Coleta de dados por Google e Facebook criou ‘capitalismo de vigilância’, diz Shoshana Zuboff


Professora de Harvard que participa do documentário ‘Dilema das redes’, descreve em novo livro como os mecanismos de empresas da internet manipulam o comportamento humano e ameaçam a democracia

David Barbosa O Globo 07/03/2021 

RIO — Quando o documentário “Dilema das redes” estreou na Netflix, no ano passado, muita gente repensou seu próprio uso das redes sociais graças aos comentários de Shoshana Zuboff. Agora, a professora de Harvard publica no Brasil, pela Intrínseca, o livro “A era do capitalismo de vigilância”, onde discorre sobre os perigos à democracia e à civilização humana provocados pela coleta de dados pessoais por empresas de tecnologia – ameaça que, para ela, já não pode mais ser contida por ações individuais.

Nas 800 páginas do livro, Zuboff destrincha como, ao longo de duas décadas, grandes empresas de tecnologia passaram a acumular dados de usuários com o objetivo de se tornarem capazes de prever o comportamento deles. Com isso, gigantes como Google e Facebook não só conseguem “antecipar” os próximos passos de seus usuários, como também podem manipular e modificar o comportamento desses indivíduos, a partir de mecanismos como sugestões de leitura, de grupos de discussão e de conexões “afins”.

A professora de Harvard Shoshana Zuboff no filme 'O dilema das redes' Foto: ReproduçãoA professora de Harvard Shoshana Zuboff no filme ‘O dilema das redes’ Foto: Reprodução

Zuboff batiza o novo sistema de “capitalismo de vigilância”, já que ele se apoia em métodos de coleta de dados secretos, ou, pelo menos em parte, desconhecidos da maioria (daí a “vigilância”) para gerar lucro a uma camada extremamente restrita da população — os donos das empresas de tecnologia. Ao contrário do modelo tradicional de capitalismo, a exploração aqui já não é a da força de trabalho dos indivíduos, mas da própria experiência humana: nossas memórias, expressões e até emoções, capturadas pelos dispositivos.

Para a autora, não basta abrir mão de usar os produtos dessas grandes empresas: é preciso usar vias institucionais, como leis antitruste e marcos regulatórios, para frear o fenômeno, que, na avaliação dela, é o responsável pela ascensão do extremismo político nos últimos anos e a consequente ameaça à democracia que assombra o mundo neste começo de década.

Durante muito tempo, a internet foi considerada o paraíso do conhecimento. Acreditávamos que, ali, todos poderiam ter acesso a tudo, da maneira mais democrática possível. Como esse cenário ideal se transformou no que a senhora chama de “capitalismo de vigilância”?

O século digital chegou com a promessa de democratização do saber, mas acabou trazendo uma nova maneira de profunda desigualdade social: a desigualdade do conhecimento. O capitalismo sempre foi dependente de alguns elementos-chave, como a propriedade privada e a capacidade de usar essa propriedade privada em uma troca de mercado com o objetivo de obter lucro. No caso do capitalismo de vigilância, o ingrediente crítico é a possibilidade de essas empresas usarem mecanismos ocultos para observar, de maneira secreta, alguma coisa que, de outra maneira, não poderia ser vista.

Nesse sistema, a experiência particular de cada um é capturada e transformada em matéria-prima gratuita: dados. E esses dados são considerados propriedade privada da empresa que os coletou, que os armazena em seus imensos bancos, mantidos distantes dos olhos da maioria das pessoas. Nós, a quem esses dados se referem, não temos acesso a eles. Cada vez mais cresce a distância entre o que eu posso saber e o que eu posso saber sobre mim.

Então o produto final do capitalismo de vigilância são os dados?

Não. Nossas experiências privadas são transformadas em dados e esses dados se tornam commodities nas mãos das empresas. Pura matéria-prima, tal qual madeira, ferro, óleo, que eles só possuem porque dizem que a possuem. Não demos permissão para possuí-la, porque nem sabíamos que eles estavam coletando-a. Nas fábricas de inteligência artificial, essa matéria-prima é transformada em produtos de previsão do comportamento humano.

O Facebook, por exemplo, computa trilhões de pontos de dados todos os dias. Com isso, eles conseguem fazer seis milhões de previsões comportamentais a cada segundo. Essas previsões são vendidas a clientes empresariais em mercados restritos. Com isso, o que eles negociam são futuros de pessoas. Essas imensas assimetrias de conhecimento também produzem imensas assimetrias de poder. As empresas se tornam capazes de influenciar e modificar comportamentos individuais e coletivos, em escala.

Quais são os riscos do capitalismo de vigilância para a democracia?

capa do livro ‘A era do capitalismo de vigilância’, Shoshana Zuboff Foto: Reprodução

Com base em todo o conhecimento que têm sobre nós, esses mecanismos preditivos são, antes de tudo, projetados para aumentar nosso engajamento de acordo com o que a empresa deseja, ou aumentar sua própria capacidade de extrair nossos dados. Em segundo lugar, são projetados para moldar nosso comportamento de maneira que ele se torne mais previsível. A “segmentação” é o eufemismo para uma gama completa de mecanismos: ferramentas de recomendação, microssegmentação psicológica etc.

O Facebook sabe há muitos anos que seus algoritmos de personalização de conteúdos foram responsáveis pelo surgimento de inúmeros grupos extremistas. Para aumentar o engajamento, os algoritmos exibiam os conteúdos mais violentos, mais inflamatórios, porque eram eles que mobilizavam as pessoas. Cerca de 64% de todas as associações a grupos extremistas nos últimos anos são responsabilidade das ferramentas de recomendação do Facebook.

Essas empresas que floresceram nas últimas duas décadas, com quase nenhum impedimento legal, agora têm um poder profundo e inexplicável: de controlar de forma absoluta os sistemas e infraestruturas de informação dos quais a nossa civilização atual, a civilização da informação, depende. Eles controlam os espaços críticos de conexão e comunicação. Isso é uma intervenção direta na autonomia humana.

Como isso nos afeta psicologicamente?

Do ponto de vista da autonomia humana, da liberdade, do livre arbítrio e dos direitos básicos de decisão, a minha vontade pertence a mim. É através da minha vontade que eu posso decidir o que fazer com o meu futuro. Esses sistemas globais nos levam a fazer coisas que não derivam de nossa própria vontade, mas de pontos ocultos que não temos como detectar. Ao capturar nossos dados e, em seguida, voltarem para nós com mensagens moldadas para ajustar, manipular e modificar nossas atitudes, esses mecanismos nos levam a fazer coisas que, normalmente, não faríamos ou não pensaríamos. Isso está solapando nossa própria capacidade de agir e pensar por nós mesmos.

Existe algo que possa ser feito a nível individual para tentar conter o avanço do capitalismo de vigilância, ou driblá-lo de alguma forma? Excluir as redes sociais, por exemplo…

Já passamos do tempo em que o problema podia ser pensado em termos individuais. Claro que podemos tentar viver escondidos. Você pode usar uma máscara, esconder seu rosto das câmeras e dos sensores. Mas considero esse tipo de coisa uma solução intolerável. Nós não deveríamos ser forçados a nos escondermos em nossas próprias vidas. Essa saída é uma defesa temporária, não uma solução. Agora, a solução está na lei. Na industrialização, no final dos anos 1800, as pessoas estavam nas fábricas em péssimas condições de trabalho. Os patrões tinham todo o poder, e ditavam os termos com base nos seus direitos de propriedade.

O que nós fizemos? Procuramos soluções individuais? Não. Nos reunimos, nos organizamos e insistimos em direitos, leis e novas instituições para supervisionar a coisa toda. E levou décadas para conseguirmos o que precisávamos. O que a União Europeia tem feito em relação à criação de leis e marcos regulatórios do espaço digital é um esforço para trazê-lo à democracia, e que precisa ser imitado. A democracia precisa tomar o poder das empresas de tecnologia de volta. Cabe aos indivíduos se reunirem e pressionarem os legisladores.

https://oglobo.globo.com/cultura/livros/coleta-de-dados-por-google-facebook-criou-capitalismo-de-vigilancia-diz-shoshana-zuboff-24901334

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