Não decretem a morte dos escritórios


Com precoce home office estendido por períodos indeterminados, empresas privam profissionais de troca de ideias em encontros marcados ou aleatórios, essenciais para inovação e senso de equipe

  •  Marisa Eboli Estadão 23 de outubro de 2020 

Dias atrás o LinkedIn lembrou-me do meu aniversário de empresa… 30 anos de Fundação Instituto de Administração (FIA). E seriam 35 anos de convívio na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA), se eu não tivesse me aposentado. Num momento flashback recordei-me de algo que se repetia nos meus primeiros anos de docência na FEA. Antes de entrar em sala de aula, passava na sala dos professores para assinar a lista de presença. Era um ambiente relativamente pequeno e modesto, com café e chá para nos servirmos. Havia uma grande mesa e à sua volta sentavam-se professores dos três departamentos.

Era comum encontrar com os professores de Economia: Delfim Netto (em raros e especiais momentos), os “Pastore” (Affonso Celso e José), Paul Singer, João Sayad, Juarez Rizzieri, Lenina Pomeranz e Roberto Macedo. No departamento de Contabilidade costumava ver Reinaldo Guerreiro, Eliseu Martins e Nelson Carvalho. E havia as estrelas do próprio departamento de Administração: Guilherme Ary Plonski, Joel Dutra, Rosa Maria Fischer, James Wright e Isak Kruglianskas, entre outros.

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Nos 15 minutinhos que antecediam a aula, desfrutava das conversas e das análises sobre os últimos acontecimentos: superávit fiscal, dívida pública, PIB, pressão inflacionária, impacto da taxa de juros, mudanças de normas e resoluções do Bacen, carreiras, ONGs ou meio ambiente. O assunto dependia dos encontros e da direção em que derivava a prosa do dia.

Certamente, tais conversas não me faziam sair de lá expert em economia, contabilidade, ciências atuariais ou terceiro setor. Mas só de escutar tais bate-papos, borbulhavam insights e conexões com a matéria que ministraria pouco depois aos meus alunos. Sentia-me mais inteligente, criativa e empoderada, para aplicar um termo da moda. Aos alunos inspiravam ilações entre a conjuntura política, econômica e social e a gestão de pessoas.

Depois de alguns anos, houve uma grande reforma no prédio da FEA, os departamentos ficaram fisicamente bem separados e não mais havia a “sala dos professores” comum aos três departamentos. Pior que isso, o local onde passamos a assinar a lista de presença era um cubículo, com uma pequena mesa só para as assinaturas e sem cadeiras. O café e chá permaneciam, mas impossível brindar com alguém. Era assinar a presença e tchau!

Você deve estar se perguntando: por que está contando essa história? Uma homenagem ao dia dos professores? Sim… e não.

Na verdade, esses tempos de pandemia e distanciamento social trouxeram à tona questões relevantes para a nossa convivência: acabaram-se os encontros fortuitos, os desencontros e reencontros do destino, os bate-papos casuais, as trombadas ao acaso. Tudo é programado e muito previsível. Se tem reunião ou aula, é hora de entrar no Zoom. Por melhor que seja a ferramenta, só trocamos mensagem pertinentes ao tema da reunião ou da aula. E a conversa fiada? E o bate-papo descontraído? E as “abobrinhas” por vezes tão criativas? A covid-19 levou…

Área de descompressão do escritório do LinkedIn em São Paulo: interação entre colegas. Foto: Vivian Koblinsk

Tenho consciência de que o home office ou trabalho remoto, como queiram, funcionou bem e se mostrou produtivo. Mas não seria prematuro as empresas já decidirem por ele 100% do tempo, como tenho lido em várias matérias? O trabalho remoto deve sim ficar, é o que mostram as principais pesquisas sobre o assunto, tanto que muitas empresas anunciaram home office até o fim de 2020. Mas que ele seja parcial e não na integralidade, para todos os dias da semana.

Contudo, algumas organizações, mais imediatistas e apressadinhas, já decretaram que oferecerão a opção de home office indefinidamente aos seus funcionários. Muitas já estão entregando os espaços físicos e redimensionando suas locações para um número reduzido de pessoas. Seria a falência da “cultura de escritórios”. E, num cálculo afobado e oportunista, vislumbram muita economia. Será que vale a pena a médio e longo prazos?

Trabalhar remotamente pelo resto da carreira, só se for em parte do tempo. Caso contrário o próprio crescimento na sua carreira ficará muito limitado e empobrecido pois ficarão comprometidas as interações entre áreas, as articulações sociais e políticas, a visão holística e sistêmica, tão cruciais para vencer novos desafios.

Justamente, numa época em que tanto se fala da importância da comunicação, da criatividade e da inovação, acabar com o encontro presencial irá esgarçar as relações interpessoais e emocionais e, consequentemente, a capacidade de inovação das empresas.

Na quarentena tenho visto muitas lives dos músicos que admiro. Rolling Stones cantando e tocando cada um na sua casa; estes sempre se reinventam e surpreendem. Mas nada se compara a um show ao vivo deste quarteto. Pura emoção! Recentemente, após a morte do musicólogo e jornalista Zuza Homem de Mello, foi reproduzido um programa com sua participação, gravado em julho, onde expressava sua opinião sobre músicos de orquestra tocando separadamente na quarentena. Foi taxativo: “Música requer o encontro presencial caso contrário não há troca de emoção entre os músicos.” Música é emoção! Arte e emoção são inseparáveis.

Nesses meses de pandemia, eu assisti a muitos filmes por streaming; mas nada se compara a ver um belo filme em uma ótima sala de cinema.

Amigos jornalistas mais experientes dizem que as redações de empresas jornalísticas sempre foram lugares de troca; até mesmo os que trabalhavam como “frilas” visitavam as redações para entregar o trabalho, tomavam cafezinho, papeavam, ouviam os editores, propunham novos trabalhos. Notam que isso falta às novas gerações de jornalistas, já acostumadas a trabalhar a distância, embora nem mesmo tenham consciência do que perderam.

Por conta de um curso novo que o professor Sérgio Rizzo e eu lançamos na FIA, o Cine & Gestão, reli nos últimos meses dois livros de Walter Isaacson: Os Inovadores, que é praticamente uma biografia da revolução digital, e Steve Jobs, a biografia do visionário homem da Apple.

O primeiro capítulo do livro Os Inovadores é sobre Ada Byron, que se tornou a condessa de Lovelace. Foi uma matemática e escritora inglesa, reconhecida principalmente por ter escrito o primeiro algoritmo para ser processado por uma máquina, a máquina analítica de Charles Babbage, a primeira de cálculo. Em um ensaio de 1841, ela perguntava “O que é imaginação?” E concluiu: “É a faculdade de fazer combinações. Ela reúne coisas, fatos, ideias em combinações novas, originais, infinitas e sempre em mutação (…). É ela que penetra nos mundos invisíveis da ciência à nossa volta.” E pregava a “ciência poética”, na qual a criatividade e a tecnologia entrelaçam-se.

Da biografia de Jobs, oportuno relembrar o seu comentário, quando a Apple decidiu construir sua nova sede: queria apenas um conjunto de poucos banheiros, situado no centro do complexo, para que ocorressem encontros aleatórios de pessoas de diferentes departamentos.

Tal fato lembrou-me de uma história que ouvi quando fazia o doutorado na FEA, há muitos anos. Refere-se à sede da BMW na Alemanha. É um enorme prédio redondo, com uma cafeteria no centro. Esta localização visa a propiciar a reunião casual de pessoas das mais diversas áreas da empresa. Mais uma vez, a importância da aleatoriedade para intensificar a comunicação entre áreas diferentes e promover a troca de conhecimentos e ideias, bem como a criatividade coletiva.

Numa conversa com o amigo e o renomado arquiteto Olegário De Sá, ele destacou o papel e a responsabilidade social da arquitetura: “As pessoas passam de 8 a 10 horas nos escritórios, então, precisam ter uma área de trabalho confortável, na qual todos tenham sua estação e, também, locais de trabalho coletivo”. Reforça, igualmente, a necessidade de espaços de convivência, de espaços de descompressão, onde as pessoas se encontrem, interajam e agucem sua criatividade. Olegário também acredita fortemente que o home office não deve se perpetuar.

E acrescenta: “muitos clientes meus que estão fazendo suas casas nos condomínios próximos de São Paulo ou levaram para lá seu home office, já estão querendo voltar. Estão percebendo que faz falta essa convivência, essa interação social, essa troca de informação que deixa o trabalho mais criativo, aprimorado e significativo; somos seres coletivos!”

Há que se preservar a emoção, a criatividade, o imponderável e o coletivo para se garantir a tão almejada e requerida capacidade inovadora. São mais que bem-vindos os espaços físicos que propiciam encontros, além dos marcados, rotineiros e pontuais!

* Marisa Eboli é doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e especialista em educação corporativa. É Professora de graduação e do mestrado profissional da Faculdade FIA de Administração de Negócios (meboli@usp.br)

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