Empresário capixaba se inspira na Tesla para desenvolver carro elétrico nacional

Flávio Figueiredo Assis deixou ramo de cartões de alimentação para investir no Lecar 459

Eduardo Sodré – Folha – 21.fev.2024 

Flávio Figueiredo Assis dirige um Tesla Model 3 no dia a dia, mas isso não é o bastante para ele. O empresário capixaba quer fazer seu próprio carro elétrico. Após vender sua administradora de cartões PAT (Programa de Alimentação do Trabalhador) em 2022 e acumular fortuna, resolveu investir no novo negócio. “Dormi aposentado, mas acordei com o meu coração queimando de novo. Dei um game over, resolvi minha vida e pensei: ‘o que fazer agora?’”, diz Assis, explicando como começou a história do protótipo Lecar 459. Lateral da primeira versão do carro elétrico nacional Lecar 459 Lateral da primeira versão do carro elétrico nacional Lecar 459 – Divulgação 

O carro, que será capaz de rodar 400 quilômetros com uma carga completa de suas baterias, tinha preço estimado de R$ 279 mil no início do projeto. Contudo, pelos cálculos do empresário, há possibilidade de ser vendido por menos de R$ 200 mil, devido a condições melhores apresentadas por fornecedores. Se não houver mudança, o valor será próximo ao cobrado pelo BYD Seal (R$ 296,8 mil), que será um concorrente direto. Mas Assis acredita que os automóveis elétricos importados ficarão mais caros em breve, devido à retomada gradual do Imposto de Importação. O projeto nacional segue acelerado, mas o primeiro desenho do Lecar 459 já mudou. O estilo sedã do primeiro protótipo está sendo substituído pela carroceria SUV cupê, como o Fiat Fastback e o BMW X4. 

O empresário capixaba diz que procurou até o estúdio Pininfarina para desenhar seu carro 100% elétrico, mas não obteve retorno. A responsabilidade coube a Romis do Carmo, designer e ilustrador de Vitória (ES). É a primeira vez que ele trabalha no projeto de um automóvel. Assis afirma que a inspiração para os esboços veio da fauna. “O Romis diz que carro é bicho, é Jaguar, é Cobra, é Mustang.” As imagens do protótipo ainda com carroceria sedã mostram faróis estreitos e amendoados, tomada para recarga no para-lama dianteiro esquerdo e LEDS azuis no para-choque frontal. A carroceria será feita de SMC, um material de alta resistência composto por plástico e fibra de vidro. É aplicado, por exemplo, em carros de competição. 

O nome Lecar remete à antiga empresa de cartões de Assis, que se chamava Lecard. O número 459, segundo o empresário, faz alusão ao inventor e engenheiro Nikola Tesla (1856-1943), que era obcecado pelo número 369. Eis a lógica da escolha: em ambos os casos, a soma dos dois primeiros algarismos resulta em nove. O negócio é tocado com capital próprio. Assis diz que foram contratados 30 engenheiros, e 23 deles vieram da Ford. Há também funcionários com passagem por Nissan, Marcopolo e Gurgel. Em 2025, o empresário planeja fazer seu IPO (oferta inicial de ações, na sigla em inglês). Além da experiência com projetos de carros nacionais, um dos ex-funcionários da Gurgel —marca que chegou a produzir carros elétricos no país— tem ajudado Assis a ser cuidadoso em suas escolhas. “A Gurgel teve muito apoio da Volkswagen, por exemplo, mas verticalizou demais o negócio.” 

A Lecar tem sede em Alphaville, Barueri (Grande São Paulo), mas a linha de produção fica em Caxias do Sul (RS), que tem um polo automotivo consolidado. Foi lá que um Tesla Model Y foi desmontado, o que permitiu analisar as tecnologias empregadas. Além de entender como funciona o carro de Elon Musk, o empresário brasileiro quer copiar o modelo de vendas da empresa americana. A ideia é não ter concessionárias e vender os veículos de forma direta para os consumidores, em pequenos pontos de venda. Esse formato, contudo, pode esbarrar na Lei Ferrari, de 1979. A regra estabelece limites entre as relações de fabricantes e revendedores. O empresário diz que a ideia de produzir um carro 100% elétrico no Brasil se baseia na Lei 8.723, de 1993, que estabeleceu os limites de emissões para os anos seguintes. 

Como se vê agora, os parâmetros que resultaram na criação do Proconve (Programa de Controle de Emissões Veiculares) caminham para a eletrificação a cada nova fase. Isso explica a próxima onda do mercado, em cuja crista estarão os carros híbridos flex. Mas Flávio Figueiredo Assis quer pular essa etapa e ir direto para os 100% elétricos. Além do 459, planeja lançar o Lecar Pop, que custaria aproximadamente R$ 100 mil. Cerca de 35% das peças do Lecar 459 serão importadas da China, a exemplo das baterias. Diferentes fornecedores estão sendo consultados. Para o futuro, diz Assis, o objetivo é produzir os acumuladores no Brasil. “Temos 97% dos minerais necessários para fazer as baterias aqui.” O processo mais complexo será a validação do Lecar 459 para venda. A empresa poderá ser beneficiada pelo programa Mover (Mobilidade Verde) e receber incentivos tributários, mas há o processo que envolve crash tests. Assis afirma que o carro alcançou cinco estrelas em todas as simulações de impacto, com base no protocolo estipulado pelo EuroNcap. São medições feitas no computador, seguindo o mesmo padrão das grandes montadoras. 

O protótipo deve seguir para a Inglaterra ainda no primeiro trimestre, onde vai passar por testes físicos de impacto e aerodinâmica. De acordo com a empresa, essa etapa deverá durar nove meses. O objetivo é produzir 50 mil carros por ano no fim da década, gerando 6.000 empregos diretos e R$ 13 bilhões de faturamento anual. Outra meta é exportar para os Estados Unidos e a Europa, embora esses países já tenham fartura de oferta de modelos elétricos à disposição. 

Os planos preveem ainda a instalação de carregadores em rodovias e a disponibilidade para locação de longo prazo. O empresário espera lançar o carro no Brasil em dezembro, o que parece pouco factível diante dos prazos de desenvolvimento usuais no setor automotivo. Cada novo automóvel que chega às ruas passa por pelo menos três anos entre o projeto original e o início da produção. Mas Assis considera que sua empresa, por funcionar como uma startup, é mais ágil que as fabricantes tradicionais. “As grandes montadoras são transatlânticos, eu sou um jet ski.” 

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2024/02/empresario-capixaba-se-inspira-na-tesla-para-desenvolver-carro-eletrico-nacional.shtml

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‘O mundo vai ter a necessidade de um ecossistema de proteínas alternativas’, diz presidente da ADM

Para executiva, além de carnes vegetais e híbridas, lácteos também tem grandes oportunidades de negócios; em 2030, mercado global de proteínas alternativas deve movimentar US$ 100 bilhões

ENTREVISTA COM

Letícia Gonçalves Presidente global de alimentos da ADM

Por Carlos Eduardo Valim – Estadão – 20/08/2023 

Com 121 anos de atuação como uma trading de commodities agrícolas e processadora de alimentos, a ADM (Archer Daniels Midland), dona de um faturamento de US$ 101 bilhões em 2022, é uma das gigantes que ajudaram a expandir o comércio exterior que alimenta a população do planeta. Pelas últimas duas décadas, a executiva brasileira Letícia Gonçalves tem acompanhado essa história de perto, atuando na sede da empresa nos EUA. De Chicago, cidade onde também se localiza a principal bolsa de valores de commodities do mundo, ela falou com o Estadão, sobre o futuro da empresa e da alimentação.

Toda a tradição da ADM deve ser colocada à prova pelos próximos anos, quando o mundo enfrentará o desafio de alimentar mais pessoas com maiores doses de proteína, sem, no entanto, exaurir os recursos naturais e prejudicar o meio ambiente.

Para ajudar a dar conta dessa tarefa, Gonçalves acredita que as pessoas estão mais dispostas a consumir proteínas alternativas, sendo que a ADM já está se preparando para essa nova demanda. Pesquisas da empresa dão conta que 87% dos consumidores globais demonstram interesse em experimentar produtos feitos à base de plantas, a partir de proteína vegetal. Além disso, 74% querem experimentar produtos feitos com fontes híbridas de proteína. Por exemplo, um alimento que misture porcentagens de proteína animal, vegetal e até de carne criada em laboratório.

Um desafio, no entanto, está em tornar esses alimentos mais acessíveis para os países em desenvolvimento. “O foco será resolver o problema de acesso a esses alimentos, com uma abordagem bem customizada. Existem muitas nuances regionais para a necessidade dos consumidores”, afirma a executiva, que mesmo depois de décadas morando fora do Brasil mantém a fluência na língua portuguesa, ainda que com algum sotaque americano e ocasionalmente precise recorrer a termos em inglês.

Segundo a pesquisa da ADM, 40% dos consumidores globais de plantas dizem que consumiriam mais proteínas de origem vegetal se os preços fossem semelhantes aos de origem animal. Esse número sobe para 51%, quando se trata de consumidores brasileiros. Tal tendência vai permitir desenvolver um mercado global de proteínas alternativas de US$ 100 bilhões até 2030. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Como uma empresa criada em 1902 se prepara para o futuro da alimentação?

É um momento fascinante do setor de alimentos. A ADM é uma empresa muito antiga. Começou com originação de grãos, trading e merchandising dentro do agribusiness, mas evoluiu muito nos últimos dez anos, desde a aquisição da Wild Flavors (empresa de ingredientes naturais, em 2014). Agora, está realmente focada nas principais necessidades para garantir a segurança alimentar no planeta. Será importante trazer comida para uma população crescente, mais preocupada com saúde e bem-estar, além da sustentabilidade. Hoje, não podemos só pensar no que é o melhor para a população em termos de alimentos, mas precisamos fazer isso de forma sustentável para o meio ambiente.

Os consumidores já entendem isso, então?

Uma área de forte crescimento dentro da minha divisão na ADM é a de proteínas alternativas. Isso por que mais da metade dos consumidores hoje se consideram “flexitarianos. Eles estão de olho em diversificar as fontes de proteínas que consomem. As pessoas continuam comendo carne animal, mas estão buscando outras coisas, à base de legumes e plantas, e outras culturas e tecnologias que vão vir, como fermentação de precisão e a carne de laboratório. O mundo vai precisar de mais proteína. Não só por cauda do crescimento da população, mas também pela quantidade de proteína na dieta das pessoas. O mundo vai ter a necessidade de um ecossistema de proteínas alternativas.

Como isso vai movimentar os negócios em alimentação?

A gente acredita que esse mercado de proteína alternativa vai continuar crescendo e trazer uma oportunidade, até 2030, de US$ 100 bilhões a serem explorados anualmente. Ainda seria uma pequena parte frente ao mercado global de proteína. O mercado de carne animal será de US$ 1,5 trilhão. É um setor gigante, mas, do ponto de vista de negócios, há uma grande oportunidade para inovações. Quem começou este mercado foram os vegetarianos, mas ele está virando um mercado mais mainstream.

Esse mercado será importante também para um país em desenvolvimento como o Brasil?

Os brasileiros também estão preocupados em mudar a dieta. Nossas pesquisas apontam que 82% dos brasileiros buscam melhorar a quantidade de proteína na alimentação, e 87% deles querem experimentar proteína feita à base da plantas. A gente está acompanhando isso, e mostrando como podemos atender a esta necessidade, e também trazendo produtos com o conceito de proteína híbrida, que mistura carne animal, vegetal e criada em laboratório. Sabemos que 74% dos consumidores estariam interessados em comer proteínas híbridas.

Uma dificuldade, no entanto, não são os preços mais altos dessas proteínas alternativas?

O foco será resolver o problema de acesso a esses alimentos, e com uma abordagem bem customizada. Existem muitas nuances regionais para a necessidade dos consumidores. Há aqueles que querem pagar o preço premium por um produto melhor, e existem os que não querem, principalmente, nos mercados emergentes, onde a população não tem uma renda muito alta. Precisamos trazer produtos dentro de um preço bem viável para o consumidor. Inclusive, temos as nossas fábricas de produção de ingredientes bem regionalizadas. No Brasil mesmo, há uma em Campo Grande, onde produzimos proteína. Temos também um centro de inovação em Hortolândia (SP), onde fazemos o desenvolvimento de produtos. Trabalhamos de forma muito regionalizada, para resolver os problemas locais.

Então, a carne de laboratório, produzida por células, vai ser uma realidade de mercado?

Essas tecnologias novas começam numa escala pequena, mas trazem um potencial alto de chegar numa economia de escala. Começa com uma taxa de inserção no produto final e vai aumentando. É uma coisa que a ADM faz, ajudando diversas empresas a desenvolver um novo mercado, firmando parcerias com empresas de tecnologia. Trazemos justamente o know how de tecnologia para dar escala de produção, porque a gente tem muita experiência em manufatura. Ajudamos as empresas a entenderem como fazer um produto sair da fase de testes em laboratório, para virar um produto-piloto, para então chegar à escala comercial e atingir a massa crítica de mercado. É uma evolução natural. Os consumidores vão começar a testar. Nem todo mundo vai querer testar de cara, e depois o consumo vai aumentando. Então, vamos alinhando a oferta e a demanda.

Ser uma tradicional trading de commodities ajuda?

O que ADM tem de positivo é que podemos ser parceiros de ponta a ponta do mercado. Não temos só a originação dos grãos, o que inclui trazer novas tecnologias na semente. Um dos nossos projetos é já aumentar a quantidade de proteína na semente da soja, trazendo o melhor sabor a partir daí. A gente consegue trabalhar a cadeia de valor inteira, da semente até a carne de laboratório.

Além da carne, há uma evolução prevista para outros alimentos?

Falamos muito de substituir a carne animal, mas este mercado está se diversificando em muitas outras categorias. Em lácteos, já existe muito leite à base vegetal: leite de soja, de côco, de amêndoas. Mas agora essa tendência está chegando mais a queijos, iogurtes e cream cheese. Então, os laticínios alternativos também crescem muito. Outro mercado que está se ampliando bastante é o que chamamos de nutrição especializada, para o qual vamos ter produtos à base vegetal para controlar peso e para nutrição esportiva. Existem muitas categorias de alimentos alternativos se expandindo, não só a carne. Estamos trabalhando em todas elas.

https://www.estadao.com.br/economia/negocios/entrevista-presidente-adm-proteinas-alternativas

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Cultura organizacional: fator crítico para o sucesso da transformação digital

Empresas enfrentam obstáculos na adaptação à Transformação Digital devido à resistência cultural. Estratégias de liderança e inclusão se destacam como chaves para o sucesso.

by Denize Dutra – MIT Technology Review – Fevereiro 9, 2024

Por observação da realidade e mais um conjunto de estudos sobre o tema, sabe-se que a Transformação Digital não se baseia apenas em investimento em tecnologia, mas fundamentalmente em mudanças na cultura organizacional. Exatamente esse aspecto que torna este processo tão complexo e desafiante, pois diz respeito a padrões de comportamento das pessoas nas organizações.  

É sabido que mudanças de comportamento não ocorrem sem mudança de percepção e de mentalidade. Entender e atuar nesse aspecto definirá o sucesso ou fracasso da Transformação Digital ou, pelo menos, a velocidade em que isso acontecerá. Mas não basta atingi-la, é preciso que ela se torne perene e isso não acontece sem uma cultura consistente. 

“Organizações que veem a cultura como um fator de diferenciação e fonte de vantagem competitiva mantêm um senso de comunidade melhor, respondem mais adequadamente às necessidades dos clientes, inovam com maior grau de sucesso e entregam resultados de negócios mais consistentes.”  — Bhushan SethiLíder Global Adjunto de Pessoas e Organização na PwC.

Pilares da transformação organizacional 

Transformações digitais podem ser caracterizadas por acionar ao menos uma das quatro alavancas-chave de valor a seguir:
a) modelos de negócio (novas formas de operar e novos modelos econômicos);
b) conectividade (engajamento em tempo real);
c) processos (foco na experiência do cliente, automação e agilidade) e
d) analytics (tomada de decisão e cultura de dados).  

No entanto, para capturar o valor criado por essas alavancas, é necessário associá-las a um conjunto de melhores práticas de gestão que abrangem quatro dimensões fundamentais: Estratégia, Capacidades, Organização e Cultura. 

Com o objetivo de entender o efeito do processo de digitalização no Brasil, a McKinsey realizou um estudo com 124 empresas de grande e médio portes em diversos setores para mensurar a maturidade digital delas.  

Para tanto, utilizou-se a ferramenta Analytics & Digital Quotient (A&DQ), que avalia 22 práticas de gestão críticas para o sucesso da transformação digital e captura de resultado financeiro, distribuídas entre as quatro dimensões acima mencionadas. A ferramenta atribui uma pontuação que permite conduzir um benchmarking entre empresas pares e líderes em âmbito global.  

Segundo resultados do estudo, grande parte das empresas tem consciência das mudanças que acarretam uma cultura digital. No entanto, a agenda de transformação digital muitas vezes se depara com hábitos antigos e iniciativas que visam buscar resultado financeiro imediato, causando conflitos e eventuais faltas de alinhamento entre as áreas funcionais, o que desestimula investimentos na mudança de mentalidades e comportamentos, porque demandam maior tempo para apresentar retornos financeiros.  

As empresas entrevistadas reconhecem a importância de ter uma cultura voltada à inovação e à tomada de riscos. Entretanto, na maioria das vezes, os riscos tolerados são somente aqueles de baixo investimento. A maior parte das empresas ainda não compreende a importância da cultura de teste e aprendizado, prática que viabiliza a implementação de ajustes de maneira rápida para a captura de valor e, a relação disso com a aversão a riscos. Como resultado, as empresas líderes no Brasil tiveram sua menor pontuação na prática de teste e aprendizado da dimensão de Cultura.  

Obstáculos culturais para a inovação no Brasil 

Essa mudança de mentalidade necessária às empresas brasileiras é um grande desafio por estar inserida na cultura brasileira na qual, segundo estudos realizados por Geert Hofstede — que define a cultura como “a programação coletiva da mente que distingue um grupo de outro” —, a hierarquia deve ser respeitada, a desigualdade entre as pessoas é aceitável e quem detém o poder pode ter mais benefícios do que os outros.  

Para o quesito individualismo, as pessoas dão um forte valor aos grupos e às relações pessoais, o que às vezes gera uma tendência ao nepotismo. A sociedade brasileira é, ao mesmo tempo, competitiva, mas também dá valor ao bem-estar. Assim como na maioria dos países latino-americanos, o Brasil tem uma grande aversão à incerteza e, por conta disso, as pessoas tendem a criar muitas regras e sistemas jurídicos com a finalidade de obter mais estrutura.  

A literatura sobre cultura é muito vasta e requer boa capacidade de abstração dada a complexidade do tema. Uma definição reconhecida pelos estudiosos é a de Edgar Schein, renomado professor do MIT, que define cultura como “o jeito que a organização faz as coisas acontecerem”, e que é composta por três níveis: artefatos (todos os elementos que representam a cultura da empresa); normas e valores (regras escritas ou não que definem o que é esperado das pessoas); e crenças e pressupostos básicos (regras veladas que existem sem o conhecimento consciente de seus membros). 

No contexto de uma Transformação Digital, a mudança cultural envolve alguns elementos críticos, tais como: agilidade, teste e aprendizado, experimentação, colaboração interna (equipes multifuncionais altamente comprometidas que colaboram com eficácia no desenho e na implementação de soluções de digital e analytics), tomada de decisão baseada em dados, orientação externa — isto é, entendimento aprofundado do mercado competitivo e flexibilidade na busca por soluções e parcerias externas quando se trata de promover a capacitação em digital e analytics na empresa e/ou para atividades não essenciais. É nesse ambiente que o cliente está na alma e na ação, que “customer centricity” deixa de ser apenas discurso e passa a ser o cerne de todo o processo de transformação.  

Sandro Magaldi e José Salibi Neto afirmam que “a principal função da cultura é garantir a coesão necessária perante todos os agentes organizacionais, assegurando seu alinhamento com um conjunto de crenças e normas definido por aquele sistema (…). Ela contribui decisivamente para a estabilidade da organização ao definir os parâmetros e os modelos requeridos naquele ambiente, permitindo que as pessoas se comuniquem, coordenem seus esforços e definam os membros que se adaptem a esse sistema ou não”. 

Se a empresa deseja usar a cultura como vantagem competitiva, precisa avaliar como ela ajuda ou prejudica sua capacidade de gerar resultados de negócio. Depois, identificar quais características e comportamentos precisam evoluir para melhor apoiar seus objetivos estratégicos.  

Em seguida, gerenciar a cultura de forma proativa, o que, provavelmente, envolverá a criação de novos recursos para garantir a utilização de todos os facilitadores de cultura relevantes — formais e informais — para a sua organização, tais como: -O exemplo vem de cima; – tecnologias e ferramentas; – incentivo, remuneração e benefícios; -desenvolvimento e treinamento; – comunicações formais; – redes profissionais; redes de engajamento; – feedback coletado e aplicado; – sinais visíveis vindos das lideranças. 

Alguns destes facilitadores são citados em outros estudos, tais como, os quatro elementos do chamado “Modelo de influência”, citados a seguir, como essenciais para consolidar as mudanças que precisam ser efetivadas: 1) role modeling (refere-se à forma como a liderança serve de exemplo a ser seguido); 2) criação uma história da transformação e comunicando-a com frequência; 3) desenvolvimento de talentos e habilidades; e 4) mecanismos de reforço (estruturas, sistemas, processos e incentivos à estratégia). 

Lacunas entre liderança e percepções organizacionais 

Para a Pesquisa Global de Cultura Organizacional 2021 foram entrevistados 3.200 profissionais e lideranças em todo o mundo. A maioria (67%) diz que a cultura é mais importante do que a estratégia ou as operações. Mas nem todos estão de acordo com a cultura vigente.  

Os dados mostram uma lacuna cada vez maior entre o que as lideranças dizem sobre cultura (especialmente diversidade, equidade e inclusão — DEI) e o que as pessoas da organização vivenciam. Conhecendo a importância da diversidade para o processo de inovação e mudanças culturais, a menos que se aborde a questão e que os valores DEI sejam genuinamente incorporados à cultura, uma organização terá que se esforçar para atrair e reter o talento de que precisa.  

Muitos profissionais sentem que seus locais de trabalho não são tão inclusivos quanto as lideranças pensam. No cerne dessa incompatibilidade, está a questão da autenticidade, de poder ser quem verdadeiramente é, o que exige alto grau de segurança psicológica.  

Isso se constrói com relações de confiança. Num ambiente cada vez mais digital como atualmente, é mais difícil construir confiança: falta o “olho no olho”, a leitura da linguagem do corpo (parcial nas telas), de viver o subjetivo e profundo das relações, de encarar os conflitos, dentre outros aspectos que impactam negativamente a construção de relações mais autênticas e consistentes.  

Além do mais, para se construir confiança, é preciso ser transparente e estimular a participação efetiva dos indivíduos, praticar uma abordagem que ajude a desenvolver habilidades e aplicá-las imediatamente.  

A primeira edição do Índice Transformação Digital Brasil (ITDBr), levantamento que apresenta uma metodologia exclusiva para consolidar os diversos aspectos da Transformação Digital em um indicador inédito e mensurável, ficou em 3,3 — pouco acima da metade da escala, que vai de 1 a 6. O resultado indica uma maturidade ainda baixa para a Transformação Digital. As indústrias mais avançadas são as de Serviços Financeiros (4,1). A dimensão pessoas e cultura com índice de 3,4, representa o principal obstáculo para o progresso na agenda de transformação digital.  

Entre os CEOs cujas empresas adotaram amplamente a IA generativa, por exemplo, 84% acreditam que a tecnologia aumentará a eficiência do tempo de trabalho dos seus funcionários em 2024. Os funcionários parecem menos convencidos — 43% dos trabalhadores no Brasil e 31% no mundo que responderam à Pesquisa Hopes and Fears 2023 da PwC esperam que a IA generativa aumente sua produtividade e eficiência no trabalho nos próximos cinco anos.  

Essas revelações reforçam a necessidade de os CEOs envolverem seus funcionários no processo de implementação da IA generativa. Transparência, senso de propósito e planos e decisões confiáveis relacionados à IA são fatores que podem ajudar os funcionários que desconfiam da tecnologia a se sentirem mais confortáveis em experimentá-la — e em inovar.  

Em última análise, os CEOs devem aceitar um novo desafio de sua função: compreender, explicar e gerenciar as tensões inevitáveis entre os cortes de empregos de curto prazo e o potencial de criação de empregos no longo prazo que a IA proporciona. CEOs e outros executivos podem fazer muito mais para enfrentar ineficiências e superar barreiras, mas eles não podem fazer tudo. É crucial alinhar as prioridades de mudança entre líderes e funcionários, além de fomentar uma cultura de confiança para que os funcionários se sintam seguros em propor maneiras mais eficientes de trabalho. 

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Sora: como o sistema de ‘vídeos generativos’ da OpenAI amplia a revolução tecnológica e as ameaças da IA

‘ChatGPT do vídeo’ produz em segundos filmes de até 1 minuto a partir de textos. Para especialistas, risco da ferramenta é espalhar mais desinformação na internet. Acesso ainda não está aberto

Por Juliana Causin e Glauce Cavalcanti — O Globo – Nova York – 16/02/2024

Frame de um dos vídeos gerados pelo Sora, o novo sistema de IA da OpenAI Frame de um dos vídeos gerados pelo Sora, o novo sistema de IA da OpenAI — Foto: Reprodução

A OpenAI, criadora do ChatGPT, lançou ontem um novo sistema de inteligência artificial (IA) capaz de criar vídeos com base em instruções de textos dos usuários. Não é a primeira empresa a se enveredar nesta seara.

Há dez meses, a Runway AI, uma startup de Nova York, apresentou tecnologia capaz de criar vídeos a partir de frases na tela do computador. As imagens eram exibidas na época com borrões ou entrecortadas em vídeos de poucos segundos.

A novidade apresentada pela OpenAI ontem é um sistema de vídeos que poderia ter saído de um filme de Hollywood (veja abaixo frames de vídeos e a descrição usada para criá-los).

Batizado como Sora, uma homenagem para a palavra japonesa céu, o sistema de IA pode criar rapidamente vídeos de até um minuto que representam “cenas complexas, com vários personagens, tipos específicos de movimento e detalhes preciosos do tema e do plano de fundo”, disse a empresa em um post no X (ex-Twitter) ontem.

Para especialistas, o risco é que ela se torne uma forma rápida e barata de criar desinformação na internet, tornando ainda mais difícil definir o que é real ou não.

Para mostrar o potencial da nova ferramenta, a OpenAI apresentou uma série de vídeos criados a partir de descrições apresentadas ao Sora. Em um dos exemplos, a descrição feita para o sistema de IA foi: a descrição foi a seguinte: vários mamutes gigantes se aproximando em uma planície nevada, com longos pelos balançando levemente ao vento enquanto caminham entre árvores e montanhas cobertas de neve em meio à luz do meio da tarde com nuvens finas e um sol alto que cria um brilho quente. A visão baixa da câmera é impressionante, capturando o grande mamífero peludo com uma bela fotografia.

Outro desafio ao “ChatGPT de vídeo” foi: Com jeitinho de cinema, a descrição foi: trailer de filme apresentando as aventuras de um astronauta de 30 anos usando um capacete de motocicleta tricotado em lã vermelha, sob um céu azul num deserto de sal, em estilo cinematográfico filmado em 35mm, com cores vívidas. O resultado pode ser visto abaixo:

Acesso limitado

Por enquanto, a ferramenta foi disponibilizada a “um número limitado de criadores”, escreveu Sam Altman, CEO da OpenAI. A empresa ainda está tentando entender os perigos do sistema e deu acesso a uma equipe de especialistas encarregada de avaliar a segurança do Sora antes de incorporá-lo aos seus produtos.

Segundo a OpenAI, o classificador de texto verificará e rejeitará solicitações que violem a política de uso, como as que solicitam violência extrema, conteúdo sexual, imagens de ódio, semelhança de celebridades ou IP de terceiros.

“Apesar de extensas pesquisas e testes, não podemos prever todos os usos benéficos que as pessoas farão da nossa tecnologia nem todas as formas como irão abusar dela. É por isso que acreditamos que aprender com o uso no mundo real é um componente crítico para criar e lançar sistemas de IA cada vez mais seguros ao longo do tempo”, afirma o termo de uso da ferramenta.

— Outra ferramentas já fazem isso há algum tempo, mas não com a mesma qualidade. Ficava nítido que aquilo era uma obra criada. O que a OpenAI apresentou, se realmente foi só produção da própria ferramenta, representa um salto grande — afirmou Carlos Rafael Gimenes das Neves, professor de sistemas de informação da ESPM.

Riscos Eleitorais

Um dos efeitos adversos do sistema, ao ser liberado pela OpenAI, pode ser o de fornecer “matéria-prima” para criação de deepfakes, imagens que simulam rostos e identidades de pessoas reais em situações que não existem.

— Ainda não sabemos qual foi a base de imagens que usaram. Mesmo que eu não consiga especificar um rosto na geração do vídeo, é possível gerar material com características específicas de alguém. Você vai ter o vídeo que quer e depois pode trocar o rosto da pessoa em outra ferramenta. Vai ficar mais fácil produzir esse tipo de conteúdo e em nível profissional — avaliou Neves.

Marco Sabino, advogado, professor e especialista em mídia e tecnologia, afirma que a regulação das empresas de tecnologia e inteligência artificial “é urgente” e citou preocupação com riscos eleitorais.

— O olho humano não vai conseguir diferenciar imagens geradas por ferramentas de IA das originais. E há a possibilidade de criação de conteúdos falsos. E deepfake está aí há muito tempo, impactou eleições anteriores.

Essa ponderação, continua o especialista, vem em razão da assimetria de informações detidas pelos proprietários das ferramentas de IA e as de usuários e reguladores.

Como parte dos preparativos para o lançamento do produto, a OpenAI disse que está criando ferramentas para ajudar a detectar quando um vídeo foi gerado pelo Sora. Mas empresas de IA já tiveram dificuldades para criar sistemas de detecção de IA infalíveis.

Vídeos ‘on demand’

Ontem, nas postagens que fez no X, além de exibir vários exemplos de vídeos gerados pelo Sora pelos escolhidos para testar a ferramenta, Sam Altman também atendeu a sugestões de comandos em texto de seus seguidores no X. E respondeu com a versão em vídeo das ideias.

Um dos seguidores, por exemplo, pediu “uma corrida de bicicleta no oceano com diferentes animais como atletas pedalando suas bicicletas com uma visão da câmera de um drone”. Altman devolveu com o vídeo abaixo.

O resultado do experimento pedido pelo internauta Kunal Shah foi um vídeo surrealista, com uma clara característica de desenho animado. Mas outros testes reproduzem pequenos filmes muito realistas. Um exemplo foi a ideia de Cate Bligh, seguidora de Altman.

Ela pediu um vídeo com “uma aula de culinária para nhoque feito em casa dada por uma avó influenciadora digital no cenário de uma rústica cozinha rural da Toscana com uma luz cinematográfica. Ao ver o resultado, abaixo, é difícil imaginar que a pessoa na tela não existe.

Uma cena animada de um monstrinho ao lado de uma vela, descrito assim, vira um desenho parecido com os de grandes estúdios de animação. Já a descrição de uma mulher caminhando nas ruas de Tóquio resulta em outro vídeo hiper-realista.

Solução para identificar

Como parte de seus preparativos para o lançamento do produto, a OpenAI disse que está criando ferramentas para ajudar a detectar quando um vídeo foi gerado pela Sora. Mas as empresas de IA já tiveram dificuldades para criar sistemas de detecção de IA infalíveis.

No ano passado, a OpenAI arquivou um classificador que tinha como objetivo detectar escrita gerada por IA, citando sua “baixa taxa de precisão”.

https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2024/02/16/sora-como-o-sistema-de-videos-generativos-da-openai-amplia-a-revolucao-tecnologica-e-as-ameacas-da-ia.ghtml

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O que fazer se fizerem uma deepfake com você?

É possível produzir material pornográfico falso em menos de cinco minutos e causar traumas irreversíveis

Ronaldo Lemos – Folha – 4.fev.2024 

Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

Na semana passada, o mundo acompanhou atordoado a viralização de imagens pornográficas falsas da cantora Taylor Swift. Essas deepfakes foram espalhadas no Twitter (X) e rapidamente alcançaram milhões de visualizações. As plataformas agiram rápido para remover boa parte das imagens e tornaram o nome da cantora impossível de ser buscado por algumas horas. Mesmo assim o estrago foi feito.

Se isso pode acontecer com Swift, o que dizer de cada um de nós? A cantora é a maior celebridade do momento. Faturou US$ 2 bilhões (R$ 1,27 bilhões) no ano passado. Tem advogados e gestores de imagem à sua disposição. Mesmo assim, não conseguiu conter a viralização dos deepfakes.

O que fazer se algo assim acontecer com você, no Brasil? Primeiro, vale lembrar que fazer deepfakes pornográficos hoje é simples. Há vários aplicativos que geram imagens de nudez com uma simples foto da pessoa. Outros permitem trocar o rosto em uma cena pornográfica, inserindo o da vítima.

Se algo assim acontecer, infelizmente caberá à vítima tomar as providências para conter os danos. A primeira é documentar o crime. Obter registros das imagens divulgadas, das plataformas onde estão, dos endereços e perfis que estão divulgando.

Feito isso, é fundamental notificar as plataformas imediatamente sobre o ocorrido. Graças ao Marco Civil da Internet existe um artigo na lei que obriga as plataformas a removerem imagens e vídeos com cenas de nudez e atos sexuais divulgadas sem autorização. Isso fez com que as plataformas criassem um canal de denúncias permanente para esse tipo de conteúdo. A vítima pode se valer desse canal para pedir a remoção imediata da deepfake. O link pode ser encontrado na Central de Ajuda do Facebook e na página “remover informações” no caso do Google.

Desvendando IA

Outra medida importante é fazer uma notícia-crime (boletim de ocorrência). Caso exista uma delegacia de crimes cibernéticos próxima à vítima, vale fazer lá (atualmente há delegacias desse tipo na maioria dos estados). Se não houver, procure uma delegacia normal (ou faça o boletim online, para fins de preservação de direitos).

A vítima pode então tomar medidas judiciais contra quem disseminou as imagens e contra as plataformas, se não tiverem removido as imagens prontamente após a notificação. Também com base no Marco Civil, é possível obter os registros de conexão dos divulgadores, o que ajuda a identificar quem está por trás do crime, mesmo se a conta for anônima ou falsa.

Se a vítima for adulta, a pena para quem divulga foto ou vídeo de pornografia sem o consentimento é de 1 a 5 anos de prisão. Se a vítima for criança ou adolescente, pelo ECA, quem divulga está sujeito a pena de reclusão de 3 a 6 anos. Se as deepfakes ficarem caracterizados também como “cyberbullying”, há penas adicionais de 2 a 4 anos de prisão.

Vale notar que a lei não diferencia se a cena é real ou não. Muitos advogados (incluindo este colunista) defendem que o texto atual já se aplica às deepfakes.

Infelizmente, a maior parte das deepfakes pornográficas hoje são feitas na escola envolvendo menores. São colegas querendo zoar alguém, em geral mulheres. Por essa razão, é fundamental que os pais e responsáveis conversem e eduquem seus filhos sobre o tema. Fazer um deep fake pornográfico pode levar menos de 5 minutos. Uma gota comparada ao oceano de danos e penas que pode causar.



Já era – geração 9-9-6 na China (trabalhar das 9 da manhã ás 9 da noite 6 dias por semana)

Já é – geração 躺平 (tang ping –ficar deitado) na China, que se recusa a trabalhar

Já vem – geração 佛系 (fo xi) na China, que aspira a uma vida simples como Buda

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2024/02/o-que-fazer-se-fizerem-uma-deepfake-com-voce.shtml

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iPhone ‘made in Índia’: como o país está silenciosamente substituindo a China na fabricação de smartphones da Apple

Estado indiano que investe em política industrial desde a década passada começa a atrair a produção de aparelhos que antes eram quase todos fabricados em solo chinês

Por O Globo/The New York Times — Sriperumbudur, Índia – 12/02/2024 

A Índia está silenciosamente tirando da China cada vez mais produção de iPhones e outros equipamentos eletrônicos da Apple. É um processo que acontece nas zonas industriais do sul da Índica, em terrenos lamacentos que no passado foram lavouras.

Em Sriperumbudur, as pessoas chamam a Apple de “o cliente”, sem ousar dizer o nome da gigante americana que valoriza os seus segredos. Mas algumas coisas são grandes demais para serem escondidas.

Dois gigantescos complexos de dormitórios estão em construção. Depois de concluído, cada um será um bloco compacto de 13 edifícios com 24 quartos por andar em torno de um corredor em forma de L. Cada um desses quartos pintados de rosa terá camas para seis trabalhadores, todos mulheres. Os dois blocos abrigarão 18.720 trabalhadores cada.

É uma cena típica de Shenzhen ou Zhengzhou, cidades chinesas famosas por suas proezas na produção de iPhones. E não é de admirar. Sriperumbudur para fabricar milhões de aparelhos. , no estado de Tamil Nadu, é o lar da fortaleza indiana em expansão da Foxconn, a empresa com sede em Taiwan que há muito desempenha o papel de maior fabricante de iPhones.

Em 2019, cerca de 99% dos iPhones eram fabricados na China. Estima-se que, no ano passado, 13% dos iPhones do mundo foram montados na Índia no ano passado, e cerca de três quartos deles foram fabricados em Tamil Nadu. Até o próximo ano, o volume produzido na Índia deverá dobrar.

A Índia, como parte de um esforço de produção nacional, está demolindo o domínio chinês sobre a produção dos smartphones mais cobiçados do mundo em um momento em que várias multinacionais buscam diversificar sua produção para outros países que não a China.

Mas, apesar de quase dez anos da iniciativa “Make in India” (“Faça na Índia”) promovida pelo primeiro-ministro do país, Narendra Modi, a indústria como parte da economia estagnou em cerca de 16% do PIB indiano, um pouco inferior à taxa de quando Modi assumiu o cargo em 2014, e muito inferior à da China, ou à do Japão, de Taiwan e da Coreia do Sul quando os tigres asiáticos descolaram.

A Índia precisa desesperadamente de empregos mais qualificados e o trabalho nas fábricas é a única coisa que os cria. No ano passado, a Índia ultrapassou a China para se tornar o país mais populoso do mundo, e a sua população em idade ativa cresce aceleradamente. Mas transformar esse aumento demográfico numa vantagem real significa tornar os trabalhadores da Índia mais produtivos. Metade deles ainda depende da pequena agricultura.

Tamil Nadu, que concentra 5% da população indiana, pode apontar o caminho. O estado de 72 milhões de pessoas começou a se beneficiar de uma política do governo nacional de subsidiar a fabricação de eletrônicos em todo o país em 2021, desencadeando uma espécie de corrida do ouro.

O secretário de Indústria de Tamil Nadu, TRB Rajaa, diz, sem esconder a ambição, que o diferencial de seu estado é a grande oferta de escolas, transportes, diplomados em engenharia:

— Nunca comparamos nosso crescimento com o de outros estados indianos. Nós nos preparamos para o crescimento dos países escandinavos e como podemos vencê-lo.

Rajaa e outros apoiadores de Tamil Nadu estão orgulhosos do capital humano que o seu estado construiu, especialmente quando se fala das mulheres. No estado, 43% têm emprego formal. Uma realidade muito diferente das outras regiões indianas, onde a presença feminina no mercado de trabalho ainda é muito baixa.

Tamil Nadu já tem um grande cinturão de fabricantes de automóveis e de peças de automóveis que se estende ao longo da costa a partir de sua capital, Chennai. No vale de Coimbatore, estão fundições e fábricas de bombas. Há ainda um polo de malhas em Tiruppur, além do maior fabricante de palitos de fósforo do país, que fica em Sivakasi.

É surpreendente que a Índia esteja se aprofundando em produtos tão sofisticados como o iPhone. O país nunca conseguiu se tornar competitivo em itens como camisetas ou tênis, sendo ultrapassado nesse tipo de exportação industrial por vizinhos menores como Bangladesh e Vietnã.

E essa não é a primeira vez que a Índia se lança na produção de eletrônicos de alto valor agregado. Nem foi a primeira de Tamil Nadu. Em 2006, a finlandesa Nokia, que na época era uma gigante dos celulares, construiu uma grande fábrica no centro da zona industrial planejada pelo governo de Sriperumbudur para fabricar milhões de aparelhos para os mercados interno e externo.

A crise financeira global de 2008 aniquilou esses planos, mas as raízes nunca morreram. Sriperumbudur já tinha uma experiência industrial na área automotiva, desde que estabeleceu-se ali em 1996, a montadora coreana Hyundai. A indústria de vidros e componentes elétricos básicos também floresceu.

A antiga fábrica da Nokia foi restabelecida pela Salcomp, uma empresa local que fabrica carregadores de última geração, agora para empresas como a Apple. Na semana passada, Young Liu, CEO da Foxconn, esteve em Nova Deli para receber o Padma Bhushan, a terceira maior honraria civil do país.

—Vamos fazer a nossa parte pela indústria na Índia e pela melhoria da sociedade — disse, na ocasião.

Na Índia e no exterior, não falta entusiasmo em relação à perspectiva de a Índia superar a China, pelo menos em alguma parte das cadeias de abastecimento globais. No ano passado, Tim Cook, CEO da Apple, esteve na Índia com as palmas das mãos unidas dizendo “namastê” na inauguração das primeiras lojas da big tech no país.

Há 130 grandes empresas globais fazendo negócios em Tamil Nadu. Rajaa, o secretário de Indústria do estado, diz que o estado não quer só fabricar smartphones. Também tenta atrair fabricantes de produtos mais baratos, com maior volume de produção. Pode ser um exemplo para o resto do país encontrar empregos mais qualificados para sua população jovem e crescente.

Rajaa passou a primeira semana de janeiro entregando a investidores estrangeiros planos do estado como o de criar um polo industrial focado em calçados que não usam couro. Nike, Adidas e Crocs estão começando a sair das linhas de produção do estado.

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Economist: Drones assassinos estreando na Ucrânia são as armas do futuro

Eles estão remodelando o equilíbrio entre humanos e tecnologia na guerra

Por Estadão/The Economist 12/02/2024 

Armamentos guiados de precisão apareceram pela primeira vez em sua forma moderna nos campos de batalha da Guerra do Vietnã, pouco mais de 50 anos atrás. Conforme as forças armadas esforçaram-se desde então na busca por precisão e destrutividade, o custo dessas armas foi às alturas. Cada projétil de artilharia guiado por GPS fabricado nos Estados Unidos custa US$ 100 mil. Por serem caras, as armas inteligentes são escassas. Por esse motivo, os países europeus esgotaram as que possuíam na Líbia, em 2011. O Estado de Israel, mais ávido em conservar seus estoques do que em evitar danos colaterais, despejou bombas burras sobre Gaza. O que aconteceria, contudo, se combinássemos precisão e abundância?

Essa questão está sendo respondida pela primeira vez na história pela arte da guerra nos campos de batalha ucranianos. Nossa reportagem desta semana mostra como drones com ponto vista em primeira pessoa (FPV) são cada vez mais comuns ao longo das linhas de frente. Tratam-se de aeronaves pequenas, baratas e capazes de carregar explosivos, adaptadas a partir de modelos comerciais, que estão tornando cada vez mais perigosas as vidas dos soldados. Esses drones invadem torres de combate de veículos blindados e esconderijos. Espreitam e rastreiam suas presas antes de partir para o ataque. E estão infligindo baixas enormes em batalhões de infantarias e danos intensos em blindados.

A guerra também está tornando os drones FPV e seus primos navais onipresentes. Em janeiro houve 3 mil ataques verificados de drones FPV. Nesta semana, o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, criou a Força de Sistemas Não Tripulados, dedicada à guerra de drones. Em 2024, a Ucrânia está a caminho de fabricar entre 1 milhão e 2 milhões de drones. De maneira impressionante, isso compensará o consumo reduzido de projéteis (que caiu porque os republicanos no Congresso têm negado vergonhosamente à Ucrânia os fornecimentos de que o país precisa).

O drone não é uma Wunderwaffe — isso não existe. O drone é importante porque concretiza grandes tendências na guerra: uma mudança para armamentos pequenos, baratos e descartáveis; um aumento no uso de tecnologias de consumo; e um impulso no sentido da autonomia em batalha. Por causa dessas tendências, a tecnologia de drones se disseminará rapidamente entre Exércitos e milícias, terroristas e criminosos. E melhorará não ao ritmo cíclico dos orçamentos de complexos militares-industriais, mas com a urgência descartável dos eletrônicos de consumo.

Drones FPV básicos são revolucionários e simples. Descendentes dos quadricópteros de corrida, eles são construídos com componentes genéricos e podem custar algumas centenas de dólares. Os drones FPV tendem a ter curto alcance, carregar cargas pequenas e enfrentar dificuldades durante fenômenos climáticos adversos. Por essas razões, (ainda) não substituirão a artilharia. Mas eles ainda são capazes de causar muito dano. Ao longo de uma semana, no outono passado (Hemisfério Norte), drones ucranianos ajudaram a destruir 75 tanques russos, 101 canhões de artilharia e muito mais. A Rússia tem seus próprios drones FPV, mas tendem a mirar esconderijos, trincheiras e soldados. Os drones ajudam a explicar por que ambos os lados encontram tantas dificuldades para montar ofensivas.

O crescimento exponencial no número de drones russos e ucranianos aponta para uma segunda tendência. Eles são inspirados por e adaptados a partir de tecnologias comerciais amplamente disponíveis. Não apenas na Ucrânia, mas também em Mianmar, onde rebeldes derrotaram forças do governo nos dias recentes, voluntários podem usar impressoras 3D para fabricar componentes cruciais e montar aeronaves em pequenas oficinas. Infelizmente, grupos criminosos e terroristas dificilmente estão muito atrás das milícias.

Isso reflete uma ampla democratização dos armamentos de precisão. No Iêmen, o grupo rebelde Houthi tem usado kits de orientação baratos fabricados pelos iranianos para construir mísseis antinavio que representam ameaças mortíferas para embarcações comerciais no Mar Vermelho. O próprio Irã têm demonstrado como um sortimento de drones de ataque de longo alcance e mísseis balísticos pode surtir um efeito geopolítico que compensa de longe seu custo. Mesmo que o kit necessário para superar embaralhamentos de sinal de drone aumente enormemente o custo dos armamentos, conforme preveem alguns, eles ainda serão transformacionalmente baratos.

A razão recai sobre os eletrônicos de consumo, que impulsionam a inovação a um ritmo intenso conforme capacidades se acumulam em cada ciclo do produto — o que apresenta problemas éticos, assim como de obsolescência. Não haverá tempo para sujeitar os novos armamentos aos testes que os países ocidentais se dedicam em tempos de paz e que são exigidos pelas Convenções de Genebra.

A inovação também engendra a última tendência: autonomia. Hoje, o uso dos drones FPV é limitado pela oferta de pilotos habilidosos e pelos efeitos dos embaralhamentos de sinal, que são capazes de cortar o contato entre o drone e seu operador. Para superar esses problemas, Rússia e Ucrânia realizam experimentos com navegação autônoma e reconhecimento de alvos. A inteligência artificial está disponível em drones comerciais há anos e melhora rapidamente.

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Um grau de autonomia existe há anos em munições de última geração e há décadas em mísseis de cruzeiro. A novidade é que microchips e softwares baratos permitirão a entrada da inteligência em milhões de munições convencionais que estão saturando os campos de batalha. O lado que dominar essa autonomia em escala antes na Ucrânia poderá desfrutar de uma vantagem temporária mas decisiva em poder de fogo — condição necessária para qualquer avanço.

Países ocidentais têm sido lentos em absorver essas lições. Armamentos simples e baratos não substituirão plataformas grandes e sofisticadas, mas as complementarão. O Pentágono está embarcando tardiamente no projeto Replicator, uma iniciativa para construir milhares de drones e munições de baixo custo capazes de dar conta das enormes forças da China. A Europa está ainda mais atrasada. Seus ministros e generais acreditam cada vez mais que poderão enfrentar outra grande guerra na Europa até o fim desta década. Diante dessa possibilidade, os investimentos em drones comuns precisam crescer urgentemente. Além disso, drones onipresentes requererão defesas onipresentes — não apenas em campos de batalha, mas também nas cidades em paz.

Kalashnikovs nos céus

Drones inteligentes também colocarão em dúvida maneiras que Exércitos travam guerras e se humanos são capazes de controlar campos de batalha. Conforme os drones se multiplicam, enxames coordenados autonomamente se tornarão uma possibilidade. Humanos terão dificuldade para monitorar e entender seus métodos de combate, assim como para autorizá-los.

Os EUA e seus aliados devem se preparar para um mundo no qual capacidades militares que melhoram rapidamente se espalham com mais velocidade e mais amplamente. Conforme se encherem de armas descartáveis que aliam precisão e poder de fogo, os céus da Ucrânia servirão de alerta. Aeronaves assassinas produzidas em escala já estão remodelando o equilíbrio entre humanos e tecnologias na guerra. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

https://www.estadao.com.br/internacional/economist-drones-assassinos-estreando-na-ucrania-sao-as-armas-do-futuro

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Como a China construiu a BYD, empresa que desbancou a Tesla

Montadora passou de fabricante de baterias a maior vendedora de carros elétricos no mundo no fim de 2023, ultrapassando a empresa de Elon Musk

Por O Globo/The New York Times — Shenzhen, China 13/02/2024 

A chinesa BYD era uma fabricante de baterias que estava tentando montar carros quando apresentou seu mais novo modelo em 2007. Os executivos americanos presentes no salão do automóvel de Guangzhou, na China, ficaram boquiabertos com a pintura roxa irregular do carro e com o encaixe inadequado das portas.

– Eles eram motivo de chacota – disse Michael Dunne, analista do setor automotivo da China.

Agora, ninguém está rindo da BYD.

A empresa ultrapassou a Tesla em vendas mundiais de carros totalmente elétricos no fim do ano passado. Está construindo linhas de montagem no Brasil, Hungria, Tailândia e Uzbequistão e se preparando para fazer o mesmo na Indonésia e no México. E mais: está expandindo rapidamente as exportações para a Europa. Também acaba de ultrapassar o Grupo Volkswagen, que inclui a Audi, como líder de mercado na China.

As vendas da BYD, mais de 80% delas na China, cresceram em cerca de 1 milhão de carros em cada um dos últimos dois anos. A última montadora a conseguir isso em um único ano no mercado americano foi a General Motors – e isso foi em 1946, depois que a GM suspendeu as vendas de carros de passeio durante os quatro anos anteriores por causa da Segunda Guerra Mundial.

– O crescimento da BYD é diferente de tudo o que o setor já viu em muitas décadas – ressaltou Matt Anderson, curador de transportes do Museu Henry Ford, em Dearborn, no estado americano de Michigan.

Com sede em Shenzhen, o centro do setor de eletrônicos da China, a BYD (Build Your Dreams) mostrou como as montadoras chinesas podem aproveitar o domínio do país em produtos elétricos. Nenhuma empresa se beneficiou tanto da adoção de carros elétricos a bateria e carros elétricos a gasolina plug-in pela segunda maior economia do mundo. Juntos, esses veículos representam 40% do mercado de automóveis da China, o maior do mundo, e espera-se que mais da metade no próximo ano.

Carros elétricos e seus nomes com siglas estranhas

Como a maioria das montadoras chinesas, a BYD não vende seus carros nos Estados Unidos porque as tarifas da era Donald Trump continuam em vigor, mas vende ônibus no mercado americano.

A BYD está liderando o impulso de exportação de carros elétricos da China e está construindo rapidamente os maiores navios de transporte de carros do mundo para transportá-los. O primeiro dos navios, o BYD Explorer No. 1, está em sua viagem inaugural de Shenzhen com 5.000 carros elétricos a bordo e deve chegar à Holanda no dia 21 deste mês.

Questionamentos sobre subsídios

Com o sucesso da China e da BYD, veio um maior escrutínio. Elon Musk, CEO da Tesla, fez um alerta sobre a força das exportações chinesas de carros elétricos em uma teleconferência sobre os lucros da empresa em janeiro.

– Sinceramente, acho que se não forem estabelecidas barreiras comerciais, eles praticamente destruirão a maioria das outras empresas do mundo – afirmou Musk.

Os rápidos ganhos da BYD e de outras montadoras chinesas na Europa provocaram uma investigação da União Europeia sobre os subsídios do governo chinês e podem resultar em tarifas. Os relatórios anuais da BYD mostram um total de US$ 2,6 bilhões em assistência governamental de 2008 a 2022. E isso não inclui outras ajudas, como garantir que as empresas de táxi na cidade natal da BYD comprem apenas carros elétricos da montadora.

A BYD se recusou a comentar sobre os subsídios. Em um comunicado, a empresa disse que o BYD Explorer No. 1, seu novo navio, “significa um marco significativo para a BYD à medida que se expande para os mercados internacionais e contribui para o desenvolvimento da indústria global de veículos de nova energia”.

A China construiu fábricas suficientes para produzir mais do que o dobro de carros que seu mercado pode comprar. Isso levou a uma guerra de preços no país, especialmente entre a BYD e a Tesla, com descontos que causaram grandes perdas. Um dos mais novos modelos da BYD, o subcompacto Seagull, custa a partir de menos de US$ 11.000 (o equivalente a R$ 54,6 mil).

A crise imobiliária e a queda do mercado de ações estão deixando os consumidores chineses mais cautelosos em relação à compra de um carro. Mas os baixos custos de fabricação da BYD a deixaram em uma posição melhor do que a da maioria dos concorrentes para sobreviver a qualquer desaceleração prolongada nas vendas e ao abalo no setor.

O presidente da BYD, Wang Chuanfu, fundou a empresa em 1995 para fabricar baterias para a Motorola e outras empresas de eletrônicos de consumo. Ele havia estudado na Central South University, em Changsha, uma instituição de elite famosa pela pesquisa química de baterias. Mas sonhava em fabricar carros.

Em 2003, a BYD comprou uma fábrica em Xi’an que estava construindo carros movidos a gasolina. Mas a empresa teve problemas no início, ganhando reputação inicial de fabricar carros velhos. Em uma visita à fábrica em 2006, uma grande área de reparos no fim da linha de montagem estava entupida com carros recém-construídos que já precisavam de mais reparos.

Warren Buffett entra em cena

As vendas da BYD cresceram com o aumento do mercado chinês. Warren Buffett comprou uma participação de quase 10% por US$ 230 milhões em 2008, dando à companhia não apenas uma injeção de dinheiro, mas também um prestígio global. No mesmo ano, Wang prometeu começar a exportar carros elétricos a bateria para os Estados Unidos dentro de dois anos.

Mas, na época, os carros elétricos custavam muito para serem construídos e tinham alcance limitado, e Wang teve que cancelar seus planos de entrar no mercado americano. Em uma entrevista em 2011, ele questionou sua ênfase em carros elétricos a bateria. Os fabricantes de automóveis deveriam se concentrar em híbridos gasolina-elétricos, declarou ele. E acrescentou: “Ainda há um enorme potencial no mercado chinês para carros elétricos”.

Em 2012, a produção de carros na China já havia acompanhado a demanda. Os compradores ficaram mais seletivos. As vendas de carros e o preço das ações da BYD despencaram à medida que as multinacionais ofereciam modelos mais elegantes. Os executivos e analistas do setor questionaram se a BYD teria futuro.

Mas Wang continuou a fazer duas apostas arriscadas que valeram a pena. Em 2016, contratou Wolfgang Egger, um proeminente designer da Audi, que, por sua vez, contratou centenas de outros engenheiros de automóveis com ideias ousadas. Eles redesenharam completamente os modelos da BYD.

Wang também descobriu como substituir os produtos químicos padrão do setor nas baterias recarregáveis de lítio – níquel, cobalto e manganês – por ferro e fosfato mais baratos. Mas as primeiras baterias feitas com os compostos químicos baratos ficavam sem energia rapidamente e precisavam ser recarregadas mesmo após viagens curtas.

Em 2020, a BYD lançou suas baterias Blade, que eliminaram a maior parte da chamada lacuna de alcance com baterias de níquel-cobalto por uma fração do custo.

A Tesla, por sua vez, começou a fabricar e vender um grande número de carros na China no mesmo ano, e o entusiasmo pelos carros elétricos tomou conta do país. A BYD estava pronta com produtos químicos de bateria baratos e os novos designs de Egger.

A Tesla também começou a usar baterias de fosfato de ferro e lítio em modelos mais baratos. A BYD ainda vende principalmente carros mais baratos com menor alcance, enquanto a Tesla vende principalmente carros mais caros com maior alcance.

O banco suíço UBS descobriu no ano passado que um sedã elétrico hatchback BYD Seal custava 35% menos para ser fabricado do que um Volkswagen ID.3 um pouco menor, de qualidade semelhante, fabricado na Europa. A economia veio parcialmente das baterias de fosfato de ferro e lítio mais baratas.

A BYD fabrica três quartos das peças do Seal. Assim como a Tesla, a BYD usa apenas alguns sistemas eletrônicos em cada carro. Por outro lado, a VW terceiriza até dois terços de seus componentes. A BYD também se beneficiou de custos trabalhistas mais baixos na China, embora esses custos tenham aumentado à medida que as fábricas competem para contratar trabalhadores qualificados.

Agora, a montadora chinesa tem sua própria cidade murada em Shenzhen, localizada no sudeste próxima a Hong Kong. Um monotrilho em estilo de aeroporto transporta os trabalhadores dos apartamentos de 18 andares da empresa para as torres de escritórios e laboratórios de pesquisa da BYD.

A sede da BYD, que recentemente anunciou que investiria US$ 14 bilhões em tecnologia de direção autônoma, em Shenzhen, China, — Foto: Gilles Sabrié/The New York Times A sede da BYD, que recentemente anunciou que investiria US$ 14 bilhões em tecnologia de direção autônoma, em Shenzhen, China, — Foto: Gilles Sabrié/The New York Times

Liu Qiangqiang, engenheiro do centro de Shenzhen, disse que o número de funcionários de sua equipe de desenvolvimento de carros quase triplicou desde que entrou na empresa, vindo da GM, há 15 meses.

– O ritmo é rápido afirmou.

Concorrência da Huawei e Xiaomi

Depois de descartar a direção autônoma há um ano, a BYD entrou em ação quando as empresas de eletrônicos de consumo Huawei e Xiaomi lançaram carros com considerável capacidade de direção autônoma. Wang anunciou em janeiro que a BYD tinha 4.000 engenheiros trabalhando na direção assistida, uma forma limitada de tecnologia autônoma que funciona principalmente em rodovias e estradas grandes, e que investiria US$ 14 bilhões na tecnologia.

A BYD tem uma vantagem persistente sobre a Tesla: a decisão de Wang, em 2011, de desenvolver carros híbridos plug-in, que respondem por quase metade das vendas da BYD.

Li Jingyu, vendedor em uma concessionária da BYD em Shenzhen, disse que muitas famílias compravam um híbrido como primeiro carro para que pudessem dirigir no Ano Novo Lunar de volta a seus vilarejos ancestrais. A maioria dos vilarejos na China agora tem carregadores, disse Li, mas não o suficiente para a multidão de motoristas visitantes no Ano Novo Lunar, que começou na noite da última sexta-feira.

– As pessoas estão preocupadas com o tempo de espera – concluiu.

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Perplexity: Conheça a startup que usa IA nas buscas e quer tirar o trono do Google

Empresa mostra que é possível fazer com um mecanismo de busca criado do zero com inteligência artificial

Por Kevin Roose – Estadão/NYT – 12/02/2024 

THE NEW YORK TIMES – Durante toda a minha vida adulta, sempre que tinha uma pergunta sobre o mundo ou precisava localizar algo online, recorria ao Google para obter respostas.

Recentemente, porém, tenho me afastado do Google com um novo mecanismo de pesquisa baseado em inteligência artificial (IA) (não, não é o Bing, que está morto para mim depois de ter tentado acabar com meu casamento no ano passado).

Chama-se Perplexity. O mecanismo de busca de um ano de idade, cujos fundadores trabalharam anteriormente em pesquisa de IA na OpenAI e na Meta, tornou-se rapidamente um dos produtos mais comentados no mundo da tecnologia.

Especialistas em tecnologia elogiam o Perplexity nas mídias sociais, e investidores como Jeff Bezos (que também foi um dos primeiros investidores do Google) têm investido muito dinheiro na startup. A empresa anunciou recentemente que havia levantado US$ 74 milhões em uma rodada de financiamento liderada pela Institutional Venture Partners, que avaliou a Perplexity em US$ 520 milhões.

Muitas startups tentaram e não conseguiram desafiar o Google ao longo dos anos (um concorrente em potencial, a Neeva, fechou as portas no ano passado depois de não conseguir ganhar força). Mas o Google parece menos invencível atualmente. Muitos usuários reclamaram que os resultados de pesquisa do Google ficaram entupidos de sites com spam e de baixa qualidade, e algumas pessoas começaram a procurar respostas em lugares como Reddit e TikTok.

Intrigado com a propaganda, recentemente passei várias semanas usando o Perplexity como meu mecanismo de pesquisa padrão, tanto no computador quanto no celular. Testei tanto a versão gratuita quanto o produto pago, o Perplexity Pro, que custa US$ 20 por mês e dá aos usuários acesso a modelos de IA mais avançados e a determinados recursos, como a capacidade de carregar seus próprios arquivos.

Centenas de pesquisas depois, posso dizer que, embora o Perplexity não seja perfeito, ele é muito bom. E, embora não esteja pronto para romper totalmente com o Google, agora estou mais convencido de que os mecanismos de pesquisa com IA, como o Perplexity, podem afrouxar o controle do Google sobre o mercado de pesquisa ou, pelo menos, forçá-lo a se recuperar.

Também tenho medo de que os mecanismos de pesquisa com IA possam destruir meu emprego e que todo o setor de mídia digital possa entrar em colapso em decorrência de produtos como eles. Mas estou me adiantando.

Onde o Perplexity se destaca

À primeira vista, a interface de desktop do Perplexity se parece muito com a do Google: uma caixa de texto centralizada em uma página de destino esparsa.

Mas assim que você começa a digitar, as diferenças se tornam óbvias. Quando você faz uma pergunta, o Perplexity não lhe apresenta uma lista de links. Em vez disso, ele vasculha a Web para você e usa a IA para escrever um resumo do que encontrou. Essas respostas são anotadas com links para as fontes que a IA usou, que também aparecem em um painel acima da resposta.

Testei o Perplexity em centenas de consultas, incluindo perguntas sobre eventos atuais (“Como Nikki Haley se saiu nas primárias de New Hampshire?”), recomendações de compras (“Qual é a melhor ração para um cão idoso com dor nas articulações?”) e tarefas domésticas (“Por quanto tempo um ensopado de carne fica bom na geladeira?”).

A cada vez, eu recebia uma resposta gerada por IA, geralmente com um ou dois parágrafos, com citações de sites como NPR, The New York Times e Reddit, além de uma lista de sugestões de perguntas complementares que eu poderia fazer, como “É possível congelar um ensopado de carne para que ele dure mais?”.

Um recurso impressionante do Perplexity é o “Copilot”, que ajuda o usuário a restringir uma consulta fazendo perguntas de esclarecimento. Quando pedi ideias sobre onde organizar uma festa de aniversário para uma criança de dois anos, por exemplo, o Copilot perguntou se eu queria sugestões para espaços ao ar livre, espaços internos ou ambos. Quando selecionei “interno”, ele me pediu para escolher um orçamento aproximado para a festa. Só então ele me apresentou uma lista de possíveis locais.

O Perplexity também permite que os usuários pesquisem em um conjunto específico de fontes, como artigos acadêmicos, vídeos do YouTube ou publicações no Reddit. Isso foi muito útil quando eu estava procurando como alterar uma configuração no aquecedor de água da minha casa (coisa empolgante, eu sei).

Uma pesquisa no Google resultou em vários links pouco úteis para tutoriais DIY (”faça você mesmo”, em tradução do inglês), alguns dos quais eram anúncios mal disfarçados de empresas de encanamento. Tentei fazer a mesma consulta no Perplexity e restringi minha pesquisa a vídeos do YouTube. O Perplexity encontrou o vídeo de que eu precisava para o meu modelo exato de aquecedor de água, extraiu as informações relevantes do vídeo e as transformou em instruções passo a passo.

Perplexity também é muito bom em admitir quando não sabe algo

Nos bastidores, o Perplexity é executado no modelo GPT-3.5, da OpenAI, juntamente com seu próprio modelo de IA — uma variante do modelo de código aberto Llama 2, da Meta. Os usuários que fazem upgrade para a versão Pro podem escolher entre vários modelos diferentes, incluindo o GPT-4 e o Claude, da Anthropic (usei o GPT-4 na maioria de minhas pesquisas, mas não vi muita diferença na qualidade das respostas quando escolhi outros modelos).

O Perplexity também é muito bom em admitir quando não sabe algo. Às vezes, ele dava uma resposta parcial à minha pergunta, com uma advertência do tipo: “Não há mais detalhes nos resultados da pesquisa”. A maioria dos produtos de bate-papo com IA que já usei não tem esse tipo de humildade, e suas respostas soam confiantes mesmo quando estão dizendo bobagens.

Onde o Google ainda reina

Durante meus testes, achei o Perplexity mais útil para pesquisas complicadas ou abertas, como resumir artigos de notícias recentes sobre uma empresa específica ou me dar sugestões de restaurantes para encontros à noite. Também achei útil quando o que eu estava procurando (instruções para renovar o passaporte, por exemplo) estava enterrado em um site lotado e difícil de navegar.

Mas voltei a usar o Google em alguns tipos de pesquisa – geralmente, quando estava procurando pessoas específicas ou tentando acessar sites que eu já sabia que existiam. Por exemplo: Quando digitei “Wayback Machine” na barra de pesquisa do meu navegador, fui redirecionado para o Perplexity, que exibiu um ensaio de um parágrafo sobre a história do Internet Archive, a organização que mantém a Wayback Machine. Tive que procurar um pequeno link de citação para chegar ao site da Wayback Machine, que era o que eu queria em primeiro lugar.

Se o Google quis fazer isso melhor do que nós, basicamente terão que matar próprio modelo de negócios deles

Aravind Srinivas, CEO da Perplexity

Algo semelhante aconteceu quando solicitei ao Perplexity instruções de direção para uma reunião de trabalho. O Google teria me dado instruções passo a passo a partir da minha casa, graças à sua integração com o Google Maps. Mas o Perplexity não sabe onde moro, então o melhor que pôde me oferecer foi um link para o MapQuest.

Os dados de localização são apenas uma das muitas vantagens que o Google tem sobre o Perplexity. O tamanho é outra vantagem – a Perplexity, que tem apenas 41 funcionários e está sediada em um espaço de trabalho compartilhado em São Francisco, EUA, tem 10 milhões de usuários ativos mensais, um número impressionante para uma startup, mas um grãozinho comparado aos bilhões do Google.

A Perplexity também não tem um modelo de negócios lucrativo. No momento, o site não tem anúncios e menos de 100 mil pessoas pagam pela versão premium, disse Aravind Srinivas, CEO da empresa (Srinivas não descartou a possibilidade de mudar para um modelo baseado em anúncios no futuro). E, é claro, o Perplexity não oferece versões do Gmail, Google Chrome, Google Docs ou qualquer uma das dezenas de outros produtos que tornam o ecossistema do Google tão inescapável.

Srinivas me disse em uma entrevista que, embora acreditasse que o Google fosse um concorrente formidável, ele achava que uma startup pequena e focada poderia assustá-lo.

“O que me deixa confiante é o fato de que, se eles quiserem fazer isso melhor do que nós, basicamente terão que matar seu próprio modelo de negócios”, disse ele.

E quanto às alucinações?

Um problema com os mecanismos de busca baseados em IA é que eles tendem a ter alucinações ou inventar respostas e, às vezes, se desviam de seu material de origem. Esse problema assombrou vários híbridos de pesquisa com IA, inclusive o lançamento inicial do Bard pelo Google (e que agora se chama Gemini), e continua sendo uma das maiores barreiras para a adoção em massa.

Em meus testes, constatei que as respostas do Perplexity eram, em sua maioria, precisas – ou, para ser mais preciso, eram tão precisas quanto as fontes em que se baseavam.

Encontrei alguns erros. Quando perguntei ao Perplexity quando seria a próxima partida de tênis de Novak Djokovic, ele me deu os detalhes de uma partida que já havia terminado. Em outra ocasião, quando carreguei um arquivo PDF de um novo artigo de pesquisa sobre IA e pedi à Perplexity que o resumisse, recebi um resumo de um artigo totalmente diferente, publicado há três anos.

Srinivas reconheceu que os mecanismos de pesquisa baseados em IA ainda cometem erros. Ele disse que, como o Perplexity era um produto pequeno e relativamente obscuro, os usuários não esperavam que ele fosse tão confiável quanto o Google – e que o Google teria dificuldades para incorporar a IA generativa em seu mecanismo de busca porque precisava manter sua reputação de precisão.

“Digamos que você use nosso produto e que tenhamos um bom desempenho em oito de cada dez consultas. Você ficaria impressionado”, disse Srinivas. “Agora, digamos que você use o produto do Google e ele obtenha apenas sete de 10. Você pensaria: ‘Como o Google pode errar em três consultas?’”.

“Essa assimetria é a nossa oportunidade”, acrescentou.

Uma vitória para os usuários, uma perda para os editores

Embora eu tenha gostado de usar o Perplexity, e provavelmente continuarei a usá-lo em conjunto com o Google, admito que fiquei com um frio na barriga depois de vê-lo produzir resumos concisos e impecáveis de notícias, análises de produtos e artigos de instruções.

Grande parte da economia atual da mídia digital ainda depende de um fluxo constante de pessoas que clicam em links do Google e recebem anúncios nos sites dos editores.

Mas com o Perplexity, geralmente não há necessidade de visitar um site – a IA faz a navegação para você e fornece todas as informações necessárias na página de respostas.

A possibilidade de que os mecanismos de pesquisa acionados por IA possam substituir o tráfego do Google – ou estimular o Google a colocar recursos semelhantes em seu mecanismo de pesquisa, como começou a fazer com seu experimento de “experiência geradora de pesquisa” – é, em parte, o motivo pelo qual muitos editores digitais estão apavorados no momento. Também é parte do motivo pelo qual alguns estão reagindo, inclusive o The Times, que processou a OpenAI e a Microsoft por violação de direitos autorais no ano passado.

Depois de usar o Perplexity e ouvir falar de produtos semelhantes que estão sendo desenvolvidos por outras startups, estou convencido de que os preocupados têm razão. Se os mecanismos de pesquisa de IA podem resumir de forma confiável o que está acontecendo em Gaza ou dizer aos usuários qual torradeira comprar, por que alguém visitaria o site de um veículo de mídia novamente? Por que jornalistas, blogueiros e avaliadores de produtos continuariam a colocar seu trabalho online se um mecanismo de busca de IA vai simplesmente engoli-lo e regurgitá-lo?

Levei esses temores a Srinivas, que respondeu com uma evasiva diplomática. Ele admitiu que a Perplexity provavelmente enviaria menos tráfego para sites do que os mecanismos de pesquisa tradicionais. Mas disse que o tráfego remanescente seria de melhor qualidade e mais fácil de ser monetizado pelos editores, pois seria o resultado de consultas melhores e mais direcionadas.

Tenho ceticismo em relação a esse argumento e tenho receio com o que o futuro reserva para escritores, editoras e pessoas que consomem mídia online.

Portanto, por enquanto, terei que pesar a conveniência de usar o Perplexity contra a preocupação de que, ao usá-lo, eu esteja contribuindo para a minha própria desgraça.

Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.

https://www.estadao.com.br/link/cultura-digital/perplexity-inteligencia-artificial-buscas-google

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CEO do ChatGPT prevê pessoas valendo US$ 1 bilhão: “Está acontecendo”

A pessoa-unicórnio poderia desafiar a convenção de que as empresas precisam contratar pessoas para crescer

Luiz Anversa – Exame – 6 de fevereiro de 2024 

Os unicórnios são aquelas startups que passam a valer mais de US$ 1 bilhão. Mas e se estivermos próximo de que uma pessoa se torne um unicórnio? Sim, uma pessoa, sozinha, valendo mais de US$ 1 bilhão? A ideia pode parecer maluca, mas já está sendo discutida.

Segundo a revista Fortune, esse conceito tem a aprovação de Sam Altam, CEO da OpenAI, a empresa por trás do ChatGPT. Em entrevista ao cofundador da rede Reddit, Alexis Ohanian, Altman disse que ele sempre pensa “quando um fundador de empresa alcançará o valor de US$ 1 bilhão sem contratar um único funcionário”.

“No meu grupo de conversa com CEOs de tecnologia sempre há essa aposta de em que ano haverá a pessoa-empresa de US$ 1 bilhão”, falou Altamn. “Nós não poderíamos imaginar isso sem a inteligência artificial e agora isso está acontecendo”, completou.

A pessoa-unicórnio poderia desafiar a convenção de que as empresas precisam contratar pessoas para crescer. “Isso vai ser um novo fenômeno onde CEOs ficarão empolgados em acordar para trabalharem com muito menos e muito mais performance, com uma cultura de equipes bem mais forte”, comentou Ohanian.

Essa ideia revolucionário surge num momento em que os unicórnios da tecnologia estão passando por dificuldades. Muitos deles foram à falência, deixando fundadores, funcionários e investidores em situação ruim. Ex-funcionários de startups estão desempregados, enquanto investidores amargam prejuízos.

Diante desse cenário, a perspectiva de um “unicórnio de uma pessoa só” pode representar o ápice do espírito empreendedor valorizado pela indústria de tecnologia. Uma operação conduzida por apenas uma pessoa, utilizando tecnologia para construir uma empresa avaliada em mais de US$ 1 bilhão, seria o ápice da narrativa em que o Vale do Silício foi construído – esforços individuais e condições difíceis no começo da trajetória dos negócios. A imagem clássica das operações sendo tocadas nas garagens das casas sempre vem à mente.

Pode ser o início de uma nova era de ouro das startups.

Mais sobre:ChatGPTUnicórnios

Créditos

Luiz Anversa

Redator

Com mais de 15 anos de mercado, passou por Jornalistas&Cia, RedeTV e Yahoo, sendo redator, repórter e editor. Tem experiência na área econômica com big techs, inteligência artificial e branded content

https://exame.com/inteligencia-artificial/ceo-do-chatgpt-preve-pessoas-valendo-us-1-bilhao-esta-acontecendo

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