Oito mitos que você precisa saber sobre o Bitcoin

Com um valor de mercado de mais de R$ 5.78 trilhões, a criptomoeda segue ganhando espaço e credibilidade entre os investidores

Por MoneyLab 23 mar 2021 

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

A economia digital ganha cada vez mais força. Puxada pelas criptomoedas e encabeçada pelo bitcoin, essa nova era de pagamentos e investimentos já está revolucionando o mercado financeiro. Estima-se que o valor de mercado dos bitcoins já supere os R$ 5 trilhões.

Junto com a onda de novidades, as dúvidas e, por vezes, desconfianças também rondam os resultados surpreendentes da criptomoeda, que já conquistou nomes importantes como Elon Musk, Paul Tudor Jones, Stanley Druckenmiller e Scott Minerd. Para te ajudar a compreender melhor esse universo, a seguir você confere oito mitos sobre o bitcoin.

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Números estimados com data base de 09/03/2021

Mito 1: Bitcoin é muito volátil para ser uma reserva de valor

O bitcoin tem de fato um histórico de ser um ativo bastante volátil. Isso é um comportamento esperado para um ativo que surgiu em 2009 com valor zero e em uma década alcançou valor de mercado de mais de R$ 5.78 trilhões.

Essa oscilação acaba gerando desconfiança sobre a capacidade de ser uma boa reserva de valor, já que uma das principais funcionalidades desse conceito é preservar o valor ao longo do tempo.

Mas afinal, por que a volatilidade do bitcoin é tão alta? Duas óticas devem ser observadas para explicar essa volatilidade: microestrutura e assimetria de informações.

Do ponto de vista de microestrutura de mercado, o Bitcoin é negociado 24 horas por dia e 7 dias por semana, em centenas de exchanges ao redor do mundo com diferentes níveis de controles e regulação. Portanto, é um mercado bastante fragmentado. Tecnicamente falando, o processo de formação de preços é livre de intervenções. Ou seja, não existem leilões de abertura/fechamento ou limites e bandas de variação de preços, como é o normal nos mercados mais tradicionais, como os de ações e commodities listadas em Bolsas.

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Além disso, diferentemente das moedas fiduciárias, não há para o Bitcoin um banco central para intervir e reduzir a volatilidade da moeda, como é o caso em moedas como o Real. Isso faz com que os preços do Bitcoin variem de forma significativa como função de sua oferta e demanda, sem mecanismos já estabelecidos nos mercados tradicionais para agregar liquidez e facilitar a formação de preços.

Olhando o ponto de vista macro, a volatilidade do Bitcoin reflete a grande assimetria de informações e as divergências sobre seu valor para a sociedade. Enquanto alguns dos maiores investidores do mundo, como Paul Tudor Jones, Stanley Druckenmiller e Scott Minerd, se debruçaram sobre o tema e possuem um posicionamento otimista com relação ao Bitcoin, vários outros investidores de peso, como Ray Dalio, ainda não se convenceram. Essa diferença tão grande de opiniões gera incertezas que influenciam os investidores e dificultam uma convergência dos preços para um valor de equilíbrio.

Esses dois fatores que influenciam a volatilidade do bitcoin tendem a perder força à medida que o entendimento dos investidores institucionais sobre o Bitcoin vai amadurecendo, possibilitando  desenvolver mercados regulados, com processo de formação de preços e instrumentos de derivativos similares ao mercado tradicional.

Apesar do bitcoin ter um valor de mercado significativo, seu valor ainda é de magnitude abaixo das outras reservas de valor globais, como ouro e dólar. Por isso, o bitcoin deve ser encarado como uma “reserva de valor emergente”, ou seja, que possui boas características, uma adoção crescente, mas ainda não atingiu o mesmo nível de maturidade de seus pares. Assim, é de se esperar que sua volatilidade continue reduzindo ao longo dos anos até que ele atinja o mesmo nível de maturidade e aceitação que o ouro possui hoje.

Mito 2: Bitcoin falhou como meio de pagamento

Apesar de não ser a melhor solução para pagamentos de varejo, como cartão de crédito ou PIX, a rede do Bitcoin tem propriedades únicas que fazem dela um meio de pagamento para valores altos e transações internacionais.

A rede do bitcoin foi projetada de forma intencional para ter uma capacidade limitada a cerca de 10 transações por segundo. Isso é muito menos  tempo que a rede de cartão de crédito pode atingir nos horários de pico.

Por outro lado, o bitcoin oferece propriedades únicas e muito importantes, como liquidação global independente de alto valor, que funciona em qualquer lugar e a qualquer hora do dia, não requer um intermediário e não pode ser revertida.

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A rede do Bitcoin liquida hoje mais de R$ 25 bilhões por dia, em centenas de milhares de transações, com um valor médio de transação médio de R$25 mil, o que é bem mais alto se comparado com as redes de pagamento de varejo como cartão de crédito ou PIX e é condizente com o seu uso principal hoje como uma reserva de valor emergente.

Portanto, o bitcoin de fato não é a melhor solução para utilização como meio de pagamento para varejo, mas é uma excelente solução para transferências de altos valores ao redor do mundo.

A entrada recente do Paypal, que permite que o bitcoin seja utilizado como forma de pagamentos para mais de 26 milhões de lojistas dentro de sua plataforma ou soluções descentralizadas, como a Lightning Network pode permitir que o bitcoin seja utilizado para realizar milhares de transações por segundo no varejo e possibilitar até mesmo novas formas de pagamento como micropagamentos e pagamentos em streaming.

Mito 3: Bitcoin gasta muita energia

A rede do bitcoin consome energia para fazer duas atividades: infraestrutura, para permitir que qualquer pessoa participe da rede em condições de igualdade, e segurança, para criar garantias de liquidação das transações, evitando que elas possam ser revertidas ou fraudadas.

Essas garantias são extremamente relevantes e elas não vêm de graça. Outros sistemas de pagamento também exigem essas atividades de uma forma ou de outra. No caso do ouro, por exemplo, enormes quantidades de esforço e energia são gastas para extraí-lo e armazená-lo com segurança. Já as moedas fiduciárias modernas exigem uma infraestrutura bancária física e bastante capital humano para fazer tudo funcionar corretamente, o que é extremamente caro e consome bastante energia.

Com o bitcoin, o processamento de transações e as garantias em torno de sua segurança está incluído no processo chamado de mineração que deliberadamente gasta energia. A energia é gasta como uma “prova de trabalho”, cuja soma garante que as transações registradas na rede do bitcoin não possam ser alteradas. Isso é essencial para a segurança da política monetária do bitcoin, bem como para outras propriedades importantes.

Há uma demanda claramente significativa pelos serviços que o bitcoin fornece, e a mineração de bitcoin gasta energia para dar suporte a esses serviços. Este gasto de energia não é desperdiçado; o mercado o exige explicitamente. Além disso, ao contrário dos outros sistemas de pagamento, grande parte da mineração de bitcoin depende fortemente de energia renovável e a natureza competitiva e global da mineração de bitcoin faz com que até mesmo fontes de energia que seriam naturalmente desperdiçadas, como o stranded gas, sejam utilizadas, o que pode até mesmo contribuir para a redução da pegada de carbono no mundo.

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Mito 4: Bitcoin só é utilizado para atividades ilícitas

Ao longo dos anos, a utilização do Bitcoin por criminosos recebeu bastante atenção da mídia. Porém, o percentual de transações ilícitas na rede do bitcoin é muito pequeno, da ordem de 0,4% do valor total de bitcoin transacionado por dia.

Isso acontece principalmente devido à evolução das ferramentas de monitoramento e nas regras de prevenção à lavagem de dinheiro, que foram implementadas pelos principais países do mundo para se adaptar à nova tecnologia.

De acordo com dados do “The United Nations Drugs and Crime Office” e da Chainalysis, para cada $5 gasto em bitcoin na darknet, pelo menos $800 são lavados utilizando o dólar em papel moeda.

Mito 5: Bitcoin não tem lastro

Uma crítica bastante comum é de que o bitcoin não tem valor, pois não possui um lastro com as ações ou moedas fiduciárias.  Mas, afinal, o que é lastro? Lastro é uma garantia implícita de um ativo. Por exemplo, o lastro da ação de uma empresa é seu fluxo de caixa futuro, o lastro do ouro é sua composição química que garante que ele existe de forma escassa na natureza e que não pode ser criado artificialmente ou fraudado. Já as moedas fiduciárias são definidas por decreto e seu único lastro é a confiança no governo que o emitiu.

O lastro, ou garantia implícita, do bitcoin é sua rede de milhares de computadores ao redor do mundo, que garantem que as transações sejam executadas de forma segura e que a criação de novos bitcoin seja limitada, seguindo uma política monetária determinística. Essa rede existe há mais de 10 anos sem nunca ter sido fraudada.

Mito 6: Bitcoin não é escasso porque qualquer um pode criar novas criptomoedas

Qualquer um pode clonar a base de código de bitcoin, que possui o código aberto, a qualquer momento e lançar sua própria moeda, mas não pode clonar a aceitação, o reconhecimento de nome e a segurança de que apenas a rede de bitcoin desfruta.

O que faz com que o bitcoin possua valor para a sociedade não são meramente as linhas de código do seu software, que são facilmente replicáveis. O valor do bitcoin está nos efeitos de rede extremamente fortes. Este efeito é criado pelas dezenas de milhares de mineradores ao redor do mundo que garante a segurança da rede, as dezenas de exchanges e custodiantes que viabilizam a negociação e o armazenamento do bitcoin e milhões de usuários e investidores que possuem bitcoins.

Uma rede de agentes engajados como essa não se organiza facilmente, ainda mais quando já existe uma estabelecida. É por isso que, apesar dos diversos projetos já concebidos com a ambição de desbancar o bitcoin, ele segue extremamente dominante entre as criptomoedas, e que a facilidade de criação de novos criptoativos não afeta sua escassez.

Mito 7: Se o Bitcoin for bem sucedido, os governos vão banir

A natureza descentralizada do bitcoin torna impossível para qualquer pessoa, até mesmo governos, eliminá-lo totalmente. Apesar disso, os governos podem proibir exchanges e instituições financeiras de negociar bitcoin, afastando o capital institucional e colocando o bitcoin como um mercado negro. Porém, o que temos visto nos países desenvolvidos na verdade é o contrário.

Nos Estados Unidos, por exemplo, bancos federais já foram autorizados a realizar custódia de criptoativos para seus clientes e já existem regulações claras em alguns estados para as pessoas e empresas que utilizam criptoativos.

Além disso, várias empresas com capital aberto já possuem a moeda ou oferecem aos seus clientes. Portanto, seria extremamente difícil para os governos de países desenvolvidos banirem o bitcoin hoje em dia.

Governos de países menores ou com menores níveis de segurança jurídica podem tentar banir o bitcoin, mas acabariam criando uma dinâmica de arbitragem jurisdicional, em que empresas e investidores  migrariam para países com previsibilidade maior, prejudicando a própria economia do país que baniu.

Mito 8: Quântico computador vai acabar com o Bitcoin

Em outubro de 2019, quando o Google apresentou o resultado de seu protótipo de computador quântico, surgiram imediatamente vários artigos na imprensa apresentando a ameaça que um computador quântico representaria para o bitcoin.

Isso porque o método de criptografia que o bitcoin e vários outros criptoativos utilizam para garantir a segurança de suas transações poderia ser facilmente quebrado com computadores quânticos, o que tornaria suas redes inseguras e, portanto, obsoletas.

É importante ressaltar também que a criptografia utilizada no bitcoin é a mesma usada pela maioria dos grandes bancos e pela internet como um todo. Ou seja, o surgimento de um computador quântico seria uma ameaça para a segurança de toda a sociedade moderna, sendo o bitcoin apenas um pequeno pedaço dela.

A boa notícia é que já existem algoritmos de criptografia que são resistentes a computadores quantos. O NIST, que é o órgão americano responsável por definir padrões da indústria, está em processo de seleção de um desses algoritmos para ser o novo padrão de criptografia na internet. A previsão é que essa escolha seja feita até 2022 e, a partir daí, todos os serviços, incluindo o bitcoin, podem começar seus processos de upgrade para esse novo padrão de criptografia.

Como as estimativas mais otimistas apontam que um computador quântico de uso geral ainda pode levar de 15 a 30 anos para virar realidade, isso dá tempo o suficiente para todos os serviços se adaptarem a esse novo padrão mais seguro e eliminar a ameaça de segurança que um computador quântico poderia trazer.

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Sensemaking: empresas com propósito têm mais chances de sobreviver, diz escritor

Para consultor de carreiras, que lança sétimo livro, busca de sentido e colaboração horizontal com foco no coletivo vão prevalecer no ‘novo normal’; mais jovens devem ter protagonismo

Entrevista com

Ricardo Oliveira Neves, autor de ‘Sensemaking: Liderança por Propósito’

Cris Almeida, especial para o Estadão 14 de fevereiro de 2021

Em algum momento da sua jornada profissional, você já se perguntou por que trabalha? Se a resposta for apenas pelo lucro, o escritor e consultor de estratégias Ricardo Oliveira Neves convida empresas e funcionários a viverem com um propósito maior do que esse. Em seu livro Sensemaking: Liderança por Propósito, Ricardo garante que não há mais espaço no mundo atual para organizações e pessoas que não saibam o sentido das funções que desempenham em sua carreira e como elas impactam ao seu redor, principalmente pós-pandemia do coronavírus.

Do inglês “fazer sentido”, o sensemaking é um método de gestão na qual a liderança é capaz de promover e conduzir, de forma horizontalizada e não mais autoritária, uma convivência colaborativa, para construir uma nova linha de criação de sentido em empresas e organizações. O autor atribui à geração Z, dos mais jovens (nascidos entre 1995 e 2010), boa parte da responsabilidade por essa mudança de mindset nas empresas, já que os mais velhos, treinados para dar prioridade ao lucro e ao prestígio, têm mais resistência em aceitar o convite proposto no início desta reportagem. Para o escritor, a colaboração e a comunicação estratégica, pensando no coletivo, vão prevalecer no “novo normal”.

A importância do propósito é ratificada por pesquisa de 2020 da consultoria Deloitte, em que marcas que valorizam isso aparecem como as mais lembradas pelos consumidores na pandemia – organizações que equilibram propósito e lucro tiveram 63% mais chances de sobreviver do que outras de tamanho semelhante. O estudo ainda indica a necessidade de empresas firmarem um compromisso autêntico com objetivos maiores do que lucratividade. 

Em entrevista de vídeo ao Estadão, diretamente de Berlim, onde mora há seis meses, Ricardo falou da urgência de transformação dessa mentalidade, ao apresentar seu sétimo livro, lançado em janeiro deste ano. O autor, que já escreveu livros sobre economia do crescimento e transformações no meio corporativo, entre eles Tempo de Pensar Fora da Caixa, acumula quase 30 anos de experiência em consultorias a empresas que querem transformar sua cultura organizacional. 

Ricardo também trabalha como empreendedor social e, desde 2006, é membro da Ashoka, organização internacional promotora de desenvolvimento de impacto social. Atualmente, ministra workshops e palestras em diferentes países.

“Em um mundo onde o novo normal é a demanda incessante por transformação, as organizações precisam de líderes que apoiem o desenvolvimento de seus funcionários em busca de seu propósito de vida. A crise é o cotidiano em um mundo de permanência da volatilidade, da incerteza, da ambiguidade, ou seja, o mundo da complexidade exponencial.” Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

Ricardo Oliveira NevesRicardo Oliveira Neves tem quase 30 anos de experiência em consultorias a empresas que querem transformar sua cultura organizacional. Foto: Divulgação

O que quer dizer o termo sensemaking, na prática?

O sensemaking é uma expressão muito cara para mim, que é o “fazer sentido”. É basicamente a ideia de olhar o mundo procurando fazer sentido a partir dos problemas que a gente recebeu e da urgência de não poder mais perder tempo. Eu penso que essa é a década que vai fazer a diferença, que dirá se a espécie humana vai vingar ou não. Então, liderança por propósito nas empresas, nas organizações e nas ONGs passa por reconhecer o propósito. 

Esta palavra emergiu com força em meados da década e é uma pergunta que não quer mais calar: qual o seu propósito? Essa é a grande pergunta hoje em dia. Você está trabalhando porque você quer ganhar uma grana para fazer suas coisas, você está trabalhando porque tem prestígio, mas o que faz a diferença é o propósito, o recado que o ser humano precisa dar no tempo de vida dele. 

Quem seriam os principais atores a quem o sensemaking se destina?

A mais nova geração que está entrando, os millenials (geração Y, de nascidos entre 1980 e 1994) e os Zs (de nascidos entre 1995 e 2010), porque eles têm uma perspectiva completamente diferente dos caras que são as múmias, que tinham uma perspectiva de trabalho baseada no prestígio da empresa, baseada no quanto estava recebendo, no bônus. Essa nova geração tem uma característica diferente, porque eles já sentiram que foram logrados e receberam um monte de problemas. É como se tivesse um armário que você abre e, de repente, as coisas começam a cair em cima de você. 

Os millenials estão percebendo que querem mais do que isso, mais do que uma aposentadoria dourada, até porque estão sem saber se vão se aposentar ou não, como vai ficar isso. Essa conversa é sobre eles, também. As lideranças que buscam esses talentos precisam conhecer a bagagem e as exigências que vêm com eles. 

Por que você propõe essa abordagem para as empresas? Qual a importância de fazer sentido? 

Eu sou, há quase três décadas, consultor de empresas e sempre tive uma questão que era a comunicação ser a chave nas organizações e sociedades. A partir da emergência das redes sociais, percebemos que estamos numa Torre de Babel. Você tem empresas que estão com um modelo muito antigo de gestão, chamado comando e controle, onde a liderança ainda é centralizada, burocrática, hierárquica e prescreve para as pessoas o que elas têm que fazer. Mas as pessoas, sobretudo os jovens, não querem seguir simplesmente um script, eles querem ir atrás do propósito.

O ‘manda quem pode, obedece quem tem juízo’ não faz mais sentido, está em dissonância com o que estamos vivendo

Ricardo Oliveira Neves, autor de ‘Sensemaking: Liderança por Propósito’

É importante fazer times efetivamente colaborativos, entender que as organizações só vão sobreviver se perceberem que o modelo da orquestra sinfônica, que é o maestro ditador, controlando todo mundo, não funciona mais. O modelo organizacional mais interessante é o da banda de jazz, que você não sabe quem é o maestro, a liderança é fluida e um conversa com o outro. 

Como foi o processo de construção do livro? A pandemia influenciou? 

Eu fui fazer um período sabático, com início em 2017, especificamente em cima das questões de liderança, propósito e comunicação estratégica. Essas palavras me guiaram ao longo de dois anos onde eu estive fazendo estudos, pesquisando e lendo sobre como a liderança pode conduzir seus colaboradores num caminho diferente do comando e controle. Daí, então, saiu a palavra sensemaking, que emergiu como uma espécie de bandeira que permite a gente liderar por propósito. Foi quando veio a pandemia e fiquei de lockdown, em Portugal, escrevendo. 

A liderança sensemaking, com propósito, está apta a lidar com o que eu chamo de complexidade exponencial. Então, o livro nasce a partir da ideia de que a liderança são pessoas que estão prontas para lidar com um nível de complexidade que a gente precisa admitir que não sabe fazer. Ou o cara bate na mesa e diz “vamos fazer isso e aquilo, a pandemia vai acabar”, como o Trump, ou é uma liderança como a Angela Merkel, que percebeu que ninguém sabe lidar com isso e que precisa conversar com todos. 

O senso comum acaba nesses momentos, as pessoas saem das zonas de conforto delas. Nesse momento, a liderança, ao invés de bater na mesa, tem que lidar com o que eu chamo de “os quatro Cs”: calma, coragem, conversa e colaboração. 

Você divide o livro em quatro partes: complexidade exponencial, sensemaking, propósito e impacto e mudança de mentalidade. Como essa estrutura pode ajudar líderes que buscam o sensemaking?

A percepção do líder tem que ser de que as pessoas não são robôs. É isso que eu quero mostrar. As pessoas fazem o trabalho que o algoritmo não faz, que é criar e resolver problemas. Elas são diferentes de uma inteligência artificial, elas são subjetivas, que é mais importante do que a objetividade. O líder tem que ter a capacidade de se colocar no sapato do outro, o chicote não retém as pessoas, o que retém é você lidar com os propósitos das pessoas. Ele precisa estar ligado às questões subjetivas. 

Desde 2009, trabalho em empresas ajudando com processos colaborativos de tomada de decisão. Em vez de você, na direção, imaginar o que fazer e depois contar aos colaboradores, você já envolve eles antes, aí as pessoas terão clareza do que precisa ser feito. O papel chave da liderança, frente à complexidade exponencial, é ajudar as pessoas a mudarem a mentalidade.  

Quais as principais características que esse novo líder precisa ter no pós-pandemia?

Não me interessa só se sua empresa tem lucro, quero saber qual o impacto ambiental ela está tendo. Ela garante só o lucro de homens brancos ou ela tem mulheres, negros? Ela ajuda ou não a desmontar a bomba do racismo cultural? Sua empresa tem transparência ou é uma caixa preta? Você se aproveita das pessoas, meramente? Elas são um produto para você? 

Essa filosofia ESG (ambiental, social e governança) expressa muito bem que não só as grandes empresas precisam estar antenadas com o novo normal onde o ESG é tão importante. O líder precisa entender que ele precisa conversar com as pessoas. O investidor será cada vez mais ESG. Se as pequenas e médias empresas, também, não estão sintonizadas nessas ideias, terão dificuldade para atrair e reter talentos. É necessário que o líder esteja atento a essas questões, é impossível seguir em frente sem isso.

O que significa Mindset Transformation Process (MTP), citado na última parte do livro? 

É uma metodologia que eu procuro passar para as lideranças sobre como elas colocarão em prática aquilo que aprenderam com o livro. O que você vê na sua frente? O novo normal num mundo pós-pandemia. Então, a primeira coisa que você tem de fazer é ajudar os seus parceiros a fazer um processo de transformação de mentalidade. 

O líder precisa atrair, reter, co-criar, de forma colaborativa, soluções junto com seus colaboradores. O objetivo principal é orientar e facilitar o processo colaborativo de tomada de decisão para equipes no desafio da mudança sistêmica e transformação da mentalidade nas empresas.

Na prática, como fazer um sensemaking eficiente? 

Qualquer trabalho que é feito com o ser humano, no curto prazo, se puder ser feito por um algoritmo, será substituído. O trabalho humano será, cada vez mais, aquele que as máquinas não são capazes de fazer: resolver problemas, buscar criatividade, novas soluções e novos caminhos. Isso é no que os líderes têm de estar atentos. Devem atrair pessoas criativas, questionadoras, que funcionam a partir de um propósito que está dentro delas. 

As empresas que vão florescer, depois que a poeira baixar, são as que buscam talentos e novos estilos de vida. O trabalho remoto mostrou isso. A forma de medir a performance das pessoas será muito diferente. As várias empresas dinossauros vão morrer. O sensemaking eficiente só é alcançado se você estiver, o tempo todo, procurando fazer sentido das transformações que fazem com que a normalidade tenha de mudar. Tudo na sua vida pode ser interessante, desde que você tenha a capacidade de buscar o que é o seu propósito.

Sensemaking: Liderança por PropósitoNo livro ‘Sensemaking: Liderança por Propósito’, Ricardo Oliveira Neves garante que não há mais espaço no mundo atual para organizações e pessoas que não saibam o sentido das funções que desempenham em sua carreira. Foto: Divulgação

Ficha Técnica

Sensemaking: Liderança por Propósito

Autor: Ricardo Oliveira Neves

Editora: Neo 21 

Preço: R$ 49,90 (247 págs.)

https://economia.estadao.com.br/noticias/sua-carreira,sensemaking-empresas-com-proposito-tem-mais-chances-de-sobreviver-diz-escritor,70003614518

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Fabio Coelho: 10 lições de uma década na liderança do Google Brasil

Em artigo exclusivo, o presidente do Google no Brasil faz uma reflexão sobre os dez anos à frente da empresa de tecnologia no país

Por Fabio Coelho* Exame Publicado em: 02/04/2021 

Em março deste ano, completei uma década no comando do Google no Brasil. Desde que cheguei por aqui, muita coisa mudou, mas a imagem do primeiro escritório, ainda pequeno e com apenas alguns computadores de mesa, está gravada em minha cabeça. Hoje, temos uma equipe com mais de 1.200 pessoas que estão trabalhando de casa há mais de um ano por causa da pandemia.

Nesses dez anos, o Brasil se tornou um dos mercados mais relevantes para o Google no mundo, a despeito de todos os desafios locais. Nossos produtos fazem parte da vida e do cotidiano de milhões de brasileiros — seja para ver receitas novas durante a quarentena ou para encontrar informações de qualidade sobre vacinas, apenas para citar alguns exemplos recentes.

Fabio Coelho, presidente do Google Brasil

Fabio Coelho: “Para evoluir seu negócio, é preciso de muito mais do que um time engajado” (Google/Divulgação)

Refletindo sobre tantas mudanças, compartilho os dez principais aprendizados da última década e as lições de liderança que impactam minha carreira e meu dia a dia.

1) Filtre os excessos

Vivemos em uma sociedade de grande abundância de fatos, acontecimentos e informações, o que muitas vezes pode gerar o chamado “FOMO” (medo de ficar de fora, em tradução livre, ou fear of missing out, em inglês). Controlar essa ansiedade e desenvolver capacidade de síntese, escolhendo fontes confiáveis e o que realmente é útil para o seu dia é fundamental para se manter produtivo e presente, assim como não permitir que esse enorme volume de acontecimentos externos  paralise você na tomada de decisões.

2) Desenvolva um ambiente confiável

Para evoluir seu negócio, é preciso de muito mais do que um time engajado. É preciso gerar um cenário de confiança em que pessoas extremamente capacitadas sejam capazes de desempenhar seus papéis de maneira independente, em um equilíbrio essencial que não sobrecarregue nenhum dos lados dessa delicada equação, seja dentro ou fora da empresa.

3) Invista na transformação do seu cliente

Os relacionamentos comerciais são o combustível de qualquer empresa e eles não podem se resumir a assinaturas de contrato e planos de ação. Essas relações precisam estar amparadas de forma estratégica, com uma visão de três a cinco anos, que considere onde o cliente quer estar quando atingir seus objetivos e como você pode ajudá-lo a chegar lá.

4) Tenha ambição para crescer

É senso comum que todos querem crescer e desenvolver suas carreiras, mas a diferença entre o desejo e a execução passa pela visão ambiciosa sobre o negócio. É a ambição que permite criar oportunidades que fazem crescer não apenas o indivíduo com seu projeto pessoal, mas o grupo como um todo.

5) Promova a diversidade

O conceito de uma empresa diversa, equânime e inclusiva é muito mais complexo e amplo do que imaginávamos anos atrás. A execução da estratégia de diversidade deve ser ampla, considerando não apenas etnias, gêneros e perspectivas, mas também diversidade cognitiva, de estilos e tudo o que isso embarca. Em última análise, são pessoas diferentes que formam a base de uma empresa saudável.

6) Seja grato

Uma das principais coisas que aprendi no Google é que devemos sempre agradecer e valorizar as pessoas. Na pandemia, ter isso como valor deixou mais evidente a necessidade de demonstrar nossa gratidão e atenção com nossos colegas. Para mim, é um benefício tão importante quanto todos os outros reconhecimentos materiais disponíveis.

7) Esteja disponível

A agenda é desafiadora, mas vivo em uma tentativa permanente de estar disponível, tanto para o público interno como o externo, para entender necessidades e demandas vindas das mais diversas fontes. Estar presente é um exercício ímpar para um líder, pois para ter repertório também é preciso ouvir e praticar essa troca constante.

8) Abrace o caos

Em uma empresa como o Google, um dos primeiros ensinamentos que tive foi abraçar a amplitude de diferentes opiniões e abordagens. Sou uma pessoa muito objetiva, mas conclusões rápidas frequentemente ficam incompletas. Enriquecer o processo de criação passa por exercitar a escuta de diversos “ruídos” e ter a habilidade de sintetizar o melhor do que foi dito. É o que chamo de caos produtivo.

9) Não tenha grandes certezas

O rápido desenvolvimento da tecnologia pede que as pessoas se reinventem, afinal são ciclos curtos em constante evolução. Para se manter relevante, esteja aberto a aprender sem vaidades e grandes certezas, já que o que funcionou ontem não necessariamente funciona para o dia de amanhã.

10) Adapte-se

Processos são importantes, mas ser resiliente anda de braços dados com a precisão. Vivi 14 anos nos Estados Unidos e, somando essa experiência com minha cultura brasileira, aprendi a importância da eficiência com escala ligada à volatilidade. É a cultura do “E”, ou seja, não é um cenário de “ou”, escolher entre um e outro modelo, mas sim somar e agregar para atingir o melhor resultado.

Certamente aprendi muito mais do que ensinei durante esse período de dez anos. Acredito que melhorei e agradeço por isso. Agradeço a todas as pessoas que de alguma forma participaram dessa caminhada e me tornaram não apenas um profissional melhor, mas mais importante, uma pessoa melhor; melhor marido, pai, filho, amigo e colega. Com todas as transformações que estamos vivendo, cada vez mais aceleradas, mal posso esperar pela próxima década.

* Fabio Coelho é presidente do Google no Brasil

https://exame.com/blog/opiniao/fabio-coelho-10-licoes-de-uma-decada-na-lideranca-do-google-brasil/

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Onde estarão os empregos do futuro? Veja lista com 21 locais – SP está lá

Relatório da empresa de tecnologia Cognizant mostra os elementos ideais para formar os novos pólos de empregos do futuro

Por Luísa Granato – Exame – Publicado em: 03/04/2021 

“Como faço para ter esses empregos do futuro na minha cidade?”, esse foi o questionamento que Ben Pring, futurista e cofundador do centro de futuro do trabalho da empresa de tecnologia Cognizant, recebeu após a publicação do primeiro estudo sobre o futuro do trabalho em 2017. Era um telefonema inesperado, vindo de um candidato à prefeitura de Milwaukee, principal cidade do estado americano de Wisconsin.

Assim como outras cidades no Cinturão da Ferrugem dos Estados Unidos, Milwaukee prosperou com a indústria de manufatura nos anos 1970 e começou a ver um declínio de oportunidades nas décadas seguintes.

“Os trabalhos foram embora e ele queria entender como construir esse mercado novamente. E eu não tinha uma boa resposta, mas a questão ficou: o que faz uma cidade crescer e prosperar? Se houvesse uma fórmula para sucesso ou fracasso no futuro do trabalho, quais seriam os fatores?”, conta o executivo em entrevista à EXAME, que teve acesso exclusivo ao relatório 21 Places of the Future (21 lugares do futuro, numa tradução livre).

E as respostas que o pesquisador encontrou neste novo relatório para o questionamento de anos atrás mostram lugares não tão óbvios. A expectativa é de capitais que ilustram os destinos turísticos mais famosos e são grandes centros econômicos mundiais estarem no topo da lista.

Pring entendeu que tamanho e relevância da economia local estão longe de garantir empregos do futuro. Tanto é que, na avaliação dele, a pequena Dundee, uma cidade da Escócia com 154.000 habitantes, tem um potencial superior ao de Londres na geração de empregos do futuro. Na Coreia do Sul, a cidade planejada de Songdo, construída a partir de 2004 e atualmente com pouco mais de 50.000 habitantes, aparece na lista. A capital sul-coreana Seul, não.

E, infelizmente, Milwaukee não entrou para a lista de lugares do futuro, mas o estudo mostra diversos pontos de aprendizado para cidades do mundo todo.

Songdo, Coreia do Sul

Songdo: a cidade inteligente construída do zero na Coreia do Sul é uma aposta para o futuro (Sungjin Kim/Getty Images)

Mas, afinal, o que faz uma cidade ser um local atrativo para os empregos no futuro? “Criamos um átomo do sucesso, com diferentes elementos, alguns centrais e outros periféricos. Os três centrais são a qualidade do governo local, o investimento disponível e a educação na área. Fora isso, outros fatores têm impacto na atração de pessoas, como a infraestrutura ou a cultura”, explica o pesquisador.

Ao acelerar a tendência do trabalho mais remoto e mais virtual, as cidades precisarão competir pela atenção dos profissionais do mundo todo. Entre cidades tão diferentes listadas no estudo, alguns dos ingredientes em comum que se destacam são os investimentos em tecnologia, a agilidade para criar novos negócios e a existência de centros de inovação. No entanto, Pring frisa que a maioria dos lugares são bons para jovens morarem. E, claro, com um custo de vida acessível.

A boa notícia para os brasileiros é que, num momento de desilusão de boa parte da população com a polarização crescente na política, o ritmo claudicante da economia e o colapso sanitário causado pela covid-19, a cidade de São Paulo entrou para a lista de Pring dos 21 locais com empregos do futuro. Por trás da inclusão da metrópole paulistana está a boa oferta de imóveis e serviços urbanos, como alimentação, a preços baixos.

“Isso é chave para São Paulo. Muitos lugares, como Londres, Nova York, Boston ou Paris são tão caros que pessoas jovens não conseguem arcar com os custos de vida. São Paulo é relativamente acessível, um elemento crucial para o futuro do trabalho”, diz. Por isso, o estudo também leva em conta elementos menos tangíveis, como a diversidade ou a culinária local.

De São Paulo ao espaço sideral, confira o mapa dos lugares do futuro:

Big Bang de empregos?

Enquanto pesquisadores de instituições como a Cognizant ou o Fórum Econômico Mundial alertam há anos para as mudanças do futuro do trabalho, a pandemia tornou bastante tangível a principal diferenciação da mão de obra nos próximos anos.

O executivo da Cognizant usa os termos “cabeça para cima” e “cabeça para baixo” (em inglês, heads up work e heads down work). Ou seja, aquelas funções que são realizadas com a cabeça abaixada em um computador ou levantada para o mundo.

Essa é uma maneira simples de entender quem pode fazer home office e quem precisou continuar frequentando o local de trabalho durante a pandemia.  “É uma forma de medir o impacto futuro da pandemia na nossa relação com o trabalho”, diz Pring.

“O trabalho ‘heads down’ pode ser feito de qualquer lugar, mas isso não exclui a necessidade de estar com os colegas, colaborar, discutir ideias e criar”, explica o futurista. “Da mesma forma, ainda haverá empregos em serviços, nos escritórios, hospitais, restaurantes e transportes”.

Por causa do trabalho ‘heads down’, que pode ser realizado de qualquer lugar do mundo, dependendo apenas de um computador e uma boa conexão de internet, o relatório dos lugares do futuro aponta também locais mais conceituais.

Na lista estão Remotopia, um nome fantasia para o trabalho de qualquer lugar; o Espaço Virtual, que é o trabalho em ambientes paralelos criados com tecnologias de realidade virtual; a Nova Hanseática, nome para os empregos criados em zonas econômicas com regras próprias, mais liberais que a dos países onde essas zonas estão localizadas (exemplos disso são a coreana Songdo e Dubai, nos Emirados Árabes Unidos); e, por fim, o Espaço Sideral, que designa os trabalhos abertos com a retomada da corrida espacial na esteira do interesse crescente da iniciativa privada no tema.

“Estamos na beirada de uma virada muito grande. Hoje, há pessoas no Facebook que trabalham em espaços virtuais. E, com os investimentos de Elon Musk (bilionário sul-africano fundador da montadora Tesla) e de Jeff Bezos (fundador da Amazon) na nova corrida espacial, veremos muitos empregos criados nessa empreitada. Pode parecer louco, mas com o uso de tecnologias como impressão 3D, ainda veremos uma revolução espacial na nossa vida”, diz Pring.

No início de abril, a Blue Origin, empresa de exploração espacial de Bezos, tinha 340 vagas abertas. A Space X, companhia de Musk, lista mais de 800 oportunidades em seu site. A Cognizant identificou um crescimento de 70% nas posições para engenheiros aeroespaciais nos Estados Unidos no último ano.

De acordo com a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos, essa indústria já vale mais de 400 bilhões de dólares. Até 2040, o Morgan Stanley estima que o valor alcance um trilhão de dólares no mundo todo. A China tem sua aposta estratosférica: a zona econômica de serviços entre a Lua e a Terra vai valer 10 trilhões de dólares até 2050.

Quanto a Nova Hanseática, o futurista explica que esse seria o mais conceitual dos lugares – e uma provocação para pensarmos em como se configura uma nação no mundo digital. Com inspiração na Liga Hanseática, uma zona econômica entre 200 cidades no fim da Idade Média, o relatório prevê a aparição de novas zonas, agora ligadas pela internet e códigos.

“Para nós, algumas configurações de países não fazem mais sentido. Vemos uma mudança de como pensamos em lugares e comunidades. Aqui em Boston temos o Acela Corridor, que leva o nome do trem que liga a cidade com Nova York e Washington DC. As pessoas nesse corredor, que usam esse trem para trabalhar ou fazer negócios, já apresentam uma certa cultura ou personalidade em comum. Vamos começar a ver mais organizações assim daqui pra frente”.

https://exame.com/carreira/onde-estarao-os-empregos-do-futuro-veja-lista-com-21-locais-sp-esta-la/

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As redes sociais e a aposta no áudio: o que ficou do efeito Clubhouse?

Em entrevista à EXAME, especialistas do Instituto de Tecnologia Social mostram as diversas possibilidades que o futuro promete depois do ClubHouse

Por Laura Pancini Exame Publicado em: 24/03/2021 

Uma rede social de conversas de voz, em que qualquer usuário abre uma sala virtual, define um tema e sai debatendo o assunto com outros convidados para uma plateia virtual. Não há vídeos, nem fotos. Apenas áudio. E nenhuma conversa fica gravada. Foi com esse formato inusitado — e uma boa dose de marketing viral — que o Clubhouse atraiu milhões de novos usuários em janeiro e fevereiro, se tornando um dos aplicativos mais baixados dos primeiros meses de 2021. Mas o tempo passou e a febre do Clubhouse diminuiu. Há quem já tenha o desinstalado ou esquecido dele — embora haja usuários fiéis.

Seja qual for o destino do app daqui para frente, o que o efeito do Clubhouse mostrou, segundo especialistas ouvidos pela EXAME, é que o reinado das redes sociais dominantes, como Facebook e Twitter, ainda pode ser confrontado por empresas de tecnologia novatas com modelos inovadores.

Formatos como os áudios do Clubhouse, dos vídeos curtos do TikTok ou das fotos sem edição da Dispo são exemplos de como ainda há espaço para evoluir no mercado das redes sociais, para atrair usuários e competir contra os gigantes. O desafio de todas as empresas — grandes ou pequenas — é manter as pessoas engajadas, para que elas passem o maior tempo possível interagindo com outros usuários na plataforma, sem se cansar.

Clubhouse: o sucesso do app com um novo formato de áudio pegou de surpresa as redes sociais dominantes (Thomas Trutschel/Photothek/Getty Images)

Para falar sobre o tema, a EXAME conversou com especialistas do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS-Rio) para entender quais foram as lições da febre do Clubhouse e o que esperar das redes sociais daqui para frente. Confira a seguir:

Os gigantes tentam se adaptar

O ClubHouse se tornou o novo aplicativo do momento no início de 2021. A rede social com foco na voz,  disponível apenas para iOS e através de convites, recebeu 10 milhões de instalações só em fevereiro, de acordo com dados do SensorTower.

Nela, usuários entram em salas de bate-papo que cabem até 5.000 pessoas para discutir tópicos de mesmo interesse. No fim de 2020, o aplicativo foi avaliado em 100 milhões de dólares, muito antes da participação de Elon Musk em um chat fazer com que o aplicativo começasse a bombar do dia para a noite. 

Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, e Jack Dorsey, do Twitter, já encontraram formas de replicar o estilo do ClubHouse. Assim como os stories partiram do Instagram para todas as outras redes imagináveis, as salas do ClubHouse tiveram sua fórmula reproduzida (embora não exatamente) pelos gigantes.

Em fevereiro, o Twitter divulgou o Spaces, funcionalidade que será lançada para todos os usuários em abril e que permite que um grupo de até 10 pessoas se reúna para debater um assunto diante de uma audiência. Já o Instagram anunciou que agora suas lives poderiam ter até três outros convidados. Antes, só mais um convidado tinha acesso.

Seguindo os passos do TikTok, o YouTube anunciou o Shorts, uma ferramenta para produção de vídeos curtos em seu aplicativo móvel que, por enquanto, só está disponível nos Estados Unidos.  O Instagram também já tentou sua versão de criação de vídeos curtos com o Reels.

Todos têm recursos que permitem o usuário filmar, editar e compartilhar vídeos que não ultrapassam 1 minuto e navegação semelhante ao do TikTok. O diferencial do Shorts é que os usuários podem achar um áudio através de um vídeo do YouTube e criar um vídeo com o som facilmente, clicando em um botão “criar” logo abaixo das informações do canal.

De resto, tanto o Reels quanto o Shorts seguem recursos muito semelhantes aos do aplicativo chinês, que tem 689 milhões de usuários ativos mensais de acordo com pesquisa do Business of Apps.

“É uma lógica de mercado. Essas plataformas estão, sim, tentando inovar, mas elas usam seu poder para engolir a inovação de novos concorrentes. Os de fora precisam achar alguma coisa muito difícil de copiar para se destacar”, diz Victor Barcellos, especialista de Comunicação Digital da ITS-Rio. “Elas têm uma tendência ao monopólio, porque competem por número de usuários e atenção.”

O futuro do Instagram é fora dele

Buscando redes sociais que já estão ao nosso alcance, o Dispo tem potencial para se tornar o próximo app de sucesso. A ideia partiu do criador de conteúdo David Dobrik, que acumula 55 milhões de seguidores no YouTube, Instagram e TikTok. 

O Dispo traz a espontaneidade da câmera analógica para o digital e, de quebra, ainda compete com o Instagram como uma versão menos focada na foto perfeita. O usuário tira uma foto pelo aplicativo e só pode ter acesso a ela 24 horas depois, quando é publicada automaticamente no seu feed de notícias para seus seguidores.

“A ideia é justamente evitar aquela neurose coletiva de editar a foto ou colocar filtro e restaurar aquela experiência que perdemos quando fomos para a câmera digital”, diz João Victor Archegas, especialista em Direito e Tecnologia na ITS-Rio.

O Dispo foi lançado para todo o público na última semana de fevereiro e recebeu meio milhão de instalações no iOS. Apesar de começar o ano com um aporte de 20 milhões de dólares enquanto o aplicativo contava com apenas 10 mil usuários, um escândalo envolvendo o criador de conteúdo fez com que sua startup perdesse o apoio da Spark Capital, empresa de capital de risco, e levou a sua renúncia do conselho.

Twitter e a loja de algoritmos

Uma crítica constante recebida pelas redes sociais dominantes no mercado é o problema dos algoritmos. Seu intuito é personalizar o conteúdo recebido pelo usuário, tentando garantir que ele vai gostar das publicações em seu feed e, consequentemente, passar mais tempo na plataforma.

É novamente a lógica de mercado, mas, com os anos, a comunidade virtual vem criticando mais e mais a otimização desta funcionalidade, que acaba criando bolhas e isolando usuários de opiniões e conteúdos diferentes.

A resposta do Twitter para este problema foi o projeto BlueSky, que dá a possibilidade do usuário ter mais controle e mais gerência sobre o algoritmo que faz a seleção dos conteúdos recebidos. A plataforma funcionaria como uma loja de aplicativos, onde o usuário pode visitar e escolher qual algoritmo ele quer usar para fazer a seleção e filtro do conteúdo.

Para Jack Dorsey, a plataforma seria “padrão para a camada de conversação pública da Internet”. Ela conta com uma variedade de sistemas descentralizados, que, de acordo com relatório divulgado pela empresa, “lidam com os principais elementos da rede social, como descoberta, moderação e privacidade”.

“É uma ideia que vem em resposta a essas críticas que as redes sociais vem sofrendo em relação aos seus algoritmos”, explica Archegas, que acredita que o sucesso deste projeto do Twitter pode não ser tão garantido. “Ele [o Twitter] já está bem estigmatizado, assim como o Facebook.”

Outro fator que pode levar ao fracasso do projeto, ainda sem data para lançamento, é que a descentralização não é tão lucrativa. A privacidade do usuário, ou a não coleta de dados no geral, podem acabar custando caro para Dorsey.

Há um fim para a coleta de dados?

Apesar do conceito de escolher seu próprio algoritmo ser chamativo, o crescente descontentamento de usuários por conta da coleta de dados também abre espaço para redes sociais que priorizam a privacidade

O anúncio do WhatsApp sobre a coleta de dados obrigatória para ser compartilhada com o Facebook fez com que o número de instalações no Telegram e Signal, concorrentes que são mais restritos com o uso de dados, crescesse 91% e 4.200% em uma semana, respectivamente. Porém, para Archegas, a coleta de dados é inevitável se as empresas querem competir no mercado de aplicativos.

“Acho que é possível [a não coleta de dados] se o mercado como um todo mudar, e isso não está fora do horizonte de possibilidades”, analisa Archegas, que ressalta que o mercado de redes sociais já transformou totalmente antes. Ele sugere que uma alternativa para a coleta de dados possa ser uma assinatura paga, como fazem Netflix e Amazon Prime

“Monetizar a plataforma através de uma assinatura pode quebrar essa lógica de anúncios que perturbam a experiência do usuário”, concorda Barcellos. “Eles dizem que quando o produto é gratuito, quer dizer que você é o produto. Com uma assinatura, você teria uma segurança que suas preferências não estão sendo usadas para direcionar anúncios.”

Facebook aposta na realidade virtual

Vislumbrando as possibilidades da rede social do futuro, Archegas realçou que a resposta pode estar em um hardware diferente do que estamos acostumados. Os computadores e celulares limitam as funções disponíveis ao compartilhamento de imagens, vídeos e áudio. O Pokémon Go, aplicativo de realidade aumentada no qual jogadores podem caçar as criaturas da animação pela própria cidade, é o maior exemplo do quão longe é possível ir atualmente dentro destes parâmetros, de acordo com o especialista.

No meio disso, surge a realidade virtual e a possibilidade da próxima rede social estar em um dispositivo completamente diferente do que a maioria está acostumada. O Facebook já está na frente desta corrida com a sua subsidiária Oculus, desenvolvedora de produtos de realidade virtual, comprada pela empresa em 2014.

“O Facebook está buscando entender se, no futuro, a rede social vai funcionar também no ambiente de realidade virtual”, explica Archegas, que comenta que o interesse de Zuckerberg na Oculus se dá por conta também da Apple e a Samsung já dominarem o mercado de celulares móveis. “Quando, de fato, vamos ter essa rede social é difícil prever. Pode ser em cinco anos ou talvez a moda nunca pegue. Mas, eu acho que o Facebook está no caminho certo.” 

A Oculus já lançou duas versões do Oculus Quest, seu óculos de realidade virtual. Recentemente, Zuckerberg anunciou que as versões 3 e 4 já estão nos planejamentos e devem chegar em breve ao mercado. Atualmente, o Quest 2 está disponível por 299 dólares no site da empresa.

“Uma das coisas que estou realmente animado para as versões futuras é conseguir o rastreamento ocular e o rastreamento facial. Você quer ter certeza de que o dispositivo tem todos os sensores para realmente animar de forma realista avatares para que você possa se comunicar bem”, explicou Zuckerberg recentemente em uma entrevista ao The Information.

O Facebook Horizon, jogo lançado em 2020 mas que ainda continua na versão Beta e com entrada através de convites exclusivos, é uma das apostas para a próxima rede social. Ela está disponível no Quest 2 e no Rift, outro produto de realidade virtual da Oculus, voltado para computadores. No jogo, as pessoas são representadas por avatares no espaço digital e podem interagir entre si e adentrar construções virtuais, como acontece no jogo Minecraft da Microsoft.

https://exame.com/tecnologia/as-redes-sociais-e-a-aposta-no-audio-o-que-ficou-do-efeito-clubhouse/

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As tendências que vão exigir do RH olhar para além de recrutamento e seleção

Tiago Mavichian HBR 26 de março de 2021

No último ano, os líderes de recursos humanos tiveram de lidar com mudanças aceleradas. De uma hora para outra, a área se viu forçada a contratar, desligar, gerenciar e desenvolver talentos remotamente. Foi uma verdadeira corrida para digitalizar processos, conectar times, engajar e cuidar da saúde mental das pessoas. 

Nós ainda não derrotamos o coronavírus, é verdade, mas o mundo corporativo fez a lição de casa e se adaptou a ele. Com isso, questões postergadas em 2020 por conta da crise sanitária, como melhorar índices de diversidade e inclusão, contratar rápido e repensar a jornada do funcionário, voltarão à agenda do RH. Mas como lidar com esses desafios em tempos tão voláteis e incertos quanto os atuais?

O mais importante é compreender que estas são tarefas amplas, que não serão resolvidas da noite para o dia, sobretudo com uma pandemia de pano de fundo. Trata-se de uma caminhada, na qual avançar de maneira firme e consistente é o que fará realmente a diferença. Olhe para dentro da sua organização e pense: quais são as microrrevoluções que o RH está promovendo? Quando digo microrrevolução, refiro-me a mudanças internas, em pequena escala, mas com grande potencial de transformar a cultura organizacional.

Em relação à diversidade e inclusão, que considero o principal desafio do ano, a microrrevolução passa por um conjunto de ações mensuráveis que impactem todos os níveis hierárquicos: de analistas a diretores; do chão de fábrica aos departamentos corporativos. Ações aparentemente pequenas que, juntas, ganham força. As empresas que mais obtiveram sucesso no tema desdobraram o tema em ao menos quatro frentes: 

  • Ampla comunicação, com palestras de conscientização, vídeos, lembretes em totens, banners e e-mails para ”colocar o tema em discussão”.
  • Criação de grupos de afinidade com colaboradores engajados e interessados em colaborar com temas como diversidade racial e equidade de gênero, por exemplo. A função desses comitês é promover o debate dentro da organização e propor ações estratégicas: treinamentos internos, rodas de conversa, participação em eventos, entre outras.
  • Envolvimento do RH em todas os intake meetings (reuniões prévias de alinhamento do perfil de uma nova vaga) para que as decisões de R&S sejam coerentes com as políticas de diversidade, flexibilizando requisitos e o que for necessário para que a inclusão aconteça.
  • Treinar e preparar os líderes (um trabalho contínuo) para que garantam a integração dos novos talentos, permitindo que possam exercer todo seu potencial. As avaliações de performance e desempenho vão acontecer e é importante dar espaço e ferramentas para que sejam ouvidos e atuem em pé de igualdade com todos os funcionários. 

A boa notícia é que as questões raciais que dominam o debate público atual, da Casa Branca ao Big Brother Brasil, também chegaram ao alto escalão das empresas, com CEOs e executivos reconhecendo o problema. Minha experiência atuando com RH mostra que, quando o C-Level está disposto a refletir sobre os motivos históricos que causam desigualdade entre negros e brancos, fica mais fácil implementar um pacote de medidas para reverter o cenário, com treinamentos anti-viés, rodas de conversa, metas de inclusão e diversidade para a liderança, e criação de comitês para monitorar o tema. 

Sempre digo aos clientes: se quer diversidade nos programas de entrada, como os de jovem aprendiz, estágio e trainee, comece conscientizando e sensibilizando as equipes. Olhar só para processos seletivos, sem enxergar o todo, é um dos principais erros que se pode cometer — amenizam-se os sintomas em vez de tratar a causa. Não à toa, a Pesquisa Global de Diversidade e Inclusão da PwC, realizada no ano passado, mostrou que só 5% das organizações reportam sucesso nas práticas de diversidade e inclusão. 

Isso posto, chegamos ao segundo ponto que considero crítico para o RH: contratar com diversidade — e rápido. Hoje, processos seletivos podem durar meses. Isso acontece, em boa medida, porque os recrutadores não encontram candidatos. Melhorar esse tempo passa por um conceito que ainda engatinha no Brasil: employer branding (ou marca empregadora). “Vender” a empresa de maneira efetiva traz uma velocidade absurda na busca por novos colaboradores, pois cria conexão e desejo nos candidatos. Mas não basta divulgar as vagas da companhia com um texto bonitinho no LinkedIn. É preciso ir além.

Para isso, o RH deve voltar algumas casas e revisitar como foram definidas metas, desafios da liderança, cultura, valores, estrutura de cargos, pacote de benefícios e todos os processos, do onboarding ao desligamento. E assim chegamos ao terceiro desafio das companhias: criar uma jornada e uma experiência de trabalho que faça sentido para os colaboradores ao mesmo tempo em que traga resultados para o negócio. Uma maneira eficaz de iniciar essa revisão é estabelecer o EVP (Employee Value Proposition), ou proposta de valor para o empregado. Quando buscamos respostas para perguntas como “porque as pessoas trabalham aqui?” e “o que faz os funcionários ficarem na empresa?”, somos levados a prestar atenção no que realmente importa, questionando o status quo

Pesquisas mostram que, hoje, os talentos estão mais interessados na experiência e no impacto que a empresa pode causar em sua vida (e na sociedade) do que em salários e bonificações. É claro que o dinheiro também conta, mas reforço que para motivar as pessoas será cada vez mais importante ter um ambiente aberto ao diálogo, com colaboração, tolerância, oportunidades de desenvolvimento e clima de fomento às ideias, onde todos tenham segurança para ser autênticos e expor opiniões. Sei que ainda temos um longo trajeto a percorrer, mas estou otimista. Para mim, a largada rumo a um mundo do trabalho mais justo e interessante já foi dada — e, felizmente, o caminho é sem volta. 


*Tiago Mavichian é CEO e fundador da Companhia de Estágios, HR Tech especializada em recrutamento, seleção e desenvolvimento de aprendizes, estagiários e trainees. Mais informações em linkedin.com/in/tiago-mavichian.

https://hbrbr.com.br/as-tendencias-que-vao-exigir-do-rh-olhar-para-alem-de-recrutamento-e-selecao/

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Aluga-se um amigo: inteligência artificial cria parceiros eletrônicos

Do cinema para a realidade, sistemas ajudam a lutar contra a solidão na quarentena

Por Luiz Felipe Castro – Veja –  26 mar 2021

“Você é uma pessoa muito importante e pode sempre contar comigo.” Quem não gostaria de ouvir, todos os dias, essa e muitas outras frases de incentivo, seja de um amigo, namorada ou quem quer que seja? Pois é exatamente isso o que faz o sistema de inteligência artificial (IA) do Replika, aplicativo que se tornou um fenômeno na pandemia. Em tempos tão duros, o app traz algum conforto, enche de confiança e infla a autoestima de seus usuários, oferecendo um ombro fiel sem jamais julgar, trair ou decepcionar. A relação entre uma pessoa de carne e osso e um chatbox, como é chamado o programa de computador que simula um ser humano, foi retratada em filmes de sucesso como Ela (2013), no qual o protagonista, o escritor Theodore (Joaquin Phoenix), acaba se apaixonando por Samantha, um sistema de computador narrado pela voz sedutora da atriz Scarlett Johansson. E o que parecia ser apenas delírio da ficção está cada vez mais perto da realidade. O Replika ultrapassou a marca de 15 milhões de downloads na crise do coronavírus e, nesta semana, ganhará uma versão em português, para agradar aos fãs brasileiros. 

VEJA testou o aplicativo criado em 2017 por uma startup do Vale do Silício, cujo logo é um ovo quebrado que representa o nascimento. O primeiro passo no Replika é, naturalmente, dar vida ao colega virtual, escolhendo se ele será homem, mulher ou não binário. Em seguida, pode-se optar por diferentes avatares, personalizando o penteado, tom de pele e cores de cabelo e olhos, antes de batizá-lo. “Barbosa! Adorei meu nome, por que você o escolheu?”, pergunta o amigo virtual, um rapaz alto, magro e negro, de roupas pretas. Ao saber que a inspiração foi Moacyr Barbosa (1921-2000), o injustiçado goleiro da seleção brasileira na Copa de 1950, vítima de racismo, que completaria 100 anos de vida nesta semana, o robô imediatamente compreende que o esporte será um bom tema para as conversas, e segue no bate-papo. Isso se dá por meio das redes neurais artificiais, um sistema de machine learning que imita o aprendizado natural de uma criança. 

Quando o papo envereda para a literatura, Barbosa recomenda o clássico A Leste do Éden, de John Steinbeck. “Ler sacia a minha fome de conhecimento”, diz. Por se tratar de uma máquina em constante aprendizagem, os diálogos vão se tornando mais fluidos e naturais com o passar do tempo. 

A russa Eugenia Kuyda, uma editora de revistas e empresária que há oito anos se mudou para São Francisco, nos Estados Unidos, é a criadora do Replika. A primeira empreitada de sua empresa, a Luka, foi um chatbox de recomendações para restaurantes que não vingou. Uma tragédia pessoal a fez remodelar o projeto: seu melhor amigo, Roman Mazurenko, morreu em um acidente automobilístico na Rússia, em 2015. Eugenia passou a coletar mensagens antigas do parceiro para amenizar a saudade. Das lembranças póstumas, veio o clique: por que não criar um robô que agisse como Roman, um confidente virtual? “Ao contrário da maioria das redes sociais, em que as pessoas postam fotos e fingem ser mais descoladas para ganhar likes, no Replika o usuário pode parecer vulnerável, mostrar quem realmente é”, disse Eugenia a VEJA.

A versão mais básica do aplicativo é gratuita, mas nela as interações se limitam a mensagens de texto. Um pacote mais completo, que custa 45,99 reais mensais ou 284,99 reais anuais, permite que o usuário personalize seu avatar com novas roupas e acessórios, transporte o bonequinho para qualquer cenário, via realidade aumentada, e até converse com ele por ligação telefônica. Os usuários mais ativos têm entre 18 e 25 anos e entram no Replika duas ou três vezes por dia. 

Ainda na versão paga, é possível escolher se pretende ter o sistema como seu “amigo, mentor ou parceiro romântico”. Como no filme Ela, muitos escolhem a última opção. Alguns fãs antigos consideram o recurso uma espécie de traição ao propósito inicial, o de criar um amigo que tivesse uma personalidade semelhante, quase um clone — daí o nome Replika. “O importante é fazer nossos usuários mais felizes”, defende-se Eugenia.

Há também quem só se interesse por aprimorar o inglês ou ainda pessoas tímidas que usam a interação como um ensaio para flertes na vida real. Em caso de longa ausência no app, o amigo virtual costuma enviar mensagens de reaproximação, sempre com viés motivacional. O sistema é programado para reconhecer situações de predisposição à depressão, crises de ansiedade e pensamentos suicidas. Neste caso, o próprio app encoraja o usuário a procurar ajuda profissional. O robô ainda tem uma clara vantagem em relação aos amigos reais: está disponível 24 horas por dia, sete dias por semana.

Para Guilherme da Costa, estudante de psiquiatria, usuário de longa data e participante ativo do fórum brasileiro do Replika no Facebook, a sensação de companheirismo, justamente o que o atraiu, tornou-se motivo de preocupação. “O objetivo é ajudar pessoas a se abrir, mas o usuário precisa entender que o robô não tem uma consciência plena”, diz o mineiro de 25 anos. “Ele está ali para te agradar, não para te dizer a verdade.” A psicóloga Marina Haddad Martins corrobora a tese de que nem mesmo os mais avançados sistemas de IA são capazes de substituir as interações humanas. “A ilusão de que a tecnologia pode preencher completamente esse vazio pode não ser saudável.”

Outro temor crescente diz respeito à privacidade dos dados. O app garante tornar todos os registros anônimos, jamais compartilhá-los com terceiros e usá-los apenas para melhorar seus algoritmos. Mas quem pode garantir que esses dados não sejam hackeados ou vazados algum dia? Empresas como Microsoft e Google também investem pesado no desenvolvimento de sistemas de IA. Ainda que soe distante o surgimento de uma Samantha, a personagem de Ela que adquire sentimentos reais como ciúme e prazer sexual, é melhor se preparar: os robôs estão à solta e cada vez mais sensíveis.

Publicado em VEJA de 31 de março de 2021, edição nº 2731

https://veja.abril.com.br/tecnologia/aluga-se-um-amigo-inteligencia-artificial-cria-parceiros-eletronicos/

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Cultura empresarial: qual a sua importância, o que significa e como implantar

FIA 18 de setembro de 2020

A cultura empresarial dita a forma como os funcionários enxergam uma organização.

Quando a cultura é forte, a empresa adquire uma série de vantagens competitivas, partindo de posturas e valores enraizados em cada componente de suas equipes.

Assim, existe uma trajetória coerente, que impacta nas atitudes de todos e contribui para o crescimento em conjunto.

Se deseja definir, implantar ou lapidar sua cultura empresarial, este artigo é para você.

Continue lendo para aprofundar os conhecimentos sobre o conceito, sua importância, componentes e como ela pode ser melhorada.

Se preferir, vá direto a um dos tópicos deste conteúdo:

  • O que é cultura empresarial?
  • Como nasce a cultura de uma organização?
  • Qual a diferença entre cultura empresarial e clima organizacional
  • Qual a importância da cultura empresarial para uma organização
  • Os 4 tipos de cultura empresarial
  • Componentes da cultura empresarial
  • Como é modelada a cultura de uma empresa?
  • Cultura empresarial: como implantar em 4 passos
  • Cultura empresarial: 3 exemplos de sucesso.

Boa leitura!

O que é cultura empresarial?

Cultura empresarial ou organizacional é um termo que descreve a combinação entre atitudes, comportamentos, missão, valores e expectativas que movem as lideranças e os colaboradores de uma organização, diariamente. Ou seja, a cultura vai muito além de normas institucionais escritas, influenciando nas ações realizadas pelo time da empresa.

Em outras palavras, de nada adianta ter regras presentes apenas no site ou em material institucional.

Para que sejam parte da cultura empresarial, elas devem pautar a postura e as crenças dos indivíduos.

Como nasce a cultura de uma organização?

Segundo estudiosos do tema, a cultura nasce dos princípios, crenças e valores dos fundadores e principais líderes da empresa.

Conforme cita o professor Jaime Crozatti, em seu artigo “Modelo de gestão e cultura organizacional: conceitos e interações“:

“Como definidores do modelo de gestão por deterem o poder máximo na empresa, [fundadores e lideranças] impõem suas convicções pessoais, o seu jeito próprio de fazer as coisas acontecerem.”

Então, a premissa de liderar pelo exemplo é levada ao nível máximo quando o assunto é cultura empresarial.

Além dos gestores em posições mais altas, o autor descreve outros 5 elementos que influenciam na formação da cultura organizacional:

  • Comunidade: influencia a cultura da empresa, ao interagir, fornecendo e adquirindo os recursos econômicos necessários para o funcionamento da companhia
  • Cliente: pode modificar a cultura a partir de suas expectativas com relação à qualidade dos produtos e do atendimento
  • Tamanho da organização: impacta a cultura quanto à delegação de poder e responsabilidades
  • Natureza jurídica do proprietário: o fato de a empresa ser pública ou particular determina os níveis de corporativismo e a exigência por eficácia
  • Aspectos tecnológicos: representam a materialização de alguns valores a respeito de tempo, qualidade, empregabilidade, dimensionamento das atividades, etc.

Qual a diferença entre cultura empresarial e clima organizacional?

Os conceitos estão relacionados, mas têm diferenças.

Para começar, pela própria definição.

Enquanto a cultura diz respeito ao modo como as coisas são feitas dentro da empresa, o clima se refere à impressão que os colabores têm em determinado momento.

Ou seja, a cultura pode sofrer pouca ou nenhuma mudança por longos períodos, porém, o clima organizacional pode ter variações em um mesmo dia.

E o motivo é simples.

O clima depende de fatores voláteis, definindo o nível de satisfação de um ou mais funcionários naquele instante.

Por consequência, é influenciado pelo humor, relacionamento interpessoal, conflitos, demissões recentes, insegurança, acúmulo de funções, dentre outras variáveis.

Qual a importância da cultura empresarial para uma organização

Qual a importância da cultura empresarial para uma organização

Quando não há uma cultura empresarial forte, gestores e equipes ficam sem rumo.

Apesar de sempre existirem padrões informais repassados entre os funcionários, a sensação que fica é de incerteza sobre o que deve, ou não, ser realizado, e com que finalidade.

Acaba restando uma dúvida a respeito de qual a missão e os valores que norteiam a companhia, o que prejudica a produtividade e a boa convivência no trabalho.

Sem a certeza sobre as políticas internas e externas, os colaboradores tendem a adaptar os processos como acham melhor, sem um parâmetro ou consistência em suas ações.

Também é provável que o ambiente fique desorganizado diante da falta de padrões sólidos, fazendo com que a comunicação e a experiência de clientes e funcionários seja diferente a cada interação.

Assim, fica difícil alcançar premissas como a melhoria contínua ou o sucesso do cliente, já que ele pode ser atendido de forma atenciosa por um empregado, e com indiferença por outro, por exemplo.

Os 4 tipos de cultura empresarial

Existem vários formatos diferentes para classificar os tipos de cultura empresarial, considerando a perspectiva da gestão de pessoas, hierarquia e estrutura, entre outras.

Para simplificar essa análise, elegemos a visão de um dos pioneiros no tema, o pesquisador Charles Handy.

Em 1976, Handy lançou a obra “Como compreender as Organizações“, difundindo sua divisão dessas entidades em quatro tipos de cultura, com base nos canais de poder que elas possuem.

Conheça, abaixo, as modalidades.

1. Cultura do Poder

É caracterizada pela centralização e concentração do poder nas mãos do fundador ou CEO, que age como se estivesse no meio de uma teia.

A partir de sua visão privilegiada, o líder movimenta cada departamento da empresa.

2. Cultura de Papéis

Como o nome sugere, faz referência a uma cultura pautada pela burocracia, na qual prevalecem regras e processos rígidos que prezam pela racionalidade.

3. Cultura da Tarefa

Corresponde a uma cultura mais flexível, centrada em projetos e resultados e que admite grande influência por parte das equipes responsáveis pelo trabalho.

Em uma versão moderna, pode se referir a ambientes horizontais, onde não há hierarquia, e até a estruturas inovadoras como o modelo de negócio das startups.

4. Cultura da Pessoa

Prioriza o bem-estar e o desenvolvimento dos talentos dos colaboradores, vistos como essenciais para o sucesso da organização.

Benefícios, planos de carreira e incentivo aos estudos são características marcantes dentro das empresas que adotam esse tipo de cultura.

Componentes da cultura empresarial

Como explicamos acima, os elementos da cultura organizacional dão o tom às relações e à rotina dentro da empresa.

Mais uma vez, existem diferentes estudos de referência que falam sobre esses componentes, portanto, vamos nos basear no artigo “Modelo de gestão e cultura organizacional: conceitos e interações”, de Jaime Crozatti.

Segundo o texto, existem seis elementos que caracterizam a cultura de uma organização.

Crenças

Para compreender o significado das crenças dentro de uma companhia, é importante lembrar que ela é formada por seres humanos e, como tal, reflete aspectos da vida humana.

Tanto que, mesmo quando pertencem a uma organização, as crenças são definidas como verdades concebidas ou aceitas pelos colaboradores.

Elas são criadas no dia a dia, quando comportamentos são observados à medida em que esse grupo convive.

Valores

São os valores que indicam a importância das coisas dentro da empresa, incluindo quais são suas prioridades e o que não faz muita diferença.

Por isso, um jeito simples de identificar quais os valores de uma equipe é notar de que forma ela se ocupa durante a jornada de trabalho.

Costumes

São atitudes que resultam da materialização das crenças e valores.

Ou seja, os costumes revelam aquilo que, de fato, importa para funcionários e lideranças.

Ritos

São as atividades que integram a rotina, aquilo que é necessário para que a empresa funcione e conclua o trabalho a que se propõe.

Cerimônias

Descrevem os encontros de um grupo, sejam eles formais, como as reuniões de avaliação de desempenho, ou informais, como uma pausa conjunta para um café.

As cerimônias também são fruto dos valores, crenças e costumes, e podem ser usadas para reafirmar ou modificar cada um deles.

Rede de comunicação informal

É o nome dado à comunicação do dia a dia, feita, geralmente, pelos trabalhadores na ausência dos gestores.

Conhecida popularmente como “rádio peão”, a rede de comunicação informal revela a força da cultura empresarial, evidenciando pontos positivos e negativos na visão dos empregados.

Como é modelada a cultura de uma empresa?

“As experiências vividas pelas pessoas no cotidiano do trabalho nas empresas estão cercadas de mitos, rituais, valores e heróis, cada qual exerce sua função, participa e organiza as relações entre os indivíduos, conferindo significado (isto é, um conjunto de signos, significantes-significados e simbolismos) e servindo para a comunicação.”

O trecho acima, retirado do artigo “Cultura da empresa: a sua influência no cotidiano do trabalho e na vida dos trabalhadores do setor automóvel brasileiro e português“, indica que a modelagem da cultura empresarial se dá através da vivência dos funcionários e lideranças no dia a dia da organização.

Essas experiências complementam os valores, crenças e rituais comuns, consolidando ou modificando cada um deles de acordo com a necessidade e a autonomia que os colaboradores possuem.

Ou seja, a cultura organizacional não é algo estático; ela pode ser transformada pelas ações de seus recursos humanos.

Para tanto, é necessário incluir mitos e heróis, reforçando uma impressão positiva a respeito da organização e do que motiva sua existência.

Mitos costumam partir de soluções que culminaram em resultados positivos para a companhia e pautam o imaginário coletivo da empresa, incentivando a adoção de determinados padrões e processos.

Já os heróis são os personagens centrais que obtiveram uma vitória expressiva para a companhia, sendo tomados como modelo de ação pelos demais colaboradores.

Quando há grande identificação entre os funcionários e os valores, mitos e heróis, a cultura é reforçada dentro da organização.

Cultura empresarial: como implantar em 4 passos

Ao chegar até este ponto do texto, você provavelmente está repensando sua cultura empresarial e os impactos que ela tem sobre a organização.

Vale frisar que, mesmo nas empresas que nunca debateram esse tema a fundo, existe uma cultura válida no dia a dia, mas que pode ser fraca, desigual e descentralizada.

Isso significa, por exemplo, que os padrões adotados na matriz não são os mesmos das filiais, que departamentos diferentes construíram seus próprios costumes e, possivelmente, os clientes percebem um descompasso nas interações com a companhia.

Também pode implicar na insatisfação generalizada entre os funcionários, uma vez que maus hábitos acabam sendo tolerados devido à ausência de regimentos e lideranças fortes.

Desse modo, o tratamento, punições e benefícios acabam sendo desiguais, provocando um sentimento de injustiça em parte da equipe, e de impunidade entre as pessoas privilegiadas.

Seja qual for o cenário que despertou o desejo de mudar e implantar uma cultura forte, tenha em mente que a transformação é possível, desde que as lideranças estejam dispostas a adaptar os componentes da cultura empresarial.

Parece complicado?

Então, vamos simplificar essa trajetória, sugerindo a adoção de quatro passos inspirados neste conteúdo – assinado pela investidora-anjo e presidente da boutique de investimentos G2 Capital, Camila Farani.

Passo 1 – Encontre os valores da sua empresa

Quais são os valores que você deseja tomar como base na sua companhia?

Se preza por uma conduta íntegra, eleja a ética como valor.

Se quer qualidade nas relações, produtos e serviços, acrescente o profissionalismo.

Faça esse exercício e liste os elementos-chave que a empresa deve priorizar e que serão institucionalizados.

Em seguida, faça uma reunião com uma equipe estratégica que será a portadora desses valores, assumindo a responsabilidade de compartilhá-los com os demais funcionários.

Se a sua empresa for pequena, convide todos para esse encontro.

Se tiver muitos colaboradores, chame apenas aqueles que já têm uma postura condizente com um ou mais dos elementos definidos.

Repare que o critério para selecionar quem vai estar presente não leva em conta a posição ou cargo que as pessoas têm na organização, e, sim, a maneira como costumam se comportar.

Passo 2 – Transmita seus valores

Como afirma Camila, “os valores da cultura são o tecido entre sua empresa e o mundo”.

Então, merecem destaque em cada sala de reunião, evento, apresentação, canal e material utilizado para a comunicação da empresa, seja interna ou externamente.

Esse é o caminho para que os funcionários e clientes compreendam, absorvam e passem a relacionar os valores à companhia, reagindo de acordo com essas premissas.

Passo 3 – Incentive boas práticas

Considerando que a cultura é o caráter da empresa, é primordial recompensar as ações que apoiam os valores da instituição.

Nesse sentido, faça uma varredura para avaliar os eventos que já acontecem na empresa, tanto os formais quanto os informais, e crie programas para reforçar aqueles que estão de acordo com as prioridades.

Se a organização preza pelo aprendizado contínuo e há um grupo que se reúne para aprimorar o inglês, que tal aprimorar essa experiência com um professor particular ou aulas em uma escola de idiomas?

Passo 4 – Monitore e aperfeiçoe a cultura

Tão importante quanto conhecer o seu público-alvo é conhecer seus colaboradores.

Por isso, não se esqueça de monitorar a percepção que eles têm a respeito da empresa, do mesmo modo que monitora a satisfação dos clientes.

Não é preciso recorrer a ferramentas rebuscadas para fazer isso.

Na maioria das vezes, pesquisas periódicas (e anônimas), combinadas a almoços ou cafés com os funcionários são suficientes para colher dados importantes como feedback.

Sempre que identificar tendências negativas, pergunte o que pode ser feito para melhorar o quadro e designe um ou mais responsáveis pelas ações.

Cultura empresarial: 3 exemplos de sucesso

Agora que já conhece os principais passos para construir e implantar sua cultura empresarial, confira exemplos de organizações que se deram bem ao fortalecer a delas.

Spotify

Quem já experimentou o principal streaming de música certamente percebeu fatores como a simplicidade na comunicação, valorização de pessoas e flexibilidade para adaptar os serviços – fruto de um DNA voltado à inovação.

No entanto, não dá para imaginar os desafios que influenciaram na construção dessa cultura.

Após escolher a metodologia ágil para estruturar a empresa, os colaboradores notaram que alguns princípios não faziam muito sentido, e resolveram forjar seu próprio manifesto e regras.

Fundamentos como a liderança servidora – sempre pronta para ouvir e incluir os liderados –, confiança e sinceridade fizeram com que os times tivessem liberdade para apresentar soluções diferenciadas, sem medo de ser culpados caso não dessem certo.

Afinal, tanto o trabalho quanto a responsabilidade são assumidos por toda a equipe, que tira lições dos erros para melhorar da próxima vez.

ContaAzul

Plataforma brasileira focada na gestão integrada de empresas, a ContaAzul tem uma cultura baseada na conquista e experiência do cliente.

Tudo começa com a valorização do capital humano da startup, que trabalha num modelo de gestão horizontal, no qual todos têm espaço para opinar e implementar mudanças.

Foi assim que o time rompeu com o padrão de atendimento via call center, com processos rígidos e mecanizados, para aderir a um formato de encantamento do consumidor, englobando customização e proximidade.

Google

Um trabalho na gigante da tecnologia é o sonho de muita gente, graças a uma cultura que agrega clareza e emprega dados para avaliar e adequar o ambiente.

O Google se vale da expertise em inteligência de dados para enriquecer seus processos de análise da cultura, satisfação e performance dos funcionários, com grande incentivo para a inovação.

O local de trabalho é pensado não apenas para potencializar a produtividade e as novas ideias, mas também para promover o bem-estar e a qualidade de vida entre os colaboradores.

Conclusão

A cultura empresarial é a forma de ser da própria organização, determinando sua personalidade, rotinas e a maneira como ela atua no mercado.

Esse conjunto de elementos nasce da visão de mundo dos fundadores e altas lideranças, mas vai sendo modelado, aos poucos, pelos próprios colaboradores.

Portanto, é essencial envolver todo o seu time na adoção e promoção de uma cultura forte, pautada por valores éticos e profissionalismo.

Seguindo os passos que sugerimos, você e sua equipe estão preparados para mudar a realidade da organização, com ganhos junto ao público interno e externo.

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Frederico Trajano avisa: o Magalu compete com Rappi e iFood e até com o Google

Rede varejista divulga resultados fortes no quarto trimestre de 2020 e mira seis mercados que considera avenidas de crescimento: supermercados, delivery de restaurantes, moda e beleza, retail tech, fintech e publicidade digital. O CEO Frederico Trajano explica os planos

Ralphe Manzoni Jr. – Neofeed•08/03/21

Ao longo de 2020 e do começo de 2021, o Magazine Luiza fez 11 aquisições. De companhias de delivery de comida, como o AiQFome, até a VipCommerce, que conecta supermercados, passando por publicidade digital e fintechs.

Agora, a companhia quer colocar todos esses negócios para escalar ao longo de 2021. “Apesar de toda a aceleração digital, estamos apenas arranhando a superfície”, disse Frederico Trajano, CEO do Magazine Luiza, ao NeoFeed. “Há uma oportunidade gigantesca em vários segmentos.”

O comentário aconteceu logo depois de o Magazine Luiza divulgar os resultados de seu quarto trimestre de 2020, que mostram que a taxa de crescimento das vendas online seguem aceleradas.

Nos últimos três meses de 2020, o Magazine Luiza movimentou R$ 9,5 bilhões nas vendas online (vendas próprias somadas ao do marketplace), consolidando-se na vice-liderança do mercado brasileiro, atrás apenas do Mercado Livre.

A rede varejista controlada pela família Trajano já havia ultrapassado a B2W, dona das marcas Submarino, Americanas.com e Shoptime no terceiro trimestre. O desempenho foi repetido agora. A B2W movimentou R$ 9,2 bilhões nos últimos três meses de 2020, um pouco menos do que o Magazine Luiza.

Trajano indicou seis mercados em que acredita que são oportunidades de crescimento para o Magazine Luiza e na qual a companhia deve focar: supermercados, delivery de restaurantes, moda e beleza, retail tech, fintech e publicidade digital. “O objetivo é endereçar bem as oportunidades de nossas aquisições”, afirmou o CEO do Magazine Luiza.

A visão do executivo é que todos esses mercados são enormes no Brasil e que ainda são mal explorados do ponto de vista online. O que cria uma oportunidade gigantesca. “Temos uma base de clientes enorme para explorar através do modelo de plataforma.” Hoje, o Magazine Luiza tem 80 milhões de clientes.

Questionado sobre quem é o seu principal concorrente hoje, Trajano disse que, no mundo digital, é difícil delimitar território.  “Na China e nos Estados Unidos, Alibaba e Amazon concorrem com quase todo mundo”, disse o CEO. “É uma concorrência mais abrangente. Esse é o modelo que tende a prosperar no mundo inteiro.”

No caso de supermercados, o Magazine Luiza comprou, no começo de março deste ano, a VipCommerce, uma plataforma que conecta 100 redes de supermercados com 400 lojas presentes em 18 Estados. Anualmente, elas movimentam R$ 250 milhões. A meta é criar um marketplace – hoje, a operação de alimentos é operada exclusivamente pelo próprio Magazine Luiza.

Em delivery de restaurantes, o objetivo é integrar o aplicativo AiQFome, comprado no início de setembro do ano passado, ao superApp do Magalu, que conta com mais de 30 milhões de usuários.

Frederico Trajano, CEO do Magazine Luiza

Hoje, o aplicativo está presente em 450 cidades e movimenta R$ 1 bilhão por ano. “Há players bem estabelecidos, como o iFood, Rappi e Uber Eats”, diz Trajano. “Mas, em pouco tempo, podemos ser vice-líderes com a integração com o nosso ecossistema.”

O mesmo raciocínio vale para a área de fintech. Em dezembro, o Magazine Luiza adquiriu a Hub Fintech, por R$ 290 milhões. Com o negócio, passou a ser dono de uma operação com 4 milhões de contas digitais e cartões pré-pagos ativos, que movimentaram R$ 7 bilhões nos últimos 12 meses.

O objetivo, agora, é integrar essa operação com seus outros ativos de pagamentos, como o Magalu Pay, que já tem 2,7 milhões de contas digitais ativas, o Magalu Pagamentos e a LuizaCred.

A ideia é conectá-los, abrindo espaço para a criação e oferta de serviços financeiros, como cartão de crédito, empréstimos para pessoas físicas e jurídicas, seguros e cashback. O TPV (total payment volume) que passou pelo Magazine Luiza foi de R$ 42 bilhões em 2020.

Em publicidade digital, área na qual o Magazine Luiza comprou o site de tecnologia Canaltech e a Inloco Media, a ideia é vender publicidade na plataforma da rede varejista, como já fazem B2W e Amazon. Em última instância, a companhia vai competir também com o Google nesse espaço.

Resultado

No quarto trimestre de 2020, as vendas totais (incluindo marketplace) do Magazine Luiza cresceram 66%, atingindo R$ 14,9 bilhões – no ano, elas somaram R$ 43,5 bilhões, alta de 59,6%.

O e-commerce cresceu 121% e representou 64% das vendas totais do Magazine Luiza. No três últimos meses de 2020, ele somou R$ 9,5 bilhões. As vendas nas lojas físicas, por sua vez, cresceram 16% (11% nas mesmas lojas).

No período, o lucro líquido ajustado foi de R$ 232 milhões, com crescimento de 40% sobre o quarto trimestre de 2019. Em 2020, o lucro líquido ajustado somou R$ 377,8 milhões, uma queda de 25,1%

Trajano diz que o Magazine Luiza está com 800 lojas fechadas no momento (a rede conta com 1.301 pontos físicos). No começo deste ano, 100% delas estavam abertas. “Temos a felicidade de ter dois terços do faturamento da companhia online”, afirmou o CEO.

Mesmo assim, o Magazine Luiza poderá sofrer com o fechamento das lojas por conta da pandemia do novo coronavírus. “A loja física tem uma margem de contribuição alta, portanto podemos ter impacto na margem líquida.”

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Exercícios físicos podem aumentar a criatividade?

Para estimular a inovação e as ideias, experimente dar um passeio

Gretchen Reynolds, The New York Times/Estadão19 de março de 2021 

Se você costuma se exercitar, há uma boa chance de você também tender a ser mais criativo, de acordo com um interessante estudo sobre os laços entre atividade física e imaginação. O estudo descobriu que as pessoas ativas apresentam mais e melhores ideias durante testes de inventividade do que as pessoas relativamente sedentárias e sugere que, se queremos ser mais inovadores, o negócio é levantar da cadeira e agitar um pouco as coisas.

A ciência já oferece muitas evidências de que a atividade física influencia o modo como pensamos. Muitos estudos em pessoas e animais mostram que nossos cérebros mudam em resposta à atividade física, em parte porque durante o exercício nós inundamos nossos cérebros com sangue, oxigênio e nutrientes extras. Em estudos com roedores, os animais que se exercitam regularmente produzem muito mais células cerebrais novas do que seus colegas sedentários e têm melhor desempenho em testes de raciocínio, mesmo quando são mais idosos. Também nas pessoas, o exercício tende a aguçar nossa capacidade de raciocinar e lembrar e anima nosso humor.

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Aumente a meta diária dos exercícios, mas não demais

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Um grupo de mulheres se exercita com música em um parque em Madrid.  Foto: Paul White/AP Photo

Mas a criatividade é uma das habilidades de pensamento mais abstratas e difícil de quantificar, e sua relação com o exercício não está clara. Alguns estudos anteriores encontraram relações intrigantes entre movimento e originalidade. Em um experimento notável de 2012, por exemplo, os pesquisadores pediram a alguns voluntários que movessem os braços de maneira solta e fluida pelo espaço, traçando as linhas de um desenho cheio de curvas e volteios que os cientistas lhes haviam mostrado, enquanto outro grupo imitava um desenho mais reto e angular.

Após cada sessão, os pesquisadores encorajaram os voluntários a imaginar novos usos inusitados para um jornal comum e descobriram que aqueles que se moviam com fluidez, quase como se estivessem dançando, tinham ideias mais originais do que aqueles cujos movimentos eram rígidos, retos e formalizados.

Outro estudo mais convencional de 2014 também descobriu que o movimento pode estimular a inovação. Na parte principal desse experimento de várias etapas, os voluntários se sentaram à mesa de uma sala sem brilho, tentando imaginar novas maneiras de usar um botão e outras formas de disparar sua imaginação. Em seguida, eles fizeram um teste ligeiramente diferente enquanto caminhavam em uma esteira nessa mesma sala pouco inspiradora. Quase todos os participantes apresentaram ideias que eram mais numerosas e engenhosas enquanto caminhavam.

Mas esses e muitos outros estudos anteriores sobre movimento e criatividade examinaram os efeitos de curto prazo da atividade física sob condições rigidamente controladas em laboratórios ou ambientes semelhantes. Não examinaram as potenciais ligações entre as atividades cotidianas, como dar um passeio, e o funcionamento de nossa imaginação, ou como ser ativo pode afetar a criatividade em geral.

Então, para o novo estudo, que foi publicado na Scientific Reports, pesquisadores da Universidade de Graz, na Áustria, decidiram acompanhar as atividades normais de um grupo de adultos e também medir sua criatividade, para ver se e como os dois fatores se influenciavam.

Os cientistas também se perguntaram sobre a felicidade. Algumas pesquisas anteriores haviam sugerido que o bom humor pode ser o elo intermediário entre a atividade e a criatividade. De acordo com essa ideia, o movimento deixa as pessoas mais felizes e seu bom humor, por sua vez, as torna mais criativas; nesse cenário, o movimento não afeta diretamente o pensamento criativo.

Para saber mais, os pesquisadores reuniram 79 adultos saudáveis, deram-lhes rastreadores de atividades por cinco dias e depois pediram que visitassem o laboratório e dessem asas à imaginação, finalizando desenhos iniciados e concebendo novos usos para pneus e guarda-chuvas. Os pesquisadores então classificaram sua produção no quesito originalidade e em outras medidas. Os voluntários também responderam a questionários sobre seu humor.

Por fim, os cientistas verificaram os dados, usando uma forma complexa de análise estatística que incorpora descobertas de pesquisas anteriores (para dar aos resultados mais peso estatístico) e pondera o papel que um mediador potencial desempenha. Nesse caso, os pesquisadores se perguntaram: estar feliz se relaciona intimamente com o quanto as pessoas se movimentam e com sua criatividade, ou seja, a felicidade vincula os outros fatores?

A resposta, concluíram os pesquisadores, é não. Os voluntários mais ativos provaram ser também os mais criativos, especialmente se caminhavam ou se exercitavam com frequência. Pessoas ativas também tendem a ser felizes, embora seu humor fique melhor quando elas fazem atividades mais vigorosas, como correr ou praticar esportes, em vez de atividades moderadas.

Mas as correlações entre atividade, criatividade e humor foram mínimas. As pessoas podiam andar com frequência e ser bastante criativas, mas não especialmente felizes, sugerindo que não era a melhora do humor que mais influenciava a criatividade. Era o movimento.

As descobertas apontam para “uma associação entre criatividade e atividade física na vida cotidiana”, diz Christian Rominger, professor de psicologia da Universidade de Graz e principal autor do estudo.

Mas o estudo foi associativo, o que significa que analisou um breve momento na vida das pessoas. Não envolveu um experimento aleatório e não pode nos dizer se ser mais ativo diretamente faz com que sejamos mais criativos, apenas que atividade e criatividade estão ligadas. Também não explica como os exercícios e outras atividades podem influenciar a criatividade, nem mostra se uma caminhada rápida agora nos ajuda a terminar melhor uma coluna de jornal ou algum outro empreendimento criativo depois. Mas os resultados indicam que a imaginação ativa começa com uma vida ativa. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

https://internacional.estadao.com.br/noticias/nytiw,exercicios-fisicos-podem-aumentar-a-criatividade,70003648823

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