Startups do Vale do Silício são “tóxicas”, segundo escritora que tentou a sorte na meca da tecnologia


Em “Vale da estranheza”, Anna Wiener narra seu mergulho no mundo das startups

Por Célia de Gouvêa Franco — Para o Valor 25/06/2022

Anna Wiener descobriu nas empresas ‘modernas’ os mesmos problemas das outras — Foto: Russel Perkins/Divulgação

Para milhões de jovens de todas as partes do mundo – e não tão jovens – a Pasárgada dos nossos dias é o Vale do Silício. Lá, todos teriam a chance de ser amigos dos reis de empresas em rápida ascensão e ganhar uma bolada rapidamente. Atraídos por essas possibilidades, apostando numa startup que logo se tornaria um unicórnio (para usar as palavras de ordem desse mundo), muitos sonham em se instalar na região da Califórnia que se tornou um polo de tecnologia e inovação.

Porém, a realidade não obedece necessariamente ao que se sonha. “Vale da estranheza – Fascínio e desilusão na meca da tecnologia” busca exatamente desmitificar a vida e o trabalho no Vale do Silício.

Anna Wiener, depois de trabalhar em editoras de livros em Nova York, com um salário pequeno, decide se arriscar no setor de tecnologia da informação que ela mesma não entendia completamente.

“Meus desejos eram genéricos. Queria achar um lugar no mundo e ser independente, útil e bondosa. Queria ganhar dinheiro para me sentir firme, segura e valorizada. Queria ser levada a sério. Mais do que tudo, queria que ninguém se preocupasse comigo”, explicita ela ao explicar por que aceitou a mudança radical de carreira, estilo de vida e cidade.

Wiener queria principalmente que a mãe deixasse de se preocupar com ela e parasse de cobrá-la por ganhar tão pouco. A empreitada não deu certo. Frustrada pelo ambiente que considerou “tóxico” nas empresas onde trabalhou, ela voltou para sua área e cidade – hoje escreve para a revista “The New Yorker”. Nem tudo foi perdido, no entanto – com frequência ela trata do setor de TI.

No livro, lançado em 2020 no mercado americano, ela não cita os nomes das empresas para as quais passa a trabalhar, mas a internet informa que ela teve uma breve passagem por uma startup chamada Oyster e depois, já em São Francisco, passa pela empresa de análise de dados Mixpanel e finalmente pela companhia GitHub.

Colegas e chefes das startups são tratados apenas pelo primeiro nome – pessoas que conhecem bem o Vale do Silício informam que um personagem importante do livro seria Patrick Collinson, cofundador e presidente da Stripe (empresa de pagamentos on-line).

O livro é um relato das experiências de Wiener, tratadas quase como uma expedição a outro universo. O roteiro segue a cronologia – conta as entrevistas de emprego, que a surpreenderam pela superficialidade das questões.

Eis um exemplo: “‘Então’, ele (o entrevistador) disse, como se me pedisse para lhe contar um segredo, ‘como você calcularia o número de pessoas que trabalham para o Serviço Postal dos EUA?’ Ficamos um instante em silêncio. Eu não calcularia, pensei: olharia na internet. Me perguntei se talvez não fosse um teste da minha tolerância a papo furado e ineficiência”

Em sequência, vem toda a narrativa do cotidiano de trabalho e vida em San Francisco. Alguns episódios do livro reforçam o estereótipo de que trabalhar numa startup é quase uma festa. “A empresa era divertida. Divertida – era divertida! A empresa fez uma festa de Día de los Muertos, com comida mexicana, banda mariachi e um altar à luz de velas que homenageava os produtos mortos antes do lançamento” é um dos muitos casos citados por Wiener.

A atração do Vale do Silício não é só ficar rico – ou bem de vida. Chama a atenção também a ideia de se engajar numa empresa que não segue os modelos convencionais em se tratando de horário de trabalho, roupa com que se deve ir ao escritório e relacionamento com a chefia. Na imagem criada por filmes, livros e redes sociais, é tudo muito mais informal e aparentemente mais fácil.

E foi principalmente nessa área que começou a desilusão. Wiener descobre que os mesmos problemas de muitas empresas que seguem o modelo tradicional de relações com funcionários também são encontrados nas companhias mais “modernas” da área de tecnologia. Em especial, o preconceito contra mulheres.

“Havia bastante tempo que eu tinha deixado de fazer trabalho público sob meu próprio nome. Para todas as correspondências externas, usava pseudônimos masculinos. Mas usar pseudônimos masculinos não era conveniente só para aplacar ou enfraquecer conversas tensas. Era útil até para os pedidos de assistência técnica mais inofensivos. Os homens, percebi, simplesmente reagiam de outra forma a homens. Meus pseudônimos masculinos tinham mais autoridade do que eu.”

Em muitos setores da economia, como se sabe, a pressão por resultados positivos é enorme – e crescente. No caso do setor de tecnologia, é ainda maior pela dificuldade de sobrevivência das empresas. Segundo especialistas citados pela Embroker (uma consultoria na área de seguros), globalmente 90% das startups fracassam, sendo que 10% não chegam a completar um ano de vida.

As mesmas sensações de insatisfação com o trabalho e de falta de reconhecimento experimentadas por Wiener na sua passagem pelo setor de livros acabaram predominando também nas empresas de TI em San Francisco. Ela decidiu pedir demissão. Saiu com a oportunidade de comprar ações da empresa, que ela aproveitou.

Meses depois, quando a startup foi comprada por um grande grupo, ela ganhou US$ 200 mil antes dos impostos. Bastante dinheiro para o comum dos mortais, mas não a fortuna sonhada por muitos interessados em ir para o Vale do Silício.

Vale da estranheza

Anna Wiener. Trad.: Débora Landsberg Companhia das Letras 312 págs, R$ 89,90

https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2022/06/25/startups-do-vale-do-silicio-sao-toxicas-segundo-escritora-que-tentou-a-sorte-na-meca-da-tecnologia.ghtml

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