Para alimentar o desenvolvimento do país

Ao todo o setor do agronegócio tinha, em 2022, 13,9 milhões de postos de trabalho

Por Gilberto Tomazoni – Valor – 14/09/2023

No interior do país, distante dos grandes centros urbanos, se desdobra um movimento que é crucial para as ambições do Brasil. Muito se fala a respeito dos sucessivos recordes para volume de safra, assim como sobre a participação de 25% do agronegócio na economia brasileira. Também é notória nossa liderança mundial na exportação de produtos como soja, café, citrus, frango e carne bovina, para ficar nos mais conhecidos. O ponto crucial, porém, diz respeito ao potencial singular que o setor de alimentos tem de impulsionar a geração de empregos, renda e produção no interior, algo muito relevante diante do desafio persistente do país de promover a inclusão socioeconômica de sua população.

Atualmente, o setor alimentício responde por 1,9 milhão de postos de trabalho diretos e formais, o que equivale a 24,3% das vagas da indústria de transformação. de acordo com dados da Pnad Contínua. Porém, se mapearmos por completo toda essa cadeia de produção, o número é muito maior e vai além dos empregos. Quando se pensa nos elos que permitem que a produção do campo chegue às mesas das famílias brasileiras e do mundo todo, é preciso considerar não só a colheita de grãos e frutos ou a criação de animais. Há equipamentos, logística, insumos e uma infinidade de atividades e serviços especializados que atuam de forma coordenada para que o objetivo de alimentar o país e o mundo seja realizado. A questão aqui é como mensurar tudo isso.

A ciência econômica mapeia o tamanho dessa rede de produção, com seus impactos diretos, indiretos e induzidos por meio do que chama modelagem de insumo-produto. Por essa técnica, se procura mapear a economia com uma série de setores interligados. Produzir alimentos, portanto, no geral se caracteriza por uma longa cadeia de suprimentos. Para cada emprego direto gerado numa unidade produtiva industrial, que podemos considerar como efeito direto, são criados outros pontos de trabalhos em seus fornecedores diretos de insumos, que, por sua vez, acionam uma cadeia de suprimentos, chamados de fornecedores dos fornecedores. Aí está o chamado efeito indireto.

O movimento não para aí. Além desses efeitos diretos e indiretos, existem os induzidos. O salário pago pela indústria para seus colaboradores volta para a economia na forma de consumo – mais produção e mais emprego associados ao que se produziu originalmente. Quando a gente olha para todos esses efeitos – diretos, indiretos e induzidos – ao longo das cadeias produtivas do setor de alimentos, chegamos a um efeito multiplicador muito grande.

Seguindo esse raciocínio, recentemente houve a divulgação de um estudo da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) e pelo Nereus (Núcleo de Economia Regional e Urbana da Universidade de São Paulo) que corroborou a importância desse olhar mais amplo sobre as redes que se formam na produção de alimentos. Como exemplo, a pesquisa indicou que as cadeias produtivas ligadas à JBS movimentaram, em 2021, o equivalente a 2,1% do PIB (Produto Interno Bruto) e contribuíram para a geração de 2,73% dos empregos do país. A companhia, que contrata diretamente 145 mil pessoas em mais de 130 municípios brasileiros, ajuda na formação de 2,9 milhões de postos de trabalho, levando em conta as cadeias produtivas ligadas a ela, segundo esse levantamento. Aqui, citei o caso da empresa que dirijo, mas o mesmo tipo de modelo se aplica a outras companhias que demonstram o potencial do setor de alimentos como motor socioeconômico do interior brasileiro.

Recentemente, a Fundação Getulio Vargas divulgou um estudo que reforça a contribuição cada vez maior da produção de alimentos num dos pilares mais importantes para qualquer economia: a geração de empregos. Entre 2019 e 2022, em que pese ter sido um período de muita turbulência – com a pandemia da covid-19, quebra de safra e conflito na Ucrânia -, o agronegócio brasileiro alcançou a maior taxa de formalidade desde o início da série histórica, em 2016.

Ao todo o setor tinha, em 2022, 13,9 milhões de postos de trabalho, contra 13,6 milhões três anos antes. Nesse intervalo, foram criadas 344 mil novas vagas, expansão de 2,5%, que permitiu superar o total de pessoas ocupadas antes da pandemia. Em igual período, outro dado relevante: o Valor Bruto da Produção Agropecuária, divulgado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, avançou 29,2%. Nesse processo, houve uma expressiva formalização do trabalho, além de uma tendência de maior estabilidade e remunerações mais altas. A taxa de formalidade na agricultura subiu para 23,5%, percentual mais alto da série histórica.

Esses estudos mostram a relevância da produção de alimentos para o crescimento do interior do Brasil. Com novas oportunidades de trabalho, melhora a qualidade de vida como um todo – mudam a renda, a educação, a saúde e a moradia das pessoas. Não só as cidades com unidades industriais instaladas, mas também as de seu entorno, se beneficiam do desenvolvimento de empregos e salários. Há ainda uma indução de ganhos de produtividade quando se analisam dezenas de setores interligados – como produção, capital, insumos, trabalho, terra, consumo das famílias e exportações de centenas de produtos.

Portanto, a ciência é capaz de calcular e de comprovar que o setor de alimentos gera de maneira direta uma quantidade muito relevante de empregos e de desenvolvimento econômico, além de uma infinidade de benefícios indiretos e induzidos também. Isso reforça a importância de se estimular essa indústria para promover a expansão econômica e a inclusão da população brasileira, em especial o interior.

Isso tudo num contexto que conjuga produtividade com responsabilidade. O Brasil tem um papel crucial a desempenhar na missão de alimentar a crescente população mundial num quadro marcado pelas mudanças climáticas. As oportunidades são amplas e, como rede, cada elo da cadeia de produção de alimentos precisa cooperar entre si.

O país vem demonstrando ao longo dos anos que conhece os caminhos para produzir mais com menos, preservando nossa biodiversidade, a mais rica entre todas as nações. Com a disseminação das melhores práticas e apoio sobretudo a quem tem menos acesso a avanços tecnológicos e recursos financeiros, as oportunidades da terra para a Terra vão se multiplicar.

Gilberto Tomazoni é CEO Global da JBS

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/para-alimentar-o-desenvolvimento-do-pais.ghtml

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‘Empresas já leem nossas mentes e vão saber mais com neurotecnologia’, diz pesquisadora

Nita Farahany defende atualização das noções de privacidade que proteja dados extraídos das atividades cerebrais

Shin Suzuki – Folha/BBC News Brasil – 17.set.2023 

Alguns anos atrás, a ideia de “ameaça à privacidade de pensamento” estava mais para “1984”, de George Orwell, e para o terreno da ficção científica distópica. 

Para Nita Farahany, professora da Universidade Duke (EUA) que se especializou em pesquisar as consequências das novas tecnologias e suas implicações éticas, essa ameaça já é presente hoje e deve ser levada a sério. 

A iraniana-americana lançou neste ano o livro “The Battle for your Brain: Defending the Right to Think Freely in the Age of Neurotechnology” (“A Batalha pelo seu Cérebro: Defendendo o Direito de Pensar Livremente na Era da Neurotecnologia”, em tradução livre, sem edição brasileira). 

Mas como é possível ler o nosso cérebro? Bem, de fato ainda não existe, como na ficção, uma supermáquina que entra na cabeça de uma pessoa e entrega uma lista completa de ideias e conceitos. 

Na verdade, explica Farahany, as defesas da nossa privacidade de pensamento começaram a ser derrubadas sem a necessidade de examinar diretamente o cérebro. 

Isso foi possível com a vasta quantidade de dados pessoais compartilhada em redes sociais e outros apps, que é analisada por algoritmos e depois monetizada. 

Hoje as companhias de tecnologia detêm informações importantes sobre nós: quem são nossos amigos, qual conteúdo gera emoção (e, importante, que tipo de emoção), as preferências políticas, em quais produtos clicamos, por onde circulamos ao longo do dia e algumas das transações financeiras. 

“Tudo isso está sendo usado por empresas para criar perfis muito precisos sobre quem somos e assim entender nossas preferências e nossos desejos”, diz Farahany em entrevista à BBC News Brasil. 

“É importante as pessoas entenderem que elas já estão em um mundo onde mentes são lidas.” 

Outra fronteira do nosso funcionamento interno começa a ser explorada com a popularização de smartwatches (relógios inteligentes), que reúnem dados sobre batimento cardíaco, níveis de estresse, qualidade do sono e muito mais. 

Mas o avanço da neurotecnologia, com equipamentos em contato direto com a cabeça, leva tudo isso a um novo patamar, com mais dados e mais precisão. 

Ela explica que sensores cerebrais são justamente parecidos com sensores de frequência cardíaca encontrados nos smartwatches ou em anéis que medem a temperatura do corpo quando captam a atividade elétrica no cérebro.

“E toda vez que você pensa, ou toda vez que sente algo, os neurônios disparam em seu cérebro, emitindo pequenas descargas elétricas. Padrões característicos podem ser usados para tirar conclusões”, afirma.

 “Por exemplo, se você vê uma propaganda e sente alegria ou estresse ou raiva, tédio, envolvimento… todas essas reações podem ser captadas por meio da atividade elétrica em seu cérebro e decodificadas com a inteligência artificial mais avançada.” 

Ou seja, esses sinais cerebrais transmitem o que sentimos, observamos, imaginamos ou pensamos. 

Farahany afirma que as pessoas precisam compreender e aceitar que o cérebro “não é inteiramente delas”. 

Essa situação leva a própria filosofia a questionar o conceito de livre arbítrio, ou seja, o poder de um indivíduo de optar por suas ações. “Imagine que você se proponha no começo da semana a não passar mais de uma hora por dia nas redes sociais. Aí você descobre no final que você gastou quatro horas por dia. O que aconteceu?”, pondera a professora de Direito e Filosofia na Duke. 

“Se existem algoritmos projetados para te capturar quando você quer se desconectar, se existem notificações quando você fica muito tempo fora do celular, se você quer assistir a só um episódio da série e o próximo começa automaticamente, você usou seu livre arbítrio? São ferramentas e técnicas projetadas para prejudicar aquilo com que você se comprometeu.” A especialista em ética e novas tecnologias Nita Farahany
Nita Farahany propõe um “direito à liberdade cognitiva” – Universidade Duke ‘Tecnologia em si raramente é o problema’ 

Farahany, ao contrário do que se possa pensar, é uma grande entusiasta dos avanços da neurotecnologia

Ela enumera ao longo de “The Battle for Your Brain” uma longa lista de contextos em que o monitoramento cerebral poderia melhorar a humanidade e salvar vidas. 

“O que eu proponho é um equilíbrio. É tanto uma forma de as pessoas enxergarem os aspectos positivos da tecnologia, mas também de estarem protegidas contra os riscos mais significativos”, diz.

 “Para chegar lá, é necessário mudar a forma como pensamos a nossa relação com a tecnologia. A tecnologia raramente é o problema. Quase sempre é o mau uso.”

 “Não se trata de encampar posições absolutas do tipo ‘tudo isso é ruim’ ou ‘tudo isso é ótimo’, mas tentar definir quais são as funcionalidades dessa tecnologia para o bem comum e quais são os riscos de uso indevido.” 

Esses cenários de um futuro não tão distante, no entanto, são complexos, cheios de facas de dois gumes. A neurotecnologia poderá reduzir o número de acidentes fatais ao acompanhar os graus de desatenção e, principalmente, de fadiga que atingem caminhoneiros e condutores de trem/metrô, por exemplo. 

Essa mesma funcionalidade pode ser abusada por uma empresa ou escola em busca da produtividade total, em que momentos de distração de um empregado ou aluno são vigiados, registrados e eventualmente punidos. 

Uma pulseira que capta ondas eletromagnéticas enviadas pelo cérebro para movimentar braços e mãos poderá transformar esses impulsos em sinais eletrônicos e tornar experiências digitais ou de realidade virtual muito mais intuitivas e integradas. 

E há um potencial ainda mais importante nesse dispositivo: o de detectar os estágios iniciais de uma doença neurodegenerativa. A análise das atividades cerebrais como um todo poderá representar um salto imenso para a medicina e a longevidade. 

Por outro lado, escreve Farahany no livro, a mesma pulseira também perceberá “se você está envolvido em uma atividade íntima usando suas mãos em seu quarto”. 

E todos esses dados nas mãos de governos? Mas para a professora iraniana-americana a grande preocupação em relação à privacidade individual está em governos de posse de uma gama cada mais ampla de dados pessoais. 

Ela relata que o Departamento de Defesa dos EUA financiou uma empresa que desenvolveu um sistema biométrico que combina dados de ondas cerebrais, estados cognitivos, reconhecimento facial, análise das pupilas dos olhos e mudanças na quantidade de suor produzido. 

Já na China, uma reportagem de 2018 do jornal South China Morning Post contava que trabalhadores de diversos ramos e integrantes de forças militares do país já usavam monitores de ondas cerebrais para detectar picos emocionais como depressão, ansiedade ou raiva. 

Além do uso para melhorar performances e assim o resultado financeiro de empresas, a reportagem dizia que outro objetivo era “manter a estabilidade social” chinesa. 

Farahany afirma que, na maioria dos países, as leis sobre privacidade não contemplam explicitamente o direito à privacidade mental. 

“Acredito que as Nações Unidas precisam avançar no sentido de reconhecer o que chamo de ‘direito à liberdade cognitiva’. Um direito universal que nos direcionaria a uma atualização da privacidade, que diga explicitamente que há direito à privacidade mental, um direito de estar protegido contra interferências na maneira como pensamos e sentimos.” 

Ela diz que “liberdade de pensamento” é hoje aplicada e entendida como sendo estritamente a respeito de liberdade de religião e de crença.

 “Acho que precisamos expandir esse entendimento para haver uma proteção contra a interferência, a manipulação e a punição contra o pensamento.” 

O problema é que a tecnologia se desenvolve sempre mais rápido que o debate e a aprovação de uma legislação, e empresas e governos se aproveitam dos vazios de legalidade.

 “Trata-se realmente de tentar descobrir o quanto antes, e também conforme a tecnologia evolui, quais são seus benefícios e riscos. E depois esclarecer o que está em jogo e desenvolver um regime regulatório que aborde isso. Nem sempre é fácil de fazer”, reconhece Farahany. 

O projeto de Elon Musk O mais visível projeto de neurotecnologia tem vários elementos para a controvérsia: envolve a implantação de um chip no cérebro e tem a liderança de Elon Musk, figura frequente no noticiário e muitas vezes envolto em polêmicas. 

Uma de suas empresas, a Neuralink, quer no futuro implantar esse tipo de dispositivo no órgão mais complexo do ser humano para curar doenças como Alzheimer e permitir que pessoas com doenças neurológicas controlem celulares ou computadores com a mente. 

Alguns especialistas na área demonstram receio com o projeto, levantando dúvidas sobre as implicações desse tipo de tecnologia desenvolvida por uma empresa com fins lucrativos. 

Em maio último, a FDA, a agência norte-americana que controla alimentos e remédios, autorizou o primeiro teste com humanos. 

“Não estou tão preocupada com o projeto de Musk. Na verdade, estou um tanto otimista quanto a isso”, diz Farahany.

 “A Neuralink promete duas inovações: fazer cirurgia via robôs, que executariam as partes mais delicadas e difíceis da operação [de implante de neurotecnologia]. A segunda são eletrodos do tamanho de um fio de cabelo que poderiam ser implantados com muito menos risco para o cérebro humano.” 

Poucos cirurgiões no mundo têm habilidade hoje para executar um procedimento assim. 

“Se eu me tornasse severamente incapacitada a ponto de não conseguir mais me comunicar ou me mexer, eu provavelmente buscaria a oportunidade de ter algum tipo de tecnologia neural implantada.” 

Esse texto foi originalmente publicado aqui

https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2023/09/empresas-ja-leem-nossas-mentes-e-vao-saber-mais-com-neurotecnologia-diz-pesquisadora.shtml

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The Economist: Região central do Brasil agora se parece com o Texas

De acordo com a revista britânica, interior brasileiro é uma terra de ‘brutos’, não de playboys

Por Estadão/The Economist – 24/09/2023 

Pense no Brasil e, se você for como a maioria das pessoas, a imagem de praias com palmeiras, samba e caipirinhas virá à sua mente. Esse clichê precisa ser atualizado. Nas últimas duas décadas, o centro de gravidade da política e da economia começou a mudar das costas úmidas, às quais se dizia que os brasileiros se agarravam “como caranguejos”, para as vastas e áridas planícies da região central do País. A trilha sonora de lá é o sertanejo. A bebida preferida é a cerveja gelada.

O censo do Brasil, o primeiro em 12 anos, mostrou uma tendência importante quando foi publicado em junho. Sete dos dez municípios que mais cresceram estão na região agrícola do Sudeste e no Centro-Oeste do País. A população do Centro-Oeste, que inclui os Estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, além da capital Brasília, cresceu 1,2% ao ano, mais do que o dobro da taxa nacional.

O Sudeste ainda tem a maior parcela da população brasileira e do dinheiro – o Estado de São Paulo, sozinho, é responsável por um terço do PIB do Brasil e é o lar de um quinto da população nacional. Mas, até mesmo em terras paulistas, é na região agrícola onde a população e a economia estão crescendo mais.

As migrações no Brasil não são novidade. O deslocamento daqueles do Nordeste pobre para o polo industrial em torno da cidade de São Paulo influenciou bastante a economia e a cultura do País na segunda metade do século 20. O atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, é o mais famoso dos milhões que fizeram essa travessia. Depois de a fome assolar sua cidade natal em Pernambuco, sua mãe colocou os oito filhos em um pau-de-arara e seguiu em direção ao sul do País.

Lula ganhou destaque como líder sindical na indústria automobilística nas proximidades de São Paulo. Agora, quando as pessoas saem do Nordeste, elas tendem a ir para a região central do Brasil. O que mudou foi a percepção de quais atividades podem proporcionar uma vida melhor, disse Carlos Vian, da Universidade de São Paulo (USP). “Antes, era a indústria; não mais.”

O ímã que atraiu Lula para São Paulo perdeu força. Em meados da década de 1980, a indústria representava um terço do PIB do Brasil; hoje ela responde por apenas 10%. O superávit do País no setor, US$ 6 bilhões em 2005, tornou-se um déficit de US$ 108 bilhões em 2019. A produção na indústria e nos serviços estagnou ou encolheu.

A agricultura, a base da economia brasileira no século 19, está de volta. O País ainda exporta café e açúcar, que já foram cultivados em plantações onde pessoas escravizadas trabalhavam. Desde o início dos anos 2000, a demanda voraz da China tem estimulado um aumento da produção de soja, grãos e carne. As exportações agrícolas, como parte do total, mais do que quadruplicaram desde 2000, para 40%.

Atualmente, o setor é responsável por um quarto do PIB e emprega uma parcela semelhante de trabalhadores. De 2002 a 2020, a economia de Mato Grosso, o reduto da soja, cresceu 4,7% ao ano em termos reais, mais do que a de qualquer outro Estado e mais do que o dobro da taxa nacional.

O boom do agronegócio está mudando aos poucos a demografia e a cultura. Na década de 1970, mais de quatro quintos do crescimento populacional ocorriam nas maiores cidades. Nos últimos 12 anos, durante os quais a população cresceu mais lentamente, dois terços do crescimento ocorreram em cidades de médio porte.

A cidade de Sinop, um polo da soja em Mato Grosso, é um exemplo da tendência. O Estado tinha poucos habitantes até meados do século 20. Sucessivos governos se propuseram a povoar a região central do País. Órgãos foram criados para oferecer terrenos e crédito baratos às pessoas que se mudassem para lá. Eles se multiplicaram durante a ditadura militar que governou o Brasil de 1964 a 1985. Sinop, fundada em 1974, tem o nome de uma das empresas que se propôs a povoar esta parte do País.

No início, a vida era difícil para esses novos moradores (embora tenha sido ainda mais difícil para os povos indígenas que eles expulsaram). A terra cor de ferrugem produzia pouco e as doenças se alastravam depressa. A tecnologia veio para ajudá-los. Na década de 1980, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveu uma variedade de soja que prosperava nos solos ácidos da região. Entre os beneficiários estava o pai de Juliano Antoniolli, que chegou em Sinop em 1981, antes de as fazendas terem acesso à eletricidade. Naquela época, o centro da cidade era “apenas uma grande poça de lama”, disse Antoniolli, fazendeiro, 38 anos.

Agora, quatro mil cabeças de gado perambulam ao lado das plantações de soja e milho em sua propriedade de 2.400 hectares perto de Sinop. Drones pulverizam fertilizantes e tratores John Deere puxam arados. Três receptores da Starlink, empresa de internet via satélite de Elon Musk, conectam a fazenda à internet. Antoniolli emprega 12 pessoas em tempo integral e outros trabalhadores temporários durante a época da colheita. Ele paga em média um salário de RS 8 mil por mês, três vezes o salário médio do Brasil. Ele vende a maior parte de seus produtos para a Cofco, uma gigante chinesa do setor de alimentos.

O soft power do sertanejo

Graças ao dinheiro e aos empregos trazidos pelo boom agrícola, não apenas para os agricultores, mas para os trabalhadores da construção civil e outros, a população de Sinop aumentou 73% nos últimos 12 anos, chegando a 200 mil. Hoje uma cidade com rotatórias e concessionárias de automóveis, ela se assemelha mais a um povoado no sul dos Estados Unidos do que às metrópoles na costa do Brasil. Um posto de gasolina se autodenomina Texas, e um açougue, Super Beef.

Com a influência econômica vêm outros tipos de influência. O sertanejo tornou-se o estilo musical mais popular do Brasil. Em 2003, 16% das músicas mais tocadas nas rádios brasileiras eram desse gênero. Em 2022, três quartos delas eram sertanejo. Um subgênero, o agronejo, faz referências ao agronegócio. O cantor Luan Pereira compôs um hit com menções a uma Dodge Ram, uma caminhonete americana robusta e a favorita dos barões da soja.

O vídeo teve quase 100 milhões de visualizações nos últimos seis meses no YouTube. Alguns cantores sertanejos se autodenominam “brutos”, em oposição aos “playboys” da cidade. “Cinco playboy não faz o que um bruto faz (sic)”, vangloria-se na música o DJ Kévin, usando um chapéu de cowboy, ao lado de Pereira.

A confiança do sertanejo representa um desafio para Lula e seu governo. Por um lado, o Planalto acolhe o crescimento econômico que acompanha a expansão agrícola. Por outro, preocupa-se com seu custo ambiental e suas implicações políticas. A agricultura está crescendo em parte às custas do cerrado, o segundo maior bioma do Brasil, ficando atrás apenas da Amazônia.

Os donos dessas terras tendem a ser fãs de Jair Bolsonaro, o presidente de direita que Lula derrotou nas eleições do ano passado. (Aliás, segundo um site de notícias, Antoniolli estava entre os apoiadores do ex-presidente que atacaram as sedes dos três poderes em Brasília, em janeiro, em protesto contra a posse de Lula. Ele disse ao site ter saído dali assim que o vandalismo começou.)

Em resposta ao censo, o Supremo Tribunal Federal do Brasil fixou um prazo em agosto para a primeira redistribuição de cadeiras na Câmara desde 1993. O Nordeste favorável a Lula sairá perdendo, enquanto a região central agrícola ganhará.

Lula iniciou seu terceiro mandato em janeiro (ele esteve no poder de 2003 a 2010) como inimigo da agropecuária. Durante a campanha eleitoral, propôs limitar as exportações de carne bovina para manter os preços no País baixos. No entanto, desde então, tem tentado melhorar a relação com o agronegócio, oferecendo mais apoio e, ao mesmo tempo, persuadindo-o a ser mais sustentável. No dia 27 de junho, anunciou que o governo disponibilizaria R$ 364 bilhões em empréstimos subsidiados a agricultores, o maior plano de crédito rural do Brasil. Os produtores que utilizam energia renovável e agrotóxicos não químicos serão beneficiados com os empréstimos mais baratos.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), criado na década de 1950 para promover a indústria, está mudando o foco para o financiamento da agricultura. Em 2009, o agronegócio recebeu apenas 5% dos empréstimos do banco. No ano passado, quase um quarto dos recursos financeiros do BNDES foram destinados à agricultura e menos de um quinto à indústria. É improvável que a distribuição volte a mudar sob o governo de Lula.

Muitos produtores afirmam apoiar o esforço do governo em tornar a agricultura mais sustentável. Daniel Freire, chefe de uma rede de frigoríficos no Pará, disse que sua empresa precisa de licenças ambientais para as exportações com destino à Europa e aos EUA.

“Para exportar para os melhores mercados do mundo, é importante melhorar nossos padrões sanitários e ambientais”, afirmou. Em abril, o Parlamento Europeu aprovou uma lei que, a partir do final do próximo ano, obrigará os produtores de commodities a comprovar se seus produtos contribuem ou não para o desmatamento desde 2020.

Contudo, em particular, muitos produtores reclamam da legislação ambiental. Eles se opõem, e às vezes desrespeitam, ao Código Florestal que obriga os agricultores do cerrado a manter entre 20% e 35% de vegetação nativa em suas propriedades. Alguns produtores e fazendeiros avançam para dentro da floresta tropical em Estados como o Pará, onde a exigência é mais rigorosa (80% da sua floresta devem ser preservadas), porém a fiscalização é ainda mais fraca.

O Brasil é um dos poucos países onde as terras para cultivo continuam em expansão. O Departamento de Agricultura dos EUA estima que até 2031 outros 20 milhões de hectares, cerca de um quarto da área atual de cultivos, estarão produzindo. Mas o crescimento não precisa significar derrubar árvores. Acredita-se que cerca de 170 milhões de hectares de pastagens sejam subutilizados.

Se os agricultores cultivassem soja em apenas 10 milhões desses hectares, poderiam aumentar a produção em 40 milhões de toneladas por ano na próxima década, praticamente 10% da produção global de hoje, disse Daniel Amaral, da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais.

A produção de cada hectare também pode aumentar. Os produtores brasileiros de milho cultivam uma média de seis toneladas métricas por hectare, metade do que os agricultores americanos plantam. Uma infraestrutura melhor poderia alavancar os lucros e os investimentos. Os caminhões que transportam os grãos do Mato Grosso para o porto precisam percorrer uma estrada de mil quilômetros toda esburacada.

As despesas do Brasil com a logística são equivalentes a 12,1% do Produto Interno Bruto, em comparação com os 7,6% dos EUA. Os produtores têm muito a ganhar com um governo que invista na redução desses gastos.

Em lugares como Sinop, o futuro parece promissor. No entanto, crescem os temores de que o sucesso dos produtores brasileiros possa conter as sementes da sua ruína. O desmatamento do cerrado poderia mais cedo ou mais tarde levar à redução das chuvas. Os sinais da pressão das mudanças climáticas já começaram a surgir. O sertanejo poderia perder sua confiança qualquer dia desses.

https://www.estadao.com.br/economia/the-economist-regiao-central-brasil-texas/

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Comer, amar e viver cem anos

Conexões reais, um dos pilares para a longevidade, podem não ser facilmente substituídas pelas virtuais

Ronaldo Lemos* – Folha – 24.set.2023 

Está na moda agora falar das “blue zones”. São as regiões do planeta onde as pessoas vivem mais do que o esperado, ultrapassando cem anos. Por exemplo, Icária, a ilha grega no mar Egeu, a península de Nicoya na Costa Rica, as ilhas de Okinawa no Japão, ou ainda, a comunidade adventista Loma Linda na Califórnia. Lugares completamente diferentes, mas com a longevidade (e saúde) dos seus habitantes em comum. No streaming tem até documentário recente sobre o tema (que não vi). 

Vários estudos tentam fazer a “engenharia reversa” dessas regiões, buscando o segredo da vida longa e saudável. Por exemplo, hábitos alimentares. Várias das regiões consomem 90% ou mais de alimentos de origem vegetal, com destaque para feijão preto, batata doce, lentilha e soja (consumida como tofu). Praticamente não consomem leite e derivados nem açúcar. 

O consumo de carne (na maior parte de porco) ocorre cerca de cinco vezes por mês em porções pequenas. Peixe também é consumido em pequenas quantidades. Várias blue zones, mas não todas, consomem vinho, limitado a uma ou duas taças por dia. 

Muita gente olha para esses dados e chega à conclusão: basta adotar a dieta das blue zones para viver mais de cem anos. Nada mais equivocado. O ponto em comum entre todas essas regiões não é a dieta. É a qualidade dos relacionamentos. Em todas as blue zones as pessoas cultivam relações fortes e duradouras entre si. Esse senso de comunidade é o pilar de uma vida mais longa. 

Essa constatação aparece não só observando as blue zones, mas também no famoso estudo multigeracional de Harvard sobre desenvolvimento adulto que acompanha grupos de pessoas e seus filhos há 85 anos. A mesma conclusão está também em pesquisas do Centro de Longevidade de Stanford: relacionamentos fortes e sociabilização são centrais para uma vida saudável. 

A questão que permanece em aberto é justamente o impacto da tecnologia sobre as relações pessoais. Será que o virtual produz efeitos similares às conexões reais? Por exemplo, em Loma Linda os habitantes se unem fortemente por laços religiosos. Em Okinawa as pessoas praticam o “moai”, hábito de cultivar um grupo de cinco amigos, comprometidos pela vida toda. 

Em um mundo cada vez mais mediado pela tecnologia as pessoas não estariam se tornando individualizadas e desconectadas umas das outras? Seria a tecnologia a força capaz de dinamitar um dos pilares da longevidade? Mesmo que o número de conexões virtuais cresça, sua qualidade decai. 

Um estudo do instituto Gallup determinou que os laços de amizade não são iguais. Há pelo menos oito tipos de amigos que são vitais ao longo da vida. O “construtor”, que ajuda na nossa formação. O “colaborador”, com quem fazemos projetos juntos. O “conector”, que nos apresenta a pessoas importantes, e assim por diante. Dificilmente esses papéis podem ser desempenhados online. 

Vale lembrar também da pesquisa feita nos EUA em 2019, que apontou que 22% dos millenials têm zero amigos. Em gerações anteriores, o número dos sem-amigos girava em torno de 9%. São pessoas que vivem no oposto de uma blue zone. Estão mais próximos de uma zona sombria, de mau presságio para todos nós. 

Já era Valores coletivos e comunidades homogêneas 

Já é Individualismo propelido pela tecnologia 

Já vem Aspiração de restaurar o equilíbrio entre individualismo e coletividade como pilar da política contemporânea 

*Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2023/09/comer-amar-e-viver-cem-anos.shtml

Leia também: Coluna Evandro Milet https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/desenvolvimento-e-codinome-de-produtividade/

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A inteligência artificial não quer só seu emprego; quer substituir a realidade

O barateamento da fabricação de conteúdo torna o verídico indistinguível do fake

Joel Pinheiro da Fonseca – Folha – 24.jul.2023

A greve de atores e roteiristas de Hollywood segue a todo vapor. Não sei se será bem-sucedida, mas, no que diz respeito ao diagnóstico, os profissionais do cinema acertaram na mosca: o uso da Inteligência Artificial (IA) ameaça seus empregos.

Muito em breve será possível fazer um filme do zero, gerado inteiramente por IA, que seja indistinguível de um filme com atores reais. E, se é possível usar a voz e imagem de pessoas reais para encenar obras de ficção que eles nunca encenaram, é possível também usar sua imagem para atribuir-lhes falas e atos que nunca praticaram, com a intenção de enganar a opinião pública.

No fim de semana da eleição, um vídeo bombástico mostra um dos candidatos falando algo terrível. Não há tempo hábil para encontrar e punir os responsáveis, nem para circular um desmentido no WhatsApp. Vídeos falsos buscando caluniar ou enaltecer personalidades virão de todos os lados. Estaremos perdidos num mar de versões igualmente realistas.

Deixando claro o que está por vir: não estamos falando de um grupo de profissionais de vídeo que, numa noite de trabalho, conseguem editar um vídeo e colocar nele o rosto de um famoso. Estamos falando de qualquer leigo, em sua casa, em dez minutos, gerar dezenas de vídeos realistas completamente inventados de qualquer pessoa que lhe dê na telha. Esse dia ainda não chegou, mas não está distante.

E ele mudará a maneira a como nos relacionamos com conteúdo em vídeo. Até hoje, o vídeo (bem como áudio e foto) trazia consigo uma expectativa de autenticidade. Primeiro, porque é gerado por um processo puramente mecânico a partir da realidade observável —ao contrário, por exemplo, do desenho, que passa pela mente do autor. E, em segundo lugar, porque forjar ou adulterar um vídeo era complexo, trabalhoso e deixava marcas identificáveis.

Não que fosse impossível enganar a opinião pública com uma foto ou um vídeo. Cortes discretos ou a omissão de contexto podem alterar radicalmente o teor e o significado de um vídeo —e isso sem IA nenhuma. Ainda assim, havia uma expectativa de que, por mais descontextualizado ou recortado que estivesse, um vídeo registrava algo que aconteceu. Essa expectativa vai cair, e com o fim dela nasce um novo mundo.

Que na verdade é o mundo antigo, isto é, o mundo em que a humanidade viveu desde sua origem até a adoção da fotografia. Existiam registros no passado? Claro. Só que o texto escrito e a pintura, ao contrário do vídeo e da foto, não trazem consigo nenhuma expectativa intrínseca de veracidade apenas por terem sido registrados naquele meio. Era, portanto, um mundo com mais divergências possíveis a respeito dos fatos. Daqui em diante vídeos e fotos não serão mais confiáveis que palavras e desenhos.

Fatos já são objeto de controvérsia hoje em dia –com “fatos alternativos” ao gosto do freguês. A tendência é isso se intensificar ainda mais. O barateamento da fabricação de conteúdo audiovisual realista nos distancia da realidade, ao tornar o verídico indistinguível do fake. Ao contrário dos profissionais de cinema americanos, não acredito que esse processo possa ser barrado. O que podemos fazer é nos adaptar à mudança.

O papel de instituições capazes de ir atrás da informação, contactar os envolvidos e as testemunhas para validar uma foto ou vídeo se tornará mais importante. Ou seja, o jornalismo seguirá fundamental. Com a queda da confiabilidade técnica, a reputação pessoal também aumentará de valor. E o mais importante será o aprendizado social de um certo ceticismo: não é porque você está vendo, que aconteceu.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joel-pinheiro-da-fonseca/2023/07/a-inteligencia-artificial-nao-quer-so-seu-emprego-quer-substituir-a-realidade.shtml

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O que é célula de combustível, tecnologia que vai revolucionar a indústria automobilística

País terá em 2024 uma planta-piloto para testar a tecnologia inédita que vai gerar internamente energia para carros elétricos, sem necessidade de carregar na tomada

Por Cleide Silva – Estadão -21/09/2023 

Movido a hidrogênio (H2), o carro a célula de combustível é considerado mundialmente a opção mais viável para o transporte com emissão zero. Uma evolução do veículo elétrico, ele já roda em alguns países, como Japão e EUA, atendendo um nicho ainda pequeno do mercado.

Seu uso em grande escala está distante, principalmente no mercado brasileiro onde, segundo analistas, até mesmo os elétricos devem demorar a se popularizar em razão dos preços e da falta de infraestrutura para carregamento.

Pelo menos na corrida pela fonte geradora do hidrogênio – que vai carregar a bateria do veículo internamente, sem precisar da energia elétrica da tomada –, o Brasil não está tão atrasado.

Enquanto grande parte dos países usa o gás natural para produzir hidrogênio cinza, que vem de fonte fóssil, o Brasil trabalha em projetos para que o etanol seja o vetor do H2 verde.

“Por ser um combustível limpo, não tóxico e com infraestrutura de transporte desenvolvida, o etanol é muito interessante como vetor para o hidrogênio”, afirma Julio Meneghini, diretor científico do Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI, na sigla em inglês), da Universidade de São Paulo (USP).

Ele explica que, no futuro, o etanol será entregue ao posto de combustível e este fará o processo de transformação para hidrogênio em um reformador (tanque cilíndrico que, por meio de uma reação química, quebra a molécula do etanol para produzir o hidrogênio). O carro a célula de combustível tem cilindros para receber o H2, e o abastecimento é igual ao de um carro flex (ver infográfico).

Combustível do futuro

Etanol pode ser vetor da produção de hidrogênio verde, hoje feito em sua maioria do gás natural, que é fonte fóssil

Uma parceria liderada pela Shell envolvendo RCGI, Raízen, Hytron, Toyota e Senai Cetiqt anunciou, no mês passado, o início das obras, nas instalações da USP, da primeira estação experimental de abastecimento de hidrogênio renovável do mundo, feito a partir do etanol.

O local também abrigará uma planta de produção de hidrogênio a partir do etanol com um reformador desenvolvido e produzido pela Hytron. A empresa nasceu há cerca de 20 anos como startup dentro da Unicamp e, em 2021, foi adquirida pelo grupo alemão Neuman & Esser (NEA).

Segundo o gerente de tecnologia de baixo carbono da Shell, Alexandre Breda, o mundo inteiro avalia o uso de hidrogênio na mobilidade, inclusive por meio de metanol e amônia. De qualquer forma, é um produto difícil de ser transportado na forma gasosa e muito caro na forma líquida.

O etanol, já usado em carros híbridos flex e em breve em híbridos plug-in, vai ser uma opção, e com vantagens extras, inclusive em relação ao uso de energia eólica e solar no processo, que também começa a ser explorado.

Três plantas de hidrogênio

A Shell e seus parceiros decidiram puxar a agenda para tornar o etanol ainda mais relevante na transição energética, diz Breda. O primeiro passo é a planta-piloto, que receberá investimento de R$ 50 milhões da companhia.

A planta deve entrar em operação no segundo semestre de 2024 e terá capacidade para produzir 50 metros cúbicos de hidrogênio por hora, suficientes para abastecer apenas um automóvel – o Mirai, fabricado no Japão e cedido pela Toyota para os testes – e três ônibus da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo (EMTU), que vão circular no campus da universidade.

“O objetivo da planta-piloto é validar o processo e comprovar a eficiência do etanol”, diz Breda. A validação de cálculos sobre as emissões e custos do processo de produção de hidrogênio, comparativo de desempenho dos veículos e preços ao consumidor ficarão a cargo do RCGI.

“Nossa estimativa no momento é de que o custo da produção de hidrogênio a partir de etanol é comparável ao do hidrogênio do gás natural no contexto brasileiro”, adianta Meneghini. “Já as emissões são comparáveis ao processo de eletrólise da água alimentada com energia eólica.”

No início de 2025, uma segunda planta dez vezes maior, com capacidade para 500 metros cúbicos por hora, será instalada em um cliente industrial da Shell ainda a ser definido. Ela será voltada principalmente ao hidrogênio usado pelas indústrias química, alimentícia, de mineração e siderúrgica, que hoje têm como vetor o gás natural.

Na sequência, há um plano para uma planta capaz de produzir 5 mil metros cúbicos de hidrogênio por hora, mas sua construção dependerá dos resultados de viabilidade da planta experimental e de parcerias com investidores. Não há, ainda, previsão para o fornecimento do hidrogênio sustentável em postos de combustíveis.

Essa fase tem de acompanhar a chegada ao País de automóveis a célula de combustível em maior escala, o que deve demorar, admite Breda. “Principalmente aqui no Brasil, onde ainda vamos passar pela etapa do carro híbrido a etanol, pelos elétricos e depois ir para os de célula a combustível.”

O executivo, no entanto, vê chances de a tecnologia chegar comercialmente mais cedo aos ônibus e caminhões. Seria uma forma de descarbonizar um setor hoje dependente do diesel.

Nossa estimativa no momento é de que o custo da produção de hidrogênio a partir de etanol é comparável ao do hidrogênio do gás natural no contexto brasileiro”

Julio Meneghini, diretor científico do centro de pesquisa da USP

Cerca de 90% do total de hidrogênio usado no mundo é produzido com gás natural. A parte restante está sendo feita por meio de energia eólica e solar, pelo processo de eletrólise. O uso desse tipo de energia renovável deve aumentar ao longo dos próximos anos. Hoje, a produção de hidrogênio verde chega a custar até quatro vezes mais do que a do cinza.

Lá fora, a desvantagem do H2 feito com energia solar e eólica é a intermitência de ventos e sol, dependendo da região. No Brasil, o problema principal é que os locais onde esses fenômenos naturais são frequentes nem sempre são próximos ao mercado consumidor e seu transporte pode encarecer o preço do produto, além de emitir CO2.

Para Meneghini, a logística de transporte do etanol já está disseminada e, com a instalação de reformadores, os próprios postos de combustível poderão produzir o hidrogênio. Já o uso de outro tipo de vetor, como metanol ou gás, exigiria mais estruturas. Um posto de abastecimento de hidrogênio custa cerca de R$ 8 milhões, segundo a GWM.

Em relação aos carros 100% elétricos, a vantagem é que o de célula a combustível, por gerar internamente sua energia, precisa de uma bateria pequena, não recarregável, para dar suporte à transmissão da energia para o motor elétrico.

“Os veículos a hidrogênio são mais leves e poderão ser abastecidos em cinco minutos, enquanto um elétrico precisa ficar a noite inteira na tomada para carregar ou de meia a uma hora se tiver um carregador rápido no posto”, compara Meneghini.

O professor da USP também vê a necessidade de maior urgência dessa tecnologia para caminhões e ônibus. Ele cita que um veículo elétrico desse porte chega a carregar duas toneladas de baterias, o que exige suspensões mais potentes e causa danos no asfalto, por exemplo.

Ele ressalta ainda que o aumento gradual da produção de hidrogênio por meio de energia eólica ou solar também pode trazer vantagens ao Brasil. Em sua opinião, o País pode ser um player mundial na produção de hidrogênio a partir dessas energias renováveis até para exportação.”

Nissan e GWM

A Nissan iniciou, em 2016, testes no Brasil com um carro movido a célula de combustível a etanol e atualmente mantém os estudos no Japão. A empresa informa que “segue nas pesquisas e testes para evoluir a tecnologia para tentar torna-la viável, tanto tecnicamente quanto economicamente”.

Segundo a Nissan, trabalham no projeto equipes de engenharia do Brasil e do Japão. O grupo também avalia usar a mesma tecnologia para célula de combustível para motores estacionários (geradores), que poderão gerar energia para diferentes instalações, como edifícios e fábricas.

A GWM, montadora chinesa que iniciará produção de carros híbridos e elétricos no Brasil a partir do próximo ano, trará para testes ao País, provavelmente no próximo ano, um caminhão movido a hidrogênio já em uso na China. A ideia, segundo a empresa, é que aqui ele use H2 verde gerado a partir de eletrólise da água com energia solar ou eólica ou gerado do etanol.

https://www.estadao.com.br/economia/negocios/carro-eletrico-hidrogenio-etanol/

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O labirinto de Borges

O surgimento dos clones digitais é o começo de uma doce promessa e o início de uma viagem para dentro do labirinto em chamas da identidade e do tempo

Guido Sarti – Fast Company Brasil  30-08-2023 

Há uma teoria não confirmada de que o escritor argentino Jorge Luis Borges nunca existiu. Um dos autores mais importantes do século 20 teria sido inventado por outros três escritores. O que começou com um pseudônimo ganhou corpo, rosto e até um passado.

A figura que conhecemos como Borges seria um ator uruguaio de segundo escalão que lia os originais em primeira mão e recebia instruções do trio sobre o que falar e como se portar em aparições públicas.

Em um dos momentos mais surrealistas do jornalismo mundial, Borges foi perguntado sobre isso em uma entrevista de 1981 ao “El País”. A resposta do a(u)tor só alimentou o mistério e tem um pouco a ver com inteligência artificial, dupes, o mito do original e nossa relação com o tempo.

Jorge Luis Borges (Crédito: Wikipedia)

Vamos olhar para essa história como quem contempla um quadro ou assiste a um filme. É possível criar reflexões a partir de ficções, não é? Pois vamos supor por um instante que essa teoria não confirmada seja verdadeira – isso porque os insights que ela pode nos trazer certamente são.

Essa formidável história borgeana é quase um exemplo de dupe às avessas. O termo dupe vem de “duplicata” e é o nome que se dá para as cópias digitais que hoje a tecnologia nos permite criar. Imagine só uma réplica sua entrando naquela reunião de Zoom que poderia ter sido um e-mail. Se você entregar dados suficientes para a empresa certa, isso pode acontecer já já.

O trio de escritores tinha o trabalho de criar e escrever enquanto o ator uruguaio colhia os louros. Agora, uma nova onda de inteligência artificial usa de um princípio parecido para fazer o contrário: você é clonado digitalmente – ou cria um clone digital – para ter tempo de fazer o que te der na telha, inclusive nada.

Essa é a promessa da Aphid. A empresa criou um produto chamado “aClones”: a ideia é que você coloque esses bots para executar suas tarefas do dia a dia enquanto você ganha dinheiro sem trabalhar. Basta escolher seu bot no marketplace da Aphid – as opções vão desde a negociação de criptomoedas até redação de artigos – e pronto. Cada vez que “você” completa uma tarefa, você – sem aspas – recebe por isso.

O usuário não precisa saber nada de código ou programação, por mais que o resultado da tarefa dependa disso. Esse conhecimento não faz parte da sua job description, mas sim da job description do bot. Em inglês, “aphid” significa “pulgão”, um inseto parasita que se alimenta da seiva das plantas. O pulgão é considerado uma praga agrícola.

“Imagine acordar sorrindo porque tudo o que você precisa fazer é pensar no que quer fazer a seguir, não no que precisa fazer a seguir”, afirmou Brandon Cooper, CEO da Aphid, em reportagem recente da Forbes. “Nosso objetivo é ajudar as pessoas a respirar livremente novamente, para lembrá-las de que não precisam trabalhar o tempo todo”, completa Cooper.

Sim, a inteligência artificial está trabalhando por nós. E algumas perguntas surgem a partir dessa constatação, uma delas fatalmente sendo: mas não é isso que sempre fizemos com a tecnologia?

a ideia é que você coloque os bots para executar suas tarefas do dia a dia enquanto você ganha dinheiro sem trabalhar.

A meta da Aphid é acabar com as oito horas de trabalho, cinco vezes por semana. Não se trata mais de perder o trabalho para um robô. A antiga distopia futurista agora pode dar lugar a uma sedutora utopia em que o trabalho não é mais o dono da nossa vida. 

A partir de gravações de seu rosto e da sua voz, a plataforma Synthesia cria um clone digital seu. Também já existe uma ferramenta que responde mensagens no seu estilo (essa, bem menos sofisticada que as iniciativas citadas previamente, pode funcionar a partir da análise de todas as mensagens que você manda pelo chat da sua rede social favorita). 

Essas ferramentas – por mais difusas e duvidosas que possam parecer em 2023 – tocam em certas feridas que estão abertas pelo menos desde a Revolução Industrial. A questão da identidade e a questão do tempo são algumas delas. 

TEMPO TEMPO TEMPO TEMPO 

O argumento central da publicidade de todas essas plataformas é o mesmo: passe a ser dono do seu próprio tempo. Não por acaso, essa parece ser também a questão central dos nossos tempos.

A depressão e a ansiedade estão mais fortes do que nunca. Fortes a ponto de questionar se não fomos demasiadamente ansiosos e nos precipitamos em dizer que elas foram os grandes males do século passado.

Tenho a impressão de que muitas das questões de saúde mental que atravessam nossa sociedade têm sua origem em como lidamos (ou somos obrigados a lidar) com o tempo. Nossa relação com o tempo e com o trabalho nunca foi tão doentia. Tão nitidamente doentia: nunca se percebeu e se falou tanto a esse respeito.

Arrisco dizer que, excluindo as necessidades mais básicas (saneamento básico, educação, comida, saúde, segurança, água limpa), se a humanidade pudesse escolher um Grande Desejo para o Imenso Gênio da Lâmpada Infinita seria esse: ter mais tempo.

 PINK NEWTON & ISAAC FLOYD

“Não tenho certeza se existo. Sou todos os autores que li, todas as pessoas que conheci, todas as cidades que visitei, todos os meus antepassados”.  Essa foi a resposta de Borges à pergunta do começo do texto. Eu considero essa perspectiva fascinante. A música Breathe, do Pink Floyd, tem uma passagem que diz basicamente a mesma coisa:

And all you touch and all you see

Is all your life will ever be

[Em tradução livre: “Tudo que você toca e tudo que você vê/ É tudo que sua vida será”]

Muito do que chamamos de identidade é um caleidoscópio tridimensional de experiências, memórias e sensações. Essa reflexão tem a ver com o mito do original e com um conceito que me parece mais confuso do que a gente gostaria que fosse: a noção de que as ideias têm dono.

Imagine só uma réplica sua entrando naquela reunião de Zoom que poderia ter sido um e-mail.

Quando percebemos que o conceito de identidade é pouco trivial e flerta com o acaso, a própria noção de propriedade intelectual começa a ficar flácida ao ponto de se tornar quase cínica.

Exemplo: suponhamos que eu sou um poeta passando por uma crise de criatividade. Vou até uma praça em busca de inspiração. Se escrevo um poema sobre uma família tomando sorvete de morango na praça ensolarada, enquanto vejo uma família tomando sorvete de morango numa praça ensolarada, quão ético é o fato de eu recolher direitos autorais sobre o poema e a família não?

Podem dizer que o poeta adiciona subjetividade à cena, mas qual é mesmo o preço da subjetividade? É muito difícil apontar onde termina uma ideia e começa outra. A frase que ficou famosa com Isaac Newton, “se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes”, fala exatamente sobre isso. 

TECNOLOGIA NEM-NEM

Como já foi dito, a inteligência artificial não é nem inteligente e nem artificial. Ela é quase como um papagaio com uma memória imensa. Pelo menos por enquanto, não adianta esperar que uma ideia imprevisível, inventiva ou disruptiva seja cuspida por uma dessas plataformas, incapazes de um mero pensamento crítico sequer. Hoje, a IA é quase como se tivéssemos dado anabolizantes a uma ferramenta de auto complete. E o suco vicia, não é mesmo?  

Automatizar uma tarefa é uma coisa. Substituir alguém em uma reunião de Zoom é outra muito mais complexa.

Noam Chomsky, um dos maiores intelectuais e linguistas desse e do último século, há pouco escreveu em um artigo para o “The New York Times“: “na ausência de uma capacidade de raciocinar a partir de princípios morais, o ChatGPT foi grosseiramente restringido por seus programadores a contribuir com qualquer coisa nova para discussões controversas – isto é, importantes. Sacrificou a criatividade por uma espécie de amoralidade”. 

Essas ferramentas prometem um El Dorado que eu ainda não consigo cravar se é tão dourado assim. Mas que são promessas grandiosas, isso são.

A questão é a incapacidade de replicar humores, lapsos de memórias, uma eventual gagueira numa palavra mais cheia de consoante, a resposta de uma pergunta inesperada ou mesmo uma mudança de opinião.

Automatizar uma tarefa é uma coisa. Substituir alguém em uma reunião de Zoom é outra muito mais complexa. Ficaria muito óbvio, a não ser que todos os outros participantes da reunião também fossem clones digitais.

Guido Sarti é sócio da Galeria Ag e professor coordenador na Miami AdSchool. Profissional de dados premiado, foi Head de Novos Negócios e Convergência da Globo. Liderou times de dados na R/GA e foi membro do conselho do CENP.

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The Economist: Como a inteligência artificial pode revolucionar a ciência

A revolução digital talvez ainda não tenha chegado ao fim e novas ferramentas de IA estão sendo aplicadas em quase todas as áreas do conhecimento

Por Estadão/The Economist – 17/09/2023 

O debate sobre a inteligência artificial (IA) tende a focar nos possíveis perigos que ela oferece: preconceitos e discriminação algorítmica, extinção em massa de empregos e até mesmo, segundo alguns, o fim da humanidade. Entretanto, enquanto alguns comentaristas se preocupam com esses cenários distópicos, outros estão focando nos possíveis benefícios que a IA poderia trazer, de acordo com eles, para ajudar a humanidade a solucionar alguns de seus maiores e mais espinhosos problemas. E, segundo eles, a IA fará isso de uma forma muito específica: acelerando radicalmente o ritmo das descobertas científicas, sobretudo em áreas como medicina, climatogia e tecnologias verdes. Grandes nomes da área, como Demis Hassabis e Yann LeCun acreditam que a IA pode turbinar os avanços científicos e levar a uma era de ouro das descobertas. Eles estariam certos?

Tais alegações valem a pena ser analisadas e podem oferecer um contraponto útil aos temores em relação ao desemprego em grande escala e aos robôs assassinos. Sem dúvidas, muitas tecnologias anteriores foram erroneamente anunciadas como panaceias. O telégrafo elétrico foi enaltecido na década de 1850 como um anúncio da paz mundial, assim como as aeronaves na década de 1900; e os especialistas nos anos 1990 diziam que a internet reduziria a desigualdade e erradicaria o nacionalismo. Mas o mecanismo por meio do qual a IA supostamente resolverá os problemas do mundo tem uma base histórica mais forte, porque houve vários períodos na história em que novas técnicas e novas ferramentas ajudaram de fato a provocar uma explosão de descobertas e inovações científicas que mudaram o mundo.

No século 17, os microscópios e telescópios revelaram novas perspectivas de descoberta e encorajaram os pesquisadores a privilegiar suas próprias observações em detrimento da sabedoria recebida da antiguidade, enquanto o surgimento das revistas científicas proporcionou a eles novas maneiras de compartilhar e divulgar suas descobertas. O resultado foi um progresso rápido na astronomia, na física e em outras áreas, além de novas invenções, do relógio de pêndulo ao motor a vapor – a principal força motriz da Revolução Industrial.

Depois, a partir do final do século 19, a criação dos laboratórios de pesquisa, que reuniam ideias, pessoas e materiais em escala industrial, deu origem a mais inovações, como os fertilizantes artificiais, os produtos farmacêuticos e o transistor, o pilar do computador. Desde meados do século 20, os computadores, por sua vez, possibilitaram novas formas de ciência baseadas em simulações e modelos, da concepção de armas e aeronaves até previsões meteorológicas mais precisas.

E a revolução digital talvez ainda não tenha chegado ao fim. As ferramentas e técnicas de IA agora estão sendo aplicadas em quase todas as áreas da ciência, embora o grau de adoção varie bastante: 7,2% dos artigos de física e astronomia publicados em 2022 envolveram IA, por exemplo, em comparação com 1,4% daqueles de ciências veterinárias. A IA está sendo utilizada de várias maneiras. Ela pode identificar candidatos promissores para pesquisas, como moléculas com propriedades específicas na descoberta de medicamentos, ou materiais com as características necessárias em baterias ou células solares. Ela é capaz de examinar pilhas de dados, como aqueles produzidos por aceleradores de partículas ou telescópios robóticos, em busca de padrões. E pode modelar e analisar sistemas ainda mais complexos, como o enovelamento de proteínas e a formação de galáxias. As ferramentas de IA têm sido usadas para identificar novos antibióticos, revelar o bóson de Higgs e detectar sotaques regionais em lobos, entre outras coisas.

Tudo isso é para ser aplaudido. Mas as publicações científicas e os laboratórios foram ainda mais longe: mudaram a própria prática científica e revelaram meios mais poderosos de se realizar descobertas, permitindo que pessoas e ideias se misturassem de novas maneiras e em maior escala. A IA também tem o potencial para desencadear essa transformação.

O uso dela em duas áreas, em particular, parece promissor. A primeira é a “descoberta baseada na literatura”, que envolve a análise da literatura científica existente, usando a análise da linguagem ao estilo do ChatGPT, para procurar novas hipóteses, conexões ou ideias que os humanos possam ter deixado passar batido. A descoberta baseada na literatura está se revelando promissora na identificação de novos experimentos para serem testados – e até mesmo na sugestão de possíveis colaboradores de pesquisa. Isso poderia estimular o trabalho interdisciplinar e fomentar a inovação nas fronteiras entre os campos de estudo. Os sistemas de descoberta baseada na literatura também podem identificar “pontos cegos” em uma determinada área e até mesmo prever descobertas futuras e quem será responsável por elas.

A segunda área é a de “robôs cientistas”, também conhecidos como “laboratórios autônomos”. Eles são sistemas robóticos que usam a IA para formular novas hipóteses, com base na análise de dados e da literatura existentes, e, depois, testam essas hipóteses realizando centenas ou milhares de experimentos, em áreas como biologia sistêmica e ciência dos materiais. Ao contrário dos cientistas humanos, os robôs são menos apegados aos resultados anteriores, menos orientados por preconceitos – e, acima de tudo, são fáceis de se replicar. Eles poderiam aumentar a escala de uma pesquisa experimental, criar teorias inesperadas e explorar caminhos que os pesquisadores humanos talvez nem considerassem.

A ideia de que a IA pode transformar a prática científica é, portanto, factível. Mas a principal barreira é sociológica: isso só pode acontecer se os cientistas humanos estiverem dispostos e capacitados a usar tais ferramentas. Muitos não têm habilidades, nem preparo; alguns temem perder o emprego. Felizmente, há sinais de esperança. As ferramentas de IA agora estão deixando de ser promovidas apenas por pesquisadores de IA e passando a ser adotadas por especialistas de outras áreas.

Os governos e as organizações que financiam as pesquisas poderiam ajudar pressionando por uma maior adoção de regras comuns para permitir que os sistemas de IA troquem entre si e interpretem resultados laboratoriais e outros dados. Eles também poderiam financiar mais pesquisas sobre a integração de sistemas de inteligência artificial com laboratórios de robótica, e formas de IA que vão além daquelas em desenvolvimento no setor privado, que apostou quase todas as suas fichas em sistemas baseados em linguagem, como o ChatGPT. Formas de IA que estão menos na moda, como o aprendizado de máquina baseado em modelos, talvez sejam mais adequadas para as tarefas científicas, como a formulação de hipóteses.

Em 1665, durante um período de avanços científicos rápidos, Robert Hooke, um polímata inglês, descreveu a chegada de novos instrumentos científicos, como o microscópio e o telescópio, como “a adição de órgãos artificiais aos naturais”. Eles permitiam aos pesquisadores explorar territórios anteriormente inacessíveis e fazer descobertas de novas maneiras, “com benefícios extraordinários para todos os tipos de conhecimentos úteis”. Para os sucessores modernos de Hooke, a inclusão da inteligência artificial ao conjunto de ferramentas científicas está preparada para fazer o mesmo nos próximos anos – com resultados semelhantes que mudarão o mundo.

https://www.estadao.com.br/link/cultura-digital/the-economist-como-a-inteligencia-artificial-pode-revolucionar-a-ciencia/?utm_source=estadao:app

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Toyota testa nova tipo de fábrica que reduz a produção de horas para minutos

Por Nikkei Asia, Valor — Nagoia (Japão) – 19/09/2023 

Partes de automóvel da Toyota prensados no sistema gigacasting Partes de automóvel da Toyota prensados no sistema gigacasting — Foto: Reprodução: Nikkei Asia

A Toyota Motor exibiu um protótipo de seu novo equipamento de gigacasting, sistema formado por imensas prensas que pode fabricar um terço da carroceria de um carro em cerca de três minutos, um desenvolvimento que será fundamental para seus planos de aumentar a produção de veículos elétricos de forma lucrativa nos próximos anos.

A máquina da fábrica da montadora japonesa em Myochi soltou uma nuvem de fumaça branca enquanto funcionava durante uma recente apresentação para jornalistas. O alumínio fundido derramado foi rapidamente resfriado de 700°C para 250°C, solidificando-se em uma única peça fundida que compõe todo o terço traseiro do chassi do veículo. Normalmente é construído a partir de 86 peças em um processo de 33 etapas que leva horas.

A Toyota pretende explorar esses avanços para reduzir pela metade os processos de produção, o investimento na fábrica e o tempo de preparação da produção, tudo para ajudar na sua busca de vender 3,5 milhões de veículos elétricos por ano até 2030.

A gigacasting será usado para fazer as seções dianteira e traseira de um novo modelo elétrico que será lançado em 2026.

A Toyota construiu seu primeiro protótipo de gigacasting em setembro de 2022. Embora os moldes pesados inicialmente exigissem até um dia para serem trocados, esse tempo foi reduzido para 20 minutos, minimizando o número de peças que precisam ser destacadas. A Toyota pretende alcançar uma produtividade 20% maior do que a concorrência com software proprietário para analisar as condições ideais para moldagem.

Outra peça da estratégia da Toyota, a produção autopropulsada, aborda a necessidade de utilizar o espaço da fábrica de forma mais eficiente para acomodar os novos equipamentos necessários para a produção de veículos elétricos.

Na fábrica da montadora em Motomachi, um carro parcialmente construído, com pneus e bateria, mas sem laterais ou capota, dirige-se a 0,1 metro por segundo até um braço robótico que prende assentos trazidos por um veículo guiado automaticamente. Depois de concluído, o veículo se desloca de forma autônoma para uma área diferente para inspeção e envio.

Essa configuração dispensa correias transportadoras, possibilitando mudanças mais rápidas no layout da planta e reduzindo investimentos. O objetivo da Toyota é reduzir pela metade o tempo de montagem, das cerca de 10 horas atuais.

Os altos custos das baterias tornam difícil a produção lucrativa de veículos elétricos, apenas pela expansão dos métodos de fabricação convencionais. A Tesla – que já adotou a tecnologia gigacasting – manteve-se competitiva em termos de custos ao construir um número limitado de modelos em grandes quantidades.

A Toyota, com sua base pré-existente de tecnologia e equipamentos de fabricação de automóveis e sua ampla linha de modelos, está situada de forma diferente das empresas mais jovens.

“Estamos aprendendo novas opções com fabricantes especializados de veículos elétricos para enfrentar o desafio”, disse o diretor de produção, Kazuaki Shingo.

A Toyota pretende vender 1,5 milhão de veículos elétricos por ano em 2026 – cerca de 60 vezes o total do ano passado. O executivo-chefe (CEO) do Nakanishi Research Institute, Takaki Nakanishi, espera que cerca de 40% sejam construídos na plataforma Toyota New Global Architecture existente, com o restante usando uma plataforma específica para veículos elétricos.

Os chassis convencionais da Toyota também foram concebidos para equilibrar eficiência no desenvolvimento com conforto, mas não se espera que sejam rentáveis em veículos elétricos. A montadora deverá usar seus novos quadros em cerca de 1,7 milhão dos 3,5 milhões de veículos elétricos que pretende vender em 2030.

A Toyota vendeu cerca de 24 mil veículos elétricos em 2022, ficando significativamente atrás das entregas da Tesla, de cerca de 1,31 milhão.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2023/09/19/toyota-testa-nova-tipo-de-fbrica-que-reduz-a-produo-de-horas-para-minutos.ghtml

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Ideias para você que escreve (ou quer escrever)

Escrever é o superpoder que você pode desenvolver para deixar sua marca no mundo, num post de rede social, num email, numa carta redigida à mão

Por Isabel Clemente* – Valor – 06/09/2023

Oi,

Faz tempo queria te dizer isso: você não precisa de um contrato de publicação de livro para considerar a sua escrita importante. Toda escrita é nobre. Se você está escrevendo um trabalho acadêmico, escreva como quem quer atingir além dos círculos acadêmicos, para espalhar suas descobertas pelo mundo.

Se você está escrevendo material para um livro didático escolar, escreva como quem quer ensinar metade do mundo sobre as maravilhas da ciência, da geografia, da matemática, e a outra metade sobre línguas, arte, educação física. Se o seu trabalho envolve redigir relatórios sobre atividades passadas, pense nas atividades passadas como histórias que precisam ser contadas de forma atraente do princípio ao fim. Guarde um “era uma vez” no canto da mente, e siga pela estrada dos mistérios, dos absurdos, das coisas engraçadas e surpreendentes que farão do seu relato algo mais do que um relatório.

Escrever é o superpoder que você pode desenvolver para deixar sua marca no mundo, num post de rede social, num email, numa carta redigida à mão. Tem gente que ainda faz isso sim.

Livros não surgem da noite para o dia. Livros são feitos de capítulos. Capítulos são feitos de parágrafos. Parágrafos precisam de frases boas, grandes, pequenas, para criar ritmo, para definir sua voz. Alinhar tudo isso leva tempo. Na era do sucesso instantâneo, é tentador acreditar que um livro pode seguir o mesmo caminho de um vídeo que viraliza, de uma gracinha com milhares de compartilhamentos e curtis. Para o bem e para o mal, não é assim. Cada dia é uma oportunidade para você escrever (e reescrever) algo até chegar ao parágrafo perfeito.

Caso você ainda precise de propósitos para começar a escrever com mais frequência, seguem alguns motivos nobres ou muito pelo contrário que podem servir de inspiração.

Para não perder a amizade

Gabriel García Márquez era muito jovem ainda quando cruzou com o desabafo de Eduardo Zalamea Borda – então editor do suplemento literário do jornal “El Espectador”. Borda reclamava que não havia autores jovens na Colômbia porque os jovens não escreviam. Tomado de solidariedade pelos “companheiros de geração” e disposto a calar a boca do sujeito de quem viria a ser um grande amigo, Gabo – apelido de García Márquez – enviou um conto para o jornal. A história saiu publicada na semana seguinte com uma observação que se revelaria premonitória: “surgia um gênio da literatura colombiana”, escreveu Borda. Diante do que chamou de “encrenca”, e para não deixar mal o amigo, Gabo disse que não teve opção, senão continuar a escrever.

Essa história foi revelada durante uma palestra do escritor na Venezuela, em 1970, e está registrada no livro “Eu não venho fazer um discurso”, editado pela Dom Quixote em Portugal.

Se alguém já te disse que você escreve bem, que leva jeito para o negócio ou, pior, se elogiou em público algo que você escreveu e você preza essa relação, já sabe.

Para viver várias vidas e brincar de Deus

Quem escreve ficção cria mundos imaginários, personagens, cenas, cenários. Tudo vai sendo construído pelo trabalho mágico de reunir palavras. É Gênesis na prática. Ainda que leve muito mais do que sete dias.

Claro que essa inspiração divina não vem do éter. Vivemos num planeta de verdade onde lendas, fábulas, zumbis e outros seres fantásticos refletem medos, relações e desejo muito humanos. Até quem escreve sobre a vida real recria uma história, porque se ela não for atrativa, e não surpreender de alguma forma, a audiência desiste de ler.

No divertido e inspirador “Palavra por palavra” (publicado aqui pela Sextante, em versão traduzida por Marcello Lino), Anne Lemott fala desse poder da escrita. “Desde criança, eu achava que havia algo nobre e misterioso em escrever, nas pessoas que faziam isso bem, que eram capazes de criar um mundo, como se fossem pequenos deuses ou bruxos. Durante toda a vida achei que havia algo mágico em quem conseguia entrar na mente e se pôr no lugar deles, em quem era capaz de tirar pessoas como eu de dentro de si.”

Para pôr ordem na memória

A artista colombiana Emma Reyes publicou um único livro, ao qual se dedicou para dar sentido à conturbada infância. Reconhecida pelo seu trabalho na França, onde viveu até o fim, e incentivada por um amigo e editor, o intelectual Germán Arciniegas, Emma escreveu uma série de cartas para narrar suas desventuras de maus-tratos, abandono e uma opressora educação religiosa. Com leveza e humanidade, o conjunto de cartas deu origem ao “Libro de Emma Reyes”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Hildergard Feist, sob o título “Memórias por correspondência”. Trata-se de uma narrativa fascinante que nos leva do riso às lágrimas. A artista se revela uma exímia contadora de histórias. A leitura nos proporciona um encontro com a voz da criança e da adulta se intercalando no relato de histórias ora inacreditáveis, ora comoventes. O exercício de ter escrito sobre difíceis emoções deixou algumas lições para Emma, como ela mesma contou a Germán: “E agora – não me julgue. Se você acha que basta ter ideias, eu diria que se não souber expressá-las de forma que sejam compreensíveis, é o mesmo que não tê-las.”

Para se vingar

Nunca esqueci de um ensaio da escritora estadunidense Jocelyn Nicole Johnson, para o LibHub, intitulado ‘How Writing “Vengeful Fiction” Can Make You a Better Person’. Saiu em outubro de 2021. Eu estava isolada no quarto, com Covid, devorando textos e textos sobre o processo da escrita enquanto aguardava a hora para retomar as aulas presenciais do meu mestrado e meu olfato.

Vingança?, pensei. Eu ri. Naquele ensaio, Jocelyn relembra uma série de cenas da vida real que despertaram revolta, impotência, medo – da mulher que gritou com seu filho ainda criança a cenas de racismo explícito – e como sua “vingança” inspirou seus contos.

“Minhas histórias são minha maneira de dizer: eu vi o que você fez. Ele foi registrado em meu corpo. Saiu como um enxame de palavras.’ Apesar do desejo de se vingar, ela escreve que, sua intenção, é deixar o público-leitor com raiva sim, mas com ela. Assim, juntos e “de coração partido”, escritora e audiência poderão agir para remediar e cicatrizar o que partiu porque histórias têm esse poder de transformar a sociedade e as pessoas para melhor.

Se você resolver se “vingar” de alguém ou de uma situação escrevendo, pelamor, muda nome, gênero, cidade, clima. Tire da experiência a emoção que você precisa para contar uma história que revele a sua verdade. Não vai se meter em encrenca.

No mais, um lembrete final: escrever é sofrido, dá muito trabalho, um pouco como correr. Eu sempre me pergunto por que tive essa ideia de jerico, que me deixa cansada, que me faz querer desistir a cada pequeno trecho vencido. Mas ter corrido, como ter escrito, dá um prazer danado.

Um abraço,

Isabel

*Carioca, é formada em Jornalismo pela PUC-Rio e mestre em Escrita Criativa pela Royal Holloway, University of London

https://valor.globo.com/opiniao/isabel-clemente/coluna/ideias-para-voce-que-escreve-ou-quer-escrever.ghtml

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