Do fracasso do Facebook ao ano dos superapps no Ocidente: as previsões de Scott Galloway

Moacir Drska – Neofeed – 05/01/2022

Escritor, professor da Universidade de Nova York e guru do Vale do Silício, Galloway divulga suas já famosas previsões em tecnologia e negócios para 2022. Confira suas principais apostas

Escritor, empreendedor e professor da Stern School of Business da Universidade de Nova York. Com esse currículo e um histórico de análises ácidas, contundentes e, quase sempre, polêmicas, , 57 anos, é apontado, não à toa, como um dos gurus do Vale do Silício.

Todos os anos, nessa época, o americano reforça essa fama ao divulgar a sua já famosa lista de previsões para o mundo dos negócios nos 12 meses seguintes. Dono de um estilo irreverente, ele não hesita em disparar seus palpites, por mais arriscados que, a princípio, eles possam parecer.

Em 2021, o saldo foi positivo. Com muitos acertos e alguns pitacos parcialmente concretizados, seu único erro, de fato, foi a previsão de que a Apple compraria a Peloton, empresa que combina bikes e esteiras ergométricas tecnológicas com aulas de fitness transmitidas ao vivo, via streaming.

Em compensação, ele previu, por exemplo, que a cotação do Bitcoin superaria a marca de US$ 50 mil no decorrer do ano, o que se realizou em fevereiro. Dois meses antes, quando Galloway fez sua “profecia”, a criptomoeda valia cerca de US$ 27 mil.

Foi também em fevereiro que outra das suas previsões tornou-se realidade. A ação do Twitter ultrapassou o patamar de US$ 60 e chegou a US$ 77, seu pico no ano. Como ele também havia cravado, em novembro, Jack Dorsey, cofundador da empresa, deixou o posto de CEO da operação.

Scott Galloway 1

Na noite de terça-feira, 04 de janeiro, Galloway promoveu uma transmissão online e voltou a colocar sua bola de cristal – e sua língua afiada – para trabalhar, ao fazer uma série de prognósticos para 2022. E o NeoFeed selecionou as principais previsões feitas pelo guru. Confira:

1 – O metaverso de Mark Zuckerberg será o grande fracasso tecnológico em 2022

Em outubro de 2021, o Facebook passou a se chamar Meta, dentro do plano da empresa de ir além da rede social pela qual ficou conhecida e fincar os pés em um novo campo: o metaverso, que mescla realidade aumentada e virtual para estabelecer uma interação digital e imersiva entre as pessoas.

“O metaverso é a próxima fronteira para conectar pessoas, assim como as redes sociais eram quando começamos. E ele afetará todos os produtos que construímos”, destacou Mark Zuckeberg, fundador e CEO da companhia, na época.

Na avaliação de Galloway, porém, a guinada da empresa será o maior fracasso tecnológico de 2022. “A noção de que passaríamos mais tempo online sacrificando nossas atividades offline é assustadora. Mas qual é a boa notícia? Não vai funcionar. Simplesmente não faz sentido”, afirmou.

Mark Zuckerberg, fundador do Facebook

Ele ressaltou que a habilidade demonstrada pelo Facebook em aquisições não se repete em boa parte de seus projetos internos. E citou como exemplo o desenvolvimento do seu óculos de realidade virtual, fruto da compra da Oculus, em 2014, e sua grande aposta para ganhar escala no metaverso.

“O Oculus é o calcanhar de Aquiles aqui”, disse. “E a razão é que ninguém quer usar esta coisa e pouquíssimas pessoas estão comprando. Eles venderam 3,5 milhões de unidades em 2020. Só para dar uma ideia de escala, foram 70 milhões de pares de Crocs vendidos no mesmo período.”

Em contrapartida, Galloway entende que a Apple é a empresa mais bem posicionada para construir o verdadeiro metaverso. “Eles têm dispositivos onipresentes, a confiança dos usuários, mais capital do que qualquer outra empresa no mundo e já provaram serem incrivelmente hábeis com tecnologia.”

2 – O ano dos superapps, com o Twitter e o Pinterest novamente no radar de aquisições

Para Galloway, o conceito de superapp ganhará, definitivamente, escala além da China e essa será a palavra de ordem em 2022. Ele entende que haverá uma corrida para consolidar uma operação desse porte no mundo ocidental e isso recolocará dois ativos, em particular, como alvo de aquisições.

“Um componente-chave de um superapp é algum tipo de mídia social e isso faz com que o Twitter e o Pinterest sejam bem atrativos para uma aquisição”, afirmou. Ele destacou que o Pinterest está valorizado, mas que o preço de suas ações está recuando, o que já aconteceu com o Twitter.

Galloway enxerga boas chances de uma nova proposta da Salesforce para comprar o Twitter, repetindo um movimento feito há pouco mais de cinco anos. Um atalho para um eventual acordo seria o fato de que, agora, as duas companhias compartilham um executivo: Bret Taylor.

Em novembro do ano passado, Taylor foi nomeado presidente do Conselho de Administração do Twitter. Poucos dias depois, o executivo, que atuava como diretor de operações da Salesforce, foi apontado como coCEO da companhia.

“O Twitter ficou muito mais barato porque suas ações não chegaram a lugar nenhum”, disse Galloway, sobre o desempenho das ações da companhia desde a primeira investida da Salesforce. “Agora, a empresa está 60% abaixo do que estava quando eles pensaram em comprá-la.”

Avaliado em US$ 21,6 bilhões, o Pinterest, por sua vez, esteve no centro de uma oferta de US$ 45 bilhões do PayPal, em outubro de 2021. E já tinha atraído o interesse da Microsoft, entre o fim de 2020 e o início do ano passado.

“O PayPal teve a ideia certa indo atrás do Pinterest e acho que ainda pode acontecer um acordo”, disse Galloway. “Veremos muitas aquisições de empresas de mídia e de conteúdo, por conta do seu engajamento por fintechs, que podem rentabilizar melhor esses ativos.”

3 – O choque de realidade para as fabricantes de carros elétricos

Sob a direção do bilionário Elon Musk, a Tesla se firmou, em 2021, no posto de montadora mais valiosa do mundo e hoje está avaliada em US$ 1,15 trilhão. Também no decorrer do ano passado, outros nomes, como Lucid Motors e Rivian, pegaram carona no rali dos carros elétricos.

Depois de estrear na Nasdaq em julho, por meio de uma fusão com a SPAC Churchill Capital, a Lucid está avaliada em US$ 64,8 bilhões. Já a Rivian, que abriu capital em novembro, vale US$ 89,5 bilhões. Com um detalhe: seus primeiros veículos devem começar a serem entregues apenas neste ano.

Entretanto, de acordo com a bola de cristal de Galloway, o setor não terá pista livre em 2022. “Penso que o mercado de carros elétricos será cortado pela metade”, afirmou ele. “Há uma grande chance de a Tesla cair 80%. Ainda assim, a empresa valerá mais do que a Ford e a General Motors.”

Na visão de Galloway, a razão por trás desse recuo está no fato de que o mercado irá frear as eventuais super valorizações dos ativos e passará a priorizar os aspectos técnicos e os fundamentos por trás dessas operações.

4 – Na corrida bilionária do turismo espacial, a Virgin Galactic pode ficar pelo caminho

O ano de 2021 também foi marcado por uma corrida bilionária pela conquista do espaço, capitaneada pelas aeronaves das empresas comandadas por um trio de endinheirados: Elon Musk, com a SpaceX, Jeff Bezos, com a Blue Origin, e Richard Branson, com a Virgin Galactic.

Galloway vai na contramão do entusiasmo em torno do turismo espacial. “É desanimador. Acho isso niilista e simplesmente deprimente”, afirmou. E suas previsões pessimistas recaem, em particular, sobre uma dessas empresas.

Richard Branson (o quarto da esq. à dir.), o bilionário à frente da Virgin Galactic

“A Virgin Galactic pode ir à falência ou ser vendida por sua propriedade intelectual”, ressaltou. “Não creio que existam tantas pessoas dispostas a pagar US$ 400 mil para subir 60 milhas e flutuar por oito minutos. E sua capacidade é limitada. Eles terão 1,6 mil assentos em 2025.”

Ao mesmo tempo, embora não tenha entrado em detalhes, Galloway disse que a SpaceX irá valer mais do que a Tesla em 2025. Ele se mostrou mais animado, porém, com outro projeto de Musk: a The Boring Company, empresa de túneis subterrâneos para serem usados em transporte de alta velocidade.

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Polêmica da mineração submarina aumenta no exterior

Por João Lara Mesquita Estadão 11 de dezembro de 2021

Faz já algum tempo que um dos assuntos dominantes na mídia estrangeira, em se tratando dos oceanos, é a iminente mineração submarina. Ao mesmo tempo em que as reservas terrestres começam a se esgotar, o mundo vive a problemática da descarbonização de suas economias que exigirá cada vez mais metais raros como as terras raras, nódulos polimetálicos, e outros. Estima-se que, coletivamente, os nódulos no fundo do oceano contenham seis vezes mais cobalto, três vezes mais níquel e quatro vezes mais ítrio metálico de terras raras do que na terra. As indústrias de alta tecnologia dependem deles. Para piorar, a superpopulação mundial é fato, e dá ainda mais gás à questão da mineração. A polêmica da mineração submarina cresce no exterior.

Robô gigante, como 25 T, para mineração submarina, Imagem, https://www.311institute.com/.

Polêmica da mineração submarina cresce no exterior

Um dos últimos acontecimentos a colocar mais lenha no fogo foi uma bombástica entrevista do  ex-diretor da ISA – Autoridade Internacional para os Fundos Marinhos, o Dr. Sandor Mulsow, Professor chileno de geologia marinha, ex-diretor do Escritório de Gerenciamento Ambiental e Recursos Minerais da Autoridade Internacional para os Fundos Marinhos (ISA, em inglês) de 2013 a 2019.

ISA, ou Autoridade Internacional dos Fundos do Mar

A ISA é uma organização internacional autônoma — criada sob a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar — encarregada de definir regras que vão regulamentar as eventuais atividades de exploração no fundo do mar.

O monstro de 25 T sendo colocado no mar. Imagem,https://www.311institute.com/.

Por que foi criada a ISA?

Era preciso algum mecanismo para controlar os usos de uma gigantesca área dos oceanos conhecida como alto-mar. Por definição, o alto-mar é um conceito de direito no mar, definido como sendo todas as partes do mar não incluídas no mar territorial e na zona econômica exclusiva de um estado costeiro, nem nas águas arquipelágicas de um estado insular.

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‘Res communis  usus’  

No direito internacional esta parcela dos oceanos  é conhecida como ‘res communis  usus’  ou ‘patrimônio comum a todos’. É a parte dos oceanos que pode ser livremente utilizada por todos os países do mundo. São cerca de 60%, dos 364 milhões de quilômetros quadrados de oceanos globais.

infográfico distribuição dos nódulos polimentálicosO que se sabe sobre a distribuição dos nódulos polimentálicos. Ilustração, https://brasilminingsite.com.br/.

A vasta maioria do alto-mar é uma área livre (para exploração com fins pacíficos) para todos os países, e com quase nenhuma proteção legal. Pois bem, para regular este espaço foi criada a ISA. Mas, os problemas começam pelo fato de ser uma ‘organização autônoma’, portanto, não responde a nenhum organismo internacional como a ONU, por exemplo, mas apenas aos interesses dos países membros.

Mercado pode valer cerca de US$ 7 bilhões de dólares até 2026

Este é, aparentemente, o maior perigo. E os valores em jogo são altíssimos. Matéria da ocean.economist.com, de Agosto de 2019, diz que ‘As empresas de mineração de alto-mar esperam se tornar um dos setores líderes da economia azul, capitalizando sobre uma abundância de minerais no fundo do mar. O mercado global de mineração marinha pode valer cerca de  US $ 7 bilhões até o final de 2026, embora haja uma incerteza considerável, visto que a mineração comercial em alto mar ainda não começou.’

A bombástica entrevista do  ex-diretor da ISA 

A entrevista foi dada ao China Dialogue Ocean e fez crescer a polêmica da mineração submarina. O Mar Sem Fim fez uma seleção dos melhores trechos.

China Dialogue Ocean: Você costuma alertar que há uma tragédia prestes a acontecer. Pode descrevê-la?

Sandor Mulsow: Existe um movimento que atualmente deseja começar as atividades de mineração no fundo do mar. E quando isso acontecer, não haverá meia volta. É muito mais barato minerar o fundo do mar, o que é muito atraente para as indústrias, e isso seria feito em lugares muito remotos, onde ninguém pode reclamar.

Outro robô para mineração submarina.

China Dialogue Ocean: Qual é o problema da mineração do fundo do mar?

Sempre nos foi dito que os oceanos são imensos. Setenta por cento da superfície do planeta é coberta por oceanos e pensamos que eles aguentam qualquer coisa. É por isso que todos os países do mundo jogam rejeitos no mar, esperando que o lixo suma naturalmente. Mas este é um ambiente extremamente frágil, que não estamos protegendo como deveríamos.

China Dialogue Ocean: Quem está encarregado de garantir a proteção dos oceanos?

A Autoridade Internacional para os Fundos Marinhos é quem deveria cuidar disso. Entretanto, na prática, não o faz. Há outros interesses por trás dela. No momento, a ISA tem dois mandatos que são contraproducentes.

Os impactos da polêmica da mineração submarina. Ilustração, pewtrusts.org.

Um deles, que está nos artigos 136 a 145 [da Convenção da ONU sobre o Direito do Mar], tem a ver com o patrimônio comum da humanidade, com a busca da igualdade de todos os países, com a promoção da pesquisa e outros aspectos muito positivos. Mas, por outro lado, possui os artigos 150, 151 e 152, que focam em produção, exploração e lucro.

CDO: O mandato da ISA é positivo?

Seria positivo se tivéssemos conhecimento disponível. Sabemos muito pouco sobre o fundo do mar. Não temos dados e pesquisas suficientes para entender o que está acontecendo em águas profundas. Durante meus cinco anos como diretor do escritório de gestão ambiental e recursos minerais da ISA, vi muitas irregularidades.

A Zona Clarion-Clipperton, que fica no meio do Oceano Pacífico entre o México e o Havaí, é uma das áreas mais exploradas. Estima-se que tenha quase o dobro do tamanho do México, e lá existem 17 contratos de exploração de 75 mil quilômetros quadrados cada.

Mapa de áreas requisitadas para mineração submarinaImagem, https://www.un.org/.

(Segundo o ocean.economist.com, ‘os acordos legais de 15 anos posicionam os países e empresas para obter o direito de explorar, ou de realizar mineração comercial real, uma vez que o código de mineração seja acordado).

Existem empreiteiras que enviam cem amostras do que encontram em sua concessão — uma amostragem insignificante. É como se fôssemos para o meio do Central Park em Nova York, que tem 3,4 quilômetros quadrados, e fizéssemos um teste com um tubo de dez centímetros para determinar quantas minhocas existem em todo o local. É possível medir a biodiversidade dessa forma?

Como vamos medir o impacto real que estamos gerando? Não é possível com esses dados. Mas tendo apenas isso em mãos, querem promover a mineração subaquática.

CDO: Como você avalia o trabalho da ISA?

Há uma enorme inclinação em favor de novos empreiteiros. Muito pouco trabalho de pesquisa tem sido feito, mas eles ainda querem fazer a mineração. Como acabei de dizer, eles estão se baseando em evidências muito ruins. A ISA está respondendo em prol dos interesses da mineração dos oceanos.

CDO: Em junho deste ano, o pequeno estado insular de Nauru invocou uma regra nunca antes utilizada, que leva a ISA a permitir a mineração em dois anos, sob quaisquer regulamentos que estejam em vigor no momento. Quão importante é o “gatilho de Nauru”?

Em 2013, o então primeiro-ministro britânico David Cameron declarou que a mineração submarina geraria £40 bilhões [mais de R$ 300 bilhões] para a economia britânica nos 30 anos seguintes…

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Portanto, não me surpreende que Nauru, uma ilha com uma economia incipiente, mas que faz parte da Commonwealth, tenha feito este pedido.

Por trás deste movimento estratégico estão DeepGreen e The Metals Company (The Metals Company, anteriormente DeepGreen Metals, é uma startup canadense de mineração fundada em 2011 por David e Robert Heydon. A empresa está focada na mineração em alto mar de nódulos polimetálicos do fundo do mar.) — empresas que estão promovendo de todas as formas a mineração do fundo do mar.

A nódulos polimentálicos pode levar até 3 milhões de anos! Ilustração, https://worldoceanreview.com/.

Por outro lado, até hoje ainda não existe uma peça fundamental em toda a história, um código de mineração submarina. Como reforça matéria da ocean.economist.com: ‘ Esperava-se que a ISA publicasse o código de mineração em 2020. No entanto, o cronograma  está atrasado, os países membros concordaram em levar mais tempo para desenvolver os projetos de regulamentos de exploração’.

E prossegue o texto: ‘As empresas de mineração de alto mar que participaram da reunião do ISA também querem clareza sobre os padrões ambientais para que possam preparar operações futuras e calcular os custos de investimento necessários’.

Jamaica acaba de ganhar um contrato de exploração

CDO: Parece que tudo está confuso…

Aqui está outro exemplo: a Jamaica, também da Commonwealth, acaba de ganhar um contrato de exploração. Quando vi para quem estava por trás dele, havia empresas que estavam na Inglaterra e que valiam apenas um dólar.

E essas empresas estavam justificando os custos de exploração durante os cinco anos seguintes com a quantia de US$ 2 milhões. Como isso é possível? Como o secretário-geral da ISA, o inglês Michael Lodge, não faz uma análise técnica dessa situação ou pergunta de onde vem esse dinheiro? Um pouco estranho, não é?

CDO: O que você quer dizer?

Assista aos vídeos do DeepGreen. Estamos caminhando para a destruição dos oceanos. Se nada for feito, em 25 de junho de 2023, Nauru começa a exploração. E com isso, todos os países. Haveria um caos e uma destruição sem precedentes, porque ninguém controlaria a atividade.

máquinas pesadas para extração de minerais submarinosCom máquinas deste porte revolvendo o assoalho marinho é quase impossível não haver severo impacto ambiental. Imagem, Nautilus Minerals.

CDO: E quanto à ISA?

Se ela continuar com a mesma atitude que teve até agora, dará carta branca à mineração submarina. Haverá uma reunião em dezembro, mas nada é feito nessas reuniões. Eles só validam técnica e legalmente tudo o que a secretaria lhes apresenta sem nenhuma objeção. A maioria dos membros se cala e ninguém se pronuncia. A ISA acabará validando o início da exploração.

A polêmica da mineração submarina e as propostas do Dr. Sandor Mulsow

Antes de encerrar, Mulsow propõe que os países assinem uma moratória (já em andamento, ao menos por titãs da indústria de tecnologia como as montadoras BMW e Volvo, e ainda a Samsung, e o Google) que não permita a exploração subaquática até que tenhamos certeza científica sobre o que devemos fazer.

Pôr freios na ISA

Mulsow sugere pôr freios na ISA, ‘Também é necessário que haja uma reforma na ISA para assegurar que os processos de tomada de decisão e regulamentação sejam transparentes, inclusivos, eficazes e ambientalmente responsáveis. Isto só pode acontecer quando a ISA fizer de fato parte da ONU. A ISA é um órgão independente, não responde a ninguém’.

O Brasil e a extração mineral submarina

O Brasil é um dos países que está adiantado na questão. Em 2014, o País ganhou autorização da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos para estudar a região da Elevação do Rio Grande por 15 anos, visando fazer um levantamento geológico atrás de sua possível  riqueza mineral.

A Elevação do Rio Grande fica a cerca de 1.500 km da costa (litoral do Rio Grande do Sul), em águas internacionais. A Marinha do Brasil estuda a região em parceria com a academia. Recentemente, a USP descobriu uma jazida no fundo do mar, tida como um ‘tesouro submarino’ em forma de jazidas minerais.

O lado bom e ruim para o Brasil

Como nação signatária da ISA, o Brasil tem todo o direito de estudar o subsolo marinho e, ao descobrir jazidas de valor, requerer o direito internacional de lavra.

Somos um País em desenvolvimento com imensas carências sociais, e uma das piores divisões de renda do planeta. Logo, explorar petróleo offshore, como a Petrobras vem fazendo, é uma obrigação apesar dos riscos de acidentes num mar já muito degradado pela poluição, exploração descontrolada de recursos vivos, leia-se a pesca, e acidificação entre outros e graves problemas ambientais.

O mesmo raciocínio vale para os estudos das riquezas potenciais do subsolo marinho. Ao que tudo sinaliza, a Elevação do Rio Grande, onde o País desenvolve pesquisas no momento, pode, no futuro, contribuir muito com a balança comercial,  caso se confirmem os previsões que ainda estão no início.

Mas, mesmo que se prove que as riquezas existem de fato, isto não quer dizer que devemos explorá-las agora, quando ainda não se sabe a dimensão dos estragos que a mineração submarina pode causar. São inúmeros os alertas de renomados cientistas sobre os perigos que a atividade pode gerar.

Ao mesmo tempo, com os avanços da tecnologia e mais estudos, é possível que a polêmica da mineração submarina possa ser superada, se realizada com impacto mínimo ou, ao menos, controlado num futuro próximo. É esperar para ver.

‘Uma rápida injeção de centenas de milhões de toneladas dos principais metais usados nas novas baterias será necessária para a transição dos combustíveis fósseis para a energia limpa. A maneira como obtemos esses metais – e como os usamos para construir baterias – terá um impacto enorme. Estamos desenvolvendo a capacidade de recuperar nódulos polimetálicos de maneira responsável  com o mínimo de perturbação. Este breve vídeo destaca como pretendemos coletar, processar e refinar essas rochas notáveis em metais essenciais’.

Imagem de abertura: https://www.311institute.com/

Fontes: https://dialogochino.net/pt-br/industrias-extrativistas-pt-br/49347-sandor-mulsow-autoridade-marinha-isa-age-em-prol-de-interesses-da-mineracao-subaquatica/;   https://ocean.economist.com/governance/articles/international-seabed-authority-under-pressure-over-deep-sea-mining-impacts.

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Juros nos ‘unicórnios’

Por Rennan Setti O Globo 16/01/2022

Uma hora a música tinha de parar. Diante da escalada inflacionária, bancos centrais (BCs) pelo mundo começam a retirar os anabolizantes econômicos injetados em doses cavalares no choque pandêmico. Os consumidores sentem o baque, claro. Mas a redução de estímulos deverá, pelo menos, impor algum freio aos excessos do ecossistema de startups — cujos valores alcançaram a estratosfera justamente quando a economia real implodia. A notícia é boa para quem se preocupa com a saúde da livre concorrência.

Na pandemia, a combinação de juros baixíssimos, estímulos fiscais e imperativo digital fez com que os investidores corressem para aplicar o “dinheiro grátis” em startups. Um termômetro da farra é a proliferação de “unicórnios”, apelido das empresas que valem mais de US$ 1 bilhão. Só no ano passado, surgiram 340 deles nos EUA; no Brasil, a lista subiu de 15 para 25.

É verdade que, desde a crise de 2008, BCs de mercados desenvolvidos já mantinham condições frouxas, e elas prepararam o terreno para a inflação de “unicórnios”. Mas os estímulos pandêmicos foram os catalisadores. No Brasil, a depreciação do real contribuiu, barateando o investimento de fundos do Vale do Silício em startups locais.

A despeito do mérito empreendedor de cada uma delas e da comprovada demanda por seus serviços, há um consenso de que as cifras foram exageradas pelas distorções monetárias do momento. Embora o problema pareça restrito ao bolso dos investidores desse ecossistema, a verdade é que valores inflados têm consequências para além da ponte aérea Faria Lima-San Francisco.

O fluxo quase ilimitado de dinheiro, não raro, financia modelos de negócio que não se sustentam. Como alguns gestores confidenciam, tem muita startup pagando R$ 1 para vender R$ 0,70. É certo que, historicamente, as startups sempre operaram nessa lógica, e a trajetória da Amazon é prova disso. Mas ela só se justifica quando erigida sobre modelos realmente inovadores, com obsessão pela eficiência. Não é o caso de parte importante dos “unicórnios” que têm surgido.

A disponibilidade irrestrita de recursos financia de maneira desproporcional corridas do tipo the winner takes all (o vencedor leva tudo). Trata-se de arena competitiva típica de negócios que se beneficiam do efeito de rede, como marketplaces e redes sociais. Nesses mercados, quanto mais clientes uma startup tiver, maiores são suas chances de atrair novos consumidores — espécie de versão Harvard Business Review do nosso “paradoxo de Tostines”… O resultado óbvio dessa ciranda são monopólios com que os reguladores ainda não sabem como lidar.

Afrouxamentos monetários adotados para dar apoio à economia em momento de fragilidade acabam fomentando monopólios artificiais que, no futuro, terão consequências econômicas deletérias. Pior: como só haverá um vencedor, grande parte do capital aplicado é desperdiçado. Enquanto a startup segue na corrida, esses recursos só beneficiam, na forma de serviços subsidiados, consumidores das classes mais altas em áreas privilegiadas das grandes metrópoles.

A abundância de capital para startups também atropela modelos tradicionais que já se provaram economicamente viáveis. Quando uma startup se impõe graças exclusivamente ao bolso sem fundo do capital de risco — sem modelo de negócio que pare de pé sob condições normais de temperatura e pressão —, dá-se o contrário da destruição criadora de que falava Joseph Schumpeter. Nesses casos, é destruição tout court, sem a companhia do adjetivo.

Inovação é a força vital de uma economia próspera, mas a conta precisa fechar em horizonte factível. Caso contrário, as condições de competição se tornam ainda mais desequilibradas. Unicórnios são bem-vindos, mas precisam de asas, não de turbinas, para voar.

*Colunista do GLOBO

https://blogs.oglobo.globo.com/opiniao/post/juros-nos-unicornios.html
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Chips provocam corrida entre nações para não mais depender da China

Estados Unidos e Europa estão distribuindo milhões em incentivos para construir fábricas de microcomponentes em seu território

Por Caio Saad – Veja – 14 jan 2022 

Os semicondutores, materiais que conduzem correntes elétricas na forma de microchips, são a espinha dorsal do mundo interconectado. Presentes em todos os recantos do universo eletrônico no papel de cérebro de máquinas que vão de simples calculadoras a automóveis, aparelhos de TV, smartphones, videogames, passando pelos equipamentos de exploração espacial, eles se tornaram cruciais para a cadeia produtiva mundial — e, desde a pandemia, também uma enorme dor de cabeça global. 

A elevada procura após quase um ano de demanda reprimida, período em que as esteiras seguiram apenas parcialmente operantes, e a concentração da fabricação em alguns poucos países colocaram os semicondutores no centro de um ringue em que setores diversos se estapeiam para ver quem fica com a produção de indústrias que já operam com capacidade máxima. 

Indo além das leis de mercado, a briga por chips transbordou para uma guerra geopolítica: diante da extrema dependência do fornecimento asiático, ainda mais evidente agora, Estados Unidos e Europa estão distribuindo milhões em incentivos para construir fábricas de chips em seu território.

Depois de explodir em 2021, com crescimento de 26% e faturamento de 550 bilhões de dólares, a venda mundial de chips deve continuar em franca ebulição, segundo as projeções. A maior produtora é, de longe, Taiwan — lá, uma única empresa, a TSMC, fornece quase metade de todos os semicondutores do planeta. 

Os chips da ilha são tão essenciais para o mundo que parte da escassez atual se deve a duas secas sem precedentes, que provocaram uma redução forçada no fornecimento taiwanês nessa indústria que é movida a enormes volumes de água. Juntas, Taiwan e China respondem por 70% dos chips que o mundo consome — e a aberta intenção de Pequim de engolir a ilha, hoje um país reconhecido por poucos e amparado quase unicamente pelos Estados Unidos, faz o Ocidente tremer. 

“A escassez atual expôs os riscos geopolíticos da dependência tecnológica”, alerta Raluca Csernatoni, pesquisadora do instituto Carnegie Europe, sediado em Bruxelas.

ELS TÊM A FORÇA - Asiáticos dominam o mercado do produto: após um ano freada pela pandemia, a demanda explodiu -

ELES TÊM A FORÇA – Asiáticos dominam o mercado do produto: após um ano freada pela pandemia, a demanda explodiu – Liu Yucai/VCG/Getty Images

NA BRIGA - Biden: a ideia é dar incentivos à produção em solo americano -NA BRIGA – Biden: a ideia é dar incentivos à produção em solo americano – Drew Angerer/AFP

Os Estados Unidos continuam a ser o motor da pesquisa e desenvolvimento de chips, uma atividade dominada por empresas do Vale do Silício, como Nvidia e Qualcomm, e cada vez mais requisitada diante da acelerada especialização dos semicondutores. 

Em relatório recém-publicado, a Casa Branca destacou as vantagens de estar à frente no design do produto, mas a posição perde força quando se constata que os chips que os americanos criam são, quase todos, feitos na Ásia. 

Devolver para os Estados Unidos a cadeia produtiva de diversos itens considerados estratégicos era uma bandeira de Donald Trump, que para isso impôs tarifas extras e termos duros para o comércio, principalmente com a China. 

A política não teve muito resultado — até a pandemia chegar e estabelecer a desordem nas engrenagens do fornecimento, levando as empresas a repensar sua localização.

O governo de Joe Biden está empenhado agora em passar no Congresso uma lei com o objetivo de reservar um aporte bilionário para impulsionar a proliferação de fábricas de chip em solo americano, uma tentativa de escapar das garras do dragão chinês. Enquanto a bolada não vem, injeções de verbas estaduais começam a mudar a paisagem. 

A Micron Technology, sediada no estado de Idaho, anunciou recentemente que vai investir 150 bilhões de dólares nos próximos dez anos em pesquisa, desenvolvimento e fabricação dos tão disputados chips no seu local de origem. Também a sul-coreana Samsung reservou 17 bilhões de dólares para erguer uma fábrica de semicondutores no Texas.

arte Chips

Igualmente preocupada em garantir pronto acesso aos componentes do mundo digital, a União Europeia formulou um projeto de lei que mira alavancar de 5% para 20% seu quinhão no mercado de semicondutores até o fim da década. 

Os maiores investimentos são na região de Dresden, na Saxônia, localizada na antiga Alemanha Oriental — a região, apelidada de “Vale do Silício saxão”, fornece hoje um de cada três chips feitos na Europa e tem entre seus compradores gigantes como Apple, Samsung e Amazon. 

Os semicondutores floresceram ali nos anos 1990, aproveitando a oferta de especialistas em microeletrônica treinados pela Alemanha comunista e desempregados após a queda do Muro de Berlim. A ideia agora é abrir a Saxônia a imigrantes qualificados e aumentar assim em quase 50% a força de trabalho dedicada aos chips. 

Na contramão global, o mercado brasileiro perdeu sua única fábrica de chips (também a única do Hemisfério Sul) em junho, quando o Ministério da Economia fechou o Centro de Excelência em Tecnologia Eletrônica Avançada, estatal criada em 2008. De fato, a empreitada estava dando prejuízo aos cofres públicos. 

“Alcançar uma posição de força na cadeia de produção dos semicondutores leva tempo e é tarefa difícil para quem está chegando”, afirma a especialista Raluca Csernatoni. Pelo visto, vamos continuar produzindo apenas commodities no grande jogo global. Quase nada de tecnologia.

Publicado em VEJA de 19 de janeiro de 2022, edição nº 2772

https://veja.abril.com.br/mundo/chips-provocam-corrida-entre-nacoes-para-nao-mais-depender-da-china/

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Brasileiro confia pouco nas pessoas e isso freia avanços, aponta estudo

Pesquisa do BID diz que o Brasil está na lanterna de nações do continente em que os cidadãos têm mais confiança nos outros; Uruguai lidera ranking, enquanto Venezuela ocupa penúltima posição

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo 13 de janeiro de 2022 

BRASÍLIA – Brasileiros e latino-americanos confiam menos nas pessoas do que o restante do mundo, e isso está contribuindo para o baixo desenvolvimento econômico e social da região. É o que concluiu estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), obtido pelo Estadão/Broadcast com exclusividade. 

O documento, que será divulgado hoje, mostra que apenas 12,6% dos latino-americanos confiam na maioria das pessoas. Último colocado entre os vizinhos, o Brasil tem desconfiança ainda maior: somente 4,69% dos brasileiros acreditam uns nos outros.

Movimentação na Avenida PaulistaApenas 4,69% dos brasileiros acreditam uns nos outros; o empoderamento dos cidadãos é uma forma de reverter o quadro. Foto: Tiago Queiroz – 4/10/2021

O porcentual está abaixo da média mundial (25%) e dos países ricos que integram a OCDE (41%). O estudo analisou correlações entre a confiança e questões como níveis de produtividade, inovação e formalização do mercado de trabalho e concluiu que, quanto maior o descrédito, pior são as questões econômicas e sociais.

Na América Latina, o nível de confiança é maior em países com maior desenvolvimento econômico e humano: no Uruguai (21,08%), no México (18,37%) e no Chile (17.07%). Na Argentina, o porcentual é de 16,15%. O penúltimo colocado, ainda à frente do Brasil, é a Venezuela, com 5,21%.

“Quando pensamos em política pública, vêm à cabeça temas como reformas fiscais e produtividade, que são essenciais, evidentemente, mas a confiança também é um tema central para a recuperação econômica”, disse ao Estadão/Broadcast o representante do BID no Brasil, Morgan Doyle.

Obstáculo

Doyle afirmou que a desconfiança prejudica o apoio a reformas, trava a inovação e prejudica a redução da burocracia. “A boa notícia é que o Brasil tem ferramentas para superar esse desafio: é enorme o potencial do País, por exemplo, em digitalização, uma das chaves para aumentar transparência, empoderar cidadãos e gerar mais confiança.”

Para o BID, aumentar a confiança é fundamental para a recuperação econômica na América Latina e Caribe no pós pandemia. “A confiança é o problema mais urgente e ainda assim menos discutido na América Latina e no Caribe. Seja nos outros, no governo ou em empresas, a confiança é menor na região do que em qualquer outro lugar do mundo”, afirmou o texto.

Informação

O estudo oferece recomendações para os formuladores de políticas públicas de como reduzir o problema. De acordo com o organismo, é necessário reduzir as diferenças no acesso à informação, “investindo em órgãos reguladores de alta qualidade e educando e informando melhor os cidadãos para lhes dar as condições necessárias para detectar e evitar comportamentos não confiáveis”.

“Os governos também precisam reduzir as assimetrias de poder, aumentando a prestação de contas e fortalecendo instituições de controle externas para que os cidadãos e empresas sintam que podem confiar nessas instituições quando forem desrespeitados por governos, empresas ou outros cidadãos”, disse o BID.

Entre as sugestões estão ainda maior transparência no orçamento público e na regulação, fortalecer partidos, eleições e sociedade civil e aumentar as oportunidades de participação dos cidadãos.

Governos e instituições

O descrédito na América Latina não é maior apenas nas outras pessoas, mas também em governos e instituições. O estudo do BID mostra que somente 29% dos latino-americanos têm confiança no governo, ante 44% no mundo todo e 38% dos países ricos. Os dados segmentados não foram detalhados por país.

A região também tem menor segurança em instituições, como o sistema judicial e nos militares e nas eleições. A fé no estado de direito é tida por 44,8% dos latino-americanos, ante 50,8% no mundo todo e 86,12% na OCDE. 

O estudo mostra ainda que a menor confiança está relacionada a democracias mais frágeis, menos inovação e disposição a riscos. Além disso, nos países com maior descrédito há mais informalidade no mercado de trabalho, maior ineficiência nos mercados financeiros, políticas anticrime menos eficazes. Também há menos demandas por bens e investimentos públicos

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,brasileiro-confia-pouco-nas-pessoas-e-isso-freia-avancos-aponta-estudo,70003949144

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‘A inteligência artificial será muito mais poderosa que nós’, diz cientista que virou referência no tema

Stuart Russell, professor da Universidade da Califórnia e um dos maiores especialistas em ciências da computação do mundo, alerta para a relação entre IA e poder político e econômico

Eduardo Graça O Globo 13/01/2022 

SÃO PAULO – Professor da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA), Stuart Russell é um dos maiores especialistas em ciências da computação e inteligência artificial (IA) no mundo. Foi vice-presidente do Conselho de IA e Robótica do Fórum Econômico Mundial e consultor da ONU para o controle de armas.

Um dos autores de “Inteligência artificial”, livro que é referência acadêmica central no tema, o britânico lança agora no Brasil “Inteligência artificial a nosso favor: como manter o controle sobre a tecnologia” (Cia. das Letras).

Em conversa por e-mail com O GLOBO, Russell destaca o avanço impressionante da IA em áreas como a de carros autônomos (“serão mais popularizados nesta década”), mas alerta para seu efeito na desigualdade: “Mais pessoas serão marginalizadas”.

Ele defende uma moratória para o uso da tecnologia na indústria armamentista: “Pode haver impacto devastador comparável ao de bombas nucleares”.

Professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, Stuart Russell é um dos maiores especialistas em ciências da computação, inteligência artificial (IA) e robótica no planeta Foto: Divulgação

Professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, Stuart Russell é um dos maiores especialistas em ciências da computação, inteligência artificial (IA) e robótica no planeta Foto: Divulgação

O que o surpreendeu mais no desenvolvimento da IA nos últimos 25 anos?

A locomoção com pernas feita de forma incrivelmente ágil, semelhante a um animal, demonstrada em 2010 pelo robô BigDog (da americana Boston Dynamics).

Até então os robôs com pernas eram lentos, rígidos, pesados, caíam ao menor distúrbio. Não mais. Nosso progresso também foi enorme em resolver problemas de raciocínio lógico e de planejamento, nos jogos, na percepção visual e na aprendizagem.

Tradução automática é outro problema difícil e antigo essencialmente resolvido para fins práticos. Os carros sem motoristas já são uma realidade e vão se difundir ainda mais nesta década.

Já robôs completamente autônomos e domésticos podem estar mais distantes, pois exigem muito mais flexibilidade para lidar com as complexidades, por exemplo, de um canteiro de obras ou de uma residência.

Em outubro, o senhor alertou oficiais da Defesa britânica sobre riscos da IA na indústria de armamentos. Algumas reportagens deram conta de que o senhor fez comparações com bombas nucleares…

Não disse textualmente que sistemas de IA armados poderiam acabar com a Humanidade, mas sim que grandes enxames de armas-robôs letais podem ter um impacto devastador comparável ao de armas nucleares. E seria muito mais “em conta”, mais fácil de se construir e de se usar.

A ‘guerra’ do robô aspirador: iRobot, fabricante do Roomba, tenta barrar rival SharkNinja do mercado americano

Não haveria ruína radioativa e (como já se vê com os drones usados pelos EUA na Ásia) será possível matar apenas pessoas-alvo. Preciso dizer que me deu alegria, aliás, o Brasil, por meio de tratado internacional, apoiar a campanha para se banir estas armas autônomas letais.

Uma moratória de armas autônomas letais seria de fato possível com EUA e Rússia opostos à medida?

É preciso banir todas as armas que localizam, selecionam e atacam alvos humanos sem supervisão de um ser vivo responsável, ou seja, as autônomas letais. E banir a pesquisa, a criação, o desenvolvimento e o uso.

E mais: deveríamos ter mecanismos de fiscalização e punição na linha da Convenção Sobre as Armas Químicas (CWC, na sigla em inglês), de 1997, podendo exigir que fabricantes de determinados dispositivos interrompam imediatamente a produção e/ou façam uma seleção rigorosa de compradores em potencial.

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Também se poderia incluir restrições no design de drones pilotados remotamente, para garantir que qualquer alteração de software não os transforme em armas autônomas.

No momento, de fato, EUA e Rússia bloqueiam o avanço de um tratado global. Há a possibilidade de que o tema, hoje em Genebra, seja levado para a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, onde não haveria necessidade de unanimidade para aprovação. Ou, como no caso do Tratado de Ottawa, de 1997, que bane as minas terrestres, de ser negociado fora do âmbito da ONU.

De qualquer forma, não entendo por que EUA e Rússia arriscam permitir a possibilidade de criação de armas de destruição em massa ‘baratas’, que podem ser produzidas e oferecidas de forma perigosamente ampla.

Países como o Brasil, que sofrem com violência urbana, em áreas sem controle do Estado, deveriam estar atentos à proliferação deste tipo de armas?

No México, cartéis já estão usando drones controlados à distância para assassinar rivais. É uma questão de tempo para tentarem usar armas-robôs letais. Mas há um porém estratégico: se não for para o uso em escalas gigantescas, como em um ataque-enxame, não vejo vantagem no uso deste tipo de armamento inteligente.

Inclusive, o tratado que está sendo discutido bane o uso de armas-robôs apenas no caso de enfrentamento entre nações, não para uso local. É como o gás lacrimogêneo. Os países, individualmente, poderão banir a produção local, a importação e o uso em seu solo destas armas.

Não há hoje, no entanto, legislação voltada para o tema. A Comunidade Europeia bane qualquer decisão “tomada por algoritmo” que tenha “efeito legal similar” ao de um indivíduo, mas não trata de armamentos ou de ação que cause a morte de outra pessoa. Defendo a lógica de se estender a interpretação para armas inteligentes letais…

Quais outros aspectos merecem atenção urgente no desenvolvimento da IA?

Os algoritmos nas redes sociais, que têm papel central no aumento da polarização e na amplificação da desinformação. Também precisamos pensar sobre o que acontecerá se tivermos sucesso em criar uma espécie de super-homem artificial inteligente.

Quando (o matemático e cientista britânico) Alan Turing (1912-1954) considerou esta possibilidade, em palestra em 1951, afirmou que “após se iniciar um método de pensamento da máquina, não demorará muito para ela nos superar, devemos esperar que em algum momento elas assumam o controle”. Ou, de outra maneira: uma inteligência artificial de uso geral será sim muito mais poderosa que nós.

Mas, o título de seu livro diz ser possível usar inteligência artificial a nosso favor…

Como assegurar que ela não se voltará contra nós? Há muitas maneiras de se responder esta questão, e todas incluem repensar completamente a maneira como estamos projetando e construindo hoje os sistemas de IA. E, claro, precisamos fazer isso antes de criar essa IA de uso geral.

O aumento das desigualdades sociais é uma preocupação?

Sim, central. Se seguirmos os caminhos de hoje, quem controlar os sistemas de IA terá gradualmente mais poder econômico em escala global. Mais pessoas serão marginalizadas e a “democratização” da tecnologia não resolverá a questão.

Se uma casa construída por robôs custar US$ 20 mil e uma por humanos sair por US$ 200 mil, “democratizar” o acesso tecnológico, em um mundo em que a moradia permanecerá sendo um problema social central, não protegerá o emprego das pessoas.

Temos de pensar em mecanismos tributários específicos ou num esquema de participação acionária especial para garantir que os benefícios econômicos gerados pela IA sejam amplamente compartilhados.O problema é que nenhum de nós consegue oferecer, até o momento, visão convincente deste novo mundo em que sistemas de IA farão a maior parte do que hoje chamamos trabalho. 

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Como a Estônia se tornou a sociedade mais digital do mundo

Atualmente, 99% dos serviços públicos do país, como registros de empresas, certidões de recém-nascidos e pagamento de taxas, são acessados de maneira online. Alta conectividade traz ganhos para o PIB e ajuda o cidadão a ter mais tempo livre

LabNeofeed 10/01/2022

Vamos imaginar que houve um acidente de carro com uma vítima que precisa ser levada para o hospital. Assim que chega ao local e identifica a pessoa que necessita de socorro, o atendente da ambulância acessa, digitalmente, o tipo sanguíneo dela, as possíveis alergias e outras informações que poderão assegurar o melhor atendimento médico possível.

Enquanto isso, o hospital é informado, também digitalmente e em tempo real, que uma ambulância está a caminho com aquele paciente específico. De imediato, o sistema do pronto-socorro resgata todo o histórico médico da vítima e seleciona um profissional – o que estiver melhor preparado para aquele tipo de situação –, para cuidar do indivíduo a partir das informações disponíveis.

O modelo, que tem ajudado a salvar vidas e reduzir os danos causados por todos os tipos de acidentes, não é obra da ficção científica. Ele existe e funciona perfeitamente na Estônia, o pequeno país de 1,4 milhão de habitantes no mar báltico que ganhou a merecida fama de “sociedade mais digital do mundo.”

O exemplo acima é apresentado, com evidente ânimo, por Diego Martins, um dos fundadores e CEO da unico, IDTech brasileira especializada em soluções de identidade digital, como biometria facial e assinatura eletrônica de documentos.

No final de 2021, Martins visitou a Estônia ao lado de outros 16 executivos da unico, entre vice-presidentes, heads de produtos e especialistas da área técnica. Foi a quarta vez que ele esteve no país e, mais uma vez, a experiência trouxe inúmeros aprendizados.

“A Estônia é uma grande referência para nós”, diz Martins. “Contratamos muitas pessoas novas na unico e algumas delas enxergam apenas uma pecinha do quebra-cabeça digital. A viagem representou um jeito de conhecer todas as peças do tabuleiro e mostrar para onde deveríamos ir.”

O grupo se encontrou com representantes do governo estoniano, visitou empresas privadas e dialogou com especialistas de diversas áreas. Ficou claro que não há comparativo no planeta quando o assunto é desenvolvimento digital.

A Estônia passou a investir em programas digitais após a independência da antiga União Soviética, em 1991. O país não tinha os recursos financeiros para rivalizar com vizinhos mais prósperos, como a Finlândia, e decidiu que o único caminho para melhorar a qualidade de vida da população – e, portanto, turbinar o PIB – era a completa digitalização da sociedade.

“A Estônia é uma grande referência para nós”, diz Diego Martins, cofundador e CEO da unico

Desde então, uma revolução ganhou corpo. A espinha dorsal da transformação digital da Estônia foi a criação da infraestrutura chamada X-Road, que permitiu que praticamente todos os sistemas de informação dos setores público e privado se conectassem.

A X-Road foi, digamos, a avenida por onde começaram a trafegar todos os dados e informações dos indivíduos. A partir daí, criou-se o sistema de identidade digital, que atualmente é adotado por 98% da população. Identidade digital, lembre-se, é o foco de negócio da unico.

A identidade digital trouxe avanços extraordinários para a Estônia. Atualmente, 99% dos serviços públicos do país, como registros de empresas, certidões de recém-nascidos e pagamento de taxas, são acessados de maneira online.

A população tem acesso a mais de 2.500 serviços digitais. Quase tudo pode ser feito no ambiente online. Apenas casar e divorciar ainda exige a presença física da pessoa. Ainda.

Martins lembra também que vota-se em casa, por meio do sistema digital. “A pessoa tem um período de 15 dias para tomar a decisão”, diz ele. “Se for o caso, ela pode mudar o voto dentro desse período, o que torna a escolha ainda mais assertiva.”

O sistema de saúde é um exemplo para o mundo. Além do caso relatado na abertura deste texto, o paciente conta com inúmeras facilidades.

Na Estônia, não existem receitas médicas físicas. Elas são 100% digitais. Após a consulta, o médico prescreve o medicamento no sistema online e as farmácias imediatamente são informadas. Basta o paciente ir ao estabelecimento para retirar o remédio.

O sistema financeiro também deixou para trás a era analógica. Em 2021, 99,8% das transações bancárias ocorreram no ambiente online, índice mais alto do mundo.

O CEO da unico destaca que, apesar do elevado nível de digitalização da sociedade, nenhum dado é duplicado. “Se você muda de endereço, basta atualizar a nova informação em um único lugar”, diz. “Alterar conta de água, luz e internet pode ser um caos em um país como o Brasil. Na Estônia, o ecossistema digital é totalmente integrado.”

Ou seja, uma vez transmitida a informação, jamais a pessoa terá de repassá-la novamente. Parece algo banal, mas tem imenso valor. A não-duplicação de dados torna a informação ainda mais confiável e garante que uma pessoa, em especial, é ela mesma, seja qual for a situação.

Outro aspecto que chamou a atenção de Martins e sua comitiva é a segurança dos dados privados. Eles são gravados em blockchain, a mesma tecnologia que registra moedas virtuais como bitcoin. O cidadão sempre é avisado quando alguém tenta acessar os seus dados. Acessos indevidos são passíveis de prisão.

Quais são as vantagens de ser tão digital? Martins aponta diversos benefícios. Apenas com a assinatura eletrônica de documentos – tecnologia que a unico domina no Brasil –, estima-se que a Estônia economize o equivalente a 2% do PIB por ano.

“O segundo benefício visível é que as pessoas têm mais tempo, já que não perdem energia com questões burocráticas”, diz Martins. “Além disso, a economia digital gera um ambiente de confiança e torna a vida das pessoas mais simples.”

Nesse contexto, o que a unico planeja para o futuro? “Queremos ser o grande hub de identidade digital do Brasil”, diz Martins. “As pessoas terão os seus documentos, a sua biometria, os seus dados em um mesmo lugar, de forma segura e com respeito à privacidade. Isso abre as portas para o futuro.” Na Estônia, o futuro já chegou.

Leia a matéria “Como a Estônia se tornou a sociedade mais digital do mundo” em https://neofeed.com.br/blog/home/como-a-estonia-se-tornou-a-sociedade-mais-digital-do-mundo/

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Por que a indústria não exporta?

Gigantinho em termos de PIB, o Brasil é um anão em termos de exportações

Por Edmar Bacha – Valor 31/05/2021 

Causa surpresa que mesmo com o câmbio tão desvalorizado a indústria brasileira não consiga exportar. Em avaliação trimestral da qualidade do comércio exterior, a Confederação Nacional da Indústria observa com desalento que “a participação de industrializados na pauta exportadora caiu de 46% no primeiro trimestre de 2020 para 42% no primeiro trimestre deste ano”.

Tradicionalmente, os representantes da indústria dizem que não exportam porque os juros são muito altos e o câmbio muito valorizado. Os juros baixaram e o câmbio desvalorizou, mas a indústria continua não exportando. Na lista de reclamações dos industriais também constam os impostos altos e distorcidos – mas esses são rebatidos quando os produtos são exportados, portanto, essa também não deve ser a razão.

Em 2018, a fatia das importações no PIB foi de 11,6%, a menor entre 164 países considerados pelo Banco Mundial

O CEO da Pirelli para a América do Sul deu recentemente entrevista a O Globo (23/05) que motiva uma explicação para o paradoxo. Depois de se referir à imprevisibilidade do governo e ao retardamento da reforma tributária, diz: “Além disso, o real tão desvalorizado frente ao dólar também não ajuda”. Real desvalorizado não ajuda a indústria? Como pode ser?

Vamos por partes. Os economistas costumamos dividir os bens e serviços num conjunto que chamamos de comercializáveis – os que entram no comércio exterior – e outro que chamamos de não-comercializáveis – os destinados exclusivamente ao mercado interno.

 A indústria em geral devia estar nos produtos comercializáveis, pneus em particular podem ser exportados e importados. Se os pneus fabricados no Brasil são comercializáveis, por definição deveriam se beneficiar de um real desvalorizado, pois este encarece os pneus importados em moeda nacional e barateia os pneus nacionais em moeda estrangeira. Por que, então, a desvalorização do real não ajuda?

A explicação parece estar num fenômeno observado nos anos 1960 pelos economistas Harry Johnson e Jagdish Bhagwati e por eles denominado de “crescimento empobrecedor”. Quando uma multinacional investe no Brasil, ela o faz para substituir produtos que antes exportava para o país e que agora não consegue mais fazê-lo pelo aumento das tarifas às importações. Os produtos que fabrica aqui são mais caros que os importados, mas ainda assim conquistam o mercado interno por causa da proteção tarifária. Como são produtos caros e possivelmente de qualidade inferior não conseguem ser exportados, mesmo com o câmbio desvalorizado.

Embora aparentemente comercializáveis, esses produtos são na prática não-comercializáveis, cujos custos, que incluem insumos importados, aumentam quando o real se desvaloriza. Para os acionistas da multinacional, pior ainda. Pois vendem os produtos localmente em reais, mas querem converter seus lucros em moeda forte e esses encolhem quando o real se desvaloriza.

Isso esclarece por que a desvalorização não ajuda. Uma multinacional que vem para o Brasil para substituir importações e explorar o mercado interno vê seus lucros em moeda forte diminuídos quando o real se desvaloriza.

O país permite a livre entrada de empresas estrangeiras, mas cria embaraços às exportações e importações de bens e serviços. Esta é uma receita pronta para o crescimento empobrecedor de que falam Harry Johnson e Jagdish Bhagwati. As multinacionais prosperam ao explorar o mercado interno protegido. 

Por exemplo, produzindo e vendendo, dentro do país, carros de qualidade inferior com preços elevados, pois não há a concorrência de carros importados nem a possibilidade de produzir carros melhores, devido às restrições à importação de máquinas e insumos de qualidade. Mas o resto do país empobrece, ao ver seus recursos domésticos aplicados na substituição ineficiente de importações (automóveis caros e de qualidade inferior aos importados) em lugar de serem empregados na produção de bens e serviços nos quais o país poderia competir no mercado internacional.

Em contraste com a abundante evidência dos benefícios do comércio internacional, o Brasil permanece sendo umas das economias mais fechadas do mundo. Grandes economias são grandes exportadoras: os Estados Unidos são a primeira economia do mundo e a segunda maior exportadora; a China é a segunda maior economia e a primeira exportadora; o Japão é a terceira maior economia e a quarta maior exportadora; a Alemanha é a quarta maior economia e a terceira maior exportadora; a França ocupa a quinta posição tanto no tamanho da economia quanto na importância das exportações; o Reino Unido tem a sexta maior economia do mundo e é o décimo maior exportador.

Já o Brasil, em 2018 a oitava maior economia do mundo, era apenas o 25º maior exportador. O PIB do Brasil representava 3% do PIB mundial, mas suas exportações alcançaram apenas 1,1% das exportações mundiais. Um gigantinho em termos de PIB, o Brasil é um anão em termos de exportações.

O que se vê do lado das exportações se confirma do lado das importações. Em 2018, a participação das importações no PIB do Brasil foi de apenas 11,6%. Esse é o menor valor entre os 164 países considerados pelo Banco Mundial.

O que fazer? A resposta quem sugere é o ex-prócer da indústria automobilística, Carlos Ghosn, em entrevista há tempos para o Valor. Quando perguntado por que não fabricava aqui Renaults de tão boa qualidade quanto os franceses, ele respondeu: “Deixem-me importar insumos da Europa que eu produzo aqui carros tão bons quanto os de lá”. É o que fez o México, cuja indústria automobilística, integrada às dos EUA e Canadá, fabrica automóveis com produtividade duas vezes maior do que a brasileira, como estima a consultoria McKinsey.

Para o país interessa atrair multinacionais, mas não somente para vender ao mercado interno, e sim para também exportar como o fazem no México e na Ásia. Para isso, é necessário melhorar a qualidade, ter maior especialização, expandir a escala e acirrar a concorrência. O que só se consegue com integração às cadeias internacionais de valor. Urge abrir a economia para que a indústria brasileira consiga exportar quando o câmbio se desvaloriza!

Edmar Bacha é economista

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/por-que-a-industria-nao-exporta.ghtml

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O enigma de Tim Cook e seu papel na Apple

Desacreditado quando substituiu Steve Jobs, executivo mostrou eficiência e aumentou a receita e o lucro

Por Patrick McGee — Financial Times/Valor 10/01/2022

Dois anos após a morte de Steve Jobs, o CEO da Oracle, Larry Ellison, afirmou ser inevitável que a Apple enfrentaria problemas sob o comando de Tim Cook. Basta ver, disse ele, o que aconteceu com a empresa no período que se sucedeu à demissão de Jobs, em 1985.

“Já sabemos. Nós vimos. Fizemos o experimento”, disse Ellison ao apresentador do programa de entrevistas Charlie Rose, em 2013. Com o dedo traçando uma curva ascendente, ele disse que a Apple foi um sucesso extraordinário durante o primeiro período de Jobs na empresa, só para despencar – seu dedo veio abaixo – quando ele saiu.

“Vimos a Apple com Steve Jobs” quando ele voltou em 1997 – mais uma vez seu dedo subiu. “Agora vamos ver a Apple sem Steve Jobs” – outra queda. “Ele é insubstituível. Eles não chegarão nem perto do sucesso anterior.”

Poucas previsões já se revelaram tão equivocadas. O triunfo de Tim Cook como sucessor de Jobs foi tão sem paralelo que os números não falam por si, eles gritam por si: o valor de mercado da Apple cresceu em mais de US$ 700 milhões ao dia desde quando Cook assumiu o cargo, em agosto de 2011, até a semana passada, quando chegou a US$ 3 trilhões, antes de voltar a cair.

Com serviços, Cook deu estabilidade à receita, e, diplomaticamente, evitou punições em Bruxelas e nos EUA

Mas Ellison não estava sozinho. “O ceticismo era generalizado” quando Cook foi nomeado, diz Tripp Mickle, autor do livro a ser lançado em breve, “After Steve”, uma história dos últimos 10 anos da Apple. “Seja Wall Street, seja clientes que adoram seus iPhones ou amigos e colegas do setor tecnológico – todos, sem exceção, ficaram apavorados quando ele foi nomeado para o cargo.”

Tim Cook, CEO da Apple desde agosto de 2011 – construiu uma potência para extrair cada centavo do ecossistema da Apple, criando um fluxo contínuo de receitas — Foto: David Paul Morris/Bloomberg

A alta extraordinária do valor de mercado da Apple é fruto da sólida era do smartphone que Jobs instaurou. Mas mesmo os maiores admiradores de Jobs foram obrigados a reconhecer que subestimaram ou entenderam mal as qualidades que Cook trouxe para o cargo, desde excelência em termos de cadeia de suprimentos até perícia diplomática.

A supremacia da Apple durante a “segunda vinda” de Jobs, de 1997 a 2011, tinha fixado para a Apple o paradigma de uma força inovadora, capaz de subverter setores inteiros com produtos únicos. Os lançamentos do iMac, iPod, iPhone e iPad se tornaram temas de filmes. Mas Cook, que ganhou quase US$ 100 milhões em 2021, não se encaixa nesse modelo. Suas habilidades estão em áreas que a cultura popular, na verdade, não alcança, menos ainda valoriza.

“Steve era um incitador visionário, e Tim é um especialista em eficiência, um guru operacional”, diz Ray Wang, presidente do conselho de administração da Constellation Research, sediada no Vale do Silício. “Precisa-se desses dois tipos em uma empresa”, diz. “Precisa-se de uma pessoa que vem com a grande ideia que deixa as pessoas empolgadas, e da pessoa que a põe no mercado em escala massiva.”

Os apoiadores de Cook insistem que ele mudou fundamentalmente a natureza da empresa. Durante seu tempo no comando, as receitas anuais da Apple dispararam dos US$ 108 bilhões computados no ano em que ele assumiu para US$ 365 bilhões em 2021. Os lucros líquidos ficaram 3,7 vezes maiores, ao evoluir de US$ 26 bilhões para US$ 95 bilhões.

Mas mais significativa é a maneira pela qual Cook construiu uma potência para extrair, um por um, cada centavo do ecossistema da Apple, acumulando um fluxo contínuo de receitas recorrentes das comissões da App Store e de uma carteira de quase 800 milhões de clientes que pagam por mídia digital, que se expandiu durante seu mandato. Isso reduziu significativamente a dependência da Apple em relação ao iPhone – e impeliu o valor das ações da empresa para um nível em que sua relação preço-lucro é, agora, três vezes maior do que era dez anos atrás.

“O maior sucesso de Tim Cook é o cultivo e o fomento dos serviços, e o quanto ele foi capaz de revolucionar a maneira pela qual a empresa é percebida pelos investidores”, diz Mickle.

Dois grandes produtos surgiram nos primeiros dez anos de Cook, os AirPods e o Apple Watch – grandes sucessos, com participações de mercado de 25% e de 31%, respectivamente. Mas a divisão de serviços se revelou muito mais significativa. Gerou, no ano passado, quase US$ 70 bilhões de receita – aproximadamente o dobro que a do Mac, do iPad ou de divisões de produtos “de vestir” – e as margens foram de 70%.

“Não atribuímos a Tim o mérito de ter concebido a próxima ideia inovadora, mas o mérito que se pode atribuir a ele é que se tem uma plataforma de hardware que, de repente, tem serviços que responderão por 25% da receita até 2025”, diz Ray Wang. ”Tem-se um ecossistema sem paralelo com qualquer outro. Uma cadeia de suprimentos sem paralelo com qualquer outra. E, em todos os vários ataques às Big Techs, a Apple foi a que melhor os suportou.”

Dan Wang, professor de administração na Universidade da Colúmbia, diz que um dos maiores êxitos de Cook foi dar consistência às operações da Apple. Jobs dava mais foco aos produtos, e não aos serviços, o que trazia uma volatilidade inerente às receitas, como a de uma empresa de artigos de moda. “Se você consegue prever como vão ser os gostos do consumidor no ano seguinte, então você fica com todo o filão […], mas se você erra, tem que arcar com o custo. E o que Tim Cook soube fazer bem foi tirar a Apple desse ciclo, de ter que encontrar um novo produto de sucesso a todo momento”.

Cook provou ter habilidades diplomáticas. Ao dar atenção especial à privacidade do consumidor, ajudou a Apple a evitar a fúria de Bruxelas em meio ao sentimento generalizado antitecnologia. Na China, assinou contratos para expandir ainda mais sua gigantesca base industrial, enquanto erigiu um negócio faturando US$ 68 bilhões no país – muito mais do que qualquer rival tecnológica. E, em Washington, ele evitou tarifas sobre os produtos da Apple recorrendo ao narcisismo de Trump.

“Cook, um legítimo sulista, ligava para Trump o tempo todo. Foi simpático com ele [Trump]”, diz Margaret O’Mara, historiadora de tecnologia e autora de “The Code” (o código). “Ele foi muito perspicaz navegando pelas correntes mais amplas do comércio global, primeiro em meio às tarifas de Trump e, depois, em meio à covid […] o valor da Apple está refletindo essa destreza. Se Jobs [estivesse vivo e] fosse CEO, isso talvez não tivesse saído tão bem”.

Alguns observadores acreditam que Cook também merece ganhar crédito pelo que não fez. A Apple evitou em grande medida, embora não totalmente, juntar-se às fileiras do Google e do Facebook na monetização dos dados de seus usuários, no que a professora de Harvard Shoshana Zuboff chama de “capitalismo de vigilância”.

A Apple tampouco esbanjou em nada desnecessário. A maior aquisição da Apple na era Cook – comprar a Beats, uma marca de fones de ouvido e de serviço de streaming, por US$ 3 bilhões – pôde ser paga com três dias de receita.

Houve alguns produtos que fracassaram. O sistema de alto-falantes HomePod decepcionou. O lançamento do Maps foi malsucedido. As tentativas de construir um carro autônomo parecem ter atolado. Foram, contudo, poucos erros realmente dignos de nota.

Paralelamente, a Apple produziu com cadência regular novas versões de seus produtos, atraentes o suficiente para que os consumidores aceitassem pagar valores relativamente mais altos que os de aparelhos rivais, em níveis que o resto do setor apenas é capaz de sonhar. O iPhone teve uma participação de mercado de 17% em 2021, mas ficou com 80% do lucro da indústria de smartphones como um todo, segundo a Counterpoint Research.

Wang, da Constellation, diz que um dos maiores feitos de Cook é ter mostrado percepção aguçada sobre onde a Apple deveria competir ou não. “O trabalho de Tim, todos os dias, é dizer ‘o que não vamos fazer?’”, diz. “Não é uma questão do que eles podem fazer. Há tantas opções. Quero dizer, a Apple poderia comprar a Irlanda amanhã. É assim de ridículo. Esse nível de maturidade e gerenciamento que Tim Cook tem exercido se compara ao de um estadista”.

Wall Street adora Cook por dois motivos. Um é a recompra de ações. O número de ações da Apple nos últimos dez anos caiu 37%, de 26 bilhões, segundo números ajustados, para cerca de 16 bilhões hoje. Como resultado, o lucro por ação aumentou 5,6 vezes. Dessa forma, enquanto a capitalização de mercado da Apple aumentou nove vezes em dez anos, os preços das ações subiram 14 vezes.

Outro motivo é o pagamento de dividendos, que a Apple retomou em 2012, após um intervalo de 17 anos. Dessa forma, em termos de retorno total, os acionistas na era Cook ganharam 33% ao ano durante dez anos.

Se Cook deveria receber todo ou a maior parte do crédito pelo crescimento do valor de mercado da Apple é algo sueito a debate.

Os últimos dez anos de políticas que facilitaram a captação de dinheiro, a grande adesão das pessoas aos dispositivos móveis e o surgimento da computação em nuvem foram muito favoráveis ao setor de tecnologia. No mesmo período em que o valor de mercado da Apple subiu cerca de US$ 2,7 trilhões, a Microsoft ganhou US$ 2,1 trilhões, a Alphabet, US$ 1,6 trilhão, e a Amazon, US$ 1,5 trilhão.

A parte mais difícil de explicar é a valorização espetacular durante a pandemia. A Apple, uma feliz beneficiária da onda de trabalho remoto, viu o preço das ações da mais do que dobrar desde o lockdown de Wuhan (China) em janeiro de 2020. Isso coloca em dúvida sobre até que ponto toda essa valorização foi realmente produto das ousadas políticas de estímulo adotadas por governos ocidentais.

O’Mara, a historiadora, diz que é difícil racionalizar qualquer comparação do valor de mercado hoje em relação ao passado recente do setor de tecnologia. Ela recorda que, quando o valor da Netscape decolou em seu primeiro dia de negociação em 1995, “isso sacudiu o mundo de todos”. E o valor da empresa era de pouco menos de US$ 3 bilhões. Agora, diz O’Mara, uma fabricante de veículos elétricos como a Rivian pode ser avaliada 50 vezes acima disso, tendo entregue 150 veículos até hoje. “É um reflexo da loucura que é o sistema financeiro global”, diz. “Há muito dinheiro em todos os lugares.”

Ron Adner, professor de estratégia do Dartmouth College, argumenta que a Apple poderia estar ainda melhor se Cook tivesse sido capaz de igualar a capacidade de Jobs de construir plataformas que permitem aos parceiros compartilhar o sucesso da Apple. “Com Jobs, a Apple foi magistral na transição do iPod para o iPhone”, diz ele. “Pois o que tornou o iPhone tão especial não é o fato de ser um celular tão diferenciado – Samsung e HTC o copiaram de imediato, mas foi o acordo que a Apple fechou com as teles. E foram os termos que eles puderam impor aos programadores por meio da App Store.”

Sob o comando de Cook, diz Adner, a Apple foi uma e outra vez vítima do que ele chama de “armadilha do egossistema”, referindo-se ao empenho ferrenho da Apple em garantir sua posição de líder. “Cook fez essas declarações grandiosas, sobre [os mercados de] casas inteligentes, meios de pagamento, saúde, televisão, educação e editorial — todos essesecossistemas que eles iriam virar de ponta-cabeça, mas eles foram incrivelmente ineficazes em promover mudanças reais nisso”, diz Adner. “São incapazes de fazer com que os parceiros se alinhem a seu plano.”

Apesar do valor recorde da Apple, a reputação inovadora de Jobs é tão grande na imaginação cultural que há uma sensação persistente de que Cook precisa comandar o lançamento de algo verdadeiramente importante para realmente cimentar seu legado.

“Ele sempre terá algo a provar até que eles realmente entrem numa nova categoria de produto ou em algo que as pessoas digam: ‘Meu Deus, nunca pensei que alguém inventaria isso’”, diz Aaron Cheris, que dirige área de varejo nos Estados Unidos da consultoria Bain. “Ele precisa desse momento mágico.”

Cheris acrescenta que os altos escalões em torno a Cook são compostos em grande parte por executivos da era Jobs, e não por pessoas que ele trouxe para a empresa. Dos 12 principais executivos da Apple, apenas três vieram para a Apple depois da morte de Jobs. “Ele não formou essa equipe, ele a herdou em grande medida”, diz Cheris.

Leander Kahney, biógrafo não oficial de Cook, considera que o legado de Cook já está sacramentado. Ele argumenta que os AirPods e o Apple Watch se tornaram produtos emblemáticos e que as vendas desses aparelhos “usáveis” superaram as do iPod em seu auge, e o fizeram por muitos anos. Cook, entretanto, não recebe o reconhecimento que merece, diz Kahney, por seu estilo discreto e sua inclinação a dar espaço no palco a dezenas de outros executivos.

“Ele simplesmente não ganha o crédito, porque não absorve o crédito do jeito que Jobs fazia.” (Colaborou Richard Waters) (Tradução de Rachel Warszawski e Sabino Ahumada)

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2022/01/10/o-enigma-de-tim-cook-e-seu-papel-na-apple.ghtml

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O que explica o troca-troca de empresa dos profissionais de tecnologia

Pesquisa mostra que 9 em 10 profissionais digitais da América Latina pretendem mudar de empresa em até dois anos; mas busca não é só por quem paga mais

Por Victor Sena – Exame –  07/01/2022

Eles são disputados pelas empresas pelo menos desde que os computadores chegaram aos escritórios na década de 80. Já fazem quase 40 anos, mas os profissionais de tecnologia, como desenvolvedores e cientistas de dados ganharam o protagonismo do mercado de trabalho.

A demanda é tanta que são eles que escolhem onde vão trabalhar. No Brasil, dados da associação de empresas do setor Brasscom projetam uma demanda de 797.000 profissionais até 2025.

A demanda por profissionais de TI é tão grande que as empresas começaram a se movimentar para capacitar profissionais, em vez de esperar, uma tendência que deve ganhar força neste ano.

Com essa alta valorização, os profissionais costumam ver altos salários sendo oferecidos e a rotatividade do setor também é grande.

A nova edição do estudo Decoding Digital Talent, conduzida pelo Boston Consulting Group (BCG) e a The Network, descobriu que 93% dos funcionários de empresas latino-americanas entrevistados que trabalham em tecnologia ou têm cargos em áreas digitais esperam trocar de empresa nos próximos dois a três anos, enquanto que 64% estão buscando ativamente por novos empregos. Globalmente, as porcentagens foram menores, 73% e 40%, respectivamente. 

A principal razão para trocar de profissão é uma melhor oportunidade de carreira em outras posições.

Entre as exigências desses profissionais, algumas já estão até batidas neste início de terceiro ano de pandemia: nada de obrigação de trabalho presencial, por exemplo. 95% dos entrevistados querem trabalhar de casa pelo menos uma vez por semana; apenas uma pequena fração quer estar em tempo integral no escritório. 

computador programador

Programadores: dados da associação de empresas do setor Brasscom projetam uma demanda de 797.000 profissionais até 2025. (alashi/Getty Images)

A maior parte dos profissionais digitais (46%) prefere também uma combinação de horários fixos e flexíveis. Essa configuração pode exigir, por exemplo, que cada um em uma equipe trabalhe algumas das mesmas horas a cada ou que se combine que as pessoas estejam disponíveis em certos horários em dias específicos da semana.

Embora a pandemia tenha mudado a maneira como as pessoas trabalham, muitas das características que um trabalho precisa ter para reter esses profissionais digitais permanecem. A pesquisa mostra que a principal delas é  contribuir para a manutenção do equilíbrio entre o emprego e sua vida fora do trabalho.

Apesar da mudança das reuniões presenciais para as virtuais, os trabalhadores digitais dão mais importância ao bom relacionamento com colegas e ao reconhecimento pelo que fazem.

Segundo a pesquisa, isso é um lembrete para os gerentes fazerem um esforço para reconhecer e elogiar as pessoas, mesmo aquelas que trabalham remotamente ou em horários que os deixam fora do escritório mais do que estão nele.

Abaixo, veja as 10 prioridades para os talentos digitais levantados no estudo: 

  1. Equilíbrio entre vida profissional e pessoal
  2. Bom relacionamento com colegas
  3. Compensação financeira
  4. Bom relacionamento com o superior
  5. Estabilidade financeira do empregador
  6. Apreciação pelo trabalho
  7. Aprendizado e treinamento de habilidades
  8. Conteúdo de trabalho interessante
  9. Desenvolvimento de possibilidades de carreira
  10. Agenda e espaço de trabalho flexíveis

Para atrair e manter esses talentos, a pesquisa defende que a estratégia das empresas tem de ir além de aumentar o salário simplesmente por aumentar. 

Esses trabalhadores têm fortes valores sociais, ambientais e pessoais, o que costuma estar conectado com o modo de pensar da geração a que fazem parte.

Assim, a recomendação do estudo é que as empresas devem ficar atentas a esses tópicos e desenvolver uma posição e uma “voz” para se comunicar rapidamente com as profissões que são alvo dela no mercado. Ao fazer isso, é possível se conectar rapidamente com a filosofia daquele profissional, garantindo que ele se atraia pelas suas oportunidades profissionais.

Para talentos digitais, o trabalho remoto durante a pandemia também abriu as fronteiras dos seus países. 68% por cento dos trabalhadores digitais dizem que estão dispostos a trabalhar remotamente para um empregador do exterior.

O número é maior do que os 55% dos trabalhadores digitais que dizem que se mudariam para o exterior para trabalhar. Dados de agosto de 2021 já mostravam um crescimento neste tipo de contração. No Brasil, a vantagem é ainda maior devido à taxa de câmbio.

https://exame.com/carreira/o-que-explica-o-troca-troca-de-empresa-dos-profissionais-de-tecnologia/

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