de governança, catalogar todos os agentes, estabelecer políticas básicas e aplicá-las em conjunto com controles de segurança e guardrails.

É muito mais fácil escalar um programa de governança à medida que a força de trabalho baseada em agentes cresce do que tentar adaptá-lo depois.

Construir inteligência artificial pensando apenas em velocidade é uma visão de curto prazo. O verdadeiro objetivo deve ser desenvolver uma IA que seja rápida – mas, acima de tudo, que avance na direção certa.


SOBRE O AUTOR

Blake Brannon é diretor de inovação da plataforma de governança de IA OneTrust. 

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O Brasil no jogo global: ter commodities é poder, mas o País ainda não percebeu isso

Na nova geopolítica das commodities, a diplomacia é um ativo estratégico do Brasil

Marcos Jank – Estadão – 26/06/2026

O mundo atravessa três grandes transformações geopolíticas, e o Brasil tem a oportunidade de se posicionar como provedor líquido de segurança econômica global no suprimento agrícola, mineral e energético.

A primeira transformação é o novo equilíbrio de poder global: a transição do mundo unipolar, centrado nos EUA desde o fim da Guerra Fria, para o mundo bipolar da competição EUAChina.

Na última década, a distância de poder entre os dois países diminuiu e o hiato entre eles e o resto do mundo cresceu nas dimensões econômica, tecnológica e militar. Hoje, EUA e China são as únicas potências capazes de moldar o sistema internacional, redesenhando o mapa geoestratégico mundial.

O desafio estratégico chinês já dura mais de uma década e cria múltiplas zonas de atrito: a influência econômica global da China, inclusive no Hemisfério Ocidental; a visão de uma Eurásia integrada pela Nova Rota da Seda; a supremacia nos mares da China Meridional e Setentrional, artérias vitais do comércio; e a “parceria sem limites” com a Rússia, firmada em 2022, com implicações para a Europa, o Oriente Médio, a Ásia e o Ártico.

A segunda transformação é o fim da ordem liberal internacional, universalizada no “momento unipolar” do pós-Guerra Fria, e o início de um reordenamento bipolar impulsionado pelas duas grandes potências.

Uma ordem mundial estável requer objetivos compartilhados e equilíbrio entre grandes potências — condições que hoje faltam. A rede multilateral de instituições e regras perdeu seu lastro geopolítico. No seu lugar surgem ordenamentos parciais, novas coalizões e esferas comerciais e tecnológicas fragmentadas, criando os contornos de uma ordem mundial desarticulada.

A terceira transformação é a passagem da globalização econômica liberal para a bi-globalização geoeconômica — calcada na competição geopolítica e na segurança econômica. O comércio, os investimentos e as cadeias de suprimento passam a refletir as linhas divisórias da rivalidade entre grandes potências.

A integração global dos mercados cede espaço a imperativos de segurança. O uso de restrições a exportações de minerais críticos em disputas comerciais e a vulnerabilidade de “chokepoints” como o Estreito de Ormuz demonstram que o controle dos fluxos globais de commodities é agora parte central do jogo internacional.

Nesse cenário, ter commodities é poder. Do acesso ao alimento à transição energética, passando pelo suprimento de componentes vitais para as indústrias de alta tecnologia e de defesa, as commodities ganham caráter estratégico renovado. E sua produção está concentrada em poucos lugares do mundo, tornando o comércio internacional uma necessidade em um mundo onde os países hoje buscam suprimento estável e confiável.

O Brasil está em posição privilegiada para se tornar um provedor global de segurança alimentar, mineral e energética. As commodities respondem por 75% da pauta exportadora brasileira — US$ 263 bilhões de um total de US$ 350 bilhões em 2025.

Temos commodities bem consolidadas no mercado mundial: soja (60% das exportações mundiais), milho (20%), carne bovina (25%), carne de frango (30%), açúcar (50%), café (31%), suco de laranja (68%), algodão (33%), celulose (25%), petróleo (5%), minério de ferro (20%) e nióbio (80%).

Avançamos muito em biocombustíveis, mas esse mercado internacional ainda é incipiente no mundo. Temos, porém, vulnerabilidades relevantes em fertilizantes, derivados de petróleo, minerais críticos (incluindo terras raras) e infraestrutura. Mas em todos esses segmentos o Brasil conta com imensas reservas inexploradas e enorme potencial de crescimento.

Na nova geopolítica das commodities, a diplomacia é um ativo estratégico do Brasil. Em meio a tantas transformações, criar as condições políticas internacionais — por meio de alianças, acordos, parcerias e relacionamentos estratégicos — é essencial para inserir o Brasil como ator decisivo no jogo que se desenha para a segurança econômica global.

Marcos Jank, professor de agronegócio global do Insper.

Em coautoria com Braz Baracuhy, diplomata e especialista em geopolítica. Vai lançar o livro Geopolítica Global: o Mapa Estratégico do Mundo Contemporâneo em 13/08 no Insper. Escreve aqui em caráter pessoal.

Opinião por Marcos Jank

Professor sênior e coordenador do centro Insper Agro Global, conselheiro de empresas, palestrante e analista de agronegócio e bioenergia.

O Brasil no jogo global: ter commodities é poder, mas o País ainda não percebeu isso – Estadão 

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Tecnologia para impedimento avança na Copa e torna decisões mais rápidas

A Copa do Mundo de 2026 estreia uma nova geração do impedimento semiautomático, com inteligência artificial, sensores e câmeras capazes de analisar lances em tempo real. O sistema reduz o tempo de checagem para uma média de 25 a 70 segundos

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Por Debora Leite – Valor – 25/06/2026

O impedimento semiautomático utilizado na Copa do Mundo da Fifa de 2026 representa um avanço em relação às tecnologias de mundiais anteriores. Com o apoio de inteligência artificial, sensores e câmeras de alta frequência, o sistema permite analisar os lances com mais rapidez e precisão. A ferramenta consegue confirmar a posição dos jogadores e emitir alertas em questão de segundos, com tempo médio de checagem entre 25 e 70 segundos, segundo informações divulgadas pela Fifa. A nova versão também passou a utilizar avatares digitais dos atletas, criados a partir de modelos de IA.

Segundo a Fifa, o recurso, utilizado oficialmente pela primeira vez em uma Copa do Mundo, combina dados coletados por sensores instalados na bola e nas 16 câmeras espalhadas nos estádios para acompanhar os movimentos dos atletas em tempo real.

O sistema foi utilizado em fase de testes na Copa do Mundo de 2022, no Catar, e posteriormente passou a ser adotado em competições internacionais, como a Champions e a Premier League.

A principal evolução para esta Copa está na criação dos “avatares digitais”. Antes da competição, os jogadores das 48 seleções passaram por um processo de escaneamento corporal, que permitiu criar representações em 3D capazes de reproduzir características físicas individuais, como postura e dimensões do corpo.

Para Renan Borges, diretor de tecnologia da Agência End to End, empresa de gestão esportiva, a principal mudança está na “transição dos modelos esqueléticos genéricos” utilizados anteriormente. Segundo ele, o sistema atual utiliza escaneamentos prévios em 4K de todos os atletas, gerando “avatares em 3D fiéis que reproduzem a postura e as dimensões exatas do corpo de cada atleta em tempo real”.

A análise das câmeras monitora pontos anatômicos específicos do jogador dez vezes por segundo.

Além da identificação automática da posição irregular, a Fifa confirmou a nova funcionalidade para A Copa. Nas partidas, os árbitros assistentes recebem um alerta de áudio em tempo real quando um jogador estiver mais de 10 centímetros à frente da linha de impedimento. O aviso tem como objetivo acelerar a tomada de decisão e reduzir o tempo de análise pelo VAR, o árbitro assistente de vídeo.

Apesar do avanço tecnológico, o sistema continua sendo considerado semiautomático porque algumas decisões ainda dependem da interpretação humana. A ferramenta identifica a posição do jogador no momento do lançamento da bola, mas a avaliação sobre uma possível interferência na jogada continua sendo responsabilidade da equipe de arbitragem.

Sálvio Spínola, ex-árbitro de futebol credenciado pela Fifa, diz que o impedimento semiautomático é “automático no requisito número 1 da regra 11 do impedimento”, que trata da posição do jogador atacante: “Isso é totalmente automático. Onde ele é semi é em lances interpretativos, para saber se o jogador em posição de impedimento interferiu ou não na jogada”, explica.

Segundo o Livro de Regras da Fifa (Laws of the Game), o árbitro continua sendo a autoridade responsável pela decisão final. O documento estabelece que a equipe de arbitragem deve sempre tomar uma decisão inicial como se não houvesse VAR e que a tecnologia funciona como ferramenta de auxílio, não como substituta do julgamento humano.

O sistema também estabelece orientações sobre o uso do sinal sonoro eletrônico pelos árbitros assistentes, previsto nas regras do futebol. O recurso pode ser utilizado para chamar a atenção do árbitro em situações como impedimentos, infrações fora do campo de visão ou decisões difíceis envolvendo lances de jogo.

Para Spínola, a tecnologia representa uma mudança importante na arbitragem, mas não elimina a preparação dos profissionais. O recurso “veio para ajudar, não para substituir o árbitro de campo”, afirma.

A avaliação é compartilhada pela Comissão de Arbitragem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que considera a tecnologia uma ferramenta de apoio à tomada de decisão, sem substituir a autoridade do árbitro. Segundo a entidade, recursos como VAR, impedimento semiautomático e sistemas de comunicação avançada mudam a preparação dos profissionais, que passam a precisar de treinamentos específicos sobre protocolos tecnológicos, simulações operacionais e integração entre árbitros de campo e equipes de vídeo.

Raimundo Góes Netto, diretor de arbitragem da CBF, disse que o impacto da tecnologia será medido por indicadores como redução de erros, precisão das decisões e tempo de revisão. “O sucesso da tecnologia não se mede apenas pela quantidade de intervenções, mas pela capacidade de aumentar a justiça esportiva e fortalecer a credibilidade da arbitragem”, afirma.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/06/25/tecnologia-para-impedimento-avanca-na-copa-e-torna-decisoes-mais-rapidas.ghtml 

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IA está esvaziando a velha lógica da gestão

Talvez o maior legado não seja a criação de máquinas mais inteligentes, mas a criação de um ambiente em que indivíduos excepcionais possam gerar impacto antes reservado apenas às maiores organizações

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Wellington Vitorino – Valor – 24/06/2026 

Durante décadas, o mundo corporativo associou sucesso profissional à capacidade de liderar equipes cada vez maiores. O símbolo máximo de prestígio era subir a escada da gestão, acumulando subordinados, orçamento e poder de decisão. A inteligência artificial começa a inverter essa lógica de maneira profunda.

Nos últimos anos, ganhou força no Vale do Silício a discussão sobre os chamados “Individual Contributors” (ICs) e, mais recentemente, os “Super ICs”. Embora os termos tenham se popularizado recentemente, o fenômeno que descrevem está longe de ser novo.

Um “Individual Contributor” é um profissional que gera valor principalmente por sua capacidade técnica, intelectual ou criativa, sem depender da gestão direta de grandes equipes. Já um Super IC representa uma categoria rara de profissionais cujo impacto pode rivalizar com o de departamentos inteiros ou até de organizações completas.

A história oferece exemplos emblemáticos. Linus Torvalds, criador do Linux, transformou a infraestrutura digital do planeta sem jamais se tornar conhecido por liderar milhares de funcionários. O sistema operacional nascido de seu trabalho individual sustenta hoje boa parte da internet, da computação em nuvem e dos smartphones do mundo.

Outro exemplo é Jeff Dean, “distinguished engineer” do Google. Embora desconhecido do grande público, sua influência sobre a arquitetura tecnológica da empresa ajudou a moldar sistemas utilizados diariamente por bilhões de pessoas. Seu impacto não deriva do número de subordinados, mas da profundidade do conhecimento e da capacidade de resolver problemas que poucos conseguiam resolver.

Mais recentemente, Andrej Karpathy tornou-se uma das vozes mais influentes da inteligência artificial. Ex-pesquisador fundador da OpenAI e ex-diretor de IA da Tesla, Karpathy ajudou a popularizar conceitos que hoje estão no centro da revolução dos grandes modelos de linguagem. Sua influência global decorre da produção intelectual e da capacidade de ensinar, e não da ocupação de estruturas hierárquicas tradicionais.

O que muda agora é a escala. A inteligência artificial está ampliando a capacidade desses profissionais de forma sem precedentes. Um indivíduo equipado com ferramentas avançadas de IA consegue realizar análises, produzir conteúdo, desenvolver software, conduzir pesquisas e automatizar processos em velocidades que, até poucos anos atrás, exigiriam equipes inteiras.

Essa transformação já está sendo monitorada pelas principais universidades do mundo. O relatório AI Index 2026, da Stanford HAI, mostra que a adoção da IA continua acelerando e que especialistas enxergam impactos positivos crescentes sobre produtividade e trabalho. Ao mesmo tempo, cresce a demanda por competências ligadas ao uso estratégico dessas tecnologias.

Em Harvard, o professor Boris Groysberg tem chamado atenção para o conceito de “talent density”. A tese é clara. Na era da inteligência artificial, o diferencial competitivo não está apenas em contratar mais pessoas, mas em concentrar talentos excepcionais em posições nas quais a tecnologia amplifique seu potencial.

No MIT, pesquisadores como Thomas Davenport vêm defendendo que a grande transformação não será a substituição de humanos por máquinas, mas a construção de modelos de trabalho baseados na complementaridade entre inteligência humana e artificial. O profissional do futuro tende a atuar menos como executor e mais como arquiteto de decisões, conhecimento e sistemas.

Essa mudança ajuda a explicar por que tantas empresas de tecnologia vêm reduzindo camadas hierárquicas e aumentando a proporção entre especialistas e gestores. No Brasil, fintechs e startups de software já sentem esse movimento. A pergunta deixou de ser quantas pessoas você lidera e passou a ser qual problema você resolve, e com qual escala.

O debate, portanto, não é sobre o desaparecimento da gestão. Organizações continuarão precisando de líderes capazes de coordenar pessoas, cultura e estratégia. O que muda é a fonte de valor. Durante grande parte do século XX, o poder econômico esteve associado à escala industrial. Nas últimas décadas, migrou para a tecnologia. Agora, começa a migrar para a combinação entre conhecimento especializado, redes de influência e inteligência artificial.

Talvez o maior legado da era da IA não seja a criação de máquinas mais inteligentes. Talvez seja a criação de um ambiente no qual indivíduos excepcionais consigam gerar impactos antes reservados apenas às maiores organizações do mundo.

Nesse cenário, os Super ICs deixam de ser uma curiosidade do Vale do Silício para se tornar um dos principais arquétipos profissionais do século XXI. Com uma ressalva importante: nem toda organização está preparada para identificar, desenvolver e reter esse perfil. As que não aprenderem correm o risco de perder seus melhores talentos.

Wellington Vitorino é diretor-executivo do Instituto Four

E-mail: wvitorino@institutofour.org

https://valor.globo.com/empresas/coluna/ia-esta-esvaziando-a-velha-logica-da-gestao.ghtml 

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Quem é o brasileiro indicado como novo CEO global da Heineken

Nomeação de Rafael Oliveira ainda será submetida à aprovação dos acionistas em assembleia geral extraordinária marcada para 5 de agosto; ele terá mandato de quatro anos se aprovado

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Por Júlia Pestana – Estadão – 23/06/2026

A Heineken anunciou a indicação do brasileiro Rafael Oliveira para assumir o cargo de presidente do conselho executivo e CEO global da companhia. Atual presidente da JDE Peet’s, empresa de cafés e chás dona de marcas como Pilão e L’Or no Brasil, o executivo deve assumir o comando da cervejaria em 1º de outubro.

A nomeação ainda será submetida à aprovação dos acionistas em assembleia geral extraordinária marcada para 5 de agosto. Se aprovada, terá mandato de quatro anos.

Oliveira está na JDE Peet’s desde 2024. Após a aquisição da companhia pela Keurig Dr Pepper, ele foi escolhido para liderar a Global Coffee Co., nova empresa de capital aberto que reunirá os negócios de café da Keurig Dr Pepper e da JDE Peet’s, com receita anual estimada em cerca de US$ 16 bilhões.

Antes da JDE Peet’s, Oliveira passou uma década na Kraft Heinz, onde chegou ao cargo de presidente de mercados internacionais. Na função, foi responsável por um portfólio superior a US$ 7 bilhões na Europa, África, Ásia-Pacífico e América Latina.

Rafael Oliveira, atual presidente da JDE Peet’s Foto: Divulgação/Heineken

O executivo também tem experiência no mercado financeiro. Ele trabalhou por dez anos no Goldman Sachs, onde atuou em mercados emergentes na Ásia, baseado em Hong Kong. Oliveira iniciou a carreira como analista de equity research no Brasil, com passagens pelo Banco Icatu e pelo Banco BBA Creditanstalt, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Segundo a Heineken, a indicação combina a experiência internacional de Oliveira no setor de bens de consumo e em mercado de capitais com a continuidade da atual equipe executiva da companhia.

A empresa afirma que, como um líder externo, ele deve trazer uma nova perspectiva para a cervejaria e liderar a próxima fase de crescimento.

Peter Wennink, presidente do conselho supervisor da Heineken, afirmou que Oliveira deve acelerar a execução da agenda estratégica EverGreen 2030 da companhia. Segundo ele, o executivo combina clareza estratégica, disciplina operacional e liderança de pessoas.

“Estou honrado e animado por me juntar à Heineken, uma das companhias e portfólios de marcas mais icônicos do mundo”, disse Oliveira, em comunicado.

O executivo afirmou ainda que pretende acelerar o crescimento, impulsionar a produtividade e preparar a companhia para o futuro, com foco em inovação e no consumidor.

Até a posse de Oliveira, a atual equipe executiva seguirá à frente dos negócios da Heineken. A companhia informou que mais detalhes sobre a chegada do executivo e uma apresentação a investidores e à imprensa serão divulgados quando os preparativos forem finalizados.

Quem é o brasileiro indicado como novo CEO global da Heineken – Estadão 

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Vibe coding ou faça você mesmo: IA abre mundo dos softwares a quem não domina programação

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Ferramentas democratizam a criação de soluções digitais personalizadas, convertendo linguagem comum em código, mas levantam alerta sobre segurança de dados e privacidade

Bruno Romani e Guilherme Queiroz – O Globo – 21/06/2026

Até pouco tempo atrás, construir um aplicativo do zero era trabalho para uma equipe inteira de programadores e outros especialistas. Porém, com o avanço das ferramentas de inteligência artificial (IA), pessoas que não são da área e têm pouco conhecimento de códigos e programação estão conseguindo tirar do papel ideias para plataformas e softwares, criando seus próprios aplicativos. É o prenúncio de uma nova era do “faça você mesmo” em tecnologia, que abre oportunidades, mas também riscos de segurança e privacidade, como a possível ausência de proteção de dados pessoais ou o vazamento de informações sensíveis.

A mudança está em um conceito conhecido como “vibe coding”, que indica a criação de linhas de códigos por meio de linguagem natural, da mesma maneira que falamos com chatbots de IA. Ou seja, a pessoa programa apenas pelo o que “sente”. A expressão foi criada em fevereiro de 2025 por Andrej Karpathy, cofundador da OpenAI e hoje pesquisador da Anthropic. No início, parecia um tema ainda do mundo da programação, mas avanços intensos já fizeram o conceito chegar a profissionais de fora da bolha.

Chega de esperar à toa

É o caso do entregador de delivery Ednilton Matos, de 22 anos. Ele criou o Grana Certa, app que monitora o tempo médio de espera de um entregador de delivery por um pedido em um restaurante. Com a informação, os entregadores podem avaliar melhor os estabelecimentos de onde vão aceitar pedidos.

Matos, que mora na Zona Sul da cidade de São Paulo, é um entusiasta do mundo da programação. O interesse pela área surgiu no primeiro emprego, quando ainda era adolescente e trabalhou em uma empresa de manutenção de equipamentos eletrônicos. Ele começou a estudar computação e ferramentas como HTML e CSS. Depois, trabalhou como aprendiz em uma empresa de tecnologia e gerenciou um bar, até que optou por deixar o emprego formal para atuar em tempo integral como entregador, há seis meses.

— Um dia estava rodando os reels, no Instagram, e veio um vídeo de uma loja que estava demorando para liberar o pedido para um entregador. Esperar 10 minutos a mais por um pedido é um problema, a gente ganha por entrega, e queremos ganhar mais em menos tempo. De 10 em 10 minutos se perde muito dinheiro — diz Matos.

Para tentar resolver o problema, ajudar os colegas de trabalho e também a ele próprio a otimizar os ganhos, primeiro criou um robô no aplicativo de mensagens Telegram, em abril. O usuário registrava manualmente o momento de chegada e depois indicava quando o pedido tinha sido liberado. Em cima dessa informação, o serviço exibia o tempo médio de espera nas lojas que eram avaliadas pelos entregadores. Mas a ideia não teve engajamento.

— Era preciso registrar manualmente. Ninguém usava de verdade — diz.

Começou então a explorar ferramentas de IA, até que encontrou uma voltada especificamente para o desenvolvimento de aplicativos. A ideia era que, ao receber uma oferta de entrega no iFood, o serviço exibisse na tela do celular de forma automática o tempo médio de espera em um restaurante. Os dados também seriam coletados sem que o entregador precisasse fazer registros manuais. O projeto engrenou e há duas semanas foi disponibilizado para download na Play Store, para aparelhos Android.

— Com a IA consegui em uma semana o que demoraria talvez um ano para fazer sozinho. Hoje tenho cerca de 400 entregadores ativos que já avaliaram 9 mil estabelecimentos por todo o Brasil — diz Matos, que tira do próprio bolso cerca de R$ 500 mensais para manter o serviço rodando. O próximo passo é encontrar maneiras de monetizar o produto.

Avanço do ‘harness’

O salto na capacidade do vibe coding aconteceu a partir de dezembro de 2025, quando a Anthropic lançou o modelo Claude Opus 4.5. A capacidade de criar código acabou empurrando toda a área, forçando nomes como OpenAI e Google, a também lançarem modelos altamente eficientes em programação — isso ajuda a justificar a popularidade da Anthropic nos últimos meses, que no mês passado atingiu avaliação de US$ 900 bilhões. Ou seja, o vibe coding de hoje não é o mesmo de um ano atrás.

Entre as características dessas novas IAs estão longas janelas de contexto, que suportam até 1 milhão de tokens (os pedacinhos de palavras processados por IA; estima-se que a Bíblia tenha o equivalente a 1 milhão de tokens). Isso permite que os aspirantes a programadores possam trabalhar nos projetos por mais tempo sem que o sistema se esqueça do começo da conversa.

As novas IAs também conseguem fazer gestão dessa memória, monitorando o limite de contexto, compilando a memória da conversa e liberando espaço para que o projeto continue funcionando de forma consistente. Mas o grande termo do vibe coding em 2026 é “harness”, como explica Fabrício Carraro, program manager da escola de tecnologia Alura.

— O harness é o sistema que envolve o modelo de IA, como o GPT ou Claude, e gerencia a execução do projeto. Ele recebe o prompt gigante, divide-o em subtarefas (criar banco de dados, criar tela, criar autenticação), testa o código automaticamente e, se encontrar erros, pede para a IA corrigir antes de entregar ao usuário.

Ou seja, o harness vai além da janela do chatbot, que apenas oferece resposta. Ele permite a execução de projetos de maneira amigável, dispensando elementos como o terminal de código, que costuma assustar quem nunca programou. Para quem acompanha a área, foi com um harness mais esperto que a Anthropic superou a OpenAI na preferência dos programadores. Para tirar o atraso, a OpenAI melhorou o Codex, e acabou até integrando ele ao ChatGPT, enquanto o Google anunciou recentemente uma grande atualização no Antigravity.

A tendência acompanha a própria orientação das empresas neste início de ano, quando elas orientavam funcionários a usar a IA ao máximo no trabalho. Mas quando se trata do “faça você mesmo” no mundo corporativo, o entusiasmo deu lugar à moderação após a alta de custos. A fatura das empresas que fornecem ferramentas de IA é alta e nem sempre o retorno compensa.

Controle de finanças pessoais

Ainda assim, é inegável que as oportunidades são muitas. Letticia Cardomingo, de 35 anos, mora na Zona Leste de São Paulo e também usou dos avanços recentes das ferramentas de IA para tirar uma ideia do papel e criou uma plataforma voltada para o controle de finanças pessoais, o Poupa Rápido. Ela tem formação na área da tecnologia e chegou a estudar linguagens de programação, mas não se aprofundou no assunto. Ao longo da carreira, se especializou na área de gestão de produtos digitais e equipes e começou a participar de hackathons — eventos do universo da tecnologia em que grupos são desafiados a construírem ferramentas que resolvam problemas específicos.

Desde os avanços da IA começou a se interessar pelo tema, entendendo como aplicar as novas ferramentas no trabalho, e fez um curso on-line voltado para a criação de aplicativos com auxílio dos algoritmos inteligentes.

— Criei o aplicativo em dois dias. Sigo trabalhando nele, corrigindo a parte de segurança. Hoje, está muito fácil criar um app.

De fato, tirar ideias do papel rapidamente, testar e criar protótipos de apps e páginas não parece ser mais um obstáculo — já há gente que prefere substituir uma apresentação de PowerPoint ou uma planilha de Excel por uma página web funcional. Para Gustavo Araújo, cofundador da consultoria de IA Distrito, estamos entrando em uma nova era do software:

— A gente está chegando na época do “software temporário”. Você cria um programa para usar numa reunião, joga fora e nunca mais vai usar. Programar não é mais o problema: o desafio agora é saber o que ‘codar’.

Quem também percebeu que poderia cortar caminho com vibe coding é o engenheiro agrícola e ambiental Lucas dos Santos, de 32 anos, coordenador da área de tecnologia e inovação de uma rede de fazendas em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso. Ele conta que com auxílio de ferramentas de IA e de colegas de trabalho, criou uma interface que conecta os equipamentos de medição de umidade e pesagem de grãos, para culturas como milho e soja, ao sistema de gestão da empresa — permitindo que qualquer pessoa, mesmo sem conhecimento técnico, verifique se a integração está funcionando.

— Orçamos o valor de um software que resolveria esse problema e a licença custava R$10.000. Tentamos resolver o problema com o Claude e conseguimos chegar a uma solução em 45 minutos — conta Santos.

Limites permanecem

O que os entusiastas do novo vibe coding estão descobrindo é que algumas das limitações antigas ainda permanecem. Por exemplo, embora seja ótimo para iniciar projetos, ele dificilmente gera material capaz de gerar produtos finais, que podem ser usadas em escala corporativa — o sonho de sair do zero para uma empresa só com vibe coding ainda não se tornou real.

— Nem sempre código escala. Às vezes, ele está funcionando para você, mas, se você tiver mil usuários, fica lento. O vibe coding te tira do zero e atende muito bem essa necessidade individual. Mas a hora que você vai para uma empresa, para um departamento e depois para o corporativo, você realmente precisará de arquitetos e desenvolvedores que sabem o que estão fazendo — explica Araújo.

Letticia, de São Paulo, faz outro alerta que nasceu junto com o vibe coding e não foi solucionado:

— Um leigo pode nem saber, por exemplo, que precisa tomar cuidado com os dados pessoais dos usuários. E se tiver um vazamento, como agir?

Como aponta ela, o uso indiscriminado do vibe coding levanta preocupação com possíveis falhas de segurança. Lucas Matheus Peres Morais, professor do Senac Tech, acrescenta:

— Os pontos mais críticos do vibe coding são o armazenamento seguro de senhas, a exposição de dados sensíveis, as vulnerabilidades em APIs e o uso de dependências desatualizadas dentro do sistema.

De fato, o maior produto do vibe coding sofreu com alguns desses problemas. O agente de IA OpenClaw foi criado pelo programador Peter Steinberger apenas por comandos de linguagem natural — o austríaco não escreveu uma linha de código (ele afirmou posteriormente que “não lê código” e sim “entrega código”). No auge do sucesso, no entanto, as credenciais de API de milhões de usuários vazaram em fóruns por falhas na arquitetura do agentes. Na prática, uma credencial de API vazada significa que agentes maliciosos podem usar o cartão da vítima para pagar pelo uso de sistemas de IA.

— Numa aplicação de uso a nível de produção, de ter clientes utilizando, deve-se ter uma equipe de desenvolvimento de software capacitada para avaliar as vulnerabilidades, a arquitetura e a escalabilidade daquele sistema — diz Morais.

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Após incentivar, empresas já freiam uso de IA diante do aumento de custos

  • Mudança na forma de cobrança por chatbots leva a disparada nos gastos de quem usa recurso
  • ‘Criamos um monstro’, lamenta diretor do grupo de software Workato

Folha/Financial Times – 21.jun.2026

As empresas que correram para disponibilizar ferramentas de inteligência artificial nas mãos de seus funcionários estão começando a frear seu uso, à medida que o custo de implementação da tecnologia em larga escala começa a testar os orçamentos corporativos.

Amazon, Walmart, Cisco, Uber e Meta estão entre as primeiras empresas que impuseram limites, desestimularam o uso desnecessário ou direcionaram os funcionários para modelos mais baratos na tentativa de manter os gastos com IA sob controle.

A mudança marca uma nova fase na adoção corporativa da IA. À medida que os profissionais avançam dos chatbots para os agentes de IA —que podem realizar tarefas complexas de forma autônoma, mas exigem muito mais capacidade de processamento—, as empresas estão sendo forçadas a analisar minuciosamente se cada comando (prompt, em inglês) e tarefa vale o custo.

Essa pressão se intensificou à medida que grupos como Anthropic e OpenAI mudaram alguns serviços de assinaturas fixas para a cobrança baseada em tokens, que contabilizam as unidades de dados processadas pelos modelos. A mudança expôs as empresas de forma mais direta ao custo de cada prompt e fluxo de trabalho automatizado.

“Os custos de computação estão começando a entrar no radar tanto dos diretores financeiros quanto dos conselhos de administração. Consumidores e empresas foram ensinados que a IA é barata ou gratuita, e esse definitivamente não é o caso”, afirmou Costi Perricos, líder global de IA generativa na Deloitte.

Sam Altman, CEO da OpenAI, declarou neste mês que o custo surgiu como um “grande problema” para os clientes em 2026. “O assunto nunca veio à tona [no passado]… as pessoas estavam totalmente satisfeitas com o valor que estavam gastando”.

O presidente e diretor de operações da Uber, Andrew Macdonald, revelou que estava se tornando “mais difícil justificar” os gastos da empresa com tokens de IA. “É muito difícil traçar uma linha direta entre uma dessas estatísticas e dizer ‘Ok, agora estamos realmente produzindo 25% mais recursos úteis para o consumidor'”, disse em um podcast recente.

A empresa de transporte por aplicativo introduziu limites de uso, restringindo os funcionários a US$ 1.500 em gastos mensais com tokens em ferramentas individuais de IA, após estourar todo o seu orçamento de IA para 2026 até abril. A Bloomberg foi a primeira a informar sobre esse limite.

O Walmart limitou de forma semelhante o uso de seu próprio agente de IA interno, estabelecendo um teto para o número de tokens que os funcionários podem usar. Suresh Kumar, diretor global de tecnologia do Walmart, comentou que o uso da plataforma interna de programação por comando (vibe-coding) da empresa, a Code Puppy, “realmente disparou”.

“Esta é agora uma oportunidade para darmos um passo atrás”, comentou, acrescentando que os funcionários estão recebendo a tarefa de identificar as ferramentas certas para cada atividade.

Jeetu Patel, presidente e diretor de produtos da Cisco, mencionou que as empresas estão tendo que equilibrar o desejo de usar a tecnologia para implementar agentes com o custo e a disponibilidade de tokens.

“A quantidade de infraestrutura necessária para um agente é significativamente maior do que para um chatbot”, apontou Patel. “Para cada humano, você pode ter 10, 100 ou, no cenário mais agressivo, 1.000 agentes… eles simplesmente continuam trabalhando, e isso consome uma grande fatia de [processamento]”.

Analistas do Goldman Sachs previram em maio que o uso de agentes de IA resultará em um aumento de 24 vezes no consumo de tokens até 2030, e que o enorme aumento na demanda agravará a escassez de chips nos próximos 12 a 18 meses.

Embora o uso de tokens e os gastos com IA pelas empresas continuem a crescer, os esforços para conter os custos podem pesar no crescimento dos maiores laboratórios de IA do mundo, como Anthropic e OpenAI, que planejam abrir capital na Bolsa dos EUA no final deste ano com avaliações de mercado próximas a US$ 1 trilhão.

Desde o início do ano, os modelos de IA chineses ultrapassaram seus concorrentes norte-americanos em consumo de tokens, de acordo com dados da OpenRouter, uma plataforma de agregação que permite aos usuários acessar múltiplos modelos de IA.

A energia mais barata da China e seus modelos mais eficientes permitiram que os laboratórios de IA do país cobrassem menos por tokens do que os principais grupos dos EUA, dando à China uma nova vantagem no campo de batalha da IA.

Empresas menores também estão sentindo a pressão dos custos. O grupo de software Workato admitiu que seu uso de IA explodiu depois que seus 1.300 funcionários começaram a usar agentes de IA no meio do ano passado.

“O uso se espalhou como fogo em palha, as pessoas começaram a transformar de verdade seus empregos com os agentes”, afirmou o diretor de tecnologia, Carter Busse.

Mas a empresa levou um choque quando a Anthropic mudou seu modelo de cobrança para preços baseados em tokens em maio. “Nosso gasto aumentou sete vezes no primeiro dia e eu pensei: ‘caramba, criamos um monstro'”, relembrou Busse. “As empresas de grandes modelos de linguagem [LLMs, na sigla em inglês] vinham subsidiando todo o nosso uso e agora não fazem mais. O preço baseado em usuários protegia você”.

Em vez de restringir o acesso, Busse está tentando conter os gastos e redirecionou suas sessões semestrais de capacitação em IA para promover ideias de economia de custos, como usar por padrão os modelos mais antigos e baratos da Anthropic. “Em vez de inovação, vamos falar sobre responsabilidade financeira em IA”, comentou.

Empresas maiores também começaram a mudar os incentivos e a comunicação interna sobre a adoção de IA.

A Amazon alertou os funcionários no mês passado de que eles deveriam parar de usar “IA apenas pelo prazer de usar IA”, depois que engenheiros começaram a implantar agentes com o único propósito de subir em painéis de liderança internos (leaderboards).

O grupo foi forçado a mudar sua abordagem de medição de adoção em uma tentativa de conter os custos associados ao uso indevido de ferramentas. A Meta tomou medidas semelhantes em abril.

Tanto a Amazon quanto a Meta construíram e implementaram seus próprios modelos, mas também dependem de terceiros, como a Anthropic, para modelos e ferramentas como o Claude Code.

Os grupos e plataformas de IA estão tentando preservar a adoção direcionando os usuários para longe de modelos de fronteira caros quando eles são desnecessários, substituindo-os por versões mais baratas.
Kyle Daigle, diretor de operações do GitHub, declarou que a Microsoft conversou com os clientes antes de implementar as mudanças de preços para discutir “adequação e propósito” com os desenvolvedores.

“A pergunta para o usuário é: ‘quais modelos são mais adequados [para o trabalho]?’. Você nem sempre precisa de um modelo de fronteira avançado”, disse.

A Microsoft e outros provedores de plataformas de IA, incluindo Amazon e Google, já lançaram ferramentas que roteiam as consultas e tarefas dos clientes para o modelo mais relevante dentro de uma série escolhida pelo cliente, a fim de controlar os custos de forma mais eficaz.

Enquanto isso, algumas empresas orientaram os funcionários a usar modelos de código aberto (open-source) que podem ser executados localmente em seus próprios servidores ou dispositivos pessoais, reduzindo a conta paga aos laboratórios de IA e provedores de nuvem.

Mas os clientes ainda estão pesando os custos mais altos em relação às promessas que fizeram aos investidores sobre o impacto da IA em seus próprios lucros e na produtividade dos trabalhadores. “Nossos engenheiros querem mais tokens e temos que descobrir uma maneira de financiar isso”, disse Patel, da Cisco

Empresas já freiam uso de IA diante do aumento de custos – 21/06/2026 – Tec – Folha 

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