Um dos países mais ricos do mundo tributa milionários há 100 anos — e segue atraindo fortunas

Modelo suíço aposta em alíquotas reduzidas sobre grandes patrimônios, enquanto propostas de impostos mais altos nos EUA provocam resistência entre bilionários

Por Jason Ma – Estadão – 01/11/2026

A Suíça é conhecida há muito tempo como um refúgio para grandes fortunas, com contas em bancos suíços atraindo dinheiro de pessoas ricas de todo o mundo.

Considerando o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, o país é o quarto mais rico do mundo, com US$ 126.177 por habitante, atrás apenas de Liechtenstein, Luxemburgo e Irlanda. No caso irlandês, os indicadores econômicos são inflados pela presença de multinacionais que estabelecem suas sedes no país em busca de vantagens tributárias.

Isso ocorre apesar de os cantões suíços, divisões administrativas semelhantes aos estados brasileiros, cobrarem impostos sobre o patrimônio há mais de um século. Segundo Warren Gorlick, ex-assessor de políticas públicas do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, o segredo para a Suíça continuar atraindo grandes fortunas, mesmo tributando o patrimônio, está nas alíquotas reduzidas.

Em um artigo de opinião publicado no jornal americano The Washington Post na semana passada, Gorlick destacou que os impostos suíços sobre o patrimônio não afastaram os ricos. Na verdade, o número de adultos com patrimônio entre US$ 5 milhões e US$ 10 milhões cresceu 7,4% ao ano entre 2000 e 2025.

Embora cada cantão estabeleça sua própria alíquota, mesmo as mais elevadas são modestas em comparação com as propostas em discussão nos Estados Unidos, onde a tributação sobre grandes fortunas ganhou força política recentemente.

Em Zurique, por exemplo, um casal com patrimônio líquido de US$ 2,5 milhões paga uma alíquota efetiva de apenas 0,24%, o equivalente a cerca de US$ 6 mil por ano, segundo Gorlick. Para alguém com patrimônio líquido de US$ 1 bilhão, a alíquota efetiva é de 0,7%, ou US$ 7 milhões anuais.

Em contrapartida, a Proposta 40 (Proposition 40), iniciativa que será submetida à votação popular na Califórnia, prevê que residentes com patrimônio superior a US$ 1 bilhão paguem um imposto único equivalente a 5% de seus bens.

As pesquisas indicam uma disputa equilibrada, mas a Proposta 40 já levou algumas das pessoas mais ricas da Califórnia a deixar o Estado. Entre eles está Sergey Brin, cofundador do Google, que se mudou para Nevada e destinou mais de US$ 100 milhões à campanha contrária ao imposto sobre bilionários.

Travis Kalanick, cofundador do Uber, também confirmou que deixou a Califórnia e se mudou para o Texas.

Os defensores da Proposta 40 apontam para o avanço da inteligência artificial (IA) e argumentam que os ultrarricos da Califórnia continuariam entre as pessoas mais ricas do mundo.

Já os críticos alertam que dificilmente a cobrança seria feita uma única vez e que alguns fundadores de startups poderiam ser obrigados a vender suas participações de controle nas empresas para pagar o imposto, devido à forma como a proposta calcula o valor dos ativos.

Mesmo que a Proposta 40 seja rejeitada, a ideia de tributar grandes fortunas deve continuar em discussão. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, apontado por muitos como um possível candidato à Presidência dos Estados Unidos em um futuro não muito distante, é contrário à Proposta 40, mas defende a criação de um imposto nacional sobre grandes fortunas.

A senadora Elizabeth Warren propôs uma alíquota de 2% sobre a parcela do patrimônio que ultrapassar US$ 50 milhões e de 3% sobre valores superiores a US$ 1 bilhão.

Já o senador Bernie Sanders e o deputado Ro Khanna apresentaram um projeto de lei que prevê uma tributação de 5% sobre o patrimônio dos bilionários. Até mesmo Scott Kirby, CEO da United Airlines, afirmou que os Estados Unidos deveriam adotar um imposto nacional sobre grandes fortunas.

Enquanto isso, um grupo de economistas vencedores do Prêmio Nobel que apoiam a Proposta 40 afirmou que a medida poderia “dar início a um movimento” capaz de se espalhar para outros estados e países.

Gorlick, ex-assessor do Tesouro americano, observou que nem todo patrimônio gera renda regularmente. Isso significa que um imposto de 5% sobre ativos avaliados em US$ 1 bilhão resultaria em uma cobrança de US$ 50 milhões, que poderia exigir a venda de parte dos investimentos para quitar o valor.

“Poucas pessoas terão muita simpatia pelos problemas tributários de um bilionário. Mas um imposto sobre o patrimônio que parte do pressuposto de que o capital pode ser tributado indefinidamente a uma alíquota elevada é um imposto que, no fim das contas, não será pago, porque o patrimônio — ou seu proprietário — simplesmente terá desaparecido”, escreveu.

Em vez das alíquotas propostas por Warren, Gorlick argumentou que os Estados Unidos deveriam considerar um imposto sobre grandes fortunas inspirado no modelo suíço.

Uma alíquota máxima hipotética de 0,5% sobre um patrimônio de US$ 1 bilhão exigiria o pagamento de US$ 5 milhões por ano ao IRS, órgão equivalente à Receita Federal nos Estados Unidos, um valor que, na avaliação dele, dificilmente levaria bilionários a deixar o país.

Segundo suas estimativas, a aplicação de uma alíquota de 0,5% sobre o patrimônio do 1% mais rico das famílias dos Estados Unidos poderia gerar facilmente uma arrecadação de US$ 200 bilhões por ano.

É claro que esse valor representa apenas uma pequena parcela da dívida pública americana, de US$ 40 trilhões, ou mesmo dos US$ 7,4 trilhões gastos pelo governo federal no ano fiscal de 2026.

Ainda assim, um imposto sobre grandes fortunas poderia gerar uma arrecadação significativa sem a necessidade de elevar os impostos sobre a renda, afirmou Gorlick.

A discussão ocorre em um momento em que o governo federal planeja aumentar os gastos com defesa e enfrenta a perspectiva de esgotamento das reservas do fundo fiduciário que financia os benefícios de aposentadoria da Previdência Social americana (Social Security) dentro de seis anos.

“Um imposto modesto sobre o patrimônio não resolverá, por si só, o déficit anual de US$ 2 trilhões dos Estados Unidos”, reconheceu. “Mas representaria uma contribuição inicial significativa para enfrentar o desequilíbrio fiscal americano — uma medida que poderia conquistar o apoio dos dois lados do espectro político.”

Esta história foi originalmente apresentada em Fortune.com e foi traduzida com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial e revisada por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.

Suíça tributa milionários há mais de 100 anos e continua atraindo ricos – Estadão

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O Novo Gargalo da IA é o Crédito

A infraestrutura de IA é, provavelmente, o maior ciclo de construção privada desde as telecomunicações dos anos 2000. Centenas de bilhões de dólares estão sendo comprometidos com projetos que levam anos para ficar prontos. Leia em Entrelinhas
O Novo Gargalo da IA é o CréditoCom o crédito mais caro e seletivo, a expansão da IA enfrenta um novo gargalo: provar que os investimentos serão pagos.

Junior Bornelli – Entrelinhas – 30/10/2026

Durante três anos, parecia que o limite para a expansão da inteligência artificial seria físico. Faltava energia. Faltavam terrenos. Faltava conexão à rede elétrica. Faltava capacidade para construir data centers na velocidade que a demanda exigia. Esses problemas continuam existindo, mas agora um segundo obstáculo começa a aparecer: o dinheiro necessário para financiar tudo isso está ficando mais caro e mais difícil de encontrar.
Nesse sentido, a Bloomberg conversou com mais de 30 banqueiros, gestores e participantes do mercado que financiam data centers. Todos disseram que captar recursos ficou significativamente mais difícil em poucos meses, uma vez que foi constatado que pelo menos 18 financiamentos do setor já carregam juros de dois dígitos consigo. Um banco europeu afirmou estar perto do limite de quanto pode emprestar ao setor. Algumas seguradoras que dividem esses riscos indicaram ter alcançado seus limites de exposição. O dinheiro não secou. Mas as condições para acessá-lo mudaram.Isso não deveria surpreender. A infraestrutura de IA é, provavelmente, o maior ciclo de construção privada desde as telecomunicações dos anos 2000. Centenas de bilhões de dólares estão sendo comprometidos com projetos que levam anos para ficar prontos, que dependem de contratos com clientes específicos e cujas receitas precisam materializar-se no futuro para justificar os custos assumidos no presente. Até recentemente, a presença de uma grande empresa de tecnologia como inquilina bastava para tranquilizar os credores: se a Microsoft, a Amazon ou o Google assinaram o contrato, o risco parecia gerenciável.Contudo, o caso da Oracle no Novo México mostrou que essa confiança tem limites. A empresa enviou um aviso de força maior para preservar sua posição diante de possíveis atrasos na construção de um data center. A Oracle e a Blue Owl, responsável pelo desenvolvimento do projeto, afirmaram que o aviso não comprovou atrasos nem alterou compromissos financeiros. Ainda assim, o episódio obrigou os credores a olhar com mais atenção para cláusulas que antes pareciam detalhes jurídicos. Se o financiamento depende de um grande inquilino, quanto vale esse compromisso quando a obra não fica pronta no prazo previsto? Alguns contratos permitem que o cliente adie pagamentos ou saia do acordo se o atraso superar três ou seis meses. Para o credor, isso muda a natureza do risco, pois a presença de uma empresa poderosa ajuda, mas não elimina a possibilidade de que uma obra atrasada enfraqueça a garantia que parecia sustentar o projeto inteiro.É nesse ponto que o gargalo físico e o financeiro, atualmente inerentes ao setor, se encontram e se alimentam. Um data center pode ter sido planejado, financiado e contratado. Mas se a obra atrasa porque falta uma subestação de energia ou uma conexão de fibra óptica, o cronograma muda. Quando o cronograma muda, o contrato pode permitir que o cliente renegocie. Quando o cliente renegocia, a receita esperada diminui. Quando a receita esperada diminui, o credor percebe mais risco. E quando percebe mais risco, cobra juros maiores, tornando o projeto que já estava em dificuldade ainda mais caro de financiar. Economistas chamam esse mecanismo de acelerador financeiro, demonstrando que condições de crédito mais restritivas podem amplificar uma dificuldade que, sozinha, seria administrável.Essa dinâmica tem um paralelo histórico que ajuda a enxergar o que está em jogo. Na década de 1840, a Grã-Bretanha viveu uma febre ferroviária. A necessidade era concreta: os trilhos prometiam transportar pessoas e mercadorias com velocidade e eficiência que nenhum outro meio conseguia. Diante disso, o entusiasmo sobre o investimento atraiu capital, preconizando o fato de que, entre 1843 e 1845, o número de ações ferroviárias listadas em Londres aproximadamente triplicou. Uma estimativa da época calculou que as linhas propostas exigiriam cerca de 590 milhões de libras, ou seja, mais que o PIB britânico do período.Todavia, o processo foi cercado de problemas, não de tecnologia, afinal, a ferrovia funcionava. A demanda existia. O problema foi que o mercado financeiro não tinha condições de financiar, ao mesmo tempo, todos os projetos que pareciam promissores. Assim, quando cresceram as dúvidas sobre essa capacidade, o crédito apertou, as ações caíram e a crise de 1847 varreu parte dos projetos. Seria errado atribuí-la apenas às ferrovias, pois a crise teve outras causas, incluindo problemas na colheita e tensões bancárias. Mas o episódio mostra como uma infraestrutura genuinamente necessária pode esbarrar na limitação mais prosaica de todas, que é a quantidade de dinheiro disponível para construí-la de uma vez.A IA está percorrendo um caminho que guarda semelhanças incômodas com esse padrão. Sua tecnologia funciona. A demanda existe. As maiores empresas do mundo querem mais capacidade computacional. Mas a escala dos projetos anunciados exige um volume de financiamento que começa a testar a disposição dos credores. E quando os credores hesitam, a questão deixa de ser “quem quer construir” e passa a ser “quem consegue financiar”.Nessa reorganização, as maiores empresas de tecnologia continuam, por sua credibilidade construída, em uma posição mais confortável, uma vez que balanços robustos, relações comerciais consolidadas e capacidade de captar dinheiro em condições que empresas menores não alcançam não são problemas. Já quem aluga GPUs e capacidade computacional sem a escala das big techs pode encontrar obstáculos crescentes. Algumas precisarão recorrer a emissões de ações, diluindo a participação dos acionistas. Outras dependerão de garantias oferecidas por clientes, fornecedores ou parceiros, o que funciona quando tudo corre bem, mas cria camadas adicionais de interdependência quando algo sai do plano.O risco, aliás, está mudando de mãos de uma forma que merece atenção. Bancos, usualmente, dividem exposição com seguradoras. Seguradoras dividem com fundos. Fundos dividem com investidores em títulos. E fabricantes de chips também entram nessa cadeia: a Broadcom ofereceu proteção contra desvalorização de equipamentos em uma operação de 63 bilhões de dólares para financiar chips destinados à Anthropic. A garantia viabiliza o projeto, mas aproxima o risco do fabricante que vende a infraestrutura e do cliente que precisa financiá-la. Quanto mais participantes dividem o risco, mais difícil se torna identificar quem está realmente exposto quando algo dá errado.

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Etanol de milho cresce e desafio é ser sustentável

Mercado externo deve exigir maior controle de toda a cadeia, especialmente para uso em navios e aviões

Mario Camera – Valor – 29/10/2026

A expansão do etanol de milho trouxe consigo preocupações ambientais e sociais. Na Europa, o movimento “food or fuel” (comida ou combustível, em inglês) questiona o uso da terra para a produção do biocombustível – inclusive o avanço sobre áreas de floresta -, enquanto no Brasil há o temor da utilização de lenha proveniente do desmatamento ilegal para abastecer caldeiras de usinas.

Em maio, a eurodeputada dinamarquesa Sigfriid Friis voltou a questionar o cultivo de grãos para abastecer veículos um mês após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em visita à Alemanha, rebater o que chamou de “mitos” sobre os biocombustíveis brasileiros. “Ninguém come biodiesel, ninguém come gasolina. As pessoas comem comida.”

Por outro lado, a ex-presidente da Irlanda Mary Robinson contestou as críticas europeias durante o Global Agribusiness Festival, realizado em outubro, em São Paulo. Para ela, a resistência tem motivações políticas e comerciais, ou seja, são concorrenciais. “É apenas política. Simples assim”, declarou ao The AgriBiz.

Analistas destacam que, diferentemente da Europa, o Brasil produz duas safras por ano, reduzindo a competição por terra e por área para a produção de alimentos. O etanol do cereal utiliza especialmente o milho safrinha, geralmente plantado após a colheita da soja, na mesma área. Além disso, o biocombustível tem como subproduto uma insumo para a pecuária: o DDG, farelo rico em proteínas que sobra do processamento do milho e alimenta o gado. Seu uso permite criar mais animais em menos espaço, diminuindo a necessidade de pastagem.

Para Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global, o modelo brasileiro mostra que as duas atividades podem crescer juntas, graças à integração entre agricultura e pecuária e ao aproveitamento da segunda safra. A produção de soja e milho aumentou juntamente com a de etanol, sem exigir uma expansão proporcional das áreas cultivadas, destaca.

A produção brasileira de grãos deve alcançar 367,1 milhões de toneladas na safra 2026/27, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Um dos principais motores desse crescimento será o milho, cuja colheita deve chegar a 148 milhões de toneladas, 2,4% acima da safra anterior, estimulado pela indústria do etanol, que em menos de uma década abriu novas oportunidades para agricultores.

A produção brasileira de etanol de milho deu um salto a partir de 2017, com a inauguração da primeira usina dedicada exclusivamente ao cereal, em Lucas do do Rio Verde (MT). Em menos de dez anos, chegou a cerca de 10 bilhões de litros e deve responder por quase 30% de todo o etanol fabricado no país nesta safra, projeta a Conab. No mesmo período, a produção de milho safrinha deverá ter crescido quase 70%, também segundo a companhia.

Uma das vantagens dessa indústria é sua proximidade com a matéria-prima, o que pode ter contribuído para reduzir perdas no transporte do grão. A FS, segunda maior produtora de etanol de milho do país e pioneira no setor, nasceu após empresários americanos ficarem surpresos ao ver, durante visita a lavouras de Mato Grosso em 2011, parte da produção local do cereal apodrecendo à beira das estradas.

“O milho valia um terço do que custava o frete para levar para Santos”, conta Rafael Abud, presidente da empresa, ao explicar que uma saca chegava a valer até R$ 8, enquanto o transporte custava R$ 25. O governo federal precisava subsidiar o frete para ajudar os produtores.

Para os investidores, acostumados a produzir etanol de milho nos EUA, fazia sentido instalar usinas perto das lavouras e transformar aquele excedente em combustível. Hoje já são 29 biorrefinarias em operação e quase 30 novos projetos, entre autorizados e previstos, pelo levantamento da União Nacional do Etanol de Milho. Algumas das novas usinas inclusive podem operar tanto com cana quanto com milho, garantindo produção o ano todo.

Ampliar loucamente a produção de etanol de milho e não saber qual é a demanda pode ser um risco”

— Marcos Jank

Mato Grosso concentra a maior parte da atividade, seguido por Mato Grosso do Sul. Em apenas duas safras, a quantidade de milho processada pelas usinas cresceu quase 70%, calcula o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). A Datagro estima que a produção alcance 11,8 bilhões de litros de etanol na safra 2026/27. A indústria também ampliou a oferta de ingredientes para alimentação animal (além do DDG), aproveitando uma parte do grão que não é transformada em combustível.

Para 2033/34, a Unem projeta uma produção de 16,63 bilhões de litros, mas esse salto dependerá da novas usinas e mais compradores – o setor aposta em mercados como navegação e a aviação. Em outubro, a Maersk, gigante mundial da logística, abasteceu um navio com bioetanol em Singapura, na maior operação desse tipo já realizada. O porto de Santos (SP), após operação-piloto realizada em julho, anunciou na semana passada que fará o abastecimento regular de navios com etanol. A Autoridade Portuária de Santos informou que 159 embarcações já podem usar o biocombustível e outras 450 devem ser entregues até 2030.

A adoção do biocombustível, porém, ainda depende de fatores como custo de produção e regras internacionais de redução de emissões do transporte marítimo. Na aviação, o etanol pode ser utilizado na produção de combustível sustentável (SAF), mas o preço ainda elevado em relação ao querosene convencional dificulta sua expansão.

Em Paulínia (SP), a JetBio, ligada ao grupo controlador da FS, planeja produzir renováveis a partir do etanol em um projeto que prevê investimentos de US$ 2 bilhões e capacidade de processamento de até 1,8 bilhão de litros por ano. “Essa refinaria vai poder fazer 100% SAF ou 100% diesel renovável a partir do etanol”, diz Abud. A decisão sobre o investimento está prevista para 2027.

Jank avalia que o país pode ampliar a sua produção, mas teme que os investimentos avancem sem que se saiba quanto os novos mercados serão capazes de consumir. “Ampliar loucamente a produção de etanol de milho e não saber qual é a demanda pode ser um risco.”

A entrada em mercados internacionais também poderá exigir maior controle sobre a origem do milho e as emissões associadas à sua produção. Na aviação, as regras sustentáveis consideram toda a cadeia, do cultivo da matéria-prima ao consumo final, incluindo possíveis mudanças no uso da terra. Alice Thuault, diretora executiva do Instituto Centro de Vida (ICV), lembra que o Brasil dispõe de instrumentos para monitorar o desmatamento, mas ainda faltam acordos entre os setores envolvidos e acesso a informações sobre a regularidade ambiental dos fornecedores.

O Ministério Público do Estado de Mato Grosso investiga a possível derrubada de mata para abastecer caldeiras de usinas. A Associação dos Reflorestadores de Mato Grosso afirma que mais da metade da lenha consumida pelo setor vem de vegetação nativa, vendida por até metade do preço do eucalipto plantado. Para Jank, essa dependência compromete a proposta ambiental do combustível. “É um enorme contrassenso você derrubar a floresta para fazer biocombustível”, afirma.

Relatório do Itaú BBA destaca que o abastecimento das fornalhas das usinas poderá exigir cerca de 440 mil hectares de eucalipto plantados até o fim de 2026. Essa área poderá quase dobrar até 2030, caso a indústria dependa exclusivamente dessa fonte de biomassa.

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/10/29/etanol-de-milho-cresce-e-desafio-e-ser-sustentavel.ghtml

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Brasil tem vantagem para operar data centers verdes

Infraestrutura física precisa de energia, e 90% da eletricidade brasileira é gerada por fontes renováveis

Renan Lima Alves, Luis Tossi e Leonardo Santos – O Globo – 23/10/2026

Quando fazemos um Pix, pagamos uma compra com cartão, chamamos um carro por aplicativo ou assistimos a uma série, colocamos em movimento uma extensa infraestrutura digital. São milhões de operações cotidianas que dependem da geração, transmissão, armazenamento e processamento de dados. É essa engrenagem que sustenta a nova economia digital, movida a dados. Embora falemos em “nuvem”, a infraestrutura é física. As informações são processadas em data centers que funcionam 24 horas por dia e demandam uma capacidade computacional sem precedentes.

Essa infraestrutura necessita de energia, e é aí que o Brasil possui vantagens únicas. Aproximadamente 90% da eletricidade brasileira é gerada por fontes renováveis. Em outros grandes mercados, como os Estados Unidos, as fontes renováveis representam cerca de 25% da geração elétrica. Enquanto outras economias precisam descarbonizar sua infraestrutura digital, o Brasil já oferece capacidade computacional com baixa emissão de carbono.

Para aproveitar essa oportunidade, precisamos corrigir uma percepção equivocada: a ideia de que data centers necessariamente consomem grandes volumes de água para refrigerar suas máquinas. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Data Center (ABDC), mais de 95% dos data centers em operação no país usam soluções que dispensam o consumo contínuo de água na refrigeração. Na maior parte dessas instalações, o resfriamento é feito a ar ou por sistemas de circuito fechado. A comparação mais simples é com o radiador de um automóvel: o sistema é preenchido inicialmente, e o fluido circula continuamente para transportar o calor. Circulação de água não significa consumo de água.

Essa característica não surgiu por acaso. Durante a primeira grande expansão do setor, entre 2010 e 2014, o Sudeste enfrentou uma grave crise hídrica. A insegurança no abastecimento levou operadores e projetistas a adotar sistemas capazes de funcionar sem depender do consumo contínuo de água, elevando o custo por demandarem mais energia para funcionar.

Essa limitação transformou-se em vantagem competitiva. Estudo da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e de Tecnologias Digitais — com apoio da ABDC e revisão técnica da Fundação Apolônio Salles de Desenvolvimento Educacional — estimou que o setor respondeu por apenas 0,003% do consumo de água do Brasil em 2022.

Isso não dispensa planejamento, licenciamento ambiental ou fiscalização. Na verdade, aponta para a necessidade de o debate público considerar as tecnologias efetivamente empregadas no país, sem importar automaticamente problemas de outros mercados.

A aprovação do Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center permite que a inteligência artificial abra uma nova fronteira para o Brasil. O treinamento de modelos, as análises maciças e outras cargas computacionais não precisam estar próximas do usuário final. Podem ser processadas onde houver energia renovável, conectividade, capacidade técnica e segurança jurídica.

O Brasil entra num seleto grupo de países capazes de ofertar capacidade computacional, transformando energia renovável em serviços digitais de alto valor agregado. A ABDC estima em até R$ 1,58 trilhão o potencial de investimentos diretos até 2030. Essa expansão movimenta construção civil, engenharia, energia, telecomunicações, equipamentos, pesquisa, inovação e formação profissional.

O país acaba de dar um passo para ser um dos grandes fornecedores mundiais de infraestrutura digital sustentável.

Brasil tem vantagem para operar data centers verdes

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Crescimento surpreendente do comércio global, com boom de IA, mascara problemas, diz diretora-geral da OMC

No início do mês, a OMC praticamente dobrou projeção de crescimento do comércio exterior este ano, para uma alta de 3,9%, ante a estimativa anterior de avanço de 1,9%. A de 2027 passou para 4,1%, acima dos 2,6% previstos antes

Por Vinicius Neder – O Globo – 28/10/2026

O boom de investimentos em data centers, puxados pela inteligência artificial (IA), vem impulsionando exportações e importações, mas, dessa forma, está mascarando os desafios que o sistema multilateral enfrenta, os maiores em seus 80 anos de existência, afirmou nesta terça-feira a diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala.

No início do mês, a OMC praticamente dobrou sua projeção de crescimento do comércio exterior este ano, para uma alta de 3,9%, ante a estimativa anterior de avanço de 1,9%. Já a projeção de crescimento de 2027 passou para 4,1%, acima dos 2,6% previstos antes, segundo o relatório Perspectivas e Estatísticas do Comércio Global, divulgado no último dia 8.

A surpresa veio do fato de que as estimativas anteriores da OMC estavam marcadas pela guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, deflagrada em março. O conflito atingiu em cheio o comércio de petróleo e combustíveis, já que 20% do transporte da matéria-prima passava pelo Estreito de Ormuz, que acabou fechado por ataques da reação iraniana.

Por um lado, exportações e importações de petróleo não caíram tanto no agregado mundial, porque houve um aumento de vendas de fornecedores de fora do Oriente Médio, como o Brasil. Por outro, o comércio de componentes usados em data centers — como servidores, semicondutores e placas de memória — seguiu de vento em popa, puxando a alta de 3,5% nas trocas de mercadorias no primeiro semestre do ano, já superando as expectativas.

— Acho que o crescimento está mascarando um pouco os desafios nos outros setores. Desse modo, os problemas decorrentes das tarifas (o tarifaço aplicado pelo presidente dos EUA, Donald Trump), das guerras no Mar Negro (entre a Rússia e a Ucrânia, após a invasão russa, iniciada em fevereiro de 2022) ou no Estreito de Ormuz estão sendo mascarados por essa tendência muito positiva da IA — disse Okonjo-Iweala, numa entrevista a jornalistas na sede da OMC, em Genebra.

Segundo o relatório do início do mês da OMC, bens usados na infraestrutura de IA responderam por 47% do crescimento do comércio global de mercadorias no primeiro semestre — o comércio desses produtos aumentou 67% em relação a igual período do ano anterior, acelerando ainda mais a rápida expansão observada em 2024 e 2025.

Embora o crescimento do comércio global acima do previsto inicialmente seja uma boa notícia em meio ao desafio criado pelo tarifaço de Trump e, mais recentemente, pela guerra no Irã, Okonjo-Iweala alertou que o boom de IA tem seus problemas. Os dois principais são a concentração desse comércio em poucos fornecedores e compradores e a sustentabilidade, ao longo do tempo, do atual ritmo de investimentos em data centers e infraestrutura para IA.

— Quando decompomos os números, vemos uma concentração dos benefícios do comércio de IA em duas regiões: América do Norte e Leste da Ásia. E, na América do Norte, trata-se, principalmente, dos EUA. Logo, o resto do mundo não está tão incluído nos benefícios desse comércio — afirmou a diretora-geral da OMC. — Então é bom, mas a questão é como tornar esse comércio mais inclusivo e como garantir que seja sustentável.

As turbulências no comércio global ocorrem num momento em que a OMC está em xeque. Criado em 1995, o organismo multilateral do comércio está parado por causa dos EUA. Desde o primeiro governo Trump, os americanos estão bloqueando a indicação de juízes para o Órgão de Apelação, instância máxima da OMC. Sem membros, o Órgão de Apelação fica impedido de exercer sua função, que é julgar disputas comerciais entre os membros da OMC, uma das principais funções da entidade.

No segundo governo, iniciado em janeiro do ano passado, com o lançamento do tarifaço contra praticamente todos os países, Trump dobrou a aposta contra a OMC, enquanto Okonjo-Iweala vem negando que o organismo multilateral esteja paralisado ou tenha caído na irrelevância.

Segundo seu relatório anual, divulgado em setembro, a OMC apresentou um estudo estimando que a economia global poderá chegar a 2050 com um Produto Interno Bruto (PIB, o valor de todos os serviços e produtos produzidos na economia) agregado 6,9% abaixo do nível que atingiria na projeção base de crescimento até lá, se prevalecerem apenas acordos comerciais bilaterais entre os países.

O jornalista viajou como participante do Programa de Intercâmbio para Jornalistas da OMC e da Konrad Adenauer Stiftung (KAS)

Crescimento surpreendente do comércio global, com boom de IA, mascara problemas, diz diretora-geral da OMC

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Novas fronteiras, velhos desafios

Inovar, digitalizar e reduzir o impacto ambiental formam uma ‘tríade competitiva’

João Carlos Ferraz – Valor – 26/10/2026

Sete em cada dez empresas industriais brasileiras com 100 ou mais pessoas ocupadas inovam. Quase nove em cada dez usam alguma tecnologia digital avançada. Cerca de três quartos têm gastos com proteção ambiental. Os números sugerem uma indústria em transformação, mas um dado muda a leitura: apenas três em cada cem apresentam desempenho elevado nas três frentes ao mesmo tempo.

A evidência é convergente em dez informes produzidos por especialistas de oito instituições de pesquisa, a partir da Pintec Semestral, iniciativa realizada por IBGE, ABDI e UFRJ. Entre 2022 e 2025, sete rodadas de pesquisas de campo investigaram os esforços em inovação, digitalização e práticas ambientais de empresas industriais com mais de 100 empregados. Elas são responsáveis por mais de 60% do pessoal ocupado, mais de 85% da receita líquida de vendas e mais de 90% do dispêndio empresarial em P&D no país. A Pintec Semestral apresenta evidência de qualidade e muito recente sobre práticas decisivas para a competitividade empresarial.

Inovar, digitalizar e reduzir o impacto ambiental deixaram de ser agendas independentes. Formam uma “tríade competitiva”: tecnologias digitais ampliam a capacidade de inovar; inovações de processo reduzem o consumo de energia, água e matérias-primas; exigências ambientais de clientes e reguladores estimulam novas soluções. Quem avança em uma frente encontra melhores condições para avançar nas outras. Quem fica para trás acumula desvantagens.

O problema é que a adoção é ampla, mas rasa. Na inovação, houve avanços: a parcela de empresas com P&D interno subiu de 24%, em 2017, para 34%, em 2021, e a das que cooperam para inovar, de 29% para 42%. Mas só cerca de 15% introduzem algo inédito no mercado nacional ou mundial, e os gastos em P&D seguem concentrados em poucas grandes empresas. Predominam esforços localizados que buscam melhorias incrementais, não liderança tecnológica.

Na digitalização, chama atenção o salto da inteligência artificial: em dois anos, sua adoção passou de 17% para 42% das empresas, mas sobretudo nas áreas administrativas e comerciais, não no chão de fábrica. E apenas 5% usam as seis tecnologias pesquisadas (big data, nuvem, IA, internet das coisas, manufatura aditiva e robótica). É a combinação que faz diferença: quem integra as seis tem probabilidade significativamente maior de inovar; o uso isolado de uma tecnologia não tem efeito significativo.

Mais de 70% das empresas realizam dispêndios em práticas ambientais. E mais de 40% possuem planos estruturados em algum dos seis temas investigados (entre eles gestão de resíduos sólidos, emissões, reciclagem e uso). Entre as menos engajadas, sobretudo as de 100 a 249 pessoas ocupadas, quase 40% não realiza nenhum dispêndio. O principal motor é o cumprimento da legislação.

Três resultados de síntese merecem atenção. Primeiro, o porte pesa mais do que o setor: numa mesma indústria convivem empresas muito digitalizadas e outras quase analógicas. Segundo, crescer ou ganhar mercado recentemente não leva uma empresa ao grupo líder; contam as capacidades acumuladas e a estratégia. Terceiro, quem já faz tende a fazer mais: é muito mais fácil ampliar o P&D de quem já investe do que levar outras a começar. As retardatárias enfrentam custos altos, falta de pessoal qualificado e dificuldades de integração – e muitas nem percebem benefícios que justifiquem o investimento.

Não há razão, portanto, para esperar que a distância entre líderes e retardatárias se feche sozinha. Ela pode aumentar.

O apoio público está associado a melhores resultados na inovação, mesmo entre empresas semelhantes em porte, setor, origem do capital e salários. Mas a direção dos instrumentos varia: financiamento e subvenção ligam-se a inovações novas para o mercado mundial; o uso de incentivos fiscais, a inovações para a empresa ou para o mercado brasileiro. A ação pública, porém, alcança um universo limitado de empresas.

E, prospectivamente, as escolhas de política são difíceis: priorizar as empresas mais atrasadas, fortalecer o segmento intermediário ou concentrar recursos nas de fronteira? Como tornar visíveis as empresas “invisíveis”, que dificilmente acessam os instrumentos públicos? Como desenhar instrumentos que reconheçam e ampliem capacidades em diferentes estágios, sem perder de vista os recursos disponíveis e a avaliação de resultados?

Mas a agenda não é só pública. A posição de cada empresa na tríade é decidida em conselhos e diretorias. Inovação é investimento de longo prazo ou despesa a cortar na primeira crise? Digitalização é projeto de TI ou mudança no modelo de negócio? A agenda ambiental é custo de conformidade ou fonte de vantagem competitiva?

As evidências sugerem cinco temas a serem considerados em estratégias empresariais voltadas à tríade. O primeiro é a integração: tratar inovação, digitalização e práticas ambientais como uma agenda única, com governança e metas na alta direção, já que os ganhos vêm da combinação. O segundo é a profundidade: levar as tecnologias digitais, a começar pela IA, do escritório ao chão de fábrica e conectá-las entre funções, além de dar ao P&D orçamento estável, e não eventual. O terceiro são as pessoas: formar e reter equipes qualificadas, condição para integrar sistemas e absorver conhecimento externo. O quarto é a cooperação com universidades, centros de pesquisa, fornecedores e startups – empresas que cooperam investem, em média, seis vezes mais em P&D -, e as grandes podem levar suas cadeias de fornecedores junto. O quinto é a ambição: ir além da imitação e da mera conformidade, mirando inovações novas para o mercado e enxergando nas exigências ambientais oportunidades de negócio.

A Pintec Semestral mostra que competitividade industrial é um jogo de capacidades combinadas. O Brasil tem muitos jogadores, mas poucos craques: só 3 em cada 100 empresas brilham nas três posições. E a mobilização de craques não se faz só em Brasília. A política pode reduzir custos e riscos, mas não substitui a decisão de investir. Para o país, se nada mudar, as novas fronteiras tecnológicas e ambientais não corrigirão a velha heterogeneidade da indústria brasileira; podem reproduzi-la em outro patamar. A tríade competitiva não é uma agenda entre outras. É o critério pelo qual cada empresa industrial brasileira será julgada nos próximos anos por clientes, concorrentes e investidores.

João Carlos Ferraz é professor do Instituto de Economia da UFRJ, foi diretor e vice-presidente do BNDES (2007-2016) e diretor da Cepal/ONU (2003-2007).

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/novas-fronteiras-velhos-desafios.ghtml

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O caminho do SEO para o GEO

De ajustes técnicos no site à reputação em plataformas de avaliação, quatro estratégias ajudam marcas a ganhar espaço nas respostas geradas por IA

Anton Storzhuk – Fast Company Brasil – 26-10-2026

Um bom produto e um site fácil de usar já foram suficientes para atrair clientes por meio das buscas. Hoje, porém, os potenciais clientes recorrem cada vez mais a assistentes de inteligência artificial para perguntar qual serviço escolher antes mesmo de abrir o Google. Se a marca não aparecer na resposta gerada pela IA, o cliente talvez nunca chegue ao site.

Um ano após o lançamento do AI Overviews, do Google, a proporção de buscas que terminam sem um único clique para um site passou de 56% para 69%. Uma pesquisa com profissionais de empresas B2B revelou que a IA já influencia 92% das listas de fornecedores pré-selecionados e 83% das decisões finais de compra de fornecedores.

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O reconhecimento da marca é determinante para a pré-seleção em apenas 7% dos casos. Uma correspondência precisa com o que o cliente procura tem muito mais peso. A IA ainda favorece nomes consolidados em cada categoria, mas, em 93% dos casos, a precisão supera o reconhecimento da marca.

O que faz a diferença é o quanto uma marca corresponde à solicitação. Essa é a oportunidade para uma empresa menos conhecida superar um líder de mercado.

COMO A IA MUDOU AS REGRAS DAS BUSCAS

A otimização para mecanismos de busca (SEO, na sigla em inglês) e a otimização para mecanismos generativos (GEO, também na sigla em inglês) resolvem o mesmo problema de maneiras diferentes: como um algoritmo decide o que mostrar em resposta a uma consulta?

O SEO combinava palavras-chave, links e metatags de uma página para produzir uma lista de sites. Com o GEO, os sistemas de IA leem diversas fontes sobre um tema para gerar uma única resposta coerente.

Backlinks e menções à marca continuam importantes tanto para o SEO quanto para o GEO. O que mudou foi o critério usado pelo algoritmo para determinar o que é confiável. Antes de citar um fato, um assistente de IA o verifica em várias fontes independentes.

Antes, o volume era o critério mais importante: quanto mais backlinks levassem a um site, melhor seria sua posição. Isso tornava o sistema fácil de manipular por meio de esquemas de criação artificial de links.

Os sistemas de IA funcionam de outra maneira. O número de menções não é o que importa. O que conta é a autoridade das fontes em que essas menções aparecem e a consistência das informações. A IA não vai considerar confiável um site sustentado por mil backlinks, mas sem cobertura real na imprensa.

Leia mais: Como posicionar sua marca para a era da busca por inteligência artificial

Os dados confirmam isso: se você classificar 100 marcas pelo número de backlinks e, depois, pela visibilidade nas AI Overviews, as duas listas terão pouquíssimas marcas em comum. Se, em vez disso, classificá-las pelas menções em fontes independentes, as listas serão muito mais parecidas.

Como os assistentes de IA dependem do conteúdo e da consistência das menções, priorize as ações de GEO na ordem a seguir.

1. Descubra o que a IA já está dizendo sobre sua marca

Primeiro, faça a um assistente de IA as mesmas perguntas que um cliente faria e observe quais fontes ele cita. Uma verificação isolada não oferece uma visão completa, porque as respostas podem mudar diariamente, dependendo da maneira como você formula a mesma pergunta.

Para evitar o trabalho manual, uso o Brand24, que monitora automaticamente as menções às marcas nas respostas do ChatGPT, do Gemini e do Perplexity e mostra o share of voice em comparação com a dos concorrentes.

2. Torne seu site acessível aos robôs e coloque as respostas em destaque

Para conquistar citações da IA, duas condições precisam ser atendidas: os robôs devem ter acesso ao seu site e as informações essenciais precisam estar imediatamente visíveis.

Primeiro, nunca bloqueie robôs como GPTBot e ClaudeBot no arquivo robots.txt. Se um rastreador não conseguir acessar uma página, nada vai resolver o problema, nem mesmo a inclusão de marcação de dados estruturados. Segundo, 44,2% das citações vêm dos primeiros 30% de uma página. Por isso, os principais pontos devem aparecer no início.

Uso o Yoast SEO para verificar se as páginas do meu site atendem às duas condições. A ferramenta sinaliza se o rastreador está bloqueado e se a hierarquia dos títulos está correta. Para os links internos, uso o InLinks, que ajuda os sistemas de IA a encontrar mais rapidamente o conteúdo relevante do meu site.

3. Publique conteúdo regularmente na imprensa independente

Segundo a Muck Rack, 82% de todas as citações feitas por sistemas de IA vêm de mídia espontânea: cobertura independente, e não conteúdo produzido pela própria empresa.

Publicamos regularmente conteúdo sobre nossa empresa em veículos de comunicação relevantes. Como negociar individualmente com cada veículo exige tempo e os assistentes de IA não distinguem mídia espontânea de mídia paga, uso o PRNEWS e o Medialister.

Essas plataformas dão acesso a um conjunto de veículos de comunicação de uma só vez. Assim, conseguimos obter cobertura mais rapidamente do que por meio de negociações diretas.

4. Gerencie sua reputação nas plataformas de avaliação

Os assistentes de IA reproduzem avaliações literalmente. O ChatGPT, por exemplo, pode formular uma resposta da seguinte maneira: “A avaliação da empresa no Trustpilot é…”.

A IA também absorve o tom emocional das avaliações. Se uma marca tiver predominantemente comentários negativos, a resposta do modelo tenderá a ser negativa. O mesmo vale para avaliações positivas.

O volume e a atualidade das avaliações também importam. Um perfil com cinco comentários publicados há três anos é percebido de maneira diferente de outro que recebe atualizações frequentes e inclui respostas da empresa. Os assistentes de IA considerarão o segundo uma fonte mais confiável.

Por isso, peço aos clientes que publiquem avaliações no Trustpilot e no G2. Também monitoro menções à marca em comunidades relevantes no Reddit. Esse canal é menos previsível do que as plataformas especializadas em avaliações, mas uma recomendação espontânea por lá é um sinal importante para a IA.

Leia mais: O novo território das marcas quando o comprador é uma IA

Nenhuma dessas quatro etapas produz resultados isoladamente. Um site sem menções na imprensa não será citado pela IA. Menções sem avaliações não ajudarão a estabelecer o tom desejado.

POR QUE ESPERAR CUSTA MAIS

Nos resultados tradicionais do Google, os usuários percorriam 10 links e escolhiam um por conta própria. Em uma resposta gerada por IA, essa possibilidade não existe da mesma maneira, porque a ferramenta menciona apenas um pequeno grupo de marcas. A sua está ali ou não está.

Quanto mais ampla e consolidada for uma categoria, mais difícil será entrar nessa lista restrita partindo do zero. Uma empresa precisa definir seu nicho com precisão. Em vez de usar “CRM”, por exemplo, prefira “CRM para equipes de vendas B2B distribuídas”.

Certa vez, um cliente me contou que havia procurado no ChatGPT um sistema de gestão do relacionamento com clientes para sua equipe de vendas remota, sem sequer recorrer ao Google.

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Apenas três marcas apareceram na resposta – e ele nem chegou a abrir os sites das demais empresas. As companhias que ficaram de fora perderam a oportunidade de fechar negócio antes mesmo de saber que aquele cliente existia.

Se você não está investindo em GEO, talvez já tenha perdido centenas de negócios.


SOBRE O AUTOR

Anton Storzhuk é CEO da Metria Software.

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O Cliente Moderno Tem Instintos Antigos


Junior Bornelli – Entrelinhas – out/2026

Quando as vendas não funcionam, talvez a solução seja voltar ao que nunca mudou no ser humano.Quando as vendas começam a cair, as empresas procuram novas tecnologias, novos canais, novas campanhas e novas estratégias. Mas, às vezes, a solução pode estar justamente no passado.Muito antes dos algoritmos, do marketing digital e dos programas de fidelidade, o ser humano já carregava alguns desejos fundamentais: ser reconhecido, sentir que está levando vantagem, receber algo inesperado e pertencer a um grupo. A tecnologia mudou profundamente o comércio. Mas essas motivações continuam presentes.Em 1759, Adam Smith escreveu, em A Teoria dos Sentimentos Morais, que o homem deseja não apenas ser amado, mas também ser digno de amor. Ele estava tratando de reconhecimento e aprovação social, muito antes de existir o conceito moderno de experiência do cliente. Todo mundo gosta de ser bem tratado, de ser lembrado e de se sentir importante.É o restaurante que conhece seu prato favorito. O hotel que lembra suas preferências. A loja onde o vendedor chama você pelo nome. Pequenos gestos que fazem o cliente sentir que não é apenas mais um.Em 1985, o economista Richard Thaler apresentou o conceito de utilidade da transação. Sua ideia era que a satisfação de uma compra não depende apenas do produto adquirido, mas também da percepção de ter feito um bom negócio. É a velha sensação de levar vantagem.Pense nas batatas do McDonald’s. Quando a diferença de preço entre a média e a grande é pequena, a grande pode parecer uma oportunidade irresistível. Por um pouquinho a mais, você leva muito mais. Talvez nem estivesse com tanta fome, mas sai satisfeito com a escolha.O mesmo acontece quando você coloca mais um produto no carrinho para atingir o valor mínimo do frete grátis. Ou compra três unidades de algo que precisava apenas de duas porque a terceira está em promoção. Às vezes, o prazer de sentir que fez um bom negócio supera o interesse pelo próprio produto.Outro impulso antigo é a reciprocidade. Em 1925, o antropólogo Marcel Mauss estudou como a troca de presentes ajudava a construir relações e obrigações sociais. Décadas depois, pesquisadores demonstraram esse mecanismo em um experimento bastante curioso.Em 2002, um estudo publicado no Journal of Applied Social Psychology mostrou que clientes de restaurantes que recebiam um pequeno chocolate junto com a conta deixavam gorjetas maiores. O valor do presente era insignificante. O gesto fazia diferença.É o biscoitinho que acompanha o café, o brinde inesperado dentro da embalagem ou a sobremesa oferecida como cortesia. Às vezes, aquilo que o cliente não pagou é justamente o que faz ele valorizar mais a experiência.E existe ainda o desejo de pertencimento e distinção. É o cartão que oferece acesso a uma sala VIP. O cliente que recebe um benefício exclusivo. O programa de fidelidade que faz alguém sentir que pertence a um grupo especial.Perceba que não estamos falando de grandes inovações. Estamos falando de comportamentos que atravessam gerações.Naturalmente, nada disso substitui um bom produto, um preço justo ou uma operação eficiente. E elogios falsos, descontos artificiais e brindes sem propósito podem produzir o efeito contrário.Mas existe uma lição importante aqui. Empresas ficam tão preocupadas em modernizar suas estratégias comerciais que, muitas vezes, esquecem de compreender a natureza humana.Se as coisas não estão funcionando, experimente fazer perguntas mais fundamentais: Seu cliente se sente importante? Ele percebe que está fazendo um bom negócio? Você oferece algo que supera suas expectativas? Ele sente que pertence a alguma coisa?Talvez a próxima grande inovação comercial não esteja em descobrir um novo comportamento do consumidor. Mas sim em redescobrir aquilo que o ser humano nunca deixou de desejar.

Junior Borneli, autor de Entrelinhas. <juniorborneli@substack.com>

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EUA propõem regras para restringir investimentos em tecnologias estratégicas no exterior

Proposta do Tesouro prevê proibições e notificações obrigatórias para operações em setores como IA, semicondutores, computação quântica e biotecnologia

Alice Labate – Estadão – 23/10/2026

O Departamento do Tesouro dos EUA publicou na quinta-feira, 22, uma proposta de regulamentação para ampliar o controle sobre investimentos americanos no exterior em tecnologias consideradas estratégicas para a segurança nacional. As regras preveem a proibição de determinadas operações e a obrigação de comunicar outras ao governo, com o objetivo de impedir que recursos dos EUA contribuam para o desenvolvimento de capacidades militares, de inteligência e de vigilância de países considerados adversários.

A proposta implementa a Lei Abrangente de Segurança de Investimentos no Exterior (COINS, na sigla em inglês), aprovada como parte da Lei de Autorização de Defesa Nacional para o ano fiscal de 2026. O texto amplia o Programa de Segurança de Investimentos no Exterior (OISP), já existente, e estabelece critérios técnicos para identificar as transações sujeitas às restrições.

Segundo o Tesouro, a iniciativa busca proteger os interesses de segurança nacional e de política externa dos EUA sem comprometer a abertura do ambiente de investimentos.

Regras abrangem seis setores tecnológicos

A regulamentação proposta abrange cinco áreas previstas na lei: semicondutores e microeletrônica, inteligência artificial (IA), tecnologias de informação quântica, computação de alto desempenho e supercomputação e sistemas hipersônicos. O Tesouro também incluiu a biotecnologia, com base na autorização legal para acrescentar setores capazes de ampliar as capacidades militares, de inteligência, de vigilância ou cibernéticas de países considerados de interesse.

As exigências variam conforme o tipo de operação e a tecnologia envolvida. Pessoas e empresas americanas, incluindo entidades estrangeiras sob seu controle, poderão ter de notificar o Tesouro sobre determinadas transações com pessoas estrangeiras abrangidas pelas regras ou ficar impedidas de realizar outras operações. A proposta também detalha as informações que deverão ser fornecidas, os critérios de diligência exigidos dos investidores, as exceções previstas e as possíveis penalidades por descumprimento.

O governo abriu consulta pública para receber contribuições de empresas, investidores e outras partes interessadas sobre o alcance das restrições, as definições técnicas, as obrigações de comunicação e os procedimentos de fiscalização. O Tesouro afirma que avaliará os comentários antes de publicar a versão definitiva das regras.

EUA propõem regras para restringir investimentos em tecnologias estratégicas no exterior – Estadão

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Os desconfortos na Era dos Confortos (por Claudio de Moura Castro)

Claudio de Moura Castro – outubro , 2026

Historiadores apontam duas transformações drásticas na nossa história. A primeira, faz dez mil anos, sedentarização de muitos grupos humanos que abandonaram o nomadismo. Esta criação de cidades trouxe enormes consequências.

A segunda foi a Revolução Industrial – cujos salpicos ainda persistem.

Com o aumento dramático de produtividade (na indústria e agricultura), tornou-se possível oferecer uma vida digna para quase todos, pelo menos, nas sociedades em que esta revolução ocorreu. Mas, O Capital e o Manifesto, de K. Marx são suficientes para lembrar dos sacolejos ocorridos e que os benefícios custaram a chegar para os mais pobres.

A era dos confortos

Obliterado por essas transformações explosivas e controvertidas, há uma outra revolução, bem menos lembrada: o aumento no conforto pessoal da vida cotidiana. O movimento nasce na Inglaterra, no século XIX. De um privilégio das elites, vai se democratizando. Atinge classes mais baixas e sociedades mais pobres.

Hoje, não nos damos conta das asperezas no dia a dia de então.

Nem sequer existia a própria noção de que a vida poderia ser mais confortável.

O século XIX presenciou uma enxurrada de inovações, criando um novo cotidiano. O penico e a “casinha” lá fora dão lugar a vasos sanitários, confortáveis e inodoros. Banheiras e chuveiros substituem as tinas. A água quente, antes trazida em chaleiras, passa a jorrar das torneiras. Esgotos substituem regos a céu aberto – trazendo uma redução dramática nas doenças infeciosas.

Não existia algo tão simples como uma cadeira confortável. Sofás e poltronas, nem pensar. Não havia sabão, para lavar roupas e o próprio corpo.

Mais adiante, vem a iluminação elétrica. E não subestimemos o impacto dos fogões a gás. Quando nada, eliminaram o exercício diário de rachar lenha. Os elevadores, máquinas de lavar roupa e automóveis chegam mais adiante. O ar condicionado se difunde na segunda metade do século XX. E provoca, nos Estados Unidos, um progressivo deslocamento das gentes, do Norte frio para o Sul mais tépido.

Promover o conforto pessoal virou quase uma religião – impulsionada pelos avanços da indústria. Do colossal shopping center, até o celular, há uma corrida desabalada para inventar soluções e traquitanas – algumas até resolvem problemas que nem sabíamos existir.

Nossas vidas cotidianas estão intimamente empapadas nesses instrumentos que reduzem desconfortos. Porém – sempre há essa preposição adversativa – a evolução é imperfeita. Restam pequenos estorvos e tropeços que azedam o nosso cotidiano. O presente ensaio é sobre tais chatices.

As areias movediças da burocracia digital

Nosso mundo parece moderno e eficiente. Mas esconde armadilhas no caminho. Muitas estão nas inevitáveis confrontações com as burocracias digitais – públicas e privadas – mais, as ciladas nelas espreitando. Comecemos com uma coleção de pequenos aborrecimentos, diante dos quais, somos inexplicavelmente vulneráveis e impotentes.

Assinamos uma revista, um contrato de fibra ótica ou com uma empresa telefônica. Estávamos acostumados, se cansamos daquele pão, mudamos de padaria. Mas como cancelar uma dessas assinaturas ou contratos? Somos vítimas de máquinas infernais, capazes de bloquear indefinidamente a nossa decisão de recusar o produto ou serviço. Seria bem fácil criar uma legislação para facilitar tais divórcios, mas até agora…

Costumo dar uma espiada nos muitos leilões que andam por aí. Durante o COVID, passaram todos para a Internet, permitindo consultar o catálogo e dar lances, mesmo do outro lado do mundo. Mais ainda, há um sistema integrado de acesso e regras comuns. Grandes avanços.

Porém, os regulamentos são arcaicos, parecem feitos por advogados parados no tempo. Uma devolução só pode ser aceita se precedida por uma perícia da peça comprada. Quase sempre, vence o prazo para contestar, antes de chegar a peça arrematada. Quem compraria uma máquina fotográfica cara, se pode não estar funcionando e não há devoluções? É uma burrice, pois só será vendida se o preço for ridiculamente baixo, compensando o risco de ter defeitos. Nos pagamentos, como há o antiquário e o leiloeiro, não são infrequentes as confusões. E, por aí afora.

Nos países de tradições árabes, demoradas negociações entre clientes e vendedores chegam a ser passatempo nacional. Impensável uma compra sem longas e tortuosas trocas verbais. Nesse particular, estão à nossa frente, pois temos piores desafios, diante de múltiplos becos sem saída da informática. Com frequência, lutamos contra máquinas dotadas de paciência ilimitada e labirintos impenetráveis. Em vez dos floreios da barganha árabe, lutamos sem quartel e sem sucesso para convencer as máquinas.

Comprar na Internet é um avanço espantoso. Porém, nem sempre o final é feliz. Trava, some o botão a ser pressionado, volta para o mesmo lugar. O sapato vem do tamanho errado. Recebi uma pulseira de contas plásticas, em vez de uma ferramenta de marcenaria. Troca sem sucesso. Não há a quem reclamar, pois é inexpugnável o acesso a seres humanos. Por vezes, recebemos uma resposta sem sentido, pois a máquina traduziu – errado – do chinês para o inglês e, dai, para o português – ainda mais errado.

Parece que a interfaces dos sites e aplicativos foram construídas por uma garotada que já nasceu mergulhada no digital e deriva um certo prazer sádico em oferecer desafios ao usuário. Para eles, o site é concebido como um desses videogames, nos quais são criados sucessivos desafios a serem vencidos. Vemos o anúncio de uma panela, baratíssima. Abrindo o site, é apenas o preço da tampa. E por aí afora. E a batalha das senhas?

Podemos embirrar com o Mercado Livre ou o Amazon. Mas lidar ou não com o serviço público não é uma opção. Como deixar de buscar a guia de impostos a serem pagos? Pior, as barreiras informáticas estão criando dificuldades sérias para os mais velhos. Quem passou mais de meio século enfrentando filas e guichês, agora tem que decifrar os meandros de links misteriosos e traiçoeiros. E sempre há o risco de alguma cilada.

A batalha da privacidade

Um dos grandes avanços, desencadeados pela Revolução Industrial, foi o direito à privacidade. Parece inacreditável, mas ter seu próprio quarto é uma novidade com menos de dois séculos.

Avançamos nesta e em outras linhas. Mas há escorregões. Será que não temos o direito de não sermos aborrecidos por um dilúvio de chamadas telefônicas, tentando vender alguma coisa? Há antídotos, mas ainda são bem imperfeitos. Quando eram telemarketeiros humanos, ainda tínhamos o consolo de reservar para eles os mais horrendos palavrões. Mas de nada adianta esbravejar contra gravações.

Domamos um pouco melhor o spam no e-mail. Ainda assim, espreitam riscos e dá um trabalhinho proteger-se dos múltiplos contos do vigário digitais.

Direito ao silêncio faz parte do portfólio da privacidade. Mas, o barateamento da eletrônica milita contra. Os alto-falantes berram. Há o sermão do padre, as pregações para os crentes, os anúncios de pamonhas! Para não falar nas festas do vizinho. Faz tempo, escrevi um ensaio sobre barulho. Contou-me um leitor que estava sendo processados criminalmente, por haver abatido a tiros o sistema de som do vizinho.

E na madrugada, as motos? Um bom psicólogo deve ser capaz de explicar o supremo deleite de incomodar os ouvidos de outrem. No caso, as vítimas podem ser quarteirões inteiros.

As pequenas complicações na Era do Conforto

Quantos brasileiros entendem juros compostos? Quantos sabem calculá-los? Pois bem, em tudo que compramos a prazo, pagamos juros. Será a taxa extorsiva? Como sabê-lo? Por que não tornar obrigatória a sua menção, ao mostrar o preço?

Os aparelhos que nos cercam podem ser maravilhas da modernidade. Nada mais amigável do que uma geladeira. Basta ligar na tomada. O resto, ela decide, ela faz. Talvez peça socorro, ao cabo de trinta anos.

Mas, como é possível que um único televisor requeira dois controles remotos, cada um com dezenas de teclas. E quantas centenas de canais? Como não tenho TV, nunca tentei decifrar esses assuntos. Mas vejo pessoas perfeitamente normais que, ano após ano, não conseguem se fazer obedecidas pelos seus aparelhos.

O que parece ser outra manifestação da guerra entre gerações está nos manuais de instrução dos aparelhos que compramos. Não chequei, mas uma betoneira deve vir com um par de páginas impressas, tamanho ofício. Porém, ao reduzir-se o tamanho do artefato, as letras do manual vão também ficando menores.  Um relógio digital traz um papelzinho indecifrável, mesmo com uma boa lente.  Uma hipótese é que foi tudo feito por garotos com visão 20/20 e profundo desprezo pela velharia.

Para quem vos escreve, permanece o mistério. Nos vidrinhos oferecidos nos hotéis, por que são praticamente ilegíveis as letrinhas que identificam o xampu e o condicionador? Há que sair pingando do chuveiro, para pegar os óculos.

Já que falamos de iluminação, vale lembrar muitos elevadores, cuja iluminação está no teto, bem fraquinha. Dado o ângulo, não ilumina as teclas. Felizmente, os celulares agora têm lanternas. Porém, a saída para a rua pode ser “P”, “T” ou “L”. Como sabê-lo?

Cronicamente, os quartos de hotel ofereciam uma iluminação que não permitia a leitura. Que poucos reclamassem ilustra o grau de analfabetismo de nossa sociedade. Aleluia! O barateamento dos LEDs melhorou a situação em alguns hotéis. Em compensação, a mais reles birosca tem à sua porta uma dessas lâmpadas poderosíssimas, capazes de ofuscar quem passe perto. Elas por elas, ganhamos ou perdemos?

Faz pouco, o The Economist noticiou o grande aumento na frota de motos na América Latina. Louvavam-se os benefícios para os menos endinheirados. Porém, pelo menos em Belo Horizonte, motos não podem estacionar nas ruas mais movimentadas. Apenas autos são permitidos. Para os plebeus motoqueiros, há áreas reservadas. Mas são pouquíssimas e estão sempre abarrotadas. Na lógica da mobilidade, no espaço de parqueio de um carro, cabem umas dez motos. E os que saem  às compras de carro, por não poder estacionar a moto? Terminam por obstruir muito mais o trânsito.

Um policial ou um funcionário público que cometa um desatino ou desfalque, arrisca-se a um bom período no xilindró. Porém, terá impunidade total se cometer, a cada dia, uma sequência de pequenos deslises, ofensas, sabotagem burocrática ou a prática de outros atos que incomodam o cidadão comum. Contra esses espinhos pequenos, mas incômodos, nada conseguimos fazer. Somando a infinidade de horrores que nos infringe a burocracia, será não que trazem mais estorvos à sociedade do que aquele ato, suficientemente grande, para despertar a justiça do seu torpor? Nada a se fazer?

As maravilhas na arte da embalagem – e os horrores

No início dos anos noventa, meu trabalho me levou à Rússia. A iniciativa privada despontava. Soube de um plantador de ameixas que despachou a sua colheita para vender em Moscou. Ao chegar, no caminhão, havia apenas suco de frutas. Lá, a indústria da embalagem não havia dados os seus primeiros passos. Em contraste, subestimamos os avanços nessas artes, desafiadas para transportar ovos ou taças de cristal. Mais de vinte mil produtos diferentes chegam a um supermercado, testemunhando a competência do setor.

Ainda assim, há pequenos tropeços. Quem é capaz de desembalar um pacotinho de paçoca, sem que o bloco se esboroe em suas mãos? Quem consegue abrir uma geleinha de hotel, sem lambuzar os dedos? E as torradinhas que se espatifam, ao lutarmos para abrir as suas embalagens? E as tampas exigindo dedos de aço? E as embalagens plásticas, duras e transparentes, responsáveis por muita sangueira nas mãos?

Epílogo: há curas?

Não paremos de louvar esse bendito conforto, inaugurado na Revolução Industrial. Trouxe imenso bem estar material às nossas vidas. São quase dois séculos de trajetória, entre o abandono do penico e ter um celular com Waze.

Porém, os acertos são no atacado. Sobrevivem muitos tropeços no varejinho do nosso cotidiano. Temos que aceitar tais incômodos?

Nenhum desses entraves seria difícil de resolver. Por que isso não acontece? Uma hipótese é que catástrofes mobilizam impulsos poderosos. Há que domar o Covid, há que conter a enchente. Mas as pequenas chatices não atingem um limiar de irritação que gere providências eficazes.

Claudio de Moura Castro é Ph.D. em Economia pela Universidade de Vanderbilt. Foi Professor Visitante em várias Universidades, como Chicago, Genebra, Borgonha, FGV, Brasília. Foi Presidente da CAPES. Autor, Prêmio Jabuti.

Os desconfortos na Era dos Confortos (por Claudio de Moura Castro) – CapaBrasil

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