Com tecnologia e agilidade, startups ajudam a estruturar o varejo digital

Em meio à pandemia, varejistas de diversos tamanhos buscam saídas para continuar operando mesmo com portas fechadas

 Por Giovanna Wolf e Guilherme Guerra – O Estado de S. Paulo 05/05/2021 

Com as portas das lojas fechadas, varejistas de diversos tamanho entraram em um beco sem saída: era necessária uma modernização rápida para estancar a perda de receita. Para dar conta do boom de estruturação digital, o varejo tradicional recorreu a startups especializadas, que atuam nos bastidores com tecnologia e agilidade em diferentes processos da compra online.

Uma das empresas que está sob o holofote desse movimento é a curitibana SmartHint. Fundada em 2017, a startup foi comprada no mês passado pelo Magazine Luiza, companhia que vem investindo pesadamente em digitalização – o valor da aquisição não foi revelado. 

Antes de ser plugada ao Magalu, a SmartHint já atendia mais de 1.000 clientes e viu suas ferramentas gerarem R$ 620 milhões em vendas em 2020. A startup usa inteligência artificial (IA) e análise de comportamento em um sistema de busca e recomendação de produtos. Na prática, o serviço garante que a jornada de cada consumidor no e-commerce seja personalizada, graças à ajuda de grandes volumes de dados: isso permite, por exemplo, que você procure por um tênis em um marketplace e a busca traga modelos semelhantes em cor e estilo. Se outro usuário fizer a mesma busca, os resultados serão diferentes por causa do histórico de comportamento de cada um na plataforma.

“A ferramenta faz o usuário encontrar o produto de forma mais rápida e receber indicações de outros similares. É quase uma consultora de vendas”, diz Rodrigo Schiavini, fundador e diretor de negócios da SmartHint, em entrevista ao Estadão

Fundada por Rodrigo Schiavini, a startup Smarthint ajuda a otimizar as buscas em sites de varejo

Fundada por Rodrigo Schiavini, a startup Smarthint ajuda a otimizar as buscas em sites de varejo

Schiavini explica que a empresa usa ferramentas prontas, como Google Cloud, para alimentar a inteligência e criar modelos comportamentais dos clientes. E, como as mudanças de hábitos dos indivíduos mudam rapidamente – mais rápido do que as engines prontas para uso –, a startup cria uma cópia da IA, cujo objetivo é aprender sozinha a acompanhar novas tendências. “O que fazemos é aprender com o banco de dados e usar isso a favor dos clientes”, explica Schiavini.

Foi pela importância de grandes volumes de informações que a entrada no Grupo Magalu, que conta com NetShoes e Época Cosméticos, beneficiou a SmartHint, que saiu de 16 milhões de produtos cadastrados na sua base para cerca de 42 milhões. Agora, além de ser provedora de tecnologia do Magalu, a startup conseguirá sofisticar seu serviço para terceiros.

“Desde a aquisição mantivemos a nossa vida normal como sempre foi, em estratégia ‘stand-alone’”, diz o fundador da startup. “A tecnologia que hoje fornecemos para o mercado é algo que tende a se transformar em commodity. Quem não tem tecnologia para se transformar vai ficar para trás”. 

Lojas virtuais

As startups de varejo, chamadas de “retailtechs”, bateram recorde de aportes no primeiro trimestre deste ano: foram US$ 437 milhões investidos, um total 650% superior ao movimentado no mesmo período de 2020, segundo a empresa de inovação Distrito. O valor também é 2.000% maior se comparado aos três primeiros meses de 2019. 

Para Pedro Carneiro, diretor da aceleradora ACE Startups, a capacidade das retailtechs de oferecer tecnologia com rapidez fez a diferença na pandemia. “Sentimos muito menos o baque da mudança para o varejo online por causa das startups. Elas foram os degraus para essa transição ser mais ágil e suave”, afirma. 

Rafael Forte, presidente executivo da Vtex, conta que a startup começou oferecendo plataforma para e-commerce e depois passou a oferecer soluções para marketplaces

Rafael Forte, presidente executivo da Vtex, conta que a startup começou oferecendo plataforma para e-commerce e depois passou a oferecer soluções para marketplaces

Alguns nomes têm se destacado já na primeira etapa da migração: a criação das lojas virtuais. Com esse serviço, a Vtex se tornou no ano passado a primeira startup brasileira a atingir o valor de mercado de US$ 1 bilhão em meio à pandemia.

A Vtex começou oferecendo uma plataforma para e-commerce, mas, aos poucos, foi evoluindo seu software para atender marketplaces, que lidam com vendedores de diferentes origens e centros de distribuição. Depois, passou a atuar também no gerenciamento de lojas físicas – tudo isso com a ideia de integrar os vários trabalhos do vendedor. 

“Somos um parceiro de tecnologia. Não faz sentido um varejo, que nasceu para vender produtos, ter de se preocupar com infraestrutura e desenvolvimento de catálogos e carrinhos digitais”, diz Rafael Forte, presidente executivo da Vtex.

A empresa atende principalmente grandes marcas, como Ambev, Coca-Cola e Nestlé. Por ser disponibilizado em API, o software da Vtex permite que as varejistas personalizem o sistema para atender suas necessidades próprias.

Um dos principais investimentos da Vtex tem sido na orquestração de cenários complexos envolvendo múltiplos vendedores, estoques, pedidos e pagamentos. “Outro foco nosso é a expansão da capacidade dos nossos algoritmos de busca e recomendação”, afirma Forte. 

Um nome forte nessa área é a Olist, que recentemente terminou de levantar uma rodada de investimento de R$ 454 milhões. Conhecida por ajudar lojas físicas a venderem em marketplaces como Mercado Livre e Amazon, a startup tem ampliado e sofisticado seus serviços. 

Ao todo, as três frentes da Olist têm hoje aproximadamente 320 mil clientes. E o plano da startup é ampliar ainda mais sua atuação: “Pautamos o serviço da Olist com base na dor do lojista, na dificuldade de ele operar e de crescer o negócio. E também há dor ao tomar um crédito e ao comprar o produto de um fornecedor, por exemplo”, diz Tiago Dalvi, fundador e presidente executivo da startup. 

O caminho é mesmo aumentar o leque de serviços, explica Carneiro, da ACE Startups. “Do mesmo jeito que passamos várias décadas construindo o varejo em pontos físicos e em distribuição, está na hora agora de construir toda a infraestrutura do varejo digital”, diz. 

Tiago Dalvi, fundador e presidente da Olist, diz que startup tem 320 mil clientes

Tiago Dalvi, fundador e presidente da Olist, diz que startup tem 320 mil clientes

Novatos na área

Com as várias oportunidades, a tendência é o surgimento de mais retailtechs. “A competitividade vai aumentar. Os desafios das retailtechs que já estão atuando hoje no mercado são principalmente de jogo de velocidade: como continuar crescendo para se manter à frente dos concorrentes que devem surgir”, diz Maria Fernanda Musa, diretora de aceleração de negócios da Endeavor – a organização, inclusive, está acelerando startups de varejo em parceria com GPA, MadeiraMadeira e Arezzo&Co. 

Na semana passada, a empresa Merama, com apenas cinco meses de operação, fez barulho ao levantar US$ 160 milhões. Criada com um pé no Brasil e outro no México, a startup atua investindo em pequenas e médias marcas que vendem seus produtos em marketplaces – é um modelo inspirado em empresas americanas como Thrasio e Perch, que ajudam a consolidar vendedores terceiros na Amazon.

Além da injeção de capital, a Merama ajuda a marca a gerenciar seus produtos em diferentes plataformas digitais e também a internacionalizar as vendas. A startup faz isso tanto na parte operacional e tecnológica quanto na parte estratégica. 

“Nascemos para atuar em um mercado que está em franco crescimento”, disse Renato Andrade, um dos fundadores da Merama, ao Estadão. “A pandemia acelerou bastante o e-commerce, mas vários pequenos empreendedores ainda viam sua marca estagnada”. 

https://link.estadao.com.br/noticias/inovacao,com-tecnologia-e-agilidade-startups-ajudam-a-estruturar-o-varejo-digital,70003704094

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Ataques cibernéticos: EUA pressionam empresas e adversários estrangeiros

O maior frigorífico e o maior oleoduto do mundo foram alvos de ataques em solo americano

Por Reuters Exame 06/06/2021 

Autoridades dos EUA aumentaram neste domingo a pressão sobre empresas e adversários estrangeiros para combater cibercriminosos e disseram que o presidente Joe Biden está considerando todas as opções, incluindo uma resposta militar, para conter a ameaça crescente.

O governo Biden está procurando “todas as opções” para defender o país contra criminosos de ransomware, disse a secretária de Comércio dos EUA, Gina Raimondo, em uma entrevista neste domingo, quando questionada se uma ação militar estava sendo considerada.

Raimondo não detalhou como essas opções podem parecer, mas disse que o assunto estará na agenda quando o presidente se reunir com o presidente russo, Vladimir Putin, neste mês. A crescente ameaça de ataques cibernéticos levou o governo Biden a uma postura mais agressiva contra a Rússia, que se acredita estar abrigando alguns dos criminosos.

“Não estamos retirando nada da mesa ao pensarmos em possíveis repercussões, consequências ou retaliações”, disse Raimondo.

Centro de Combate aos Crimes Cibernéticos

Crimes cibernéticos: implicações e consequências no mundo físico já ficaram claras (Centro de Combate aos Crimes Cibernéticos/Divulgação)

No último fim de semana, o maior frigorífico do mundo, a JBS, foi alvo de cibercriminosos e, em maio, o maior oleoduto de combustível dos Estados Unidos foi atacado, alimentando temores sobre interrupções no fornecimento de alimentos e combustível.

Os adversários dos EUA têm a capacidade de desligar toda a rede elétrica do país, disse a secretária de Energia Jennifer Granholm separadamente em uma entrevista à CNN, observando “milhares de ataques em todos os aspectos do setor de energia”.

Os recentes ataques de alto perfil levaram Biden a colocar a questão da Rússia em abrigar hackers na agenda de seu encontro com Putin.

A Casa Branca planeja usar a cúpula de 16 de junho para entregar uma mensagem clara ao líder russo, dizem as autoridades. Um próximo passo pode ser a desestabilização dos servidores usados para realizar tais hackers, dizem alguns especialistas em cibernética.

As autoridades americanas estão pedindo às empresas privadas que sejam mais vigilantes e transparentes sobre os ataques. O secretário de Transportes, Pete Buttigieg, disse neste domingo que o ataque de maio ao Colonial Pipeline, que criou uma escassez temporária de gasolina, mostrou as implicações nacionais de um hacker em uma empresa privada.

https://exame.com/mundo/ataques-ciberneticos-eua-pressionam-empresas-e-adversarios-estrangeiros/

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Caos logístico da pandemia expõe os riscos do modelo global de estoques enxutos

Falta de insumos causada por interrupções na produção põe em xeque sistema just in time combinado às cadeias de suprimento internacionais

Peter S. Goodman/Niraj Chokshi THE NEW YORK TIMES/Folha 4.jun.2021 

Na história de como o mundo moderno foi construído, a Toyota se destaca como pioneira de um avanço monumental na eficiência industrial. A montadora japonesa foi a primeira a adotar o método de produção “just in time”, sob o qual componentes são entregues no momento em que se tornam necessários, o que minimiza a necessidade de tê-los em estoque.

Nas últimas cinco décadas, essa abordagem cativou empresas de todo o mundo em setores que vão bem além do automobilístico. Da moda ao processamento de alimentos, passando por produtos farmacêuticos, companhias adotaram o “just in time” para se manterem ágeis, o que permite que se adaptem às demandas mutáveis do mercado e minimizem seus custos.

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Mas os eventos dos últimos 12 meses puseram em questão os méritos de reduzir os estoques ao mínimo e redespertaram a preocupação de que alguns setores talvez tenham muito ido longe, o que os deixa vulneráveis.

Prateleiras vazias em uma loja Target, em Dallas – Nitashia Johnson – 25.jun.2020/The New York Times

À medida que a pandemia prejudicava as operações fabris e semeava o caos nos transportes, muitas economias começaram a sofrer escassez de ampla variedade de bens —de eletrônicos a roupas.

Em um momento de extrema desordem na economia mundial, o “just in time” estava atrasado.

“É uma cadeia de suprimento caída em desordem”, disse Willy Shih, especialista em comércio internacional na Escola de Administração de Empresas de Harvard. “Em uma corrida para chegar ao menor custo, os riscos terminaram concentrados.”

A manifestação mais proeminente dessa dependência excessiva quanto aos métodos “just in time” surgiu exatamente no setor em que eles foram inventados: montadoras se viram paralisadas por uma escassez de chips —componentes vitais para os automóveis, produzidos principalmente na Ásia. Sem chips suficientes à disposição, fábricas de automóveis da Índia aos EUA e ao Brasil se viram forçadas a suspender a operação de suas linhas de montagem.

Mas a amplitude e a persistência da escassez revelam até que ponto o conceito de “just in time” veio a dominar a vida comercial. Isso ajuda a explicar por que a Nike e outras marcas de produtos de vestuário enfrentam dificuldades para manter o varejo abastecido. É um dos motivos para que construtoras estejam encontrando dificuldades para adquirir tintas e produtos de vedação. E foi um dos principais fatores para a trágica escassez de equipamento pessoal de proteção, no começo da pandemia, que deixou os trabalhadores médicos de linha de frente desprovidos dos recursos necessários.

O “just in time” representou uma verdadeira revolução no mundo dos negócios. Ao manterem os estoques em um mínimo, grandes varejistas puderam usar porção maior do espaço em suas lojas para exibir produtos. O “just in time” também permitiu que fabricantes personalizassem seus produtos. E as técnicas enxutas de produção reduziram significativamente os custos e permitiram que as empresas realizassem transições rápidas para a produção de novos modelos.

Mas a escassez desperta questões sobre a possibilidade de que algumas empresas tenham sido agressivas demais na busca de economias por meio do corte de estoques, o que pode tê-las deixado despreparadas para os momentos em que problemas inevitavelmente surgem.

CAOS NOS MARES

A escassez de diversos produtos na economia mundial deriva de fatores que vão além dos estoques magros. A expansão da Covid-19 tirou do trabalho estivadores e caminhoneiros, impedindo a descarga e a distribuição de bens feitos em fábricas da Ásia e despachados de navio para a América do Norte e a Europa.

A pandemia desacelerou as operações das serrarias, causando uma escassez de madeira que retardou a construção de casas nos Estados Unidos.

Tempestades de inverno que causaram o fechamento de fábricas de petroquímicos no golfo do México resultaram na falta de produtos essenciais.

Algumas companhias sofreram exposição especialmente forte a forças como essas, porque já estavam no limite quando a crise começou.

E muitas empresas combinaram o emprego de técnicas “just in time” à dependência de fornecedores em países de custo salarial baixo, como a China e a Índia, o que torna qualquer perturbação no transporte marítimo mundial um problema.

Isso amplifica os danos causados quando dificuldades ocasionais aparecem —como quando um navio cargueiro encalhou no canal de Suez, fechando a principal via de transporte entre a Ásia e a Europa.

‘O EFEITO CASCATA AFETA TUDO’

Em Conshohocken, Pensilvânia, Andrew Romano está literalmente esperando o navio chegar. Ele é vice-presidente de vendas da Van Horn, Metz & Co., que adquire produtos químicos de fornecedores de todo o mundo e os revende a fábricas que produzem tinta, corantes e outros produtos.

Em períodos normais, a companhia registra atrasos no atendimento de 1% dos pedidos de seus clientes. Mas, em uma manhã recente, ela teve de deixar 10% dos pedidos que tinha em carteira sem resposta porque estava aguardando a chegada de suprimentos.

A companhia não conseguiu obter volume suficiente de uma resina especializada que vende a grupos industriais que fabricam materiais de construção. O fornecedor americano da resina não recebeu um elemento essencial para a produção, que adquire de uma fábrica de produtos petroquímicos na China.

“É um efeito cascata que afeta tudo”, disse Romano. “Uma completa bagunça.”

Não era necessária uma pandemia para revelar os riscos da combinação entre os métodos “just in time” e as cadeias de suprimento internacionais. Especialistas vêm alertando sobre eles há décadas.

Em 1999, um terremoto abalou Taiwan, paralisando a fabricação de chips. O terremoto e o tsunami que devastaram o Japão em 2011 fecharam fábricas e impediram a partida de navios, gerando escassez de autopeças e chips. Inundações na Tailândia, naquele ano, dizimaram a produção de discos rígidos.

Cada um desses desastres gerou discussões sobre a necessidade de as companhias ampliarem os estoques e diversificarem os fornecedores.

E as multinacionais continuaram a fazer tudo igual.

Os mesmos consultores que promoveram as virtudes dos estoques enxutos agora falam sobre a necessidade de ter cadeias de suprimento resilientes —a nova palavra de ordem.

Expandir armazéns pode não bastar como solução, disse Richard Lebovitz, presidente da consultoria LeanDNA. As linhas de produtos são cada vez mais personalizadas. “Prever que estoque deve ser mantido está se tornado uma tarefa cada vez mais difícil.”

Em última análise, as empresas devem manter e ampliar sua dependência dos métodos de produção enxutos pelo simples motivo de que eles geram lucros.

“A questão é se vamos deixar de caçar o custo baixo como único critério de julgamento nos negócios”, disse Shih, de Harvard. “É algo que vejo com ceticismo. O consumidor não quer pagar por resiliência quando não está em crise.”

Tradução de Paulo Migliacci

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/06/caos-logistico-da-pandemia-expoe-os-riscos-do-modelo-global-de-estoques-enxutos.shtml?origin=folha

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Primeiro navio autônomo está prestes a navegar

Por João Lara Mesquita Estadão 5 de maio de 2021 

O Mayflower 400, o primeiro navio autônomo do mundo, está prestes a iniciar uma travessia do oceano Atlântico. Ele recebeu o nome em homenagem ao navio que levou os primeiros peregrinos da Inglaterra no navio Mayflower em busca de uma nova vida na América. Só que, em vez de tripulação, o navio tem inteligência artificial a bordo.

Primeiro navio autônomo está prestes a navegar

O barco deve sair de Playmouth, na Inglaterra, em 15 de maio, cruzando o Atlântico em direção à cidade de mesmo nome em Massachusetts, nos Estados Unidos. A travessia era para acontecer em setembro de 2020, mas foi adiada devido à pandemia.

O Mayflower 400 é um projeto desenvolvido pela organização marinha ProMare, estabelecida em 2001 para promover a pesquisa e exploração marinha em todo o mundo.

Imagem do primeiro navio autônomo do mundoImagem, https://www.bangkokpost.com/.

O navio usa inteligência artificial e energia do sol para atravessar o oceano de forma limpa e independente, reunindo dados vitais para expandir nossa compreensão dos fatores que influenciam a saúde dos oceanos.

O projeto foi bolado para acontecer durante a Década dos Oceanos, da ONU. A Organização das Nações Unidas sabendo da situação crítica dos oceanos, e sua importância para o mundo,  declarou 2021 até 2030 a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, ou popularmente denominada “Década dos Oceanos”.

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De acordo com o site do projeto, ‘no futuro, as redes de embarcações de pesquisas autônomas, drones e submersíveis poderão passar meses no mar, permitindo aos oceanógrafos mais tempo para a interpretação dos dados, em vez da coleta de dados’.

A importância de mais dados sobre os oceanos

A ProMare, assim como a ONU, e dezenas de instituições, ONGs, e mesmo governos, sabe que até hoje há enormes lacunas na exploração oceânica.

A atividade é extremamente cara, e jamais recebeu um décimo dos valores que a exploração espacial recebeu em razão da disputa entre Estados Unidos e União Soviética nos anos da Guerra Fria.

É por isso que hoje a humanidade conhece mais o espaço sideral que os oceanos. Para se ter uma ideia da disparidade, dados recentes (2013) mostram que nos EUA, um dos países que mais investe em ciência, enquanto a exploração oceânica foi contemplada com US$ 23.7 milhões, a exploração do espaço sideral recebeu US$ 3.8 bilhões.

Imagem do navio autônomo navegandoImagem ProMare.

Para suprir esta demanda reprimida muita gente importante participa. Desde bilionários como Paul Allen, co-fundador da Microsoft, que patrocina um projeto para mapear os corais do mundo, até fundações como a Nippon do Japão, que com seu projeto Seabed 2030 pretende mapear o fundo dos oceanos até 2030.

É neste contexto que surgiu a ideia do ProMare. Em outras palavras, todos precisam fazer suas partes.

Os problemas dos oceanos na visão do ProMare

De acordo com um relatório especial do painel intergovernamental da ONU sobre mudança climática, nosso oceano está mais quente, mais poluído, mais esgotado e mais imprevisível do que nunca.

Todos os anos, cerca de 8 milhões de toneladas métricas de plástico chegam ao oceano, infiltrando-se nas cadeias alimentares e ameaçando a vida marinha.

E ao absorver o excesso de dióxido de carbono (CO2) criado pela atividade humana, o oceano está ficando cada vez mais ácido, impactando o desenvolvimento biológico de algumas espécies e destruindo habitats importantes, como recifes de coral.

Conheça o navio autônomo

Atendendo ao chamado da ONU, a IBM está apoiando a organização de pesquisa  ProMare para fornecer as tecnologias para o Mayflower Autonomous Ship (MAS).

imagem de navio autônomo no marImagem, ProMare.

Este novo navio representa não apenas o futuro da exploração marinha, mas uma mudança radical em nossa abordagem geral da pesquisa oceanográfica.

Usando um novo ‘Capitão de Inteligência Artificial’, construído pelos engenheiros da ProMare combinando IA da IBM, automação e tecnologias de ponta, o navio pode identificar e evitar perigos enquanto navega sozinho no mar.

Os pesquisadores da IBM e da ProMare também são pioneiros em novas abordagens baseadas em IA para a coleta e análise in-situ de amostras e dados do oceano para entender melhor tudo, desde a qualidade da água até o que o canto das baleias pode nos dizer sobre as populações de mamíferos marinhos.

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O navio promete avançar a ciência oceânica de várias maneiras. Mais importante ainda, ele atende a várias prioridades da Década da Ciência Oceânica, sendo pioneira em uma plataforma flexível e econômica, capaz de aumentar exponencialmente o volume e a consistência dos dados coletados e disponibilizados aos pesquisadores.

Apesar do porte do Mayflower 400 não ser dos maiores, já há empresas desenvolvendo um navio autônomo porta-contêineres bem maior que deve operar a partir de 2022. Aparentemente, este é o futuro da navegação.

Assista ao vídeo e saiba mais

Imagem de abertura: ProMare

Fontes: https://www.bangkokpost.com/world/2108431/first-autonomous-ship-prepares-for-maiden-ocean-voyage#:~:text=The%20Mayflower%20400%20autonomous%20trimaran%20during%20sea%20trials%20in%20Plymouth%20this%20week; https://renovamidia.com.br/primeiro-navio-autonomo-do-planeta-vai-cruzar-os-oceanos/; https://www.weforum.org/agenda/2021/03/this-ship-has-no-crew-and-it-will-transform-our-understanding-of-the-ocean-heres-how/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:+inside-the-world-economic-forum+(Inside+The+World+Economic+Forum).

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O futuro do trabalho: Experiência do Funcionário é o novo Customer Experience

No mundo ‘trabalhe em qualquer lugar’, os líderes de negócios devem se tornar mais atenciosos sobre a experiência do funcionário

Brian Solis CIO 26/10/2020 

 Antes que a pandemia destruísse a forma como trabalhamos, apoiar os funcionários consistia principalmente em fornecer um espaço de escritório moderno, oportunidades de desenvolvimento profissional, tecnologia móvel e plataformas colaborativas e talvez uma mesa de pingue-pongue e lanchinhos. Na maior parte, os empregadores não precisavam se preocupar muito com o que acontecia depois que os trabalhadores voltavam para casa. Isso ficou no passado, no entanto.

Após a Covid-19, as empresas tiveram que reimaginar todos os aspectos das operações, incluindo como o trabalho é feito e onde. A maioria de nós teve que aprender a trabalhar em qualquer lugar em qualquer dispositivo, e as empresas tiveram que descobrir como manter seus funcionários produtivos e as empresas seguras e resilientes em um ambiente desafiador. Mesmo que a pandemia finalmente avance para sua próxima fase, o negócio não será como antigamente. As empresas devem encontrar maneiras novas e duradouras de apoiar seus funcionários em um mundo totalmente digital, indo muito além do que faziam antes.

As empresas devem apoiar os funcionários onde quer que estejam

Quando a pandemia atingiu no início de 2020, a maioria das empresas teve que lutar para apoiar o trabalho remoto da noite para o dia em grande escala. Com o tempo, ficou claro que o acordo provavelmente não seria temporário – o mundo do trabalho em qualquer lugar felizmente veio para ficar. Em uma pesquisa global com mais de 20.000 pessoas em todo o mundo, a Salesforce descobriu que 60% dos entrevistados esperam que o trabalho remoto se torne a norma, e quase dois terços acreditam que as empresas serão mais flexíveis quanto ao horário de trabalho no futuro. É importante entender que antes da Covid, ou “BC” (Before Covid) como eu o chamo, a ideia de WFH (Work From Home) não era bem aceita. Houve problemas de confiança. A TI sentiu que a expectativa dos funcionários modernos significava que eles estavam “mimados”.

Enquanto a aceleração do teletrabalho surgiu por necessidade, muitos funcionários e empresas descobriram que trabalhar de qualquer lugar tem seus benefícios. Os empregadores muitas vezes descobrem que podem economizar custos enquanto os trabalhadores são igualmente produtivos e, muitas vezes, mais satisfeitos. E eu entendo, e vamos todos apreciar, que a produtividade pode ser a métrica errada. Mas, as pessoas não estão apenas fazendo mais trabalho, elas estão fazendo um trabalho melhor e se sentindo satisfeitas no processo por muitos motivos.

Por exemplo, a pesquisa da Salesforce descobriu que 62% das pessoas acreditam que o trabalho remoto as capacita a morar onde quiserem. Outros não estão dispostos a abrir mão da flexibilidade que garantiram para conciliar o trabalho com outras responsabilidades. Ao mesmo tempo, mais da metade dos entrevistados relataram que não trabalham exclusivamente de forma remota e três quartos dizem que o trabalho remoto está disponível apenas para alguns poucos selecionados. As empresas precisam inovar com urgência para apoiar o novo padrão de WFA (Work From Anywhere), no qual o trabalho ocorre em uma variedade de configurações e muitas vezes fora de um local.

Foto: Adobe Stock

Rumo a um modelo centrado no funcionário

No mundo do trabalho em qualquer lugar (WFA), as empresas estão tendo que se preocupar mais com a experiência do funcionário (EX). Até agora, muitos consideravam a cultura corporativa algo natural, não algo para ser elaborado com intenção. Assim como as empresas projetam a experiência do usuário e a experiência do cliente, elas agora têm a oportunidade de remodelar a experiência do funcionário de uma forma que impulsione o engajamento, a produtividade e a satisfação. Isso começa com uma mudança de mentalidade que coloca os funcionários em primeiro lugar e envolve a implantação de tecnologia e a reestruturação dos processos de negócios para priorizar o bem-estar físico e mental dos funcionários.

Aqui estão algumas medidas concretas que as empresas podem tomar para apoiar sua força de trabalho hoje:

Reestruture para flexibilidade

Muitos funcionários já queriam maior liberdade para desenvolver o trabalho em torno de outros compromissos. Agora, a necessidade de flexibilidade é mais urgente do que nunca, já que os funcionários cuidam de dependentes ou supervisionam o aprendizado à distância de crianças. Os empregadores precisam repensar as estruturas existentes para torná-las mais flexíveis. Por exemplo, algumas reuniões podem ser eliminadas ou remarcadas? Os trabalhadores podem ter mais liberdade para realizar as tarefas em horários que funcionam para eles?

Confie nos dados

A maioria das empresas emprega métodos sofisticados para avaliar como seus clientes estão se sentindo, mas poucas fazem o mesmo pelos funcionários. Historicamente, a coisa mais próxima eram pesquisas pontuais sobre satisfação. As empresas devem implementar processos e ferramentas para rastrear a experiência dos funcionários ao longo do tempo. Isso pode incluir check-ins regulares de gerentes, mini pesquisas frequentes ou tecnologia que mede o sentimento em tempo real. Assim como no design de experiência do usuário, as organizações podem avaliar como os funcionários estão interagindo com os ambientes de trabalho digital para tornar as ferramentas mais intuitivas, conectadas e eficientes. Ter os dados em mãos e acompanhá-los ao longo do tempo pode dar aos empregadores uma noção de como eles estão se saindo no que se refere a melhorar a experiência dos funcionários.

Empregue tecnologia que mantenha os trabalhadores seguros

Os trabalhadores estão justamente preocupados com os riscos de voltar ao escritório. A segurança no local de trabalho foi a principal preocupação do grupo global Salesforce pesquisado, com 79% dizendo que ela deveria ser uma alta prioridade para as empresas e 72% dizendo que a tecnologia deveria desempenhar um papel importante neste esforço. Isso começa com as divisões de acrílico, verificações de temperatura e estações de desinfecção que vemos hoje. Mas a tecnologia pode desempenhar funções que ainda não exploramos: monitorar o distanciamento físico em tempo real com visão computacional, orientar o fluxo de tráfego pelo escritório ou usar análises preditivas para TK.

Invista no bem-estar mental dos funcionários

Na pesquisa, os entrevistados apontaram a saúde mental dos funcionários como a segunda prioridade mais importante para as empresas, depois da segurança no trabalho. Enquanto trabalham em casa, os funcionários passam ainda mais tempo em suas telas, não apenas em seus empregos, mas também em suas vidas pessoais. A divisão entre horas de trabalho e tempo pessoal diminuiu ainda mais. O ambiente sempre conectado pode aumentar os níveis de estresse dos trabalhadores e reduzir sua capacidade de concentração. As empresas podem verificar o pulso da saúde mental dos funcionários, reunindo dados sobre como os funcionários estão se sentindo. Em seguida, eles podem tomar medidas para centrar proativamente o bem-estar dos funcionários, talvez reconsiderando a frequência das reuniões virtuais, permitindo o envolvimento assíncrono, sinalizando que não há problema em ignorar e-mails fora do dia de trabalho ou introduzir dias de autocuidado.

Equipar os trabalhadores com as ferramentas e habilidades necessárias para o sucesso

A mudança repentina para um mundo totalmente digital deixou muitos trabalhadores despreparados. De acordo com a pesquisa da Salesforce, mais de um terço dos trabalhadores dizem que não têm a tecnologia de que precisam para serem eficazes enquanto trabalham remotamente, e a maioria diz que não têm habilidades exigidas. Além disso, 65% dizem que o desenvolvimento da força de trabalho deve ser uma alta prioridade para as empresas e 70% dizem que a tecnologia deve desempenhar um papel importante nesse esforço. Os funcionários precisam não apenas se aprimorar nas habilidades técnicas que são críticas hoje, mas também nas habilidades sociais que estão assumindo uma nova importância, como empatia, adaptabilidade e colaboração. As empresas podem implantar tecnologia para avaliar os trabalhadores em seus níveis de habilidade atuais e atender à demanda por ajudá-los a cultivar esses recursos remotamente.

O futuro do trabalho está aqui

Muitos dos processos, ferramentas e métricas que as empresas usam hoje foram projetados para construções anteriores. No entanto, o futuro do trabalho não está apenas aqui, mas também evoluindo em tempo real. Esta é uma oportunidade de criar novos padrões de excelência operacional e felicidade, capacitação e bem-estar dos funcionários – aqueles que colocam os funcionários na frente e no centro.

As empresas que pensam proativamente sobre as experiências de seus funcionários e a cultura corporativa sempre se beneficiarão com funcionários mais engajados, produtivos e leais. No local de trabalho da WFA, priorizar a experiência do funcionário se tornou um imperativo. Em última análise, levar a sério o bem-estar dos funcionários e prepará-los para o sucesso pode impulsionar a inovação (e o ânimo) que faz as empresas prosperarem.

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15 bilhões de razões para sua marca priorizar o marketing de influenciadores

Protagonista de um mercado que deve alcançar aproximadamente 15 bilhões de dólares até 2022, o digital influencer não é o herói e nem o vilão da nova publicidade. A evolução da maturidade estratégica do mercado é o único meio de desmistificar a figura do creator e aproveitar todo o potencial da disciplina na construção de marcas e nas vendas.

by Marcelo Tripoli MIT Technology Review Junho 1, 2021

O contexto ultra conectado do mundo digital, o smartphone como praticamente uma extensão do corpo humano e a produção de conteúdo descentralizada elevaram o mercado da influência à enésima potência. Ou alguém imaginaria, antes das redes sociais, que um garoto do interior do Piauí, fazendo vídeos de paródias e piadas, sem camisa, com apenas uma câmera, um computador e nenhuma produção se tornaria um dos mais poderosos influenciadores do mundo? Esse é o caso de Whindersson Nunes, hoje uma celebridade que coleciona impressionantes 42,4 milhões de inscritos em seu canal no Youtube.

Fenômenos de influência similares ao do humorista brasileiro têm surgido com uma velocidade cada vez mais alucinante e em uma variedade maior de plataformas. Um exemplo é Charli D’Amelio, de apenas 17 anos. Ela foi a primeira influenciadora a ultrapassar 100 milhões de seguidores no TikTok e agora já conta com 115 milhões. O TikTok foi criado em 2018, a conta de Charli em maio de 2019 e a marca recorde foi atingida em novembro de 2020. Tudo muito rápido.

Há dois anos a influenciadora era apenas uma garota americana, anônima, e hoje tem mais de uma centena de milhões de pessoas acompanhando seus passos, capazes de mover consumo e comportamento. E tudo isso gravado por meio de um smartphone, o mesmo gadget que você carrega em seu bolso diariamente. Não à toa, em fevereiro do ano passado, a Prada convidou Charli para a primeira fila de seu badalado e concorrido desfile de outono/ inverno.

Ecossistema da influência

Segundo um estudo do eMarketer, 50 milhões de pessoas ao redor do mundo se consideram creators. Nesta eclosão do segmento, surgem vários tipos de influenciadores e definições distintas. Os perfis vão desde os nano influenciadores, que atingem um número limitado de pessoas, geralmente com conteúdo original, específico e que proporciona alto nível de engajamento, até os mega influenciadores, que conversam com milhões de seguidores, tendo uma base bastante diversa e abrangente, mas com tendência de menor percentual de engajamento pela elasticidade de alcance e proposta de conteúdo.

Curioso notar que o hype sobre a figura do influenciador alcançou proporções tão grandes que seu lifestyle ganhou espaço nas tramas de ficção no Brasil e no mundo, desde a construção de personagens como Vivi Guedes, protagonizada por Paola Oliveira na novela “Dona do Pedaço”, na TV Globo, em 2019, até Emily Cooper, protagonista da série “Emily em Paris”, na Netflix.

No mundo real, para além dos estereótipos da teledramaturgia e do universo das séries, a figura do influenciador passou a utilizar sua capacidade criativa e alto potencial de reverberação para atrair marcas e desenvolver um ecossistema hoje chamado marketing de influência. Esse novo mundo envolve creators, agências, consultorias, produtoras, plataformas e players das mais diversificadas atuações, formando um segmento que deve movimentar 15 bilhões de dólares até 2022, de acordo com o Business Insider.

O poder dos creators

Tais perspectivas são construídas principalmente sobre a relevância e escala que o marketing de influência tem ganhado na estratégia das marcas. Segundo o estudo já mencionado do eMarketer, mais de dois terços dos profissionais de marketing nos EUA usarão influenciadores em suas campanhas até o final 2021. Mais do que isso, a expectativa desses CMOs é dedicar pelo menos 20% de seu orçamento de publicidade digital para estratégias que envolvam marketing de influência nos próximos meses.

Para quem ainda tem dúvidas sobre a força dos digital influencers para alavancar vendas, uma pesquisa do Instituto QualiBest, em parceria com a Spark, mostra que 76% dos internautas brasileiros já compraram ou consumiram produtos ou serviços após a indicação de influenciadores digitais. Eles também estão no segundo lugar no quesito credibilidade de recomendação de marcas, perdendo apenas para amigos e parentes.

Além disso, na era do conteúdo on demand, onde o consumidor pode escolher o que ver ou ouvir quando, como e onde quiser, inclusive pulando propagandas se preferir, um placement ou collab com influenciador conta com vários assets interessantes para uma estratégia de marketing.

A estratégia é a base

Além do potencial de engajamento, há no marketing de influência o endosso de uma figura que já tem audiência cativa. Tanto é verdade que alguns influenciadores se tornam marcas próprias poderosas, como Kylie Jenner, uma das irmãs Kardashians. A empresária transformou sua influência em uma série de produtos, incluindo a linha Kylie Cosmetics, cujo controle foi vendido para o grupo Coty ao final de 2019, por uma bagatela de US$ 600 milhões de dólares.

Apesar de números tão expressivos, e todo o potencial do influencer marketing, vale um alerta importante: não dá para enxergar o influenciador, em si, como mídia, este é um dos erros mais comuns cometidos pelas marcas. Para gerar resultados assertivos, há uma série de recomendações estratégias básicas, que são o ponto de partida para um trabalho sólido, mas não a receita do bolo pronto (essa não existe no marketing). Vamos ver algumas delas?

Não tratar influenciador como banner

Em uma campanha convencional, o anunciante coloca sua mensagem, filme ou peça num slot específico. Até aí tudo certo. No entanto, quando o assunto é marketing de influência, a mensagem ganhará voz na boca ou no texto do influenciador, que tem narrativa e estética própria para se comunicar com seu público. Sendo assim, faz pouco sentido criar um roteiro para ele apenas repita um script determinado, como se fosse um garoto propaganda pasteurizado. Lembre-se que ele não é um banner ou uma mídia, mas acima de tudo um creator, que conhece como ninguém as dinâmicas de comunicação com sua audiência. Não desperdice a oportunidade de cocriar e aprender novas dinâmicas criativas com o influenciador. Cuidado para não criar uma comunicação intromissiva, desinteressante e fora de contexto para aqueles seguidores.

Entender o fit entre marca e influencer

Além de entender que o influenciador é uma figura criativa e particular, cujo maior asset é a sua habilidade genuína de engajar o público, as marcas precisam compreender que esse processo de cocriação demanda sinergia e autenticidade. Para que esse casamento seja bem-sucedido, é essencial que o creator entenda, se envolva e até vivencie o universo que permeia a marca e até que use, de fato, o produto ou serviço. Uma influenciadora que não bebe cerveja não pode endossar a Heineken, assim como um vegano não pode ser protagonista da comunicação de Fogo de Chão. Quando a marca escolhe o influenciador com base nos territórios que ele domina, mas também com o auxílio de estudos e ferramentas para encontrar o nome certo para cada propósito, o processo tende a ser mais certeiro.

Criar formas de mensuração assertivas

Não se esqueça que a escolha do influenciador deve ser diretamente balizada pelos objetivos de negócio e comunicação da marca. Depois disso, é preciso traçar uma estratégia que inclui canais, o tom da campanha e os KPIs para medir o resultado das ações. Nessa definição de métricas, é primordial entender em qual etapa do funil está o seu produto ou serviço. No topo do funil, que é a fase de aprendizado, descoberta ou reconhecimento, por exemplo, talvez faça mais sentido usar um mega influenciador, para alcançar uma audiência maior. No meio do funil, fase de consideração e recomendação, provavelmente o melhor influenciador seja aquele nichado, especializado no assunto e com maior credibilidade. No fundo do funil, influenciando a decisão de compra, geralmente a estratégia mais recomendada é a utilização de um microinfluenciador, que tem bons níveis de alcance e engajamento. Além disso, um bom trabalho pode encurtar esta jornada já que o creator pode apresentar seu produto e ao mesmo tempo sugerir a compra. Por isso é fundamental a utilização de metodologias de mensuração com atribuição e uso de códigos e links parametrizados, por exemplo.

Abraçar relações orgânicas e de longo prazo

Entendendo os influenciadores como pessoas reais, que buscam em muitos casos a espontaneidade e compartilham com o público suas experiências, opiniões e preferências, não é incomum que produtos e serviços muitas vezes estejam inseridos organicamente no contexto e nas histórias desses creators. Pode ser interessante para a marca iniciar um relacionamento a partir daí. Vale lembrar que a maior parte dos cases acontece quando essa relação se consolida no longo prazo. Um exemplo recente está na collab “Rexona by Anitta”. Monitorando conversas das redes sociais, a marca se deparou com um tuíte da cantora. Nela, Anitta pedia para ser garota-propaganda da marca para poder oferecer desodorantes para algumas pessoas no Carnaval, sem parecer indelicada. Foi então que Rexona criou uma linha personalizada de antitranspirantes e enviou para a casa de Anitta, gerando o compartilhamento gratuito e alguns milhões de reais em mídia espontânea. A partir daí a relação evoluiu naturalmente para a linha oficial Rexona by Anitta, até hoje nas gôndolas de todo o País.

Por esses e tantos outros detalhes estratégicos que poderiam ser colocados aqui, mas que estourariam os limites de caracteres do site, fecho esse texto com uma mensagem simples: apesar de todo o seu potencial como embaixador de marcas e mensagens, o influenciador não pode ser trabalhado de forma oportunística. No marketing de influência, a estratégia é a alma do negócio.


Este artigo foi produzido por Marcelo Tripoli, palestrante, CEO e Fundador da Zmes Marketing, Autor do livro Marketing Significativo e colunista da MIT Technology Review Brasil

https://mittechreview.com.br/15-bilhoes-de-razoes-para-sua-marca-priorizar-o-marketing-de-influenciadores/

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Embraer anuncia pedido de 200 ‘carros voadores’

Projeto do veículo ainda não está concluído, mas entregas devem ocorrer a partir de 2026

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo 01 de junho de 2021 

Antes mesmo de ter seu projeto do “carro voador” completamente desenvolvido, a Embraer anunciou, nesta terça-feira, 1.º, que recebeu uma encomenda para entregar 200 unidades do veículo elétrico de pouso e decolagem vertical (ou eVtol, na sigla em inglês e como é chamado o “carro voador” no mercado aéreo). O anúncio fez as ações da empresa subirem 6% nesta manhã.

A encomenda – cujas entregas devem começar em 2026 – faz parte de uma parceria da Embraer com a Halo, empresa que fornece serviços de helicópteros e mobilidade aérea urbana privada nos Estados Unidos e no Reino Unido. Do lado da Embraer, o negócio foi fechado pela Eve (braço da companhia brasileira criado para desenvolver o “carro voador”).

O acordo prevê também o desenvolvimento conjunto de um sistema de gestão de tráfego aéreo urbano e de operação de frotas. A ideia é que a parceria aumente a acessibilidade dos eVtols, dado que as empresas poderão escalar as operações do veículo.

“Esta parceria é um passo importante para a Eve assumir sua posição como líder global na indústria de mobilidade aérea urbana”, afirmou, em nota, o presidente da companhia,  Andre Stein. “Estamos confiantes de que este relacionamento mutuamente benéfico terá um impacto positivo para muitos usuários futuros e permitirá que ambas as empresas cresçam seus negócios de forma exponencial”, acrescentou.

Carro voador da EmbraerModelo de eVTOL apresentado pela Embraer em 2019 Foto: Embraer/Divulgação

Também em nota, Kenneth C. Ricci, diretor da Halo, afirmou acreditar que a “Eve está projetando uma aeronave que está bem preparada para a certificação inicial e, além disso, (a Embraer) apresenta um histórico comprovado de produção.”

Paralelamente, a Embraer trabalha no desenvolvimento de seu eVtol em uma parceria com o Uber, que pretende realizar voos comerciais a partir de 2023. Esse prazo, no entanto, é considerado apertado por participantes do mercado.

Em todo o mundo, pelo menos 140 projetos de eVtol estão sendo desenvolvidos. O setor aposta que o novo veículo transformará a aviação ao oferecer viagens mais baratas do que as de helicópteros. A grande mudança tecnológica será que o eVtol não precisará de pilotos e será elétrico. Por ser movido a bateria, não vai emitir poluentes e fará menos barulho do que os helicópteros.

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,embraer-anuncia-pedido-por-200-carros-voadores,70003733511

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TikTok além dos memes: vídeos de ciência viralizam na rede

Indo muito além das danças coreografadas, criadores de conteúdo usam o TikTok para falar sobre áreas diversas da ciência — e já acumulam milhões de curtidas e seguidores

Por Laura Pancini – Exame  29/05/2021 

O TikTok é mais do que danças e memes. O aplicativo de vídeos curtos trouxe uma nova dinâmica para as redes sociais com uma série de efeitos, músicas, linguagens e o famoso algoritmo, que oferece uma plateia gigantesca para criadores de conteúdo que vão muito além dos passinhos coreografados.

É o caso dos criadores Antonio Miranda, Ana Cristina Duarte, Luísa Leão e Emerson Espíndola. Eles entraram na plataforma menos de um ano atrás, incentivados pelo tédio do isolamento social por conta da pandemia do coronavírus. E não foram os únicos: só entre fevereiro de 2019 e 2020, o número de instalações do app cresceu 992% entre usuários brasileiros

Com estilos completamente diferentes, os quatro começaram a produzir vídeos voltados para a área de ciências e encontraram milhões de usuários que não só gostam, mas querem aprender através do TikTok. Conheça os criadores:

“Recebo mensagens de estudantes que falam: ‘Você deveria ser meu professor, porque o que você me ensina em 30 segundos, eu não aprendo em uma aula’”, conta Emerson Espíndola. Desempregado por conta da pandemia, o ator estava vendendo pães para ajudar com as contas quando baixou o TikTok pela primeira vez em agosto de 2020.

Produzindo vídeos, as coisas mudaram para Espíndola quando ele fez um TikTok explicando o que acontece no corpo humano quando se bebe água. Atuando, vestiu uma camiseta azul para fazer o personagem da água e decidiu que seu corredor seria a representação do esôfago.

Sem saber, estava definindo seu conteúdo pelos próximos meses. Os vídeos com curiosidades sobre o corpo humano, que misturam humor e atuação, explodiram. Seguindo sempre tal estilo, Espíndola acumulou 1,7 milhões de seguidores e 33,4 milhões de curtidas em menos de um ano na plataforma, além de parcerias com a Bradesco Seguros, Boticário e Rap10

Apesar de ter interesse em ciência, o ator não fez faculdade na área, como é o caso de Miranda, Duarte e Leão. Escutando a resposta de seus seguidores ao conteúdo, ele percebeu que a falta de conhecimento científico, no sentido acadêmico, poderia ser algo positivo.

“Não tenho a visão de um cara que entende profundamente sobre a coisa, então tento transmitir de uma maneira que eu consiga entender e que seja divertida”, disse Espíndola. “O corpo é uma maquininha mesmo, então é tudo muito mecânico. Essa mecânica tem falhas que, dependendo do olhar que você dá, pode ser muito engraçado.”

Espíndola não é o único que traz um toque de humor para seus vídeos científicos. Estudante de nanotecnologia, amante do teatro e da comunicação, Antonio Miranda aparenta ter a fórmula ideal para criar conteúdo no TikTok. Sua série, “Fatos Curiosos com Antonio”, mistura edições de vídeo criativas com assuntos que passam por tópicos variados, desde “Como extrair seu próprio DNA?” até “Você sabe o quão rápido é uma bala de fuzil?”.

“Desde criança, sempre fiquei muito triste quando não tinha uma resposta para uma pergunta do dia a dia”, conta Miranda. “O que eu quero trabalhar é com comunicação científica, tornar a passagem de conhecimento mais tranquila.”

Antes de publicar seu primeiro vídeo na plataforma, tentou desenvolver estratégias para garantir que o conteúdo não teria o mesmo resultado do que os seus Reels no Instagram — lá, o de maior sucesso teve 2.700 visualizações. As coisas realmente não foram as mesmas no TikTok: em cinco meses no aplicativo, Miranda já tem 2,6 milhões de curtidas e 292 mil seguidores. 

Ciência no TikTok

TikTok: o Brasil foi o terceiro maior público do app em 2020 com 34,7 milhões de instalações (Montagem Arte/Exame com imagens BRO Vector/Getty Images/Reprodução)

Para Abel Reis, especialista em mídias digitais e sócio fundador da consultoria Logun Ventures, o TikTok fomenta viralizações rápidas como a de Miranda: “É um fenômeno sempre curioso de pessoas que são inexistentes na plataforma um dia e três meses depois explodem em número de seguidores, exatamente porque o TikTok favorece o efeito de lastreamento de conteúdos e propicia esse tipo de resultado.”

Recém formada em ciências biológicas, Ana Cristina Duarte também entende bem o fenômeno da viralização. Começou com a conta ClipeCasa em junho de 2020, na qual ela segue o desafio de ir trocando objetos gratuitamente, começando por um prendedor de papel até um dia conseguir uma casa. Atualmente, ela já conseguiu o equivalente a 15 mil reais.

A repercussão do ClipeCasa foi imensa, a ponto do aplicativo concorrente do TikTok, Kwai, fechar contrato com a criadora para a produção de 25 vídeos por mês, mas as trocas não eram tão frequentes para tantos vídeos. Foi assim que ela decidiu juntar três paixões: ensinar, editar vídeos e ver coisas através do microscópio.

“O pessoal amou e já foi falando “Mostra uma formiga, mostra mel, mostra um cravo da pele”, eles foram dizendo o que tinham curiosidade de ver. Então peguei e postei na minha conta pessoal do TikTok, onde eu tinha pouquíssimos seguidores”, conta Duarte.

Hoje em dia, os vídeos com o microscópio fazem mais sucesso do que o ClipeCasa. Mesmo tendo sido criada em março de 2021, a conta pessoal já ultrapassou 7,2 milhões de curtidas e 765 mil seguidores. Para comparação, a conta para os vídeos de trocas tem 3,6 milhões de curtidas e 462,5 mil seguidores, tendo sido criada quase um ano atrás.

“O que chama atenção é o que é nojento. Em um vídeo de gema de ovo, não tinha nada e não gerou visualização”, disse Duarte. Apesar disso, ela afirma que seus seguidores vêm pedindo por mais explicações, então ela está buscando formas de “conciliar a parte divertida da coisa” com a divulgação científica.

Sobre os conteúdos científicos no TikTok, Reis avalia: “A gente sabe bem o que é uma aula de matemática ou história no YouTube, mas não sabemos exatamente o que isso seria no TikTok. Ciência e conhecimento estruturado parecem requerer tempos longos e não é propriamente essa a natureza da plataforma. Por outro lado, pode ser muito interessante pensar em como criar conteúdo estimulante e engajador num formato como esse.”

Assim como Duarte, a estudante de Engenharia Mecânica e aspirante a astronauta, Luísa Leão, também quer juntar o ensinamento com a diversão. “Amo falar sobre astronomia e, quando entrei no TikTok e vi tantas pessoas interessadas em me ouvir falar, pensei: ‘Perfeito, vou falar agora!’”, conta Leão.

Em seu conteúdo, a jovem dá dicas para estudantes que, assim como ela, querem um dia virar astronautas. Usufruindo do leque de efeitos, músicas e linguagens do app, ela também fala de curiosidades sobre a vida no espaço e sobre viagens espaciais realizadas por agências internacionais.

Na rede social desde fevereiro de 2021, Leão tem 872 mil curtidas e 83,7 mil seguidores. Assim como Duarte, foi convidada para ser remunerada pelo Kwai e a oportunidade levou a uma “publi” com o Banco Pan. A jovem também teve um espectador de destaque: o astronauta e Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, que repostou um TikTok de Leão e ainda fez um texto agradecendo a aspirante a astronauta.

Entenda o algoritmo e a viralização no TikTok

De acordo com dados do Priori Data, o Brasil foi o terceiro maior público do TikTok em 2020 com 34,7 milhões de instalações, seguido dos Estados Unidos (45,6 milhões) e da Índia (99,8 milhões). Ao todo, o TikTok já foi baixado mais de 2 bilhões de vezes no mundo, como afirma a consultoria Sensor Tower.

O público do aplicativo é, em sua maioria, pessoas de até 30 anos, representando 63% dos usuários. Para os 51% que abrem o app de 1 a 3 vezes por dia, a média é passar por volta de 45 minutos na rede social, como afirma o Business of Apps

Para o especialista Abel Reis, o aplicativo de vídeos curtos trouxe uma semiótica diferente para a dinâmica das redes. Diferente das experiências no YouTube e no Instagram, o TikTok consegue evitar que o efeito de bolha se alastre pela plataforma, muito graças ao seu algoritmo que divulga os conteúdos que são mais assistidos pelos usuários.

“Você não tem uma hora para ficar contando sobre um fenômeno químico ou físico em detalhes e ficar um pouco enrolando para criar oportunidade para anúncios aparecerem”, explica Reis, fazendo referência ao YouTube. “É uma plataforma cuja arquitetura e linguagem nascem para favorecer a pulverização de conteúdos, que são empacotados de maneira que captura sua atenção por um período de tempo reduzido.”

Espíndola explicou que qualquer vídeo publicado na plataforma é jogado para uma média de 100 pessoas. Deste número, o TikTok analisa o tempo que cada usuário assistiu ao vídeo e qual foi o engajamento — se teve curtidas, comentários ou compartilhamentos —, mas o principal fator é o tempo. Dependendo do resultado, o conteúdo será jogado para mais ou menos usuários, e por aí vai. 

Nesta dinâmica, os primeiros segundos acabam sendo essenciais. “Tem essa coisa de ter três segundos para convencer a pessoa a ver seu vídeo, então apelar para o sentimento natural do ser humano de ser curioso é o principal”, comenta Miranda, que afirma que sempre apela para algo que vai despertar o interesse para garantir as visualizações, como editar as cenas para fingir que está caindo de um prédio ou sendo atropelado por um carro.

“A abordagem do criador do conteúdo tende a ser mais performática [no TikTok] do que em outras plataformas. A coisa se aproxima mais do entretenimento do que da informação em seu sentido mais clássico”, avalia Reis.

https://exame.com/tecnologia/tiktok-videos-de-ciencia-viralizam-na-rede/

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CEO do Google Brasil revela por que o país é importante para a big tech

Ao completar dez anos à frente da operação local do Google, o executivo afirma que a companhia quer ajudar na construção do país e fala dos desafios para se manter relevante no futuro

Por Thiago Lavado Exame 13/05/2021

A relação das multinacionais de tecnologia com o Brasil é sui generis. Muitas delas, apesar de presentes na vida cotidiana do brasileiro há anos, não mantêm fábricas ou desenvolvimento de tecnologia no país e se limitam à atuação junto com parceiros comerciais — não há como ignorar um mercado de 200 milhões de usuários. Não é o caso do Google, que chegou ao país há 15 anos por um escritório em Belo Horizonte, trabalhando com uma equipe de engenheiros em desenvolvimento de software.

De 2005 para cá muita coisa mudou, tanto em termos de tecnologia quanto em negócios. De navegador e sistema de buscas a empresa mapeou o país com o Google Maps, trouxe conectividade a estações de metrô, desenvolveu o sistema operacional móvel usado por 93% dos smart­phones no Brasil e foi central na revolução de aplicativos e internet mobile.

O executivo Fábio Coelho completou recentemente dez anos à frente da operação local. Além de estar dentro do turbilhão das mudanças em tecnologia, Coelho aprendeu algumas lições, como a necessidade de sempre estar buscando a relevância, de nunca firmar grandes certezas e de que é preciso “abraçar o caos”.

Fabio Coelho, CEO do Google no Brasil (Leandro Fonseca/Exame)

Em entrevista à EXAME, o executivo comentou a década de trabalho em uma das maiores empresas do mundo, as mudanças que a tecnologia propiciou ao Brasil e as crises recentes — que levaram outras companhias, de diferentes setores, a repensar a presença no país —, deixando claro o entendimento de que, para operar no Brasil, é preciso entender e superar seus solavancos de curto prazo e focar os resultados de longa duração.

Veja também

 Recentemente, você completou dez anos à frente do Google no Brasil. Como enxerga essa experiência em retrospecto?

Quando eu penso nesses dez anos de Google eu desenho o filme, né? E o filme é espetacular, é uma honra e ao mesmo tempo é uma baita responsabilidade. O papel do Google tem a ver, primeiro, com uma história de ajudar a conectar pessoas, empresas, negócios e cidadãos. Os 15 anos de presença do Google no Brasil só foram possíveis por alguns ingredientes que eu acho importantes.

Primeiro é o entendimento de que estamos aqui para ajudar a sociedade, de que temos de formar um grupo forte, alinhado em relação a esse propósito de ajudar, e todas essas pessoas que trabalham no Google devem entender profundamente como podem utilizar nossas plataformas altamente escaláveis para executar essa missão.

A busca pela relevância fez com que mudássemos nossa plataforma de buscas para ela ficar atualizada, em linha com um usuário cada vez mais exigente. O que eram os links azuis de dez anos atrás nos desktops se transformaram em experiências que você tem em qualquer telefone celular.

Segundo, foi preciso ser muito humilde em relação ao entendimento de que a realidade passada às vezes não funciona mais. E, terceiro, muito focado na busca de relevância. Eu costumo dizer, dentro do Google, que cada um de nós tem a necessidade e a responsabilidade de se manter relevante. Estamos o tempo todo buscando relevância para que possamos continuar presentes na vida das pessoas. Nesses dez anos, as buscas mudaram dramaticamente. O Google também mudou, deixou de ser uma companhia centrada no desktop para ser mobile first e depois mobile only.

E agora é uma companhia de inteligência artificial. Nossas plataformas foram melhorando, o YouTube entendeu o tamanho do seu impacto na sociedade brasileira, sendo um espelho dessa sociedade e remunerando criadores. Temos alguns milhares de criadores com mais de 1 milhão de seguidores, e que transformaram aquilo em um trabalho, em negócio e empresa. É fantástico.

 Você já disse que aprendeu que parte desse processo é não ter grandes certezas e abraçar o caos. Continua valendo a lição?

Vai valer, e eu acho que vale sempre. Temos de ter, como empresa e como profissionais, uma base sólida de valores, de integridade, de proposta de engajamento social, de como é que se ajuda. Em cima disso, não se pode ter grandes certezas, porque as construções são colaborativas. Quando o conhecimento é tão distribuído, o resultado de qualquer processo decisório pode até demorar um pouco mais, mas tem de ser uma construção colaborativa. Não pode ser a opinião de um.

Eu gosto daquele chavão que diz que se você quiser ir rápido você vai sozinho, se você quiser ir longe você vai em grupo. É verdade. Cada vez mais os processos decisórios são delicados, são mais demorados, salvo em situações de emergência, em que é preciso ser um pouco mais autocrático para ter uma resposta rápida. Mas na maior parte dos problemas as construções das respostas às grandes necessidades sociais são colaborativas. Nesse ponto, os conceitos de diversidade e inclusão funcionam mais, e são muito mais válidos, porque são necessárias respostas mais ricas.

 O Google foi bastante ativo nas transformações digitais dos últimos 15 anos, inclusive no Brasil. Como vocês enxergam essas mudanças na sociedade?

Lá por 2012 tivemos essa discussão e um trabalho muito forte de mostrar dentro do Google, do Google Inc, lá na Califórnia, o potencial do Brasil por causa de algumas características do brasileiro. O Brasil é um país continental, onde as pessoas não têm poder econômico muito alto, mas o brasileiro é extremamente resiliente, criativo. Acreditávamos que, ao democratizar o acesso, teríamos uma oportunidade enorme de uso de nossas plataformas e, consequentemente, depois do uso vem a monetização. Para fazer isso bem-feito, alguns investimentos eram básicos no país.

O Google entrou pelo escritório de engenharia de Belo Horizonte 15 anos atrás. Talento brasileiro, fazendo buscador, indexador de alta qualidade, que o Google usou e usa até hoje. O escritório de São Paulo foi construído exatamente para atender um mercado maior do que o publicitário: todo o mercado de comunicações e comércio, que é brilhante.

Ajudamos o Brasil a fazer um salto de eficiência, com muitas pessoas conectadas, trabalhando, estudando de qualquer lugar. Isso reduz distâncias geográficas para quem está lá em São Félix do Araguaia, para quem está lá no interior do Rio Grande do Sul, para quem está, como eu, que sou capixaba, em Vitória, no Espírito Santo. Foi possível conectar essas pessoas, e isso empodera uma sociedade. Então, a democratização do acesso fez com que as pessoas também mudassem seu comportamento e passassem não apenas a querer consumir informação e conteúdo mas a utilizar isso de várias formas, inclusive podendo fazer comércio à distância, podendo criar seu pequeno negócio.

 Como foi essa transformação para as empresas?

A quantidade de brasileiros que são pequenos empreendedores, ou pequenos empresários, é uma grande massa da população. Percebemos isso naquela época, e as soluções de conectividade que funcionaram muito bem para o brasileiro também serviram às empresas. Uma pesquisa que saiu lá por 2015, sobre as empresas dos sonhos, perguntava o seguinte: “Em que empresa você quer trabalhar?” E a gente via três liderando: Google, Petrobras e a própria empresa. Google era para quem queria trabalhar numa indústria de ponta. Petrobras, um perfil diferente, para quem queria trabalhar numa empresa brasileira, de alta estatura, envergadura, mas que buscava um pouco mais de estabilidade. E está tudo certo. E o “meu negócio” significa que eu quero trabalhar para mim, eu quero correr atrás de resolver os problemas da minha comunidade, eu quero me virar sem ter, necessariamente, de fazer parte de uma organização hierárquica.

Percebendo isso, tentamos ajudar, nesses dez anos, o brasileiro a empreender. Eu falei primeiro de democratização do acesso. Agora eu estou falando da democratização da capacidade de empreender, da oportunidade. Para que as pessoas pudessem dizer “aqui na minha favela não entra Uber, eu vou criar o Uber Favela”. Quando falamos em ajudar, a palavra tem vários significados: conectar pes­soas, criar oportunidades de negócio, ajudar a empreender e buscar. Por trás disso tudo há decisões eficientes. Eficiência na geração de oportunidades, no comércio e na mídia, ajudar a criar mix de mídia melhores, fazer doações, como nós doamos. Durante a pandemia, destinamos quase 150 milhões de reais para apoiar diferentes iniciativas no combate aos efeitos da covid-19.

Campus do Google em São Paulo: empresa evoluiu de site de buscas para inteligência artificial

Campus do Google em São Paulo: empresa evoluiu de site de buscas para inteligência artificial (Germano Lüders/Exame)

Revoluções em como comprar e pagar estão entre as mais palpáveis dos últimos anos. O que mais você destacaria?

A mais importante foi a democratização do acesso, que permite ao brasileiro resolver os problemas de sua comunidade estando em qualquer lugar. Você tocou em dois exemplos, e-commerce e fintechs. O digital, há dez anos, era acessório, passou a ser complementar, depois importante, recentemente, na pandemia, para alguns negócios, tornou-se único. E agora ele vai voltar, depois que reabrir o comércio, a ser central. Vamos conti­nuar usando lojas, pontos físicos de interação, mas porque queremos, não porque precisamos. Mais de 40 milhões de brasileiros já usaram o e-commerce pela primeira vez.

O e-commerce brasileiro deu um salto, se eu não me engano, de 8% para 14% no Brasil, em menos de um ano. Houve uma revolução que permitiu que o comércio digital alcançasse diferentes classes sociais, regiões do país, categorias de consumo que até então não atingia. Quando a gente fala do meio de pagamento, esse é o segundo pedaço da história.

O e-commerce tem a ver com uma boa experiência, disponibilidade de inventário online, uma boa logística e uma capacidade de pagamento segura e rápida. Por trás disso tudo há a revolução dos aplicativos. Eu vejo esses dois exemplos, dentro do conceito de oportunidade, como o empresário e o empreendedor brasileiro, extremamente resilientes e criativos, tendo de sobreviver com um colchão de apoio social pequeno e se virar nos 30. Nós tentamos ajudar esse grupo, tornando o e-commerce e a democratização disponíveis para a grande maioria do país.

 Muitos executivos e empresas internacionais têm escolhido deixar o país. Qual é a sua perspectiva sobre isso?

O Brasil é um país continental, com oportunidades de geração de eficiência para a sociedade e empresas, com capacidade de reinvenção, com recursos naturais, com 212 milhões de brasileiros que geram um mercado interno enorme. Todo mundo que pensa no Brasil no médio e no longo prazo entende que o país tem condições de continuar a ser uma potência e sempre vai ter um papel relevante na economia mundial. Logicamente os solavancos de curto prazo não devem ser, no nosso caso, impeditivos para que tenhamos essa visão de longo prazo reforçada.

Acreditamos que conviver com o Brasil é entender a volatilidade do país: ter um olhar de curto prazo para entender todas essas transformações que ocorreram no e-commerce, nas fintechs, no empreendedorismo, e também entender que, no longo prazo, vamos continuar construindo essa sociedade mais conectada. Toda vez que você tem um ecossistema conectado, ele se torna mais eficiente.

Quando você tem um sistema de plataformas como o nosso, só conseguimos evoluir se os nossos parceiros estiverem bem. Precisamos ter um ecossistema digital vibrante, confiável e modernizado. Nosso papel é participar dos diálogos, colocar nossos pontos de vista, tentar que as decisões não prejudiquem qualquer grupo, e aí vamos discutir alguns assuntos como liberdade de expressão, responsabilização de conteúdo. O Google não está no Brasil para ficar mais cinco anos, está aqui para investir no longo prazo do país.

Em um mundo digital em constante transformação, dá para ter alguma previsão dos próximos dez anos?

Não. Lembra das apostas, as bets, da Alphabet? São iniciativas que têm um prazo de amadurecimento de cinco a sete anos. Se você buscar alguma aposta de curtíssimo prazo, provavelmente já tem alguém fazendo. Se você buscar alguma aposta de longuíssimo prazo, talvez ela se perca com o tempo. A tecnologia estruturante para aquela transformação ainda não está lá. Mas há alguns temas que eu vejo acontecendo hoje e que vão nortear os próximos dez anos: melhor capacidade de processamento, para isso não falamos apenas de cloud computing, que para nós já é um business, em que levamos a nossa habilidade de processar, de usar a inteligência artificial, e o machine learning para empresas.

Também há a computação quântica, que vai permitir que a gente resolva problemas usando massas de dados e capacidade de processamento, que podem nos levar a descobrir novos planetas, a curar doenças, entendimento de como um vírus se transmuta. Acredito que haverá mais sensores, mais portas de entrada para a internet, para conteúdos e processamento utilizando voz, que já é uma realidade. São experiências triviais que, com a tecnologia, vão ajudar a tornar determinados grupos ou negócios mais eficientes. O que nós temos de fazer no Google é nos preparar para nos mantermos relevantes nessa busca por maior eficiência, melhores experiências e, com isso, conseguirmos encarar o que vem por aí.  

https://exame.com/revista-exame/no-brasil-para-ficar/

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A ambição sem limites de Jeff Bezos: novo livro mostra como bilionário expandiu seu poder

“Amazon Sem Limites” conta um pouco de tudo sobre o fundador da “Loja de Tudo”: bastidores, brigas e até uma história de espionagem

Por Sérgio Teixeira Jr. – Infomoney – 29 maio 2021 

NOVA YORK – O Jeff Bezos descrito em “Amazon: A Loja de Tudo”, livro de 2013 que narra os primeiros anos de vida da empresa, é um empreendedor com inteligência acima da média, um visionário que enxergou o potencial de ruptura da internet e construiu uma companhia admirada e temida no mundo inteiro essencialmente à base de pura obstinação.

“Amazon Sem Limites”, que será lançado no Brasil em 2 de junho, é a continuação dessa história. Entre a publicação dos dois livros, o valor de mercado da Amazon superou US$ 1 trilhão e Bezos alcançou o posto de homem mais rico do mundo – mesmo depois do rumoroso divórcio de MacKenzie Scott, que foi sua mulher por 25 anos.

O novo livro, também de autoria do jornalista Brad Stone, tem um pouco de tudo: bastidores da Amazon, a metamorfose de Bezos (de nerd do Vale do Silício a magnata de Hollywood), brigas públicas com Donald Trump e uma história intrigante de possível espionagem por parte da família real saudita.

“Sem Limites” também expõe o poder imenso da companhia. Com 1,3 milhão de funcionários ao redor do mundo e dezenas de milhões de quilômetros rodados por ano para fazer entregas, o impacto da Amazon nos pequenos negócios, nos trabalhadores e na saúde do planeta é uma das questões cada vez mais fundamentais para a companhia.

“Na época, achei que tivesse escrito um livro completo sobre a ascensão da Amazon”*, diz Stone. “Mas aí aconteceu uma coisa estranha. Em 2014, a Amazon lançou o primeiro Echo, o aparelho de som ativado por voz que abrigava a assistente virtual Alexa. (…) A Amazon estava passando da entrada das casas dos clientes e entrando na sala.”

Como o livro anterior, “Sem Limites” deixa claro que, para entender a Amazon, é preciso entender a personalidade de seu fundador.

A história do desenvolvimento da Alexa é um exemplo clássico do estilo Bezos de inovação e gestão: ideias extremamente ambiciosas e uma tenacidade indomável para transformá-las em realidade.

O livro reproduz um rascunho desenhado por Bezos em 2011 mostrando o que seria produto: uma caixinha de som capaz de entender comandos por voz com um botão para desligar o microfone. E só. Os engenheiros e programadores que se virassem para construí-lo.

Incumbido de dirigir o projeto, o veterano Greg Hart disse a Bezos: “Jeff, não tenho experiência nenhuma com hardware, e a maior equipe de software que liderei tinha só umas 40 pessoas”.

“Vai dar tudo certo”, respondeu Bezos.

Esse é um tema recorrente em ambos os livros. Na maior varejista online do planeta não há lugar para estruturas tradicionais de gestão e práticas comuns do mundo dos negócios.

Executivos são escolhidos para liderar iniciativas mesmo que não tenham conhecimento prévio. A lealdade a Bezos e a capacidade de “entregar” são tão ou mais importantes que credenciais técnicas.

A tolerância com o “dedo do dono” também é essencial. Bezos se reunia quase diariamente com a equipe que desenvolveu o Echo, fazendo exigências, dando sugestões e abrindo os cofres.

O projeto consumiu centenas de milhões de dólares ao longo de três anos. Os desenvolvedores alugaram e mobiliaram apartamentos onde pessoas eram pagas para passar horas a fio lendo frases do dia-a-dia. O objetivo era treinar o sistema de reconhecimento de voz.

O resultado não foi exatamente o computador onisciente de “Jornada das Estrelas” imaginado por Bezos, um fã obcecado pela série de ficção científica.

Mas o Echo foi pioneiro de uma nova categoria de produtos e permitiu à Amazon passar a perna em duas empresas que alguns anos antes jamais seriam consideradas concorrentes: Apple e Google.

Sucessos (e fracassos) espetaculares

Outra história relatada com detalhes é o crescimento espetacular da AWS, o negócio de computação na nuvem lançado pela Amazon em julho de 2002.

Durante décadas, a lucratividade da AWS foi guardada em segredo nos relatórios financeiros da Amazon. A empresa incluía os números da subsidiária em uma categoria de “outros” para não chamar a atenção de concorrentes como Microsoft e Google.

Mas a estratégia não duraria muito tempo. O negócio – “um dos maiores facilitadores do boom das startups pós-recessão, possivelmente mais importante até mesmo que o iPhone”, escreve Stone – estava ficando grande demais e teria de ser discriminado nos relatórios trimestrais.

Em abril de 2015, quando os números detalhados finalmente vieram a público, um analista chamou a AWS de “um maiores e mais importantes IPOs do setor de tecnologia.”

As ações da empresa subiram quase 15% no dia, “acabando com o mito de que a Amazon era uma máquina de perder dinheiro”.

Outra história contada em detalhes é a do Fire Phone, lançado alguns meses antes do Echo e considerado o maior fracasso dos 27 anos de história da companhia.

Quando foi lançado, depois de três anos de desenvolvimento, o aparelho foi encarado com desdém. O display tridimensional – ideia de Bezos – foi vista como uma “novidade pela novidade”. Apple e Samsung, líderes do segmento, ofereciam aparelhos muito mais próximos dos desejos do consumidor.

Uma passagem do desenvolvimento do Fire Phone é emblemática da transformação por que passava Jeff Bezos. Em uma reunião, o executivo pão-duro e obcecado com os consumidores perguntou: “Alguém realmente usa o [aplicativo] Agenda no celular?”

Um dos participantes, que não tinha uma equipe de assessores cuidando de seus compromissos, respondeu que sim, as pessoas de fato usam a agenda.

O brilho dos holofotes

A Amazon ainda está dando os passos iniciais no Brasil. Portanto é difícil para um brasileiro compreender a dimensão da companhia no dia-a-dia e no imaginário dos americanos.

Das icônicas caixas de papelão com fita adesiva preta às vans de entrega cada vez mais vistas nas ruas, a Amazon é um fenômeno nos EUA. Estima-se que quase 70 milhões de domicílios do país tenham assinatura do serviço Prime, que garante entrega gratuita em até dois dias.

Jeff Bezos, há muito tempo célebre na imprensa de negócios, passou a estampar também as páginas das revistas de celebridades.

Esse novo tipo de fama tem a ver com o serviço Prime Video, que compete diretamente com gigantes do entretenimento como Netflix, Disney e HBO.

Bezos, que sempre deu poucas entrevistas e protegeu a privacidade de sua família – ele e MacKenzie têm quatro filhos –, começou a promover festas estreladas na temporada de premiações de Hollywood.

Descrito como um fã de cinema, o bilionário do varejo estava “empolgado com a ideia de criar conteúdo original”, escreve Stone, “para a surpresa dos executivos do Amazon Studios, que se perguntavam se o chefe de uma empresa de US$ 100 bilhões não tinha nada melhor para fazer”.

A questão é que celebridades não podem controlar a narrativa – nem mesmo aquelas com uma fortuna de US$ 186 bilhões.

Em fevereiro de 2019, o tabloide sensacionalista National Enquirer publicou fotos exclusivas de Bezos com a ex-apresentadora de TV Lauren Sanchez.

Stone descreve o imbróglio em detalhes, e eles são muitos. Alguns destaques:

  • A história foi vendida à publicação pelo irmão de Sanchez, com quem ela havia compartilhado algumas das mensagens trocadas com o CEO;
  • O tabloide é o mesmo que, em 2016, comprou o silêncio de mulheres que tiveram casos com o então candidato à presidência dos EUA Donald Trump – inimigo declarado de Bezos por causa da cobertura negativa que ele recebia do Washington Post, jornal comprado pelo fundador da Amazon em 2013;
  • A família real saudita teria tentado hackear o celular de Bezos, em retribuição pela cobertura do assassinato de Jamal Khashoggi, colunista do Washington Post. A invasão, que teria se dado por um vídeo enviado por WhatsApp, nunca foi confirmada.

Com tantos elementos farsescos, o episódio consumiu a mídia americana durante alguns dias e é relatado em detalhes em “Sem Limites”.

Mas, como aponta Stone, ele também representa um marco. Divorciado, com uma namorada nova, Bezos estava saindo do casulo, “um cara bem-vestido, com físico de personal trainer, riqueza exorbitante e uma fama que causava admiração reverente até mesmo nos altos escalões da elite cosmopolita”.

A vida pós-Amazon

Em fevereiro deste ano, Bezos anunciou que Andy Jassy, responsável pelo sucesso da AWS, seria seu sucessor no cargo de CEO (ele vai manter a presidência do conselho de administração). A transmissão da coroa está marcada para o dia 5 de julho.

Assim, Bezos terá tempo para dedicar-se a iniciativas como o fundo Bezos Earth, o Washington Post e a companhia de exploração espacial Blue Origin (que concorre com a SpaceX, de seu rival Elon Musk).

Seu legado de sucesso na história dos negócios parece garantido, pelo menos quando se avaliam os resultados da empresa.

Mas uma outra métrica – ainda difusa, mas que vem ganhando foco, especialmente por causa da pandemia – é o impacto da Amazon na sociedade.

Bezos é um opositor ferrenho dos sindicatos e da organização dos trabalhadores. Igualmente, a história da Amazon está repleta de episódios em que a companhia optou por passar por cima de custos e as responsabilidades legais de certas operações.

É o caso da chamada “última milha” das entregas. “Sem Limite” descreve empresas de delivery terceirizadas sob pressão enorme para cumprir metas agressivas. O livro relata o caso de uma mulher de 84 anos morta após ser atropelada por uma van que fazia entregas para a Amazon.

As condições de trabalho nos armazéns da companhia também são objeto de uma parte importante do livro. Apesar de a companhia ter anunciado um aumento dos salários pagos para os trabalhadores dos armazéns – muitos deles sazonais -, as condições de trabalho ainda são excruciantes.

São incontáveis os relatos de funcionários que caminham mais de 20 quilômetros diários montando pedidos em um dos 185 centros de distribuição da empresa espalhados pelo mundo (110 ficam nos Estados Unidos).

O livro termina com um capítulo sobre a pandemia. A Amazon foi uma das primeiras empresas a entender o impacto da crise sanitária em seus negócios.

Ainda em fevereiro, um mês antes de a OMS classificar a Covid-19 uma pandemia, a empresa já tinha contratado um epidemiologista da Universidade Columbia para orientar as ações tomadas pela companhia.

Mesmo com a implementação rápida de medidas de segurança, a explosão do comércio eletrônico aumentou ainda mais a pressão sobre os armazéns – e trouxe consigo vários relatos de condições de trabalho perigosas para os funcionários.

Com a expansão da empresa para novos setores e novas partes do mundo, os olhares – de admiradores e críticos – estarão cada vez mais voltados para o que emana de Seattle.

A história de Bezos à frente da Amazon pode estar chegando ao fim, mas a da empresa ainda tem muitos capítulos a serem escritos.

Para entendê-los, e a um dos homens de negócios mais peculiares e obstinados que o mundo já conheceu, “Amazon Sem Limites” é leitura essencial.

“Amazon Sem Limites” 2 de junho nas livrarias

Editora Intrínseca

512 páginas

* A resenha foi escrita com base na edição original, em inglês. Os trechos reproduzidos foram traduzidos livremente.

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