Arqueólogos buscam no fundo do mar do Nordeste navio atacado por submarino nazista na 2ª Guerra

Pesquisadores de Sergipe tentam localizar no oceano, na divisa com a Bahia, o vapor Aníbal Benévolo, torpedeado em 1942, numa tragédia que matou 150 pessoas. Após ataque, Brasil foi para campo de batalha contra Alemanha

Por Paulo Assad — O Globo – 17/09/2023 

O vapor Aníbal Benévolo: transportava 154 passageiros quando foi torpedeado por submarino nazista; apenas quatro sobreviveram

O vapor Aníbal Benévolo: transportava 154 passageiros quando foi torpedeado por submarino nazista; apenas quatro sobreviveram — Foto: Reprodução

Bastaram 24 horas, entre os dias 15 e 16 de agosto de 1942, para que o submarino nazista U-507 matasse 551 pessoas no litoral nordestino ao lançar seus torpedos contra três navios. Foram 84 vítimas a mais do que o número de baixas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) em um ano de combate na Itália.

Em abril deste ano, pesquisadores da Universidade Federal do Sergipe (UFS) deram início a uma pesquisa para encontrar o Aníbal Benévolo, uma dessas embarcações destruídas há oito décadas, que transportava 154 passageiros de Salvador a Aracaju. Novas sondagens serão feitas em outubro, e os mergulhos continuarão ao longo do verão.

Como eram o Aníbal Benevolo e o submarino que afundou o navio de passageiros — Foto: Editoria de Arte

Como eram o Aníbal Benevolo e o submarino que afundou o navio de passageiros — Foto: Editoria de Arte

Comandante sobreviveu

O ataque nazista, o primeiro em território nacional, levou o Brasil a declarar guerra contra a Alemanha quinze dias depois. Nesse intervalo, o U-507 fez novas investidas contra navios brasileiros, e os corpos das vítimas do Aníbal, do Baependi e do Araraquara começaram a chegar às praias de Aracaju.

— A cidade não tinha nem cemitério para enterrar o tanto de gente que chegava. Foi preciso criar um, de frente para a praia, para as vítimas não identificadas. É o Cemitério dos Náufragos. Nenhuma outra cidade brasileira construiu um cemitério para vítimas do nazismo — explica a historiadora Roberta Rosa, doutoranda e integrante do Laboratório de Arqueologia em Ambientes Aquáticos (LAAA) da UFS.

O Aníbal foi construído em 1905 na cidade alemã de Hamburgo. Assim como os outros dois navios, levava passageiros, incluindo famílias, na hora do ataque. A demora da sua chegada a Aracaju alarmou parentes, e o governo pediu aos pilotos do aeroclube da capital para tentar descobrir do alto o que teria acontecido. Apenas quatro sobreviventes foram resgatados, entre eles o comandante, Henrique Jacques Mascarenhas. Seu relato do ataque está entre as principais fontes dos arqueólogos para localizar o naufrágio, na divisa entre Sergipe e Bahia.

— Ele relata que era madrugada na hora do torpedeamento. Trancados em suas cabines, os passageiros mal puderam se desesperar porque o navio levou pouco tempo para afundar. Ainda podemos ter corpos ali — conta Rosa.

Segundo a historiadora, “Aracaju sentiu a guerra em seu cotidiano”. Um blackout programado foi decretado, e a cidade apagava as luzes à noite por medo de submarinos com novos bombardeios. Barricadas foram erguidas no centro, enquanto militares patrulhavam as praias. O porto foi fechado, e os preços dos alimentos subiram. Sob a suspeita de serem espiões, descendentes de imigrantes de países do Eixo, como italianos, foram perseguidos.

— Fomos a primeira cidade vítima dessa guerra submersa — diz ainda Rosa.

A agressão alemã precipitou a declaração de guerra aos nazistas, mas o Brasil havia rompido relações com o regime meses antes. A ditadura de Getulio Vargas fechou acordos com o governo dos Estados Unidos para fornecer suprimentos e ceder bases militares no Nordeste, que eram estratégicas pela proximidade com o norte da África e a Europa. Em troca, o Brasil recebeu recursos, por exemplo, para a criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Dois anos depois do ataque, em julho de 1944, os pracinhas da FEB desembarcaram na Itália.

As operações para encontrar os destroços do navio tiveram início em abril deste ano. Com um sonar, o oceanógrafo Jonas Santos realizou uma varredura da área ao longo de seis dias, em busca de anomalias que indicassem a presença da embarcação.

Alguns pontos foram identificados, e uma nova expedição foi planejada para maio. Dessa vez, o objetivo era conhecer o que há embaixo da água:

— É uma região pouco explorada, sem interesse comercial ou turístico. Nos surpreendeu por ser um lugar tranquilo de mergulhar, com vida marinha, pouca correnteza e boa visibilidade. Vamos voltar lá no verão — conta Yuri Sanada, documentarista que prepara um filme sobre os naufrágios.

A relativa baixa profundidade da região, cerca de 27 metros, foi um dos motivos que levou o Aníbal a ser escolhido como primeiro alvo.

— Acreditamos que o Baependi está próximo, mas mais fundo, a cerca de 40 metros. É um mergulho mais complicado. Já o Araraquara estaria a mais de mil metros. Só seria possível com robôs. Vamos colocar a energia no Aníbal, mas a ideia é dar conta de todos — explica o professor de arqueologia da UFS Gilson Rambelli, coordenador do LAAA.

Memorial para vítimas

Parte dos recursos que bancam a pesquisa vem do pagamento de uma multa de R$1,8 milhão por infrações ambientais da construtora sergipana Cunha. Em um acordo com o Ministério Público Federal (MPF)em setembro de 2022, decidiu-se que os valores seriam destinados a projetos ligados ao meio ambiente e ao patrimônio histórico.

— Arqueologia é uma área pouco olhada, ainda mais a subaquática — diz a procuradora Lívia Tinôco, responsável pelo acordo. — Uma sociedade deve rememorar e ter consciência de fatos históricos que a trouxeram até aqui. Poucos em Aracaju conhecem essa história. Quando eu converso com sergipanos, eles se espantam com esse passado.

O Governo de Sergipe tem planos de construir um memorial para as vítimas do Aníbal, Baependi e Araraquara, no Cemitério dos Náufragos. Responsável pelas mortes, o U-507 teve final semelhante ao dos navios que torpedeou ao longo de 15 meses de atividade.

Em 13 de janeiro de 1943, enquanto navegava no litoral cearense, aviadores americanos avistaram o submarino e o atacaram com bombas. Ele naufragou, levando ao fundo do oceano sua tripulação.

https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2023/09/17/arqueologos-buscam-no-fundo-do-mar-do-nordeste-navio-atacado-por-submarino-nazista-na-2a-guerra.ghtml

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Inteligência artificial vai às compras

Estamos entrando numa temporada de compras que promete ser uma das mais disruptivas dos últimos tempos

Por Meta – Valor – 14/09/2023

Enquanto a temporada de compras deste final de ano se aproxima – a sequência Dia das Crianças, Black Friday e Natal –, consumidores e lojistas começam a se planejar, talvez, sem dar conta da revolução que vem acontecendo nos bastidores. “Esta temporada de final de ano tem tudo para ser uma das mais disruptivas dos últimos tempos”, afirma Conrado Leister, vice-presidente e diretor geral da Meta no Brasil. A responsável? A inteligência artificial (IA), que estará massivamente presente nas campanhas de marketing, impactando toda a experiência de compra.

Não que a presença da IA seja uma novidade. Atualmente, estima-se que mais de 20% do conteúdo no feed do Facebook e 40% do Instagram sejam recomendados pela IA, que também atua na recomendação de anúncios. Comprar nas redes sociais ou apps de mensagens já é um comportamento consolidado entre os brasileiros. Números de uma pesquisa da Accenture para a Meta em 2020 já mostravam, por exemplo, que 83% dos consumidores brasileiros utilizavam o WhatsApp para consumir produtos ou serviços.

Uma nova experiência de compra

Com a IA, o consumidor pode ter uma melhor experiência de compras, uma vez que ela ajuda as pessoas a encontrarem o que precisam. “A partir de um variado conjunto de soluções acessível a empresas de todos os tamanhos e segmentos, devemos ver experiências cada vez mais personalizadas e entregando cada vez mais valor aos consumidores, que seguem aumentando seu nível de exigência”, descreve Leister.

Isso porque as ferramentas que usam IA contribuem para a descoberta de novas marcas e produtos. “Podemos afirmar, com base em estudos, que a inteligência artificial ajuda as pessoas a fazerem descobertas mais relevantes nessa época de compras de fim de ano”, revela Leister. Segundo pesquisa da YouGov, encomendada pela Meta no fim de 2022, 65% dos compradores de fim de ano gostam de descobrir itens relevantes que não estão buscando de forma ativa. E 56% afirmam que descobriram marcas e produtos nas plataformas da Meta.

 — Foto: G.Lab

Ferramentas integradas

A novidade nos bastidores, que deve diferenciar a temporada deste ano, é a intensificação da presença da IA na jornada do consumidor. “As ferramentas Meta Advantage, baseadas em IA e à disposição do mercado, podem ser usadas de forma integrada nas nossas plataformas. Ou seja, os anunciantes contam com soluções que proporcionam ao consumidor uma experiência de compra ainda mais qualificada, seja por meio da otimização da segmentação, aprimoramento de criativos de anúncios ou descoberta de novas marcas”, explica Leister.

Para as empresas que anunciam, a IA oferece uma oportunidade de fazer essa temporada de compras disruptiva também em resultados. Um estudo da Accenture aponta que, de forma geral, a IA impulsionará a lucratividade em 38%, com capacidade de gerar receita adicional de US$ 14 trilhões até 2035. Esse dado ajuda a entender o insight de uma pesquisa da Cognitive Technology, que aponta que 83% dos primeiros a aderir à IA já alcançaram benefícios econômicos consideráveis.

Esses resultados vêm da inteligência artificial de contribuir para estratégias mais refinadas, campanhas mais eficientes, uma segmentação de público mais assertiva, além de potencializar o retorno sobre os investimentos de marketing.

Um futuro cada vez mais inteligente

As próximas temporadas de compra prometem ser ainda mais movimentadas pela IA. “Temos trabalhado de forma contínua para desenvolver e disponibilizar ainda mais soluções para apoiar nossos clientes em seus objetivos de negócio em curto e longo prazos”, anuncia Leister. A expectativa é que uma pequena ou média empresa possa desenvolver o próprio chatbot para atendimento no WhatsApp, no Messenger e no Instagram Direct. Reels terão mais protagonismo nas campanhas, e soluções de IA generativa poderão ser usadas para facilitar a geração de imagens e texto. E esse futuro está logo ali. Recentemente, a Meta lançou o Meta AI Sandbox, onde é possível experimentar e testar versões iniciais de novas ferramentas e recursos, inclusive ferramentas de anúncios alimentadas por IA generativa – uma amostra do que ainda está por vir.

A Meta anunciou também, nos últimos dias, uma solução que vai ajudar anunciantes a gerir melhor os gastos de suas campanhas e otimizar os resultados: a Programação de orçamento para campanhas de anúncios (Budget scheduling for ads campaigns). Com a Programação, os anunciantes e profissionais de marketing podem optar por aumentar o seu orçamento diário para maximizar oportunidades promocionais e de vendas. Isso significa que, após o término do período da campanha, seu orçamento será automaticamente revertido para o orçamento diário definido inicialmente durante a criação da mesma, sem a necessidade de outras etapas. A novidade estará disponível a partir do início do quarto trimestre de 2023, tanto para campanhas manuais quanto para campanhas automatizadas, como é o caso das Campanhas de Compras Advantage+.

 — Foto: G.Lab

“Nossas plataformas entregam hoje uma experiência completa de compra, desde a descoberta de um novo produto ou marca, ao se deparar com um anúncio ou um Reels com imagens reais do produto ou serviço, até a interação direta com a empresa por meio de uma conversa no WhatsApp.” Conrado Leister, vice-presidente e diretor geral da Meta no Brasil

Sua empresa pode contar com a Meta para obter os melhores resultados na temporada de compras de 2023. Conheça as melhores práticas para melhorar sua campanha com o uso de ferramentas de inteligência artificial na página criada pela Meta para você. Maximizar seus resultados tá na sua mão.

Meta conteúdo de responsabilidade do anunciante

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Corrida das baterias para veículos elétricos demanda revolução na reciclagem

Incerteza sobre quais células vão alimentar carros é um dos fatores que complicam esforços para reutilizar matérias-primas

Christian Davies Harry Dempsey Claire Bushey Seul, Londres e Chicago | Financial Times 

Folha/Financial Times – 8.set.2023 

Do Leste Asiático à Europa e à América do Norte, as empresas na cadeia de fornecimento de baterias estão investindo bilhões de dólares em capacidade de reciclagem, à medida que enfrentam a escassez projetada de matérias-primas que vão alimentar a próxima geração de veículos elétricos. 

Mas, enquanto fabricantes de automóveis, produtores de baterias e mineradoras desenvolvem sua própria capacidade de reciclagem ou estabelecem parcerias com especialistas num esforço para tornar as cadeias de abastecimento mais seguras, mais ecológicas e, em última análise, mais lucrativas, ainda é preciso resolver aspectos fundamentais da indústria nascente.

 “Neste momento, todos estão preocupados com o que fazer para montar todas as fábricas de baterias de que necessitamos”, disse Andreas Breiter, que dirige o Centro para Mobilidade Futura da McKinsey na América do Norte. “Mas daqui a cerca de dez anos a questão será o que faremos com todas essas baterias quando elas voltarem.” 

Ainda não está claro qual é a química de baterias que prevalecerá na corrida global entre os produtores chineses CATL e BYD e seus rivais coreanos e japoneses, o que torna difícil saber quais processos de reciclagem serão necessários. 

A incerteza também paira sobre a regulamentação futura, os preços dos materiais, as tecnologias de reciclagem e até mesmo sobre quem será o proprietário de uma bateria de VE (veículo elétrico) no final da sua vida útil —tudo isso terá influência no desenvolvimento da indústria e na viabilidade de modelos de negócio específicos.

 “Há uma sensação de desordem na indústria porque ninguém passou por isso antes”, disse Simon Linge, executivo-chefe da produtora e recicladora de materiais para baterias Lithium Australia. 

 “Haverá pessoas de quem nem sequer se fala hoje e que daqui a cinco ou dez anos emergirão como grandes atores no mercado.” 

A reciclagem de baterias, que normalmente envolve fundição, tratamento químico ou ambos, também tem seu próprio impacto ambiental, e os recicladores enfrentam o desafio de demonstrar que sua produção permanecerá mais verde e economicamente mais interessante do que a mineração dos materiais, dados os avanços nas técnicas de extração mais limpas. 

Com poucas baterias de veículos elétricos já tendo atingido o fim de sua vida útil, as principais fontes de matéria-prima para os recicladores continuam sendo células de produtos de consumo como laptops, e “sucata” de fábricas de baterias. 

A sucata de produção representará 53% da matéria-prima para recicladores de baterias em 2025, conforme projeções da McKinsey. Mas esse número cairá para 43% até 2030, 14% até 2035 e apenas 6% até 2040, à medida que mais VE forem vendidos —a Agência Internacional de Energia prevê que a frota global aumentará para 350 milhões de veículos até o final desta década. 

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“Vemos a sucata industrial como o principal impulsionador do volume de reciclagem nesta década”, disse Tim Johnston, presidente da Li-Cycle, recicladora de baterias listada em Nova York e apoiada pelo grupo de commodities Glencore. “O fim da vida útil das baterias será na próxima década.” 

A transição que se aproxima representa um dilema para os recicladores porque a logística e os modelos de negócio para a reciclagem de sucata e de baterias em fim de vida útil são muito diferentes. 

Para os recicladores focados na produção de sucata, faz sentido ter instalações próximas de fábricas de baterias para fazer circular os materiais de volta ao processo de produção. 

Na América do Norte, onde a produção de baterias está sendo turbinada pela legislação climática do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, isso levou a uma série de parcerias entre fabricantes e recicladores. 

A Redwood Materials, uma startup de reciclagem fundada pelo ex-diretor de Tecnologia da Tesla, J.B. Straubel, anunciou um acordo no ano passado com a Panasonic, parceira em baterias do fabricante de EV, para fornecer materiais catódicos ricos em níquel para a nova fábrica da fabricante japonesa de celulares em Kansas. 

Parcerias semelhantes foram acordadas entre a Li-Cycle, com sede no Canadá, e a produtora coreana LG Energy Solution, e entre a recicladora Ascend Elements, com sede em Massachusetts, e a fabricante coreana de baterias SK. 

As baterias em fim de vida, por outro lado, precisam ser coletadas dos veículos e avaliadas quanto à segurança e ao desempenho antes de serem desmontadas e submetidas ao processo de reciclagem. 

Com fabricantes de celulares e de automóveis e consumidores individuais propensos a reivindicar a propriedade de uma bateria, não está claro como os recicladores vão garantir o suprimento estável. 

Um modelo é fazer com que o fabricante da bateria, a montadora ou terceiros sejam proprietários da bateria durante toda a sua vida útil. Um fabricante de baterias poderia alugá-la a um fabricante de automóveis e, em seguida, a um consumidor, e então reutilizá-la ou reciclá-la quando ela não puder mais alimentar um veículo. 

Sam Abuelsamid, analista da Guidehouse Insights, disse que o modelo é “uma espécie de securitização de empréstimos —você está securitizando a bateria”, e que pode ser uma opção natural para as montadoras, que já operam braços financeiros cativos que emprestam dinheiro aos clientes para veículos novos. 

Na China, onde os mercados de EV, baterias e reciclagem estão mais maduros do que no Ocidente, a CATL formou uma parceria de ciclo fechado, aliando sua subsidiária de reciclagem Brunp ao grupo de reciclagem chinês GEM e à Mercedes-Benz China para reciclar baterias após a vida útil. 

Isto oferece um modelo potencial por meio do qual os fabricantes de automóveis —alguns com ambições de produzir baterias— e os recicladores trabalham em conjunto para garantir baterias em fim de vida útil para criar seus próprios sistemas de circuito fechado. 

Nos EUA, a Redwood Materials está construindo parcerias de circuito fechado com Volkswagen, Ford, Volvo e Toyota. 

Mas alguns executivos da indústria, notando os desafios logísticos de supervisionar os processos de coleta, avaliação, transporte e desmonte, bem como a própria reciclagem, estão céticos quanto ao fato de o sistema de circuito fechado se revelar atraente em longo prazo. 

O modelo é ainda mais complicado pelo fato de uma bateria que já não é adequada para utilização num veículo ainda poder ser usada para outros fins, desde iluminar ruas e casas até alimentar aparelhos ou oferecer armazenamento de energia.

 “É um absurdo e contra qualquer lógica não tentar aproveitar ao máximo as baterias usadas dos veículos elétricos, conhecendo o esforço, a pesquisa e o desenvolvimento, a energia, os materiais e os investimentos envolvidos no seu desenvolvimento”, disse José María Cancer Abóitiz, responsável pelo Mobility Lab da seguradora Mapfre. 

Observando que o mercado de reciclagem já é “muito menos estruturado” do que o resto da cadeia de abastecimento de baterias, Mathias Miedreich, executivo-chefe da recicladora belga Umicore, prevê que o mercado se bifurcará à medida que os recicladores construam cadeias de suprimento separadas para sucata e baterias em fim de vida útil. 

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“É uma questão para empresas como nós onde ter suas instalações de baterias”, disse Miedreich. “Você deveria colocá-las perto do mundo das baterias ou perto de onde os [fabricantes de automóveis] desenvolvem seu ciclo? Pode ser que dois ecossistemas estejam se formando.” 

A indústria também será moldada pelos desenvolvimentos tecnológicos e políticos na Europa e nos EUA, onde se esforçam para limitar a dependência da China de indústrias emergentes e estabelecer cadeias de abastecimento internas. 

A União Europeia aprovou regulamentos destinados a criar uma “economia circular” de baterias, evitando que as unidades gastas saiam do bloco, determinando que tenham um conteúdo reciclado mínimo de 16% para o cobalto e 6% para o lítio e o níquel. 

Bruxelas pretende que 65% do peso das baterias de íons de lítio seja reciclado até o final de 2025. 

Sarah Colbourn, analista sênior da consultoria Benchmark Mineral Intelligence, disse que os recicladores chineses, que estão atualmente “muito à frente” dos seus pares ocidentais em tecnologia e escala, procuram entrar nos mercados europeu e americano por meio de parcerias com atores locais. 

Ela destacou a “preocupação real” dos funcionários da UE com o vazamento de materiais de baterias da Europa para a China, prejudicando o desenvolvimento da indústria europeia de reciclagem. 

Uma opção considerada em Bruxelas, disse ela, é que a “massa negra” —os restos prensados de baterias após a remoção do aço e do plástico indesejados— fosse redesignada como resíduo perigoso, como forma de evitar que saísse do bloco.

Outra consideração para os recicladores ocidentais é se o fosfato de ferro-lítio, ou as baterias LFP que dominam o mercado chinês, vencerão a corrida global das baterias contra as de níquel-manganês-cobalto, ou NMC, nas quais os fabricantes coreanos e japoneses são especializados. 

Como o fosfato de ferro é muito mais abundante do que o níquel e o cobalto usados nas baterias NMC, o valor dos materiais recuperados pela reciclagem de uma bateria LFP é consideravelmente menor, o que significa que os recicladores LFP tendem a ter margens significativamente mais baixas. 

Esse problema é menor na China, onde os recicladores operam em grande escala e com custos de capital mais baixos. Mas poderia ter repercussões para os recicladores ocidentais —e, por sua vez, para as ambições ocidentais de segurança ambiental e de recursos— se a LFP prevalecesse. 

Enquanto isso, Breiter, da McKinsey, observa que a indústria ainda pode ser derrubada por técnicas proprietárias desenvolvidas por uma nova geração de pequenas empresas de reciclagem.

 “Novas tecnologias são anunciadas o tempo todo, novas tecnologias estão em desenvolvimento, e pode haver um avanço a qualquer momento”, disse ele.

 “Não sabemos o que iremos reciclar no futuro, não sabemos que técnicas utilizaremos, não sabemos como as regulamentações vão evoluir, nem como o mercado de materiais vai funcionar”, acrescentou Breiter. “São essas coisas que determinarão a viabilidade comercial do modelo de reciclagem.” 

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves 

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2023/09/corrida-das-baterias-para-veiculos-eletricos-demanda-revolucao-na-reciclagem.shtml

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Contratamos LGBTQIAPN+. Mas somente os ‘passáveis’…

Alexandre Gaspari – Alterconteudo – Estratégia ESG 

Bom dia!

Há uns 15 anos, uma amiga me narrou um episódio que presenciou na empresa onde trabalhava. A companhia, de pequeno porte, estava contratando alguém para sua área de atendimento ao cliente, e várias pessoas tinham sido entrevistadas. Então, essa amiga ouviu da assistente de Recursos Humanos que não aprovava a contratação de um determinado candidato, homem, porque ele seria ‘afetado’ – traduzindo ao pé da letra, ‘afeminado demais’.

Naquela época, o ESG era ‘só mato’, engatinhava, ainda mais em empresas pequenas. De lá para cá muita coisa mudou, e para melhor. A diversidade ganhou espaço na agenda das companhias de todos os portes, e ações para criar um ambiente de trabalho diverso, com pessoas de diferentes raças, gêneros, sexualidades, crenças, entraram na governança das organizações. Em muitos casos, por uma razão ‘simples’: diversidade traz mais ideias, e com elas mais inovação, e com ela mais… dinheiro. A conta fecha.

É uma evolução, sem dúvida. Mas, pensando também que estamos falando de gente, de pessoas, e não apenas de cifras, será que isso acontece com a equidade e a inclusão que necessariamente devem estar atreladas à promoção dessa diversidade? Ou, em muitos casos, o que está acontecendo é mais um ‘washing’ para sair bem na foto?

A criadora de conteúdo Karina Minoda (@karina.minoda) se identifica no Instagram com a sugestiva frase ‘Representando o dia a dia do proletariado’. Ela é uma das mulheres retratadas pelo Estadão que deixaram seus empregos ‘tradicionais’ – por escolha pessoal ou mesmo por questões de saúde – para ironizar nas redes sociais o dia a dia das corporações, ‘com funcionários viciados em trabalho, reuniões improdutivas e chefes mandões’, diz o texto.

Neste Reels, Karina interpreta a dona de uma empresa em uma reunião com o RH para falar sobre diversidade. Segundo a empresária, o tema ‘está super em alta no Linkedin, e a gente precisa se atualizar também, pra passar esse ar de empresa mais moderna’.

A empresária diz que pensou em ‘contratar gay’ e que acha uma boa colocá-los no SAC, já que é um pessoal ‘mais animado, mais carismático’, e talvez ‘combine bem com esse cargo’. Já ‘sapatão’, continua a empresária, ‘se for caminhoneira’ (masculina), ela determina que seja colocada na produção, ‘porque é um pouco desagradável ficar olhando no corredor, eu não gosto muito’. Mas, se a lésbica, for ‘mais feminina, a gente pode pensar em auxiliar administrativa, quero que vocês me mostrem fotos, pra eu poder avaliar também’.

Há um razoável período temporal que separa a decisão da assistente de RH daquela pequena empresa sobre o homem ‘afeminado’ – um fato real – e as sugestões – ironicamente caricatas, mas não irreais – da pseudo-empresária de Karina Minoda. Entre esses episódios, há um ESG no meio. Entretanto, o preconceito e a discriminação explícitos dos dois ‘fatos’ podem apenas ter recebido um lustre. Sim, estamos contratando gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros, mas desde que eles/elas ‘passem’ – ou melhor, não ‘pareçam’ ser aquilo que são. Embora essa visão ‘do que são’ seja totalmente equivocada.

A questão da passabilidade passou a me incomodar há cerca de 10 anos, quando eu, homem gay assumido, casado com outro homem, ouvia que eu ‘nem parecia gay’. E que eu e meu marido éramos gays que ‘nos dávamos ao respeito’. E também ouvir de amigos gays como eu, mas ‘passáveis’, ‘masculinos’, que ‘essas bichinhas (ou seja, gays ‘afeminados’) não me representam’.

Essas opiniões, inclusive, foram o estopim para que eu voltasse à universidade e tentasse entender como gêneros, sexualidades e suas representações sociais – o homem ‘masculino’, a mulher ‘feminina’, como estabelecido pelas normas heterossexuais socialmente construídas – influenciam nossas vidas, sob qualquer aspecto, emocional, corporal, profissional.

A ‘passabilidade’ é muitas vezes uma estratégia de sobrevivência. Mesmo questionando a imposição de que ‘homens agem assim, mulheres agem assado’, independentemente de suas sexualidades, muitas pessoas LGBTQIAPN+ acabam se adaptando a essas regras arbitrárias. Às vezes para evitar violência, inclusive do Estado. Um caso notório foi o da repórter Fernanda Gentil, lésbica assumida, que, cobrindo a Copa do Mundo de 2018, na Rússia – que criminaliza a homossexualidade –, disse que estava ‘bem menininha’ para evitar problemas.

Então, vale a reflexão: a diversidade que as empresas estão implementando é diversa mesmo? Ela respeita as pessoas como de fato elas são? Ela valoriza essas diferenças? Ou se trata apenas de uma foto para o Linkedin? O que se quer são pessoas LGBTQIAPN+ ‘passáveis’, ou pessoas LGBTI+, e ponto final? Essas respostas são a diferença entre ações que podem mudar não apenas as empresas, mas a sociedade, e maquiagens instagramáveis – que, cedo ou tarde, são descobertas.

PS: Ainda nesse post de Karina Minoda, a empresária diz que também é preciso contratar um ‘deficiente’. ‘Eu acho muito legal se a gente encontrar um cadeirante, pra colocar aqui no escritório mesmo, eu quero ver ele passando pelos corredores, aí é legal tirar até umas fotos, pra gente colocar no Linkedin’, conclui.

Neste outro Reels sobre o tema ‘diversidade na empresa’, a empresária criada pela influenciadora diz não ser necessário contratar mais negros e negras, ‘porque já tem bastante, tem o pessoal da limpeza, da recepção, da manutenção’. Como ela quer mostrar essa ‘diversidade’ no Linkedin, apenas pede ao RH que, no dia da foto para a rede social, essas pessoas venham ‘com o cabelo arrumado’.

E como sua secretária saiu de licença-maternidade – o que acha absurdo, já que não consegue entender ‘essas mulheres que querem ter filhos’ –, a empresária determina a contratação de um homem para a vaga. E que a sua secretária seja demitida assim que voltar da licença.

Boa semana!

https://www.alterconteudo.com.br/estrategiaesg/

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The Economist: por que a economia da China não será consertada

Muitos dos desafios do país são resultado de erros maiores na formulação de políticas econômicas, que estão piorando conforme o presidente Xi Jinping centraliza o poder

Por The Economist – 26/08/2023 | 

O que deu errado? Depois que a China voltou a participar da economia mundial em 1978, ela se tornou o caso de crescimento mais espetacular da história. A reforma do sistema agrícola, a industrialização e o aumento dos salários tiraram aproximadamente 800 milhões de pessoas da extrema pobreza.

Se na década de 1980 a economia da China era apenas um décimo da dos Estados Unidos, hoje ela é cerca de três quartos do tamanho da americana. Entretanto, em vez de voltar a ser um sucesso após o governo abandonar a política de “covid zero” no final de 2022, ela está saindo de um buraco e caindo em outro.

A economia cresceu a uma taxa anualizada de apenas 3,2% no segundo trimestre, uma decepção que parece ainda pior considerando que, segundo uma estimativa de destaque, a americana talvez esteja crescendo em quase 6%.

Os preços dos imóveis caíram e as construtoras, que tendem a vender casas antes de elas serem construídas, chegaram no limite, afugentando os compradores. As despesas dos consumidores, o investimento nos negócios e as exportações ficaram aquém das expectativas.

E, enquanto grande parte do mundo luta contra uma inflação alta demais, a China está sofrendo com o problema oposto: os preços ao consumidor caíram na comparação anual em julho. Alguns analistas alertam que a China pode entrar numa armadilha deflacionária como a do Japão nos anos 1990.

Entretanto, de certa forma, a “japonificação” é um diagnóstico suave demais para as aflições da China. Um déficit crônico no crescimento seria pior na China porque a sua população é mais pobre. O padrão de vida do Japão era cerca de 60% do americano em 1990; o da China hoje é inferior a 20%.

E, ao contrário do Japão, a China também está sofrendo com algo mais profundo do que a demanda fraca e o endividamento severo. Muitos de seus desafios são resultado de erros maiores em sua formulação de políticas econômicas — que estão piorando conforme o presidente Xi Jinping centraliza o poder.

Mais ou menos há uma década, os tecnocratas da China eram vistos quase como sábios. Primeiro, lideraram um milagre econômico. Depois, a China foi a única entre as maiores economias a reagir à crise financeira global de 2007-2009 com estímulos fortes o suficiente — alguns comentaristas chegaram até a dizer que ela tinha salvado a economia mundial.

Nos anos 2010, sempre que a economia cambaleava, o governo desafiava as previsões de calamidade barateando o crédito, construindo infraestrutura ou estimulando o mercado imobiliário.

Entretanto, durante cada uma dessas experiências, as dívidas públicas e privadas aumentaram. Assim como as dúvidas em relação à capacidade de manter o boom imobiliário e se as novas infraestruturas eram de fato necessárias. Atualmente, os formuladores de políticas estão num beco sem saída.

Sabiamente, eles não querem mais elefantes brancos ou reflacionar a bolha imobiliária. Também não podem fazer o suficiente dos tipos de estímulos mais benéficos, como gastar com aposentadorias e benefícios sociais para famílias pobres para aumentar o consumo, porque Xi repudiou o “assistencialismo” e o governo almeja um déficit oficial de apenas 3% do PIB.

Como consequência, a resposta à desaceleração tem sido fraca. Os formuladores de políticas não estão dispostos a sequer reduzir muito as taxas de juros. Em 21 de agosto, eles decepcionaram os investidores com um corte abaixo do esperado de 0,1 ponto percentual na taxa de juros de referência para empréstimos.

Esta resposta ineficaz à queda do crescimento e da inflação é o mais recente de uma série de erros políticos. A arrogância da política externa da China e sua política industrial mercantilista agravaram um conflito econômico com os EUA. Em casa, não conseguiu lidar adequadamente com os incentivos à especulação com moradias e com um sistema no qual as incorporadoras têm obrigações tão enormes que são sistemicamente importantes.

Desde 2020, as agências reguladoras vêm afundando os mercados ao aplicar medidas severas contra empresas de tecnologia bem-sucedidas que eram consideradas indisciplinadas demais e monopolistas. Durante a pandemia, as autoridades ganharam tempo com lockdowns, mas não conseguiram usá-lo para vacinar pessoas suficientes para uma saída controlada do confinamento e, em seguida, foram arrasadas pela altamente contagiosa variante Ômicron.

Por que o governo continua cometendo erros? Um dos motivos é que o crescimento a curto prazo deixou de ser a prioridade do Partido Comunista Chinês. Os sinais são de que Xi acredita que a China deve se preparar para um conflito econômico e, possivelmente, militar constante com os EUA. Hoje, portanto, ele enfatiza a busca pela importância, segurança e resiliência da China. Ele está disposto a fazer sacrifícios materiais para alcançar esses objetivos e, dentro dos limites em que deseja crescimento, ele deve ser “de alta qualidade”.

Contudo, mesmo segundo os critérios de Xi, as decisões do Partido Comunista Chinês são equivocadas. O fracasso da política covid zero prejudicou o prestígio de Xi. O ataque às empresas de tecnologia espantou os empresários. Se a China entrar numa deflação persistente porque as autoridades se recusam a estimular o consumo, as dívidas aumentarão em valor real e terão um peso maior sobre a economia. Acima de tudo, a menos que o Partido Comunista Chinês continue a elevar o padrão de vida, enfraquecerá seu controle sobre o poder e limitará a capacidade da China de se igualar aos EUA.

Portanto, as crescentes políticas falhas parecem mais claras decisões mal tomadas do que um novo foco abnegado na segurança nacional. Elas coincidem com a centralização do poder de Xi e a substituição de tecnocratas por aliados em cargos de destaque. A China costumava tolerar o debate a respeito de sua economia, mas hoje persuade analistas com um falso otimismo.

Recentemente, deixou de publicar dados desfavoráveis sobre o desemprego dos jovens e a confiança do consumidor. As altas esferas do governo ainda têm muito talento, mas é ingênuo esperar que uma burocracia produza análises racionais ou ideias criativas quando a mensagem que vem de cima é que a lealdade está acima de tudo. Em vez disso, as decisões são cada vez mais regidas por uma ideologia que une uma desconfiança da esquerda dos empresários ricos com uma relutância da direita em dar dinheiro aos pobres desempregados.

O fato de os problemas da China começarem no topo significa que persistirão. Podem até mesmo piorar, à medida que os formuladores de políticas desajeitados enfrentam os desafios crescentes da economia. A população está envelhecendo rapidamente.

Os EUA estão cada vez mais hostis e tentando sufocar setores da economia chinesa, como a fabricação de chips, que considera estrategicamente importante. Quanto mais a China alcançar os EUA, mais difícil será para diminuir a diferença no futuro, porque as economias centralizadas são melhores na emulação do que na inovação.

As previsões dos liberais a respeito da China com frequência revelam ilusões. Nos anos 2000, os líderes ocidentais acreditavam erroneamente que o comércio, os mercados e o crescimento impulsionariam a democracia e a liberdade individual.

Mas a China agora está testando a relação inversa: se mais autocracia prejudica a economia. Há cada vez mais provas de que sim — e de que, depois de quatro décadas de crescimento rápido, a China está entrando num período de desilusão./Tradução de Romina Cácia

https://www.estadao.com.br/economia/the-economist-por-que-a-economia-da-china-nao-sera-consertada/

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Estudos revelam o assustador impacto da tecnologia nas relações sociais

Isolamento e falta de contato físico: um fenômeno acelerado pela pandemia das redes sociais

Por Marília Monitchele – Veja – 1 set 2023

A solidão, sabemos todos, é parte indissociável do cotidiano humano desde sempre. Não se trata, é natural, de condição recente — se nascemos como seres gregários, se vivemos para nos juntar em  famílias e grupos, na paz e na guerra, é certo que viemos ao mundo também para sofrer com o afastamento do outro. De Rainer Maria Rilke (1875-1926), poeta e romancista austríaco de coração despedaçado: “A solidão é como chuva (…) cai como chuva nas horas ambíguas, quando todas as vielas se voltam para a manhã e quando os corpos, que nada encontraram, desiludidos e tristes se separam; e quando aqueles que se odeiam têm de dormir juntos na mesma cama”. A novidade é que a tecnologia, joia da civilização afeita a unir, tem produzido desunião. A internet — e talvez não caiba aqui nenhuma sensação de estupor, em filme que se desenrola já há algum tempo — afasta amigos e cancela amores. Deu ruim, como se diz por aí.

O extraordinário, agora: estudos robustos têm revelado o tamanho do dano. Os smartphones e as redes sociais estimulam o comportamento individualista e relações superficiais. Essa realidade foi ainda mais afetada pelo isolamento da pandemia e pela adoção de regimes de trabalho em home office. Um levantamento recente da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, iniciado em 2021, mostra que quatro em cada dez jovens de 18 a 30 anos não tiveram parceiros sexuais no decorrer de um ano — índice que dobrou na comparação com a década passada. No Japão, a questão virou problema de saúde pública, com a queda da natalidade, preocupação constante do governo. O número de homens que admitem não saber conversar com mulheres aumentou, nos últimos dois anos, de 14% para 20%. Já o índice de mulheres que dizem não ter traquejo para falar com eles subiu um pouco menos, de 16% para 18%.

arte amigos sumiram

Tendo a tela como escudo, contudo, no mar do Facebook, do Instagram, do X (que já foi Twitter) e do WhatsApp, a comunicação segue firme. “Nas redes, interagimos por meio de um filtro, o que constantemente causa a confusão entre interação e socialização”, diz o psicólogo Francisco Nogueira. “Parece estarmos nos socializando, mas a capacidade de resposta e de construção de vínculos cai muito.” O resultado, inesperado: o isolamento, apesar do pipocar frenético de mensagens e alertas. Não é preciso, resuma-se, estar sozinho para se sentir só. E não por acaso, 25% de jovens brasileiros ouvidos em uma pesquisa da VTrends (veja no quadro), braço da operadora Vivo, acreditam que os aparelhos eletrônicos, ali onde vivemos, provocam distanciamento físico.

Estique-se um pouco a corda e o retrato é preocupante: trabalho da empresa de tecnologia Telstra australiana — cujos dados podem ser transportados para o Brasil, inclusive — indica que 54% de pessoas da dita geração Z, de 8 a 23 anos, se autodenominam solitárias. Entre os millennials, que chegam aos 40 anos, o nó é pouca coisa menos apertado, está na casa dos 51%. “Fomos ficando preguiçosos para relacionamentos”, diz a psicóloga clínica, terapeuta familiar e pesquisadora Ilana Pinsky, colaboradora do site de VEJA. “Os relacionamentos são muito compensadores, mas são também cansativos. A maioria das pessoas tem de fazer um certo esforço para a manutenção das relações.”

artes amigos sumiram

A escuridão — apesar da falsa claridade azulada — tende a ser ainda mais dura com as meninas adolescentes, que transformaram as redes sociais em espelho cruel. É uma faca espetada na autoestima, comose a imagem fosse tudo e fossem todas forçadas a parecer magras, de rosto limpo, imunes ao tempo como Dorian Gray. Um relatório do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos indica que três em cada cinco meninas adolescentes relataram se sentir constantemente tristes ou sem esperança, o que representa um aumento de quase 60% em relação a 2011, quando 36% das mulheres jovens disseram se sentir assim. “Talvez seja o caso de as redes terem algum tipo de regulamentação, tal como acontece com a indústria de álcool e tabaco”, arrisca o psicólogo Nogueira. É posição corajosa, que nada tem a ver com censura, mas que já passeia pela mente de especialistas americanos. O surgeon general dos Estados Unidos, Vivek Murthy, algo como um médico referência, autoridade máxima em saúde pública, publicou recentemente um estudo em que detalha o que ele chamou de epidemia de solidão — atrelada e alimentada, inapelavelmente, pela internet. “Enfrentar a crise de solidão é um dos grandes desafios de nossa geração”, disse. Uma das ideias: afastar crianças de até 13 anos das redes sociais.

Parece ingenuidade indicar o óbvio, mas profissionais de psicologia e educação sugerem sair para a rua e abandonar o celular, em busca de alguém que conserte o chuveiro ou troque a fechadura da porta, como se fazia até outro dia. Cabe “desintoxicar” as pessoas, tratar o vício do smart­phone como os do cigarro e da bebida. Aliás, os efeitos da solidão, dentro das barreiras eletrônicas, não se restringem aos impactos psicológicos. Ela pode ser tão letal quanto fumar quinze cigarros por dia, afirma um levantamento da Universidade Harvard. Não é o caso de trazer à tona a reedição de um movimento como o luddismo do início do século XIX. Em 1812, liderados por Ned Ludd — que talvez fosse apenas uma criação que ninguém nunca viu —, trabalhadores ingleses começaram a quebrar máquinas, em protesto contra as inovações que, na alvorada da Revolução Industrial, ceifariam os empregos. A web — e sua filha mais dileta, as redes sociais — não é um mal em si. Sem ela estaríamos ainda mais solitários. Também já não vale achar que o mundo virtual e o real não possam se encontrar.

Podem, sim. Lá em 2000, na pré-­história, o psicólogo americano John Suler cunhou uma frase lapidar: “As pessoas tendem a separar a vida on-line da vida off-line”. Esse tempo passou e os universos se complementam, não há como isolá-los. O caminho — em nome das amizades e dos amores — é saber conduzi-los com equilíbrio. Soa estranho tratar com naturalidade cenas do cotidiano como a de famílias ao redor de uma mesa, no almoço de domingo, todos de cabeça baixa, absortos em um mundo que não é aquele. Ou de jovens que, em museus, dão as costas para os quadros, de ombros caídos e olhos atentos apenas ao vaivém de tudo o que pode piscar nos vídeos do TikTok. Vale, como nota de ironia, celebrar uma decisão contundente de Bob Dylan, o compositor e cantor de 82 anos: em sua recente e infindável turnê, ele proibiu a entrada de celulares nos recintos de seus espetáculos. Os aparelhos são lacrados, fechados em estojos e só devolvidos na saída. A solução para a plateia que não pode gravar: olhar para o show, ou então para o amigo ou amor ao lado. Eis uma boa ideia.

Publicado em VEJA de 1º de setembro de 2023, edição nº 2857

https://veja.abril.com.br/comportamento/estudos-revelam-a-dimensao-do-isolamento-social-estimulado-pela-tecnologia

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Quer inovar digitalmente? Repense a governança

A inovação rápida, constante e centrada no cliente é possível em grandes empresas – mas não se você permanecer adotando as formas tradicionais de trabalho. Organizações inovadoras precisam de governança inovadora

David L. Rogers – MIT Sloan Review – 29 de Agosto 2023

Resumo do artigo(texto completo no link no final):

O texto argumenta que a inovação digital nas grandes empresas requer uma reformulação na governança. Destaca o desafio enfrentado por Antonio Lacerda da BASF ao tentar inovar rapidamente devido às restrições da governança corporativa. Salienta que as equipes de inovação muitas vezes lutam por adaptações de regras que contradizem seu propósito de mudança.

Discute a importância da governança na transformação digital, abordando questões como gestão, financiamento, formação de equipes e métricas. Enfatiza a necessidade de criar processos repetíveis para inovação e superar a aversão ao risco ao financiar oportunidades de alto risco.

Destaca sinais de má e boa governança, enfatizando a importância de equipes multifuncionais, pequenas, dedicadas, autônomas e responsáveis. Argumenta que conselhos de inovação são mais eficazes do que patrocinadores individuais para apoiar empreendimentos inovadores.

Aborda a autorização de novos projetos, enfatizando a importância de investir em testes iniciais e validação. Explica o conceito de financiamento iterativo, que é ágil e baseado em dados reais. Destaca a necessidade de encerrar projetos ineficazes de forma inteligente e compartilhar o aprendizado com a organização.

Finalmente, destaca a importância de separar pessoas de projetos e incentivar uma cultura que aceite e aprenda com o fracasso. Conclui que a governança adequada é essencial para desbloquear o potencial de inovação digital nas empresas estabelecidas.

Leia o artigo completo em:

https://mitsloanreview.com.br/post/quer-inovar-digitalmente-repense-a-governanca

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O futuro do trabalho tem cabelos brancos (e isso é uma boa notícia)

Mudança na pirâmide etária brasileira forçará as empresas e a sociedade a lidar com o etarismo


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Camila de Lira – Fast Company Brasil – 17-07-2023 

O futuro do trabalho no Brasil terá cabelos brancos. E, sim, isso significa inovação. Significa que empresas terão horários flexíveis, ambientes diversos, modelos diferentes de liderança e ênfase em soft skills. Para destravar esse potencial, no entanto, o mercado brasileiro precisa encarar um tema complexo: a discriminação por conta da idade, o etarismo.

Dados iniciais do Censo de 2022 mostram que a taxa brasileira de crescimento populacional caiu pela metade nos últimos 10 anos. Já a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) mais recente, feita em 2021, mostra que o país já tem 56,1% da população com mais de 30 anos.

Fonte: IBGE

Antes da divulgação dos dados do Censo de 2022, as projeções mostravam que, até 2040, 57% da força de trabalho terá mais de 45 anos. As informações apenas aceleram o ritmo de chegada dessa transformação.

“Os números são um chamado à realidade. Temos que mudar o conceito que diz que a juventude é o grande motor de desenvolvimento da economia”, afirma Sérgio Serapião, CEO da Labora, consultoria focada na reinserção de pessoas com mais de 50 anos no mundo profissional.

Outro dado que precisa entrar na conta: a expectativa de vida do brasileiro segue crescendo. Nos anos 2000, a esperança de vida ao nascer era de 69,8 anos. Hoje em dia, é de 77 anos.

A transformação digital levou a uma percepção de que é preciso ter jovens para ser uma empresa moderna. O melhor é ter diversidade geracional.

De acordo com Morris Litvak, CEO e fundador da Maturi, maior empresa brasileira focada em recolocação e desenvolvimento profissional dos 50+, a ideia de uma pessoa de cabelos brancos “parada no tempo” não condiz com a realidade.

“O etarismo é embasado em um estereótipo de realidade que não é mais a nossa. Em 30 anos, a sociedade brasileira mudou muito, mas a cultura ainda valoriza os jovens”, aponta Litvak.

Dentro das companhias, o etarismo aparece de uma forma mais silenciosa, difícil até mesmo de ser captada em pesquisas e censos internos. Afinal, muitas grandes empresas têm, de fato, diretores e executivos com mais de 50 anos de idade. Na sua maioria, são profissionais que amadureceram dentro da empresa, subiram de cargos e seguem ali.

“A contratação de profissionais acima dos 50 anos ainda é um tabu. Porque o mercado parte de um olhar muito voltado para os jovens”, fala Litvak.

Programas de aposentadoria compulsória, que forçam a saída de profissionais com mais de 50 anos, são mais comuns no dia a dia das companhias do que os de contratação. Pesquisa feita pela Maturi em parceria com a EY mostrou que 80% das empresas brasileiras não têm políticas especificas e intencionais de combate à discriminação etária em processos seletivos.

Crédito: Freepik

SEM DATA DE VALIDADE

“A palavra envelhecimento assusta muita gente. As pessoas não se sentem muito confortáveis em tratar desse tema”, aponta o fundador da SeniorLab, Martin Henkel. A consultoria é focada em pesquisas de mercado do segmento 60+ e vem captando mudanças no comportamento de quem antes era considerado “apenas uma avó”.

Entender que envelhecer trará experiências e habilidades novas faz parte da quebra do etarismo. No mundo corporativo, um profissional 50+ costuma ser mais resiliente em momentos de crise.

Em 30 anos, a sociedade brasileira mudou muito, mas a cultura ainda valoriza os jovens.

“É um profissional que tem o domínio, tem um plano B, não se desespera na hora que acontece algo ruim, tem mais capacidade de planejar”, afirma Juliana Ramalho, CEO da Talent Senior. Além disso, ele já teve tempo para treinar e aprimorar a comunicação e a empatia, duas das principais soft skills procuradas no mercado.

A criatividade também está presente, mas em uma forma que o mercado, principalmente de tecnologia, acaba deixando de lado. No lugar das mil ideias disruptivas dos profissionais jovens, há aquela única ideia com aplicabilidade prática.

“A criatividade sênior não é aquela que fica dando palpites no brainstorm. Ela é mais assertiva, direta, porque é baseada em uma série de experiências anteriores”, analisa Serapião. Além disso, quando contratados, os profissionais reduzem a taxa de rotatividade da empresa, já que tendem a se estabelecer no local.

“A transformação digital levou a liderança a ter uma percepção errada de que precisa ter jovens para ser uma empresa moderna. Na verdade, o melhor é ter um mix, ter diversidade geracional”, diz Litvak.

“O mercado está desperdiçando talentos que poderiam aumentar a produtividade por um mero desconhecimento e preconceito”, aponta Henkel. “As pessoas não têm data de validade.”

FLEXIBILIDADE PELA FRENTE

Quando combinadas, a longevidade e a aceleração da tecnologia vão exigir uma transformação sobre o que significa uma carreira de sucesso.

No lugar do caminho linear e ascendente, a vida profissional acontecerá em ciclos. O que significa que nem sempre o movimento será para um cargo mais alto, mas para uma posição que se encaixe no momento de vida da pessoa.

Litvak, da Maturi, explica que os 50+ puxam novas formas de um profissional colaborar e de agregar valor para as empresas. No lugar de aposentar aquela executiva experiente ou aquele líder sênior, as companhias poderiam optar por torná-los mentores de jovens ou abrir espaço para consultoria.

Um exemplo que pode ser visto hoje é com relação à carga horária. Muitos dos executivos que se aposentam acabam optando por trabalhos que exigem menos horas por dia, em uma dedicação não exclusiva. O que já criou um novo formato de trabalho: o Talent as a Service.

A partir deste modelo uma empresa pode contratar alguém pela experiência que tem na área. É como se fosse uma consultoria especializada. Assim, a pessoa pode optar por trabalhar para três empresas, em um tempo reduzido para cada uma. Juliana, que aposta nesse modelo na Talent Senior, conta que existe até a opção de o profissional colaborar para uma empresa apenas um dia da semana.

O profissional sênior já teve tempo para treinar e aprimorar a comunicação e a empatia, duas das principais soft skills procuradas no mercado.

A combinação traz resultados positivos para companhias que precisam do apoio técnico e da experiência de quem já é especializado no ramo. “Valorizar a experiência é mostrar que o profissional sênior não é aquela mão de obra barata, o que evita que o modelo se transforme no que aconteceu com a gig economy [modelo de trabalhadores autônomos como do Uber]”, afirma Juliana.

Além da flexibilidade, o mercado de trabalho 50+ é mais aberto à transição de carreira. A busca pelo lifelong learning, ou seja, o aprendizado de longo prazo, é uma característica desses profissionais. No Brasil, o número de universitários com mais de 40 anos em cursos de graduação passou de 28 mil para 600 mil entre 2012 e 2021.

No final das contas, a nova pirâmide etária brasileira exigirá empresas mais atentas e processos humanizados, flexíveis e diversos. Uma transformação que trará benefício para todas as gerações que ingressarem no mercado de trabalho.


SOBRE A AUTORA

Jornalista formada pela ECA-USP, early adopter de tecnologias (e curiosa nata) e especializada em storytelling para negócios.


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Acesso a artes na escola impacta desempenho de modo indireto, dizem estudos

Estudos americanos indicam que o acesso às artes na escola tem impacto indireto no desempenho dos alunos. Embora não necessariamente melhore as notas em disciplinas básicas, como matemática e leitura, a exposição às artes parece beneficiar habilidades cognitivas, emocionais e sociais.

O foco em testes padronizados na avaliação da educação, como o Saeb e o Pisa, levou a uma redução de recursos destinados às artes nas escolas, especialmente nos EUA. Estudantes de grupos marginalizados, como dança e estudantes não brancos, foram os mais prejudicados.

Pesquisas apontam que a participação em atividades artísticas pode reduzir advertências, melhorar o desempenho em redação, aumentar a compaixão e o empenho escolar, mas não necessariamente o desempenho em testes padronizados.

Outros estudos exploram a integração das artes no ensino, com efeitos modestos na melhoria das notas em comparação com outras intervenções. O envolvimento em artes também parece beneficiar o desempenho acadêmico em matemática, leitura, motivação e empatia.

Embora os resultados variem, as artes desempenham um papel relevante no desenvolvimento das habilidades necessárias para a inovação, incluindo habilidades técnicas, de pensamento criativo e habilidades comportamentais e sociais. Portanto, a presença das artes nos currículos escolares é justificada, independentemente de transferências diretas de competências em outras disciplinas.

Leia a matéria completa de Vinicius Torres Freire na Folha de 07/09/2023 em:

https://www1.folha.uol.com.br/seminariosfolha/2023/09/acesso-a-artes-na-escola-impacta-desempenho-de-modo-indireto-dizem-estudos.shtml

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Café brasileiro luxuoso é extraído de excrementos do pássaro jacu

Produto é vendido por 1.118 reais o quilo no Brasil, e ainda mais caro no exterior, em lojas de luxo como a britânica Harrods

Por AFP – O Globo – 08/09/2023

Excrementos de pássaro Jacu são fotografados na plantação de café Camocim, em Domingos Martins, Espírito Santo Excrementos de pássaro Jacu são fotografados na plantação de café Camocim, em Domingos Martins, Espírito Santo — Foto: CARL DE SOUZA / AFP

Antes considerado uma praga nas plantações de café do sudeste do Brasil, o pássaro selvagem jacu – e seu prodigioso sistema digestivo — tornou-se o principal aliado na produção de um dos cafés mais caros do mundo.

O jacu – jacuaçu – parece um faisão e tem paladar fino: “Geralmente ele escolhe as melhores frutas, as mais maduras”, explica Agnael Costa, de 23 anos, à AFP, enquanto coleta delicadamente os valiosos excrementos entre duas árvores.

Na fazenda Camocim, situada em um vale bucólico da comunidade de Domingos Martins, no Espírito Santo, os pés de café crescem em meio a uma floresta exuberante.

Pássaro Jacu voa na plantação de café Camocim, em Domingos Martins, Espírito Santo — Foto: CARL DE SOUZA / AFP Pássaro Jacu voa na plantação de café Camocim, em Domingos Martins, Espírito Santo — Foto: CARL DE SOUZA / AFP

— Foi esse sistema agroflorestal que criou as condições necessárias para existir esse café exótico aqui —, explica o proprietário Henrique Sloper, adepto da agricultura biodinâmica, sem produtos químicos.

O produto é vendido por 1.118 reais o quilo no Brasil, e ainda mais caro no exterior, em lojas de luxo como a britânica Harrods.

De inimigo a aliado

Mas o jacu, espécie de plumagem preta e garganta escarlate, nativa de outras regiões da América do Sul, nem sempre foi bem-vindo na propriedade Camocim. No início, era visto como uma praga que ameaçava as colheitas e causava problemas.

Foi ao conhecer o café “Kopi Luwak” na Indonésia, feito com excrementos de civeta (mamífero asiático semelhante a um mangusto), que Henrique Sloper teve a ideia de transformar o jacu de inimigo a aliado. Enquanto a reputação do “Kopi Luwak” – também vendido a preço de ouro – é prejudicada por denúncias de maus-tratos a civetas em cativeiro, o jacu brasileiro cresce em liberdade.

— É 100% natural. O jacu está dentro do habitat natural dele mesmo , a floresta atlântica do litoral brasileiro —, diz o supervisor de produção, Rogério Lemke.

— É uma região muito protegida (…) e não usamos químicos, produtos transgênicos, nada” na plantação de café — , acrescenta.

Os excrementos do jacu lembram a aparência de um pé de moleque, com grãos de café incrustados em uma pasta enegrecida.

Depois de colhidas, as fezes são colocadas para secar em uma estufa. Em seguida, os grãos de café são classificados e descascados cuidadosamente, antes de serem colocados em uma câmara fria. São retirados de lá apenas mediante solicitação do cliente, para evitar desperdícios.

— Em função do trabalho que a gente tem para fazer esse produto, ele é naturalmente caro. Não tem como fazer um café de jacu com custo baixo… É um produto escasso e a produção é incerta, porque depende do apetite do jacu — afirma Henrique Sloper.

O café extraído dos excrementos destas aves representa menos de 2% da produção da fazenda.

— Serve não só como selecionador, como também alarme de colheita. Onde ele come, o café está maduro —, explica.

Luxo e sustentabilidade

— Os pássaros têm um trânsito intestinal extremamente curto. Praticamente entrou, e depois de alguns segundos já está saindo. Então não existe propriamente qualquer tipo de processo bioquímico, não dá tempo — explica o analista de café, Ensei Neto.

É muito mais lento em civetas ou elefantes, cujos excrementos também são usados para produzir esse tipo de café na Tailândia.

— Basicamente, o que você tem como diferencial, que o pássaro promove, é essa seleção dos grãos maduros. Ele não adiciona nada a mais. Mas a história é boa —, diz Neto.

Os grãos bem maduros conferem ao café “notas doces, com boa acidez”.

— É um café delicioso e a história por trás da sua produção é muito original. É uma experiência nova para nós —, diz a turista Poliana Cristiana Prego, de 37 anos, que veio até a fazenda provar o café do jacu.

— Nossos clientes são os amantes de produtos exóticos, mas também aqueles que valorizam a ideia de desenvolvimento sustentável — afirma Henrique Sloper.

Para ele, “o futuro do café vai vir do Brasil”. Maior produtor mundial, o gigante sul-americano começa a melhorar a parte do branding, do marketing do café. É mostrar para o mundo que realmente temos condições de fazer o que ninguém tem”.

https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2023/09/08/cafe-brasileiro-luxuoso-e-extraido-de-excrementos-do-passaro-jacu.ghtml

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