Algoritmos confusos pedem a ajuda de humanos


O colunista Claudio Garcia analisa como o avanço da inteligência artificial depende ainda mais de profissionais qualificados

16/07/2020 por Cláudio Garcia no Valor Econômico

O recente anúncio de Elon Musk que a Tesla deverá, ainda esse ano, ter carros com nível 5 de automação – que podem ser completamente autônomos em qualquer situação – veio no momento em que pouco se tem ouvido sobre avanços na área de inteligência artificial (IA). Por trás desse quase silêncio, existe o fato que nunca se teve tanto trabalho humano no no setor. Mas em vez de novas aplicações e fantásticos avanços, o foco tem sido em retreinar os algoritmos que ficaram confusos com a rápida mudança de comportamento provocada pela covid-19.

A IA precisa de uma grande quantidade de dados, que usualmente são rotulados manualmente para treinar os algoritmos. São anos de investimento, de pessoas dedicadas a compreender um contexto para se aplicar a tecnologia, incluindo todas as variáveis e condições possíveis que possam fazer sentido para se replicar uma dinâmica.

De certa forma, as condições para desenvolvimento de algoritmos para carros autônomos não mudam por causa do vírus. As ruas não ficaram menores, os obstáculos não se deformaram e os sensores não ficaram doentes. Mas não se pode falar o mesmo dos sistemas que são desenvolvidos para interpretar e influenciar o comportamento de humanos.

Sistemas que utilizam IA para marketing, planejamento de produção, armazenamento, fraude, recomendação de conteúdo ou análise de sentimento de clientes foram treinados para uma normalidade que em poucas semanas desapareceu. Não adianta o algoritmo tentar ganhar o cliente com preço promocional para um produto que só pode ser entregue em três meses, quando ele quer pagar mais, mas tê-lo amanhã.

Mesmo no combate à covid-19, a contribuição de IA tem sido menor do que era esperado. A ONU e a OMS, em março, lançaram um relatório sobre o uso de IA em tomografias para identificar deformações causadas pelo vírus. Os resultados ficaram aquém do prometido. A maioria das ações mais precisas na covid-19 vieram de técnicas de estatística e pesquisas médicas tradicionais.

Sem dúvida a IA tem progredido, não só na automação de veículos, como no campo da medicina que viu avanços no combate a vários tipos de câncer. Mas temos que estar alertas ao ‘hype’ por trás da realidade. Sistemas de IA ainda estão distantes de serem eficientes perante o inusitado.

Dados traduzem o que aconteceu no passado e, baseado neles, tentam prever o que pode, não o que irá ocorrer no futuro. Além disso, a IA modifica nossos comportamentos (vide o impacto das rede sociais nas conversas políticas). E, nossos novos comportamentos geram a necessidade dos algoritmos se atualizarem (eliminar o discurso de ódio). Só que esses não se atualizam sozinhos. Não à toa, empresas que dependem de IA, possuem uma dependência enorme de um grande número de cientistas de dados para interpretar anomalias e retreinar algoritmos quando o contexto muda. Muitas que investiram pesado em IA estão, neste momento, lamentando a falta de profissionais para manter esses sistemas. Mais delicada é a imprevisibilidade da influência da IA em nós. É quase impossível prever como comportamentos se ajustam quando influenciados.

No fim, grandes possibilidades tecnológicas caminham em realidades bem humanas, seja quando precisamos desenvolver pessoas para uma relação convoluta com algoritmos ou quando precisamos lidar com as consequências imprevisíveis dessa relação. Esse é o paradoxo que empresas tem muita dificuldade de compreender e gerenciar. A parte tecnológica é observável, testável, mas ilusoriamente previsível, já que dependem, de um não tão preciso ser humano.

*Cláudio Garcia vive em Nova York onde atua como empreendedor, conselheiro de empresas e pesquisador sobre pessoas e organizações.

https://valor.globo.com/carreira/coluna/algoritmos-confusos-pedem-a-ajuda-de-humanos.ghtml

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