TECNOLOGIA SALTA, MAS PROFISSÕES TRADICIONAIS NÃO SAEM DA CABEÇA DOS ESTUDANTES

Medicina, Direito e Engenharia continuam sendo os cursos mais procurados pelos jovens, apesar do avanço significativo e duradouro das graduações em áreas de tecnologia

Texto: Gonçalo Junior Estadão 24 de outubro de 2020 

PROFISSÕES DO FUTURO

A carinhosa pergunta “o que você vai ser quando crescer?” recebeu respostas parecidas dos estudantes brasileiros na última década. Dados do Censo de Educação Superior do Ministério da Educação (MEC) entre 2010 e 2018 mostram que os jovens estão procurando cada vez mais carreiras ligadas às áreas de Tecnologia, como Computação e TI. Mas, mesmo com esse salto, as profissões tradicionais permanecem no topo da preferência e são aquelas com maior número de formados. Dados de 2019 apontam que 48% dos alunos no País estão matriculados em apenas dez cursos.

O cenário é semelhante em universidades públicas de ponta e instituições particulares. Neste ano, na Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), que seleciona estudantes para a Universidade de São Paulo (USP), os cursos com maior demanda absoluta foram Medicina, Direito, Engenharia, Economia e Psicologia. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), nos últimos cinco anos, as duas carreiras mais concorridas foram Medicina e Arquitetura. A lista é praticamente a mesma na Universidade Estadual Paulista (Unesp): a única diferença é a inclusão da Medicina Veterinária entre as cinco mais disputadas.

OS CAMINHOS DOS UNIVERSITÁRIOS

Evolução do número de cursos, matrículas, inscritos e formados no ensino superior entre 2010 e 2018

Levantamento da consultoria Educa Insight aponta o retrato das particulares. Em 2018, os cursos com mais alunos matriculados nessas instituições foram Direito, Administração, Enfermagem, Engenharia Civil e Psicologia.

A procura por profissões tradicionais se reflete também no Censo de Educação Superior. Em 2018, o número de matriculados no segmento de Negócios e Direito foi oito vezes maior que os matriculados em Computação. A área de Informação, que envolve Jornalismo e Psicologia na categorização do MEC, ostenta aumento de 120% no número de cursos entre 2010 e 2018. Isso significa que o avanço dos cursos de Tecnologia é significativo, representa uma onda duradoura, mas não ameaça a soberania dos cursos clássicos.

Os cursos inovadores representam um pedaço pequeno do bolo. Eles trazem visibilidade para as instituições e servem para o fortalecimento de uma marca

Daniel Infante, sócio da Educa Insights e especialista em mercado educacional

A estudante Fabyanne Lariza Calazans, de 26 anos, escolheu a Saúde, área tradicional de formação que registra aumento de 83% no número de alunos matriculados entre 2010 e 2018. Atuando há três anos como técnica em enfermagem no Hospital Santa Marcelina, na zona leste, ela está no primeiro semestre na faculdade mantida pelo grupo.

Fabyanne Lariza Calazans optou por uma formação em uma graduação tradicional: Enfermagem

“Eu não sei explicar direito o motivo da escolha. Foi uma vontade que sempre esteve comigo, desde pequena. Sempre quis cuidar e ajudar as pessoas”, diz a técnica do setor neonatal. “Eu digo ‘siga em frente’ para quem escolheu esta profissão”, diz a profissional.

Com o canudo nas mãos

O peso da tradição fica evidente quando a lupa está nos formados, quem está saindo com o canudo nas mãos. Em 2018, o País formou 480 mil profissionais nas áreas de Negócios, Administração e Direito. O número representa mais de 10 vezes os formados na área de Tecnologia e 20 vezes o número dos que pegaram diploma no segmento de Ciências Naturais, Matemática e Estatística. Em outras palavras, o Brasil ainda forma mais advogados e administradores do que analistas de sistemas e cientistas.

Em entrevista por videoconferência ao Estadão, a presidente da Microsoft Brasil, Tânia Cosentino, evidenciou a importância de o País se preocupar em resolver a baixa formação de jovens em tecnologia.

“Hoje temos no mundo 40 milhões de profissionais de TI (tecnologia da informação) e acreditamos que até 2025 vamos precisar de 200 milhões”, diz Tânia Cosentino. “No Brasil, em média 17% dos graduandos estão na área de exatas, muito abaixo de 24% nos países ricos. Na China, são 40%. Defendemos a programação desde a educação básica. Mesmo que o aluno não vire programador, isso vai ajudá-lo a desenvolver a parte cognitiva em toda a sua vida.”

Fernando Ferrari Putti, professor de Engenharia de Biossistemas e assessor da Pró-Reitoria de Graduação da Unesp, adiciona mais uma variável à equação: as particularidades do mercado de educação. Para ele, as comparações são difíceis.

Os custos de criação e manutenção de um curso de Administração são menores que os de Engenharia, por exemplo. Além disso, Engenharia é um curso mais demorado. É como tentar comparar os incomparáveis

Fernando Ferrari Putti, professor de Engenharia de Biossistemas e assessor da Pró-Reitoria de Graduação da Unesp

“O setor privado é muito grande e heterogêneo, mas em grande medida concentra as matrículas em cursos cuja oferta envolve menor infraestrutura e custos. O curso de Direito é o maior exemplo disso. No campo da educação, temos o exemplo do curso de pedagogia”, opina Lalo Watanabe Minto, professor da Faculdade de Educação da Unicamp. “Temos uma curta história de maior expansão desse ensino para camadas um pouco mais amplas da população e, portanto, o “peso” dessa tradição ainda é muito alto. Há muito de subjetividade nessa expectativa, mas também de elementos bem objetivos, como perspectivas de ascensão social, de carreiras bem estruturadas, e até mesmo de status”, completa.

O estudante Pedro Homem de Melo, de 17 anos, vislumbra ainda uma terceira via nessa balança entre cursos clássicos e tecnológicos: escolher uma profissão tradicional, mas com uma ponta de modernidade. Por isso, ele vai prestar vestibular para Engenharia Elétrica com ênfase em Computação. Filho de um advogado e uma empresária, o estudante do Colégio Bandeirantes, na zona sul de São Paulo, decidiu seguir unicamente sua vocação. “Não consigo imaginar minha profissional longe dos números”, sorri. O momento de escolha da carreira é tão importante que os colégios estão ampliando as estratégias para ajudar os adolescentes a encontrar seu caminho profissional.

Para Ocimar Alavarse, professor da Faculdade de Educação da USP, fatores emocionais também fazem adolescentes sonharem com um jaleco branco ou com seu nome precedido da palavra “doutor”. “A educação superior, ou ter um diploma, significa ascensão social, mesmo que seja de maneira genérica”, diz o especialista. “A aspiração pela formação ainda é muito grande no País, principalmente em regiões como Norte e Nordeste”, concorda Infante.

Tecnologia: de olho no futuro

O avanço dos cursos de tecnologia aparece em vários indicadores. Se você olhar apenas o número de inscritos, gente interessada no curso, o número saltou de 140 mil para 719 mil em dez anos, de acordo com dados do MEC. É um aumento de mais de 500%. O crescimento também é significativo entre os alunos que se matricularam de fato em alguma faculdade pública ou privada. Aqui, o salto foi de 35%. Essa alta pressionou as instituições de ensino. O número de cursos na área quase triplicou, o que significou um aumento de quase oito vezes nas vagas.

Esse cenário não chega a ser totalmente surpreendente, afinal vivemos a era digital. Com a presença massiva das empresas na internet e o uso dos canais virtuais como parte do plano de negócios, os profissionais de tecnologia estão em alta faz tempo. O que chama a atenção é a seta que aponta para o futuro. Estudo desenvolvido pelo Escritório de Carreiras da USP (ECar) aponta as dez carreiras da próxima década. “Estamos preparando profissionais que vão exercer plenamente sua profissão em 2030. O contexto que vivemos, de presença da tecnologia em todas as profissões, vai se acentuar. O mundo será cada vez mais tecnológico”, diz Antonio Freitas, pró-reitor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

A pandemia do novo coronavírus abriu um verdadeiro portal para a vida on-line. Como as pessoas tiveram de ficar em casa para diminuir o risco de contaminação, muita coisa passou a ser feita de forma remota. O digital virou a solução para tudo: aprender, trabalhar, fazer compras e ver os amigos e a família. Com isso, analistas de sistemas, cientistas de dados e webmasters passaram a ser ainda mais requisitados. Estudo global do LinkedIn, mais influente rede social corporativa do mundo, mostra que a tecnologia da informação domina o ranking das profissões emergentes em 2020. Elas são 9 em uma lista de 15 atividades.

Pesquisa da multinacional de informática IBM com 3.800 executivos de 20 países aponta que 59% deles afirma que a pandemia acelerou a mudança. Entre os brasileiros, 51% vão apostar em cibersegurança. “As empresas estão olhando para a transformação digital como algo concreto e atual. Antes, elas viam como o futuro”, afirma Alcely Strutz Barroso, líder de Programas Globais para Universidades da IBM na América Latina.

Está aí a pista da principal bússola que influencia a procura por profissões entre os estudantes: o mercado de trabalho. Mostrar um currículo para fazer brilhar os olhos do recrutadores é um fato importante para a escolha do curso.

O professor Ocimar Alavarse considera a educação superior uma etapa da formação profissional. “O mundo do trabalho oferece sinalizações, quase um espécie de chamado para os cursos de educação superior.”

O estudante Kevin Toledo, de 19 anos, ouviu essa voz. Apaixonado por computadores desde criança, ele escolheu o curso de Ciência de Dados e Inteligência Artificial da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Ele acredita que não terá problemas para conseguir emprego quando se formar como cientista de dados, profissional capaz de analisar e interpretar grande quantidade de informações, entre outras inúmeras habilidades. “A tecnologia só facilita a vida das pessoas”, diz o jovem, que mora em Mairiporã, cidade na Grande São Paulo.

DE OLHO NA EMPREGABILIDADE

Os bons índices de empregabilidade em cursos estão ligados às parcerias das universidades com grandes empresas. Coordenadores do curso da PUC, por exemplo, dialogam semanalmente com a SAP, Tivit e Oracle, empresas que oferecem estágios, material de treinamento, certificações e palestras para os alunos. “A oferta no mercado de trabalho tem aumentado. Existe uma relação direta com o impacto da tecnologia, que ajuda as empresas a resolver os problemas. As empresas investem em tecnologia, o que gera maior necessidade de profissionais e o aumento da demanda. Isso abre espaço nos cursos de graduação”, analisa Jefferson Silva, coordenador do curso de Ciência de Dados e Inteligência Artificial da PUC.

Após os 30 anos, Marcelo Johas decidiu fazer uma nova graduação e apostou na novidade: Tech, na ESPM

As oportunidades na área de Tecnologia não atraem apenas quem está saindo do ensino médio. Formado em Administração de Empresas com MBA em Gestão de Mercados, Marcelo Johas decidiu dar uma guinada na sua carreira aos 32 anos. Hoje, ele está no 3º semestre do curso Tech da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e trabalha numa plataforma sueca de campeonatos de e-sports (jogos eletrônicos) que está chegando ao Brasil.

‘Formamos estrategistas digitais’, diz o coordenador da ESPM Flávio Azevedo Marques

O curso que oferece currículo de Sistemas da Informação com liberdade para o aluno trilhar seu próprio caminho com disciplinas eletivas é outro exemplo da proximidade com o mercado. “Mesmo sendo uma escola tradicional de comunicação, a ESPM decidiu se posicionar estrategicamente com cursos que envolvessem tecnologia”, diz o coordenador Flávio Azevedo Marques. “Hoje, nós formamos estrategistas digitais, uma nomenclatura ampla que dá uma ideia da variedade de papéis que o aluno poderá desempenhar.”

Falta mão de obra em Tecnologia

De acordo com relatório setorial da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) de 2019, já estão sobrando vagas na área de Tecnologia. O setor deve demandar 420 mil novos profissionais até 2024, mas a oferta de capacitados gira em torno de 42 mil por ano.

WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Um estagiário na área tem remuneração que gira entre R$ 1,3 mil a R$ 2,4 mil. “Hoje, a demanda por profissionais de tecnologia é maior que a oferta. Por isso, as universidades estão se movimentando”, opina Alcely Strutz Barroso, líder de Programas Globais para Universidades da IBM América Latina.

Em 2018, o segmento tech empregou mais de 1 milhão de pessoas, gerando 43 mil novos empregos no Brasil. Uma das áreas com maior carência de profissionais é o mercado de jogos eletrônicos (e-sports). Com base nesse indicador, a ESPM pretende criar uma disciplina eletiva a partir do próximo semestre voltada para o segmento dentro do curso Tech.

A iniciativa privada e as universidades desenvolvem parcerias para aperfeiçoar e acelerar a formação. Uma das iniciativas da IBM oferece um curso de 75 horas com cases reais do mundo corporativo que foi incorporado ao currículo de graduação da Faculdade Impacta, especializada no setor. “Nossa visão é aperfeiçoar o conteúdo que as faculdades oferecem. Queremos fortalecer o sistema de ensino”, explica Alcely.

https://www.estadao.com.br/infograficos/educacao,tecnologia-salta-mas-carreiras-classicas-nao-saem-da-cabeca-dos-estudantes,1129545

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Novos gestores cuidam do bem-estar dos funcionários

Áreas específicas surgem para criar experiências positivas e de impacto para os empregados

Por Adriana Fonseca — Para o Valor Econômico 26/10/2020 

Assim como existe, dentro do RH, uma gerência para desenvolvimento profissional, outra para remuneração e benefícios e uma para atração de talentos, a BASF estabeleceu, em janeiro último, uma gerência de recursos humanos para a área de bem-estar. O objetivo é ter uma equipe pensando exclusivamente a criação e adaptação de ações que impactem o bem-estar dos funcionários. “Há mais de 40 anos a empresa tem uma associação que cuida do lazer e esporte para o colaborador. Percebendo grandes oportunidades, reposicionou essa estrutura para o bem-estar, pois quando se tem uma área, fica mais fácil criar ofertas”, diz Vivian Navarro, gerente de RH da área de bem-estar da BASF.

O bem-estar, na concepção da multinacional, é dividido em diferentes frentes: desenvolvimento da carreira, físico, mental, lazer, social, financeiro e comunidade – onde entra a questão do propósito e o senso de contribuição com a sociedade. “Entendemos que a felicidade é consequência do bem-estar nessas áreas”, afirma Vivian.

Dentro desse escopo, e durante o isolamento social, foram pensadas atividades como aulas on-line de ginástica e de luta, sessões de mindfulness, de karaokê e lives aos sábados com programação para os filhos dos funcionários. A empresa também levou aos empregados palestras virtuais com psicólogos e especialistas em temas como ansiedade e felicidade.

A programação é pensada para neutralizar as emoções negativas, o que é medido por meio de questionários que exploram como os funcionários estão se sentindo. “O bem-estar veio para ficar, não é só na pandemia”, diz Vivian. “Quando você está forte, quando você se cuida, atravessa melhor períodos de crise ou caóticos.”

A Ativy, uma empresa de tecnologia, também designou um cargo para olhar especificamente o bem-estar de seus funcionários: é o analista de bem-estar e felicidade. Tiago Garbim, CEO da Ativy, explica que a empresa sempre se preocupou com a satisfação de suas equipes, mas, com o crescimento do negócio – hoje são mais de 160 funcionários -, Garbim estava com dificuldade de acompanhar esse tema de perto, como sempre gostou de fazer. “Às vezes, no dia a dia, não consigo olhar para todo mundo. A função desse cargo é garantir que as pessoas estejam bem”, diz.

Assegurar o bem-estar passa por diferentes aspectos, desde a posição adequada da mesa de trabalho e a temperatura adequada da água até o emocional do funcionário. “Os líderes são orientados a conversar, mas às vezes a pessoa não se sente bem para falar disso com o gestor. A nova analista está ali para ouvir.”

Por meio da analista de bem-estar e felicidade a empresa descobriu, por exemplo, uma funcionária que estava morando em uma casa que “não era muito legal” – ela havia se mudado recentemente de São Paulo para Campinas, onde fica a Ativy. Garbim conta que a empresa procurou um apartamento melhor para ela, cuidou do aluguel e customizou a casa do jeito que ela queria. “Pegamos os detalhes e preparamos a casa.”

A nova analista de bem-estar passou por 12 entrevistas antes de ser contratada – normalmente, para outros cargos, a média são cinco conversas durante o processo. “Nesse caso, ela passou por todos os ‘heads’ de área”, diz Garbim. A empresa queria alguém que fosse um bom ouvinte.

Olhar para a experiência do funcionário como um todo – o que inclui bem-estar e felicidade, mas não se resume a isso – foi o caminho adotado por outras companhias, como Magazine Luiza e Salesforce.

Na multinacional de tecnologia, a área de RH se chama “employee success”, ou “sucesso do funcionário”. “Isso porque, todos os dias, a gente pensa no que é preciso para o colaborador ter sucesso e se desenvolver dentro da empresa”, afirma Priscila Castanho, diretora de employee success para América Latina na Salesforce. “Como o cliente está no centro da empresa, prezamos o sucesso do cliente interno também.” Essa jornada vai desde a busca do candidato no mercado até o “onboarding” e a integração. Uma vez dentro da companhia, existem benefícios específicos para apoiar o bem-estar do funcionário, como um valor de R$ 400 que pode ser gasto pelo empregado ou um familiar com atividades como yoga, pilates ou aluguel de bicicleta. As pesquisas de clima medem, entre outros aspectos, o bem-estar e balizam os programas. “Usamos para entender o que está acontecendo e, se é preciso, alteramos o programa.”

No Magazine Luiza, em maio do ano passado foi criado o cargo de especialista em employee experience. A psicóloga e psicanalista Cristina Mestres, que ocupa o posto, diz que entrou na companhia justamente para levar o conceito de experiência do funcionário para a empresa. “O conceito de experiência do funcionário para a empresa. “O conceito de experiência do colaborador nasce do mesmo conceito de experiência do consumidor. É alguém olhar, do ponto de vista do colaborador, a experiência de ponta a ponta”, afirma.

O papel de Cristina é diminuir a fricção entre os processos, para que o funcionário tenha uma experiência melhor. Somente o processo de “onboarding”, ela conta, envolve 21 áreas diferentes da empresa – seleção, departamento pessoal, saúde e segurança, TI, compras, integração de cultura, integridade e compliance, para citar alguns. O objetivo da área de “employee experience” é fazer dessa experiência a melhor possível para o funcionário, analisando tudo o que envolve o empregado.

Uma plataforma de gestão da experiência do funcionário e pesquisas internas ajudam a equipe a ter dados para aprimorar a jornada do empregado. Com base nisso, na pandemia, o Magazine Luiza passou a oferecer o serviço de psicologia a distância. Desde o começo do isolamento social já foram cinco pesquisas. “Vimos que os colaboradores têm dores diferentes,” diz Cristina. “Eu não sei se a gente dá conta da felicidade das pessoas, mas entendemos que a performance está ligada ao bem-estar e usamos indicadores para saber como estão as equipes.”

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2020/10/26/novos-gestores-cuidam-do-bem-estar-dos-funcionarios.ghtml

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Examinando: entenda como a tecnologia 5G pode mudar a vida na sociedade

O que é e como funciona o 5G? Qual é a diferença para o 4G ou o 3G? 

Por Beatriz Correia RevistaExame Publicado em: 26/10/2020 

Imagina você baixar um filme em alta definição em apenas um minuto. Ou fazer uma reunião por chamada de vídeo sem falhas na conexão, sem travar a imagem ou o som. A ideia é bem interessante. É mais ou menos isso o que promete a famosa rede 5G. A nova tecnologia é a aposta das empresas desse setor e teve um empurrãozinho durante as necessidades da vida na pandemia. Tem gente afirmando até que o futuro chegou mais rápido do que o esperado.

Mas você sabe realmente o que é o 5G? Como ele funciona? Qual é a diferença para o 4 ou o 3G? Ou então você fazia ideia de que essa tecnologia é motivo de conflitos entre duas grandes nações mundiais? No Examinando de hoje além de te explicar tudo isso, vamos te mostrar como o 5G vai mudar a sua vida.

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Você já teve a impressão de estar sendo espionado pelo seu celular? Você falou no telefone ou mandou uma mensagem sobre algum produto, ou mesmo só conversou pessoalmente com alguém e de repente suas redes sociais e seu navegador foram bombardeados com anúncios sobre isso. Geralmente há um responsável por essa situação: os dados. O monte de informações que a gente deposita na internet todos os dias. Eles parecem inofensivos, mas são o principal material da internet do futuro, a tal da rede 5G.

O 5G nada mais é do que a próxima geração de rede de internet móvel. Pra gente entender, vamos voltar um pouco no tempo. O 2G permitiu o envio de SMS e de e-mails sem precisar de um computador. Com o 3G, foi possível pela primeira vez enviar fotos e vídeos para outros aparelhos. Já o 4G aumentou bastante a velocidade, permitindo baixar conteúdo, fazer transmissões online, além de atividades como ouvir música, assistir séries.

A promessa revolucionária do 5G é a velocidade. A tecnologia pode ser até 20 vezes mais rápida do que as redes atuais, além de ter uma cobertura mais ampla e conexões mais estáveis. Tudo o que todo mundo quer. Mas como isso funciona? Imagina uma grande avenida, com várias pistas, mas algumas estão bloqueadas. As pistas já ocupadas seriam as redes que já existem, e as pistas bloqueadas seriam o 5G. A comparação não é tão fora assim porque essas pistas representam as ondas eletromagnéticas, ou ondas de rádio, que é por onde o sinal de internet passa da antena da operadora até o seu celular.

As vantagens da tecnologia 5G em comparação à 4G são duas: maior velocidade e capacidade para conectar mais dispositivos. De uma forma simples, funciona assim, as ondas do 5G são mais largas do que as do 4G, mas são mais curtas. Então ela suporta mais dispositivos conectados ao mesmo tempo, mas não alcançam grandes distâncias.

E por que o 5G vai ser essencial daqui uns tempos e também vai mudar a sua vida? Dá pra gente entender isso olhando para o momento de crise como o atual, e considerando que daqui para a frente a vida vai ser cada vez mais digital. Hoje as reuniões são online, as compras são feitas pela internet, pedidos, serviços, exercícios físicos e até encontros entre amigos.

Usando 5G é possível transmitir volumes massivos de dados pelo celular. As empresas de todos os setores terão mais conhecimento dos hábitos dos clientes, poderão atender o consumidor de maneira mais rápida e personalizada. Ou seja, você vai ser ainda mais bombardeado por anúncios sobre exatamente o que você quer comprar.

O ensino à distância também vai se enriquecer muito e a telemedicina será mais acessível. E isso é só parte da mudança, a parte que nós podemos ver. Da mesma maneira que surgiram Uber, Waze, WhatsApp e Spotify quando o 3G e o 4G foram desenvolvidos, novos aplicativos vão surgir para aproveitar totalmente essa tecnologia.

O 5G ainda é um ponto chave em uma guerra tecnológica entre os Estados Unidos e a China. Uma empresa chinesa de tecnologia, a Huawei, tem investido muito no desenvolvimento de um chip com a tecnologia 5G e por isso ela saiu na frente das empresas de outros países. Nesse contexto, os Estados Unidos acusaram a Huawei de fazer espionagem industrial e de roubar tecnologias de outras nações. Já os chineses negam tudo.

Como uma forma de retardar o avanço da chinesa no desenvolvimento do 5G, os americanos proibiram que empresas dos Estados Unidos fizessem qualquer comércio com a rival. Mas qual o problema disso? É simples, a Huawei introduziu a tecnologia 5G nos chips, mas a base de construção de um chip se mantém a mesma, e precisa de peças produzidas por empresas americanas. Essa guerra tecnológica entre os dois países também é uma pequena parte da chamada guerra comercial.

E como o 5G está no Brasil? Por aqui, a maior questão é a regularização. A tecnologia nós vamos comprar dessas empresas que estão desenvolvendo lá fora, mas e as regras de uso? O primeiro passo é fazer um leilão das frequências pelas quais são distribuídas a internet. Lembra do exemplo das pistas bloqueadas? Então, esse leilão é para vender, para quem oferecer mais dinheiro, essas pistas bloqueadas. Essa operação pode render de 20 a 25 bilhões de reais ao governo federal. O setor espera que aconteça até o final deste ano, mas a falta de acordo sobre as condições do leilão pode atrasar a transação.

Mas no fim, o que todo mundo quer saber é: vou ter que trocar meu celular para ter o 5G? Provavelmente sim. As empresas precisarão fazer novos aparelhos que suportem essa tecnologia. A rede 5G é uma das grandes evoluções tecnológicas do século 21. Ela vai possibilitar a geração de novos modelos de negócio e vai mudar totalmente a relação com a vida em sociedade.

Mas a parte disso tudo, não podemos esquecer que a internet está longe de chegar a todas as pessoas. Aqui no Brasil, uma em cada quatro pessoas não tem acesso à internet, o que ficou mais difícil durante a pandemia. Crianças de áreas remotas têm dificuldades para acessar aulas e conteúdos de ensino, assim como funcionários não conseguem um acesso à rede suficiente pra trabalhar. O que mostra que além das grandes invenções de novas tecnologias, o acesso e a distribuição igualitária da internet na sociedade também é um grande desafio a ser solucionado pelas empresas.

https://exame.com/videos/examinando/examinando-entenda-como-a-tecnologia-5g-pode-mudar-a-vida-na-sociedade/

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Home office derruba limites de empresas em busca de novos talentos

Profissionais também se beneficiam do aumento do trabalho remoto, pois podem se candidatar a vagas que antes eram inimagináveis

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo 27 de outubro de 2020 

RIO – Ainda é cedo para apontar se o trabalho remoto se tornará regra no País pós-pandemia, mas executivos e especialistas em recursos humanos já têm uma certeza: o fim das fronteiras físicas do trabalho está ajudando a tornar as vagas mais inclusivas e abrindo portas para a descoberta de novos talentos. E estar aberto ao home office será uma vantagem tanto para empresas quanto para quem está em busca de um novo emprego.

O modelo de trabalho remoto vinha crescendo no Brasil, em especial em grandes centros urbanos. Ele era relativamente comum em empresas de tecnologia, mas mesmo em outras áreas já tinha muitos adeptos. Em março, quando a pandemia de covid-19 ganhou força no País, o trabalho à distância se disseminou por obrigação e acabou servindo como um grande laboratório.

“A pandemia ajudou a fortalecer e a quebrar certos paradigmas sobre a funcionalidade do trabalho remoto”, avalia Alexandre Benedetti, diretor do Talenses Group, empresa especializada em recrutamento e seleção. “Uma das questões é permitir que a visão de quem contrata seja um pouco amplificada. Você pode contratar profissionais de todo o mundo. Há casos como o Google, por exemplo, contratando gente na Índia.”

Alexandre BenedettiPandemia ajudou a quebrar paradigmas sobre o trabalho remoto, afirma Alexandre Benedetti, diretor da Talenses Group. Foto: Felipe Rau/Estadão

O maior acesso a profissionais tem potencial para acirrar a concorrência entre candidatos – afinal, se antes a disputa por uma vaga era basicamente entre profissionais de uma mesma cidade ou região, agora não há limites. Mas, naquela velha história do copo meio cheio ou meio vazio, quem contrata prefere ver por outro prisma: os candidatos agora podem concorrer a postos de trabalho a partir de qualquer ponto do País (ou do mundo) sem a necessidade de ter que se mudar.

“Isso me facilitou muito. Eu tinha uma base de candidatos que me limitava, porque íamos buscá-los dentro de uma zona que atendesse aos nossos escritórios ou aos dos nossos clientes. Com esse modelo eu posso contratar em qualquer lugar”, afirma Carla Catelan, diretora de Recrutamento e Seleção da Cognizant no Brasil.

Responsável também pelas áreas de voluntariado, diversidade e inclusão da empresa, Carla destaca ainda outro ponto. “Expandir esse modelo de trabalho remoto é fundamental porque a gente consegue atrair mais diversidade cultural, trazendo candidatos de outras localidades, mas também atrair candidatos com deficiência que muitas vezes não tiveram a oportunidade de estar aqui em São Paulo”, pondera.

Adequação à tecnologia e empatia em alta

O conhecimento técnico continua sendo fator importante para quem busca uma vaga no mercado de trabalho, mas há outros aspectos que cada vez mais são buscados por quem contrata: a capacidade de se adequar às novas tecnologias e a empatia.

“O mundo é muito mais volátil hoje, com ciclos econômicos mais curtos, e a necessidade de adaptação do profissional é muito mais forte em todos os sentidos. É uma adaptação técnica, mas também comportamental”, diz Benedetti. “Tem outra questão que é a empatia. Como você trabalha empatia num mundo mais volátil, com maior necessidade de adaptação, para liderar e engajar pessoas? O desafio para mim cada vez mais vai estar no desenvolvimento das competências comportamentais.”

Diretora de Recursos Humanos do Grupo Carrefour Brasil, Cristiane Lacerda concorda. “O mercado tem mudado muito e não só por causa do trabalho remoto. O que se busca é um maior desenvolvimento das pessoas, em especial nos temas ligados à tecnologia”, considera.

Desde o ano passado, o Carrefour vinha fazendo testes para migrar boa parte de seu quadro administrativo para o home office. A pandemia acelerou o processo e fará com que o grupo amplie o modelo.

Cristiane também vê o trabalho à distância como uma oportunidade de ampliação na busca por talentos. “Isso ajuda muito porque algumas áreas demandam profissionais mais especializados, e podemos buscá-los inclusive fora do Brasil, como Canadá e Estados Unidos.”

Para Leonardo Freitas, CEO da Hayman-Woodward, uma consultoria especializada em mobilidade global e imigração de profissionais, quem busca uma nova oportunidade de trabalho precisa estar aberto a mudanças – e entender que elas podem ocorrer de forma mais rápida do que se pensava.

“O desenvolvimento tecnológico de uma sociedade depende também do desenvolvimento do ser humano, e a gente está vivendo um momento de quebra de paradigma. Se você olhar para trás, e não precisa ir muito longe, a história do carro que dirige sozinho era inconcebível. Para mim era um episódio dos Jetsons. Hoje o meu carro se dirige sozinho.”

Freitas, no entanto, lembra que o “novo” profissional ainda terá que vivenciar práticas mais tradicionais. “A grande questão talvez seja como adaptar os treinamentos. Se você é um torneiro mecânico, por exemplo, você depende de um preparo presencial. Um cirurgião não aprende a fazer um procedimento simplesmente vendo um vídeo, ele precisa sentir a textura da pele ao fazer o corte”, ressalta.

A boa notícia é que o acesso ao conhecimento está mais fácil também graças ao modelo remoto. Atualmente é possível acompanhar aulas a partir de qualquer ponto do mundo, e isso faz com que a busca por uma nova carreira seja menos tortuosa. “Hoje é mais fácil para o profissional se especializar ou aprender. As próprias empresas oferecem essas oportunidades. A barreira de entrada para uma nova carreira caiu muito”, considera Fábio Costa, general manager da Salesforce no Brasil.

A empresa divulgou uma pesquisa no início do mês que revelou que 52% dos brasileiros trocariam de emprego se pudessem trabalhar remotamente. “Mas é importante entender o que é esse trabalhar remotamente. Acredito que não é apenas trabalhar de casa, e sim ter essa possibilidade. No futuro a gente vai ter que ter um equilíbrio”, considera Costa.

Mais produtividade

Executivos e especialistas em RH ouvidos pelo Estadão foram unânimes em  avaliar que o trabalho home office tende a aumentar a produtividade dos funcionários – desde que haja equilíbrio no modelo.

“O home office aumenta o rendimento do profissional. Não tem a supervisão física, mas tem a supervisão do resultado que ele oferece”, diz Freitas. “Está sendo um grande despertar de que a gente consegue ser mais pró-ativo, atender às necessidades de nossos empregados ou empregadores e também ter um melhor balanço da vida profissional e pessoal.”

O executivo pontua, no entanto, que o trabalho à distância não deve ser exclusivo. “O ser humano tem uma necessidade muito grande de viver em comunidade. Isolar o ser humano muito tempo traz graves problemas. O ideal seria unir as duas  coisas, um pouco de trabalho remoto e um pouco de trabalho in loco. A socialização é necessária”, diz Freitas.

Home officeHome office aumenta o desempenho, mas a convivência pessoal não deve ser anulada por completo, apontam especialistas. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Benedetti vai na mesma linha. “O trabalho de todo mundo não é igual, não é sempre técnico. Você tem trabalhos de gestão, de influência para quem tem grandes times. A questão de trabalhar competências comportamentais, a influência, por mais que o trabalho remoto permita, nós somos latinos, precisamos de contato”, ressalta.

Benedetti complementa: “O home office é mais produtivo para muitas coisas, mas talvez tenha uma efetividade menor quando a gente fala de engajamento no longo prazo. Em recente entrevista, o CEO da Netflix, uma empresa de vanguarda na questão trabalho remoto, diz que não acredita num trabalho 100% remoto. Existem perdas nos extremos”.

https://economia.estadao.com.br/noticias/sua-carreira,home-office-derruba-limites-de-empresas-em-busca-de-novos-talentos,70003490117

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Mercado de startups do Brasil caminha para ter melhor ano da história em 2020

De janeiro a setembro, setor já bateu recorde em aquisição de empresas e passou 80% do volume de aportes registrado em todo o ano passado; a aceleração da digitalização, a onda de liquidez e a aproximação com grandes empresas mudaram o panorama

 Por Bruno Capelas e Giovanna Wolf – O Estado de S. Paulo 26/10/2020 

O ano de 2020 certamente se tornará inesquecível para muita gente – mas, para as startups brasileiras, as lembranças serão positivas. Mesmo com a pandemia e a crise econômica, o ecossistema brasileiro de inovação caminha para ter seu melhor ano da história nesta temporada. Os sinais até aqui são bons: segundo dados da empresa Distrito, que mapeia o setor, aconteceram 100 aquisições de startups entre janeiro e setembro, superando os anos de 2018 e 2019. 

O número de aportes realizados em novatas também já tem recorde histórico de 322 cheques, superando o melhor ano do setor com folga – em 2017, foram 263 investimentos. E o volume total e aportes está em US$ 2,2 bilhões, completando 82% do que foi injetado no mercado em todo o ano de 2019.

Nem as expectativas mais otimistas, no início do ano, davam conta de que 2020 seria um ano tão bom para as startups

Nem as expectativas mais otimistas, no início do ano, davam conta de que 2020 seria um ano tão bom para as startups

“Esperamos que o último trimestre faça superar o ano de 2019, mas mesmo com crise a gente enxerga um mercado forte e muito aquecido”, diz Gustavo Araújo, presidente executivo da Distrito. “Só não estamos maiores em volume porque os investidores ficaram cautelosos no início da pandemia, mas a recuperação é em V, setembro foi um mês muito forte.” Só no mês passado, as startups brasileiras receberam US$ 843 milhões em investimentos. 

“É muito positivo o balanço de 2020 até aqui. É quase como se o ecossistema estivesse à margem da crise que se vive no Brasil”, diz Gilberto Sarfati, professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP). “A digitalização já ganharia destaque de qualquer jeito à médio prazo, mas a crise acelerou o processo.” 

Expectativa para 2020 não era tão boa mesmo antes da pandemia começar

O bom desempenho surpreende, inclusive, as expectativas do setor antes da pandemia. No início do ano, o mercado de startups estava cauteloso – supercheques feitos pelo grupo japonês SoftBank em empresas como WeWork e Uber levantaram o risco de uma possível bolha no setor. 

Aqui no Brasil, os japoneses foram o fator principal para o sucesso de 2019, despejando dinheiro no mercado ao investir em empresas como QuintoAndar, Gympass e Loggi – ao todo, eles participaram de rodadas que, somadas, movimentaram US$ 1,3 bilhão. “O SoftBank distorceu um pouco o mercado. Eu achava que 2020 ia ser um ótimo ano, mas difícil de bater por causa disso”, avalia Renato Valente, sócio do fundo Iporanga Ventures e veterano do setor. 

Em março, quando o coronavírus começou a atacar o Brasil, os investimentos foram reduzidos  bruscamente – houve queda de 85% no total de investimentos naquele mês, contra março de 2019, segundo a Distrito. Muitos fundos preferiram focar em ajudar as startups de seu portfólio a sobreviver à crise do que fazer novas apostas. O mercado passou a acelerar de novo em junho, e teve em setembro seu melhor mês, com US$ 843 milhões investidos. “Quando veio a pandemia, todo mundo brecou, mas agora o mercado está acelerado e acho difícil que não supere 2019”, complementa Valente. 

Aceleração da digitalização e liquidez no mercado de capitais mudaram humor

Três fatores, na visão dos especialistas, ajudaram a mudar a cara de 2020. O primeiro é a onda de liquidez pela qual passa hoje o mercado de capitais – o cenário de mínima histórica na taxa Selic proporciona um bom ambiente de negócios. O otimismo é o que levou startups como Méliuz e Enjoei.com a começarem um processo de abertura de capital na bolsa brasileira – um caminho pouco usual para as companhias daqui. 

O segundo é a aceleração da digitalização. Setores como o comércio eletrônico, que já vinham num movimento de crescimento, explodiram por conta do período de isolamento social: segundo relatório do fundo de investimentos Atlantico, a penetração do e-commerce no varejo saltou 5 pontos porcentuais entre março e maio de 2020 – o mesmo crescimento, em termos absolutos, registrado entre 2009 e 2019. 

O segmento de e-commerce, inclusive, gerou um unicórnio – apelido dado a startups avaliadas em pelo menos US$ 1 bilhão – durante a quarentena. É a Vtex, dona de um software que ajuda mais de 3 mil marcas a abrirem e manterem suas lojas online (e físicas): em setembro, a empresa levantou um aporte de US$ 225 milhões e foi avaliada em US$ 1,7 bilhão. “No nosso segmento, a pandemia encurtou em pelo menos um ano o movimento do mercado. A gente sabia que poderia virar unicórnio, mas se não fosse o coronavírus, talvez isso acontecesse só em 2021 ou 2022”, diz Rafael Forte, presidente executivo da Vtex no Brasil.

Além disso, o setor também impulsionou empresas que lhe prestam serviços – caso da Kestraa, que organiza o comércio exterior, e da Acesso Digital, que faz assinaturas digitais e valida pagamentos pela internet com ajuda de biometria facial. As duas levantaram aportes – de R$ 15 milhões e R$ 580 milhões, respectivamente – nos últimos três meses. 

Alô. Vtex, liderada por Forte no Brasil, foi procurada por clientes com pedidos de ajuda

Alô. Vtex, liderada por Forte no Brasil, foi procurada por clientes com pedidos de ajuda

O período de isolamento social, seja pelo fechamento de lojas ou pela necessidade de trabalho remoto, também levou muitas empresas tradicionais a perceberem que precisavam se digitalizar. Esse movimento é o que explica porque diversas companhias saíram fazendo aquisições – é o caso da aquisição da Triider, um Uber das reformas, por uma joint venture entre Gerdau, Tigre e Votorantim. Outras aproveitaram o momento para pisar no acelerador e intensificar sua transformação – caso, por exemplo, de XP e Magazine Luiza, que encheram o carrinho de compras este ano 

Crise não deve afetar setor, dizem especialistas

Enquanto na economia real as dúvidas sobre o futuro – vacina, eleições aqui e nos EUA e o impacto da crise – deixam tudo complicado de prever, a opinião geral dos especialistas é de que 2021 deve ser um bom ano para as startups. A sensação é de que o cenário cinza da economia não deve afetar tanto as companhias de tecnologia, até porque o ecossistema brasileiro viu seu desenvolvimento acontecer ao longo dos últimos anos justamente num panorama de recessão. 

“A economia real vai sofrer, então todo mundo vai correr atrás de melhores margens de lucro reduzindo custo. É uma oportunidade para empresas que fazem mais com menos e a tecnologia é uma arma para isso”, diz Renato Valente, da Iporanga Ventures.

Na visão de Gilberto Sarfati, professor da FGV, o ecossistema hoje tem um crescimento sustentável. “É um processo que está sendo vivido há duas décadas e, de forma mais intensa, nos últimos cinco anos”. Gustavo Araujo, presidente executivo da empresa de inovação Distrito, também vê o momento de forma otimista. “Em 2021, a movimentação entre grandes empresas e startups crescerá ainda mais. Isso é importante porque injeta mais capital no mercado e gera a criação de novas empresas. Será um ano muito forte para o setor.” 

Proposta do Marco Legal das Startups foi enviada ao Congresso Nacional na última semana

Proposta do Marco Legal das Startups foi enviada ao Congresso Nacional na última semana

O que pode mudar a vida das startups no futuro próximo, dizem os analistas, são questões regulatórias. De um lado, há oportunidades com a criação do Marco Legal das Startups, projeto de lei enviado na semana passada pelo Palácio do Planalto ao Congresso.

O texto promete desburocratizar condições para a criação de empresas inovadoras, bem como sua contratação por agentes públicos. A negociação corrente, no momento, é de que ele seja votado na Câmara até o final do ano. Para entidades do setor, a proposta é bem vinda, mas precisa ser refinada para incluir temas trabalhistas e de tributação, que ficaram de fora inicialmente. 

Repensar as regras do jogo é importante, segundo os especialistas: um dos fatores que ajudaram as startups nos últimos tempos foram, por exemplo, mudanças e inovações no setor financeiro, puxadas por postura pró concorrência do Banco Central. Há ainda muito potencial a partir de inovações como open banking – que facilitará a troca de dados entre instituições (leia mais sobre o tema com a Quanto, startup envolvida no setor) – e o sistema de pagamentos Pix. 

Para Araújo, da Distrito, a falta de mudanças pode travar o mercado. “A telemedicina, que permite consultas médicas online, foi aprovada agora em caráter emergencial, mas pode ser revogada após a pandemia. A regulação é necessária, mas também é um empecilho para o desenvolvimento”, diz.

https://link.estadao.com.br/noticias/inovacao,mercado-de-startups-do-brasil-caminha-para-ter-melhor-ano-da-historia-em-2020,70003488883

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Empresas aéreas preparam o relançamento dos supersônicos

Quase duas décadas depois do fim do Concorde, empresas projetam aviões ainda mais rápidos, de olho nos muito ricos e nos altos executivos que têm pressa

Por Caio Saad – Veja – Publicado em 4 set 2020

VELOCIDADE MÁXIMA – Projeto do avião da Boeing: Londres a Nova York em uma hora – ./Divulgação 

Nos anos 1980 e 1990, quando viajar de avião era um luxo, nada se comparava ao glamour de uma passagem no Concorde, a aeronave supersônica de desenho avançado, capaz de percorrer a rota Londres-Nova York em três horas e meia (menos da metade das oito regulamentares). Com o tempo, o fascínio e as pessoas dispostas a bancar o bilhete aéreo caríssimo foram diminuindo, os problemas se acumularam e, em 2003, o Concorde foi aposentado e virou peça de museu. Os supersônicos, no entanto, continuam vivos em pelo menos seis projetos que pretendem fazer renascer, nos próximos anos, as viagens intercontinentais ultrarrápidas. O anúncio mais recente veio da Virgin Galactic, braço da empresa de aviação britânica que também desenvolve um foguete para passeios espaciais. No início de agosto, ela firmou parceria com a Rolls-­Royce, fabricante dos motores do Concorde, para a criação de um modelo comercial capaz de voar a três vezes a velocidade do som — o Mach 3, equivalente a alucinantes 3 700 quilômetros por hora, que reduziria o itinerário Londres-Nova York a uma hora e meia. “Vamos abrir uma nova fronteira nos trajetos em alta velocidade”, prometeu o chefe de operações da empresa, George Whitesides.

A Boeing, por sua vez, vem trabalhando há dois anos em um projeto ainda mais ousado: operar a Mach 5 — ou a 6 100 quilômetros por hora —, baixando o tempo do voo transatlântico para uma horinha. “Esse avião permitirá que uma pessoa cruze o oceano, ida e volta, em um dia”, diz Kevin Bowcutt, chefe do setor de hipersônicos da Boeing, que prevê o voo inaugural para aproximadamente 2030. Também a Lockheed Martin está desenvolvendo um projeto supersônico, em parceria com a Nasa. O ponto central das pesquisas é como atenuar o tremendo “buuum” que ressoa ao se cruzar a barreira do som. “Definitivamente, o barulho é o mais importante”, afirma Paulo Greco Jr, professor de engenharia aeronáutica na Escola de Engenharia da USP em São Carlos. Por causa dele, o Concorde foi proibido de alcançar velocidade máxima sobre continentes — só podia fazê-lo sobre o mar. Uma das soluções em estudo é mudar a posição dos motores — em vez de estarem embaixo das asas, eles ficariam em cima delas, e sua estrutura funcionaria como um escudo para impedir a propagação do som.

Os novos supersônicos são, em geral, para poucas pessoas. Enquanto o Concorde acomodava de noventa a 120 passageiros, o projeto da Boeing permite no máximo 100 e o da Virgin, dezenove. O Overture, projetado pela Boom, startup em parte financiada pela Virgin, comportará 55 passageiros, atingirá velocidade parecida com o Mach 2 do Concorde e deve entrar em teste em 2025. Os dois mais lentos (Mach 1.4), se é que se pode usar o termo, são o Aerion AS2, com capacidade prevista de doze assentos e estreia estimada em 2027, e o Spike S-512, para dezoito pessoas, esperado em 2025. “Com a eliminação da primeira classe em muitas companhias aéreas, os novos supersônicos têm chance de atrair a clientela muito rica. Mas o grande mercado deve ser o de altos executivos que não podem perder tempo”, diz Guilherme Machado, da consultoria em aviação executiva Asa Consulting. 

APOSENTADO - Concorde: design avançado e rejeição ao estrondo sônico – Daniel Janin/AFP 

O Concorde fez o primeiro voo comercial em 1976, de Paris ao Rio de Janeiro, com escala em Dacar. Tempo de percurso: seis horas, metade do usual. Valor da passagem: cerca de 90 000 reais (ainda não há previsão de preço para os novos supersônicos). Seu interior lembrava muito a classe econômica de hoje. A diferença estava nos serviços, com refeições à base de caviar e champanhe. “Pilotei um voo da British Airways para o Rio de Janeiro em 5 de abril de 1985. A recepção foi fenomenal, animada, viva, simpática. Na partida, sobrevoei a Praia de Copacabana e o Cristo Redentor. Lembro como se fosse hoje”, disse a VEJA o piloto inglês Mike Bannister, que também comandou a última viagem do Concorde, Nova York-­Londres, em outubro de 2003. A martelada supersônica da pandemia sobre a aviação pode atrapalhar os prazos da nova aeronave ultrarrápida, mas, nos EUA, já está em movimento projeto de lei para autorizar os voos acima de Mach 1. Depois disso, o céu não terá limite.

Publicado em VEJA de 9 de setembro de 2020, edição nº 2703 

https://veja.abril.com.br/tecnologia/empresas-aereas-preparam-o-relancamento-dos-supersonicos/

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Não decretem a morte dos escritórios

Com precoce home office estendido por períodos indeterminados, empresas privam profissionais de troca de ideias em encontros marcados ou aleatórios, essenciais para inovação e senso de equipe

  •  Marisa Eboli Estadão 23 de outubro de 2020 

Dias atrás o LinkedIn lembrou-me do meu aniversário de empresa… 30 anos de Fundação Instituto de Administração (FIA). E seriam 35 anos de convívio na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA), se eu não tivesse me aposentado. Num momento flashback recordei-me de algo que se repetia nos meus primeiros anos de docência na FEA. Antes de entrar em sala de aula, passava na sala dos professores para assinar a lista de presença. Era um ambiente relativamente pequeno e modesto, com café e chá para nos servirmos. Havia uma grande mesa e à sua volta sentavam-se professores dos três departamentos.

Era comum encontrar com os professores de Economia: Delfim Netto (em raros e especiais momentos), os “Pastore” (Affonso Celso e José), Paul Singer, João Sayad, Juarez Rizzieri, Lenina Pomeranz e Roberto Macedo. No departamento de Contabilidade costumava ver Reinaldo Guerreiro, Eliseu Martins e Nelson Carvalho. E havia as estrelas do próprio departamento de Administração: Guilherme Ary Plonski, Joel Dutra, Rosa Maria Fischer, James Wright e Isak Kruglianskas, entre outros.

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Guia Especial: Cuidado com a comunicação é chave para trabalho em equipe:

Nos 15 minutinhos que antecediam a aula, desfrutava das conversas e das análises sobre os últimos acontecimentos: superávit fiscal, dívida pública, PIB, pressão inflacionária, impacto da taxa de juros, mudanças de normas e resoluções do Bacen, carreiras, ONGs ou meio ambiente. O assunto dependia dos encontros e da direção em que derivava a prosa do dia.

Certamente, tais conversas não me faziam sair de lá expert em economia, contabilidade, ciências atuariais ou terceiro setor. Mas só de escutar tais bate-papos, borbulhavam insights e conexões com a matéria que ministraria pouco depois aos meus alunos. Sentia-me mais inteligente, criativa e empoderada, para aplicar um termo da moda. Aos alunos inspiravam ilações entre a conjuntura política, econômica e social e a gestão de pessoas.

Depois de alguns anos, houve uma grande reforma no prédio da FEA, os departamentos ficaram fisicamente bem separados e não mais havia a “sala dos professores” comum aos três departamentos. Pior que isso, o local onde passamos a assinar a lista de presença era um cubículo, com uma pequena mesa só para as assinaturas e sem cadeiras. O café e chá permaneciam, mas impossível brindar com alguém. Era assinar a presença e tchau!

Você deve estar se perguntando: por que está contando essa história? Uma homenagem ao dia dos professores? Sim… e não.

Na verdade, esses tempos de pandemia e distanciamento social trouxeram à tona questões relevantes para a nossa convivência: acabaram-se os encontros fortuitos, os desencontros e reencontros do destino, os bate-papos casuais, as trombadas ao acaso. Tudo é programado e muito previsível. Se tem reunião ou aula, é hora de entrar no Zoom. Por melhor que seja a ferramenta, só trocamos mensagem pertinentes ao tema da reunião ou da aula. E a conversa fiada? E o bate-papo descontraído? E as “abobrinhas” por vezes tão criativas? A covid-19 levou…

Área de descompressão do escritório do LinkedIn em São Paulo: interação entre colegas. Foto: Vivian Koblinsk

Tenho consciência de que o home office ou trabalho remoto, como queiram, funcionou bem e se mostrou produtivo. Mas não seria prematuro as empresas já decidirem por ele 100% do tempo, como tenho lido em várias matérias? O trabalho remoto deve sim ficar, é o que mostram as principais pesquisas sobre o assunto, tanto que muitas empresas anunciaram home office até o fim de 2020. Mas que ele seja parcial e não na integralidade, para todos os dias da semana.

Contudo, algumas organizações, mais imediatistas e apressadinhas, já decretaram que oferecerão a opção de home office indefinidamente aos seus funcionários. Muitas já estão entregando os espaços físicos e redimensionando suas locações para um número reduzido de pessoas. Seria a falência da “cultura de escritórios”. E, num cálculo afobado e oportunista, vislumbram muita economia. Será que vale a pena a médio e longo prazos?

Trabalhar remotamente pelo resto da carreira, só se for em parte do tempo. Caso contrário o próprio crescimento na sua carreira ficará muito limitado e empobrecido pois ficarão comprometidas as interações entre áreas, as articulações sociais e políticas, a visão holística e sistêmica, tão cruciais para vencer novos desafios.

Justamente, numa época em que tanto se fala da importância da comunicação, da criatividade e da inovação, acabar com o encontro presencial irá esgarçar as relações interpessoais e emocionais e, consequentemente, a capacidade de inovação das empresas.

Na quarentena tenho visto muitas lives dos músicos que admiro. Rolling Stones cantando e tocando cada um na sua casa; estes sempre se reinventam e surpreendem. Mas nada se compara a um show ao vivo deste quarteto. Pura emoção! Recentemente, após a morte do musicólogo e jornalista Zuza Homem de Mello, foi reproduzido um programa com sua participação, gravado em julho, onde expressava sua opinião sobre músicos de orquestra tocando separadamente na quarentena. Foi taxativo: “Música requer o encontro presencial caso contrário não há troca de emoção entre os músicos.” Música é emoção! Arte e emoção são inseparáveis.

Nesses meses de pandemia, eu assisti a muitos filmes por streaming; mas nada se compara a ver um belo filme em uma ótima sala de cinema.

Amigos jornalistas mais experientes dizem que as redações de empresas jornalísticas sempre foram lugares de troca; até mesmo os que trabalhavam como “frilas” visitavam as redações para entregar o trabalho, tomavam cafezinho, papeavam, ouviam os editores, propunham novos trabalhos. Notam que isso falta às novas gerações de jornalistas, já acostumadas a trabalhar a distância, embora nem mesmo tenham consciência do que perderam.

Por conta de um curso novo que o professor Sérgio Rizzo e eu lançamos na FIA, o Cine & Gestão, reli nos últimos meses dois livros de Walter Isaacson: Os Inovadores, que é praticamente uma biografia da revolução digital, e Steve Jobs, a biografia do visionário homem da Apple.

O primeiro capítulo do livro Os Inovadores é sobre Ada Byron, que se tornou a condessa de Lovelace. Foi uma matemática e escritora inglesa, reconhecida principalmente por ter escrito o primeiro algoritmo para ser processado por uma máquina, a máquina analítica de Charles Babbage, a primeira de cálculo. Em um ensaio de 1841, ela perguntava “O que é imaginação?” E concluiu: “É a faculdade de fazer combinações. Ela reúne coisas, fatos, ideias em combinações novas, originais, infinitas e sempre em mutação (…). É ela que penetra nos mundos invisíveis da ciência à nossa volta.” E pregava a “ciência poética”, na qual a criatividade e a tecnologia entrelaçam-se.

Da biografia de Jobs, oportuno relembrar o seu comentário, quando a Apple decidiu construir sua nova sede: queria apenas um conjunto de poucos banheiros, situado no centro do complexo, para que ocorressem encontros aleatórios de pessoas de diferentes departamentos.

Tal fato lembrou-me de uma história que ouvi quando fazia o doutorado na FEA, há muitos anos. Refere-se à sede da BMW na Alemanha. É um enorme prédio redondo, com uma cafeteria no centro. Esta localização visa a propiciar a reunião casual de pessoas das mais diversas áreas da empresa. Mais uma vez, a importância da aleatoriedade para intensificar a comunicação entre áreas diferentes e promover a troca de conhecimentos e ideias, bem como a criatividade coletiva.

Numa conversa com o amigo e o renomado arquiteto Olegário De Sá, ele destacou o papel e a responsabilidade social da arquitetura: “As pessoas passam de 8 a 10 horas nos escritórios, então, precisam ter uma área de trabalho confortável, na qual todos tenham sua estação e, também, locais de trabalho coletivo”. Reforça, igualmente, a necessidade de espaços de convivência, de espaços de descompressão, onde as pessoas se encontrem, interajam e agucem sua criatividade. Olegário também acredita fortemente que o home office não deve se perpetuar.

E acrescenta: “muitos clientes meus que estão fazendo suas casas nos condomínios próximos de São Paulo ou levaram para lá seu home office, já estão querendo voltar. Estão percebendo que faz falta essa convivência, essa interação social, essa troca de informação que deixa o trabalho mais criativo, aprimorado e significativo; somos seres coletivos!”

Há que se preservar a emoção, a criatividade, o imponderável e o coletivo para se garantir a tão almejada e requerida capacidade inovadora. São mais que bem-vindos os espaços físicos que propiciam encontros, além dos marcados, rotineiros e pontuais!

* Marisa Eboli é doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e especialista em educação corporativa. É Professora de graduação e do mestrado profissional da Faculdade FIA de Administração de Negócios (meboli@usp.br)

https://economia.estadao.com.br/blogs/radar-do-emprego/nao-decretem-a-morte-dos-escritorios/

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Estratégias para a recuperação econômica têm foco em novas abordagens que priorizam o ambiente digital

Por Ana Lúcia Moura Fé — Para o Valor 23/10/2020 

Oito meses após decretada a pandemia de covid-19, iniciativas de transformação digital gestadas na crise integram de forma permanente o roteiro para retomada do crescimento das empresas. Tecnologias que, em geral, ocupavam lugar periférico na estratégia dos negócios, como nuvem, inteligência artificial (IA) e internet das coisas (IoT), agora se destacam em agendas que assumem abertamente, como diretriz para o futuro, o chamado “digital first” (digital primeiro, na tradução literal), forma como o mercado batizou abordagens que dão prioridade a oportunidades no ambiente digital.

Pesquisa da IDC confirma que a modernização a toque de caixa deixou as empresas mais dispostas a assumir riscos no tocante a inovação e a modelos de negócio que rompem com o tradicional. Na América Latina, quase quatro em cada dez organizações estão dispostas a correr riscos para se tornarem líderes e pioneiras em novas tecnologias, diz estudo com empresas com mais de 500 funcionários.

As que apostam na busca agressiva por tecnologias emergentes com objetivo de criar vantagem competitiva, ainda que alguns produtos possam falhar, representam 30% das respondentes, taxa que chega a 32% no Brasil, segundo Luciano Ramos, gerente de pesquisa e consultoria da IDC Brasil. Na região, não passa de 1% e 2%, taxas que se mantêm voláteis -, a digitalização acelerada das empresas em resposta à crise impulsionou diversos segmentos, com destaque para nuvem. Esse modelo de computação assegurou a continuidade de negócios mas, sobretudo, trouxe para as empresas a flexibilidade e os recursos computacionais que farão toda diferença daqui para frente. “Ao migrar para nuvem, elas viabilizaram de maneira fácil e rápida não apenas o acesso remoto (de funcionários e clientes), mas também a integração com o ecossistema de que fazem parte.”

Estudo da Associação Brasileira das Empresas de Software (Abes) e da IDC aponta que a nuvem pública no Brasil deve alcançar US$ 3,5 bilhões em 2020, crescimento acima de 36% sobre 2019. IoT deverá crescer 20%, chegando a US$ 9,9 bilhões, e analytics e IA avançarão quase 12%, atingindo US$ 548 milhões. O presidente da Abes, Rodolfo Fücher, não esconde o otimismo. “O estudo projeta que o setor de TI deve crescer 10% em 2021 e acredito que, em 2020, ultrapassaremos a previsão mais otimista da IDC (expansão de 4%), ao menos no segmento de software.”

Fücher diz que a pandemia testou o nível de transformação digital das empresas. Segundo ele, estão se saindo bem as que prestaram atenção nas discussões do Fórum Econômico Mundial e revisaram modelos e processos usando tecnologia de forma intensiva e inovadora. Cita como exemplos Magazine Luiza, B2W (controlada pela Lojas Americanas), iFood e outras. Ele lembra que em 2016 o fórum mundial abordava a chamada quarta revolução industrial, caracterizada pela diluição de fronteiras entre físico e virtual e rupturas em modelos tradicionais que resultam em falências de negócios resistentes a mudanças.

Na IBM Brasil, Joaquim Campos, vice-presidente de nuvem e inteligência cognitiva, confirma que, mais do que economia de gastos, o que ocorre nas empresas hoje é um rearranjo nas prioridades dos investimentos. Para aproveitar a tendência e ganhar ainda mais musculatura em searas como a de inteligência artificial – onde atua com amplo portfólio baseado na plataforma cognitiva Watson -, a IBM fechou, em julho, a compra da brasileira WDG Automation, especializada em automação robótica de processos (RPA, na sigla em inglês), tecnologia que permite que softwares inteligentes assumam tarefas repetitivas. “Com a solução da WDG integrada ao nosso portfólio, empresas darão um passo para além do uso de IA na interface com cliente, ganhando produtividade ao integrar inteligência artificial à robotização de processos.”

Campos destaca, ainda, o avanço do registro de operações digitais blockchain em cartórios, beneficiando segmentos-chave para a economia. A IBM atua nessa área em parceria com a Growth Tech, que combina a solução Notary Ledgers com a plataforma de blockchain da fornecedora. “Os benefícios para incorporadoras, construtoras, empresas de intermediação são perenes. Elas ganharam agilidade inclusive no recebimento do dinheiro das vendas, melhorando o fluxo de caixa.”

Na Google Cloud Brasil, cresceu a demanda não apenas por nuvem, mas também por comunicação unificada, virtualização, big data, aprendizado de máquina, análise avançada e segurança, segundo o líder da fornecedora no país, Marco Bravo. “Temos visto exemplos magníficos de empresas que criam soluções baseadas em dados porque perceberam que entender as necessidades do consumidor é fundamental, sobretudo em momentos de incerteza.” Ele orienta as empresas a criarem, o mais rapidamente possível, modelos de monetização de seus melhores ativos, buscando integrar-se umas às outras para tirarem proveito do que cada uma oferece de melhor.

Na Federação Brasileira de Bancos (Febraban), a visão é que a pandemia acelerou de forma inédita a inclusão bancária, crucial para redução de desigualdades e crescimento. A entidade destaca que investimentos intensivos do setor em TI – R$ 24,6 bilhões em 2019 – pavimentaram esse avanço, refletido em dados do Banco Central: entre fevereiro e agosto deste ano, CPFs ativos em contas bancárias cresceram três vezes contra mesmo período de 2019, atingindo 175 milhões de CPFs, dez milhões a mais que antes do início da pandemia.

Gustavo Fosse, diretor de tecnologia e automação bancária da federação, destaca o papel do setor na popularização de serviços digitais no país, mencionando a adesão massiva da população aos canais virtuais. Em abril, um mês após o início da quarentena e do isolamento social, internet mobile banking já respondiam por 74% das transações realizadas por pessoas físicas. “Smartphones representaram 67% das transações.”

Na Ericsson, a expectativa é que a quinta geração de redes móveis (5G), na iminência de chegar ao país, possibilitará melhor uso de tecnologias cruciais para a digitalização, como IA e analytics. Marcelo Freire, vice-presidente de serviços digitais na Ericsson para o Cone Sul da América Latina, diz que isso trará oportunidades inéditas para setores como automação industrial, segurança, médico e automotivo e outros, gerando mais receitas e arrecadação. “Estudo nosso revela que, se houver aumento de cobertura de internet móvel em 10%, consegue-se aumento de arrecadação de imposto por volta de R$ 30 bilhões por ano.”

https://valor.globo.com/publicacoes/suplementos/noticia/2020/10/23/roteiro-para-a-retomada.ghtml?GLBID=143ee6360696346c2039f126e5eff63bd554270766f4f4c76474f36624b6952316658627868364d555f3436672d566845516f4e654c336463475a4b42514e49514675384d64433559365f3942486851734b616b585a743362574e632d396f6d477374596f69673d3d3a303a6576616e64726f2e6d696c65745f323031335f36

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Por que o CEO da Netflix quer voltar ao escritório?

Apesar de suas vantagens, o teletrabalho não consegue inspirar a criatividade que surge de grupinhos espontâneos que não estão programados no Zoom

Reed Hastings durante a inauguração dos novos escritórios da Netflix em Paris, em 17 de janeiro.

Reed Hastings durante a inauguração dos novos escritórios da Netflix em Paris, em 17 de janeiro.CHRISTOPHE ARCHAMBAULT / AFP

KARELIA VÁZQUEZ El Pais Madri – 01 OCT 2020 –

Teletrabalho segundo José A. Pérez Ledo (@mimesacojea): “Sensação epidérmica de um empresário quando nota, sem prova alguma, que metade do pessoal está assistindo à Netflix às onze da manhã”. Esta é uma definição de um dicionário satírico da nova normalidade, publicada no portal eldiario.es. Mas a verdade é que nem o cofundador e CEO da Netflix, Reed Hasting, está gostando do teletrabalho. Ele disse isso em uma entrevista ao The Wall Street Journal. Hasting não vê “nada de positivo” no trabalho remoto. “Não poder fazer reuniões pessoalmente, principalmente com os executivos internacionais, é muito negativo”, afirmou. Ao ser perguntado sobre quando seus 8.600 funcionários voltarão ao escritório, o empresário respondeu que doze horas após a aprovação da vacina contra a covid-19. E então relativizou: “provavelmente será seis meses depois, quando conseguirmos vacinar a maioria”.

Para Hastings, que disse estar “impressionado” com os “enormes sacrifícios” das pessoas para trabalhar remotamente, o que mais o incomoda não é que seus funcionários estejam assistindo a uma série de sua própria plataforma durante o expediente, mas que a redução dos contatos sociais e as longas horas de exposição às telas estão matando a cultura corporativa de sua empresa. Um ecossistema de hábitos e rituais que Hastings promoveu em seu livro A Regra é Não Ter Regras: A Netflix e a Cultura da Reinvenção, e que incluem “a transparência radical”, “os circuitos de retroalimentação”, “a inexistência de férias oficiais” e o famoso teste Keeper que incentiva os chefes de nível intermediário a demitir os funcionários que não sejam “estrelas do rock”.

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O método Netflix se baseia na cultura corporativa conhecida como radical candor (franqueza radical), que incentiva os chefes a ter discussões diretas com seus funcionários sobre assuntos complexos, por exemplo, se devem ou não ser demitidos nesse momento, e que promove duros feedbacks, que se tornaram muito temidos no Silicon Valley. Tudo isso perde brilho e eficácia com o trabalho remoto, porque é imprescindível estar próximo para que o radical candor faça sua mágica.

O trabalho remoto nunca foi santo de devoção das grandes empresas de tecnologia. Algumas, como Google e Facebook, tinham até março de 2020 modelos hiperpresencialistas, cujo símbolo perfeito poderia ser a lavanderia do Google. Antes da pandemia, um ônibus buscava as roupas sujas dos funcionários e as levava ao escritório para serem lavadas ali, uma forma de mantê-los no trabalho por mais tempo. Há mais de dez anos, a IBM protagonizou um dos primeiros capítulos da relação de amor e ódio das grandes empresas de tecnologia com o teletrabalho. Aconteceu em 2009, quando autorizou 40% dos funcionários em 173 países a trabalhar remotamente; em 2017, com os lucros em queda, obrigou-os a retornar ao escritório. Em 2013, o Yahoo! também exigiu que seus funcionários remotos voltassem ao trabalho presencial. “Algumas de nossas grandes decisões foram inspiradas por discussões de corredor, na lanchonete ou em reuniões espontâneas de trabalho”, explicou na ocasião um comunicado da empresa.

Agora, com a pandemia, todos trabalham remotamente, mas os prazos para voltar ao modelo presencial, ou ao menos de forma híbrida, não se estendem ao infinito. Facebook e Google estabeleceram como prazo o mês de julho de 2021. Amazon e Microsoft falam em janeiro do próximo ano. Todos estão no intervalo apontado pelo CEO da Netflix, quatro ou seis meses a partir da aprovação da vacina. Porque apesar de suas vantagens, o teletrabalho não consegue inspirar a criatividade que surge dos grupinhos de humanos, informais e espontâneos, que não estão programados no Zoom.

O aumento do tempo de exposição às telas e a redução das interações pessoais têm um duplo efeito inesperado e quase contraditório nas profissões que exigem altas doses de criatividade. Por um lado, os profissionais se tornam mais corajoso para utilizar a retórica digital em seu beneficio, o que dinamita o trabalho em equipe, e por outro, as pessoas se deixam levar pelas opiniões da maioria, se debate menos e se engole mais. Parece um paradoxo e é. Vamos chamá-lo de paradoxo do teletrabalho.

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O primeiro fenômeno foi registrado há algum tempo no Urban Dictionary como a coragem do PC (ou do Mac, depende dos seus gostos e dos da sua empresa). O termo define a ilusão de coragem que nos domina quando estamos atrás de uma tela e nos faz sentir onipotentes, tanto que esquecemos que tudo o que dizemos, também em uma reunião de Zoom, pode ser usado contra nós. Sob os efeitos da coragem do PC são ditas frases que nunca seriam verbalizadas cara a cara, incluindo ameaças vazias para colaboradores de quem não se gosta. Também é comum que as pessoas imbuídas de tal sentimento acreditem que estejam saindo à francesa de uma reunião virtual, quando na verdade, sua falta é percebida pelos colegas como a de quem saiu batendo a porta de um escritório.

Essa impulsiva violência virtual se explica em parte porque, na ausência de interações cara a cara, deixam de funcionar os lubrificantes da vida social ―olhares e gestos― que suavizam a retórica verbal, nos tornam mais tolerantes e empáticos, menos categóricos em nossas afirmações e muito menos dispostos ao conflito. Na última década foi acumulado um corpo teórico importante que mostra que a exposição prolongada às relações on-line aumenta os sentimentos de conflito, por exemplo, o desejo de se divorciar (Human Computational Behaviors, 2014). Existem brigas latentes no Zoom esperando para começar assim que terminar este ano da guerra fria digital.

O segundo fenômeno, a diminuição do pensamento crítico no teletrabalho, é explicado pela sensação de pertencimento a um grupo de espectadores, que pode até ser silenciado. Mas se o efeito for o oposto, ou seja, que todos se sentem obrigados a opinar e a tomar decisões, os resultados tampouco são melhores. Groupthink (pensamento de grupo) é o nome técnico desse fenômeno e define o processo disfuncional de um grupo de pessoas que se reúnem para deliberar. O pensamento de grupo se manifesta quando o valor do grupo é menor que o de cada um de seus membros.

No livro Wiser: getting beyond groupthink to make groups smarter (Mais sensato: indo além do pensamento de grupo para tornar os grupos mais inteligentes), seus autores, Reid Hastie e Cass Sunstein, explicam o efeito cascata que o pensamento de grupo promove porque, dizem eles, “os membros tendem a seguir o primeiro que fala”. Por isso sua recomendação para o teletrabalho é que os chefes falem por último.

https://brasil.elpais.com/tecnologia/2020-10-02/por-que-o-ceo-da-netflix-quer-voltar-ao-escritorio.html

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COMO SE CONTRATA UM PROFISSIONAL HOJE? COM A AJUDA DA TECNOLOGIA

Processos seletivos de emprego usam análise de dados, recrutamento às cegas e games para serem mais assertivos sobre candidatos e carreiras; saiba o que é novidade no mercado de trabalho

Texto: Anna Barbosa – Estadão 21 de outubro de 2020 

Assim como os currículos sofreram alterações em seus modelos de apresentação, os processos seletivos se transformam cada vez mais e a pandemia veio para provar que de fato é possível fazê-los de diferentes maneiras. Games, chatbots (conversas com a ajuda de robôs), videoapresentação, seleção em formato de vídeo da rede social TikTok e até mesmo playlists de plataformas de streaming são algumas das novas formas e adaptações dos processos de seleção de trabalho.

O Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) foi uma das plataformas que optaram por adotar um processo seletivo gamificado, com o uso de games, pensando em um padrão para todos os candidatos a uma vaga de emprego e facilitando o recrutamento das empresas.

Tatiana Silva, analista de Recrutamento e Seleção do CIEE, explica que tudo acontece por meio do aplicativo CIEE One, onde os candidatos possuem missões que vão construindo o currículo de acordo com as respostas. “No aplicativo há uma série de testes comportamentais, de lógica, de português, de inglês. O currículo já chega no formato com as informações, mas mais padronizado.”

Para ela, o estudante tem um ganho porque recebe o resultado dos testes e os realiza por meio de um jogo, o que torna o processo leve e interativo. Quanto ao recrutador, ele recebe exatamente as informações de que precisa. “Às vezes, em um modelo de currículo tradicional, o candidato fala sobre soft skills, por exemplo, mas é uma perspectiva dele. No app, ele consegue ter uma inteligência por trás disso, que traz o resultado de uma forma mais fiel.”

Telas do aplicativo CIEE One, em que o game ajuda na seleção do candidato

Tatiana afirma que o processo gamificado já era uma tendência e, com a pandemia do coronavírus, ficou mais forte. “A gente viu que dá para fazer uma boa avaliação do candidato. Quebra o paradigma do olho no olho.”

A gamificação também pode entrar em outras partes do processo seletivo além da triagem inicial, como nas dinâmicas. É o caso do serious game produzido pela Expansão, um jogo construído para trabalhar em equipe com duas vertentes: processo seletivo e team building (formação de equipe).

Marcelo Eira, CEO da Expansão, explica que o jogo é feito com o objetivo de realizar uma análise comportamental dos candidatos durante o processo seletivo. “Colocamos as pessoas num cenário lúdico, com tecnologia, com observação. Durante o jogo, elas vão passar por desafios enquanto alguém da empresa estará olhando para os candidatos.”

No game da empresa Expansão, candidatos são analisados durante o jogo

Mas qual a intenção do uso de jogos e tecnologia?

Para especialistas, o uso de programas com análise de dados ajuda os recrutadores a terem um retrato mais fiel do candidato. “Às vezes o candidato a uma vaga de emprego diz que sabe trabalhar em equipe, mas não é possível analisar se é verdade ou não. Durante o game, você consegue perceber como ele reage às situações”, diz Marcelo.

De acordo com ele, o jogo analisa algumas competências que estão intrínsecas ao perfil humano, como trabalho em equipe, comunicação, tomada de decisão sob pressão, criatividade, solução de problemas complexos, empatia e liderança. Além destas, os clientes podem optar pela personalização, adicionando outras soft skills.

Para ele, a tendência dos games nos processos seletivos, e também para engajar os funcionários, vinha antes da pandemia. “Você sempre está buscando boas pessoas. Mas no isolamento houve mais demanda por soluções formatadas como o game, que tragam algo a mais do que o tradicional.”

Outra forma de inovação que ganhou força com a pandemia foram os chatbots, que podem ser usados durante todo o processo de contratação. Para Fábio Passerini, fundador e sócio-diretor da Fugativa, empresa de escape games, existem dois pontos de uso que podem se destacar.

●O primeiro é nas triagens iniciais, para saber conhecimentos determinados, desde idiomas até plataformas, parametrizando todos os pontos como desempenho, tempo, caminho que a pessoa trilhou.

●O segundo é desenhando a inteligência artificial para pensar características particulares, ou seja, quando o recrutador quer captar informações mais específicas, como reação do indivíduo a determinadas situações.

Fábio afirma que os bots podem substituir o currículo, mas aponta que não são a única maneira de substituí-lo. Para ele, antes o currículo era tão necessário porque não existia outra forma de passar as informações, mas com a tecnologia as empresas começaram a disponibilizar formulários e plataformas para que as informações sejam encontradas de forma mais eficiente.

Com o chatbot, dentro de uma conversa e de forma leve, a pessoa passa as informações que você deseja. O maior ganho pode ser no filtro do que o recrutador quer e nos treinamentos

Fábio Passerini, sócio-diretor da Fugativa

A Natura é uma das empresas que desde o segundo semestre de 2018 utiliza os bots em seus processos seletivos. “Descobrimos com o bot que você tem uma interação muito mais leve e prática com os candidatos, ajuda a compartilhar informações”, explica Mariana Talarico, diretora de cultura e desenvolvimento da Natura & Co para a América Latina.

Para Mariana, a tecnologia é uma aliada no acesso às pessoas e uma ferramenta que ajuda a gerar impacto positivo. “Nesse processo, estamos compartilhando alguns conteúdos relacionados com o tema racial, que é uma prioridade para Natura dentro dos pilares de diversidade. Queremos criar conhecimento e repertório. Não é somente passar pelo processo, é deixar algo para o candidato.”

Nesse sentido, Mariana acredita que o bot deixa o processo mais democrático. “A pessoa consegue se inscrever em qualquer horário, de qualquer lugar. Tem mais acesso e isso para nós é importante.”

Mariana ressalta a importância de um processo combinado, porque para ela os vieses inconscientes interferem diretamente. “No processo seletivo, as próprias pessoas quando veem o candidato, onde mora e a faculdade que cursa, já tem na cabeça alguns vieses. Com esses processos, conseguimos ser mais inclusivos.”

A diretora de cultura e desenvolvimento explica a importância da inclusão para a empresa, que lançou um compromisso com a vida, além da política de valorização da diversidade com quatro pilares: LGBTQIA+, gênero, raça e PCD.

Na Natura, os robôs ajudam a tornar o processo mais inclusivo

O processo de estágio Natura 2021 está com as inscrições abertas até o dia 30 de outubro. De maneira totalmente digital, tem como objetivo que pelo menos 50% dos contratados sejam pessoas negras. Além disso, a empresa não colocou restrições em relação a idade, requisitos técnicos ou necessidade de cursos, idiomas e faculdades pré-determinadas. Os únicos dois requisitos são ser universitário e estar cursando o penúltimo ou o último ano da faculdade.

Para aqueles que avançarem no processo, a empresa irá analisar e entender a situação dos candidatos que não tenham acesso à internet para oferecer pacote de dados durante a segunda fase da seleção a uma vaga de emprego.

Arlane Gonçalves, especialista e comunicadora de diversidade e cultura inclusiva, reafirma a importância de processos seletivos que busquem efetivamente diminuir as desigualdades. Para ela, a medida precisa ser tão intensa quanto o problema em si.

“Aqui no Brasil, precisamos rever os pré-requisitos que colocamos para as vagas. Em muitos casos, não corresponde ao que as pessoas usarão nas vagas, como: inglês avançado, Excel avançado, até mesmo experiências muito específicas que podem ser desenvolvidas depois”, aponta Arlane.

RECRUTAMENTO PEDE QUE CANDIDATO CRIE… PLAYLIST

Outra empresa que realizou um processo inovador durante a pandemia foi a Deezer. Sem mais restrições além de serem estudantes com pelo menos mais um ano de graduação, os candidatos interessados precisavam criar e engajar uma playlist com pelo menos 30 faixas.

“O mais bacana desse processo é que antes de a gente ver currículo, curso ou rosto, a gente ouviu a playlist. As pessoas foram selecionadas no escuro. É a forma mais justa da gente selecionar nesse quesito”, frisa Polyana Ferrari, gerente de PR da Deezer.

Ela explica que, por não determinarem cursos específicos, receberam candidatos de mais de 30 cursos diferentes. “Para a gente, era muito mais válido o envolvimento da pessoa com música, o que ela gostava de fazer, o quanto ela queria trabalhar com a vaga. Isso era muito mais importante do que o currículo em si.”

Polyana relata que foi a primeira vez que fizeram um processo como esse. “Para vaga de entrada, estágio e trainee, dá pra replicar cada vez mais. É muito bacana, já entra uma pessoa com fit cultural (combinação com os valores da empresa). A gente teve um resultado muito positivo.” Para vagas mais técnicas e gerenciais, ela explica que é mais difícil.

8.000  foi o número de inscrições que a Deezer recebeu nesse processo de seleção com playlist

Quando chegaram aos 30 finalistas, os recrutadores da empresa pediram uma videoapresentação e também que uma terceira pessoa, conhecida do candidato, falasse sobre por que aquele candidato deveria estar naquela vaga de emprego.

Raquel Oliveira, a estagiária selecionada para a oportunidade, relata que sempre quis trabalhar com música em sua carreira e que durante a atual graduação de Estudos de Mídia, na Universidade Federal Fluminense (UFF), sempre realizava trabalhos voltados para essa indústria. Quando viu a vaga, sabia que deveria tentar. “O mais legal, além de sentir que minhas experiências tinham a ver com a vaga, era que eu sentia que minha playlist e meus vídeos tinham mais a ver que o currículo em si.”

Ela diz que pensou em uma playlist que dialogasse com a pandemia, mas que tivesse diversidade e contasse uma história. “Minha playlist era álcool na mão e na cabeça, pensando na pandemia, mas também em beber e se divertir. Fiz uma brincadeira em que a pessoa bebeu, começou a ficar mal e terminou na reabilitação (com a música Rehab, de Amy Winehouse).”

Para Raquel, a videoapresentação foi o momento em que pôde mostrar sua vontade de fazer parte da equipe e mergulhar no mundo da música. “Toda a jornada de estágios, mil entrevistas, mil nãos, me levaram a esse lugar.”

O vídeo no processo seletivo

Currículo em vídeo, entrevista em vídeo e um vídeo de 30 segundos tentando vender seu próprio trabalho são algumas das alternativas que foram apresentadas e implementadas recentemente nos novos processos seletivos.

Para Patricia Suzuki, diretora gente e gestão da Catho, a videoapresentação é uma tendência. “É outra forma de se apresentar para as empresas, o que ajuda bastante para o recrutador ter uma interação com o candidato. É possível entender a forma como se comunica e se apresenta.”

Patrícia Beltran, especialista de RH da Vagas.com, ressalta que o vídeo não é novidade no processo, mas que a pandemia fez com que o método ganhasse mais força. Ela afirma que um vídeo mal feito pode ser decisivo para o candidato.

COMO FAZER SUA VIDEOAPRESENTAÇÃO

● Leia com atenção e calma as perguntas que estão sendo feitas pelos recrutadores

● Elabore as respostas antes de gravar o vídeo: uma resposta mal elaborada prejudica o processo

● Use os termos-chave que conhece. Se na descrição da vaga o termo Excel intermediário aparece várias vezes, utilize o termo e fale sobre seus conhecimentos

● Seja você, sem criar uma nova persona, e responda tranquilamente

● Evite fazer o vídeo no final do dia, quando já está cansado, pois passa uma má impressão

Além do uso tradicional do vídeo, seja em uma apresentação ou em uma entrevista online, os profissionais estão apostando em um formato de Tik Tok profissional. É o caso do Peixe 30, uma rede social profissional gratuita lançada durante a pandemia e que tem como objetivo que os profissionais “vendam seu peixe” em vídeos de 30 segundos, contando sobre as experiências e o que eles têm a oferecer ao mercado.

William Valadão, fundador do Peixe 30, explica que o candidato pode seguir e ser seguido por profissionais e que dentro do aplicativo existem duas áreas: onde o candidato se apresenta e pode subir o currículo em PDF, adicionar outras redes sociais, colocar seu site; e onde posta seus conteúdos, além de poder interagir, curtir e compartilhar.

Para ele, o uso do vídeo vai ser cada vez mais comum porque as pessoas conseguem passar quem são e isso é positivo para ambos os lados. “Eu acredito fortemente que isso vai ser cada vez mais natural. Talvez não substitua o currículo, mas vai ser cada vez mais natural e utilizado.”

DICAS DE WILLIAM PARA FAZER SEU VÍDEO PARA O PEIXE 30

1Pense antes: o que você quer passar nesses 30 segundos?

2Escreva um roteiro e se prepare antes de falar; o vídeo é curto

3Esteja em um ambiente apropriado, com boa iluminação

Ana Bavon, fundadora da B4People, que realiza consultoria e treinamento de cultura inclusiva, pondera que o aplicativo pode funcionar, mas o candidato precisa saber exatamente o que está buscando.

“Uma pessoa mais introvertida, um neurodiverso (dependendo da neurodiversidade), talvez não consiga fazer uma apresentação de 30 segundos. Pode ser uma ferramenta para um tipo específico de contratação, com características mais extrovertidas”, aponta a especialista.

Arlane Gonçalves também levanta questionamentos como quem serão as pessoas que estarão avaliando e quais os critérios. “É a mesma coisa do discurso de contratar os melhores. O que são os melhores? O que caracteriza os melhores para você? Será que uma pessoa com cabelo afro alto vai ser bem considerada? Será que dreads serão bem vistos?”, questiona.

Para William, o Peixe 30 vai ser um espaço para todos. “A questão da aparência é um detalhe do contexto como um todo. Nós imaginamos que o processo vai ser mais assertivo e vai fluir de maneira mais natural, ao contrário do processo tradicional, porque a pessoa vai ter uma chance de passar seu potencial.”

Carolina Utimura, CEO da Eureca, consultoria especializada em comportamento jovem e na conexão deste público com o mercado de trabalho, explica que por conta dos vieses inconscientes, a plataforma tem feito frequentemente a sensibilização dos recrutadores. “A gente faz uma capacitação nos corretores para entender os critérios de seleção. Também temos adaptado para áudio, mas o vídeo vem para diminuir a quantidade de vezes que a pessoa precisa ir à empresa.”

Currículo ‘blind’ e entrevista às cegas

Uma das alternativas apresentadas por empresas e recrutadores que desejam começar a implementar a inclusão nas organizações são os currículos blind, que não possuem dados pessoais do candidato (como endereço e gênero), e as entrevistas às cegas.

Para as especialistas, a lógica entre um método e outro é a mesma. Arlane Gonçalves acredita que a medida seja ineficiente, visto que o problema é muito mais complexo do que a medida paliativa tenta solucionar. “De certa forma, faz sentido porque os RHs querem colocar mais candidatos diversos para passar pelos primeiros crivos, mas, lá na frente, essa tática não funciona.”

“Ela pode ser interessante em um primeiro momento, mas depois as empresas precisam avançar um pouco mais”, aponta a especialista em diversidade e cultura inclusiva. Para ela, a intencionalidade no processo é essencial. “Se você precisa de mulheres, vá atrás de mulheres. Se precisa de pessoas com deficiência, vá atrás de pessoas com deficiência. Não busque subterfúgios.”

Ana Bavon também acredita que a intencionalidade é o caminho. “Se a empresa quiser trabalhar diversidade e inclusão sem querer querendo, funciona. Mas qual empresa vai funcionar sem querer querendo?”

A atração é um meio de acesso importante, mas é só a ponta do iceberg. Pode ter o currículo às cegas, mas nada substitui a intencionalidade e a vontade de fazer diferente

Ana Bavon, consultora em diversidade

Bavon dá o exemplo da área de tecnologia. “Se eu estou escolhendo uma pessoa da área da tecnologia, que tenha determinados anos de experiência, e colocar o currículo às cegas, a chance de receber currículos de homens é muito maior do que receber currículos de mulheres.”

QUANDO A TECNOLOGIA PODE SER UM PROBLEMA

Ao mesmo tempo em que o uso de tecnologias como a inteligência artificial pode acelerar e otimizar processos, os algoritmos quando não pensados de forma diversa e inclusiva continuam perpetuando os mesmos padrões segregacionistas.

A especialista Ana Bavon lembra que falar de algoritmo e machine learning é falar de critérios que são colocados na máquina para que ela possa fazer escolhas. “Esses critérios são colocados por pessoas e essas pessoas precisam ser livres de vieses. Do contrário, elas vão reproduzir para a máquina os preconceitos.” Assim, diz ela, a questão tecnológica precisa ser olhada como uma questão essencialmente humana.

Para exemplificar, Bavon cita uma empresa que busca uma head de tecnologia para sua empresa. “O recrutador vai colocar na máquina os critérios: a pessoa precisa de determinados conhecimentos, precisa ter passado em X universidades (que podem ser escolhidas), ter perfil Y e histórico profissional.”

Neste caso, a máquina vai receber todas as informações, que foram colocadas por um ser humano. “Se a pessoa for um homem branco que vem da área de STEM (área de exatas, do inglês ciência ou science, tecnologia ou technology, engenharia ou engineering, e matemática ou math), ele vai colocar tudo o que ele conhece como critérios dessa área e vai acabar atraindo pessoas no mesmo padrão”, aponta a especialista.

Por isso, Ana Bavon reitera a importância da inclusão e de um olhar humano para a tecnologia. “Não só as universidades, mas as empresas que se propõem a desenvolver tecnologias ou as que operam tecnologias precisam ter pessoas e um braço estratégico voltado para a questão da inclusão.”

EXPEDIENTE

Reportagem Anna Barbosa (estagiária sob a supervisão de Ana Paula Boni) / Coordenação Sua Carreira Ana Paula Boni, Bia Reis e Carla Miranda / Revisão SEO Michele Lopes / Editor executivo multimídia Fabio Sales / Editora de infografia multimídia Regina Elisabeth Silva / Editores assistentes multimídia Adriano Araujo, Carlos Marin, Glauco Lara e William Mariotto / Designer Multimídia Danilo Freire / Infografista Multimídia Edmilson Silva

https://www.estadao.com.br/infograficos/economia,como-se-contrata-um-profissional-hoje-com-a-ajuda-da-tecnologia,1128308

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