‘A TECNOLOGIA VAI FACILITAR A CRIATIVIDADE E A APROXIMAÇÃO DAS PESSOAS’

José Fucs – Estadão 19/11/2020

‘Nossos índices de produtividade estão maiores’, afirma Marcandali

O engenheiro de computação Adriano Marcandali, diretor para a América Latina do Workplace, plataforma de digitalização das relações de trabalho do Facebook, diz que a pandemia trouxe conectividade para as empresas e que as reuniões virtuais, as teleconferências e os webinars estarão cada vez mais presentes daqui para a frente. Em sua visão, o futuro do trabalho será “híbrido”’, com algumas pessoas trabalhando de forma remota e outras presencialmente e também com um grupo passando alguns dias no escritório e outros em casa.

Para Marcandali, depois do choque digital provocado pela pandemia, as empresas agora têm de “cuidar das pessoas”. É por isso, segundo ele, que está surgindo uma parceria entre as áreas de RH, para cuidar de gente, de TI, para fornecer a tecnologia, e de comunicação, para dar clareza para onde a empresa tem de ir e engajar os funcionários, já que  parte do pessoal está trabalhando de forma remota e parte de forma presencial. “O papel da tecnologia vai ser facilitar a aproximação das pessoas, a criatividade e a colaboração”, afirma.

● Durante a pandemia, com o isolamento social e o home office, as reuniões virtuais, as teleconferências e os webinars se tornaram uma realidade para as empresas e os empregados. Isso deverá se aprofundar daqui para a frente?

Isso vai estar cada vez mais presente nas empresas. Na maioria dos casos, a pandemia trouxe a conectividade para as pessoas. A importância de ter toda a empresa numa plataforma de comunicação vai continuar a existir. Do ponto de vista de reuniões, a gente viu uma presença do vídeo cada vez maior. Vai haver sempre uma reunião presencial, mas com a opção do acesso remoto. Se alguém estiver em outro local vai poder participar daquela reunião também.

● Em sua visão, como será o futuro na área do trabalho?

O futuro do trabalho será híbrido, com algumas pessoas trabalhando nos escritórios e outras trabalhando remotamente. Vai ter também pessoas que utilizam ambos os modelos em diferentes dias da semana, passando alguns dias no escritório e trabalhando outros em casa. Neste modelo, o papel da tecnologia vai ser facilitar a aproximação das pessoas, a criatividade e a colaboração. Então, a gente vê um papel fundamental da tecnologia neste processo, mas também vê uma mudança no desenvolvimento das pessoas na organização. A comunicação tem um papel essencial e tem de ser mais rápida, com as ferramentas de trabalho remoto, engajando inclusive pessoas que nunca tiveram acesso a uma plataforma digital, pessoas que trabalham no chão de fábrica.

● Como deve ser essa combinação de trabalho presencial com trabalho remoto?

As empresas mais digitais, como fintechs, startups, e negócios que prestam serviços online, vão ter um índice muito mais alto de trabalho remoto ou trabalho remoto permanente. Vão poder recrutar pessoas que não necessariamente têm acesso hoje aos empregos que elas oferecem. Por outro lado, existem empresas em que os trabalhadores ficam numa planta industrial, num centro de distribuição ou atendendo clientes, no varejo. Então, haverá setores com mais trabalho remoto e outros com menos. A mesma coisa deve acontecer dentro das empresas, com as diferentes funções. Que tipos de função dentro das organizações poderão ter trabalho remoto mais permanente ou um índice de home office maior? Os trabalhos que estão no mundo administrativo, no mundo financeiro, no mundo jurídico, em TI, no desenvolvimento de sistemas. Vai ser bastante segmentado por indústria e por função. Mas acredito que vamos viver um momento em que teremos de experimentar e aprender com os erros.

● Como a digitalização do trabalho deverá afetar as empresas no pós-pandemia?

As empresas estão pensando numa forma de trazer um pouco dessa mudança tecnológica para o nível cultural. Vários clientes estão conversando sobre isso com a gente. Está surgindo uma parceria entre as áreas de RH para cuidar de gente, de TI, para fornecer a tecnologia, e de comunicação, para dar clareza para onde a empresa tem que ir e engajar os funcionários, já que  parte do pessoal está trabalhando de forma remota e parte de forma presencial. Agora, a gente vê que, hoje, o líder está mais humanizado, explorando as lives e as videoconferências para a empresa toda. Houve o crescimento do board (conselho de administração) remoto, a integração digital de novos funcionários, trazendo-os para um mundo em que possam trabalhar de casa. Isso vai exigir grupos de mentoria, maior proximidade. A área de RH está bastante preocupada em criar um espaço para ouvir os funcionários. Hoje, o que acontece? Você tem novos concorrentes, novos modelos de negócios sendo implementados, novos hábitos dos consumidores. Mas, se o vendedor que está na frente do cliente não conseguir passar esse insight para a empresa, não dá para ela reagir rapidamente.

“No mundo virtual, as empresas precisam potencializar a colaboração, a empatia e a humanização”

● Tudo isso representa uma enorme mudança, que ocorreu em poucos meses, para as empresas e para os trabalhadores. Agora, como o sr. disse, será preciso ampliar o treinamento das pessoas, avaliar melhor as ferramentas disponíveis, incorporar a cultura da empresa ao processo. Como será feito isso?

No Brasil, quando a gente pensa na digitalização interna nas empresas, tem de levar em conta que 80% da mão de obra são trabalhadores que não têm uma mesa, que estão na linha de frente, em centros de distribuição, no chão de fábrica. É uma população que até agora não tinha um canal digital dentro da empresa para se comunicar. Eles não têm as mesmas ferramentas que alguém da sede, do administrativo, tem. Durante a pandemia, essas pessoas precisaram se conectar e a partir do momento que se conectaram elas trouxeram novos insights e também as suas necessidades. Essa população não era servida e passou a ser. Agora, a gente vai ter que dar suporte, motivação, direcionamento estratégico para essas pessoas. Apesar de o Brasil já ter as plataformas disponíveis, as empresas estão em níveis de maturidade distintos nessa questão.

● De qualquer forma, essas mudanças representam uma enorme redução de custos. Primeiro para os funcionários, com corte de despesa de combustível, de tempo no trânsito, de viagens de trabalho, de transporte público. Para as empresas, também, com corte de gastos de energia, telefone, segurança e até do espaço destinado aos escritórios. Que impacto isso está tendo na produtividade?

De repente, você pode até economizar com o trabalho remoto, mas a criatividade pode estar se reduzindo. Quando colocamos as pessoas para trabalhar em casa, a gente tem de dar um ambiente que propicie a elas continuar tendo criatividade, colaboração, aquela experiência de troca que tinham no escritório. Acredito que tem de haver um equilíbrio aí. Qual será depois o papel do escritório? O papel do escritório pode passar a ser aquele em que você vai ter experiências corporativas, espaços de criação, para reuniões mais colaborativas, dentro desse sistema híbrido. Como é que a gente faz para ter dentro do mundo virtual a mesma sinergia que tinha anteriormente? No mundo virtual, as empresas precisam de plataformas que potencializem a colaboração, a empatia e a humanização que nós tínhamos no escritório, para não ter uma perda do outro lado.

● Pelo que o sr. está dizendo, a digitalização do trabalho representa uma solução, mas traz também novas questões que terão de ser endereçadas para manter a roda girando. É isso?

Exatamente. Por isso, a parceria entre a TI, o RH e a comunicação, que mencionei há pouco, é super importante, porque temos de cuidar das pessoas. Temos de nos preocupar com o que vamos conceder às pessoas quando elas estiverem no trabalho remoto nesse modelo híbrido, com o que precisamos fazer para continuar a escutá-las, para realizar enquetes, para saber os desafios que elas estão tendo regionalmente, para elas poderem nos passar insights que permitam a realização de mudanças na organização.

“Há uma tendência de os millenials e os Zs resolverem tudo pelo WhatsApp ou por chamada de vídeo”

● Mesmo levando isso em conta, não dá para ignorar que os trabalhadores vão despender menos horas improdutivas em deslocamentos e coisas do gênero e se concentrar mais no business. O sr. não concorda com isso?

Sim, se você pensar na conta do homem-hora, em quanto você gastava com deslocamento, fazendo uma série de atividades que não precisa fazer mais, realmente agora nossos índices de produtividade estão maiores. Agora, o que estou dizendo é que a tecnologia vai ajudar bastante a democratizar o mundo corporativo. Os executivos vão poder interagir com os consumidores. Os eventos, que eram puramente presenciais, também vão mudar bastante, para um misto de evento presencial e virtual. Qualquer pessoa que se interesse por aquilo poderá participar. É possível amplificar muito mais um evento, um road show, para diferentes audiências. O que pandemia trouxe é que as pessoas hoje estão extremamente familiarizadas com o consumo de vídeo, ferramentas virtuais e lives. Agora, para o mundo corporativo se conectar com essas audiências é muito mais simples. Com tudo isso, a gente consegue fazer com que as empresas continuem ampliando o uso desse formato para aumentar a produtividade.

● Agora, imagino que o networking continuará a depender do contato presencial. O que o sr. pensa sobre essa questão?

Hoje, no ambiente de trabalho existem cinco gerações distintas, os baby boomers, a geração X, os millennials, os Zs. Os hábitos de consumo e as experiências delas são bem distintos. Tem pessoas extremamente orientadas ao tête-à-tête, a querer estar presente, querer tomar um café para fazer networking. Agora, a gente observa uma tendência de os millenials e os Zs quererem resolver tudo online, pelo WhatsApp ou por uma chamada de áudio e vídeo. Isso ainda vai depender muito das particularidades dessas multigerações. Então, os eventos, webinars, ainda deverão ter formato presencial e vão ter transmissão por streaming e on demand.

● O sr. acha possível fazer networking digital, sem aquela conversa olho no olho num café da manhã, num almoço de negócios ou num seminário presencial?

Isso faz muito parte da nossa geração, porque nós tivemos essa experiência no decorrer da carreira. Nós conhecemos pessoas incríveis e tivemos acesso a uma rede muito ampla fazendo isso. Nós vamos continuar a demandar por isso. Agora, se você pensar nos nossos filhos, nas novas gerações, eles não têm nem e-mail. Têm uma conta no WhatsApp, no Facebook, no Instagram. São os nativos digitais. Eles vão procurar fazer seu networking de forma 100% digital. Vão ter os grupos, os fóruns, as suas comunidades digitais, nas quais vão criar esses relacionamentos, esses vínculos. Eles vão suprir essa nossa necessidade de forma diferente, porque a experiência deles foi digital desde que nasceram. Vão chegar no mesmo objetivo, só que com outra plataforma e com outra ferramenta.

● Para concluir, gostaria que o sr. um breve balanço de como essas mudanças ocorridas na pandemia vão moldar o nosso futuro na área do trabalho.

Nós sofremos um processo de digitalização intensa. A gente acredita que esse futuro será uma combinação de uma nova cultura, mais humanizada, com muitas novas tecnologias digitais. Do ponto de vista de tecnologia, a gente verá uma imersão cada vez maior no vídeo e o uso cada vez maior da inteligência artificial, porque está todo mundo conectado, e depois uma onda de realidade virtual que vai transformar a forma como a gente trabalha, deixando-a um pouco mais aberta, flexível. Do ponto de vista do ser humano, a gente vai ter uma demanda para que os profissionais tenham mais criatividade, mais empatia, e mais habilidades interpessoais, porque de nada adianta a gente ter essas ferramentas incríveis se a gente não souber lidar com o ser humano. Então, nós vamos passar por um processo intenso de digitalização, mas a gente vai ter de começar a trabalhar essa parte cultural e esses valores.

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A Arte do Pitch de Elevador (Elevator Pitch) ou Como vender uma ideia em poucas palavras

por Carmine Gallo, HBR 03 de outubro de 2018

Muito antes de seu filme favorito chegar a um cinema perto de você, ele foi apresentado em uma reunião de apresentação. Os roteiristas de Hollywood normalmente têm de três a cinco minutos para propor uma ideia, mas leva apenas cerca de 45 segundos para os produtores saberem se desejam investir. Especificamente, os produtores estão atentos a uma logline: uma ou duas frases que explicam do que trata o filme. Se não houver logline, na maioria das vezes, não há venda.

Um pitch vencedor começa com uma logline vencedora – uma lição valiosa para inovadores em qualquer campo. As inovações mais valiosas oferecem novas soluções para problemas desafiadores. Mas sem o apoio dos investidores, mesmo as melhores ideias podem nunca decolar. Para influenciar as pessoas que podem transformar sua ideia em realidade, você precisa apresentar seu pitch de maneira empolgante e direta. Tudo isso começa com a logline – uma arte que os roteiristas dominam.

Quando questionados sobre o assunto de seu filme, os roteiristas de sucesso têm uma resposta pronta que é clara, concisa e envolvente. Os líderes empresariais recebem uma versão dessa mesma pergunta ao longo de suas carreiras:

Sobre o que é a sua apresentação? O que sua startup ou produto faz? Qual é a sua ideia?

Se você pode responder em uma frase convincente, você pode prender seu público. De acordo com o biólogo molecular John Medina, da Escola de Medicina da Universidade de Washington, o cérebro humano anseia por significado antes dos detalhes. Quando um ouvinte não entende a ideia geral que está sendo apresentada em um pitch, ele tem dificuldade em digerir as informações. Uma logline ajudará você a pintar o quadro geral para seu público.

No cinema de Hollywood, uma das melhores loglines de todos os tempos pertence ao icônico thriller que manteve as crianças fora do mar durante o verão de 1975:

Um chefe de polícia, com fobia de mar aberto, enfrenta um tubarão gigantesco com apetite por nadadores e capitães de barco, apesar de um conselho municipal ganancioso que exige que a praia fique aberta.

O que o faz funcionar? A logline para Tubarão identifica os elementos-chave da história: o herói, sua fraqueza, seu conflito e os obstáculos que ele deve superar – tudo em uma frase. Ela descreve o enredo geral de uma maneira interessante e direta, em vez de focar em detalhes que podem parecer sem sentido sem o contexto do quadro geral.

Os líderes empresariais podem usar loglines de maneira semelhante para explicar claramente uma ideia complexa. Se dominada, pode ser uma ferramenta poderosa e influente. Mas comunicar seu ponto de vista de uma forma simples e digerível é difícil. Na verdade, é mais fácil adicionar desordem às apresentações de negócios do que eliminar detalhes desnecessários e condensar. Embora dominar a logline seja um desafio, existem etapas que você pode seguir para fazer isso.

Mantenha curta. 

Em seu livro Leading, o investidor de capital de risco Michael Moritz conta a história de dois alunos de pós-graduação de Stanford que entraram em seu escritório na Sequoia Capital e apresentaram o plano de negócios mais conciso que já ouvira. Sergey Brin e Larry Page disseram a Moritz: “O Google organiza as informações do mundo e as torna universalmente acessíveis.” Em 10 palavras, essa logline levou à primeira grande rodada de financiamento do Google. Moritz disse que o pitch estava claro e tinha um propósito.

Um logline deve ser fácil de dizer e fácil de lembrar. 

Como exercício, desafie-se a mantê-lo abaixo de 140 caracteres, curto o suficiente para postar na versão antiga do Twitter (antes que a plataforma permitisse 280 caracteres por tweet). Com 77 caracteres, o argumento de venda do Google faz a diferença.

Identifique uma coisa que você deseja que seu público se lembre. 

Steve Jobs era um gênio em identificar a única coisa que ele queria que lembrássemos sobre um novo produto. Em 2001, o iPod original permitia que você carregasse “1.000 músicas no bolso”. Em 2008, o MacBook Air era “o notebook mais fino do mundo”. A Apple ainda usa essa estratégia hoje. Os executivos repetem uma descrição de uma frase ao apresentar novos produtos. Essa mesma logline passa a aparecer no site da Apple e nos comunicados de imprensa da empresa.

A “única coisa” deve atender às necessidades de seu público. 

Um profissional de vendas de uma grande empresa de tecnologia recentemente me disse uma logline que ele usa para atender às necessidades de seu público – compradores de TI: “Nosso produto reduzirá a conta de telefone celular da sua empresa em 80%”. Com uma frase, seus clientes querem saber mais porque sua logline resolve um problema específico e os fará parecer heróis para seus chefes. Acima de tudo, a logline é fácil de lembrar e dá às pessoas uma história que elas podem levar para outros tomadores de decisão em suas organizações.

Certifique-se de que sua equipe esteja na mesma página. 

Cada pessoa que fala em nome de sua empresa ou vende seu produto deve entregar a mesma logline. Por exemplo, trabalhei com os principais líderes da SanDisk, a empresa de memória flash, para prepará-los para uma grande conferência de analistas financeiros. Sete executivos fizeram cinco horas de apresentações. Eu sugeri que – antes de entrar em detalhes financeiros essenciais – cada pessoa deveria entregar a mesma logline no início de suas apresentações e, em seguida, terminar suas apresentações repetindo-a mais uma vez. Como grupo, decidimos pela logline: “Na próxima década, o flash será maior do que você pensa.”

O objetivo da logline era provocar excitação para todos os produtos que a memória flash permitiria, como iPads, laptops, smartphones e serviços em nuvem. Quando a conferência terminou, o primeiro post do blog financeiro que apareceu trazia o título: “O Flash será maior do que você pensa”. Loglines atraem atenção; loglines consistentes são inesquecíveis ​​e repetíveis.

Se você não consegue comunicar seu argumento de venda em uma frase curta, não desista. Às vezes, a linguagem chegará até você imediatamente, outras vezes pode exigir mais prática. Seja paciente. Depois de dominar a logline, você poderá esclarecer facilmente suas ideias e ajudar o público a retê-las, lembrá-las e agir de acordo com elas.

Carmine Gallo é o autor de Five Stars: The Communication Secrets to Get from Good to Great (St. Martin’s Press). Ele é um instrutor da Harvard University no departamento de Educação Executiva da Graduate School of Design. Inscreva-se no boletim informativo de Carmine em carminegallo.com e siga-o no Twitter @carminegallo.

https://hbr.org/2018/10/the-art-of-the-elevator-pitch

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Para especialistas, década de 2020 trará mundo menos globalizado

 Cristiane Barbieri Estadão 27 de dezembro de 2020 

Após quase 40 anos de aproximação comercial e financeira entre os países, a década de 2020 deve trazer um mundo menos globalizado. Economistas e analistas têm visto diferentes sinais nesse sentido, que vão dos EUA evitando assumir a liderança na busca por um mundo com menos fronteiras e barreiras à tentativa de garantir maior soberania de cada nação, após a pandemia do coronavírus. Mas há muito mais no cardápio a reforçar o pêndulo rumo a um mundo mais fechado.

Leia mais: Com menor globalização, desafio do crescimento aumenta

“Um dos principais movimentos que indicam a menor globalização nos próximos anos é o fato de os norte-americanos estarem menos interessados em serem os arquitetos multilaterais para o livre comércio”, diz Ian Bremmer, presidente e fundador do Grupo Eurasia, uma das maiores consultorias globais de política e economia. “É uma posição que ocuparam historicamente e cuja saída deixará grandes reflexos na economia global.”

Eleição apertada de Biden foi recado das urnas

A tendência já havia ficado clara na eleição de Donald Trump, levado à presidência dos EUA graças ao discurso voltado ao americano de classe baixa, pouco qualificado, que perdeu emprego e renda durante décadas de crescimento do país com acordos comerciais diversos. Com a vitória apertada de Joe Biden, a mensagem das urnas foi reforçada – e deve haver a busca por uma alternativa que atenda a esse eleitor, segundo o Wall Street Journal.

“Muitos americanos olham o livre comércio e pensam: ‘talvez o país tenha ficado mais rico, talvez as pessoas mais ricas tenham ficado mais ricas, mas nós não estamos ficando mais ricos. Não vamos apoiar o livre comércio’”, diz Bremmer. O coronavírus, que aumentou a desigualdade social, expondo mais os trabalhadores incapazes de desempenhar suas funções remotamente, só agravou essa tendência.

Democratas tendem a buscar nova via de globalização, com treinamento maior dos trabalhadores

“O sentimento anti-establishment nos EUA, tanto de esquerda quanto de direita, está crescendo. Foi dessa maneira que tivemos Trump e (o candidato à presidência) Bernie Sanders”, diz ele. “Os EUA são hoje o país mais desigual e mais politicamente dividido entre todas as economias industriais e é parte da razão pela qual não querem mais liderar o mundo do jeito que fizeram.”

Entre as alternativas buscadas pelos norte-americanos, há na agenda democrata o treinamento massivo dos trabalhadores, para que enfrentem em condição de igualdade a disputa pelas melhores vagas. “Os norte-americanos estão assustados como o gap entre seus trabalhadores e os de outros países diminuiu e a alternativa agora é investir na qualificação”, afirma Rodrigo Zeidan, professor de finanças e economia da NYU em Xangai.

A missão não será fácil, mesmo para os EUA. Passa pela necessidade de maior orçamento – em um Senado que pode ser majoritariamente Republicano e impedir o plano do presidente eleito. Também há a dificuldade de a mão de obra sem treinamento ser gigantesca. “A última vez que isso ocorreu foi durante a Revolução Industrial no Reino Unido e duas gerações inteiras foram perdidas, até que as pessoas fossem habilitadas a fazerem novos trabalhos”, diz Bremmer.

Briga em torno do 5G e trabalho mais caro na China impulsionam mundo menos aberto

Outro movimento que também indica a tendência à menor globalização é a guerra fria tecnológica entre EUA e China, por conta do 5G. Na área que responderá pela próxima revolução industrial, na qual a internet de altíssima velocidade dará a base para o salto de produção e inteligência das máquinas, os norte-americanos não querem compartilhar dados sensíveis de seu governo e empresas com seu maior concorrente comercial. “É um país comunista e totalitário e os EUA não querem que o governo chinês tenha acesso a dados que envolvam segurança nacional”, diz Bremmer.

Um terceiro ponto no sentido de um menor intercâmbio na próxima década diz respeito à redução da vantagem de se produzir na China e à maior automação. “Os trabalhadores chineses estão se tornando mais caros do que costumavam ser”, afirma ele. “Também não é preciso mais tantos trabalhadores quanto antigamente, o que vai levar à menor globalização na cadeia de suprimento em fábricas e serviços.”

Globalização não vai acabar

A mudança de trajetória, porém, não significa que a globalização vá acabar. “O movimento do fluxo financeiro irá continuar”, afirma Zeidan. “Não há qualquer movimento no sentido de controlá-lo.” Para ele, as principais mudanças acontecerão com pessoas e empresas – que perceberam ser desnecessárias muitas viagens e deslocamentos feitos até pouco antes da pandemia e descobriram a efetividade do trabalho remoto.

Os especialistas também não veem a China ocupando o lugar dos EUA nessa liderança pela globalização. “O projeto chinês é nacional e todo seu poderio é voltado ao consumo interno”, diz Zeidan. Além disso, ele afirma que os Estados Unidos continuarão sendo o centro de pesquisa e desenvolvimento do mundo, atraindo os principais cérebros, onde está a verdadeira criação de riqueza – ao contrário da China.

Para Bremmer, como a economia chinesa ainda é muito interligada à norte-americana, no momento em que os EUA se voltarem mais para seu mercado interno, o país asiático será bastante afetado. Todas as outras economias que negociam com a China, por sua vez, também sofrerão.

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 22/12/2020, às 14:29:05 .

https://economia.estadao.com.br/blogs/coluna-do-broad/para-especialistas-decada-de-2020-trara-mundo-menos-globalizado/

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7 hábitos de pessoas com alta inteligência emocional(IE)

Pessoas com alta inteligência emocional tendem a se sair melhor no trabalho. Então, que hábitos eles têm que os diferenciam?

POR HARVEY DEUTSCHENDORF 08/04/2014(TRADUÇÃO EVANDRO MILET)

Nota do Editor: Este é um dos artigos sobre liderança mais lidos de 2014 na Fast Company

É cada vez mais aceito que a inteligência emocional é um fator importante para nosso sucesso e felicidade, não apenas no trabalho, mas em nossos relacionamentos e em todas as áreas de nossas vidas.

Então, o que diferencia as pessoas emocionalmente inteligentes? Aqui estão sete hábitos que as pessoas com alta IE têm:

1. ELES FOCAM NO POSITIVO

Apesar de não ignorar as más notícias, as pessoas emocionalmente inteligentes tomaram a decisão consciente de não gastar muito tempo e energia concentrando-se nos problemas. Em vez disso, eles olham para o que é positivo em uma situação e procuram soluções para um problema. Essas pessoas se concentram no que são capazes de fazer e no que está sob seu controle.

2. ELES SE CERCAM COM PESSOAS POSITIVAS

Pessoas com muita inteligência emocional não passam muito tempo ouvindo reclamantes e tendem a evitar pessoas negativas. Eles estão cientes de que as pessoas negativas são um dreno de energia e não estão dispostos a deixar que os outros esgotem sua vitalidade. Por sempre buscarem soluções e o lado positivo das situações, pessoas negativas rapidamente aprendem a evitar pessoas positivas, pois a miséria adora companhia.

Pessoas emocionalmente inteligentes passam tempo com outras que são positivas e veem o lado bom da vida. Você pode identificar essas pessoas porque elas tendem a sorrir e rir muito e atrair outras pessoas positivas. Seu calor, franqueza e atitude atenciosa levam os outros a considerá-los mais confiáveis.

3. ELES SABEM DEFINIR LIMITES E SER ASSERTIVOS QUANDO NECESSÁRIO

Embora sua natureza amigável e aberta possa fazer com que pareçam ingênuos para alguns, pessoas com alta IE são capazes de estabelecer limites e se afirmar quando necessário. Eles demonstram polidez e consideração, mas permanecem firmes ao mesmo tempo.

Eles não fazem inimigos desnecessários. Sua resposta a situações em que pode haver conflito é medida, não inflada e administrada de forma adequada à situação. Eles pensam antes de falar e têm tempo para se acalmar, caso suas emoções pareçam estar se tornando insuportáveis. Pessoas com alta IE guardam seu tempo e compromissos e sabem quando precisam dizer não.

4. ELES PENSAM PARA A FRENTE E DESEJAM DEIXAR O PASSADO PARA TRÁS

Pessoas com alta IE estão muito ocupadas pensando em possibilidades no futuro para gastar muito tempo pensando em coisas que não funcionaram no passado. Eles pegam o aprendizado de suas falhas passadas e aplicam em suas ações no futuro. Eles nunca vêem o fracasso como algo permanente ou um reflexo pessoal de si mesmos.

5. ELES PROCURAM MANEIRAS DE TORNAR A VIDA MAIS DIVERTIDA, FELIZ E INTERESSANTE

Seja no local de trabalho, em casa ou com amigos, as pessoas com alta EI sabem o que os faz felizes e procuram oportunidades para expandir a diversão. Eles recebem prazer e satisfação ao ver os outros felizes e realizados, e fazem tudo que podem para iluminar o dia de outra pessoa.

6. ELES ESCOLHEM COMO GASTAR SUA ENERGIA DE FORMA INTELIGENTE

Embora essas pessoas iluminadas sejam boas em superar o passado quando as coisas não funcionaram como o esperado, eles também são capazes de superar conflitos envolvendo outras pessoas. Pessoas com alta IE não ficam com raiva sobre como os outros os trataram, em vez disso, usam o incidente para criar consciência de como não deixar que aconteça novamente. “Me engane uma vez , a culpa é sua, me engane duas vezes, a culpa é minha”, é o seu lema. Embora eles sigam em frente e perdoem, eles não esquecem e dificilmente  ficarão em desvantagem novamente nas mesmas circunstâncias.

7. APRENDENDO E CRESCENDO CONTINUAMENTE PARA A INDEPENDÊNCIA

Pessoas com grande inteligência emocional são aprendizes ao longo da vida, em constante crescimento, evolução, abertas a novas ideias e sempre dispostas a aprender com os outros. Sendo pensadores críticos, eles estão abertos a mudar de ideia se alguém apresentar uma ideia que se encaixa melhor. Embora estejam abertos a ideias de outros e continuamente coletando novas informações, eles, em última análise, confiam em si mesmos e em seu próprio julgamento para tomar a melhor decisão para si mesmos.

SOBRE O AUTOR

Harvey Deutschendorf é um especialista em inteligência emocional, autor e palestrante. Para fazer o teste IE, acesse theotherkindofsmart.com

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Por que procrastinamos mais na quarentena? Em 7 tópicos

O hábito de deixar para depois as tarefas desconfortáveis encontrou terreno fértil durante o isolamento social

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo 23 de setembro de 2020

Esta reportagem começou a ser produzida há algumas semanas, mas outras prioridades surgiram, então ela ficou para depois. Sabe como é, né? Cuidar da casa, da cachorra, lavar os legumes, outras matérias para serem entregues, mídias sociais… Enfim, não deu para fazer antes. Pelo menos são essas justificativas que procrastinadores, assim como eu, dão quando não realizam uma tarefa. Se a procrastinação antes da pandemia era algo pontual, a alteração da rotina durante a quarentena surgiu como terreno fértil para adiar tudo o que é desconfortável para depois.

“Temos a falsa sensação de que estamos sempre no controle, mas o que os estudos mostram é que fatores externos e internos influenciam de forma inconsciente nossa tomada de decisão. A procrastinação é resultado de uma desconexão entre nossas intenções e aquilo que efetivamente realizamos”, explica a neurocientista Thaís Gameiro.

Ela esclarece que, em geral, procrastinamos porque o cérebro tem dificuldade de avaliar as consequências a longo prazo e é mais sensível aos ganhos ou desfechos que ocorrem de forma imediata. “Quando precisamos enxergar benefícios que só ocorrem no futuro, ficamos vulneráveis a perder o foco do objetivo principal por conta de distrações que muitas vezes nos afastam da meta desejada.”

A falta de interesse, motivação ou perfeccionismo estão entre os gatilhos que mais afetam aqueles que têm o costume de deixar tudo para depois. Bom, quase tudo. “Geralmente a procrastinação tem a ver com aquelas tarefas mais negligenciadas, a ponto de prejudicar o seu futuro, de prejudicar a forma como você vê você mesma”, conta a psicóloga Denise Figueiredo. Adiar tarefas de maneira racional ou ainda abraçar os cinco minutinhos a mais de preguiça pós almoço é muito diferente da procrastinação.

“Se você olha suas atividades e percebe que precisa de três horas para terminá-las, mas só tem 30 minutos disponíveis e decide deixar para o dia seguinte, isso não é procrastinação é planejamento. Agora, se no dia programado para fazer a tarefa você começar a dar desculpas para não fazê-las, aí sim você começou a procrastinar”, informa Thaís. As “desculpas” até são verdadeiras, mas elas só aparecem depois que já decidimos não fazer a tarefa.

Segundo as especialistas, postergar atividades é um hábito, que pode ser treinado – e incentivado – por cada um. “É muito difícil sair dessa zona de conforto”, diz a psicóloga. De maneira generalizada, aqui encaixam-se dois perfis: os relaxados e os ansiosos. Os primeiros seguem o modelo por não saberem fazer as tarefas de outra forma, enquanto o segundo se pressiona a ponto de não conseguir fazê-las até o último minuto. “A procrastinação em si não tem um julgamento moral. O quanto isso te impacta positiva ou negativamente é que vai ser um problema”, diz Thaís.

Essas tarefas podem ser tanto laborais e responsáveis quanto de lazer. Aquelas mensagens no WhatsApp que deixamos para responder depois? Pois é. Segundo a psicóloga, a cobrança precisa acontecer para ser parada. “Tudo o que fazemos pensando ‘amanhã eu começo’, passa uma imagem de que não estamos prontos, e isso vai gerando um lugar de não felicidade em relação a essa questão”, ensina.

Claro que esse lugar da não felicidade, somado ao isolamento social, só piora a situação. O próprio trabalho, realizado essencialmente no escritório antes da pandemia, hoje pode ser feito após o horário de serviço ou mesmo nos fins de semanas. “Não vou ter nada para fazer mesmo” é um pensamento que ignora imprevistos e favorece a insegurança e a ansiedade.

Aliás, ansiedade é quase sinônimo de quarentena. Cansamos nossa mente com o excesso de informações e horas na frente das telas, mas não o nosso corpo. E o cérebro lê essas pistas de cansaço. Quantas vezes, nos últimos meses, não falamos a frase “quando a pandemia acabar….” postergando atividades e sonhos? Em momentos assim, o cansaço e a procrastinação andam juntos. A única coisa que se pode fazer é quebrar o padrão. 

Essa ansiedade afetou a estudante Mariana Prado, de 17 anos. Antes da pandemia, ela ficava das 6h às 21h fora de casa, entre estudos, deslocamentos e outras atividades. “No começo do ano, eu planejava entrar na faculdade no ano que vem, mas com a pandemia, não me sinto preparada – tanto com a questão de estudo quanto psicologicamente”, diz. “Me acostumei a ter a produtividade baseada em estar fora de casa e trabalhar isso dentro de mim é algo muito novo, com o que estou aprendendo ainda a lidar.”

Tempo. O trabalho afeta a relação do homem com o tempo, uma vez que ele é regulado pela produção e produtividade dentro de uma sociedade capitalista industrial. Mas, para pensar em tempo, é preciso entender que ele é uma criação humana de representação com horas, dias, meses. O tempo antigo, por exemplo, era ligado à ciclicidade de eventos e estações climáticas, diferentemente dos dias atuais. 

Uma pesquisa feita em abril pelo Banco Original e a empresa de consultoria 4CO apontou que 59% dos brasileiros que migraram para o home office durante a pandemia consideram que passaram a trabalhar mais horas diárias. Outros 57% avaliam a experiência como muito cansativa. O historiador e professor Gustavo Gaiofato explica que isso acontece pelo estranhamento gerado com o home office. “Não temos uma rotina delimitada, o que pode causar um volume de trabalho extra, afinal não sabemos muito bem a hora de parar”, diz.

Para entender melhor as emoções, percepções e comportamentos das pessoas em quarentena, o professor de psicologia Philip Gable, da Universidade de Delaware, nos Estados Unidos, desenvolveu um aplicativo, financiado pela National Science Foundation, para explorar o que vinha acontecendo com o relógio interno dos norte-americanos. “Nosso objetivo era acessar as emoções e motivações inconscientes dos participantes. Para isso, imagens apareciam na tela e elas deviam distanciar ou aproximar o telefone, a depender do sentimento causado por elas (aproximar se fosse feliz, afastar se fosse triste)”, detalha.

Em março, no primeiro mês de quarentena, foi possível perceber que, graças ao nervosismo e ao estresse generalizado, as pessoas tinham a percepção de que o tempo passava mais lentamente. Já em abril, as opiniões estavam divididas – 50% considerava que o tempo estava passando muito rápido. “Emoções têm um profundo impacto na maneira como sentimos o tempo. Quando você tem um objetivo, uma meta, os minutos podem passar rápido, diferentemente de quando você fica se questionando ‘qual o sentido de fazer isso?’”, exemplifica Gable. Ele conta que, segundo o estudo, o tempo passou a ser percebido cada vez mais rápido pelas pessoas a cada mês.

Se por um lado esses resultados mostram que estamos nos acostumando com a nova rotina, por outro, indica que o ser humano é imediatista. “A covid interrompeu muitas das coisas que nos davam prazer na vida. Então passamos a ver pessoas buscando outros modos de prazer: compras online, aumento do consumo de bebidas ou maior uso do celular”, explica Gable.

A luta entre ansiedade e produtividade, no entanto, já existia antes da pandemia – apenas se intensificou com ela. “A sociedade de consumo baseada na produção capitalista acaba criando a sensação de que temos de ser produtivos o tempo todo – justamente porque estamos regulados, temporalmente, nessa lógica. Trabalhar mais e mais porque o ócio é visto de maneira negativa”, pontua o historiador Gustavo.  Todo mundo procrastina em alguma coisa – lavar a louça, fazer um mestrado ou assistir à série do momento. Então convido você a analisar o que te impede de fazer suas atividades. Bom, talvez não hoje. Parece ser um trabalhão, então… amanhã?

  • Limite

Previna-se de possíveis distrações que possam surgir durante a realização de uma tarefa (como notificações de mensagens nas redes sociais) e, acima de tudo, respeite-se. Se o combinado com você mesmo é cumprir aquilo que você prometeu em uma hora, siga esse limite. 

  • Categorização

Saiba priorizar suas tarefas. O que precisa ser feito hoje? O que pode ser deixado para amanhã? “Não comece outra coisa enquanto não finalizar a primeira”, sugere a psicóloga Denise. Se possível, divida as atividades. Por exemplo: em vez de limpar toda a casa, você pode ir fazendo isso durante a semana e limpar um cômodo por dia. 

  • Divisão

Fazer uma redação de dez páginas é algo perfeito para ser procrastinado – afinal, parece cansativo e vai demandar muito tempo. Por isso, é interessante quebrar as tarefas em etapas. Selecione o tema em um dia, no outro faça possíveis entrevistas ou pesquisas, uma outra tarde invista somente na introdução… E assim por diante. Dessa maneira, é muito mais propenso que você finalize a tarefa – sem ser nos últimos minutos antes da entrega.

  • Pausas estratégicas

Cada um tem seus motivos para procrastinar. Descubra a causa e os gatilhos que fazem com que isso aconteça. Uma técnica conhecida que pode ajudar é a pomodoro. A ideia é você focar na atividade por 25 minutos e pausar por cinco. Após seguir o procedimento quatro vezes seguidas, o intervalo será maior, de 30 minutos. O importante é respeitar o tempo estabelecido – tanto para as atividades quanto para o descanso.

  • Tecnologia

Aplicativos como Be Focused (grátis, iOS) e Brain Focus (grátis, Android) têm como base a técnica pomodoro e colocam alarmes para ajudar o cumprimento das tarefas. Com o OffTime (grátis, iOS e Android), é possível estabelecer períodos sem mexer no celular. Caso não o cumpra, você é proibido de mexer no aplicativo por quatro horas. Já o Priority Matrix (grátis, iOS e Android) ajuda a organizar a lista de tarefas separando o que pode ser feito no momento do que pode ser adiado.

  • Ajuda externa

Nossos sentimentos podem ser afetados pelo ambiente em que estamos. De acordo com a arquiteta Vanessa Pasqual, cores como o laranja puxam para a criatividade; já o azul e verde-claro são ideais para ler documentos e se manter mais focado nas atividades. “As cores carregadas, como azul marinho ou o preto, além de diminuírem o ambiente, podem influenciar o foco e a imaginação. Por isso, tons escuros não são indicados para área de trabalho”, conta. Para uma ajudinha extra, chás de poejo (planta aromática) e cravo-da-índia auxiliam na concentração e no foco. 

  • Sem estresse

O descanso é mais do que necessário, mas atente-se se ele realmente acontece. Muitas vezes, pausamos para um café com o celular do lado e ao abrir as redes sociais: bum. Mais insegurança, comparação e sentimento de que todos estão sendo mais produtivos do que você. Na nossa sociedade, o ócio é visto como algo negativo, mas isso só gera mais ansiedade e estresse. Confie no seu processo.

https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,por-que-procrastinamos-mais-na-quarentena,70003449425

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Jogo de futebol parou Grande Guerra no Natal e virou música de ‘sir’ Paul McCartney

Do UOL, em São Paulo 24/12/2014 

Há cem anos, no dia 25 de dezembro de 1914, algo totalmente inesperado aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial. E o esporte, mais uma vez, teve papel importante. 

Uma confraternização entre inimigos terminou em uma “pelada” de futebol em pleno campo de batalha, numa trégua que ficou famosa e virou até música de Paul McCartney. Ingleses e alemães passaram a noite do dia 24 em combate na Bélgica, na região de Comines-Warneton, próxima à fronteira com a França. Segundo relatos da época, fazia muito frio e os soldados estavam em suas trincheiras, com água até a altura dos tornozelos. 

Depois de uma madrugada barulhenta, às 6h do dia 25 tudo ficou em silêncio. E cinco horas mais tarde, de acordo com reportagem do The Times, a torre de comando inglesa recebeu um estranho recado: todas suas trincheiras estavam vazias e os ingleses confraternizavam com os alemães. 

A história diz que tudo começou quando um alemão disse ao inimigo: “Inglês, por que você não vem aqui”. Um soldado britânico deixou a arma para trás e começou a caminhada no campo de batalha. Aos poucos, mais integrantes dos dois lados fizeram o mesmo e logo estavam se cumprimentando.

Trocaram cigarros e a comida que tinham, além de rum e água quente, e beberam vinho. Foi quando um inglês teve a ideia de organizar um jogo ali mesmo. A vitória foi da Inglaterra, por 3 a 2. Os dois lados cantaram músicas de Natal, mesclando canções em inglês e alemão. Até oficiais se juntaram aos soldados, ainda incrédulos diante do que viam.

Ao fim do dia, as tropas voltaram para suas respectivas trincheiras e fizeram um acordo: nenhum tiro seria disparado até a meia-noite. A batalha só recomeçaria no primeiro minuto do dia 26.

A história inspirou a música e o videoclipe de Pipes of Peace, de Paul McCartney. No vídeo, o ex-Beatle interpreta dois personagens: um soldado inglês e um alemão. A história também foi lembrada pela Uefa, que no início do mês inaugurou um monumento na região onde aconteceu a famosa trégua, em um dos jogos mais inusitados do futebol.

Veja em: https://www.youtube.com/watch?v=TwyFTRGiIUU

https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2014/12/24/jogo-de-futebol-parou-grande-guerra-no-natal-e-virou-musica-de-sir-paul.htm?cmpid=copiaecola

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Tinder: um fenômeno mesmo durante o período de isolamento social

Ações da empresa que detém a marca disparam na bolsa dos EUA, o que é resultado direto do aumento da procura por relacionamentos na pandemia

Por Luiz Felipe Castro  Veja  18 dez 2020

Não é novidade para ninguém que o aplicativo Tinder se tornou nos últimos anos a principal ferramenta para encontros amorosos. O que se desconhecia até agora é a impressionante capacidade da plataforma para fazer dinheiro — com ou sem pandemia. Em 2020, as ações do Match Group, dono do Tinder e outras 45 marcas dedicadas a relacionamentos virtuais, dispararam cerca de 200% na Nasdaq, a bolsa de tecnologia dos EUA. Com isso, a empresa passou a ser uma das queridinhas dos investidores americanos, seguindo o caminho de marcas consagradas como Amazon, Apple e Facebook. 

Em seu relatório do terceiro trimestre, a companhia informou que o número de usuários pagantes em seus aplicativos de paquera saltou 12% em relação ao mesmo período do ano anterior, para 10,8 milhões, e que a receita total cresceu 18%, para 640 milhões de dólares. Nunca houve tantos swipes, como é chamado o ato de arrastar a foto de um eventual pretendente na tela do celular (para a direita quando agradou e para a esquerda quando não), e matches, ocasiões em que o potencial casal é formado.

O sucesso é resultado de uma união perfeita entre oportunidade e criatividade. A pandemia do novo coronavírus atacou em cheio um dos aspectos que compõem a essência humana: a necessidade de socializar. A tecnologia das reuniões virtuais de certa forma amenizou a saudade de amigos e familiares, mas poucas coisas são tão insubstituíveis quanto um abraço em carne e osso. O baque emocional foi ainda mais nocivo para um grupo específico, o de solteiros e solteiras, e as empresas que os têm como público-alvo não demoraram a pegar carona no clima de “sofrência”, escancarado pela febre inicial das lives musicais. Especialistas destacam a demanda reprimida — eis aí a oportunidade — que abriu as portas para as pessoas que antes priorizavam o flerte em casas noturnas ou barzinhos.

 “Muita gente que não se interessava pelos aplicativos ganhou uma motivação adicional”, diz Ailton Amélio da Silva, ex-professor do Instituto de Psicolorizavam o flerte em casas noturnas ou barzinhos. “Muita gente que não se interessava pelos aplicativos ganhou uma motivação adicional”, diz Ailton Amélio da Silva, ex-professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. 

Houve ainda um novo fenômeno pandêmico: a mera busca por companhia, ainda que o papo corriqueiro não mirasse diretamente o encontro marcado. “Só o ato de falar com alguém de forma mais casual já alivia parcialmente a solidão, mesmo que a pessoa não busque um relacionamento mais profundo”, diz Daniel Martins de Barros, médico do Instituto de Psiquiatria da USP. Os dados confirmam a tendência. Segundo o Tinder, as conversas diárias aumentaram em média 20% e a duração dos papos se tornou 25% maior. 

Criado em 2012 em um câmpus de faculdade, o Tinder é o aplicativo não relacionado a games mais popular do mundo, disponível em 190 países e quarenta idiomas. Durante a pandemia, em um ano marcado por tensões raciais e políticas, a plataforma virou um local de debate sobre variados temas e reuniões de diversas tribos. As citações ao termo “voto” dobraram, enquanto o adjetivo “feminista” e o emoji símbolo do Black Lives Matter se espalharam por perfis mundo afora. 

Jenny McCabe, chefe de comunicação do app, disse a VEJA que metade dos membros tem entre 18 e 25 anos. “A geração Z não delineia diferenças entre vida real e vida digital. É apenas vida”, afirma a executiva. A empresa também fez sua parte e caprichou na sedução — daí a criatividade. Uma das primeiras medidas foi habilitar os chats de vídeo. Faz todo o sentido. Na quarentena, afinal, o tão aguardado primeiro encontro precisou ser virtual. Outra novidade foi a liberação durante um mês do “passaporte”, recurso pago que permite o contato entre pessoas de qualquer lugar do mundo — em sua versão básica e gratuita, as possibilidades se limitam a um raio de 160 quilômetros. As cidades estrangeiras mais “visitadas” pelos brasileiros foram Nova York, Los Angeles e Londres. 

O Tinder trouxe ainda outras inovações, como uma minissérie apocalíptica, Swipe Night, sua primeira produção de ficção, na qual o usuário se torna um personagem da trama, com o poder de definir seus rumos num arrastar de tela. As escolhas do assinante (que incluem salvar um cachorro ou um humano de um asteroide) foram usadas como filtro para que o aplicativo indicasse pessoas de perfis semelhantes. “Estamos comprometidos em impulsionar a inovação no Tinder, criando mais maneiras de reunir nossos membros, entretê-los e ajudá-los a conhecer novas pessoas”, afirmou Jim Lanzone, CEO do aplicativo. 

O auge da paquera no mundo se deu em 5 de abril, semanas depois de a pandemia ter sido oficialmente declarada, quando foram enviados 52% a mais de mensagens em relação à média pré-quarentena. No Brasil, o dia 29 de março foi o ponto alto das conversas, com uma média de mensagens 61% superior. Em breve, o aplicativo promoverá outro evento, o Dating Sunday, em 3 de janeiro — segundo a empresa, o primeiro domingo de cada ano costuma ser o dia de maior movimento, uma espécie de Super Bowl dos encontros. A Match Group também fechou recentemente um contrato de parceria com a Rainn, a maior organização antiviolência sexual dos EUA, para revisar e aprimorar os processos de denúncia de má conduta. Com a chegada da vacina e tantas novidades, o flerte tende a ser mais proveitoso e seguro em 2021. 

O amor, como se vê, está sempre na moda.

Publicado em VEJA de 23 de dezembro de 2020, edição nº 2718 

https://veja.abril.com.br/tecnologia/tinder-um-fenomeno-mesmo-durante-o-periodo-de-isolamento-social/

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Cinco forças do futuro pós-covid-19

Políticas populistas continuarão a influenciar a esfera política

Por Martin Wolf Valor Econômico 18/12/2020 

A covid-19 acelerou o mundo rumo ao futuro. Aqui estão cinco forças que estavam em ação antes da covid-19, se intensificaram durante a pandemia e ainda estarão afetando o mundo em 2025, e por bem mais além.

Primeira: tecnologia. A marcha da tecnologia da computação e das comunicações continua modelando nossas vidas e a economia. Hoje, as comunicações em banda larga, somadas ao Zoom e a softwares similares de videoconferência possibilitaram que um número imenso de pessoas trabalhe em casa.

Estamos em uma era de instabilidade. A pandemia não a criou, mas a deixou em mais evidência. A derrota de Trump dá ao mundo tempo para recuperar o fôlego. Mas os desafios são enormes. Em 2025, muitos ainda estarão presentes e, com certeza, serão ainda maiores

Em 2025, é provável que uma parte, possivelmente a maioria, dessa transferência para fora dos escritórios seja revertida. A reversão, porém, não será completa. As pessoas terão capacidade (e permissão) para trabalhar fora do escritório. Inevitavelmente, isso incluirá não apenas trabalhadores nos próprios países, mas também no exterior, normalmente, com salários mais baixos. O resultado provavelmente será um aumento desestabilizador na chamada “imigração virtual”.

Segunda: desigualdade. Muitos trabalhadores de escritório de altos salários tiveram condições de trabalhar em casa, enquanto a maioria dos demais trabalhadores, não. Nos países ocidentais, muitos dos que foram mais afetados também fazem parte de minorias étnicas. Enquanto isso, muitos dos que já eram bem-sucedidos e poderosos prosperaram assombrosamente.

O mais provável é que as iniquidades exacerbadas pela pandemia não tenham diminuído em 2025. As forças que as enraizaram são muito fortes. O máximo que podemos esperar é uma modesta melhora. Isso, por sua vez, indica que as políticas populistas do passado recente continuarão a influenciar a esfera política em 2025.

Terceira: endividamento. O endividamento agregado cresceu em quase todos os países nos últimos 40 anos. Sempre que alguma crise interrompia a capacidade do setor privado de continuar captando, os governos se encarregaram de preencher a lacuna. Isso ocorreu depois da crise financeira mundial [de 2008] e, de novo, durante a covid-19.

A pandemia aumentou drasticamente a captação dos setores privado e público. Segundo o Instituto Internacional de Finanças [IIF, a associação mundial do setor bancário], a taxa de dívida bruta em relação à produção mundial saltou do já elevado patamar de 321%, no fim de 2019, para 362%, no fim de junho de 2020. Em tempos de paz, nunca houve um aumento tão gigantesco e súbito.

Felizmente, a dívida governamental agora está extremamente barata e as taxas de juros, nominais e reais, das dívidas soberanas de países de alta renda estão em níveis baixos. Mas seu excesso de dívida pode incapacitar partes do setor privado por anos.

Quarta: a desglobalização. O futuro plausível não é de extinção das trocas internacionais. Mas provavelmente elas se tornarão mais regionais e mais virtuais.

Depois da crise financeira mundial, o ritmo de crescimento do comércio exterior deixou de ser maior que o da produção mundial, como nas décadas prévias, e passou a ser praticamente igual. Essa desaceleração se deveu ao esgotamento de oportunidades, à ausência de uma liberalização do comércio global e à ascensão do protecionismo. A covid-19 reforçou essas tendências. Um resultado nítido tem sido o desejo de transferir cadeias de produção de volta par casa ou, pelo menos, para fora da China.

A crise também vem reforçando o regionalismo, mais notavelmente na Ásia. Um exemplo recente digno de nota é a Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP, na sigla em inglês), que reúne os dez países da Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático) somados à Austrália, China, Japão, Nova Zelândia e Coreia do Sul.

Por fim, estão as tensões políticas. Uma dimensão disso se vê no declínio da credibilidade da democracia liberal, na ascensão do autoritarismo demagógico em muitos países e no poder cada vez maior do despotismo burocrático da China. Outra se dá na ascensão do populismo em países ocidentais centrais, em especial nos EUA. Embora a vitória de Biden represente uma derrota para o populismo, a grande porcentagem de votos de Trump mostra que não desapareceu.

Talvez, o desenvolvimento geopolítico mais importante tenha sido a crescente tensão entre EUA e China. Isso está forçando os países a escolher um lado. Repito, a covid-19 acelerou esse afastamento. Trump culpou a China pela pandemia. Mesmo com ele fora de cena, muitos nos EUA compartilham desse ponto de vista.

Então, em vista de tudo isso, como o mundo poderia estar em 2025? Com sorte, as economias terão em grande medida se recuperado da pandemia. A maioria, porém, estará mais pobre do que teria estado sem ela.

No entanto, o maior desafio talvez exija uma cooperação mundial que não existirá. Sustentar uma economia dinâmica mundial, preservar a paz e administrar os recursos comuns supranacionais sempre será difícil. Mas uma era de populismo e conflito das grandes potências tornará isso muito mais difícil.

Estamos em uma era de instabilidade. A pandemia não a criou, mas a deixou ainda em mais evidência. A derrota de Donald Trump dá ao mundo tempo para recuperar o fôlego. Mas os desafios são enormes. Em 2025, muitos deles ainda estarão presentes e, com toda probabilidade, ainda maiores. (Tradução de Sabino Ahumada).

Autor -Martin Harry Wolf, CBE é um jornalista britânico que se concentra em economia. Ele é o editor associado e comentarista chefe de economia do Financial Times.

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/cinco-forcas-do-futuro-pos-covid-19.ghtml

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Home office já tinha vantagens até no século 18

Mesmo com poucos dados da época, é possível perceber que existem paralelos surpreendentes com os dias de hoje

The Economist, O Estado de S. Paulo 20 de dezembro de 2020 

Sally Brown, que nasceu em Vermont no início dos anos 1800, tinha uma rotina típica para uma trabalhadora da época. Como mostra seu diário, um dia ela está terminando de fazer as meias; no outro, está ordenhando a vaca; no terceiro, tecendo lã. Todos os seus trabalhos eram feitos em casa.

A mudança dos escritórios para as mesas de cozinha das casas dos trabalhadores de colarinho branco em 2020 parece não ter precedentes e só foi possível com o Slack e o Zoom. Mas não é nada novo. Na verdade, a história do trabalho de casa sugere alguns paralelos surpreendentes com os dias de hoje.

O surgimento do capitalismo na Grã-Bretanha e em outros lugares de 1600 a meados do século 19 não ocorreu fundamentalmente nas fábricas, mas, sim, nas casas das pessoas. Em suas cozinhas ou quartos os trabalhadores faziam de tudo, de vestidos a sapatos e caixas de fósforos. 

ctv-oe2-home-office-2Como no passado, flexibilidade ajuda mulheres com filhos Foto: Eva Plevier/Reuters

Quando Adam Smith escreveu A Riqueza das Nações em 1776 era perfeitamente comum trabalhar em casa. Smith descreveu a famosa operação da divisão do trabalho na fabricação de alfinetes, não em algum moinho escuro e infernal. Ele falou sobre uma “pequena manufatura” de umas dez pessoas – que poderia muito bem estar dentro ou anexada à casa de alguém.

Não é fácil estabelecer números exatos de quantas pessoas trabalharam em casa durante os diferentes períodos históricos. Até mesmo na Grã-Bretanha, onde os dados econômicos são mais extensos que em qualquer outro país, existem poucos dados confiáveis sobre a força de trabalho até meados do século 19. Mas outras fontes deixaram algumas pistas. Uma delas diz respeito ao significado da palavra house (casa, em inglês). 

Hoje, o termo conota domesticidade. Mas, até o século 19, tinha uma definição muito mais ampla, com o sufixo -house abrangendo também a produção econômica. Em Uma Canção de Natal”, Scrooge trabalha numa counting-house, ou seja, uma “casa de contabilidade”. A arquitetura oferece outras dicas. Na Grã-Bretanha, muitas casas do século 18 ainda têm as janelas do andar superior excepcionalmente grandes, porque os tecelões que trabalhavam nesses espaços precisavam do máximo de luz possível.

Por volta de 1900, administradores franceses tomaram a iniciativa de perguntar às pessoas sobre seu local de trabalho, não apenas sobre o que faziam. Eles descobriram que um terço da força de trabalho industrial da França trabalhava em casa. Pesquisas dinamarquesas da mesma época revelaram que um décimo da mão de obra total o fazia em casa, em tempo integral. 

Esses esforços de pesquisa ocorreram no auge do sistema de produção fabril; nas décadas anteriores, a parcela de trabalho realizado em casa deve ter sido muito maior. De acordo com uma estimativa feita para os Estados Unidos, a partir de dados oficiais, mais de 40% da mão de obra total trabalhava em casa no início do século 19. Somente em 1914 a maioria da força de trabalho passou a trabalhar em fábricas ou escritórios.

O surgimento dessa mão de obra industrial trabalhando de casa teve duas causas principais. O crescimento do comércio global e o aumento da renda per capita a partir de 1600 aumentaram a demanda por produtos manufaturados, como lãs e relógios. Mas a nova tecnologia emergente era mais adequada para o trabalho em pequena escala do que para as fábricas de grande escala (o tear jenny, a máquina que disparou a revolução industrial, só foi inventada na década de 1760). As casas eram o lugar óbvio para se estar.

O que surgiu foi chamado de “sistema putting-out”, ou sistema de produção domiciliar. Os trabalhadores retiravam matérias-primas e, às vezes, equipamentos de um depósito central. Eles voltavam para casa e produziam as mercadorias por alguns dias, antes de devolver os artigos prontos e receber o pagamento. Os trabalhadores eram contratados independentes: recebiam por peça, não por hora, e tinham pouca ou nenhuma garantia de trabalho de uma semana a outra.

Os relatos de como era trabalhar em casa nos séculos 18 e 19 são poucos e esparsos. Boa parte da força de trabalho do sistema putting-out era constituída por mulheres, que tinham menos chance de escrever autobiografias (o predomínio de mulheres no sistema putting-out também explica por que gerações de historiadores não lhe deram muita atenção). 

Apesar disso, algumas características emergem dos arquivos. A jornada média de trabalho era mais longa. Ao contrário dos dias de hoje, quando a maioria das pessoas tem emprego, as pessoas saltavam de um trabalho a outro, dependendo de onde podiam ganhar dinheiro, como Sally Brown.

Com os dedos cansados e feridos

Alguns historiadores da economia sugerem que os trabalhadores eram impiedosamente explorados sob o sistema putting-out. Aqueles que possuíam as máquinas e matérias-primas gozavam de enorme poder sobre seus empregados. Com os trabalhadores espalhados por todo um condado, era difícil que eles se unissem contra patrões exploradores para exigir melhores salários – quanto mais formar sindicatos. 

Os chefes “podiam facilmente se unir contra o fiador, que enfrentava uma oferta de trabalho do tipo pegar-ou-largar”, argumentam Jane Humphries e Ben Schneider, da Universidade de Oxford, em um artigo de 2019. Alguns trabalhadores realmente enfrentaram dificuldades. O poema de Thomas Hood “The Song of the Shirt” evoca uma trabalhadora que labuta na pobreza.

Como resultado, alguns historiadores aplaudem o desenvolvimento do sistema fabril a partir do final do século 18. Os trabalhadores se mudaram de um lugar onde a vida doméstica se misturava livremente à produção econômica para um lugar exclusivamente dedicado à busca da eficiência. 

Não é de surpreender que a produtividade do trabalho fosse mais alta na fábrica, nem que o sistema fabril aos poucos tenha superado e substituído o sistema putting-out. Amontoados na fábrica, os trabalhadores podiam se juntar para pedir salários mais altos; e os sindicatos começaram a crescer a partir da década de 1850. Segundo dados ingleses, os trabalhadores fabris recebiam de 10 a 20% mais do que os trabalhadores que trabalhavam em casa.

Mas a história não para por aí. Alguns trabalhadores que trabalhavam em casa resistiram à mudança para o sistema fabril – sobretudo se unindo aos Luditas, uma sociedade de trabalhadores têxteis ingleses do século 19 que destruíam máquinas, pois sentiam que elas estavam tomando seu trabalho. Outra explicação é que os proprietários das fábricas, pelo menos no curto prazo, tiveram pouca opção a não ser oferecer salários mais altos para atrair os trabalhadores de suas casas. Isto sugere que trabalhar em casa tinha suas vantagens.

Uma dessas vantagens era econômica. Os trabalhadores que trabalhavam em casa talvez recebessem menos que os trabalhadores fabris, mas podiam ganhar renda por outros meios. Os trabalhadores de casa da indústria de lã recebiam uma determinada quantidade de matéria-prima e precisavam devolver o mesmo peso do material transformado em meias. Mas, ao expor a lã ao vapor, ela pesava mais, permitindo que os trabalhadores ficassem com uma parte da matéria-prima.

Esta não era a única vantagem. Trabalhadores que trabalhavam em casa nas áreas rurais ou semirrurais podiam obter lenha e alimentos e, assim, aumentar suas rendas escassas. Em 1813, um observador notou, com desdém, que as mulheres em Surrey, condado próximo a Londres, ganhavam 3 xelins por semana lavrando brejos para fazer vassouras – “produções miseráveis e empregos sem valor”, em sua opinião. Mas 3 xelins por semana não estava muito longe da média de ganhos femininos na época.

Os trabalhadores que trabalhavam em casa também tinham mais controle sobre seu tempo. Contanto que o trabalho fosse realizado de acordo com o padrão exigido e dentro do prazo, eles não eram obrigados a fazê-lo de determinada maneira. Isto contrastava fortemente com a fábrica, onde cada aspecto da vida era planejado com antecedência e os trabalhadores eram monitorados de perto. 

E os trabalhadores de casa podiam decidir a combinação exata entre trabalho e lazer – em contraste com os trabalhadores fabris, que ou trabalhavam as jornadas de 12 ou 14 horas estipuladas pelo proprietário da fábrica, ou não tinham trabalho nenhum. A jornada de trabalho média no século 18 era mais curta do que viria a ser no século 19. Depois de beber um tanto na noite de domingo, os trabalhadores domésticos muitas vezes tiravam o dia de folga antes de voltarem “relutantemente ao trabalho na terça-feira, aquecerem-se para a labuta na quarta-feira e trabalharem furiosamente na quinta e na sexta-feira”, como escreveu David Landes, historiador da economia da Universidade de Harvard. As pessoas também dormiam mais.

Essa maior autonomia era especialmente importante para as mães. Num mundo em que os homens pouco faziam no trabalho familiar, as mulheres podiam combinar o cuidado dos filhos com a contribuição para a renda da família. Não era nada fácil. Às vezes, as mulheres davam a seus bebês o Godfrey’s Cordial, uma mistura de xarope de açúcar e láudano, para deixá-los desacordados por um tempo. Mas trabalhar de casa possibilitava conciliar o trabalho remunerado com o trabalho familiar de uma forma que o sistema fabril não permitia. Com a expansão das fábricas, a participação feminina na força de trabalho caiu.

Em 1920, o sociólogo alemão Max Weber argumentou que a separação do trabalhador de sua casa teve consequências de “alcance extraordinário”. A fábrica era mais eficiente que o sistema doméstico que a precedeu – mas também era um espaço em que os trabalhadores tinham menos controle sobre suas vidas e onde se divertiam muito menos. Dependendo de quão permanente seja, a mudança de volta para casa induzida pela pandemia de hoje pode ter efeitos de longo alcance semelhantes. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,home-office-ja-tinha-vantagens-ate-no-seculo-18,70003558144

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Com a ajuda do estado, a tecnologia chinesa está bombando

Mas não será um caminho fácil para o domínio global, diz Hal Hodson

The Economist Technology Quarterly (Tradução Evandro Milet) 02/01/2020

Durante a maior parte da história humana, a China foi a potência tecnológica mais avançada do mundo. O alto-forno teve origem ali e, portanto, também fez o ferro fundido. Outras descobertas incluíram porcelana e papel. Sua pólvora impulsionou os primeiros foguetes militares mais longe do que o dardo ou a flecha poderiam voar; suas bússolas revelaram magicamente o norte magnético quando as estrelas estavam ocultas.

Somente na Idade Média a Europa começou a se equiparar à engenhosidade e capacidade chinesas nesses campos, principalmente por meio da imitação. Somente com o crescimento das indústrias mecânicas europeias e dos impérios ultramarinos no século 18 os ocidentais se tornaram seus rivais. Nos séculos que se seguiram, prejudicada por seu próprio sistema de educação sufocante, a China foi derrotada nas guerras do ópio, depois sofreu terrível agitação civil e uma revolução desastrosa que reduziu o país a um espectador tecnológico e “Made in China” a um sinônimo de bugigangas .

Agora a China está de volta, arrastando nuvens de smartphones, trens de alta velocidade, aeronaves dissimuladas, minerações de bitcoins e outros dispositivos de talento de alta tecnologia. As partes do mundo que o ultrapassaram estão preocupadas. Em 2015, seus líderes anunciaram um plano de US $ 300 bilhões de dez anos, “Made in China 2025”, projetado para tornar suas indústrias de semicondutores, veículos elétricos e de inteligência artificial (e muitas outras) tão boas quanto qualquer outra no mundo, se não melhores. 

Essa declaração de que a China não se contentava mais em ser uma fábrica de produtos de alta tecnologia americanos criou uma nova tensão entre as duas maiores economias do mundo. À medida que o plano se aproxima da metade, esse conflito parece piorar.

A América acusa a China de roubar e espionar seu caminho até a cadeia de suprimentos de tecnologia e de prejudicar a tecnologia americana ao mantê-la fora do mercado chinês. Seu departamento de defesa se preocupa em conduzir operações militares por meio de redes repletas de componentes chineses. 

Os senadores estão preocupados com a forma como a China está usando a tecnologia para oprimir seu próprio povo. O sistema político americano teme que a tendência de conectar objetos anteriormente desconectados, como trens e carros, a redes de computadores, ofereça ao governo chinês uma maior alavancagem geopolítica, no mínimo – e na pior das hipóteses, controle direto de partes da infraestrutura de outros países. 

A perspectiva da China é mais direta: os Estados Unidos estão usando injustamente seu poder existente para restringir o legítimo retorno tecnológico da China.

Muito do pensamento sobre essas questões se concentra nas capacidades tecnológicas da China e no que falta, onde está à frente da América e onde está ficando para trás. Mas essa conta fragmentada oferece pouca ajuda para compreender a capacidade da China de promover novas tecnologias ou de dominar as cadeias de abastecimento e os padrões que as sustentam. A questão vital não é a quais tecnologias a China tem acesso agora, mas como construiu esse acesso e como sua capacidade de promover novas tecnologias está evoluindo.

Esse é o foco desta reportagem. Obviamente, como termina a correlação de forças entre os dois poderes é importante. Mas, para entender isso, você também precisa se familiarizar com a tecnologia chinesa em seus próprios termos. Detalhes dos processos por trás do desenvolvimento tecnológico do país são vitais para avaliar o desafio de longo prazo representado por uma China em ascensão tecnológica. Eles podem se perder em uma discussão geopolítica de nível superior que é hiperbólica e polarizada.

O processo de obtenção desse entendimento começa examinando tecnologias mais antigas, como trens de alta velocidade e usinas nucleares. O trabalho de internalizar essas tecnologias está quase completo, e as empresas chinesas e empresas estatais por trás delas estão prontas para exportar para o mundo. Como tal, eles representam um modelo de sucesso de desenvolvimento liderado pelo estado que usou o poder repressivo do estado sobre seus cidadãos e o controle que exerce sobre a economia para implantar tecnologia em grande escala.

É a minha parte

Nenhum governo controla mais uma economia que vale a pena controlar do que a China. Cerca de 51.000 empresas estatais empregam cerca de 20 milhões de pessoas e valem coletivamente US $29 trilhões, de acordo com uma análise em 2017 da OCDE, um clube formado principalmente por países ricos. Muitas firmas chinesas privadas afirmam não receber apoio estatal e, em termos estritamente monetários, isso costuma ser verdade, mas a regra é a concessão de terras dos governos provinciais e um esforço colateral na gestão de propriedades. A capacidade do Partido Comunista de garantir a implantação bem-sucedida de uma tecnologia não se restringe ao financiamento. O estado protege o risco, esmaga eventuais resistências da vizinhança e paga pela infraestrutura.

Mas dois outros fatores estão substituindo o poder do estado bruto como motor do desenvolvimento tecnológico chinês. Um é o lugar que suas empresas ocupam em muitas das cadeias de suprimentos mais importantes do mundo, proporcionando-lhes acesso fácil a todos os tipos de know-how tecnológico. Como fábrica do mundo, a China – e particularmente a região do Delta do Rio das Pérolas que inclui as prósperas cidades de Shenzhen e Guangzhou – fabrica componentes para quase tudo, sabe como montá-los e está preparada para reunir os componentes certos tão rapidamente quanto possível. 

Essa vantagem geoepistemológica explica por que as únicas empresas de smartphones de sucesso fundadas desde 2010 foram aquelas estabelecidas em torno de Shenzhen. (Todas elas são empresas não estatais.) Seu sucesso se espalhou para novos mercados com base em componentes semelhantes. O mercado de drones para consumidores é dominado pela China porque os drones são basicamente telefones com rotores.

Em segundo lugar, o tamanho e as particularidades do mercado chinês se tornaram um incentivo à inovação por si mesmos. WeChat e Alipay, que usam QR codes para fazer pagamentos com telefones, surgiram e se estabeleceram na China porque os cartões de pagamento ainda não haviam sido disseminados; como resultado, as cidades chinesas quase não usam mais dinheiro vivo. A necessidade do Partido Comunista de controle social estimulou toda uma indústria de tecnologias de aprendizado de máquina(machine learning) voltadas para os serviços de segurança. O Ocidente não gosta dos aplicativos para os quais as empresas de IA da China – principalmente, também, empresas não estatais – transformam seus algoritmos, mas não há como negar a escala de sua ambição (embora seu sucesso tenha alguns fundamentos subestimados).

Nem toda peculiaridade do sistema chinês é um benefício. O apoio estatal é frequentemente concedido a empresas ou setores com base em fatores não comerciais. Ignorância e corrupção bagunçam as coisas; o mesmo acontece com a sede de prestígio. No campo de batalha crucial dos semicondutores, a política de investimento de Pequim é amplamente baseada na busca pelas seções de maior valor da cadeia de abastecimento, injetando dinheiro nas versões chinesas das empresas estrangeiras que agora comandam essas alturas. Negócios de semicondutores verdadeiramente inovadores e eficazes às vezes sofrem apenas porque são menos cobiçados pelos funcionários do partido.

O exame do desenvolvimento da tecnologia chinesa revela coisas não apenas sobre a China, mas ilumina as tendências globais. Alguns são óbvios. Um governo capaz de moldar e ignorar a opinião pública pode fazer coisas que governos forçados a ouvir o povo – incluindo minorias com voz – não podem. Se os tecnocratas da China querem energia nuclear e organismos geneticamente modificados, eles os obterão.

Algumas tendências são mais sutis. O fracasso da China em alcançar tecnologias como motores de combustão interna, aviação civil e, até o momento, semicondutores mostra como é difícil fazer os mecanismos mais complexos da humanidade. As organizações que conseguem fazer isso dependem de recônditos insights e procedimentos estranhos cuidadosamente alimentados por hierarquias corporativas ao longo de décadas. O fato de que mesmo uma economia tão poderosa como a da China dificilmente pode alcançar esse desenvolvimento deve dar uma pausa para reflexão sobre as possibilidades de inovação em outros lugares.

O potencial de novas tecnologias para aprimorar e projetar o poder chinês, e a ameaça que representa uma ordem global liderada pela América, paira sobre o desenvolvimento tecnológico da China. Mas essas não são sua única inspiração. A China está lutando contra o envelhecimento da população, a degradação ambiental e uma economia em desaceleração. Os pontos fortes e fracos de suas tentativas de resolver esses problemas tecnologicamente serão lições para outros países em dificuldades semelhantes e para aqueles que vêem a China não apenas como um competidor, mas como um mercado cada vez mais sofisticado.

Para os países que desejam coexistir com a China, suas fraquezas revelam bons lugares para investir no desenvolvimento de suas próprias capacidades. Para aqueles que desejam reduzir ou restringir o poder tecnológico chinês, conhecer seus pontos fortes e vulnerabilidades é vital. ■

Este artigo apareceu na seção Technology Quarterly da edição impressa com o título “Das pessoas que trouxeram fogos de artifício …”

https://amp.economist.com/technology-quarterly/2020/01/02/with-the-states-help-chinese-technology-is-booming?__twitter_impression=true

https://exame.com/revista-exame/o-novo-sonho-grande-da-ambev/

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