Soft Power – a força internacional que o Brasil poderia desenvolver


Por Evandro Milet

O professor de Harvard Joseph Nye propôs o termo soft power (ou poder brando), em um livro de 2004, para designar a forma como uma nação impõe sua influência no resto do mundo por meios diferentes da coerção, do dinheiro e da supremacia militar — o chamado hard power. Poder é a capacidade de influenciar os outros para que façam o que você quer. Há três maneiras de fazer isso: ameaçá-los com porretes, recompensá-los com cenouras ou atraí-los para que queiram o mesmo que você. Essa terceira opção é o soft power e necessita que o estado influenciado tenha alguma admiração pelo estado influenciador.

De acordo com Nye, há três fontes básicas de soft power: cultura, valores políticos e política externa, vista como legítima e com autoridade moral. Segundo Nye, a cultura dos Estados Unidos permite que sua capacidade de influência seja maior que a força militar, diferente do que ocorreu com os impérios Romano e Soviético. É fácil perceber a influência de Hollywood, Disney, Netflix, Spotify, Harvard, Stanford, Google, Apple, Microsoft, Amazon e dezenas de outras siglas. Milhares de estudantes estrangeiros vão estudar nos Estados Unidos e disseminam os valores da cultura americana nos seus países.

O Brasil não terá durante muitos anos capacidade de influência econômica no mundo e muito menos poder militar. Mas poderia ter alguma influência pela cultura, onde despontam a música e as novelas de TV e até pelo futebol. A cena do então ministro da cultura Gilberto Gil colocando todo mundo para cantar e dançar na Assembleia da ONU em 2003, acompanhado no atabaque pelo então secretário geral Kofi Annan, é simbólica dessa posição. A novela Avenida Brasil da TV Globo foi vendida para 130 países com enorme sucesso em muitos deles, provocando até mudanças de hábitos. Assim como é conhecida a fama da novela Escrava Isaura pelo mundo, onde foi vista por mais de 450 milhões de pessoas, incluindo enorme sucesso na China. O carnaval, o samba e a bossa nova marcaram também o nome do Brasil no exterior, numa visão simpática.

Também conta a lenda futebolística, contestada por pesquisadores, que o time galático do Santos, em 1969, parou a chamada guerra de Biafra, na Nigéria, para disputar uma partida contra o time local. Verdade ou lenda, se foi apenas uma forma do governo local de demonstrar domínio da situação, o fato é que o futebol brasileiro, e particularmente Pelé, tinham a capacidade de abrir portas e de levar positivamente o nome do país em um aspecto específico de influência.

Porém, atualmente, o maior ativo de soft power do Brasil poderia ser o meio ambiente. A nossa matriz energética é constituída de 43% de energia renovável, enquanto o mundo usa apenas 14%. Temos 12% das florestas do mundo, e a Amazônia é um ativo inestimável por concentrar a maior diversidade do planeta. Existe um entendimento que o Brasil poderia ser um grande líder de soft power nesse tema, que cresce na opinião pública mundial, se despertar o respeito e a admiração de outros países. 

Se acabar com o negacionismo e os delírios conspiratórios,  e a ameaça de sair do Acordo de Paris, poderia criar essa autoridade moral, se efetivamente atuar para resolver os problemas existentes. É claro que a geopolítica e os interesses comerciais definem muita coisa, mas uma política séria e reconhecida de meio ambiente seria um trunfo no apoio às demandas de entrada na OCDE, no Conselho de Segurança da ONU e para acordos de comércio, que estão cada vez mais exigentes no tema sustentabilidade ambiental. 

Poderíamos transformar o limão em uma limonada, propondo um grande acordo de cooperação internacional com recursos para rastreamento de madeira ilegal, manejo sustentável e aproveitamento da biodiversidade nas indústrias de alimentos, farmacêutica e de cosméticos. Mas soft power exige firmeza, inteligência, menos barulho e mais diplomacia.

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