Como a China dominou a indústria mundial de painéis solares

  • Energia barata de fontes como o carvão e salários baixos estão entre as razões

Pequim | Folha/The New York Times – 8.mar.2024 

A China revelou todo a força de sua indústria de energia solar no último ano. O país asiático instalou mais painéis solares do que os Estados Unidos em toda a sua história e reduziu o preço dos painéis que vende no atacado em quase metade. As exportações de painéis solares montados aumentaram 38%, enquanto as exportações de componentes-chave quase dobraram.

Enquanto os Estados Unidos e a Europa tentam reviver a produção de energia renovável e ajudar as empresas a evitar a falência, a China está correndo muito à frente.

Na abertura anual da legislatura da China nesta semana, o primeiro-ministro Li Qiang —segunda autoridade mais importante do país depois de Xi Jinping—anunciou que o país aceleraria a construção de fazendas de painéis solares, bem como projetos eólicos e hidrelétricos.

Com a economia cambaleando, os gastos intensificados em energia renovável na China, principalmente solar, são a pedra angular de uma grande aposta em tecnologias emergentes. Os líderes do país afirmam que um “novo trio” de setores na indústria —painéis solares, carros elétricos e baterias de lítio— substituiu um “trio antigo” de roupas, móveis e eletrodomésticos.

O objetivo é ajudar a compensar a forte queda no setor de construção de moradias da China. A China espera aproveitar indústrias emergentes como a energia solar, que Xi gosta de descrever como “novas forças produtivas”, para revigorar uma economia que desacelerou por mais de uma década.

O foco na energia solar é o mais recente capítulo de um programa de duas décadas para tornar a China menos dependente de importações de energia.

As exportações solares da China já provocaram respostas urgentes. Nos Estados Unidos, a administração Biden introduziu subsídios que cobrem grande parte do custo de fabricação de painéis solares e parte do custo para instalá-los, muito mais altos.

O alarme na Europa é particularmente grande. Os funcionários estão amargurados porque, há uma dúzia de anos, a China subsidiou suas fábricas para fabricar painéis solares, enquanto os governos europeus ofereciam subsídios para comprar painéis feitos em qualquer lugar. Isso levou a uma explosão de compras de consumidores da China que prejudicou a indústria solar da Europa.

Uma onda de falências varreu a indústria europeia, deixando o continente amplamente dependente de produtos chineses.

Os vestígios da indústria solar europeia estão desaparecendo. A Norwegian Crystals, importante produtora europeia de matérias-primas para painéis solares, entrou com pedido de falência no verão passado. A Meyer Burger, uma empresa suíça, anunciou em 23 de fevereiro que interromperia a produção na primeira quinzena de março em sua fábrica em Freiburg, Alemanha, e tentaria levantar fundos para concluir fábricas no Colorado e no Arizona.

Os projetos da empresa nos EUA poderiam aproveitar os subsídios à fabricação de energia renovável fornecidos pela Lei de Redução da Inflação do presidente Joe Biden.

A vantagem de custo da China é formidável. Uma unidade de pesquisa da Comissão Europeia calculou em um relatório de janeiro que as empresas chinesas poderiam fabricar painéis solares por 16 a 18,9 centavos por watt de capacidade de geração. Em contraste, custava às empresas europeias de 24,3 a 30 centavos por watt, e às empresas dos EUA cerca de 28 centavos.

A diferença reflete em parte os salários mais baixos na China. As cidades chinesas também forneceram terrenos para fábricas de painéis solares a uma fração dos preços de mercado. Bancos estatais emprestaram pesadamente a baixas taxas de juros, embora as empresas solares tenham perdido dinheiro e algumas tenham falido. E as empresas chinesas descobriram como construir e equipar fábricas de forma econômica.

Os baixos preços da eletricidade na China fazem uma grande diferença.

A fabricação do principal material bruto para painéis solares, o silício policristalino, requer enormes quantidades de energia. Os painéis solares geralmente devem gerar eletricidade por pelo menos sete meses para recuperar a eletricidade necessária para fabricá-los.

O carvão fornece dois terços da eletricidade da China a baixo custo. Mas as empresas chinesas estão reduzindo ainda mais os custos instalando fazendas solares nos desertos do oeste da China, onde a terra pública é essencialmente gratuita. Elas então usam a eletricidade dessas fazendas para produzir mais silício policristalino.

Por outro lado, a Europa tem eletricidade cara, especialmente depois de parar de comprar gás natural da Rússia durante a guerra na Ucrânia. A terra usada na Europa para fazendas solares é cara. No sudoeste dos Estados Unidos, preocupações ambientais têm retardado a instalação de fazendas solares, enquanto questões de zoneamento bloquearam licenças para a transmissão de energia renovável.

O consumo de carvão da China a tornou o maior contribuinte anual de emissões de gases de efeito estufa do mundo. Mas o papel pioneiro do país em tornar os painéis solares menos caros tem desacelerado o aumento das emissões.

“Se os fabricantes chineses não tivessem reduzido o custo dos painéis em mais de 95%, não poderíamos ver tantas instalações em todo o mundo”, disse Kevin Tu, um especialista em energia de Pequim e membro não residente do Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia.

As instalações anuais de painéis solares quase quadruplicaram em todo o mundo desde 2018.

Algumas das novas fazendas solares que geram eletricidade para a produção de polissilício estão em duas províncias do sudoeste da China, Qinghai e Yunnan. Mas grande parte do polissilício é produzido na região de Xinjiang, no noroeste da China. Os Estados Unidos proíbem a importação de materiais ou componentes fabricados por trabalho forçado em Xinjiang, onde a China reprimiu predominantemente minorias muçulmanas como os uigures.

Isso levou os Estados Unidos a bloquear alguns envios de painéis solares da China, enquanto a União Europeia tem considerado ações semelhantes.

As empresas chinesas cada vez mais realizam as etapas iniciais e de alto valor da fabricação de painéis solares na China e depois enviam os componentes para fábricas no exterior para montagem final. Isso permite que os envios evitem barreiras comerciais, como tarifas impostas a muitas importações chinesas pelo presidente Donald Trump. Várias das maiores fabricantes de painéis solares da China estão construindo fábricas de montagem final nos Estados Unidos para aproveitar os subsídios oferecidos como parte da Lei de Redução da Inflação.

A lei inclui extensos subsídios para reviver a indústria de painéis solares dos EUA, que quase entrou em colapso completamente há uma década diante das importações de baixo custo da China. Mas construir uma indústria que possa se sustentar será difícil.

A China produz praticamente todo o equipamento do mundo para fazer painéis solares e quase todo o suprimento de cada componente dos painéis solares, desde wafers até vidro especial.

“Há conhecimento técnico nisso, e está tudo na China”, disse Ocean Yuan, CEO da Grape Solar, uma empresa em Eugene, Oregon, que trabalha com empresas solares chinesas que estão estabelecendo operações de montagem nos Estados Unidos.

Esse conhecimento técnico costumava estar nos Estados Unidos. Até 2010, os produtores chineses de painéis solares dependiam principalmente de equipamentos importados e enfrentavam atrasos longos e custosos se algo quebrasse.

“Levava dias ou semanas para obter peças de reposição e engenheiros”, disse Frank Haugwitz, consultor de energia solar de longa data especializado na indústria chinesa.

Em 2010, a Applied Materials, uma empresa do Vale do Silício, construiu dois extensos laboratórios em Xi’an, a cidade no oeste da China famosa pelos guerreiros de terracota.

Cada laboratório tinha o tamanho de dois campos de futebol. Eles foram destinados a fazer testes finais para linhas de montagem com robôs que poderiam produzir painéis solares com praticamente nenhum trabalho humano.

Mas, em poucos anos, as empresas chinesas descobriram como fazer isso sozinhas. A Applied Materials reduziu consideravelmente sua produção de ferramentas para painéis solares e passou a se concentrar em fazer equipamentos semelhantes para a fabricação de semicondutores.

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2024/03/como-a-china-dominou-a-industria-mundial-de-paineis-solares.shtml

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Corrida global por energia limpa deve triplicar produção de etanol no Brasil

Aposta em veículos híbridos, combustível de aviação sustentável e hidrogênio estimulam novos investimentos na indústria da cana e do álcool

Por Vinicius Neder – O Globo – 10/03/2024 

Unidade da Raízen para produção de etanol de segunda geração, a partir do bagaço da cana, em Piracicaba (SP). Empresa vai construir mais cinco fábricas no país Unidade da Raízen para produção de etanol de segunda geração, a partir do bagaço da cana, em Piracicaba (SP). Empresa vai construir mais cinco fábricas no país — Foto: Paulo Altafin/Divulgação

Vinte anos após a introdução dos carros flex, em 2003, a transição para uma economia de baixo carbono oferece mais uma oportunidade para a cana-de-açúcar e a indústria sucroalcooleira no Brasil. A chegada dos veículos elétricos intensifica investimentos em carros híbridos, inclusive com uso do etanol, uma vantagem energética do país. Essa nova perspectiva e avanços tecnológicos no campo formam um cenário que pode dobrar a produção de cana e triplicar a de etanol, dizem executivos e pesquisadores do setor.

Com as metas de redução de gases de efeito estufa (GEEs) gerados pelos combustíveis de origem fóssil, a indústria automobilística parece se dividir entre a aposta da China nos elétricos e o caminho dos híbridos, que combinam motores elétricos e a combustão, como o flex brasileiro.

Essa segunda vertente é o centro dos planos bilionários anunciados recentemente por Toyota e Stellantis (dona de Fiat e Peugeot), por exemplo, entre os R$ 117 bilhões que montadoras investirão no país até 2030.

Parte da indústria acredita que os híbridos são o modelo ideal de transição, particularmente em países emergentes, onde o preço alto dos carros elétricos e a falta de infraestrutura de recarga são barreiras. Se, por um lado, o veículo híbrido reduz o consumo de etanol por motorista, a adoção desse caminho por outros países pode elevar a demanda global por um combustível do qual o Brasil é exportador.

E há outros motivos para o otimismo: países discutem elevar a diluição de biocombustíveis na gasolina para reduzir emissões e várias rotas tecnológicas tentam viabilizar o SAF, o combustível sustentável de aviação que poderá substituir o atual querosene, de origem fóssil.

Brasileiros estão otimistas sobre a possibilidade de o álcool despontar como o insumo mais vantajoso. O etanol ainda pode ser usado na produção de hidrogênio.

— Imagina os EUA colocando 5% a mais de etanol na gasolina. Hoje são 10%. Imagina, no Brasil, subindo para 30%. Imagina outros países adotando essa mistura. O Brasil tem grande potencial — empolga-se Fabio Venturelli, presidente da São Martinho, fabricante de açúcar e etanol.

A Raízen, maior do ramo no país, constrói, até 2027, oito usinas de etanol de 2ª geração, fabricado a partir de celulose encontrada em palha de cana ou outras plantas. O investimento soma quase R$ 10 bilhões, já que cada unidade custa em torno de R$ 1,2 bilhão.

Sustentabilidade no ar

Até 2030, serão 20 usinas. No fim de fevereiro, anunciou a captação de US$ 1,5 bilhão (R$ 7,5 bilhões), em “títulos verdes” de longo prazo, para financiar parte desses aportes.

— Nas regulações europeia, japonesa e americana, o etanol de 2ª geração se encaixa. Uma empresa de energia europeia, por exemplo, tem um limite de emissões (de GEEs). Ou ela reduz ou compra um produto que tenha créditos. O etanol de 2ª geração é como se fosse um crédito de carbono — define Mateus Lopes, diretor de Transição Energética e Investimentos da Raízen.

Na aviação comercial, não há saída fora dos biocombustíveis, observa Bernardo Gradin, presidente da GranBio, pioneira brasileira no etanol de 2ª geração. Segundo a Iata, a entidade global que reúne as companhias aéreas, 65% da redução de emissões do setor até 2050 terão de vir do SAF.

Em 2023, 300 milhões de litros foram produzidos. A perspectiva é de 5 bilhões de litros anuais em 2025. A GranBio investe numa usina experimental nos EUA em parceria com a Honeywell, fornecedora do setor de aviação.

— A demanda de SAF é real — diz Gradin.

A Atvos já planeja a construção de uma refinaria de SAF no Brasil, para ir além do açúcar e do álcool e agregar valor. O estudo de viabilidade econômica ainda pode consumir de três a cinco anos, mas Bruno Serapião, presidente da empresa, se diz confiante.

– Fica o alerta: o Brasil é o maior exportador de soja do mundo, mas perdeu o bonde de ser o maior exportador de farelo e óleo de soja, porque não montou uma política industrial para favorecer a instalação dessas indústrias aqui.

Na fronteira tecnológica, a startup Hytron, nascida na USP, trabalha com a Raízen e a petroleira Shell num projeto para desenvolver hidrogênio verde a partir do etanol. Seria uma forma de driblar dois dos principais obstáculos à produção de hidrogênio verde: a alta demanda por eletricidade de fonte renovável e o transporte do gás, que requer condensação em baixíssima temperatura em navios para exportação.

O projeto, que constrói unidades experimentais, consiste em extrair hidrogênio do etanol, mais fácil de transportar, em usinas, chamadas de “reformadores”, instaladas próximas dos consumidores.

— Em vez de desenvolver uma cadeia logística nova, podemos aproveitar a que já existe — diz o gerente de Tecnologia de Baixo Carbono da Shell no Brasil, Alexandre Breda.

Na frente agrícola, a tecnologia possibilitará produzir mais com menos cana. O CTC, empresa de pesquisa mantida pelos principais grupos sucroalcooleiros, desenvolve novas variedades genéticas de cana, incluindo transgênicas, mais resistentes a pragas e mais produtivas, e sementes para facilitar o plantio, até hoje baseado em mudas.

— Nossa visão é que é possível dobrar a produtividade da cana-de-açúcar nos próximos 20 anos, o que vai mudar completamente o jogo — diz Cesar Barros, presidente do CTC.

Salto na produção

Isso significaria alcançar 1,2 bilhão de toneladas de cana por ano, conforme dados da Unica, entidade que representa o setor, com a mesma área plantada. Com mais cana e a ampliação do parque industrial (atualmente são 360 usinas), o país poderia dar um salto na produção de açúcar e etanol, para cerca de 70 bilhões de litros anuais. A do combustível poderia triplicar porque há também ganhos na frente tecnológica industrial.

Um estudo publicado em 2020 pelo Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), estima que a incorporação generalizada do etanol de segunda geração poderia ampliar a produção em mais 50%. Se esse aumento se der sobre a produção elevada pelo aumento da produtividade da cana, seriam 100 bilhões de litros ao ano, o triplo da atual.

No estágio atual, o elevado custo de produção ainda é um obstáculo para a incorporação da tecnologia de 2ª geração. Para reduzi-lo, o LNBR trabalha no desenvolvimento de enzimas nacionais, insumo essencial no processo de transformar a celulose em etanol. Eduardo Couto, diretor do laboratório, diz que, após testes, será possível o uso comercial por volta de 2030.

— Uma enzima produzida localmente na usina reduz custos com logística, reduz a pegada de carbono e faz com que o etanol de segunda geração fique mais competitivo comercialmente — diz Couto.

Luciano Rodrigues, diretor de Inteligência Setorial da Unica, que reúne empresas do ramo, inclui no rol de uma “transformação acelerada” do setor o etanol de milho e o biometano. Em dez anos, o etanol de milho saltou de zero para 17% de todo o volume no país.

O biometano — substituto do gás natural de origem fóssil, tanto para a indústria quanto para o transporte, como gás natural veicular (GNV) — é gerado a partir da vinhaça e da torta de filtro, sobras da fabricação de açúcar e etanol.

Rodrigues vê no gás potencial semelhante ao da geração de eletricidade a partir do bagaço. Hoje, essa fonte já soma 5% da matriz elétrica do país.

Clima preocupa

As oportunidades se colocam num momento de retomada após anos de dificuldades, diz Leonardo Alencar, analista da XP Investimentos. Desde a década passada, a cana tem sido atingida pela seca e pelo calor.

Recentemente, problemas climáticos na Índia, maior competidor do Brasil no açúcar, elevaram os preços internacionais, incentivando a produção brasileira. Por aqui, canaviais foram beneficiados pelas chuvas, que podem minguar este ano com La Niña.

Segundo Alencar, na conjuntura atual, o açúcar tem sustentado o setor, enquanto o etanol está com preço relativamente baixo. Rodrigues, da Unica, considera o vaivém dos preços normal.

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O aparelho que pode hackear (quase) tudo

Dispositivo teve venda proibida no Brasil pela Anatel, o que aliviou empresas locais de atualizar defesas

Ronaldo Lemos – Folha –  10.mar.2024 

Cibersegurança é uma das questões mais importantes do mundo atual. É também um dos temas mais ignorados pela maioria das pessoas (e empresas). Nossa tendência é “confiar” nos aparelhos que estão à nossa volta, pressupondo que são seguros e achar que tem alguém cuidando da segurança de tudo. Ledo engano. Para derrubar essa confiança ingênua com os dois pés na porta, uma empresa dos EUA lançou há quatro anos um aparelho que é capaz de testar e hackear a segurança de boa parte dos equipamentos que estão à nossa volta. O nome do aparelho vai ser omitido, já que o importante é o debate que ele gera e não o produto em si. 

O aparelho cabe na palma da mão, custa menos de R$ 1.000 e é capaz de interagir com boa parte dos dispositivos à nossa volta. Por exemplo, chaves digitais de todos os tipos, incluindo de veículos, portões de garagem, fechaduras eletrônicas etc. Usando o aparelho é possível ler os sinais emitidos pela chave e gravá-los. É possível, então, reproduzi-los, o que pode permitir abrir um veículo, uma fechadura digital ou um portão, dependendo da estrutura de segurança implementada. 

Nesse sentido, o aparelho pode clonar a chave de um quarto de hotel. Bastaria aproximar a chave do aparelho. Ele pode, então, reproduzir o seu sinal junto ao sensor, abrindo efetivamente a porta. O mesmo pode ser feito com relação a controles remotos. Dá para basicamente ler e reproduzir o sinal de qualquer controle existente no mercado, permitindo ligar e desligar TVs, ar-condicionados ou qualquer coisa comandada por infravermelho. 

É possível ler também chips e tags com RFID (identificação por frequência de rádio), tecnologia cada vez mais comum. Dá para ler o chip de um cartão de crédito, obtendo o número do cartão. No entanto, o aparelho não consegue clonar o cartão, porque não consegue ler sua senha nem seu código de verificação privado. 

Em entrevista recente o presidente da empresa que faz esse aparelho disse: “nosso produto não é o mais sofisticado do mercado. Ao contrário, o seu objetivo é trazer consciência de que muitas coisas que usamos não são seguras. Se algo pode ser hackeado por nosso aparelho é sinal de que está desatualizado em termos de segurança.” “Várias empresas estão fazendo marketing de seus produtos digitais hoje dizendo que eles não podem mais ser hackeados pelo nosso aparelho. Isso é o que queríamos, essa é a nossa filosofia”, acrescentou. 

No Brasil o aparelho teve sua comercialização proibida pela Anatel. Nos EUA ele continua sendo legal e pode ser comprado online. A atitude da Anatel é paternalista. Apesar de ter a nobre intenção de proteger as pessoas contra usos maliciosos, o resultado é o oposto: mantém muita gente em uma falsa bolha de segurança e alivia as empresas, que sabem que seus produtos são vulneráveis e desatualizados, da necessidade urgente de corrigir o problema. Afinal, não é o aparelho que cria as falhas de segurança. Ele apenas as revela. 

E ,infelizmente, há ferramentas muito mais poderosas que podem ser compradas por bandidos. Muitas vezes a melhor forma de aprender algo é ver, na prática, como as coisas (não) funcionam.

 Já era —vírus só como um problema de saúde

 Já é —vírus em computadores 

Já vem —vírus em inteligências artificiais 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2024/03/o-aparelho-que-pode-hackear-quase-tudo.shtml

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Entramos em um superciclo tecnológico, afirma Amy Webb no SXSW 2024

Segundo a futurista, ele será impulsionado por inteligência artificial, biotecnologia e um ecossistema de dispositivos conectados


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Redação Fast Company 09-03-2024 

Em 2024, entramos em um superciclo tecnológico. Esse é o principal tema a 17ª edição do Relatório de Tendências Tecnológicas do Future Today Institute (FTI), lançado pela futurista Amy Webb, durante a SXSW. “Estamos num momento que não pode ser definido apenas por tendências”, disse durante a abertura da sua apresentação.

Em economia, um “superciclo” é um período prolongado de expansão da demanda, elevando os preços das matérias-primas e ativos a níveis sem precedentes. Isso pode se estender ao longo de anos e é impulsionado por mudanças estruturais substanciais e sustentadas na economia. 

Web explica que um superciclo tecnológico é uma onda de inovação tão potente e difundida que promete remodelar a própria estrutura da nossa existência. “Desde as complexidades das cadeias de abastecimento globais até às minúcias dos hábitos diários, desde os corredores do poder na política global até às normas tácitas que regem nossas interações sociais”, afirmou na abertura do seu relatório. 

“O último superciclo de tecnologia que aconteceu foi a revolução industrial. Mas, diferente da revolução industrial, são três tecnologias de uso geral que estão nesse superciclo”, explicou. São elas: inteligência artificial, biotecnologia e um ecossistema florescente de dispositivos interligados para pessoas, animais de estimação e objetos.

SUPERCICLO E 900 TENDÊNCIAS

A análise do FTI mostra que todas as tecnologias – AR/VR/XR, veículos autónomos, satélites em órbita, entre outros – ligam-se de alguma forma ao superciclo.

“As ramificações são nítidas e inegáveis. À medida que este superciclo tecnológico se desenrola, haverá vencedores e vencidos, aqueles que tomarão as rédeas desta mudança histórica e aqueles que serão engolidos inteiros”, diz Amy. “Para líderes empresariais, investidores e decisores políticos, compreender este superciclo tecnológico é fundamental.”

Ao fim do seu painel, Amy termina com uma mensagem. “O tecno-otimismo que os messias da tecnologia querem ‘pregar’ não vai nos salvar. E não precisamos ser salvos. Precisamos de um plano melhor de futuro”, disse.

Nesta 17ª edição do relatório, o FTI conectou o superciclo a mais de 900 tendências, em uma pesquisa apresentada em 16 relatórios específicos de tecnologia e do setor que revelam a situação atual e listas de influenciadores a serem observados, juntamente com exemplos detalhados e recomendações para ajudar os executivos e suas equipes a desenvolver seu posicionamento estratégico. 

É possível baixar o relatório completo pelo site do FTI.


SOBRE O(A) AUTOR(A)

Redação Fast Company Brasil. saiba mais

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4 formas eficazes de melhorar sua memória, de acordo com a neurociência

Hábitos simples praticados regularmente podem ajudá-lo a melhorar sua memória – e, talvez, a parar de perder as chaves do carro


Gwen Moran – Fast Company Brasil 07-03-2024 

Todo mundo conhece essa sensação: a gente acaba de entrar em uma sala, mas já nem lembra o que foi fazer lá. Onde foi que eu deixei meu celular? E qual é mesmo o nome daquele cara novo da contabilidade?

O que será que nos torna capazes citar de cabeça falas inteiras da terceira temporada de The Big Bang Theory, mas nos faz esquecer de fatos e detalhes mais importantes, que parecem não se fixar? 

“O esquecimento é a condição humana universal”, diz o neurocientista Charan Ranganath, diretor do Programa de Memória e Plasticidade e professor de psicologia e neurociência da Universidade da Califórnia. Segundo ele, o que nos permite reter algumas informações e filtrar as demais é uma combinação de fatores.

Há uma compensação entre a grande quantidade de informações às quais estamos expostos e a qualidade dessas informações e sua relevância para nós. Melhorar a memória não significa tentar se agarrar a cada pequena experiência. “Essa melhora tem mais a ver com a capacidade de capturar o que é importante e o que realmente importa.” 

Nesse sentido, há uma série de coisas que podemos fazer para melhorar a memória e reter melhor o que precisamos. A seguir, apresentamos quatro dicas que podem funcionar para você:

1. Use sua experiência como um filtro

Os seres humanos só conseguem armazenar cerca de três ou quatro informações na mente ao mesmo tempo. Uma das maneiras de contornar essa limitação é “fragmentar” as informações, de modo a facilitar a memorização. Assim, por exemplo, você pode “dividir” um número de telefone em uma sequência de quatro, dois e dois, em vez de tentar lembrar oito números.

Quando você é especialista em uma área, tem muita coisa gravada na memória, e isso permite filtrar rapidamente novas informações e identificar segmentos gerenciáveis de informações para “dividir” e lembrar mais facilmente, em vez de tentar lembrar tudo o que foi abordado.

“A experiência permite que você encontre os melhores trechos de forma rápida e eficiente”, diz Ranganath.

2. Mantenha o foco

Para estar atento a essas novas informações, é necessário foco. Toda vez que você muda seu foco de uma coisa para outra, isso gera um “custo de mudança”. “Isso significa que, do ponto de vista da atenção, ficamos defasados toda vez que mudamos de uma coisa para outra. É como se o cérebro estivesse se recuperando”, diz ele.

Há uma diferença entre atenção e intenção. A atenção é a forma como o cérebro prioriza o que você está vendo, ouvindo e pensando. A intenção pode ser usada para orientar sua atenção a se concentrar em algo específico. 

Melhorar a memória tem mais a ver com a capacidade de captar e reter o que realmente importa.

Uma distração – mensagens de e-mail, interrupções etc. – pode desviar sua atenção daquilo que você pretende reter, o que pode prejudicar sua memória por não manter o foco no que é importante naquele momento. 

“As pessoas estão constantemente mudando o seletor do que supostamente é importante, então acabam recebendo essas memórias borradas e fragmentadas de coisas que vão se perder”, explica o pesquisador. Para conseguir melhorar a retenção, concentre-se em uma coisa de cada vez.

3. Faça uma “limpeza geral” nas distrações

Isso inclui tudo, desde o ambiente físico até a forma como você é notificado sobre mensagens e tarefas. Reservar um tempo para eliminar os “bloqueadores de memória” vai ajudá-lo a se lembrar melhor do que realmente importa. 

Isso pode incluir encontrar maneiras de limitar as distrações no local onde você trabalha, escolher cuidadosamente as notificações prioritárias e organizar seu espaço de trabalho e os lembretes para auxiliar no que você precisa lembrar.

4. Use seus cinco sentidos

As informações sensoriais também ajudam na memória. Concentrar-se nas imagens, cheiros, sons e outras informações sensoriais do momento pode ajudar a criar memórias duradouras. 

Para conseguir melhorar a retenção, concentre-se em apenas uma coisa de cada vez.

Essa estratégia pode ser especialmente útil para localizar objetos perdidos. Portanto, se estiver tentando criar uma memória duradoura, pare e absorva todas as informações sensoriais que puder, mesmo que momentaneamente.

“Mais tarde, quando precisar encontrar as chaves, você se lembrará dessas informações sensoriais que o levarão de volta ao momento em que as colocou na pia da cozinha”, ele orienta.

Sim, isso pode parecer impossível quando você está fazendo coisas comuns do dia a dia, mas é esse mesmo o objetivo. Se você vive esquecendo coisas, dedicar um tempo extra pode ser uma solução.

E, quando estiver tentando se lembrar de algo, tente trazer à tona todas as informações sensoriais daquele momento.


SOBRE A AUTORA

Gwen Moran é escritora, editora e criadora do Bloom Anywhere, site para pessoas que querem subir de cargo ou mudar de emprego.

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A história do remédio que revolucionou tratamento da dor e deu origem à indústria farmacêutica há 125 anos

O ácido acetilsalicílico, popularmente conhecido pela marca comercial Aspirina, é considerado o medicamento que inaugurou a indústria farmacêutica

Edison Veiga – Folha/BBC – 6.mar.2024 


Bled (Eslovênia)

Foi um marco científico. O ácido acetilsalicílico, popularmente conhecido pela marca comercial Aspirina, é considerado o medicamento que inaugurou a indústria farmacêutica.

Trata-se do primeiro fármaco a ser sintetizado em laboratório, ou seja, que não pode ser encontrado em sua forma final na natureza.

Seu registro de patente foi realizado pela empresa Bayer em 6 de março de 1899, em Berlim, na Alemanha. Era o começo de uma história de sucesso, que mudaria a maneira como a humanidade lida com a dor.

Mas antes de prosseguir com esta história, cabe um alerta sempre necessário quando o assunto é medicamento —e mais importante ainda no caso de um remédio barato e acessível como é a Aspirina, que pode ser comprada, no Brasil, sem a necessidade de receita médica: a automedicação é sempre um risco.

“[O ácido acetilsalicílico] é facilmente encontrado e vendido nas farmácias e, por conta dessa facilidade de acesso, esse medicamento acaba sendo usado de maneira inadequada, o que pode trazer efeitos adversos como problemas gastrointestinais, toxicidade renal e hepática”, alerta à BBC News Brasil o farmacêutico Jean Leandro dos Santos, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

“É sempre muito importante que haja orientação de um profissional de saúde no momento da indicação de um medicamento, como é o caso da Aspirina. O uso incorreto desses fármacos tem potencial [de consequência] grave. É importante que a população seja sempre orientada, no momento da decisão de utilizar um medicamento, mesmo que seja de fácil aquisição, isento de prescrição e de acesso direto na farmácia” completa o especialista, que também é coordenador do grupo de pesquisa e desenvolvimento de novos fármacos na Unesp e membro da American Chemical Society (ACS).

Mas se a Aspirina tem 125 anos, sua história é derivada de uma substância —esta, sim, encontrada na natureza— utilizada pelo ser humano há pelo menos 2,4 mil anos. Trata-se do ácido salicílico.

Chorão

Salicílico é uma derivação de Salix, a denominação científica da família do salgueiro —árvore também chamada de chorão, famosa pelas folhas pendentes. Desde a antiguidade, sabe-se que tanto as folhas quanto o caule dessas plantas eram boas para fazer um extrato utilizado no alívio de sintomas como dor e febre.

O salgueiro é rico em salicilato. Seu uso medicinal consta no famoso papiro Ebers, um tratado médico do Egito antigo datado de aproximadamente 1550 a.C. Aclamado como o pai da medicina, Hipócrates (460 a.C. – 370 a.C) prescrevia o chá da planta para seus pacientes.

A medicina ancestral era muito mais empírica —e somente a partir do século 18 pesquisadores conseguiram identificar a substância benéfica desses extratos.

Mas havia um problema: se o ácido salicílico era bom no combate a dores, febre e inflamações, seus efeitos colaterais não podiam ser ignorados. Em outras palavras, o remédio causava sérios danos ao estômago.

“O ácido salicílico foi descoberto no período grego a partir da casca de um salgueiro que, uma vez fervida, rendia um chá com propriedades analgésicas, antipiréticas e capazes de aliviar a dor e a inflamação”, conta Santos.

“Só que o produto isolado da casca do salgueiro, chamado de salicina, ainda hoje é utilizado no tratamento de verrugas e calos. Se a gente imaginar em termos de efeito adverso que é utilizado para reduzir calos, imagina o estrago que faz no estômago. Por isso, com base nos efeitos adversos, que esta substância precisou ser modificada até chegar ao ácido ácido acetilsalicílico”, acrescenta.

Isso se tornou uma preocupação científica. Era preciso dar um jeito de seguir utilizando a substância para o objetivo desejado, sem trazer novas complicações para os pacientes.

Foram muitas tentativas, algumas malsucedidas, outras parcialmente bem-sucedidas. Até que em 1897, movido por uma questão pessoal —ele queria encontrar algo para tratar o reumatismo do pai—, o químico alemão Felix Hoffmann (1868-1946), pesquisador da Bayer, conseguiu o feito.

Em laboratório, ele criou o ácido acetilsalicílico, abrindo um novo modelo de tratamento da dor para a humanidade.

Foi a primeira vez que um fármaco foi sintetizado em laboratório, ou seja, não apenas isolado da natureza.

Como o medicamento de Hoffmann não pode ser encontrado naturalmente, essa invenção se tornou um marco, considerado o ponto zero da indústria farmacêutica. Em 6 de março de 1899, a Aspirina foi então patenteada.

“Antes da descoberta do ácido acetilsalicílico, não havia muitas opções terapêuticas para o tratamento de quadros de dor. Basicamente, a população utilizava plantas medicinas para aliviar os sintomas”, observa Santos.

“Até o final do século 19, existiam poucos analgésicos. Basicamente a morfina e o ácido salicílico”, acrescenta à BBC News Brasil a biomédica Ana Paula Herrmann, professora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenadora do portal FarmacoLógica.

Ela lembra que a morfina tinha histórico de causar dependência, e o ácido salicílico acarretava problemas por irritar as paredes estomacais.

Em sua primeira versão, o ácido acetilsalicílico era um pó, ministrado sempre com acompanhamento médico.

A partir de 1900, torna-se um comprimido, solúvel em água, vendido em pequenos tubos de vidro. Foi a primeira droga de uso geral vendida sob esse formato.

Pela primeira vez, alguém poderia se medicar sem a necessidade do auxílio de um médico ou um boticário. Foi uma revolução.

A simplicidade, o baixo custo, a acessibilidade e a eficácia transformaram a Aspirina em um sucesso quase instantâneo.

Em pouco tempo, se tornou sinônimo de comprimido, de remédio. E passou a ser um item onipresente nas casas.

“Tornou-se um dos medicamentos mais vendidos do mundo”, destaca a biomédica.

Na Primeira Guerra Mundial, a Aspirina se tornou um medicamento essencial para todos os soldados na linha de frente de combate. E espalhou-se rapidamente pelo mundo.

Como funciona

Mas, afinal, como a Aspirina funciona?

“[Ela] inibe de maneira irreversível uma enzima no organismo responsável pela formação de prostaglandinas, que são substâncias que causam dor, e tromboxano, substância que causa fenômenos trombóticos”, explica à BBC News Brasil o médico Gilberto de Nucci, professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Essa característica da inibição, irreversível, se deve à capacidade do acetilsalicílico de acetilar essa enzima, cujo nome é ciclo-oxigenase”, completa Nucci, que é membro da Academia Nacional de Medicina, da Academia Nacional de Farmácia e da Academia Brasileira de Ciências.

Santos detalha que essa enzima “é responsável pela produção de mediadores que regulam o funcionamento e o equilíbrio de vários órgãos”,

“Frente a uma inflamação ou quadro febril, esses mediadores são produzidos em excesso, e esse aumento de produção acaba aumentando o quadro inflamatório e sensibilizando os terminais receptivos responsáveis pela dor”, explica o farmacêutico.

O “pulo do gato” de Hoffmann foi, de acordo com Santos, “uma estratégia bastante simples”, na qual ele “fez uma reação química de acetilação do ácido salicílico, levando à formação do ácido acetilsalicílico”.

“A introdução desse grupamento é responsável pela redução das propriedades indesejadas que o ácido salicílico tinha”, completa.

Durante muito tempo, no entanto, esse mecanismo de ação do medicamento era desconhecido. Sabia-se que funcionava por conta da experiência prévia com o extrato do chorão. Mas não se entendia exatamente como o fármaco agia no organismo.

“Isso só foi descoberto depois. E rendeu um Nobel para o descobridor”, destaca Herrmann.

Os méritos são do farmacêutico britânico John Vane (1927-2004), ganhador do prêmio Nobel em 1982, anos após demonstrar o mecanismo de ação do ácido acetilsalicílico.

A Aspirina começou a perder o posto de analgésico preferido depois que foram desenvolvidos outros fármacos destinados a aliviar a dor, como o paracetamol, em 1956, e o ibuprofeno, em 1962.

Outros usos

Segundo Herrmann, hoje o medicamento é mais utilizado na prevenção de doenças cardiovasculares do que para aliviar a dor.

“No Brasil, hoje, como analgésico se usa muito mais o paracetamol, a dipirona e outros, que têm menos efeitos danosos para o estômago”, diz ela.

“O uso da Aspirina é principalmente na prevenção de eventos cardiovasculares e também na prevenção de alguns tipos de câncer.”

Santos explica que essas outras indicações acabaram sendo descobertas apenas com o uso.

“Com a própria utilização, foram observados tais efeitos. Isso normalmente acontece com a pesquisa clínica, quando são percebidos efeitos adicionais do uso de um remédio”, afirma.

No caso, constatou-se que, como a Aspirina inibe a ciclo-oxigenase, também previne ou inibe a formação de trombos.

Por isso, sua ingestão, em dosagens menores, passou a ser recomendada para alguns pacientes com histórico de doenças cardiovasculares, como forma de prevenir infarto e acidente vascular cerebral (AVC).

Mais recentemente, algumas pesquisas indicaram que o medicamento pode ser eficaz na prevenção de alguns tumores cancerígenos, por conta de seu papel inibidor de mediadores fisiológicos.

Para o professor Santos, é importante lembrar que, “embora seja um fármaco conhecido há mais de 100 anos, ainda há muitas pesquisas buscando a compreensão de seus mecanismos”.

“Ainda é uma fonte de inspiração para o desenvolvimento de novos compostos, novos fármacos. Embora centenário, [o ácido acetilsalicílico] ainda é capaz de prover novas ideias, desenvolvimento de novas formulações, medicamentos e associações em que ele é combinado a outras substâncias”, acrescenta.

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Não quer criar ‘cretinos digitais’? Então faça seus filhos ler

Novo livro do neurocientista francês Michel Desmurget defende que livros são o melhor antídoto contra o empobrecimento da linguagem, dificuldade de concentração e outros problemas causados pela overdose de telas

Por Luciana Garbin – Estadão – 06/03/2024 

Na última reunião de pais no colégio, a professora de um dos meus filhos fez um apelo: “Por favor, peçam a seus filhos para lerem mais em casa, porque as leituras que fazemos na escola não são suficientes”. Com uma penca de disciplinas para ensinar, fui obrigada a concordar com ela e saí disposta a colaborar. Mas a lição de casa tem se revelado mais árdua com tantos jogos, telas e recursos digitais disponíveis a um clique. Em muitas famílias, fazer crianças e adolescentes focarem apenas no bom e velho livro virou desafio hercúleo hoje em dia.

E é justamente dele que trata o livro Faça-os ler! Para não criar cretinos digitais (Editora Vestígio), do neurocientista francês Michel Desmurget. Especializado em neurociência cognitiva, ele atua no Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da França e se tornou mais conhecido depois do best-seller A fábrica de cretinos digitais: o impacto das telas para nossas crianças. Nele, apresenta pesquisas feitas em países europeus que sustentam, entre outros pontos, que os “nativos digitais” podem ser os primeiros filhos a ter QI inferior ao dos pais.

Gosto pela leitura não é inato e precisa ser transmitido, de preferência pelos pais ou cuidadores

Gosto pela leitura não é inato e precisa ser transmitido, de preferência pelos pais ou cuidadores Foto: Adobe Stock

Segundo o autor, o abandono da leitura pelas novas gerações tem consequências não só no desempenho escolar, como também no vocabulário, na estruturação do pensamento, na nutrição da memória e na apropriação de conhecimentos complexos. A troca do livro pelo uso massivo de telas também está ligada a prejuízos no sono e na aquisição da linguagem, problemas de concentração e aumento da ansiedade e do risco de obesidade.

Esse recuo generalizado da leitura é sentido de forma mais marcante pelo meio universitário. Desmurget destaca em seu novo livro que pesquisas mostram que muitos estudantes sabem que é importante ler, sabem que os professores esperam que eles leiam e sabem que isso terá impacto em suas notas. Mesmo assim, não leem. E aí é que o problema se agrava porque os não leitores de hoje serão os professores de amanhã.

Desde o surgimento da linguagem, a humanidade não encontrou nada melhor que a leitura para estruturar o pensamento, organizar o desenvolvimento do cérebro e civilizar nossa relação com o mundo. O livro literalmente constrói a criança em sua tripla dimensão intelectual, emocional e social. Portanto, o brusco declínio dessa atividade nas novas gerações constitui um verdadeiro desastre para a fertilidade coletiva de nossa sociedade; e isso é ainda mais verdadeiro porque o desaparecimento da leitura ocorre em prol de uma cultura digital recreativa, certamente mais lucrativa para seus diversos atores industriais, mas cuja natureza embrutecedora é hoje definitivamente comprovada por um vasto conjunto de estudos científicos, com influências negativas, entre outros exemplos, na linguagem, na concentração, na impulsividade, no sono, na ansiedade e no desempenho escolar.”

Michel Desmurget, neurocientista francês

Desmurget defende que é hora de demonstrar que a leitura “por prazer” de maneira alguma constitui uma prática elitista, reservada a alguns privilegiados eruditos, mas sim é uma necessidade urgente de desenvolvimento para as crianças. Só há um problema: o gosto pela leitura não é inato. Ou seja, não brota espontaneamente em todos os seres humanos – precisa, em vez disso, ser transmitido. E aí nada como os pais – ou cuidadores – para assumir essa missão.

“Vasculhei a literatura científica em todas as direções e não encontrei um antídoto melhor para a estupidificação das mentes do que a leitura”, escreve o pesquisador francês. “Ela é uma verdadeira máquina para moldar a inteligência em sua dimensão cognitiva (aquela que permite pensar, refletir e raciocinar), mas também, de maneira ampla, socioemocional (aquela que permite entender a si mesmo e aos outros, para benefício das relações sociais). O leitor é o anticretino digital!”

Desmurget lembra ainda que a tarefa é mais simples quando a criança é pequena, mas sempre é tempo de começar. “Claro que alguns pais podem se arrepender de não ter feito o suficiente porque não sabiam ou, mais comumente, não podiam. Todos carregamos essas amarguras. Mas, felizmente, no reino dos livros, nada está realmente perdido: não importa a idade, o sexo, as possíveis resistências ou as dificuldades escolares, o acesso aos benefícios (e prazeres) da leitura está sempre aberto, mesmo para supostos leitores esporádicos.” A dica é, portanto, arregaçar as mangas.

Aqui em casa, uma experiência que tem dado certo é trocar créditos de leitura por créditos em telas – uma hora de leitura, por exemplo, dá direito a determinado período de jogo. Ainda há reclamações, mas outro dia escutei uma frase do meu filho que me deixou animada: “Sabe, mamãe, que estou achando esse livro melhor que alguns programas do YouTube…?”.

https://www.estadao.com.br/cultura/luciana-garbin/nao-quer-criar-cretinos-digitais-entao-faca-seus-filhos-ler

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Investimentos em energia limpa aumentam dependência da China, líder na cadeia de suprimentos

País tem 80% do mercado de energia solar e domina 3/4 da capacidade de baterias para carros elétricos

Thiago Amâncio – Folha – 27.fev.2024 – 

São Paulo

Esforços de países para reduzir suas emissões de poluentes e investir em energia limpa tornaram as economias globais ainda mais dependentes da China, que não só domina de forma ampla o setor como tem expandido sua capacidade industrial a passos largos.

Com 80% do mercado global de energia solar, incluindo painéis que custam a metade do preço do que os produzidos em outros locais, além de três quartos da capacidade de produção de baterias para carros elétricos e a maior empresa do setor, a China tem se destacado em todas as fases da cadeia produtiva: desde maquinários e insumos para exportação até veículos elétricos e módulos solares de ponta.

Essa dependência tem incomodado rivais econômicos dos asiáticos e acirrado a competição em países como os Estados Unidos e potências da Europa, enquanto a China domina o mercado europeu de carros elétricos e amplia investimentos em infraestrutura na América Latina.

“As políticas de clima estão mais e mais interligadas com a geopolítica”, diz à Folha Ilaria Mazzocco, pesquisadora do CSIS (Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais), think tank com sede em Washington. “É importante encontrar soluções que protejam as economias dos países, mas que não desaceleram o ritmo da transição energética.”

Em outubro do ano passado, Geoffrey Pyatt, autoridade do Departamento de Estado americano para Recursos Energéticos, afirmou em evento sobre gás natural em Washington que é preciso “garantir que não se repita” nos setores de energia eólica, nuclear e hidrogênio “o que acontece na área de células solares e wafers de silício, na qual a China tem essencialmente um monopólio em vários elementos da cadeia de produção”. Wafer de silício é o nome dado no setor para a lâmina de silício usada nos módulos solares.

“Temos de ter muito cuidado para não substituirmos uma era de dependência europeia do petróleo e do gás russos por dependência coletiva da tecnologia limpa e minerais críticos da China”, afirmou.

Preocupação similar tem ocorrido na Europa, principal destino das exportações de carros elétricos da China —8 em cada 10 carros chineses para exportação em 2021 foram para o mercado europeu, segundo dados da AIE (Agência Internacional de Energia).

No fim do ano passado, a Comissão Europeia abriu investigação para avaliar a imposição de tarifas punitivas de importação para proteger fabricantes europeus contra os veículos chineses —incluindo não apenas a maior empresa do mundo do setor, a BYD, mas também outras marcas fabricadas no país, como Tesla, BMW e Renault.

“Os mercados globais agora estão inundados com carros elétricos mais baratos. E seu preço é mantido artificialmente baixo por enormes subsídios estatais”, disse a presidente do órgão, Ursula von der Leyen.

A China detém hoje 75% da capacidade de produção de baterias de íon-lítio, usadas nos veículos elétricos somando 1,2 TWh, segundo a AIE. Para se ter uma ideia, todo o restante do mundo somado chega a 0,37 TWh. E a expectativa é de expandir ainda mais, com a China chegando a 4,65 TWh em 2030.

Mas o principal setor de domínio tecnológico e de mercado da China é a energia solar, com 80% do mercado de componentes e de módulos solares prontos, segundo análise da consultoria britânica Wood Mackenzie.

No ano passado, o país investiu US$ 130 bilhões no setor, de acordo com a empresa, após incrementar não só a capacidade de atender à demanda externa como também a interna.

Isso porque a China é também o maior poluidor do planeta e tem investido em tecnologia para limpar a própria matriz energética. Com esse investimento, a partir deste ano deve começar a baixar de forma consistente as emissões de dióxido de carbono, segundo estudo da organização europeia Crea (Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo).

Só em 2023, a China instalou mais painéis solares do que os EUA em toda a sua história, De acordo com a Administração Nacional de Energia do país, no ano passado o país acrescentou 216,9 gigawatts à sua capacidade de geração em energia solar. Para se ter uma ideia, em 2022 o acréscimo, já recorde, havia sido de 87,4 gigawatts.

O montante em 2023 na China é maior do que toda a capacidade dos Estados Unidos, que é de 175,2 GW.

Dados da AIE deixam clara a expansão da capacidade chinesa na última década. Em 2010, a China produzia 55,7% dos módulos solares do mundo. Em 2021, isso saltou para 74,7%. Movimento similar se deu com os componentes dos módulos, como os wafers e o polissilício.

Essa expansão foi motivada não apenas pela exportação, mas também pela explosão da demanda do mercado interno do país, que anunciou meta para atingir neutralidade de carbono em 2060. Em 2010, 3,5% da demanda global por módulos solares vinha da China. Em 2021, essa proporção saltou para 36,4%.

De acordo com a Wood Mackenzie, o módulo solar produzido na China é hoje 50% mais barato do que se fosse feito na Europa e 65% mais barato do que nos Estados Unidos.

No Brasil, segundo estimativa da Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), a diferença é também de 50% —ou seja, painéis fabricados nacionalmente custam o dobro dos chineses.

“Em razão de políticas públicas industriais, a China tem um hub industrial muito significativo e produz todos os componentes utilizados em painéis. Se um fabricante brasileiro quer montar um módulo aqui no Brasil, ele tem de importar praticamente todos os componentes, o vidro, a célula, os componentes elétricos. E paga imposto em cima dessa matéria-prima”, diz Rodrigo Sauaia, presidente-executivo da Absolar.

Os riscos de se concentrar um importante setor da economia em um único país ficaram evidentes na pandemia, quando as políticas de Covid zero ao longo de 2021 e 2022 fecharam fábricas na China, e na Guerra da Ucrânia, quando parte da Europa dependia de gás natural russo.

“É sempre arriscado que um fornecimento crítico de energia esteja fortemente concentrado em um único país, como vimos na recente crise energética na Europa”, diz à Folha Elissa Pierce, pesquisadora da Wood Mackenzie. “Mas será quase impossível para os países investirem em energia solar a curto prazo sem usar produtos chineses.”

Ela cita queda na instalação de módulos solares na Europa após a União Europeia adotar barreiras antidumping e anti subsídios, entre 2013 e 2018. Após a remoção de barreiras, as instalações passaram de 11 GW em 2018 para 23 GW em 2019, afirma.

Países como Índia, Turquia e EUA restringem a importação de componentes chineses para incentivar a produção doméstica, mas ainda dependem da importação de polissilício, wafers e células, diz ela. Mesmo quem tem acesso a esses materiais depende de outros insumos chineses, como vidro temperado e molduras de alumínio.

O governo chinês disse publicamente que considera proibir a exportação maquinários usados para produzir insumos.

“A China já detém 96% da capacidade global de fabricação de wafers e isso, sem dúvida, tornaria ainda mais difícil para outros países construir sua própria capacidade. Este é o grande risco de depender da tecnologia de um único país”, diz Pierce.

A América Latina se tornou um dos principais polos de investimento chinês em energia limpa.

Segundo análise do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), há 35 usinas solares e eólicas de empresas chinesas em operação, construção e planejamento no Brasil, na Argentina, no Chile, na Colômbia e no México.

Entre 2019, diz o Ipea, a capacidade eólica controlada por empresas chinesas na região passou de 1,6 GW para 3,2 GW. A capacidade solar, por sua vez, quadruplicou, de 363 MW para 1,4 GW.

“A China, como o Brasil e outros países dos Brics, tem um projeto de ganhar mais espaço na governança global. O investimento em energia limpa é uma maneira de influenciar no debate global”, diz à reportagem um dos autores do estudo, Marco Aurélio Alves de Mendonça.

“A China investe muito em hidrelétricas no exterior, mas em países pequenos muitas vezes isso não é viável. E aí pequenas fazendas eólicas e fotovoltaicas acabam resolvendo muitos dos problemas reais nesses países”, afirma.

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2024/02/investimentos-em-energia-limpa-aumentam-dependencia-da-china-lider-na-cadeia-de-suprimentos.shtml

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Trem hiperloop ‘flutuante’ da China atinge velocidade recorde de 622 km/hora, e quer superar aviões

Época Negócios – 01/03/2024 

Época Negócios – Durante mais de um século, os humanos confiaram nos aviões para reduzir drasticamente o tempo das viagens domésticas. Mas imagine embarcar em um trem que leva você ao seu destino ainda mais rápido do que qualquer avião comercial.

Essa é potencialmente a realidade que aguarda a China nas próximas décadas, à medida que o país atinge um marco importante na tentativa de introduzir viagens ferroviárias de alta velocidade.

Seu trem ‘T-Flight’ atingiu uma velocidade recorde de 622 km/hora em uma pista de teste curta – ainda mais rápido que o MLX01 Maglev do Japão (430 km/h). O Eurostar atinge 300 km/h e a maioria dos trens do Reino Unido opera a cerca de 200 km/h.

No entanto, os engenheiros chineses esperam que, uma vez comercializado, ele atinja impressionantes 2.000 km/h – muito mais rápido que a velocidade do som e mais que o dobro da velocidade de um avião Boeing 737. Seria ainda mais rápido do que a mais recente aeronave experimental de alta velocidade da NASA, o X-59, que a agência afirma ser capaz de voar a 1.500 km/h.

A esta velocidade, o trem T-Flight poderia ir de Wuhan a Pequim em apenas 30 minutos, em vez de mais de quatro horas, como os atuais trens de alta velocidade. Hoje, existe um outro trecho com sistema maglev na China, de 30 quilômetros, inaugurado em 2002 em Xangai, conecta o Aeroporto Pudong de Xangai e o centro da cidade e custou mais de £ 1 bilhão para ser construído. Na linha, os trens percorrem até 431 quilômetros por hora.

O T-Flight usa tecnologia de levitação magnética (maglev, ou magnetic levitation, “levitação magnética”), onde ímãs são usados para levantar os vagões acima da pista, permitindo-lhes deslizar perfeitamente. Isso elimina a necessidade de rodas e, portanto, qualquer incidência de atrito, proporcionando um serviço mais rápido e silencioso.

O T-Flight seria um trem hyperloop, o que significa que transportaria pessoas em alta velocidade em tubos entre locais distantes. O conceito – proposto pela primeira vez em 1910 pelo engenheiro norte-americano Robert Goddard – recebeu interesse renovado em 2013, devido ao interesse do bilionário Elon Musk em construir algo semelhante nos Estados Unidos.

Numa segunda rodada de testes, os chineses pretendem estender a pista em mais de 30 vezes para que possa atingir velocidades mais rápidas, relata a WordsSideKick.com. Em última análise, o seu objetivo é construir um sistema de metrô entre Wuhan e Pequim – uma distância de mais de 1055 quilómetros –, o que poderia reduzir o tempo de viagem de quatro horas para meia hora.

No entanto, isto pode demorar muitas décadas para acontecer, devido aos custos altíssimos e questões de infraestrutura.

Fonte: https://epocanegocios.globo.com/tecnologia/noticia/2024/02/trem-hiperloop-flutuante-da-china-atinge-velocidade-recorde-de-622-kmhora-e-quer-superar-avioes.ghtml

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A Apple se tornou o patinho feio dos gigantes da tecnologia

Com queda na receita, companhia precisa provar que não ficou para trás na corrida da IA

Por Fábio Alves (Broadcast ) – Estadão – 03/03/2024 

Depois que a Apple anunciou o cancelamento do projeto para construir seu carro elétrico, realocando boa parte dos cerca de 2 mil funcionários dessa área para a divisão de inteligência artificial (IA), muitos analistas começaram a fazer a seguinte pergunta: será que agora o preço das ações da fabricante do iPhone vai subir na mesma magnitude de alta que as outras gigantes do setor tecnológico?

Em 2023, as ações da Apple subiram 49%, mas tiveram o pior desempenho entre as chamadas “sete magníficas” (Apple, Meta, Nvidia, Tesla, Google, Microsoft e Amazon). Só o papel da Nvidia, por exemplo, disparou 240% no ano passado, maior ganho do índice S&P 500.

E neste ano, no acumulado até o pregão de quinta, as ações da Apple caíam 5,77%, enquanto o índice Nasdaq registrava uma alta acumulada de 6,24%. O ganho da Nvidia em 2024, até ontem, era de 56,83%.

Ou seja, a Apple deixou de ser apenas o “patinho feio” das “sete magníficas”. Diante do desempenho da ação neste ano, a Apple enfrenta um desafio duro para superar as desconfianças dos investidores sobre dois pontos importantes.

O primeiro é como irá reverter a tendência de queda nas receitas registrada nos últimos quatro trimestres. O segundo ponto é como a Apple apagará a impressão entre analistas e investidores de que ficou bem para trás na corrida para liderar os resultados e benefícios com a IA, algo que a Nvidia já vem sendo recompensada apresentando receitas recordes nos seus balanços com a venda dos seus chips, descritos como “aceleradores de IA”.

Não à toa, durante uma reunião anual com os seus acionistas, o CEO da Apple, Tim Cook, enfatizou repetidamente que a empresa está investindo “significativamente” em IA.

“Vemos um incrível potencial para avanços na IA generativa, motivo pelo qual estamos atualmente investindo significativamente nessa área”, disse Cook.

Na prática, contudo, a Apple até agora não apresentou nada de concreto ao mercado nessa área, como o ChatGPT, da OpenAI, ou o Gemini, do Google. Os investidores vão querer ver algum anúncio concreto de produto ou de projeto na área de IA neste ano, caso contrário as ações da Apple poderão sofrer uma correção maior.

Isso porque as vendas da empresa têm ficado abaixo das expectativas dos investidores. No ano fiscal de 2023, encerrado em setembro do ano passado, a Apple reportou receitas de US$ 89,5 bilhões, numa queda de 1% em relação ao ano anterior. Foi o quarto trimestre consecutivo de queda nas vendas, no maior período de declínio de receitas desde 2001.

Outro sinal de problema: em 2023, a Apple não lançou novos modelos de iPad, ao contrário do que sempre aconteceu desde que esse produto foi lançado, em 2010. E não só isso: vendas de “laptops” e de computadores Mac registraram queda de quase 27%, para US$ 10,2 bilhões, no ano fiscal de 2023.

Portanto, a decisão de encerrar o Projeto Titan, como era chamado o projeto para a construção do seu carro elétrico, animou muitos analistas.

O analista da Wedbush, Daniel Ives, disse que a decisão de “arrancar o band-aid do projeto Titan e focar em projetos de IA generativa” é claramente o melhor movimento que a Apple pode seguir. Ives ainda mantém uma recomendação de “outperform” (equivalente a compra) para as ações da Apple, com uma projeção de preço-alvo em 12 meses de US$ 250 (ante a cotação de US$ 181,42 na quarta-feira).

O fato é que a Apple corre contra o tempo para tentar alcançar as outras “sete magníficas” na corrida pela liderança na IA. Muitos esperam, por exemplo, o lançamento de novos modelos de iPhone com capacidade e funções que proporcionem aos consumidores a experiência de IA que outras gigantes tecnológicas já oferecem. Agora, é esperar para ver

Análise por Fábio Alves

Colunista do Broadcast

https://www.estadao.com.br/link/empresas/a-apple-se-tornou-o-patinho-feio-dos-gigantes-da-tecnologia

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