Chef-robô consegue “degustar” pratos como um ser humano

Por Munique Shih | Editado por Douglas Ciriaco | Canaltech/Universidade de Cambridge 08/05/2022

Pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, projetaram um chef-robô capaz de classificar o sabor de pratos diferentes. Ele consegue, ainda, sentir o gosto e a textura de diversos ingredientes nos diferentes estágios da mastigação — adotando um processo semelhante ao dos humanos.

O robô consegue provar qualquer prato, determinar se ele está temperado da forma correta e adequar o sabor dos alimentos, com base nas preferências do usuário. Para ensinar o robô sobre o gosto ideal dos alimentos, os pesquisadores dividiram o processo de degustação em três etapas diferentes da mastigação, fazendo com que ele provasse nove variedades de ovos mexidos com tomates.

Um sensor de salinidade conectado ao braço do robô forneceu leituras durante o preparo dos pratos. Para imitar a mudança da consistência dos alimentos durante o progresso da mastigação, a equipe mudou as misturas de ovos com tomates e fez a máquina degustar os pratos novamente.

A prova dos pratos resultou em “mapas de sabor” diversos, o que pode contribuir para a automatização do preparo de alimentos saborosos sem a presença de interferência humana no futuro.

Robô e chefe de cozinha

A novidade marca uma evolução no campo da tecnologia de degustação eletrônica, onde a maioria dos robôs testa apenas uma única amostra homogeneizada. Segundo os cientistas, replicar o processo humano aumentou a capacidade do robô de avaliar a salinidade dos pratos com mais rapidez.

“Se os robôs forem usados ​​para certos aspectos da preparação de alimentos, é importante que eles sejam capazes de ‘saborear’ o que estão cozinhando”, disse o pesquisador Grzegorz Sochacki, do departamento de engenharia de Cambridge.

Segundo os cientistas, o conceito de “provar à medida que você cozinha” para verificar o equilíbrio dos sabores de um prato é fundamental, visto que o mecanismo do paladar humano depende da saliva produzida durante a mastigação e das enzimas digestivas para entender se o alimento é saboroso.

Além de detectar o nível ideal de salinidade dos pratos, o chef-robô também é capaz de decidir se há a necessidade de acrescentar mais ingredientes para melhorar o sabor, disse Sochacki.

Os pesquisadores esperam melhorar as capacidades de degustação do robô para que ele se adapte aos gostos de cada indivíduo, como a preferência por alimentos doces e gordurosos, além de torná-lo essencial para as famílias no futuro.

“Esse resultado é um avanço na culinária robótica e, usando algoritmos de aprendizado de máquina e de aprendizado profundo, a mastigação ajudará os chefs-robôs a ajustar o gosto para diferentes pratos e usuários”, disse o cientista sênior da fabricante de eletrodomésticos Beko, Muhammad Chughtai.

Fonte: Frontiersin, Gadgets360

https://canaltech.com.br/inovacao/chef-robo-consegue-degustar-pratos-como-um-ser-humano-215564/

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Políticas de bem-estar: Liderança deve tomar cuidado para não parecer “fake”

CEOs estão se envolvendo mais na agenda, mas devem evitar exageros, frases feitas e não praticar a mensagem

Por Jacilio Saraiva – Valor – 01/08/2022

Os CEOs podem ajudar a “vender” mais políticas de bem-estar nas empresas, mas devem evitar exageros para não passar uma imagem “fake”. É o que afirmam especialistas em gestão de pessoas ouvidos pelo Valor.

CEOs começam a se envolver mais com projetos de bem-estar

Treino virtual também reduz estresse e ansiedade

Quanto de atividade física é Quanto de atividade física é necessário por semana?

“Não dá para falar sem praticar a mensagem”, diz Ana Paula Montanha, sócia e cofundadora da Hayman-Woodward Human Capital Service, da área de recursos humanos. “Entender o momento do time, além de saber como a organização está funcionando a favor dos funcionários, é essencial para começar.”

Na visão de Montanha, com a pandemia, os CEOs perceberam que precisavam entregar além dos resultados esperados pelos acionistas. “Mas as corporações não existem sem as pessoas”, afirma. “É crítico que o CEO se mostre acessível e, sobretudo, humano.”

Por outro lado, destaca, as chefias devem evitar “frases feitas e discursos prontos” sobre bem-estar ou a tentativa de dizer que está tudo bem, quando todos estamos vivendo momentos difíceis.

Pesquisa realizada pela Hayman-Woodward com 135 CEOs, entre março e junho de 2022, revela que 49% deles relataram problemas de saúde mental. “A maioria diz que está sobrecarregada e sofre de estresse contínuo”, detalha.

Ao mesmo tempo, segundo o levantamento, apenas 40% dos departamentos de recursos humanos haviam percebido que o principal líder da companhia precisava de ajuda. “Isso mostra que temos de continuar aprendendo sobre o bem-estar.”

Luiz Barosa, sócio da consultoria de capital humano da Deloitte, diz que incentivar um discurso de higiene mental e não praticá-lo no dia a dia pode enterrar de vez a força de qualquer movimento genuíno. “Todos na organização se espelham no comportamento do C-level”, afirma. “Ao entender como o bem-estar está conectado ao trabalho, o CEO pode mudar a maneira como as pessoas produzem, o ambiente e até as interações.”

Foi o que fez Marco Castro, sócio-presidente da PwC Brasil, com cerca de cinco mil funcionários. Ele ajudou a encampar a inauguração e a readequação de novos escritórios da consultoria em São Paulo. “Os projetos dos espaços permitem uma experiência de bem-estar e flexibilidade, a partir do que discutimos com todos”, afirma. Há ambientes amplos de colaboração que lembram salas de estar, nichos menores para poucas pessoas e cortinas que ajudam a delimitar pontos de reunião, de acordo com as necessidades dos projetos.

Fábio Battaglia, CEO da consultoria de recursos humanos Randstad Brasil, sugere que o alto escalão atue como um “embaixador” de causas. Quando o presidente da empresa incentiva os departamentos responsáveis pela saúde e bem-estar, como o RH, ele se torna um facilitador e direciona outras gerências na implementação de mais programas, explica.

Empresas e gestores que não examinarem com atenção as necessidades dos seus talentos terão maiores desafios na atração e retenção de profissionais, continua Battaglia.

Em um estudo da Randstad que ouviu mais de 30 mil trabalhadores em 34 países, 97% dos entrevistados no Brasil encaram o equilíbrio entre vida pessoal e profissional como decisivo ao escolher, permanecer ou mudar de trabalho — o índice global ficou em 94%.

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2022/08/01/politicas-de-bem-estar-lideranca-deve-tomar-cuidado-para-nao-parecer-fake.ghtml

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Inteligência artificial: por que é necessário defender diretrizes e regulamentações

Dora Kaufman traz informações de ponta do cenário digital no mundo e no Brasil

Por Sheila Kaplan — Para o Valor, 31/07/2022 

Dora Kaufman privilegia o conhecimento científico sobre o tema em seu livro — Foto: Ilana Bessler/Divulgação

A inteligência artificial (IA) está disseminada hoje nas mais variadas áreas da sociedade e da economia, quase onipresente. São inegáveis os benefícios desta que se configura como a mais importante transformação científica e tecnológica do século XXI.

A IA vem sendo aplicada em diagnósticos médicos, sistemas de vigilância, prevenção a fraudes, análises de crédito, na indústria 4.0, na gestão de investimento, na oferta de melhores produtos e serviços, em pesquisas, tradução de idiomas, carros autônomos, no comércio físico e virtual, nas perfurações de petróleo, na previsão de epidemias – enfim, numa infinidade de setores e com efeitos palpáveis no cotidiano.

Contudo, não são poucos os riscos apresentados pela tecnologia. Mesmo que não embarquemos em figurações frequentes na ficção científica, em que as máquinas comandam humanos, as ameaças não são fictícias. A perda de privacidade dos cidadãos, o viés (discriminação contra indivíduos ou grupos com base no uso inadequado de certos traços), a potencial eliminação de um contingente expressivo de postos no mercado de trabalho em razão da automação e o uso de armas letais autônomas são alguns deles.

Daí que o assunto costuma despertar opiniões polarizadas. De um lado, os tecnoutópicos, saudando com otimismo acrítico o emprego da inteligência artificial. De outro, os catastrofistas, tecnófobos que temem o controle total dos humanos pelos algoritmos. Nem apocalíptica, nem integrada – para usar a categorização empregada pelo semiólogo Umberto Eco, na década de 1960, em referência à cultura de massas -, Dora Kaufman, autora de “Desmistificando a inteligência artificial”, privilegia o conhecimento científico sobre o tema, aquilatando os benefícios e alertando sobre os riscos reais que a tecnologia apresenta e como aplacá-los.

Economista, professora do programa Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC de São Paulo, Dora Kaufman reuniu os artigos que publica em sua coluna, na revista “Época Negócios”. Os textos,produzidos entre junho de 2019 e abril de 2022, foram agrupados em 12 blocos temáticos: fundamentos e lógica; mercado de trabalho; justiça e ética; o problema do viés; a economia de dados e o poder das big techs; iniciativas regulatórias; saúde, combate à covid-19; clima; cultura; interação humano-máquina e cenários futuros.

Ao examinar os impactos da IA em todos esses campos, a autora traz informações de ponta do cenário digital no mundo e no Brasil. Com abordagem multidisciplinar, ela estabelece as necessárias pontes entre as ciências exatas e as humanas, trazendo à tona as contradições implicadas nos avanços da IA.

Por exemplo, no campo do trabalho, onde se dá um dos seus efeitos mais perversos, a adoção das novas tecnologias gera, simultaneamente, desemprego e oferta de vagas em aberto por falta de candidatos qualificados; maior produtividade e desequilíbrio salarial, com salários crescentes para funções qualificadas e decrescentes para as de menor qualificação.

Contradições igualmente presentes no uso da IA para o enfrentamento das mudanças climáticas. Se, por um lado, a inteligência artificial tem papel importante no monitoramento do aquecimento global, na modelagem dos seus possíveis impactos, no desenvolvimento de novos materiais com uso reduzido de carbono, de outro lado, a emissão de carbono desses mesmos sistemas inteligentes está longe de ser desprezível.

Segundo Rob Toews, colunista da revista “Forbes”, a quantidade de energia consumida para rodar os modelos de IA aumentou 300 mil vezes entre 2012 e 2018, em função do aumento da quantidade de dados utilizada.

Foi a partir de 2010 que a IA teve um avanço significativo, com o desenvolvimento da técnica de aprendizado de máquina denominada de “redes neurais de aprendizado profundo” (deep learning), inspirada no funcionamento do cérebro biológico.

Os modelos de redes neurais, que permeiam a maior parte das aplicações atuais, possuem várias camadas de processamento compostas de neurônios artificiais, que permitem que as máquinas “aprendam” continuamente com os dados, no lugar de executar tarefas a partir de equações predefinidas, como na programação tradicional.

A despeito do desenvolvimento acelerado, ainda estamos nos primórdios dessa tecnologia, que, como qualquer outra, depende de como os seres humanos a percebem e usam. Por isso, trazendo à tona as questões éticas e filosóficas envolvidas, Kaufman defende a formulação de diretrizes e regulamentações, ainda frágeis, e, sobretudo, a conscientização da sociedade sobre a lógica, as aplicações e a responsabilidade sobre essas tecnologias. É o que ela faz, com clareza e precisão, levando-nos a refletir criticamente sobre as mudanças que hoje moldam nossas vidas.

Desmistificando a inteligência artificial Dora Kaufman Autêntica 336 págs. R$ 67,90

https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2022/07/31/inteligencia-artificial-por-que-e-necessario-defender-diretrizes-e-regulamentacoes.ghtml

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Arábia Saudita anuncia prédio com 170 km de extensão

Mega projeto do príncipe herdeiro saudita foi anunciado como uma cidade vertical com capacidade para 9 milhões de residentes.

Por Sávio Ladeira, g1 29/07/2022 


Projeto de mega prédio com 170 km de extensão foi anunciado para a cidade de Neom, na Arábia Saudita — Foto: Neom/Divulgação

Projeto de mega prédio com 170 km de extensão foi anunciado para a cidade de Neom, na Arábia Saudita — Foto: Neom/Divulgação

Um prédio de 170 km de extensão, 500 metros de altura e 200 metros de largura é a mais nova mega construção anunciada para Neom, nome da cidade idealizada pelo príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohamed bin Salman.

Seguindo o exemplo de cidades como Dubai e Doha, Neom é uma cidade planejada e idealizada que foi anunciada em 2017, mas que suas obras ainda não começaram. Segundo o príncipe, a cidade compreenderia “empreendimentos urbanos positivos em carbono movidos a energia 100% limpa”.

Um desses empreendimentos será o prédio The Line, uma enorme construção linear que está prevista para acomodar 9 milhões de residentes em uma área de 34 quilômetros quadrados. Segundo o site de divulgação do projeto, essa escolha foi feita para acomodar uma grande quantidade de pessoas em uma área de terra relativamente pequena, como forma de preservação ambiental.

Se for realmente construído, a cidade vertical não terá carros e será totalmente abastecida por energia renovável.

Para ter uma noção do tamanho dessa construção, se ele começasse no centro de São Paulo, o outro lado do prédio estaria próximo da cidade de Guaratinguetá, no interior do estado. Já se fosse na zona sul do Rio de Janeiro, ele passaria de Juiz de Fora em Minas Gerais. Ocuparia quase todo o litoral de Pernambuco, que tem aproximadamente 187 km de extensão.

Não há previsão de início das obras e o projeto será exibido para o público na primeira quinzena de agosto em Jeddah, uma das maiores cidades da Arábia Saudita.

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2022/07/29/arabia-saudita-anuncia-predio-com-170-km-de-extensao.ghtml

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Pirelli: com o carro elétrico, o pneu continuará preto e redondo, de resto, muda completamente

Fabricante italiana prevê que 60% de seus pneus homologados até 2025 equiparão carros a bateria, que exigem desempenho diferente. Pauta ambiental também promove a busca por material não fóssil, como casca de arroz e celulose

Rodrigo Caetano – Exame – 20/07/2022 

Quem dirige um carro elétrico logo percebe que ele é igualzinho a um carro a combustão, exceto pelo fato de ser completamente diferente. A contradição se explica: para o consumidor, a experiência é a mesma, com algumas melhoras. Para a indústria, e toda a cadeia automotiva, é como comparar um elevador com uma escada rolante — com o agravante de que até os componentes que parecem iguais, são diferentes.

É o caso, por exemplo, dos pneus. “Continuarão a ser pretos e redondos, mas é só”, afirma Cesar Alarcon, CEO da fabricante italiana de pneus Pirelli no Brasil. “O veículo elétrico é mais pesado e mais rápido na aceleração, o que demanda um desempenho bem distinto”. Para Alarcon, a mudança da matriz energética do setor de transporte e mobilidade é apenas a ponta do iceberg de uma transformação mais profunda. “Há muito desenvolvimento que não se vê da superfície”, afirma.

A cadeia de valor da indústria automotiva sofre a influência, obviamente, das montadoras. Se o caminho estratégico definido pelas fabricantes de automóveis é o da eletrificação, é nessa direção que a Pirelli andará. Pelas projeções da companhia, até 2025, 60% dos pneus vendidos e homologados estarão equipando carros elétricos.

Pneus com menor atrito e mais silenciosos

Por isso, grande parte do esforço de desenvolvimento está concentrada em melhorar dois aspectos do produto: a menor resistência ao rolamento, um aspecto fundamental para economizar energia e aumentar a autonomia do veículo, o calcanhar de aquiles dos elétricos; e o silêncio. “Ninguém quer, num carro que não tem barulho de motor, ficar escutando um pneu barulhento”, diz Alarcon.

A nova rota das montadoras, porém, não é o único motivo que leva a Pirelli a reformular por completo seus produtos, exceto pela cor e forma. “A eletrificação tem um grande objetivo, que é reduzir as emissões. Apesar da mudança da matriz energética não ser uma pauta exclusivamente ambiental, não podemos perder esse Norte”, diz o CEO. Essa compreensão leva a empresa a buscar novas matérias-primas e a reduzir o uso de componentes de origem fóssil, notadamente o petróleo.

No Brasil, onde está o segundo maior centro de inovação da companhia, menor apenas que o de Milão, estão sendo conduzidas experiências com casca de arroz e celulose, por exemplo. Um pneu é feito, principalmente, de borracha natural e sintética, fios de aço e componentes químicos. Nesses últimos componentes e na borracha sintética é onde ocorre o maior uso de material fóssil. Além, é claro, da energia utilizada na fabricação, que também vem sendo substituída por fontes renováveis.

A velocidade da eletrificação no Brasil

Manter a conexão com o objetivo central da eletrificação ajuda, também, a compreender a velocidade desse processo em diferentes partes do mundo. Segundo Alarcon, a tendência é que a mudança da matriz demore mais a acontecer no Brasil do que na Europa ou na China. Isso se deve à disponibilidade de energia limpa. “A Europa e a China têm uma urgência muito maior de eletrificação, pois não contam com alternativas. No Brasil, há o etanol. Acredito que o carro elétrico irá chegar por aqui, mas deve levar alguns anos a mais”, define o executivo.

https://exame.com/esg/pirelli-com-o-carro-eletrico-o-pneu-continuara-preto-e-redondo-de-resto-muda-completamente/

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“É possível trabalhar sem chefe”, diz diretora de RH da Sandoz

Em live da série RH 4.0, Priscilla Cotti, diretora de RH e comunicação da Sandoz fala sobre o conceito “unboss” que vem transformando as relações de trabalho na farmacêutica

Por Jacilio Saraiva, Para o Valor 26/07/2022

É possível trabalhar “sem chefe”. Quem garante é Priscilla Cotti, diretora de RH e comunicação do Brasil e na América do Sul da Sandoz, divisão da multinacional Novartis, com 422 funcionários no país. Desde 2018, a multinacional suíça aposta no conceito de “unboss” (sem chefe), com a intenção de remover barreiras de hierarquia, dar mais autonomia aos funcionários e abrir espaço para a criatividade no ambiente de trabalho. “Queremos que os funcionários tenham autonomia, com responsabilidade, e que os gestores não se tornem uma espécie de super-heróis, que sabem tudo e não podem errar”, explicou Cotti durante live da série RH 4.0 do “Carreira em Destaque”, mediada pela editora de Carreira do Valor, Stela Campos.

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O conceito usado na Sandoz é baseado nas ideias do livro “Unboss”, que os empreendedores dinamarqueses Lars Kolind e Jacob Bøtter escreveram em 2012. “Buscamos dar um novo papel à liderança, com gestores mais humanizados, que trabalham com os times não apenas direcionando pessoas, mas engajando a todos num propósito.”

Priscilla Cotti, diretora de RH e comunicação na Sandoz Brasil e América do Sul — Foto: Reprodução / Youtube Valor

Apesar da força da expressão “sem chefe”, os gestores estão no centro dessa transformação. A Sandoz investiu no treinamento das chefias e em rodas de conversas, em que os funcionários tiram dúvidas sobre a nova dinâmica e se sentem mais seguros para colaborar. Do total de empregados, 78 ou 18% do quadro são considerados líderes. Um dos pontos trabalhados foi a cultura do feedback, destacou. “Os times ajudam os líderes a dar essa ‘virada de chave”’, disse. “As avaliações são feitas por todos, de chefes para liderados e de liderados para gestores.”

Cotti afirmou que as lideranças recebem os “inputs” das equipes de três a quatro vezes ao ano. Com os relatórios em mãos, avaliam como podem aperfeiçoar aspectos de gestão. Mas, para que isso desse certo, contou, com os funcionários “falando” dos chefes, foi preciso criar um ambiente psicologicamente seguro, com modelos de comunicação para transmitir as sugestões.

Uma das noviidades é um sistema que recebe perguntas dos funcionários de forma anônima. As questões podem ser respondidas pelo CEO, pela diretoria ou o RH. “Assim, [todo o processo] vai se tornando normal, pois a empresa também não se transforma em um dia. Os treinamentos sobre o tema são contínuos.”

Outra ferramenta, conhecida como “check-in”, permite que qualquer funcionário solicite impressões do seu trabalho a pares e clientes e também dê as suas. As situações relatadas usam exemplos de ações que aconteceram e a liderança tem acesso às informações. “Não há somente feedbacks bons, há alguns duros também”, ressaltou. “O intuito não é ser negativo, mas auxiliar as pessoas a melhorarem.”

A executiva explicou que uma das formas de tirar o máximo proveito dos feedbacks é considerá-los como “feedforwards”. “Precisamos focar no que pode ser corrigido à frente”, disse. “É importante atuar com uma abordagem positiva da situação avaliada para apoiar o funcionário na construção do seu futuro.” A Sandoz, afirmou, incentiva não só o crescimento hierárquico dos empregados, mas o “lateral” (entre áreas).

Mas nem todo mundo gosta de receber análises ruins de desempenho, lembrou. Quando isso acontece, o RH orienta o funcionário a entender o cenário e buscar alternativas. O acolhimento pode vir também dos colegas de trabalho. Abrir os resultados da avaliação com o time e mostrar as vulnerabilidades como líder podem contribuir para uma mudança de perfil, diz Cotti. A executiva admite que ela, por exemplo, é avaliada como “muito pragmática e objetiva”.

Nessa linha, todos os funcionários que entram na empresa recebem uma espécie de “livro das fortalezas”, em que listam suas principais qualidades. O objetivo é criar um “grid” (conjunto) de competências da força de trabalho. Quando o executivo ingressa na companhia, já sabemos no que ele é bom, disse.

Para avaliar o efeito das ações na produtividade ou atualizar as iniciativas em curso, a Sandoz realiza uma pesquisa com 13 perguntas, que se repete a cada quatro meses, com as mesmas questões. “O Brasil tem um dos maiores índices de engajamento do mundo”, garantiu. “Em uma escala de até 100 pontos, em que a média global é 75, a operação local marca 91 e já atingiu 96 no auge da pandemia.”

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2022/07/26/e-possivel-trabalhar-sem-chefe-diz-diretora-de-rh-da-sandoz.ghtml

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‘Não investir na educação é dar um tiro no futuro’

Glauco Arbix, sociólogo, professor e especialista em inovação, diz que o estrago feito na educação básica no Brasil vai ser sentido em 10 a 15 anos

Por Marli Olmos — Valor 28/07/2022

Glauco Arbix, professor titular do departamento de Sociologia da USP: “Inovação não é computador; é gente” — Foto: Carol Carquejeiro/Valor

Vivemos um novo ciclo, científico e tecnológico, “que está sacudindo o planeta”, segundo o sociólogo e professor Glauco Arbix, especialista em inovação. O lado perverso, diz, é que esse movimento não é reproduzido de maneira igual em todo o planeta. No Brasil, existe, segundo ele, um retrocesso que começa na educação básica e envolve outras variáveis, como desigualdade social e descuido com a proteção ao meio ambiente, o que reduz a capacidade de o país acompanhar o ritmo mundial da evolução do conhecimento.

Para ele, se nas nações desenvolvidas a inteligência artificial é a bola da vez, as emergentes não conseguem sequer requalificar a mão de obra, ainda presa a ferramentas do passado, para aprender a lidar com o mundo digital, manusear um computador, e que falha até em noções básicas de matemática.

Durante a Live do Valor, ontem, Arbix disse que o país inovador é o que tem pessoas qualificadas, que pensam e transformam ideias. “Inovação não é computador; é gente”, destacou. Mas, no Brasil, nos últimos anos, as políticas públicas voltadas ao financiamento do conhecimento “regrediram a patamares do início dos anos 2000”. Para ele, o estrago feito nos últimos cinco anos, incluindo a educação básica, será sentido daqui a dez ou 15.

Professor titular do departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), Arbix diz que, no Brasil, o governo não tem atuado como indicador de caminhos para que universidades, instituições e empresas trabalhem em parceria, como se vê em países desenvolvidos.

Para piorar o quadro, ele percebe efeitos nocivos ao futuro da inovação no país como consequência de medidas que o governo toma hoje. É o caso da recente “PEC das Bondades”, que fará cortes no orçamento em saúde e educação para garantir os recursos necessários para as despesas excepcionais, com o aumento do Auxílio Brasil e o voucher caminhoneiro, entre outros.

“Não investir na educação é dar um tiro no futuro do país”, diz. “E o governo, que deveria ser o estimulador acaba sendo uma barreira”, completa.

Outro problema que o país precisa resolver antes de dar saltos rumo à inovação, segundo Arbix, diz respeito à baixa produtividade. “As empresas precisam ganhar dinamismo nesse aspecto para que o país tenha uma economia mais pujante”, afirma. Para o sociólogo, que também é fundador do Observatório de inovação e competitividade, da USP, uma economia baseada em commodities é importante. “Mas somente quando combinada com a indústria é capaz de gerar uma economia moderna”.

A preservação de empregos num mundo que se volta cada vez mais à automação também o preocupa. A substituição do trabalho humano por máquinas não é de hoje. “A tecnologia que surgiu no século XX trouxe muitas mudanças”, destaca. “Quantos que acendiam lamparinas usando óleo não perderam o emprego quando surgiu a eletricidade? A tecnologia mata empregos, mas abre novas oportunidades; é preciso entender como estamos nesse processo”, afirma Arbix, que já foi presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Para ele, robôs não servem para substituir pessoas e a ideia de usar a tecnologia no lugar de gente “é nociva à sociedade”, apesar de, afirma, muitas empresas agirem dessa forma. “O fazem pensando que vão ganhar uns tostões, mas isso tem fôlego curto”. Para Arbix, o futuro tende a ser híbrido, com as máquinas trabalhando com as pessoas e não no lugar delas, com o intuito de aperfeiçoar precisão e qualidade. “Isso aparece no robô cuidador, no robô industrial”, afirma. “Essa interação tende a definir o futuro da tecnologia.”

Se a atual imagem do Brasil no exterior é motivo de preocupação na área empresarial e financeira, na acadêmica e de pesquisa a situação não é diferente. “Ninguém quer chegar perto de um país que não protege suas florestas, não respeita tratados ou sequer os acordos que assinou”, diz. A situação faz com que pesquisadores tenham mais dificuldade para participar das redes globais que geram conhecimento, diz Arbix, cujos estudos de pós-doutorado incluem passagens por universidades dos Estados Unidos e Inglaterra.

Para o Brasil, o ideal, recomenda, seria absorver o conhecimento já desenvolvido nas regiões mais ricas e promover o intercâmbio intelectual, levando em conta que o país também é rico em conhecimento. Basta ver, aponta, o envolvimento dos pesquisadores de saúde nas descobertas das vacinas para combater a covid-19.

“Não há nenhuma explicação biológica para o Brasil ficar para trás. Isso diz respeito apenas às escolhas que fazemos. Escolhas políticas, científicas, educacionais, tecnológicas e econômicas”, afirma. “Na situação em que estamos com a auto-estima baixa vamos continuar a achar que o Brasil não tem jeito, que o país será sempre motivo de chacota e continuaremos fazendo piada de nós mesmos.”

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2022/07/28/nao-investir-na-educacao-e-dar-um-tiro-no-futuro.ghtml

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Procura por C-levels as-a-service cresce em startups e pequenas empresas

Tendência se beneficiou de contratos mais flexíveis e pela necessidade de contar com a experiência de executivos de alto escalão


REDAÇÃO FAST COMPANY BRASIL 11-07-2022 |

O panteão do C-level conta com várias siglas que representam executivos com diferentes formações e experiências para gerir com eficiência as principais áreas de uma empresa. Nem sempre, porém, o negócio tem capital suficiente para investir em uma contratação nesse nível. Isso gerou uma nova tendência: a dos C-levelas-a-service, ou on demand – traduzindo, lideranças de aluguel.

Funciona assim: empresas oferecem executivos de alto escalão para trabalhar em startups ou pequenos e médios negócios por um tempo determinado, ou por projeto. São mais comuns a contratação de CFOs (especializados em finanças), CTOs (tecnologia) e CEOs (administração).

“Notamos o movimento no mercado de tecnologia, com o surgimento do CTO-as-a-service. Muitas dessas empresas eram fábricas de software que perceberam que poderiam capturar valor a partir da troca de serviços de desenvolvimento por equity. É um modelo bastante difundido e que nos inspirou”, afirma Walter Cavalcante, um dos fundadores da Sinapse, empresa com foco em CFO-as-a-service.

A tendência também ficou conhecida como CTO fracionário, cuja busca acelerou nos últimos meses. Os modelos de contrato e trabalho mais flexíveis incentivaram os executivos a se abrirem à possibilidade de não se prender a apenas uma empresa – sem falar de cobrar mais por projetos mais curtos.

OS FORMATOS DE TRABALHO OPEN TALENT ESTÃO SENDO MAIS INCORPORADOS PELAS EMPRESAS E ORGANIZAÇÕES.

“A forma como colaboramos está em plena transição, com a pandemia sendo uma grande divisora de águas no sentido das relações de trabalho. As empresas têm que repensar seus processos, que vão desde como e onde seus colaboradores trabalham até formatos de contratação”, afirma Karina Rehavia, fundadora e CEO da Ollo, empresa de contratação de profissionais independentes.

Karina Rehavia, da Ollo (Crédito: Divulgação)

“Nesse contexto, os formatos de trabalho open talent estão sendo mais incorporados pelas empresas. É cada vez mais comum a composição de times que incluem colaboradores fixos e freelancers”, explica Karina.

O movimento já foi detectado por pesquisas: 60% dos profissionais C-level entrevistados no estudo “Building the On Demand Workforce“, realizado pela Harvard Business School, disseram que cada vez mais vão preferir compartilhar talentos com outras empresas.

TEMPO DE ADAPTAÇÃO

Há vários benefícios para quem busca o C-level-as-a-service, como padronização de processos e dados; automação e acesso à inteligência de um time com experiência; contatos e conhecimento técnicos de executivos experientes; além de custo menor do que o de contratar um profissional em tempo integral.

“Profissionais C-level temporários ou fracionais podem trazer pontos de vista diferentes para as empresas, seguindo uma lógica similar à de uma consultoria externa”, complementa a CEO da Ollo.

PROFISSIONAIS C-LEVEL TEMPORÁRIOS PODEM TRAZER PONTOS DE VISTA DIFERENTES.

Para empresas que procuram esse tipo de serviço, ela recomenda que invistam tempo no onboarding e na imersão desses profissionais e em treinamentos relativos a processos e procedimentos, já que eles não vão ter o mesmo nível de entendimento da cultura organizacional e dos valores da empresa na qual vão atuar.

Também é importante, principalmente para aquelas que estão voltando ao trabalho presencial, que a estrutura esteja preparada para trabalhar com esses profissionais de forma remota.

Outro ponto de atenção é fazer uma busca cuidadosa e criteriosa do profissional, para que sua experiência e formação se encaixem com os desafios da empresa. É nessa hora que as consultorias podem ajudar.

“Nosso foco está em resolver as dores de empresas que estão crescendo e buscando estruturar a área financeira. Quase todos os nossos clientes são iniciantes, com faturamento anual de até R$ 300 milhões”, afirma Cavalcante, da Sinapse. “A proposta é aumentar a produtividade dos times por meio do emprego de tecnologia.”

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Recuperação e expansão de florestas e outros biomas pode vir do céu

Drones entram em cena para lançar sementes e monitorar o crescimento da vegetação em áreas afetadas por secas e incêndios

Crédito: Divulgação


FÁBIO CARDO – Fast Company 21-07-2022 | 

Mudanças climáticas são grandes riscos para a previsibilidade da atividade agropecuária. O clima afeta diretamente toda a cadeia produtiva, que depende de chuvas e períodos secos para que os produtores possam programar quando preparar o solo, semear, tratar e colher.

À medida em que florestas e outros biomas são danificados, seja por ação direta do ser humano (poluição, queimadas intencionais, derrubada de matas em áreas de proteção ambiental) ou indireta (fogo, inundações, secas), os parâmetros de clima ficam cada vez mais incertos.

Não importa o motivo, o fato é que as florestas têm que ser repostas, os biomas recriados, o carbono fixado no solo – ações para buscar nova estabilidade e mais previsibilidade climática. Algumas empresas estão acelerando esses processos de recuperação de florestas, com planos que preveem o replantio de bilhões de árvores até 2028. Bilhões.

Como isso é possível? Com o uso de drones e muita tecnologia. Os drones podem ser os aliados para o conhecimento das características de solo e clima dos locais onde serão realizados o replantio. Um único drone é capaz de lançar ao solo milhares de sementes, além de realizar o acompanhamento do processo de evolução das sementes e de crescimento das plantas.

Drones são usados na na recomposição de florestas na Califórnia (Crédito: Divulgação)

Uma das líderes desse processo é a canadense Flash Forest, fundada em 2019. Além dos drones, a empresa tem um software com sistema de mapeamento aéreo, automação de processos e tecnologia de sementes biológicas, que inclui um mix de sementes, fertilizante e mycorrhizae (raiz de fungo, fundamental para a nutrição da planta e saúde do solo).

O uso integrado da tecnologia já permite a reconstrução de áreas extensas de florestas no Canadá que passaram por incêndios de grandes proporções.

A empresa realiza o acompanhamento de todo o processo de mapeamento e preparação do solo, lançamento das sementes de diversas variedades de árvores, acompanhamento da evolução do crescimento e eventuais replantios. Atuando junto com organismos públicos, promove a recuperação, inclusive, em áreas de difícil acesso ou sem segurança.

A atividade Flash Forest está em franco crescimento mas ainda depende de novos investimentos para expandir para outros países. Estão em fase de buscar o investimento de série A, por exemplo, e ainda assim, mantendo o crescimento da operação. A empresa diz que ainda não tem planos de atuar no Brasil.

Outra que trabalha com sistema similar de replantio é a DroneSeed. Ela atua prioritariamente na recomposição de florestas na Califórnia, onde incêndios florestais devastam extensas áreas todos os anos. Um drone tem capacidade para carregar quase 26 quilos de sementes, junto com os compostos para promover a fertilização e ainda pimenta para afastar os roedores.

Empresas atuam junto com as comunidades locais (Crédito: Divulgação)

Ambas as empresas atuam junto com as comunidades locais, que conhecem melhor as particularidades de solo e das áreas a serem plantadas. Um esforço conjunto para a recuperação florestal em áreas que sofreram com as queimadas.

Por que não adotar o mesmo modelo de replantio e recuperação de outros biomas em todo o mundo, incluindo áreas degradadas no Brasil?

O uso de drones no Brasil nas áreas rurais está crescendo, permitindo realizar diversos mapeamentos de áreas de cultivo e das reservas legais, aplicando insumos no campo com bastante precisão, captando imagens em alta definição e coletando detalhes importantes na definição das ações necessárias para garantir melhor produtividade com o menor impacto ambiental.

Temos também boa oferta tecnológica de mapeamento, desde áreas extensas e até o micromapeamento de solo com o apoio de satélites, drones, equipamentos de solo instalados em tratores com sensores que medem umidade, qualidade dos orgânicos, pragas.

Todos os dados são processados em estruturas de banco de dados, com uso de inteligência artificial e big data. São sistemas que podem ser somados no processo de replantio de vegetação usando drones.


SOBRE O AUTOR

Fábio Cardo é economista de formação, atua em comunicação empresarial e empreendedorismo e é co-publisher do canal FoodTech da Fast Company

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Novos estudos mostram que a criatividade está, sim, ao alcance de todos

Qualquer mortal pode desenvolver a capacidade, desde que seja estimulado

Por Ricardo Ferraz – Veja – 22 jul 2022 

Em uma rara manifestação de modéstia, Steve Jobs (1955-2011), o gênio da Apple que idealizou o iPhone, dizia que mentes criativas como a dele “na realidade não inventaram nada, só viram algo que escapou aos outros”. Para ele, criatividade era simplesmente a arte de ligar os pontos e conectar ideias. Dito assim, parece fácil, mas é de elevada complexidade a habilidade envolvida nessa colagem de pensamentos dispersos, uma junção que exige não só manter a mente aberta, mas dedicada à curiosa observação do entorno com o constante ímpeto de transformá-lo. A inventividade humana sempre esteve associada aos grandes visionários de todas as áreas, até que a ciência entrou em cena e começou a dissipar o mito de que apenas alguns integrantes da espécie são premiados com o dom dos criativos. Não é verdade. O que já se sabe, a partir de sólidas descobertas, é que essa capacidade, tão valorizada no século XXI, pode ser estimulada e talhada por toda a vida. E, quanto mais cedo, melhor. 

Estudos recentes, um deles da Universidade Harvard, examinaram minuciosamente o cérebro no momento em que ele é instado a se debruçar sobre um problema e a obter caminhos para sua resolução. Ficou claro que, diante do desafio, múltiplas regiões da mente são acionadas ao mesmo tempo, promovendo uma ebulição capaz de descortinar um leque de possibilidades para sua solução. É justamente dessa diversidade de trilhas que pode emergir o inesperado, a criação com letras maiúsculas. O mergulho dos cientistas de Harvard, com seus aparelhos de ressonância magnética, enfatiza ainda que a criatividade não se dá sobre uma folha de papel em branco: um repertório de experiências e conhecimento acumulado fazem toda a diferença para aquele almejado salto rumo à novidade. Uma constatação que passa por cima de outra máxima cristalizada, a de que as invenções são, basicamente, fruto da inspiração pura.

O apreço de hoje pelo poder inovador foi medido em um levantamento da consultoria McKinsey segundo o qual, até 2030, a demanda por profissionais criativos aumentará em até 40% na Europa e nos Estados Unidos, deixando cada vez menos espaço para os repetidores de tarefas moldados para a era industrial. Que fique claro o que está no radar de recrutadores e CEOs: não se trata apenas de ter aquele estalo original — ele também tem que se provar útil e aplicável. Esse é um princípio, aliás, que norteou o pendor de gênios altamente criativos ao longo da história, como o renascentista Leonardo da Vinci. Ele cravou sua digital na arquitetura, na ciência, na engenharia e nas artes embalado pelo motor da curiosidade, um ingrediente comprovadamente essencial no caminho da descoberta, presente em outras mentes efervescentes, como as do físico Albert Einstein e do próprio Jobs (veja no quadro abaixo).

Graças aos avanços científicos, foi possível mapear os impactos positivos do incessante exercício da inventividade, que pode ser cultivado por qualquer mortal. O permanente incentivo à busca de respostas nunca antes dadas esculpe pontes entre os neurônios, e elas vão se fortalecendo à medida que eles são postos a trabalhar. “A criatividade é uma habilidade superior, que faz surgir novas conexões entre diversas áreas da mente e contribui para a formação de redes neurais e de memória, com efeitos de longo prazo”, explica Mauro Muszkat, neuropediatra e professor da Unifesp. Um estudo seminal que investigou o processo de improvisação no cérebro da pianista venezuelana Gabriela Montero, famosa pelos dedilhados inesperados em obras clássicas, identificou ligações relacionadas a coordenação motora, audição e visão em nada menos que 22 regiões da mente — inclusive em repouso. São indícios de um cérebro inquieto típico de quem vive às voltas com altas doses de criatividade.

DANÇAR PARA INOVAR - Irlanda: ensinar artes e envolver as crianças em oficinas literárias dá gás à engenhosidade – CreativeIrl/.

Não se trata, é natural, de uma capacidade que se ensina diretamente, como português ou matemática. Ela é estimulada e treinada através do chamado “pensamento divergente”, que consiste em abrir várias janelas na mente ao mesmo tempo para encarar um desafio. Em comparação à educação convencional, é como uma revolução. “A escola tal qual a conhecemos fomenta sobretudo o pensamento convergente, em que os alunos são motivados a buscar respostas únicas e incontestáveis, conforme determinam os livros didáticos”,afirma Solange Wechsler, professora de psicologia da PUC-Campinas. Os colégios mundo afora vêm sendo mais vagarosos do que requer o mercado na formação de um contingente criativo, mas vislumbram-se, nos próximos anos, bem-vindas iniciativas em prol de um ensino mais afinado com os ventos da modernidade.

Um bom exemplo vem da Irlanda. Determinado a figurar no topo do ranking das nações mais inovadoras, o país está revendo todo o currículo para incorporar o ângulo da “divergência” no dia a dia da sala de aula. Todos os estudantes têm ali a chance de aplicar o lado criativo em lições de culinária, moda, dança e oficinas literárias, que respondem por uma fração considerável do batente escolar. “Assim, naturalmente, as crianças vão desenvolvendo a capacidade de questionar e adotar abordagens imaginativas”, enfatiza a VEJA Mags Walsh, diretora do programa.

Apesar da complexidade do tema, as soluções que vêm sendo testadas pendem, em sua maioria, para a simplicidade. O método de dar gás à criatividade concebido pelos cientistas do Media Lab, o laboratório do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) que há décadas se dedica a refletir sobre inovação e educação, propõe que as escolas absorvam em todos os níveis o ambiente de mais iniciativa e menos cobrança tão presente no jardim da infância. “Nessa fase, as crianças criam à vontade e têm a liberdade de errar e aprender com os erros”, diz Leo Burd, pesquisador do MIT, que trabalha em uma parceria com a Fundação Lemann para levar o método a redes públicas brasileiras. Na escola Camino, em São Paulo, que vai até os anos finais do fundamental, os alunos se envolvem em projetos para resolver problemas concretos, com elo na realidade. “O professor é sobretudo um orientador, que guia crianças e adolescentes no mundo do saber”, diz Artur Slama, que exerce a função.

Mas ainda que figure entre os itens mais ambicionados deste século, a criatividade é muitas vezes relegada a segundo plano justo quando ela deveria ser mais alimentada — na infância. “Se alguém dissesse que alunos de 15 anos estão se saindo pior em matemática do que os de 10, logo se imaginaria que há algo errado na educação, mas raramente vemos essa reação quando o assunto é a criatividade”, alerta o físico Andreas Schleicher, diretor de educação da OCDE, o clube das nações mais desenvolvidas. Sinal dos novos tempos, a organização desenvolveu uma maneira de avaliá-la que, pela primeira vez, será incluída no PISA, a mais renomada medição global da qualidade do ensino. “Acredito que o novo PISA vai nortear mudanças decisivas no currículos escolares”, diz Ricardo Primi, consultor do Instituto Ayrton Senna.

Com base no ranking da criatividade da OCDE, o instituto está preparando um material para mestres interessados em tornar os conteúdos mais instigantes. O método, testado em pequena escala, estará disponível, até 2024, para redes públicas. No ensino particular, 30 000 alunos de oitenta escolas contam com uma plataforma digital para desenvolver as tão ventiladas habilidades socioemocionais, três delas relacionadas à abertura ao novo. “Criatividade é uma capacidade híbrida, que nasce a partir do desenvolvimento da curiosidade, da imaginação e da persistência em adquirir conhecimento ”, lembra o psiquiatra Celso Lopes, do grupo Semente, à frente do projeto. Desenvolver essas competências faz diferença, inclusive, na aprendizagem das matérias regulares: as crianças que passaram pelo programa tiveram, por ora, melhora de até 11% nas notas finais.

No curso da evolução, o Homo sapiens se sobrepôs às outras espécies porque aprendeu a andar em bandos e se mostrou mais resiliente a doenças, lesões e estresse — resultado, segundo um estudo recém-publicado na revista Nature, de uma explosão criativa ocorrida geneticamente nos humanos há 40 000 anos. Essencial para a sobrevivência no passado, a criatividade será cada vez mais determinante na pavimentação do nosso futuro.

Publicado em VEJA de 27 de julho de 2022, edição nº 2799 

https://veja.abril.com.br/comportamento/novos-estudos-mostram-que-a-criatividade-esta-sim-ao-alcance-de-todos/

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