Para Fábio Queiroz, especialista em negócios de varejo, os agentes de IA já atuam como vendedores e o avanço da tecnologia vai derrubar barreiras entre o físico e o digital; leia entrevista
Por Lucas Agrela – Estadão -28/02/2026
Entrevista com Fábio Queiroz Presidente da Associação das Américas de Supermercados (Alas), e cofundador da plataforma Innovation Week
A inteligência artificial (IA) se tornou uma importante aliada nos negócios do varejo. Essa é a visão de Fábio Queiroz, presidente da Associação das Américas de Supermercados (Alas) e cofundador da plataforma Innovation Week (responsável pelo Rio Innovation Week e pelo São Paulo Innovation Week). O especialista afirma que os agentes de IA se tornaram vendedores capazes de sugerir e vender produtos aos consumidores de acordo com interesses pessoais.
“Antes, o chatbot dava as informações sobre os produtos. O agente de IA já abre a janela dizendo: ‘E aí, Fábio, vai pagar no débito ou no crédito?’ E a venda acontece”, afirma Queiroz. Com a aplicação da IA em todas as áreas, especialmente em gestão, o especialista diz que melhorar a eficiência e evitar erros resultarão em maiores ganhos para os empresários do setor varejista.
Para ele, a IA não vai substituir trabalhadores, mas requer maior qualificação para lidar com as novas tecnologias que vão impulsionar as vendas, gerando demanda por mão de obra.
Para você
Queiroz diz que o supermercado do futuro contará com a implementação de tecnologias já conhecidas hoje, como agendamento de compras em lojas físicas ou visualização de trânsito e vagas de estacionamento. Essa experiência será coroada com a IA fazendo a leitura do carrinho de compras para o consumidor efetuar o pagamento no aplicativo para celular, evitando filas nos caixas.
O especialista afirma ainda que o retail media, o negócio de anúncios em lojas físicas e virtuais, também se tornou inseparável do varejo por trazer um alívio às históricas margens de lucro apertadas dos lojistas. A consultoria eMarketer estima que o retail media movimentou US$ 1 bilhão no Brasil em 2025.
Para o cofundador da Innovation Week, a conferência São Paulo Innovation Week (SPIW), da qual o Estadão é sócio, será um espaço para não só conhecer novas tecnologias, mas também para fazer negócios.
O festival de inovação, tecnologia e empreendedorismo será realizado de 13 a 15 de maio na Mercado Livre Arena Pacaembu e na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap). Até este domingo, 1.º de março, o preço com desconto do passaporte para os três dias do evento será de R$ 594 (compras aqui). Após essa data, começará a venda de lotes regulares.
Leia os principais trechos da entrevista a seguir.
Na sua visão, qual é atualmente a importância da inovação para o setor varejista, que experimenta tanta competição com a chegada de novas tecnologias e novas plataformas de vendas online?
A inovação caminha lado a lado com todos os setores da sociedade, e não é diferente no caso do varejo. Acabo de voltar da NRF, que é a maior feira de varejo do mundo. Mais do que as tecnologias que estão muito lá no futuro, começamos a ver a aplicação das coisas interferindo na linha final do varejo, que tem margens apertadas. (O investidor bilionário) Warren Buffett dizia que, se tivesse apenas um dólar, ele investiria em marketing. No varejo, parafraseio dizendo que esse um dólar deve ser investido em gestão. Não vou ensinar o empresário a comprar e vender produtos, essa é a essência deles. É na gestão que o dinheiro vai para o ralo. Outra área que faz toda a diferença é a experiência do consumidor, assim como a logística.
Como o varejo tem aplicado inteligência artificial para melhorar seus negócios?
A IA está em tudo no varejo. Ela é muito importante, por exemplo, no mapeamento do comportamento de compras do consumidor em até dez compras. Tem até um caso de uma mulher que estava grávida, e o marido ainda nem sabia, mas já começou a receber propagandas relacionadas a bebês. Essa história tem limites éticos que discutimos muito no Rio Innovation Week, e traremos isso para o SPIW por ser um tema global. Agora, vejo que a IA precisa mexer na linha final dos balanços das empresas.
Como isso será possível?
Em 2025, o boom da época eram os agentes de IA. A inteligência artificial era alimentada com dados e ela entregava uma informação. Ponto, parava por aí. Hoje, o agente de IA funciona mais como um vendedor. Ele identifica que sou flamenguista e vai me vender os produtos do Flamengo. Antes, o chatbot dava as informações sobre os produtos. O agente de IA já abre a janela dizendo: ‘E aí, Fábio, vai pagar no débito ou no crédito?’ E a venda acontece. Isso mexe na linha final dos balanços.
Onde a inovação pode fazer a maior diferença na operação de uma varejista?
Hoje, é a gestão o grande calcanhar de Aquiles do varejo — e isso não é demérito. A operação de qualquer varejo é muito dura. Comprar e vender bem, lidar com logística, repor estoques e gôndolas e ainda gerenciar o fluxo de caixa no varejo é uma loucura. Sobra muito pouco tempo para a gestão. Quando a tecnologia nos ajuda a gerir o nosso negócio, isso é música para os ouvidos. Os negócios de varejo têm as margens muito espremidas, na faixa de 1% a 10%. Isso fará as varejistas venderem mais, e com mais lucro por causa do uso de IA.
O uso da IA pode ajudar a reduzir eventuais erros que levam a perdas no varejo?
Toda vez que há um erro — operacional, de gestão ou qualquer que seja —, o chamamos de perda, e toda prevenção de perda se traduz em resultados. O crédito para o varejo é mais caro porque as margens são mais apertadas. Olha o que aconteceu com as Americanas. O Grupo Mateus agora admitiu um erro em estoque. Isso custa muito caro. A IA já permite monitorar, com leitura de imagens, tudo que entra e sai do estoque de uma varejista.
O varejo sofre com falta de mão de obra. A IA pode ajudar a atacar esse problema?
Sim, mas com um enorme asterisco. Ela vai aumentar a produção e a demanda. Então, vai aumentar também os chamados empregos virtuais, empregos das inteligências artificiais, e os empregos formais, diretos e indiretos. Vamos precisar de gente mais qualificada. A discussão não é acabar com empregos, mas como fazer para qualificar cada vez mais a mão de obra. Um supermercado sem CRM (software de gestão de dados de clientes) já está atrasado. Identificar os consumidores na loja física é muito difícil, mas hoje a maioria já faz. Pode ser por conexão logada em Wi-Fi ou em promoção em aplicativo próprio. Mas quantos varejistas estão transformando essa catalogação de clientes em incremento de vendas? É preciso gente boa que saiba ler os dados de verdade, e não só o que está gritante. Saber o que fazer com os dados é o novo petróleo.
Nesse mundo digital, a inteligência do empresário fica em segundo plano em relação à IA?
O feeling do empreendedor sempre será insubstituível. Antes da IA, já existia o que eu chamo de scanner de íris, que são os olhos do empresário. Ele já olhava para o carrinho do consumidor e via se a sua estratégia estava funcionando. No entanto, cada vez mais ele necessitará do apoio, do suporte, da inteligência artificial ou algo que venha inventar que a gente ainda não não entende. Tudo que é empírico é limitado.
O retail media (negócio de anúncios dentro das lojas) já é uma fonte de renda importante para as varejistas?
Quem não está explorando está deixando dinheiro na mesa. Costumo dizer que o retail media é o negócio dentro do nosso negócio. Quando você começa a explorar isso, você começa a alargar as suas históricas margens de lucro apertadas. Isso é música para os ouvidos do varejista.
Como o retail media funciona hoje e como o empresário do varejo pode usar isso para melhorar sua margem de lucro?
O primeiro nível do retail media é a entrada dos painéis de LED nas lojas, que substituem o antigo cartaz. Podem ser telas que leem o consumidor que está à sua frente e, por inteligência artificial, mapeiam o hábito de consumo da pessoa. Com isso, quem bebe cerveja vê propaganda de cerveja, e não de vinho. Isso já acontece. Quando você levanta o produto da gôndola, a tela de LED da loja te dá todas as informações daquele produto, e isso interfere na tomada de decisão do consumidor. A segunda etapa é trazer anunciantes. A tomada de decisão do consumidor está iminente, premente. O retail media vai impactar o ponto de venda, trazendo dados de conversão em tempo real.
Um exemplo disso poderia ser uma academia usando seus alto-falantes para anunciar artigos esportivos à venda em um aplicativo?
Sim, e com um telão dentro na academia com um QR code. O grande segredo é impactar o consumidor no momento da jornada de consumo. Quem está na academia tem mais chances de comprar esses produtos do que quando está em casa.
Faz sentido usar a loja como espaço para outros anúncios?
Essa é a terceira fase do retail media, atrair anunciantes de fora do varejo. Uma emissora de televisão pode lançar a sua novela nos telões dentro da loja e nas nossas fachadas que atingem pontos privilegiados. Ou uma montadora pode lançar o seu carro novo impactando os consumidores que estão na nossa loja. Com um QR Code, o consumidor já faz a compra ligada (ao anúncio) e já medimos o impacto da promoção.
No Brasil, muitos supermercados são negócios familiares e outros integram grandes redes nacionais e internacionais. De 2020 para 2026, vimos que grandes marketplaces e aplicativos de delivery entraram nessa área de mercado, vendendo itens de uso cotidiano. Como isso muda a realidade das varejistas?
A venda do e-commerce de supermercado ainda não atingiu seus patamares desejados e, para muitas empresas, nem mesmo o breakeven (ponto de equilíbrio).
Então essas empresas ainda perdem dinheiro com essa operação?
Tem muita empresa que ainda perde dinheiro com e-commerce. Mas já se sabe que o caminho é sem volta. Essas vendas vão crescer. Um agente de IA que conversa com você para fazer uma venda não é e-commerce no conceito tradicional, mas, no lato sensu, precisamos derrubar essa barreira. Vendeu em canal eletrônico, seja marketplace ou delivery, é e-commerce. Agora, a gente tem de aperfeiçoar a arte da separação de produtos de acordo com o que o consumidor demanda. Quantas vezes você já pediu online, e as compras chegaram com produtos faltando ou diferentes dos que você comprou? No dia em que você pedir um presunto fininho e ele chegar em meia hora na tua casa, você vai comprar mais no e-commerce.
Nesse cenário, as lojas físicas vão perder muito espaço?
Não, elas vão se transformar em lugares de experiência. Há quase dez anos, a Amazon comprou a Whole Foods, focada em mercadorias orgânicas e frescas. Os mais apressados decretaram o fim da loja física porque cada loja viraria um hub de distribuição da Amazon. Isso caiu por terra em meses. Sempre haverá o consumidor que quer sentir o cheiro do produto, que faz questão de escolher o que compra. Os supermercados são lugares de encontros, desencontros, degustações, promoções, lançamentos e, sobretudo, de qualidade de vida.
Diante de tudo que vemos de inovação no varejo, como o sr. prevê que será o supermercado do futuro?
O supermercado do futuro será aquele que terá as tecnologias que já existem hoje, mas que cairão no gosto do consumidor. Elas ganharão escala com a redução de custos, e serão implementadas. Ou seja, eu estarei em casa e verificarei, através do aplicativo do supermercado da minha preferência, se tem vaga disponível no estacionamento, o fluxo de clientes naquele horário, o trânsito até a loja e até deixar pedida a carne e o queijo fatiado que quero comprar, para não ficar em filas. No pagamento, o maior problema dos supermercados hoje, tudo poderá ser feito no aplicativo, sem filas. Isso pode ser feito com tecnologias que detectam o que foi retirado por você de cada gôndola ou por um scanner com IA que identifica o que tem no seu carrinho de compras. Todo mundo ama ir ao supermercado. O que você não gosta é de procurar vaga no estacionamento, ficar em filas e corredores apertados. É isso que vai acabar.
Uma tendência que é antiga e ao mesmo tempo nova para os varejistas é a área de crédito. O varejo sempre teve o crediário, mas vemos agora várias empresas criando contas digitais, oferecendo empréstimos e uma série de benefícios. Como essa financeirização do varejo ajuda as empresas do setor a se tornarem mais lucrativas e a aumentar esse relacionamento com o consumidor?
O crédito é a ponta chave. O crédito faz parte do consumo, não é do varejo, é do consumo. São negócios paralelos, e o crédito é um negócio autônomo. O empresário pode até vender o supermercado e ficar com a área financeira. Mas o modelo de negócios é linkado ao supermercado. Ele é apenso ao varejo porque o consumidor precisa de crédito.
Falando agora sobre o São Paulo Innovation Week (SPIW). A ideia é fazer uma personalização do evento para São Paulo ou replicar o que ocorreu no Rio?
Num paralelo com o varejo, o arroz que faz sucesso no Rio não é o arroz que faz sucesso em São Paulo. Não é a mesma cerveja ou o mesmo refrigerante, tudo é diferente. Trazer um evento copiado do Rio para São Paulo seria ingênuo da nossa parte. Respeitamos a cultura de São Paulo, a sua força e suas especificidades. Por exemplo, o mercado financeiro é pujante em São Paulo, assim como o agronegócio é no interior do Estado. O que faremos é compartilhar as boas práticas do Rio com São Paulo, nossa expertise no evento que se tornou o maior do mundo através dos nossos processos, experiências, erros e acertos. Agora, vamos pautar as discussões a cada seis meses, no Rio e em São Paulo. Então, quem participar do evento no Rio precisa participar da conferência em São Paulo.
Quando vocês perceberam que era o momento de o evento vir para São Paulo?
São Paulo tem uma força incrível, tanto a cidade quanto o Estado. Trilhamos a jornada no nosso quintal e aperfeiçoamos o modelo antes de trazê-lo para a capital paulista. Chegamos já com o processo consolidado.
Hoje vemos pelas redes sociais cortes ou vídeos curtos das principais palestras de conferências de inovação no Brasil e no mundo. Por que as pessoas continuam indo aos eventos?
Vou responder com um exemplo prático. No Rio de Janeiro, a área de open innovation do evento teve 2 mil startups, e elas estavam no mesmo pavilhão dos investidores-anjo. Ali, elas tiveram a oportunidade de bater à porta de um deles lá e falar: ‘Eu preciso de R$ 1 milhão para tirar meu sonho do papel ou para acelerar aquilo que eu já criei’. O investidor pode condicionar o aporte a algumas métricas. Ao lado, temos os mentores. O empreendedor pode ir até eles, contar sua história e receber orientações sobre como atender aos pedidos dos investidores.
Grandes negócios também costumam acontecer no evento ou apenas com as startups?
Recentemente, eu soube de uma venda bilionária de um patrocinador nosso que aconteceu dentro do estande no Rio Innovation Week. A empresa foi visitar o estande e mostrou a solução dela ao patrocinador. Na visão dele, aquilo era o futuro e comprou a companhia. A lógica inversa também ocorre: alguém que foi para vender seu negócio acabou comprando uma empresa. É raro, mas acontece toda hora.
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