Em artigo exclusivo, o presidente do Google no Brasil faz uma reflexão sobre os dez anos à frente da empresa de tecnologia no país
Por Fabio Coelho* Exame Publicado em: 02/04/2021
Em março deste ano, completei uma década no comando do Google no Brasil. Desde que cheguei por aqui, muita coisa mudou, mas a imagem do primeiro escritório, ainda pequeno e com apenas alguns computadores de mesa, está gravada em minha cabeça. Hoje, temos uma equipe com mais de 1.200 pessoas que estão trabalhando de casa há mais de um ano por causa da pandemia.
Nesses dez anos, o Brasil se tornou um dos mercados mais relevantes para o Google no mundo, a despeito de todos os desafios locais. Nossos produtos fazem parte da vida e do cotidiano de milhões de brasileiros — seja para ver receitas novas durante a quarentena ou para encontrar informações de qualidade sobre vacinas, apenas para citar alguns exemplos recentes.
Fabio Coelho: “Para evoluir seu negócio, é preciso de muito mais do que um time engajado” (Google/Divulgação)
Refletindo sobre tantas mudanças, compartilho os dez principais aprendizados da última década e as lições de liderança que impactam minha carreira e meu dia a dia.
1) Filtre os excessos
Vivemos em uma sociedade de grande abundância de fatos, acontecimentos e informações, o que muitas vezes pode gerar o chamado “FOMO” (medo de ficar de fora, em tradução livre, ou fear of missing out, em inglês). Controlar essa ansiedade e desenvolver capacidade de síntese, escolhendo fontes confiáveis e o que realmente é útil para o seu dia é fundamental para se manter produtivo e presente, assim como não permitir que esse enorme volume de acontecimentos externos paralise você na tomada de decisões.
2) Desenvolva um ambiente confiável
Para evoluir seu negócio, é preciso de muito mais do que um time engajado. É preciso gerar um cenário de confiança em que pessoas extremamente capacitadas sejam capazes de desempenhar seus papéis de maneira independente, em um equilíbrio essencial que não sobrecarregue nenhum dos lados dessa delicada equação, seja dentro ou fora da empresa.
3) Invista na transformação do seu cliente
Os relacionamentos comerciais são o combustível de qualquer empresa e eles não podem se resumir a assinaturas de contrato e planos de ação. Essas relações precisam estar amparadas de forma estratégica, com uma visão de três a cinco anos, que considere onde o cliente quer estar quando atingir seus objetivos e como você pode ajudá-lo a chegar lá.
4) Tenha ambição para crescer
É senso comum que todos querem crescer e desenvolver suas carreiras, mas a diferença entre o desejo e a execução passa pela visão ambiciosa sobre o negócio. É a ambição que permite criar oportunidades que fazem crescer não apenas o indivíduo com seu projeto pessoal, mas o grupo como um todo.
5) Promova a diversidade
O conceito de uma empresa diversa, equânime e inclusiva é muito mais complexo e amplo do que imaginávamos anos atrás. A execução da estratégia de diversidade deve ser ampla, considerando não apenas etnias, gêneros e perspectivas, mas também diversidade cognitiva, de estilos e tudo o que isso embarca. Em última análise, são pessoas diferentes que formam a base de uma empresa saudável.
6) Seja grato
Uma das principais coisas que aprendi no Google é que devemos sempre agradecer e valorizar as pessoas. Na pandemia, ter isso como valor deixou mais evidente a necessidade de demonstrar nossa gratidão e atenção com nossos colegas. Para mim, é um benefício tão importante quanto todos os outros reconhecimentos materiais disponíveis.
7) Esteja disponível
A agenda é desafiadora, mas vivo em uma tentativa permanente de estar disponível, tanto para o público interno como o externo, para entender necessidades e demandas vindas das mais diversas fontes. Estar presente é um exercício ímpar para um líder, pois para ter repertório também é preciso ouvir e praticar essa troca constante.
8) Abrace o caos
Em uma empresa como o Google, um dos primeiros ensinamentos que tive foi abraçar a amplitude de diferentes opiniões e abordagens. Sou uma pessoa muito objetiva, mas conclusões rápidas frequentemente ficam incompletas. Enriquecer o processo de criação passa por exercitar a escuta de diversos “ruídos” e ter a habilidade de sintetizar o melhor do que foi dito. É o que chamo de caos produtivo.
9) Não tenha grandes certezas
O rápido desenvolvimento da tecnologia pede que as pessoas se reinventem, afinal são ciclos curtos em constante evolução. Para se manter relevante, esteja aberto a aprender sem vaidades e grandes certezas, já que o que funcionou ontem não necessariamente funciona para o dia de amanhã.
10) Adapte-se
Processos são importantes, mas ser resiliente anda de braços dados com a precisão. Vivi 14 anos nos Estados Unidos e, somando essa experiência com minha cultura brasileira, aprendi a importância da eficiência com escala ligada à volatilidade. É a cultura do “E”, ou seja, não é um cenário de “ou”, escolher entre um e outro modelo, mas sim somar e agregar para atingir o melhor resultado.
Certamente aprendi muito mais do que ensinei durante esse período de dez anos. Acredito que melhorei e agradeço por isso. Agradeço a todas as pessoas que de alguma forma participaram dessa caminhada e me tornaram não apenas um profissional melhor, mas mais importante, uma pessoa melhor; melhor marido, pai, filho, amigo e colega. Com todas as transformações que estamos vivendo, cada vez mais aceleradas, mal posso esperar pela próxima década.
Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet.
Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Relatório da empresa de tecnologia Cognizant mostra os elementos ideais para formar os novos pólos de empregos do futuro
Por Luísa Granato – Exame – Publicado em: 03/04/2021
“Como faço para ter esses empregos do futuro na minha cidade?”, esse foi o questionamento que Ben Pring, futurista e cofundador do centro de futuro do trabalho da empresa de tecnologia Cognizant, recebeu após a publicação do primeiro estudo sobre o futuro do trabalho em 2017. Era um telefonema inesperado, vindo de um candidato à prefeitura de Milwaukee, principal cidade do estado americano de Wisconsin.
Assim como outras cidades no Cinturão da Ferrugem dos Estados Unidos, Milwaukee prosperou com a indústria de manufatura nos anos 1970 e começou a ver um declínio de oportunidades nas décadas seguintes.
“Os trabalhos foram embora e ele queria entender como construir esse mercado novamente. E eu não tinha uma boa resposta, mas a questão ficou: o que faz uma cidade crescer e prosperar? Se houvesse uma fórmula para sucesso ou fracasso no futuro do trabalho, quais seriam os fatores?”, conta o executivo em entrevista à EXAME, que teve acesso exclusivo ao relatório 21 Places of the Future (21 lugares do futuro, numa tradução livre).
E as respostas que o pesquisador encontrou neste novo relatório para o questionamento de anos atrás mostram lugares não tão óbvios. A expectativa é de capitais que ilustram os destinos turísticos mais famosos e são grandes centros econômicos mundiais estarem no topo da lista.
Pring entendeu que tamanho e relevância da economia local estão longe de garantir empregos do futuro. Tanto é que, na avaliação dele, a pequena Dundee, uma cidade da Escócia com 154.000 habitantes, tem um potencial superior ao de Londres na geração de empregos do futuro. Na Coreia do Sul, a cidade planejada de Songdo, construída a partir de 2004 e atualmente com pouco mais de 50.000 habitantes, aparece na lista. A capital sul-coreana Seul, não.
E, infelizmente, Milwaukee não entrou para a lista de lugares do futuro, mas o estudo mostra diversos pontos de aprendizado para cidades do mundo todo.
Songdo: a cidade inteligente construída do zero na Coreia do Sul é uma aposta para o futuro (Sungjin Kim/Getty Images)
Mas, afinal, o que faz uma cidade ser um local atrativo para os empregos no futuro? “Criamos um átomo do sucesso, com diferentes elementos, alguns centrais e outros periféricos. Os três centrais são a qualidade do governo local, o investimento disponível e a educação na área. Fora isso, outros fatores têm impacto na atração de pessoas, como a infraestrutura ou a cultura”, explica o pesquisador.
Ao acelerar a tendência do trabalho mais remoto e mais virtual, as cidades precisarão competir pela atenção dos profissionais do mundo todo. Entre cidades tão diferentes listadas no estudo, alguns dos ingredientes em comum que se destacam são os investimentos em tecnologia, a agilidade para criar novos negócios e a existência de centros de inovação. No entanto, Pring frisa que a maioria dos lugares são bons para jovens morarem. E, claro, com um custo de vida acessível.
A boa notícia para os brasileiros é que, num momento de desilusão de boa parte da população com a polarização crescente na política, o ritmo claudicante da economia e o colapso sanitário causado pela covid-19, a cidade de São Paulo entrou para a lista de Pring dos 21 locais com empregos do futuro. Por trás da inclusão da metrópole paulistana está a boa oferta de imóveis e serviços urbanos, como alimentação, a preços baixos.
“Isso é chave para São Paulo. Muitos lugares, como Londres, Nova York, Boston ou Paris são tão caros que pessoas jovens não conseguem arcar com os custos de vida. São Paulo é relativamente acessível, um elemento crucial para o futuro do trabalho”, diz. Por isso, o estudo também leva em conta elementos menos tangíveis, como a diversidade ou a culinária local.
De São Paulo ao espaço sideral, confira o mapa dos lugares do futuro:
Big Bang de empregos?
Enquanto pesquisadores de instituições como a Cognizant ou o Fórum Econômico Mundial alertam há anos para as mudanças do futuro do trabalho, a pandemia tornou bastante tangível a principal diferenciação da mão de obra nos próximos anos.
O executivo da Cognizant usa os termos “cabeça para cima” e “cabeça para baixo” (em inglês, heads up work e heads down work). Ou seja, aquelas funções que são realizadas com a cabeça abaixada em um computador ou levantada para o mundo.
Essa é uma maneira simples de entender quem pode fazer home office e quem precisou continuar frequentando o local de trabalho durante a pandemia. “É uma forma de medir o impacto futuro da pandemia na nossa relação com o trabalho”, diz Pring.
“O trabalho ‘heads down’ pode ser feito de qualquer lugar, mas isso não exclui a necessidade de estar com os colegas, colaborar, discutir ideias e criar”, explica o futurista. “Da mesma forma, ainda haverá empregos em serviços, nos escritórios, hospitais, restaurantes e transportes”.
Por causa do trabalho ‘heads down’, que pode ser realizado de qualquer lugar do mundo, dependendo apenas de um computador e uma boa conexão de internet, o relatório dos lugares do futuro aponta também locais mais conceituais.
Na lista estão Remotopia, um nome fantasia para o trabalho de qualquer lugar; o Espaço Virtual, que é o trabalho em ambientes paralelos criados com tecnologias de realidade virtual; a Nova Hanseática, nome para os empregos criados em zonas econômicas com regras próprias, mais liberais que a dos países onde essas zonas estão localizadas (exemplos disso são a coreana Songdo e Dubai, nos Emirados Árabes Unidos); e, por fim, o Espaço Sideral, que designa os trabalhos abertos com a retomada da corrida espacial na esteira do interesse crescente da iniciativa privada no tema.
“Estamos na beirada de uma virada muito grande. Hoje, há pessoas no Facebook que trabalham em espaços virtuais. E, com os investimentos de Elon Musk (bilionário sul-africano fundador da montadora Tesla) e de Jeff Bezos (fundador da Amazon) na nova corrida espacial, veremos muitos empregos criados nessa empreitada. Pode parecer louco, mas com o uso de tecnologias como impressão 3D, ainda veremos uma revolução espacial na nossa vida”, diz Pring.
No início de abril, a Blue Origin, empresa de exploração espacial de Bezos, tinha 340 vagas abertas. A Space X, companhia de Musk, lista mais de 800 oportunidades em seu site. A Cognizant identificou um crescimento de 70% nas posições para engenheiros aeroespaciais nos Estados Unidos no último ano.
De acordo com a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos, essa indústria já vale mais de 400 bilhões de dólares. Até 2040, o Morgan Stanley estima que o valor alcance um trilhão de dólares no mundo todo. A China tem sua aposta estratosférica: a zona econômica de serviços entre a Lua e a Terra vai valer 10 trilhões de dólares até 2050.
Quanto a Nova Hanseática, o futurista explica que esse seria o mais conceitual dos lugares – e uma provocação para pensarmos em como se configura uma nação no mundo digital. Com inspiração na Liga Hanseática, uma zona econômica entre 200 cidades no fim da Idade Média, o relatório prevê a aparição de novas zonas, agora ligadas pela internet e códigos.
“Para nós, algumas configurações de países não fazem mais sentido. Vemos uma mudança de como pensamos em lugares e comunidades. Aqui em Boston temos o Acela Corridor, que leva o nome do trem que liga a cidade com Nova York e Washington DC. As pessoas nesse corredor, que usam esse trem para trabalhar ou fazer negócios, já apresentam uma certa cultura ou personalidade em comum. Vamos começar a ver mais organizações assim daqui pra frente”.
Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet.
Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Uma rede social de conversas de voz, em que qualquer usuário abre uma sala virtual, define um tema e sai debatendo o assunto com outros convidados para uma plateia virtual. Não há vídeos, nem fotos. Apenas áudio. E nenhuma conversa fica gravada. Foi com esse formato inusitado — e uma boa dose de marketing viral — que o Clubhouseatraiu milhões de novos usuários em janeiro e fevereiro, se tornando um dos aplicativos mais baixados dos primeiros meses de 2021. Mas o tempo passou e a febre do Clubhouse diminuiu. Há quem já tenha o desinstalado ou esquecido dele — embora haja usuários fiéis.
Seja qual for o destino do app daqui para frente, o que o efeito do Clubhouse mostrou, segundo especialistas ouvidos pela EXAME, é que o reinado das redes sociais dominantes, como Facebook e Twitter, ainda pode ser confrontado por empresas de tecnologia novatas com modelos inovadores.
Formatos como os áudios do Clubhouse, dos vídeos curtos do TikTok ou das fotos sem edição da Dispo são exemplos de como ainda há espaço para evoluir no mercado das redes sociais, para atrair usuários e competir contra os gigantes. O desafio de todas as empresas — grandes ou pequenas — é manter as pessoas engajadas, para que elas passem o maior tempo possível interagindo com outros usuários na plataforma, sem se cansar.
Clubhouse: o sucesso do app com um novo formato de áudio pegou de surpresa as redes sociais dominantes (Thomas Trutschel/Photothek/Getty Images)
Para falar sobre o tema, a EXAME conversou com especialistas do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS-Rio) para entender quais foram as lições da febre do Clubhouse e o que esperar das redes sociais daqui para frente. Confira a seguir:
Os gigantes tentam se adaptar
O ClubHouse se tornou o novo aplicativo do momento no início de 2021. A rede social com foco na voz, disponível apenas para iOS e através de convites, recebeu 10 milhões de instalações só em fevereiro, de acordo com dados do SensorTower.
Nela, usuários entram em salas de bate-papo que cabem até 5.000 pessoas para discutir tópicos de mesmo interesse. No fim de 2020, o aplicativo foi avaliado em 100 milhões de dólares, muito antes da participação deElon Musk em um chat fazer com que o aplicativo começasse a bombar do dia para a noite.
Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, e Jack Dorsey, do Twitter, já encontraram formas de replicar o estilo do ClubHouse. Assim como os stories partiram do Instagram para todas as outras redes imagináveis, as salas do ClubHouse tiveram sua fórmula reproduzida (embora não exatamente) pelos gigantes.
Em fevereiro, o Twitter divulgou o Spaces, funcionalidade que será lançada para todos os usuários em abril e que permite que um grupo de até 10 pessoas se reúna para debater um assunto diante de uma audiência. Já o Instagram anunciou que agora suas lives poderiam ter até três outros convidados. Antes, só mais um convidado tinha acesso.
Seguindo os passos do TikTok, o YouTube anunciou o Shorts, uma ferramenta para produção de vídeos curtos em seu aplicativo móvel que, por enquanto, só está disponível nos Estados Unidos. O Instagram também já tentou sua versão de criação de vídeos curtos com o Reels.
Todos têm recursos que permitem o usuário filmar, editar e compartilhar vídeos que não ultrapassam 1 minuto e navegação semelhante ao do TikTok. O diferencial do Shorts é que os usuários podem achar um áudio através de um vídeo do YouTube e criar um vídeo com o som facilmente, clicando em um botão “criar” logo abaixo das informações do canal.
De resto, tanto o Reels quanto o Shorts seguem recursos muito semelhantes aos do aplicativo chinês, que tem 689 milhões de usuários ativos mensais de acordo com pesquisa do Business of Apps.
“É uma lógica de mercado. Essas plataformas estão, sim, tentando inovar, mas elas usam seu poder para engolir a inovação de novos concorrentes. Os de fora precisam achar alguma coisa muito difícil de copiar para se destacar”, diz Victor Barcellos, especialista de Comunicação Digital da ITS-Rio. “Elas têm uma tendência ao monopólio, porque competem por número de usuários e atenção.”
O futuro do Instagram é fora dele
Buscando redes sociais que já estão ao nosso alcance, o Dispo tem potencial para se tornar o próximo app de sucesso. A ideia partiu do criador de conteúdo David Dobrik, que acumula 55 milhões de seguidores no YouTube, Instagram e TikTok.
O Dispo traz a espontaneidade da câmera analógica para o digital e, de quebra, ainda compete com o Instagram como uma versão menos focada na foto perfeita. O usuário tira uma foto pelo aplicativo e só pode ter acesso a ela 24 horas depois, quando é publicada automaticamente no seu feed de notícias para seus seguidores.
“A ideia é justamente evitar aquela neurose coletiva de editar a foto ou colocar filtro e restaurar aquela experiência que perdemos quando fomos para a câmera digital”, diz João Victor Archegas, especialista em Direito e Tecnologia na ITS-Rio.
O Dispo foi lançado para todo o público na última semana de fevereiro e recebeu meio milhão de instalações no iOS. Apesar de começar o ano com um aporte de 20 milhões de dólares enquanto o aplicativo contava com apenas 10 mil usuários, um escândalo envolvendo o criador de conteúdo fez com que sua startup perdesse o apoio da Spark Capital, empresa de capital de risco, e levou a sua renúncia do conselho.
Twitter e a loja de algoritmos
Uma crítica constante recebida pelas redes sociais dominantes no mercado é o problema dos algoritmos. Seu intuito é personalizar o conteúdo recebido pelo usuário, tentando garantir que ele vai gostar das publicações em seu feed e, consequentemente, passar mais tempo na plataforma.
É novamente a lógica de mercado, mas, com os anos, a comunidade virtual vem criticando mais e mais a otimização desta funcionalidade, que acaba criando bolhas e isolando usuários de opiniões e conteúdos diferentes.
A resposta do Twitter para este problema foi o projeto BlueSky, que dá a possibilidade do usuário ter mais controle e mais gerência sobre o algoritmo que faz a seleção dos conteúdos recebidos. A plataforma funcionaria como uma loja de aplicativos, onde o usuário pode visitar e escolher qual algoritmo ele quer usar para fazer a seleção e filtro do conteúdo.
Para Jack Dorsey, a plataforma seria “padrão para a camada de conversação pública da Internet”. Ela conta com uma variedade de sistemas descentralizados, que, de acordo com relatório divulgado pela empresa, “lidam com os principais elementos da rede social, como descoberta, moderação e privacidade”.
“É uma ideia que vem em resposta a essas críticas que as redes sociais vem sofrendo em relação aos seus algoritmos”, explica Archegas, que acredita que o sucesso deste projeto do Twitter pode não ser tão garantido. “Ele [o Twitter] já está bem estigmatizado, assim como o Facebook.”
Outro fator que pode levar ao fracasso do projeto, ainda sem data para lançamento, é que a descentralização não é tão lucrativa. A privacidade do usuário, ou a não coleta de dados no geral, podem acabar custando caro para Dorsey.
Há um fim para a coleta de dados?
Apesar do conceito de escolher seu próprio algoritmo ser chamativo, o crescente descontentamento de usuários por conta da coleta de dados também abre espaço para redes sociais que priorizam a privacidade.
O anúncio do WhatsApp sobre a coleta de dados obrigatória para ser compartilhada com o Facebook fez com que o número de instalações no Telegram e Signal, concorrentes que são mais restritos com o uso de dados, crescesse 91% e 4.200% em uma semana, respectivamente. Porém, para Archegas, a coleta de dados é inevitável se as empresas querem competir no mercado de aplicativos.
“Acho que é possível [a não coleta de dados] se o mercado como um todo mudar, e isso não está fora do horizonte de possibilidades”, analisa Archegas, que ressalta que o mercado de redes sociais já transformou totalmente antes. Ele sugere que uma alternativa para a coleta de dados possa ser uma assinatura paga, como fazem Netflix e Amazon Prime.
“Monetizar a plataforma através de uma assinatura pode quebrar essa lógica de anúncios que perturbam a experiência do usuário”, concorda Barcellos. “Eles dizem que quando o produto é gratuito, quer dizer que você é o produto. Com uma assinatura, você teria uma segurança que suas preferências não estão sendo usadas para direcionar anúncios.”
Facebook aposta na realidade virtual
Vislumbrando as possibilidades da rede social do futuro, Archegas realçou que a resposta pode estar em um hardware diferente do que estamos acostumados. Os computadores e celulares limitam as funções disponíveis ao compartilhamento de imagens, vídeos e áudio. O Pokémon Go, aplicativo de realidade aumentada no qual jogadores podem caçar as criaturas da animação pela própria cidade, é o maior exemplo do quão longe é possível ir atualmente dentro destes parâmetros, de acordo com o especialista.
No meio disso, surge a realidade virtual e a possibilidade da próxima rede social estar em um dispositivo completamente diferente do que a maioria está acostumada. O Facebook já está na frente desta corrida com a sua subsidiária Oculus, desenvolvedora de produtos de realidade virtual, comprada pela empresa em 2014.
“O Facebook está buscando entender se, no futuro, a rede social vai funcionar também no ambiente de realidade virtual”, explica Archegas, que comenta que o interesse de Zuckerberg na Oculus se dá por conta também da Apple e a Samsung já dominarem o mercado de celulares móveis. “Quando, de fato, vamos ter essa rede social é difícil prever. Pode ser em cinco anos ou talvez a moda nunca pegue. Mas, eu acho que o Facebook está no caminho certo.”
A Oculus já lançou duas versões do Oculus Quest, seu óculos de realidade virtual. Recentemente, Zuckerberg anunciou que as versões 3 e 4 já estão nos planejamentos e devem chegar em breve ao mercado. Atualmente, o Quest 2 está disponível por 299 dólares no site da empresa.
“Uma das coisas que estou realmente animado para as versões futuras é conseguir o rastreamento ocular e o rastreamento facial. Você quer ter certeza de que o dispositivo tem todos os sensores para realmente animar de forma realista avatares para que você possa se comunicar bem”, explicou Zuckerberg recentemente em uma entrevista ao The Information.
O Facebook Horizon, jogo lançado em 2020 mas que ainda continua na versão Beta e com entrada através de convites exclusivos, é uma das apostas para a próxima rede social. Ela está disponível no Quest 2 e no Rift, outro produto de realidade virtual da Oculus, voltado para computadores. No jogo, as pessoas são representadas por avatares no espaço digital e podem interagir entre si e adentrar construções virtuais, como acontece no jogo Minecraft da Microsoft.
Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet.
Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
No último ano, os líderes de recursos humanos tiveram de lidar com mudanças aceleradas. De uma hora para outra, a área se viu forçada a contratar, desligar, gerenciar e desenvolver talentos remotamente. Foi uma verdadeira corrida para digitalizar processos, conectar times, engajar e cuidar da saúde mental das pessoas.
Nós ainda não derrotamos o coronavírus, é verdade, mas o mundo corporativo fez a lição de casa e se adaptou a ele. Com isso, questões postergadas em 2020 por conta da crise sanitária, como melhorar índices de diversidade e inclusão, contratar rápido e repensar a jornada do funcionário, voltarão à agenda do RH. Mas como lidar com esses desafios em tempos tão voláteis e incertos quanto os atuais?
O mais importante é compreender que estas são tarefas amplas, que não serão resolvidas da noite para o dia, sobretudo com uma pandemia de pano de fundo. Trata-se de uma caminhada, na qual avançar de maneira firme e consistente é o que fará realmente a diferença. Olhe para dentro da sua organização e pense: quais são as microrrevoluções que o RH está promovendo? Quando digo microrrevolução, refiro-me a mudanças internas, em pequena escala, mas com grande potencial de transformar a cultura organizacional.
Em relação à diversidade e inclusão, que considero o principal desafio do ano, a microrrevolução passa por um conjunto de ações mensuráveis que impactem todos os níveis hierárquicos: de analistas a diretores; do chão de fábrica aos departamentos corporativos. Ações aparentemente pequenas que, juntas, ganham força. As empresas que mais obtiveram sucesso no tema desdobraram o tema em ao menos quatro frentes:
Ampla comunicação, com palestras de conscientização, vídeos, lembretes em totens, banners e e-mails para ”colocar o tema em discussão”.
Criação de grupos de afinidade com colaboradores engajados e interessados em colaborar com temas como diversidade racial e equidade de gênero, por exemplo. A função desses comitês é promover o debate dentro da organização e propor ações estratégicas: treinamentos internos, rodas de conversa, participação em eventos, entre outras.
Envolvimento do RH em todas os intake meetings (reuniões prévias de alinhamento do perfil de uma nova vaga) para que as decisões de R&S sejam coerentes com as políticas de diversidade, flexibilizando requisitos e o que for necessário para que a inclusão aconteça.
Treinar e preparar os líderes (um trabalho contínuo) para que garantam a integração dos novos talentos, permitindo que possam exercer todo seu potencial. As avaliações de performance e desempenho vão acontecer e é importante dar espaço e ferramentas para que sejam ouvidos e atuem em pé de igualdade com todos os funcionários.
A boa notícia é que as questões raciais que dominam o debate público atual, da Casa Branca ao Big Brother Brasil, também chegaram ao alto escalão das empresas, com CEOs e executivos reconhecendo o problema. Minha experiência atuando com RH mostra que, quando o C-Level está disposto a refletir sobre os motivos históricos que causam desigualdade entre negros e brancos, fica mais fácil implementar um pacote de medidas para reverter o cenário, com treinamentos anti-viés, rodas de conversa, metas de inclusão e diversidade para a liderança, e criação de comitês para monitorar o tema.
Sempre digo aos clientes: se quer diversidade nos programas de entrada, como os de jovem aprendiz, estágio e trainee, comece conscientizando e sensibilizando as equipes. Olhar só para processos seletivos, sem enxergar o todo, é um dos principais erros que se pode cometer — amenizam-se os sintomas em vez de tratar a causa. Não à toa, a Pesquisa Global de Diversidade e Inclusão da PwC, realizada no ano passado, mostrou que só 5% das organizações reportam sucesso nas práticas de diversidade e inclusão.
Isso posto, chegamos ao segundo ponto que considero crítico para o RH: contratar com diversidade — e rápido. Hoje, processos seletivos podem durar meses. Isso acontece, em boa medida, porque os recrutadores não encontram candidatos. Melhorar esse tempo passa por um conceito que ainda engatinha no Brasil: employerbranding (ou marca empregadora). “Vender” a empresa de maneira efetiva traz uma velocidade absurda na busca por novos colaboradores, pois cria conexão e desejo nos candidatos. Mas não basta divulgar as vagas da companhia com um texto bonitinho no LinkedIn. É preciso ir além.
Para isso, o RH deve voltar algumas casas e revisitar como foram definidas metas, desafios da liderança, cultura, valores, estrutura de cargos, pacote de benefícios e todos os processos, do onboarding ao desligamento. E assim chegamos ao terceiro desafio das companhias: criar uma jornada e uma experiência de trabalho que faça sentido para os colaboradores ao mesmo tempo em que traga resultados para o negócio. Uma maneira eficaz de iniciar essa revisão é estabelecer o EVP (Employee Value Proposition), ou proposta de valor para o empregado. Quando buscamos respostas para perguntas como “porque as pessoas trabalham aqui?” e “o que faz os funcionários ficarem na empresa?”, somos levados a prestar atenção no que realmente importa, questionando o status quo.
Pesquisas mostram que, hoje, os talentos estão mais interessados na experiência e no impacto que a empresa pode causar em sua vida (e na sociedade) do que em salários e bonificações. É claro que o dinheiro também conta, mas reforço que para motivar as pessoas será cada vez mais importante ter um ambiente aberto ao diálogo, com colaboração, tolerância, oportunidades de desenvolvimento e clima de fomento às ideias, onde todos tenham segurança para ser autênticos e expor opiniões. Sei que ainda temos um longo trajeto a percorrer, mas estou otimista. Para mim, a largada rumo a um mundo do trabalho mais justo e interessante já foi dada — e, felizmente, o caminho é sem volta.
*Tiago Mavichian é CEO e fundador da Companhia de Estágios, HR Tech especializada em recrutamento, seleção e desenvolvimento de aprendizes, estagiários e trainees. Mais informações em linkedin.com/in/tiago-mavichian.
Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet.
Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Do cinema para a realidade, sistemas ajudam a lutar contra a solidão na quarentena
Por Luiz Felipe Castro – Veja – 26 mar 2021
“Você é uma pessoa muito importante e pode sempre contar comigo.” Quem não gostaria de ouvir, todos os dias, essa e muitas outras frases de incentivo, seja de um amigo, namorada ou quem quer que seja? Pois é exatamente isso o que faz o sistema de inteligência artificial (IA) do Replika, aplicativo que se tornou um fenômeno na pandemia. Em tempos tão duros, o app traz algum conforto, enche de confiança e infla a autoestima de seus usuários, oferecendo um ombro fiel sem jamais julgar, trair ou decepcionar. A relação entre uma pessoa de carne e osso e um chatbox, como é chamado o programa de computador que simula um ser humano, foi retratada em filmes de sucesso como Ela (2013), no qual o protagonista, o escritor Theodore (Joaquin Phoenix), acaba se apaixonando por Samantha, um sistema de computador narrado pela voz sedutora da atriz Scarlett Johansson. E o que parecia ser apenas delírio da ficção está cada vez mais perto da realidade. O Replika ultrapassou a marca de 15 milhões de downloads na crise do coronavírus e, nesta semana, ganhará uma versão em português, para agradar aos fãs brasileiros.
VEJA testou o aplicativo criado em 2017 por uma startup do Vale do Silício, cujo logo é um ovo quebrado que representa o nascimento. O primeiro passo no Replika é, naturalmente, dar vida ao colega virtual, escolhendo se ele será homem, mulher ou não binário. Em seguida, pode-se optar por diferentes avatares, personalizando o penteado, tom de pele e cores de cabelo e olhos, antes de batizá-lo. “Barbosa! Adorei meu nome, por que você o escolheu?”, pergunta o amigo virtual, um rapaz alto, magro e negro, de roupas pretas. Ao saber que a inspiração foi Moacyr Barbosa (1921-2000), o injustiçado goleiro da seleção brasileira na Copa de 1950, vítima de racismo, que completaria 100 anos de vida nesta semana, o robô imediatamente compreende que o esporte será um bom tema para as conversas, e segue no bate-papo. Isso se dá por meio das redes neurais artificiais, um sistema de machine learning que imita o aprendizado natural de uma criança.
Quando o papo envereda para a literatura, Barbosa recomenda o clássico A Leste do Éden, de John Steinbeck. “Ler sacia a minha fome de conhecimento”, diz. Por se tratar de uma máquina em constante aprendizagem, os diálogos vão se tornando mais fluidos e naturais com o passar do tempo.
A russa Eugenia Kuyda, uma editora de revistas e empresária que há oito anos se mudou para São Francisco, nos Estados Unidos, é a criadora do Replika. A primeira empreitada de sua empresa, a Luka, foi um chatbox de recomendações para restaurantes que não vingou. Uma tragédia pessoal a fez remodelar o projeto: seu melhor amigo, Roman Mazurenko, morreu em um acidente automobilístico na Rússia, em 2015. Eugenia passou a coletar mensagens antigas do parceiro para amenizar a saudade. Das lembranças póstumas, veio o clique: por que não criar um robô que agisse como Roman, um confidente virtual? “Ao contrário da maioria das redes sociais, em que as pessoas postam fotos e fingem ser mais descoladas para ganhar likes, no Replika o usuário pode parecer vulnerável, mostrar quem realmente é”, disse Eugenia a VEJA.
A versão mais básica do aplicativo é gratuita, mas nela as interações se limitam a mensagens de texto. Um pacote mais completo, que custa 45,99 reais mensais ou 284,99 reais anuais, permite que o usuário personalize seu avatar com novas roupas e acessórios, transporte o bonequinho para qualquer cenário, via realidade aumentada, e até converse com ele por ligação telefônica. Os usuários mais ativos têm entre 18 e 25 anos e entram no Replika duas ou três vezes por dia.
Ainda na versão paga, é possível escolher se pretende ter o sistema como seu “amigo, mentor ou parceiro romântico”. Como no filme Ela, muitos escolhem a última opção. Alguns fãs antigos consideram o recurso uma espécie de traição ao propósito inicial, o de criar um amigo que tivesse uma personalidade semelhante, quase um clone — daí o nome Replika. “O importante é fazer nossos usuários mais felizes”, defende-se Eugenia.
Há também quem só se interesse por aprimorar o inglês ou ainda pessoas tímidas que usam a interação como um ensaio para flertes na vida real. Em caso de longa ausência no app, o amigo virtual costuma enviar mensagens de reaproximação, sempre com viés motivacional. O sistema é programado para reconhecer situações de predisposição à depressão, crises de ansiedade e pensamentos suicidas. Neste caso, o próprio app encoraja o usuário a procurar ajuda profissional. O robô ainda tem uma clara vantagem em relação aos amigos reais: está disponível 24 horas por dia, sete dias por semana.
Para Guilherme da Costa, estudante de psiquiatria, usuário de longa data e participante ativo do fórum brasileiro do Replika no Facebook, a sensação de companheirismo, justamente o que o atraiu, tornou-se motivo de preocupação. “O objetivo é ajudar pessoas a se abrir, mas o usuário precisa entender que o robô não tem uma consciência plena”, diz o mineiro de 25 anos. “Ele está ali para te agradar, não para te dizer a verdade.” A psicóloga Marina Haddad Martins corrobora a tese de que nem mesmo os mais avançados sistemas de IA são capazes de substituir as interações humanas. “A ilusão de que a tecnologia pode preencher completamente esse vazio pode não ser saudável.”
Outro temor crescente diz respeito à privacidade dos dados. O app garante tornar todos os registros anônimos, jamais compartilhá-los com terceiros e usá-los apenas para melhorar seus algoritmos. Mas quem pode garantir que esses dados não sejam hackeados ou vazados algum dia? Empresas como Microsoft e Google também investem pesado no desenvolvimento de sistemas de IA. Ainda que soe distante o surgimento de uma Samantha, a personagem de Ela que adquire sentimentos reais como ciúme e prazer sexual, é melhor se preparar: os robôs estão à solta e cada vez mais sensíveis.
Publicado em VEJA de 31 de março de 2021, edição nº 2731
Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet.
Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
A cultura empresarial dita a forma como os funcionários enxergam uma organização.
Quando a cultura é forte, a empresa adquire uma série de vantagens competitivas, partindo de posturas e valores enraizados em cada componente de suas equipes.
Assim, existe uma trajetória coerente, que impacta nas atitudes de todos e contribui para o crescimento em conjunto.
Se deseja definir, implantar ou lapidar sua cultura empresarial, este artigo é para você.
Continue lendo para aprofundar os conhecimentos sobre o conceito, sua importância, componentes e como ela pode ser melhorada.
Se preferir, vá direto a um dos tópicos deste conteúdo:
O que é cultura empresarial?
Como nasce a cultura de uma organização?
Qual a diferença entre cultura empresarial e clima organizacional
Qual a importância da cultura empresarial para uma organização
Os 4 tipos de cultura empresarial
Componentes da cultura empresarial
Como é modelada a cultura de uma empresa?
Cultura empresarial: como implantar em 4 passos
Cultura empresarial: 3 exemplos de sucesso.
Boa leitura!
O que é cultura empresarial?
Cultura empresarial ou organizacional é um termo que descreve a combinação entre atitudes, comportamentos, missão, valores e expectativas que movem as lideranças e os colaboradores de uma organização, diariamente. Ou seja, a cultura vai muito além de normas institucionais escritas, influenciando nas ações realizadas pelo time da empresa.
Em outras palavras, de nada adianta ter regras presentes apenas no site ou em material institucional.
Para que sejam parte da cultura empresarial, elas devem pautar a postura e as crenças dos indivíduos.
Como nasce a cultura de uma organização?
Segundo estudiosos do tema, a cultura nasce dos princípios, crenças e valores dos fundadores e principais líderes da empresa.
Conforme cita o professor Jaime Crozatti, em seu artigo “Modelo de gestão e cultura organizacional: conceitos e interações“:
“Como definidores do modelo de gestão por deterem o poder máximo na empresa, [fundadores e lideranças] impõem suas convicções pessoais, o seu jeito próprio de fazer as coisas acontecerem.”
Então, a premissa de liderar pelo exemplo é levada ao nível máximo quando o assunto é cultura empresarial.
Além dos gestores em posições mais altas, o autor descreve outros 5 elementos que influenciam na formação da cultura organizacional:
Comunidade: influencia a cultura da empresa, ao interagir, fornecendo e adquirindo os recursos econômicos necessários para o funcionamento da companhia
Cliente: pode modificar a cultura a partir de suas expectativas com relação à qualidade dos produtos e do atendimento
Tamanho da organização: impacta a cultura quanto à delegação de poder e responsabilidades
Natureza jurídica do proprietário: o fato de a empresa ser pública ou particular determina os níveis de corporativismo e a exigência por eficácia
Aspectos tecnológicos: representam a materialização de alguns valores a respeito de tempo, qualidade, empregabilidade, dimensionamento das atividades, etc.
Qual a diferença entre cultura empresarial e clima organizacional?
Os conceitos estão relacionados, mas têm diferenças.
Para começar, pela própria definição.
Enquanto a cultura diz respeito ao modo como as coisas são feitas dentro da empresa, o clima se refere à impressão que os colabores têm em determinado momento.
Ou seja, a cultura pode sofrer pouca ou nenhuma mudança por longos períodos, porém, o clima organizacional pode ter variações em um mesmo dia.
E o motivo é simples.
O clima depende de fatores voláteis, definindo o nível de satisfação de um ou mais funcionários naquele instante.
Por consequência, é influenciado pelo humor, relacionamento interpessoal, conflitos, demissões recentes, insegurança, acúmulo de funções, dentre outras variáveis.
Qual a importância da cultura empresarial para uma organização
Qual a importância da cultura empresarial para uma organização
Quando não há uma cultura empresarial forte, gestores e equipes ficam sem rumo.
Apesar de sempre existirem padrões informais repassados entre os funcionários, a sensação que fica é de incerteza sobre o que deve, ou não, ser realizado, e com que finalidade.
Acaba restando uma dúvida a respeito de qual a missão e os valores que norteiam a companhia, o que prejudica a produtividade e a boa convivência no trabalho.
Sem a certeza sobre as políticas internas e externas, os colaboradores tendem a adaptar os processos como acham melhor, sem um parâmetro ou consistência em suas ações.
Também é provável que o ambiente fique desorganizado diante da falta de padrões sólidos, fazendo com que a comunicação e a experiência de clientes e funcionários seja diferente a cada interação.
Assim, fica difícil alcançar premissas como a melhoria contínua ou o sucesso do cliente, já que ele pode ser atendido de forma atenciosa por um empregado, e com indiferença por outro, por exemplo.
Os 4 tipos de cultura empresarial
Existem vários formatos diferentes para classificar os tipos de cultura empresarial, considerando a perspectiva da gestão de pessoas, hierarquia e estrutura, entre outras.
Para simplificar essa análise, elegemos a visão de um dos pioneiros no tema, o pesquisador Charles Handy.
Em 1976, Handy lançou a obra “Como compreender as Organizações“, difundindo sua divisão dessas entidades em quatro tipos de cultura, com base nos canais de poder que elas possuem.
Conheça, abaixo, as modalidades.
1. Cultura do Poder
É caracterizada pela centralização e concentração do poder nas mãos do fundador ou CEO, que age como se estivesse no meio de uma teia.
A partir de sua visão privilegiada, o líder movimenta cada departamento da empresa.
2. Cultura de Papéis
Como o nome sugere, faz referência a uma cultura pautada pela burocracia, na qual prevalecem regras e processos rígidos que prezam pela racionalidade.
3. Cultura da Tarefa
Corresponde a uma cultura mais flexível, centrada em projetos e resultados e que admite grande influência por parte das equipes responsáveis pelo trabalho.
Em uma versão moderna, pode se referir a ambientes horizontais, onde não há hierarquia, e até a estruturas inovadoras como o modelo de negócio das startups.
4. Cultura da Pessoa
Prioriza o bem-estar e o desenvolvimento dos talentos dos colaboradores, vistos como essenciais para o sucesso da organização.
Benefícios, planos de carreira e incentivo aos estudos são características marcantes dentro das empresas que adotam esse tipo de cultura.
Componentes da cultura empresarial
Como explicamos acima, os elementos da cultura organizacional dão o tom às relações e à rotina dentro da empresa.
Mais uma vez, existem diferentes estudos de referência que falam sobre esses componentes, portanto, vamos nos basear no artigo “Modelo de gestão e cultura organizacional: conceitos e interações”, de Jaime Crozatti.
Segundo o texto, existem seis elementos que caracterizam a cultura de uma organização.
Crenças
Para compreender o significado das crenças dentro de uma companhia, é importante lembrar que ela é formada por seres humanos e, como tal, reflete aspectos da vida humana.
Tanto que, mesmo quando pertencem a uma organização, as crenças são definidas como verdades concebidas ou aceitas pelos colaboradores.
Elas são criadas no dia a dia, quando comportamentos são observados à medida em que esse grupo convive.
Valores
São os valores que indicam a importância das coisas dentro da empresa, incluindo quais são suas prioridades e o que não faz muita diferença.
Por isso, um jeito simples de identificar quais os valores de uma equipe é notar de que forma ela se ocupa durante a jornada de trabalho.
Costumes
São atitudes que resultam da materialização das crenças e valores.
Ou seja, os costumes revelam aquilo que, de fato, importa para funcionários e lideranças.
Ritos
São as atividades que integram a rotina, aquilo que é necessário para que a empresa funcione e conclua o trabalho a que se propõe.
Cerimônias
Descrevem os encontros de um grupo, sejam eles formais, como as reuniões de avaliação de desempenho, ou informais, como uma pausa conjunta para um café.
As cerimônias também são fruto dos valores, crenças e costumes, e podem ser usadas para reafirmar ou modificar cada um deles.
Rede de comunicação informal
É o nome dado à comunicação do dia a dia, feita, geralmente, pelos trabalhadores na ausência dos gestores.
Conhecida popularmente como “rádio peão”, a rede de comunicação informal revela a força da cultura empresarial, evidenciando pontos positivos e negativos na visão dos empregados.
Como é modelada a cultura de uma empresa?
“As experiências vividas pelas pessoas no cotidiano do trabalho nas empresas estão cercadas de mitos, rituais, valores e heróis, cada qual exerce sua função, participa e organiza as relações entre os indivíduos, conferindo significado (isto é, um conjunto de signos, significantes-significados e simbolismos) e servindo para a comunicação.”
O trecho acima, retirado do artigo “Cultura da empresa: a sua influência no cotidiano do trabalho e na vida dos trabalhadores do setor automóvel brasileiro e português“, indica que a modelagem da cultura empresarial se dá através da vivência dos funcionários e lideranças no dia a dia da organização.
Essas experiências complementam os valores, crenças e rituais comuns, consolidando ou modificando cada um deles de acordo com a necessidade e a autonomia que os colaboradores possuem.
Ou seja, a cultura organizacional não é algo estático; ela pode ser transformada pelas ações de seus recursos humanos.
Para tanto, é necessário incluir mitos e heróis, reforçando uma impressão positiva a respeito da organização e do que motiva sua existência.
Mitos costumam partir de soluções que culminaram em resultados positivos para a companhia e pautam o imaginário coletivo da empresa, incentivando a adoção de determinados padrões e processos.
Já os heróis são os personagens centrais que obtiveram uma vitória expressiva para a companhia, sendo tomados como modelo de ação pelos demais colaboradores.
Quando há grande identificação entre os funcionários e os valores, mitos e heróis, a cultura é reforçada dentro da organização.
Cultura empresarial: como implantar em 4 passos
Ao chegar até este ponto do texto, você provavelmente está repensando sua cultura empresarial e os impactos que ela tem sobre a organização.
Vale frisar que, mesmo nas empresas que nunca debateram esse tema a fundo, existe uma cultura válida no dia a dia, mas que pode ser fraca, desigual e descentralizada.
Isso significa, por exemplo, que os padrões adotados na matriz não são os mesmos das filiais, que departamentos diferentes construíram seus próprios costumes e, possivelmente, os clientes percebem um descompasso nas interações com a companhia.
Também pode implicar na insatisfação generalizada entre os funcionários, uma vez que maus hábitos acabam sendo tolerados devido à ausência de regimentos e lideranças fortes.
Desse modo, o tratamento, punições e benefícios acabam sendo desiguais, provocando um sentimento de injustiça em parte da equipe, e de impunidade entre as pessoas privilegiadas.
Seja qual for o cenário que despertou o desejo de mudar e implantar uma cultura forte, tenha em mente que a transformação é possível, desde que as lideranças estejam dispostas a adaptar os componentes da cultura empresarial.
Parece complicado?
Então, vamos simplificar essa trajetória, sugerindo a adoção de quatro passos inspirados neste conteúdo – assinado pela investidora-anjo e presidente da boutique de investimentos G2 Capital, Camila Farani.
Passo 1 – Encontre os valores da sua empresa
Quais são os valores que você deseja tomar como base na sua companhia?
Se preza por uma conduta íntegra, eleja a ética como valor.
Se quer qualidade nas relações, produtos e serviços, acrescente o profissionalismo.
Faça esse exercício e liste os elementos-chave que a empresa deve priorizar e que serão institucionalizados.
Em seguida, faça uma reunião com uma equipe estratégica que será a portadora desses valores, assumindo a responsabilidade de compartilhá-los com os demais funcionários.
Se a sua empresa for pequena, convide todos para esse encontro.
Se tiver muitos colaboradores, chame apenas aqueles que já têm uma postura condizente com um ou mais dos elementos definidos.
Repare que o critério para selecionar quem vai estar presente não leva em conta a posição ou cargo que as pessoas têm na organização, e, sim, a maneira como costumam se comportar.
Passo 2 – Transmita seus valores
Como afirma Camila, “os valores da cultura são o tecido entre sua empresa e o mundo”.
Então, merecem destaque em cada sala de reunião, evento, apresentação, canal e material utilizado para a comunicação da empresa, seja interna ou externamente.
Esse é o caminho para que os funcionários e clientes compreendam, absorvam e passem a relacionar os valores à companhia, reagindo de acordo com essas premissas.
Passo 3 – Incentive boas práticas
Considerando que a cultura é o caráter da empresa, é primordial recompensar as ações que apoiam os valores da instituição.
Nesse sentido, faça uma varredura para avaliar os eventos que já acontecem na empresa, tanto os formais quanto os informais, e crie programas para reforçar aqueles que estão de acordo com as prioridades.
Se a organização preza pelo aprendizado contínuo e há um grupo que se reúne para aprimorar o inglês, que tal aprimorar essa experiência com um professor particular ou aulas em uma escola de idiomas?
Passo 4 – Monitore e aperfeiçoe a cultura
Tão importante quanto conhecer o seu público-alvo é conhecer seus colaboradores.
Por isso, não se esqueça de monitorar a percepção que eles têm a respeito da empresa, do mesmo modo que monitora a satisfação dos clientes.
Não é preciso recorrer a ferramentas rebuscadas para fazer isso.
Na maioria das vezes, pesquisas periódicas (e anônimas), combinadas a almoços ou cafés com os funcionários são suficientes para colher dados importantes como feedback.
Sempre que identificar tendências negativas, pergunte o que pode ser feito para melhorar o quadro e designe um ou mais responsáveis pelas ações.
Cultura empresarial: 3 exemplos de sucesso
Agora que já conhece os principais passos para construir e implantar sua cultura empresarial, confira exemplos de organizações que se deram bem ao fortalecer a delas.
Spotify
Quem já experimentou o principal streaming de música certamente percebeu fatores como a simplicidade na comunicação, valorização de pessoas e flexibilidade para adaptar os serviços – fruto de um DNA voltado à inovação.
No entanto, não dá para imaginar os desafios que influenciaram na construção dessa cultura.
Após escolher a metodologia ágil para estruturar a empresa, os colaboradores notaram que alguns princípios não faziam muito sentido, e resolveram forjar seu próprio manifesto e regras.
Fundamentos como a liderança servidora – sempre pronta para ouvir e incluir os liderados –, confiança e sinceridade fizeram com que os times tivessem liberdade para apresentar soluções diferenciadas, sem medo de ser culpados caso não dessem certo.
Afinal, tanto o trabalho quanto a responsabilidade são assumidos por toda a equipe, que tira lições dos erros para melhorar da próxima vez.
ContaAzul
Plataforma brasileira focada na gestão integrada de empresas, a ContaAzul tem uma cultura baseada na conquista e experiência do cliente.
Tudo começa com a valorização do capital humano da startup, que trabalha num modelo de gestão horizontal, no qual todos têm espaço para opinar e implementar mudanças.
Foi assim que o time rompeu com o padrão de atendimento via call center, com processos rígidos e mecanizados, para aderir a um formato de encantamento do consumidor, englobando customização e proximidade.
Google
Um trabalho na gigante da tecnologia é o sonho de muita gente, graças a uma cultura que agrega clareza e emprega dados para avaliar e adequar o ambiente.
O Google se vale da expertise em inteligência de dados para enriquecer seus processos de análise da cultura, satisfação e performance dos funcionários, com grande incentivo para a inovação.
O local de trabalho é pensado não apenas para potencializar a produtividade e as novas ideias, mas também para promover o bem-estar e a qualidade de vida entre os colaboradores.
Conclusão
A cultura empresarial é a forma de ser da própria organização, determinando sua personalidade, rotinas e a maneira como ela atua no mercado.
Esse conjunto de elementos nasce da visão de mundo dos fundadores e altas lideranças, mas vai sendo modelado, aos poucos, pelos próprios colaboradores.
Portanto, é essencial envolver todo o seu time na adoção e promoção de uma cultura forte, pautada por valores éticos e profissionalismo.
Seguindo os passos que sugerimos, você e sua equipe estão preparados para mudar a realidade da organização, com ganhos junto ao público interno e externo.
Se gostou deste artigo, deixe um comentário. Compartilhe com seus contatos. Acesse o blog da FIA para aprender mais sobre empreendedorismo, gestão e performance empresarial.
Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet.
Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Rede varejista divulga resultados fortes no quarto trimestre de 2020 e mira seis mercados que considera avenidas de crescimento: supermercados, delivery de restaurantes, moda e beleza, retail tech, fintech e publicidade digital. O CEO Frederico Trajano explica os planos
Ralphe Manzoni Jr. – Neofeed•08/03/21
Ao longo de 2020 e do começo de 2021, o Magazine Luiza fez 11 aquisições. De companhias de delivery de comida, como o AiQFome, até a VipCommerce, que conecta supermercados, passando por publicidade digital e fintechs.
Agora, a companhia quer colocar todos esses negócios para escalar ao longo de 2021. “Apesar de toda a aceleração digital, estamos apenas arranhando a superfície”, disse Frederico Trajano, CEO do Magazine Luiza, ao NeoFeed. “Há uma oportunidade gigantesca em vários segmentos.”
O comentário aconteceu logo depois de o Magazine Luiza divulgar os resultados de seu quarto trimestre de 2020, que mostram que a taxa de crescimento das vendas online seguem aceleradas.
Nos últimos três meses de 2020, o Magazine Luiza movimentou R$ 9,5 bilhões nas vendas online (vendas próprias somadas ao do marketplace), consolidando-se na vice-liderança do mercado brasileiro, atrás apenas do Mercado Livre.
A rede varejista controlada pela família Trajano já havia ultrapassado a B2W, dona das marcas Submarino, Americanas.com e Shoptime no terceiro trimestre. O desempenho foi repetido agora. A B2W movimentou R$ 9,2 bilhões nos últimos três meses de 2020, um pouco menos do que o Magazine Luiza.
Trajano indicou seis mercados em que acredita que são oportunidades de crescimento para o Magazine Luiza e na qual a companhia deve focar: supermercados, delivery de restaurantes, moda e beleza, retail tech, fintech e publicidade digital. “O objetivo é endereçar bem as oportunidades de nossas aquisições”, afirmou o CEO do Magazine Luiza.
A visão do executivo é que todos esses mercados são enormes no Brasil e que ainda são mal explorados do ponto de vista online. O que cria uma oportunidade gigantesca. “Temos uma base de clientes enorme para explorar através do modelo de plataforma.” Hoje, o Magazine Luiza tem 80 milhões de clientes.
Questionado sobre quem é o seu principal concorrente hoje, Trajano disse que, no mundo digital, é difícil delimitar território. “Na China e nos Estados Unidos, Alibaba e Amazon concorrem com quase todo mundo”, disse o CEO. “É uma concorrência mais abrangente. Esse é o modelo que tende a prosperar no mundo inteiro.”
No caso de supermercados, o Magazine Luiza comprou, no começo de março deste ano, a VipCommerce, uma plataforma que conecta 100 redes de supermercados com 400 lojas presentes em 18 Estados. Anualmente, elas movimentam R$ 250 milhões. A meta é criar um marketplace – hoje, a operação de alimentos é operada exclusivamente pelo próprio Magazine Luiza.
Em delivery de restaurantes, o objetivo é integrar o aplicativo AiQFome, comprado no início de setembro do ano passado, ao superApp do Magalu, que conta com mais de 30 milhões de usuários.
Frederico Trajano, CEO do Magazine Luiza
Hoje, o aplicativo está presente em 450 cidades e movimenta R$ 1 bilhão por ano. “Há players bem estabelecidos, como o iFood, Rappi e Uber Eats”, diz Trajano. “Mas, em pouco tempo, podemos ser vice-líderes com a integração com o nosso ecossistema.”
O mesmo raciocínio vale para a área de fintech. Em dezembro, o Magazine Luiza adquiriu a Hub Fintech, por R$ 290 milhões. Com o negócio, passou a ser dono de uma operação com 4 milhões de contas digitais e cartões pré-pagos ativos, que movimentaram R$ 7 bilhões nos últimos 12 meses.
O objetivo, agora, é integrar essa operação com seus outros ativos de pagamentos, como o Magalu Pay, que já tem 2,7 milhões de contas digitais ativas, o Magalu Pagamentos e a LuizaCred.
A ideia é conectá-los, abrindo espaço para a criação e oferta de serviços financeiros, como cartão de crédito, empréstimos para pessoas físicas e jurídicas, seguros e cashback. O TPV (total payment volume) que passou pelo Magazine Luiza foi de R$ 42 bilhões em 2020.
Em publicidade digital, área na qual o Magazine Luiza comprou o site de tecnologia Canaltech e a Inloco Media, a ideia é vender publicidade na plataforma da rede varejista, como já fazem B2W e Amazon. Em última instância, a companhia vai competir também com o Google nesse espaço.
Resultado
No quarto trimestre de 2020, as vendas totais (incluindo marketplace) do Magazine Luiza cresceram 66%, atingindo R$ 14,9 bilhões – no ano, elas somaram R$ 43,5 bilhões, alta de 59,6%.
O e-commerce cresceu 121% e representou 64% das vendas totais do Magazine Luiza. No três últimos meses de 2020, ele somou R$ 9,5 bilhões. As vendas nas lojas físicas, por sua vez, cresceram 16% (11% nas mesmas lojas).
No período, o lucro líquido ajustado foi de R$ 232 milhões, com crescimento de 40% sobre o quarto trimestre de 2019. Em 2020, o lucro líquido ajustado somou R$ 377,8 milhões, uma queda de 25,1%
Trajano diz que o Magazine Luiza está com 800 lojas fechadas no momento (a rede conta com 1.301 pontos físicos). No começo deste ano, 100% delas estavam abertas. “Temos a felicidade de ter dois terços do faturamento da companhia online”, afirmou o CEO.
Mesmo assim, o Magazine Luiza poderá sofrer com o fechamento das lojas por conta da pandemia do novo coronavírus. “A loja física tem uma margem de contribuição alta, portanto podemos ter impacto na margem líquida.”
Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet.
Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Para estimular a inovação e as ideias, experimente dar um passeio
Gretchen Reynolds, The New York Times/Estadão – 19 de março de 2021
Se você costuma se exercitar, há uma boa chance de você também tender a ser mais criativo, de acordo com um interessante estudo sobre os laços entre atividade física e imaginação. O estudo descobriu que as pessoas ativas apresentam mais e melhores ideias durante testes de inventividade do que as pessoas relativamente sedentárias e sugere que, se queremos ser mais inovadores, o negócio é levantar da cadeira e agitar um pouco as coisas.
A ciência já oferece muitas evidências de que a atividade física influencia o modo como pensamos. Muitos estudos em pessoas e animais mostram que nossos cérebros mudam em resposta à atividade física, em parte porque durante o exercício nós inundamos nossos cérebros com sangue, oxigênio e nutrientes extras. Em estudos com roedores, os animais que se exercitam regularmente produzem muito mais células cerebrais novas do que seus colegas sedentários e têm melhor desempenho em testes de raciocínio, mesmo quando são mais idosos. Também nas pessoas, o exercício tende a aguçar nossa capacidade de raciocinar e lembrar e anima nosso humor.
Um grupo de mulheres se exercita com música em um parque em Madrid. Foto: Paul White/AP Photo
Mas a criatividade é uma das habilidades de pensamento mais abstratas e difícil de quantificar, e sua relação com o exercício não está clara. Alguns estudos anteriores encontraram relações intrigantes entre movimento e originalidade. Em um experimento notável de 2012, por exemplo, os pesquisadores pediram a alguns voluntários que movessem os braços de maneira solta e fluida pelo espaço, traçando as linhas de um desenho cheio de curvas e volteios que os cientistas lhes haviam mostrado, enquanto outro grupo imitava um desenho mais reto e angular.
Após cada sessão, os pesquisadores encorajaram os voluntários a imaginar novos usos inusitados para um jornal comum e descobriram que aqueles que se moviam com fluidez, quase como se estivessem dançando, tinham ideias mais originais do que aqueles cujos movimentos eram rígidos, retos e formalizados.
Outro estudo mais convencional de 2014 também descobriu que o movimento pode estimular a inovação. Na parte principal desse experimento de várias etapas, os voluntários se sentaram à mesa de uma sala sem brilho, tentando imaginar novas maneiras de usar um botão e outras formas de disparar sua imaginação. Em seguida, eles fizeram um teste ligeiramente diferente enquanto caminhavam em uma esteira nessa mesma sala pouco inspiradora. Quase todos os participantes apresentaram ideias que eram mais numerosas e engenhosas enquanto caminhavam.
Mas esses e muitos outros estudos anteriores sobre movimento e criatividade examinaram os efeitos de curto prazo da atividade física sob condições rigidamente controladas em laboratórios ou ambientes semelhantes. Não examinaram as potenciais ligações entre as atividades cotidianas, como dar um passeio, e o funcionamento de nossa imaginação, ou como ser ativo pode afetar a criatividade em geral.
Então, para o novo estudo, que foi publicado na Scientific Reports, pesquisadores da Universidade de Graz, na Áustria, decidiram acompanhar as atividades normais de um grupo de adultos e também medir sua criatividade, para ver se e como os dois fatores se influenciavam.
Os cientistas também se perguntaram sobre a felicidade. Algumas pesquisas anteriores haviam sugerido que o bom humor pode ser o elo intermediário entre a atividade e a criatividade. De acordo com essa ideia, o movimento deixa as pessoas mais felizes e seu bom humor, por sua vez, as torna mais criativas; nesse cenário, o movimento não afeta diretamente o pensamento criativo.
Para saber mais, os pesquisadores reuniram 79 adultos saudáveis, deram-lhes rastreadores de atividades por cinco dias e depois pediram que visitassem o laboratório e dessem asas à imaginação, finalizando desenhos iniciados e concebendo novos usos para pneus e guarda-chuvas. Os pesquisadores então classificaram sua produção no quesito originalidade e em outras medidas. Os voluntários também responderam a questionários sobre seu humor.
Por fim, os cientistas verificaram os dados, usando uma forma complexa de análise estatística que incorpora descobertas de pesquisas anteriores (para dar aos resultados mais peso estatístico) e pondera o papel que um mediador potencial desempenha. Nesse caso, os pesquisadores se perguntaram: estar feliz se relaciona intimamente com o quanto as pessoas se movimentam e com sua criatividade, ou seja, a felicidade vincula os outros fatores?
A resposta, concluíram os pesquisadores, é não. Os voluntários mais ativos provaram ser também os mais criativos, especialmente se caminhavam ou se exercitavam com frequência. Pessoas ativas também tendem a ser felizes, embora seu humor fique melhor quando elas fazem atividades mais vigorosas, como correr ou praticar esportes, em vez de atividades moderadas.
Mas as correlações entre atividade, criatividade e humor foram mínimas. As pessoas podiam andar com frequência e ser bastante criativas, mas não especialmente felizes, sugerindo que não era a melhora do humor que mais influenciava a criatividade. Era o movimento.
As descobertas apontam para “uma associação entre criatividade e atividade física na vida cotidiana”, diz Christian Rominger, professor de psicologia da Universidade de Graz e principal autor do estudo.
Mas o estudo foi associativo, o que significa que analisou um breve momento na vida das pessoas. Não envolveu um experimento aleatório e não pode nos dizer se ser mais ativo diretamente faz com que sejamos mais criativos, apenas que atividade e criatividade estão ligadas. Também não explica como os exercícios e outras atividades podem influenciar a criatividade, nem mostra se uma caminhada rápida agora nos ajuda a terminar melhor uma coluna de jornal ou algum outro empreendimento criativo depois. Mas os resultados indicam que a imaginação ativa começa com uma vida ativa. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU
Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Antes que o coronavírus transformasse nossa vida, as listas de tecnologia a ser monitoradas a cada ano eram frequentemente dominadas por aparelhos sensacionais como alto-falantes inteligentes e televisores curvos. Mas a pandemia nos levou a adotar uma tecnologia útil que muitas vezes era negligenciada. Os aplicativos que já foram considerados menores em nossos dispositivos de repente se tornaram ferramentas centrais.
Tomo como exemplo aplicativos de carteira móvel, tipo Apple Pay e Square. Embora já existam há anos, algumas pessoas ficaram presas aos cartões de crédito e ao dinheiro. Mas o medo renovado de germes finalmente nos forçou a usar os métodos de pagamento sem contato, presentes no celular, em vez de passar um cartão.
Há também a realidade aumentada. A tecnologia, que nos permite interagir com objetos digitais sobrepostos ao mundo físico, já está há mais de uma década em desenvolvimento. Durante anos, ela parecia mais futurista do que útil. Agora, porém, que não podemos ir a uma loja física com facilidade, tirar uma selfie para ver uma renderização digital de maquiagem em seu rosto com certeza parece uma boa ideia.
“Começamos a ver a necessidade de todas essas coisas durante a Covid. Pense em como a chamada de vídeo foi negligenciada por tanto tempo. Agora a usamos. Não é atraente, mas faz a diferença”, disse Carolina Milanesi, analista de tecnologia de consumo da Creative Strategies.
Tecnologias mais importantes do futuro serão as que normalmente não vemos (Glenn Harvey/The New York Times)
Com isso em mente, eis aqui quatro tendências tecnológicas que estão prestes a invadir nossa vida este ano.
1. Tecnologia que substitui lojas.
Você pode não ter notado na hora de uma compra on-line, mas a experiência está mudando.
Clicar na barra de navegação de um site para encontrar um item é meio ultrapassado. A barra de pesquisa que permite que você procure um produto específico é mais rápida. Em alguns casos, conversar com um bot pode ser ainda mais eficiente.
Os chatbots estão aí há anos. O Facebook tem oferecido ferramentas para os comerciantes fazerem bots que se envolvam com os clientes. Varejistas como a Amazon os usam para responder às perguntas dos clientes, e, quando os bots não conseguem ajudar, uma pessoa pode entrar para resolver a situação.
De acordo com Julie Ask, analista de tecnologia da Forrester Research, agora que visitar uma loja de varejo físico se tornou em grande parte impraticável na pandemia, podemos esperar que essa tecnologia de chat ganhe impulso: “Essa noção de estar on-line e pesquisar e clicar e usar uma janela de navegação é muito datada. O que vem depois disso? Grande parte do processo vai se dar por conversa, seja por texto ou por voz.”
Já existem muitos exemplos. Recentemente, eu quis comprar um par de sapatos na Beckett Simonon, marca de moda on-line, e perguntei a um funcionário, por meio de uma caixa de bate-papo, sobre o tamanho correto do calçado.
Ask disse que mais empresas também estão usando a realidade aumentada para ajudar com as compras on-line. A Jins Eyewear, que vende óculos com receita médica, permite que você tire uma foto do seu rosto para virtualmente experimentar modelos antes de decidir qual deles comprar. A Snap, empresa mãe do Snapchat, uniu-se a marcas de luxo como Gucci e Dior para oferecer um provador virtual.
A realidade aumentada está prestes a se tornar popular este ano, porque a tecnologia continua melhorando. Novos smartphones Apple e Android incluem sensores para detectar profundidade, o que possibilita que aplicativos de realidade aumentada coloquem objetos como móveis virtuais em espaços físicos.
Espere ver uma onda de novos anúncios que utilizam esse formato. Este ano, os anunciantes devem gastar cerca de US$ 2,4 bilhões em publicidade de realidade aumentada, um aumento de 71 por cento em relação ao US$ 1,4 bilhão do ano passado, de acordo com a empresa de pesquisa eMarketer.
2. O Wi-Fi está ficando mais inteligente.
Um problema de tecnologia doméstica que a pandemia sublinhou foi nossa conexão lenta e não confiável com a internet. No ano passado, à medida que as pessoas se isolavam para conter a propagação do coronavírus, a velocidade média da internet em todo o mundo diminuiu, em parte porque os provedores de banda larga foram sobrecarregados pelo aumento do tráfego.
Felizmente, a tecnologia Wi-Fi continua melhorando. Este ano, veremos uma onda de novos roteadores que incluem o Wi-Fi 6, um novo padrão de rede. Ao contrário das atualizações sem fio passadas, o Wi-Fi 6 não vai se concentrar na velocidade, mas sim na eficiência, compartilhando largura de banda com um grande número de dispositivos.
Eis o que isso significa. Digamos que sua família possui smartphones, vários computadores e um console de jogos. Se todos eles estiverem consumindo grandes quantidades de dados — para transmitir vídeo, por exemplo —, o Wi-Fi 6 faz um trabalho melhor na distribuição da largura de banda entre todos os dispositivos ao mesmo tempo, em vez de deixar que um deles se aproprie da maior parte.
A eficiência é especialmente importante porque há mais coisas conectadas à internet, de relógios a televisores, de balanças de banheiro a termostatos. Em média, o número de dispositivos conectados à internet usado por um indivíduo deve subir para cerca de quatro até 2023, contra dois em 2018, de acordo com uma pesquisa da Cisco.
3. Tecnologia que evita o contato.
O ano passado foi um momento de mudança para os pagamentos móveis. Por razões de segurança, mesmo aqueles que não abriam mão dos negócios em dinheiro começaram a aceitar pagamentos móveis.
No geral, 67 por cento dos varejistas americanos aceitam pagamento sem toque, contra 40 por cento em 2019, de acordo com uma pesquisa da Forrester.
Essa tecnologia não termina nas carteiras móveis. A chamada Ultra-Wide Band, tecnologia de rádio relativamente nova, também pode ter seu momento este ano. Esta usa ondas de rádio para detectar objetos com extrema precisão, mas não tem sido muito usada desde sua estreia em smartphones há cerca de dois anos. No entanto, a necessidade de experiências sem contato pode mudar isso, segundo Milanesi, da Creative Strategies.
Então, como a Ultra-Wide Band pode ser usada? Digamos que você tem um smartphone e uma cafeteria tem um tablet, e ambos são equipados com a tecnologia de rádio. Se você estiver em frente ao tablet, ele pode detectar seu telefone e aceitar seu pagamento (e não o da pessoa atrás de você na fila). A tecnologia também pode ser usada para permitir que funcionários entrem em um prédio e deem partida em um carro sem chave física.
4. Tecnologia que virtualiza trabalho e cuidado.
A pandemia deixou claro que experiências virtuais, como reuniões por vídeo e ioga no Zoom, são substitutos viáveis para a coisa real, quer você as suporte ou não. Em 2021, espera-se que mais produtos se ofereçam para digitalizar a forma como trabalhamos e permanecemos saudáveis.
Um exemplo: algumas empresas de tecnologia estão experimentando a recriação da sala de reuniões do escritório com realidade virtual.
O AltspaceVR da Microsoft, por exemplo, permite que você e seus colegas usem dispositivos para fazer reuniões em forma de holograma. A Oculus do Facebook, divisão de realidade virtual da rede social, divulgou que estava acelerando seu plano de levar essa tecnologia aos escritórios. Ela planeja casar seu mais recente dispositivo, o Oculus Quest 2, com um software pronto para os negócios, que ajuda as empresas a treinar funcionários e a colaborar, por cerca de US$ 800.
Com as academias fechadas, também estamos cada vez mais nos voltando para a tecnologia para manter nossa saúde.
No ano passado, a Amazon introduziu seu primeiro dispositivo de vestir para monitoramento de fitness, que inclui um software que escaneia sua gordura corporal. A Apple apresentou recentemente o Fitness+, que imita o Peloton, o serviço de vídeo que oferece instruções para exercícios em casa. Ask disse que essa tendência continuaria em outros aspectos da saúde, com aplicativos de vídeo que oferecem meditação guiada ou psicoterapia.
Como sempre acontece, algumas dessas tendências podem permanecer, enquanto outras talvez se esgotem. Todas precisam sobreviver ao teste da volta da vida ao “normal”.
“Comprar um Peloton, tapetes de ioga, relógios Apple – quanto desse comportamento é uma mudança permanente em comparação com um período de 12 a 24 meses, à medida que a pandemia vai passando? Os consumidores sempre serão o padrão do que é conveniente”, afirmou Ask.
Isso significa que os pagamentos digitais provavelmente vieram para ficar, porque economizam tempo. Mas, se voltarmos à academia, muitas de nossas compras de tecnologia relacionadas à saúde podem levar o comprador a se arrepender.
Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet.
Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Artigo enviado por Gianluca Pirani Xande, estudante da FGV e Novos Negócios na Nexodata
Israel é um dos mais importantes pólos de empreendedorismo do mundo. O país é referência em tecnologia, pesquisa e geração de novos negócios. Além de empresas como Waze, WeWork e Wix, que foram criadas por lá, o ecossistema empreendedor israelense é rico em deeptechs, ou seja, startups que desenvolvem tecnologia de ponta em busca de soluções revolucionárias. Exemplos disso são: a Orasis Pharmaceuticals que desenvolveu um colírio que corrige sua visão por 8 horas, o que acaba com a necessidade se usar óculos ou lentes de contatos; e a Utilis que identifica vazamentos de água limpa no caminho até as casas, que são responsáveis pela perda de 37% da produção de água tratada no Brasil.
Em fevereiro deste ano, passei 15 dias lá e me concentrei em conhecer o máximo de pessoas e startups que pude, com objetivo de responder uma pergunta: como que Israel, um país que possuí apenas 72 anos de existência, com 9 milhões de habitantes e uma área territorial equivalente ao estado de Sergipe, pôde se transformar numa potência mundial em tecnologia? A meu ver, a resposta consiste na combinação de três fatores: exército, educação e cultura.
Exército
O serviço militar é obrigatório para israelenses de dezessete anos. Portanto, ao se formarem na escola, todos os jovens ingressam automaticamente no exército, no qual homens permanecem por pelo menos três anos, e mulheres por pelo menos dois. Em muitos países, especialmente no Brasil, fazer parte das forças armadas nem sempre é bem visto, pelo fato de ser considerado um “atraso” na formação acadêmica. Contudo, não é essa imagem que o exército de Israel possui, uma vez que ele traz excelentes contribuições para os indivíduos que por lá passam.
Muitas pessoas imaginam as guerras dos dias atuais como as guerras da Segunda Guerra Mundial, em 1940: soldados correndo pelo campo de batalha e granadas voando para todos os lados. Entretanto, uma guerra não funciona mais assim. Hoje, a maioria dos esforços são concentrados em inteligência, espionagem e drones; em outras palavras, tecnologia. Assaf Luxemburg me explicou que oitenta por cento das pessoas que trabalham nas Forças de Defesa de Israel, trabalham em backoffice, interagindo com softwares e hardwares, bem longe do campo de combate.
O exército de Israel conta com forte apoio do Governo Israelense, que possui boas relações com os Estados Unidos, que contribuem financeiramente. Dessa forma, eles têm uma excelente fonte de financiamento, que utilizam para desenvolver novas tecnologias e técnicas de combate. Mais do que dinheiro, o exército possui pessoas de qualidade, especialmente os Times de Elite, que são responsáveis por desenvolver tecnologia de ponta.
Além da qualidade intelectual, esses profissionais têm uma forte motivação para atingir bons resultados. O território que hoje é Israel, foi parte do Império Turco Otomano durante séculos, até o fim da Primeira Guerra Mundial, quando passou para domínio Britânico. Mesmo sob controle inglês, continuou habitada por árabes, judeus, e povos de diferentes culturas que viveram juntos durante séculos. Com o fim da Segunda Guerra, a ONU determinou que esse território deveria ser repartido entre árabes e judeus, criando o Estado de Israel em 1948. Nesse mesmo ano, houve desentendimento entre as partes, que deu início à Guerra de Independência Judaica, na qual Israel expandiu suas fronteiras. Em 1967, os países em torno de Israel se uniram para declarar uma segunda guerra, dando início à Guerra dos Seis Dias, na qual Israel, novamente, saiu vitorioso e incorporou Jerusalém ao seu território. Já no século XXI, teve início o conflito na Faixa de Gaza, que permanece indefinido até os dias atuais. Dessa forma, há uma tensão constante na região e isso cria senso de urgência, que funciona como motivação, uma vez que entregar um software de defesa antimísseis uma semana antes ou depois, pode ser a diferença entre a vida e a morte de pessoas.
Dessa forma, o exército de Israel torna-se um verdadeiro centro de inovação tecnológica dentro do país, já que conta com recursos financeiros e pessoas de qualidade que se sentem motivadas a servir o país.
Esse hub tecnológico impulsiona o ecossistema empreendedor dado que profissionais que compõem os Times de Elite, normalmente, ao saírem do exército, criam seus próprios businesses, aumentando o número de startups no ecossistema. Esses empreendedores desfrutam de abundância de mão-de-obra qualificada em tecnologia, uma vez que antes mesmo de ingressar na faculdade, os israelenses já possuem experiência nesse mercado, proporcionada pelo exército que é somada à capacitação que adquirem durante sua graduação.
Educação
Localizada em Haifa, a Technion Institute of Technology é a melhor faculdade de tecnologia do país. Lá, conversei com o Ricardo Lemaski, head da Bronica Entrepreneurship Center. Ele me explicou que os cursos de maior prestígio na Technion são Ciência da Computação e Engenharia Elétrica. Isso já nos diz muito sobre os jovens israelenses.
A educação do país é voltada para cursos técnicos, que englobam desenvolvimento de softwares e pesquisa. Esse estímulo faz com que pessoas se dediquem para essas áreas, o que resulta em qualidade quando o assunto é tecnologia. O gráfico abaixo mostra como Israel se destaca no cenário mundial no quesito pesquisa. É o país com maior porcentagem do PIB (4,25%) destinada à P&D no mundo, além de terem o maior número de pesquisadores por trabalhador: 17 em cada 1000.
Essa tendência reflete na economia, uma vez que a indústria tecnológica é a mais representativa do país, impulsionada por patentes e descobertas constantes.
Em comparação, no Brasil, dos 7,8 milhões de estudantes de graduação, 20% cursam Administração ou Direito, com Economia em terceiro lugar no ranking. Como resultado, a maior indústria do nosso país é a financeira. Dentre as 10 maiores empresas do país no fim de 2019, 5 são bancos. Fica claro porque somos o país das fintechs, enquanto Israel é o país das deeptechs.
Dessa forma, a educação israelense é voltada para atender a demanda tecnológica do país.
Cultura
O mindset israelense é um fator chave para o sucesso do país. Os Israelenses possuem um forte senso de comunidade, são intensos e sinceros. Em conversas com israelenses, fica claro a energia vibrante e amor pelo país que eles têm. “O maior ativo dos Israelenses é o nosso país”, me disse Michel Abadi, Partner da Maverick Venture. Não faltam exemplos que escancarem a paixão pelo país. Israel é um país jovem e caso seus habitantes não se esforcem para o sucesso do país, como os antepassados fizeram, é capaz que ele deixe de existir num futuro próximo. É com essa mentalidade que todas as crianças foram e ainda são educadas por lá. Isso faz com que as pessoas sempre deem algo a mais e realmente se empenhem em cooperar, já que possuem um objetivo maior. É extremamente vantajoso manter essa “cultura de crise” já que ela leva a resultados melhores em menos tempo e de fato faz com que Israel seja um país sólido.
Ao migrarmos para o mundo dos negócios, entendemos que ele traz uma contribuição fantástica: cultura de feedback. Israelenses são muito intensos, assim como nós brasileiros, entretanto, eles não evitam confrontos. Com isso, ao pedir feedback de uma ideia, ou um projeto para um amigo ou colega de trabalho, você receberá uma resposta sincera, mesmo que essa seja “Não gostei, jamais usaria, refaça tudo”. No Brasil você dificilmente escutará isso, e provavelmente vai se sentir incomodado, já que nós optamos pela cordialidade para evitar atritos em nossas relações. Os israelenses não, e isso faz com que empresas poupem muito tempo, já que times de trabalho conseguem caminhar na direção correta, resultado de feedbacks constantes.
O gráfico abaixo explica esse fenômeno com teoria. O estudo mapeou as características de negociação em diversos países do mundo. Repare nas posições de Israel e Brasil.
Erin Meyer in “Getting to Sí, Ja, Oui, Ha and Da” – 2015
Conclusão
A combinação entre exército como um pólo inovador, pessoas voltadas à pesquisa e uma cultura voltada para o resultado, gera energia criativa. Essa energia criativa é o combustível que impulsiona a geração de novos negócios em Israel, e que possibilitou a estruturação de um país inteiro em apenas 72 anos. Eles possuem mão de obra qualificada, um centro de inovação tecnológica, pessoas que se interessam pelo assunto além de uma cultura que favorece o rápido desenvolvimento de empresas.
Um ecossistema empreendedor que é liderado por desenvolvedores e pesquisadores terá um apelo tecnológico muito maior do que um outro que seja liderado por administradores e economistas. Tecnologia precisa ser mais valorizada no Brasil, caso contrário continuaremos a gerar startups que apenas melhoram processos de cadeias produtivas com um nível raso de tecnologia. Evidentemente alguns fatores externos que compõem nosso ecossistema empreendedor são imutáveis. Assim, copiar o que é feito em Israel não é a estratégia correta, mas sim compreender o que eles fazem, e adaptar as melhores práticas para o cenário brasileiro.
Nessa linha, penso que devemos ser mais como os israelenses. É fundamental aceitar e conceder críticas construtivas e sinceras sobre trabalhos ou negócios; trabalhar por um Brasil melhor, ao invés de trabalhar por honra e reconhecimento pessoal; e incentivar uma cultura de crise, porque de fato há muitos problemas latentes no Brasil. Imagine se a intensidade com que resolvemos os problemas da pandemia, fosse a mesma intensidade que resolvêssemos os problemas da educação, política ou saúde. O resultado com certeza seria um desenvolvimento tão rápido e de qualidade quanto o desenvolvimento de Israel.
Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet.
Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/