Navegar é preciso mas, você conhece os primeiros a fazê-lo?

Por João Lara Mesquita – Estadão – 1 de setembro de 2022

Povos antigos foram capazes de atitudes inimagináveis aos olhos atuais. Navegavam desde épocas longevas. Os fenícios  se estabeleceram no Levante por volta de 3.000 a.C. Deixaram marcas para o resto da vida, na cultura e atitudes humanas, como o alfabeto e o comércio, por exemplo. Ou Cartago, quase mil anos antes de Cristo, destruída em batalhas navais pelos romanos. Recordemos, acima de tudo, que um dos barcos mais antigos com cerca de 4.500 anos era egípcio. E que o Pacífico começou a ser ‘colonizado’1.200 anos a.C. E antes destes povos estabelecidos? Digamos, os ‘primitivos’. Navegavam? Sim, navegar é preciso. O mergulho será profundo e surpreendente. As primeiras navegações do ser humano, provavelmente, há nada menos que 800 mil anos. Como assim? Das areias da África, olhando para a água, e imaginando o que havia do outro lado (Além de não ser preconceituoso com a ciência, obviamente).

Escultura de 10 mil anos atrás mostra um barco

Para começar, uma escultura de 10.000 anos é a representação mais antiga conhecida de um barco na Europa segundo o smithsonianmag.com.

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Foi provavelmente com jangadas ainda mais primitivas que esta dos aborígenes australianos que o homem começou a navegar.

As primeiras migrações humanas

Antes de mais nada,  antropólogos modernos consideram que a primeira das grandes migrações humanas, aquela que levou Homo erectus (espécie de hominídeo que viveu entre 1,8 milhões de anos e 300.000 anos atrás) a sair da África marchando vagarosamente para “o Oriente Médio, de lá para a Europa e Ásia”, não foi feita apenas “por terra caminhando” como nos ensinavam na escola.

Navegar é preciso…

Em outras palavras, eles também usaram barcos. Sim, barcos. Certa feita entrevistei Walter Alves Neves, professor Titular do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP. Eu queria saber porque os ‘andarilhos’ desta grande migração haviam se fixado num local tão ermo para a sobrevivência como a região dos Canais da Patagônia.

“Apenas andarilhos, não”, corrigiu. “Hoje é consenso entre especialistas que eles desceram pela América do Norte, depois a Central para atingirem a do Sul, também usando pequenas embarcações costeando parte do trajeto até atingirem a região dos canais.”

Pesquisas para um livro sobre embarcações típicas

Em minhas pesquisas para escrever “Embarcações Típicas da Costa Brasileira” encontrei um livro que me intrigou. Seu autor é Goefrey Blainey, professor nas Universidades de Harvard e Melbourne e autor de “Uma Breve História do Mundo”. Blainey revelou que na ilha de Flores, arquipélago da Indonésia, foram encontrados vestígios de presença humana de mais de 800 mil anos. Os resquícios descobertos no antigo leito de um lago na ilha montanhosa de Flores provaram, sem qualquer sombra de dúvida, que os humanos tinham aprendido a construir embarcações e a conduzi-las mar adentro: as embarcações a vela ainda levariam muito tempo para aparecer (Página 7).

Ilha de Flores IndonésiaIlha de Flores Indonésia.

Ao ler 800 mil anos atrás pensei ser erro de tradução ou digitação. Imediatamente liguei para a editora que confirmou o original, ou seja, sim, navegações há nada menos que 800 mil anos atrás.

Polêmicas à parte…

Já publicamos as palavras do professor de Harvard anteriormente. E, neste mundo de fake news disseminadas e acreditadas por beócios, elas provocaram polêmica entre certos leitores. Que fazer?

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Todas as vezes que acontece ficamos ainda mais estimulados em pesquisar e prosseguir contando as histórias dos povos antigos, suas atitudes e, especialmente, navegações. Quando encontramos o artigo abaixo, publicado na renomada revista Science, nos decidimos por mais este post. Ele confirma 100% do que disse o professor de de Harvard.

Descobertas na ilha de Flores, Indonésia, pela revista Science

Em 1994, um grupo holandês e indonésio datou ferramentas de pedra encontradas na ilha de Flores, Indonésia, com cerca de 750.000 anos de idade. Nesta época o H. erectus era o único tipo de humano no Sudeste Asiático. Pesquisadores que trabalham no local, chamado Mata Menge, estão convencidos de que o H. erectus chegou de jangada ou outra embarcação.

evolução humanaA evolução humana pela britanica.com. Note a figura do primeiro a navegar, o Homo Erectus, e acredite se quiser.

Mesmo quando o nível do mar estava mais baixo, esses humanos teriam que atravessar 19 quilômetros de água para chegar à ilha de Flores a partir da ilha mais próxima, Sumbawa. Este é um resumo de artigo publicado na revista Science, em 1998, de autoria coletiva da equipe do Science News.

Mais informações sobre a ilha de Flores

Contudo, em 2004 a descoberta de uma nova espécie humana, Homo floresiensis, foi relatada em Flores. A espécie tinha pouco mais de um metro de altura. A partir de agora as informações são do www.teara.govt.nz, do texto Pacific Migrations.

Este novo humanoide esteve presente na ilha até cerca de 50.000 anos atrás, aproximadamente na mesma época em que os humanos modernos, Homo sapiens, começaram a se espalhar pela área.

À primeira vista,  parece que o Homo floresiensis descende de uma dispersão inicial do Homo erectus. Ele teria sobrevivido isolado nessa ilha refúgio. Possivelmente, a pequena estatura resultou do escasso suprimento de alimentos e, igualmente, porque não precisavam enfrentar predadores.

Chegaram por intenção e não acidente

Se apenas uma única travessia fosse necessária para ir da Ásia continental até a Oceania, então certamente durante milhares de gerações alguns grupos teriam conseguido atravessar de alguma forma. De fato, foram necessárias no mínimo 10 travessias marítimas, sendo a mais longa de 100 quilômetros. Fazer tal viagem indica intenção e não acidente.

‘Oceanos nunca foram uma barreira para as viagens do H. Erectus’

O jornal inglês Guardian, em matéria de 2018, pontua: “Os oceanos nunca foram uma barreira para as viagens do H. Erectus Eles viajaram por todo o mundo, e para a ilha de Flores através de uma das maiores correntes oceânicas do mundo”, disse Daniel Everett, professor de estudos globais da Bentley University e autor de How Language Began.

“Eles navegaram para a ilha de Creta e várias outras ilhas. Foi intencional: eles precisavam de artesanato e precisavam levar grupos de vinte ou mais, pelo menos, para chegar a esses lugares.”

 Marinheiros da Idade da Pedra

Outra matéria da Science, igualmente de 2018, confirma com o sugestivo título Neandertais, pessoas da Idade da Pedra podem ter viajado pelo Mediterrâneo.  Às tantas, diz o texto, ‘Sabe-se que os primeiros membros da família humana, como o Homo erectus , cruzaram vários quilômetros de águas profundas há mais de um milhão de anos na Indonésia, para ilhas como Flores e Sulawesi’.

Contudo, há quem discorde. Chris Stringer, chefe de origens humanas do Museu de História Natural de Londres é uma delas, ouvida pelo Guardian. “Não aceito que, por exemplo, [o Homo] erectus tenha tido barcos para chegar a Flores.Os tsunamis podem ter movido os primeiros humanos em jangadas de vegetação.”

Ainda assim, ela nada acrescenta além da própria crença.

 na Austrália, quando e como chegaram?

Do archive.archaeology.org, em artigo de Peter Bellwood, professor do departamento de arqueologia e antropologia da Australian National University. Demonstra que os  ‘primitivos’ também navegavam.

Os seres humanos primitivos alcançaram o continente australiano pela primeira vez há pelo menos 30.000 anos. Foram pessoas que cruzaram rotas marítimas consecutivas no leste da Indonésia. Estes fatos são aceitos pela comunidade acadêmica desde o final da década de 1960. 

Pesquisas do falecido Joseph Birdsell e de Geoffrey Irwin, da Universidade de Auckland, sugerem que existiam rotas norte e sul separadas, ao longo das quais a maioria das ilhas seria visível de seus vizinhos mais próximos em dias claros, levando das ilhas Sunda Shelf em direção à Austrália e Nova Guiné.

Travessia de 55 milhas para a Austrália

Ao que tudo indica, a rota foi do Timor para a Austrália. Então, uma travessia marítima final de cerca de 55 milhas envolvendo o mar aberto também foi necessária.

Contudo,  nos últimos anos, a datação por luminescência óptica de locais no norte da Austrália levantou a possibilidade de que os humanos chegaram lá há 60.000 anos, e muitos arqueólogos agora aceitam essas novas datas.

Travessia marítima há 60 mil anos

Esta última informação, sobre a chegada de seres primitivos via uma travessia marítima há 60 mil anos é corroborada por artigo de Sarah Bunney, publicado na NewScientist.com.

É possível, embora improvável, que as pessoas que ocuparam o local no Território do Norte (Austrália) fossem o que os antropólogos chamam de “pré-modernos” – Homo sapiens primitivo ou talvez representantes tardios da espécie hominídea chamada Homo erectus. Estes são conhecidos por terem vivido em Java e na Ásia continental nos últimos 900.000 anos ou mais.

E, mais adiante, prossegue: A nova data não é uma surpresa total para os paleoantropólogos. Recentemente, alguns têm pensado em 40.000 anos atrás como uma data mínima e não máxima para a primeira colonização humana da Austrália. Isso ocorre porque eles encontraram evidências indiretas de uma presença humana anterior no continente australiano.

E conclui: Viajantes pré-históricos só poderiam ter chegado à Austrália fazendo viagens marítimas de até 400 quilômetros.

‘Humanos podem ter deixado a África pelo mar em jangadas ou barcos primitivos’

A informação acima confirma o que disse o professor da USP, Alves Neves. De quem é? Do professor Nicholas R. Longrich, mestre em Biologia Evolutiva da Universidade de Bath, e editor do site www.nicklongrich.com.

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Segundo Longrich, ‘o Homo sapiens, em outras palavras nossos ancestrais diretos, ‘não foram os primeiro humanos a deixarem a África. O Homo sapiens moderno é uma das muitas ondas de migração para fora da África, ocorrendo ao longo de milhões de anos’.

…’os humanos modernos vão de um período recente (em termos evolutivos) de 200.000 anos atrás para talvez 260.000-350.000 anos atrás.’

Da África Oriental através do Mar Vermelho para a Ásia e Austrália

…’Os humanos migraram da África Oriental através do Mar Vermelho para a Ásia e Austrália, e depois se mudaram para o oeste em Israel, Norte da África e Europa’.

Para Longrich as embarcações usadas eram provavelmente um tipo ainda mais rude que as jangadas utilizadas pelos aborígenes da Austrália isolados e sós durante 70 mil anos (depois de sua chegada). Elas nos dariam uma pista do que teriam sido as primeiras navegações.

‘Para ser justo, as evidências agora mostram que os neandertais descobriram como usar os recursos marinhos…Pelo menos alguns neandertais habitavam ilhas, sugerindo que tinham algum tipo de embarcação.’

Como se vê, os neandertais eram antecessores do Homo sapiens e, possivelmente, já navegavam assim como o Homo erectus que surgiu um milhão de anos atrás e chegou na ilha de Flores por mar!

Para situar, neandertais existiram por cerca de 200 mil anos a mais do que a existência total dos seres humanos modernos (Homo sapiens). Já, o Homo erectus, há um milhão de anos, chegou a Austrália por mar e igualmente em Creta, no Mediterrâneo!

Sobre as navegações posteriores, as dos povos antigos como os fenícios, e depois ainda, a era das navegações, diz o professor Nicholas R. Longrich:

O que é surpreendente é que todas essas odisseias começaram com uma única e curta viagem. Esta viagem começou com alguém parado nas areias da África, olhando para a água, imaginando o que havia do outro lado. E todos os outros exploradores são fruto desse primeiro sonho, da primeira odisseia.

Portanto, duas eras antes da nossa o H. erectus assim como os neandertais, já navegavam. Séculos depois os descendentes do H. sapiens deram nos fenícios, os árabes, egípcios, gregos e romanos; além  de outros povos antigos navegadores. Esta procura do que havia do outro lado, e a habilidade em superar obstáculos até mesmo navegando em priscas eras para afinal descobrir, é condição inerente e, sobretudo, da cultura humanas.

Um espírito  fascinante que nos distingue. Por isso voltaremos ao tema.

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Como os ecossistemas de inovação podem provocar impacto social nas cidades

CLAYTON MELO  Fast Company Brasil 02-09-2022 |

 Há algum tempo escrevi aqui na Fast Company Brasil sobre os urban livings labs, que levam o conceito de inovação aberta para o território urbano. Os laboratórios vivos são ambientes de inovação aberta centrados no usuário que têm a cidade como campo de testes.

Para exemplificar, é mais ou menos como usar bairros ou áreas específicas para desenvolver MVPs (do inglês Minimum Viable Product, ou Mínimo Produto Viável) de projetos para resolver problemas concretos, como uso mais eficiente de energia, mobilidade, segurança ou zeladoria.

Agora, gostaria de ampliar o foco e falar sobre a relação entre os ecossistemas de inovação e as cidades. A ideia é discutir como os ecossistemas de inovação podem ser – e já são – utilizados para pensar o desenvolvimento econômico e social, experimentando novos modelos de governança local com o objetivo de melhorar a vida das pessoas nos municípios brasileiros, que, como sabemos, enfrentam problemas complexos.

Ecossistemas de inovação, tal como trato aqui, são ambientes em que poder público, iniciativa privada, academia e sociedade civil colaboram para inovar e desenvolver uma região. Sobre isso, vale uma observação. No mundo das empresas e das startups, a gente se acostumou com a aproximação entre gestão pública, empresas e universidades – a chamada Tríplice Hélice –  nos parques tecnológicos, que têm incubadoras e outras ações para estimular a inovação e o empreendedorismo.

VEM GANHANDO ESPAÇO UM OLHAR QUE NÃO PENSA PRIORITARIAMENTE A INOVAÇÃO PARA O MERCADO, MAS SIM PARA A CIDADE.

Mas nesses casos, geralmente, o foco é a inovação direcionada ao mercado. Esse processo, no entanto, vem evoluindo ao longo dos anos até chegarmos a um conceito ampliado, o de ecossistemas de inovação – um tipo de arranjo que extrapola os limites geográficos e as ambições de um parque tecnológico. Nesse contexto, vem ganhando espaço um olhar que não pensa prioritariamente a inovação para o mercado, mas sim para a cidade.

Ancorados na lógica da sociedade em rede, os ecossistemas urbanos de inovação estimulam a troca de conhecimentos, experiências e aprendizados entre os stakeholders locais. Assim, criam-se as condições para que ideias se transformem em realidade por meio de atração de talentos, pesquisa, inovação, investimentos e validação de projetos.

PACTO ALEGRE

Existem exemplos de experiências desse tipo pelo Brasil, de capitais a municípios menores. No primeiro caso está Porto Alegre, que criou um ecossistema de inovação com o propósito de repensar seus caminhos. Lançado em 2019, o Pacto Alegre nasceu pelas mãos de três universidades, a Federal do Rio Grande do Sul, a Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) e a PUC-RS, que se uniram em 2018 para formar a Aliança para a Inovação.

A partir dessa parceria, elas convidaram Prefeitura, Câmara Municipal, mídia e entidades da sociedade civil para a formação de um grande fórum para pensar a cidade. O objetivo é transformar Porto Alegre em referência no ecossistema global de inovação.

OS ECOSSISTEMAS URBANOS DE INOVAÇÃO ESTIMULAM A TROCA DE CONHECIMENTOS, EXPERIÊNCIAS E APRENDIZADOS ENTRE OS STAKEHOLDERS LOCAIS.

Depois de vários encontros, foram definidos, coletivamente, os macrodesafios que deveriam ser trabalhados no âmbito do Pacto Alegre, como modernização da administração pública, qualidade de vida, imagem da cidade e reforma urbana.

Como parte do processo, foram abertas chamadas públicas para startups, empresas, pesquisadores, ONGs e quem mais quisesse inscrever projetos para essas verticais. Numa primeira fornada, 39 projetos foram selecionados, envolvendo iniciativas voltadas à educação e turismo, passando por urbanismo e modernização de serviços públicos. Hoje, mais de 100 entidades participam do Pacto Alegre.

PRO_MOVE_LAJEADO

Outro exemplo que vale observar fica pertinho de Porto Alegre. Em Lajeado, a pouco mais de uma hora da capital gaúcha, foi também a academia que deu o empurrão na história toda. A Universidade do Vale do Taquari (Univates), uma instituição de ensino superior comunitária com mais de 50 anos, chamou os outros players locais para um grande debate sobre os rumos do município, que tem 85 mil habitantes e funciona como centro econômico do vale, região que concentra 37 municípios e mais de 300 mil habitantes.

O pano de fundo era a avaliação de que Lajeado, que se fez a partir da indústria e do setor de alimentos, precisava agora de um modelo de desenvolvimento mais adequado para a economia do conhecimento. Em outras palavras, é aquela história de que o que te trouxe até aqui não é o que vai garantir o seu futuro. A cidade precisaria trabalhar uma nova agenda econômica, com foco na inovação, no conhecimento e na atualização tecnológica da indústria regional.

CASOS COMO O DE LAJEADO E DE PORTO ALEGRE SUGEREM A BUSCA DE NOVOS MODELOS DE GOVERNANÇA LOCAL, MAIS PARTICIPATIVOS E DEMOCRÁTICOS.

Assim nasceu, em 2019, o Pro_Move Lajeado, ecossistema de inovação local que reúne prefeitura, universidade, empresas e sociedade civil. Para nortear os trabalhos, a Fundação Certi, de Santa Catarina, preparou um diagnóstico sobre a cidade e um plano de atividades. Isso resultou em grupos de trabalho, como de alimentos, tecnologia e saúde, que se reúnem mensalmente para propor ações.

Entre os projetos realizados ou em andamento está o Trilhas da Inovação, um programa de formação em tecnologia para alunos do 9º ano da rede municipal aplicado pelo Senai. O objetivo do curso é estimular os adolescentes a continuar seus estudos na área de tecnologia e  inovação. O programa teve aulas de eletrônica, robótica, tecnologias da indústria 4.0 e fundamentos para programação de software.

Outros exemplos são a criação da Agência de Desenvolvimento e Inovação Local (AGIL) e a construção do LabiLá, laboratório de inovação liderado pela prefeitura.

Casos como o de Lajeado e de Porto Alegre sugerem a busca de novos modelos de governança local, mais participativos e democráticos, para a solução de problemas reais das cidades.

Transformar isso em realidade, em ações que cheguem lá na ponta, na vida das pessoas, não é tarefa simples. Mas exemplos desse tipo mostram que, na era do ESG, a cooperação entre poder público, academia, iniciativa privada e sociedade civil é o caminho mais curto para inovar, provocar impacto social e exercer a cidadania.


SOBRE O AUTOR

Clayton Melo

Cofundador da plataforma A Vida no Centro, Clayton tem MBA em marketing, é especialista em comunidades, conteúdo e curadoria de eventos e festivais para temas como futuro das cidades, negócios digitais, inovação social, tecnologia e cenários futuros. Atuou na Istoé Dinheiro, no Meio e Mensagem e na Gazeta Mercantil.


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Por que o público jovem vem comprando mais livros e mudando as editoras

Livros para adolescentes e jovens adultos se tornam carros-chefes de editoras e assunto no TikTok

Por Célia de Gouvêa Franco — Para o Valor, de São Paulo 28/08/2022

Adolescente não lê livros.

Lê, sim.

Jovem não lê livros.

Lê, sim.

Tanto eles leem que livros dirigidos para o público entre 14 ou 15 anos até os 20 e poucos e no máximo 30 anos dominam as listas de best-sellers de obras de ficção no Brasil e em outros países e se tornaram uma fonte importante de receita, às vezes até a principal, para editoras, inclusive algumas das mais tradicionais. A renovação do público leitor, desta forma, cria esperanças de que eles continuem comprando livros também na maturidade.

Por qualquer ranking que se tome, a venda de obras literárias para essa faixa etária ganhou muita força recentemente, fenômeno causado em parte pela oportunidade de esses leitores se sentirem parte de uma comunidade ao comentarem o que leram nas redes sociais, em parte por funcionar como válvula de escape durante a fase mais aguda da pandemia de covid-19 – um hábito que não diminuiu mesmo com o fim dos longos períodos de quarentena.

O sucesso desse nicho de mercado colocou em evidência autores que têm se mostrado muito produtivos, lançando livros com grande frequência, algumas vezes até como resultado dos pedidos dos leitores que, nas redes sociais – especialmente no TikTok -, os incentivam a escrever mais. E essa é outra peculiaridade do público teen e de jovens adultos: constante comunicação com os autores e as editoras de livros.

As publicações para o público entre 14 e 15 anos tomaram de assalto as listas de best-sellers, como se vê, por exemplo, na compilação feita pelo PublishNews a partir das vendas em livrarias mais Lojas Americanas, Magazine Luiza e Submarino. No primeiro semestre deste ano, entre os 20 títulos de ficção mais populares, 13 eram livros para adolescentes ou jovens adultos – dois deles, os campeões, ultrapassando inclusive “Torto arado” (ed. Todavia), de Itamar Vieira Júnior, que liderou as vendas durante todo o ano passado e o início de 2022.

Com essa tendência, livros para esse segmento de leitores passaram a representar uma fonte de receita financeira importante para as editoras. Na quase centenária Editora Nacional, que começou a investir em obras para adolescentes e jovens adultos há dois anos, 30% dos lançamentos são voltados para esse público desde então. A participação no faturamento total é, porém, desproporcionalmente muito maior – 60%, diz Luiza Del Monaco, gerente editorial da empresa. O cenário é parecido na editora Record, que criou uma área específica para o público jovem, o Galera, que há três anos era o quarto selo que mais vendia livros, segundo Rafaella Machado. Hoje, o Galera é o campeão de vendas.

Mauro Palermo, diretor da Globo Livros, dá um exemplo do interesse dos leitores jovens – 75% das vendas da editora na Bienal do Livro, realizada recentemente em São Paulo, foram do selo Alt, que passou a existir em 2014, voltado para livros de entretenimento dos jovens.

Segundo Mauro Palermo, da Globo Livros, 75% das vendas da editora na Bienal do Livro foram do selo Alt, dedicado ao segmento jovem

Os bons resultados das vendas na Bienal foram de tal ordem que fazem Sônia Machado Jardim, presidente do Grupo Editorial Record, se entusiasmar: “A gente brinca que, quando alguém um dia estiver deprimido, o melhor é ir à Bienal do Livro. A gente vê aquela multidão avassaladora de jovens; está ali o futuro do mercado editorial. É um espetáculo essa paixão, determinados atores tratados como astros de rock. Você se sente no Rock in Rio!”, disse, durante sua participação na Sabatina PublishNews no mês passado.

Como se explica o interesse de adolescentes pelos livros se há tantas outras formas de diversão num mundo tão digitalizado como o nosso? Para Rafaella Machado, da Record, o isolamento imposto pela pandemia fez com que muitas pessoas, inclusive os jovens, descobrissem o prazer de ler, que não diminuiu com a volta à rotina mais “normal” dos últimos tempos. Livros passaram a ser vistos, por esses recém-convertidos em leitores, como uma forma de sentir engajados numa comunidade – nas redes sociais ou fora delas – para tratar de questões que normalmente fazem adolescentes sofrerem, como o papel das mulheres na sociedade, protagonismo negro, temas ligados à sexualidade e aos grupos LGBTQ+. Todos esses assuntos são largamente abordados por livros que procuram falar com o público de mais de 15 e menos de 25 ou 30 anos.

Havia, até recentemente, um certo “abismo” entre o público infantil, consumidor de livros, e o adulto, afirma Samuel Seibel, dono da Livraria da Vila. Nos anos entre essas duas faixas de idades, os adolescentes paravam de ler livros até como uma forma de rebeldia. Essa situação começou a mudar há alguns anos, com o enorme sucesso da série “Harry Potter”, da escritora inglesa J. K. Rowling, que incentivou milhares de crianças e depois adolescentes a ler livros. Com naturalidade, eles continuaram com o hábito da leitura, numa tendência que não é, claro, percebida só no Brasil, mas em dezenas de outros países. Para Seibel, há indícios de que ler livros é mais do que apenas “uma moda” entre os teens, que vai passar.

Luiza Del Monaco, da Nacional, defende que o sucesso de um livro para essa faixa de público está ligado frequentemente à defesa de uma “tese”. Mais do que apenas contar uma história, o adolescente ou jovem adulto quer se sentir engajado numa causa. Paula Drummond, editora da Alt, lembra ainda que muitos pais não gostam de gastar muito com videogames, mas aprovam que seus filhos teens comprem livros. E, curiosamente, apesar de ser um público que vive mergulhado no mundo digital, adolescentes e jovens leem preferencialmente livros em papel.

Mantida essa tendência, o interesse deles pela leitura pode ajudar não apenas o mercado, mas o país, diz Palermo, da Globo Livros. Os livros podem ser uma plataforma de mudança da sociedade, com maior aceitação da diversidade. Hoje, os adolescentes e jovens leem basicamente ficção, mas o hábito da leitura pode levá-los a experimentar outros gêneros.

Para atender a esse público, exigente e que acompanha os lançamentos internacionais e se interessa por detalhes nas capas dos livros, as editoras passaram a publicar com muito maior frequência romances, livros de aventuras e fantasia. Também aumentaram as tiragens. E incrementaram as equipes que cuidam das redes sociais para manter a comunicação constante com os leitores. Fazem mais promoções, com enorme êxito. Rafaella Machado conta que ao anunciar uma edição especial de “Corte de espinhos e rosas”, livro de fantasia de Sarah J. Maas, a Galera Record vendeu 25 mil exemplares em dez minutos. Paula Drummond, da Globo Livros, informa, por sua vez, que neste segmento os leitores têm duas “manias” – ler livros e comprar livros. Se uma editora faz um lançamento de um best-seller com uma capa diferente da versão original, por exemplo, é muito provável que milhares de adolescentes queiram comprá-lo mesmo que já tenham um exemplar, lido e discutido.

O exemplo mais ilustrativo do êxito das obras para o segmento dos 15 aos 25 (ou um pouco mais) é o da escritora americana Colleen Hoover. Na semana passada, a lista dos 15 livros impressos e eletrônicos de ficção mais vendidos nos Estados Unidos compilada pelo “The New York Times” incluía seis obras dela, sendo que o seu mais vendido – “É assim que acaba”, na edição brasileira – está na listagem há mais de um ano: 61 semanas precisamente. No ranking de 150 obras do “USA Today” da primeira semana de agosto, que engloba qualquer gênero e livros voltados para qualquer faixa etária no mercado americano, constam 15 das 22 obras escritas por Hoover – um número muito maior do que de qualquer outra pessoa.

No Brasil, ela é publicada pelo selo Galera, da Record, com sucesso parecido ao registrado nos Estados Unidos. Cerca de 1,2 milhão de exemplares dos seus livros foram vendidos no Brasil, informa a editora-executiva da Galera, Rafaella Machado. No levantamento da Amazon, os livros de Hoover ocupam 6 dos 15 mais vendidos no mercado americano e 3 no Brasil.

Pode se considerar que Colleen Hoover, uma ex-assistente social que bancou a publicação dos seus primeiros títulos por não encontrar editor interessado, radicaliza na criação dos personagens das suas novelas. Em “Reminders of Him” (“Uma segunda chance”, na versão brasileira, lançada em maio), a protagonista não apenas perde o amor da sua vida – ela o mata, por acidente, e dá à luz a uma filha, na prisão.

Como se pode imaginar, com todo esse sucesso de vendas, a vida de Hoover teve reviravoltas semelhantes às que ela retrata nas suas novelas. Ela morava num trailer, numa cidade no Texas, quando publicou o primeiro livro, em 2012 – ela queria compartilhar uma história com sua avó, que tinha acabado de comprar um Kindle, como contou numa entrevista recente ao “The Washington Post”. Um ano depois do primeiro lançamento, ela já tinha dinheiro suficiente para largar o emprego e passou a escrever livros em tempo integral. Ganhou tanto que, por meio da entidade benemérita que fundou, Bookworm Box, Hoover já doou mais de US$ 1 milhão.

Hoover, como outros autores, foi extremamente beneficiada pelo crescimento da audiência do TikTok. Ela já fazia sucesso antes da explosão na audiência da rede social, mas foi muito ajudada pela divulgação dos seus livros e pela formação de grupos de leitores que discutem os enredos das suas obras, as capas, as próximas publicações e comparam as traduções com os textos originais.

https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2022/08/28/por-que-o-publico-jovem-vem-comprando-mais-livros-e-mudando-as-editoras.ghtml

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As 10 montadoras de carros mais valiosas do mundo

Por Paulo Amaral | Editado por Jones Oliveira | Canaltech 10 de Julho de 2022 

Elon Musk, CEO da Tesla e um dos maiores bilionários do planeta, afirmou recentemente que a fabricante de carros elétricos “corria o risco de falir” se não tomasse algumas providências, como o corte de funcionários, o fim do home office e o congelamento de contratações. O ranking das 10 montadoras de carros mais valiosas do mundo, no entanto, aponta na direção contrária.

De acordo com os números mais recentes da Companies Market Cap, consultoria especializada em quantificar o valor de mercado das principais empresas do mundo, a Tesla lidera, com ampla vantagem, o top 10 específico das principais montadoras de carros do planeta.

A Tesla está avaliada em US$ 720,4 bilhões, um valor quase três vezes maior do que a Toyota, segunda colocada no ranking, e que hoje está cotada no mercado em US$ 209,8 bilhões. A chinesa BYD, que recentemente assumiu o top 3 no lugar da Volkswagen, segue no pódio, com valor estimado de US$ 140,4 bilhões.

Ásia domina top 10 das montadoras de carros

Apesar da enorme distância da Tesla para as demais no top 10 das montadoras mais valiosas do mundo, quem domina o ranking são as empresas de origem asiática. A Toyota, fabricante japonesa, é a melhor colocada, na vice-liderança, seguida pela BYD (China), terceira, Great Wall Motor (China), nona e Honda (Japão), décima da lista.

O top 10 conta, além da Tesla, com outras duas empresas de origem estadunidense, a General Motors (7ª) e a Ford (8ª), e fica completo com as três montadoras alemãs: Volkswagen (4ª), Mercedes-Benz (5ª) e BMW (6ª).

As 10 mais valiosas do mundo

10 – Honda (US$ 40,02 bilhões)

A fabricante japonesa, que em breve trará novos modelos híbridos ao Brasil, abre a lista das 10 montadoras de carros mais valiosas do mundo. Segundo a consultoria especializada, a marca está avaliada em US$ 40,2 bilhões.

9 – Great Wall Motor (US$ 40,24 bilhões)

A Great Wall Motor (GWM) é outra que está disposta a fazer do mercado brasileiro sua nova casa. Para isso, prepara o primeiro lançamento híbrido ainda em 2022 e promete apresentar aos consumidores uma tecnologia revolucionária.

8 – Ford (US$ 43,67 bilhões)

A oitava empresa na lista das 10 mais valiosas montadoras de carros do mundo está tomando a direção contrária, ao menos no que diz respeito ao Brasil. A Ford fechou as portas no País, mas segue com bons modelos à venda por aqui, e espera contar com o nome construído ao longo do tempo para se manter entre as mais bem posicionadas em vendas.

7 – General Motors (US$ 45,59 bilhões)

A General Motors tem agradado ao público brasileiro, e prova disso é o sucesso de vendas do Onix, do Onix Plus e do SUV Tracker por aqui, tanto em 2021 quanto em 2022. Esses números contribuem para a marca ser a sétima mais valiosa do mundo entre as fabricantes de carros.

6 – BMW (US$ 50 bilhões)

A primeira representante da Alemanha no ranking das 10 montadoras de carros mais valiosas do mundo em 2022 é a BMW. A empresa, que recentemente apresentou o iX, primeiro SUV elétrico inteligente do mundo, já testado pelo Canaltech, está avaliada em US$ 50 bilhões, e ocupa a sexta posição na lista.

5 – Mercedes-Benz (US$ 58,51 bilhões)

A Mercedes-Benz abre o top 5 entre as montadoras de carros mais valiosas do mundo e, se a ousada estratégia da marca emplacar, tem tudo para subir ainda mais no ranking em pouco tempo. A segunda marca alemã da lista anunciou que vai privilegiar o lançamento de carros premium, portanto, mais caros e de maior valor. Será que dá certo?

4 – Volkswagen (US$ 92,18 bilhões)

A quarta colocada na classificação é a Volkswagen. A última representante alemã, e a melhor posicionada no ranking, abrirá em breve o leque e também passará a produzir carros elétricos com pegada off-road. Mais uma cartada para voltar a assumir o top 3 entre as mais valiosas montadoras do mundo.

3 – BYD (US$ 140,43 bilhões)

A BYD tomou a terceira posição entre as montadoras de carros mais valiosas do mundo da Volkswagen no início de junho e, desde então, segue intocável no ranking. A marca tem entre os planos futuros passar a fabricar seus próprios carros elétricos no Brasil, e isso deve ajudar a impulsionar ainda mais as vendas por aqui.

2 – Toyota (US$ 209,89 bilhões)

A vice-campeã na lista de 10 montadoras de carros mais valiosas do mundo é a Toyota, avaliada em US$ 209,89 bilhões. A marca é bastante popular no Brasil, e deve ganhar ainda mais mercado com o lançamento de um novo SUV compacto, como revelado há pouco tempo pela marca.

1 – Tesla (US$ 720,49 bilhões)

A montadora de carros mais valiosa do mundo é ela, a Tesla, referência em carros elétricos e em tecnologia semiautônoma para automóveis. Ela ultrapassou a casa dos US$ 700 milhões em sua avaliação mais recente, e segue despertando curiosidade por aqui. Quem não gostaria de saber quanto custa um carro da Tesla no Brasil? O Canaltech foi atrás da resposta, e ela explica um pouco o porquê da montadora de Elon Musk valer tanto.

https://canaltech.com.br/carros/montadoras-de-carros-mais-valiosas-mundo/

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IA vai decidir melhor que humanos, diz vencedor de Nobel de Economia

Para Daniel Kahneman, a inteligência artificial poderá desenvolver um julgamento melhor que os altos executivos

Por Sergio Tahuata – Valor – 30/08/2022 

A inteligência artificial poderá tomar decisões melhor do que qualquer líder empresarial humano, quando as bases de informações forem suficientemente grandes, afirmou o vencedor do prêmio Nobel de Economia, Daniel Kahneman, em evento da Neoway e B3. “O que vai acontecer quando a ‘IA’ desenvolver um julgamento empresarial melhor do que as pessoas que têm experiência?”, questionou. “Os altos executivos perderão a autoridade”, acrescentou o especialista em economia comportamental.

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Conforme o pesquisador, “as fórmulas se saem melhor que as pessoas na maioria dos julgamentos porque não sofrem com os ruídos”. Segundo Kahneman, “a maneira como as pessoas aplicam as regras não é consistente, mas os algoritmos sempre chegam na mesma resposta ao aplicar uma regra, o que é uma grande vantagem”.

Na visão do especialista, o problema nas decisões humanas é o que ele chama de ruído e viés. “Essas são palavras com muitos significados”, disse, mas na questão de como as pessoas tomam decisões, estudos mostram que os resultados para um mesmo problema variam conforme quem julga a situação. “Isso é o ruído.”

Kahneman citou um estudo realizado em uma companhia de seguros sobre avaliação para subscrição de risco, ou seja, colocar um valor para um determinado risco. De acordo com o especialista, quando os profissionais eram questionados sobre qual seria uma diferença razoável para uma discrepância de respostas, o consenso era de algo em torno de 10%.

Mas, ao se chamar aleatoriamente diferentes subscritores, os valores atribuídos aos riscos variaram na média em 50%. “Ou seja, cinco vezes mais do que as pessoas esperavam que seriam os resultados. E isso é o ruído.”

Conforme Kahneman, a questão do ruído pode atrapalhar as organizações, porque decisões erradas podem se acumular e levar a resultados negativos. Por outro lado, algoritmos não são influenciados pelos vieses ou intuição, como os seres humanos.

O prêmio Nobel de Economia apontou ainda que os vieses encontrados em algoritmo são, na verdade, tendências que vêm das pessoas que criaram os critérios inseridos nos programas. “Nunca há um viés em um algoritmo que não venha de um ser humano. Como não há ruído [no algoritmo] o viés ocorre porque a escolha errada foi feita na hora de decidir sobre as variáveis”, ponderou.

Na avaliação de Kahneman, “o viés sempre existe nos dados”. O pesquisador citou um estudo realizado pela Amazon sobre o que faz um funcionário ser um bom funcionário. “O algoritmo chegou à conclusão que as mulheres têm uma situação pior que a dos homens. Mas isso ocorreu porque fizeram um algoritmo retrospectivo, levando em consideração quem teve sucesso no passado. Então, se tem um viés no passado, isso é reproduzido no algoritmo, ou seja, foi um viés do criador do algoritmo.”

Essa questão é apontada pelo especialista em economia comportamental como muito importante no momento atual. “Nós estamos cercados pelos algoritmos, que exercem influência sobre nós”, afirmou. “Quando esses mecanismos tentam adivinhar o que você gosta, adivinham o que você gosta de usar. Um dos efeitos disso nos EUA é a polarização política. De várias maneiras a polarização é facilitada pelos algoritmos. As pessoas, em geral, não estão interessadas no outro lado, na outra opinião, as pessoas querem ver visões mais extremas da sua própria opinião e isso é o que aumenta a polarização.”

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2022/08/30/ia-vai-decidir-melhor-que-humanos-diz-vencedor-de-nobel-de-economia.ghtml

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Saiba quais são as habilidades que as empresas buscam nos profissionais com mais de 50 anos

Por Bianca Zanatta – Estadão – 20/08/2022 

Comprometimento, inteligência emocional e experiência estão na lista de qualidades mais procuradas; profissional 50+ tem menor rotatividade e engajamento maior, dizem empresas

Ter um time diverso, que consegue pensar em várias possibilidades e mercados, virou um grande trunfo para as empresas alcançarem um público cada vez maior. Nesse cenário, algumas habilidades dos profissionais acima de 50 anos passaram a ser vistas como estratégicas para os negócios. Na lista de competências estão comprometimento, inteligência emocional e experiência.

“Os funcionários mais maduros têm entre suas características poder de persuasão, passam mais confiança e desenvolvem uma comunicação mais assertiva com os clientes devido à bagagem de vida”, afirma o presidente da CotaFácil, Ismael Dias. Segundo ele, a empresa está em processo de contratação de dez trabalhadores acima de 50 anos para atuar na área de televendas de consignados, cujos clientes são dessa faixa etária.

Com diversidade etária, acaba-se formando uma mentoria entre os mais velhos e os mais novos no Grupo Águia

Com diversidade etária, acaba-se formando uma mentoria entre os mais velhos e os mais novos no Grupo Águia Foto:

Hoje com 120 colaboradores, a maioria entre 18 e 35 anos, a companhia quer equilibrar o quadro com mais diversidade etária e inclusão. “Profissionais com mais de 50 anos já conhecem seus pontos fortes e fracos, suas habilidades de comunicação estão mais apuradas e podem ser bons líderes por causa do tempo no mercado de trabalho.” Além disso, diz o executivo, esses profissionais são mais comprometidos com a empresa, trazem uma cultura corporativa e diminuem a rotatividade.

Essas também são as características que movem a fundadora e diretora financeira da rede de academias Red Fitness, Ellen Fernandes, em busca de profissionais mais velhos. A empresa já tem uma participação relevante em algumas áreas, como nos cargos de gestão, em que 90% dos funcionários estão nessa faixa etária. Entre os treinadores físicos, no entanto, a representatividade cai para 10%.

“O mercado de trabalho, principalmente o fitness, busca inovação ao mesmo tempo que quer experiência e profissionais com inteligência emocional, que é fundamental para conviver com o estresse do cotidiano e atuar com trabalhos em equipe.” No geral, afirma Ellen, profissionais mais velhos são mais responsáveis nas entregas, sem a necessidade de o líder ficar monitorando de perto o dia a dia.

Cultura

Com uma agenda sólida de iniciativas voltadas ao tema de diversidade e inclusão, a PepsiCo criou o programa Golden Years. O objetivo é combater o etarismo, abrindo espaço para profissionais com mais de 50 anos. Hoje, mais de mil pessoas (cerca de 8,3% do time) na empresa são dessa faixa etária e estão alocados em todos os níveis e áreas. Segundo a empresa, a rotatividade desse público é 49% menor; o absenteísmo, 27% mais baixo; e o engajamento, 3% superior.

“Para todas as nossas oportunidades, buscamos e valorizamos talentos que tenham habilidades e soft skills que vão além da técnica e possam agregar conhecimento com experiências profissionais e pessoais”, afirma Fábio Barbagli, vice-presidente de RH da PepsiCo Brasil. “Profissionais 50+, especificamente, trazem uma bagagem de experiências que para nós é muito valiosa.”

Troca produtiva

Outra empresa que apostou nos profissionais acima de 50 anos foi o Grupo Águia. Para o projeto de Copa do Mundo, que reúne Stella Barros, Top Service, Gray Line, Lynx Aviação e 4BTS, a diretora de cultura, Agatha Abrahão, conta que foram contratados seis coordenadores, todos com mais de 50 anos. “Eles têm skills fortes de operações de grandes eventos, com um currículo imenso de experiência em Copas do Mundo e no Panamericano”, destaca a executiva. “Precisa de uma visão muito abrangente de cenários e riscos. Tem de ter uma escola muito forte.”

Ela conta que, a exemplo do que ocorre no projeto, a diversidade etária sempre foi orgânica no grupo. A heterogeneidade do time acaba criando uma mentoria informal entre os mais velhos e os profissionais mais jovens. “Os 50+ também veem a oportunidade de aprendizagem com os mais jovens. É uma troca produtiva.”

https://www.estadao.com.br/economia/sua-carreira/habilidades-que-empresas-buscam-em-funcionarios-mais-velhos/

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Regimes autoritários fazem aposta de risco em ‘cidades do futuro’, como a da Arábia Saudita

Por Carolina Marins – Estadão – 26/08/2022 

Baixo conhecimento tecnológico de governos e busca por projeção política faz projetos de novas cidades explodirem em duas décadas, mas raramente são concluídos e possuem alto risco

Uma cidade com dois arranha-céus espelhados no meio do deserto, com trabalhadores robôs e onde tudo está a cinco minutos a pé de distância. Esse foi o projeto apresentado pelo príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed Bin Salman, há algumas semanas para a sua cidade futurística Neom. A ideia, no entanto, está longe de ser inovadora. É comum principalmente entre regimes autoritários e países pobres da África e Ásia, onde só nos últimos vinte anos mais de 150 projetos semelhantes já surgiram em mais de 40 países, com raros casos de sucesso.

Desde meados dos anos 1990, governos apresentaram projetos semelhantes ao de Bin Salman, com propostas de cidades inteligentes, tecnológicas, ecológicas, inclusivas e sustentáveis. A ideia é criar do zero uma cidade futurística, superando os velhos problemas das metrópoles tradicionais, como superpopulação, moradias inadequadas e, mais recentemente, desastres ambientais causados pelas mudanças climáticas.

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Essa explosão de “novas Dubais” e “novos Vales do Silício” é comum em países com um perfil similar ao da Arábia Saudita. Nações minúsculas como o Kuwait chegam a ter quase 10 projetos dentro do próprio território. Mas a campeã nesses projetos é a China, que financia planos não só dentro de seu território, quanto em outros países como Indonésia, Casaquistão, e outros.

Imagem dos dois arranha-céus chamados A Linha que devem ser o centro da cidade futurística de Neom

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“O público e os governos são muito suscetíveis à ideia de começar uma cidade do zero e construir algo novo que resolva todos os nossos problemas”, explica Sarah Moser, professora no Departamento de Geografia da Universidade McGill e chefe do laboratório New Cities que está mapeando o surgimento dessas cidades desde os anos 2000. “É uma ideia muito sedutora quando alguém apresenta uma bela cidade utópica construída do zero”.

Seu mapeamento vai desde projetos de enormes distritos construídos para serem conjuntos habitacionais como Cidade do Povo no Acre, até megaprojetos como Masdar, nos Emirados Árabes Unidos. “As pessoas ficam muito empolgadas com isso, mas não são especialistas e não sabem quais são as consequências ou quais são os riscos. Estes são projetos de muito alto risco”, enfatiza.

Exemplos de ‘sucesso’

Uma megacidade do futuro pode ter diferentes objetivos. No caso de Neom, a intenção é reduzir a dependência da economia saudita ao petróleo. Songdo, na Coreia do Sul, foi construída para ser um hub de negócios internacional e uma cidade “onipresente”, e é o primeiro exemplo considerado de sucesso em parte do que se propõe. Outro nome famoso é Khorgos (ou Horgos), da China, que se propõe a ser um porto seco e uma zona econômica especial.

“Estilo de vida confortável. Conveniência. Educação de qualidade. Arquitetura diferenciada. A próspera comunidade verde de Songdo oferece tudo isso. Os moradores da cidade encontram tudo o que precisam. Trabalho, casa, escola e lazer estão sempre a apenas 15 minutos a pé”, diz a campanha de divulgação no site oficial da cidade de Songdo.

Já Khorgos, localizada na fronteira com o Casaquistão, faz parte de um imenso projeto chinês da Nova Rota da Seda para conectar Oriente e Ocidente a fim de escoar produtos com muito mais fluidez. “Khorgos é um projeto emblemático deste trabalho em andamento, um centro de transporte marítimo internacional e zona de livre comércio que seus promotores dizem estar prestes a se tornar a próxima Dubai”, escreveu o The New York Times ao fazer um perfil da cidade em 2019.

Mas há um problema: ninguém quer morar nessas cidades. Songdo abriga um terço do que planejou e sua meta de inauguração já foi adiada de 2020 para 2022 e ainda não está concluída. “As pessoas querem viver em Seul, porque é onde está a cultura, a vida noturna, suas famílias”, afirma Moser. “Quem se mudou para Songdo foi sem muita vontade. É uma cidade muito pequena, muito parada. E está profundamente atrasada”.

O mesmo fenômeno acontece em Sejong, também na Coreia do Sul e em Ordos Kangbashi, na China, conhecida como “a maior cidade fantasma do mundo”, construída para ter 1 milhão de habitantes e tem 150 mil.

“E Neom promete abrigar nove milhões de pessoas. Eu não consigo encontrar uma única pessoa que gostaria de morar lá”, afirma Moser. “Todo mundo com quem falei nas últimas semanas me disse que odiaria morar lá. Dizem que seria como morar em um shopping center em que você nunca estivesse realmente do lado de fora. Se Bin Salman conseguir encontrar nove milhões de pessoas para morar lá, eu vou ficar bem surpresa”.

Febre de projetos inacabados

Moser explica que a criação de novas cidades, mais modernas e inovadoras, é algo antigo da humanidade. Mas nunca se viu uma explosão tão grande de projetos ao mesmo tempo como dos anos de 1990 pra cá e novamente após a crise de 2008, todos localizados no “sul global”, uma onda impulsionada principalmente por busca de investimento estrangeiro e empresas de tecnologia.

Neom não é o único projeto da Arábia Saudita, há cerca de cinco no reino inclusive o megaprojeto King Abdullah Economic City. A Indonésia tem mais de 10, a Tanzânia tem 11 e o Marrocos passa das duas dezenas de projetos. “Empresas privadas da Rússia, Coreia do Sul, China e outras estão envolvidas na construção de novas cidades na América Latina, África e Golfo”, aponta o relatório produzido pelo laboratório de Moser em 2020.

“Promotores imobiliários estão procurando novos mercados o tempo todo e definitivamente estão lucrando com esses projetos, a indústria da construção também e as empresas de tecnologia estão tentando lucrar com este logo de ‘smart cities’ que foi associado com tecnologia, o que não é necessariamente verdade”, aponta Moser.

Para Lembrar

O resultado é uma série de projetos não executados ou inacabados com custos elevados para os Estados. Um caso próximo é a Ciudad del Conocimiento Yachay, no Equador, planejada para ser “o Vale do Silício dos Andes”, que começou com uma universidade inspirada no MIT americano onde estudantes poderiam viver com direito a creches e serviços no campus. Em seis anos, o projeto recebeu um investimento de US$ 600 milhões em recursos públicos, e abriga somente mil estudantes, segundo relatório da Assembleia Nacional do país.

O Estado equatoriano foi o maior investidor do projeto, que contou com a participação de duas empresas estatais chinesas. “Capital chinês está circulando globalmente e estão construindo cidades por toda parte. Por exemplo, no Sri Lanka, na Malásia, em Mianmar, em Omã, muitos lugares que são geopoliticamente estratégicos para seus interesses nacionais”, pontua a professora.

Ciudad del Conocimiento Yachay foi projetada para ser um polo científico no Equador

Ciudad del Conocimiento Yachay foi projetada para ser um polo científico no Equador 

Autoritarismo e exclusão

O fato de todos esses novos projetos estar localizado no chamado sul global não é por acaso. É onde concentra os países com menores rendas e, portanto, os maiores problemas envolvendo suas cidades atuais. Nessas condições, a ideia de fazer novos locais de moradias e centros econômicos parece sedutora, ainda que o custo seja alto para os governos. E também porque é nesta região geográfica que está a maior concentração de governos autoritários.

“Se esses projetos surgissem no Canadá, por exemplo, haveria protestos e os políticos iam perder as suas carreiras. Porque é uma democracia e os cidadãos comuns são capazes de pesar essas decisões que são custosas. É por isso que muitas dessas novas cidades estão surgindo em um contexto autoritário onde os cidadãos não têm conhecimento sobre o que está acontecendo e não há nenhum tipo de processo de participação pública”, pontua.

Neom faz parte de um projeto muito maior do príncipe herdeiro saudita, o Vision 2030, que busca superar a imagem de autoritarismo e violação de direitos humanos que seu governo tem, por meio da modernidade. “Seu principal problema é que todos o odeiam porque ele assassinou aquele jornalista e ele é uma espécie de tirano, então, se anunciar este novo projeto faz com que as pessoas falem sobre algo além do fato de que ele mata jornalistas, isso responde ao problema dele”, afirma Moser.

Além de não resolver os problemas econômicos e sociais dos países, essas megacidades acabam acentuando outro problema: a exclusão social. O continente africano concentra mais de 70 projetos que prometem ser para “pessoas de baixa renda morarem”, mas os preços da moradia tornam a promessa inviável. “Há um no Quênia em que as casas custavam US$ 200.000 e um salário da classe média no Quênia é de cerca de US$ 20 por dia. Então a hipoteca seria de 500 anos. É impossível para qualquer um pagar isso. Eles estão basicamente mentindo e deturpando o projeto para evitar críticas.”

https://www.estadao.com.br/internacional/regimes-autoritarios-fazem-aposta-de-risco-em-cidades-do-futuro-como-a-da-arabia-saudita/

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De Alpha a Zap


Por Adriano Oliveira – Meio – 27/08/2022
De cabeça abaixada, os olhos brilham em frente a uma tela acariciada por dedos que repetem o mesmo movimento de arrastar, de cima para baixo, de lado a lado, em movimentos pinça para o zoom, a cada poucos segundos. O almoço chega. Nem é preciso olhar para o prato. A não ser para fazer uma foto. A rotina segue, agora, apenas com uma das mãos, enquanto a outra desempenha a mecânica tarefa de segurar o talher para a displicente alimentação. E assim passam-se minutos de um mergulho em interações virtuais — e virtualmente zero das reais. Essa cena pode descrever o almoço de muitos de nós em um dia qualquer. Mas também narra o cotidiano de crianças e adolescentes.
A geração Alpha, os nascidos a partir de 2010, é a primeira 100% digital. Embora a geração anterior, a Z, já tenha passado parte da infância acessando a internet e ostentando seus primeiros smartphones, os Alphas nasceram em um mundo transformado e dominado pelas inovações tecnológicas, que mudaram radicalmente as relações sociais. A sociedade digital não mais depende de mídias físicas para entretenimento ou informação: consome conteúdo escolhendo o que ver, quando e como quiser. Essa nova geração simplesmente desconhece o analógico.
O ser humano é um animal relacional. A forma como nos desenvolvemos é na conexão com os outros. Aprendemos a falar ao ouvir nossos pais, avós, tios e tias, pessoas do nosso ciclo. Definimos nossas identidades na troca. Nos exemplos. Conforme reduzimos os componentes familiares e o trabalho ultrapassa os limites antes mais claros entre vida pessoal e profissional, a nova leva geracional se desenvolve mirando outros espelhos. Pais e filhos dividem a atenção entre si com os dispositivos eletrônicos. A criança Alpha se acostumou a disputar a atenção dos adultos com as telas. E também a se entreter e perceber o mundo com essa intermediação.
É um assombro observar a facilidade com que os Alpha operam tablets e smartphones, transitando com desenvoltura por games, streamings, diferentes aplicativos e vídeos do YouTube, TikTok e Instagram. A sensação inicial de quem convive com essas criaturas digitais, mesmo os mais novinhos, é de que essa é a geração mais inteligente que já existiu. E há alguma dose de verdade nessa percepção. Ao menos, pode-se antever como uma das características da geração Alpha o fato de que ela vai ser a mais bem formada da história. “Eles são considerados mais inteligentes porque têm uma capacidade de observar o ambiente, de entender o que está acontecendo e transformar isso em conhecimento [de maneira] mais habilidosa do que as gerações anteriores”, explica Maysa Fagundes, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP com ênfase no estudo da geração Alpha. “Então, conseguem transformar o aprendizado em conhecimento com um pouco mais de facilidade.”
Parte dessa facilidade é inerente à própria visão de mundo desse tempo. Um mundo absolutamente sem fronteiras, tanto pela globalização quanto pela integração tecnológica. A vida em rede facilita a troca de experiências entre pessoas em polos opostos do planeta. Os Alphas se adaptaram a essa realidade das últimas duas décadas. É um universo tão novo que até o conceito de tempo e espaço foi alterado. Os Alphas, mesmo os não inteiramente alfabetizados, sabem trocar mensagens com parentes e amigos da escola. E ampliam seu entorno para amizades fora do círculo de convivência, em conversas virtuais esporádicas. Se para a geração X, dos nascidos entre 1965 e 1980, o contato físico e os papos “olho no olho” — ou ao menos por telefone — eram mais importantes, para os Alphas os encontros podem ser espaçados. “O conceito de tempo para eles fica diferente. Não precisa ser ao mesmo tempo. A gente pode ter uma conversa com uma diferença de uma semana e se sentir super próximo”, explica Fagundes.Vale aqui abrir uma discussão. A teoria geracional criada pelas ciências humanas busca entender o comportamento de uma sociedade nascida em um mesmo período ou contexto histórico. Foi assim que os Baby Boomers, nascidos entre as décadas de 1940 e 1960, começaram a ser estudados. Foi o momento da explosão demográfica, quando os homens voltavam para casa após o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas definir gerações, enquadrá-las, é, necessariamente, fazer um recorte. E, assim, evidente, deixar nuances de lado. 
Não raro, pode-se cair na armadilha dos estereótipos. Numa reportagem da The Atlantic sobre o assunto, Dan Woodman, professor de sociologia da Universidade de Melbourne que estuda rótulos geracionais, crava: “Provavelmente ficaríamos irritados se fizéssemos com gênero ou raça o que ainda conseguimos fazer com gerações”. Por outro lado, rotular uma geração ajuda a descrevê-la e pode ajudar a compreendê-la. “Uma das coisas que fazemos com rótulos geracionais é fazer afirmações sobre o quão diferente essa turma é – eles são tão diferentes, quase estranhos em suas atitudes, que você precisa pagar alguns especialistas para entrar e explicá-los para você.” E paga-se muito bem, ele conta. Neil Howe, um dos criadores do termo Millenials, há cerca de 30 anos, fez uma lucrativa carreira em consultoria, palestrando e escrevendo sobre gerações.
De qualquer forma, é com esses recortes que nos acostumamos a tentar avaliar e prever comportamentos. O próprio Woodman reflete, sobre os Alphas, que “eles ainda são crianças”. “Muitas coisas que atribuímos a uma geração estão na maneira como ela começa a pensar sobre política, na maneira como se envolve com a cultura e [se] é uma fonte de novos movimentos sociais.” Mas compreende-se mais a fundo uma geração, de forma mais substancial, quando eles entram na adolescência. Depois dos Baby Boomers, sociólogos, antropólogos, cientistas sociais e outros estudiosos das humanidades buscaram compreender como seus filhos se diferenciavam de seus antecessores. Robert Capa, fundador da agência Magnum, cunhou o termo geração X, por não encontrar uma definição específica para os nascidos no pós-guerra. Mas a expressão se popularizou após o lançamento da banda Generation X, criada pelo cantor inglês Billy Idol e o lançamento do livro Geração X: contos para uma cultura acelerada, de Douglas Coupland.
As gerações seguintes sempre foram definidas por letras, como a Y, entre 1980 a 1995 (que também ficou conhecida como Millenial), e a Z, de 1995 a 2010. Esgotadas as letras do alfabeto romano, o sociólogo australiano Mark McCrindle, que também tem uma agência de consultoria, fez, em 2008, uma pesquisa — online, claro. Vários nomes associados à tecnologia surgiram ali, como os “Onliners”, “Generation Surf” ou “Technos”. Outros atribuíam à nova geração o peso de redimir os pecados das anteriores, como “Regeneração”, “Geração Esperança”, os “Salvadores”, “Geração Y-não”. McCrindle, porém, optou por adotar um novo alfabeto. Para os bebês que nasceram a partir de 2010, chamou-os de geração Alpha, a primeira letra grega.
Eu, robô
Voltemos a ela. Com uma exposição tão ostensiva às telas, o comportamento dos Alphas também é moldado pelo conteúdo consumido nas plataformas digitais. Os referenciais, dos ideais de beleza do corpo de mulheres e homens até o de seus adereços, vêm com o filtro da publicidade e dos influenciadores. “Estamos falando sobre todo um ideal de existência física, que é manifestado de uma forma totalmente editada nas redes”, explica Pedro Almeida, mestre em antropologia pela UFBA e gestor de inovação. Ele ressalta que os conteúdos nesses espaços, principalmente dos perfis profissionais, são editados para mostrar a vida sempre por um ângulo positivo. Nas raras vezes em que o aspecto negativo é abordado, as mensagens são pensadas de maneira a favorecer a personagem no vídeo. É uma realidade fantasiosa.
Com isso, claro, vem uma crise na construção da autoimagem. A referência para o jovem, que antes eram os pais e os professores, se desloca para influenciadores digitais e artistas. Não que antes os astros de Hollywood não assumissem esse lugar. Mas a convivência entre fãs e ídolos estava restrita às páginas de jornais e revistas. Agora, todos têm perfis nas principais redes sociais, compartilham seu cotidiano, muitas vezes distorcido pelo glamour e a ostentação. São objetos de desejo ao mesmo tempo acessíveis e inalcançáveis. O pré-adolescente, sujeito a uma esperada crise de identidade que vem quando ele não se reconhece mais como igual aos indivíduos de seu círculo familiar, vai procurar sua “tribo” nesse ambiente. Um mundo artificial onde os pratos são perfeitos, as pessoas são lindas, saudáveis, e vivem em constantes viagens a locais deslumbrantes. Na terra onde a grama do perfil alheio é sempre mais verde e florida. “É uma crise da representatividade, da referência que antes estava atribuída a uma paternidade, a um professorado e hoje isso está nas autoridades digitais”, acrescenta Almeida.
Somam-se a elas os buscadores, como o Google. As dúvidas e os medos dessa fase são levadas a uma ferramenta que não oferece necessariamente as respostas, mas apenas interpretações de um algoritmo sobre o que seria o resultado adequado para as pesquisas. Encontrar material confiável online não é trivial, principalmente para os que acabaram de desembarcar ali e ainda não entendem os perigos da desinformação e das ciladas cibernéticas. A abundância de informação na rede tem evidentes vantagens. Pode ser uma grande aliada da curiosidade das crianças. Mas a quantidade não quer dizer que haja qualidade no consumo — tampouco maturidade, intelectual ou emocional, para lidar com o conteúdo que recebem. “Isso me preocupa, porque agora as crianças buscam essas referências na internet e se validam por falas dessas autoridades digitais. 
Mas para se construir como autoridade digital, principalmente para uma criança, você não precisa ter muito conhecimento, bagagem. Precisa apenas de um atrativo lúdico”, comenta o antropólogo.
Sempre alerta
Os efeitos dessa vida em tela vão além dos comportamentais. Sempre envoltos em estímulos novas informações, os Alphas estão em permanente estado de alerta. “Com isso, nós temos algumas questões de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade”, explica a psicóloga Maysa Fagundes. “Mas também a atenção deles é o tempo todo desviada porque há um letreiro, uma música, ou um vídeo, que é curto.” Pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia monitoraram 2,6 mil adolescentes por dois anos e descobriram que jovens que fazem o uso excessivo de telas como celulares, tablets e outras mídias têm duas vezes mais chances de apresentarem sintomas de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) que os demais.
Muito tempo com celular na mão, pouco tempo para descanso da mente. As muitas horas de uso ao longo da noite têm reduzido a qualidade do sono dos jovens, impactando diretamente no aprendizado e no rendimento escolar. O professor de pediatria de Harvard, Michael Rich, conduz estudos e atendimento clínico desse público em Boston. Ele explica que o cérebro humano, em sua fase de crescimento, está constantemente construindo conexões neurais. Ao mesmo tempo, vai eliminado aquelas menos usadas, num processo de limpeza. Acontece que o uso de mídias digitais desempenha um papel ativo nesse processo, ao oferecer, nas telas, uma estimulação “empobrecida” em comparação com a realidade. Ele defende que o mix entre experiências online e offline é essencial. Mais ainda, o tédio. “O tédio é o espaço em que a criatividade e a imaginação acontecem”, explica Rich.
Mas separar uma criança ou um adolescente de seu gadget não é simples. Isso porque eles ativam uma área extremamente prazerosa e gratificante. “Praticamente todos os jogos e mídias sociais funcionam no que é chamado de sistema de recompensa variável, que é exatamente o que você ganha quando vai ao Mohegan Sun [cassino nos Estados Unidos] e puxa uma alavanca em uma máquina caça-níqueis. Equilibra a esperança de que você vai se tornar grande com um pouco de frustração e, ao contrário da máquina caça-níqueis, um senso de que basta melhorar suas habilidades para chegar lá.”
O futuro
Como o sociólogo Dan Woodman, de Melbourne, explica, os Alphas ainda são muito jovens para que se façam previsões de sua vida adulta. Mas dá para se imaginar os desafios. Além de desenvolver algum nível de controle sobre o uso dos dispositivos e redes sociais, a favor da própria saúde física e mental, será necessário que os Alphas se prepararem para as constantes transformações tecnológicas a que já estão sujeitos. Segundo Pedro Almeida, “existe uma possibilidade muito grande de termos uma crise no mercado de trabalho em nível global, potencializada pela aceleração da automação”.
As escolas já começaram a buscar um novo modelo de ensino, mais focado no desenvolvimento tecnológico e nas habilidades que cada indivíduo apresenta. A reforma do Ensino Médio permite que os alunos escolham a área do conhecimento em que queiram focar. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Com a possibilidade de extinção de profissões existentes e a criação de novas áreas de trabalho, muitos desses jovens estão em formação para atividades que nem mesmo foram criadas. “Essa criança, quando terminar o ensino médio, entrar num curso superior, finalizar, entrar no mercado de trabalho… é uma escala de tempo em que tudo pode ter mudado. Será que estamos dando uma educação para essa criança viver o que ela vai necessitar daqui a pouco?”, questiona Almeida. “Se não estamos preparando para o que já temos como pontos essenciais da vida de hoje, imagine daqui a 15, 20 anos.”
Um ponto importante para a nova leva de profissionais é a diferença de visão de carreira no mercado de trabalho. “Eles têm muita dificuldade hoje no mercado porque a maneira como ele está formatado prevê que as carreiras tenham uma continuidade. Você precisa de um tempo numa empresa para crescer, se desenvolver. E eles entendem que o aprender e o se desenvolver é experiência. Então, eu venho, fico nessa empresa seis meses, já aprendi como é que faz, posso sair pra uma outra e aprender outra forma de fazer”, explica Maysa Fagundes. Segundo a psicóloga, um outro ponto de conflito é a falta de foco em uma única área de ação. “É um grande desafio para eles conseguirem fazer uma escolha de carreira, de profissão. Porque para eles, a vida não tem mais isso de você ser uma coisa só a vida inteira. Você pode ser tudo ao mesmo tempo e parar e começar de novo, toda hora.” É aquela alteração no conceito espaço e tempo de que a geração Alpha é ao mesmo tempo vítima e protagonista. Mas tudo indica que essa também é a geração mais preparada para inventar um futuro — e um mercado — em que ela se encaixe perfeitamente.

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Hacker e mulher trans: Audrey Tang conta como é ser ministra digital de Taiwan

Em entrevista à EXAME, ministra Digital de Taiwan traz exemplos de como hackers criam soluções que beneficiam a sociedade, auxiliam no controle da contaminação da covid-19 e mais. Tang também comenta como ser uma mulher trans influencia sua visão e trabalho

Marina Filippe – Exame –  24/08/2022 

Pode parecer improvável que uma hacker assuma o ministério de um país, mas é exatamente isto que acontece em Taiwan. Desde 2016 Audrey Tang* ocupa a cadeira de ministra Digital, onde lidera projetos de transparência de dados, e colaboração entre governos, empresas e cidadãos. 

Ela, que é uma mulher trans, defende a importância da cultura hacker para a criação de produtos que resolvam problemas existentes, a partir de valores como liberdade e compartilhamento. “Há muitos problemas interessantes no mundo esperando que os resolvamos”, disse em entrevista à EXAME.

A ministra também compartilha soluções bem-sucedidas de controle da covid-19, distribuição de água potável e mais. Leia a entrevista completa a seguir.

Como o estado pode se beneficiar da cultura hacker?

A cultura hacker enfatiza a valorização da criatividade. Ao mergulhar em um campo ou sistema, os hackers podem criar produtos novos e significativos que criam coisas novas e resolvem problemas existentes, e acreditam nos valores de liberdade e compartilhamento.

Eric S. Raymond escreveu um artigo com o título de “Como se tornar um hacker”, mencionando que existem 5 atitudes importantes para hackers. Primeiro, há muitos problemas interessantes no mundo esperando que os resolvamos; em segundo lugar, depois de resolver um problema, você deve compartilhar sua solução e não deixar que outros desperdicem tempo resolvendo o mesmo problema; depois, todas as coisas longas e tediosas não devem desperdiçar o tempo de seres humanos para fazer, e devem ser feitas automaticamente por máquinas ou robôs; em quarto, os hackers buscam a liberdade e a transparência das informações e, portanto, se opõem a qualquer forma de totalitarismo; e por fim, os hackers devem pagar sua própria sabedoria, exercício e trabalho duro, e se comprometer a aprender uns com os outros.

Essas ideias na cultura hacker, são minhas crenças. Após ingressar no serviço público, fui lentamente inserindo o DNA dessa cultura em minha tarefa administrativa diária, mudando gradualmente a cultura do serviço público. Um governo que tenha o espírito da cultura hacker pode buscar novas possibilidades e não tem medo de resolver problemas difíceis. Ele tenta unir a todos para avançar e acredita nos valores de liberdade e compartilhamento. Um governo desse tipo será inovador e dinâmico, e será capaz de trabalhar com todas as pessoas para encontrar soluções para problemas difíceis.

Taiwan realiza o Hackathon Presidencial todos os anos desde 2018 para trazer a cultura hacker para o processo político. A presidente Tsai Ing-wen disse acreditar que o espírito de colaboração e compartilhamento representado pelo hackathon trará um novo modelo para resolver problemas no futuro.

Ao enfrentar desafios e problemas, as pessoas podem trabalhar juntas para estimular novas respostas e soluções para eles, e isso pode trazer mudanças no governo. Por meio do brainstorming, cada vez mais opiniões de cidadãos podem ser envolvidas no processo de administração do governo. As situações e problemas que encontramos na linha de frente podem ser imediatamente refletidos no desenho da política, o que pode acelerar a otimização das operações governamentais e tornar sua administração mais eficiente.

O que os estados precisam fazer para inserir essa cultura em seus governos?

Se um governo quiser introduzir a cultura hacker em um país, ele pode primeiro tentar resolver esse problema através do espírito hacker. O Hackathon Presidencial é dirigido pelo Gabinete Presidencial e organizado pelo Executive Yuan, e está aberto ao público para estimular a criatividade.

Por meio da participação e colaboração de todas as pessoas, aliada ao acesso aberto do governo à informação, as deficiências do setor público podem ser complementadas pela criatividade do setor privado, e os problemas sociais podem ser resolvidos por ideias de diversidade e inovação. As propostas vencedoras no Hackathon Presidencial, por exemplo, são orçadas pelo governo para implementação.

A proposta premiada em 2020, “CircuPlus Tea-Serving Operation”, foi desenvolvida após o promotor do grupo participar de um evento de limpeza de praia e descobrir que havia infinitas quantidades de PET. Para reduzir o desperdício causado pela água engarrafada, ele desenvolveu o aplicativo CircuPlus, junto com seus amigos.

Ao adotar uma tecnologia inovadora combinada com o tradicional espírito taiwanês de servir chá e hospitalidade, eles criam um mapa de Taiwan com os lugares que fornecem água potável gratuita. Pessoas com seus próprios copos podem usar o aplicativo para encontrar postos de água potável gratuita, o que elimina a necessidade de comprar água engarrafada e alcança a meta de redução de plástico na fonte e economia circular. Em junho, o número de estações de água potável em Taiwan ultrapassou 8.000, e o CircuPlus foi baixado por mais de 210.000 usuários.

Quais têm sido os principais desafios no Ministério até agora? E os principais avanços?

Em 27 de agosto, nosso governo estabelecerá o Ministério de Assuntos Digitais, um novo ministério com a mais alta prioridade de promover a resiliência digital para todas as pessoas. Resiliência significa que, quando confrontados com condições desfavoráveis, como epidemias ou desastres naturais, devemos não apenas ser capazes de resistir, mas também nos recuperar rapidamente do golpe. Devemos também aprender com essas experiências desfavoráveis ​​e fortalecer nossos próprios sistemas. Vamos construir a fundação de resiliência digital para todas as pessoas em três aspectos: inclusão social, transformação industrial e resposta à segurança da informação.

Assumiremos a liderança na introdução e até mesmo na demonstração de novas tecnologias digitais que serão estendidas a outras agências governamentais. Por exemplo, seremos os primeiros a experimentar assinar documentos oficiais em telefones celulares.

A segurança da informação deve ser o maior desafio que enfrentamos hoje, porque quanto mais diversos e inovadores os serviços governamentais se tornam, mais importante é manter a segurança da informação e manter as operações funcionando sem interrupção.

Diante de riscos repentinos de segurança da informação, devemos ser capazes de responder imediatamente, e muitos desafios virão de fora do país. Portanto, o maior desafio para o Ministério de Assuntos Digitais é estabelecer bons hábitos de segurança da informação e capacidade no governo para provar que Taiwan pode se defender e entrar no código público do sistema de defesa conjunto democrático.

Como seu trabalho ajudou a conter o Covid-19 e quais são as principais lições que outros países podem aprender com Taiwan?

Acredito que, diante de um problema, é melhor usar uma abordagem colaborativa para encontrar uma solução. O governo tem os recursos e os dados, e os usuários na linha de frente conhecem melhor o problema, então a melhor solução pode ser encontrada através da cooperação.

Por exemplo, no início do surto da pandemia de Covid-19 em 2020, quando a oferta de máscaras excedeu a demanda, nosso governo implementou um sistema de nomes para máscaras. A comunidade de código aberto, g0v, projetou um “mapa de máscaras” que permitiu que as pessoas verificassem o estoque de máscaras em várias farmácias em tempo real, para que não precisassem esperar na fila.

Como um dos participantes do g0v, sugeri ao Premier que deveríamos confiar mais em nossos cidadãos e abrir dados em tempo real ou API para tornar o mapa de máscara melhor. O Premier concordou com esta proposta, o que nos permitiu atualizar os dados mais recentes a cada 30 segundos. Devido a essa experiência, conseguimos implantar o mapa do kit de teste rápido muito rapidamente quando implementamos o sistema de nomes reais do kit de teste rápido.

“Confie em nossos cidadãos” é a valiosa experiência adquirida por Taiwan durante o período de controle da pandemia. Confiar que nossos cidadãos podem fazer aplicativos melhores se tiverem API e dados em tempo real é o espírito da cooperação entre o governo e todos os cidadãos.

Também garantimos que a linha direta epidêmica estivesse acessível para que as pessoas fizessem perguntas sobre medidas de controle sanitário, o que nos permite identificar e responder aos problemas mais rapidamente. Também realizamos coletivas de imprensa todas as tardes quando a epidemia é grave, para explicar a situação mais recente da epidemia e confiar em nosso povo de todo o coração de maneira aberta e transparente.

Como seu trabalho ajuda o estado e as pessoas por meio da transparência de dados?

Além do já mencionado Hackathon, também temos o projeto “Civil IoT Taiwan”, em resposta às questões cada vez mais críticas do ambiente natural e dos recursos. Estamos promovendo uma governança digital mais profunda com base em big data, Internet das Coisas e tecnologias de IA em quatro áreas principais: qualidade do ar, terremoto, recursos hídricos e prevenção e alívio de desastres.

Construímos uma plataforma de serviço de dados para integrar os dados do setor privado e do governo e, assim, padronizar o formato internacionalmente para facilitar o acesso ao uso de valor agregado. Também disponibilizamos os dados para empresas, academia e público em geral para incentivar todas as indústrias a criar serviços mais inovadores para enfrentar os desafios trazidos pelas mudanças ambientais.

Por exemplo, o “AirBox”, um monitor de qualidade do ar de baixo custo projetado pela g0v em 2015, pode monitorar a qualidade do ar. O setor público tem fornecido o espaço experimental para que as AirBoxes ganhem ampla visibilidade, e elas têm sido construídas gradativamente nas varandas das escolas e residências. Com a ajuda do projeto “Civil IoT Taiwan”, o número de AirBoxes cresceu de 2.000 para dezenas de milhares, e a qualidade do ar de todos os lugares em Taiwan agora pode ser verificada on-line.

Se esses espíritos hackers forem introduzidos em um governo, ele incorporará a confiança nas pessoas, e o governo trabalhará com todas as pessoas para criar soluções. Se eles forem aplicados a empresas, as empresas podem confiar em seus clientes e empresas parceiras para cocriação.

Como ser uma mulher trans afeta suas decisões no trabalho?

Ser transgênero me permite não ter uma mentalidade binária. Não acho que metade das pessoas esteja mais perto de mim, e a outra metade seja diferente de mim e, portanto, mais distante. Isso me permite ver as coisas de uma variedade de perspectivas e ser capaz de simpatizar com comunidades mais diversas com algumas das mesmas emoções e experiências de vida, o que me ajuda muito na minha posição.

*Audrey Tang foi um das palestrantes da Semana de Inovação organizada pela Escola Nacional de Administração Pública (ENAP)

https://exame.com/esg/audrey-tang-ministra-de-taiwan-como-a-cultura-hacker-pode-ajudar-governos/

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Por que quem defende o “quiet quitting” odeia a própria expressão?

A desistência silenciosa pode ser uma expressão confusa e falha, mas é parte de uma recalibração maior no mercado de trabalho

Por Jo Constantz, Bloomberg/Valor 24/08/2022 

Não chame isso de “quiet quitting”, ou desistência silenciosa, em português. Esse é o grito de guerra de um crescente coro nas redes sociais, incluindo um fórum no Reddit que ficou famoso nos EUA por reclamações trabalhistas e que conta com mais de 2 milhões de membros.

Os editores no fórum r/antiwork argumentam que chamar o fenômeno do “quiet quitting” de qualquer variedade de “desistência” implica que os funcionários estão agindo mal, quando na realidade o termo significa simplesmente cumprir o que está descrito no trabalho e estabelecer limites para saúde.

Posts no fórum do Reddit, que decolou durante a pandemia com o lema “desemprego para todos, não apenas para os ricos”, culpam a mídia pela cobertura frenética do conceito de desistência silenciosa, que deveria ser considerado a norma, não uma nova tendência. Outros veem o novo bordão, o “quiet quitting”, como uma ferramenta que os empregadores podem usar contra os funcionários por não trabalharem mais do que o que o contrato (e nível de remuneração) estipula.

Expressões memoráveis têm ganhado prestígio no fórum do Reddit. Entre elas, está o “aja de acordo com seu salário” e “demissão silenciosa”, este termo usado quando os chefes tornam as vidas de seus funcionários horríveis, mas não chegam a demiti-los.

A internet foi inundada nos EUA com explicações e debates sobre a chamada desistência silenciosa, a nova palavra da moda que significa fazer o seu trabalho conforme descrito. Os entusiastas descrevem a mentalidade como um retiro furtivo da cultura da agitação (hustle culture, em inglês) que dominou a era pré-pandemia.

Não é só no Reddit

A reação contra o termo “quiet quitting” está aumentando, e não apenas no Reddit. Comentários no Twitter apontam que a desistência silenciosa é uma expressão confusa e falha.

“Eles chamam de “desistência silenciosa”, mas é realmente só fazer as suas tarefas durante o horário comercial normal. As pessoas merecem um bom equilíbrio entre o trabalho e a vida. E não ter de responder a um email do trabalho às 10h da noite não é desistir. É apenas ser um humano normal que tem uma vida e define limites para sua saúde”, diz a mensagem do LinkedIn.

No TikTok, Shini Ko, 28, concorda que o termo é problemático.

“A ideia de abandonar a cultura da agitação e não ir além é basicamente ter uma fronteira saudável entre trabalho e vida. Eu só não acho que o termo desistência silenciosa seja apropriado para isso, porque soa negativo”, disse ela em entrevista. “É mais perigoso do que empoderador”

Ko trabalha no Canadá como desenvolvedora de software para pagar as contas e financiar sua paixão: Bao Bao, uma fazenda orgânica que ela iniciou no ano passado especializada em vegetais de herança asiática.

Ko observa que definir limites claros no trabalho não significa que você não está fazendo seu trabalho. “A agricultura é cara, e eu não poderia ter começado minha fazenda sem meu salário”, disse ela. “É muito importante para mim ter isso em mente porque, no final das contas, ainda preciso fazer meu trabalho direito.”

Termo revelador

Para Rahaf Harfoush, uma antropóloga que estuda a cultura digital e a cultura da vida profissional, a discussão em torno da escolha de palavras deve fazer parte do debate tanto quanto entender se a desistência silenciosa é uma boa ideia ou não.

“O próprio termo em si é uma escolha de vocabulário não intencional e muito reveladora sobre a cultura da agitação em si”, disse ela em entrevista. O termo expõe o conflito interno que as pessoas enfrentam quando se trata de estabelecer limites entre vida profissional e pessoal. “Com a desistência silenciosa, há quase uma vergonha e as pessoas admitem isso, porque, se não houvesse, não chamaríamos de desistência silenciosa.”

Harfoush publicou um estudo de três anos sobre a cultura da agitação, que explora as maneiras pelas quais os trabalhadores permanecem profundamente enraizados nos ideais de sacrifício, dando tudo de si e superando as expectativas – mesmo que isso possa resultar em doença, exaustão e esgotamento.

“Esses são os ideais que estão enterrados em nosso subconsciente. Então, embora possamos querer equilíbrio entre vida profissional e pessoal, quando ouço as pessoas falarem sobre desistir silenciosamente, eu fico tipo, ‘Ah, ainda não deixamos isso de lado’”, disse Harfoush.

Enquanto os funcionários sentirem que têm uma chance de serem recompensados por todas as horas extras, as centenas (ou milhares) de horas não compensadas podem valer a pena. No entanto, muitos trabalhadores, especialmente as gerações mais jovens, não veem mais os benefícios disso.

Os salários não acompanham a inflação, enquanto a alta no preço dos aluguéis e a crise da habitação colocam a qualidade de vida básica e os principais marcos fora de alcance.

Harfoush disse que a tendência do “quiet quitting” (com ou sem nome apropriado) é parte de uma recalibração maior no mercado de trabalho.

“Muitas promessas geracionais feitas às pessoas foram quebradas. Disseram que se trabalhássemos muito, e que se fôssemos mais longe, e que se pudéssemos alcançar essa promoção, a recompensa seria poder comprar uma casa, poder ir à escola, poder conseguir um bom emprego, poderíamos subir de nível”, disse ela. “Disseram que, em troca do sacrifício no mercado de trabalho, haveria benefícios. E agora o que estamos vendo, pelo menos com os millennials, é que essas promessas não são verdadeiras.”

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2022/08/24/por-que-quem-defende-o-quiet-quitting-odeia-a-propria-expressao.ghtml

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