Brasil e Mercosul miram boom do petróleo em Guiana e Suriname para exportar bens e serviços

Descobertas de óleo e gás impulsionam aproximação estratégica, com foco em exportação de bens e serviços ligados ao setor de óleo e gás

Por João Caires (Broadcast) e Renan Monteiro (Broadcast) – Estadão – 17/09/2026

BRASÍLIA – A descoberta de grandes reservas de petróleo na margem norte da América do Sul tem impulsionado uma aproximação comercial entre o Mercosul e países como Suriname e Guiana, que passaram a ser vistos pelo bloco não apenas como parceiros para integração regional, mas também como mercados estratégicos para exportação de bens, serviços e infraestrutura ligados à indústria de óleo e gás, segundo relatos de fontes do governo ao Estadão/Broadcast.

As tratativas com o Suriname estão atualmente mais avançadas, e exclusivamente com o Brasil, por meio de um acordo bilateral. O Ministério das Relações Exteriores e a contraparte no Suriname assinaram, em maio deste ano, os termos de referência para negociar a ampliação do acordo comercial bilateral, hoje restrito basicamente a uma cota de exportação de arroz do país caribenho para o mercado brasileiro.

Embora a aproximação entre Mercosul, Guiana e Suriname remonte ao fim dos anos 1990 — quando o objetivo era fortalecer os laços entre o bloco sul-americano e a Comunidade do Caribe (Caricom) —, o cenário se intensificou com as oportunidades abertas após as descobertas de petróleo e gás nos dois países.

O principal interesse brasileiro está na abertura de espaço para exportação de equipamentos, serviços especializados e máquinas para a indústria petrolífera, que mais tem apoiado o avanço de acordos e negociações junto ao Itamaraty. O setor de bens e serviços para exploração offshore é apontado como uma das áreas com maior potencial de avanço nas negociações com o País.

Além da cadeia de óleo e gás, o Brasil também vê oportunidades para ampliar exportações de alimentos, produtos agrícolas, medicamentos, equipamentos médicos e bens de capital à medida que as economias da região ganham renda e atraem investimentos.

Já a Guiana, que registra forte expansão econômica impulsionada pela produção de petróleo, desperta atenção especial dentro do Mercosul. Nesse caso, o crescimento acelerado do País aumentou o interesse dos demais sócios do bloco em aprofundar a relação comercial com Georgetown.

No ano de 2025, a corrente de comércio com Suriname foi de US$ 54,9 milhões, quase 99% em exportações brasileiras para o vizinho. Já com a Guiana, o cenário é bem diferente: a corrente de US$ 118,8 milhões foi deficitária em US$ 62,4 milhões para o Brasil — unicamente pela importação de óleo bruto.

O presidente-executivo da Associação Brasileira das Empresas de Bens e Serviços de Petróleo (ABESPetro), Telmo Ghiorzi, defende que o Brasil deve aumentar a prospecção de petróleo, pensando na manutenção do nível de empregabilidade e geração de receita do setor. “O Brasil não pode ficar sem perfurar. A Noruega, que nem precisa, está perfurando quatro vezes mais que o Brasil. Guiana, Suriname, África, todo mundo está buscando petróleo desesperadamente”, declarou.

Para Walberto L. Oliveira Filho, sócio do escritório Ernesto Borges Advogados, Guiana e Suriname são países que precisam construir rapidamente uma cadeia de fornecedores que o Brasil já tem. Segundo ele, há uma combinação positiva: proximidade geográfica, escala industrial e experiência consolidada em águas profundas.

“A frente mais imediata é a exportação de equipamentos e serviços offshore: a cadeia de engenharia submarina desenvolvida no Pré-Sal (FPSOs, embarcações de apoio, válvulas, tubulações, risers, árvores de natal submarinas, manutenção e inspeção). A segunda frente é infraestrutura e integração regional”, avaliou.

Porta de entrada para o Caribe

Além do potencial energético, Guiana e Suriname são vistos pelo governo brasileiro como corredores estratégicos para ampliar a presença comercial do Mercosul no Caribe.

A avaliação é que o fortalecimento da infraestrutura logística entre o Norte do Brasil e os dois países poderá facilitar o acesso a portos voltados para os mercados caribenhos, reduzindo distâncias e custos para exportadores brasileiros.

Nesse contexto, o governo brasileiro estaria trabalhando para ampliar a integração terrestre entre os países, com projetos de conexão rodoviária via Roraima (RR), por meio da BR-401, ou pelo Amapá (AP), pela BR-156.

O Mercosul também busca ampliar sua presença comercial no Caribe por meio de uma aproximação com a República Dominicana. O Brasil coordena as negociações do bloco com Santo Domingo desde 2020, mas os avanços têm sido limitados pela resistência dominicana a novos acordos comerciais.

O setor privado do País teme repetir experiências anteriores em que acordos de livre comércio resultaram em aumento das importações sem expansão equivalente das exportações. Diante desse cenário, os sócios do Mercosul passaram a discutir a possibilidade de um acordo-quadro semelhante ao firmado com o Panamá, que permitiria negociações bilaterais posteriores entre os países interessados. Entretanto, a República Dominicana ainda não respondeu formalmente às propostas apresentadas pelo Mercosul nos últimos anos.

Brasil e Mercosul miram boom do petróleo em Guiana e Suriname para exportar bens e serviços – Estadão 

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‘A métrica não é mais o clique, é a reputação na busca generativa’

Regina Moura, que dirige a comunicação corporativa da Roche Farma Brasil, diz que “a reputação, na busca generativa, se constrói pela qualidade das fontes que te citam, que te referendam, que falam sobre o tema que você domina”

Por Andrea Assef – Valor – 14/09/2026 

A inteligência artificial mudou a forma como uma empresa precisa se posicionar no ambiente digital. As ferramentas de IA pesquisam prioritariamente o que o mercado chama de mídia espontânea, conteúdo publicado pelos veículos de comunicação e pelos formadores de opinião com credibilidade.

A avaliação é de Regina Moura, que dirige a comunicação corporativa da Roche Farma Brasil. “A métrica não é mais o clique. É a reputação. E a reputação, na busca generativa, se constrói pela qualidade das fontes que te citam, que te referendam, que falam sobre o tema que você domina”, afirma a executiva. Moura observa que na lógica do SEO, sigla para Search Engine Optimization (otimização para mecanismos de busca), vencia quem tinha mais volume de conteúdo e palavras-chave bem otimizadas. Agora, na busca generativa, com o GEO (Generative Engine Optimization), o que importa é a confiança. A seguir, a entrevista ao Valor.

Valor: De que forma a inteligência artificial está presente na rotina de comunicação de uma empresa farmacêutica?

Regina Moura: A IA está sendo testada e estudada de diferentes maneiras. Em uma empresa como a Roche, por exemplo, é utilizada desde o início da cadeia, na pesquisa e desenvolvimento de novas moléculas. Na comunicação, a adoção veio no início de 2023. Naquele momento já havia o entendimento claro de que quem não dominasse aquela ferramenta ficaria para trás. Hoje ela está no dia a dia, na estruturação de textos, na resposta a e-mails, na produção de vídeos para comunicação interna, em apresentações, no monitoramento de marca. Para mim é uma espécie de “assistente de pensamento”.

Valor: Como assim?

Moura: A IA ajuda a pensar a partir do momento que desafia suas perguntas, aponta perspectivas que você não havia considerado, levanta riscos de comunicação que o olho humano pode ter perdido. É quase um treino executivo disponível o tempo todo. O time se concentra no conteúdo, que é o que faz diferença.

Valor: A IA muda a forma como uma empresa precisa estar presente no ambiente digital?

Moura: Completamente. Na lógica do SEO, vencia quem tinha mais volume de conteúdo e palavras-chave bem otimizadas. Na busca generativa, o que importa é confiança. As ferramentas de IA buscam prioritariamente o que o mercado chama de mídia espontânea, conteúdo publicado pelos veículos de comunicação e pelos formadores de opinião com credibilidade. Uma pesquisa publicada recentemente na “Vogue” americana mostrou que 80% das respostas da IA generativa às buscas dos usuários vieram desse tipo de conteúdo. O GEO, Generative Engine Optimization, está sendo chamado de o novo SEO. A métrica não é mais o clique. É a reputação. E a reputação, na busca generativa, se constrói pela qualidade das fontes que te citam, que te referendam, que falam sobre o tema que você domina.

Valor: O setor farmacêutico opera sob restrições rígidas de divulgação publicitária no Brasil. Como a comunicação constrói presença de marca nesse contexto?

Moura: O mercado de medicamentos de prescrição é extremamente regulado, e isso não é uma limitação, é algo fundamental. Imagine um paciente oncológico sendo influenciado por uma campanha publicitária a pedir determinado medicamento ao médico. Quem tem condições de avaliar o subtipo do câncer, a linha de tratamento adequada, o perfil do tumor, é o médico, não o marketing. A cadeia é clara: a empresa comunica a ciência, o médico interpreta e leva ao paciente. Em oncologia, em hemofilia, em doenças neurológicas raras, a seriedade do quadro clínico já tornaria imprópria qualquer campanha voltada diretamente ao consumidor. Confiança, aqui, não é atributo de marca. É condição para operar.

Valor: Com públicos tão distintos, como médicos, pacientes, jornalistas e investidores, como a comunicação define o que diz, para quem diz e por qual canal?

Moura: O que cabe à comunicação no segmento farmacêutico é garantir que as informações científicas de qualidade e o letramento em saúde estejam disponíveis nos canais certos: nas revistas especializadas, nos sites médicos, nos grandes congressos, nos fóruns de associações de pacientes, ambiente digital e nos grandes veículos de imprensa.

Valor: Como funciona na prática?

Moura: A área médica fala com o médico. É médico conversando com médico. No digital, isso se organiza em torno do que o mercado chama de Digital Opinion Leaders, os DOLs, médicos com presença relevante nas redes que conversam com outros médicos sobre moléculas e áreas terapêuticas. Muitas vezes nem citam a empresa. Falam da molécula, não do nome comercial. É uma comunicação sobre ciência, não sobre produto. Há também pacientes que falam espontaneamente sobre o tratamento que fazem, de forma completamente orgânica, não promovida, e esses depoimentos têm um peso enorme em termos de reputação. Além disso, a IA ao buscar sobre determinada área terapêutica deve encontrar um conteúdo bem produzido e útil que a empresa ajudou a colocar em circulação.

Valor: Quais são os pilares que sustentam a reputação de uma empresa no setor farmacêutico?

Moura: Reputação é a distância cada vez menor entre o que digo, o que faço e o que as pessoas pensam de mim. Quanto menor esse espaço, mais sólida a reputação. Os pilares, em resumo, são confiança, relevância e autoridade. Confiança porque sem ela não há licença para operar nesse mercado. Relevância porque é preciso estar nas conversas que importam para a sociedade, falar de diagnóstico precoce, de prevenção, de acesso ao tratamento. E autoridade porque, para ser reconhecida, a empresa precisa ter ciência real por trás. Não se constrói autoridade por comunicação. A comunicação revela a autoridade que a empresa já conquistou na prática, nos estudos clínicos, nos resultados terapêuticos, na aprovação pelas agências regulatórias mais exigentes do mundo.

Valor: Na indústria farmacêutica, um remédio começa como uma molécula em laboratório e pode levar dez anos até chegar ao paciente. Como a comunicação acompanha esse desenvolvimento?

Moura: Fazemos o que o setor chama de ponta a ponta. Há marcos nesse processo que podem ser comunicados. O primeiro resultado de uma pesquisa clínica pode ser divulgado em grandes congressos médicos. Quando uma molécula promissora é apresentada em um grande congresso de medicina, a notícia sai nas grandes agências internacionais de notícias no mesmo dia e a imprensa de todo o mundo cobre. Quando a Anvisa aprova, enviamos um comunicado informando que a molécula chegou ao Brasil. Depois há ainda a aprovação da ANS para os convênios e da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) para o SUS. Cada etapa é um marco de comunicação possível. Mas nenhuma delas é campanha e sim informação. A linha entre informar e promover, nesse setor, é muito clara.

Valor: Como gerenciar uma crise de comunicação num setor que lida diretamente com a saúde das pessoas?

Moura: A crise mais grave que pode acontecer aqui é a falta de um medicamento. Uma pessoa em tratamento oncológico sem o produto disponível, por um problema de distribuição ou por atraso na compra pelo sistema público, é uma situação gravíssima. A imprensa liga imediatamente. O princípio é rapidez e transparência e o posicionamento precisa ser verdadeiro e imediato. Ao mesmo tempo, monitora-se as redes sociais em tempo real, porque associações de pacientes e médicos começam a se manifestar antes de qualquer resposta oficial, e o diálogo muda rápido. Há um comitê de crise, com representantes de comunicação, regulatório, jurídico e da área terapêutica envolvida. A área de experiência do paciente contata as associações. A área médica informa os médicos. Tudo de forma concatenada e simultânea. Silêncio, nesse mercado, nunca é uma opção.

Valor: Quando uma empresa precisa falar com públicos tão distintos, o risco é perder o fio que os une. Como esse fio é mantido?

Moura: O ponto de partida não é o canal, mas a coerência da marca. No caso do segmento farmacêutico, essa mensagem central é sempre ancorada na transformação da vida dos pacientes e no valor da inovação em saúde. O que muda para cada público é a lente de interesses. Para médicos e comunidade científica: A linguagem da ciência, evidências clínicas e rigor analítico, nosso time médico é expert nesse contato. Para pacientes e associações: a empatia, o acesso à informação clara, o letramento em saúde e a jornada de cuidado, a Roche conta com um time de experiência do paciente diferenciado. Para a imprensa e os DOL (Digital Opinion Leaders): valor social, inovação em políticas de saúde, dados de mercado, letramento e transparência.

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O trabalho não remunerado na era da IA

A ‘produção doméstica’ ainda é pouco discutida nas políticas pública

Por Diane Coyle – Valor – 09/09/2026 

As discussões sobre como a inteligência artificial pode transformar a economia apresentam uma lacuna: em grande parte, não levam em conta as atividades valiosas que as pessoas realizam fora do trabalho remunerado. Os estatísticos chamam essas atividades de “produção doméstica”, mas coletam pouquíssimos dados sobre ela. A pesquisa American Time Use Survey (Atus) é realizada anualmente nos Estados Unidos, mas sua escala é pequena e a maior parte dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) recolhe essas informações com menos frequência. Como resultado, há pouquíssima pesquisa econômica e quase nenhum debate sobre políticas públicas, ou sobre como a maioria de nós passa a maior parte do nosso tempo.

Mas investidores e autoridades deveriam se preocupar com as atividades não remuneradas. Quando mudanças sociais ou tecnológicas transferem atividades de um lado para o outro da fronteira de produção – do trabalho remunerado para o não remunerado, ou vice-versa – nossa interpretação dos sinais econômicos também precisa mudar. Nos anos 70 e 80, os números oficiais do PIB e da produtividade avançaram em países como o Reino Unido e os EUA, em parte porque as mudanças nas convenções sociais estavam levando mais mulheres casadas a dedicar uma parcela maior do seu tempo a atividades remuneradas.

A tecnologia digital já provocou grandes mudanças nessa fronteira da produção, principalmente no sentido do trabalho remunerado para o não remunerado. Hoje, as pessoas usam ferramentas digitais para realizar uma ampla variedade de tarefas, de operações bancárias ao planejamento de viagens, que antes exigiam a consulta de um profissional, sem falar em passar as próprias compras no caixa do supermercado. Enquanto isso, muitas pessoas compartilham gratuitamente na internet aquilo que produzem – softwares de código aberto, vídeos de entretenimento, aulas de música ou tutoriais do tipo faça-você-mesmo.

Esses exemplos representam a substituição do trabalho não remunerado pelo remunerado. Na maior parte, eles criaram um valor significativo ao consumidor. Com a IA prometendo transferir ainda mais atividades para além da fronteira da produção, a questão é como garantir que isso também se mostre valioso para as famílias.

Para responder essa pergunta, precisamos entender em que situações as pessoas consideram a IA mais útil fora do trabalho remunerado. O projeto ATLAS, do Google (do qual fui um dos consultores) oferece algumas pistas iniciais. Ele mapeou milhões de interações anonimizadas com o Gemini, associando-as às categorias de tarefas utilizadas pela pesquisa Atus, e comparou o volume de conversas de usuários dos EUA com a IA sobre cada categoria, com o tempo real que as pessoas dedicam a elas.

Lidar com a burocracia governamental e do setor privado consome uma enorme quantidade do tempo livre das pessoas. As ferramentas de IA têm potencial de mudar esse cenário, com implicações importantes para a economia

Segundo esse critério, tópicos como “alimentação e bebidas” e “deslocamentos” tiveram uma representação significativamente baixa nas interações com a IA em comparação com o tempo real gasto nessas atividades. Já as interações relacionadas à “socialização, relaxamento e lazer” – categoria que registra o maior uso geral da IA – ficaram em um patamar relativamente próximo ao tempo real dedicado a elas.

Por outro lado, a categoria “educação” teve uma representação acima da média: sua participação nas interações com a IA foi cerca de 5,8 vezes maior do que sua participação no tempo das pessoas. “Serviços profissionais e de cuidados pessoais” e “compras do consumidor” também registraram índices elevados. Mas nada se comparou à super-representação de “serviços governamentais e obrigações cívicas”, que apareceram quase 20 vezes mais frequentemente nas interações com a IA do que nos dados oficiais sobre o uso do tempo.

Em seu novo livro, “The Time Tax”, Annie Lowrey aponta que, nos EUA, as pessoas passam em média seis dias de trabalho porano lidando com a burocracia governamental e realizando tarefas como renovar licenças, declarar impostos e solicitar auxílios. A burocracia do setor privado – que vai desde negociações com seguradoras até o cancelamento de assinaturas – agrava ainda mais esse “imposto do tempo”.

A IA pode ajudar a reduzir esse fardo. Bons serviços digitais governamentais já oferecem eficiência e conveniência: recentemente, vi um amigo solicitar um passaporte on-line em poucos minutos. A regra “clique para cancelar”, proposta pelo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, mostra como as políticas públicas também podem aliviar a carga administrativa imposta pelo setor privado.

Os governos deveriam aproveitar a IA para promover avanços em ambas as frentes. Infelizmente, embora muitos governos estejam interessados em usar a IA para tornar as burocracias públicas mais eficientes, até agora eles tenderam a se concentrar na redução de custos para o Estado, e não na economia de tempo para os cidadãos.

Mesmo sem a ação do governo, o uso de ferramentas de IA pode poupar tempo e dinheiro para as pessoas. Um advogado do Reino Unido poderia cobrar 12.000 libras (US$ 16.220) de um cliente para tratar do inventário e administrar o espólio de um pai falecido, mas modelos de linguagem de grande porte (LLMs) são cada vez mais capazes de providenciar grande parte da documentação gratuitamente. Outros exemplos de tarefas que podem ser resolvidas com o chatbot, ou até delegadas a um agente de IA, incluem o design de interiores ou jardins, pesquisas de produtos para consumo e a espera na fila virtual por itens como ingressos para shows. A lista é extensa.

Assim como as tecnologias digitais levaram à desintermediação e à reintermediação de muitos serviços, os modelos de IA generativa provocarão rupturas em uma ampla gama de serviços. Novas startups de tecnologia jurídica (law-techs) poderão se ver competindo com chatbots ou agentes gratuitos, em vez de com escritórios de advocacia tradicionais e caros. Dinâmicas semelhantes surgirão em setores como educação, saúde, finanças e entretenimento.

Isso não precisa ser uma notícia ruim aos prestadores de serviços. O acesso gratuito à IA ampliará o mercado para esses tipos de serviços, além de substituir versões mais caras deles. Haverá um crescimento em produtos complementares: se eu puder redesenhar minha própria sala de jantar gratuitamente, talvez eu fique mais propensa a comprar papel de parede, cortinas e móveis novos.

Enquanto isso, os ganhos de produtividade no trabalho não remunerado – que possui valor econômico, apesar de ser amplamente excluído das estatísticas oficiais – poderiam ser enormes. Qualquer economista que tente prever como a IA vai transformar a economia, e qualquer autoridade que busque atualizar as proteções ao consumidor para a era da IA, terá de levar em conta a dimensão doméstica da fronteira de produção. (Tradução de Mário Zamarian)

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/o-trabalho-nao-remunerado-na-era-da-ia.ghtml 

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Utopia tecnológica de Moscou, em que tudo funciona por biometria, é armadilha de vigilância de Putin

Tecnologias de ponta remodelaram a capital russa, tornando-a mais segura, mais prática — e mais vigiada

Por Ivan Nechepurenko – Estadão/The New York Times – 15/09/2026

À primeira vista, a Moscou de hoje é um paraíso tecnológico. É possível usar o rosto para pagar quase tudo, como passagens de metrô, ou até mesmo para finalizar a compra de um apartamento. Robôs circulam pelas calçadas fazendo entregas de mantimentos em 15 minutos, e táxis autônomos devem começar a operar comercialmente ainda este ano.

Por trás de muitas dessas comodidades modernas está uma robusta infraestrutura digital desenvolvida pela prefeitura, que tornou a vida não apenas mais fácil, mas também mais segura. O policiamento auxiliado por ferramentas digitais ajudou a consolidar a transformação de Moscou, que há 25 anos era um lugar rude e implacável, assolado por roubos residenciais, assaltos nas ruas e homicídios.

Mas há um custo para essa conveniência e segurança: um estado de vigilância em expansão.

As cerca de 300 mil câmeras de vigilância de Moscou fazem dela uma das cidades mais vigiadas do mundo. É impossível escapar das lentes ao simplesmente caminhar pela cidade. As mesmas câmeras que conduzem os passageiros do metrô pelas catracas também são usadas para monitorar e sinalizar pessoas.

Em abril, um músico de rock russo foi detido pela polícia em uma estação ferroviária em São Petersburgo depois que as câmeras de vigilância o confundiram com uma figura pública ucraniana de aparência semelhante, procurada pelo Estado. Depois de verificar seu rosto e puxar seu cabelo para garantir que não fosse uma peruca, eles o liberaram.

A rede de vigilância está conectada a bancos de dados biométricos. O fornecimento de dados biométricos é voluntário na Rússia, mas é incentivado por meio de anúncios generalizados, e os cidadãos não podem aproveitar plenamente os serviços digitais sem cumprir essa exigência.

Essas bases de dados ajudam as autoridades a combater a dissidência política, além do crime. Os dados biométricos podem ser usados para localizar críticos do governo após a realização de manifestações. Os dias em que russos que se manifestavam abertamente podiam fugir para cidades remotas para escapar das autoridades, como faziam durante os expurgos de Stalin, acabaram, em grande parte.

Em julho, cerca de 10 milhões de russos utilizavam, de alguma forma, aplicativos baseados em biometria, e o Kremlin quer aumentar esse número, incentivando os cidadãos a adotarem essas ferramentas de identificação não apenas em estações de trem, mas também em aeroportos. Este ano, a Prefeitura de Moscou anunciou que um sistema biométrico reconheceria passageiros em ônibus e bondes, deduzindo automaticamente a tarifa assim que eles confirmassem a transação em um aplicativo.

Outras grandes cidades europeias também possuem amplas redes de câmeras de segurança, principalmente Londres. A de Moscou, no entanto, é mais centralizada e utiliza a biometria para identificar pessoas flagradas pelas câmeras com menos restrições.

Com a guerra da Rússia na Ucrânia, os riscos por trás da crescente vigilância tornaram-se maiores.

Rumores de uma nova onda de alistamento militar — a primeira grande mobilização desde os primeiros meses da guerra — se espalharam pela Rússia. Enquanto, no passado recente, era relativamente simples escapar do alistamento porque os escritórios de recrutamento estavam sobrecarregados com arquivos em papel, os sistemas digitalizados aprimorados por inteligência artificial tornam isso quase impossível agora. As autoridades introduziram intimações eletrônicas que têm o mesmo valor legal das notificações em papel, depois que milhares de russos fugiram do alistamento em 2022.

Em março, Vlad, de 28 anos, fotógrafo de arte e moda, recebeu uma intimação para comparecer a um escritório de alistamento militar para um exame médico obrigatório. Por meio do aplicativo “Serviços do Estado” — um portal centralizado para serviços governamentais, assistência médica e verificação de identidade —, ele descobriu que havia sido impedido de deixar o país até que cumprisse a intimação.

Vlad, que pediu que seu sobrenome não fosse divulgado por medo de represálias, disse que agora vive “com medo” por ter desobedecido à intimação, o que ele acredita que possa ser um prelúdio para ser enviado para a guerra.

“Há um controle total porque você fornece tantos dados que cada passo seu pode ser rastreado”, disse ele. Ele parou de usar o metrô, aterrorizado pelas câmeras.

Analistas alinhados ao Kremlin argumentam que o governo está usando aplicativos práticos e a coleta de dados para construir um sistema que atenda melhor às necessidades das pessoas do que o oferecido pelas democracias ocidentais, que têm dificuldade em fazer planos de longo prazo devido às mudanças no governo e, em alguns casos, limitam os serviços digitais por questões de privacidade.

A Rússia ainda está a alguns passos do sistema de “crédito social” da China, que classifica as pessoas com base em seu comportamento em questões financeiras, jurídicas e outras, e limita a liberdade dos infratores. Mas os tecnocratas russos claramente veem a arquitetura digital de Pequim como um modelo a ser seguido.

Gleb Kuznetsov, analista político que já trabalhou para um importante centro de estudos alinhado ao Kremlin, apontou Moscou, sob o comando de seu prefeito de longa data, Sergei Sobyanin, e Shenzhen, a megacidade chinesa de alta tecnologia, como modelos urbanos superiores às capitais ocidentais.

“O índice de aprovação de Sobyanin é alto não porque ‘as eleições carecem de concorrência’”, afirmou Kuznetsov em resposta a perguntas por escrito, “mas porque o governo municipal trabalha genuinamente em prol dos interesses de seus moradores”.

As autoridades russas, no entanto, podem agir rapidamente para desligar as redes que sustentam esses serviços digitais quando percebem uma ameaça à segurança, o que destaca uma tensão entre órgãos tecnocráticos e os serviços de segurança.

Em março, por exemplo, os serviços de internet móvel foram abruptamente interrompidos por mais de duas semanas em grande parte do centro de Moscou, inclusive no metrô, tornando temporariamente inúteis muitos dos serviços digitais mais valorizados da cidade.

Os moradores ficaram perplexos com o apagão, que, segundo especulações de alguns analistas, foi resultado de uma intensa paranoia do Estado após o assassinato do aiatolá Ali Khamenei no Irã.

“A Rússia vai voltar a uma situação de 25 anos atrás, em que se tem uma ‘globalização fragmentada’”, disse Jeremy Morris, um etnógrafo que é um dos poucos acadêmicos ocidentais que continuam realizando pesquisa de campo na Rússia.

“Você poderia entrar em um lugar e ele seria super, super cibernético e tecnológico”, acrescentou ele, “e então, ao sair da zona de cobertura, voltaria a uma economia básica”.

Serviços de internet foram interrompidos em vários momentos deste ano, desativando muitos dos serviços digitais da cidade  Foto: Nanna Heitmann/The New York Times

De acordo com uma autoridade russa envolvida no desenvolvimento da infraestrutura digital, que falou sob condição de anonimato por não estar autorizada a se pronunciar publicamente, uma guerra silenciosa está sendo travada dentro do Estado.

Órgãos tecnocráticos como o Ministério do Desenvolvimento Digital, disse ele, estão entrando em conflito com o Serviço Federal de Segurança, ou FSB (na sigla em russo) — especificamente seu notório departamento de policiamento político. Embora tenha acesso a ferramentas digitais, o FSB não esteve envolvido em sua criação. Ele prefere métodos analógicos tradicionais de monitoramento e controle da sociedade, disse a autoridade, mesmo que isso signifique sabotar a tecnologia que os tecnocratas gastaram bilhões para construir.

A postura do FSB é em parte motivada pela autopreservação institucional, já que a IA ameaça minar a justificativa para seu extenso aparato de agentes humanos, disse o funcionário.

Em última análise, tanto as agências digitais quanto as de segurança estão competindo pela atenção e pela opinião de um único homem: o presidente Vladimir Putin, que exigiu que o governo desenvolvesse a IA ao mesmo tempo em que a isolasse da influência ocidental.

Em abril, ao discursar em uma reunião de alto nível no Kremlin sobre IA, Putin enquadrou o que está em jogo em termos existenciais. “A soberania do Estado russo no futuro próximo — e, sem exagero, sua própria existência — depende de nossa capacidade de ter um bom desempenho em IA, juntamente com plataformas digitais e sistemas autônomos”, afirmou.

No entanto, apesar de todas as suas ambições, a Rússia carece da infraestrutura e do hardware necessários para desenvolver a tecnologia isoladamente da China e dos Estados Unidos. As sanções ocidentais relacionadas à invasão da Ucrânia limitaram o acesso da Rússia a chips de última geração, e muitos de seus principais especialistas técnicos deixaram o país desde o início da guerra, em 2022.

Os dois principais modelos de IA da Rússia — um desenvolvido pelo maior banco estatal do país e o outro pela principal empresa de tecnologia nacional — foram “inspirados” por arquiteturas chinesas de código aberto ou dependem fortemente delas.

No fim das contas, disse Ilya Grashchenkov, analista político baseado em Moscou, a Rússia provavelmente será definida pelo que ele chamou de tentativa de “combinar o que parece incompatível”. Isso, segundo ele, envolve a construção de um “perímetro digital externo” para isolar o país do mundo, ao mesmo tempo em que se acelera a digitalização dentro da Rússia.

Vlad, o fotógrafo que recebeu a convocação militar, disse que abriria mão de bom grado das conveniências de alta tecnologia e sem atritos se isso significasse recuperar a liberdade que realmente lhe faltava.

A vida na Rússia, disse ele, agora se assemelha a “viver com uma máscara de oxigênio”.

Utopia tecnológica de Moscou, em que tudo funciona por biometria, é armadilha de vigilância de Putin – Estadão 

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Brasil chega tarde na corrida dos data centers, mas com vantagens competitivas

Congresso cumpriu seu papel ao desenhar o arcabouço fiscal inicial; o desafio, agora, é regulatório: transformar vantagem energética e incentivo fiscal em um polo de atração

Por Welber Barral – Estadão – 14/09/2026

O Congresso acaba de aprovar o Redata, regime especial de tributação estruturado para tornar o Brasil competitivo na crescente disputa global por data centers. Se sancionado nos termos de sua aprovação, o programa reduzirá substancialmente o ônus fiscal sobre a importação e aquisição de equipamentos inerentes a essas estruturas.

O tema pode soar como uma exclusividade de engenheiros e técnicos, mas não é. No estágio atual da economia, a capacidade computacional consolidou-se como fator de infraestrutura primária. Da mesma forma que portos acompanharam a expansão do comércio marítimo e cabos submarinos viabilizaram a globalização das comunicações, os data centers formam a infraestrutura crítica que sustenta a expansão da inteligência artificial.

O Brasil chega tarde nessa corrida, mas com vantagens competitivas. E chega em um momento peculiar, no qual economias centrais (que primeiro abraçaram o fenômeno) começam a descobrir os inconvenientes de hospedar a infraestrutura que o mundo inteiro deseja utilizar.

Não haverá empregos tecnológicos massivos nestes projetos: data centers são estruturas intensivas em capital e altamente automatizadas

O Redata tenta corrigir uma desvantagem concreta: a maior parte do custo de implantação de um data center reside em equipamentos importados de alta tecnologia. A carga tributária brasileira transformava essa despesa em um obstáculo proibitivo num setor em que outras jurisdições disputam agressivamente investimentos com isenções, infraestrutura e energia barata.

O texto aprovado pelo Senado acerta ao prever a suspensão de tributos federais sobre o maquinário, mas sem abdicar de contrapartidas. Exige-se que as empresas reservem ao menos 10% da capacidade beneficiada ao mercado brasileiro, apliquem 2% das aquisições em investimentos locais e cumpram rigorosos requisitos ambientais, notadamente a utilização de energia de fontes renováveis e a observância de índices máximos de consumo hídrico no resfriamento dos servidores. É um equilíbrio regulatório razoável para um setor no qual há bilhões de dólares esperando para serem alocados.

Para conseguir hospedar dados, a infraestrutura requer variáveis concretas: energia abundante, barata e confiável; cabos submarinos e de fibra óptica; segurança jurídica; e, a depender do resfriamento, acesso à água. O Brasil dispõe de boa parte dessa combinação, com um ativo frequentemente subestimado. Em 2025, 86,8% da eletricidade brasileira teve origem em fontes renováveis; dado positivo, mas há que se considerar a intermitência. Para gigantes da tecnologia pressionadas por metas climáticas globais, esse indicador pode se tornar um diferencial econômico decisivo.

Contudo, energia renovável não significa energia inesgotável. Data centers são consumidores eletrointensivos e inflexíveis. Servidores de inteligência artificial operam ininterruptamente e não aceitam falhas de transmissão como desculpa para indisponibilidade. A expansão dessas cargas exigirá investimentos paralelos pesados na estabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN). Caso contrário, o Brasil terá a curiosa façanha de atrair a infraestrutura do século 21 apenas para descobrir que falhou em prover a infraestrutura elétrica do século 20.

Como desafio em todo o mundo, há ainda a restrição hídrica. O Redata exige um índice de eficiência igual ou inferior a 0,05 litro por kWh. A métrica é adequada, mas dependerá da capacidade fiscalizatória do Estado após o início das operações. A experiência norte-americana oferece uma advertência incontornável: durante anos, governadores competiram por data centers; hoje, comunidades nos EUA passaram a barrar novos projetos devido à exaustão de bacias hídricas, à competição por energia e ao risco de encarecimento das tarifas residenciais. A oposição local atrasou ou suspendeu, recentemente, cerca de 46 projetos, travando bilhões em investimentos anunciados. É o paradoxo similar ao das torres de telefonia: todos exigem sinal forte, desde que a antena seja instalada no quintal do vizinho.

Evitar esse gargalo no Brasil exige não incorrer em erros simétricos. Primeiro, há que se considerar que o país não pode renunciar à nuvem e à inteligência artificial. Tampouco podem ser mantidos subsídios indiscriminados. Os incentivos devem permanecer estritamente vinculados aos investimentos efetivos, às metas de eficiência e aos benefícios tecnológicos.

Nesse aspecto, surge oportunidade estratégica (e frequentemente ignorada): a exportação de capacidade computacional. Graças às recentes expansões regulatórias, as Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) brasileiras, como a do Pecém, passaram a comportar data centers voltados à prestação de serviços ao exterior. A implicação macroeconômica é brutal: uma ZPE combinada a cabos submarinos transforma a matriz energética renovável brasileira em serviços digitais exportáveis, mesmo considerada a latência. Em vez de exportar commodities em contêineres, o Brasil passa a exportar processamento em gigabytes.

Convém, no entanto, ancorar as expectativas. Não haverá empregos tecnológicos massivos nestes projetos. Data centers são estruturas intensivas em capital e altamente automatizadas. O ativo estratégico está nos encadeamentos tecnológicos que essa infraestrutura trará: demanda por engenheiros, especialistas em segurança cibernética e fornecedores de cloud computing. Aqui, a exigência de reinvestimento local (2% no Redata) pode, se aplicada criteriosamente, fomentar todo um ecossistema nacional de software e inovação.

A cadeia de valor do comércio global mudou e abrange pauta transversal de segurança energética, política industrial e comércio exterior. O Congresso cumpriu seu papel ao desenhar o arcabouço fiscal inicial. O desafio, agora, é regulatório: transformar vantagem energética e incentivo fiscal em um polo de atração que posicione o Brasil não como mero hospedeiro da inteligência artificial alheia, mas como exportador na nova economia digital.

Opinião por Welber Barral

Conselheiro da Fiesp, presidente do IBCI e ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil

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Data centers no Ceará podem consumir energia equivalente a 7 milhões de residências

Expansão de cargas especiais pode representar até 12,9% do consumo elétrico da região Nordeste.

Mariana Lemos – Diário do Nordeste – 31 de Agosto de 2026 – 06:00

O Brasil e, em especial, o Ceará estão na mira de empresas de tecnologia interessadas em instalar data centers de hiperescala, equipamentos voltados ao processamento de inteligência artificial (IA), ao armazenamento de dados e à sustentação de computação em nuvem, que demandam consumo intensivo de energia.

O território cearense pode receber pelo menos seis projetos de data centers eletrointensivos até 2035, com consumo de energia previsto de 2,7 GW, conforme o Plano Decenal de Expansão de Energia da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). 

O montante é equivalente ao consumo de 7,1 milhões de residências cearenses, considerando um consumo mensal de 274 kWh por residência medido pelo Anuário Estatístico de Energia Elétrica.

O número pode ser bem maior, já que, segundo a Zona de Processamento de Exportação do Ceará (ZPE Ceará), 11 empreendimentos já tiveram aprovação para se instalarem no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp).

Um dos projetos mais avançados é o Data Center Pecém, que processará dados da ByteDance, dona do TikTok, e pode se tornar o maior empreendimento do tipo no Brasil. 

O empreendimento terá capacidade instalada de até 300 MW, com consumo de energia superior ao de 99% das cidades brasileiras, segundo laudo elaborado pelo Centro Nacional de Perícia do Ministério Público Federal (MPF). O projeto é tocado pela Omnia.

Outro mega data center do Estado, que deve ser anunciado em breve pela Tecto Data Centers, terá investimento de R$ 350 bilhões. A capacidade prevista do equipamento não foi divulgada, mas a dimensão sugere alto consumo energético.

A Voltalia, empresa de energias renováveis com atuação no Estado, também recebeu aval para construir um empreendimento de processamento de dados no Pecém

A empresa tem garantia de 322 MW de potência no grid elétrico do Complexo do Pecém e deve investir cerca de R$ 181 bilhões no negócio.

A Casa dos Ventos, que irá fornecer energia renovável para o data center do TikTok, também pode construir o próprio empreendimento na região. A cearense comprou direitos da Voltalia para 650 MW de acesso à rede elétrica, que podem ser usados em novos projetos de data centers. 

Após a publicação desta coluna, o Governo do Ceará entrou em contato para se posicionar sobre o tema. De acordo com ele, o primeiro empreendimento de data center (Omnia/TikTok) no Ceará deve operar no último trimestre de 2027 com 300 MW de consumo bruto (200 MW para TI), com um investimento inicial de R$ 3,7 bilhões em parques renováveis no Estado. A projeção de demanda total do setor é escalonada, segundo o governo, podendo atingir até 3,34 GW entre 2027 e 2035, sob aprovação inicial do CZPE de 20 anos (prorrogável por até 40), com números sujeitos a ajustes conforme o avanço do licenciamento e da operação.

A Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) disse que essas estimativas consideram a capacidade máxima para dimensionamento e afirmou que comparações diretas com o consumo residencial devem ser analisadas com cautela. Segundo a pasta, enquanto os data centers operam em regime ininterrupto (24/7) com carga concentrada para processamento e refrigeração, o consumo das residências flutua conforme hábitos e número de moradores, além de a métrica doméstica não contabilizar o uso indireto de energia por serviços e espaços públicos.

EQUIPAMENTOS ELETROINTENSIVOS EXIGEM CAUTELA

O crescimento exponencial da demanda por energia com o surgimento de data centers deve ser avaliado com atenção pelas entidades locais e do setor elétrico devido aos riscos ambientais, aponta o doutor em Informática, mestre em Engenharia Elétrica e pesquisador do IFCE, Mauro Oliveira. 

“No Ceará, temos energia sobrando, então isso pode ser um bom negócio. Só que esse bom negócio precisa ser supervisionado, precisa ter transparência, métricas auditáveis”, comenta. 

Uma das preocupações ambientais é o elevado uso de água, já que os equipamentos eletrointensivos precisam de resfriamento para que permaneçam funcionando ininterruptamente. 

O Data Center do TikTok recebeu aval para explorar poços que podem retirar 144 mil litros de água por dia. Já o consumo previsto, informado no pedido de licenciamento, é de 19,7 mil litros de água ao dia. 

Além disso, a região deve sofrer efeitos da construção dos grandes empreendimentos e dos parques de usinas renováveis necessários. O projeto, que terá operação da Bytedance, envolve a instalação de quatro usinas de energia solar e eólica. 

A implantação de data centers deve estar associada à expansão de geração renovável, mas não significa que que cada centro precisará dispor de uma usina exclusiva, segundo o doutorando em Planejamento Energético e pesquisador do Grupo de Estados do Setor Elétrico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Gesel/UFRJ), Igor Barreto Julião. 

“No Ceará, onde já existe uma forte base de geração renovável e grande potencial de expansão, essa nova demanda pode reforçar a complementaridade entre os investimentos em infraestrutura digital e o desenvolvimento do setor de energia renovável”, aponta.

Pela legislação, os empreendimentos instalados em ZPEs devem utilizar exclusivamente energia de fontes renováveis. Mas a ausência de emissões não elimina os impactos socioambientais da instalação dos parques.

Para Oliveira, é essencial que sejam firmadas contrapartidas para a contratação de investimentos de data centers na região. Entre as medidas bem-vindas, estão a reparação de efeitos colaterais, atração de novos negócios correlatos e geração de empregos. 

“O data center não vai parar, a IA não tem volta. O que a gente não pode ter é um ‘entusiasmo de colonizado’, de ver muito dinheiro e já ficar entusiasmado. É preciso negociar, perguntar. Não é porque temos energia barata que podemos fazer tudo que as empresas querem”, opina.

ALTA DEMANDA EXIGE REPLANEJAMENTO DO SISTEMA

A necessidade de fornecer volumes elevados de energia a data centers de forma contínua exige disponibilidade de grande parcela da rede de transmissão. O porte inédito dos empreendimentos exigiu mudanças nos critérios de operação e planejamento do sistema.

A Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST), instituída em dezembro de 2025, busca otimizar o acesso de geradores e consumidores à Rede Básica do Sistema Interligado Nacional (SIN).

Na prática, podem ser priorizados empreendimentos considerados estratégicos para conexão ao sistema elétrico. Na primeira chamada, foram admitidos 367 projetos, sendo 288 de geradores de energia e 79 de consumidores. 

Para viabilizar os acessos, serão necessárias expansões da transmissão para ampliar a capacidade de conexão dessas novas cargas, destaca Igor Barreto Julião. 

“Entre as obras consideradas na alternativa recomendada pela EPE estão a implantação da nova Subestação Pecém e aproximadamente 1.848 quilômetros de novas linhas de transmissão em 500 kV, interligando instalações nos estados do Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí”, aponta. 

O especialista ressalta que a expansão será escalonável, devido ao grau de incerteza quanto à concretização dos investimentos. Para o Ceará, é necessário assegurar o planejamento coordenado da entrada de novas cargas.

A EPE avalia que a preparação do sistema elétrico para atender a essas novas demandas com segurança, eficiência e racionalidade econômica representa um grande desafio. 

Um dos dilemas do planejamento é que as decisões de investimentos em plantas de grandes cargas requerem garantias de conexão, porém a decisão de expansão do sistema de transmissão exige confirmação da demanda da rede. 

Por outro lado, os centros digitais exercerão um papel importante em reduzir a disparidade entre a demanda e a oferta de energia. O “excesso de geração” é um dos fatores de sobrecarga da rede elétrica

A Superintendência de Estudos Econômicos e Energéticos da EPE destaca que o Nordeste terá um papel importante na expansão de demanda energética relacionada a data centers, com previsão de conexão de mais de 5 GW nos próximos anos.  

A expansão de cargas especiais, correspondente a data centers, usinas de hidrogênio verde e veículos eletrificados, pode representar até 12,9% do consumo elétrico da região Nordeste. Em um cenário mais restritivo, corresponderia a 1,4% do consumo elétrico. 

Atualmente, existem 27 contratos assinados e 30 pedidos de acesso favoráveis emitidos. O segmento de hidrogênio verde, que avança a passos mais lentos, pode ter um consumo energético ainda maior. 

Para o Ceará, a EPE projeta que 10 usinas de hidrogênio verde devem demandar 12,47 gigawatts. O Ceará é o estado com mais solicitações no segmento de hidrogênio renovável.

Data centers no Ceará podem consumir energia equivalente a 7 milhões de residências – Mariana Lemos – Diário do Nordeste 

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O próximo presidente e a educação

O tema aparece em segundo plano nas campanhas dos principais candidatos à Presidência

Por Ana Maria Diniz – Valor – 11/09/2026 

Estamos há um mês das eleições no Brasil e, mais uma vez, a educação está em segundo plano — ou, quem sabe, em quinto plano — nas campanhas presidenciais. O rombo orçamentário, o aumento do custo de vida, a violência e a corrupção dominam os debates. Isso não é por acaso: o gasto público explodiu, principalmente com as ações populistas que o atual governo vem fazendo para se segurar no poder. O problema é que nenhuma política econômica, fiscal ou de segurança será bem-sucedida se as escolas brasileiras continuarem formando gente que não lê, não calcula e não aprende o ofício que o mercado pede. Sem pessoas bem formadas, com capacidade de discernimento e um mínimo de valores éticos, não vamos a lugar nenhum, tudo é remendo!

O Censo Escolar 2025 descreve o tamanho da máquina educacional: 46 milhões de matrículas em 178,8 mil escolas. De forma geral, nos últimos anos, houve avanço no acesso, na permanência e na trajetória escolar. A evolução mais visível foi o aumento do tempo integral na rede pública: de 15,1% em 2021 para 25,8% em 2025. Mas os números escondem um detalhe: uma pesquisa do Insper mostrou que a vantagem das escolas integrais no Ideb do ensino médio encolheu, isto é, a diferença de aprendizado nessas escolas, que era de 0,49 em 2019, caiu para 0,12, demonstrando que mais horas não são garantia de mais aprendizagem. Sem bons professores e recuperação, o ensino integral é só uma jornada cara.

Pesquisa aponta que 83% dos brasileiros querem a educação entre as prioridades do próximo presidente

A capacidade de fazer todos os alunos aprenderem de verdade constitui o maior desafio do próximo presidente. Cerca de 60% dos jovens terminam o ensino médio na rede pública sem saber o básico em matemática. E quase dois terços saem da escola sem dominar o português. Como construir um país próspero e funcional diante dessa situação? Impossível! Se isso continuar, sempre haverá a exploração dos poucos mais instruídos sobre os muitos sem condições de fazer escolhas mais conscientes. E assim perpetuamos a nossa desgraça.

A análise das propostas para a educação dos seis líderes nas pesquisas de intenção de voto para presidente mostra que, de forma geral, eles convergem no diagnóstico e divergem no método, mas quase todos pecam na conta. Lula oferece continuidade: pacto pela alfabetização com meta de 80%, expansão do Pé-de-Meia, mais ensino integral e 111 novos institutos federais, lembrando que os institutos federais são um grande sorvedouro de dinheiro. Em suma, mais gastos e mais do mesmo que nos trouxe até aqui, já que o PT governa há 20 anos e não entregou nada de significativo para a educação.

Flávio Bolsonaro parte do princípio certo: “escola boa é escola em que o aluno aprende”. Ele defende o método fônico, escolas cívico-militares, vouchers quando não houver vagas na rede pública e gestão baseada em indicadores de proficiência. Quer ampliar a oferta de cursos técnicos no ensino médio, em parceria com o setor produtivo. Teoricamente, são coisa boas, mas difíceis de executar, a lembrar dos ministros escolhidos por seu pai, arrepiam só de pensar!

Caiado tem o plano mais de Estado: quer um novo pacto de alfabetização e matemática, recomposição e foco nos anos finais do fundamental (o ponto cego nacional). Propõe um itinerário mais “real” no ensino médio, um ensino técnico regionalizado e avaliações para gerar ações. Goiás é uma vitrine. Ele fez um ótimo trabalho em sua rede de ensino médio, chegando ao primeiro lugar no último Saeb, pois Caiado é realmente uma pessoa que valoriza a educação de verdade.

Renan acerta ao querer copiar o Ceará, mas descarrila quando fala em “impor” um código de conduta com punições para os alunos. Ele parece desconhecer que o papel de Brasília é outro, pois o governo federal não implementa nada, só cria e incentiva políticas para fortalecer a educação. Também ignora que acabar com a progressão continuada no país inteiro, como propõe, pode trocar o problema atual, do aluno passar de ano sem aprender, pelo aluno abandonar a escola.

Cury escreve o plano que um bom educador gostaria de pregar na parede. Ele coloca a gestão das emoções como prioridade e quer uma escola para pensadores e empreendedores. Sua proposta é coerente com sua biografia, porém, sua única experiência na área publica é a venda de seu método para prefeituras, gerando cerca de 30 milhões em contratos. O problema é uma certa ingenuidade dele na implementação de tudo isso, pois a reinvenção da escola nunca aconteceu em escala continental e num país diverso como o Brasil.

Zema junta o que a direita liberal sabe fazer: diversidade de modelos (pública, PPP, cívico-militar), Pé-de-Meia condicionado ao desempenho e o ensino técnico nos moldes programa mineiro Trilhas do Futuro. A atuação do MEC se limitaria à educação básica e ensino superior ficaria a cargo do Ministério da Ciência e Tecnologia. Ele propõe a regulamentação do ensino domiciliar.

O Todos Pela Educação leu os seis planos e viu o óbvio: todos falam de alfabetização, recomposição e educação integral, mas nenhum trata com seriedade os anos finais do fundamental, que é onde eu costumo dizer que “a gente perde o aluno”. Também não falam da mudança super necessária nas licenciaturas, pois sem bons professores não vamos mudar a educação.

Setenta e um por cento dos brasileiros dizem que a educação pesa no voto e 83% querem o tema entre as três prioridades do próximo presidente, segundo pesquisa do Instituto Ideia. Mas, nessa campanha, parece que o espaço para este debate não vai existir, ou será muito comprometido.

Existem coisas que deveriam estar acima de tudo, e educação é uma delas. Temos que preparar melhor os brasileiros para um Brasil melhor. Para isso, é preciso também capacitar os brasileiros com valores mais fundamentados no bem comum, valores universais, fundamentais para construir o Brasil que queremos, livre de corrupção, seguro e cheio de oportunidades para todos.

Ana Maria Diniz é Conselheira da Península Participações, empresária, fundadora do Polvo Lab, cofundadora do movimento Todos Pela Educação e conselheira do Parceiros pela Educação.

https://valor.globo.com/opiniao/ana-maria-diniz/coluna/o-proximo-presidente-e-a-educacao.ghtml 

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Como o GPS, criado para a guerra, moldou o mundo moderno

Dalia Ventura – Folha/BBC News Mundo – 30 agosto 2026

Em 2017, as tripulações de vários navios-tanque viveram uma experiência desconcertante. Ao se aproximarem de seu destino, descobriram que estavam em dois lugares diferentes ao mesmo tempo.

Seus olhos lhes diziam que estavam chegando ao porto russo de Novorossiysk, na costa norte do Mar Negro.

Mas o sistema de posicionamento global mostrava que, em vez de navegarem sobre a água, parecia que estavam voando pelos ares.

Quando atracaram, o GPS continuava insistindo que seus navios estavam em terra firme, em um aeroporto próximo.

Essa história foi a faísca que levou a jornalista econômica Katherine Dunn a explorar o GPS, essa tecnologia que nos situa em um mapa e cria uma representação do mundo completamente centrada em nós.

Ele também nos deu uma nova forma de nos identificar: um pequeno ponto azul que, sem instruções ou manuais, aprendemos a reconhecer como um eu.

Logo, tornou-se parte do cotidiano, não apenas como uma ferramenta para saber onde fica um lugar e como chegar até lá, mas também quanto tempo isso levará.

Se pararmos para pensar, rapidamente percebemos que ele também serve para que o táxi venha nos buscar ou para fazer compras on-line e, quando ampliamos o foco, visualizamos seu papel na logística global, particularmente no transporte de pessoas e mercadorias.

Mas talvez deixemos passar seu papel em sistemas como a sincronização de vastas redes — torres de telefonia móvel, sistemas bancários e redes elétricas —, nos quais ele ajuda a criar o tipo de comunicação fluida que hoje consideramos algo natural.

Sua onipresença se estende a áreas que talvez não associemos ao GPS, desde aplicações de alto risco relacionadas a redes financeiras e mísseis até a agricultura de precisão e mesmo à coordenação dos semáforos.

Tudo isso graças à constelação de satélites que orbitam a Terra e à resolução simultânea e ultrarrápida de quatro incógnitas.

Foi isso que Dunn contou à BBC Mundo. A curiosidade despertada pelo episódio dos navios a levou a pesquisar e escrever Little Blue Dot: How GPS Shaped the Modern World (“O Pequeno Ponto Azul: Como o GPS Deu Forma ao Mundo Moderno”, em tradução literal), sem tradução para o português.

BBC Mundo — Como o GPS funciona?

Katherine Dunn — A ideia é que, esteja onde estiver, você precisa receber o sinal de quatro satélites, porque, em conjunto, eles estão resolvendo quatro equações: sua longitude, sua latitude, sua altitude — algo que costumamos esquecer, mas que importa se você estiver, por exemplo, no sexto andar de um prédio — e uma quarta variável, que é o tempo, medido com uma precisão de bilionésimos de segundo.

Todo o sistema depende de uma precisão perfeita na medição do tempo. E, como subproduto de usar o tempo para calcular sua localização, o GPS acaba lhe dando um relógio atômico de bolso: ele pega a hora dos relógios atômicos que viajam nos satélites e a entrega, sem que você perceba, no celular ou no carro.

No fundo, é um computador no espaço falando com um computador no receptor, que, por sua vez, fala com um computador em uma estação terrestre.

A física por trás é extremamente complexa, mas a ideia geral é tão elegante que provavelmente é por isso que o sistema resistiu ao passar do tempo e se tornou tão bem-sucedido.

BBC Mundo — Por que o GPS precisa saber algo tão específico quanto em que andar de um prédio você está?

Dunn — Porque ele foi projetado para aviões, como uma ferramenta para bombardear com precisão.

Ele tem antecedentes — muitos deles também ligados a campanhas de bombardeio —, mas nasce diretamente da Guerra do Vietnã, quando a Força Aérea dos Estados Unidos fracassou repetidas vezes em atacar com precisão a Trilha Ho Chi Minh e as pontes usadas para transportar tropas e suprimentos.

Ali estava a poderosa aviação dos Estados Unidos, incapaz de acertar uma ponte no Vietnã do Norte. Eles precisavam de uma precisão extrema, e em três dimensões, além de uma velocidade de cálculo altíssima, porque um avião se move muito rápido e precisa saber sua localização quase em tempo real enquanto atravessa o céu.

BBC Mundo — Daí o tempo ser um fator tão crítico. E essa é a parte mais difícil de entender para quem não é físico.

Dunn — As pessoas costumam dizer que “o GPS funciona por triangulação”, mas não: triangulação envolve ângulos; aqui, é pura velocidade.

O sistema calcula quanto tempo um sinal de rádio leva para sair do satélite e chegar ao receptor e precisa medir esse intervalo com uma precisão de bilionésimos de segundo, porque as diferenças que precisam ser detectadas são minúsculas.

BBC Mundo — Desenvolver o GPS exigiu a tecnologia mais avançada, desde aqueles relógios atômicos até foguetes, baterias e computadores. Para mantê-lo, são necessários milhões de dólares por ano e, ainda assim, ele é gratuito: uma raridade, sobretudo se pensarmos que nasceu nos Estados Unidos, o bastião do capitalismo.

Dunn — É curioso que, durante anos, o próprio Pentágono não deu muito valor a ele. Só quando outros países começaram a adotá-lo é que perceberam que tinham em mãos não apenas uma ferramenta militar poderosíssima, mas também uma ferramenta industrial, comercial e de poder.

No fim dos anos 1990, após um incidente casual que ameaçou o espaço de frequências usado pelo GPS, o governo americano entendeu duas coisas: que, se todo mundo dependesse desse sistema, ele estaria mais protegido, e que indústrias inteiras estavam sendo construídas em torno dele, com os Estados Unidos fabricando os receptores.

Em parte, recuperaram esse investimento de outras formas: o sistema impulsionou indústrias gigantescas, muitas delas lideradas por empresas americanas. As grandes empresas de tecnologia, por exemplo, dependem enormemente dos dados de localização e foram construídas sobre um produto do governo, pago com os impostos dos contribuintes.

BBC Mundo — Promoveram ativamente a adoção do sistema por outros governos, e muitos fizeram isso de bom grado, mas alguns não ficaram tão satisfeitos, certo?

Dunn — Os europeus começaram a se incomodar com a ideia de que tanta infraestrutura dependesse de um único produto americano, e daí surgiu, em grande parte, o Galileo, o sistema europeu de autonomia estratégica.

Hoje, ele é mais diversificado, embora o GPS continue sendo o sistema dominante em muitas indústrias, mesmo não sendo mais o melhor dos cinco que existem — o chinês, dizem, é de longe o mais avançado —, simplesmente porque é o mais antigo e muitos receptores são fabricados pensando apenas nele.

A aviação, por exemplo, tende a usar apenas o GPS, enquanto o chip de um telefone costuma aproveitar todas as constelações disponíveis ao mesmo tempo.

BBC Mundo — Quem foram os primeiros a usar o GPS fora do âmbito militar?

Dunn — Os primeiros usuários fora do meio militar foram nerds: agrimensores e pesquisadores universitários. Depois vieram especialistas muito específicos e, mais tarde, um punhado de nerds endinheirados que procuravam fósseis de dinossauros ou eram aficionados por navegação à vela — um certo tipo de aventureiro de elite capaz de pagar por receptores que, no início, custavam cerca de US$ 100 mil, hoje equivalentes a R$ 514 mil.

Só nos anos 1980 surgiu o primeiro carro com GPS, e foram os japoneses que perceberam o potencial para a indústria automobilística, em parte porque o Japão havia sido, no pós-guerra, uma espécie de oficina dos Estados Unidos e acabou aperfeiçoando essa tecnologia até mais do que seu criador.

Para o resto do mundo, se você não era fã de tecnologia, de motores, de montanhismo ou de navegação, o primeiro salto foi ter um TomTom ou um Garmin no carro.

Mas o grande salto veio com o iPhone 3G, o primeiro a incorporar GPS, e o Google Maps como aplicativo de mapas: já não era algo que ficava no carro, mas algo que você carregava consigo o tempo todo.

BBC Mundo — O GPS começou a ser muito usado e a substituir os mapas que costumavam nos dizer onde as coisas estavam, mas descobriu-se que algumas delas não ficavam exatamente onde imaginávamos.

Dunn — É uma ideia maluca, não? Hoje estamos acostumados a que a informação corresponda à realidade: se está no mapa, tem que estar lá.

Mas nem sempre era assim. O GPS colocou essas discrepâncias em evidência e obrigou a corrigi-las.

A Estátua da Liberdade é um exemplo famoso, mas descobriu-se que havia muitas outras coisas assim, inclusive pistas de pouso deslocadas vários metros em relação às suas coordenadas oficiais.

O que entendi é que a precisão absoluta não existe: trata-se sempre de chegar o mais perto possível e continuar fazendo ajustes.

BBC Mundo — Mas, se nesses casos o GPS ajudou a reconciliar os mapas com a realidade, em outros acontece exatamente o contrário, como ocorreu com as tripulações daqueles navios no porto russo de Novorossiysk: seus GPS mostravam que elas estavam sobre a pista de um aeroporto localizado a dezenas de quilômetros de distância.

Dunn — É o primeiro grande episódio desse tipo que se conhece publicamente.

Pesquisadores começaram a perceber que essas interferências ocorriam onde quer que Vladimir Putin estivesse — na verdade, ele estava por perto durante o incidente de Novorossiysk — e também ao redor de prédios do governo russo, como o Kremlin ou o chamado Palácio de Putin, no Mar Negro.

E, depois, em um documentário sobre o opositor russo Alexei Navalny, que investiga justamente esse palácio, viram uma cena em que tentam sobrevoá-lo com drones, mas não conseguem se aproximar.

Foi assim que perceberam a conexão: a manobra tinha como objetivo impedir que drones se aproximassem, seja para espionar, seja para atacar figuras do poder.

A contrainteligência russa usava equipamentos potentes de interferência eletrônica e transmitia coordenadas falsas pré-programadas para criar um escudo móvel e invisível ao seu redor

BBC Mundo — Como isso é feito, tecnicamente?

Dunn — Aí entra a diferença entre interferência e falsificação de sinal.

Interferir é simplesmente abafar o sinal: é como se, enquanto você está dizendo alguma coisa, eu começasse a gritar. Você continua falando, mas ninguém consegue ouvi-lo.

Falsificar é mais ardiloso: é sequestrar o sinal, como se, de repente, eu assumisse sua voz e dissesse coisas que você nunca disse ou diria.

Nesses casos, houve um pouco de interferência pura, mas o que fazia os navios “aparecerem” em aeroportos era a falsificação.

E o motivo de escolherem justamente coordenadas de aeroportos é que, naquela época, a maioria dos drones comerciais vinha configurada de fábrica para mudar de direção ou cair se detectasse que estava perto de um aeroporto, por razões de segurança.

Se conseguissem fazer o drone acreditar que a localização de Putin era a de um aeroporto, o drone não poderia se aproximar.

Hoje, para qualquer profissional, é muito fácil contornar essa restrição; na Ucrânia, com o uso atual de drones, essa limitação foi completamente superada.

BBC Mundo — É possível simplesmente ‘desligar’ o GPS?

Dunn — Seria possível, sim. Seria extremamente disruptivo, mas a boa notícia é que hoje existem outros sistemas alternativos, então provavelmente o telefone nem sequer seria afetado.

O que mais causa temor não é tanto o desaparecimento do GPS, mas que ele seja manipulado sem que ninguém perceba. Isso, sim, assusta, porque temos muito menos ideia de como os sistemas reagiriam nesse cenário. É parecido com um ataque cibernético, mas analógico.

BBC Mundo — Há regiões do mundo onde isso já está acontecendo de forma séria?

Dunn — Desde a guerra dos drones e as linhas de frente na Ucrânia até o que aconteceu no Estreito de Ormuz, talvez você tenha visto alguns desses efeitos: navios que traçam rotas estranhas, dando voltas sem sentido, ou até mísseis americanos de alta precisão que chegam à Ucrânia e, de repente, não funcionam como deveriam.

A manipulação do GPS se tornou uma característica cada vez mais comum dos conflitos desde que essa tecnologia existe.

BBC Mundo — Para terminar: adoro essa imagem evocada pelo título do seu livro, a de nos transformarmos em um pequeno ponto azul na tela.

Dunn — Esse título se conecta a algo em que pensei muito enquanto escrevia: existia essa ideia da exploração espacial, de olhar para o céu, para o cosmos. No entanto, boa parte do que fizemos foi sair apenas um pouco para o espaço e virar as câmeras de volta para nós mesmos.

Há algo contraditório no fato de que boa parte dessa ciência e dessa física acabou colocada a serviço da guerra — e também, no cotidiano, de nos vender coisas e nos fazer gastar dinheiro.

Embora haja também o lado positivo: boa parte da ciência climática, por exemplo, surgiu dessas mesmas descobertas. A tecnologia não é boa nem ruim em si mesma; pode ser as duas coisas ao mesmo tempo.

Como o GPS, criado para a guerra, moldou o mundo moderno – BBC News Brasil 

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Muito além das commodities: o agro nacional rumo às prateleiras do mundo

Se ciência, iniciativa privada, produtores e políticas públicas caminharem na mesma direção, a transformação dos últimos 50 anos poderá ser apenas o 1º capítulo de uma história ainda maior

Por Tirso Meirelles – Estadão – 09/09/2026

Presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp)

O Brasil construiu, ao longo das últimas cinco décadas, uma das mais extraordinárias transformações da agricultura mundial. Um país que até os anos 1960 ainda dependia da importação de parte dos alimentos necessários ao abastecimento de sua população tornou-se uma potência agropecuária, referência em agricultura tropical e um dos grandes responsáveis pela segurança alimentar do planeta.

Essa mudança não aconteceu por acaso. Foi resultado da combinação entre ciência, pesquisa, empreendedorismo, crédito, mecanização, assistência técnica, melhoramento genético e, sobretudo, da capacidade do produtor rural brasileiro de incorporar conhecimento e transformar desafios em oportunidades.

Os números ajudam a dimensionar essa revolução. Entre 1975 e 2023, a produção brasileira de grãos saltou de 35,8 milhões para cerca de 259 milhões de toneladas, enquanto a produção de carnes passou de 2,9 milhões para 30,1 milhões de toneladas. A produção de leite cresceu de aproximadamente 7 bilhões para quase 35 bilhões de litros.

Em séries históricas da Embrapa, fica evidente que a expansão da produção ocorreu em velocidade muito superior à da área utilizada, demonstrando que o principal motor dessa transformação foi a produtividade. Foi a ciência brasileira que ajudou a corrigir solos, adaptar plantas e animais às condições tropicais, incorporar o Cerrado à produção e desenvolver sistemas produtivos cada vez mais eficientes.

Essa transformação também produziu um extraordinário efeito “poupa-terra”. Tecnologias desenvolvidas nas últimas décadas permitiram produzir muito mais sem que fosse necessário ampliar as áreas agrícolas na mesma proporção.

Somente no cultivo da soja, estudos da Embrapa indicam uma economia superior a 70 milhões de hectares em relação à área que seria necessária, caso permanecessem os níveis anteriores de produtividade. Esse é um patrimônio que precisa ser valorizado. O Brasil demonstrou que ciência, tecnologia e produção podem caminhar juntas e que produtividade é também uma poderosa ferramenta de sustentabilidade.

Mas o impacto do agro vai muito além da porteira. Quando o campo prospera, movimenta cidades inteiras. A produção rural demanda máquinas, fertilizantes, sementes, defensivos, equipamentos, tecnologia, crédito, seguros, transporte, armazenagem, assistência técnica, serviços veterinários, comércio e indústria.

Depois da colheita, outra extensa cadeia é acionada: cooperativas, agroindústrias, frigoríficos, usinas, transportadoras, portos, supermercados, restaurantes e empresas exportadoras. Por isso, o dinheiro gerado no campo circula pelas pequenas cidades, sustenta empregos nos centros regionais e chega também às grandes metrópoles. Estudos recentes mostram como o dinamismo do agronegócio vem impulsionando produtividade, renda, construção, comércio e serviços no interior brasileiro.

Essa capacidade ganha dimensão ainda maior diante dos desafios globais das próximas décadas. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) alerta que garantir segurança alimentar e nutrição para uma população mundial crescente exigirá profundas transformações nos sistemas agrícolas, nas economias rurais e na gestão dos recursos naturais.

Produzir alimentos suficientes não será o único desafio: será necessário produzir de maneira economicamente viável, socialmente inclusiva e ambientalmente sustentável, enfrentando simultaneamente mudanças climáticas, pressão sobre água e solo, desigualdade e desperdício. Nesse cenário, poucos países reúnem condições comparáveis às brasileiras para contribuir de maneira decisiva para a oferta mundial de alimentos.

É justamente por isso que precisamos começar a pensar na próxima transformação. O Brasil já conquistou a condição de grande celeiro do mundo. Agora precisa trabalhar para se tornar também o supermercado do planeta. Isso significa deixar de ser reconhecido apenas pelo volume de soja, milho, café, açúcar, algodão, celulose e proteínas que embarca nos portos e ampliar sua presença internacional com alimentos industrializados, produtos prontos para consumo, ingredientes sofisticados, bioprodutos e marcas brasileiras reconhecidas mundialmente.

Agregar valor deve ser uma prioridade nacional. Uma tonelada exportada como matéria-prima tem determinado valor; transformada em alimento processado, embalagem, marca, tecnologia e serviço, pode multiplicar a renda gerada no país. E cada etapa acrescentada à cadeia produtiva significa novas indústrias, empregos qualificados, arrecadação, inovação e oportunidades. O desafio não é reduzir nossa capacidade de exportar commodities — ela é estratégica e deve continuar crescendo —, mas utilizar essa extraordinária base produtiva para construir novas cadeias de valor dentro do Brasil.

Para isso, precisamos de uma verdadeira política de Estado de longo prazo para o agro, com horizonte de dez, vinte ou trinta anos. Crédito e seguro rural precisam oferecer previsibilidade. A infraestrutura deve acompanhar a capacidade produtiva do campo. Precisamos ampliar armazenagem, melhorar rodovias, acelerar ferrovias e hidrovias, modernizar portos e reduzir o custo logístico.

É necessário investir continuamente em defesa agropecuária, rastreabilidade, conectividade, irrigação, energia, pesquisa, inteligência artificial, agricultura de precisão e formação profissional. E, principalmente, garantir segurança jurídica para quem investe e produz.

Nesse contexto, a discussão sobre o fim da escala 6×1, que o senador David Alcolumbre deixou para ser votada após as eleições, precisa considerar as particularidades de setores essenciais e de funcionamento ininterrupto, como a agropecuária.

No campo, não é possível interromper a ordenha, deixar animais sem alimentação e manejo, suspender uma colheita no momento adequado ou simplesmente adiar atividades que dependem das condições climáticas. O Brasil já provou que sabe produzir.

Estudo apresentado pelo professor José Pastore apontou que mudanças na jornada podem provocar aumento médio de 9,1% nos custos das empresas; em outras análises da entidade, considerando cenários mais amplos de redução da carga horária, a elevação do custo da hora trabalhada pode chegar a 22%.

Na agropecuária, o impacto ganha dimensão ainda maior porque a produção não pode parar: estudo apresentado no âmbito do Ministério da Agricultura indica que a mudança de escala poderia elevar os gastos com mão de obra em 23,2% na pecuária leiteira, 19,8% no café, 12,1% na uva e 11,9% na laranja.

O desafio é conciliar a legítima busca por melhores condições de trabalho com a sustentabilidade econômica de quem produz, evitando que custos adicionais se transformem em redução de empregos, perda de competitividade, diminuição na oferta de produtos ou aumento dos preços dos alimentos. A responsabilidade de alimentar o planeta faz parte da nossa história. Agora é trabalhar para mostrar que ultrapassamos a porteira e ganhamos as gôndolas dos supermercados do mundo.

Também será fundamental abrir e diversificar mercados. Não basta vender mais; precisamos vender melhor. Isso significa negociar acordos comerciais, reduzir barreiras, conquistar novos mercados e desenvolver uma estratégia internacional para posicionar o alimento brasileiro como sinônimo de qualidade, segurança, sustentabilidade e inovação. O consumidor internacional precisa reconhecer não apenas a soja, o café, a carne ou o suco produzidos aqui, mas as marcas brasileiras que transformam essas matérias-primas em produtos de alto valor agregado.

Essa nova etapa precisa chegar especialmente aos pequenos e médios produtores. Tecnologia não pode ser privilégio de grandes propriedades. Assistência técnica, capacitação, gestão, cooperativismo, conectividade e acesso ao crédito são instrumentos fundamentais para que milhares de produtores possam participar dessa transformação.

O futuro do agro será cada vez mais digital, conectado e orientado por dados. Quem ficar distante dessa revolução correrá o risco de perder produtividade, competitividade e renda. Daí porque os centros de excelência que estamos construindo tornam-se vitais para essa conquista.

O mundo continuará precisando de mais alimentos. Mas também exigirá alimentos melhores, mais seguros, rastreáveis e produzidos com menor impacto ambiental. Essa equação coloca sobre o Brasil uma responsabilidade histórica e, ao mesmo tempo, uma oportunidade extraordinária.

Temos terra agricultável, água, clima, biodiversidade, conhecimento científico, produtores experientes, agroindústria, capacidade empresarial e uma agricultura tropical desenvolvida ao longo de décadas. Poucos países possuem tantos ativos reunidos.

Nos últimos 50 anos, mostramos que era possível transformar solos considerados pouco produtivos em algumas das regiões agrícolas mais eficientes do planeta. Transformamos conhecimento em produtividade e produtividade em segurança alimentar.

Saímos da condição de importadores para ocupar posição central no comércio mundial de alimentos. A próxima fronteira é transformar essa força produtiva em ainda mais desenvolvimento dentro do Brasil.

Ser o celeiro do mundo é motivo de orgulho. Significa produzir em escala, com competência e capacidade para abastecer bilhões de pessoas. Mas podemos ir além. O Brasil precisa ser o país que planta e colhe, mas também aquele que transforma, industrializa, embala, cria marcas, desenvolve tecnologia e entrega diretamente ao consumidor global. 

Precisamos deixar de vender apenas aquilo que sai da terra e ampliar a participação no valor daquilo que chega à mesa.

Temos todas as condições para isso. Se ciência, iniciativa privada, produtores e políticas públicas caminharem na mesma direção, a transformação que fizemos nos últimos 50 anos poderá ser apenas o primeiro capítulo de uma história ainda maior

Muito além das commodities: o agro nacional rumo às prateleiras do mundo – Estadão 

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Com novos projetos, oferta de gás natural no país saltará 50%, mas especialistas afirmam que será preciso estimular consumo

Expectativa é que o volume atinja 87 milhões de metros cúbicos por dia em 2035

Por Bruno Rosa – O Globo – 08/09/2026

O projeto Raia, da Equinor: a infraestrutura submarina será conectada ao terminal de processamento e distribuição de Cabiúnas, em Macaé — Foto: Equinor/Divulgação

A Equinor já concluiu a instalação de mais de 200 quilômetros do trecho em águas ultraprofundas do gasoduto de escoamento de gás natural do projeto Raia, que reúne diferentes campos no pré-sal da Bacia de Campos e tem Repsol Sinopec e Petrobras como sócias.

Em Macaé (RJ), a companhia norueguesa está na reta final para conectar a infraestrutura submarina ao terminal de processamento e distribuição de Cabiúnas. E no Nordeste, a estatal brasileira, que já aprovou o projeto para construir duas plataformas para explorar gás no litoral de Sergipe-Alagoas, iniciou as licitações para os primeiros equipamentos submarinos.

Com isso, o setor de gás natural no Brasil terá um aumento de 50% da oferta firme na próxima década. Dados compilados pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e pelo Ministério de Minas e Energia (MME) apontam que o volume passará de 58 milhões de metros cúbicos por dia para 87 milhões de metros cúbicos por dia entre 2026 e 2035.

Buscar novos mercados

Especialistas e empresas, no entanto, veem desafios, pois faltam iniciativas para estimular a demanda, já que as indústrias ainda preferem usar uma opção mais barata, como o coque, produzido a partir do carvão mineral.

— Temos dois grandes projetos que ancoram a expectativa de aumento de oferta com Raia em 2028 e Sergipe-Alagoas a partir de 2031. Se somados, serão 35 milhões de metros cúbicos por dia. É bastante gás e é um Brasil-Bolívia (em referência ao gasoduto) por muitos anos — avalia Rivaldo Moreira Neto, sócio-diretor da consultoria A&M Infra. — E como a demanda não cresce há duas décadas, esses dois projetos já criam uma condição de excedente, o que vai gerar desafios no setor. As empresas vão precisar buscar novos mercados e ir além da venda para as distribuidoras.

Do lado da oferta, o projeto Raia entrará em operação em 2028 com capacidade para produzir até 16 milhões de metros cúbicos de gás por dia. Com investimentos de US$ 9 bilhões (cerca de R$ 45 bilhões), fornecerá 15% da demanda total pelo insumo no Brasil. Pela primeira vez no país, o gás será tratado em alto-mar e entregue diretamente ao sistema de transporte, sem a necessidade de uma planta de processamento em terra.

A Equinor deu início a uma força-tarefa para vender esse gás, criando um portfólio de contratos. Já selou acordo de dez anos com a Comgás, começando com 50 mil metros cúbicos por dia e aumentando gradualmente até um pico de 1 milhão de metros cúbicos por dia.

— O desenvolvimento do mercado de gás natural no Brasil tem avançado de forma relevante nos últimos anos, especialmente com a abertura gradual do mercado, maior competição entre agentes e a migração de consumidores para o ambiente livre. A Nova Lei do Gás e as medidas voltadas à ampliação da concorrência são marcos importantes — disse Claudia Brun, vice-presidente de Estratégia e Desenvolvimento de Negócios da Equinor no Brasil.

A Petrobras prevê destinar US$ 11 bilhões (cerca de R$ 60 bilhões) para produzir gás em Sergipe-Alagoas a partir de 2031 em diversos campos com a IBV Brasil Petróleo e a ONGC Campos. As duas plataformas terão capacidade para processar 22 milhões de metros cúbicos por dia e escoar o produto por um gasoduto de 134 km de extensão a partir de 32 poços.

Além disso, a estatal faz a revitalização de Albacora, na Bacia de Campos, que prevê um FPSO com capacidade de produção de até 4,3 milhões de metros cúbicos por dia, com início previsto também para 2031. Há ainda a Rota 3, gasoduto que conecta os campos do pré-sal ao Complexo de Energias Boaventura (antigo Comperj), em Itaboraí, com capacidade para escoar até 18 milhões de metros cúbicos por dia.

Produção de fertilizantes na mira

O aumento na produção de gás ajudará a Petrobras a acelerar seus projetos de fertilizantes — o Brasil atualmente importa cerca de 85% de seu consumo. O gás natural será usado como matéria-prima para produzir amônia, base para a fabricação de ureia, um dos fertilizantes nitrogenados mais utilizados na agricultura.

Para isso, a estatal retomou as obras da unidade de Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul, com investimentos de R$ 5 bilhões, prevista para entrar em operação em 2029.

Em nota, a Petrobras explicou que nos últimos anos vem buscando ampliar o volume de clientes industriais que operam no mercado livre e atuam em setores como siderúrgico, metalúrgico, papel e celulose, cerâmico, entre outros.

“Criamos condições comerciais com diferentes prazos contratuais, diferentes indexadores, preços competitivos, aliados a prêmios para consumos incrementais”, informou.

— O excedente de oferta de gás no Brasil só vai ser resolvido com a busca por mais demanda. Temos o setor de fertilizantes e o uso do gás para produzir metanol, que pode ser utilizado na indústria química e como matéria-prima para o biodiesel. A demanda no Brasil está estacionada há mais de 15 anos. E isso não acontece porque o preço é alto. É preciso pensar em novas soluções — afirma Edmar Almeida, do Instituto de Economia da PUC-RJ.

A concentração no setor foi reduzida na última década, com o estímulo das mudanças no ambiente regulatório por meio dos programas Gás para Crescer (2016), Novo Mercado de Gás (2019) e Gás para Empregar (2023), que levaram a um número maior de empresas vendendo e produzindo gás.

A Shell, que responde por 12% da produção offshore de gás natural no país, investe no projeto Orca, no pré-sal da Bacia de Santos, em parceria com Ecopetrol e Kufpec.

— Em cinco anos, saímos de um modelo concentrado para um ambiente com mais agentes, mais contratos e competição real começando a acontecer — diz Rodrigo Soares, presidente da Shell Energy Brasil.

Ampliar o acesso para novos consumidores

A PetroReconcavo também trabalha em diversas frentes para ampliar sua capacidade de oferta de gás. No Rio Grande do Norte, comprou ativos, reforçou a capacidade de processamento e escoamento e implantou a primeira unidade de liquefação e compressão de gás, com capacidade de até 100 mil metros cúbicos por dia.

O objetivo é criar alternativas de comercialização para mercados fora da malha tradicional de gasodutos, diz João Vitor Moreira, vice-presidente de Operações da empresa:

— O desafio não é apenas ampliar a oferta, mas criar condições para que mais consumidores tenham acesso ao gás natural de forma competitiva. Vemos oportunidades principalmente em segmentos industriais intensivos em energia.

Segundo a EPE, o desafio é transformar o aumento da oferta potencial em demanda efetiva, com preço competitivo e infraestrutura capaz de levar a molécula até os consumidores. A Prio, que em março deste ano colocou em operação o campo de Wahoo, no pré-sal da Bacia de Campos, viu sua produção de gás chegar a 1 milhão de metros cúbicos por dia na região, quando se consideram também os campos de Frade e Albacora Leste.

— A produção de gás também está relacionada ao nosso avanço na venda direta do insumo. Iniciamos essa frente com a comercialização do gás com a entrada de Wahoo, pois passamos a contar com uma oferta em escala maior, ampliando nossa atuação nesse mercado — explica Gustavo Hooper, diretor de Trading & Shipping da Prio, acrescentando que Wahoo teve investimentos de US$ 850 milhões.

Redução de preços é essencial, dizem especialistas

Apesar da maior concorrência nos últimos anos, como o avanço do mercado livre, o governo colocou em consulta pública um programa de gas release, que prevê maior restrição à compra de gás pela Petrobras, a fim de reduzir a concentração do setor. Na mesa há possibilidade de a estatal não renovar os contratos atuais de compra da molécula ou fazer leilões desses contratos para outras empresas.

Com isso, a expectativa do governo é que o preço atual passe de cerca de US$ 12 por milhão de BTUs (a unidade internacional do gás) para US$ 5. Especialistas, porém, não esperam uma queda de preços nessa proporção.

— Você pode até ter um efeito no preço, mas não será no curto prazo. Tivemos diversos programas nos últimos anos, e o preço não caiu — diz Edmar Almeida, do Instituto de Economia da PUC-RJ.

Para Décio Oddone, ex-diretor-geral da ANP, a redução estrutural dos preços passa pela ampliação da disponibilidade da molécula no mercado:

— Enquanto não houver o enfrentamento do controle da molécula, não vai acontecer. Fico feliz de ver essas medidas que estão vindo aí — disse Oddone em evento da Abrace Energia no fim de agosto. — A maior dificuldade que tive como regulador, e qualquer regulador tem, é tentar regular um agente dominante mais poderoso que você.

A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, tem criticado o gas release. Recentemente, ela afirmou que “mudar o gás de mãos não vai reduzir o preço”:

— A Petrobras tem reiteradamente investido para aumentar a produção de gás do país, e são esses investimentos os únicos capazes de reduzir o preço do gás.

Em outra frente, especialistas lembram que o primeiro leilão de gás da União ajudará a estimular a demanda pelo insumo. Em agosto, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) publicou uma resolução que estabelece mecanismos para a comercialização do gás natural da União.

O primeiro leilão deve ocorrer entre outubro e novembro deste ano, com início da comercialização em março de 2027, segundo o diretor de Finanças e Comercialização da PPSA, Samir Passos Awad. A estimativa para o certame é de pouco mais de 1 milhão de metros cúbicos por dia. Em um segundo leilão, no ano que vem, o volume poderá chegar a cerca de 2 milhões de metros cúbicos diários.

Rivaldo Moreira Neto, sócio-diretor da consultoria A&M Infra, ressalta que, para criar demanda, o leilão terá de oferecer preços mais baixos:

— Esse gás não pode ser para a demanda que já existe. O desafio é buscar justamente novos consumidores. Ou é isso ou é nada.

Com novos projetos, oferta de gás natural no país saltará 50%, mas especialistas afirmam que será preciso estimular consumo 

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