Economia compartilhada é colocada em xeque na pandemia


Temor de contágio provoca o renascimento do antigo status quo: carro próprio e casas grandes

Por Marília Almeida, Carolina Ingizza, Karin Salomão

Publicado em: 16/07/2020 às 07h00

Enquanto diversos setores buscam se reerguer dos efeitos da pandemia da covid-19, uma dúvida fundamental tem afligido empresas e investidores: como fica a cultura do compartilhamento, uma tendência que surgiu com força nesta década entre os jovens e vinha ditando as principais tendências nos negócios? Diante do temor de contágio, quem vai continuar usando carros de aplicativo ou dividindo áreas comuns nos condomínios?

Pelo menos no curto e no médio prazo, pesquisas mostram que os consumidores pretendem usar meios de transporte que permitam manter o distanciamento social. Nesse cenário, modais individuais, como bicicletas, patinetes e carros particulares, são os vencedores, enquanto ônibus, trens e apps como Uber, 99 e Cabify devem sofrer.

Uma pesquisa global realizada pela consultoria Capgemini mostra que 35% dos consumidores pensam em adquirir um carro em 2020. No público abaixo dos 35 anos de idade, nota-se a maior intenção, admitida por 45% — uma reversão da preferência histórica por evitar a compra e pagar apenas pelo uso.

Mesmo assim, Regis Nieto, sócio da consultoria Boston Consulting Group, diz acreditar que o modelo tradicional de posse de automóveis sofrerá mudanças. O mais provável, em sua opinião, é que novos modelos, como o aluguel mensal de veículos, cresçam.

Nesse segmento está a brasileira Turbi, que conta com uma frota de 700 carros em estacionamentos 24 horas prontos para ser acionados pelo app. Na pandemia, a startup acabou com o valor mínimo de aluguel e notou que as viagens dos clientes ficaram mais curtas e frequentes: 40% estão pegando os carros para ir ao supermercado.

Outro levantamento, do Grupo Zap, indica que a busca por casas disparou 390% na crise, e a procura por apartamentos de um quarto caiu de 25% para 21% do total. “Os usuários buscam também imóveis mais distantes das grandes cidades”, afirma Deborah Seabra, economista do grupo imobiliário.

Para a construtora Tecnisa, os consumidores vão querer mais espaço nos apartamentos, mas, com as limitações de orçamento, as áreas compartilhadas ainda serão valorizadas.

A empresa tem adicionado aos empreendimentos espaços colaborativos de trabalho para que os moradores tenham um home office mais estruturado. Para ajudar pequenos empreen­dedores, a construtora criou um espaço para embalar, testar e preparar produtos para envio. “Em vez de fazer uma sauna ou uma biblioteca, vamos construir esse tipo de espaço colaborativo”, diz Romeo Busarello, vice-presidente de marketing e ambientes digitais da Tecnisa.

Mas essas tendências vieram mesmo para ficar? Na opinião de Robin Chase, empreendedora serial americana, autora do livro Economia Compartilhada e fundadora de um dos maiores apps de caronas do mundo, o Zipcar, tudo dependerá da evolução da pandemia e do segmento de atuação da startup do nicho colaborativo. “Não é possível ver a economia compartilhada como um bloco só”, diz Chase.

Segundo ela, a demanda por apps de caronas, como o Blablacar, retornou a patamares pré-crise em países como a França. O Airbnb estava pessimista, mas já detectou um aumento na demanda por casas próximas das cidades, que possam ser acessadas de carro, já que o avião será evitado.

Assim, uma crise global de saúde pública pode se tornar uma oportunidade para tais serviços. “É hora de pedir aos governos o aumento de ciclovias e infraestrutura para transporte individual barato e seguro”, diz Chase. “Isso já está acontecendo em algumas cidades e pode mudá-las de forma permanente.”

https://exame.com/revista-exame/economia-compartilhada-e-colocada-em-xeque-na-pandemia/

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