Home office derruba limites de empresas em busca de novos talentos


Profissionais também se beneficiam do aumento do trabalho remoto, pois podem se candidatar a vagas que antes eram inimagináveis

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo 27 de outubro de 2020 

RIO – Ainda é cedo para apontar se o trabalho remoto se tornará regra no País pós-pandemia, mas executivos e especialistas em recursos humanos já têm uma certeza: o fim das fronteiras físicas do trabalho está ajudando a tornar as vagas mais inclusivas e abrindo portas para a descoberta de novos talentos. E estar aberto ao home office será uma vantagem tanto para empresas quanto para quem está em busca de um novo emprego.

O modelo de trabalho remoto vinha crescendo no Brasil, em especial em grandes centros urbanos. Ele era relativamente comum em empresas de tecnologia, mas mesmo em outras áreas já tinha muitos adeptos. Em março, quando a pandemia de covid-19 ganhou força no País, o trabalho à distância se disseminou por obrigação e acabou servindo como um grande laboratório.

“A pandemia ajudou a fortalecer e a quebrar certos paradigmas sobre a funcionalidade do trabalho remoto”, avalia Alexandre Benedetti, diretor do Talenses Group, empresa especializada em recrutamento e seleção. “Uma das questões é permitir que a visão de quem contrata seja um pouco amplificada. Você pode contratar profissionais de todo o mundo. Há casos como o Google, por exemplo, contratando gente na Índia.”

Alexandre BenedettiPandemia ajudou a quebrar paradigmas sobre o trabalho remoto, afirma Alexandre Benedetti, diretor da Talenses Group. Foto: Felipe Rau/Estadão

O maior acesso a profissionais tem potencial para acirrar a concorrência entre candidatos – afinal, se antes a disputa por uma vaga era basicamente entre profissionais de uma mesma cidade ou região, agora não há limites. Mas, naquela velha história do copo meio cheio ou meio vazio, quem contrata prefere ver por outro prisma: os candidatos agora podem concorrer a postos de trabalho a partir de qualquer ponto do País (ou do mundo) sem a necessidade de ter que se mudar.

“Isso me facilitou muito. Eu tinha uma base de candidatos que me limitava, porque íamos buscá-los dentro de uma zona que atendesse aos nossos escritórios ou aos dos nossos clientes. Com esse modelo eu posso contratar em qualquer lugar”, afirma Carla Catelan, diretora de Recrutamento e Seleção da Cognizant no Brasil.

Responsável também pelas áreas de voluntariado, diversidade e inclusão da empresa, Carla destaca ainda outro ponto. “Expandir esse modelo de trabalho remoto é fundamental porque a gente consegue atrair mais diversidade cultural, trazendo candidatos de outras localidades, mas também atrair candidatos com deficiência que muitas vezes não tiveram a oportunidade de estar aqui em São Paulo”, pondera.

Adequação à tecnologia e empatia em alta

O conhecimento técnico continua sendo fator importante para quem busca uma vaga no mercado de trabalho, mas há outros aspectos que cada vez mais são buscados por quem contrata: a capacidade de se adequar às novas tecnologias e a empatia.

“O mundo é muito mais volátil hoje, com ciclos econômicos mais curtos, e a necessidade de adaptação do profissional é muito mais forte em todos os sentidos. É uma adaptação técnica, mas também comportamental”, diz Benedetti. “Tem outra questão que é a empatia. Como você trabalha empatia num mundo mais volátil, com maior necessidade de adaptação, para liderar e engajar pessoas? O desafio para mim cada vez mais vai estar no desenvolvimento das competências comportamentais.”

Diretora de Recursos Humanos do Grupo Carrefour Brasil, Cristiane Lacerda concorda. “O mercado tem mudado muito e não só por causa do trabalho remoto. O que se busca é um maior desenvolvimento das pessoas, em especial nos temas ligados à tecnologia”, considera.

Desde o ano passado, o Carrefour vinha fazendo testes para migrar boa parte de seu quadro administrativo para o home office. A pandemia acelerou o processo e fará com que o grupo amplie o modelo.

Cristiane também vê o trabalho à distância como uma oportunidade de ampliação na busca por talentos. “Isso ajuda muito porque algumas áreas demandam profissionais mais especializados, e podemos buscá-los inclusive fora do Brasil, como Canadá e Estados Unidos.”

Para Leonardo Freitas, CEO da Hayman-Woodward, uma consultoria especializada em mobilidade global e imigração de profissionais, quem busca uma nova oportunidade de trabalho precisa estar aberto a mudanças – e entender que elas podem ocorrer de forma mais rápida do que se pensava.

“O desenvolvimento tecnológico de uma sociedade depende também do desenvolvimento do ser humano, e a gente está vivendo um momento de quebra de paradigma. Se você olhar para trás, e não precisa ir muito longe, a história do carro que dirige sozinho era inconcebível. Para mim era um episódio dos Jetsons. Hoje o meu carro se dirige sozinho.”

Freitas, no entanto, lembra que o “novo” profissional ainda terá que vivenciar práticas mais tradicionais. “A grande questão talvez seja como adaptar os treinamentos. Se você é um torneiro mecânico, por exemplo, você depende de um preparo presencial. Um cirurgião não aprende a fazer um procedimento simplesmente vendo um vídeo, ele precisa sentir a textura da pele ao fazer o corte”, ressalta.

A boa notícia é que o acesso ao conhecimento está mais fácil também graças ao modelo remoto. Atualmente é possível acompanhar aulas a partir de qualquer ponto do mundo, e isso faz com que a busca por uma nova carreira seja menos tortuosa. “Hoje é mais fácil para o profissional se especializar ou aprender. As próprias empresas oferecem essas oportunidades. A barreira de entrada para uma nova carreira caiu muito”, considera Fábio Costa, general manager da Salesforce no Brasil.

A empresa divulgou uma pesquisa no início do mês que revelou que 52% dos brasileiros trocariam de emprego se pudessem trabalhar remotamente. “Mas é importante entender o que é esse trabalhar remotamente. Acredito que não é apenas trabalhar de casa, e sim ter essa possibilidade. No futuro a gente vai ter que ter um equilíbrio”, considera Costa.

Mais produtividade

Executivos e especialistas em RH ouvidos pelo Estadão foram unânimes em  avaliar que o trabalho home office tende a aumentar a produtividade dos funcionários – desde que haja equilíbrio no modelo.

“O home office aumenta o rendimento do profissional. Não tem a supervisão física, mas tem a supervisão do resultado que ele oferece”, diz Freitas. “Está sendo um grande despertar de que a gente consegue ser mais pró-ativo, atender às necessidades de nossos empregados ou empregadores e também ter um melhor balanço da vida profissional e pessoal.”

O executivo pontua, no entanto, que o trabalho à distância não deve ser exclusivo. “O ser humano tem uma necessidade muito grande de viver em comunidade. Isolar o ser humano muito tempo traz graves problemas. O ideal seria unir as duas  coisas, um pouco de trabalho remoto e um pouco de trabalho in loco. A socialização é necessária”, diz Freitas.

Home officeHome office aumenta o desempenho, mas a convivência pessoal não deve ser anulada por completo, apontam especialistas. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Benedetti vai na mesma linha. “O trabalho de todo mundo não é igual, não é sempre técnico. Você tem trabalhos de gestão, de influência para quem tem grandes times. A questão de trabalhar competências comportamentais, a influência, por mais que o trabalho remoto permita, nós somos latinos, precisamos de contato”, ressalta.

Benedetti complementa: “O home office é mais produtivo para muitas coisas, mas talvez tenha uma efetividade menor quando a gente fala de engajamento no longo prazo. Em recente entrevista, o CEO da Netflix, uma empresa de vanguarda na questão trabalho remoto, diz que não acredita num trabalho 100% remoto. Existem perdas nos extremos”.

https://economia.estadao.com.br/noticias/sua-carreira,home-office-derruba-limites-de-empresas-em-busca-de-novos-talentos,70003490117

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