A brasileira Embraer superou a Textron Cessna como fabricante do jato particular mais voado nos Estados Unidos, após um reinado de 15 anos. O Embraer Phenom 300, jato de médio porte que acomoda até nove passageiros, teve mais de 360 mil decolagens e pousos em aeroportos do país durante os últimos 12 meses até agosto, cerca de 1.400 a mais que a família de jatos Cessna Citation Excel.
O Excel foi o jato particular mais operado por cerca de 15 anos, segundo o relatório mensal sobre operações de jatos executivos da Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla em inglês), dos EUA.
O Phenom 300 cresceu em popularidade porque queima menos combustível, custa cerca de um terço menos e possui mais velocidade e alcance que o Citation Excel, disse Brian Foley, consultor de aviação privada. Essas características mais do que compensaram o espaço menor da cabine do Phenom 300, disse ele por e-mail à Bloomberg.
Jato executivo Phenom 300, da Embraer Foto: Embraer/Divulgação
“Tornou-se um favorito dos fornecedores fretados e fracionados, que voam com eles muito mais do que o operador médio de aeronaves”, disse Foley. Há uma “percepção de que foi construído especificamente para alta utilização, como resultado da longa herança de aviões comerciais da Embraer”.
Em maio, a NetJets, da Berkshire Hathaway, a maior operadora de jatos particulares, anunciou um acordo avaliado em US$ 5 bilhões para comprar até 250 Embraer Praetor 500, uma aeronave maior que o Phenom 300, incluindo um contrato de serviço. No ano passado, a divisão de jatos particulares representou cerca de 27% das vendas de US$ 4,2 bilhões da Embraer.
Exceto pelo período em que o jato Hawker 800, agora descontinuado, foi a principal aeronave privada dos EUA em 2007 e 2008, a Cessna detém esse título nos dados da FAA que remontam a 2001.
Embora a Embraer agora tenha o direito de se gabar de ter o jato particular mais voado nos EUA, a Textron ainda domina o número total de horas de voo de aeronaves, devido à sua extensa linha de jatos, que vão de aviões muito leves os supermédios da linha Longitude.
Interior do jato executivo Phenom 300, da Embraer Foto: Embraer/Divulgação
A Cessna também está renovando a família Excel com o Citation Ascend, que deverá começar a operar em 2025, segundo a empresa. “Um em cada três jatos executivos em todo o mundo é um Cessna Citation e atualizações de produtos como essas continuam a dar aos clientes novos motivos para nos escolher por nosso desempenho comprovado, tecnologia de ponta e experiência de cabine incomparável”, afirmou a Textron por e-mail./Bloomberg
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Por João Lara Mesquita – Estadão/Mar sem fim – 8 de fevereiro de 2023
Navios de Calígula, ou os ‘iates’ do Imperador
Caio Júlio César Augusto Germânico era seu nome. Foi imperador por menos de cinco anos, de 37 d.C até 41 d.C. Entrou para a história com o apelido de Calígula, dado pelos soldados por usar, desde pequeno, máscaras de legionário com pequenas cáligas, ou botinas militares em português, nos pés. Era filho de Germânico e Agripina, ele, um grande general. Tinha dois irmãos e três irmãs. Contudo, apesar de menos de cinco anos de poder interrompido por um assassinato tão comum na Roma antiga, a crônica registra uma vida tão desregrada e amalucada que o nome ‘Calígula’ até hoje remete a desvario, demência, além de medo. Mas, o que nos interessa são os navios de Calígula que, assim como seu dono, entraram para a história, neste caso, a história marítima mundial.
O biógrafo Suetônio sustenta que a mãe de Calígula, Agripina, depois de presa foi açoitada com tanta violência que perdeu um olho e logo depois morreu (ou foi morta) no exílio. O irmão, Druso, passou tanta fome na prisão que tentou comer parte do colchão. O outro irmão evitou um destino semelhante cometendo suicídio, informa a BBC.
Antecipamos que, como informa a BBC, ‘o biógrafo escreveu um século depois, quando já estava bem estabelecida a fama de Calígula como um lunático.’
Recriação de Calígula por Salva Ruano (à esquerda) e uma estátua de Calígula (à direita). Imagem: antiguaroma.com.
Naquele tempo, a escrita ainda engatinhava, como conta Irene Vallejo em seu delicioso Infinito Em Um Junco – A invenção dos livros no mundo antigo – indicado como ‘um dos melhores do ano’ pelo New York Times.
Biblioteca de Alexandria
Sim, até pouco tempo antes do relato de Suetônio a cultura mundial era repassada de pai para filho de forma oral. Antes de mais nada, a primeira biblioteca mundial surgiu em Alexandria (fundada por Alexandre, o Grande, em 331 a.C.).
A biblioteca foi mais um fruto da dinastia ptolemaica iniciada no Egito pelo pupilo mais famoso de Aristóteles.
Em outras palavras, ‘o desejo de reunir todos os saberes conhecidos em forma de 54.800 rolos – os ‘livros’ de papiro de então – (para outros historiadores antigos eram 700 mil na Biblioteca de Alexandria) fora destruído justamente no período de anexação do Império egípcio pelos romanos em 48 a.C.
Para se ter uma ideia do imenso conteúdo, apenas um destes ‘rolos’ que sobreviveu e hoje está no Museu Britânico, o papiro Harris, tem nada menos que 42 metros. Ou seja, ’42 metros’ de história da civilização.
Um cavalo senador e sexo com a irmã
Contudo, alguns dos ‘feitos’ de Calígula, que até os leigos recitam de cor, é que ele teria feito de seu cavalo um senador (não confirmado). Outro, relato de Suetônio, diz que o imperador ‘gostava de fazer sexo com suas irmãs durante os banquetes, enquanto os convidados olhavam horrorizados.’
Mito ou verdade, fazer sexo com irmãos não era incomum à época, ao contrário. No Egito antigo era corriqueiro. Cleópatra, por exemplo, casou-se com seu irmão caçula. E ela não foi a única a fazê-lo. Para nós pode parecer estranho, para os ‘reis’ do antigo Egito, entretanto, era comum.
Mas, de uma coisa que lhe fazia gosto ninguém duvida, festas e orgias aos borbotões. E para torná-las ainda mais inesquecíveis, o imperador mandou construir dois imensos navios depois colocados no lago Nemi, 30 quilômetros ao sul de Roma.
Estes barcos remetem aos superiates dos oligarcas russos da atualidade. Acima de tudo, são imensos e recheados de luxo e ostentação para impressionar convidados especiais.
Naquele época Roma dominava os mares, tomando o lugar que fora de gregos e persas, egípcios, e antes ainda, cartagineses e fenícios. Não por acaso, o Mediterrâneo era conhecido como Mare Nostrum.
O lago Nemi e seus segredos
Durante séculos, os pescadores medievais que navegavam as águas do Lago Nemi conheciam um segredo. Ao passarem redes no pequeno corpo d’água, não era incomum trazerem à tona pedaços trabalhados de madeira.
O lago Nemi, de origem vulcânica, tinha apenas 1,6 Km2, com profundidade máxima de 33 metros, nos conta Dalton Delfini Mazieiro, em seu interessante livro onde resgata a história do mergulho ao longo dos séculos, A Profundeza do Mar Azul.
Segundo o autor, especulava-se que os pedaços de madeira trazidos em redes ou ganchos ‘pertenciam a um templo submerso ou um naufrágio.’
1446, o início da procura
‘No ano de 1446 o arquiteto, humanista e poeta Leio Battista Alberti, com apoio financeiro do Cardeal Prospero Colonna, investigou as descobertas pessoalmente.’
Fragmento do pavimento do primeiro dos navios de Calígula. Ah, se estas pedras falassem…Imagem, http://www.discover.hubpages.com.
Para as operações de resgate, conta Mazieiro, Alberti contratou mergulhadores genoveses, que amarravam cordas com ganchos na estrutura de madeira, tentando erguê-la para a superfície, com ajuda de guindastes construídos em plataformas flutuantes.
Mazieiro diz que a partir deste momento ficou claro que se tratava de um grande naufrágio, ‘devido à descrição dos mergulhadores sobre um gigantesco casco de madeira.’
Mas a experiência foi em vão. Tudo que conseguiram ‘foi arrancar alguns pedaços do barco.’
1535, nova tentativa de resgate no Lago Nemi
Segundo a obra de Dalton Delfini Mazieiro, ‘em 1535, Francesco De Marchi e Guglielmo de Lorena realizaram o que pode ser considerada a primeira investigação arqueológica da história.’
‘Guglielmo havia inventado um Sino de Mergulho com um sistema de respiração até então inovador…’
‘Eles mergulharam – a serviço de Alessandro Médicis – nas águas turvas do Nemi com auxílio do novo aparelho. Fizeram diversos mergulhos, com duração variada, e conseguiram coletar e trazer à superfície grande quantidade de artefatos.’
Para o autor de A Profundeza do Mar Azul, ‘o que nos surpreende nestes mergulhos – os primeiros iniciados em 15 de julho de 1532 – é sua duração. Francesco relata que conseguiram permanecer entre 30 a 120 minutos abaixo d’água, e que o fator limitante não era a falta de ar, mas sim o cansaço e o frio das profundezas.’
Desta feita, surgiram ‘peças de bronze, cobre, chumbo, pedaços de mármore e vigas de madeira.’
Mas foi tudo.
1895, confirmada a existência de dois navios naufragados
A curiosidade, surgida séculos antes, persistia. Dalton Delfini Mazieiro, conta que ‘com apoio do Ministério da Educação italiana, Eliseo Borghi conseguiu resgatar peças que confirmavam a existência não de um templo, mas de dois navios naufragados separadamente.’
‘O primeiro deles com a popa a 7 metros de profundidade, e a proa a 14 metros. O segundo navio encontrava-se a 19 metros. Ele conseguiu trazer à tona dois lemes de diferentes aspectos e algumas cabeças de bronze com a representação de animais.’
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Imagem, Pinterest.
Contudo, muitos anos se passaram sem novidades. Porém, no início do século 20 surgiria a novidade que finalmente revelaria os navios de Calígula: A ascensão do ditador Benito Mussolini que, ‘visando à criação de símbolos nacionais, mandou drenar o lago.’
Uma extraordinária surpresa estava por vir.
Benito Mussolini e a drenagem do Lago Nemi
De acordo com Dalton Delfini Mazieiro, ‘a operação teve início em outubro de 1928. Passados cinco meses o nível da agua já tinha baixado 5 metros, revelando partes dos navios.’
‘Em junho de 1931, o primeiro deles foi recuperado, e o segundo já era visível em quase sua totalidade.’ Mazieiro diz que o segundo navio não foi recuperado quando o lago estava mais baixo em razão ‘de um estrato de lama que irrompeu na margem, prejudicando o resgate da segunda nave.’
‘Com a interrupção dos trabalhos, o nível do lago voltou a subir, submergindo pela segunda vez os destroços do navio.’
O o segundo dos navios de Calígula emerge do Lago Nemi. Wikimedia Commons.
Entretanto, explica, ‘com a retomada do projeto em fevereiro de 1932 – agora de responsabilidade do Ministério de Educação e do Ministério da Marinha – o lago foi finalmente drenado e o segundo barco recuperado integralmente, fazendo parte permanente de um museu local inaugurado em janeiro de 1936.’
‘A esta altura, a história já era conhecida. Eles foram construídos a mando do Imperador romano Calígula, para saciar seus luxos e luxurias, pois funcionavam não exatamente para navegar, mas como palcos flutuantes de festas e orgias extravagantes.’
Segundo o wwwdiscovermagazine.com, ‘Os navios eram vastos, entre os maiores já recuperados do mundo antigo. O maior tinha 80 metros de comprimento, o mesmo de um Airbus A380, e media pouco mais de 26 metros de diâmetro.’
Os navios de Calígula
‘Eram repletos de mosaicos, estátuas, banhos termais, galerias de arte e adornos dignos de um palácio imperial. Ambos movidos a remo, e com palácios construídos sobre eles.’
‘As naus foram submersas de forma proposital, no ano de 41 d.C., pouco depois do assassinato do imperador, como parte das ações do Senado Romano em apagar os feitos desmedidos de Calígula.’
O fim das embarcações
Apesar dos imensos esforços que começaram ainda no século 15, uma hecatombe mundial deu conta de ambos. Com a palavra, Mazieiro: ‘os navios de Calígula não chegaram aos tempos atuais. Foram destruídos na noite de 31 de maio de 1944, durante a II Guerra Mundial.’
‘Desde então surgiram acusações de ambos os lados – EUA e Alemanha – sobre os responsáveis pelo desastre. As tropas alemãs haviam estabelecido uma pequena base a cerca de 100 metros do museu naval.’
Bombardeios na II Grande Guerra
‘Segundo relatos, as forças americanas bombardearam a região, mas não com força suficiente para a destruição do museu. Poucas horas após o bombardeio, observou-se fumaça saindo do local e um incêndio tomou conta dos caibros e vigas recuperados do naufrágio.’
‘Posteriormente surgiu uma versão na qual o fogo havia sido ateado pelos próprios soldados alemães. As poucas peças que sobraram, juntamente com novas réplicas dos navios em escala, foram organizadas para uma reinauguração em 1953, onde se encontram até hoje.’
Esta incrível peça de um dos navios foi achada num apartamento de New York em 2017. Segundo a nbcnews, a antiquária Helen Fioratti e o marido Nereo, jornalista italiano, compraram a antiguidade há mais de 45 anos de uma família aristocrática italiana, que vivia às margens do Lago Nemi. Em seguida ela foi cerimonialmente devolvida ao governo italiano em Nova York.
Em tempo, ‘o uso das mais modernas bombas e turbinas hidráulicas de sucção foram usadas por Guido Ucelli no esvaziamento do lago em 1927.’
Navio da época de Calígula encontrado nos anos 50
Apesar dos mais famosos navios – os do Lago Nemi – terem se perdido para sempre, um navio de transporte da época de Calígula foi encontrado durante o desenvolvimento do Aeroporto Internacional Leonardo da Vinci em Fiumicino, na década de 1950.
Possível navio mercante da época de Calígula. Copiado de uma obra de Nicolaes Witsen, seu Aeloude en Hedendaegsche Scheepsbouw en Bestier; Nicolaes Witsen, Amsterdã.
Segundo o no.wikipedia.org/wiki/Caligulas_storskip, ‘O naufrágio foi presumivelmente de uma grande barcaça ou barcaça romana que tinha 95 metros de comprimento e 21 metros de largura. Isso é maior do que qualquer um dos navios de grãos, que negociavam com o Egito e carregavam 1.000 toneladas.’
‘Acredita-se que os romanos copiaram os navios egípcios que navegavam no Nilo em um navio oceânico especial para o transporte do Egito para Roma.’
Leituras sugeridas:
A Profundeza Do Mar Azul – Os primeiros caçadores de tesouros e suas incríveis máquinas de mergulho. De Dalton Delfini Mazieiro, Ed. Clube dos Autores.
Para se aprofundar mais, Le Navi de Nemi, de Guido Ucelli, Ed. Istituto Poligrafico E Zecca Dello Stato.
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Empresas do Reino Unido, como a Kellogg UK, estão deixando de considerar a capacitação formal como um requisito para contratar
Por Isabel Berwick, Valor/Financial Times – 23/08/2023
Quando forem publicados os resultados dos exames dos cursos pré-universitários da Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte, acrescentados aos currículos dos alunos que concluem o curso médio, prevê-se que milhares de jovens não obterão as notas necessárias para ingressar na universidade. Isso é doloroso, mas, assim que o choque passar, os próximos passos, tradicionalmente, são, muitas vezes, o encaminhamento, pela universidade, para cursos de segunda opção onde há vagas remanescentes ou refazer os exames. Neste ano, poderá haver uma terceira opção viável: começar a trabalhar em uma prestigiosa empresa (com a vantagem de que esta última alternativa não estará vinculada a dezenas de milhares de libras esterlinas em dívidas).
O número de anúncios de empregos que não exigem ensino superior subiu 90%, em termos ano a ano, entre 2021 e 2022, segundo novos dados do LinkedIn, e, em termos mundiais, os recrutadores estão cinco vezes mais tendentes a procurar “competências” do que no começo do ano passado.
Especialistas em mercado de trabalho sabem que uma tendência só se torna um movimento quando grandes empregadores a adotam. Nesse caso, a primeira a se movimentar nessa direção foi a Kellogg UK (que se autodefine como “a gigante dos cereais e salgadinhos”). Em junho, a empresa anunciou que “ter um diploma de curso superior deixará de ser um requisito para os que quiserem trabalhar na Kellogg no Reino Unido”.
Perguntei a Chris Silcock, vice-presidente e diretor geral da Kellogg Reino Unido e Irlanda, como esse anúncio foi recebido. Trata-se de uma grande mudança. As pessoas foram receptivas? “A reação [no LinkedIn] foi inacreditável em termos de compartilhamentos e repostagens, e os comentários foram esmagadoramente positivos. Somos um empregador muito inclusivo e é muito importante para nós recorrermos a todos os currículos diferentes”, disse Silcock.
Os poucos comentários negativos vieram de pessoas que “têm formação superior e sentiram que não estamos dando valor a ela. Estamos nos desdobrando para garantir que ainda aceitamos e valorizamos capacitações formais de formação superior. O que estamos dizendo é que, em muitas funções e em muitos casos, a atitude e a perseverança [do candidato] são tão importantes quanto a sua capacitação formal”.
A abertura de mais vagas de trabalho para não portadores de diploma universitário é parte de uma atitude de distanciamento em relação a contratações antiquadas baseadas em capacitações formais – concentradas em realizações no campo da instrução acadêmica de todos os tipos – em favor de recrutar pessoas com base em suas competências e potencial.
Josh Graff, diretor executivo do LinkedIn para Europa, Oriente Médio e América Latina, sustenta que quando os recrutadores examinam competências e potencial, estão com isso abrindo muitas carreiras profissionais tradicionalmente fechadas a não portadores de curso superior (e ele é um deles – Graff abandonou a universidade).
Seu conselho aos que deixaram a universidade e resolveram trabalhar, em vez de procurar obter diploma de curso superior, é “pensar nas capacitações que você possivelmente já tenha, e não subestimá-las. Por exemplo, se você tem um emprego de meio período em uma lanchonete ou em uma unidade do McDonald’s, seja onde for, provavelmente você incorporou capacitações decisivas: em comunicação, em atendimento ao cliente, e elas são realmente importante para os empregadores”. (Tradução de Rachel Warszawski)
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Bilionário ignora quaisquer interesses geopolíticos de Washington
Por Pedro Doria – Estadão – 24/08/2023
Elon Musk atingiu um nível de poder, nos últimos anos, que exigiu do governo americano uma mudança de postura em relação a ele. Não se lida mais com Musk como se fosse um empresário, ou mesmo um homem muito poderoso — a relação passou a incluir diplomacia, quase como se fosse um chefe de Estado. Inclui também política e as necessárias cautelas das negociações delicadas. Musk tem um tipo de poder que jamais um bilionário do Vale do Silício teve.
As fontes do poder são três, segundo um novo perfil do fundador da Tesla assinado pelo jornalista Ronan Farrow na última edição da revista The New Yorker.
A primeira é que a Nasa depende da SpaceX para todas suas missões. A segunda é que parte essencial do plano do presidente Joe Biden para eletrificar a frota automotiva do país depende dos postos de carregamento da Tesla. A empresa está tão avançada na infraestrutura que impôs seu padrão proprietário de tomadas para carros. E a terceira razão é a Starlink, que oferece melhor do que ninguém internet via satélite portátil, ou seja, a possibilidade de alcançar locais remotos do mundo e se conectar à rede. Hoje, o exército ucraniano depende dessa conexão. E, mais de uma vez, em operações delicadas, Musk cortou o acesso.
Musk é declaradamente um libertário — Estado o menor possível, indivíduos com liberdade a maior possível para fazer o que desejarem. Embora libertário, ele se derrama em incoerências. Os negócios que lhe garantem o posto de homem mais rico do mundo foram erguidos na base de subsídios públicos e contratos gordos, ora, com o Estado. Sem incentivos californianos, a Tesla não seria o que é. Sem o dinheiro adiantado da Nasa, não seria hoje proprietário da melhor tecnologia de foguetes que há, e tampouco teria a rede privada de acesso à internet por satélites que tem.
O maior problema de Musk, para Washington, é a personalidade. Errático, impulsivo e megalomaníaco. Muda de ideia com frequência e de repente. Foi dele, por exemplo, a iniciativa de conectar a Ucrânia à internet pouco após a invasão. Seis meses depois, queria negociar um acordo de paz ele próprio e, assim, atravessou a diplomacia americana, passou a fazer interrupções de acesso dos ucranianos a pedido russo, e se pôs como mediador de uma proposta que beneficiava Putin. Ele ignora quaisquer interesses geopolíticos dos EUA.
Já houve empresários muito poderosos que, por motivos diferentes, entraram em confronto com o governo americano. John Rockefeller, em princípios do século 20, tinha o poder de ditar o preço do combustível em todo o país pelo poder de monopólio da Standard Oil. A empresa foi dividida numa ação antitruste. Nos anos 1930, Henry Ford esteve entre os financiadores de um movimento fascista. Mas entrou na linha de presto quando a Segunda Guerra começou.
Ainda não há fórmula clara sobre como lidar com Musk.
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Num mundo pressionado pela mudança climática, ter florestas é uma grande responsabilidade – mas é também um bônus e uma oportunidade
Por João Gabriel de Lima – Estadão – 04/08/2023
Um dos assuntos mais comentados da COP do Egito, em novembro passado, foi a criação da “Opep das florestas”. Esse foi o apelido dado às conversas iniciais entre Brasil, Congo e Indonésia, que abrigam 52% das matas tropicais do planeta. Assim como os exportadores de petróleo, os três países começaram um intercâmbio – no caso, para preservar aquilo que o Estadão chamou, em editorial, de “tesouro verde”.
A Indonésia e o Congo são convidados especiais na Cúpula da Amazônia, que ocorre em Belém a partir da terça-feira, dia 8. O evento reunirá representantes dos países signatários do TCA, Tratado de Cooperação da Amazônia: Brasil, Colômbia, Peru, Equador, Bolívia, Suriname e Venezuela. Haverá espaço para propostas da sociedade civil, incluindo um documento multidisciplinar do movimento “Uma Concertação pela Amazônia”.
A colaboração entre esses países – os do TCA e os da “Opep das florestas” – ainda é superficial. Nos anos 2000, a Indonésia adotou alguns protocolos brasileiros de redução do desmatamento, na época em que éramos referência na área. Após um período como vilão do clima, o Brasil volta a buscar protagonismo: o desmatamento na Amazônia regrediu 7,4% nos últimos 12 meses, de acordo com os números divulgados nesta quinta-feira.
Houve um tempo em que ter uma floresta era encarado como um ônus. Isso mudou radicalmente na era da economia verde. Além de essenciais para a vida no planeta, florestas podem gerar recursos para diminuir as dificuldades sociais causadas pela transição para uma economia sustentável, através do mecanismo dos créditos de carbono – daí o apelido “tesouro verde”. Estima-se que esse mercado gere valores da ordem de US$ 50 bilhões até 2030.
O projeto que cria um mercado de carbono no Brasil tramita no Congresso e pode ser aprovado ainda neste ano. Se isso ocorrer, além de estabelecer tetos de emissões de carbono para alguns setores da economia – como ocorre na Europa e em alguns Estados americanos – o governo poderá precificar a contribuição das matas preservadas e regiões de reflorestamento.
“Na Califórnia, os créditos de carbono criaram um mecanismo virtuoso que estimulou a inovação, com o surgimento de várias tecnologias verdes”, diz Gustavo Pinheiro, coordenador do portfólio de economia de baixo carbono no Instituto Clima e Sociedade. Ele é o entrevistado do minipodcast da semana.
Num mundo pressionado pela mudança climática, ter florestas é uma grande responsabilidade – mas é também um bônus, uma oportunidade na economia verde que se desenha para o futuro. É este espírito que deve animar os participantes da Cúpula da Amazônia.
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Parece que estamos diante de crise interna chinesa, e não de um evento mundial ao estilo de 2008
Paul KrugmanPrêmio Nobel de Economia Folha/NYT – 22.ago.2023
As dificuldades econômicas dos anos posteriores à pandemia levaram a intensos debates intelectuais e políticos. Uma coisa sobre a qual quase todo mundo concorda, porém, é que a crise pós-Covid tem muito pouca semelhança com a crise financeira mundial de 2008.
No entanto, a China —a maior ou segunda maior economia do planeta, a depender do critério de avaliação que você adote— certamente parece estar oscilando à beira de uma crise que se parece muito com o que o resto do mundo enfrentou em 2008.
Não tenho confiança suficiente em minha compreensão da China para julgar se ela conseguirá conter seu momento Minsky, o ponto em que todos subitamente percebem que uma dívida insustentável é, de fato, insustentável. Na verdade, não estou certo de que qualquer pessoa —incluindo as autoridades chinesas— saiba a resposta a essa pergunta.
Mas acho que é possível responder a uma pergunta mais condicional: Se a China tiver uma crise ao estilo de 2008, esta vazará de forma significativa para o resto do mundo, especialmente os Estados Unidos? E quanto a isso a resposta é claramente não. Por maior que seja a economia chinesa, os Estados Unidos têm pouquíssima exposição financeira ou comercial aos problemas da China.
Antes que eu trate desse assunto, vamos falar sobre os motivos para que a China em 2023 se assemelha às economias do Atlântico Norte, tanto os Estados Unidos quanto a Europa, em 2008.
A crise de 2008 foi provocada pelo estouro de uma enorme bolha imobiliária transatlântica. Os efeitos do estouro da bolha foram ampliados pelo desordenamento financeiro, especialmente pelo colapso dos “bancos paralelos” —instituições que agiam como bancos, criavam o risco do equivalente a uma corrida aos bancos, mas em geral não eram regulamentadas e não contavam com a rede de segurança oferecida aos bancos convencionais.
Agora é a vez da China, cujo setor imobiliário parece ainda mais inchado do que o das nações ocidentais no período que antecedeu 2008. A China também tem um setor bancário paralelo grande e altamente problemático. Além disso, tem alguns problemas específicos, principalmente as enormes dívidas dos governos locais.
A boa notícia é que a China não é como a Argentina ou a Grécia, nações que devem grandes somas a credores estrangeiros. A dívida em questão aqui é, em essência, dinheiro que a China deve a si mesma. E, em princípio, deveria ser possível para o governo nacional resolver a crise por meio de alguma combinação de resgate de devedores e redução no saldo a receber pelos credores.
Mas será que o governo da China é competente o suficiente para gerenciar o tipo de reestruturação financeira de que a economia do país precisa? Será que as autoridades têm determinação ou clareza intelectual suficientes para fazer o que precisa ser feito?
Preocupo-me especialmente com esse último ponto. A China precisa substituir o investimento imobiliário insustentável por uma maior demanda de consumo. Mas algumas reportagens sugerem que as principais autoridades continuam a desconfiar dos gastos “supérfluos” dos consumidores e tampouco aceitam a ideia de “capacitar as pessoas a tomar mais decisões sobre como gastam seu dinheiro”. E o fato de que as autoridades chinesas estejam respondendo à possível crise pressionando os bancos a emprestar mais não é tranquilizador, já que isso significa basicamente seguir o mesmo caminho que levou a China à situação atual.
Portanto, é possível que a China tenha uma crise. Se isso acontecer, como nos afetará?
A resposta, até onde posso dizer, é que a exposição dos EUA a uma possível crise na China é surpreendentemente baixa.
Quanto os Estados Unidos têm investido na China? O investimento direto —que envolve controle— na China e em Hong Kong é de cerca de US$ 215 bilhões. O investimento em portfólio —basicamente ações e títulos— é de um pouco mais de US$ 300 bilhões. Portanto, estamos falando de cerca de US$ 515 bilhões no total.
O número pode não parecer pequeno, mas, para uma economia tão grande como a nossa, na verdade é. Basta um dado para comparação. No momento, há muitas preocupações sobre os imóveis comerciais nos Estados Unidos, especialmente os edifícios de escritórios, que provavelmente enfrentarão uma redução permanente na demanda devido ao crescimento do trabalho remoto. Bem, os edifícios de escritórios dos Estados Unidos valem atualmente cerca de US$ 2,6 trilhões, ou cerca de cinco vezes o nosso investimento total na China.
Por que uma economia enorme atraiu tão pouco investimento americano? Basicamente, eu diria que é porque, dada a arbitrariedade da política chinesa, muitos investidores em potencial temem que o país seja uma espécie de armadilha para insetos: Você pode entrar, mas talvez não seja capaz de sair.
E quanto à China como mercado? A China é um grande protagonista do comércio mundial, mas não compra muito dos Estados Unidos —apenas cerca de US$ 150 bilhões em 2022, menos de 1% do nosso Produto Interno Bruto (PIB). O efeito seria maior para países que vendem mais para a China, como Alemanha e Japão, e haveria algum efeito de ricochete nos Estados Unidos em termos de nossas vendas para esses países. Mas o efeito geral ainda assim seria pequeno.
Uma crise econômica na China pode até ter um pequeno efeito positivo sobre os Estados Unidos, pois reduziria a demanda por matérias-primas, especialmente petróleo, e, como resultado, possivelmente reduziria a inflação.
Nada disso significa que devamos acolher a possibilidade de uma desaceleração na economia chinesa ou nos vangloriarmos dos problemas de outra nação. Mesmo que por motivos puramente egoístas, devemos nos preocupar com o que o regime chinês pode fazer para distrair seus cidadãos dos problemas internos que enfrenta.
Porém, em termos econômicos, parece que estamos diante de uma possível crise interna da China, e não de um evento mundial ao estilo de 2008.
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Forma de manipulação psicológica traz danos não só ao funcionário afetado, mas também aos seus colegas e à própria empresa
Por Juliana Steil, para o Valor 11/08/2023
Ao entregar uma tarefa exatamente como foi pedida, o funcionário ouve do chefe que “parece que ele não o entendeu” ou que “não foi isso que ele disse”; tem seu desempenho colocado à prova constantemente, mesmo executando tudo o que lhe é pedido; ao reclamar de ter suas habilidades questionadas, ouve que “está exagerando” e que as coisas “não aconteceram assim”.
Pode parecer apenas uma falha comunicação entre funcionário e chefia, mas situações recorrentes do tipo, em alguns casos, podem indicar que está ocorrendo o chamado “gaslighting”.
No gaslighting, uma pessoa tenta fazer com que a outra duvide de sua própria realidade — em uma manipulação psicológica para chegar aos seus objetivos, sejam eles quais forem. Associado mais comumente a relacionamentos amorosos, o gaslighting pode acontecer dentro do ambiente corporativo e causar danos à saúde da vítima e de seus colegas de trabalho, segundo especialistas.
Porém, não precisa ter relação hierárquica — basta que seja uma relação considerada importante para a vítima, quando ela se torna vulnerável à manipulação por diversas razões. “Se não for, a vítima consegue reconhecer e passa a contestar, se posicionando e indo contra a manipulação”, explica Regiane Ribeiro de Aquino Serralheiro, professora de psicologia da Universidade Cruzeiro do Sul.
O perigo mora quando a vítima não encontra meios para ser ouvida e validada. Ao ter seu desempenho contestado consecutivamente — mesmo que tenha executado exatamente o que lhe foi solicitado — a “falha de comunicação” pode se tornar um infortúnio e um grande prejuízo à saúde mental do funcionário.
“A pessoa vai fazendo mais para atender às solicitações, vai se sentindo culpada, incapaz, questiona sua própria capacidade no trabalho. Isso afeta a autoestima, promove um sofrimento psicológico que pode avançar para casos mais graves quadro de Burnout, queda de produtividade e até depressão”, explica Regiane.
E não é só a vítima que sofre: colegas de trabalho também estão fadados a lidar com as consequências da violência. “Testemunhar violência, seja psicológica ou física, também afeta nossa saúde mental. Ele pode temer essas situações e isso o leva ao sofrimento. Muitas vezes, passamos muito mais tempo com os colegas do que com nossas famílias”, explica.
A empresa também sai perdendo, segundo aponta Laís Mascarenhas, psicóloga que atua na empresa de treinamento e liderança Crescimentum. Isso porque, quando o funcionário é repreendido por tarefas mais básicas, ele tende a optar por não se desafiar e abraçar tarefas mais complexas, impactando o desenvolvimento da equipe, em muitos casos. “Se a pessoa está em tese “penando” nas necessidades mais básicas, ela tem baixo engajamento. Se decresce o potencial de uma pessoa, decresce o de todos. As melhores equipes performam juntas”, argumenta.
O que fazer?
Dentre as soluções apontadas pelas especialistas, está em procurar ajuda profissional psicológica para lidar com os danos causados e, também, para se fortalecer de novos “ataques”.
Mas não é só isso. Dependendo da situação, o funcionário pode passar a registrar todas as ordens dadas por e-mails e atas de reunião, por exemplo. Desta forma, ele se resguarda de contestações futuras — se houver espaço para réplica.
No entanto, se a situação piorar ao ponto de se tornar assédio moral, a melhor saída é procurar o núcleo de compliance da empresa para fazer uma denúncia sobre a situação.
“A linha entre o gaslighting e o assédio moral é tênue. Por isso, sempre indico o diálogo. Essa precisa ser a primeira alternativa mas, se não der certo, é preciso procurar o compliance”, diz Laís.
Renata também reforça a importância das empresas contarem com um canal de denúncias de más condutas. “É muito importante que o setor de Recursos Humanos tenha canais ou setor de denúncias que garantam que essa pessoa possa se expressar e que isso seja investigado por uma sindicância interna”, argumenta.
De onde vem a palavra “gaslighting”?
O termo veio do clássico “Gaslight”, filme 1944. No longa de Hollywood, um homem manipula sua esposa para que ela acredite que perdeu a sanidade, com o objetivo de roubar a fortuna dela. Para isso, ele esconde objetos como quadros e joias e faz com que ela acredite que é a responsável pelo desaparecimento dos bens, mesmo que não se lembre.
O Dicionário de Oxford nomeou “gaslighting” como uma das palavras mais populares do ano em 2018. A popularidade continuou alta, já que no final do ano passado, o dicionário Merriam-Webster nomeou o termo como a palavra do ano por causa do forte aumento nas buscas — cerca de 1.740% em relação ao ano anterior.
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Atividade agropecuária profissional dá grande vantagem competitiva ao País
Por Roberto Rodrigues – Estadão – 12/08/2023
Nas últimas décadas, a questão ambiental se transformou em um desafio econômico para o planeta. O marco que evidenciou essa mudança foi oAcordo de Paris, no qual todos os países signatários se comprometeram a reorientar suas economias para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Uma das principais preocupações de governos e lideranças é como incorporar o meio ambiente como uma nova variável econômica e desenvolver a bioeconomia.
Com o propósito de auxiliar líderes nacionais na formulação de políticas e ações para impulsionar a agenda ambiental e valorar (mensurar) o “verde”, o Observatório de Bioeconomia daFundação Getulio Vargas acaba de publicar o documento A Transição Verde: Bioeconomia e a Transformação do Verde em Valor.
O documento mostra que coexistem globalmente diversas definições da bioeconomia. Uma característica comum entre todas é a necessidade de harmonizar natureza e economia. Nessa busca, a literatura científica destaca três “perspectivas” predominantes da bioeconomia: bioecologia, biotecnologia e biorrecursos.
Essas perspectivas orientam dezenas de países em direção a uma transformação da economia tradicional na economia verde, com a forte participação da bioeconomia. Na Europa, os esforços concentram-se em biorrecursos. Na China, a ênfase recai na biotecnologia. Os Estados Unidos oscilam entre os projetos europeu e chinês.
Com mais de 60% de seu território preservado, tecnologias tropicais sustentáveis e notável avanço produtivo agrícola, o Brasil conta com grande vantagem competitiva, principalmente em sua atividade agropecuária profissional, com amplo potencial na bioeconomia.
O avanço da bioeconomia brasileira exigirá esforços, como o desenvolvimento de métricas e parâmetros de mensuração da pegada ambiental ajustados à própria realidade, para não termos de aceitar parâmetros de fora. A valoração de ativos ambientais e a regulação dos novos mercados de serviços ambientais no Brasil são importantes desafios a serem superados.
É também fundamental avançar no campo da bioenergia e agregar valor ao extrativismo, de modo a monetizar a bioeconomia para a sociedade regional, caso típico da Amazônia.
A compreensão exata da realidade bioeconômica brasileira demanda a valoração de seus ativos ambientais. A estratégia para isso, segundo o estudo do Observatório, seria o desenvolvimento da Conta Nacional de Bioeconomia – CNBio, construída com a integração de contas econômicas e ambientais. A CNBio possibilitaria avaliar as reais dimensões ambientais, econômicas e sociais do ativo “verde” nacional e transformar a vantagem “tropical” em fonte de crescimento sustentável para o País. l
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No entanto, visitando a região (para gravar a 7ª temporada do “Expresso Futuro”), dá para ver que o impacto é muito mais amplo. A nova tecnologia está sendo utilizada em regiões remotas por comunidades e povos indígenas, inclusive por escolas. Iniciativas de comunicação local usadas por diversos povos originários estão migrando do rádio para internet, como me relatou Juliana Albuquerque, do povo baré, que atua na rede de comunicação Wayuri.
O uso chegou até os barcos. Por exemplo, para ir de Manaus a São Gabriel da Cachoeira, a rota de barco “expressa” dura cerca de 24 horas. O trajeto pode ser feito hoje em embarcações que oferecem conexão de alta velocidade aos passageiros via wi-fi, usando para isso o serviço da Starlink.
A conexão se expande tão rápido que as lideranças locais já começam a debater seu impacto cultural, especialmente com relação às crianças. Há líderes preocupados se as crianças poderão perder o contato com modos de vida local por causa disso. Esse debate é importante. As decisões sobre o que cada povo originário vai fazer com a chegada da internet podem trazer lições para todos nós.
Conectar a região amazônica à rede não é um objetivo recente. Muitos projetos vinham ocorrendo nesse sentido. A conexão por satélite já existe há algum tempo, através do projeto Gesac, mas com velocidades muito baixas. O exército também possui o projeto Amazônia Conectada, com 1.900 quilômetros de fibra óptica subfluvial conectando Manaus a nove municípios.
Conectar a região amazônica é o santo graal do desenvolvimento da região. Pode trazer oportunidades, expandir a economia do conhecimento (inclusive local) e propelir projetos de educação.
No entanto, a conexão provida pela Starlink (e outras empresas que usam satélites de baixa órbita) pode trazer problemas. O primeiro deles é de dependência. A região amazônica é estratégica e essencial para o país. Não é desejável que uma de suas infraestruturas mais cruciais seja provida por um fornecedor dominante, cujos serviços terão impacto profundo nas atividades da região.
A outra questão estratégica envolve dados. O site da Starlink possui uma ampla e detalhada política de dados, em que a empresa descreve as informações que coleta, que podem incluir identidade, localização e até hábitos de navegação.
Até agora os dados estratégicos sobre a região amazônica eram detidos pelo Brasil. Pela primeira vez, organizações privadas que operam satélites poderão ter dados mais detalhados da região do que o próprio país.
Outra questão é o cumprimento de leis locais. O Brasil tem não só a Lei de Proteção de Dados mas também o Marco Civil da Internet, que veda que provedores de conexão possam “monitorar ou analisar o conteúdo” dos dados trafegados.
Em outras palavras, a chegada da conectividade por satélites de baixa órbita à Amazônia é um fenômeno complexo, cujas repercussões estamos só começando a entender.
Já era – Amazônia desconectada
Já é – Amazônia conectada pelo Gesac, fibra e outras iniciativas locais
Já vem – Amazônia conectada por satélites de baixa órbita operados por empresas privadas globais
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Segundo relatório da Deloitte, 41% dos colaboradores estão se sentindo esgotados. Passamos 288% mais tempo em reuniões do que antes da pandemia. Porém, ao olharmos os dados de produtividade, há pouco crescimento nas últimas décadas.
Trabalhamos muito, mas nem sempre bem. Temos um excesso de informações e também de distrações. Estudos mostram que passamos somente 40 segundos na frente do computador sem nos distrairmos com outras atividades ou sermos interrompidos.
Vivemos a cultura hustle (agitada), que nos mantém conectados 24h, acreditando que somos multitarefas e produtivos. Entretanto, os estudos mostram o oposto disso. Quando tentamos dar conta de sermos multitarefas, fazemos tudo com 10 pontos a menos no QI.
Como tudo na vida, é preciso querer, se conhecer e estar disposto a se esforçar para mudar de hábitos e atitudes.
Além disso, há um estudo de Harvard que mostra que passamos 47% do tempo com a mente divagando, ou seja, estamos fazendo algo e pensando em outra situação, vivendo em um pingue-pongue mental entre passado e futuro e pouca atenção no presente.
Explicamos esses desafios pelo mito de que nossos cérebros são dispersos, porém, a verdade é que nós os sobrecarregamos e super estimulamos. Acordamos e dormimos com o celular, passamos tempo em reuniões respondendo outras mensagens, estamos em casa resolvendo algo do trabalho e no trabalho resolvendo algo de casa.
E, principalmente, passamos horas e horas nas redes sociais. Nos viciamos na dopamina que recebemos ao acessar as redes sociais. Vivemos numa sociedade distraída e sem foco.
Como, então, encontramos foco neste mundo distraído?
PRIMEIRO PASSO: A INTENÇÃO
Como tudo na vida, é preciso querer, se conhecer e estar disposto a se esforçar para mudar de hábitos e atitudes. É preciso rever suas distrações e sobrecargas e estar dispostos a olhar para elas e transformá-las.
Mas, antes de tudo, precisamos acabar com a crença de que não podemos parar e que devemos estar o tempo todo produzindo. Essa mentalidade tem nos levado ao esgotamento e não à alta performance e produtividade – muito menos, à felicidade.
SEGUNDO: ESCOLHER NO QUE FOCAR
Temos que aceitar que não dá para fazer tudo ao mesmo tempo e que será muito mais produtivo um hiperfoco em cada atividade. Porém, para isso, é preciso abrir mão de fazer tudo ao mesmo tempo. Não somos multitarefas.
Está participando de uma reunião? Desligue as notificações. Está com sua família? Dê atenção e deixe seu celular de lado. Está fazendo uma análise ou uma apresentação? Avise que não poderá ser interrompido.
O celular pode ser o maior ofensor da produtividade e também da felicidade e da saúde mental.
É preciso que haja comunicação para essas mudanças, pois hoje nossa cultura não aceita esperar um minuto por respostas. Se recebemos um email e não o respondemos na hora, provavelmente vamos receber a mesma mensagem em diferentes canais.
Esse excesso de comunicação traz mais distrações e nos tira do estado de flow, sendo que isso trará ainda mais improdutividade. Para voltar ao estado de engajamento (flow), demoramos 25 minutos depois que somos interrompidos ou distraídos. Veja o que é mais importante para o seu dia, o que te traz mais significado, é mais urgente ou tem maior impacto.
TERCEIRO: ELIMINAR OU REDUZIR AS DISTRAÇÕES
Sobre algumas distrações não temos controle, como barulhos externos, por exemplo. Mesmo assim, podemos pensar de que forma reduzir seu impacto: posso colocar um fone antirruído?
No entanto, a maioria das distrações não ocorre por acaso, e sim por nossas escolhas. Nos viciamos na dopamina que recebemos pelo excesso de estímulos das redes sociais, dos likes, do engajamento, e passamos mais horas em frente às telas, sem foco, sem atenção e com pouquíssima presença.
É preciso conhecer o que te distrai e lidar com essas distrações de forma intencional. Acreditamos que não podemos ficar um minuto sem o celular, mas a grande verdade é que ele pode ser o maior ofensor da produtividade e também da felicidade e da saúde mental. Precisamos usar a tecnologia a nosso favor e não o oposto.
Quanto mais soubermos quem somos, o que amamos fazer, o que fazemos bem, mais fácil termos foco.
Passei uma semana em um retiro de meditação e de silêncio e confesso que, nos dois primeiros dias, senti muita ansiedade em não ter contato com o mundo externo. Mas, no final da semana, estava conectada comigo, cheia de ideias, planos, com clareza mental e consciência – talvez algo que nunca mais tenha experimentado tão vivamente.
Percebi, em uma semana sem celular, que a maioria das notificações e mensagens são inúteis, mas tomam grande tempo do nosso dia. Não precisamos ir para um retiro de silêncio e nem nos desconectar do celular. Podemos passar momentos do dia focados, sem notificações ou entrando de story em story sem nem pensar.
É PRECISO TRANSFORMAR O HIPERFOCO EM HÁBITO
Encontrar atenção plena no dia a dia nos traz felicidade e, assim, produtividade. Mas, para isso, é importante encontrar suas forças, o que te traz sentido, o que te gera flow.
Quanto mais soubermos quem somos, o que amamos fazer, o que fazemos bem, mais fácil termos foco. Mas, acima de tudo, é preciso intencionalidade e disciplina. Ninguém fará por nós.
Não é fácil viver atento e focado neste mundo distraído. Somos estimulados o tempo todo e nós mesmos superestimulamos nossos cérebros e nem percebemos. Como tudo na vida, é preciso autoconhecimento, autorresponsabilidade e disciplina. A mudança para uma vida mais consciente e atenta é possível, mas exige esforço. No final, vale a pena.
“A vida é uma manifestação de onde você investe sua energia.”
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