Redes sociais passam por transformações que devem mudar nossa relação com a internet

É impossível dizer como devem ser as plataformas do futuro, mas é certo dizer que não vão ser como as de antes

Por Pedro Doria – Estadão – 26/10/2023

Uma série de transformações podem vir a mudar por completo nossa relação com as redes sociais. Por um lado, há um movimento coletivo do Vale do Silício de se distanciar do jornalismo. Em paralelo, há outro movimento silencioso — o das pessoas se retraindo mais. Se mostrando menos. Some-se à proliferação de novas redes, uma fragmentação generalizada de plataformas. Há algo novo no ar.

A proposta inicial era de aproximar a todos: quem juntasse a maior quantidade de pessoas tenderia a vencer o jogo. Ou seja, a rede ideal seria aquela onde amigos do tempo da escola ou faculdade, colegas de trabalho, conhecidos do clube, torcedores de um mesmo time, todos se encontrariam. De alguma forma houve uma vencedora desta corrida. O Facebook.

Mas a busca por um modelo de negócios que sustentasse a estrutura terminou por derrubar o conceito inicial. Afinal, a ideia de um lugar onde todos se encontram teve de ceder espaço à de promoção artificial de engajamento para vender publicidade. Foi em 2012 — é quando algoritmos de inteligência artificial assumiram as rédeas de Facebook e Twitter. Esse editor digital tem o trabalho de descobrir o que deixa a todos ligados, aquilo que gera ansiedade de voltar e, em essência, manipula emocionalmente para expor publicidade.

Com o tempo, o ambiente se tornou desagradável. Ao distribuir para milhões conteúdos inflamáveis e esconder tanto aquilo que não desperta emoções fortes, o convívio cotidiano nas redes ficou desagradável para mais e mais pessoas.

As redes são cada vez menos sociais, cada vez mais de entretenimento

Não foi só por causa do algoritmo. Conversar o tempo todo com o mundo não é natural. Nunca na história estivemos em assembleia permanente, convocados a opinar sobre assuntos de toda sorte. A soma de tudo trouxe dois resultados. O primeiro é um grupo de usuários que publica disciplinadamente, com o intuito de transformar a presença digital em renda. O segundo é o de que todo o resto está cada vez mais tímido, mais ausente. Perfis fechados tornam-se comuns. As redes são cada vez menos sociais, cada vez mais de entretenimento.

Estresse nas plataformas levou a uma onda de concorrência. Primeiro, de TikTok e Kwai. Depois, nas redes de texto, de BlueSky, Mastodon e finalmente Threads. A proliferação está lentamente gerando redes parecidas frequentadas por públicos diferentes. Há fragmentação do espaço.

Legislação que obriga plataformas digitais a pagarem pelo jornalismo que publicam foi o incentivo final para que o Vale do Silício tomasse a decisão de se afastar do ramo das notícias. Entre os executivos, parte da esperança é de que o ambiente desestresse. Mas será preciso convencer as pessoas a conversarem sobre temas não relacionados ao que ocorre no dia a dia.

Ainda é impossível dizer que ambiente ficará. Mas as redes como ficarão não são como as do tempo da sua avó.

https://www.estadao.com.br/link/pedro-doria/redes-sociais-passam-por-transformacoes-que-devem-mudar-nossa-relacao-com-a-internet/

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A evolução da responsabilidade socioambiental global na cadeia de fornecimento e as implicações para empresas brasileiras

Márcio Pereira, Fernanda Tanure, Marina Maciel e Giovanna Lino, advogados do BMA, comentam neste artigo sobre a obrigação da devida diligência na cadeia de fornecimento

Por Márcio Pereira, Fernanda A. Tanure, Marina Maciel e  Giovanna Lino, Para o Prática ESG (*) — Valor – 25/10/2023 

Dentre as iniciativas ESG (sigla para se referir a questões ambientais, sociais e de governança corporativa) , destaca-se um fenômeno global de regulamentação da obrigação das empresas realizarem a devida diligência na cadeia de fornecimento, garantindo a integridade de toda a sua cadeia de fornecimento.

Estudo publicado em 2020 na Harvard Business Review mostra algumas alternativas para o desenvolvimento de práticas ESG em cadeias de suprimentos, bem como aponta que o principal erro das organizações é focar no seu fornecedor chamado de “top-tier”, isto é, de “primeira linha”, quando, na realidade, o maior risco vem da parte mais baixa da cadeia. A ideia é, assim, que cada empresa demande de seu fornecedor direto que atenda a essas práticas, e que estes, por sua vez, demandem o mesmo de seus fornecedores diretos, criando um efeito cascata de diligência.

Na comunidade europeia, o tema passou a ter uma atenção maior em 2017, com a promulgação de lei na França que obriga determinadas empresas nacionais ou empresas estrangeiras que operam no país a realizarem a devida diligência ambiental e de direitos humanos (human rights and environmental Due Diligence – hreDD) nas suas cadeias de suprimentos, bem como a publicarem um Plano de Vigilância anual.

Outro importante marco legislativo ocorreu na Alemanha, no início deste ano, com a entrada em vigor da chamada “Lei de Devida Diligência na Cadeia Produtiva”, que obriga as empresas a estabelecerem um sistema de compliance e gestão de riscos dos impactos socioambientais ao longo das suas cadeias produtivas.

Os efeitos dessa lei repercutem em empresas localizadas em outros países e que têm relação comercial com empresas sujeitas à nova regulamentação sediadas na Alemanha, à medida que as obrigações se desdobrarem ao longo das cadeias de valor. Portanto, é relevante para as empresas brasileiras que travam algum tipo de relação com empresas alemãs, ainda que esta não seja direta.

Visando garantir a sua efetividade, a lei prevê a adoção de garantias contratuais de que os compromissos assumidos deverão ser observados pelos fornecedores direitos, bem como devidamente endereçados por eles aos fornecedores indiretos ao longo da cadeia produtiva. Por isso, ganham especial relevo as cláusulas de Compliance relacionadas a mecanismos de controle, performance socioambiental, critérios de materialidade para medição e reporte, além de incentivos, bônus e sanções.

Recentemente, o Parlamento Europeu aprovou regulamento de grande repercussão, o qual visa proibir importações no bloco econômico de commodities e produtos agrícolas que decorram de áreas desmatadas. Dentre os produtos contemplados destacam-se gado, óleo de palma, soja, madeira, cacau, café e borracha, além de chocolate, móveis de madeira, papel impresso e outros produtos feitos com as commodities mencionadas.

O regulamento entrará em vigor a partir do dia 30 de dezembro de 2024 e prevê a necessidade da realização do dever de diligência para a exportação dos produtos que especifica, devendo ser observados, necessariamente: (i) o cumprimento das normas do país de origem; (ii) se a cadeia de produção não importa em desmatamento ou degradação florestal desde 2021; e, (iii) a observância aos direitos humanos e das comunidades indígenas.

Diante do movimento para se impor a responsabilidade socioambiental na cadeia de fornecimento, um crescente número de empresas multinacionais passa a se comprometer a ter em sua cadeia de fornecedores somente parceiros que comprovadamente aderem aos padrões por elas estabelecidos. Tais medidas impactam diretamente países exportadores de commodities, como o Brasil, sendo que as empresas exportadoras já estão se mobilizando, por meio de associações setoriais, para estabelecer uma governança comum de monitoramento da regularidade das atividades, observados os devidos cuidados em termos de legislação concorrencial e transparência.

Sobre os autores

Márcio Pereira é sócio da área Ambiental e Mudanças Climáticas do BMA Advogados

Fernanda A. Tanure é sócia da ára Ambiental e Mudanças Climáticas do BMA Advogados

            Marina Maciel é advogada da área Ambiental e Mudanças Climáticas do BMA Advogados

           Giovanna Lino é advogada da área Ambiental e Mudanças Climáticas do BMA Advogados

https://valor.globo.com/empresas/esg/artigo/a-evolucao-da-responsabilidade-socioambiental-global-na-cadeia-de-fornecimento-e-as-implicacoes-para-empresas-brasileiras.ghtml

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Com avanço de carros elétricos, demanda global por petróleo vai parar de crescer nesta década, diz AIE

Agência Internacional de Energia prevê pico do consumo de combustíveis de origem fóssil até o fim dos anos 2020 e o início de um período de estabilidade enquanto avança a transição energética

Por Bloomberg/O Globo 24/10/2023 

A Agência Internacional de Energia (AIE) previu hoje, pela primeira vez, que a demanda mundial por petróleo atingirá o pico nesta década, diante da popularidade crescente dos carros elétricos e da desaceleração da economia da China.

O pico, que a agência também prevê para o carvão e para o gás natural, não significa que uma rápida queda no consumo de combustíveis fósseis seja iminente. O ápice da demanda provavelmente será seguido por uma estabilização oscilante que durará muitos anos, e as emissões permanecerão elevadas demais para limitar o aquecimento global a apenas 1,5ºC, afirmou a AIE.

O consumo mundial de petróleo chegará a 102 milhões de barris por dia até o fim da década de 2020, caindo para 97 milhões até meados do século, de acordo com o cenário base do relatório anual de perspectivas da AIE divulgado nesta terça-feira.

“A transição para a energia limpa está acontecendo em todo o mundo e não tem volta”, disse o diretor-executivo da agência, Fatih Birol, em comunicado. “Alegações de que o petróleo e o gás representam escolhas seguras para o futuro energético e climático do mundo parecem menos convincentes do que nunca.”

Opep tem visão diferente

A visão da AIE, que assessora as nações desenvolvidas em matéria de política energética, contrasta com as previsões da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). A entidade prevê que a demanda por petróleo continuará a crescer nas próximas décadas, atingindo 116 milhões de barris por dia em 2045.

A demanda por petróleo na indústria petroquímica, aviação e transporte marítimo continuará a aumentar até 2050, mas não será suficiente para compensar o consumo menor para transporte rodoviário diante de um “aumento surpreendente nas vendas de veículos elétricos”, afirmou a AIE.

China vai reduzir demanda

A China, que durante anos impulsionou o crescimento do consumo global de petróleo, verá o seu consumo enfraquecer nos próximos anos, de acordo com o relatório. “Estamos no caminho certo para ver o pico de todos os combustíveis fósseis antes de 2030”, afirmou a AIE.

É a primeira vez que todos os cenários elaborados pela agência sediada em Paris apontam para um declínio próximo do consumo de hidrocarbonetos.

https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2023/10/24/com-avanco-de-carros-eletricos-demanda-global-por-petroleo-vai-parar-de-crescer-nesta-decada-diz-aie.ghtml

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O balanço entre a potência das comunidades e o risco das bolhas

Paulo Emediato – Fast Company Brasil – 21-09-2023 

Em uma era de hiperconexão e volatilidade, a capacidade de estabelecer relacionamentos e a flexibilidade cognitiva para se adaptar é fundamental. As comunidades representam um oásis de estabilidade diante de mudanças cada vez mais aceleradas.

Elas se tornaram nossos norteadores, portos seguros em meio à tempestade de informações. Esses agrupamentos proporcionam apoio, validação e uma sensação inestimável de pertencimento. 

Tanto no conclamado ecossistema de inovação como na interação humana em geral, grupos organizados por afinidade servem como faróis de suporte, conhecimento (nem sempre) e identidade.

Mas, como a diferença entre veneno e remédio muitas vezes está na dose, também existem desafios e riscos que pretendo explorar um pouco mais adiante. 

O INEGÁVEL PODER DO COLETIVO

As comunidades são tesouros compartilhados. Dentro delas, nos encontramos envolvidos em um mar de experiências, desafios e objetivos comuns. Por mais peculiar que seja um grupo, ele se beneficia da dinâmica segmentada, encontrando camaradagem, aprendizado mútuo e, mais importante, acolhimento para suas ideias.

As comunidades representam um oásis de estabilidade diante de mudanças cada vez mais aceleradas.

Empreendedores, líderes e profissionais, quando imersos em suas respectivas comunidades, têm acesso a experiências compartilhadas como se cada membro trouxesse uma peça para um mosaico.

O valor desta conexão vertical é inquestionável: leva à especialização, dá profundidade ao conhecimento, promove oportunidades e recursos. Você está cercado por pessoas que falam sua língua, que “entendem” as nuances do seu domínio.

Essas conexões, embora incrivelmente enriquecedoras, vêm com uma ressalva: o risco de se tornarem câmaras de eco, onde suas ideias são sempre recebidas com aplausos.

BOLHAS E EFEITO ECO

Por outro lado, mergulhar muito fundo em uma comunidade pode, paradoxalmente, limitar nosso campo de visão. Entramos no reino das “bolhas”, onde nos cercamos apenas de vozes e opiniões semelhantes. Isso nos leva ao groupthink, ou “pensamento de manada”, um cenário perigoso, que mata a inovação e inibe a criatividade, onde as ideias são repetidamente reforçadas sem questionamento.

Dentro da comunidade, nos encontramos envolvidos em um mar de experiências, desafios e objetivos comuns.

Esse fenômeno, também conhecido como “efeito eco”, cria câmaras de ressonância, amplificando certos pontos de vista e silenciando outros. Nos tornamos refratários à diferença e a qualquer coisa que ameace a ordem estabelecida no contexto já criado. O custo da mudança aumenta e nos induz aos padrões do coletivo.

Comunidades online podem abranger geografias e culturas, o que ajuda a mitigar alguns aspectos do efeito bolha. No entanto, plataformas digitais exacerbam câmaras de eco devido à curadoria algorítmica de conteúdo. Assim, embora ofereçam acesso amplo, o desafio permanece em buscar ativamente feedback diversificado. 

INTERAÇÕES: VERTICAIS x HORIZONTAIS

Agora, imagine a diferença entre mergulhar em um poço e se estender por um campo. As interações verticais são o poço, indo mais fundo em uma área de conhecimento ou indústria. Por outro lado, as horizontais expandem nossa rede através de diversos campos e disciplinas, oferecendo a degustação de perspectivas diversas.

mergulhar muito fundo em uma comunidade pode, paradoxalmente, limitar nosso campo de visão.

Comunidades podem operar de ambas as formas, como uma dinâmica constante de troca horizontal ou um aprofundamento especializado.

Verticais: são interações que ocorrem dentro de uma indústria ou domínio específico. Elas permitem que as pessoas aprofundem seu conhecimento em uma área particular, tornando-se especialistas. Tais interações são cruciais para entender as nuances e detalhes de um setor ou tema e para construir uma base sólida de expertise.

Horizontais: se referem a interações que acontecem entre diferentes indústrias ou domínios. Elas são a porta de entrada para insights interdisciplinares e inovações que podem ser aplicadas de um campo de conhecimento para outro. As interações horizontais ampliam o escopo de compreensão e abrem oportunidades para abordagens inovadoras.

A BELEZA DA CURIOSIDADE TRANSVERSAL

É aqui que é importante resgatar o conceito de “get out of the building” ou “saia do prédio”, intimamente associado à metodologia lean startup, popularizada por Steve Blank e Eric Ries.

Por mais que tenha se tornado um jargão “startupeiro”, essa abordagem não foi criada ontem, por força de moda. Em sua essência, enfatiza a importância de interagir com potenciais clientes fora dos limites da sua empresa para realmente entender suas necessidades, desejos e desafios.

o crescimento verdadeiro muitas vezes ocorre na intersecção entre o familiar e o desconhecido.

O que vale entre empresas e clientes se aplica a outras relações e contextos sociais. Inspirado em práticas etnográficas da antropologia, este mantra de ir a campo nos impulsiona a explorar, questionar e interagir com mundos fora de nossos círculos habituais.

Não é apenas sobre coleta de dados, mas sobre alimentar uma “curiosidade transversal”, um desejo de compreender contextos diferentes dos nossos.

É isso que nos permite confrontar suposições e realidades, descobrir e nos conectar com os contextos e motivações dos outros e trabalhar a nossa plasticidade para navegar fora do contexto que nos deixa confortáveis. 

HARMONIZANDO PROFUNDIDADE E DIVERSIDADE

As comunidades, sem dúvidas, favorecem muitas inovações e avanços, tanto individuais quanto coletivos. No entanto,

ir a campo nos impulsiona a explorar, questionar e interagir com mundos fora de nossos círculos habituais.

para verdadeiramente crescer, precisamos exercitar a curiosidade, expandir horizontes e desafiar nossas próprias suposições.

Em outras palavras, precisamos de um equilíbrio harmonioso entre a especialização que as comunidades oferecem e a perspectiva ampla que o mundo fora da bolha nos proporciona. Um dos caminhos possíveis pode ser: 

  • Ancore-se primeiro em sua comunidade especializada. Construa credibilidade, adquira expertise no domínio e forme uma base sólida.
  • Uma vez bem preparado, aventure-se. Engaje-se com diferentes indústrias, participe de debates variados e absorva perspectivas diversas. Pense nisso como enriquecer sua biblioteca com os mais diversos autores, histórias e personagens. 
  • A magia muitas vezes está em mixar. Una seus insights profundos de domínio com perspectivas amplas e inter-trans-multidisciplinares. Essa fusão frequentemente gera  insights mais criativos e caminhos inovadores.
  • Inclua ambos os grupos para feedback. Suas conexões verticais fornecem uma lupa, enquanto as horizontais oferecem uma visão panorâmica.

Então, da próxima vez que você se encontrar imerso em conversas e ideias familiares, dê um passo atrás, respire fundo e pergunte-se: “Estou realmente vendo o quadro completo?”.

E lembre-se, o crescimento verdadeiro muitas vezes ocorre na intersecção entre o familiar e o desconhecido.


SOBRE O AUTOR

Paulo Emediato

Paulo Emediato vivencia a inovação na prática, de diferentes formas, desde 2012. Com mais de 15 anos de experiência corporativa, já empreendeu em novas jornadas de aprendizado e conduziu desafios em mais de 100 organizações, enquanto Managing Partner da DesignThinkers Group no Brasil. Hoje, lidera a área de marketing e engajamento com o ecossistema na Oxygea – veículo de Corporate Venture Capital, Venture Building e aceleração – com foco em sustentabilidade e transformação digital na indústria. Também é professor convidado na Miami Ad School e criador da newsletter Marmitex.Sua formação inclui programas executivos na Stanford Graduate School of Business (EUA) e na Hebrew University (Israel). É pós-graduado em gestão pela Fundação Dom Cabral e graduado em comunicação pela PUC Minas.

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Preços da Shein mudam e varejo brasileiro acirra competição. Quem ganha?

Distância entre preços diminui; mercado aponta que empresa da Bolsa está mais preparada para competir

Daniel Rocha  – Estadão – 23/10/2023

  • Os preços de uma cesta com oito produtos da Shein subiram 6,7% nos meses de abril a outubro
  • O aumento acontece em decorrência da cobrança de 17% do ICMS, imposto de âmbito estadual
  • Já as varejistas brasileiras conseguiram reduzir em até 15% os preços de seus produtos durante o mesmo período

Desde que a Shein caiu no gosto dos brasileiros, as varejistas do País ficaram preocupadas com a presença da nova concorrente no mercado local. Os preços praticados pela marca chinesa bem abaixo da média nacional adicionaram ainda mais pessimismo entre os investidores com a capacidade de recuperação das varejistas locais devido ao cenário de juros elevados e à alta inadimplência dos brasileiros. No entanto, a boa notícia é que a diferença de preço da Shein para as outras marcas nacionais caiu nos últimos meses, o que pode aliviar a pressão da concorrência nas ações do setor.

Qual varejista perderá mais na concorrência com chinesas na Black Friday?

Segundo relatório do BTG Pactual, uma cesta com oito produtos da Shein custava em média R$ 648 em abril deste ano. Ao avaliar os mesmos itens em outubro, os analistas do banco identificaram uma elevação nos preços. Isso porque os mesmos produtos estavam sendo vendidos por R$ 692, o que representa uma alta de 6,7% durante os últimos seis meses. O aumento aconteceu no mesmo período em que a fiscalização da cobrança dos impostos de produtos vindos do exterior ficou mais rigorosa no Brasil.

Em abril, as varejistas nacionais e entidades do setor alegaram que as remessas importadas vendidas pelas plataformas estrangeiras de e-commerce, como a Shein, não estavam sendo tributadas pela Receita Federal como prevê a legislação. Os grupos ressaltavam que a ausência de fiscalização ajudava a criar uma concorrência desleal no mercado nacional.

Segundo a Receita Federal, nas compras de itens importados, os consumidores eram obrigados a pagar a alíquota de 60% em cima do valor aduaneiro (custo do produto + custo do frete + seguro) para compras de até US$ 3 mil. A isenção do tributo só acontecia para os produtos no valor de até US$ 50 entre pessoas físicas e que não configurassem uma transação comercial. Com o aumento da fiscalização, os itens quase dobraram de preço.

Para amenizar esse efeito, o governo federal lançou o programa Remessa Conforme, que retirou a alíquota de importação para as empresas que aderirem. Apenas a cobrança de 17% do Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias (ICMS), de âmbito estadual, foi mantida, como mostramos nesta reportagem. Nesse meio tempo, a Shein informou que pretende iniciar produção no Brasil. A ideia da marca é adquirir 80% dos produtos localmente e importar apenas 20% da China.

Enquanto os preços da Shein subiram, as varejistas nacionais conseguiram tornar os seus itens mais acessíveis ao bolso do consumidor. Ao comparar a mesma cesta de produtos, o BTG Pactual identificou uma queda de 15,4% na Riachuelo (GUAR3), de 13,7% na Lojas Renner (LREN3) e de 10,7% na C&A (CEAB3) entre os meses de abril e outubro. A variação contribuiu para reduzir a diferença de preços entre as marcas.

Ainda assim, de acordo com o banco, os itens da Shein estão atualmente 26% mais baratos do que os da Renner, 22% mais baratos do que os da Riachuelo e 17% mais baratos do que os da C&A. Em abril, ao comprar os mesmos itens disponíveis na Shein em lojas nacionais, os brasileiros desembolsavam cerca de 40% a mais nas Lojas Renner e 34% na C&A e na Riachuelo.

Para os próximos meses, a tendência é que essa diferença se reduza ainda mais devido ao “custo Brasil”. “Junto com um potencial aumento de tributação, a Shein deve competir nas mesmas condições (ou pelo menos mais próximas) que as varejistas locais e que enfrentam desafios semelhantes em aumentar a capacidade de produção local”, escreveram os analistas Gabriel Disselli, Luiz Guanais e Pedro Lima em relatório.

 Shein menos competitiva?

O aumento dos custos dos preços da marca chinesa torna a empresa menos competitiva em relação às outras varejistas locais. Por outro lado, a estratégia utilizada pela Shein para atender a demanda dos brasileiros continua sendo o seu principal diferencial. Segundo Gustavo Cruz, estrategista chefe da RB Investimentos, a plataforma se mostra mais eficiente ao estudar o seu público-alvo e antecipar tendências de forma mais rápida do que as varejistas brasileiras.

“O poder de inteligência de trabalho de dados é um diferencial da Shein, que está muito à frente das empresas brasileiras. A marca consegue trabalhar com base de dados de fora para prever as tendências no Brasil”, diz Cruz. A característica traz um alerta aos investidores monitorarem as marcas brasileiras nos próximos trimestres.

Por enquanto, os analistas avaliam a Lojas Renner como a principal concorrente da marca chinesa. Na avaliação de Gabriel Bassotto, analista chefe de ações do Simpla Club, a companhia possui lojas espalhadas pelos principais shoppings brasileiros, tem uma cadeia logística eficiente e dispõe de tecnologia aplicada em seus negócios.

Vale destacar ainda que, segundo um levantamento do TradeMap, nos anos de 2010 a 2020, a varejista conseguiu entregar um retorno sobre patrimônio líquido (ROE) médio anual, indicador que mede a capacidade da companhia em gerar lucro aos acionistas, acima de 20%. O retorno seguiu elevado mesmo nos anos de 2015 e 2016, quando a Selic estava cravada no patamar de 14,25% ao ano. Veja os detalhes nesta reportagem.

“Apesar disso tudo, não quer dizer que a empresa vai ser totalmente defensiva. Por que se a Shein apresentar uma logística mais eficiente e inaugurar lojas físicas, pode acabar com a principal vantagem da Renner”, afirma Bassotto. Ou seja, a tendência é que a competição fique ainda mais acirrada no longo prazo.

Qual é a recomendação?

Diante desse cenário, os analistas de mercado aconselham aos investidores que busquem se posicionar em ações voltadas para o público de alta renda. Lucas Rietjens, analista da Guide Investimentos, cita os papéis da Vivara (VIVA3), devido à liderança de mercado.

“É uma empresa resiliente porque consegue crescer independente do cenário econômico por estar exposto a um segmento de mercado com ticket médio elevado”, diz Rietjens. Por essa razão, a Guide mantém recomendação de compra para a companhia, com um preço-alvo de R$ 30.

A RB Investimentos também possui recomendação de compra das ações da Track&Field (TFCO4) por enxergar a companhia menos exposta à concorrência de preço da Shein. “Quem compra dessas lojas se preocupa menos com o preço do que os consumidores de uma C&A e Renner”, afirma Cruz.


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A atenção humana foi hackeada e isso tem afetado a sua vida

A economia da atenção está fragmentando as percepções de mundo, a produtividade e as experiências com uma enxurrada de informações geradas por diferentes meios e a todo momento.

by Genesson Honorato – MIT Technology Review – agosto 11, 2023

Alguém já deve ter dito ou ouvido outra pessoa dizer que o tempo está voando, passando rápido demais. Quando param para prestar atenção, já passou o primeiro quarter, a metade do ano, então já é Natal. A boa notícia é que não, o ano não está passando mais rápido, o dia continua tendo 24 horas e os meses e semanas são os mesmos. Já a má notícia é que a percepção do tempo está fragmentada, porque a atenção humana virou o produto mais concorrido do planeta e isso tem nome: Economia da Atenção — termo cunhado pela primeira vez pelo economista, psicólogo e cientista político Herbert Alexander Simon na década de 1970, que explica como a atenção virou algo a ser capitalizado e transformado em mercadoria.  

Vale ressaltar que toda essa inovação (e manipulação) de ponta, já era debatida mesmo quando o primeiro protótipo de internet, a Arpanet (Advanced Research Projects Agency Network), tinha apenas dois anos de idade. Ou seja, Alexander Simon chegou a essa conclusão antes mesmo da invenção de fato da internet como é conhecida hoje, levantando inúmeras discussões sobre os rumos que a sociedade poderia tomar. Esse viés econômico atrelado à atenção tem afetado a vivência coletiva de variadas formas, seja na família, na relação com os amigos, na maneira como os conhecimentos são apreendidos ou no trabalho, onde as pessoas passam grande parte de suas vidas.  

Uma breve olhada no celular durante uma tarefa importante e lá se foi a sua atenção, hackeada por uma rede social ou por uma informação irrelevante para a sua vida naquele momento. E, com isso, minutos ou horas preciosas se foram. Quando isso acontece, é comum não perceber de primeira o que levou a perder o foco. É comum a pessoa não lembrar o que estava fazendo antes de ter sua atenção capturada pela engenharia sociodigital. É menos provável ainda que ela deixe de repetir o padrão poucos minutos depois de lembrar a atividade que estava desempenhando anteriormente, ainda que essa “pausa” já tenha tomado um longo período de tempo até que essa pessoa consiga se reconectar àquilo que realmente precisava fazer naquele momento.  

Por serem comportamentos rotineiros, é difícil perceber as problemáticas — e, principalmente, as motivações — de a cada dez minutos ou até menos, ter a sua atenção hackeada de diferentes maneiras. Talvez as pessoas ainda não tenham percebido, por exemplo, que o celular é uma arma de desatenção em massa, portada a todo tempo e em todos os lugares.  

O cientista social escocês Johann Hari conta, em um artigo, como o seu sobrinho é aficionado pelas redes sociais, uma reflexão perfeita do quanto as pessoas estão sendo hackeadas pelo uso do celular a todo tempo. Fazendo uma conexão com a cultura sci-fi, parece que se as pessoas não estiverem conectadas em tudo e em todo lugar ao mesmo tempo, como é o caso da protagonista Evelyn Wan do longa metragem ganhador do Oscar, não estarão antenadas e incluídas o suficiente. Quando, na verdade, estão inseridas no multiverso da infodemia, à deriva em um grande fluxo de informações que se espalham pela internet e se multiplicam no scroll infinito da batalha por atenção.  

Hackeamento em bolhas 

O Cambridge Dictionary define o termo “hacking” como a atividade de usar um dispositivo para acessar informações armazenadas em outro sistema sem permissão ou para espalhar um vírus. E, apesar dos seres humanos serem uma das invenções mais incríveis do universo, é importante dizer que somos, sim, passíveis de hackeamento e isso vem sendo feito em larga escala por meio da dopamina gerada pelos likes. 

Existe uma disputa diária e um condicionamento operante para manter a atenção das pessoas virada para a palma de suas mãos. Uma pesquisa realizada pela NordVPN, sobre os hábitos digitais dos brasileiros maiores de 18 anos, trouxe dados impactantes. O estudo mostra que os internautas passam, em média, quatro dias inteiros por semana totalmente conectados. Isso seria o equivalente a 197 dias por ano. E, levando em consideração que a expectativa de vida no país é de cerca de 76 anos, esses dados resultam em um total de 41 anos, três meses e 13 dias. Ou seja, é 54% do tempo de vida gasto em telas. 

Chega a ser assustador pensar que muitas pessoas nem se dão conta do tipo de conteúdo que estão consumindo no período em que estão entregues aos algoritmos. Em síntese, não estão prestando atenção no que estão prestando atenção, uma necessária e urgente metafísica da atenção. Sem tentar encontrar uma resposta, é bem capaz que muitos indivíduos se rendam às tentações dos frequentes lançamentos de novas redes sociais, que tentam superar umas às outras no que diz respeito à atenção.  

Cyber disputa por atenção 

Certa vez o cofundador da Netflix, Reed Hastings, disse que um dos seus principais competidores é o sono das pessoas, sugerindo que ali há um grande tempo a ser hackeado. Ele disse: “pensem bem, quando veem uma série da Netflix e ficam viciados nela, ficam acordados até tarde da noite. Estamos competindo com o sono, na margem. Portanto, trata-se de uma grande quantidade de tempo”. Ou seja, dormir, uma atividade humana central, é um péssimo negócio para a economia da atenção.  

Outro inimigo do sono no Brasil e no mundo é o aplicativo chinês de vídeos curtos e de rolagem infinita, o TikTok — que só no Brasil tem mais de 80 milhões de usuários ativos, segundo dados do DataReportal. A consultora da Organização Mundial da Saúde (OMS), Ilana Pinsky, analisou que o aplicativo gera no cérebro jovem uma ideia de que a vida é muito simples e acelerada, o que pode atrapalhar o desenvolvimento cognitivo, especialmente para aqueles que já têm tendência a evitar interações com outras pessoas.  

O X (antigo Twitter), por exemplo, já capturou tanto as pessoas que nenhuma outra novidade parece ser tão atrativa e confortável a longo prazo. Na antiga rede do passarinho elas já têm asas moldadas, um ninho confortável, então para que arriscar voo em terras desconhecidas? E esse argumento foi comprovado por um levantamento recente da BR Media Group. Segundo a pesquisa, o Threads, rede social da Meta inspirada no modelo de postagens de textos do Twitter, perdeu força nos dias posteriores ao lançamento, registrando uma queda de 20% de seus usuários ativos em comparação ao primeiro final de semana no ar. E ainda considerando o mesmo período, o tempo que os usuários passaram na plataforma caiu 50% na comparação com os primeiros dias de lançamento. Na queda de braço da atenção, o X ainda ganha de lavada. 

Sua atenção é dinheiro 

Um dos responsáveis pelo hackeamento da atenção são os algoritmos. Esses pautam os principais assuntos das bolhas e levam muitos usuários a mergulhar de cabeça em um quebra-cabeças de informações soltas. E é aí que elas precisam parar suas tarefas importantes para tentar encaixar as peças. Essa é uma crítica, inclusive, debatida a fundo no documentário “O Dilema das Redes”, lançado em 2020 pela Netflix.  

É inocente pensar que é gratuito baixar aplicativos e viver entregue ao que os algoritmos direcionam. Como bem disse o ex-designer do Google, Tristan Harris: “se você não está pagando pelo produto, então você é o produto”. Ou seja, há uma contribuição humana, na maioria das vezes genuína, que ajuda a engajar um mercado bilionário ao mesmo tempo em que, muitas vezes, há uma falta de investimento do indivíduo consigo mesmo, no seu trabalho, estudos, e no tempo de qualidade com família e amigos. 

Agora, é importante parar e questionar: o quanto o universo virtual influencia o estilo de vida das pessoas? Existe uma forma de estar 100% em todas essas camadas sociais de forma segmentada e particular e mantendo o foco? O tempo de uso de tela, mostrado por alguns smartphones, condiz com o tempo dedicado a outras atividades em sua vida? Ou as pessoas viverão culpadas por não conseguirem se dedicar a algo de forma plena dado o bombardeamento de informações que sofrem todos os dias? 

Não existe apenas uma resposta para todas essas perguntas. Diferentemente da homogeneidade das bolhas, na vida real é preciso analisar o quanto o excesso de informação está impactando a produtividade e o bem-estar. É comum que em casos de excesso de redes sociais as pessoas sintam-se mais lentas para desempenhar atividades que antes eram fáceis, fiquem mais cansadas e, consequentemente, mais insatisfeitas com elas mesmas. A culpa por não conseguir cumprir as tarefas enquanto o planeta dá uma volta em torno de si mesmo (24 horas) também pode ser sufocante, visto que é impossível esgotar as demandas e os conteúdos que são ofertados no scroll infinito dos algoritmos. 

A importância de criar hábitos fora das telas 

Descansar a mente fora das telas, como ler um livro, por exemplo, pode ser um ato revolucionário. Um estudo feito por pesquisadores da Universidade de Sydney, publicado na revista científica Educational and Developmental Psychologist, mostrou que uma pausa para tomar um cafezinho no meio do expediente, uma breve caminhada pelo escritório ou até mesmo passar cinco minutos sem fazer nada (inclusive mexer no celular) ajuda a recuperar a concentração. Diante desse cenário caótico e imagético, o documentário “O Dilema das Redes”, citado acima, também pode ser uma boa fonte para visualizar como bilhões de pessoas se comportam e escrevem as próprias histórias de vida diante dos likes e dos conteúdos de 15 segundos produzidos em massa ao redor do mundo.   

Os depoimentos dos próprios desenvolvedores das plataformas no filme fazem críticas à criação desenfreada de gatilhos tecnológicos. Em uma de suas falas, Justin Rosenstein, ex-engenheiro da Meta e do Google e coinventor do botão de Like do Facebook afirma: “nós criamos isso, é nossa responsabilidade mudar”. Como criar soluções para quebrar o vício, os desenvolvedores destacam a importância de, às vezes, desligar as notificações e ficar atento aos dados pessoais cedidos. 

Mas lembre-se, o despertar é um processo e não precisa ser aniquilador. Pelo viés poético e contemplativo, pode ser reconfortante refletir sobre o hackeamento de seu tempo. E falando em poesia, a música ‘Oração ao Tempo’, na qual Caetano diz: “peço-te o prazer legítimo. E o movimento preciso. Tempo, tempo, tempo, tempo. Quando o tempo for propício. Tempo, tempo, tempo, tempo”, pode apontar um caminho. 

No fundo, é tentar tomar de volta sua atenção para perceber a passagem do tempo de forma mais consciente, porque ele é a moeda de maior valor no mercado.  

Como disse Marshall McLuhan, “primeiro fazemos as ferramentas, depois as ferramentas nos fazem”, o que as ferramentas estão fazendo com as pessoas e a vida em sociedade passa diretamente por tudo isso, portanto, atenção.  


Por Genesson Honorato, Especialista em RH, Inovação e Futuro do Trabalho 

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China está pronta para dominar as profundezas do mar e sua riqueza de metais raros

Com a mineração em águas profundas, país que já controla 95% do suprimento mundial de metais de terras raras planeja ampliar controle sobre setores emergentes, como o de energia limpa

Por Lily Kuo – Estadão/ The Washington Post – 20/10/2023 

KINGSTON – Quando o Dayang Hao, de 5,1 mil toneladas, um dos navios de expedição em águas profundas mais avançados da China, deixou o porto ao sul de Xangai há dois meses, uma faixa vermelha e branca — do tipo usado para divulgar exortações do Partido Comunista — lembrou a tripulação de sua missão: “Esforçar-se, explorar, contribuir”.

O Dayang Hao tinha como destino um trecho de 45,8 quilômetros quadrados do Oceano Pacífico, entre o Japão e o Havaí, onde a China tem direitos exclusivos de prospecção de rochas irregulares, do tamanho de bolas de golfe, que têm milhões de anos e valem trilhões de dólares.

Esse é o mais recente contrato da China, conquistado em 2019, para explorar “nódulos polimetálicos”, que são ricos em manganês, cobalto, níquel e cobre — metais necessários para tudo, desde carros elétricos até sistemas avançados de armas. Eles se encontram tentadoramente no fundo do oceano, apenas esperando para serem coletados.

Seja trabalhando nas profundezas do mar ou em terra, na sede do órgão regulador do fundo do mar das Nações Unidas, em Kingston, na Jamaica, Pequim está se esforçando para dar um salto no crescente setor de mineração em águas profundas.

A China já detém cinco das 30 licenças de exploração que a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA, na sigla em inglês) concedeu até o momento — a maior de todos os países — e está em preparação para o início da mineração em águas profundas já em 2025. Quando isso acontecer, a China terá direitos exclusivos de escavar 148 quilômetros quadrados do leito marinho internacional — aproximadamente o tamanho do Reino Unido — ou 17% da área total atualmente licenciada pela ISA.

O fundo do oceano está se moldando para ser o próximo palco da competição mundial por recursos globais — e a China está pronta para dominá-lo. Acredita-se que o mar contenha mais metais raros do que a terra, que são essenciais para quase todos os produtos eletrônicos, produtos de energia limpa e chips de computador avançados. Com a corrida dos países para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, a demanda por esses minerais deve disparar.

Quando a mineração em águas profundas começar, a China — que já controla 95% do suprimento mundial de metais de terras raras e produz três quartos de todas as baterias de íons de lítio — ampliará seu controle sobre os setores emergentes, como o de energia limpa. A mineração também dará a Pequim uma nova e poderosa ferramenta em sua crescente rivalidade com os Estados Unidos. Como um sinal de como esses recursos podem ser transformados em armas, em agosto a China começou a restringir as exportações de dois metais que são essenciais para os sistemas de defesa dos EUA.

“Se a China conseguir assumir a liderança na mineração do fundo do mar, ela realmente terá acesso a todos os minerais essenciais para a economia verde do século 21”, disse Carla Freeman, especialista sênior em China do Instituto da Paz dos Estados Unidos.

No caso dos nódulos polimetálicos, isso significa enviar veículos robóticos a até 5,4 mil metros de profundidade para o vasto e escuro fundo do mar, onde eles aspirarão lentamente cerca de 10 centímetros do leito marinho e, em seguida, bombearão o material para um navio.

A área marcada para mineração, embora represente menos de 1% do total do leito marinho internacional, ainda seria enorme. Os 30 contratos de exploração cobrem 869 mil quilômetros quadrados, mas estão concentrados em uma extensão do Pacífico chamada Zona Clarion-Clipperton. Com uma extensão de 4,9 mil quilômetros, ela é mais larga do que a área contígua dos Estados Unidos e contém até seis vezes mais cobalto e três vezes mais níquel do que todas as reservas terrestres.

Em sua busca para dominar esse setor, a China concentrou seus esforços na ISA, sediada em Kingston, em um prédio de pedra calcária com vista para o Mar do Caribe. Ao exercer influência em uma organização na qual é, de longe, o agente mais poderoso — os Estados Unidos não são membros da ISA — Pequim tem a chance de moldar as regras internacionais a seu favor.

Essa abordagem é fundamental para a tentativa de Xi Jinping de obter preeminência global. Líder mais forte da China em décadas, Xi está determinado a transformar a China em uma potência global que não esteja mais subordinada ao Ocidente, inclusive tornando-se uma potência marítima capaz de competir militarmente com os Estados Unidos.

Se você quiser se tornar uma potência global, terá que manter a segurança de suas rotas marítimas e de seus interesses. Portanto, tornar-se uma potência marítima é inevitável”, disse Zhu Feng, diretor executivo do Centro Chinês de Estudos Colaborativos do Mar do Sul da China na Universidade de Nanjing.

Os Estados Unidos fizeram pouco para responder aos movimentos da China em alto-mar. O país é apenas um observador na ISA, o que significa que corre o risco de ser deixado de lado à medida que as regras para esse futuro setor forem sendo estabelecidas. Ao contrário da China, as empresas americanas não têm nenhum contrato de exploração com a ISA, e os críticos dizem que Washington não tem um plano claro sobre como competir nesse novo setor.

“A lógica é que se não fizermos as regras, eles farão”, disse Isaac Kardon, autor de China’s Law of the Sea e membro sênior do Carnegie Endowment for International Peace.

“Essas são áreas de fronteira do direito internacional em que não há um regime óbvio, e são especialmente atraentes porque os EUA não estão lá”, disse ele. “É uma frente óbvia em qualquer que seja essa competição entre grandes potências.”

Abordagem ‘lenta e segura’

Eram quase 21h em uma noite de meados de julho quando Gou Haibo, alto e magro em um terno escuro, saiu de mais de seis horas de conversas a portas fechadas na sede da ISA.

O membro da delegação chinesa parou para fumar um cigarro em um jardim fora do salão principal, onde apresentaria o caso de seu país sobre a questão em pauta: como abrir o leito marinho internacional, que cobre mais da metade do planeta, para a mineração industrial.

A ISA está sob pressão para criar regras depois que a ilha de Nauru, no Pacífico, em parceria com a empresa canadense The Metals Company, acionou em 2021 uma disposição que exige que a organização permita a mineração dentro de dois anos, mesmo que um código regulatório não esteja em vigor.

Os países membros da ISA devem chegar a um acordo sobre um código final ou enfrentarão a possibilidade de a mineração continuar sem restrições. Por enquanto, a discussão sobre a “regra dos dois anos” foi adiada para o próximo ano. A China, de acordo com Gou, quer que as coisas andem mais rápido. Ele discordou da declaração do grupo, após dias de negociação, de que os países “pretendem” chegar a um acordo sobre um conjunto de regulamentações até o final de 2025.

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“A delegação chinesa ainda prefere o termo original — ‘compromete-se’”, disse Gou na reunião. Caso contrário, disse ele, “parece um pouco incerto o que faremos nos próximos meses ou nos próximos anos”.

A posição da China foi um exemplo da persistência com que seus diplomatas trabalham para serem ouvidos e para direcionar os procedimentos na ISA. Os delegados e ex-funcionários da ISA descrevem Pequim como exercendo uma influência discreta por meio de vários canais, inclusive organizando workshops e jantares regados a baijiu, o notoriamente forte licor chinês.

Sandor Mulsow, que ocupou cargos seniores na ISA de 2013 a 2019, disse que a China tem uma “agenda muito forte e de longo prazo”.”A China sempre trabalha de forma muito lenta e segura, e continua avançando”, disse ele.

A partir de 2021, a China se tornou o maior contribuinte para o orçamento administrativo da organização, informou a ISA. Pequim faz doações regulares para vários fundos da ISA e, em 2020, anunciou um centro de treinamento conjunto com a ISA na cidade portuária chinesa de Qingdao.

“É bastante claro que, quando a China fala, todos tendem a ouvir e tentam se acomodar”, disse Pradeep Singh, especialista em governança oceânica do Instituto de Pesquisa para Sustentabilidade na Alemanha, que participa das reuniões da ISA desde 2018.

Em julho, a delegação chinesa compareceu em peso. Ela incluiu representantes dos ministérios das relações exteriores e de recursos naturais do país, sua missão permanente na ISA e as três empresas estatais que controlam os cinco contratos de exploração do país.

Em um momento em que a participação ocidental no sistema da ONU está em declínio, acadêmicos e autoridades chinesas têm pressionado por um papel maior em organizações como a ISA — atendendo ao apelo de Xi para aumentar a influência internacional de Pequim. Na equipe de 52 membros da secretaria da ISA, que administra a organização, dois cargos são ocupados por cidadãos chineses. Uma comissão de assuntos jurídicos e um comitê de assuntos financeiros incluem um cidadão chinês cada um. Os especialistas indicados pela China estão sempre nesses órgãos, de acordo com o secretário geral Michael Lodge.

“Se você tiver pessoas nesses cargos, saberá tudo o que está acontecendo”, disse James McFarlane, chefe do Escritório de Recursos e Monitoramento Ambiental da ISA de 2009 a 2011.

Perguntado se a China exerce mais influência por causa de suas contribuições financeiras, Lodge disse: “Todo Estado participa na medida em que decide fazê-lo”.

O Ministério das Relações Exteriores da China, a Embaixada da China na Jamaica e as três empreiteiras chinesas não responderam aos diversos pedidos de entrevista. Os delegados presentes nas reuniões em Kingston se recusaram a falar oficialmente.

Mas especialistas que estão acompanhando de perto dizem que Pequim está sendo estratégica em sua abordagem. ”A China é provavelmente o país mais ativo da ISA”, disse Peter Dutton, professor de direito internacional da Faculdade de Guerra Naval dos EUA. ”Uma das coisas que os chineses estão fazendo de forma muito eficaz é se envolver na elaboração de regras e redigir regulamentos que possam favorecer seus interesses. Eles estão à nossa frente, e essa é uma área com a qual precisamos nos preocupar.”

Domínio da tecnologia e riscos ambientais

Para a China, a mineração em águas profundas nunca foi apenas uma questão de recursos naturais. Ela também tem a ver com a derrubada da ordem internacional tradicional dominada pelo Ocidente.

Nas décadas de 1960 e 1970, quando os pesquisadores perceberam a extensão da riqueza mineral do oceano, a questão sobre quem tem direito a esses recursos tornou-se ideológica.

Os países ricos, como os Estados Unidos, queriam operar por ordem de chegada, enquanto a China, um país em desenvolvimento, ficou do lado das nações do sul global e disse que os espólios deveriam ser compartilhados. O lado da China venceu, e a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), acordada em 1982, foi ratificada pela maioria dos países. Os Estados Unidos reconhecem a convenção, mas não a ratificaram, em parte devido à oposição às suas disposições sobre mineração no fundo do mar.

De acordo com a convenção, a ISA foi criada em 1994 e encarregada de supervisionar a mineração em águas profundas. Os críticos dos EUA afirmam que a adesão ao tratado prejudicaria a soberania dos EUA em alto-mar ao transferir o poder para a ISA.

A China foi um dos primeiros países a enviar uma missão permanente para a ISA. O jornal oficial do Partido Comunista Chinês declarou a UNCLOS uma vitória contra a “hegemonia marítima”, enquanto o chefe da Administração Oceânica Estatal da China a chamou de “formação de uma nova ordem marítima internacional”.

A China entrou na corrida do mar profundo e passou as últimas décadas investindo cada vez mais em tecnologia e equipamentos, alcançando seus rivais ocidentais — que estavam muito à frente — e, em algumas áreas, superando-os.

Em 2001, a primeira empresa de mineração em águas profundas do país, a China Ocean Mineral Resources Research and Development Association (Associação de Pesquisa e Desenvolvimento de Recursos Minerais Oceânicos da China), ou COMRA, obteve a primeira licença da China para explorar nódulos polimetálicos.

Atualmente, a China abriga pelo menos 12 instituições dedicadas à pesquisa em águas profundas — uma delas, um amplo campus em Wuxi, província de Jiangsu, planeja contratar 4 mil pessoas até 2025. Dezenas de faculdades surgiram para se concentrar em ciências marinhas.

Em um discurso em 2016, Xi falou sobre acessar os “tesouros” do oceano e ordenou que seu país “dominasse as principais tecnologias para entrar no fundo do mar”.

O cerne do debate sobre a mineração em águas profundas é se isso pode ser feito de uma forma que não prejudique os ecossistemas e as espécies oceânicas. Os cientistas afirmam que esse tipo de atividade no fundo do mar destruirá uma biblioteca de informações importantes para descobertas médicas, compreensão das origens da vida e outros avanços. Os ambientalistas dizem que a mineração em águas profundas perturbará o maior sumidouro natural de carbono do mundo, que absorve um terço do dióxido de carbono gerado em terra. As plataformas de mineração, o maquinário e os navios de transporte aumentarão o ruído e a poluição que prejudicam a vida marinha.

Além dos nódulos polimetálicos, dois outros tipos de depósitos estão sendo considerados para mineração oceânica — sulfetos polimetálicos, encontrados em fontes hidrotermais, e crostas de cobalto ricas em metal, que se encontram em camadas endurecidas ao longo de montanhas submarinas. Ambos serão ainda mais difíceis de minerar.

Os ambientalistas também se preocupam com o fato de que o histórico da China de privilegiar o setor em detrimento do meio ambiente levará a regulamentações diluídas. Os moradores e as autoridades do sudeste da China ainda estão lutando contra a poluição generalizada do solo e da água causada por um boom na mineração de metais de terras raras a partir da década de 1990.

Durante a sessão de três semanas em julho, os delegados chineses aconselharam a ISA a ser “prudente” na aplicação de punições financeiras às empreiteiras que violarem as regras. A delegação se opôs à criação de uma comissão independente para garantir que as empresas sigam as normas ambientais.

Durante toda a última semana da reunião, a China bloqueou sozinha o debate sobre a proteção marítima, incluindo a discussão de uma moratória sobre a mineração em alto-mar, uma proposta que agora é apoiada por 22 países preocupados com os danos ambientais.

As autoridades chinesas costumam dizer que a preservação ambiental deve ser equilibrada com a necessidade de desenvolvimento — uma abordagem que preocupa outros delegados. ”Se você equilibrar essas questões, não será eficaz. É um mandato da UNCLOS”, disse Gina Guillen-Grillo, chefe da delegação da Costa Rica, citando o Artigo 145 da UNCLOS, que diz que os países devem garantir “proteção efetiva do ambiente marinho contra efeitos nocivos”.

“É preciso cumpri-lo e, depois de cumpri-lo, você pode minerar”, disse ela. “Não é como se você pudesse minerar um pouco e cumprir um pouco.”

Mas os defensores dizem que a mineração em águas profundas é o único setor do mundo a ser regulamentado antes de existir e que é necessário para os carros elétricos e outras tecnologias que ajudarão a evitar desastres climáticos.

Empreiteiras como a The Metals Company — a única empresa a testar um sistema completo de mineração em águas profundas na zona de Clarion-Clipperton — estão à frente na corrida tecnológica, mas as empresas chinesas estão se aproximando.

“Elas estão começando a ganhar impulso”, disse Gerard Barron, CEO da The Metals Company, referindo-se às três empresas chinesas que controlam as reivindicações de exploração da China. ”Estamos vendo, certamente, um aumento na atividade. Elas agora têm orçamentos substanciais que não tinham há dois anos.”

Em 2021, a COMRA da China testou um sistema para coletar nódulos polimetálicos a uma profundidade de 1,28 mil metros nos mares do leste e do sul da China.

“Quando se trata de escrever regras internacionais para águas profundas, a voz da China está ficando mais forte”, escreveu Liu Feng, então chefe da COMRA, em um artigo de 2021.

A China agora está se posicionando como um líder pronto para ensinar outros países sobre o mar. Seus submersíveis produzidos internamente são capazes de mergulhar mais de 10,6 mil metros até o fundo da Fossa das Marianas, o ponto mais profundo da Terra.

“Agora que temos esse equipamento, podemos recuperar o tempo perdido”, disse em uma entrevista Wang Pinxian, um geólogo marinho chinês que liderou alguns dos primeiros programas de águas profundas da China. “A China pode ser seu próprio mestre e pode receber e trabalhar com pessoas de países em desenvolvimento.”

Tecnologia com aplicações militares

Enquanto o Dayang Hao fazia a prospecção de nódulos polimetálicos nos últimos meses, a Beijing Pioneer Hi-Tech Development — a empreiteira chinesa que controla essa área de reivindicação — testava um sistema de pesquisa de alta precisão que pode operar em profundidades de mais de 5,8 mil metros. A embarcação tinha estudantes do Quênia, Argentina, Nigéria e Malásia a bordo, onde estudavam o oceano e brincavam de cabo de guerra, de acordo com a mídia estatal.

Essas descrições benignas desmentem o que os pesquisadores dizem ser o outro objetivo claro do programa de águas profundas da China: desenvolver vantagens militares no oceano.

A pesquisa necessária para se preparar para a mineração em alto-mar — medir a acústica ou a temperatura das correntes, mapear a topografia e desenvolver equipamentos que possam operar sob alta pressão e com baixa visibilidade — é a mesma necessária para a guerra submarina.

“Quando eles enviam submersíveis, os planejadores por trás disso estão pensando em minerais, mas também em como aproveitar as profundezas do mar para obter vantagens militares, não apenas na guerra antissubmarina, mas também para seus submarinos”, disse Alexander Gray, ex-funcionário do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, atualmente no Conselho Americano de Política Externa.

A China também sinalizou que está pensando dessa forma. A lei de segurança nacional da China agora inclui o fundo do mar internacional como uma área onde os ativos e interesses chineses devem ser protegidos. A Comissão Militar Central da China, que supervisiona as forças armadas do país, identificou o fundo do mar como um novo campo de batalha.

Acadêmicos chineses destacaram a importância dos nódulos polimetálicos para equipamentos militares e aeroespaciais, enquanto o Exército de Libertação Popular da China observou as oportunidades do mar profundo para a guerra moderna em um artigo de 2022.

Há conexões estreitas entre os setores acadêmico, comercial e militar da China, e vários dos mais ambiciosos projetos de mineração em águas profundas do país foram financiados por programas de pesquisa militar. A China Minmetals, uma das empreiteiras que controla as licenças de exploração em águas profundas da China, realizou testes de mineração no âmbito do Programa 863, uma iniciativa do governo para desenvolver tecnologia de ponta para a segurança nacional.

Esses vínculos estreitos tornam difícil saber quando os navios chineses de pesquisa em águas profundas estão coletando dados para fins científicos ou militares.

De acordo com os dados de rastreamento de navios coletados pela Global Fishing Watch e pelo Benioff Ocean Science Laboratory da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, os navios chineses de pesquisa em alto-mar, incluindo o Dayang Hao, aventuraram-se nos últimos anos nas zonas econômicas exclusivas das Filipinas, Malásia, Japão, Taiwan, Palau e Estados Unidos.

Um desses navios, o Kexue, realizou pesquisas durante 20 dias em julho e agosto de 2022 perto do Scarborough Shoal, uma das áreas mais contestadas no Mar do Sul da China e local de um confronto contínuo entre a China e as Filipinas, que reivindicam o atol. O Dayang Hao também parece ter realizado um levantamento do leito oceânico nas zonas econômicas exclusivas das Filipinas e da Malásia, perto das disputadas Ilhas Spratly. De acordo com a lei internacional, é ilegal realizar pesquisas comerciais ou científicas na zona econômica exclusiva de outro país sem permissão.

Harrison Prétat, diretor associado da Iniciativa de Transparência Marítima da Ásia no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, disse que a vasta frota de navios de pesquisa da China poderia estar coletando informações para os militares chineses. ”É muito provável que muitas dessas pesquisas sejam científicas e militares, ou comerciais e militares”, disse Prétat.

No final de 2021, uma embarcação irmã do Dayang Hao, o Dayang Yihao, estava explorando a Zona Clarion-Clipperton como parte de uma expedição de quatro meses da China Minmetals quando, de repente, se afastou da área de reivindicação da China, indo direto para o norte. Ele cruzou a zona econômica exclusiva dos EUA perto do Havaí, onde viajou por cinco dias, traçando um loop ao sul de Honolulu, antes de retornar à sua área de reivindicação. O Departamento de Estado não recebeu nenhuma solicitação da China para realizar pesquisas científicas na zona dos EUA nessas datas, disse um porta-voz.

O desvio teria dado aos pesquisadores a chance de entender a topografia do fundo do mar ao redor do Havaí, ou as condições das operações navais e como os submarinos entram e saem. ”Os EUA ficariam preocupados se alguma embarcação estatal estivesse próxima”, disse Thomas Shugart, ex-oficial de guerra de submarinos da Marinha dos EUA e membro sênior adjunto do Center for a New American Security. Esses movimentos são uma preocupação para ambos os países — e uma preocupação que só se tornará mais urgente à medida que a mineração em águas profundas se tornar uma realidade.

“Para a China, à medida que se torna uma potência marítima”, disse Zhu, da Universidade de Nanjing, “como e se ela pode estabelecer um mecanismo para trabalhar com os Estados Unidos é definitivamente um problema difícil”.

https://www.estadao.com.br/economia/china-mineracao-aguas-profundas-riqueza-metais-raros/

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A avó do Vale do Silício

Por que Shockley escolheu o lugar? Porque em Palo Alto vivia May Shockley, sua mãe

Pedro Doria – O Globo – 20/10/2023 

Às vezes precisamos de histórias leves — ultimamente, elas se tornaram preciosas. Uma história sem política, ditadores ou ameaças à democracia. Esta até envolve semicondutores, mas nenhuma geopolítica. É uma história leve, de um filho e sua mãe. E também de por que o Vale do Silício fica onde fica. Essa resposta já foi dada muitas vezes, mas nunca de forma tão convincente. Tem muito pouco a ver com tecnologia e tudo a ver com Sigmund Freud. Quem descobriu a história — ou, ao menos, ligou os pontos que estavam na cara de todo mundo e ninguém tinha visto antes — foi o jornalista e escritor Malcolm Gladwell, na última edição de seu excelente podcast, Revisionist History.

O filho é um dos mais brilhantes físicos do século XX, William Shockley. Foi ele um dos três cientistas que descobriram o efeito transístor. Em essência, que semicondutores poderiam ser ligados e desligados usando eletricidade. Por isso recebeu apenas o Prêmio Nobel — foi uma das descobertas científicas fundamentais de todo o século.

Por volta de 1955, Shockley decidiu largar simultaneamente seu trabalho com o Departamento de Defesa americano e o emprego que tinha no Bell Labs, o mais prestigioso laboratório de desenvolvimento tecnológico dos Estados Unidos. Circulou o país convencendo alguns dos mais brilhantes físicos da área a se juntarem a ele para erguer uma empresa, a Shockley Semiconductor. Ele convenceu todo mundo que chamou. E escolheu para sede da companhia uma pequena cidade na Península de San Francisco chamada Mountain View.

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Era um lugar de todo improvável. É verdade que a cidadezinha, hoje sede do Google, fica ao lado de Palo Alto, onde está a Universidade Stanford. Mas Stanford não era a escola que é hoje, em constante disputa com Harvard pelo topo da lista das melhores universidades do país. Era uma boa universidade dentre muitas. Para qualquer um a quem se perguntasse, escolher Mountain View para sediar uma empresa de tecnologia era para lá de aleatório.

Shockley não era um homem fácil. Agressivo, paranoico. Com o passar do tempo, tornou-se um eugenista. Abertamente racista. A empresa havia começado fazia pouco quando dois de seus principais engenheiros, Gordon Moore e Robert Noyce, decidiram deixá-la. Mas, como já haviam comprado casas nas redondezas, decidiram fundar sua própria companhia também por ali. Batizaram-na Intel. Graças aos microchips da Intel, nasceram incontáveis empresas na região que planejavam fazer computadores pessoais.

O efeito transístor dos semicondutores permitia miniaturizar o cérebro de computadores que ocupavam salas inteiras. É por isso que eles foram parar no topo da mesa e, depois, no colo e, enfim, no bolso. Graças à Intel. Pois não haveria Intel se não fosse, antes, a Shockley. Por causa do sucesso daquela indústria, a Universidade Stanford acabou por atrair os melhores professores e os alunos mais capazes para alimentar aquele setor nascente da economia.

Por que Shockley escolheu o lugar? Porque em Palo Alto vivia May Shockley, sua mãe. Ele estava recém-divorciado, ela era viúva. E era uma mãe hiperprotetora. Freud puro. May aturava o físico racista e paranoico, genial, como ninguém mais.

O nome de Shockley não ficou na memória do Vale. Não se conta a história da indústria sem falar da Intel, claro. Ao falar da Intel, sempre se diz que Moore e Noyce vieram da Shockley. E que Shockley, o homem, foi um dos três que perceberam uma propriedade-chave de determinados materiais, permitindo que surgissem microprocessadores. Mas era desagradável demais, poucos gostavam dele. Virou nota de pé de página.

https://oglobo.globo.com/opiniao/pedro-doria/coluna/2023/10/a-avo-do-vale-do-silicio.ghtml

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Shein avança com produção no Brasil e chega a 336 fábricas parceiras em 12 Estados

Meta é atingir 2 mil parceiros até 2026, movimentando 100 mil empregos diretos e indiretos; empresa lança no País coleções plus size, fitness e underwear

Estadão – 19/10/2023 

A varejista Shein já atingiu o número de 336 fornecedores parceiros para a sua estratégia de produção local para atender o mercado brasileiro. Em maio, em resposta às críticas que recebeu dos concorrentes nacionais pela importação de produtos e ao plano depois abandonado do governo de taxar as remessas internacionais de encomendas abaixo dos US$ 50, a empresa fundada em 2012 pelo chinês Chris Xu e sediada em Cingapura assumiu o compromisso de ter 2 mil parceiros de manufatura no Brasil e investir R$ 750 milhões num período de três anos.

A meta envolve também, segundo a empresa, movimentar 100 mil empregos diretos e indiretos no País e ter 85% das vendas feitas no Brasil relacionadas a produtos de fabricação local até o fim de 2026. Com essa estratégia, a empresa está tornando o Brasil um dos seus três grandes centros de produção global, ao lado de China e Turquia. “Temos um objetivo ousado, de tornar o Brasil um ‘hub’ de exportações. O País tem um parque têxtil bom”, afirma a diretora de produção local da Shein, Fabiana Magalhães. A empresa opera em 150 países.

As 336 fábricas parceiras estão localizadas em 12 Estados: Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Ceará, Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Norte. Até o momento, 213 dessas fábricas já operam no modelo de negócios da Shein, conhecido por trazer inovações no lançamento e testes de aceitação de cada peça, baseados em inteligência artificial.

Fabiana Magalhães, diretora de produção local da Shein no Brasil

Fabiana Magalhães, diretora de produção local da Shein no Brasil Foto: Divulgação Shein

“Somos uma empresa de tecnologia. A gente testa, comprova e alavanca a produção. Começamos com quantidade pequenas, de 50 a 200 peças, e nos baseamos em dados para produzir mais peças de cada modelo”, diz a executiva. “Muitos fornecedores querem aprender a atuar de forma inovadora, e fazer mais do mesmo não levá-los ao futuro.”

Segundo a estratégia da Shein, 100% dos fornecedores ficam com acesso a todos os dados da empresa, e conseguem acompanhar a evolução das vendas de cada peça. “Se uma peça é lançada e no primeiro dia vende duas unidades, e no terceiro já salta para 50, a fabricante pode já planejar um aumento da produção e pode sugerir para nós uma variação sobre o mesmo tema.”

Novas coleções

Desde que a produção local se iniciou, 4 mil modelos já foram criados. “No centro de toda a estratégia para o País está oferecer custo benefício, variedade, moda brasileira e inovação.”

Essa expansão da produção brasileira acontece no momento em que a Shein lança três novas coleções para o mercado local: plus size, fitness e underwear. Tudo isso considerando a modelagem para o corpo e os gostos brasileiros. “Toda a produção é baseada em dados, não no feeling. As novas categorias são com base no que o consumidor quer”, diz Fabiana.

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https://www.estadao.com.br/economia/negocios/shein-producao-local-fabricas/

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Cinco maiores bancos do país fecharam mais de 2,5 mil agências em 3 anos. E estão mudando as que ficaram

Digitalização acelerada de transações bancárias e a popularização dos smartphones torna os espaços físicos obsoletos em meio à concorrência crescente. As abertas estão ganhando novos usos

Por Letycia Cardoso — O Globo – 18/10/2023 

De um dia para o outro, as grandes filas nos balcões e caixas eletrônicos dos bancos para fazer saques, pagar contas ou resolver qualquer problema simples foram substituídas por um clique. Nos aplicativos das instituições financeiras, é possível desde abrir uma conta e pegar empréstimos até investir e pagar praticamente qualquer coisa com Pix.

A acelerada digitalização do setor bancário e o avanço dos smartphones estão tornando obsoletas as agências bancárias. Para cortar custos e enfrentar a concorrência acirrada pela chegada dos bancos digitais — que nascem sem uma agência sequer —, os bancos estão fechando suas operações físicas. As que ainda estão com as portas abertas, vêm ganhando novos layouts e funções.

Segundo um levantamento da Ável Investimentos, com base em dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Bradesco, Itaú Unibanco, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal fecharam juntos 2.563 agências bancárias de 2020 a 2022. No primeiro trimestre deste ano, 256 unidades foram encerradas. O movimento acabou levando ao desemprego mais de 14 mil bancários, estima uma pesquisa da Dieese.

Embora alguns perfis de clientes, como idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade, não estejam tão acostumadas a lidar com ferramentas tecnológicas, o Banco Central não estabelece um número mínimo de agências bancárias que as instituições financeiras tradicionais têm que manter em cada região. E os bancos tradicionais estão investindo cada vez mais na interface digital.

Mesmo o Banco do Brasil, que no ano passado abriu mais agências que fechou, já possui 93,1% das operações dos clientes realizadas por meio dos canais digitais.

No Bradesco, com 98% das transações digitais, um novo modelo de atendimento está transformando parte das agências em unidades de negócios. Isso inclui tanto alteração do tamanho do espaço físico ocupado até unificação de unidades que ficam próximas. Além disso, o banco está apostando em unidades do Bradesco Expresso, uma rede de pequenos correspondentes bancários com mais de 40 mil pontos que funcionam em horário ampliado, maior que o expediente tradicional das agências.

Em vez de fechar, o Santander vem transformado algumas agências em um tipo de estabelecimentos multiuso, muito diferente das agências convencionais. O novo modelo já está em 12 cidades do país. No espaço original da agência, saem balcões, mesas e estofados e entram uma cafeteria e um espaço de coworking aberto ao público, o WorkCafé. Uma unidade de atendimento com funcionários do banco é apenas uma das funções ali, ocupando uma parte limitada do espaço.

O Itaú, que estima que 80% das transações de seus clientes sejam on-line, implementa um plano que pretende adaptar e modernizar toda a rede de atendimento até 2025. O banco diz que a ideia é que as agências tenham um novo formato, “numa configuração mais moderna e acolhedora”, voltada, por exemplo, para aconselhamento sobre investimentos e planejamento financeiro.

Victor Borba, assessor de investimentos e especialista de setor bancário da Ável, diz que a tendência não é exclusiva do setor. Ele observa que, além de ter se provado não ser necessário um grande espaço físico para prestar serviços e ganhar mais clientes, a estratégia digital pode ser mais fácil de melhorar resultados.

— Quem vai fisicamente ao banco é um número restrito de pessoas e, cada vez mais, os bancos vêm perdendo espaço na parte de investimento para as corretoras — avalia. — Então, ao invés de ter uma agência numa grande avenida, montar um quiosque dentro de um metrô, em que há grande circulação de pessoas, colocar café, assim como abrir a própria corretora são estratégias mais eficazes para expandir o marketshare (fatia de mercado).

Pablo Alencar, especialista da Valor Capital, explica que o custo de manutenção das agências físicas é muito elevado. Por isso, as instituições têm tomado decisões estratégicas, como manter um maior número de agências tradicionais em bairros onde há clientes de faixas etárias mais altas, que ainda gostam de ir pessoalmente às agências.

Os mais jovens tendem a preferir resolver quase tudo pelo celular, de forma autônoma. Por isso, os espaços físicos remanescente precisam oferecer algo a mais para atrair visitantes. É aí que os cafés, espaços com internet e outros benefícios passam a ser estratégicos.

Caixa na contramão

A Caixa, com tradição em financiamentos imobiliários e que tradicionalmente atende a muitos idosos aposentados e beneficiários de programas sociais, é o único banco convencional na contramão. Não tem planos de reconfigurar suas agências.

Segue abrindo unidades de atendimento em uma rede de atendimento que já é composta por 4,3 mil agências e postos de atendimento, 22,6 mil lotéricos e correspondentes CAIXA Aqui, dez agências-caminhão e duas agências-barco para regiões ribeirinhas.

— A Caixa é um caso peculiar porque, em geral, a pessoa quando quer realizar um financiamento imobiliário acaba preferindo ir presencialmente. Assim como o público de classe mais baixa, que prefere falar com o gerente antes de qualquer transação — diz Borba.

https://oglobo.globo.com/economia/financas/noticia/2023/10/18/cinco-maiores-bancos-do-pais-fecharam-mais-de-25-mil-agencias-em-3-anos-e-estao-mudando-as-que-ficaram.ghtml

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