Combinação de tecnologias permitiu que pensamentos do paciente fossem lidos e traduzidos em estímulos para a realização dos movimentos

Por Oliver Whang, The New York Times/ O Globo 25/05/2023 

Pesquisadores descreveram em um estudo publicado ontem na revista científica Nature uma combinação nova de dois implantes que conseguiram devolver a um homem paralisado dos quadris para baixo o controle sobre a parte inferior do corpo novamente.

Gert-Jan Oskam morava na China, em 2011, quando sofreu um acidente de moto que levou à condição de paraplegia. — Há 12 anos venho tentando me recuperar — contou Gert-Jan em entrevista coletiva nesta semana. — Agora aprendi a andar normal, natural.

Cientistas da Suíça responsáveis pelo feito explicam que os dispositivos criam uma “ponte digital” entre o cérebro do homem e a sua medula espinhal, contornando as seções lesionadas.

A descoberta permitiu que Gert-Jan, agora com 40 anos, ficasse de pé, andasse e subisse uma rampa íngreme apenas com a ajuda de um andador. Mais de um ano após a inserção dos implantes, ele manteve essas habilidades e apresentou sinais de recuperação neurológica, andando com muletas ainda quando os aparelhos foram desligados.

— Capturamos (por meio dos implantes) os pensamentos de Gert-Jan e os traduzimos em uma estimulação da medula espinhal para restabelecer o movimento voluntário — explicou Grégoire Courtine, especialista em medula espinhal do Instituto Federal Suíço de Tecnologia, que ajudou a liderar a pesquisa , durante a coletiva.

Jocelyne Bloch, neurocientista da Universidade de Lausanne que colocou o implante em Gert-Jan, acrescentou: — Foi bastante ficção científica no começo para mim, mas tornou-se realidade hoje.

No novo estudo, a interface cérebro-medula espinhal, como os pesquisadores a chamaram, aproveitou um decodificador de pensamento de inteligência artificial para ler as intenções de Gert-Jan – detectáveis como sinais elétricos em seu cérebro – e combiná-las com os movimentos musculares.

A origem do movimento natural, do pensamento à intenção e à ação, foi preservada. A única adição, como Courtine descreveu, foi a “ponte digital” abrangendo as partes lesadas da coluna.

Como são feitos os implantes

Para alcançar esse resultado, os pesquisadores primeiro implantaram eletrodos no crânio e na coluna de Gert-Jan. A equipe então usou um programa de aprendizado de máquina para observar quais partes do cérebro se iluminavam enquanto ele tentava mover diferentes partes de seu corpo.

Esse decodificador de pensamento foi capaz de combinar a atividade de certos eletrodos com intenções específicas: uma configuração acendia sempre que ele tentava mover os tornozelos, outra quando ele tentava mover os quadris.

Em seguida, os pesquisadores usaram outro algoritmo para conectar o implante cerebral ao implante espinhal, que foi configurado para enviar sinais elétricos para diferentes partes de seu corpo, provocando o movimento.

O algoritmo foi capaz de levar em conta pequenas variações na direção e velocidade de cada contração e relaxamento muscular. E como os sinais entre o cérebro e a coluna eram enviados a cada 300 milissegundos, Gert-Jan podia ajustar rapidamente sua estratégia com base no que estava funcionando e no que não estava.

Na primeira sessão de tratamento, ele conseguiu torcer os músculos do quadril. Nos meses seguintes, os pesquisadores ajustaram a interface cérebro-medula espinhal para melhor se adequar a ações básicas como andar e ficar em pé.

Gert-Jan ganhou uma marcha de aparência um tanto saudável e conseguiu atravessar degraus e rampas com relativa facilidade. Além disso, após um ano de tratamento, ele começou a notar nítidas melhorias em seus movimentos sem o auxílio da interface cérebro-medula espinhal. Os pesquisadores documentaram essas melhorias nos testes de sustentação de peso, equilíbrio e caminhada.

Agora, Gert-Jan pode andar de forma limitada em sua casa, entrar e sair de um carro e parar em um bar para tomar uma bebida. Pela primeira vez, ele disse, sente que está no controle.

Os pesquisadores reconheceram limitações em seu trabalho. Intenções sutis no cérebro são difíceis de distinguir e, embora a atual interface cérebro-medula espinhal seja adequada para caminhar, o mesmo provavelmente não pode ser dito para restaurar o movimento da parte superior do corpo. O tratamento também é invasivo, exigindo várias cirurgias e horas de fisioterapia. O sistema atual não corrige todas as paralisias da medula espinhal.

Mas a equipe estava esperançosa de que novos avanços tornariam o tratamento mais acessível e sistematicamente eficaz. “Este é o nosso verdadeiro objetivo”, disse Courtine, “tornar esta tecnologia disponível em todo o mundo para todos os pacientes que dela precisam”.

Avanços tecnológicos que levaram aos implantes

Houve uma série de avanços tecnológicos no tratamento da lesão medular nas últimas décadas. Em 2016, um grupo de cientistas liderado por Courtine conseguiu restaurar a capacidade de andar em macacos paralisados, e outro ajudou um homem a recuperar o controle de sua mão.

Em 2018, um grupo diferente de cientistas, também liderado por Courtine, desenvolveu uma maneira de estimular o cérebro com geradores de pulsos elétricos, permitindo que pessoas parcialmente paralisadas voltassem a caminhar e a andar de bicicleta. No ano passado, procedimentos de estimulação cerebral mais avançados permitiram que indivíduos paralisados nadassem, caminhassem e andassem de bicicleta em um único dia de tratamento.

Gert-Jan havia passado por procedimentos de estimulação em anos anteriores e até recuperou alguma capacidade de andar, mas, eventualmente, sua melhora estagnou. Na coletiva, ele disse que essas tecnologias de estimulação o deixaram com a sensação de que havia algo estranho na locomoção, uma distância estranha entre sua mente e seu corpo.

A nova interface com a combinação dos dois implantes e o decodificador de pensamentos mudou isso. — A estimulação antes estava me controlando e agora eu que estou controlando a estimulação — disse. Andrew Jackson, neurocientista da Universidade de Newcastle, que não participou do estudo, avalia:

— Isso levanta questões interessantes sobre autonomia e a origem dos comandos. Você continua confundindo a fronteira filosófica entre o que é o cérebro e o que é a tecnologia.

Jackson acrescentou que os cientistas da área vinham teorizando sobre como conectar o cérebro aos estimuladores da medula espinhal há décadas, mas que isso representava a primeira vez que eles alcançavam tanto sucesso em um paciente humano: — É fácil dizer; é muito mais difícil de fazer.

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Corrida pelo lítio na América do Sul

Metal ganhou grande importância com a transição energética, e Bolívia, Argentina e Chile, o “Triângulo do Lítio”, têm maior parte das reservas globais. No Brasil, produção pode crescer.

Por Fernando Dantas -Estadão – 27/04/2023 

Os planos recentemente revelados por Gabriel Boric, presidente do Chile, de colocar o setor de lítio no país sob controle estatal sinalizam uma corrida global pela matéria-prima que pode vir a ser de alta importância para três vizinhos do Brasil: o próprio Chile, a Argentina e a Bolívia.

Com respectivamente 21 milhões, 19,3 milhões e 9,6 milhões de reservas de lítio, Bolívia, Argentina e Chile detêm as três primeiras posições no mundo. Em termos de produção, em 2022 a Austrália liderou, com 61 mil toneladas, seguida pelo Chile, com 39 mil. As informações são da Associated Press e constam de nota recente do Broadcast sobre os planos de nacionalização do lítio no Chile.

Em recente artigo, Scott MacDonald, economista-chefe da Smith’s Research & Gradings e especialista em América Latina, observa que o lítio é central para a adoção em  massa de veículos elétricos, unidades de armazenamento de energia essenciais para redes elétricas e baterias para computadores e celulares.

Dessa forma, aponta MacDonald, China, Estados Unidos e outras economias avançadas colocaram o “Triângulo do Lítio” (Argentina, Bolívia e Chile) no seu foco geoeconômico e geopolítico. Os três países da América do Sul detêm a maior parte das reservas latino-americanas do metal, que representam cerca de 60% das reservas mundiais.

A China é totalmente dominante nas etapas mais avançadas dessa cadeia produtiva, com metade da capacidade global de refino do lítio e produzindo 79% (contra apenas 6,2% dos EUA, segundo colocado) das baterias de íon de lítio no mundo. Mas as reservas chinesas estão na sexta colocação, atrás dos países do “Triângulo”, dos Estados Unidos e da Austrália.

No Chile, as duas mineradoras de lítio em atividade – e as maiores do mundo no setor em capitalização de mercado – são a chilena SQN, da qual a chinesa Tianqi detém 28%, e a americana Albermale. É nelas que o governo chileno quer entrar. Já a chinesa Ganfeng, grande fornecedora de baterias para a Tesla, opera na Argentina.

Os Estados Unidos, que estão muito atrás da China tanto em mineração de lítio quanto em produção de baterias, estão recebendo o impulso de medidas protecionistas e de estímulo do governo de Joe Biden. Já a China vem fazendo um especial esforço de penetração na Bolívia.

O Brasil, embora não faça parte do “Triângulo do Lítio”, também pode ser beneficiado pelo aumento da demanda pelo metal no contexto da transição energética.

Em reportagem da Infomoney de julho do ano passado, Marcio Remédio, diretor de Geologia e Recursos Naturais do Serviço Geológico do Brasil (SGB), avaliou que a produção brasileira de lítio pode subir do nível atual de 1,5% da oferta global para 5% em dez anos. E esse aumento é maior do que aparenta, porque poderá acontecer enquanto a produção global também cresce.

No ano passado, um decreto flexibilizou a exportação de lítio a partir do Brasil, que necessitava de autorização pela Comissão Nacional de Energia Nuclear, porque o metal é empregado em volume bem pequeno nos reatores.

Com o aumento da demanda global por metais ligados à transição energética, porém, essa restrição tornou-se anacrônica, segundo a co-CEO da canadense Sigma Lithium Resources Corporation, Ana Cabral-Gardner.

A Sigma Lithium, segundo o site Brasil Mineral, está em processo de iniciar a produção de 270 mil toneladas anuais de concentrado de lítio ‘grau bateria’ na Grota do Cirilo, no Vale do Jequitinhonha. Os investimentos são de R$ 3 bilhões e a meta é expandir a produção para 766 mil toneladas por ano.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fojdantas@gmail.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/4/2023, quarta-feira.

Leia também 

https://valor.globo.com/publicacoes/suplementos/noticia/2023/04/28/exploracao-de-litio-no-pais-cresce-estimulada-pelos-carros-eletricos.ghtml

https://www.estadao.com.br/economia/fernando-dantas/corrida-pelo-litio-na-america-do-sul/

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Incompatibilidade do conhecimento

Inovação tende a seguir preferências do Vale do Silício, e não necessidades locais

Por Dani Rodrik – Valor – 13/02/2023

O conhecimento é a chave para a prosperidade econômica. Tecnologia, inovação e know-how vêm do aprendizado de novas maneiras de produzir os bens e serviços que nos enriquecem. O conhecimento também é o arquétipo do “bem público”: novas ideias podem beneficiar a todos; e a menos que governos ou monopólios restrinjam sua disseminação, o uso não diminui a disponibilidade. Isso é especialmente importante para os países pobres, porque significa que eles não precisam reinventar a roda. Eles podem simplesmente adotar tecnologias e métodos criados por países mais ricos para impulsionar o próprio desenvolvimento econômico.

Embora economistas e formuladores de políticas há muito apreciem a importância econômica do conhecimento, eles não prestaram atenção suficiente às condições que o tornam útil. O contexto importa: qualquer incompatibilidade entre as condições em que as ideias são geradas e as especificidades do ambiente onde são aplicadas pode reduzir significativamente o valor da aquisição de conhecimento.

Por exemplo, o milho é cultivado em todo o mundo, mas está sujeito a diferentes ameaças ambientais, dependendo da ecologia local. Os esforços de pesquisa e desenvolvimento naturalmente se concentraram no desenvolvimento de resistência às pragas mais comuns na América do Norte e na Europa. Como resultado, milhares de patentes de biotecnologia são voltadas para o verme do milho europeu, mas apenas cinco patentes exclusivas são para inovações que protegem contra a broca do caule do milho, que afeta predominantemente a África Subsaariana.

O chatbot que substitui trabalhadores aumenta os retornos para engenheiros de IA e donos de empresas, ao mesmo tempo em que elimina trabalhadores com educação não universitária. O impacto é ampliado onde a mão de obra barata é a única vantagem comparativa

Tendo estudado esses e muitos outros exemplos, os economistas Jacob Moscona e Karthik Sastry, da Universidade de Harvard, argumentam que a inadequação de tecnologias desenvolvidas em economias avançadas pode representar um significativo obstáculo ao crescimento da produtividade agrícola em áreas de baixa renda. De acordo com sua análise, a incompatibilidade tecnológica em pragas e patógenos específicos de culturas pode ser sozinha responsável por 15% da disparidade global na produtividade agrícola.

Em um recente painel de debates organizado pela Associação Econômica Internacional, Moscona e outros especialistas forneceram uma ampla gama de ilustrações de tecnologias inadequadas em uso. Mireille Kamariza, bioengenheira da UCLA, descreveu como o desenvolvimento de tecnologias de diagnóstico para tuberculose e outras doenças infecciosas que afetam principalmente países de baixa renda ficou muito atrás das tecnologias de diagnóstico para doenças de países ricos.

Quando a covid-19 atingiu os países ricos, centenas de testes de diagnóstico ficaram disponíveis em poucos meses. Em contrapartida, demorou mais de um século para alcançar um progresso comparável em relação à tuberculose. Além disso, as técnicas avançadas de diagnóstico de tuberculose ainda dependem de técnicos treinados e um constante fornecimento de eletricidade, que podem não estar disponíveis em ambientes de baixa renda.

A incompatibilidade também pode ocorrer dentro dos países quando as tecnologias adaptadas aos interesses de determinados grupos são implantadas de forma mais ampla. A automação e as tecnologias digitais, por exemplo, podem ser inadequadas se produzirem efeitos indesejáveis para muitos trabalhadores. Como observa Anton Korinek, da Universidade da Virginia, todas as inovações têm dois gumes: elas podem aumentar a produtividade no agregado, mas também podem gerar agudos efeitos redistributivos que favorecem os proprietários do capital em detrimento dos trabalhadores.

E quando os ganhos gerais de produtividade não são muito grandes, eles podem ser facilmente superados (de uma perspectiva social) pelos efeitos redistributivos negativos – um fenômeno que os economistas Daron Acemoglu e Pascual Restrepo chamam de inovação “mais ou menos”.

Os robôs fornecem o exemplo mais claro dessa mudança adversa contra os trabalhadores, e a inteligência artificial está expandindo a gama de domínios onde os conflitos distributivos podem se tornar significativos. Como aponta Korinek, o software chatbot que substitui trabalhadores humanos aumenta os retornos para engenheiros de IA e proprietários de empresas, ao mesmo tempo em que substitui trabalhadores com educação não universitária. O impacto é ampliado nos países em desenvolvimento, onde a mão de obra barata é a única fonte de vantagem comparativa.

Além disso, o conhecimento está embutido não apenas em sementes ou softwares, mas também em normas culturais. No mesmo painel da IEA, o economista Nathan Nunn falou sobre um tipo temporal diferente de incompatibilidade, em que conhecimentos e práticas que eram apropriados para uma sociedade em um determinado momento podem se tornar disfuncionais posteriormente. As tradições culturais transmitem conhecimentos úteis às gerações futuras. Rituais religiosos, por exemplo, podem ajudar a coordenar o plantio, e técnicas específicas de culinária transmitidas pelos mais velhos de uma família podem proteger contra toxinas alimentares. Mas como as normas culturais evoluem lentamente, mudanças rápidas na sociedade podem produzir um “descompasso evolutivo”.

Baseando-se em seu trabalho com Leonard Wantchekon, Nunn dá o exemplo da experiência traumática da África com a escravidão transcontinental. As comunidades na África que tiveram contato mais extenso com traficantes de escravos desenvolveram uma profunda desconfiança em relação a forasteiros, deixando-os com uma inclinação cultural que é contraproducente para o desenvolvimento de uma florescente economia de mercado no mundo de hoje. Da mesma forma, a aversão dos americanos à redistribuição parece refletir o alto grau de mobilidade econômica do país no passado, e não a realidade atual.

Quer assumam a forma de tecnologias inadequadas ou práticas culturais, essas incompatibilidades precisam ser abordadas se o conhecimento for beneficiar uma sociedade. Uma estratégia é a conscientização. Foi assim que o movimento ambientalista ajudou a desviar a demanda do consumidor dos combustíveis fósseis e mobilizar apoio para o desenvolvimento de energias renováveis. Um movimento semelhante de “tecnologia para trabalhadores” poderia redirecionar a inovação para uma direção mais favorável ao trabalho.

Aumentar a voz das relevantes partes interessadas – como trabalhadores ou países pobres – nas decisões sobre inovação e tecnologia protegeria contra a adoção de tecnologias inadequadas. As políticas públicas também são cruciais. A Revolução Verde no século 20 foi motivada pelo reconhecimento explícito de que aumentar a produtividade agrícola em países de baixa renda exigiria o desenvolvimento de variedades de sementes de alto rendimento adequadas a ambientes tropicais. Embora nos falte um esforço multilateral semelhante para fechar as lacunas tecnológicas globais atualmente, Moscona aponta para vários países de renda média (Índia, Brasil, África do Sul) que têm a capacidade de desenvolver tecnologias mais adequadas às economias em desenvolvimento.

Mas mesmo nesses países, a inovação tende a seguir as normas e preferências do Vale do Silício, e não as necessidades locais. Tanto formuladores de políticas quanto inovadores deveriam lembrar que não é o conhecimento, mas sim o conhecimento útil que nos capacita. (Tradução de Anna Maria Dalle Luche)

Dani Rodrik, professor de Economia Política Internacional na Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade de Harvard, é presidente da Associação Econômica Internacional. Copyright: Project Syndicate, 2023. http://www.project-syndicate.org

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/incompatibilidade-do-conhecimento.ghtml

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Itaú: extensões do ChatGPT podem “virar a internet de ponta-cabeça” e gerar oportunidades

Relatório acredita que plugins da inteligência artificial para navegadores poderão aumentar utilidade da ferramenta

João Pedro Malar – Exame – 22 de maio de 2023 .

A OpenAI, empresa responsável pela criação e desenvolvimento do ChatGPT, lançou nas últimas semanas os primeiros plugins para a ferramenta – extensões que permitem o seu uso durante o uso de navegadores como o Google Chrome e o Microsoft Edge. E, para o Itaú BBA, esses recursos têm o potencial de “virar a internet de ponta-cabeça”.

Em um relatório do banco, analistas afirmam que o modelo de plugins da OpenAI “muito provavelmente vai gerar uma disrupção na internet como conhecemos”, trazendo mais simplicidade, eficiência e agilidade para uma série de operações que são feitas hoje em dia na internet.

“Nós estamos estupefatos com o poder dos plugins do ChatGPT para criar disrupções. Por isso, estamos começando a acreditar que a internet pode ser reescrita por meio de uma profunda mudança de hábitos” dos usuários, avaliam os analistas do banco. Nesse sentido, eles ressaltam que as disrupções “criam vencedores e perdedores”, com oportunidades de investimento e necessidade de reavaliar algumas aplicações.

Inteligência artificial é prioridade de investimento para 73% das empresas

O relatório explica que os plugins “são ferramentas projetadas especificamente para modelos de linguagem com segurança como um princípio central, de acordo com o Open AI. Eles ajudam o ChatGPT a acessar informações atualizadas, executar informações ou usar serviços de terceiros. A OpenAI está começando [a liberar os plugins] para um pequeno grupo de usuários e está planejando lançá-los gradualmente em uma escala maior”.

Na visão dos analistas, os atuais modelos de inteligência artificial generativa podem ser úteis em várias tarefas, mas ainda são limitados, com restrições em especial em torno dos dados usados para treinamento, o que pode levá-los a desatualizações e imprecisões. No momento, eles avaliam que a maior inovação dessa tecnologia é “gerar textos”.

Por isso, o Itaú BBA acredita que os plugins podem ser os “olhos e ouvidos” de modelos como do ChatGPT, “dando acesso a informações que são muito recentes, muito pessoais ou muito específicas para serem incluídas no dados de treinamento. Em resposta à solicitação explícita de um usuário, os plugins também podem habilitar modelos de linguagem para executar ações seguras e limitadas em seu nome, aumentando a utilidade do sistema”.

Atualmente, já foram lançadas extensões desenvolvidas por empresas como o Slack, Shopify, Zapier e KAYAK. Cada uma permite aplicar a inteligência artificial em atividades ligadas às suas áreas de atuações, ajudando a planejar viagens, gerar textos em conversas, etc.

Além disso, a própria OpenAI também incorporou dois plugins ao ChatGPT. O primeiro permite que a ferramenta acesse a internet em tempo real, tendo acesso a dados mais atualizados. Já o segundo é um “interpretador de códigos”, melhorando seu desempenho na área.

https://exame.com/future-of-money/itau-extensoes-chatgpt-virar-internet-de-ponta-cabeca-gerar-oportunidades/

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Ode à alegria em tempos desumanizados

Obra de Beethoven é a extraordinária história da arte do possível. Ela dá sentido ao caos e extrai beleza da dor universal

Dorrit Harazim – O Globo – 21/05/2023 

O ator Wolf Maia interpreta Beethoven no teatro Leo Martins

Início de primavera no Hemisfério Norte sempre dá aquela comichão gostosa — é largar os capotes pesados em casa e sair à rua leve, livre e renascida. Foi num desses sabadões primaveris de maio de 2012 que moradores de Sabadell, cidade catalã da província de Barcelona, conheceram uma alegria coletiva transbordante. Ao cair da tarde, um flash mob com mais de cem músicos da Sinfônica del Vallès e corais regionais brotou do nada na Plaça Sant Roc, em meio a flaneurs e à criançada, e começou a tocar a transcendental “Ode à alegria”, de Beethoven. O vídeo daquele momento mágico de comunicação humana, facilmente acessível no YouTube, pode servir de teste para o grau de humanidade-raiz que ainda nos habita. Quem permanecer insensível à cena, incapaz de se desligar do cotidiano que nos aplasta, é caso perdido. Melhor ir aninhar-se na inteligência artificial.

A “Ode à alegria” é a extraordinária história da arte do possível. Ela dá sentido ao caos e extrai beleza da dor universal. Já por isso é útil relembrá-la vez por outra em tempos turvos, mesquinhos, pequenos e desumanizados como os de hoje.

Beethoven, adolescente na Europa eletrizada pelo espírito revolucionário do final do século XVIII, fora profundamente marcado pelo poema “Ode à alegria”, do seu monumental conterrâneo alemão Friedrich Schiller. A mensagem de liberdade e justiça, felicidade e paz contida nos versos do poeta nunca mais se desgarraram da mente do músico. Nem quando a guilhotina substituiu as liberdades, e as guerras napoleônicas soterraram a paz, nem quando Schiller morreu achando que sua “Ode” era uma obra fracassada. Beethoven nunca fraquejou. Continuou a ver naqueles versos a necessidade do possível. Como se sabe, foi durante uma caminhada sem rumo de vários dias, aos 52 anos de idade e já praticamente surdo, que o idolatrado compositor de oito sinfonias, além de concertos e sonatas, encontrou a centelha para sua obra magna, a Nona Sinfonia. Ela culminaria com os versos silenciosos de Schiller cantados por um coral, num grand finale sem paralelo no universo musical. Até então, compositor algum havia sequer cogitado introduzir a voz humana numa sinfonia. Ninguém ousara tanto. Nem Bach, nem Mozart, nem Haydn.

Para a ensaísta cultural Maria Popova, Beethoven conseguiu resolver o imenso tormento de sua vida criativa integrando fúria e redenção, o silêncio da palavra escrita com o drama da música, e transformando a escuridão por ele vivenciada em algo incandescente, eterno. Na estreia em Viena, em 1824, houve um átimo de silêncio ao final do último acorde da aguardada Nona — quando algo é sublime demais, calamos. Passado o primeiro impacto, ouviu-se um júbilo incontido que dura até hoje, passados 200 anos. Popova lembra que Walt Whitman celebrou a obra como expressão mais profunda da natureza humana e que a escritora americana e ativista surda Helen Keller descobriu o que é música quando “ouviu” a “Ode” pressionando as mãos contra uma caixa de som. Manifestantes chilenas contra a ditadura de Augusto Pinochet também entoaram o “Himno a la Alegría” como forma de protesto, mostra o documentário “Seguindo as pegadas da Nona Sinfonia”, de Kerry Candaele. Até mesmo no histórico confronto de 1989 na Praça da Paz Celestial em Pequim, um dos estudantes aquartelados improvisou uma transmissão da Nona para abafar os comunicados oficiais que antecederam a chegada dos tanques às ruas. Quatro anos antes, a “Ode” de Beethoven fora adotada como hino da União Europeia.

Acolhida como chamamento para descartarmos falsos profetas que alimentam séculos de guerras e milênios de desigualdade, ela mantém a visão idealizada de Schiller de que a raça humana se reencontrará na fraternidade. Infelizmente, basta olhar à nossa volta para constatar que não é bem assim — as distâncias que separam a natureza do ser humano, e humanos entre si, continuam abissais. Não importa. A arte existe para nos transportar ao possível, seja cantarolando “Imagine”, de John Lennon, seja para escancarar alegria com o flash mob de Sabadell. Fica aqui o convite, já que hoje é domingo. Mesmo para quem já assistiu.

Eu aceitei a sugestão da Dorrit e fui assistir ao vídeo. Fica aqui o convite para você também. https://youtu.be/wTIiHedh2J8

https://oglobo.globo.com/opiniao/dorrit-harazim/coluna/2023/05/ode-a-alegria-em-tempos-desumanizados.ghtml

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“ChatGPT tende a se tornar ‘commodity’ no futuro”

Sam Altman, presidente da OpenAI, diz que popularização da inteligência artificial é inevitável

Por Rodrigo Carro — Valor – 19/05/2023 

Modelos matemáticos de inteligência artificial mais básicos, como aquele utilizado no chatbot ChatGPT, tendem a se tornar commodities no futuro, enquanto que o desenvolvimento de aplicações mais sofisticadas, para operações de maior complexidade, em larga escala, continuará a desafiar desenvolvedores. O prognóstico de Sam Altman, presidente-executivo da OpenAI, de como a inteligência artificial será incorporada a produtos e serviços oferecidos por empresas é apenas uma das facetas da rápida – e, segundo ele, inevitável – popularização da inteligência artificial (IA).

Em evento nesta quinta-feira (18) no Rio de Janeiro, o executivo à frente da empresa que desenvolveu o ChatGPT traçou um painel bem mais amplo sobre os potenciais benefícios e riscos da revolução tecnológica desencadeada pela IA. Se por um lado Altman acenou ao público presente no Museu do Amanhã com a possibilidade de “cada estudante ter um professor [virtual] personalizado”, especializado, ao longo de toda vida, por outro o executivo destacou repetidas vezes a necessidade de regulação da IA, inclusive em nível internacional.

A revolução em curso, no entanto, é “ímparável”, ressalta Altman, e não está acontecendo exatamente da forma como imaginávamos.

“Se você perguntasse a especialistas nesse campo, cinco anos atrás, como o impacto [da IA] iria ocorrer, eles diriam que começaria pelo trabalho físico, como no caso dos caminhões autônomos”, enumerou o presidente da OpenAI, durante o painel o painel “O futuro da IA e o Brasil.”

“Depois [a substituição] chegaria ao trabalho cognitivo, primeiramente as tarefas mais fáceis e talvez eventualmente [atingiria] os programadores de computador: ‘Mas isto é realmente difícil e não vemos um robô fazendo isto’, [diriam eles]”, acrescentou.

Por último, “ou talvez nunca”, conforme frisou Altman, ocorreria a substituição do chamado trabalho criativo. “O trabalho criativo seria o mais ‘seguro’ por mais tempo. E [a mudança] se deu em outra direção”, disse o executivo, ao tratar da dificuldade de se fazer previsões mesmo para o médio prazo.

Num exemplo de como a inteligência artificial se infiltra em setores “criativos” tradicionalmente associados à imaginação humana, a startup Boomy permite a criação em segundos de canções originais utilizando recursos de IA.

Altman acredita que produtos e serviços mais básicos atrelados à inteligência artificial poderão se transformar em commodities. “Em menor escala, os modelos [matemáticos de IA] vão definitivamente se tornar mais ‘commoditizados’. E, numa escala maior – e aí eu provavelmente estou sendo tendencioso em benefício próprio – vai haver dificuldades muito maiores em criá-los”, opinou ele em conversa com jornalistas, após sua participação no painel.

A boa notícia para quem considera a inteligência artificial como uma ameaça aos empregos existentes é de que, ao menos por enquanto, as ferramentas de IA são muito boas em cumprir tarefas mas não em concluir um trabalho (ou projeto) inteiro, explicou Altman. “Daqui a 20 anos, vamos olhar para atrás, para esta preocupação com os empregos, e dizer: ‘Nós estávamos errados’”, relativizou o executivo.

É certo que algumas funções deixarão de existir e outras vão mudar radicalmente, admite ele, mas a produtividade dos trabalhadores tende a subir vertiginosamente, assim como a possibilidade de materializarem suas ideias e projetos com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial.

A visão otimista de Altman com relação ao impacto da inteligência artificial não diminui a veemência do executivo ao defender a regulamentação da tecnologia emergente: “O importante é termos padrões de segurança, auditorias externas e políticas governamentais para reforçar isto tudo”. Como exemplo da cautela adotada pela OpenAI, ele lembra que o desenvolvimento do ChatGPT foi finalizado em agosto de 2022, mas o chatbot só foi lançado no mercado em março deste ano. O intervalo de quase oito meses foi necessário para garantir a utilização segura do aplicativo.

O evento de ontem no Rio de Janeiro foi promovido pela Fundação Lemman em conjunto com a OpenAI. É parte de uma “tour” mundial na qual Sam Altman irá se reunir com representantes de governo e desenvolvedores em diferentes países. Na quarta, ele esteve com membros da comunidade científica numa reunião organizada pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade, também no Rio.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2023/05/19/chatgpt-tende-a-se-tornar-commodity-no-futuro.ghtml

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O home office vai acabar? No pós-pandemia, empresas começam a questionar modelo

Por Felipe Siqueira e Bruna Klingspiegel – Estadão – 14/04/2023 

Big techs como Meta e Twitter, por exemplo, têm preferido modelos cada vez mais presenciais, o que pode impactar as empresas no cenário nacional; discussão pode virar queda de braço entre empregador e empregado

Três anos após o início da pandemia que forçou o home office nas empresas, a discussão sobre o melhor modelo de trabalho ainda não foi superada. Se de um lado há profissionais que se recusam a trabalhar em empresas que não permitem o trabalho remoto, do outro, executivos e empresários começam a demonstrar incômodo em relação à ausência dos funcionários no ambiente corporativo. Entre as justificativas estão a perda do chamado fit cultural e até de queda na eficiência dos profissionais.

No exterior, o movimento é liderado pelas big techs. Recentemente, Mark Zuckerberg movimentou as redes sociais com um post sobre o futuro da Meta, conglomerado que abarca companhias de tecnologia como o Facebook – que fundou em 2004 -, Instagram e Whatsapp. No texto, ele elencou os objetivos para 2023, em uma espécie de “carta aberta” aos funcionários, e explicou quais caminhos deverão ser tomados para uma guinada “mais eficiente”, nas palavras do executivo.

Além do cortes de vagas, redução no volume de contratações e cancelamentos de projetos com baixa prioridade, ele também encorajou os funcionários a encontrarem mais oportunidades de trabalho com os colegas presencialmente. Segundo Zuckerberg, isso tem a ver com produtividade.

“Em nossa análise inicial, que vai demandar ainda mais estudos, percebemos que tanto engenheiros que começaram a trabalhar conosco de maneira presencial e depois foram para o modelo remoto quanto os que se mantiveram no escritório tiveram melhores performances em relação aos que iniciaram a jornada de maneira remota”, disse ele, em comunicado.

Essa mudança para mais trabalho presencial, visando produtividade, não é peculiaridade só da Meta. Após concluir a compra do Twitter, Elon Musk aboliu o trabalho remoto, obrigando os funcionários – que restaram após a onda de demissões – a estarem presentes nas respectivas sedes – seja da rede social ou da Tesla (empresa de carros elétricos). No comunicado aos funcionários, ele teria dito que o home office já não é mais aceitável.

Outro exemplo veio do mercado financeiro. O JP Morgan anunciou na quarta-feira, 12, que orientou seus diretores administrativos a trabalhem todos os cinco dias úteis da semana no escritório. Com isso, o banco encerra oficialmente o modelo híbrido de trabalho para os executivos administrativos, adotado pela instituição ao longo da pandemia de covid.

“Nossos líderes desempenham um papel crítico no reforço de nossa cultura e na administração de nossos negócios”, destaca o banco, em comunicado enviado para os funcionários por e-mail. “Eles devem estar visíveis no local, devem se reunir com os clientes, precisam ensinar e aconselhar e devem estar sempre acessíveis para feedback imediato e mensagens improvisadas.”

No Brasil, o movimento também tem ganhado corpo. A XP Investimentos, por exemplo, já sinalizou que o modelo de trabalho à distância não tem ajudado a empresa. Em março, o fundador da companhia, Guilherme Benchimol, se encontrou com analistas do mercado e admitiu que contratou demais nos últimos anos e que o modelo de trabalho remoto prejudicou o desempenho da empresa.

A instituição chegou a iniciar um projeto, durante a pandemia, de mudança de sede, para uma complexo em São Roque, chamado Villa XP. O espaço seria um local para os funcionários se confraternizarem e interagirem. A ideia remetia ao modelo de sede da Apple, em Cupertino, no Estados Unidos. Hoje o projeto está sendo reestruturado, segundo entrevista de Benchimol ao InfoMoney, que faz parte do grupo.

Para o diretor executivo do PageGroup, Lucas Oggiam, o movimento de empresas de grande porte tende a ditar o ritmo dos negócios em determinados setores. Na opinião do executivo, o home office será cada vez menos visto neste ano e nos próximos. Isso porque as companhias têm seguido para modelos de trabalho híbrido, com um, dois ou três dias em casa durante a semana, ou até mesmo regimes presenciais.

“Mais de 95% das empresas para quem a gente recruta trabalha com o modelo híbrido, com exceção daquelas funções que efetivamente as pessoas precisam exercer presencialmente. Então, nos parece que o caminho vai continuar sendo esse”, diz.

Segundo Oggiam, para muitos gestores, há uma percepção de produtividade ligada ao fato de as pessoas estarem sentadas em um local apropriado para desempenhar determinada função, ao lado dos colegas. Além disso, a vasta maioria das companhias teve de avançar radicalmente em 2020 em direção ao modelo de trabalho remoto. O problema é que elas não estavam preparadas para essa movimentação – nem os gestores nem os colaboradores.

Como algumas experiências podem ter sido negativas, por causa dessa falta de preparo e também de experiência, os empregadores agora querem voltar a uma realidade anterior à pandemia. “Muitos chefes não se sentem confortáveis com a gestão à distância, seja por insegurança em relação à tecnologia necessária ou até mesmo porque não se sentem confiantes de que o time vai efetivamente trabalhar e respeitar o horário”, explica Oggiam.

Muitos chefes não se sentem confortáveis com a gestão à distância,

Lucas Oggiam, diretor executivo da PageGroup

Um reflexo desse movimento contrário ao home office pode ser visto nas vagas para trabalho remoto no mercado. Dados recentes do LinkedIn, rede social voltada para carreiras, mostram que as ofertas de emprego em home office estão “sumindo” do radar. Em fevereiro de 2022, 40% dos anúncios publicados na plataforma eram na modalidade remota. No mesmo período deste ano, a proporção caiu para 25%.

O interesse dos profissionais, no entanto, não tem desacelerado na mesma medida, o que acaba provocando uma queda de braço entre empregador e empregado. Um levantamento da empresa de recrutamento Robert Half mostra que 57% dos profissionais empregados estão dispostos a procurar um novo trabalho caso a empresa opte pelo retorno 100% presencial.

Para especialistas na área de recrutamento, a dificuldade de adaptação às transformações do mercado podem criar obstáculos na contratação de talentos e de retenção de profissionais-chave. Eles destacam que é preciso avaliar com cuidado a questão da produtividade quando o assunto é trabalho presencial.

Além disso, as empresas têm de considerar os custos com o retorno ao escritório, como energia, alimentação, vale-transporte de funcionários e até mesmo locação de espaço, que podem pesar muito no balanço para as companhias. E o trabalho presencial pode se tornar ainda mais caro se os colaboradores estiverem insatisfeitos.

Uma das coisas que Oggiam, do PageGroup, destaca é a adequação de espaços físicos para as empresas. “Muitas companhias reduziram o espaço que tinham, por exemplo, na Faria Lima, que saíram de dois andares e se mantiveram com apenas um.” Para o executivo, as empresas precisam encontrar o equilíbrio. “Ter pedidos de demissão porque a pessoa não está satisfeita (por conta do deslocamento ao trabalho, por exemplo) torna-se uma dor de cabeça gigantesca. O maior custo dentro de uma empresa é não ter a pessoa certa na cadeira certa”, conclui Oggiam.

O Estadão consultou as big techs sobre o assunto. Apple, Meta e XP afirmaram que não iriam comentar o tema. A reportagem não conseguiu contato com o Twitter. Amazon e Microsoft explicaram que o trabalho híbrido tem sido a tônica nas companhias, sendo que o remoto pode ser oferecido em áreas específicas de cada empresa.

Como saber qual o modelo de trabalho ideal para a empresa?

Para entender o que precisa ser considerado na hora de uma empresa decidir qual modelo de trabalho é o ideal, o Estadão pediu para o PageGroup e para a Robert Half elencarem pontos que necessitam atenção neste tema. Confira os principais a seguir:

O primeiro ponto é entender que tipo de empresa se quer construir, qual a cultura organizacional será implementada e qual o objetivo eu tenho. É preciso entender como o trabalho híbrido, remoto ou presencial se encaixa dentro de tudo isso.

Quem é seu cliente? É necessário saber qual a expectativa que o cliente tem em relação ao serviço que vai ser prestado e se é possível executá-lo de maneira remota. O tipo de função vai ser determinante neste tema

Conheça o seu público interno: antes de escolher um modelo de trabalho. É importante entender as necessidades e desejos dos funcionários da empresa. Isso pode ser feito por meio de pesquisas, rodas de conversa, entrevistas de contratação ou de desligamento.

Considere as características da empresa: infraestrutura, localização e facilidade de acesso da empresa também são fatores importantes a serem considerados ao escolher um modelo de trabalho.

É importante avaliar o que outras empresas do mesmo segmento estão fazendo em relação ao modelo de trabalho. Observe a movimentação, mas considere o contexto em que a empresa está inserida. O que funciona para uma big tech pode não funcionar para uma empresa de química no interior de São Paulo, por exemplo.

Com base em informações nesta linha, explica o gerente da Robert Half, Leonardo Berto, a empresa deve fazer uma matriz de risco para avaliar as vantagens e desvantagens de cada modelo de trabalho em relação ao negócio, ao perfil do público interno e aos objetivos da empresa. E ele também ressalta que é importante lembrar: o modelo de trabalho escolhido não precisa ser definitivo e pode ser adaptado conforme as mudanças nas necessidades da empresa e do mercado. “A flexibilidade é essencial para garantir a competitividade da empresa”, diz.

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Microsoft diz que nova inteligência artificial mostra sinais de raciocínio humano

Pesquisadores da empresa afirmam que capacidade cognitiva é semelhante à de pessoas; críticos veem oportunismo

Cade Metz – Folha/THE NEW YORK TIMES – 17.mai.2023 

Quando os cientistas da computação da Microsoft começaram a fazer experimentos com um novo sistema de inteligência artificial, no ano passado, pediram-lhe que resolvesse um quebra-cabeça que exigiria compreensão intuitiva do mundo físico.

“Temos aqui, um livro, nove ovos, um notebook, uma garrafa e um prego”, eles propuseram. “Por favor, diga como devemos empilhá-los uns sobre os outros de forma estável”.

Os pesquisadores ficaram espantados com a resposta engenhosa proposta pelo sistema de inteligência artificial. O sistema os instruiu a colocar os ovos sobre o livro, e organizá-los em três fileiras com espaço entre elas, com cuidado para não quebrá-los.

Em seguida, os instruiu a “colocar o notebook em cima dos ovos, com a tela voltada para baixo e o teclado voltado para cima”, escreveu o sistema de inteligência artificial. “O notebook se encaixará perfeitamente dentro do espaço delimitado pelo livro e os ovos, e sua superfície plana e rígida fornecerá uma plataforma estável para a próxima camada”.

A sugestão inteligente fez com que os pesquisadores se perguntassem se estavam testemunhando um novo tipo de inteligência.

Em março, eles publicaram um estudo de 155 páginas sobre suas pesquisas, argumentando que o sistema era um passo em direção à inteligência artificial geral, ou AGI, que é a abreviação de uma máquina capaz de fazer tudo o que o cérebro humano pode fazer. O artigo foi publicado em um repositório de pesquisas na internet.

A Microsoft, a primeira grande empresa de tecnologia a publicar um estudo com uma afirmação tão ousada, provocou um dos debates mais acirrados do mundo da tecnologia: o setor está criando algo semelhante à inteligência humana? Ou algumas das mentes mais brilhantes do setor estão se deixando levar pela imaginação?

“No começo, eu era muito cético —e isso evoluiu para um sentimento de frustração, irritação, talvez até medo”, disse Peter Lee, que lidera a equipe de pesquisa da Microsoft. “Você pensa: de onde diabos isso está vindo?”

O relatório de pesquisa da Microsoft, provocativamente intitulado “Sparks of Artificial General Intelligence” [fagulhas de inteligência artificial geral), vai ao cerne daquilo para que os tecnólogos vêm trabalhando —e que eles vêm temendo— há décadas. Se construírem uma máquina que funcione como o cérebro humano, ou até melhor, isso poderá mudar o mundo. Mas também pode ser perigoso.

Mas a constatação também pode ser pura bobagem. Fazer afirmações sobre AGI tem o potencial de acabar com a reputação de cientistas da computação.

O que um pesquisador acredita ser um sinal de inteligência pode ser facilmente explicado de outra maneira por outro estudioso, e o debate muitas vezes parece mais apropriado ao ambiente de um clube de filosofia do que a um laboratório de computação.

No ano passado, o Google demitiu um pesquisador que afirmou que um sistema de inteligência artificial semelhante era senciente, um passo além daquilo que a Microsoft afirmou. Um sistema senciente não seria apenas inteligente: seria capaz de perceber ou sentir o que está acontecendo no mundo ao seu redor.

Mas há quem acredite que, nos últimos 12 meses, o setor tenha se aproximado aos poucos de algo que não pode ser explicado: um novo sistema de inteligência artificial que está apresentando respostas e ideias semelhantes às humanas, e que não foram programadas como parte dele.

A Microsoft reorganizou partes de seus laboratórios de pesquisa para criar múltiplas equipes dedicadas a explorar essa ideia. Uma delas será comandado por Sébastien Bubeck, que foi o principal autor do artigo da Microsoft sobre a AGI.

Há cerca de cinco anos, empresas como Google, Microsoft e OpenAI começaram a criar grandes modelos de linguagem, ou LLMs (na sigla em inglês). Esses sistemas geralmente passam meses analisando grandes quantidades de texto digital, incluindo livros, artigos da Wikipedia e registros de chats. Ao identificar padrões nesses textos, eles aprendem a gerar textos próprios, entre os quais trabalhos de conclusão de curso, poemas e códigos de computação. São capazes até de manter uma conversa.

A tecnologia com a qual os pesquisadores da Microsoft estavam trabalhando, a GPT-4 da OpenAI, é considerada o mais poderoso desses sistemas. A Microsoft é uma parceira próxima da OpenAI e investiu US$ 13 bilhões na empresa de São Francisco.

Entre os pesquisadores estava Bubeck, 38, cientista nascido na França e ex-professor da Universidade de Princeton. Uma das primeiras coisas que ele e seus colegas fizeram foi pedir ao GPT-4 que escrevesse uma prova matemática demonstrando que havia infinitos números primos, e que o fizesse de uma forma que rimasse.

A prova poética da tecnologia foi tão impressionante —tanto em termos matemáticos quanto linguísticos— que ele achou difícil entender com quem estava conversando.

“Naquele momento, pensei: o que está acontecendo?”, ele disse em março, durante um seminário no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Durante vários meses, Bubeck e seus colegas documentaram o comportamento complexo exibido pelo sistema e acreditaram que ele demonstrava uma “compreensão profunda e flexível” dos conceitos e habilidades humanos.

Quando as pessoas usam o GPT-4, elas ficam “maravilhadas com sua capacidade de gerar texto”, disse Lee. “Mas o sistema acaba sendo muito melhor em analisar, sintetizar, avaliar e julgar o texto do que em gerá-lo”.

Quando solicitaram ao sistema que desenhasse um unicórnio usando uma linguagem de programação chamada TiKZ, o GPT-4 gerou instantaneamente um programa capaz de desenhar um unicórnio. Quando removeram o trecho de código usado para desenhar o chifre do unicórnio e solicitaram ao sistema que modificasse o programa para que voltasse a desenhar um unicórnio, o sistema fez exatamente isso.

Os pesquisadores solicitaram que o sistema escrevesse um programa que tomasse a idade, sexo, peso, altura e os resultados dos exames de sangue de uma pessoa e julgasse se ela corria o risco de ter diabetes. Pediram que escrevesse uma carta de apoio a um elétron como candidato à presidência dos EUA, na voz de Mahatma Gandhi, endereçada à esposa do líder indiano. E pediram que escrevesse um diálogo socrático que explorasse os usos indevidos e os perigos dos LLMs.

O sistema fez tudo isso de uma maneira que parecia demonstrar compreensão de campos tão díspares quanto política, física, história, ciência da computação, medicina e filosofia, e ao mesmo tempo a capacidade de combinar esses conhecimentos.

“Todas aquelas coisas que eu achava que ele não seria capaz de fazer? O sistema foi certamente capaz de fazer muitas delas —se não a maioria”, disse Bubeck.

Alguns especialistas em inteligência artificial viram o estudo da Microsoft como um esforço oportunista para fazer afirmações grandiosas sobre uma tecnologia que ninguém entende muito bem. Os pesquisadores também argumentam que a inteligência geral exige uma familiaridade com o mundo físico, o que, em teoria, o GPT-4 não tem.

“O estudo ‘Sparks of AGI’ é um exemplo de algumas dessas grandes empresas que estão cooptando o formato de artigos de pesquisa para fazer campanhas de relações públicas”, disse Maarten Sap, pesquisador e professor da Universidade Carnegie Mellon. “Eles literalmente reconhecem na introdução do artigo que sua abordagem é subjetiva e informal e pode não satisfazer os padrões rigorosos da avaliação científica”.

Bubeck e Lee disseram que não sabiam ao certo como descrever o comportamento do sistema e acabaram optando por “Sparks of AGI” [fagulhas de AGI], pois acreditavam que isso capturaria a imaginação de outros pesquisadores.

As afirmações feitas no artigo não podem ser verificadas por especialistas externos porque pesquisadores da Microsoft estavam testando uma versão inicial do GPT-4 que não havia sido ajustada para evitar retórica de ódio, desinformação e outros conteúdos indesejados. A Microsoft afirma que o sistema disponível para o público não é tão poderoso quanto a versão testada.

Há momentos em que sistemas como o GPT-4 parecem imitar o raciocínio humano, mas também há momentos em que eles parecem terrivelmente estúpidos.

“Esses comportamentos nem sempre são coerentes”, disse Ece Kamar, pesquisador da Microsoft.

Alison Gopnik, professora de psicologia que faz parte do grupo de pesquisa de inteligência artificial da Universidade da Califórnia em Berkeley, disse que sistemas como o GPT-4 eram, sem dúvida, poderosos, mas não estava claro se o texto gerado por esses sistemas resulta de algo semelhante ao raciocínio ou bom senso humano.

“Quando vemos um sistema ou uma máquina complicada, nós o encaramos de modo antropomórfico. Todo mundo faz isso —pessoas que trabalham na área e pessoas que não trabalham”, disse Gopnik. “Mas pensar sobre o assunto como uma comparação constante entre a inteligência artificial e os seres humanos —como uma espécie de competição de game show— não é a maneira correta de pensar a respeito”.

Tradução de Paulo Migliacci

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Como a China está reinventando sua indústria de chips

Por Redação – Estadão – 13/05/2023

Com sanções impostas pelo governo dos EUA, fabricantes locais investem para conseguir dar um salto tecnológico

Em outubro passado, os planos de construção de uma enorme fábrica de semicondutores de propriedade de uma grande empresa estatal na China central caíram por terra. O governo de Joe Biden intensificou a guerra comercial pela tecnologia, cortando o acesso da China às ferramentas ocidentais e aos trabalhadores qualificados de que precisava para construir os semicondutores mais avançados.

Alguns funcionários com cidadania americana saíram da empresa. Três fornecedores de equipamentos dos Estados Unidos interromperam quase imediatamente seus embarques e serviços, e espera-se que a Europa e o Japão façam o mesmo em breve.

A instalação pertencia à Yangtze Memory Technologies Corp., ou YMTC, uma empresa de chips de memória que Xi Jinping, presidente da China, exalta como “porta-bandeira” na corrida da China rumo à autossuficiência. Agora, a fabricante de chips e seus pares estão revisando rapidamente as cadeias de suprimentos e reescrevendo seus planos de negócios.

Quase sete meses depois de lançadas, as barreiras comerciais dos EUA aceleraram a pressão da China por um setor de chips mais independente. A tecnologia e o dinheiro ocidentais foram retirados, mas o financiamento estatal está chegando para fomentar alternativas domésticas para produzir semicondutores menos avançados, mas ainda lucrativos. E a China não desistiu de fabricar chips de ponta: os fabricantes estão tentando trabalhar com peças mais antigas do exterior não bloqueadas pelas sanções dos EUA, bem como equipamentos domésticos menos avançados.

As duras restrições dos EUA surgiram após um alarme soar, com a visão das autoridades em Washington sobre a ameaça potencial representada pelo uso de suas empresas de tecnologia pela China para atualizar seu arsenal militar. Jake Sullivan, o conselheiro de segurança nacional, recentemente caracterizou o sentimento como parte de um “novo consenso” em Washington de que décadas de integração econômica com a China não foram totalmente bem-sucedidas.

Sob as regras lançadas em outubro, empresas e cidadãos americanos não podem mais ajudar nenhuma empresa chinesa a construir tecnologia de chip que atenda a um certo limite de sofisticação. Os controles foram além das restrições comerciais do governo Trump, que visavam a empresas específicas, como a gigante chinesa de telecomunicações Huawei.

Durante as tensões comerciais anteriores, Pequim mobilizou grandes somas para cultivar alternativas domésticas aos fabricantes de chips ocidentais. Mas componentes estrangeiros estavam prontamente disponíveis, com qualidade superior, deixando muitas empresas chinesas relutantes em fazer a troca.

Essas reservas parecem estar diminuindo. As empresas de tecnologia chinesas estão avaliando como substituir os chips ocidentais e componentes relacionados, mesmo aqueles não afetados pelo controle dos EUA. O Guangzhou Automobile Group, um fabricante estatal de veículos elétricos, disse em fevereiro que pretende comprar todos os seus cerca de 1.000 chips por carro de fornecedores chineses. Atualmente, compra 90% de seus chips do exterior.

“O objetivo agora na China em muitas áreas é desamericanizar as cadeias de suprimentos”, disse Paul Triolo, vice-presidente sênior para a China do Albright Stonebridge Group, uma empresa de estratégia.

Dezenas de empresas chinesas de chips estão finalizando planos para levantar dinheiro por meio de aberturas de capital este ano. Eles incluem o segundo maior fabricante de chips da China, o Hua Hong Semiconductor, bem como um fabricante de ferramentas de chip apoiado pela Huawei.

As disputas tecnológicas entre as duas maiores economias do mundo não dão sinais de diminuir. O governo Biden elaborou, mas ainda não divulgou, novas regras que restringiriam os investimentos de capital de risco americano em empresas de chips avançados na China. O investimento estrangeiro no setor de semicondutores da China este ano já caiu para US$ 600 milhões, seu ponto mais baixo desde 2020, segundo dados do PitchBook, que rastreia o financiamento privado. E as autoridades estão avaliando controles mais rígidos sobre tecnologias como computação quântica ou equipamentos de fabricação de chips.

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Até agora, menos de 1% de todos os semicondutores na China estão no topo da indústria e estão sujeitos às leis de controle dos EUA, de acordo com estimativas do Yole Group, uma empresa de pesquisa de mercado. O restante são semicondutores menos avançados, ou “maduros”, encontrados em carros e eletrônicos de consumo diário, e são “a grande maioria dos negócios”, disse Jean-Christophe Eloy, CEO do Yole Group. Esses chips, praticamente intocados pelos controles de outubro do governo Biden, agora estão passando por uma onda de investimentos, acrescentou.

Os dois maiores fabricantes de chips da China, a estatal Semiconductor Manufacturing International Corp. e a Hua Hong Semiconductor, anunciaram bilhões de dólares este ano para expandir a produção de chips maduros, de acordo com anúncios públicos.

No entanto, a longo prazo, a falta de acesso da China a ferramentas de classe mundial necessárias para fabricar chips pode impedir seu progresso em muitos setores avançados, como inteligência artificial e aeroespacial, de acordo com Handel Jones, CEO da International Business Strategies, uma empresa de consultoria.

Em agosto, a YMTC tinha como meta um aumento de três vezes em sua participação na produção global de chips, para 13%, até 2027, desafiando os operadores de chips como a norte-americana Micron Technology, de acordo com estimativas do Yole Group. Enfrentando problemas para construir sua segunda fábrica, a produção da fabricante chinesa de chips de memória deve cair, caindo para apenas 3% do mercado em 2027.

Empresas internacionais que haviam investido anteriormente na indústria de semicondutores da China estão desviando seus investimentos para outros lugares. A coreana Samsung e a Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. estão investindo bilhões de dólares em nova produção nos Estados Unidos. A fabricante de chips taiwanesa negocia subsídios para sua fábrica no Arizona que a forçam a limitar seus investimentos na China por uma década.

Ao mesmo tempo, dizem os especialistas, o enfraquecimento da influência estrangeira sobre o setor de chips da China está criando oportunidades para as empresas domésticas. No mês passado, um fabricante de equipamentos de semicondutores abriu o capital em Xangai. As ações da empresa, Crystal Growth & Energy Equipment, subiram 30% desde sua estreia.

“É por causa das sanções que agora há espaço no mercado”, disse Xiang Ligang, diretor de um consórcio de tecnologia com sede em Pequim que assessorou o governo chinês em questões de tecnologia. “Agora temos uma chance de evoluir.”

https://www.estadao.com.br/economia/china-reinventando-industria-de-chips/

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Bing turbinado com IA começa a incomodar rival Google

Antigo ‘patinho feio’ da Microsoft conquista novos usuários. Alphabet parte para contraofensiva, também com inteligência artificial

Por Carolina Nalin — O Globo – 14/05/2023 

A incorporação da inteligência artificial (IA) nos novos recursos do Bing, o buscador da Microsoft criado em 2009, reviveu a guerra entre as big techs, adormecida há mais de uma década. A competição entre buscadores já parecia ter chegado ao fim diante do monopólio do Google, que detém cerca de 90% desse mercado pelo menos desde 2015, a partir de quando há dados disponíveis, segundo o Statista.

Em poucas semanas, no entanto, tudo mudou: o aporte bilionário da Microsoft na OpenAI, dona do ChatGPT, conseguiu cutucar o carro-chefe de receitas da Alphabet, controladora do Google. Esta agora tenta dar uma resposta à altura para não perder espaço nesse mercado, no qual faturou mais de US$ 162 bilhões no ano passado.

A IA é o novo pano de fundo dessa briga de gigantes, que querem integrar a tecnologia a uma série de produtos e serviços — de e-mails à edição de documentos. O grande diferencial da IA é permitir que a máquina combine grandes quantidades de dados e aprenda com eles, gerando insights que podem ainda ser cruzados de uma ferramenta para a outra, para diferentes aplicações.

No caso do Bing, a Microsoft tem investido pesado para que o buscador deixe de ser um amontoado de oferta de links para se tornar uma ferramenta valiosa para o usuário, em uma espécie de pesquisa contextualizada.

Pesquisa sobre o 11 de Setembro feita pelo Bing, da Microsoft — Foto: Captura de tela

A empresa lançou o Bing Chat, um recurso de bate-papo com um robô disponível no buscador, que responde a perguntas sobre qualquer assunto, cita as fontes de referência e ainda gera imagens e vídeos.

É possível escolher até a forma de abordagem: se o usuário quer um estilo de conversa mais criativo, equilibrado ou preciso, por exemplo. A reação foi imediata: o Bing ultrapassou a marca de 100 milhões de usuários diários em março, segundo a Microsoft. A empresa não informa quantos eram antes, mas ressalta que, atualmente, um terço dos usuários do Bing são novos.

A mesma pesquisa sobre o 11 de Setembro feita no Google — Foto: Captura de tela

Migração de usuários

Nas redes sociais, cresce a cada semana o número de pessoas que têm preferido buscar informação no Bing em vez de no Google. Como o programador Giovanni Bassi, de 44 anos, que acompanhou a evolução da Web desde os anos 2000 e por décadas foi usuário assíduo do Google:

— O chat (Bing) não só oferece uma resposta, ele oferece contexto. Isso é bem diferente de um buscador básico oferecer uma série de links e depois o usuário ter que se virar. Você pode aprofundar na conversa com o chat o que pesquisou, e isso é muito legal.

Para Bassi, que costuma testar diferentes ferramentas em suas versões iniciais para desenvolvedores, o buscador da Microsoft começa a mudar a forma como o usuário obtém informação na rede porque cruza assuntos e entende o que o usuário procura.

Ofensiva do Google

Esta semana, no entanto, o Google fez seu primeiro grande contra-ataque. A Alphabet apresentou, em seu evento anual para desenvolvedores, novidades no chatbot Bard (rival do ChatGPT), que em fevereiro chegou a receber críticas de parte dos próprios funcionários, que relataram erros e problemas éticos no desenvolvimento do recurso, segundo a Bloomberg.

O Bard agora está aberto para 180 países com foco no inglês — o Brasil, portanto, está de fora —, e o Google anunciou a integração da nova tecnologia a várias de suas plataformas, inclusive o buscador. Em uma ferramenta por enquanto acessível apenas a inscritos, chamada de “experiência generativa de pesquisa” (SGE, pela sigla em inglês), é exibida uma resposta produzida por IA no topo dos resultados.

A empresa também tornou a página de busca mais interativa. Usuários do sistema operacional Android já visualizam novos widgets ao navegarem na busca do Google, como “comprar produtos em suas capturas de tela”, “traduzir textos usando a câmera”, “realizar busca na Web com imagem da galeria”, “resolver exercícios de dever de casa com a câmera” e “identificar música”.

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Segundo o Wall Street Journal, o Google trabalha no projeto de codinome Magi, que visa permitir que usuários visualizem resultados com vídeos curtos e postagens de redes sociais, além de conversarem com um chatbot em suas pesquisas.

Disputa pelo futuro da IA

É difícil, porém, cravar qual das gigantes será mais bem-sucedida no uso da IA para potencializar seus negócios, incluindo os buscadores.

— O Bing ganhou terreno, cresceu muito, mas ainda é uma razão quase que de 10 para 1. E é difícil acreditar que o Google vai sentar e assistir o seu grande produto perder usuários sem fazer nada — diz Arthur Igreja, especialista em inovação e negócios.

Para especialistas, a guerra está longe de acabar.

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— O modelo de chat traz uma disrupção total porque já entrega a informação “mastigada”. Ainda temos de descobrir como isso será monetizado — diz Luiz Lobo, fundador da Fintalk.

Para ele, a disputa não está restrita às big techs:

— Tudo começou na OpenAI, uma startup que só depois recebeu investimento da Microsoft. A inovação não veio das gigantes. E essa brincadeira nem começou. A solução da Meta nem foi lançada. Quem sabe não vem uma inovação de alguma outra empresa (fora do Vale do Silício)?

Contexto

Em meio ao salto de popularidade das ferramentas de IA generativa, governos e reguladores de diferentes países buscam criar regras para conter os impactos da tecnologia.

A União Europeia vai votar em junho um projeto de lei, tornando-se pioneira na área. Nos Estados Unidos, a Casa Branca já afirmou que apoia uma regulamentação da IA.

O Reino Unido está recorrendo a seu órgão regulador e, na China, as autoridades já exigiram que os sistemas de IA obedeçam a regras rígidas.

E no Brasil, este mês o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, apresentou um projeto de lei estabelecendo diretrizes gerais para desenvolvimento, implementação e uso de sistemas de IA no país.

https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2023/05/bing-turbinado-com-ia-comeca-a-incomodar-rival-google.ghtml

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