The Economist: O livre-comércio global ficou no passado?

Os governos estão descartando os princípios que enriqueceram o mundo em favor da ‘economia patriota’

The Economist – 08/10/2023 

Às vezes, em guerras e revoluções, mudanças fundamentais chegam fazendo estrondo. Com mais frequência, porém, elas chegam de mansinho – e assim é a coisa em relação ao que nós estamos chamado de “economia patriota”, uma ideologia protecionista, com altos subsídios e intervenções pesadas administradas por Estados ambiciosos. Cadeias de fornecimento frágeis, crescentes ameaças à segurança nacional, a transição energética e a crise no custo de vida têm exigido ações de governos – e por uma boa razão. Mas, quando nós juntamos isso tudo, fica claro quão sistematicamente o pressuposto dos livres mercados e governos limitados tem sido deixado ao léu.

Na opinião desta revista, trata-se de uma tendência alarmante. Nós fomos fundados em 1843 para advogar por, entre outras coisas, livre-comércio e um papel modesto dos governos. Hoje, esses valores liberais clássicos não apenas são impopulares, mas estão cada vez mais ausentes do debate político. Menos de oito anos atrás, o ex-presidente Barack Obama tentava colocar os Estados Unidos em um gigantesco acordo comercial no Pacífico. Hoje, quem argumenta favoravelmente ao livre-comércio em Washington é ridicularizado, rotulado como irremediavelmente ingênuo; e no mundo emergente é classificado como uma relíquia neocolonialista da era em que o Ocidente ainda sabia das coisas.

Nosso argumento é que a economia patriota se provará, em última instância, uma decepção. Ela diagnostica equivocadamente o que saiu errado, sobrecarrega o Estado com responsabilidades impossíveis de cumprir e frustrará um período de rápida mudança social e tecnológica. A boa notícia é que, eventualmente, ela destruirá a si mesma.

A ideia de que o protecionismo é a maneira de lidar com turbulências de livres mercados é central ao novo regime. O sucesso da China convenceu ocidentais da classe trabalhadora de que eles têm muito a perder com a livre circulação de mercadorias através das fronteiras. A pandemia de covid-19 fez as elites pensarem que os riscos devem diminuir nas cadeias globais de fornecimento, com frequência mudando a produção para países mais próximos. A ascensão da China sob o “capitalismo estatal”, com seu desrespeito ao comércio com base em regras e o desafio ao poder americano, foi adotada por economias ricas e emergentes como justificativa para intervenção.

Esse protecionismo caminha ao lado de gastos extras do governo. A indústria está devorando subsídios para impulsionar a transição energética e garantir o abastecimento de itens estratégicos. Vastas ajudas em dinheiro aos lares durante a pandemia elevaram as expectativas do Estado enquanto “porto seguro” contra os infortúnios da vida. Os governos espanhol e italiano estão até resgatando devedores que não conseguem arcar com os custos em elevação das hipotecas.

E, inevitavelmente, ajudas em dinheiro do Estado caminham ao lado de mais regulações. A vigilância antitruste se torna ativista. Agências reguladoras vigiam mercados nascentes, de games na nuvem a inteligência artificial. Já que o valor dos créditos de carbono ainda está baixo demais, os governos acabam microgerenciando a transição energética por decreto.

Essa combinação entre protecionismo, gastos e regulações tem um custo pesado. Para começar, trata de um diagnóstico equivocado. Concentrar e arcar com riscos é realmente função essencial dos governos. Mas não todos os riscos: para os mercados funcionarem, ações têm de ter consequências.

Em contraste à visão aceita, a covid e a guerra na Ucrânia mostraram que os mercados lidam com choques melhor do que planejadores. O comércio globalizado lidou com enormes oscilações na demanda do consumidor: o fluxo nos portos americanos em 2021 foi 11% mais alto que em 2019. Em 2022, a economia alemã repetiu o truque, sem sofrer nenhuma calamidade, conforme mudou rapidamente sua matriz energética do gás russo para outras fontes.

Em contraste, mercados como o de fornecimento de projéteis para a Ucrânia, dominados por Estados, ainda enfrentam dificuldades. Da mesma forma que as antigas reclamações a respeito do comércio com a China, que incrementou a renda real dos americanos, queixas a respeito da suposta fragilidade da globalização ergueram um castelo sobre um grão de verdade.

Outra falha na economia patriota é sobrecarregar o Estado. Governos estão perdendo completamente o comedimento quando o que precisam é cortar gastos com bem-estar social. Populações envelhecidas pesam em orçamentos com contas maiores de pensões e assistência de saúde. Taxas de juros subindo pioram tudo. Depois de uma crise no mercado de títulos em 2022, o governo de direita do Reino Unido está aumentando impostos em relação ao PIB mais do que qualquer outro mandato parlamentar na história do país.

Conforme as taxas dos títulos de longo prazo aumentam, a endividada Itália parece oscilar novamente. A crescente conta dos serviços de dívidas dos EUA provavelmente atingirá seu maior nível na história antes do fim desta década – o que comprova a fragilidade fiscal da nova era.

A falha menos visível, mas potencialmente mais custosa, é que a economia patriota é uma faca cega em um tempo de mudanças rápidas. As transições nas matrizes de energia e em inteligência artificial são grandes demais para qualquer governo planejar. Ninguém conhece a maneira mais barata de descarbonizar, nem os melhores usos da nova tecnologia. Ideias precisam ser testadas e canalizadas para os mercados, não governadas por agendas centralizadas. Regulações excessivas inibirão a inovação e, por aumentar os custos, tornarão a mudança mais lenta e dolorosa.

Apesar de suas falhas, será difícil conter a economia patriota. As pessoas gostam de gastar o dinheiro dos outros. Conforme orçamentos do governo aumentam, os interesses específicos que se alimentam deles crescerão em tamanho e influência. É mais difícil retirar proteções e ajudas do que concedê-las – particularmente a eleitores mais idosos, que contribuem menos para o crescimento econômico. Qualquer pessoa atenta ao arco da história dobrando-se na direção do progresso deveria lembrar que, um século atrás, a Argentina era rica como a Suíça.

Um plano para o caminho à frente

Mas a desilusão eventualmente se manifestará. Pode ser porque a extravagância fiscal se aconchegue com governos endividados. Talvez a ganância dos caçadores de subsídios fique difícil de esconder. Ou uma China em estagnação e repressiva pode deixar de cumprir a promessa da prosperidade comandada pelo Estado.

Quando a mudança vier, poderá ser surpreendentemente brusca – ao menos nas democracias. Nos anos 70, a maré virou a favor dos livres mercados quase tão rapidamente quanto virou contra eles hoje, ocasionando as eleições de Margaret Thatcher e Ronald Reagan. A tarefa para os liberais clássicos é preparar-se para esse momento definindo um novo consenso que adapte suas ideias para um mundo mais perigoso, interconectado e fragmentado – o que não será fácil, especialmente em face à rivalidade entre EUA e China. Mas isso já foi feito no passado. E pensem na recompensa. / Tradução de Augusto Calil

https://www.estadao.com.br/economia/the-economist-livre-comercio-global-passado/

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Baby boomers: geração que definiu a juventude ressignifica a maturidade

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Paula Englert – Fast Company Brasil – 05-10-2023 

Talvez a expressão “baby boomer” não seja capaz de sintetizar o poder de influência da geração que define. Distante da abordagem alfabética que demarca demografias mais jovens, o termo crava a origem desse recorte etário, falhando em dar espaço para interpretações identitárias mais conceituais e abstratas.

Didático, ele nomeia os nascidos entre 1946 e 1964 apresentando um marco na história contemporânea: o aumento vertiginoso da taxa de natalidade presenciado no meio do século 20. Um momento onde o mundo, recém-saído de eras marcadas por revoluções e guerras, pode abrir espaço para um boom menos literal.

os boomers, antes protagonistas da juventude, hoje representam um novo papel: reinventam o conceito de maturidade. Esse sim, criado antes deles.

De fato, os baby boomers abriram alas para um novo contexto. Um lapso otimista, principalmente no mundo ocidental. Um hiato de relativa calmaria política e crescimento econômico. Algo que definitivamente não podemos afirmar sobre o zeitgeist vivido pelos X, Y e Z – e, muito provavelmente, sobre o panorama que se desenha para os Alpha.

Inaugurais, fazendo jus ao seu nome, construíram conceitos que perduram até hoje, destruindo tantos outros que abandonamos enquanto sociedade.

O desmantelamento de algumas estruturas, capitaneado por movimentos da contracultura dos anos 1960, são um símbolo do desbravamento dessa geração. Questionando, deixaram um legado maior do que a sua própria intenção: o conceito de juventude.

O “jovem” como conhecemos hoje não era uma convenção presente até então. Ávido e transviado como o James Dean de 1955, se tornou um personagem novo no elenco arquetípico global. Um roteiro reprisado, com ajustes, até hoje.

Agora, presenciamos o que pode ser o maior redesenho da nossa estrutura geracional até então: os boomers, antes protagonistas da juventude, hoje representam um novo papel: reinventam o conceito de maturidade. Esse sim, criado antes deles. Mas no qual relutam em se encaixar. Não era para menos, já que nasceram com vocação para explodir o imposto.

A antiga classificação da “terceira idade” está descompassada com quem chega hoje nos seus 60, 70, 80. Vemos este fato frequentemente nos estudos comportamentais liderados pela Box1824. A miopia está em um mercado programado para recortes que não representam mais o presente.

Acompanhando a queda da natalidade e o aumento da expectativa de uma vida cada vez mais ativa e criativa, os boomers combatem estigmas com sua simples presença. Se vivemos cada vez mais e melhor, três quartos de século neste mundo ainda permitem muitos começos e recomeços. Espaço para planejar e sonhar sonhos ainda distantes.

Inaugurais, fazendo jus ao seu nome, os boomers construíram conceitos que perduram até hoje, destruindo tantos outros que abandonamos enquanto sociedade.

Chegam aos 60 anos com muita vida para viver. Ficar velho significa tornar-se obsoleto. E obsolescência é ausência de vida, de relevância, de presença. Nada disso se determina pela idade, e sim pela forma que vivemos.

Estes são os estigmas que vão se esvaindo enquanto os baby boomers chegam a sua etapa madura. Adentram esta fase interessantes e interessados, vivos como poucos, com tempo e experiência para ressignificar a sua existência, inaugurando novas formas de morar, de se relacionar, de aprender, de ser belo, saudável e de recomeçar.

Mais uma vez, com o pioneirismo típico de eternos revolucionários, os até então conhecidos pelo seu nascimento agora refazem a sua história. Inauguram um novo polo de influência.

Descentralizam o Z-centrismo de uma sociedade obcecada pelos vinte e poucos, tornando-se um polo exportador de comportamento. De inspiração. Forçam marcas e organizações a se reprogramarem, atendendo demandas consumidoras, sociais e afetivas antes silenciadas ou ignoradas.

Nossos conceitos são desafiados na mesma velocidade que as pirâmides demográficas se redesenham. Chegou a hora de honrar esse topo, mais potente que nunca.


SOBRE A AUTORA

Paula Englert

Paula Englert é CEO da Box1824, empresa focada em desenhar estratégias de negócio baseadas em visões de futuro. Apaixonada por decodificar o comportamento humano, seu foco nos últimos anos tem sido estruturar um grupo de empresas que auxiliem corporações nas suas estratégias de negócio, impacto positivo, caminhos de construção de aspiracionalidade e relevância. Tem mais de 20 anos de experiência no mercado nacional e internacional e é formada em Comunicação Social, com pós-graduação em Psicologia de Grupos e Especialização em Sociologia. Já participou como palestrante ou painelista em eventos como SXSW, Web Summit Rio, MaxMídia, entre outros.

https://fastcompanybrasil.com/colunista/paula-englert/

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Inteligência artificial aumenta perigo de postar fotos de filhos nas redes

Recursos que fazem reconhecimento facial podem ser usados por criminosos e abusadores

Kashmir Hill  Folha/New York Times – 15.out.2023

Nova York | The New York Times Existem dois tipos de comportamentos distintos de pais no TikTok: aqueles que quebram ovos na cabeça de seus filhos para rir e aqueles que estão desesperadamente tentando garantir que a internet não saiba quem são seus filhos. Para a estrela do TikTok que posta sob o nome de Kodye Elyse, uma experiência desconfortável online a fez parar de incluir seus três filhos em suas redes sociais. Um vídeo que ela postou em 2020 de sua filha pequena dançando atraiu milhões de visualizações e comentários assustadores de homens estranhos. (Ela solicitou que o The New York Times não publicasse seu nome completo porque ela e seus filhos já foram alvos de pessoas que revelaram suas identificações na internet no passado.) 

Lucy e Mike Fitzgerald evitam postar fotos das filhas nas redes sociais – Whitney Curtis/The New York Times “É como se fosse (o filme) “O Show de Truman” na internet”, disse Elyse, 35, que tem 4 milhões de seguidores no TikTok e posta sobre seu trabalho como tatuadora e suas experiências como mãe solteira. “Você nunca sabe quem está olhando.” Após essa experiência, ela apagou as imagens de seus filhos da internet. Ela rastreou todas as suas contas online, em sites como Facebook e Pinterest, e as excluiu ou as tornou privadas. Desde então, ela se juntou ao barulhento grupo de TikTokers que incentiva os pais a não postarem sobre seus filhos publicamente

Mas, no mês passado, ela descobriu que seus esforços não foram totalmente bem-sucedidos. Kodye Elyse usou o PimEyes, um mecanismo de busca que encontra fotos de uma pessoa na internet em segundos usando a tecnologia de reconhecimento facial. Quando ela enviou uma foto de seu filho de 7 anos, os resultados incluíram uma imagem dele que ela nunca havia visto. Ela precisava de uma assinatura de US$ 29,99 (R$ 152,59) para ver de onde a imagem tinha vindo. 

 Seu ex-marido tinha levado seu filho a um jogo de futebol, e eles estavam ao fundo de uma fotografia em um site de notícias, sentados na primeira fileira de assentos atrás do gol. Ela percebeu que não seria capaz de fazer com que o site de notícias apagasse a foto, mas preencheu um pedido de exclusão no PimEyes para remover a imagem de seu filho para que ela não aparecesse se outras pessoas procurassem por seu rosto. 

  1. Criança vira adulta em vídeo, em alerta para risco de postar fotos nas redes; assista
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Ela também encontrou uma foto de sua filha quando era criança, agora com 9 anos, sendo usada para promover um acampamento de verão que ela havia frequentado. Ela pediu ao acampamento para remover a foto, o que eles fizeram. “Acho que todo mundo deveria verificar isso”, disse ela. “É uma boa maneira de saber que ninguém está reutilizando as imagens de seus filhos.

“Cuidado com o “sharenting” 

Até que ponto os pais devem postar sobre seus filhos online tem sido discutido e examinado a um grau tão intenso que tem o seu próprio termo: “sharenting”. Historicamente, a principal crítica aos pais que compartilham demais online tem sido a invasão da privacidade de seus filhos, mas os avanços em tecnologias baseadas em inteligência artificial apresentam novas maneiras para pessoas mal-intencionadas apropriarem-se indevidamente de conteúdo online de crianças. Entre os riscos novos estão golpes com o uso de tecnologia “deepfake”, que imitam vozes de crianças, e a possibilidade de um estranho descobrir o nome e o endereço de uma menor de idade apenas pesquisando sua foto. 

Amanda Lenhart, chefe de pesquisa da Common Sense Media, uma organização sem fins lucrativos que oferece conselhos de mídia para pais, destacou uma recente campanha de serviço público da Deutsche Telekom (operadora de telecomunicações da Alemanha) que propagava o compartilhamento mais cuidadoso dos dados das crianças. O vídeo apresentava uma atriz interpretando uma menina de 9 anos chamada Ella, cujos pais fictícios eram indiscretos ao postar fotos e vídeos dela online. A tecnologia deepfake gerou uma versão digitalmente envelhecida de Ella que foi usada para chantagear seus pais fictícios, dizendo-lhes que sua identidade foi roubada, sua voz foi duplicada para enganá-los pensando que ela foi sequestrada e uma foto nua de sua infância foi vendida.

Lenhart chamou o vídeo de “exagerado”, mas afirmou que mostrava que “na verdade, essa tecnologia é realmente muito boa” para qualquer fim. As pessoas já estão recebendo ligações de golpistas imitando entes queridos em perigo usando versões de suas vozes criadas com ferramentas de IA. Jennifer DeStefano, uma mãe que mora no estado de Arizona (EUA), recebeu uma ligação este ano de alguém que afirmava ter sequestrado sua filha de 15 anos. “Eu atendi o telefone ‘Alô’; do outro lado estava nossa filha Briana soluçando e chorando dizendo: ‘Mãe'”, relatou a mãe em depoimento no Congresso no fim do semestre passado. DeStefano estava negociando para pagar aos sequestradores US$ 50 mil quando descobriu que sua filha estava em casa “descansando em segurança na cama”. 

O que um rosto revela 

Fotos e vídeos obscuros online podem ser vinculados ao rosto de alguém com tecnologia de reconhecimento facial, que tem se tornado mais poderosa e precisa nos últimos anos. Fotos tiradas em uma escola, uma creche, uma festa de aniversário ou um parquinho podem aparecer em uma busca. (Uma escola ou creche deve apresentar um termo de consentimento e deixar o responsável à vontade para negar) “Quando uma criança é mais nova, os pais têm mais controle sobre sua imagem”, disse Debbie Reynolds, consultora de privacidade de dados e tecnologias emergentes. “Mas as crianças crescem. Elas têm amigos. Elas vão a festas. As escolas tiram fotos”, destacou. 

Reynolds recomenda que os pais pesquisem online pelos rostos de seus filhos usando um serviço como PimEyes ou FaceCheck.ID. Se não gostarem do que encontrarem, eles devem tentar fazer com que os sites nos quais a foto foi postada a removam, disse ela. (Alguns irão, mas outros —como sites de notícias—podem não fazê-lo.) 

Em uma pesquisa de 2020 do Pew Research, mais de 80% dos pais relataram compartilhar fotos, vídeos e informações sobre seus filhos em sites de rede social. Especialistas não conseguiram dizer quantos pais estão compartilhando essas imagens apenas em contas privadas em vez de publicamente, mas disseram que o compartilhamento privado era uma prática cada vez mais comum. Embora um mecanismo público de busca facial seja uma ferramenta potencialmente útil para um pai, ele também pode ser usado para fins nefastos. 

“Uma ferramenta como o PimEyes pode ser —e provavelmente é— usada tão facilmente por um perseguidor quanto por um pai preocupado”, disse o pesquisador de privacidade Bill Fitzgerald, que também expressou preocupação com pais autoritários que a usam para monitorar as atividades de seus filhos adolescentes. O proprietário do PimEyes, Giorgi Gobronidze, disse que mais de 200 contas foram desativadas no site por pesquisas inadequadas de rostos de crianças. 

Um mecanismo de reconhecimento facial semelhante, Clearview AI, cujo uso é limitado às forças policiais, foi utilizado para identificar vítimas em fotos de abuso sexual infantil. Gobronidze explicou que o PimEyes também foi o recurso adotado por organizações de direitos humanos para ajudar crianças. Mas ele está preocupado o suficiente com possíveis usuários que são predadores de crianças e alega que o PimEyes está trabalhando em um recurso para bloquear pesquisas de rostos que parecem pertencer a menores de idade. Por sua vez, o consultor Bill Fitzgerald está preocupado que os pais que usam a ferramenta para procurar seus próprios filhos possam estar ajudando inadvertidamente o algoritmo do PimEyes a melhorar seu reconhecimento desses menores. 

Antropóloga cultural e diretora do Connected Learning Lab da Universidade da Califórnia, Mimi Ito afirmou que a tecnologia de reconhecimento facial tornou o compartilhamento online de fotos de crianças, que normalmente é alegre, mais desafiador. “Há uma crescente consciência de que, com a IA, não temos realmente controle sobre todos os dados que estamos espalhando no ecossistema das redes sociais”, disse. 

Zuckerberg e Snowden escondem rostos de filhos 

Lucy e Mike Fitzgerald, dançarinos profissionais de dança de salão em Saint Louis, nos EUA, mantêm uma presença ativa nas redes sociais para divulgar seu negócio e se abstêm de postar imagens online de suas filhas, de 3 e 5 anos, e pediram a amigos e familiares que respeitem a decisão. Eles acreditam que as crianças devem ter o direito de criar e controlar por si mesmas. Eles também se preocupam que suas imagens possam ser usadas de forma inadequada. “O fato de você poder roubar a foto de alguém em alguns cliques e depois usá-la para o que quiser é preocupante”, disse Lucy. 

“Eu entendo o apelo de postar fotos de seus filhos, mas, no final das contas, não queremos que sejam eles que tenham que lidar com possíveis consequências não intencionais.” Ela e seu marido não são especialistas que foram “informados sobre o que está por vir no horizonte da tecnologia”, mas explicou que eles “tiveram uma sensação” anos atrás. “(achávamos que) haveria capacidades que não podemos prever agora que eventualmente serão problemáticas para nossos filhos”. 

Pais que são mais propensos a conhecer detalhes sobre o que está por vir no horizonte da tecnologia, como Edward Snowden, o contratante da Agência de Segurança Nacional que se tornou denunciante, e Mark Zuckerberg, o co-fundador do Facebook, escondem os rostos de seus filhos em postagens públicas de mídia social. Em postagens temáticas de feriados no Instagram, Zuckerberg usou o método desajeitado de emojis – postando um adesivo digital nas cabeças de seus filhos mais velhos – enquanto Snowden e sua esposa, Lindsay Mills, posaram artisticamente um de seus dois filhos atrás de um balão para obscurecer seu rosto. “Eu quero que meus filhos tenham a opção de se revelarem ao mundo, da forma que escolherem, quando estiverem prontos”, disse Mills. 

Um porta-voz de Zuckerberg se recusou a comentar ou explicar por que o rosto de seu bebê não recebeu o mesmo tratamento e se foi porque a tecnologia de reconhecimento facial não funciona muito bem em bebês. 

Privacidade e sucesso no futuro 

Muitos especialistas observaram que os adolescentes pensavam muito sobre como resolver suas identidades digitais e que alguns usavam pseudônimos online para evitar que os pais, professores e potenciais empregadores encontrassem suas contas. Mas se houver uma imagem pública nessa conta que mostre o rosto deles, ainda pode ser vinculada a eles por meio de um mecanismo de busca facial. 

“É muito difícil manter seu rosto fora da web”, disse Priya Kumar, professora assistente na Universidade da Pensilvânia, que estudou as implicações de privacidade do compartilhamento de informações pessoais online. Kumar sugere que os pais envolvam as crianças, por volta dos 4 anos de idade, no processo de postagem e conversem com elas sobre quais imagens são adequadas para compartilhar. 

Amy Webb, CEO da consultoria focada em tecnologia Future Today Institute, prometeu em um post no Slate há uma década não postar fotos pessoais ou informações de identificação de sua filha pequena online. Alguns leitores encararam isso como um desafio e encontraram uma foto da família que Webb inadvertidamente tornou pública, ilustrando o quão difícil pode ser manter uma criança fora da internet. Sua filha, agora adolescente, disse que gostava de ser um “fantasma online” e achava que isso a ajudaria profissionalmente. 

“Futuros empregadores ‘não vão encontrar absolutamente nada sobre mim porque eu não tenho nenhuma plataforma”, disse ela. “Isso vai me ajudar a ter sucesso no futuro.” Outros jovens que cresceram na era do compartilhamento online também disseram que eram gratos por terem pais que não postavam fotos deles publicamente na internet. Shreya Nallamothu, de 16 anos, é uma estudante cuja pesquisa sobre influenciadores infantis ajudou a promulgar uma nova lei estadual em Illinois, nos EUA, que exige que os pais reservem ganhos para seus filhos se estiverem apresentando-os em conteúdo online monetizado. 

Ela disse que era “muito grata” por seus pais não postarem “momentos super embaraçosos de mim nas redes sociais”. “Há pessoas na minha turma que são muito boas em encontrar o Facebook dos pais dos seus colegas e rolar a página”, explicou. Eles usam qualquer material embaraçoso para postagens de aniversário que desaparecem no Snapchat. Arielle Geismar, de 22 anos, estudante universitária e defensora da segurança digital em Washington, descreveu isso como um “privilégio crescer sem que uma identidade digital seja criada para você”. “As crianças são atualmente cobaias da tecnologia”, disse Geismar. “É nossa responsabilidade cuidar delas.” 

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FT: “Nação das startups” vai à guerra

Estima-se que 10% a 15% dos funcionários de empresas de tecnologia estejam entre os 360 mil reservistas convocados para o conflito, o que representa uma desestabilização no mercado de uma hora para outra

Por Ivan Levingston, Financial Times/Valor — 13/10/2023 

O CEO da startup de softwares Venn, Or Bokobza, mal conseguiu falar com os colegas de trabalho na última semana.

Como reservista de uma unidade de combate de elite das Forças Armadas israelenses, ele está na frente de batalha praticamente desde que o grupo terrorista Hamas lançou um ataque surpresa contra Israel no sábado.

“Estou fora, concentrado no que agora é o mais importante, que é a segurança de nosso país”, disse ao “Financial Times” em rápida ligação. “[Os colegas] ficam me dizendo: ‘Não se preocupe [com a empresa]”.

Bokobza, ao lado de cerca de 10 dos 90 funcionários da empresa, está entre os milhares de trabalhadores do setor de alta tecnologia israelense convocados na mobilização em massa do país para a guerra.

Fundadores e investidores de tecnologia israelenses estimam que entre 10% e 15% de suas equipes estão entre os 360 mil reservistas convocados, o que, para empresas relativamente pequenas, representa uma grande desestabilização de uma hora para outra.

Enquanto Israel se prepara para uma possível ofensiva terrestre em Gaza, a autodenominada “nação das Startups” se depara com o que será um teste sem precedentes.

Uma guerra muito longa pode afetar o próspero setor de tecnologia do país, um dos principais propulsores de sua economia, fonte de cerca de 15% de todos os empregos, de acordo com a agência de inovação de Israel. Essa força de trabalho está distribuída em centenas de startups e em importantes filiais de multinacionais como Intel e Microsoft.

Israel também atrai um alto volume de investimento em tecnologia do exterior. Em 2023, o país levantou um total de US$ 5,5 bilhões em capital de risco, em 320 contratos de investimento, mesmo com o setor no mundo como um todo estando em desaceleração, de acordo com a empresa de análises de mercado IVC. Investidores que queiram estabilidade podem achar difícil continuar apostando no país em meio a um conflito prolongado.

“Eu presumo que se isso continuar por alguns meses, pode haver certo impacto na produtividade, basicamente por causa das regras da física; você tem menos pessoas”, disse o CEO da empresa de cibersegurança Pentera, Amitai Ratzon.

Dovi Frances, sócio-fundador da empresa de capital de risco Group 11, disse que vários dos principais executivos de empresas que fazem parte de sua carteira de investimentos estão atualmente entre os reservistas convocados. As empresas do setor já estão se adaptando, já que a perspectiva de guerra há muito tempo faz parte da vida em Israel, segundo Frances e outros executivos do setor.

O CEO da startup de cibersegurança Armis, Yevgeny Dibrov, está precisando lidar com a saída de 20 membros da equipe.

A empresa, que tem oito anos de vida e 660 funcionários, logo entrou em modo de crise. Transferiu algumas operações e colocou a equipe restante em Israel em trabalho remoto, e está oferecendo apoio psicológico aos funcionários após o ataque do Hamas.

“Somos capazes de nos ajustar a isso, essa é basicamente a realidade”, disse Dibrov.

Os funcionários “podem trabalhar na segurança de suas casas e ficar perto de abrigos e salas seguras, então sob esse ponto de vista, acredito que a covid realmente nos ajudou a nos preparar”, disse Gili Raanan, fundador empresa de capital de risco Cyberstarts.

Alguns executivos ressaltaram que muitas startups israelenses têm altos executivos e grupos de marketing e vendas trabalhando nos Estados Unidos. “As empresas sabem como dar continuidade aos negócios e sabem como trabalhar nessas situações. Essa é uma das forças”, disse Shmuel Chafets, presidente da empresa de capital de risco Target Global.

Em outros casos, as startups vêm direcionando sua competência tecnológica para o esforço de guerra, uma vez que o setor israelense de cibersegurança, entre os melhores do mundo, emergiu das Forças Armadas e do setor de inteligência de Israel.

Nadav Zafrir, ex-comandante da unidade de elite israelense “8200”, da chamada inteligência de sinais, e hoje sócio-gerente da empresa de investimento Team8, disse que sua companhia está trabalhando no uso de várias tecnologias, como ciência de dados, para apoiar o governo nos esforços para localizar reféns israelenses.

“Nosso ciclo de inovação não parou, estamos pesquisando diferentes áreas”, disse Zafrir. “Todas elas são incrivelmente relevantes para este momento.”

Empresas maiores de tecnologia também observam a situação com atenção. A Intel, uma das maiores multinacionais em Israel, com 13 mil funcionários, informou estar “monitorando de perto a situação em Israel e tomando medidas para proteger e apoiar” sua equipe.

Até quinta-feira, mais de 300 empresas de capital de risco haviam assinado uma declaração de apoio a Israel, destacando que o país “tem sido um parceiro constante para o ecossistema global de inovação, fomentando avanços tecnológicos pioneiros e a inovação das startups”. A declaração foi assinada por alguns dos maiores nomes americanos do setor, como Bessemer Venture Partners, GGV Capital e Insight Partners, muitos dos quais têm investido em empresas israelenses ao longo dos anos. Outras empresas, como Sequoia Capital e General Catalyst, também anunciaram doações.

Executivos das startups enfatizam que, independentemente do impacto em suas empresas, o esforço de guerra de Israel está em primeiro lugar. Frances, do Group 11, disse que sua empresa vem organizando doações de dinheiro, comida e equipamentos, voos para reservistas no exterior voltarem a Israel e até um envio de 50 mil sacas de café para a linha de frente.

Bokobza, da Venn, disse que tem acesso apenas esporádico a seu telefone, e que quando o verificou recentemente, tinha mais de 100 mensagens de apoio. “Minha única esperança é que nossos clientes, parceiros e clientes em todo o mundo saibam que estamos aqui para ficar”, disse. (Colaboraram Richard Waters, George Hammond e Camilla Hodgson, de San Francisco). (Tradução de Sabino Ahumada)

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2023/10/13/ft-nao-das-startups-vai-guerra.ghtml

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Espírito Santo do Pinhal: cidade do interior de SP troca o café pelo vinho e vive ‘corrida do ouro’

Movimento foi iniciado com chegada da vinícola Guaspari, em 2001; hoje o município já é reconhecido pelo enoturismo e possui nove vinícolas em funcionamento, além de vários outros projetos

Por Wesley Gonsalves- Estadão – 04/10/2023 

A pequena cidade de Espírito Santo do Pinhal, a 190 km da capital paulista, construiu, em mais de 100 anos, a sua economia em volta do café – como outros inúmeros municípios do Brasil. Essa realidade, porém, está sendo alterada com a chegada de uma nova cultura na região – as uvas para produção de vinhos.

Se no passado, as terras pinhalenses abrigavam grandes fazendas cafeicultoras, agora, o rico terroir – o conjunto de características do solo para o cultivo de uma cultura – da região da Serra da Mantiqueira se transformou no “point” de imensos parreirais, dando lugar às uvas e passando do bom e velho “cafezinho” matinal para taças de cristal regadas a vinhos premiados mundo afora.

Com uma forte influência da imigração italiana na região, que dominou a produção de café por décadas, Espírito Santo do Pinhal viu a viticultura transformar a sua economia local. A cidade está deixando para trás o passado de exportadora de commodity para se transformar num ponto do enoturismo no País.

O que marca essa virada de chave na história de Espírito Santo do Pinhal foi a chegada da Vinícola Guaspari, em 2001, após membros da família Brito – tradicional no agronegócio- adquirirem uma área antes utilizada para o plantio do café. Primeira a investir na plantação de videiras e na vinificação, a empresa capitaneou um movimento que hoje atrai dezenas de outros empreendimentos para a região.

Esse mergulho no universo dos vinhos já começa aparecer em números de investimentos direcionados ao pequeno município de pouco mais de 40 mil habitantes, que vive uma espécie de “corrida do ouro”, com empresários em busca de terras férteis para plantação de videiras e outros negócios.

Um levantamento feito pela prefeitura local, a pedido do Estadão, mapeou cerca de R$ 500 milhões em investimentos ligados ao setor de turismo, como novas vinícolas, wine bars, hotéis, restaurantes, entre outros estabelecimentos que já se encontram em algum estágio de implementação do negócio na cidade.

O professor de viticultura do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), Fábio Lenk, explica que, diferentemente de outras cidades conhecidas pela produção de vinho, como São Roque e Jundiaí, que tem produções focadas nas uvas de mesa, Pinhal conseguiu se destacar por ter boas condições para o desenvolvimento das uvas de inverno, algo “herdado” da sua prévia cafeicultura. “Onde se faz um bom café também se faz um bom vinho”, diz Lenk.

Segundo o especialista, com o sucesso das primeiras empreitadas ligadas ao vinho, outros empresários sem experiência na viticultura começaram a se interessar pela região, comprando terras antes ocupadas apenas pelo café e passando a usá-las para as uvas. “São empresários da soja, da cana, da tecnologia, dos bancos, pessoas que acabaram sendo atraídas pelo negócio do vinho e muito pela expansão do enoturismo”, afirma.

Da xícara à taça

Mas, como uma cidade que passou tanto tempo exportando um único fruto muda “do café para o vinho”? A diretora de turismo de Espírito Santo do Pinhal, Loriane Salvi, conta que a mudança de plano do município teve início em 2014, quando a administração local decidiu investir para se transformar de um polo exportador de commodity para uma região turística, apostando no crescimento do enoturismo.

Para essa nova fase, a chegada da Guaspari foi fundamental. “A Vinícola Guaspari é o projeto âncora da cidade”, diz. “O turismo estava adormecido por aqui, algo que foi revivido com a cultura do vinho trazida por eles”

A história da Vinícola Guaspari começa em 2001, quando membros da família Brito adquiriram as primeiras terras na cidade. Cinco anos mais tarde, em 2006, foram plantadas as primeiras videiras. Com o resultado da extração da primeira leva, ainda artesanal, a família se surpreendeu com a qualidade do vinho gerado na região e decidiu dar início a um projeto mais ambicioso, de transformar a propriedade em uma grande produtora de vinhos. Atualmente, são 60 hectares de vinhedos plantados na propriedade e uma estimativa de engarrafar cerca de 150 mil garrafas de vinho nos próximos anos.

Solo, clima e tecnologia

A diretora executiva da vinícola, Fabrizia Zucherato, conta que a qualidade do vinho local está ligada à junção de fatores biológicos, climáticos e um pouco de inovação. O primeiro fator é o “terroir da região”, que são as características biológicas do solo pinhalense, às margens da Serra da Mantiqueira, de terras graníticas, profundas e altamente drenadas. O segundo diz respeito à amplitude térmica na cidade, que registra, no inverno, dias quentes e noites frescas, um tipo de clima comum no verão europeu, em grandes regiões produtoras de vinho, como Itália e França. “Essa amplitude é ideal para a maturação das uvas, que faz a concentração dos açúcares”, diz Fabrizia, que é engenheira agrônoma. “Isso, junto da tecnologia, gera um bom vinho.”

Segundo a diretora executiva da Vinícola Guaspari, a expectativa é chegar a 150 mil garrafas envazadas por safra nos próximos anos

Segundo a diretora executiva da Vinícola Guaspari, a expectativa é chegar a 150 mil garrafas envazadas por safra nos próximos anos Foto: Tiago Queiroz

E, por último, tem a questão de inovação: a empresa usa uma tecnologia desenvolvida pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), conhecida como “dupla poda” das videiras. A grosso modo, nesse método, a primeira “poda” dos galhos da videira serve para evitar que ela gere frutos no verão -quando há maior quantidade de chuvas, o que dilui os açúcares da fruta. Dessa forma, a planta é “enganada”, e os sabores das uvas ficam concentrados para a segunda poda, entre maio e junho, feita no período de temperaturas mais baixas.

Desde que foi iniciada a produção de vinhos da vinícola, os rótulos da marca já garantiram algumas premiações internacionais, como na Decanter World Wine Awards. Isso logo atraiu olhares de novos apaixonados pelo vinho, que começaram a investir nas terras de Espírito Santo do Pinhal. Na Guaspari, uma garrafa de vinho produzida na região pode custar de “meros” R$ 150 a até R$ 800, a depender do tipo da uva, tempo de engarrafamento e outras questões técnicas.

De acordo com a administração local, atualmente o município possui 28 projetos de vinícola em andamento, das quais nove deles já estão em fase de operação. Vale ressaltar, que, apesar do crescimento dos negócios ligados ao vinho, o número de produtores de café ainda é predominante na cidade: são, atualmente, cerca de 950 produtores de cafés especiais cadastrados.

Um desses novos negócios é a Vinícola Amana, formada por um grupo de 40 investidores de todo o Brasil e também do exterior. Já no período de envasamento das primeiras safras, a expectativa da companhia é alcançar a meta de 120 mil garrafas de vinho nos próximos anos.

Dores do crescimento

Como diversas cidades que passam pelo processo de crescimento, em meio ao boom do enoturismo, Espírito Santo do Pinhal também enfrenta algumas das “dores do crescimento”, como falta de mão de obra qualificada, insumos para a vinificação e estrutura para expansão dos negócios.

Conforme divulgado pela prefeitura, uma das principais demandas dos novos empreendimentos são os trabalhadores para o segmento de serviços, por conta da chegada de novos hotéis, bares e restaurantes. Para resolver o problema, o executivo municipal conta com algumas parcerias com entidades de formação profissional e também com as iniciativas particulares de cada companhia.

No caso da Guaspari, para dar conta da demanda pelos profissionais do atendimento do vinho, a companhia tem realizado projetos de formação interna, que vão desde cursos de atendimento ao cliente até aperfeiçoamento dos sommeliers da casa, com a mentoria de um especialista vindo de fora do País. “Nós não tínhamos essa tradição na cidade. Eu tenho gente que era rurícola e passou a trabalhar com atendimento ao público”, diz Fabrizia Zucherato. “O modelo mais sustentável é trazer esses profissionais direito da nossa cidade.”

Para Fábio Lenk, professor do IFSP, além das questões do atendimento, outra demanda considerada importante para o sucesso da nova empreitada de Espírito Santo do Pinhal é a capacidade local de processar toda a uva colhida na região, já que neste tipo de cultivo, diferentemente do tradicional café, não é possível armazenar por muito tempo os insumos. “Ter como processar toda a uva é fundamental para esse setor”, diz. “São problemas que ainda terão de ser resolvidos.”

https://digital.estadao.com.br/article/281998972105816

https://www.estadao.com.br/economia/negocios/espirito-santo-pinhal-cafe-vinhos-corrida-do-ouro/

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Gigantes da tecnologia estão engolindo startups de IA; entenda

Tecnologia exige enormes quantidades de poder de computação, levando essas pequenas empresas a buscar serviços com Microsoft, Google e Amazon

Por Gerrit De Vynck – Estadão/The Washington Post – 06/10/2023 

THE WASHINGTON POST – Em 2021, um grupo de engenheiros abandonou a OpenAI, preocupado com o fato de a empresa pioneira de inteligência artificial (IA) ter se concentrado demais em ganhar dinheiro. Em vez disso, eles formaram a Anthropic, uma corporação de benefício público dedicada a criar uma IA responsável.

Esta semana, os benfeitores da Anthropic se uniram a um parceiro corporativo surpreendente, anunciando um acordo com a Amazon no valor de até US$ 4 bilhões.

O acordo destaca como a necessidade insaciável de poder de computação da IA está empurrando até mesmo as startups mais anticorporativas para os braços das Big Techs. Antes de a Anthropic anunciar a Amazon como seu parceiro de nuvem “preferencial”, ela se gabava, em fevereiro, de ter um relacionamento semelhante com o Google (a postagem do blog da Anthropic em fevereiro não tem mais a palavra “preferencial”).

Os porta-vozes de ambas empresas disseram que o relacionamento entre o Google e a Anthropic não mudou.

O boom da IA é amplamente visto como a próxima revolução na tecnologia, com o potencial de catapultar uma nova onda de startups para a estratosfera do Vale do Silício. Mas, em vez de quebrar o domínio de uma década das Big Techs sobre a economia da Internet, o boom da IA até agora parece estar fazendo o jogo dessas gigantes.

Os armazéns de poderosos chips de computador das grandes empresas de tecnologia (os data centers) são necessários para treinar os complexos algoritmos por trás dos chatbots de IA, dando à Amazon, ao Google e à Microsoft uma imensa influência sobre o mercado. E, embora empresas iniciantes como a Anthropic possam ter criado uma tecnologia inovadora e poderosa, elas ainda precisam do dinheiro e dos recursos de computação em nuvem das Big Techs para fazê-la funcionar.

“Para criar IA em qualquer tipo de escala significativa, qualquer desenvolvedor terá dependências essenciais de recursos que estão concentrados em grande parte em apenas algumas empresas”, disse Sarah Myers West, diretora administrativa do AI Now Institute, que pesquisa os efeitos da IA na sociedade. “Não há realmente um caminho para sair disso.”

Cresce a demanda por IA generativa

O treinamento de sistemas de IA “generativos”, como chatbots e geradores de imagens, é extremamente caro. A tecnologia por trás deles precisa processar trilhões de palavras e imagens antes de poder produzir textos e imagens fotorrealistas semelhantes aos humanos a partir de comandos simples. Esse trabalho exige milhares de chips de computador especializados instalados em enormes data centers que consomem enormes quantidades de energia.

E a demanda só está aumentando. A Virgínia do Norte (a região mais importante do mundo para armazéns de computadores) aumentou em 20% sua capacidade total em 2022, de acordo com a empresa imobiliária CBRE. Ainda assim, as taxas de vacância nos data centers da região eram inferiores a 2% no início deste ano.

Em janeiro, a OpenAI, a startup que deu início ao boom da IA ao lançar o ChatGPT no ano passado, anunciou um acordo multibilionário semelhante com a Microsoft, dando à gigante da tecnologia acesso profundo à nova tecnologia e permitindo que ela lance um chatbot próprio.

O acordo da Anthropic com a Amazon não vincula as duas empresas tão intimamente, mas permite que os engenheiros da Amazon usem os modelos da Anthropic em seus produtos, disse a Amazon em um comunicado à imprensa anunciando o acordo.

A presidente da Comissão Federal de Comércio, Lina Khan, disse que a agência está observando atentamente os sinais de comportamento anticompetitivo. Em março, a FTC abriu uma investigação sobre os provedores de computação em nuvem, perguntando se os produtos de IA dependem do provedor de nuvem em que foram criados. Os órgãos reguladores de outros lugares também estão observando. Os escritórios da Nvidia, que fabrica os chips de computador e o software necessários para treinar grandes modelos de linguagem, foram invadidos na quarta-feira pelas autoridades francesas de concorrência, de acordo com o Wall Street Journal.

Precisamos estar muito atentos para garantir que esse não seja apenas mais um local para as grandes empresas se tornarem maiores e realmente esmagarem seus rivais

Lina Khan, presidente da Comissão Federal de Comércio dos EUA

“Precisamos estar muito atentos para garantir que esse não seja apenas mais um local para as grandes empresas se tornarem maiores e realmente esmagarem seus rivais”, disse Khan na Spring Antitrust Enforcers Summit, em março. “Quando temos esses momentos de transição tecnológica, vemos que as empresas estabelecidas às vezes precisam recorrer a táticas anticompetitivas para proteger seus fossos e seu domínio.”

Russell Wald, diretor de políticas do Institute for Human-Centered AI da Universidade de Stanford, EUA, disse que a concorrência existe, mas somente entre o pequeno grupo de participantes com acesso ao poder de computação. Wald, que organiza um programa para ensinar funcionários do Congresso sobre IA, teme que algumas propostas regulatórias possam piorar a situação: Por exemplo, segundo ele, exigir que as empresas tenham seus modelos de IA licenciados pelo governo poderia ajudar os grandes players e dificultar a concorrência de empresas iniciantes menores.

Alguns líderes empresariais não estão tão preocupados com o controle das Big Techs sobre o poder de computação, argumentando que o custo de execução dos modelos de IA inevitavelmente cairá à medida que a concorrência e a eficiência aumentarem.

“Vamos parar de forçar nosso progresso em IA”, disse Matt Calkins, executivo-chefe da Appian, uma empresa de software de capital aberto que está criando suas próprias ferramentas de IA. “Espero mais eficiência”.

Boom do ChatGPT

Quando o ChatGPT foi lançado em novembro de 2022, ele causou um choque no mundo da tecnologia. Especialistas em tecnologia especularam que o negócio de pesquisa do Google estava em apuros porque as pessoas podiam fazer perguntas ao ChatGPT em vez de pesquisá-las no Google.

As grandes empresas de tecnologia entraram em ação, movendo-se em uma velocidade que os observadores não viam há anos. O Google pediu aos funcionários que parassem de compartilhar suas pesquisas de IA com o público. A Microsoft lançou um novo chatbot, o Bing, que imediatamente expressou hostilidade em relação aos seus usuários, levantando questões sobre se ele estava pronto para o horário nobre.

Em setembro, uma enxurrada de anúncios do Google, da Microsoft, da Amazon e da OpenAI ilustrou o ritmo frenético da concorrência. O Google integrou seu chatbot Bard ao Gmail, ao Google Docs e a alguns de seus outros produtos; os usuários descobriram que a ferramenta comete erros básicos. A Amazon anunciou um novo modo de conversação para seus alto-falantes Alexa usando tecnologia de chatbot de ponta; em uma demonstração no palco, a ferramenta fez longas pausas entre as respostas.

Mas a capacidade de levar a tecnologia de IA aos clientes por meio de produtos existentes é uma vantagem fundamental, disse Myers West. O ChatGPT ganhou popularidade por meio do boca a boca, publicações em mídias sociais e cobertura de notícias, mas depois de apenas alguns meses já estava perdendo usuários, de acordo com um relatório da empresa de monitoramento de tráfego da Web SimilarWeb. As grandes empresas de tecnologia têm bilhões de usuários chegando até elas todos os dias.

“A propriedade do ecossistema é importante”, disse Myers West.

As parcerias com as grandes empresas de tecnologia geraram angústia entre alguns funcionários e pesquisadores de IA, disse Manoj Vekaria, engenheiro de software em Seattle, EUA. Laboratórios de IA como o OpenAI e o Anthropic podem alegar independência, disse ele, mas é difícil prever quanto tempo isso durará.

“E se a liderança mudar? E se a Amazon tiver um novo CEO? E se a Anthropic tiver um novo CEO?”, disse Vekaria. “Quando você aceita o dinheiro deles, está vendendo sua alma.”

Por enquanto, a Anthropic parece estar tentando manter suas opções em aberto. Em um comunicado anunciando o acordo com a Amazon, a Amazon disse que “a Anthropic planeja executar a maioria de suas cargas de trabalho na AWS”.

Mas, apesar de mudar seu status de “preferencial”, a Anthropic ainda está usando principalmente os servidores do Google, de acordo com uma pessoa familiarizada com a configuração de computação em nuvem da empresa, que falou sob condição de anonimato para discutir assuntos internos. / TRADUÇÃO POR ALICE LABATE

https://www.estadao.com.br/link/cultura-digital/gigantes-da-tecnologia-estao-engolindo-startups-de-ia-entenda/

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Boeing inaugura centro de tecnologia no Brasil com um time de 500 engenheiros

Novo Centro de Engenharia é um dos 15 do gênero mantidos pela empresa ao redor do mundo e que apoiam o desenvolvimento de programas da matriz nos EUA

Por Mariana Barbosa – O Globo – 10/10/2023 

Primeiro centro de pesquisas da Boeing em São José dos Campos Primeiro centro de pesquisas da Boeing em São José dos Campos — Foto: Divulgação

A Boeing inaugurou oficialmente hoje o seu Centro de Engenharia e Tecnologia em São José dos Campos e que nasce com um time de 500 engenheiros contratados. O novo centro brasileiro é um dos 15 que a fabricante de aviões americana mantém ao redor do mundo e que apoiam a companhia nos mais diversos programas de desenvolvimento aeroespacial.

A contratação dos engenheiros ao longo do último ano gerou um desfalque na indústria de aviação e defesa nacional, incluindo a Embraer. Entidades do setor chegaram a entrar com uma ação civil pública para tentar impedir as contratações.

— A parceria de longa data da Boeing com o Brasil remonta a mais de 90 anos e, durante esse período, colaboramos com a indústria aeroespacial e a comunidade brasileira para aproveitar as incríveis habilidades técnicas e capacidades de resolução de problemas dos engenheiros brasileiros — disse em nota Lynne Hopper, vice-presidente de Engenharia, Estratégia e Operações da Boeing.

Quando a Boeing e a Embraer assinaram um acordo para uma possível fusão, que acabou não se concretizando, analistas apontavam que um dos maiores interesses da fabricante americana era justamente a mão-de-obra altamente qualificada dos engenheiros aeronáuticos da Embraer.

O novo centro de engenharia se soma ao Centro de Pesquisa e Tecnologia que a Boeing mantém em São José dos Campos desde 2014 e que tem desenvolvido parcerias com universidades brasileiras, agências reguladoras e companhias aéreas principalmente nas áreas de combustível sustentável de aviação (SAF) e controle de espaço aéreo. O centro também atua junto a escolas e universidades no fomento ao ensino Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) e, em uma década de atuação, obteve o registro de 30 patentes.

A Boeing não revelou o investimento no novo Centro de Engenharia.

https://oglobo.globo.com/blogs/capital/post/2023/10/boeing-inaugura-centro-de-tecnologia-no-brasil-com-um-time-de-500-engenheiros.ghtml

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Globo Rural: Agricultores reservam parte das fazendas para uma nova produção: energia solar

Equipamentos instalados em áreas rurais já respondem por 15% da potência gerada no país

Por José Florentino Em Globo Rural — 10/10/2023 

O produtor rural Igor Cândido diz que, como ficou difícil expandir a área agrícola, a energia solar surgiu como um caminho O produtor rural Igor Cândido diz que, como ficou difícil expandir a área agrícola, a energia solar surgiu como um caminho — Foto: Divulgação

No sul goiano, a Agropecuária Vigor investiu R$ 35 milhões em uma produção que ocupa apenas nove hectares. Não se trata de uma cultura de alto valor agregado nem da criação de alguma raça de animal muito cara. A aposta é na geração de energia fotovoltaica, que abastece as fazendas do grupo e ainda ajuda a diversificar a renda da família.

A propriedade é apenas uma das que estão investindo nesse tipo de tecnologia. Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), havia cerca de 180 mil sistemas instalados na área rural até julho deste ano. A potência gerada por esses equipamentos cresceu seis vezes em três anos, para 3,36 megawatts, ou quase 15% de toda a energia fotovoltaica produzida no país.

— O valor da terra aumentou muito nos últimos três anos, o que torna difícil expandir a área agrícola, e nos fez buscar outros caminhos que tenham um retorno maior — afirma o produtor rural Igor Cândido.

Igor assumiu o negócio da família ao lado do irmão, Vinicius, em Morrinhos (GO), onde a família vive há 20 anos e produz soja, milho, feijão, tomate e outras culturas, dependendo do momento do ano e dos preços. São cinco mil hectares de área produtiva.

Segundo ele, seria inviável produzir soja em nove hectares isolados, porque a atividade precisa de escala para diluir os investimentos.

— Uma usina de energia solar tem a lógica inversa: área pequena com investimento concentrado. Nosso retorno é muito maior do que o que teríamos com a soja (nessa área).

Foto aérea das granjas do avicultor Flávio de Souza,  no Alto Paraná (PR) — Foto: Divulgação Foto aérea das granjas do avicultor Flávio de Souza, no Alto Paraná (PR) — Foto: Divulgação

O primeiro contato da família Cândido com a energia solar ocorreu sete anos atrás, quando Vinícius, então presidente do Sindicato Rural de Morrinhos, decidiu instalar placas fotovoltaicas para garantir energia para a exposição agropecuária do município.

— Tinha um preço mais elevado, mas ainda compensava, pelo que ouvíamos de relatos — relembra Igor.

Sistema de assinatura

Mas foi ao longo do último um ano e meio que a família investiu para valer na construção de usinas em locais com acesso mais fácil à rede da concessionária. O terreno plano de Morrinhos, que no passado atraiu agricultores para a região, facilita a instalação das placas e outros equipamentos.

Atualmente, toda a energia utilizada na propriedade, desde o pivô de irrigação até a luz das casas dos funcionários, vem das usinas próprias. Juntas, as unidades produzem sete megawatts.

Desse total, as fazendas do grupo consomem aproximadamente um terço. O excedente é vendido para consumidores de Goiás por meio da plataforma Nextron. Criada no fim de 2021, ela conecta produtores de energias renováveis a consumidores, sejam pessoas físicas ou jurídicas. Além da energia solar, também fornece o insumo a partir de biomassa e hidráulica.

A startup compra energia no atacado e distribui em um modelo de assinatura, como o de serviços de streaming, para consumidores que estejam conectados na mesma rede.

Placas fotovoltaicas na granja do avicultor Flávio de Souza,  no Alto Paraná (PR) — Foto: Divulgação Placas fotovoltaicas na granja do avicultor Flávio de Souza, no Alto Paraná (PR) — Foto: Divulgação

Produzir energia solar não é um bom negócio apenas para grandes produtores, afirma Anderson Oliveira, que fundou a EcoPower, junto com a esposa Náchila, dez anos atrás. A empresa, que presta consultoria em energia solar e comercializa equipamentos, já implementou mais de 40 mil projetos de pequenas usinas fotovoltaicas no país, muitas delas para produtores rurais.

— Quando começamos, uma usina de mil metros ficava em torno de R$ 400 mil, e os clientes recebiam R$ 6 mil ao mês. Eu tenho três alqueires de seringueira, são 75 mil metros quadrados, que me dão R$ 2,5 mil por mês. É menos da metade, com uma área bem maior — compara.

A empresa também está testando um novo modelo de negócios, em que vai arrendar áreas de produtores que não têm recursos suficientes para construir suas usinas. Eles recebem de R$ 700 a R$ 1 mil por mês pela área de mil metros quadrados.

Produtores de várias culturas têm optado pela energia fotovoltaica para reduzir custos, garantir abastecimento em locais onde o fornecimento da concessionária é limitado e diversificar sua renda, segundo a Ecopower. Dentre esses, os produtores de aves se destacam.

A energia elétrica representava 24% dos custos da Granja Sagrada Família, no Alto Paraná (PR), conta o avicultor Flávio de Souza. Ele e o pai, Nelson, investiram R$ 2 milhões na construção de seis usinas, que abastecem 12 aviários. Agora, fizeram um aporte de R$ 650 mil em mais duas usinas, para quatro aviários.

Segundo Souza, a produção de frango tem um ciclo de dois meses. No primeiro, a granja gasta menos energia, porque as aves são pequenas. No segundo, o consumo supera a geração. A família tem um acordo com a concessionária de energia, que abate o excedente de um período na conta do mês em que há déficit.

As usinas em operação já reduziram em 80% a conta de luz, que variava entre R$ 10 mil e R$ 14 mil por mês, diz Souza. Ele projeta que o investimento deve se pagar em menos de três anos.

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Por trás da aposta da Casa dos Ventos no hidrogênio verde

Geradora líder em eólica e solar lembra que o caminho para a descarbonização vai aumentar cada vez mais a demanda por energia limpa — para além do consumo em si

Complexo Babilônia: joint-venture com ArcelorMittal vai construir maior contrato de fornecimento de energia renovável do país (Casa dos Ventos/Divulgação)

Complexo Babilônia: joint-venture com ArcelorMittal vai construir maior contrato de fornecimento de energia renovável do país (Casa dos Ventos/Divulgação)

Karina Souza – Exame – 10 de julho de 2023

Em um futuro marcado pela descarbonização, a Casa dos Ventos, geradora líder em eólica e solar, está cada vez mais atenta ao hidrogênio verde (H2V). “Nós, enquanto sociedade, pensamos principalmente em energia renovável quando o assunto é transição energética, e muitas vezes esquecemos da demanda por descarbonização de alguns processos térmicos, que vai envolver eletrificação”, diz Lucas Araripe, diretor executivo da empresa, ao EXAME IN. A companhia começou a dar os primeiros passos nessa direção recentemente. No início deste ano, firmou um contrato junto com a Comerc Eficiência para exportar amônia verde produzida no Pecém à Alemanha. Hoje, as geradoras têm um pré-contrato com o local para instalação de uma planta com capacidade de produção de 960 toneladas de hidrogênio por dia e de 2,2 milhões de toneladas de amônia por ano. Além das conversas para exportação, a companhia tem tido cada vez mais encontros com possíveis clientes brasileiros interessados no combustível verde.

Os números envolvidos nas negociações ajudam a entender o potencial vislumbrado para o futuro da geradora de energia. Em abril deste ano, a Casa dos Ventos firmou uma joint venture com a ArcelorMittal, para desenvolver o maior projeto de fornecimento de energia renovável do país, que deve construir 553,5 MW. O volume deve atender a 38% da demanda por energia da fabricante de aço no Brasil em 2030. Isso sem considerar uma possível produção de aço verde — que demandaria, segundo estimativas da empresa, um consumo dez vezes maior do que o projetado para 2030.

Além das possibilidades a serem exploradas dentro da joint venture, a geradora de energia mantém conversas com diferentes setores que se preparam para cumprir as metas de descarbonização. A energia necessária para fabricar combustível de navios para uma multinacional, por exemplo, equivaleria a 100 GW de capacidade instalada. No caso de uma mineradora, a demanda por combustível verde capaz de substituir o diesel no transporte de material significaria uma necessidade de capacidade instalada de 2,5 GW.

Atender a toda essa demanda significa um potencial de crescimento exponencial para a Casa dos Ventos. Considerando a expertise já adquirida com contratos de longo prazo para fornecimento de energia ao setor privado, aproveitá-lo não parece um sonho tão distante. Hoje, a geradora de energia tem capacidade instalada de 1,5 GW, sendo que 90% desse total está em projetos de longo prazo de venda de energia no mercado livre. No próximo ano, a capacidade subirá para 1,7 GW, com a construção de um projeto de fornecimento de energia para a Braskem e Mosaic.

Ainda em 2023, a empresa começará a construir o projeto da ArcelorMittal (de 553 MW) e mais um parque novo, de 756. Com esses projetos, a geradora de energia prevê chegar a 2025 com 3,1 GW instalados. E a 6 GW até 2027 (um número que não pode ser excedido, pelo menos por enquanto, porque representa o máximo outorgado para a empresa até à data).

A maior parte dos projetos em construção ainda está — como o contrato com a fabricante de aço mostra — no fornecimento de energia renovável para atividades do dia a dia. Mas, na visão de Araripe, esse é um mercado que não representa o maior potencial de crescimento ao longo dos próximos anos. “Hoje, para ter uma ideia, o que o Brasil cresce de carga por causa do PIB equivale ao crescimento da geração distribuída”, diz o executivo.

Em números, um levantamento feito pela CCEE com base nos dados de consumo do país mostra que, em 2022, o consumo de energia foi de 67,2 mil MW médios, aumento de 1,5% em relação ao ano anterior. A geração distribuída cresceu 83,6% no mesmo ano, representando 3,5% desse total, ante 1,9% em 2021. A sobreoferta de energia é um fato anunciado no país, inclusive alvo de reclamações de executivos à frente das principais geradoras de energia — como um evento do setor promovido no começo do mês de junho mostrou. Mais um fator que reforça o argumento da empresa de crescer de olho em combustível sustentável.

Os avanços da regulação

A rota para aproveitar a alta da demanda, para a Casa dos Ventos, tem um pouco de momento e um pouco de história. A empresa, que nasceu em 2007 dando os primeiros passos em energia eólica no país e se orgulha de ser uma “empresa de conhecimento”, como define Araripe, quer se manter na vanguarda também na oferta de energia de olho no novo momento do país (e do mundo) em termos de demanda. No meio dos estudos e das conversas com interessados em produzir hidrogênio verde (ou qualquer de seus derivados) a empresa vê espaço para um aprimoramento de regulação.

O Chile é um dos principais exemplos nesse sentido. Em 2021, o país já trouxe a público um plano para aproveitar o sol do Atacama e o vento do Estreito de Magalhães em energia a ser exportada. Para Araripe, o Brasil tem um espaço ainda maior a ser aproveitado, considerando a matriz energética local e a quantidade de recursos naturais.

“É um ponto superinteressante principalmente porque hoje já existe um critério de certificação de hidrogênio verde na Europa que prevê que matrizes com mais de 90% de energia limpa podem conectar parques renováveis no sistema. Ou seja, se a produção para uma empresa está na Bahia, ela pode usar essa energia para produzir o combustível em São Paulo, por exemplo. Fica muito mais eficiente, não precisa construir tudo exatamente do lado de onde a empresa está”, diz o executivo.

Trazer mais regulação a esse cenário atrativo é a chave, na visão de Araripe, para tornar o Brasil ‘a bola da vez’ em energia limpa e, consequentemente, um local atrativo para indústrias de todos os tipos. Um movimento que, no longo prazo, contribui para aumentar a quantidade de consumidores no país.

O executivo não é o único atento a esse aspecto. Passos importantes foram tomados nessa direção há cerca de um mês, quando o Ministério de Minas e Energia divulgou o Programa Nacional do Hidrogênio em um debate promovido pela Frente Parlamentar de Recursos Naturais no Senado. Hoje, estão em andamento: um estudo conjunto da EPE e do BNDES sobre a demanda de hidrogênio para o Brasil, minuta de Projeto de Lei com marco legal para o hidrogênio, uma proposta de Plano de Investimento do Brasil ao Climate Investment Fund, uma consulta pública na Aneel para hidrogênio de baixo carbono, entre outros.

Tudo para não deixar o ‘bonde bilionário’ do H2V passar. O Brasil reúne as características ideais para a produção do combustível e pode atrair, ao todo, US$ 27 bilhões em investimento nesse combustível, como a EXAME ESG mostrou recentemente. De olho no Brasil do amanhã, a Casa dos Ventos mostra, pouco a pouco, que também está preparada para aproveitar tudo que o Brasil do amanhã pode oferecer.

Karina Souza

Repórter Exame INFormada pela Universidade Anhembi Morumbi e pós-graduada pela Saint Paul, é repórter do Exame IN desde abril de 2022 e está na Exame desde 2020. Antes disso, passou por grandes agências de comunicação.

https://exame.com/exame-in/por-tras-da-aposta-da-casa-dos-ventos-no-hidrogenio-verde/

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A vez da geração Z: é hora de as empresas se adaptarem aos nativos digitais

Esta geração tem expectativas diferentes. É importante ouvi-la – para o bem de todos os funcionários


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Stephan Scholl – Fast Company Brasil – 26-09-2023

Guiada por valores, destemida e com consciência social, a geração Z está desafiando líderes de novas formas e incentivando as empresas a valorizarem a transparência, a flexibilidade e a autenticidade. Esses jovens motivados, que eram calouros universitários durante o lockdown da pandemia, estão exigindo uma experiência de trabalho diferente – com a tecnologia no centro dela.

Embora possam não estar cientes disso, eles estão causando um impacto positivo nos negócios. Esta geração foi muito influenciada por tudo o que aconteceu nos últimos quatro anos. 

E agora é a vez de trazerem um novo olhar para o mundo corporativo, fazendo perguntas como “por que fazemos as coisas desse jeito?” e “por que não questionamos o status quo?”. Cabe aos líderes escutá-los e dar a eles a oportunidade de mostrar todo o seu potencial.

NATIVOS DIGITAIS

A geração Z passou toda a sua vida em um mundo digital. A tecnologia é algo natural e essencial para sua existência. A maioria nunca experimentou o ambiente de trabalho pré-Covid-19 que muitos de nós consideramos “normal”. Isso tem implicações significativas para as empresas, à medida que essa geração passa a fazer parte da força de trabalho.

Enquanto as organizações buscam atrair, contratar, desenvolver e apoiar esses jovens talentos, também precisam se esforçar para melhorar a experiência tecnológica dos funcionários, assim como fizeram para os clientes há duas décadas.

De acordo com um estudo realizado pela Alight em 2023, apenas metade da geração Z afirma que o aplicativo de benefícios que seus empregadores oferecem tem a mesma qualidade e experiência de usuário dos apps que eles usam fora do trabalho.

Apesar de estarmos falando dessa geração específica, é importante lembrar que uma melhor experiência digital beneficia a todos – desde os baby boomers até os millennials.

Ao ingressar no mercado de trabalho, a geração Z busca empresas que estejam na vanguarda. A expectativa é que até mesmo organizações não relacionadas à tecnologia utilizem ferramentas tecnológicas em seus processos cotidianos, seja um sistema de mensagens ou um aplicativo de benefícios patrocinado pelo empregador. Para atrair e reter esses jovens talentos, é preciso fornecer acesso à informação onde, quando e como eles desejarem.

SAÚDE MENTAL

Esses jovens trabalhadores também valorizam o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal – 45% deles afirmam que isso contribui para uma boa saúde mental.

Mas não é apenas a geração Z que pensa assim. De acordo com o estudo da Alight, nos EUA, 44% dos millennials, 52% da geração X e 61% dos baby boomers concordam.

O estudo também indicou que 15% dos funcionários atualmente sofrem de burnout, um aumento de 50% desde 2020. Para os funcionários dos EUA, um melhor equilíbrio trabalho e vida pessoal, horas suficientes de sono e tempo livre estão entre os aspectos mais importantes para manter a saúde mental.

Ao ingressar no mercado de trabalho, a geração Z busca empresas que estejam na vanguarda.

Cada vez mais, a geração Z espera que os empregadores estejam atentos ao seu bem-estar emocional e ofereçam benefícios, como folgas e acesso a programas de apoio.

A tecnologia e a inteligência artificial ajudam os empregadores a enfrentar a crise de saúde mental automatizando tarefas rotineiras. Ao liberar tempo para o trabalho colaborativo e estratégico, a automação pode ajudar esses jovens a se tornarem membros mais engajados da força de trabalho, construindo relações, liderando equipes e se comunicando de forma eficaz.

Como nativos digitais, eles são mais propensos do que outras gerações a usar aplicativos de bem-estar e programas de saúde mental. A tecnologia permite que busquem ajuda profissional com mais facilidade.

A entrada da geração Z no mercado de trabalho traz consigo uma tremenda oportunidade para as empresas criarem uma experiência do funcionário que incorpore tecnologia e inovação em todos os aspectos do negócio.

Até 2030, espera-se uma escassez global de talentos de mais de 85 milhões de pessoas. Buscar inspiração nessa nova geração – e implementar estruturas que atendam às suas perspectivas e preferências – levará a uma maior retenção e agregará valor ao resultado final.


SOBRE O AUTOR

Stephan Scholl é CEO da empresa de benefícios corporativos para trabalhadores Alight Solutions.

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