Como preparar as pessoas para funções que ainda vão ser inventadas?

Um dos requisitos é aprender a aprender — e desaprender para abrir espaço para o novo

Por Ernesto Yoshida – Exame  12/02/2021 

Mulher em home office: a nova realidade do trabalho vai exigir mais flexibilidade das empresas, treinamento e mudanças na legislação (Oli Scarff/Getty Images)

O impacto do coronavírus na nossa vida tem sido tão grande que virou chavão dizer que, depois que a pandemia passar, nada será como antes. Isso se aplica também ao trabalho? Qual é o impacto mais profundo que a crise da covid-19 trouxe para o futuro do trabalho? Para discutir esse tema, a EXAME CEO reuniu três especialistas para um bate-papo de 60 minutos por videoconferência, no início de janeiro: Priscila Castanho, diretora de employee success da Salesforce para a América Latina; Iza Dezon, consultora de estratégia que trabalha com análises de novas tendências socioculturais; e Denise Asnis, especialista em educação corporativa e sócia fundadora do Taqe, aplicativo para recrutamento de jovens talentos de forma 100% online. A seguir, os principais trechos do bate-papo.

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EXAME CEO: Qual foi a principal mudança que a covid-19 e a aceleração digital trouxeram para o trabalho? Dá para afirmar que nada será como antes?

IZA DEZON: É óbvio nesta pandemia que a primeira grande pergunta que todo mundo faz é se tudo mudou completamente. E eu gosto de lembrar que as mudanças de comportamento acontecem em ondas. Não são ondas gigantes que vêm de repente e mudam as coisas completamente. O trabalho é altamente impactado por essas novas dinâmicas, mas não é uma transformação imediata. As coisas ocorrem em ondas e vamos sentir, provavelmente nos próximos dez anos, as mudanças que começaram em 2020.

PRISCILA CASTANHO: A pandemia mudou o jeito de trabalhar, especialmente em empresas que ainda não estavam na era digital. Muitas tiveram de correr atrás para ter uma força de trabalho 100% no remoto do dia para a noite. Ainda está sendo um período de adaptação, mas acho que nunca voltaremos ao que era antes. Vamos ter de conviver com o vírus por muitos anos, e fazer um reset e voltar a trabalhar como antes vai ser impossível. Vamos ter talvez um blend, trabalhar metade no escritório, metade remotamente. A Salesforce fez uma pesquisa global recentemente, com mais de 20.000 pessoas, incluindo 2.000 no Brasil. Mais da metade disse que, se tivesse opção de trabalhar remotamente, trabalharia, mas não são todas as empresas que conseguem oferecer essa flexibilidade. E muitas pessoas também não se sentem preparadas para trabalhar dessa forma. 

Denise Asnis, sócia fundadora do aplicativo de recrutamento Taqe: mercado mais competitivo, mas com novas possibilidades

Denise Asnis, sócia fundadora do aplicativo de recrutamento Taqe: mercado mais competitivo, mas com novas possibilidades (Divulgação/Divulgação)

DENISE ASNIS: O que temos percebido é que mesmo empresas muito tecnológicas estão vivendo um processo complicado hoje de se voltar para o indivíduo. Porque antes era muito forte o conceito de que a tecnologia bastava por si. Mas o ser humano é, por natureza, social. E isso, de certa forma, estava sendo negligenciado pelas empresas mais digitais. Recentemente, conversei com uma pessoa que estava muito triste. Ela disse: “Não estou aguentando mais ficar sozinha. Estou lutando comigo mesma para conseguir trabalhar, para produzir o que produzia antes. A empresa entende o que estou passando, mas estou mal”. Está claro que as empresas vão ter de olhar para duas coisas: manter-se atualizada para acompanhar as novas tendências de tecnologia, mas ao mesmo tempo acolher as pessoas e incluir o lado humano e social nessa história. 

IZA: Eu só queria lembrar que, no Brasil, 50% das pessoas não têm saneamento básico, e menos ainda são as que têm acesso à tecnologia. Então, quando falamos em trabalho remoto, estamos falando de um nicho de privilegiados, de pessoas que têm acesso à internet. É importante lembrar também da economia do cuidado, que inclui o trabalho de cuidados da casa, da alimentação, da criança. Essa economia invisível não é contabilizada e sobrecarrega especialmente as mulheres. Estou trazendo esses dois pontos porque, se as pessoas vão trabalhar mais em home office, elas necessitam de apoio. O Google, por exemplo, deu 1.000 dólares a cada funcionário para montar um escritório em casa. 

Mulher em home office: a nova realidade do trabalho vai exigir mais flexibilidade das empresas, treinamento e mudanças na legislação (Oli Scarff/Getty Images)

PRISCILA: O coronavírus nos fez repensar várias questões, mas uma coisa que ficou marcada é que nossa desigualdade aumentou durante a pandemia. E uma forma de diminuir esse gap é por meio da educação. Com a pandemia, surgiram novas oportunidades, incluindo trabalhos que não existiam antes. E há muitas pessoas que gostariam de se recapacitar e se preparar para esses novos trabalhos. Hoje existem várias plataformas de ensino online e gratuitas que ajudam as pessoas a se qualificar nesse novo ambiente, democratizando a educação. Na plataforma da Salesforce, temos várias histórias de sucesso de pessoas que nunca trabalharam com tecnologia e começaram a se capacitar, viram uma possibilidade e conseguiram um emprego ou montaram o próprio negócio, viraram empreendedores, desenvolvendo novas capacidades para atender às demandas de hoje.

DENISE: É interessante perceber hoje o movimento de que uma formação não mais prediz sua função, seu trabalho, o que acho sensacional. Você pode se formar engenheiro e trabalhar em RH, pode se formar em psicologia e trabalhar em inovação. Conheço uma pessoa que fez biologia na USP. Quando terminou o curso, ela disse: “Não é isso que quero”. Foi fazer uma pós-graduação e conseguiu uma bolsa em turismo na Suíça. Estava trabalhando na Inglaterra nessa área, quando veio a pandemia e acabou com o mercado de turismo no curto prazo. Ela está agora usando o tempo livre para estudar ciên­cia de dados. Está mudando de carreira pela terceira vez em três anos, mas com muita tranquilidade. As pessoas estão começando a perceber que há oportunidades em lugares onde antes não enxergavam. O emprego hoje não é mais local, virou global. Uma pessoa no Acre pode trabalhar remotamente para uma empresa de São Paulo. Por um lado, o mercado de trabalho está cada vez mais competitivo. Por outro, está se abrindo um novo cenário para quem antes tinha poucas possibilidades de trabalho. 

EXAME CEO: Alguns estudos mostram que a maioria dos jovens vai trabalhar no futuro com profissões que nem sequer existem ainda. Como preparar as pessoas para trabalhos que ainda vão ser inventados? 

DENISE: A primeira coisa é que as pessoas precisam aprender a aprender. Essa é a competência mais importante de todas.

PRISCILA: E aprender a desaprender. 

DENISE: Sim, para aprender, você precisa dar um espaço ao desaprender. Estão embutidas nessa ideia a resiliência, um pouco mais de flexibilidade, maior abertura à inovação. Hoje o mercado usa o termo soft skills, de competências sociais, mas não importa o nome. Resiliência e flexibilidade são duas coisas fundamentais.

Priscila Castanho, diretora de employee success da Salesforce: plataforma para democratizar a educação

Priscila Castanho, diretora de employee success da Salesforce: plataforma para democratizar a educação (Marcelo Justo/Divulgação)

PRISCILA: Eu acrescentaria, com base em uma pesquisa que fizemos, a criatividade e a adaptabilidade. Novos trabalhos estão surgindo, e para um grande número de pessoas o foco hoje é em análise de dados, ciência de dados, codificação, porque tudo está sendo criado em torno da tecnologia. Não há como fugir da revolução tecnológica. Para esses cargos que ainda não existem, o próprio RH deve acompanhar as tendências e adaptar seus programas. Na ­Salesforce, acabamos de criar uma área, com um executivo c-level, de work from anywhere, o trabalho de qualquer lugar, porque há muita coisa que precisará ser adaptada. Ter um funcionário que trabalhe remotamente fora do Brasil ou um funcionário que trabalhe no Brasil para uma empresa do exterior tem implicações trabalhistas e tributárias. Há muita coisa que vai mudar, e as empresas precisam se preparar para isso.

IZA: Acho muito bacana quando a gente fala em soft skills, mas Seth Godin, que é um cara de marketing que acho incrível, pede por favor que a gente pare de chamar as soft skills dessa maneira, porque elas não têm nada de soft. Godin prefere falar em real skills, as verdadeiras habilidades que precisamos ter no trabalho, na escola, em casa ou em qualquer lugar. Sobre criatividade, lembro-me de que, quando era pequena, sempre trabalhava com cores e dizia a meu pai, que trabalhava com estatística: “Coitado, seu trabalho não é criativo”. Aí ele me respondia: “Minha filha, não é porque é tudo colorido que é criativo”. Temos ainda esse problema de ficar presos a esse conceito de criatividade, mas precisamos misturar os departamentos para potencializar as sinergias e as convergências. Outra coisa valiosa para o futuro do trabalho é a ruptura da ideia que os americanos chamam de snow­flake complex, ou “complexo de floco de neve”, para descrever uma geração que cresceu com a ideia de que “eu sou muito único, maravilhoso e, para obter sucesso, preciso ser o CEO”. Só que não vamos a lugar nenhum se tivermos só CEOs. O CEO precisa de uma equipe para ser CEO. As pessoas precisam encontrar seu lugar no coletivo e entender que todas as peças de um quebra-cabeça são importantes. O objetivo não é sempre virar o grande chefe, ou o dono do negócio, ou o empreendedor. Essa noção combina mais com um sistema patriarcal que, aos poucos, está ficando para trás. E um último ponto sobre novas habilidades. Há 20 anos, meu pai dizia: “Por que você está estudando italiano? Você tem de aprender chinês”. Hoje acho que todo mundo tem de aprender é a fazer programação. 

PRISCILA: Eu concordo.

IZA: Quando falamos em transformação digital, a língua do futuro será a da programação. Um dos empregos mais loucos que estão em alta hoje, e ouvi isso de alguém da IBM, é que precisamos educar as inteligências artificiais, precisamos formá-las ética e moralmente. Toda máquina precisa ser abastecida, da mesma forma que abastecemos uma criança contando histórias desde que ela é pequena. Por isso, é importante ter noções básicas de programação.

DENISE: Acho que há duas coisas que para mim são interessantes de relembrar. A primeira é o papel da liderança, que precisa mudar em seu aspecto básico. Não dá para eu ser o líder que era lá no presencial e não dá para eu ser o líder que sou hoje no online total, porque no sistema híbrido, que é para onde vamos caminhar depois da pandemia, há uma série de questões que esse líder vai precisar olhar. A primeira é esse desejo de ter controle sobre tudo, sobre o processo, sobre as pessoas, sobre o horário. Isso tem de mudar. As pessoas vão trabalhar por projeto, por resultado. Então precisamos mexer na cabeça da liderança. Um segundo ponto importante tem a ver com a remuneração nas organizações. Temos ainda uma estrutura de natureza fabril, onde quem opera ganha pouco e quem pensa ganha muito. Mas na área de programação, por exemplo, todo mundo pensa e opera. Não dá para você pensar num processo e mandar o outro fazer. Acho que vamos caminhar nessa direção. 

EXAME CEO: Nesse novo cenário, em que posso trabalhar de qualquer lugar e uma empresa pode também contratar funcionários de qualquer lugar, o que muda na relação entre empresa e empregado? 

PRISCILA: Uma coisa que já ajudou bastante foi uma mudança que tivemos na CLT, há três ou quatro anos. Hoje podemos contratar pessoas 100% no remoto, sem controle de jornada. Falta a regulamentação das que estão trabalhando no remoto e têm controle de jornada. Como as empresas vão fazer esse controle, se é que vão? A pandemia mudou a forma como a pessoa trabalha. Ela pode ter um filho que fica pulando no colo, então precisa fazer uma pausa e trabalhar de madrugada ou na hora que for possível. Haverá muitas discussões sobre como adaptar a jornada de trabalho a essa nova realidade.

DENISE: Já mencionei que as pessoas vão trabalhar cada vez mais por projeto, por job, por atividade. Em alguns países, isso é supertranquilo. Você combina com a pessoa, contrata, paga, e está tudo certo em termos de legislação, mas no Brasil ainda é um deus nos acuda. Aqui as empresas tiveram de criar estruturas paralelas de MEIs e PJs, que vão entrando e ficando, misturando tudo. Será necessária uma grande revolução nessa questão, ainda mais porque os jovens que estão chegando hoje ao mercado de trabalho convivem com outras três gerações. Nós nunca passamos por isso. Antes, as empresas até meio que exigiam que funcionários com 60 anos saíssem, mas agora existe a tendência de trazer pessoas aposentadas de volta, para trabalhar com jovens que estão chegando. Essas estruturas que estão valorizando mais a diversidade vão exigir uma mudança na forma como as empresas fazem a gestão de pessoas. 

Iza Dezon, consultora que analisa novas tendências socioculturais: a língua do futuro será a da programação

Iza Dezon, consultora que analisa novas tendências socioculturais: a língua do futuro será a da programação (Divulgação/Divulgação)

IZA: A geração que está vindo é menos paciente e mais fluida do que os millennials. As empresas vão precisar cativar a atenção desses jovens, que falam: “Isso é chato, vou fazer outra coisa”. As empresas não conseguem reter da mesma forma esse público que pode ficar em home office, que tem a possibilidade de mudar de emprego, que é mais maleável. Elas precisam cativar essa geração da mesma forma que tentam cativar o consumidor. Dar benefícios, criar oportunidades, permitir maior flexibilidade e mobilidade dos vários talentos dentro da empresa.

https://exame.com/revista-exame/o-trabalho-amanha/

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Anywhere office: local de trabalho com lazer, em qualquer dia e lugar

Cada vez mais brasileiros aderem à tendência, que pode sobreviver à pandemia

Por Sabrina Brito Veja 5 mar 2021 

Estamos na era do anywhere office, ou seja, do escritório em qualquer lugar. Para manter distância do novo coronavírus, por decisão própria ou determinação da empresa, muita gente começou a trabalhar em casa, na escrivaninha já instalada ou improvisada de última hora. Mas casa, assim como o escritório, também pode ser em qualquer lugar: na praia, no campo, em um hotel ou dentro de um transatlântico — desde que haja conexão com a internet, o negócio está feito. 

Uma pesquisa sobre turismo encomendada pelo aplicativo de locação Airbnb revelou que 83% dos entrevistados se mostram a favor de acomodação em outro espaço, que não o próprio lar, para trabalhar remotamente. Afinal, já que o trabalho é virtual, por que não fazê-lo a partir de um endereço com uma bela vista, ao alcance de uma caminhada quando o expediente acabar? E se, além disso, o profissional ainda puder aproveitar serviços de lavanderia, limpeza de quarto e restaurante? Não pode haver mundo melhor do que esse.

Já sabendo disso, hotéis e resorts, até por necessidade de sobrevivência, lançaram-se a alugar por temporada, dando a oportunidade ao hóspede de aliar férias ao trabalho. Para aqueles com filhos, a hotelaria oferece monitores que cuidam dos pequenos enquanto os adultos trabalham. Algumas bandeiras vão além, disponibilizando salas de aula onde as crianças estudam enquanto a escola não abre. 

Os destinos dessa migração variam, mas o Nordeste, por tudo o que oferece, inclusive distanciamento social nas amplas praias, ganha de goleada. De acordo com a Azul Conecta, braço de aviação regional da Azul, um dos lugares que têm se sobressaído é Porto de Galinhas, em Pernambuco. Na Costa do Sauípe, roteiro popular na Bahia, um novo pacote, adequadamente chamado “Meu Escritório É na Praia”, permite que o hóspede trabalhe remotamente de uma mesa colocada em frente ao mar, com direito a guarda-sol e internet.

NO PARAÍSO – porto de Galinhas, em Pernambuco: o Nordeste é preferência nacional – iStock/Getty Images 

A ideia foi suficientemente tentadora para o empresário Carlos Henrique Carvalho, morador de São Paulo, juntar trabalho remoto com um pacote de curtas estadas em praias paulistas como Barra do Sahy, Juquehy e Ilhabela, e também em Sergipe e na Bahia. “Meu objetivo era me isolar em um lugar mais seguro que a cidade, onde eu pudesse ter contato com a natureza”, diz o executivo. Ele acredita que trabalhar num canto em que se sente melhor só aumenta a produtividade. 

Para quem não gosta de praia, há opções rodeadas de verde. Cidades como Itu, Taubaté e Campos do Jordão, no interior de São Paulo, estão vendendo pacotes semelhantes. A rigor, não é preciso nem mesmo sair da cidade em que se mora para fazer o anywhere office. “O legal é justamente poder trabalhar literalmente de qualquer lugar”, afirma Victor Peixoto, gerente de comunicação. Paulistano, ele e a mulher resolveram passar dois dias no hotel de luxo Hilton São Paulo, só com o intuito de mudar de ares. Dizem ter funcionado, magnificamente. No Rio, o Vila Santa Teresa Hotel, um refúgio urbano de 85 000 metros quadrados com uma vista invejável do Pão de Açúcar, passou a receber 40% de sua clientela de cariocas. “Antes, 80% dos hóspedes eram estrangeiros. Nos últimos tempos, moradores da cidade passaram a reservar nossos quartos e, entre um mergulho na piscina e caminhadas pela propriedade, trabalham daqui”, diz a empresária Eva Monteiro de Carvalho.

LOUCOS PARA VIAJAR - Em Londres: britânicos contam os dias para curtir a temporada de verão em cruzeiros – Chris Gorman/Getty Images 

O advento do escritório por aí afora, sem amarras, foi um alívio para o setor de turismo, que vem tendo pesadas perdas de receita desde que a pandemia começou logo após o Carnaval de 2020. É uma das poucas oportunidades de evitar estragos maiores do que os já registrados, já no patamar de 50 bilhões de reais. “Essa tendência é vital para o turismo, que se movimenta, e também para o viajante”, diz Magda Nassar, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens. Segundo ela, o efeito clausura provocado pela pandemia despertou o desejo de viajar, e o anywhere office propicia essa possibilidade sem que se diminua o ritmo de trabalho.

Aproveitar a moda é uma boa ideia, mas ela perdurará? Uma pesquisa da consultoria Cushman & Wakefield aponta que três em cada quatro empresas brasileiras pretendem fazer do home office uma prática definitiva mesmo após a pandemia. Dessa forma, se o trabalho remoto veio para ficar, pode ser que o mesmo aconteça com o anywhere office. Nos países com campanhas de vacinação avançadas, o turismo dá sinais animadores de voltar à vida normal. Em Israel, hotéis, shoppings, safáris e museus estão reabrindo de forma segura. Da população de quase 9 milhões de pessoas, 50% já foi vacinada — o que não significa necessariamente que elas estão voltando ao trabalho presencial. Muita gente pretende trabalhar de casa ou, insista-se, de qualquer outro lugar.

E, falando em retomada, o Reino Unido começou a negociação com outros governos para reabrir os corredores turísticos. Os 20 milhões de britânicos que tomaram pelo menos uma dose do imunizante têm demonstrado preferência por destinos na Turquia e cruzeiros no Mediterrâneo. Países como Indonésia, Dinamarca e Suécia estudam a possibilidade de permitir a entrada apenas de turistas imunizados. Já a Grécia quer receber os viajantes britânicos, estejam vacinados ou não. O motivo da pressa é claro: grande parte da receita grega vem do setor turístico. Outro exemplo são as Ilhas Seychelles, arquipélago localizado no Oceano Índico, cuja dependência do turismo é total. O país foi o primeiro a anunciar a disposição em receber turistas vacinados sem exigência de quarentena na chegada. 

Verdade seja dita, não há nação que não anseie pelo retorno das viagens internacionais, incluindo aí o Brasil. Levando em conta o cenário global, é de esperar que, à medida que o brasileiro vá sendo vacinado, o setor de turismo volte a funcionar paulatinamente, como um jato aquecendo suas turbinas. Nesse sentido, as expectativas não são ruins. “Acreditamos que, em julho, a temporada de turismo começará a se solidificar”, diz Magda Nassar. Por enquanto, com a vacinação avançando lentamente, o turista brasileiro terá de se contentar com viagens curtas a destinos onde possa trabalhar e se divertir ao mesmo tempo. Mas há quem esteja empolgado tanto com a continuidade do anywhere office quanto com a retomada do turismo tradicional. É o caso de Marcos Arbaitman, presidente do grupo controlador da Maringá Turismo. Ele espera para maio uma recuperação de 100% do turismo nacional e acredita que, quando 30% da população estiver imunizada, voltará a vender destinos internacionais como Nova York. É uma visão otimista. Tomara que aconteça.

Publicado em VEJA de 10 de março de 2021, edição nº 2728 

https://veja.abril.com.br/economia/anywhere-office-local-de-trabalho-com-lazer-em-qualquer-dia-e-lugar/

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Frederico Trajano: Magalu se prepara para ser o Alibaba brasileiro

Aquisições, novos serviços e produtos, e crescimento do e-commerce fazem o Magazine Luiza superar adversidades do varejo na pandemia

Por Marina Filippe – Exame  08/03/2021 

A varejista Magazine Luiza divulgou nesta segunda-feira, 8, os resultados do 4º trimestre de 2020 e o consolidado dos doze meses do ano. No último período as vendas totais, incluindo marketplace, somaram 14,9 bilhões de reais, um crescimento de 66%. No ano foram 43,5 bilhões de reais, um crescimento de 59,6%. Já o lucro líquido do trimestre cresceu 39,8%.

Para o crescimento do Magazine Luiza, o e-commerce foi essencial, especialmente com o fechamento das lojas devido a pandemia da covid-19 e a aposta da empresa na digitalização. No último trimestre do ano, as vendas pelo canal avançaram 120,7%, atingindo 9,5 bilhões de reais, e representaram 63,8% das vendas totais.

“Temos a força do nosso e-commerce junto com todas as outras empresas que adquirimos para oferecer produtos e serviços de modo a ser um sistema operacional completo do varejo brasileiro aos moldes do que vemos no exterior com empresas como o Alibaba”, afirma Trajano.

O executivo reforçou ainda a geração de caixa e lucro mesmo com as aquisições. Além disso, o e-commerce se tornou cada vez mais importante, agora chegando a ser dois terços das vendas, o que no cenário da pandemia é bastante relevante mesmo quando com as lojas abertas, como no último trimestre.

A companhia também aposta fortemente em aquisições de negócios focados em tecnologia, publicidade e varejo para ampliar a capilaridade de vendas e também a oferta de produtos. A mais recente delas é a compra da VipCommerce, que oferece tecnologia para mais de 100 redes de supermercados, com 400 lojas localizadas em 18 estados do Brasil.

“A penetração da venda online de alimentos, bebidas e produtos de higiene do varejo brasileiro é de apenas 1% e há muito potencial de crescimento. O AiQFome, por exemplo, comprado por nós no ano passado faturou 1 bilhão de reais em 2020 num mercado de 196 bilhões de reais de alimentação fora de casa”, diz Trajano.

A companhia cresce focando também na venda de outras categorias como moda e beleza com as marcas Época Cosméticos, Zattini e Netshoes, além da Hubsales, que pretende digitalizar pólos industriais de moda, conectando fabricantes diretamente ao consumidor final por meio do marketplace. “Neste segmento estamos no patamar de 5 bilhões de reais faturados para um mercado de 67 bilhões de reais”, diz.

  • Enjoei, BMG e Magalu: as empresas com mais mulheres no conselho

Para conectar todas essas oportunidades o Magalu tem trabalhado também no fortalecimento de serviços de pagamentos. O Magalu Pay, Hub Fintech e Luizacred passam então a ser conectados, abrindo espaço para a criação e a oferta de serviços financeiros digitais — cartão pré-pago, cartão de crédito, empréstimos para pessoas físicas e jurídicas, seguros e cashback no superapp.

“Há 5 milhões de cartões ativos no Luizacred, além de 2,7 milhões de clientes em sete meses de Magalu Pay. Isto só reforça a capacidade de ampliar a participação em um mercado de 2 trilhões de reais”.

Esses sistemas de pagamento se fortaleceram também com o crescimento do marketplace que, com a pandemia, lançou serviços como o Parceiro Magalu para que empresas analógicas possam criar suas lojas virtuais. Ao todo são 47 mil lojistas no marketplace Magalu, que no 4º trimestre contribuiu com 2,6 bilhões reais ao e-commerce, crescendo 122,9%.

Para divulgar todos esses serviços e os mais de 26 milhões de itens da plataforma, o Magalu investiu ao longo do ano também na aquisição de empresas de conteúdo e marketing. Para aumentar a audiência e a eficácia do Magalu Ads a companhia comprou, há cerca de seis meses, o site especializado em conteúdo de tecnologia Canaltech e a plataforma de mídia online da Inloco. E a partir de agora o MagaluAds passará a contar com uma plataforma própria. “Assim conseguimos monetizar essa audiência e conectar aos outros negócios que estão no superapp, que conta com 33 milhões de usuários ativos mensais”, afirma Trajano.

Agora o executivo se prepara para continuar expandindo os negócios apesar de adversidades como a segunda onda da pandemia da covid-19. “Voltamos a fechar lojas físicas mesmo onde governos não exigiram, mas entendemos ser a melhor opção. O crescimento do primeiro trimestre de 2021 deve ser menos acentuado, mas estamos preparados”, afirma Trajano.

https://exame.com/negocios/frederico-trajano-magalu-se-prepara-para-ser-o-alibaba-brasileiro/

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Quando os algoritmos nos conhecem melhor do que nós mesmos

Da descoberta da bissexualidade pelo TikTok até a da gravidez pela Huggies.

by Fernando Teixeira MIT Technology Review Fevereiro 25, 2021

Yuval Harari, autor dos livros Sapiens e Homo Deus, em artigo publicado no Financial Times, cita o poder dos algoritmos utilizados pelo governo da China para controlar a pandemia. Naquele país, câmeras de segurança fazem o reconhecimento facial das pessoas nas ruas e cruzam esses dados com informações de comportamento das mesmas, capturados pelos telefones celulares (exemplo: onde passaram, o que fizeram e compraram), e, por fim, com os dados de saúde (exemplo: temperatura corporal e ficha aberta em hospital). A partir desses cruzamentos, o governo consegue construir algoritmos para predizer se uma pessoa está doente antes mesmo de ela manifestar sintomas, obrigando-as a ficar em quarentena. Não é preciso fechar cidades inteiras, mas apenas isolar pessoas, uma a uma.

É assim que o algoritmo sabe mais sobre o corpo das pessoas do que elas mesmas

A construção do algoritmo se dá a partir de informações que classificamos como Entradas e Saídas. De um lado, os milhões de dados de comportamento, como localização, sites por onde navegou, pessoas com quem se encontrou, vezes que usou o telefone, temperatura do corpo, cidade, entre outros. Essas são as Entradas. Do outro lado, estão as confirmações de casos de Covid-19. Essas são as Saídas. O algoritmo é o conjunto de regras e cálculos matemáticos que expressam essa equação em que milhares de microcomportamentos podem estar ligados ao diagnóstico positivo da doença.

Diagrama de Inteligência Artificial aplicado à política de saúde pública

A partir da construção do algoritmo, quando uma nova pessoa entra na mesma “trilha” de traços de comportamento que podem indicar a enfermidade, o algoritmo faz as contas e acende a luz vermelha. Uma série de aplicativos hoje seguem a mesma lógica e procuram alertar usuários de celular quando estão próximos a um quadro de depressão, entre outros.

A descoberta da bissexualidade pelo TikTok

Uma história recente foi relatada pela colunista do Mashable, Jess Joho, em um artigo que começa apresentando “a lista de pessoas que perceberam que eu — uma mulher cis que se identificou como heterossexual por décadas de vida — era, na verdade, bi muito antes de eu mesma perceber recentemente: minha irmã, todos os meus amigos, meu namorado e o algoritmo do TikTok”.

Ela relata que inicialmente era bombardeada de vídeos tolos com cachorros, gatos e danças de jovens em frente às câmeras dos celulares. O tempo foi passando, e o aplicativo foi capaz de, segundo ela, “ler a sua alma” trazendo pequenos gostos inconscientes para sua mente consciente. Ela até diz que, em um momento, isso pareceu um ataque pessoal, mas era a verdade.

Assim como na história da pandemia, o algoritmo estava concluindo que, entre seus milhares de microcomportamentos (Entradas), havia traços cuja combinação apontavam para uma alta propensão a gostar de conteúdos que outras bissexuais gostam (Saídas).

Tratei do poder do algoritmo do TikTok em artigo recente publicado nesta MIT Technology Review Brasil, no qual comento a notícia de que o valor de venda da operação americana do TikTok valeria muito pouco se não fosse o algoritmo. Segundo analistas ouvidos pelo The Wall Street Journal, “o TikTok sem algoritmos é igual a um lindo carro por fora, mas com motor porcaria por dentro”.

Como as empresas podem também usar os algoritmos? A história da Huggies

Em seu livro “Inteligência Artificial na Prática”, Bernard Mar cita o uso dos algoritmos pela Kimberly Clark, uma das maiores empresas de bens de consumo do planeta. Dona da marca Huggies, sob a qual vende fraldas, lenços umedecidos, shampoo para bebês, entre outros, a empresa aprendeu que, quanto mais cedo puder introduzir seus produtos na vida dos futuros pais, maior a probabilidade de eles comprarem e continuarem comprando da marca.

A empresa cria seus algoritmos de acordo com o que chama de “eventos da vida”. Para a marca de fraldas, por exemplo, um importante evento da vida é a gravidez. A empresa então procura predizer quando as consumidoras ficarão grávidas para se comunicarem com elas o mais cedo possível. Logo no início dessa jornada, oferecem às mães um programa de fidelidade que, além de conteúdo para auxiliar na gravidez, dá descontos e cupons de acordo com a fidelidade e recompra de produtos da marca.

Todos os dias, 15 mil produtos da fabricante são vendidos por segundo no mundo. Todas essas vendas geram traços (Entradas), que vão desde o preço, passando pelo local da venda, perfil dos consumidores, dados das redes sociais até informações externas de institutos de pesquisa. Todo esse esforço vale a pena para encontrar o consumidor certo na hora certa.

A empresa divulga um aumento de 17% no total de inscrições de consumidores no seu programa por causa do uso dessa forma preditiva de trabalhar, além de um aumento de 24% nas conversões graças à recomendação de produtos baseada em propensão.

Respeitando-se a privacidade, é possível usar dados para oferecer serviços e produtos mais relevantes aos consumidores. Isso sim é experiência. O investimento na melhor entrega se paga quando, adiantando-se à concorrência, uma marca pode encantar seus consumidores e assim tê-los por mais tempo ao seu lado.

E no seu negócio? Quais são as infinitas Entradas possíveis de dados que, combinadas com as Saídas (clientes, compradores ou eventos da vida), podem criar oportunidades de comunicação únicas na vida dos consumidores?

Autor

Fernando Teixeira

https://mittechreview.com.br/quando-os-algoritmos-nos-conhecem-melhor-do-que-nos-mesmos/

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Coleta de dados por Google e Facebook criou ‘capitalismo de vigilância’, diz Shoshana Zuboff

Professora de Harvard que participa do documentário ‘Dilema das redes’, descreve em novo livro como os mecanismos de empresas da internet manipulam o comportamento humano e ameaçam a democracia

David Barbosa O Globo 07/03/2021 

RIO — Quando o documentário “Dilema das redes” estreou na Netflix, no ano passado, muita gente repensou seu próprio uso das redes sociais graças aos comentários de Shoshana Zuboff. Agora, a professora de Harvard publica no Brasil, pela Intrínseca, o livro “A era do capitalismo de vigilância”, onde discorre sobre os perigos à democracia e à civilização humana provocados pela coleta de dados pessoais por empresas de tecnologia – ameaça que, para ela, já não pode mais ser contida por ações individuais.

Nas 800 páginas do livro, Zuboff destrincha como, ao longo de duas décadas, grandes empresas de tecnologia passaram a acumular dados de usuários com o objetivo de se tornarem capazes de prever o comportamento deles. Com isso, gigantes como Google e Facebook não só conseguem “antecipar” os próximos passos de seus usuários, como também podem manipular e modificar o comportamento desses indivíduos, a partir de mecanismos como sugestões de leitura, de grupos de discussão e de conexões “afins”.

A professora de Harvard Shoshana Zuboff no filme 'O dilema das redes' Foto: ReproduçãoA professora de Harvard Shoshana Zuboff no filme ‘O dilema das redes’ Foto: Reprodução

Zuboff batiza o novo sistema de “capitalismo de vigilância”, já que ele se apoia em métodos de coleta de dados secretos, ou, pelo menos em parte, desconhecidos da maioria (daí a “vigilância”) para gerar lucro a uma camada extremamente restrita da população — os donos das empresas de tecnologia. Ao contrário do modelo tradicional de capitalismo, a exploração aqui já não é a da força de trabalho dos indivíduos, mas da própria experiência humana: nossas memórias, expressões e até emoções, capturadas pelos dispositivos.

Para a autora, não basta abrir mão de usar os produtos dessas grandes empresas: é preciso usar vias institucionais, como leis antitruste e marcos regulatórios, para frear o fenômeno, que, na avaliação dela, é o responsável pela ascensão do extremismo político nos últimos anos e a consequente ameaça à democracia que assombra o mundo neste começo de década.

Durante muito tempo, a internet foi considerada o paraíso do conhecimento. Acreditávamos que, ali, todos poderiam ter acesso a tudo, da maneira mais democrática possível. Como esse cenário ideal se transformou no que a senhora chama de “capitalismo de vigilância”?

O século digital chegou com a promessa de democratização do saber, mas acabou trazendo uma nova maneira de profunda desigualdade social: a desigualdade do conhecimento. O capitalismo sempre foi dependente de alguns elementos-chave, como a propriedade privada e a capacidade de usar essa propriedade privada em uma troca de mercado com o objetivo de obter lucro. No caso do capitalismo de vigilância, o ingrediente crítico é a possibilidade de essas empresas usarem mecanismos ocultos para observar, de maneira secreta, alguma coisa que, de outra maneira, não poderia ser vista.

Nesse sistema, a experiência particular de cada um é capturada e transformada em matéria-prima gratuita: dados. E esses dados são considerados propriedade privada da empresa que os coletou, que os armazena em seus imensos bancos, mantidos distantes dos olhos da maioria das pessoas. Nós, a quem esses dados se referem, não temos acesso a eles. Cada vez mais cresce a distância entre o que eu posso saber e o que eu posso saber sobre mim.

Então o produto final do capitalismo de vigilância são os dados?

Não. Nossas experiências privadas são transformadas em dados e esses dados se tornam commodities nas mãos das empresas. Pura matéria-prima, tal qual madeira, ferro, óleo, que eles só possuem porque dizem que a possuem. Não demos permissão para possuí-la, porque nem sabíamos que eles estavam coletando-a. Nas fábricas de inteligência artificial, essa matéria-prima é transformada em produtos de previsão do comportamento humano.

O Facebook, por exemplo, computa trilhões de pontos de dados todos os dias. Com isso, eles conseguem fazer seis milhões de previsões comportamentais a cada segundo. Essas previsões são vendidas a clientes empresariais em mercados restritos. Com isso, o que eles negociam são futuros de pessoas. Essas imensas assimetrias de conhecimento também produzem imensas assimetrias de poder. As empresas se tornam capazes de influenciar e modificar comportamentos individuais e coletivos, em escala.

Quais são os riscos do capitalismo de vigilância para a democracia?

capa do livro ‘A era do capitalismo de vigilância’, Shoshana Zuboff Foto: Reprodução

Com base em todo o conhecimento que têm sobre nós, esses mecanismos preditivos são, antes de tudo, projetados para aumentar nosso engajamento de acordo com o que a empresa deseja, ou aumentar sua própria capacidade de extrair nossos dados. Em segundo lugar, são projetados para moldar nosso comportamento de maneira que ele se torne mais previsível. A “segmentação” é o eufemismo para uma gama completa de mecanismos: ferramentas de recomendação, microssegmentação psicológica etc.

O Facebook sabe há muitos anos que seus algoritmos de personalização de conteúdos foram responsáveis pelo surgimento de inúmeros grupos extremistas. Para aumentar o engajamento, os algoritmos exibiam os conteúdos mais violentos, mais inflamatórios, porque eram eles que mobilizavam as pessoas. Cerca de 64% de todas as associações a grupos extremistas nos últimos anos são responsabilidade das ferramentas de recomendação do Facebook.

Essas empresas que floresceram nas últimas duas décadas, com quase nenhum impedimento legal, agora têm um poder profundo e inexplicável: de controlar de forma absoluta os sistemas e infraestruturas de informação dos quais a nossa civilização atual, a civilização da informação, depende. Eles controlam os espaços críticos de conexão e comunicação. Isso é uma intervenção direta na autonomia humana.

Como isso nos afeta psicologicamente?

Do ponto de vista da autonomia humana, da liberdade, do livre arbítrio e dos direitos básicos de decisão, a minha vontade pertence a mim. É através da minha vontade que eu posso decidir o que fazer com o meu futuro. Esses sistemas globais nos levam a fazer coisas que não derivam de nossa própria vontade, mas de pontos ocultos que não temos como detectar. Ao capturar nossos dados e, em seguida, voltarem para nós com mensagens moldadas para ajustar, manipular e modificar nossas atitudes, esses mecanismos nos levam a fazer coisas que, normalmente, não faríamos ou não pensaríamos. Isso está solapando nossa própria capacidade de agir e pensar por nós mesmos.

Existe algo que possa ser feito a nível individual para tentar conter o avanço do capitalismo de vigilância, ou driblá-lo de alguma forma? Excluir as redes sociais, por exemplo…

Já passamos do tempo em que o problema podia ser pensado em termos individuais. Claro que podemos tentar viver escondidos. Você pode usar uma máscara, esconder seu rosto das câmeras e dos sensores. Mas considero esse tipo de coisa uma solução intolerável. Nós não deveríamos ser forçados a nos escondermos em nossas próprias vidas. Essa saída é uma defesa temporária, não uma solução. Agora, a solução está na lei. Na industrialização, no final dos anos 1800, as pessoas estavam nas fábricas em péssimas condições de trabalho. Os patrões tinham todo o poder, e ditavam os termos com base nos seus direitos de propriedade.

O que nós fizemos? Procuramos soluções individuais? Não. Nos reunimos, nos organizamos e insistimos em direitos, leis e novas instituições para supervisionar a coisa toda. E levou décadas para conseguirmos o que precisávamos. O que a União Europeia tem feito em relação à criação de leis e marcos regulatórios do espaço digital é um esforço para trazê-lo à democracia, e que precisa ser imitado. A democracia precisa tomar o poder das empresas de tecnologia de volta. Cabe aos indivíduos se reunirem e pressionarem os legisladores.

https://oglobo.globo.com/cultura/livros/coleta-de-dados-por-google-facebook-criou-capitalismo-de-vigilancia-diz-shoshana-zuboff-24901334

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Efeito digital: 100 milhões de postos de trabalho deixarão de existir até 2030

Estudo da McKinsey aponta que vagas de menor qualificação, especialmente em áreas como food service, varejo e entretenimento, devem desaparecer até 2030. Mas posições que exigem maior conhecimento na saúde e tecnologia serão ainda mais necessárias

André Sollitto – Neofeed •20/02/21 • 

A pandemia da Covid-19 dá sinais de que está longe do fim. Mas já é possível mensurar o seu impacto em alguns setores da economia e entender quais mudanças provocadas no mercado de trabalho permanecerão mesmo depois que o novo coronavírus estiver sob controle.

Segundo um estudo da consultoria McKinsey, até 100 milhões de postos de trabalho irão desaparecer até 2030 – e isso apenas em oito países que foram o foco da análise, por conta da diversidade de seus modelos de trabalho: Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, China, França, Japão, Espanha e Índia.

No caso dos Estados Unidos, por exemplo, a pesquisa projeta que um em cada 17 trabalhadores deverão deixar seus empregos atuais e procurar novas posições.

A tendência apontada pela McKinsey é de que cargos de baixa remuneração estejam entre os mais afetados. Isso inclui funcionários de atendimento ao público em setores como food service, entretenimento, varejo, turismo e profissionais de apoio em escritórios.

Nesses casos, marcados pela alta rotatividade e mobilidade entre setores distintos, o funcionário saía de uma posição em um food service e ia para o varejo ou para uma rede de hotéis. Com menos oportunidades, ele terá que fazer a transição para um emprego que irá demandar mais qualificação.

Esse contexto envolve o aprendizado de habilidades sociais, emocionais e tecnológicas, e menos tempo gasto em funções mecânicas, que tendem a ser substituídas pela tecnologia. Nessa transição, as mulheres, os jovens, as minorias e aqueles com menos educação formal serão os mais afetados.

Em contrapartida, o mercado vai abrir posições com melhores salários, especialmente na área de saúde e de ciência de dados, tecnologia e engenharia. É o que os especialistas chamam de recuperação em “K”: profissionais altamente qualificados serão ainda mais procurados, enquanto posições menos qualificadas entrarão em declínio.

A mudança nas profissões não é a única tendência apontada pelo estudo. O trabalho remoto também deve se tornar uma prática duradoura, embora em menor escala do que no auge da pandemia.

Grandes empresas de tecnologia, como Uber, Google e Facebook, estenderam o período em que vão deixar seus funcionários trabalhando de casa ao menos até meados do segundo semestre deste ano.

Nesse formato, economias mais desenvolvidas oferecem mais oportunidades do que as nações em desenvolvimento. Em países como Reino Unido, Alemanha e Japão, até 25% dos profissionais de setores como mercado financeiro podem trabalhar definitivamente de três a cinco dias por semana em casa.

O trabalho remoto também tem um impacto direto na demanda por escritórios e casas. Nos Estados Unidos, a busca por casas disponíveis para aluguel em grandes centros urbanos caiu, enquanto alternativas nos subúrbios passaram a despertar mais interesse.

Por fim, o e-commerce e outras transações virtuais, aceleradas durante a pandemia, vão seguir em expansão. Ao longo de 2020, as vendas online cresceram seis vezes no Reino Unido, três vezes nos Estados Unidos e quase cinco vezes na Espanha.

Três quartos dos entrevistados pela McKinsey disseram que pretendem continuar comprando online mesmo quando a situação voltar à normalidade.

Não à toa, a Amazon contratou 400 mil pessoas durante a pandemia em todo o mundo. Na China, 5,1 milhões novas vagas de trabalho foram abertas em e-commerce, delivery e mídias sociais.

A tendência também é observada em outras interações online, como a telemedicina, o uso de plataformas de streaming e transações bancárias via app.

Este é o primeiro estudo da McKinsey sobre a economia pós-pandemia. Outros dois serão lançados em breve. O segundo, sobre as mudanças de comportamento dos consumidores e, o terceiro, sobre o potencial de recuperação movido por inovação e maior produtividade.

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“Engajamento remoto demanda novo tipo de liderança”, diz VP da IBM

Executiva conta como a multinacional treinou gestores para terem maior empatia e transmitirem mais confiança

Por Barbara Bigarelli Valor Econômico 03/03/2021 

Cerca de um ano após colocar os funcionários em home office, o RH da IBM no Brasil avalia que precisou aprender e reimaginar processos para garantir o engajamento. A forma e o conteúdo da comunicação da presidência foram revistas, as rodas de conversa (virtuais) entre profissionais tornaram-se mais frequentes, o cafezinho que ocorria na copa do escritório entrou na agenda on-line e o RH foi ouvir ativamente o que as pessoas estavam estavam demandando receber de orientação. Mas o principal pilar de ação foi o treinamento da liderança.

“A liderança é fundamental para o engajamento, e com a pandemia e o trabalho remoto precisou se reinventar. Treinamos novas formas de liderar e para que os executivos entreguem o que nosso público espera”, disse Christiane Berlinck, vice-presidente de Recursos Humanos da IBM Brasil e América Latina, em entrevista a editora do Valor, Stela Campos. 

Em live realizada nesta terça-feira, na série “RH 4.0”, a executiva disse que os profissionais, de forma geral, esperam que seus líderes sejam mais humanos, tenham “mais empatia e gerem maior confiança”. É essa liderança que, principalmente à distância, consegue se conectar mais com os profissionais do outro lado da tela. “Que é capaz de entender as fragilidades e as fortalezas deles”, afirmou.

A executiva avalia que a pandemia levou à uma transformação cultural em todas as organizações e que a “nova liderança digital”, em contraponto à uma liderança analógica (mais presencial), precisa repensar a forma de se comunicar e de se conectar. No caso da presidência da multinacional, Christiane diz que a roda de conversa trimestral foi aberta a todos da companhia (antes, era fechada entre a alta liderança), o que exigiu não só repensar o formato, mas a mensagem a ser transmitida. 

“E os funcionários querem saber da presidência sobre estratégia, visão de negócio, responsabilidade social, o que a empresa faz pelo mundo e ecossistema e como nosso negócio está inserido dentro do ambiente do Brasil”. A adesão à roda de conversa com a presidência no país fez a IBM levar o formato e modelo para outras operações na América Latina.

Nas rodas de conversa entre funcionários, um dos segredos para aumentar o engajamento virtual e não tornar aquilo mais um compromisso on-line foi incluir temas com alta demanda interna para diálogo: alimentação saudável, saúde mental e cuidados com os filhos em casa e sem aulas. A plataforma para reconhecimento virtual foi divulgada mais amplamente, o que permitiu maior interação e troca, diz a executiva. Todas as ações para aumentar o engajamento virtual, segundo Christiane, partiram de uma escuta ativa do RH com funcionários, times e executivos – e foram orientadas e medidas com uso intensivo de dados. 

A executiva defende que as ações criadas não têm a pretensão de atingir todo o público da empresa (“vão atrair quem está interessado, naquele momento”) e que há múltiplas formas de engajar as pessoas. O desafio da área, daqui para frente, é entender como garantir que as mensagens e símbolos que sustentam a cultura de uma empresa permeiem toda a organização, principalmente no trabalho remoto e híbrido.

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2021/03/03/engajamento-remoto-demanda-novo-tipo-de-lideranca-diz-vp-da-ibm.ghtml

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Sistema de votação do BBB 21 ajuda a fortalecer inteligência artificial

Recurso do captcha utiliza votos do público para reconhecer objetos e treinar IA

 Por Guilherme Guerra – O Estado de S. Paulo – 04/03/2021

Para muita gente, o Big Brother Brasil não engrandece a inteligência humana. Mas, certamente, depois de paredões com centenas de milhões de votos (ou até um bilhão, como no ano passado), o programa pelo menos deixará a inteligência artificial (IA) mais afiada.

“Reconheça as bicicletas nas imagens”. Quem já votou no BBB 21 sabe: o sistema pede que você faça tarefas um tanto quanto tediosas para comprovar que não é um robô, o que ajuda a prevenir distorções nas votações dos paredões da casa mais vigiada do País. O nome disso é captcha, acrônimo em inglês para teste de diferenciação de humanos e máquinas — uma versão automatizada do Teste de Turing, inventado pelo pai da computação após a 2.ª Guerra Mundial.

Ao colocar milhões de pessoas votando nos paredões, inteligência artificial é fortalecida no reconhecimento de imagens

Ao colocar milhões de pessoas votando nos paredões, inteligência artificial é fortalecida no reconhecimento de imagens

“Para provar que você é uma pessoa, o captcha usa coisas típicas de um humano, como saber ler ou reconhecer objetos em imagens”, explica o professor da Universidade de São Paulo em São Carlos (USP) Fernando Osório, membro do Centro de Inteligência Artificial da USP. 

Formas de captchas comuns na internet são decodificar letras invertidas ou distorcidas, resolver operações matemáticas ou reconhecer objetos em imagens, tarefas que máquinas não conseguem realizar hoje. É isso que o BBB usa para impedir que o público coloque máquinas para inflar os números dos paredões.

Já que as máquinas não têm a capacidade de realizar bem essas tarefas, empresas de IA tentam treinar os sistemas para que consigam superar essas defasagens. E o melhor treinamento é colocar pessoas para supervisionar o aprendizado da IA, que precisa de centenas de milhões de processos idênticos para entender o que é uma bicicleta, um barco, um semáforo, uma bola ou um copo, por exemplo. “Para provar que é humano, você tem que reconhecer objetos. Mas, ao mesmo tempo, você vira professor de uma IA que um dia vai substituir você nessa tarefa”, afirma Osório.

Esse processo, no entanto, é custoso porque exige uma grande quantidade de participantes. Exemplo disso é o Amazon Mechanical Turk, da gigante varejista, cujo modelo de negócio é pagar humanos para fazer processos para os quais os computadores não são capazes, como moderar conteúdo de redes sociais ou categorizar objetos. No pacote mais básico de contratação do serviço, o pagamento mínimo sai por US$ 0,01 por tarefa realizada.

O Google, por outro lado, achou uma maneira mais eficiente: usar o próprio captcha para treinar a IA. O seu produto, o reCAPTCHA, é oferecido para empresas que precisam impedir a entrada de robôs em formulários, bases de dados e outros acessos. E aí está o pulo do gato: as próprias pessoas ajudam a categorizar esses conteúdos. Tudo, claro, sem remuneração nenhuma para quem realiza a atividade. 

“O Google criou o reCAPTCHA com o objetivo de diferenciar humano de máquina, mas eles estão usando pessoas para treinar a IA para fazer o que o humano hoje faz”, afirma Osório. Ou seja, conforme a IA vai superando barreiras do captcha, a ferramenta tem de ficar cada vez mais refinada para cumprir sua única tarefa, que é diferenciar humanos de máquinas. No BBB, o sistema usado é o hCaptcha, da empresa americana de mesmo nome, que funciona de maneira parecida com o sistema do Google.  

“Quando você faz uma campanha para o BBB usando um captcha, você ganha um belo dinheiro porque economizou ao deixar de pagar pessoas para melhorarem o seu sistema de inteligência artificial”, acrescenta o professor da USP.

No fim das contas, a diversão e correria para votar no BBB pode colocar os humanos no paredão. Talvez, seja a hora de ler um livro. 

https://link.estadao.com.br/noticias/cultura-digital,sistema-de-votacao-do-bbb-21-ajuda-a-fortalecer-inteligencia-artificial,70003633864

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Sem burocracia, nem nudes, em 18 pontos

 Por Evandro Milet 30 de outubro de 2019

Um amigo, às voltas com o emaranhado de um processo antigo de inventário familiar foi surpreendido quando o cartório identificou a ausência de definição de sexo em sua certidão de nascimento, ocorrido há mais de 60 anos(quando não havia problema com identidade de gênero). A orientação foi para procurar a maternidade e corrigir o documento. A reação dele não poderia ser outra, diante da insanidade e do risco de indefinição sexual. Propôs, em voz alta, abaixar as calças ali mesmo para que a fé pública reconhecesse o óbvio. Seguiu-se tumulto envolvendo outros clientes indignados até que uma mente menos burocrática resolveu ali mesmo a questão sem a cena dantesca. Prevaleceu o bom senso que poderá, quem sabe, junto com a tecnologia, domar a burocracia algum dia.

Como deveria ser o relacionamento ideal dos cidadãos com os serviços oferecidos pelos governos, concessionárias de serviços públicos e cartórios? Nada nos impede de sonhar. Que tal se fosse assim?:

1) Qualquer atividade que envolva interação do cidadão com o governo será feita sem a necessidade de presença física; 

2) O acesso aos dados dos cidadãos será feito com um único número; 

3) O acesso aos dados será feito online; 

4) Não haverá nenhuma tramitação de processos em papel dentro e entre os órgãos do governo, apenas em meios digitais; 

5) Todos os órgãos públicos terão um canal digital para reclamações, a resposta final não deverá demorar mais de 24hs e o cidadão poderá solicitar falar com um atendente humano se não ficar satisfeito; 

6) O reconhecimento de firma será substituído por certificação digital, identificação facial ou outra nova tecnologia, sempre de forma remota;

 7) Todos os serviços apresentarão, de forma clara e simples, as instruções necessárias; 

8) Documentos serão emitidos sempre em forma digital, com a opção em papel entregue por email ou, em último caso, pelo correio;

 9) Os cidadãos serão avisados imediatamente, por meio digital, sobre qualquer necessidade ou comunicação de qualquer órgão de governo, com as instruções claras de como proceder; 

10) Os cidadãos não precisarão apresentar a qualquer órgão de governo informações que já tenham sido dadas a qualquer outro órgão de governo; 

11) Os cidadãos serão avisados com antecedência de pelo menos um mês sobre o vencimento de qualquer obrigação com o Governo ou sobre qualquer benefício a que tenha direito; 

12) Os cidadãos poderão solicitar todas as informações que existirem nos bancos de dados do governo sobre a sua pessoa; 

13) Todas as obrigações que envolverem pagamentos dos cidadãos ao governo poderão ser feitas online com cartão de crédito ou outra forma de pagamento digital; 

14) Todas as permissões de governo necessárias não impedirão o início da execução e deverão ser aprovadas ou negadas em até 60 dias; 

15) Todas as necessidades de informações do Governo serão enviadas aos cidadãos já pré-preenchidas com as informações disponíveis nos seus bancos de dados; 

16) Todos esses ítens valem tanto para pessoas físicas como para empresas; 

17) Os Governos Federal, estaduais e municipais, a justiça e os cartórios integrarão os seus dados para evitar qualquer duplicidade para o cidadão;

18) Se o cidadão tiver de se deslocar para um órgão público, sob qualquer pretexto, será ressarcido pelo desconforto com um valor proporcional ao tempo gasto.

PS. Se você discorda ou acha que faltou algo, mande para mim, no email evandro.milet@gmail.com

http://evandromilet.com.br/sem-burocracia-nem-nudes/

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Aqui estão as 17 maneiras em que você toma decisões ilógicas

 É bom vê-las todas em um só lugar – não que isso nos torne mais lógicos

Por Peter Coy –  Bloomberg 18/12/2020(Tradução Evandro Milet) 

A lacuna entre o Homo economicus perfeitamente racional e eu e você não tão racionais é vasta. Pessoas reais, ao contrário dos atores econômicos de livros didáticos, são alternadamente míopes, impulsivas, medrosas, superconfiantes e facilmente distraídas. Agora, dois economistas nos fizeram o favor de construir uma taxonomia do que eles chamam de “vieses comportamentais”, enumerando 17. E eles descobriram que tipos de pessoas cometem quais tipos de erros.

“O viés é mais regra do que exceção. O consumidor médio exibe 10 de 17 tipos ”, diz o artigo de Victor Stango, da Escola de Pós-Graduação em Administração da Universidade da Califórnia-Davis, e de Jonathan Zinman, do Dartmouth College. Seu estudo, baseado em uma pesquisa online nacionalmente representativa, descobriu que é difícil prever quantos vieses uma pessoa terá com base nas características demográficas ou na quantidade de educação. Ele descobriu que pessoas com fortes habilidades cognitivas tendem a ter nível baixo na maioria dos vieses, mas nível alto em dois deles: aversão à perda e aversão à ambiguidade.

Há muitas análises sofisticadas no paper, mas vamos pular para a parte divertida, que são os 17 vieses. As definições são deles. As explicações são simplificadas, talvez excessivamente simplificadas, com base em seu artigo e outras fontes. Os números entre parênteses são a correlação com as habilidades cognitivas. Quanto mais próximo o número estiver de 1,00, mais provável será que as pessoas com fortes habilidades cognitivas tenham o viés. Números negativos significam que os vieses são menos prováveis ​​em pessoas com fortes habilidades cognitivas.

1) Viés atual: desconto de dinheiro (-0,31)

Alguém lhe oferece $ 1 agora ou $ 1,05 amanhã. Você escolhe o dólar agora. Você está impaciente, mas tudo bem, isso não é um viés comportamental. O problema surge quando lhe é oferecido $ 1 no próximo dia 4 de julho ou $ 1,05 no próximo 5 de julho, e você vai para os $ 1,05 no dia 5 de julho. Isso é inconsistente!

2) Viés atual: desconto de consumo (-0,13)

Você tem que escolher dois lanches, um para comer agora e outro para comer em cinco semanas. Você escolhe um lanche saudável para cinco semanas a partir de agora, mas um lanche não saudável por enquanto.

3) Violações do Axioma Geral de Preferência Revelada (-0,39)

Suas escolhas revelam suas verdadeiras preferências. Se você gosta de maçãs tanto quanto de laranjas, e então o preço das laranjas sobe, você deveria comer mais maçãs. Se você não fizer isso, isso é um viés comportamental.

4) Evasão de dominância (-0,45)

É aqui que você faz uma escolha que é inequivocamente pior do que outras escolhas que você poderia ter feito.

5) Colchetes estreitos (-0,26)

Você pode ser induzido a fazer escolhas inconsistentes ao deixar de olhar para fora dos “colchetes” estreitos em que são apresentados.

6) Preferência por certeza (-0,30)

Você escolherá $ 10 garantidos em vez de 50% de chance de $ 30.

7) Aversão à perda (0,25)

Você odeia perder tanto que vai apostar em 50% de chance de perder $ 30 em vez de perder $ 10 com certeza.

8) Aversão à ambiguidade (0,19)

Você favorece riscos conhecidos em vez de riscos desconhecidos, mesmo quando os riscos conhecidos são muito arriscados.

9) Excesso de confiança no nível de desempenho (-0,59)

Você tem certeza de que é bom.

10) Excesso de confiança na precisão (0,03)

Você está muito seguro de suas próprias estimativas.

11) Excesso de confiança no desempenho relativo (-0,64)

Você tem certeza de que é melhor do que os outros.

12) Subestima a convergência: descrença na lei dos grandes números (-0,49)

Você acha que obter cara dois terços das vezes com uma moeda não-viciada é tão provável com 1.000 lançamentos quanto com 10 lançamentos. (Não é.)

13) Falácia do jogador (-0,42)

Você acha que depois de lançar 10 caras seguidas, sua chance de tirar coroa no próximo lançamento deve ser alta. (Novamente, não é.)

14) Subestima viés de crescimento exponencial, lado do empréstimo (0,01)

Quando você ouve os juros mensais de um empréstimo de carro, você subestima o percentual anual que isso representa.

15) Subestima o valor futuro: viés de crescimento exponencial, lado do ativo (-0,51)

Você não entende como o milagre da capitalização faz sua poupança crescer.

16) Atenção limitada (-0,09)

Você está ficando muito cansado deste artigo.

17) Memória limitada (-0,23)

Você já esqueceu o que é aversão à ambiguidade.

https://www.bloomberg.com/news/articles/2020-12-18/here-are-the-17-ways-you-make-illogical-decisions

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