Moisés Naim: Qual é o maior boom econômico do mundo?

A Guiana, uma diminuta faixa de floresta tropical na costa norte da América do Sul, está em meio a um boom petroleiro de proporções quase inimagináveis

Moisés Naim – Estadão- 17/10/2022 

Qual economia crescerá mais rapidamente nos próximos anos? Tente adivinhar. Talvez você esteja pensando no Vietnã, que vem levando a cota de mercado de uma China menor por sua má resposta à crise da covid. Ou no campeão africano de crescimento, Ruanda, cuja economia quintuplicou desde 1995. Ou talvez Bangladesh, cujo setor exportador é catalisador da maior explosão econômica na Ásia.

Mas não é nenhum deles. O campeão mundial de crescimento econômico nos próximos anos será a Guiana. Porque essa diminuta faixa de floresta tropical na costa norte da América do Sul, de que quase não se ouve falar, está em meio a um boom petroleiro de proporções quase inimagináveis.

Desde 2015, a Guiana é líder mundial em descobertas de petróleo em alto-mar, tendo descoberto 11,2 bilhões de novos barris, quase um terço de todas as novas descobertas de petróleo no mundo. Investigadores da consultoria Nexus Group preveem que o país se converterá em alguns anos em um dos cinco principais produtores de petróleo em alto-mar no mundo, deixando para trás países como Estados Unidos, México e Noruega.

Estima-se que, em meados da próxima década, a Guiana produzirá mais petróleo per capita que qualquer outro país do mundo. Os lucros do governo com o petróleo poderiam ascender a US$ 21 mil por habitante, quase o dobro do PIB per capita de hoje.

Este ano, a economia da Guiana poderia crescer 58%, uma cifra exorbitante. O PIB petroleiro poderia crescer 30% ao ano entre 2023 e 2026. O país que até pouco tempo atrás era um dos mais pobres da América já ultrapassou a média mundial de renda per capita, e o boom acaba de começar.

O maior boom econômico do mundo não é o que você pensa.

O que é boa notícia para a Guiana poderia parecer má notícia para o clima, mas não é. A intensidade das emissões do petróleo da Guiana — ou seja, a quantidade de carbono liberada por barril produzido — é apenas metade da média mundial e continua diminuindo. Se o petróleo guianês substituir o produzido por seus competidores, o boom petroleiro da Guiana poderia fazer as emissões de carbono cair.

Mas essa bonança ajudará realmente o povo guianês? Não necessariamente. O país está enriquecendo, mas muitos de seus habitantes continuam pobres. A Guiana ocupa a 108.ª posição, entre 191 países, no Índice de Desenvolvimento da ONU. A Unidade de Inteligência da The Economist classifica a Guiana como uma “democracia defeituosa”: as eleições são competitivas, mas nem sempre limpas. Um conflito eleitoral, em 2020, deu lugar a um duro enfrentamento que durou meses e desencadeou várias ondas de violência entre os partidários das facções em oposição.

Tensão étnica definiu por muito tempo a política desse país dividido demograficamente pelo legado do Império Britânico: 40% dos guianeses têm ancestrais vindos da Índia; e 30%, da África; enquanto 10% são indígenas; e os 20% restantes, mestiços. Os guianeses tendem a votar em blocos étnicos, algo que raramente anda de mãos dadas com a estabilidade política. E a corrupção, por uma desgraça, é sumamente arraigada.

Por décadas temos visto como booms petroleiros quase sempre acabam mal. Grupos rivais lutam ferozmente pelo controle das rendas petroleiras em vez de trabalhar juntos por um futuro melhor para todos. O fenômeno é tão comum que tem seu próprio nome: a maldição dos recursos. Em face às suas divisões étnicas e seu histórico de corrupção, a Guiana marca dois campos na lista de sinais de risco de cair na maldição dos recursos. Será que os guianeses serão capazes de evitar esse destino?

Talvez sim, porque eles também contam com um par de ases na manga: por mais defeituosa que seja, a Guiana é uma democracia, o que ajuda a vacinar os povos contra a maldição dos recursos. E a enorme magnitude da bonança petroleira que espreita a Guiana e sua diminuta população poderia tornar possível satisfazer a todos, sem o país ter de entrar em conflitos empobrecedores pelo butim petroleiro.

Sem uma gestão política sábia e prudente, a riqueza petroleira pode facilmente se converter em desgraça. Tomara que os líderes da Guiana saibam evitar esse triste destino. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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Um pedaço da história em imagens: o YouTube entra na sala

Fábio Coelho, CEO do Google Brasil, fala sobre a trajetória de sucesso do YouTube no país

Fábio Coelho, CEO do Google no Brasil (Leandro Fonseca/Exame)

Fábio Coelho, CEO do Google no Brasil (Leandro Fonseca/Exame)

André Lopes – Exame – Publicado em 13/10/2022.

Com 17 anos de história, o YouTube é atual­mente a maior plataforma de audiovisual do mundo. Ainda que dispute pela atenção de mais de 1 bilhão de pessoas com gigantes como Netflix, TikTok e Instagram, o site de vídeos do Google assumiu a liderança da difícil tarefa de prender os olhares diante das telas.

A audiência cativa do streaming passa 80% mais tempo no YouTube do que em outras plataformas.

Por trás do sucesso, mais do que a experiência de quase duas décadas, está um robusto sistema de pagamentos para os criadores de conteúdo. Capaz de criar até uma nova profissão, a de youtuber, só no Brasil o ecossistema criativo do aplicativo contribuiu em 2021 com mais de 6 bilhões de reais para o Produto Interno Bruto (PIB), o dobro do ano anterior. Na paralela, o número de empregos gerados direta ou indiretamente passou de 160.000 postos.

O CEO do Google no Brasil, Fábio Coelho, completou recentemente dez anos à frente da operação local. Além de acompanhar a penetração do serviço nos smartphones brasileiros, o executivo participou das decisões que criaram o YouTube à brasileira. Para Coelho, o destaque na trajetória de adaptação foi a escala com a qual a empresa conseguiu incluir diferentes tipos de conteúdo e os cuidados que tiveram para manter o espaço saudável para quem o acessa.

Em entrevista à EXAME, durante o evento YouTube Brandcast, o executivo comentou como a empresa enxerga o seu legado de 15 anos de presença no Brasil, as mudanças para atender as novas gerações, e os desafios que se apresentam logo à frente — que devem mudar a forma de consumo de vídeo e como as marcas vão se comportar em meio a isso. O entendimento geral é de que a relevância do conteú­do ainda é a chave do negócio, independentemente da plataforma em que ele for hospedado. 

O Google defende que o YouTube mudou, mas como se deu essa mudança?

A plataforma alcançou uma escala gigante nos últimos quatro anos. Tanto globalmente quanto no Brasil. Por isso, temos feito esse trabalho anual, por meio do evento YouTube Brandcast, de entrar em contato com quem produz, criadores ou marcas, e atualizá-los sobre como o YouTube tem ido para muito além de ser um lugar para assistir a ­vídeos. E também para mostrar que não é por acaso que a plataforma movimenta 50 bilhões de dólares em monetização por ano. Eu bato na tecla de que não é só música, lazer e educação, é também uma força econômica para negócios. Essa é a principal mudança. Hoje temos o poder de compartilhar os ganhos do YouTube­ de diversas formas e, por consequência, gerar um enorme impacto social.

Mas a audiência também está se transformando. Como acompanhar?

A audiência na verdade vê muito mais YouTube do que antes. Pense que, quando o brasileiro precisou ficar em casa por causa da covid-19, ele ficou assistindo a lives, podcasts e aprendendo novas coisas pelos vídeos. Ele fez isso sobretudo pelo ­YouTube. Esse comportamento tornou a plataforma uma parte de sua rotina. Nesse sentido, a gente consegue até mensurar que a mudança foi deixar de ser um app estritamente do smartphone para chegar a ser um app da sala dos usuários. São 120 milhões de espectadores, mas, desses, 75 milhões assistem ao YouTube na TV. Com essa força, podemos pensar em alçar novos voos, já que agora somos maiores do que os canais de televisão do país. Um exemplo do que já fazemos nesse sentido são as comunidades que são financiadas pelo Google. No momento, temos incentivo para criar mais produtores gamers, da comunidade LGBTQIA+, do futebol — que agora conta com a transmissão ao vivo do Paulistão por lá. E isso não deve parar. Eu, pessoalmente, assisto aos campeonatos de surfe que também estão no YouTube. O fato de existirem tantas opções de conteúdos mostra que temos acompanhado o interesse dos usuários.

Como deverá ser o consumo de vídeo no futuro?

Será uma atividade cada vez mais coletiva. Em uma comparação entre junho de 2020 e junho de 2019, o tempo de exibição do YouTube visualizado nas telas da TV cresceu 115%. Uma tendência que se manterá no futuro é a audiência requisitando que haja diversidade de vozes e representatividade.

Mas tanta variedade não torna as coisas mais difíceis para as marcas? O usuário recebe o que ele quer, mas as empresas chegam a quem elas precisam?

O usuário na internet está mais exigente. Ele precisa cada vez mais de conteúdo personalizado e autêntico, e os novos formatos entram para ajudar essa dinâmica. Os vídeos curtos são uma das tendências. A venda de produtos por live commerce é outra. Aí entram os criadores, que conseguem fazer essa parte da linguagem direta com o espectador. No YouTube, temos incluído isso nos projetos experimentais de transmissões voltadas para dias inteiros de vendas, em momentos como a Black Friday e outras datas comemorativas. É um bom exemplo de conteúdo diferente que junta as frentes de influenciadores e marcas. Mas, se for um vídeo curto ou longo, a relevância ainda é o que define o interesse.

YouTube Brandcast 2022: evento comemorativo feito para marcas, agências de publicidade e produtores de conteúdo da plataforma (Luciana Aith/Divulgação)

Algumas pesquisas mostram que a geração Z, dos nascidos após o ano 2000, está pesquisando no TikTok em vez de no Google. Para o buscador, como contornar essa mudança geracional?

Essa transformação não é do tipo que se contorna, e sim do que se abraça. O grande pilar do momento são os vídeos curtos. Esse formato está no YouTube por meio do Shorts, que hospeda vídeos de até 60 segundos, e que agora também compartilha a receita de publicidade com quem produz conteúdo ali. Essa nova plataforma é só mais uma das opções que temos disponíveis para fazer uma busca na internet. Não só por texto e vídeo, mas a procura por uma informação pode começar, por exemplo, com uma foto tirada pelo aplicativo Google Lens, que encontra um resultado por meio de imagens feitas no smartphone, ou por voz , com uma assistente virtual. Cabe apenas darmos a opção para o usuário, e ele fará o uso. Dentro disso, claro, há o perfil de cada um desses usuários. No momento, os mais jovens preferem pesquisar algumas coisas por vídeo.

O Google se mostra bastante ativo na sociedade brasileira e em suas diferentes realidades. Não é muita responsabilidade? Como vocês enxergam isso?

Nós participamos ativamente do tecido social brasileiro. E sabemos que qualquer coisa que fazemos hoje tem impacto. Por exemplo, na pandemia, 2 milhões de crianças chegaram a estudar pelo Google Classroom. Isso é gigante. Nesse período, o comércio também se voltou para soluções que passavam pelo Google. Comida foi vendida e entregue com a ajuda de nossas plataformas no momento de incerteza sobre poder ou não se aglomerar. A própria PlayStore foi fundamental para distribuir o auxílio emergencial sem que as pessoas precisassem pegar filas para cadastrar seus documentos. Logo, é fato que nosso papel tem crescido. Ajudamos o brasileiro a tomar decisões das menores às mais importantes. Vai desde o trajeto mais rápido para casa até informações-chave para o país, como é o caso de decisões políticas. Neste ano a gente fez mais de 115 parcerias com publishers, para que fosse possível passar pela eleição com informações qualificadas. Nos mantivemos, claro, apartidários e apolíticos, mas trabalhamos ativamente para que as informações e os conteúdos de qualidade fossem valorizados. E esse cuidado com o Brasil vai até em aspectos mais singelos. Um exemplo é o acervo do Museu Nacional, que pegou fogo, mas está disponível digitalmente pelo Google Arts para toda a humanidade. 

E para as empresas, existe mais a ser feito?

A digitalização dos últimos três anos foi avassaladora. Se olharmos para o e-commerce vemos um avanço tremendo. Agora estamos em uma fase em que é possível entrar em sistemas antigos, que faziam processos por servidores internos das companhias, e levar a nuvem para escalar projetos em outro nível. Em um processo que leva tecnologias que até pouco tempo atrás não eram pensadas para certos negócios. Tome o exemplo da compra de dois produtos que ficam armazenados em centros de distribuição diferentes. Quando entramos nessa seara com a nossa solução, que usa os avanços que tivemos em inteligência artificial e geolocalização nos últimos anos, é possível traçar uma rota precisa da frota de entregadores até que esses produtos se cruzem e cheguem juntos à casa do consumidor. Uma entrega mais rápida, mais barata e integrada com toda uma cadeia de centenas de milhões de pacotes. Esse tipo de experiência logística é um passo fundamental para dar conta de um Brasil continental. E aí, se você olha para o varejo brasileiro, você tem uma capacidade espetacular de transformar negócios que já são gigantes, mas que podem usar recursos que os tornarão ainda maiores

https://exame.com/revista-exame/o-youtube-entra-na-sala/

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Nizan Guanaes: “Nas redes sociais, parece que ninguém tem problema”

Publicitário conta como se reinventou para não sucumbir ao seu próprio ego, o que incluiu luta contra a depressão e tratamento para perder mais de 40 quilos

Por Felipe Branco Cruz -Veja –  7 out 2022 

Nizan Guanaes – Marcelo Navarro/.

O baiano Nizan Guanaes, de 64 anos, viu sua vida tomar um novo rumo há quase duas décadas, após uma cirurgia bariátrica para perder parte dos 140 quilos que pesava. O procedimento, feito sem acompanhamento psicológico, fez com que ele começasse a beber de maneira descontrolada e só dormisse com a ajuda de remédios. Alertado por seu médico de que corria risco de vida, Nizan procurou ajuda com o psiquiatra Arthur Guerra. 

Mas, em vez de mais remédios, a receita foi exercício físico e foco na qualidade de vida. A mudança veio acompanhada também de outras decisões: em 2015, ele vendeu por 1 bilhão de reais seu grupo ABC, referência da publicidade no país. Desde então, define-se como um “ex-publicitário”, agora focado em sua nova empresa, a consultoria N Ideias. Mudou também a maneira como trata seus colaboradores: “Percebi que pessoas são mais produtivas se forem felizes”. Agora, ao lado do mesmo psiquiatra que o ajudou a mudar de vida, ele lança o livro Você Aguenta Ser Feliz?, da editora Sextante. Nizan conversou com VEJA por vídeo de Harvard, nos Estados Unidos, onde cursa um programa na famosa universidade voltado para líderes empresariais.

No livro Você Aguenta Ser Feliz?, o senhor narra a superação de diversos dramas pessoais que o afligiam, mesmo sendo um dos publicitários mais bem-sucedidos do país. Por que decidiu compartilhar os altos e baixos da sua história? 

Você tem de ter uma vida com propósito. Não dá para viver uma vida só para si. Quando você tem o talento de se comunicar, é importante dividir isso com os outros. Por exemplo: as pessoas que vão fazer uma cirurgia bariátrica certamente vão ficar mais atentas ao processo do que simplesmente ir assim, na raça. Ou pessoas que têm vergonha de assumir qualquer tipo de processo depressivo. Me sinto feliz de poder fazer isso. Escrevi o livro com paixão, reli com medo e publiquei com coragem, pois ninguém gosta de se expor no mundo dos perfeitos e da perfeição, que é o mundo das redes sociais.

Em 2006, o senhor pesava cerca de 140 quilos quando fez a cirurgia bariátrica, mas depois lamentou não ter feito o preparo correto. O que ocorreu? 

Parei de me pesar quando cheguei a 140 quilos. Meu pai morreu aos 45 anos, de infarto, e os irmãos dele também. Em 2006, eu estava diante de uma situação que exigia uma escolha. Só que não me preparei. A bariátrica é uma operação maravilhosa, mas perigosíssima. Meu médico perguntou se eu bebia e, como não abusava do álcool, fui lá e fiz. Mas é preciso ter apoio psicológico. A partir daí, eu comecei a ter um comportamento comum que é o abuso de alguma coisa. Alguns bebem, outros fumam, outros gastam. Eu digo que só não virei alcoólatra porque não gosto de bebida, mas comecei a ter comportamentos que nada tinham a ver comigo.

    “Ninguém gosta de mostrar suas fragilidades. Quase fiquei alcoólatra. Tive depressão. Todo mundo é maravilhoso no Instagram. Nas redes, parece que ninguém tem problema”

 A falta de apoio psicológico antes da cirurgia o levou a abuso? 

Em 2011, Roberto Kalil, meu médico cardiologista, disse que eu iria morrer se continuasse fumando, bebendo e comendo demais. Eu tomava remédio para dormir. Kalil, então, me indicou o Arthur Guerra — que, em vez de dar mais remédio, me botou para fazer esporte e cuidar do sono. Estou hoje aqui em Harvard e trouxe minha balança. Eu me peso diariamente e mando uma foto para o Guerra. Desde então, já fiz três maratonas, duas meias maratonas e um triatlo. Hoje estou com 96 quilos. Só não vou correr a maratona de Chicago porque surgiu uma hérnia na cervical. Brinco que ele me pegou quase alcoólatra e me deixou quase atleta.

Seu livro seria de autoajuda ou saúde? 

Não gosto do rótulo de autoajuda. As pessoas tentam arrumar classificações para desqualificar, como se fosse um livro babaca. Temos de lembrar que antes de “ajuda” vem a “auto”. Todo mundo tem de fazer sua parte.

Em 2015, após a mudança de vida, o senhor vendeu o grupo ABC por 1 bilhão de reais. Enfrentou uma crise existencial por ficar sem seu negócio? 

Era uma crise normal. Todas as pessoas que vendem suas empresas passam por um momento em que você está perdido no meio do deserto. Isso é absolutamente comum na minha idade. Fiz uma venda boa do ponto de vista financeiro, mas precisei ressignificar minha vida — como ao apostar nesse curso que estou fazendo, aos 64, aqui na Harvard Business School, para lideranças de empresas. Aqui em Harvard conversamos muito sobre os desafios das pessoas que vendem seus negócios e precisam se reinventar. Meu psiquiatra fez até uma comparação com um grande jogador de futebol, tipo Ronaldo Fenômeno. Já fui um jogador, agora eu sou o técnico, sou o Guardiola, o cara que está do lado de fora do campo.

E o senhor é disciplinado? 

Mark Twain dizia que você só chega longe comendo o que não gosta, bebendo o que não gosta e fazendo o que não gosta. Ninguém curte acordar cedo e no frio. Você gosta do que vem depois. O desafio é fazer coisas que não são saborosas naquele momento, mas que depois rendem frutos maravilhosos. Essa é a disciplina que prego. Eu sou de uma geração para a qual disciplina era uma coisa careta — mas hoje, para mim, é libertadora.

Apesar do sucesso profissional, sua carreira acumulou também fracassos. Como lidou com eles? 

Não gosto de endeusamento. Meu mérito não é a perfeição. Costumo dizer que o livro é um striptease meu. Ninguém gosta de ficar nu na frente dos outros. Ninguém gosta de mostrar suas fragilidades. Tive depressão. Enquanto isso, todo mundo é maravilhoso no Instagram. Minhas palestras que fazem mais sucesso são aquelas em que eu conto os perrengues que passei. As pessoas veem empatia nisso, porque o fracasso não é criativo. Ele é repetitivo. Você se ferra pelas mesmas coisas. O sucesso é que é criativo. Eu sou uma pessoa de relativo sucesso e as pessoas tendem a achar que eu não errei.

Por falar em Instagram, como é sua relação com as redes sociais? 

Quando vou dormir, meu médico me orienta a deixar o celular lá longe, no banheiro. O celular mata a saúde mental. Eu já cheguei a ter um tempo de uso de quinze horas. Estou tentando reduzir para cinco a sete horas. O celular é a nova droga que está enlouquecendo as pessoas e causando dependência. Digo isso porque é um vício que enfrento.

A publicidade na internet matou a publicidade tradicional ou ainda há espaço para grandes campanhas, como no passado? 

As duas coisas vão caminhar juntas e são complementares. A maior prova disso é o Big Brother Brasil, que é um programa de televisão de poder digital. Ou o Super Bowl americano. É preciso tomar cuidado com essas definições pétreas. Na última campanha presidencial americana, foi fortíssima a presença da televisão. Mas elas têm de jogar juntas. O futuro é “figital” (união do físico e digital). Sempre falo que uma das maneiras de pensar fora da caixa é pensar dentro da caixa. Porque tem muita oportunidade dentro da caixa.

Campanhas publicitárias do passado, com tiradas machistas ou piadas preconceituosas, fariam hoje as marcas serem “canceladas”. O politicamente correto revolucionou a publicidade? 

A publicidade tem de acompanhar o tempo e as circunstâncias. É o desafio de ser criativo sem ser ofensivo. Como é ser engraçado dentro dos códigos de hoje? No mundo das redes sociais, uma coisa pode ter um estrago brutal na reputação de uma marca. É impossível estar imune a isso. Por isso, as agências têm hoje comitês de diversidade que analisam antes as coisas que serão veiculadas. É importante ouvir outras perspectivas e acompanhar os tempos.

Por que o senhor se considera um ex-publicitário? 

Eu sempre digo que eu era um telefone. Hoje, sou um celular. Sou um ex-publicitário. Não estou cuspindo na indústria em que cresci. O tempo mudou. Antigamente, a propaganda era a alma do negócio. Hoje é a estratégia. Quando meus amigos me chamam de fênix, é sobre a capacidade de me reinventar. Jaime Lerner já dizia que quem cria nasce todo dia.

Apesar disso, ao chegar aos 50 anos, em 2008, o senhor se definiu como alguém “destruído pelo sucesso”. O que quis dizer com isso? 

A publicidade é uma máquina de moer carne. Você não vê seus filhos, só vive no trabalho. Não tem mais relacionamentos. Não é uma coisa do Nizan. É uma coisa padrão desse mercado. Tanto que você vê as pessoas do mundo da publicidade se afastando das grandes estruturas para ter qualidade de vida.

    “A publicidade é uma máquina de moer carne. Você não vê seus filhos, só vive no trabalho. Não tem relacionamentos. Tanto que as pessoas se afastam para ter qualidade de vida”

O senhor já foi considerado um chefe rigoroso, que exauria seus funcionários. Arrepende-se dessa postura? 

O Nizan lá de trás era muito ignorante em relação a isso. Eu trabalhava de manhã, de tarde e de noite e, sim, exauria minha equipe. Eu achava que sábado e domingo eram extensões da semana. Isso é uma ignorância. Uma das réguas da minha nova empresa é a felicidade. Pessoas felizes rendem mais, especialmente quando tem tempo para viver. Quem vive alimenta a criatividade. Eu tinha um raciocínio ignorante: “Eu pago e você vai ficar rico comigo. Mas eu vou exauri-lo”. Até hoje você vê esse comportamento em escritórios de advocacia e no mercado financeiro. Mas as pessoas querem mais qualidade de vida e elas são mais produtivas quando são felizes. Tenho uma régua muito simples: se você não gosta de fim de semana, está com problema no seu casamento. Se você não gosta de segunda-feira, está com problema no trabalho.

Como o senhor lida hoje com sua saúde mental? 

Existe uma epidemia de problemas mentais. Veja a quantidade de suicídios, burnout, depressão. É o que eu falo: todo mundo é feliz no Instagram. E, se você olhar as redes sociais, parece que ninguém tem problema. Ninguém fala que teve depressão ou flertou com o alcoolismo. Não dá para ser feliz sem saúde mental. Pessoas que não dormem não têm a menor chance de ser felizes. Elas pensam mal, rendem mal.

Ser hoje maratonista dá orgulho a um ex-sedentário? 

A triatleta Fernanda Keller me disse uma vez: “Nizan, você que é verdadeiro maratonista”. Ela disse que faz essa prova em três horas. Eu faço em sete. Só ganho de mim.

Afinal, o senhor aguenta ser feliz? 

Eu tento. Eu diria que estou com um nível de aproveitamento bom. Cerca de 20% das pessoas da humanidade já nascem com a felicidade na cabeça. A Donata, minha esposa, é uma delas. Ela já veio feliz de fábrica. Eu sou feliz porque me esforço, invento problema, fico ruminando as coisas. Eu não cheguei ao nirvana. Nós, os outros 80% da humanidade, temos de ser felizes por merecimento. As pessoas dizem: vou ser feliz quando eu tiver aquele carro, aquela casa. A gente está sempre postergando a felicidade. Não defendo um culto à felicidade. Temos dias ruins, em que você não quer levantar da cama. O que não pode é ficar ruminando por coisas pequenas.

Publicado em VEJA de 12 de outubro de 2022, edição nº 2810

https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/nizan-guanaes-nas-redes-sociais-parece-que-ninguem-tem-problema/

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Geração Z adota ‘consumo ativista’ e rastreia racismo, poluição e trabalho escravo

No Brasil, dois terços dos jovens dizem pesquisar sobre atuação das marcas antes de escolher produtos ou serviços

Daniele Madureira – Folha – 13.out.2022 

O estudante de educação física Victor Oliveira e Silva, 21 anos, já não pratica crossfit – treinamento que mescla exercícios aeróbios e modalidades esportivas, como levantamento de peso. Não que ele não goste da modalidade, ela é bem adequada para garantir condicionamento físico ao seu trabalho como professor de vôlei e futevôlei.

Mas depois que o americano Greg Glassman, o fundador da CrossFit Inc., empresa que deu origem ao programa de treinamento esportivo, fez uma ironia no Twitter após o assassinato de George Floyd em maio de 2020 (o homem asfixiado até a morte por um policial branco nos EUA), Silva deixou de praticar a modalidade.

Para piorar, um áudio vazado de uma reunião de Glassman com sua equipe, logo após o episódio do Twitter, reforçou a postura racista do empresário.

“O racismo é um tema que me toca profundamente”, diz Silva. “Eu não seria capaz de consumir nada de qualquer empresa que estivesse envolvida em casos de racismo ou que apoiasse manifestações racistas.”

jovem pardo de camisa azul aberta faz sinal de positivo

Victor Oliveira e Silva, 21, professor de vôlei e futevôlei – Divulgação

Depois do escândalo, em meio ao movimento “Black Lives Matter” (vidas negras importam), a CrossFit perdeu patrocinadores de peso, como a Reebok, e diversas academias ao redor do mundo encerraram seus contratos de filiação. Glassman pediu desculpas e na sequência renunciou ao cargo de CEO da companhia. A sangria não estancou e ele acabou vendendo a empresa no final de junho de 2020, um mês depois do assassinato de Floyd.

Nada disso, porém, fez Silva mudar de opinião.

Assim como o estudante de educação física, milhões de jovens da geração Z, que hoje têm entre 14 e 26 anos, se mostram cada vez mais dispostos a direcionar o seu consumo por suas convicções pessoais. Segundo o estudo global “Edelman Trust Barometer 2022: A Nova Dinâmica da Influência”, 67% dos jovens nesta faixa etária no Brasil praticam ativismo ao escolherem marcas de produtos ou serviços. No mundo, este índice chega a 73%.

A pesquisa ouviu 20,4 mil pessoas (entre elas, 6.700 jovens de 14 a 17 anos) entre maio e junho deste ano, no Brasil e em mais 13 países –entre eles, Estados Unidos, França, Alemanha, Japão, Índia, China e Arábia Saudita.

“O comportamento de consumo dos jovens da geração Z está intrinsecamente ligado à sua visão de mundo”, diz Marcília Ursini, vice-presidente de clientes de consumo da agência de comunicação Edelman Brasil. “É o que os leva a praticar a cultura do cancelamento: se uma marca não correspondeu aos seus valores e crenças, eles a abandonam.”

Mais do que praticar ativismo, o estudo identificou que a geração Z está disposta a atuar ao lado das marcas: 72% dos brasileiros dessa faixa etária buscam ação conjunta com as marcas para tratar questões como mudanças climáticas, pobreza, racismo, qualidade da informação e desigualdade de gênero. No mundo, esta disposição é verificada em 62% dos jovens.

Quando confiam no nome comercial, 78% da geração Z no Brasil “compram novos produtos que a marca apresenta” e “compram a marca mesmo se ela não for tão barata” –um índice maior que o da população brasileira em geral, de 72%. No mundo, 61% da geração Z tomam a mesma atitude, frente a 58% da média global de todas as faixas etárias.

“Quando as marcas apoiam publicamente ou demonstram compromisso com tópicos relevantes para a sociedade, os brasileiros se sentem mais propensos a comprar ou usar seus produtos”, afirma Marcília.

Menos carne, menos leite, menos fast fashion

O estudo identificou que, no Brasil, marcas que atuam por “acesso à saúde” têm 13 vezes mais propensão de serem adquiridas do que aquelas que não atuam. Os nomes de produtos ou serviços vinculados à defesa dos “direitos humanos” tem 12,5 vezes mais chances de consumo, mesmo índice da defesa de “justiça racial”. As marcas que atuam contra as “mudanças climáticas” têm 10,5 vezes mais chances de serem consumidas e, pela “igualdade de gênero”, 8 vezes mais apelo.

Depois de se formar em Administração e sair da casa dos pais, em setembro do ano passado, Enzo Rodrigues Nogueira, 23 anos, afirma ter mudado sua relação com as marcas de consumo. “Passei a ter total controle sobre o que iria consumir em casa”, diz ele, especialista em marketing digital. “Busquei o máximo de alinhamento com as coisas que eu acredito, especialmente no que se refere à sustentabilidade.”

jovem branco, de barba, usa camisa branca

Enzo Rodrigues Nogueira, 23 anos, especialista em marketing digital – Divulgação

Um exemplo, afirma, é a redução do consumo de carne e laticínios. “Tomo leite vegetal e priorizo marcas que tenham uma produção mais consciente, com menor impacto no ecossistema”, diz ele, que deixou de consumir vestuário de redes fast fashion por conta dos impactos da cadeia produtiva.

Nestas redes de moda rápida, a maioria das roupas é feita de poliéster, um material que demora 200 anos para se decompor e solta micropartículas de plástico quando lavado.

“Também procuro prestar atenção nos produtos de cuidado pessoal, para fazer escolhas que poluam o mínimo o possível”, diz ele, referindo-se ao menor uso de embalagens.

Entre as suas marcas preferidas está a Linus, uma sandália de plástico 100% reciclável, que exibe selos como o PETA-Approved Vegan (que garante que o produto é vegano) e Carbonext (certificação de carbono negativo, que significa compensar o dobro das emissões de carbono vinculadas à operação).

“Também gosto da Not Milk, uma marca de leite vegetal, pela proposta de substituir produtos de origem animal como resposta ao impacto ambiental gerado pela indústria pecuária“, diz.

Dados do Departamento de Produção Vegetal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP (Universidade de São Paulo), apontam que, no Brasil, 85% das terras são dedicadas à produção de soja e milho, sendo que a maior parte disso é destinado à ração animal.

No mundo, o levantamento apontou que 70% da geração Z estão envolvidos em uma causa social ou política. No Brasil, 92% dos entrevistados entre 14 e 26 anos afirmam ter inquietações relativas à segurança, saúde, finanças e conexões sociais –um percentual muito superior ao global, de 56%.

Mídia social perde força em todo o mundo como epicentro de mudanças

Embora muito dessa inquietação seja levada e discutida nas redes sociais, a pesquisa da Edelman apontou uma desaceleração, em nível global, na confiança deste canal como “epicentro de mudanças na sociedade”.

Considerando os brasileiros de todas as faixas etárias, que postam ou criam conteúdo online regularmente, 74% veem as mídias sociais como uma forma de mudar o mundo –no levantamento de 2018, este índice era de 78%. O país é, depois da África do Sul, o que mais aposta nas mídias sociais como um canal para incentivar mudanças de comportamento.

“Mas em todo o mundo, o que vemos, comparando os números de 2018 e 2022, é um pé atrás nesta aposta nas redes sociais, como se elas fossem perdendo um pouco o encanto, justamente pela quantidade de notícias falsas e discursos distorcidos que estão presentes nestes meios”, diz Marcília.

Na comparação entre os dois levantamentos, o Japão aparece como o menos entusiasmado nas mídias sociais como epicentro de mudanças (43% da população têm esta opinião agora, frente a 68% de 2018).

O estudo apontou que a geração Z também gera influência sobre as demais. Considerando brasileiros de todas as faixas etárias, 62% acreditam que adolescentes e jovens os influenciam no que compram e 59% na sua mudança de comportamento. Marcília, da Edelman, é um exemplo.

“Minha filha Nina, de 18 anos, gosta muito de moda e, ao mesmo tempo, tem uma grande preocupação com a origem dos produtos”, conta Marcília. “Ela me instruiu a baixar um aplicativo, o Moda Livre, que indica o quanto as marcas de vestuário estão comprometidas com o combate ao trabalho escravo. Agora, me baseio por ali para decidir compras.”

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2022/10/geracao-z-adota-consumo-ativista-e-rastreia-racismo-poluicao-e-trabalho-escravo.shtml

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Fim das redes sociais fica mais próximo com mudanças no Facebook

Por Bruno Romani e Bruna Arimathea – Estadão – 21/08/2022 

O modelo do TikTok, que foca em algoritmos e ignora conexões sociais, está substituindo o formato que consagrou a empresa de Zuckerberg

As redes sociais como conhecemos hoje podem estar perto do fim — ou quase isso. As publicações dos seus amigos continuarão lá e as suas também. Mas o modelo que consagrou o Facebook parece estar em declínio por causa do TikTok. Ou seja, no novo mundo, as plataformas focam mais em conteúdos “bombados” e menos nas suas conexões sociais.

As indicações de mudança estão por todos os lados. “O feed está deixando de ser guiado por pessoas e contas que você segue para ser guiado por conteúdo recomendado por inteligência artificial (IA), mesmo que você não siga os criadores que postaram o conteúdo”, disse Mark Zuckerberg, presidente do Facebook, para investidores no mês passado.

Antes dele, Blake Chandlee, presidente global de soluções de negócio do TikTok, descreveu como enxergava o seu concorrente. “O Facebook é uma plataforma social. Eles criaram seus algoritmos baseados nas conexões sociais. Somos uma plataforma de entretenimento. A diferença é grande”, disse ele ao canal CNBC.

É uma distância que Zuckerberg pretende encurtar, ficando mais parecido com o rival chinês. Na mesma reunião, o fundador da rede social disse que cerca de 15% do conteúdo no Facebook é sugerido e exibido por meio de IA e não depende de quem você segue — o porcentual é um pouco maior no Instagram. Para o ano que vem, o objetivo do executivo é chegar à marca de 30% nos dois serviços. Isso deve colocar no feed, principalmente, vídeos curtos postados por estranhos, principal pilar do modelo do TikTok.

Parte dessa movimentação já pode ser vista. No ano passado, o Instagram incluiu o Reels (sua ferramenta de vídeos curtos) no feed e passou a fazer recomendações desses conteúdos entre as postagens de parentes e amigos. Neste ano, a insistência nas recomendações de vídeos chegou a causar críticas dos usuários do app.

Adam Mosseri, presidente do Instagram, voltou atrás nas mudanças, mas indicou que não desistiu de aplicá-las. Ao site Platformer, ele disse: “Precisamos dar um grande passo para trás e rearranjar. Quando aprendermos o suficiente, voltamos com alguma nova ideia”.

Seja qual for a nova investida, o componente social parece ter ficado para trás. “A necessidade de redes sociais — e seu significado mais tradicional — é menor do que era há 10 anos. Com os dispositivos que temos, encontramos outras maneiras de nos conectarmos com nossos amigos e isso não exige, necessariamente, uma plataforma dedicada”, diz ao Estadão Matt Navarra, consultor britânico de redes sociais. “Redes para se conectar com amigos e familiares estão perdendo seu valor e o uso da mídia social está em mudança”.

Mudança histórica

É uma mudança de um paradigma que atravessa décadas. A ideia de grupos de pessoas reunidas online em torno de interesses comuns foi descrita pela primeira vez em 1993 pelo acadêmico americano Howard Rheingold, que cunhou a expressão “comunidade virtual”. Em 2003, o Friendster emprestou alguns dos conceitos de Rheingold para inaugurar oficialmente a era das redes sociais.

Nos anos posteriores, veio uma chuva de serviços que apostavam nas conexões entre pessoas conhecidas como mola propulsora do conteúdo online. Os brasileiros, por exemplo, se apaixonaram pelo Orkut em 2004. No mesmo ano, Zuckerberg criou, dentro da Universidade Harvard, o Facebook. A premissa dos serviços era reunir gente dos mesmos círculos sociais e permitir o compartilhamento de interesses.

Foi Zuckerberg, porém, quem melhor entendeu o poder do conteúdo mediado por parentes e amigos. Em 2006, ele lançou o Feed, o que não permitia apenas as pessoas se conectarem, mas também compartilharem posts — três anos depois, o Facebook incluiu o botão Curtir, o que dava uma noção da popularidade daquilo que era publicado. O formato virou padrão e se tornou definição de rede social, o que influenciou serviços como Twitter, Instagram e Snapchat.

O sucesso foi tanto que, na década seguinte, o Facebook se esforçou para preservar o formato. Em 2016, a empresa passou a priorizar a publicação de conhecidos no Feed em detrimento de páginas, inclusive de veículos jornalísticos. Em 2018, houve novo esforço do tipo. Naquela altura, o sucesso justificava o esforço, ainda que existissem problemas graves — documentos do Facebook revelaram que esse tipo de distribuição aumentava discursos inflamados.

Algo estava, porém, prestes a mudar.

A era do algoritmo

Lançado em 2018, o TikTok ignorou a ideia de conexão de conhecidos desde o começo. A empresa, que autodenomina seu app como uma plataforma de entretenimento (e não uma rede social), focou nos criadores de conteúdo e nas ferramentas espertas de edição. O impacto foi imediato.

O YouTube, que se consolidou com vídeos longos, foi obrigado a olhar para produções curtas e lançou o Shorts em 2020. O impacto, porém, foi quase nulo por uma razão simples: o segredo por trás do TikTok estava no seu algoritmo de distribuição e recomendação, que prioriza o entretenimento do usuário acima de tudo.

Para Edney Souza, professor da ESPM, estamos em transição para um momento em que as plataformas estarão muito mais empenhadas em ser uma “TV” eternamente ligada do que um ambiente de pessoas do nosso dia a dia. “Saímos da era das redes sociais e entramos na era das mídias sociais”, diz ele.

“Você não teria essa transformação de rede social em veículo de entretenimento se as pessoas não estivessem na frente do celular como se fosse a tela da televisão”, diz Carlos Affonso Souza, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS-Rio).

A transformação significa que saímos da era das conexões para a era dos algoritmos. “Houve uma mudança na maneira como as pessoas usam as mídias sociais nos últimos dois anos, além da mudança nas necessidades e expectativas das pessoas em relação às mídias sociais em geral. As principais plataformas de mídia, agora, precisam se adaptar a essa nova era”, explica Navarra.

Em números, fica clara a necessidade de mudanças de gigantes como o Facebook. Em fevereiro, a plataforma registrou queda de usuários pela primeira vez na história: a rede social perdeu cerca de 500 mil usuários diários globalmente nos últimos três meses do ano passado. No último mês de julho, a companhia registrou a primeira queda de receita desde a fundação: US$ 28,8 bilhões no trimestre encerrado em junho passado, ante US$ 29 bilhões do mesmo período de 2021.

Ainda, de acordo com um ranking americano publicado pela SensorTower, analista de redes sociais, o Facebook já caiu da posição de top-10 apps mais baixados no iOS, da Apple, 97 vezes — apenas em 2022. Em comparação, isso só aconteceu sete vezes no ano passado inteiro.

Nichos

Se os números são a única coisa que importam, as redes sociais parecem mesmo ter chegado ao final. Mas tem gente que enxerga as mudanças sob uma ótica mais otimista. “Acredito que o movimento do Instagram em direção ao TikTok não é sinal de fraqueza das redes, e sim de fortalecimento”, diz Souza.

Ele afirma que os modelos das plataformas não são estáticos e mudanças são parte de uma evolução. “O próprio Instagram começou a desviar o foco da conexão social, quando deu origem à cultura de influenciadores. De repente, as pessoas passaram a seguir desconhecidos”, diz ele.

E para quem sente saudades de ter a conexão social como mediador do conteúdo, ainda existem serviços que fazem isso — o próprio Instagram permite acessar uma aba só com os seus contatos. Isso sem contar serviços como o LinkedIn, focada em conexões sociais profissionais, e o BeReal, rede francesa que permite usuários postarem apenas uma foto por dia para seus amigos.

“Talvez, a conexão social se torne um recurso de nicho no momento. Mas, quem sabe, isso não volte à moda no futuro?”, diz Souza.

https://www.estadao.com.br/link/cultura-digital/fim-das-redes-sociais-fica-mais-proximo-com-mudancas-no-facebook/

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Empresas capacitam seus profissionais a aprender inglês

Empresas começam a deixar de lado a exigência de idiomas e habilidades técnicas, e passam a capacitar profissionais para ter uma força de trabalho mais inclusiva

Cleber Filho, do Grupo Boticário: após mentoria para jovens negros, ele foi contratado pela empresa de beleza (Divulgação/Divulgação)

Cleber Filho, do Grupo Boticário: após mentoria para jovens negros, ele foi contratado pela empresa de beleza (Divulgação/Divulgação)

Angélica Vilela – Exame – 04/10/2022

Cada vez mais as empresas no Brasil têm buscado aumentar a diversidade de seus times. Assim, não faz sentido exigir o domínio do inglês (idioma no qual apenas 1% da população brasileira é fluente) quando nem 11% dos formados no ensino médio têm aprendizagem adequada da disciplina básica de matemática, segundo o Anuá­rio Brasileiro da Educação Básica 2021.

Por isso, companhias estão mudando os processos seletivos e até capacitando profissionais para atrair grupos minorizados. Segundo a consultoria de contratação Cia de Talentos, dos processos conduzidos entre 2020 e 2021, só 19% exigiam o inglês. Em 52% das vagas o idioma não era necessário, e em 29% delas era mandatório apenas para algumas vagas.

No Grupo Boticário, por exemplo, o inglês é exigido apenas para posições com atuação internacional. Mas as ações vão além. O programa de estágio é digital e 95% das vagas são para trabalho híbrido ou remoto, levando oportunidades para todas as regiões do Brasil.

Além disso, ciente do problema de etarismo que o país enfrenta (uma pesquisa recente do Infojobs revelou que 70% dos profissionais acima de 40 anos já sofreram preconceito etário), o grupo contratou uma consultoria para empregar pessoas acima de 50 anos e promove vagas afirmativas para inserir em tecnologia pessoas em situação de vulnerabilidade social. Há, inclusive, recompensa para colaboradores que indicam profissionais da área que atendam a perfis de diversidade.

O Boticário também vem preparando pessoas pretas para o mercado (não necessariamente para a empresa) por meio de um programa de mentoria de talentos negros para jovens profissionais, como Cleber Filho, que foi orientado por líderes da empresa por três meses. “Nunca havia visto algo tão específico e até me questionei se era verdade”, lembra o profissional.

Não só era real, como gerou o convite para trabalhar na companhia. Hoje, ele é analista de diversidade, inclusão e equidade do Grupo Boticário. “Fazemos workshops para que os líderes entendam as estruturas de desigualdade social e vulnerabilidades em geral, e trabalhem a inclusão”, explica Viviane Pavanelli Corazza, gerente sênior de diversidade, cultura e colaboradores.

Ariel Albuquerque, assistente de diversidade, inclusão e equidade do grupo, destaca que a preparação dos funcionários na abordagem foi evidente ao longo do processo de contratação. Mulher trans, ela participou de um processo para uma vaga não afirmativa e foi selecionada. “Existe uma cultura forte de respeito e segurança, com profissionais mais conscientes”, diz.

Diversidade com meritocracia

No Bradesco, inglês não é requisito obrigatório nas contratações, pois a maioria das admissões é para cargos de entrada, já que a organização costuma priorizar a promoção de talentos internos. Dessa forma, sabe que contratar minorizados é a principal maneira de aumentar a diversidade. E os esforços não vêm de hoje.

Há 17 anos, o banco fechou parceria com a Universidade Zumbi dos Palmares para capacitar e contratar jovens negros como estagiários. “Parcerias longevas geram o aprendizado que procuramos incorporar nos processos e métricas, não só de recrutamento e seleção mas de onboarding e desenvolvimento de carreira”, afirma Juliano Ribeiro Marcílio, diretor de RH do Bradesco.

O banco também oferece aulas gratuitas de inglês e contrata ferramentas que ajudam a evitar vieses inconscientes, como testes de recrutamento e entrevistas em vídeo às cegas, nas quais os executivos não veem a fisionomia do candidato, e conta com a ajuda de uma consultoria para ampliar a presença feminina nas áreas de tecnologia e para contratar profissionais com transtorno do espectro autista e de faixa etária mais avançada.

Juliano Ribeiro Marcílio, diretor de RH do Bradesco: o banco oferece aulas gratuitas de inglês e promove recrutamento às cegas (Maurino Borges/Divulgação)

Menos exigência, mais capacitação 

Outro exemplo de sucesso quando o assunto é capacitação é o da Salesforce. Líder global de softwares de CRM, a empresa integra, em parceria com a K2 University, o programa Minha Chance, uma iniciativa do governo do estado de São Paulo cujo público-alvo são alunos de Escolas Técnicas (Etecs) e Faculdades de Tecnologia (Fatecs). Administrada pelo Centro Paula Souza, a iniciativa oferece cursos gratuitos de soluções Salesforce para a formação de administradores e profissionais de marketing digital.

“A formação em tecnologia é uma oportunidade de inserção do profissional na área com uma das maiores lacunas atualmente e com mais perspectivas para o futuro”, afirma Luana Gimenez, senior equality talent partner para a América Latina na Salesforce.

Também focada em capacitação, a companhia fechou parceria com uma consultoria para contratação, treinamento e desenvolvimento de pessoas com deficiência. E, em vez de usar a falta do domínio em inglês como critério eliminatório, a empresa faz o contrário: contrata o profissional e investe em seu desenvolvimento. 

Para reprimir o viés inconsciente em seus processos seletivos, a Accenture suprimiu a priorização demográfica e passou a contar com equipes de seleção mais diversas. Os recrutadores fazem um teste de atitudes sociais desenvolvido pelas universidades americanas Harvard, Virginia e Washington para identificar e mitigar eventuais preconceitos enquanto, na outra ponta, executivos são preparados para lidar com pessoas de grupos minorizados e desenvolvê-las.

A empresa também buscou parcerias para aumentar a diversidade­ de mulheres na área de tecnologia e promover a contratação de estagiários pretos e pardos, pessoas com deficiência e com mais de 50 anos. “A automação torna as contratações mais ágeis e melhora a experiên­cia dos candidatos”, afirma Beatriz Sairafi, diretora de RH da Accenture.

Inovação como aliada

Quem se candidatar hoje a uma vaga na farmacêutica Sanofi vai perceber que na descrição da vaga não há exigências relacionadas a universidade, idioma, idade, sexo e raça/etnia. E mais: quando passa adiante o currículo do candidato, o RH suprime informações pessoais como idade e nome da universidade para não enviesar a escolha.

Recentemente, a empresa fechou parceria com consultorias especializadas em diversidade para divulgar suas vagas, iniciou um processo de busca de pessoas com 50 anos ou mais e lançou um programa de estágio afirmativo para pessoas negras. “Nosso objetivo é desenvolver jovens profissionais em competências técnicas e comportamentais essenciais para a construção de uma carreira sólida”, diz Neila Lopes, head de diversidade, equidade e inclusão da Sanofi.

Diversidade dá retorno financeiro

A diversidade está longe de ser apenas uma medida para atrair profissionais ou agradar clientes. E os exemplos acima mostram que as empresas já estão plenamente cientes disso. Uma pesquisa da consultoria ­McKinsey com 1.000 grandes empresas de 15 países apontou que organizações com equipes executivas com diversidade de gênero têm 25% mais chances de lucrar acima da média. E as com diversidade étnica e cultural superaram em 36% a lucratividade de outras menos inclusivas.

Mas não basta mudar o processo seletivo ou adotar ferramentas para chegar aos grupos minorizados. A prática vem mostrando que é preciso ter um programa de inclusão bem estruturado que garanta que eles sejam acolhidos e preparados para atuar em igualdade com colegas mais privilegiados. “Não podemos nos colocar em uma condição menor, achar que temos de ser agradecidos e ficarmos quieto, e sim sentir que somos ouvidos”, reforça Cleber Filho, do Boticário.

https://exame.com/revista-exame/precisa-mesmo-de-ingles/

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O que são ‘soft skills’, habilidades comportamentais cada vez mais buscadas por empregadores

Kate Morgan BBC Future 14 agosto 2022

Para fazer bem o seu trabalho, você precisa de habilidades técnicas — as chamadas hard skills, em inglês. São os conhecimentos técnicos específicos para cumprir com as suas atribuições.

Mas o mundo profissional não é mais o mesmo. Por isso, soft skills — habilidades sociais e emocionais — podem ter agora a mesma importância do que a experiência e conhecimento técnico, ou até maior.

Estas habilidades são mais sutis e discretas. Pense nos comportamentos e nas características pessoais que fazem de alguém um bom líder ou membro de equipe.

Especialmente agora, com a normalização do trabalho remoto e as mudanças nas formas de colaboração e inovação, as empresas estão começando a perceber a importância dessas capacidades intangíveis para formar equipes diversificadas com sucesso.

O resultado, segundo os especialistas, é que os empregadores estão levando cada vez mais em conta soft skills dos candidatos, além da sua experiência e especialização técnica.

Em alguns profissionais, algumas destas habilidades são inatas — características da personalidade que tornam alguém um bom comunicador ou pensador analítico por natureza. Mas, para outros, desenvolver e aprimorar soft skills pode ser mais desafiador.

Ainda assim, todos os profissionais podem desenvolver e aprimorar essas características, aprendendo a demonstrá-las. E todos nós, segundo os especialistas, deveríamos estar fazendo isso.

O que são ‘soft skills’?

Não existe uma lista definitiva de soft skills, mas, essencialmente, são habilidades que vão além da técnica.

A destreza com um software específico, por exemplo, é um tipo de hard skill; já saber analisar diferentes pacotes de software para descobrir qual a empresa deveria usar exige pensamento crítico, que é uma soft skill.

Outra área importante de soft skill é a comunicação. Comunicar-se eficientemente com os colegas, clientes e chefes exige destreza e inteligência emocional. Empatia, trabalho em equipe e solidariedade também são habilidades que fazem parte deste grupo.

A expressão soft skills é apenas um jargão, segundo Eric Frazer, autor do livro The Psychology of Top Talent (“A psicologia dos grandes talentos”, em tradução livre) e professor de psicologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Yale, nos Estados Unidos.

Para ele, “do ponto de vista da ciência comportamental, a expressão se refere, na verdade, a formas de pensar e comportamentos. Alguns exemplos de formas de pensar ou mentalidade que representam soft skills podem ser alguém que está sempre aprendendo, ou que é altamente resiliente. E muitos comportamentos também são soft skills — [como] pensamento crítico, escuta ativa e capacidade de solucionar problemas de forma criativa, apenas para citar alguns.”

Basicamente, acrescenta Frazer, a expressão é apenas outra definição para “habilidades interpessoais”.

“É sobre o senso de identidade das pessoas e como elas se relacionam com os demais.”

Vários tipos de soft skills são altamente práticos, como a eficiência, a capacidade de priorização, a organização e a administração do tempo — características cada vez mais importantes para os trabalhadores remotos e híbridos.

“Pessoas com alto desempenho têm disciplina para estruturar o seu dia e serem altamente eficazes em um período de tempo definido”, afirma Frazer.

E soft skills não são úteis apenas no trabalho. De forma geral, são recursos valiosos. As mesmas habilidades que permitem aos profissionais trabalhar com sucesso dentro da hierarquia da empresa e subir até o topo também geram relações interpessoais bem-sucedidas, por exemplo.

Mudança notável

À medida que muitas das partes altamente técnicas do trabalho são cada vez mais automatizadas ou substituídas por ferramentas tecnológicas, as empresas vêm buscando profissionais que sejam capazes de resolver problemas, conciliar responsabilidades maiores e trabalhar bem com os demais.

A escassez de mão de obra atual em alguns países também fez as empresas se concentrarem no longo prazo. Funcionários com inteligência emocional e habilidades interpessoais suficientes para chegar a posições de liderança oferecem muito mais valor.

Além disso, soft skills se tornaram ainda mais importantes no cenário pós-pandemia, com o trabalho em grande parte remoto. A comunicação pode ser muito mais sutil e complexa quando os profissionais não veem os colegas pessoalmente.

E a capacidade de adaptação é outro tipo de soft skill muito necessário, como se mostrou sobretudo nos últimos dois anos. Por isso, os empregadores estão buscando ativamente candidatos que tenham essas habilidades.

Uma análise de mais de 80 milhões de anúncios de emprego em 22 setores do mercado conduzida pela ONG especializada em educação America Succeeds, em 2021, concluiu que quase dois terços dos cargos listavam soft skills entre as qualificações exigidas.

E, entre os anúncios de emprego, das 10 habilidades mais exigidas, sete eram soft skills, incluindo boas capacidades de comunicação, solução de problemas e planejamento.

O mesmo relatório demonstrou que certos tipos de cargos priorizam ainda mais soft skills. Estas habilidades foram as qualificações mais desejadas para 91% dos cargos de gerência, 86% dos cargos de operações comerciais e 81% dos empregos no setor de engenharia — o que pode ser surpreendente, já que este é um campo considerado altamente técnico.

“Quando você observa o mercado de trabalho atual, claramente houve uma mudança, e não é mais suficiente ter apenas o que eu chamaria de ‘conhecimento tácito’ e ‘habilidades tácitas’… ou seja, você ser bom apenas no que faz. Se você é um engenheiro, você é bom em programação ou projetos. Se você trabalha em finanças, você é bom em analisar dados numéricos”, explica Frazer.

As empresas mudaram ao ponto de que, segundo ele, “existe uma compreensão mais profunda de que as pessoas precisam vir em primeiro lugar, antes do desempenho”.

Frazer acrescenta que isso não quer dizer que as habilidades técnicas não são mais necessárias, mas que as empresas estão percebendo cada vez mais que enfatizar as habilidades interpessoais que as mantêm coesas é o que “gera grandes resultados”.

O relatório The Future of Work 2021: Global Hiring Outlook (“O futuro do trabalho em 2021: panorama global das contratações”, em tradução livre), do site de empregos global Monster, mostrou que soft skills como colaboração, confiabilidade e flexibilidade são algumas das habilidades que os empregadores mais valorizam nos profissionais.

Ainda assim, executivos relatam que há anos têm dificuldade para encontrar candidatos com um conjunto de soft skills bem desenvolvido.

Parte disso, segundo Frazer, se deve ao fato de que é difícil quantificar habilidades como imaginação e flexibilidade.

“Levantamentos e questionários realmente não capturam esses atributos com grande precisão”, afirma.

E os candidatos não destacam necessariamente essas capacidades nos seus currículos ou páginas no LinkedIn — como talvez devessem fazer, segundo Frazer.

Articulando sua ‘mentalidade inovadora’

Essa ênfase maior em soft skills pode desencorajar alguns profissionais, especialmente aqueles que não são bons comunicadores naturais, nem “líderes natos”, como diz Frazer.

Mas ele destaca que estas são habilidades que podem ser aprendidas, mesmo por pessoas que talvez precisem se dedicar um pouco mais.

“Pessoas que querem melhorar seu desempenho no emprego, ser profissionais melhores ou ter mais equilíbrio entre a vida pessoal e profissional compreendem e apreciam o valor de aprimorar constantemente essas mentalidades e comportamentos”, afirma Frazer.

Temos a tendência de conhecer nossos pontos fortes, mas aperfeiçoar nossas habilidades interpessoais começa por pedir feedback para identificar nossas fraquezas e pontos cegos. Melhorar pode exigir um esforço para sair da nossa zona de conforto.

Se você quiser melhorar o seu pensamento criativo ou sua capacidade de resolução de problemas, por exemplo, tente participar de sessões de brainstorm com as pessoas criativas da sua empresa.

A inteligência emocional também pode ser ampliada, desenvolvendo a consciência social e aprendendo a controlar seus próprios sentimentos e reagir aos demais com empatia.

Além de melhorar as perspectivas profissionais, existem outros benefícios: pesquisas indicam que pessoas com alta inteligência emocional têm menos propensão a sofrer estresse e ansiedade.

À medida que os gerentes de contratação buscam cada vez mais pessoas com essas habilidades intangíveis, eles podem direcionar suas perguntas durante as entrevistas de emprego para tentar descobrir soft skills dos candidatos.

“Quando você pede a alguém ‘dê um exemplo de um momento em que você foi bastante resiliente na sua vida profissional’ ou ‘conte uma história que destaque sua mentalidade inovadora’, você está pedindo que o candidato demonstre esses pensamentos”, explica Frazer.

Em relação ao entrevistado, “digamos que o entrevistador pergunte ‘qual é sua visão sobre aprendizado contínuo?'”, ele acrescenta. Este é o momento de mostrar ao entrevistador que você está disposto e animado para aprender — e tem as habilidades para isso.

“A melhor resposta seria dizer: ‘Bem, eu fui a esta conferência no ano passado; participo deste webinário uma vez por mês; acabei de ler este livro; e assino esta publicação do setor”, orienta Frazer.

Para se preparar melhor para situações como estas, os candidatos devem primeiro identificar suas principais soft skills e estar prontos para demonstrá-las, segundo ele.

Os conhecimentos técnicos e a experiência no seu currículo sempre serão importantes.

Mas, no novo mercado de trabalho, não são suficientes por si só — você ainda precisa convencer os recrutadores de que tem as soft skills necessárias para atingir o sucesso profissional.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Worklife.

– Este texto foi originalmente publicado em https://www.bbc.com/portuguese/vert-cap-62496935

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TikTok compra rede hospitalar chinesa. Big Techs inovarão a Saúde?

Guilherme Hummel – Coordenador Científico da Hospitalar Hub | Saúde Business 07/10/2022 

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A ByteDance, empresa chinesa controladora da gigantesca plataforma TikTok, adquiriu em agosto/2022 a Amcare Healthcare, uma luxuosa cadeia hospitalar que conta com 7 unidades, 2 Centros Ambulatoriais e outras 5 unidades emergenciais. Localizada em Pequim, Xangai e Shenzhen, a Amcare existe desde 2006 e foi adquirida pela ByteDance por US$ 1,5 bilhão. Trata-se de outro passo significativo da empresa (avaliada em US$ 300 bilhões) na direção da Saúde, seguindo o cortejo dos “grandes players de tecnologia” (Big Techs) na direção de aquisições dentro do mercado privado de assistência médica. O portfólio da ByteDance na saúde cobre várias áreas, incluindo consultas digitais, clínicas offline, labs de diagnósticos, tratamentos hospitalares, bem como pesquisa e desenvolvimento de medicamentos.

O setor de saúde chinês segue uma disputa acirrada por expansão, tendo as big techs como ‘motor de aquisições’. De acordo com dados do instituto de pesquisa chinês iiMedia Research, a receita geral do segmento médico-assistencial privado do país atingiu US$ 1,11 trilhão em 2021, com um aumento anual de 8,1%, devendo chegar a US$ 1,24 trilhão em 2024. Assim como a ByteDance, o Alibaba Group, outro gigante tecnológico chinês, considerado o maior provedor de e-commerce do mundo, também não cessa de avançar na Saúde.

A Alibaba Health cresce mais de 60% ao ano entregando soluções online e offline, inclusive por meio de seu “Dr. Deer”, um assistente que permite ao consumidor pesquisar informações de serviços e produtos médicos, ou realizar vídeo-consultas (média de 180 mil consultas online por dia). A Tencent, a mais utilizada empresa de internet da China (maior companhia de videogames do mundo), dobra suas apostas na saúde ano a ano: a Tencent Healthcare é uma plataforma on-line que conecta pessoas e serviços médicos por meio de registros médicos eletrônicos (EMR), sendo que no pico da pandemia seu sistema telemedico atendeu 350 milhões de pacientes.  

Vale salientar que uma coisa é os “grandes players de tecnologia digital” participarem do “sistema” como fornecedores e parceiros tecnológicos, outra é quando passam a “ser o sistema”. Desde que existe tecnologia existem provedores cativos de soluções digitais para Saúde, que vendem seus produtos e avanços para os stakeholders do setor. É diferente quando as big techs tornam-se stockholders no mesmo setor. É curioso: achamos normal uma Healthtech abocanhar um pedação do negócio do incumbente, mas achamos perigoso quando uma big tech faz o mesmo. Não faltam motivos. 

Quando a ByteDance ou Amazon se mobilizam para ‘estar’ no setor como protagonistas e não como coadjuvantes, erguem-se algumas dúvidas: seriam os grandes provedores de tecnologia digital bons provedores de serviços de Saúde? Seriam eles mais competentes para prover ‘saúde digital’ do que os tradicionais players do setor? Ainda é cedo para respostas contundentes. Incumbentes sofrem de depressão (excesso de passado) e big techs sofrem de ansiedade (excesso de futuro). Como ambas as partes poderão conviver harmonicamente e como o usuário será beneficiado com isso ainda é uma grande incógnita.

Se na Ásia o crescimento das big techs em Saúde cresce, não cresce menos no Ocidente, embora com seu ‘capitalismo desconexo e cheio de contradições’. No final de agosto de 2022, funcionários da Amazon Care, o serviço de atendimento primário (presencial e virtual) da empresa, foram informados que a Amazon estava encerrando esse serviço, com dispensas imediatas e pagamento rescisório até o final de dezembro. A notícia surpreendeu não só os funcionários da Amazon, como também o mercado em geral.  Depois de ser lançada publicamente em 2019, a empresa expandiu-se rapidamente e foi apontada como uma das inovações mais importantes do setor. 

Foi um retrocesso da empresa na área de Saúde? Longe disso, “trata-se apenas de uma mudança estratégica”, respondem seus gestores. Quase que simultaneamente a Amazon adquiriu a One Medical por US$ 3,9 bilhões (790 mil beneficiários). Até onde se pode enxergar, a gigante continua a mostrar sólido interesse no mercado de primary care, incluindo o fornecimento de assistência médica domiciliar para idosos e venda de serviços de telehealth aos grandes empregadores. O que se desconfia é uma típica movimentação das grandes de tecnologia digital: experimentação. Como são colossais, temem muito menos o risco do que as startups

A própria Amazon tem uma longa história de experimentação e abandono, incluindo na área de Saúde. Sua divisão de computação em nuvem, por exemplo, surgiu de suas próprias necessidades, mas se tornou um grande centro de receita da empresa quando começou a vender serviços para terceiros. De mesma forma, em 2017 ela não conseguiu avançar em mantimentos com a Amazon Fresh, mas logo em seguida adquiriu a Whole Foods para impulsionar seu portfólio nesse setor. Grandes players de tecnologia seguem à risca o antigo epítome das cadeias de suprimento: “quem altera o valor dentro da cadeia não é alguém que faz parte dela, mas quem está fora dela”. Quem transformou a ‘cadeia editorial’ foi a própria Amazon, que estava fora dela. Quem transformou a ‘cadeia de produção musical’ neste século foi a Apple, que também estava fora dela. Quem transformará a Cadeia de Serviços de Saúde?

Os modelos de transformação são multidirecionais. O wearable de pulso da Apple (Apple Watch), por exemplo, já afere pulso, eletrocardiograma, níveis de oxigênio e rastreia tremores. O que falta para substituir uma consulta médica de rotina? Provavelmente muita coisa, mas dentro da visão minimalista de saudabilidade preventiva se o device acrescentar sinais vitais adicionais, como pressão arterial, glicemia, temperatura, relatórios intermitentes de O2 e eletrocardiograma, bem como altura e peso, estará a meio caminho de inserir a Apple no setor como “provedora de serviços assistenciais” (essas adições estarão todas implementadas em menos de três anos). Fora isso, em 2021 a empresa anunciou o “Casper Program”, um projeto de saúde “secreto”, sendo testado e objetivando aumentar sua atuação no setor por meio de clínicas médicas próprias que forneçam serviços personalizados de saúde. Transformações multidirecionais são mesmo assim: enquanto você olha para o céu, alguém levou seu chão.

Big Techs já percebem que o caminho mais assertivo para caminhar dentro do ‘pântano da saúde’ é o modelo omnichannel (estratégia de uso simultâneo e interligado de diferentes canais de comunicação e atendimento), também conhecido como Figital. Elas aceleram suas ações em saúde no ambiente digital, sem esquecer de criar vínculos com o consumidor no meio físico. Por outro lado, mais do que ninguém, elas sabem que por detrás das ‘plataformas de omnichannel’ está o seu mais importante ativo: “dados”. Para big techs vale a máxima: “onde há fumaça de dados, há fogo de negócios”…

A matriz em jogo para as big techs é ganhar nas duas pontas: (1) capturam valor obtendo venda de ativos e serviços digitais para as empresas do setor; ao mesmo tempo em que (2) vendem serviços de saúde para o mercado consumidor. À medida que elas obtêm acesso aos dados, desenvolvem vantagem competitiva tornando-se cada vez eficientes no provimento de serviços ao setor. Como mostra o estudo “Digital Colonization” of Highly Regulated Industries: An Analysis of Big Tech Platforms’ Entry into Health Care and Education” coordenado pelos pesquisadores Hakan Ozalp (University of Amsterdam) e Pinar Ozcan (University of Oxford) e publicado em maio de 2022,  é improvável que as grandes empresas de tecnologia acabem oferecendo serviços primários, porque geralmente não são lucrativos. 

“Mas elas vão mudar a dinâmica de poder na área da saúde, mercantilizando os prestadores de serviços incumbentes. São as grandes empresas de tecnologia que controlarão os dados críticos, com os provedores de saúde oferecendo apenas serviços complementares”, explica o estudo. Ao evitar o envolvimento direto na atenção primária, a big tech escapa da regulamentação convencional. Essa “colonização digital” tende a ser uma cartilha para as big techs interessadas no setor clínico-assistencial.  “Por outro lado”, diz o estudo, “elas podem evoluir para um balcão único de amenidades digitais, assim como Alibaba e Tencent, que oferecem tudo para o setor, de insumos a serviços”.

Reguladores não gostam desse jogo. Resta perguntar aos consumidores se eles estão dispostos a jogá-lo. Se suas demandas em saúde forem minimamente equacionadas (preço, acesso, logística, qualidade de atendimento, qualidade clínica, etc.), importa tanto assim quem fornece os serviços? Dados estão no centro dessa disputa. Provedores incumbentes da área de Saúde continuam tendo enormes dificuldades em fazer bom uso dos dados médicos que dialogam transversalmente com seu negócio. Guardadas as devidas exceções, Hospitais, Planos de Saúde, Redes Públicas de Atenção, etc. geralmente não possuem recursos e interesse na gestão de dados clínicos, sendo que grande parte das vezes contratam as big techs (ou healthtechs) para essa missão. Com isso os incumbentes objetivam reduzir seus custos, mas, no fundo, talvez estejam “afiando o machado que pode cortar suas cabeças”.

As big techs aproveitam seus relacionamentos, bem como seus recursos de análise de dados, para obter espaço na engenharia de serviços dos provedores estabelecidos. Assim, a “colonização digital na área de saúde” segue uma trilha definida: (1) fornecimento de serviços de infraestrutura de dados para os incumbentes; (2) captura direta e indireta de dados da indústria; (3) fornecimento de insights baseados em dados; e (4) concepção e comercialização de novos produtos e serviços. Para colonizadores, “longe” é um lugar perfeitamente acessível e habitável.

No entanto, o que impulsiona mesmo a participação das grandes empresas de tecnologia no Setor de Saúde não é só a cobiça ou a rentabilidade, mas também o desastre orgânico dos Sistemas de Saúde ao redor do mundo. Por motivos consistentes, as big techs acreditam que têm o consumidor do seu lado. O estudo anual “Ipsos Global Health Service Monitor”, publicado em setembro de 2022, explora os maiores desafios da Saúde enfrentados pelas pessoas (cidadãos) no mundo real, e como elas “percebem que seus países dominam ou estão equipados para enfrentar as deficiências sanitárias de seus Sistemas de Saúde (públicos ou privados)”

Realizada em 34 países (incluindo o Brasil), a pesquisa conversou com milhares de usuários, identificando entre outros itens, que: (1) a saúde mental experimentou um aumento de 5 pontos em relação a 2021, tornando-se a segunda maior preocupação (36%), sendo que pela primeira vez ficou à frente do câncer (34%), que agora é o terceiro; (2) apenas 33% acha que o serviço de saúde de seu país vai melhorar nos próximos anos, sendo consenso que o sistema está sobrecarregado (61%); (3) a dificuldade de acesso e a insuficiência de pessoal são os maiores desafios a serem enfrentados (42%). No Brasil, por exemplo, o estudo revelou que somente 29% da população acha seu sistema de saúde “bom”, com apenas 31% achando que “vai melhorar no futuro”.

A percepção da população mundial sobre a eficiência sistêmica de sua máquina de atendimento à saúde ficou clara diante da provocação dos pesquisadores da Ipsos: “No meu país, os dados e as informações para cuidados com minha saúde estão prontamente disponíveis quando preciso”, com 56% respondendo ser essa afirmação falsa (em 2018 o percentual era de 50%). Ou seja, existe uma percepção cristalina de que a engenharia de dados clínicos para suportar as exigências sanitárias é insuficiente na maior parte do mundo, sendo que governos e empresas incumbentes estão fracassando nessa direção. 

Trata-se de um total despropósito: nunca as ferramentas de análise de dados foram tão poderosas, expansivas e efetivas como nos dias hoje, sendo facilmente comprovável quando avaliamos os colossais ganhos que outras indústrias de serviços (finanças, logística, e-commerce, utilities, entretenimento, etc.) obtêm com Data Analytics. O caos faz emergir a competitividade: o mercado global da saúde retarda a transformação digital, acelerando a atratividade das big techs em ocupar espaço no setor.

Hoje, é difícil imaginar o “mundo da saúde” desagregado do “mundo do consumo”, principalmente por que o usuário é o mesmo: aproximadamente 44% dos norte-americanos têm uma associação ativa com o Amazon Prime, enquanto o maior sistema de saúde dos EUA, o HCA Healthcare, tem associação com apenas 1% dos estadunidenses. O Brasil, com suas deficiências inegáveis na atenção médica, ficará cada vez mais vulnerável aos entrantes, mas não só as healthtechs e big techs, mas também os grandes grupos varejistas. Anote aí: quando a “experiência do cliente” se enrola na “experiência do paciente” novos elos se formam e esculpem novos negócios. Nesse sentido, um termo lapidar ganha espaço na mente dos grandes players, principalmente no setor de varejo: “conexão emocional”. 

O estudoÍndice de Preferência do Consumidor (IPCON)”, produzido pela dunnhumby brasil, entrevistou mais de 10 mil consumidores e analisou 47 redes varejistas de porte nacional e regional (varejo físico). O sentido da pesquisa foi identificar a “marca mais querida pelos brasileiros”, utilizando perguntas como: “Você ficaria triste se esta loja fechasse?”, ou “Você recomendaria esta loja para amigos e familiares?”, etc. Entre as dez ranqueadas estão: Mercado Livre, Záffari, Amazon, Magalu, Pão de Açúcar, Carrefour, etc. “Os fatores ligados à conexão emocional dos consumidores correspondem a 50% da avaliação total da pesquisa IPCon. Os itens emocionais avaliam o quanto os entrevistados sentem que o varejista está próximo do que seria ‘um supermercado-ideal’, e se eles o recomendariam e qual a probabilidade de estabelecer um vínculo emocional com o varejista”, explica o estudo. 

Foram pesquisas desse teor que levaram o Walmart, a maior rede varejista do Ocidente, a criar laços sólidos com o mercado de saúde. Um dos estudos mostrava que “90% da população dos EUA vive a 10 milhas de uma loja Walmart”, estimulando o player tradicional a avançar progressivamente no espaço de cuidados primários. A Walmart Health, fundada em 2019, já conta com 25 Centros de Atendimento (Geórgia, Arkansas, Illinois e Flórida).

Ou seja, é visível que os provedores tradicionais de saúde não exploram com a devida velocidade as tecnologias disruptivas, não criam experiências navegáveis, detectáveis, acessíveis e personalizadas para os pacientes, que, cada vez ficam mais impacientes, esperando um novo modelo de atendimento centrado no consumidor. Quase todos os grandes varejistas nacionais estudam propostas para ocupar algum espaço em nossa cadeia de saúde. Se e quando pretendem ocupá-lo saberemos nos próximos 2 ou 3 anos. Mas já contam com a “conexão emocional” de boa parte da população, o que não ocorre com os incumbentes do setor de Saúde, líderes nos rankings nacionais de rejeição dos consumidores. 

Big Techs são movidas pelo “futuro”. O presente já é delas. Saúde e a sua importância na mente dos consumidores é uma aposta de “risco-zero” para investidores. Só o mercado de saúde dos EUA supera gastos de US$ 4 trilhões anuais (há uma década era US$ 2,9 trilhões). Se Amazon, Apple ou Google abocanharem 2% desse gasto, cada uma adicionaria US$ 80 bilhões de receita anual (em dez anos provavelmente serão US$ 125 bilhões). Nada mal para elas, mas seria “bom” para os sistemas de assistência à saúde?

O que as big techs ocidentais ou orientais trazem a mesa? Possivelmente alguns itens que o mercado de saúde tradicional só enxerga por luneta: (1) uma colossal base de consumidores, dados e análises, com know-how para entender a colossal escala de demanda deles (elas já fazem isso em outros setores); (2) são campeões de “experiência do usuário”, um elemento crítico na adoção de tecnologias digitais, que os incumbentes da saúde não priorizam, preferindo sempre a “eficácia dos mecanismos sistêmico-administrativos”; (3) são versados e hábeis em tecnologias complementares, como wearables, que estão impulsionando rapidamente a consumerização da saúde; (4) possuem enorme expertise nas cadeias de suprimentos (delivery), constantemente otimizadas por novas ferramentas interoperáveis (blockchain); (5) como “moram” no futuro, não têm medo de errar no presente, não se intimidam com os “experimentos equivocados”; e o mais importante: (6) todas suas estratégias gravitam em torno do consumidor e não do influenciador (comunidade médica) ou do financiador (seguradoras).

É obvio que a incursão dos grandes players no setor de saúde não se dará somente por querença. A complexidade do setor é amplamente reconhecida e exemplos de fracassos não faltam. Qualquer estratégia de incursão levará tempo, mas não décadas. Inúmeras tentativas das big techs em avançar na Saúde fracassaram, mas elas estão acostumadas aos fracassos: têm recursos ($), ambição e tempo para aprender com as falhas, além de uma larga experiência em compreender a mente dos consumidores. 

Em relatório recente, o Gartner Group mostrou que até 2025, 50% de todas as organizações de prestação de serviços em saúde incluirão “contribuições das gigantes digitais em seus processos clínicos de diagnóstico e tratamento”, sejam elas chinesas, europeias ou norte-americanas. Um caminho natural (embora discutível) para os grandes e tradicionais players da Cadeia de Saúde é o modelo cartesiano, que também avança no Brasil: “antes de meu negócio ser engolido por um player de tecnologia, é melhor que eu me torne um grande player de tecnologia”. 

Grupos e competentes empresas nacionais já avançam de forma maiúscula para “competir” com as big techs. Não vão chegar perto do que estas produzem em “digital-value”, até porque os incumbentes precisam delas como ninguém. Mas vão demarcar território, vão urinar em suas cercanias como fazem os grandes felinos e deixar claro que “a despeito de mim, você não fará market-share no meu quintal sem mim”. No curto prazo, talvez isso baste. No futuro, será imperativo envolver o consumidor. Ele é a gazela correndo velozmente em todas as direções, fugindo de todos os impérios e tiranos. Consultá-lo será a única coisa sensata a fazer.

Guilherme S. Hummel

Scientific Coordinator Hospitalar Hub

Head Mentor – EMI (eHealth Mentor Institute)

https://www.saudebusiness.com/colunas/tiktok-compra-rede-hospitalar-chinesa-big-techs-inovarao-saude

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Os dirigíveis estão voltando — agora com combustíveis seguros

Eles nunca deixaram de provocar fascínio. Retornam com evidentes preocupações ambientais

Por Fábio Altman – Veja – 7 out 2022

SEGURANÇA - O Airlander 1 da companhia inglesa HAV: 92 metros de comprimento preenchidos de gás hélio, não inflamável – Darren Harbar/Hybrid Air Vehicles Limited/.

Foi dramático e espantoso — o equivalente, nos céus, ao naufrágio do Titanic ao colidir com um iceberg no Atlântico Norte. Em 6 de maio de 1937, quando se preparava para descer em Nova Jersey, nos Estados Unidos, vindo de Hamburgo, na Alemanha, o dirigível Hindenburg pegou fogo em trinta intermináveis segundos. A bordo estavam 97 pessoas — 61 tripulantes e 36 passageiros. Houve 36 mortes. O gás hidrogênio usado para mantê-lo no ar, altamente inflamável, acelerou a tragédia — descobriu-se, depois de longa investigação, que uma brusca manobra momentos antes do pouso causou o rompimento de um dos tanques de combustível e uma faísca dera início à ignição.

A cena, registrada em dezenas de filmes amadores e de equipes de cinejornais, marcou o fim de uma era, feita de travessias intercontinentais a bordo daquele gigante de 245 metros de comprimento que corria a 145 quilômetros por hora — e que chegou a vir ao Brasil, com escala no Recife, em sete oportunidades. Nunca mais se imaginou usar um zepelim para o transporte de pessoas. Ponto-final. Contudo, o fascínio pelo objeto voador não diminuiria, ao contrário. Celebrado pelo cinema, cantado em verso e prosa em livros e canções, ele sempre voou no imaginário popular. Eis que, agora, parece renascer em um mundo dedicado a reduzir as pegadas de carbono de jatos movidos a querosene.

TRAGÉDIA - A explosão do Hindenburg em 6 de maio de 1937: o Titanic dos ares – Photo12/Universal Images Group/Getty Images

A companhia inglesa Hybrid Air Vehicles (HAV) anunciou a aceleração da linha de montagem do Airlander 10 — um dirigível pensado inicialmente para transporte de cargas e controle de acidentes da natureza, como incêndios em florestas, mas que caminha também para levar gente. Ao contrário do Hindenburg, não será preenchido com hidrogênio, mas sim com gás hélio, que não inflama. Será revestido de material resistente, afeito a pousar em qualquer superfície, inclusive na água. 

Terá 92 metros de comprimento — 25% maior do que um Boeing 747 —, com capacidade para 853 passageiros e permanência no ar por cinco dias. Um contrato assinado com a espanhola Air Nostrum prevê a entrega de dez unidades até 2026. O fio condutor, como não poderia deixar de ser, é a sustentabilidade ambiental. “Aeronaves híbridas podem desempenhar um papel relevante na transição para formas mais limpas de aviação”, diz Kwasi Kwarteng, diretor de negócios da HAV. Estima-se que a economia de combustível chegue a 90% em relação aos jatos convencionais.

TURISMO - Luxo: as viagens a bordo do zepelim podem custar até 913 000 reais – Hybrid Air Vehicles Limited/.

Atento aos humores do mundo, no avesso do descaso com o planeta, Sergey Brin, cofundador do Google, pôs dinheiro do próprio bolso para desenvolver o Pathfinder 1, dirigível movido por baterias elétricas feitas de hidrogênio, mais leves e potencialmente mais duradouras e mais baratas do que as de íon de lítio, usadas atualmente. A expectativa é que tenha 200 metros de comprimento, o que o instalaria no posto de maior aeronave do mundo. 

O preço da inovação de Brin: 150 milhões de dólares. Um dos engenheiros envolvidos no projeto, Igor Pasternak, acredita que o impacto do zepelim de Brin poderá ser tão grande no mercado de transporte de cargas quanto a internet foi para a comunicação. “Caminhões são apenas tão bons quanto as estradas que percorrem, trens só podem ir aonde você tem trilhos e aviões precisam de aeroportos. Dirigíveis podem se locomover de A a Z sem precisar parar em nenhum lugar”, disse.

EVOLUÇÃO - O Pathfinder 1, financiado por Sergey Brin: inovação nas baterias – LTA Research & Exploration LLC/.

Será necessário, por óbvio, autorização de uso comercial, o que pode vir a atrapalhar os cronogramas do Airlander 10 e do Pathfinder 1. As dificuldades de aprovação, contudo, não freiam voos mais altos. A OceanSky Cruises, com sede na Suécia, lançou um serviço de turismo original para o Polo Norte. Os tripulantes embarcariam em um dirigível de luxo, especialmente adaptado, para travessias de até quinze horas. Segundo a empresa, o serviço deve começar em 2024. A passagem pode chegar ao equivalente a 913 000 reais. O charme dos objetos voadores ovalados parece eterno.

Publicado em VEJA de 12 de outubro de 2022, edição nº 2810

https://veja.abril.com.br/tecnologia/os-dirigiveis-estao-voltando-agora-com-combustiveis-seguros/

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A ‘ilusão do conhecimento’ que deixa as pessoas com excesso de confiança

David Robson – BBC WorkLife 25 setembro 2022

Se você se considera razoavelmente inteligente e instruído, talvez acredite que tenha uma boa compreensão das principais formas como o mundo funciona — conhecimento sobre as invenções conhecidas e os fenômenos naturais à nossa volta.

Agora, pense no seguinte: como se forma um arco-íris? Por que os dias de Sol podem ser mais frios que os nublados? Como um helicóptero voa? Como funciona a descarga do vaso sanitário?

Você consegue dar uma resposta detalhada a uma ou mais destas perguntas? Ou você tem apenas uma vaga ideia do que acontece em cada uma destas situações?

Se você for como grande parte das pessoas que participaram de estudos psicológicos sobre este tema, sua primeira impressão pode ser de que se sairia muito bem.

Mas, quando se pede uma resposta detalhada para cada questão, a maioria das pessoas fica totalmente desorientada — como você também pode ter ficado.

Este fenômeno é chamado de “ilusão do conhecimento”. Você pode achar que estes exemplos específicos são triviais — afinal, são o tipo de pergunta que uma criança curiosa pode fazer, e a pior consequência poderia ser ficar com o rosto corado na frente da família.

Mas as ilusões de conhecimento podem prejudicar nosso julgamento em muitos campos. No ambiente de trabalho, por exemplo, podem nos levar a superestimar nosso conhecimento em uma entrevista, menosprezar as contribuições dos nossos colegas e assumir tarefas que somos totalmente incapazes de realizar.

Muitos de nós atravessamos a vida totalmente alheios a essa arrogância intelectual e suas consequências. A boa notícia é que alguns psicólogos indicam que pode haver formas extraordinariamente simples de evitar essa obscura armadilha do pensamento.

A ilusão do conhecimento — também chamada de “ilusão da profundidade de explicação” — foi mencionada pela primeira vez em 2002.

Em uma série de estudos inéditos, os pesquisadores Leonid Rozenblit e Frank Keil, da Universidade Yale, nos Estados Unidos, começaram fornecendo aos participantes exemplos de explicações de fenômenos científicos e mecanismos tecnológicos que foram avaliados em uma escala de 1 (muito vagos) a 7 (muito completos).

Este método permitiu que todos os participantes formassem o mesmo conceito do que significava a compreensão “vaga” ou “completa” de um tema.

Em seguida, veio o teste. Quando confrontados com outras questões técnicas e científicas, os participantes precisavam avaliar o quanto eles achavam que poderiam responder a cada uma delas, usando aquela mesma escala, antes de escrever sua explicação da forma mais detalhada possível.

Rozenblit e Keil descobriram que as avaliações iniciais dos participantes sobre sua própria compreensão eram, muitas vezes, dramaticamente otimistas.

Eles acreditavam que poderiam escrever parágrafos inteiros sobre cada assunto, mas muitas vezes forneciam respostas mínimas — e, depois, muitos ficavam surpresos com o pouco que sabiam sobre os temas questionados.

Os pesquisadores suspeitavam que o excesso de confiança era consequência da capacidade dos participantes de visualizar os conceitos em questão. Não é difícil imaginar o voo de um helicóptero, por exemplo. E a facilidade com que essa imagem vem à mente leva os participantes a sentir mais confiança para explicar a mecânica dos seus movimentos.

Desde este estudo original, diversos psicólogos vêm desvendando ilusões de conhecimento em vários contextos diferentes.

O professor de marketing Matthew Fisher, da Universidade Metodista do Sul, no Texas, Estados Unidos, por exemplo, descobriu que muitos universitários formados superestimam amplamente o alcance da sua formação depois que terminam seus estudos.

Da mesma forma que no primeiro experimento, solicitou-se aos participantes que avaliassem sua compreensão sobre diferentes conceitos antes que fornecessem explicações detalhadas do seu significado.

Mas, desta vez, as questões vieram da matéria que eles próprios haviam estudado anos antes. Uma pessoa formada em Física, por exemplo, precisaria explicar as leis da termodinâmica.

Devido ao desgaste natural das suas memórias, os participantes pareciam ter esquecido muitos detalhes importantes, mas não haviam percebido o quanto de conhecimento haviam perdido — o que os levava a ser excessivamente confiantes nas suas previsões iniciais.

Ao julgarem seu conhecimento, eles acreditavam que detinham o mesmo nível de informação de quando estavam totalmente mergulhados no assunto.

Outras pesquisas demonstraram que a disponibilidade de recursos online pode alimentar nosso excesso de confiança, uma vez que nós confundimos a quantidade de conhecimento disponível na internet com nossas próprias memórias.

Fisher pediu para um grupo de participantes responder perguntas — “como funciona um zíper?”, por exemplo — com o auxílio de uma ferramenta de busca, enquanto outro grupo foi simplesmente solicitado a avaliar sua compreensão do tema sem usar fontes adicionais.

Em seguida, os dois grupos foram submetidos ao teste original de ilusão do conhecimento sobre quatro questões adicionais (“como se formam os tornados?” e “por que as noites nubladas são mais quentes?”, por exemplo).

Fisher concluiu que as pessoas que haviam usado a internet para responder a pergunta inicial demonstraram maior excesso de confiança na tarefa seguinte.

A ilusão da aquisição de habilidades

Mas a consequência mais séria talvez seja que a maioria de nós superestima o quanto aprende observando os demais. Isso resulta na “ilusão da aquisição de habilidades”.

Michael Kardas, que cursa pós-doutorado em administração e marketing na Northwestern University, nos EUA, pediu aos participantes de um estudo para assistirem a vídeos repetidos sobre diversas técnicas, como lançar dardos ou fazer o passo de dança moonwalk, até 20 vezes.

Em seguida, eles precisaram estimar suas habilidades, antes de tentar realizar a tarefa sozinhos. A maioria dos participantes acreditou que a simples observação, ao assistir aos vídeos, os teria ajudado a aprender as técnicas. E, quanto mais eles assistiam, maior era sua confiança inicial.

Mas a realidade foi uma grande decepção.

“As pessoas acreditavam que se sairiam melhor se assistissem ao vídeo 20 vezes, em comparação com assistir apenas uma”, afirma Kardas.

“Mas seu desempenho real não demonstrou nenhuma evidência de aprendizado.”

E, surpreendentemente, a observação passiva pode até aumentar a confiança das pessoas em sua capacidade de realizar tarefas complexas de vida ou morte, como pousar um avião.

Kayla Jordan, estudante de doutorado da Universidade de Waikato, na Nova Zelândia, liderou um estudo inspirado diretamente na pesquisa de Kardas.

“Nós quisemos testar os limites do fenômeno e se ele poderia ser aplicado a técnicas altamente especializadas”, diz Jordan.

Ela explica que pilotar exige centenas de horas de treinamento e profundo conhecimento de física, meteorologia e engenharia, que as pessoas são incapazes de aprender em um vídeo curto.

A primeira instrução para os participantes foi: “Imagine que você está em um avião de pequeno porte. Há uma emergência, o piloto está indisponível, e você é a única pessoa que pode fazer o avião pousar.”

Metade dos participantes assistiu a um vídeo de quatro minutos de um piloto aterrissando um avião, e os demais não viram o vídeo.

Mas o vídeo não mostrava nem sequer o que as mãos do piloto estavam fazendo durante o procedimento — e, portanto, não tinha nenhuma serventia como instrução.

O excesso de confiança no próprio conhecimento pode invadir o ambiente de trabalho e tornar as pessoas mais arrogantes

Mas muitas das pessoas que assistiram ao vídeo ficaram muito mais otimistas sobre sua capacidade de fazer pousar um avião com segurança.

“Elas tinham cerca de 30% mais confiança, em comparação com as pessoas que não assistiram àquele vídeo”, afirma Jordan.

Dilemas da vida real

Essas ilusões de conhecimento podem trazer consequências significativas.

O excesso de confiança no próprio conhecimento pode fazer com que você se prepare menos para uma entrevista ou apresentação, por exemplo, deixando você constrangido quando é pressionado a demonstrar seus conhecimentos.

O excesso de confiança pode ser um problema específico quando você busca uma promoção. Ao observar as pessoas à distância, você pode acreditar que já sabe o que é preciso para o trabalho e que já aprendeu todas as técnicas necessárias.

Mas, ao iniciar o trabalho, você pode descobrir que precisava saber muito mais do que parecia.

A ilusão do conhecimento também pode nos levar a menosprezar nossos colegas. Da mesma forma que confundimos o conhecimento obtido pelo Google com o nosso próprio, podemos não perceber o quanto dependemos do conhecimento e da capacidade das pessoas à nossa volta.

“Ao observar as habilidades e a base de conhecimento dos demais, as pessoas às vezes podem acreditar erroneamente que elas são uma extensão do conhecimento delas próprias”, afirma Jordan.

E, se começarmos a acreditar que o conhecimento dos colegas é nosso, podemos ficar menos dispostos a lembrar e demonstrar gratidão por suas contribuições — uma forma de arrogância muito comum no ambiente de trabalho.

E superestimar nosso conhecimento, esquecendo o apoio que recebemos dos demais, também pode criar sérios problemas quando tentarmos seguir sozinhos, com um projeto solo.

O que as pessoas podem fazer para evitar essas armadilhas? Uma solução é simples: teste a si próprio.

Se você estiver avaliando sua capacidade de realizar uma tarefa que não é familiar, por exemplo, não confie apenas em uma ideia vaga e resumida do que essa tarefa envolveria. Em vez disso, analise com mais tempo e cuidado as etapas que você precisaria realizar para atingir esse objetivo.

Você pode concluir que há enormes lacunas de conhecimento que você precisará preencher antes de começar o trabalho. E, ainda melhor, você pode consultar um especialista no tema e perguntar o que ele está fazendo — uma conversa que servirá para analisar qualquer pressuposto arrogante de sua parte.

Como as muletas tecnológicas têm o potencial de amplificar a confiança no seu conhecimento, você também pode verificar seus hábitos online. Fisher sugere que você faça uma breve pausa e tente ao máximo se lembrar de um fato antes de recorrer a uma busca na internet. Ao reconhecer conscientemente que “deu branco”, você pode começar a avaliar de forma mais realista a sua memória e os seus limites.

“É preciso ter a disposição de se sentir desorientado”, diz ele.

“Você precisa sentir sua ignorância, o que pode ser desconfortável.”

O objetivo de tudo isso é cultivar um pouco mais de humildade — uma das “virtudes intelectuais” clássicas celebradas pelos filósofos.

Ao reconhecer nossas ilusões de conhecimento e admitir os limites da nossa compreensão, todos nós podemos evitar as inconvenientes armadilhas do pensamento. E podemos pensar e tomar decisões com mais sabedoria.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Worklife.

– Este texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/vert-cap-62985145

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