Os fenícios grandes navegadores da antiguidade

Por João Lara Mesquita – Estadão – 16 de outubro de 201716

Grandes navegadores da antiguidade, os fenícios eram a força predominante ao seu tempo

Os fenícios nos legaram muito mais que apenas o alfabeto. A civilização surgiu no Levante por volta de 3000 a.C. Acima de tudo, eram famosos por seu domínio da antiga navegação marítima e construção naval e, provavelmente, foram os primeiros a pesquisar o Mar Mediterrâneo e a ultrapassar o Estreito de Gibraltar para se aventurarem no oceano Atlântico. Descendentes, à primeira vista, dos misteriosos “Povos do Mar” que migraram da Península Arábica, chegaram à costa do que hoje é o Líbano. Frequentemente estabeleceram grandes cidades em Beirute, Byblos, Tiro, Sidon e Baalbek. Sua posição como marítimos dominantes foi observada por Homero, a Bíblia e obras de arte egípcias antigas. Assim como outros povos antigos e modernos, foram a maior potência naval ao seu tempo.

Proezas fenícias registradas para a posteridade.

Como os fenícios se tornaram grandes navegadores

Nesse meio tempo, conseguiram desenvolver habilidades de navegação e construção naval mais avançadas que as de todas as culturas que cercam o Mediterrâneo.

Navio fenício-púnico, de uma escultura em relevo descoberta em sarcófago do século II a.C (Crédito:www.ancient.eu)

Assim, perto do fim da era do bronze (cerca 1300-700 a.C) quando os egípcios ainda não eram um povo marítimo, e as civilizações grega e hebraica ainda não tinham se desenvolvido até o ponto em que poderiam fazer extensas viagens marítimas, eram eles que dominavam o mar.

A princípio, navegaram por todo o Mediterrâneo. Além disso, viajaram para fora do Estreito de Gibraltar, no Atlântico, onde estabeleceram colônias na Península Ibérica. Fizeram, igualmente, extensas viagens ao longo da costa da África.

Atualmente, encontros de naufrágios confirmam a excelência dos barcos fenícios.

A navegação fenícia

Entretanto,  não conheciam a bússola ou qualquer outro instrumento de navegação. Baseavam-se, sobretudo, em características naturais do litoral. Além disso, usavam as estrelas, o sol, os marcos da costa, a direção dos ventos enquanto contavam com a experiência do capitão sobre as marés, correntes e ventos da rota.

As colônias fenícias

A mais famosa foi Cartago, localizada no que é agora a Tunísia, norte da África. Estabelecida algum tempo após 800 d.C.  Eventualmente, tornaria-se uma grande cidade, tão poderosa que desafiou o império romano. Por fim, acabou destruída durante as guerras púnicas.

Antes, porém, os fenícios criaram uma rede comercial sem precedentes que foi de Chipre, Rodes, Ilhas do Mar Egeu, Egito, Sicília, Malta, Sardenha, Itália central, França, Norte de África, Ibiza, e além das Colunas de Hércules (hoje Estreito de Gibraltar).

Dessa forma, com o tempo essa rede transformou-se em um império de colônias contribuindo para que atravessassem os mares e ganhassem a confiança até chegarem a lugares tão distantes como a  Grã-Bretanha e, até mesmo, a costa atlântica da África.

Os fenícios realizavam comércio através da galé, um navio movido a velas e remos. Eles foram creditados como os inventores do birreme, tido como o melhor navio da antiguidade. Gregos e romanos copiaram e aprimoraram o modelo.

Fenícios grandes navegadores, ‘inventaram a quilha’

Eram famosos na antiguidade por suas habilidades na construção de navios. Foram creditados, igualmente, pela invenção da quilha, bem como o calafeto (para vedar a entrada d’água) entre as tábuas da embarcação. Das esculturas assírias em Nínive e Khorsabad, e descrições em textos como o livro de Ezequiel, na Bíblia, sabemos que os fenícios tinham três tipos de navios.

Ilustração: http://www.oocities.org

Os navios de guerra

Os navios de guerra tinham uma popa convexa, eram impulsionados por uma grande vela retangular num único mastro, e com dois bancos de remos (birreme). O comprimento era sete vezes maior que  sua largura, para carregar o número necessário de tripulantes, remadores e guerreiros. Herodotus e Tulcídides concordam que a velocidade média de uma antiga embarcação era de cerca de 6 milhas por hora.

Navio de guerra dos fenícios grandes navegadores (Ilustração: monacoreporter.com)

Os navios fenícios tinham um convés e estavam equipados com um aríete na proa. A popa era igual aos navios de carga, mas a proa,  muito diferente, era em si uma arma. Tinha um esporão de bronze de várias formas  usado para investir e furar o casco dos navios inimigos.

Nas proas dos navios foram pintados olhos comuns e, acima deles, aberturas para cabos de ancoragem. Havia na proa um arco usado por guerreiros, ou catapultas; e um pós-castelo no final da popa que abrigava o capitão e os oficiais. Havia, ainda, dois lemes para a direção, um de cada lado da popa.

Os navios de comércio

O segundo tipo foi para fins de transporte e comércio. Estes eram semelhantes aos primeiros, mas, com cascos largos, ‘inchados’, eram bem mais pesados. Tinham um grande espaço de carga.

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ilustração de navio de carga dos fenícios grandes navegadoresNavio de carga dos fenícios grandes navegadores (Ilustração: peopleofonefire. com)

O comprimento era quatro vezes maior que  sua largura e sua capacidade de carga, de cerca de 450 toneladas. Uma frota podia consistir em até 50 navios de carga. Algumas foram retratadas em relevos sendo escoltadas por vários navios de guerra.

Pesca e viagens curtas

Um terceiro tipo de embarcação, também para uso comercial, era muito menor. Aparentemente, tinha uma cabeça de cavalo na proa e apenas uma fileira de remos. Contudo, devido ao seu tamanho esta embarcação era utilizada apenas para pesca costeira e viagens curtas.

Menções históricas às negações fenícias

Muito do que se conhece sobre as habilidades náuticas deste povo nos chegou através dos historiadores antigos. Heródoto, por exemplo,  descreve um episódio durante a construção da segunda invasão persa da Grécia em 480 a.C liderada por Xerxes. Por sinal, história comentada no post Batalha de Salamina, parte da História da humanidade.

O rei persa queria colocar sua frota multinacional à prova. Desse modo, organizou uma regata vencida pelos  marinheiros de Sidon. Heródoto menciona igualmente que Xerxes fazia questão de viajar em um navio fenício sempre que tinha que ir a qualquer lugar por mar.

Os historiadores por muito tempo consideraram que os fenícios navegavam apenas durante o dia, porque tinham que se manter perto da costa e à vista de pontos de referência; à noite, portanto, tinham que encalhar ou ancorar seus navios. Isto  explica a proximidade de algumas colônias fenícias, a um dia de distância de navegação umas das outras.

A tradição dos olhos na proa

Frequentemente, dois olhos eram pintados em ambos os lados da proa, destinados ‘a permitir que o navio visse a rota que estava tomando.’ Tornaram-se tradição náutica. Até hoje muitos barcos, de pesca ou recreio, levam olhos pintados na proa.

Pesqueiros do sul da Bahia

Além disso, de acordo com a tradição histórica, os olhos impunham medo entre os inimigos. A tripulação geralmente não era mais do que 20 homens, incluindo o capitão-proprietário e piloto.

Viagens fenícias: Mediterrâneo, Atlântico, Mar Vermelho e Índico

Os fenícios não estavam limitados ao Mediterrâneo e ao Atlântico,  também navegavam pelo Mar Vermelho e possivelmente no Oceano Índico. A Bíblia descreve a expedição fenícia durante o século 10 a.C. a uma nova terra chamada Ophir para adquirir ouro, prata, marfim e gemas.

A localização de Ophir não é conhecida, entretanto, especula-se como sendo no Sudão, na Somália, no Iêmen ou até mesmo em uma ilha no Oceano Índico. 

Navio fenício à época do apogeu. Ilustração, http://viewzone.com/phoenician.boat.jpg.

No Atlântico…

O antigo historiador Diodoro afirmou que os fenícios chegaram às ilhas do Atlântico da Madeira, das Ilhas Canárias e dos Açores. No entanto, não há evidências arqueológicas de contato fenício direto, apenas a descoberta em 1749 de oito moedas cartaginesas que datam do século III a.C.

Chegando à Grã-Bretanha…

Os marinheiros da colônia Cartago, a mais bem sucedida da Fenícia, teriam navegado para o antigo Reino Unido em uma expedição liderada por Himilco em 450 a.C.

Navio fenício. Século 13 a.C. Ilustração, museu de Filadélfia.

Fenícios grandes navegadores: circum-navegação da África

Uma das mais memoráveis viagens foi descrita por Heródoto. O ‘Pai da História‘ conta que  no final do século VII a.C., os fenícios foram instruídos pelo faraó Necho para circum-navegar o continente africano de leste a oeste numa viagem de três anos.

Há quem diga que ‘se qualquer nação pudesse reivindicar ser o mestre dos mares, seriam os fenícios’ (por exemplo, o historiador Mark Cartwright).

Fontes: http://ageofex.marinersmuseum.org; http://www.worldhistory.biz; phoenicia.org; http://www.ancient.eu; monacoreporter.com; http://www.oocities.org; peopleofonefire.com.

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As habilidades que mais importam para o C-level, segundo Harvard

Pesquisadores analisam mais de 5 mil “job descriptions” e indicam que gestão de recursos financeiros e operacionais permanecem altamente relevantes, mas há novas competências fundamentais

Por Adriana Fonseca, Para o Valor 08/07/2022

Por muito tempo, sempre que as empresas queriam contratar um CEO ou outro executivo-chave, elas sabiam o que procurar: alguém com experiência técnica, habilidades administrativas e um histórico de sucesso no gerenciamento de recursos financeiros. A preferência era, quase sempre, por executivos de empresas multinacionais ou grandes consultorias. Mas essa prática pode não servir mais, alerta um artigo publicado na “Harvard Business Review”.

Muita coisa mudou nas últimas duas décadas e as empresas não podem mais presumir que os líderes com “pedigree gerencial tradicional” terão sucesso no C-level, informam os pesquisadores que escreveram o artigo.

C-level precisa ter habilidades sociais, além do conhecimento de gestão financeira e operacional — Foto: Unsplash

Hoje, segundo eles, as empresas precisam contratar executivos capazes de motivar forças de trabalho diversas, tecnologicamente experientes e globais. Esses gestores precisam saber desempenhar o papel de um “estadista corporativo”, lidando de forma efetiva com stakeholders que vão de governos a ONGs influentes. Além disso, precisam conseguir aplicar de forma rápida e eficaz suas habilidades em uma nova empresa, em um setor que pode ser desconhecido e, muitas vezes, com colegas do C-level que eles não conheciam anteriormente.

Essas mudanças representam um desafio para o recrutamento de executivos, porque as capacidades exigidas dos principais líderes incluem habilidades novas e muitas vezes “mais suaves”, que raramente são explicitamente reconhecidas ou promovidas no mundo corporativo. Nesse cenário, o que significa, exatamente, as tão faladas “soft skills”?

Para chegar à resposta para essa pergunta, pesquisadores de Harvard analisaram dados da Russell Reynolds Associates, uma das principais consultorias de recrutamento executivo do mundo. Mais de 5 mil “job descriptions” publicadas entre 2000 e 2017 foram analisadas, dos seguintes cargos: CEO, diretor financeiro, diretor de tecnologia, líder de recursos humanos e diretor de marketing.

Uma das principais conclusões é que nas últimas duas décadas as empresas redefiniram significativamente os papéis dos executivos do C-level. As capacidades tradicionais como gestão de recursos financeiros e operacionais permanecem altamente relevantes, mas quando as empresas hoje procuram seus principais líderes, especialmente novos CEOs, elas atribuem menos importância do que costumavam e, em vez disso, priorizam uma qualificação acima de todas as outras: fortes habilidades sociais.

O que são habilidades sociais

Essas “habilidades sociais” são capacidades específicas, incluindo um alto nível de autoconsciência, de ouvir e se comunicar bem, uma facilidade para trabalhar com diferentes tipos de pessoas e grupos e o que os psicólogos chamam de “teoria da mente” – a capacidade de inferir como os outros estão pensando e sentindo.

“Nossa análise revelou que as habilidades sociais são particularmente importantes em ambientes onde a produtividade depende de uma comunicação eficaz, como invariavelmente acontece nas empresas grandes e complexas”, explicaram os pesquisadores. “Nessas organizações, CEOs e outros líderes seniores não podem se limitar a realizar tarefas operacionais rotineiras. Eles também precisam gastar uma quantidade significativa de tempo interagindo com outras pessoas e permitindo a coordenação – comunicando informações, facilitando a troca de ideias, construindo e supervisionando equipes e identificando e resolvendo problemas.”

Participaram do estudo Raffaella Sadun, professora de na Harvard Business School, Joseph Fuller, professor de prática de gestão na mesma instituição, Stephen Hansen, professor na Imperial College Business School, e PJ Neal, head global de operações da Russell Reynolds Associates.

Saiba Mais

As habilidades importantes para os executivos pós-pandemia

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2022/07/08/as-habilidades-que-mais-importam-para-o-c-level-segundo-harvard.ghtml

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Novas pesquisas revelam como manter o cérebro ativo por mais tempo

A ciência mostra que é possível superar a passagem implacável dos anos — e nem é preciso fazer tanto esforço assim

Por André Sollitto – Veja 15 jul 2022

Em 1998, o neurocientista americano Fred Gage surpreendeu a comunidade médica ao provar que adultos continuavam produzindo novas células cerebrais. Antes, acreditava-se que o ser humano nascia com um número definitivo de neu­rônios que desapareceriam ao longo da vida, o que explicaria a perda de memória e outros danos neurológicos decorrentes da idade avançada. Desde então, as pesquisas em neurociência avançam em ritmo acelerado, e o mais extraordinário dos órgãos humanos acabaria sendo desvendado por uma série de novos conceitos. O resultado é a compreensão muito mais aguçada de como chegar aos 70, 80 e 90 — até acima dos 100 anos — com o cérebro saudável e evitar as temidas doenças degenerativas, como Parkinson e Alzheimer, que turvam a memória. A boa notícia é que manter a mente jovem é mais simples do que se imagina. 

O cérebro saudável não é apenas o que não tem indícios de doenças, incluindo tumores, traumas ou má circulação sanguínea, como se costumava acreditar há alguns anos. “Na verdade, é aquele capaz de tomar boas decisões quando desafiado por situações difíceis”, afirmou a VEJA o celebrado neurocirurgião americano Sanjay Gupta (leia a entrevista), correspondente médico da CNN e autor de Mente Afiada (Editora Sextante), livro que chegou há pouco às prateleiras brasileiras e que oferece um panorama das pesquisas mais recentes sobre o tema. “Algumas pessoas, quando encaram problemas, tendem a ficar paralisadas. No caso de uma mente saudável, é quase como ir à academia. Os desafios favorecem respostas rápidas e conexões entre diferentes áreas do cérebro”, afirma o especialista.

Para chegar à vitalidade cerebral, o primeiro passo é manter um estilo de vida saudável, colocando o cérebro no centro das atenções. Significa fazer exercícios físicos regulares e adotar uma alimentação com baixo teor de gordura e açúcar. E, assim, todas as outras funções corporais também vão se beneficiar. O ideal, diz Gupta, é praticar o máximo de atividades físicas, principalmente se forem diferentes. Se você está acostumado apenas a caminhar ou correr, vale a pena, digamos, praticar natação ou ciclismo, que oferecem novas perspectivas de movimento e coordenação motora. 

Os exercícios também ajudam a circulação sanguínea e a eliminar toxinas que poderiam se alojar no cérebro. A dieta tem papel determinante em como a mente vai se manter jovem. Um estudo publicado no início de julho por pesquisadores da Universidade da Austrália Meridional, o mais recente de uma série de pesquisas semelhantes, constatou que uma dieta rica em gordura aumenta o risco de desenvolver depressão e ansiedade e piora os sintomas de Alz­heimer. A mesma pesquisa revelou que altos níveis de açúcar no sangue são igualmente prejudiciais para a saúde cerebral.

PASSEIO NO PARQUE - Atividades físicas: elas são vitais para o cérebro sadio – Renato S. Cerqueira/Futura Press

A ciência sabe que o cérebro precisa ser permanentemente instigado — assim como o frequentador de academia flexiona os músculos para torná-­los mais robustos, é necessário pôr os neurônios em movimento para que façam melhores conexões entre si e atinjam níveis cada vez mais elevados. Especialistas advertem que o importante é buscar o máximo de novos conhecimentos, o tempo todo e enquanto a vida durar — ou seja, para sempre. 

Não adianta apenas ler ou fazer palavras cruzadas, embora ambas sejam atividades reconhecidamente valiosas. Um estudo realizado pela Universidade do Texas, em Dallas, constatou que adotar novos hobbies, como pintura ou fotografia, aprender idiomas e até jogar videogame são atividades que, sim, fortalecem o cérebro. Até atitudes simples, como usar a mão não dominante para fazer algumas tarefas cotidianas, obrigam a mente a fazer novas conexões. “O cérebro funciona como uma cidade”, pontua Gupta. “Passamos boa parte do tempo em nossa casa e usamos estradas para chegar a alguns lugares. Não passamos tanto tempo nelas, mas elas são necessárias.” Segundo o neurocirurgião, as pessoas chegam aos 65 anos e param de estimular o cérebro quando se aposentam. “Como os músculos, o cérebro se atrofia se não for usado”, afirma.

Um aspecto trazido pelas novas pesquisas que traçam caminhos para manter a mente jovem diz respeito às interações sociais. Hoje já se sabe que elas são vitais para a construção do cérebro ágil. Nem sempre foi assim. Durante muito tempo, a própria ciência celebrou os chamados lobos solitários, os gênios que, enfiados num laboratório ou trancados em casa, faziam descobertas extraordinárias capazes de mudar o mundo. Trata-se de uma visão superficial e equivocada. São raríssimas, especialmente na nova era, as descobertas científicas que não surgiram a partir da troca de ideias e das relações entre pessoas diferentes. Ao conhecer e interagir com o outro, o cérebro assimila conhecimento e expande a sua capacidade de compreensão.

ESTÍMULO - O hábito de ler desde criança: ferramenta para treinar neurônios – Rovena Rosa/Agência Brasil

A pandemia mostrou claramente, com a necessidade de distanciamento físico, como o ser humano precisa de companhia, e sofre sem ela. A Organização Mundial da Saúde identificou um aumento de 25% em casos de depressão causados pelo medo do vírus, mas também pelo isolamento. “A socialização é extremamente importante para manter o cérebro com saúde”, afirma Antônio De Salles, neurocirurgião do Hospital Vila Nova Star, da Rede D’Or. “ Nada faz pensar mais do que ouvir, conversar e discutir problemas com familiares e amigos.” A pandemia teve outro efeito inesperado: sob diversos aspectos, despertou a preocupação com a saúde mental. O cérebro é o bem mais precioso de que dispomos. Cuidar bem dele, mantendo-o jovem e sagaz, é tão vital quanto o próprio ar que respiramos.

“Estamos nos estágios iniciais”

GUPTA - Preconceito: “Há estigmas quando falamos de saúde mental” – @SanjayGuptaMD/Facebook

Em seu novo livro Mente Afiada: Desenvolva um Cérebro Ativo e Saudável em Qualquer Idade (Editora Sextante), o neurocirurgião americano Sanjay Gupta reuniu as evidências mais recentes sobre a saúde cerebral. Em entrevista a VEJA, ele diz que os estudos nesse campo evoluíram muito nos últimos anos, mas avisa que existem instigantes fronteiras que ainda não foram reveladas. A seguir, os principais trechos da conversa.

Como o avanço da ciência tem proporcionado novos conhecimentos sobre o cérebro? Ao escrever esse livro, tentei encontrar o que havia de mais novo e sólido. Quando falamos de colesterol ou pressão alta, temos décadas e décadas de evidências. Quando o assunto é o cérebro, ainda estamos nos estágios iniciais. E isso é muito empolgante. Apenas recentemente conseguimos escanear o cérebro de forma satisfatória, e estamos entendendo como produzir mais neurônios, por exemplo.

Quais são as principais recomendações atuais para manter o cérebro jovem e afiado? A maior parte das evidências aponta para a importância do movimento. Existe uma proteína chamada BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), produzida apenas pelo nosso corpo. Buscamos entender como podemos estimular sua produção, e percebemos a necessidade de exercícios de intensidade moderada. A dieta é outro fator. Se ingerirmos muito açúcar, nosso corpo vai  estocar essas calorias na forma de gordura, mas nossos neurônios, mais sensíveis, vão simplesmente parar.

Como equilibrar as preocupações com problemas maiores do cotidiano, como a pandemia, ou eleições presidenciais, com uma rotina saudável para o cérebro? Não quero diminuir esses problemas, porque eles têm importância, mas não existe uma resposta simples. O que pude perceber tratando pacientes que voltaram do Afeganistão ou passaram por traumas é que eles ficam muito isolados. E o isolamento retira diversos ingredientes para um cérebro saudável. Passar tempo de qualidade com outras pessoas libera ocitocina, hormônio responsável pelo afeto.

O que o senhor chama de relacionamentos saudáveis? São aqueles em que você pode ser vulnerável, pode pedir ajuda. Se você tiver algumas pessoas em seu círculo de amigos e familiares com quem contar nos momentos difíceis, são esses relacionamentos mais associados à produção de ocitocina, que é fundamental para a neurogênese, o processo de formação de novos neurônios.

Com a pandemia, a saúde mental ganhou maior destaque? Sim, mas como neurologista é triste ter de admitir que ainda há muito estigma quando falamos de saúde mental. Além do que as pessoas falam ou deixam de falar sobre o tema, do ponto de vista de políticas públicas não há o mesmo nível de investimento para a saúde mental, nem a mesma quantidade de leitos disponíveis nos hospitais para quem sofre algum distúrbio. Mas a situação está mudando, e acredito que vá mudar ainda mais com a geração atual de jovens. Estou otimista. Converso com minhas filhas sobre isso e vejo a importância do assunto para elas.

Publicado em VEJA de 20 de julho de 2022, edição nº 2798 

https://veja.abril.com.br/ciencia/novas-pesquisas-revelam-como-manter-o-cerebro-ativo-por-mais-tempo/

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Como os perfis de viagens dos brasileiros mudaram nos últimos anos?

Em 2020, 98% das viagens foram nacionais e, no ano passado, esse percentual foi de 99,3%

O índice de viagens internacionais caiu de 3,8% em 2019 para 0,7% em 2021. (Leandro Fonseca/Exame)

O índice de viagens internacionais caiu de 3,8% em 2019 para 0,7% em 2021. (Leandro Fonseca/Exame)

Por Agência Brasil/Exame  06/07/2022  |

Em 2019, os brasileiros fizeram 20,9 milhões de viagens; em 2020, 13,6 milhões, e em 2021, 12,3 milhões. O número de viagens caiu 41% entre 2019 e 2021. Em 2020, 98% das viagens foram nacionais e, no ano passado, esse percentual foi de 99,3%. O índice de viagens internacionais caiu de 3,8% em 2019 para 0,7% em 2021.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua Turismo 2020-2021, divulgada hoje (6) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que, a proporção de domicílios em que algum morador viajou caiu de 21,8% em 2019, para 13,9% em 2020, e para 12,7% em 2021.

Na análise do IBGE, apesar de o turismo ter sido fortemente afetado pela pandemia de covid-19 com a necessidade de isolamento social e pelo fechamento de vários estabelecimentos turísticos, o motivo de não ter dinheiro para viajar permaneceu sendo o principal para a queda das viagens.

A analista da pesquisa, Flávia Vinhaes, também destaca que a crise sanitária, com as medidas de afastamento social, a impossibilidade de pegar voos, o medo de contrair a doença ou mesmo por ter sido infectado pelo novo coronavírus, foi importante fator para a diminuição das viagens nacionais e internacionais nos dois últimos anos.

A PNAD levantou, pela primeira vez, os gastos com turismo. Em 2021, as despesas totais em viagens nacionais com pernoite somaram R$ 9,8 bilhões, contra R$ 11 bilhões em 2020. Em 2021, os maiores gastos foram em viagens para São Paulo (R$ 1,8 bilhão), Bahia (R$1,1 bilhão) e Rio de Janeiro (R$1 bilhão).

Uma em cada cinco viagens (ou 20,6% delas) foi para o estado de São Paulo, o destino mais procurado. Minas Gerais (11,4%) e Bahia (9,5%) vieram em seguida.

Em cerca de um terço (33,1%) dos domicílios com renda per capita de quatro ou mais salários mínimos, algum morador viajou em 2021. Por outro lado, em apenas 7,7% dos domicílios com renda per capita abaixo de meio salário mínimo, algum morador viajou no ano passado.

Nos domicílios com renda per capita abaixo de meio salário mínimo, 35,1% das viagens pessoais foram para tratamento de saúde e apenas 14,3% para lazer. Já nos domicílios com renda per capita de quatro ou mais salários mínimos, 57,5% das viagens foram para lazer e apenas 4,4% para tratamento de saúde.

Entre os motivos de lazer, em 2020, 55,6% das viagens foram em busca de turismo de sol e praia. Em 2021, esse percentual foi de 48,7%. Viagens de natureza, ecoturismo ou aventura responderam por 20,5% em 2020 e 25,6% em 2021.

Cerca de 57,2% das viagens de 2021 foram em carro particular ou de empresas, 12,5% em ônibus de linha e 10,2% de avião. Do total de viagens em 2021, cerca de 14,6% foram profissionais e 85,4%, pessoais.

Como principal local de hospedagem, a casa de amigos ou parentes superou as demais modalidades, representando, em 2021, 42,9% entre as alternativas. Em segundo lugar, ficou a opção hotel, resort ou flat, com 14,7%, diz o IBGE.

https://exame.com/casual/como-os-perfis-de-viagens-dos-brasileiros-mudaram-nos-ultimos-anos/

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Inteligência artificial e metaverso podem ajudar educação no Brasil, mas conectividade é problema

“A conectividade tem que ser gratuita ou muito barata em toda a parte. Depois, é que se fará investimentos para disponibilização de aparelhos como óculos digitais e computadores”, disse a futurista Amy Webb durante o evento Festival LED – Luz na Educação

Por Denis Kuck, Valor — Rio 09/07/2022 

Reprodução/Youtube

A inteligência artificial e o metaverso vão desempenhar um importante papel no futuro da educação no mundo e no Brasil, trazendo novas oportunidades para alunos e professores, mas é preciso aumentar os investimentos no setor e na expansão da conectividade e da tecnologia 5G, disse neste sábado a fundadora e presidente do Future Today Institute, Amy Webb, uma das futuristas mais reconhecidas da atualidade. A especialista participou de um painel no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, dentro do Festival LED – Luz na Educação. A mediação do encontro foi feita pela jornalista Maju Coutinho, do programa Fantástico, da Rede Globo.

Segundo Webb, qualquer que seja o candidato que venha a ganhar as eleições deste ano, a educação e as melhorias nas telecomunicações devem ser uma prioridade. Ela criticou a postura adotada por Brasil e Estados Unidos, pois, segundo ela, os dois países negligenciam o ensino e pagam mal aos professores. “É preciso ter uma iniciativa de governo, seja Lula ou Bolsonaro o vencedor. Só há uma maneira: investimento em infraestrutura. Não entendo porque a educação não é prioritária nesses dois países. Parece que a ideia é de que os municípios vão cuidar sozinho do assunto, os pais vão ser professores, mas isso é ridículo”, afirmou.

Para Webb, a pandemia ressaltou o problema dos desertos digitais no Brasil, fazendo com que milhares de crianças deixassem de acompanhar as aulas de forma digital, mesmo após o arrefecimento da crise sanitária. “A conectividade tem que ser gratuita ou muito barata em toda a parte. Depois, é que se fará investimentos para disponibilização de aparelhos como óculos digitais e computadores”, disse.

Em relação ao futuro, ela disse que existem duas tendências tecnológicas que podem alterar significativamente a maneira como o ensino é feito hoje. Uma delas é a inteligência artificial, conceito que já tem dezenas de anos, mas vem se tornando cada vez mais sofisticado em uma sociedade digitalizada.

Para a futurista, a inteligência artificial pode ajudar os professores e educadores a aprimorarem o sistema de ensino, gerando imagens, textos e estímulos para ajudar no aprendizado em sala de aula ou em ambientes virtuais. Segundo ela, com inteligência artificial, as máquinas aprendem com a ajuda dos humanos, e passam a entender o que o profissional precisa. “Isso pode ajudar as crianças a aprenderem melhor no futuro. O professor pode fazer uma aula por vídeo, por exemplo, e a inteligência artificial customizá-la para a necessidade do aluno, de forma individualizada, aprofundando seu nível de conhecimento”, disse.

Webb ressaltou que a tecnologia pode auxiliar a tornar as aulas mais divertidas e baseadas em tendências modernas. Ela citou, por exemplo, a rede social TikTok.

Outra tendência apontada pela especialista é o metaverso. Segundo ela, a aplicação, que usa conceitos de realidade virtual e aumentada, pode ser importante para construir uma ponte entre o mundo físico e digital, melhorando a percepção dos alunos. Por meio da tecnologia seria possível levar os alunos para conhecer a Grécia Antiga.

“O metaverso será uma tendência muito forte na educação. Hoje, quando os investidores pensam nele, é como se fosse algo curioso, têm medo de entender. Será um aprendizado pela experiência, óculos digitais, tecidos cheios de sensores, as pessoas se tornando parte da internet. Um aprendizado pela experiência, dando aos alunos a oportunidade de aprender fazendo a ligação entre as teorias e o mundo real”, afirmou Webb.

A CEO do Future Today Institute disse ainda que a nova educação pode gerar uma enorme força de trabalho para o desenvolvimento de um país. Além disso, ressaltou que a educação deve ser vista como um mercado promissor, por ser “perene”, com investidores dispostos a atuar na melhoria do ensino e na formação dos professores.

Webb também ressaltou a importância de um modelo presencial de ensino, ocorrendo paralelamente ao digital. “Depois de dois anos de quarentena, os aplicativos de vídeos, por exemplo, tornaram as coisas mais convenientes. Mas uma parte de nós, enquanto humanos, prefere estar perto das outras pessoas”, disse a especialista. Ela citou ainda o bullying digital, que pode ser mais forte do que o ocorrido dentro de sala de aula, onde o contato presencial poderia inibir comportamentos mais agressivos.

“Temos que pensar em como estruturar esse ambiente digital. O futuro não está congelado. Devemos pensar nessas tendências e nos perguntar o que vai acontecer daqui para a frente. Nesse sentido, a conectividade é essencial para uma sociedade funcional, o Brasil precisa investir nisso”, afirmou.

O Festival LED – Luz na Educação é realizado pela Globo e pela Fundação Roberto Marinho em parceria com a plataforma “Educação 360 – Conferência Internacional de Educação”, da Editora Globo, com patrocínio de Invest.Rio e apoio do Coppead. Segundo seus organizadores, o evento é um dos três pilares do Movimento LED. Os outros dois são promover iniciativas na educação e a relação contínua com a comunidade.

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2022/07/09/inteligncia-artificial-e-metaverso-podem-ajudar-educao-no-brasil-mas-conectividade-problema-sembarreira.ghtml

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Startups do Vale do Silício são “tóxicas”, segundo escritora que tentou a sorte na meca da tecnologia

Em “Vale da estranheza”, Anna Wiener narra seu mergulho no mundo das startups

Por Célia de Gouvêa Franco — Para o Valor 25/06/2022

Anna Wiener descobriu nas empresas ‘modernas’ os mesmos problemas das outras — Foto: Russel Perkins/Divulgação

Para milhões de jovens de todas as partes do mundo – e não tão jovens – a Pasárgada dos nossos dias é o Vale do Silício. Lá, todos teriam a chance de ser amigos dos reis de empresas em rápida ascensão e ganhar uma bolada rapidamente. Atraídos por essas possibilidades, apostando numa startup que logo se tornaria um unicórnio (para usar as palavras de ordem desse mundo), muitos sonham em se instalar na região da Califórnia que se tornou um polo de tecnologia e inovação.

Porém, a realidade não obedece necessariamente ao que se sonha. “Vale da estranheza – Fascínio e desilusão na meca da tecnologia” busca exatamente desmitificar a vida e o trabalho no Vale do Silício.

Anna Wiener, depois de trabalhar em editoras de livros em Nova York, com um salário pequeno, decide se arriscar no setor de tecnologia da informação que ela mesma não entendia completamente.

“Meus desejos eram genéricos. Queria achar um lugar no mundo e ser independente, útil e bondosa. Queria ganhar dinheiro para me sentir firme, segura e valorizada. Queria ser levada a sério. Mais do que tudo, queria que ninguém se preocupasse comigo”, explicita ela ao explicar por que aceitou a mudança radical de carreira, estilo de vida e cidade.

Wiener queria principalmente que a mãe deixasse de se preocupar com ela e parasse de cobrá-la por ganhar tão pouco. A empreitada não deu certo. Frustrada pelo ambiente que considerou “tóxico” nas empresas onde trabalhou, ela voltou para sua área e cidade – hoje escreve para a revista “The New Yorker”. Nem tudo foi perdido, no entanto – com frequência ela trata do setor de TI.

No livro, lançado em 2020 no mercado americano, ela não cita os nomes das empresas para as quais passa a trabalhar, mas a internet informa que ela teve uma breve passagem por uma startup chamada Oyster e depois, já em São Francisco, passa pela empresa de análise de dados Mixpanel e finalmente pela companhia GitHub.

Colegas e chefes das startups são tratados apenas pelo primeiro nome – pessoas que conhecem bem o Vale do Silício informam que um personagem importante do livro seria Patrick Collinson, cofundador e presidente da Stripe (empresa de pagamentos on-line).

O livro é um relato das experiências de Wiener, tratadas quase como uma expedição a outro universo. O roteiro segue a cronologia – conta as entrevistas de emprego, que a surpreenderam pela superficialidade das questões.

Eis um exemplo: “‘Então’, ele (o entrevistador) disse, como se me pedisse para lhe contar um segredo, ‘como você calcularia o número de pessoas que trabalham para o Serviço Postal dos EUA?’ Ficamos um instante em silêncio. Eu não calcularia, pensei: olharia na internet. Me perguntei se talvez não fosse um teste da minha tolerância a papo furado e ineficiência”

Em sequência, vem toda a narrativa do cotidiano de trabalho e vida em San Francisco. Alguns episódios do livro reforçam o estereótipo de que trabalhar numa startup é quase uma festa. “A empresa era divertida. Divertida – era divertida! A empresa fez uma festa de Día de los Muertos, com comida mexicana, banda mariachi e um altar à luz de velas que homenageava os produtos mortos antes do lançamento” é um dos muitos casos citados por Wiener.

A atração do Vale do Silício não é só ficar rico – ou bem de vida. Chama a atenção também a ideia de se engajar numa empresa que não segue os modelos convencionais em se tratando de horário de trabalho, roupa com que se deve ir ao escritório e relacionamento com a chefia. Na imagem criada por filmes, livros e redes sociais, é tudo muito mais informal e aparentemente mais fácil.

E foi principalmente nessa área que começou a desilusão. Wiener descobre que os mesmos problemas de muitas empresas que seguem o modelo tradicional de relações com funcionários também são encontrados nas companhias mais “modernas” da área de tecnologia. Em especial, o preconceito contra mulheres.

“Havia bastante tempo que eu tinha deixado de fazer trabalho público sob meu próprio nome. Para todas as correspondências externas, usava pseudônimos masculinos. Mas usar pseudônimos masculinos não era conveniente só para aplacar ou enfraquecer conversas tensas. Era útil até para os pedidos de assistência técnica mais inofensivos. Os homens, percebi, simplesmente reagiam de outra forma a homens. Meus pseudônimos masculinos tinham mais autoridade do que eu.”

Em muitos setores da economia, como se sabe, a pressão por resultados positivos é enorme – e crescente. No caso do setor de tecnologia, é ainda maior pela dificuldade de sobrevivência das empresas. Segundo especialistas citados pela Embroker (uma consultoria na área de seguros), globalmente 90% das startups fracassam, sendo que 10% não chegam a completar um ano de vida.

As mesmas sensações de insatisfação com o trabalho e de falta de reconhecimento experimentadas por Wiener na sua passagem pelo setor de livros acabaram predominando também nas empresas de TI em San Francisco. Ela decidiu pedir demissão. Saiu com a oportunidade de comprar ações da empresa, que ela aproveitou.

Meses depois, quando a startup foi comprada por um grande grupo, ela ganhou US$ 200 mil antes dos impostos. Bastante dinheiro para o comum dos mortais, mas não a fortuna sonhada por muitos interessados em ir para o Vale do Silício.

Vale da estranheza

Anna Wiener. Trad.: Débora Landsberg Companhia das Letras 312 págs, R$ 89,90

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Brasil pode se tornar uma potência na produção de lítio, diz Sigma

Segundo a executiva, o Brasil estará numa “posição imbatível para alimentar a América do Norte e a Europa”, chamadas de cadeia do Atlântico

Por Reuters/Infomoney 7 jul 2022 

(Reuters) – Com a flexibilização do comércio exterior de lítio, o Brasil pode se tornar uma potência na produção do mineral, em momento de alta demanda pelo produto devido ao advento das baterias, avaliou a co-CEO da canadense Sigma Lithium Resources Corporation, Ana Cabral-Gardner, em entrevista à Reuters.

A executiva explicou que a dispensa de autorização da Comissão Nacional de Energia Nuclear, vinculada ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações, deve atrair diversas empresas estrangeiras para a mineração no país, destravando investimentos nos próximos três anos.

“Por causa dessa regulação anacrônica, que classificava o lítio como de interesse nuclear, você caía em um meandro regulatório que não tornava o produto competitivo”, disse Cabral-Gardner.

Segundo a executiva, o Brasil estará numa “posição imbatível para alimentar a América do Norte e a Europa”, chamadas de cadeia do Atlântico, enquanto o mundo busca a eletrificação de carros. Recentemente, o presidente da Tesla, Elon Musk, visitou o país, mas a questão do lítio, estratégica para a sua companhia, não foi levantada oficialmente.

O decreto que flexibiliza as exportações de lítio no Brasil, publicado na quarta-feira pelo governo federal, tem o potencial de viabilizar mais de 15 bilhões de reais em investimentos na produção do minério até 2030.

O diretor de Geologia e Recursos Minerais do estatal Serviço Geológico do Brasil (SGB), Marcio Remédio, explica que o decreto corrige uma distorção que vem da década de 70, quando nascia a energia nuclear no Brasil.

“O lítio é usado em um volume muito pequeno nos reatores. Como, na época, ele era um mineral mais escasso, foi considerado um mineral estratégico. Por isso foi feita essa regulação de controle do comércio exterior”, disse Remédio.

A mudança na legislação não afeta os negócios da Sigma Mineração, subsidiária brasileira da canadense. A mineradora, que deve começar a produzir lítio até o fim do ano, já tinha estoque suficiente para atender à regra anterior. A empresa tem, hoje, 28 áreas concessionadas no país.

“Dentro dessas 28, nós tínhamos 9 áreas que foram produtoras no passado, antes de 2010. Dessas 9, três já foram validadas conforme padrões dos Estados Unidos e do Canadá. Essas três áreas, sozinhas, já têm 85,7 milhões de toneladas de reservas de lítio”, disse Cabral-Gardner.

A flexibilização trazida pelo decreto será importante para futuras mineradoras. O Ministério de Minas e Energia afirma que a rápida e recente evolução do mercado de lítio motivou a mudança.

Segundo o ministério, o anúncio de vários investimentos ao redor do mundo na cadeia de produção de veículos elétricos indica a oportunidade de fortalecer o posicionamento do Brasil e atrair investimentos que ele estima que podem chegar a 15 bilhões de reais até 2030.

PARTICIPAÇÃO DO BRASIL

Marcio Remédio, diretor do SGB, afirma que, hoje, o Brasil responde apenas por cerca de 1,5% da produção mundial de lítio.

“Nós podemos chegar, a longo prazo, pelo menos 10 anos, a 5%. Por que 5%? Porque a produção mundial também vai crescer”, disse Remédio.

Hoje, só duas empresas produzem lítio no Brasil: a Companhia Brasileira de Lítio (CBL) e a AMG Brasil. Mas há várias empresas com projetos de mineração em andamento.

Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), os alvarás de pesquisa publicados, de todos os minérios, saíram de 5.285 em 2020 para 10.098 em 2021. Não há dados específicos sobre lítio.

Tomás de Paula Pessoa, advogado de direito minerário e ex-diretor da ANM, afirma, porém, que o Brasil não tinha uma procura tão intensa por projetos de mineração de lítio.

Ele afirma que o maior interesse está diretamente ligado à transição energética, principalmente por conta da eletrificação das frotas mundo afora.

“A evolução dos veículos elétricos e a sua maior oferta no mercado mundial ampliou a necessidade desses minérios para a produção de baterias. Agora, o Brasil vai poder exportar para fábricas de baterias mundo afora”, disse Pessoa.

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Mostarda some de mercados na França, população se desespera e chef pede até sobras

Crise climática e guerra impactam produção de condimento obrigatório na culinária local

Roger Cohen – PARIS | THE NEW YORK TIMES/Folha 14.jul.2022 

A mostarda está enraizada na cultura francesa. “Meu sangue ferveu” é traduzido em francês pela expressão “La moutarde me monte au nez” (“A mostarda subiu ao meu nariz”) –e, como prova o aniversário da Queda da Bastilha, quando isso acontece na França o efeito pode ser devastador.

Enquanto a França comemorava seu feriado nacional mais importante nesta quinta-feira (14), relembrando a tomada da prisão-fortaleza da Bastilha em 1789, que desencadeou a Revolução Francesa, o misterioso desaparecimento de mostarda das prateleiras de mercados causou, se não revolta, pelo menos profunda inquietação.

Loja de mostardas em Dijon, na França, em maio, antes da escassez do condimento obrigatório na culinária francesa – Jeff Pachoud/AFP

Privada do condimento que dá graça a um filé com fritas, vida a uma linguiça grelhada, profundidade a um vinagrete e riqueza à maionese, a França vem procurando alternativas com um desespero contido. Raiz-forte, wasabi, molho inglês e até cremes de roquefort ou cebolinha surgiram como candidatos.

Pobres candidatos, deve-se dizer. O problema é que a mostarda de Dijon é tão insubstituível quanto indispensável. Manteiga ou creme de primeira qualidade podem ser mais essenciais para a culinária francesa, mas muitos molhos untuosos se tornam insípidos sem mostarda. Em Lyon, a ideia de uma “andouillette” (linguiça de miúdos) sem ela é tão inconcebível quanto queijo desprovido de vinho.

Outro problema, ao que parece, é que a mostarda de Dijon é composta em grande parte de ingredientes que não vêm dessa encantadora cidade, capital da região da Borgonha. Uma tempestade perfeita de mudanças climáticas, guerra na Europa, problemas de abastecimento causados pela Covid e custos crescentes deixaram os produtores sem as sementes marrons que fazem sua mostarda ser “a” mostarda.

A maioria delas –ao menos 80%, segundo Luc Vandermaesen, diretor da Reine de Dijon e presidente da Associação de Mostarda da Borgonha– vem do Canadá. Uma onda de calor nas províncias de Alberta e Saskatchewan reduziu a produção de sementes em 50% no ano passado, ao mesmo tempo que o aumento das temperaturas atingiu duramente a colheita menor na Borgonha

“A questão principal é a mudança climática, e o resultado é essa escassez”, diz Vandermaesen. “Não podemos responder aos pedidos que recebemos, e os preços no varejo subiram até 25%.”

Sua empresa agora recebe pelo menos 50 ligações por dia de pessoas em busca de mostarda —não havia tantas antes que ela desaparecesse. As pessoas chegam até a sede da empresa em Dijon (que nem é uma operação de varejo) em uma busca frenética pelo condimento. A rede Carrefour foi forçada a negar rumores no Twitter de que está estocando mostarda para aumentar os preços. Chefs como Pierre Grandgirard, na Bretanha, recorreram ao apelo online por qualquer sobra que alguém possa ter.

Na maioria das lojas, as prateleiras se esvaziaram. Onde ainda há mostarda, placas dizem que as vendas são “limitadas a um pote por pessoa”. O varejista Intermarché, pedindo desculpas pelo transtorno, explica em outra placa que “a seca no Canadá e o conflito com a Rússia” levaram à “penúria”.

Para quem se orgulha de sua “moutarde”, a noção de que ela raramente é um produto totalmente local e com frequência depende da cadeia de suprimentos multinacional abalada pela pandemia também foi um choque.

A Guerra da Ucrânia complicou ainda mais as coisas. Moscou e Kiev são grandes produtores de sementes da planta, mas geralmente não das marrons (Brassica Juncea) usadas na Dijon clássica. As sementes amarelas produzidas lá são populares em locais como Alemanha e Hungria, que preferem um condimento mais suave. Com a guerra, países que dependem delas foram buscar outros tipos e a “pressão nesse mercado em geral aumentou, elevando os preços”, diz Vandermaesen.

Em média, cada francês consome 2,2 kg de mostarda por ano, o maior consumidor mundial. Embora haja indícios de escassez iminente em outros países, a crise da mostarda francesa é única em suas dimensões.

Na crise está a oportunidade, é claro. Paul-Olivier Claudepierre, coproprietário da Martin-Pouret, fornecedora de mostardas e vinagres inteiramente franceses, disse ao jornal Le Monde que chegou o momento de “relocalizar a produção”.

“Cultivamos, a milhares de quilômetros, uma semente que vamos colher, levar a um porto e transportar pelo oceano em contêineres para transformá-la aqui”, diz. “Isso custa muito e uma grande quantidade de carbono.”

Vandermaesen afirma que a Borgonha embarcou num esforço conjunto para aumentar a produção. Um problema que os agricultores locais enfrentam é que a União Europeia proibiu um inseticida usado há muito tempo para combater a praga do besouro-pulga-preto.

Por enquanto, ao que parece, a França deve aprender a viver sem mostarda, uma adaptação dolorosa. Maria Antonieta, a rainha na época da Revolução, é famosa pelo comentário “Que comam brioches” sobre camponeses famintos sem pão (se realmente o fez, antes de ser guilhotinada em 1793, é outra questão). “Que comam wasabi” é uma frase que o presidente Emmanuel Macron provavelmente deveria evitar.

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/07/mostarda-some-de-mercados-na-franca-populacao-se-desespera-e-chef-pede-ate-sobras.shtml

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Não basta ser bom profissional, é preciso ser um “influenciador”

Paulo Silvestre – Estadão 13 de junho de 2022 |

O artista americano Andy Warhol, que disse em 1968 que, no futuro, todos seriam “mundialmente famosos por 15 minutos”

O artista americano Andy Warhol, que disse em 1968 que, no futuro, todos seriam “mundialmente famosos por 15 minutos”

Na noite de sexta, durante uma aula do meu curso de Customer Experience na PUC-SP, uma aluna levantou o debate de que já não bastaria ser um bom profissional: todo mundo agora precisaria ser também um “influenciador” para ser valorizado pelo mercado. Talvez isso ainda não seja determinante para se conseguir um emprego, mas quem faz sucesso nas redes sociais de fato anda sendo supervalorizado, a despeito de suas qualificações profissionais.

Isso vem provocando distorções reais e preocupantes.

Entre elas, profissionais com pouca experiência ou formação deficiente podem mesmo ocupar o espaço de pessoas mais bem preparadas para suas funções, se aparecerem bem online. A curto prazo, isso resulta em entregas piores aos clientes. A médio prazo, isso pode desestimular o investimento em uma boa formação profissional. A longo prazo, perde toda a sociedade, que pode se acostumar com um patamar inferior de qualidade em produtos e serviços.

Mas muita gente acha que ser influenciador digital é um caminho fácil e rápido para o sucesso. Não é de se estranhar, então, que o Brasil já tenha 500 mil deles.

Por “influenciador digital”, entenda-se alguém que tenha mais de 10 mil seguidores nas redes sociais. Essa foi a métrica adotada pela consultoria Nielsen, no levantamento “Construindo melhores conexões”, chegando a esse impressionante número de meio milhão de influenciadores brasileiros.

O Brasil é o segundo país do mundo em influenciadores, quase empatando com os EUA. Já existem por aqui mais influenciadores que dentistas (que são 374 mil) e engenheiros civis (455 mil) e aproximadamente o mesmo que médicos (502 mil). Seus ganhos por trabalho variam de R$ 1.000 a R$ 600 mil.

Seu sucesso passa por ser relevante para a comunidade a que pertencem. Disso vem a grande pergunta: os influenciadores são realmente relevantes para a sociedade? Ou apenas “criam espuma” em torno de assuntos que interessam só a eles mesmos ou às marcas que os contratam?

Segundo a Nielsen, os influenciadores não chegam a ser determinantes em vendas: 45% das mulheres e 24% dos homens seguem influenciadores, mas 58% delas e 76% deles nunca compraram nada apresentado por esses profissionais. Isso porque 66% não confiam no que eles dizem.

Ainda assim, esse mercado não para de crescer. De acordo com o estudo “The State of Influencer Marketing 2022”, elaborado pela consultoria Influencer Marketing Hub, o setor de marketing de influência deve movimentar US$ 16,4 bilhões nesse ano. Mais de 50 milhões de pessoas em todo o mundo se consideram criadores de conteúdo, e devem fazer circular incríveis US$ 104 bilhões até dezembro.

Esses indicadores nos levam de volta ao questionamento inicial. É claro que existem influenciadores que fazem um trabalho incrível, que traz ótimos resultados às marcas e oferece um valor real a seu público. Mas a maioria deles são eficientes apenas em gerar “engajamentos vazios”, com muitos cliques em “fotos fofas”, mas incapazes de produzir um conteúdo verdadeiramente rico.

Como muitas marcas olham apenas para essas “métricas de vaidade”, profissionais qualificados acabam sendo preteridos.

A sedução da fama

Acontece que o desejo de se alcançar a fama é muito poderoso e acompanha o ser humano. As pessoas querem ser artistas, esportistas ou outras atividades que deem grande destaque popular. Mas isso sempre foi muito difícil, sendo alcançado por pouquíssimos, com muito trabalho e às vezes sorte.

Em 1968, o genial artista americano Andy Warhol disse que “no futuro, todos serão mundialmente famosos por 15 minutos”. Sua profecia se concretizou quatro décadas depois, com a popularização das redes sociais e dos smartphones. Qualquer post potencialmente pode hoje levar seu autor a milhares de pessoas e por muito mais que 15 minutos.

Assim, não é à toa que tenhamos tantos influenciadores! A maioria acha que esse é um caminho fácil para a fama e para o dinheiro. Nada mais equivocado! O trabalho de um influenciador profissional é árduo e exige planejamento. Por isso, chega a ser risível o espanto de muita gente ao descobrir, na semana passada, em um story da influenciadora Bianca Andrade, conhecida como Boca Rosa, que ela planeja detalhadamente suas publicações.

E não poderia ser de outra forma! O mercado felizmente começa a tratar os bons influenciadores como profissionais capacitados. Aqueles que não passam de “modelos de fotos bonitinhas”, que trabalham em troca de mimos, perdem espaço. Os bons contratos começam a ir para quem realmente for capaz de produzir conteúdo próprio e relevante. Seu desafio é passar mensagens de maneira orgânica para seu público.

O problema é que esses ainda são poucos! E isso acostumou o público a não querer sair da superficialidade confortável e que não exige que pensem muito.

Em junho de 2015, quando recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade de Turim (Itália), o escritor e filósofo italiano Umberto Eco fez um polêmico discurso dizendo que, graças às redes sociais, uma “legião de imbecis (…) agora tem o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel”. Não satisfeito, disse ainda que “o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.

Talvez Eco tenha sido muito duro na escolha das palavras, mas ele antecipou o que se vê hoje, quando esse fenômeno ainda não era disseminado (e isso foi há apenas sete anos). Completos desconhecidos posando em trajes de banho e “fazendo biquinho” têm mais visibilidade hoje que cientistas que pesquisam temas essenciais para a sociedade.

Influenciadores digitais sérios são profissionais, e devem se portar e ser tratados como tal. É preciso “separar o joio do trigo”. Eles não devem ocupar o espaço de pessoas capacitadas nas diferentes áreas do saber, mas sim realizar o trabalho que fazem tão bem, que é o de apresentar e explicar produtos de maneira simples e alinhada a seus públicos. E isso tem muito valor! Se eles forem profissionais formados nas respectivas áreas e ainda tiverem a capacidade de influenciar multidões, melhor ainda!

O mercado precisa valorizar o que cada um tem de melhor a oferecer isso à sociedade, dentro de suas competências. Influenciadores podem não ser engenheiros, jornalistas, psicólogos, médicos ou modelos, mas, dentro de suas atribuições, podem trabalhar com todos eles, de maneira a que todos brilhem mais, sem “roubar” o espaço de ninguém.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/macaco-eletrico/nao-basta-ser-bom-profissional-e-preciso-ser-um-influenciador/

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Hidrogênio verde ganha espaço, mas custo ainda limita avanço rápido

Produto visto como solução potencial para descarbonizar setores da indústria enfrenta o desafio de se tornar economicamente viável

Por Cláudio Marques, Para o Prática ESG/Valor — São Paulo 13/07/2022

Divulgação / Thyssenkrupp

Com a busca pelo hidrogênio verde ganhando espaço na agenda da transição energética, os obstáculos dessa jornada vão ficando claros. O produto é visto como uma solução potencial para descarbonizar setores da indústria, principalmente em atividades que utilizem aquecimento, e também no transporte, mas o maior desafio é torná-lo acessível, criando escala para ser comercialmente viável.

Atualmente, o hidrogênio já é utilizado por algumas indústrias, só que sua produção usa combustível fóssil, ou seja, tem uma alta pegada de carbono associada. Um dos métodos mais propalados para obtenção da versão verde é por meio da eletrólise, uma técnica conhecida, mas que também enfrenta objeções. “A eletrólise é um processo extremamente caro e requer investimentos muito altos”, afirma Marina Domingues, diretora de mercado e regulação da Associação Brasileira do Hidrogênio (ABH2). “O setor não está disposto a pagar”, declara, mas concorda que a guerra entre Rússia e Ucrânia fez avançar o debate.

No entanto, Ricardo Gedra, gerente de Análise e Informações ao mercado na na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), argumenta que toda tecnologia nova é cara e prevê que o custo caia nos próximos anos. Segundo ele, há muito investimento em pesquisa pelo mundo a fim de se conseguir fabricar todos os equipamentos necessários para a produção do hidrogênio de forma limpa, com preços mais acessíveis. Um exemplo de busca de solução vem da Aliança Brasil-Alemanha para o Hidrogênio Verde, que lançou um programa de inovação para startups, instituições sem fins lucrativos e empreendedores que buscam alavancar o desenvolvimento do hidrogênio verde no país e poderão ter apoio no desenvolvimento de modelos de negócios.

Escala

O CEO da ThyssenKrupp, Paulo Alvarenga argumenta que o hidrogênio verde é mais caro do que o petróleo, “porque se criou toda uma indústria que possui uma escala gigantesca”, diz, referindo-se ao combustível fóssil. “Enquanto não houver escala industrial, não vai haver competitividade”, afirma. A própria companhia tem dois projetos em andamento. Um no porto de Roterdã, com 200 MW de capacidade, e outro na Arábia Saudita, de 2 GW. “O debate está aumentando muito rápido, e vejo que está saindo dos estudos para a prática também de maneira muito rápida”, diz.

Hoje, o hidrogênio cinza, obtido com o uso de combustível fóssil, tem preço de US$ 2/kg e o verde deve custar em torno US$ 5, segundo Alvarenga. De acordo com Domingues, da ABH2, para se produzir 1kg de hidrogênio verde são necessários 9 litros de água. É possível utilizar água do mar na obtenção, mas é preciso que ela passe por um processo de dessalinização, o que acrescenta mais um custo à produção.

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Em paralelo, pesquisas tentam encontrar outras formas de produzir o hidrogênio verde. A diretora da ABH2 cita o uso de biomassa, cuja biodigestão resulta no biogás. Depois, ele é trabalhado para retirar substâncias como enxofre e em seguida, usa-se o calor para se obter o hidrogênio. Outro método retira enxofre e outras impurezas e refina o biogás resultante até se tornar biometano, que é, então, submetido ao vapor até chegar ao hidrogênio verde. Segundo Monteiro, esse processo teria custo inferior ao da eletrólise.

Biomassa e fotocatálise

Para também tentar viabilizar a produção industrial do hidrogênio verde, a Turiya Renováveis, empresa de geração de energia renovável da Indra Energia, comercializadora do setor, e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) se uniram para produzir o hidrogênio verde pelo método de fotocatálise. “A nossa proposta é contribuir para o desenvolvimento de tecnologias que viabilizem a obtenção de hidrogênio verde no Brasil, para utilização como mais uma fonte alternativa renovável”, afirma Segundo Ingrid Santos, CEO da Turiya.

O projeto estuda o uso da luz solar para ativar um catalisador, que atuaria, então, na separação da molécula de água. Segundo o professor doutor Bruno César Barroso Salgado, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Energias Renováveis do IFCE, a substância mais estudada como catalisador é o dióxido de titânio – um material de fácil acesso e baixo custo. Ao mesmo tempo, ele prevê misturar glicerina à água. “Isso incrementa a produção de hidrogênio e acaba trazendo um ciclo de sustentabilidade. Aproveitamos um resíduo de biomassa (glicerina como subproduto do biodiesel), juntamente com a radiação solar, levando aí a custo energético de produção praticamente nulo (porque não requer eletricidade). O processo se torna bem atrativo desse ponto de vista”, afirma.

O estudo prevê que o catalisador fique impregnado na placa fotocatalisadora. “O projeto está na fase de encontrar uma engenharia que favoreça esse mecanismo”, diz Barroso. A fase piloto do projeto irá ocorrer quando as análises apontarem a melhor substância para esse fim. E isso ainda não tem prazo para acontecer.

O professor ressalta que a fotocatálise não substitui a eletrólise. “A engenharia hoje por trás da fotocatálise não dá competitividade para desbancar a eletrólise como método de produção de hidrogênio. Na verdade são métodos complementares”, afirma, lembrando que projetos de fotocatálise devem ser instalados em áreas de maior radiação solar.

Certificação

Com tantas variáveis implicadas no processo de obtenção do hidrogênio verde, não foi à toa que a CCEE decidiu desenvolver um projeto de certificação. “Quem está comprando esse hidrogênio precisa ter a segurança de que a produção não está trazendo consigo uma pegada de carbono. Então, a certificação é um elemento crucial para assegurar o principal objetivo desse energético, que é a descarbonização”, afirma Gedra, da CCEE.

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Segundo o presidente da entidade, Rui Altieri, até o fim deste ano uma versão inicial da certificação estará disponível, que também é debatida por um grupo nacional no âmbito do Comitê Nacional Brasileiro de Produção e Transmissão de Energia Elétrica CIGRE-Brasil.

Para obter a chancela da CCEE, já há consenso de que uma fábrica de hidrogênio deverá, juntamente com a construção da planta, viabilizar a edificação de uma usina de energia elétrica, que forneça eletricidade adicional limpa e renovável, no mesmo montante do consumido pela fábrica de hidrogênio.

Segundo Altieri, o papel da CCEE, como “entidade isenta”, lhe dá credibilidade nesse processo. “Os contratos de compra e venda de energia, por conta da legislação brasileira, têm de ser registrados na CCEE, acompanhados por ela e, principalmente, liquidados aqui na CCEE”, afirma.

A entidade vai levar a discussão para o encontro mundial da Cigre internacional, em agosto, para que a certificação tenha parâmetros internacionais. O objetivo é buscar o consenso de todos os stakeholders da área do hidrogênio verde, principalmente Europa, que está mais avançada nesse processo. “Então, estamos buscando sim definir atributos que atendam o que está em discussão no mundo. Assim, quando o hidrogênio exportado chegar à Alemanha, ou outro país, o  nosso certificado esteja alinhado a um padrão internacional, e seja reconhecido como sendo produzido sem pegada de carbono”, diz Altieri.

ESG – hidrogênio verde — Foto: Divulgação / Thyssenkrupp/Divulgação / Thyssenkrupp

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