China triplica investimentos em energia renovável na América Latina

Brasil, Chile, México, Colômbia e Argentina receberam projetos

Publicado em 28/07/2023 Por Lucas Pordeus León – Repórter da Agência Brasil – Brasília

Líder mundial em investimentos no exterior em energia renovável, a China tem expandido seus negócios na América Latina e no Caribe nos últimos anos, em especial, a partir de 2019. A região tornou-se destino de um terço dos investimentos do país asiático em energia eólica e solar. Com isso, em termos relativos, a região concentra “a maior porcentagem de projetos de geração a partir de fontes limpas” com origem chinesa. 

A conclusão é de estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) assinado por quatro pesquisadores e publicado nesta semana.  

“O acumulado de Investimentos Externos Diretos (IED) de empresas chinesas em energias alternativas triplicou desde o final de 2018, subindo de US$ 960 milhões para US$ 3,8 bilhões, registrados ao final de 2022. Desse total, é importante sublinhar que 55% ocorreu na modalidade de IED greenfield”. Os investimentos chamados greenfield são aqueles destinados a exploração de um novo projeto, diferente, portanto, dos investimentos feitos em ativos e operações já existentes.  

A capacidade instalada de usinas solares controladas por empresas chinesas na América Latina e Caribe quadruplicou no intervalo de três anos, entre 2019 e 2022, “subindo de 363 Megawatts (MW) para cerca de 1,4 Gigawatt (GW). Desse total, contudo, cerca de 1 GW correspondeu à aquisição de ativos existentes”. Apesar de terem crescido menos, as usinas eólicas da América Latina e Caribe controladas pelas firmas do país asiático duplicaram a capacidade de geração de energia no mesmo período, passando de 1,6 GW para 3,2 GWs.  

Os mercados que receberam investimentos chineses em projetos de energia eólica e solar são: Brasil, Chile, México, Colômbia e Argentina. 

Um dos autores do estudo, o pesquisador do Ipea Marco Aurélio Alves de Mendonça, explicou que a China tem expandido seus negócios em energia renovável desde o início dos anos 2000, tendo assumindo um papel de liderança global durante a década de 2010, sendo guiada pelo ideário de “civilização ecológica”, concepção que se tornou central na retórica do Partido Comunista Chinês.  

Segundo o estudo, em setembro de 2021, o presidente Xi Jinping anunciou que “a China apoiaria outros países no desenvolvimento de sistemas de energia verde e de baixo carbono, assumindo também o compromisso de não financiar novos projetos de carvão no exterior”.  

Para o pesquisador Marco Aurélio, o Brasil deve aproveitar, ao máximo, os investimentos chineses nesses setores de energia renovável. “Existe uma dinamização muito interessante do setor de (energias) renováveis que é bastante interessante para o Brasil. O principal ativo de ser reconhecido internacionalmente é nessa esfera ambiental e isso a gente tem vocação. A China pode contribuir com esse nosso papel (de protagonismo internacional)”, opinou.  

Líder Mundial 

A China é a liderança mundial em investimentos em manufatura, tecnologia e geração de energia a partir de fontes renováveis. “Entre 2016 e 2020, o país asiático investiu US$ 800 bilhões em energias renováveis, ficando à frente dos Estados Unidos, segundo colocado, que investiram US$ 540 bilhões”, afirma a pesquisa do Ipea.  

A China também é liderança mundial em capacidade de geração elétrica renovável, com 1.020 GWs de potência instalada, contra 511s GW do conjunto da União Europeia e 292 GWs dos Estados Unidos. Os chineses ainda abrigavam, em 2022, os dez principais fornecedores globais de equipamentos de energia solar. Além disso, os seis dos dez maiores fabricantes globais de turbinas eólicas, por capacidade encomendada, ficavam no país asiático em 2019.  

“A China, portanto, ao reduzir o uso de fontes fósseis e ao expandir a geração a partir de energias renováveis, ampliou sua capacidade de ofertar essas tecnologias para outros países”, conclui o estudo.  

Edição: Maria Claudia

https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2023-07/china-triplica-investimentos-em-energia-renovavel-na-america-latina

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Massificação das cirurgias à distância?

Por José Otero – Canaltech – 16 de Agosto de 2023 

Uma das cenas mais memoráveis ​​do primeiro filme de Star Wars é a raiva de Chewbacca após perder uma partida de dejarik contra R2 D2. Como esquecer o movimento das peças tridimensionais que pareciam batalhar em um tabuleiro de xadrez. Para muitos, aquela cena de 1977 trouxe pela primeira vez os hologramas, embora hoje certamente estaríamos usando o conceito de realidade aumentada para descrever este jogo.

O curioso é que, enquanto para milhões de pessoas a raiva do Wookiee parecia mostrar uma interpretação de como seria o futuro, eles realmente vislumbravam uma tecnologia que na época estava perto de 30 anos de existência. Os hologramas foram criados em 1948 pelo físico húngaro Dennis Gabor, que recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1971 por esta invenção.

Por que uma tecnologia tão útil não teve mais adoção em seus 75 anos de vida? A resposta é muito simples, os altos custos envolvidos em usá-lo para indivíduos ou pequenas empresas. Mesmo com a queda de custos nas últimas sete décadas, produções holográficas simples ultrapassam US$ 100 enquanto as de uso profissional, por exemplo, mostrando um ser humano em detalhes ultrapassam facilmente US$ 50 mil e, dependendo de sua complexidade, podem ultrapassar facilmente a casa dos milhões de dólares.

Vimos outro caso em que a tecnologia existe há algumas décadas no mundo da medicina, precisamente desde 7 de setembro de 2001. No que mais tarde seria conhecido como Operação Lindbergh, um grupo de cirurgiões franceses localizados em Nova York operou um paciente localizado na cidade francesa de Strasbourg usando o robô cirúrgico ZEUS. O custo desse robô em 2003 foi de US$ 975 mil, enquanto um sistema cirúrgico concorrente chamado Da Vinci custava cerca de US$ 1 milhão na época.

A operação sem fio demorou menos de uma década para chegar, sendo um experimento da agência espacial norte-americana Nasa, que em maio de 2007 mediu a capacidade de seus equipamentos para realizar cirurgias remotas em gravidade zero. O objetivo era usar a tecnologia em uma emergência em missões espaciais. A conexão de 30 Mbps neste teste foi obtida usando uma ponte sem fio Spectra operando na banda de 5,4 GHz e atingindo uma latência média de 70 ms.

Obviamente, a tecnologia continua avançando dentro e fora dos Estados Unidos. Em março de 2015, foi realizada uma cirurgia na China onde os protagonistas ficaram separados por 328 km já que alguns estavam na cidade de Jinhua e os outros em Zhejiang, ambos na província de Xangai. Nesta ocasião a tecnologia utilizada foi a 4G. Ou seja, as cirurgias remotas em redes móveis antecedem o lançamento comercial das redes 5G.

A chegada da 5G foi acompanhada por um maior número de anúncios sobre procedimentos cirúrgicos remotos utilizando as vantagens oferecidas por esta geração wireless. Felizmente, os anúncios vêm de lugares diferentes, o que indica um crescimento na execução desse tipo de processo, algo que sem dúvida trará melhorias. Entre os países que utilizam redes 5G para pelo menos um processo cirúrgico estão Alemanha, China, Estados Unidos, Itália e Espanha, entre outros.

A menor latência da 5G aliada às suas maiores velocidades de transmissão de dados o tornam uma boa alternativa sem fio para processos que antes eram suportados por fibra ótica. As características da 5G são tão propícias que em 2021 foi realizada uma cirurgia cerebral na China, onde os protagonistas estavam a 3.000 km de distância um do outro. Um marco importante no avanço da medicina a distância, tanto pela complexidade do processo cirúrgico quanto pela distância entre o cirurgião e o paciente.

Porém, assim como os hologramas demoraram décadas para baixar de preço, o principal fator que impede uma maior aceitação das cirurgias à distância é o preço do robô que deve ser usado para realizá-las, que varia de US$ 500 mil até cerca de 2,5 milhões de dólares. Obviamente, o número de hospitais na América Latina que poderiam acessar esses tipos de serviços seria muito limitado. E, provavelmente, os hospitais que pudessem adquirir os robôs necessários seriam em sua maioria privados, o que põe de lado o sonho de que graças à 5G, procedimentos cirúrgicos avançados pudessem se generalizar, democratizando o acesso a eles.

Vamos imaginar que os governos latino-americanos se esforcem e decidam adotar esse tipo de tecnologia em seus hospitais rurais. Graças às economias de escala, o preço dos robôs é reduzido para US$ 250 mil por hospital. Se considerássemos que em um país eles só estivessem disponíveis em aproximadamente mil hospitais rurais, isso implicaria um custo de US$ 250 milhões só para comprar os robôs. E então é preciso adicionar o transporte dos equipamentos, impostos, instalação, manutenção e capacidade dos médicos.

Além disso, deve-se considerar que, cada um destes hospitais rurais precisa de implantação da 5G e contratação de um linha de redundância, fibra ou satelital para assegurar a conectividade no caso de uma queda da rede 5G. Um elemento necessário é a infraestrutura civil, sobretudo a energética que garante o uso adequado dos equipamentos. É simples, o sistema não funciona sem eletricidade. Outro fator a ser considerado é a segurança contra furtos, já que estamos lidando com equipamentos de alto custo.

Considerando estes elementos, e sendo convervador, estimamos 10% do custo que teria cada cirurgia remota na região (US$ 5 mil adicionais ao custo de uma cirurgia normal). Se considerarmos uma cirurgia por semana, temos 52 anuais para um total de 52.000 a nível nacional, um total de US$ 26 milhões anuais a serem assumidos pelo Estado, pois os pacientes de áreas rurais não poderiam pagar por estes serviços. Os avanços das cirurgias remotas por meio de fibra e redes sem fio da 5G são uma boa notícia para todos. Assim como esta tecnologia vai avançando e obtendo melhores economias de escala, a mesma torna realidade em hospitais latinoamericanos.

Enquanto isso, o Estado não deve esquecer sua responsabilidade de melhorar os serviços já oferecidos, muitos deles não têm pessoal adequado para atender às necessidades locais, faltam medicamentos e outros insumos básicos para tratar doenças ou ferimentos leves. Isso sem falar nas centenas de cidades rurais que não possuem um hospital a uma distância acessível para as pessoas em caso de emergência médica. Vivemos em uma região onde muitas vezes o ibuprofeno ou o paracetamol servem como placebo ou panacéia para qualquer doença, já que não há outra alternativa. Sobretudo naqueles centros de saúde onde nem sequer há médicos, mas sim profissionais universitários que não concluíram os seus estudos.

Algo importante nas menções que são feitas sobre a possibilidade da 5G permitir cirurgias remotas é que ela força a geração de um diálogo sobre esse tema e dá a oportunidade de expandir a conversa. Por exemplo, se pensarmos na 5G para a medicina, temos que nos perguntar: qual é a situação atual dos hospitais rurais, qual é o tipo de formação dada nas universidades e qual o papel que a tecnologia tem desempenhado na melhoria dos serviços ao público? Esta última questão é muito importante porque para estabelecer programas rudimentares de telemedicina não é necessário ter 5G.

A lição é clara, devemos ter muito cuidado ao avaliar as oportunidades que a tecnologia nos oferece e passá-las pelo filtro chamado “o que pode ser pago”, antes de tomar uma decisão final. Com esse filtro percebemos que a possibilidade de oferecer cirurgias remotas em hospitais rurais justifica o investimento para trazer 5G para todo o país só pode ser chamado de otimismo irracional. Sobretudo quando apenas um número limitado de hospitais da região, quase todos privados e em áreas urbanas, tem orçamento para adquirir os equipamentos necessários para realizar cirurgias à distância. Assim, pelo menos por algumas décadas, a chegada de uma nova geração móvel não implicará na chegada de cirurgias remotas em todos os hospitais da América Latina.

Sonhar é permitido e necessário para progredir, mas é perigoso quando nos esconde o presente com o qual temos de lidar diariamente. De resto, o professor Juan Luis Guerra já nos alertou para a situação com o seu “Calma, Bobby, calma”.

José F. Otero é professor adjunto da Universidade de Nova York.

https://canaltech.com.br/colunas/massificacao-das-cirurgias-a-distancia/

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The Economist: como a América Latina poderia se tornar a superpotência das commodities

Região não deve desperdiçar a oportunidade do próximo boom de commodities; América Latina tem mais de um quinto das reservas globais de cinco metais cruciais para a transição energética

Por Estadão/The Economist 15/08/2023 

Durante cinco séculos a América Latina e seus dois bilhões de hectares de terra foram uma fonte vital de alimentos, combustível e metais para o mundo. Primeiro, foi saqueada por colonizadores em busca de ouro, prata, algodão e açúcar, depois forneceu borracha e petróleo para a Europa e os Estados Unidos. Agora, a América Latina se depara com uma chance de se tornar a superpotência de commodities do século 21. Desta vez, a região deve aproveitar a oportunidade para promover seu desenvolvimento.

A transição para a energia limpa provocará décadas de demanda pelos metais necessários para multiplicar os parques solares e eólicos, fios de alta tensão e carros elétricos. A América Latina tem mais de um quinto das reservas globais de cinco metais cruciais.

A região já se sobressai na mineração de cobre, onipresente nas tecnologias verdes, e é lar de aproximadamente 60% das reservas de lítio conhecidas no mundo, usado em todos os principais tipos de baterias para veículos elétricos. Além de ser rica em prata, estanho e níquel. E a região se beneficiará até mesmo se a transição verde passar por dificuldades, graças a descobertas recentes de petróleo que poderiam saciar de 5% a 10% da demanda global até 2030.

Conforme o mundo se preocupa mais com o meio ambiente, ele também se torna mais populoso. Até 2050, o planeta talvez tenha aproximadamente dez bilhões de bocas para alimentar, ante os oito bilhões de hoje. Isso estimulará a demanda por carboidratos, proteínas e iguarias que a América Latina produz abundantemente.

A região já fornece mais de 30% do milho, da carne bovina e de aves, e do açúcar do mundo; e 60% da soja mundial. Oito em cada dez xícaras de café arábica no mundo foram preparadas com café latino-americano. Até 2032, suas exportações líquidas de alimentos podem ultrapassar US$ 100 bilhões, de longe o maior registro no mundo.

O chamariz da região como parceiro comercial será reforçado pelas rivalidades das superpotências. À medida que o Ocidente se esforça para diversificar e se afastar da China, vai querer mais acordos com a América Latina, uma região em grande parte neutra e pacífica.

Conforme os rivais endinheirados observam suas riquezas, uma nova disputa geopolítica está em curso: no mês passado, a Vale, mineradora brasileira, vendeu 13% de sua unidade de metais básicos para uma joint-venture saudita por cerca de US$ 3 bilhões; a China destinou US$ 1,4 bilhão para aumentar a produção de lítio na Bolívia; e a Europa prometeu investir € 45 bilhões nos projetos latino-americanos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

O problema é que a relação da América Latina com as commodities raramente foi feliz. Os conflitos do passado sobre os lucros catalisaram golpes de Estado, desigualdade e populismo. Hugo Chávez, déspota venezuelano, desperdiçou o boom do petróleo de seu país, gastando a rodo enquanto pouco investia na indústria e a enchia de comparsas.

Os lucros inesperados com petróleo na Colômbia e no Equador levaram a uma desindustrialização prematura. À medida que as receitas com exportação dispararam, o mesmo aconteceu com as moedas nacionais, sufocando outras indústrias de exportação e sujeitando o destino da região a um mercado volátil. A América Latina enfrentou inúmeros altos e baixos. As economias locais estão desequilibradas: em média, 80% das exportações dos países são de matérias-primas.

Para se saírem melhor desta vez, os países latino-americanos devem ajustar algumas coisas. Em primeiro lugar, precisam garantir que o boom ocorra de fato. Neste momento, a política está impedindo isso. Conforme esquerdistas e populistas conquistaram o poder, muitos países na região aprovaram ou ameaçaram aprovar leis que aumentariam os impostos, nacionalizariam reservas ou impediriam o investimento estrangeiro.

É justo e apropriado que os governos queiram maximizar suas rendas, principalmente considerando a frequência com que foram roubados no passado. Mas se eles tentarem ficar com muito, ou continuarem mudando de ideia, suas reservas em breve não serão exploradas.

Compartilhar a recompensa com as comunidades que vivem próximo às minas também é crucial. Os moradores locais queixam-se de que a extração ameaça seu sustento. Neste ano, os protestos interromperam os trabalhos durante meses numa mina de cobre peruana responsável por 2% do abastecimento mundial.

Essas comunidades são frequentemente ignoradas pelos governos nacionais; as mineradoras muitas vezes estão envolvidas em escândalos ou destroem o meio-ambiente local. A não ser que ambos façam mais para aplacar as queixas, o progresso continuará precário. O dinheiro, disputado com frequência por autoridades locais, não pode resolver tudo.

E os governos devem gastar seu dinheiro com sabedoria. Enquanto os preços estão altos, deveriam guardar parte dos lucros inesperados em fundos de emergência, aos quais possam recorrer para apoiar seus orçamentos quando vierem os tempos difíceis. Em vez de torrar dinheiro tentando construir fábricas de baterias de ponta do zero, os governos deveriam investir no básico para permitir o surgimento de novas indústrias: educação, saúde, infraestrutura e pesquisa.

O Banco Mundial estima que a lacuna de financiamento de infraestrutura do Brasil até 2030 seja de quase US$ 800 bilhões; 3,7% do PIB a cada ano. A América Latina tem uma chance histórica de deixar para trás sua maldição dos recursos naturais. E deveria aproveitá-la.

https://www.estadao.com.br/economia/como-a-america-latina-poderia-se-tornar-a-superpotencia-das-commodities/

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Falsificação epidêmica: como contê-la

Uma abordagem multifuncional é a base para combater a falsificação e a venda de produtos irregulares de forma efetiva

Robert Handfield, Anand Nair e Thomas Y. Choi – MIT Sloan Review 08 de Agosto 2023

Muitas empresas sofrem prejuízos significativos pela ação de falsificadores e de revendedores inescrupulosos, estejam ou não seus executivos atentos ao fato. Qualquer um que passe os olhos por bolsas em exposição sabe o quanto existe de produtos falsos com aspecto idêntico ao original, mas sem a mesma qualidade. Em alguns casos, esses produtos podem causar danos reais aos que os consomem, como no caso de uma farmacêutica que encontrou versões piratas de seus medicamentos à venda sem o princípio ativo. Da mesma forma, um produto autêntico pode ser desviado para canais não autorizados, como descobriu um produtor global de eletrônicos, ao ver que um de seus distribuidores solicitava peças sobressalentes para serem vendidas no mercado negro.

Itens de alta demanda de qualquer indústria são alvos lucrativos para a atividade criminosa. No entanto, a contrafação é um problema que muitas empresas não querem reconhecer ou levar a questão ao seu board ou acionistas. Alguns executivos tentam minimizar o fato dizendo que os falsificadores sempre vão achar um jeito de copiar ou que a pirataria representa uma parcela muito pequena das vendas e que não vale a pena ir atrás. Isto é exatamente o que querem os falsificadores: serem ignorados.

Pode ser que as empresas resolvam atacar o problema quando conseguirem saber o tamanho do prejuízo que sofrem, e comecem a tentar freá-lo, mas isto não é suficiente. Nossa pesquisa sugere que o combate à contrafação exige a ação de um amplo leque de funções organizacionais. Isso funciona melhor a partir de uma estratégia em diversos níveis, reunindo métodos variados e engajando toda a estrutura e seus parceiros.

Nossa recomendação é que as empresas se utilizem de um plano capaz de identificar, conter e prevenir a contrafação. Esse processo pede que se fique de olho em produtores terceirizados e se acompanhe a movimentação dos itens dentro da cadeia de fornecimento. Inclui a definição do que estará à venda, implantar marcadores ocultos, revisar acionamento de garantias, orientar os consumidores e trabalhar junto com entidades reguladoras e concorrentes.

Táticas convencionais não estão funcionando

As empresas que atentam para a falsificação em geral confiam na segurança da marca para rastrear atividades criminosas. Elas identificam produtos falsos usando táticas como aplicar marcações secretas ou ostensivas em produtos autênticos, anexar etiquetas rastreadoras e usar números de série acompanhados por blockchain para criar registros de transações resistentes a adulterações. Por exemplo, códigos de barras compatíveis com o GS1 Global Traceability Standard são usados para rastrear vacinas da covid-19. Para muitas organizações, no entanto, essas táticas não são suficientes. A falsificação e o desvio ilegal de produtos continuam em toda parte: nossa pesquisa de 2018, com 21 executivos que trabalhavam na cadeia de fornecimento, mostrou que quase metade deles tinham passado ou estavam passando por problemas na área. Mais de 70% disseram ter tido um incidente nos cinco anos anteriores e um deles nos disse que sua empresa descobriu que o equivalente à produção mensal de uma de suas fábrica fora desviado para o mercado negro, em grande parte por um de seus próprios fornecedores.

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a falsificação em 2019 correspondia a US$ 464 bilhões, ou 2,5% do comércio mundial. Pensava-se que ela atingisse apenas itens de luxo ou de alto valor, como medicamentos ou artigos de grife, como bolsas e perfumes. Mas agora o mercado está inundado de calçados, pesticidas, cosméticos, brinquedos, peças automotivas e equipamentos médicos. Os falsificadores têm como alvo qualquer indústria ou linha de produtos em que se possa obter um lucro fácil. 

Embora as empresas nunca eliminem completamente aqueles capazes de copiar itens ou desviar mercadorias de canais autorizados, é possível reduzir significativamente sua penetração no mercado e recuperar a receita perdida. Ações bem-sucedidas podem envolver cortar o acesso dos falsificadores aos mercados, eliminar o fornecimento de produtos não autorizados ou tornar um produto mais difícil de copiar. Aqui, vamos detalhar as três atividades que compõem um plano de ação robusto: identificação, contenção e prevenção.

Identificação: obtenha informações sobre a extensão e a natureza do problema

Construir uma linha de base sobre a dimensão do problema da contrafação é o primeiro passo crítico. À medida que o tamanho da questão se torna claro, pode-se estimar o retorno potencial sobre o investimento a ser feito para atacá-la. Serve também para estabelecer métricas de resultado para o combate à falsificação que podem ser alinhadas com os objetivos do negócio. Exemplos dessas métricas podem ser o valor em dólares ou porcentagem da receita perdida anualmente para o comércio ilegal de produtos, as receitas totais recuperadas (dólares que anteriormente foram perdidos sem saber para vendas falsificadas) e o número de incidentes confirmados de comércio ilícito, falsificação, desvio e adulteração.

Crie uma equipe multifuncional para a segurança da marca: a obtenção de números que reflitam o tamanho do prejuízo geralmente requer uma investigação intensiva que envolve a aplicação de análises de canais de mercado que exploram múltiplas fontes de dados de vendas e outras informações de dentro e fora da organização. Para ser eficaz, esta equipe deve incluir participantes de vendas, marketing, operações, compras, logística, finanças e contabilidade, bem como funções essenciais de segurança de marca. Essas equipes geralmente são lideradas por um diretor global de proteção de marca que, em muitos casos, tem experiência com legislação de propriedade industrial geralmente se reporta ao diretor de operações.

Use dados internos e de mercado para identificar atividades suspeitas: as empresas podem encontrar dificuldades para localizar, que dirá mensurar, a atividade de falsificação, já que possíveis indicadores estão misturados a dados sobre vendas, garantias, devoluções e outros. A menos que se esteja claramente procurando, uma atividade incomum pode facilmente passar despercebida. Um bom primeiro passo é começar pelo que está sendo vendido online. O comércio eletrônico surgiu como um canal perfeito para servir à indústria da falsificação. Os consumidores podem, sem querer, comprar produtos de varejistas online que não verificam a origem do que vendem e se são produtos legítimos. 

Apesar de sites falsificados serem fechados regularmente pela Amazon (e, na China, pelo Alibaba), os operadores que negociam produtos falsificados regularmente abrem um novo no dia seguinte, sob outro nome. A Amazon informou que bloqueou 10 bilhões de anúncios e destruiu 2 milhões de produtos irregulares só em 2020. Como os sites de comércio eletrônico são frequentemente o maior canal de vendas dos falsificadores, as empresas podem começar investigando onde seus produtos – genuínos ou falsos – estão sendo vendidos online. Usar características comuns de sites falsificadores contribui para restringir as buscas. Por exemplo, uma empresa pode encontrar quatro vendedores diferentes na Amazon oferecendo uma cópia exata de sua bolsa, listando os mesmos detalhes e até fotos. Um indicador de potenciais falsificadores pode incluir erros ortográficos ou gramaticais, fotos desfocadas ou outros detalhes de má qualidade.

Outra fonte de dados importante são os acionamentos de devolução em garantia. Quando um consumidor devolve um produto por estar com defeito (comum em falsificações), uma investigação pode rastrear onde ele foi comprado e como, o que pode levar à sua origem e a um ponto de partida para encontrar a sua fonte. Uma empresa global de produtos médicos que analisamos contratou um responsável global pela proteção da marca que examinou dados de garantia e devoluções, solicitações de serviço de campo e dados de vendas. Em seus primeiros 100 dias, ele encontrou 1.000 incidentes confirmados de comércio ilícito, falsificação, desvio e adulteração. Isso somou US$ 1,4 bilhão – 2% da receita – perdidos anualmente com esse comércio ilegal. 

Estimar as vendas de itens de contrafação é uma tarefa difícil, mas essencial: as empresas devem estabelecer uma linha de base para poderem medir os efeitos das medidas para combate ao produto falso. A compreensão precisa da dimensão do problema é um requisito para decidir quanto investir e qual retorno esperar das medidas antifalsificação. É comum que os tomadores de decisão de negócios não tenham ideia de até que ponto suas vendas e reputação estão em risco.

Mapeie a cadeia de fornecimento e distribuição: muitas organizações se surpreendem quando descobrem que os bandidos fazem parte de suas próprias cadeias de fornecimento. Excesso de produção, vendas no mercado negro e distribuição não autorizada facilitam que um produto, ou suas cópias, sejam vendidos por canais não conhecidos pela empresa. Assim, um bom passo inicial é conhecer os canais de fabricação e distribuição pelos quais circulam os produtos.

O dono da marca em uma grande empresa global de vestuário nos disse que ouviu através de sua rede de distribuidores que a marca estava sendo vendida no México, embora a empresa não tivesse presença autorizada no varejo de lá. Para rastrear de onde vinham esses produtos, a empresa foi atrás de conhecimentos de embarque e registros de frete marítimo que estavam indo para o país. A trilha de documentos apontou que as mercadorias haviam sido enviadas de um porto em Israel pelo mesmo fabricante autorizado que estava produzindo o produto de marca da empresa nos Estados Unidos. A organização rastreou as roupas, que eram produtos autênticos, feitos sob as mesmas especificações e com os mesmos materiais, mas que estavam sendo distribuídos ilicitamente, fora do acordo contratual entre as partes. Depois desse evento a empresa de vestuário criou uma função global de segurança da marca e mapeou toda a sua rede de fornecimento, e descobriu que outros casos de desvio de produtos estavam ocorrendo em todo o mundo.

Analisar o consumo de matéria-prima na cadeia de fornecimento é um bom lugar para começar a mapear essa base. A área de compras pode, por meio da contabilidade, rastrear todas as aquisições feitas por terceiros em nome da empresa (um documento geralmente conhecido como análise de gastos). Se um fornecedor estiver comprando mais matéria-prima e produzindo mais do o encomendado pela empresa, temos um sinal de que o produto adicional pode estar sendo destinado ao mercado negro. Para tanto é preciso uma visão completa da cadeia, além de apenas fornecedores de nível um (o que é uma necessidade cada vez maior, por diversos motivos, particularmente para gerenciar riscos relacionados a violações trabalhistas ou ambientais). Alguns fornecedores podem ser relutantes em informar quem, por sua vez, lhes fornece, por razões competitivas, mas podem receber a certeza de que é por segurança e não para cortá-los da cadeia.

Contenção: controle a expansão do problema

Com uma equipe dedicada, um dimensionamento inicial do problema e uma clareza dos impactos da falsificação e desvio aos quais a empresa é mais vulnerável, pode-se começar a gerenciar o problema sistematicamente para contê-lo.

Analise os segmentos de produtos: uma das primeiras tarefas da equipe de investigação é segmentar os produtos por canal, margem, volume e risco da falsificação. Isso permite que a equipe seja direcionada primeiro para os canais de mercado mais vulneráveis. Em muitos casos, uma análise dos processos de fornecimento e distribuição de uma empresa ajuda a revelar um conjunto de segmentos de produtos mais visados pelos falsificadores. 

Em particular, nossa pesquisa identificou as linhas de produtos com alta complexidade pela variedade de produtos finais, grau de personalização do produto acabado, abrangência geográfica dos fornecedores, número de níveis na cadeia de fornecimento, previsibilidade da demanda e variação nos volumes de fabricação. Exemplos incluem peças de reposição de aeronaves e automóveis, brinquedos, vestuário de alta qualidade, produtos farmacêuticos de marca e eletrônicos de consumo. Os falsificadores são mais propensos a tirar vantagem dos segmentos de produtos caracterizados por um maior nível de complexidade e explorar essa complexidade a seu favor.

Entrevistamos executivos de uma empresa de biotecnologia que sabiam que produtos falsificados estavam aparecendo no mercado, mas desconheciam a origem. A equipe de proteção da marca começou segmentando os produtos que eram grandes alvos de falsificadores pela alta margem, analisando os dados para estimar o número de incidentes por item. A equipe, formada por uma estreita colaboração entre licenciados, proprietários de marcas e gerentes regionais de vendas, lançou então um plano para parceiros de franquia e unidades de negócios do país. Isso estabeleceu prioridades de proteção da marca por linha de produto e criou um sistema para rastrear incidentes relatados pelo cliente por marca e fazer revisões de dados semestralmente. Ao mesmo tempo, os analistas começaram a coletar informações de mercado sobre vulnerabilidades da cadeia de fornecimento, incluindo possíveis quebras na logística e a ameaça de intervenção regulatória, que representavam riscos significativos para planos de negócios e metas de crescimento por região. 

A soma dessas ações ajudou o fabricante a priorizar os negócios e regiões onde a proteção da marca teria um melhor efeito sobre a receita. No processo, a equipe identificou uma atividade significativa de falsificação e desvio que afetava um medicamento de infusão de sucesso que estava colocando muitos pacientes em risco. A empresa disse ter conseguido reduzir o número de incidentes anuais de 100 para zero. Claro que isso exigiu esforços persistentes para encontrar a origem e implantar medidas de controle, incluindo o envio de uma mensagem de alerta aos falsificadores, na expectativa de convencê-los a procurar um alvo mais fácil.

A análise que acabamos de descrever começa com a identificação de uma pista inicial e segue o fio da atividade. O problema pode começar parecendo pequeno, como algo com a garantia de um cliente, um revendedor que parece estar encomendando muitas peças de reposição ou uma série de devoluções de clientes de um determinado item. Qualquer um desses problemas, no entanto, pode ser um indício que leva a uma atividade de falsificação.

Comece pelos sites de comércio eletrônico e entre em contato com a alfândega e outras autoridades: uma equipe de análise deve caçar aberta e continuamente indícios de falsificação em sites de comércio eletrônico e reportá-los ao operador da plataforma, como a Amazon, e às autoridades policiais. No mínimo, isso gera complicações aos contraventores e irá retardá-los. Os produtos falsificados quase sempre têm de atravessar fronteiras e passar por inspeções de entidades de vigilância. Esses são atores críticos na cadeia de produção e distribuição e as organizações devem pensá-los como parceiros na batalha contra a perda de receita e o roubo de propriedade intelectual. Essas relações são particularmente importantes em setores altamente regulamentados, como produtos farmacêuticos, alimentos, aeroespacial e fabricação automotiva, nos quais falsificações podem colocar em risco seus usuários.

Um funcionário da alfândega e proteção de fronteiras dos Estados Unidos nos disse que às vezes é difícil para as empresas entenderem o trabalho de sua agência, indicando que seria importante que essas empresas assumissem seu papel de contribuição ao combate à contrafação. “Estamos em campo, inspecionando contêineres”, disse. “Se um de nossos oficiais abrir um contêiner e vir algo que pareça suspeito, ele primeiro procurará em nosso banco de dados interno de marcas registradas. Se ele não encontrar nada, não há nada que ele possa fazer.” Registrar marcas junto às agências regulatórias é uma etapa crítica para conter a falsificação.

Eduque (e alerte) os clientes: é imperativo que os consumidores sejam informados sobre a possibilidade e os riscos de comprar produtos falsificados. As empresas devem conscientizar os clientes, por meio do marketing da marca, de que, se comprarem de um vendedor online não verificado, correm o risco de não ter o produto coberto pela garantia — ou, pior ainda, de tê-lo sem qualidade e com consequências nem sempre previsíveis. Uma empresa que conhecemos começou a adicionar um comunicado em seu site da Amazon avisando que os produtos devolvidos adquiridos de vendedores não licenciados não seriam cobertos pela garantia. As empresas também devem enfatizar a importância de registrar o número de série do produto para fins de garantia, o que os protege se um produto legítimo que eles compraram se revelar falho ou defeituoso. Se um cliente tentar registrar o número de série de um produto falsificado, ele aparecerá como um erro e alertará a equipe de segurança da marca sobre o problema.

Prevenção: bloqueie futuras operações de falsificação antes de começarem

Uma vez que uma organização descobre como funciona a disseminação de produtos falsificados em seus canais e tomou as medidas iniciais para conter o problema, ela deve continuar monitorando a atividade criminosa e estabelecer fortes medidas preventivas. Nesta fase existem importantes papéis a serem desempenhados por diversas funções na organização.

Especialistas em embalagens de produtos devem explorar a tecnologia de rastreamento digital: os recursos atuais das tecnologias de rastreamento oferecem autenticação positiva do produto, podem indicar adulteração, podem aumentar a dificuldade de replicação e permitem o rastreamento do produto e da rota percorrida. As marcações seguras, que usam uma variedade de tecnologias de embalagem, blockchain e marcação serial, são métodos para rastrear itens. Muitas indústrias estão trabalhando com organizações de padrões como ASTM International ou GS1 para desenvolver métodos comuns de verificação. Isso pode ajudar a evitar o problema em que os falsificadores tentam copiar não apenas o produto, mas também a marcação digital.

Na empresa de biotecnologia que já mencionamos, a equipe de proteção da marca trabalhou para identificar recursos de autenticação secreta e ostensiva, que criavam alertas automáticos quando produtos falsificados estavam sendo vendidos no mercado. A equipe também criou um plano abrangente de comunicação com os clientes usando anúncios na web, campanhas direcionadas de e-mail e Twitter e alertas de varejistas sobre os perigos de comprar de fontes não autorizadas. A campanha conscientizou a rede de parceiros de vendas da empresa e preparou o terreno para identificar onde novas vendas falsificadas estavam ocorrendo. Garantia de qualidade deve revisar os dados para rastrear problemas e devoluções de produtos: o controle de qualidade pode criar sinalizações em seus processos de coleta de dados que indicam possíveis atividades ilegítimas. Sabemos de uma empresa que notou um aumento nas devoluções de seus produtos, descobriu que estes não eram legítimos e os rastreou até o ponto de venda, o que revelou a origem da falsificação.

A gestão de fornecimento deve intensificar a auditoria de fornecedores: pode ser particularmente frutífero rastrear o excesso da produção por parte dos fornecedores, assim como verificar a forma de descarte de produtos que não estejam em conformidade com os padrões de qualidade – produtos que podem acabar nos canais do mercado negro, que driblam as políticas de conformidade comercial. Uma grande empresa de vestuário começou a monitorar os níveis de estoque dentro das instalações de seu fornecedor e notou que os estoques de matéria-prima de entrada do fornecedor eram muito maiores do que o volume de produtos acabados que estava enviando para a empresa. Isso era um indício de que o item estava sendo produzido e vendido em outros lugares por outros canais.

Logística deve mapear as rotas de abastecimento para documentar a conformidade por parte dos provedores de transporte: isso pode ajudar a garantir a cadeia de custódia ao longo das cadeias globais, especialmente em pontos de transferência como portos, armazéns e centros de distribuição. As empresas com canais de distribuição complexos devem documentar cada transferência logística e realizar auditorias aleatórias para determinar se há pessoal de segurança adequado e portões trancados em todos os centros de distribuição.

O RH pode monitorar funcionários que estão lidando diretamente com produtos que são alvo de falsificadores: isso pode incluir verificações de antecedentes, bem como o aumento do treinamento para aumentar a conscientização do pessoal. Se houver uma falta de estoque significativa ou um aumento ou queda repentina nas vendas de produtos, cabem investigações.

O pós-venda deve rastrear reclamações de garantia e vendas de peças para identificar problemas de qualidade do produto: tanto quanto a equipe de garantia de qualidade, aqueles que estão na linha de frente do pós-venda estão posicionados com vantagem para saber se os produtos não estão tendo o desempenho esperado, o que, novamente, pode indicar que as falsificações estão entrando no mercado. Por exemplo, um grande varejista tomou a decisão de limitar seus canais de distribuição e revendedores autorizados, reconhecendo o alto potencial de produtos falsificados nesses canais de vendas específicos, especialmente o e-commerce. 

A falsificação e o desvio de produtos não são crimes que uma única instância possa combater. São crimes que demandam a diligência de marcas, varejistas, empresas de embalagem e toda sorte de provedores logísticos. Este é um caso raro em que a união com concorrentes pode render insights importantes. As empresas devem considerar a possibilidade de aderir a um consórcio e fazer parcerias com outros membros do setor. 

Grupos específicos do setor nos Estados Unidos incluem o Automotive Anti-Counterfeiting Council para fabricantes de veículos e peças e o Rx-360 para empresas farmacêuticas. Os membros da React, uma grande rede antifalsificação, incluem Marvel Entertainment, Mattel, Pfizer, Philips, Prada e Timberland. A contrafação também não é apenas um problema da cadeia de abastecimento do setor privado. Entidades de proteção de trabalhadores e dos direitos humanos, agências de proteção do consumidor, agentes alfandegários, entidades federais, estaduais e municipais de aplicação da lei, instâncias policiais e consumidores de produtos falsificados têm interesse e papel na prevenção de atividades ilícitas. Embora a falsificação e o desvio de produtos não possam ser totalmente eliminados, é possível reduzi-los significativamente.

Autoria

Robert Handfield, Anand Nair e Thomas Y. Choi

Robert Handfield é professor de gestão da cadeia de fornecimento do Poole College of Management na North Carolina State University. Anand Nair é professor da área de suprimentos e gestão da informação na D’Amore-McKim School of Business da Northeastern University. Thomas Y. Choi é professor de gestão da cadeia de suprimentos na W.P. Carey School of Business da Arizona State University.

https://mitsloanreview.com.br/post/falsificacao-epidemica-como-conte-la

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Produção de petróleo em alta consolida Brasil entre grandes exportadores e turbina balança comercial

Impulsionado pelo pré-sal, produção nacional alcançou 3 milhões de barris por dia no ano passado, e tendência é continuar em alta nos próximos anos

Por Luiz Guilherme Gerbelli – Estadão – 13/08/2023 

O aumento da produção do petróleo tem feito com que o produto ganhe cada vez mais destaque na pauta de exportação brasileira. E esse movimento não deve mudar tão cedo. Daqui em diante, o que se espera é que esse crescimento continue e seja capaz de contribuir com resultados robustos para o comércio exterior do País.

Na prática, se esse cenário positivo se confirmar, o petróleo vai representar mais entradas de dólares no País e recursos para Estados produtores por meio dos royalties.

No ano passado, as exportações de óleos brutos de petróleo alcançaram US$ 42,5 bilhões – um valor recorde – e representaram 12,7% de tudo o que o Brasil negociou para o exterior. Foi o segundo principal item vendido pelo País, atrás somente da soja (US$ 46,5 bilhões).

“Nos últimos anos, o Brasil tem aumentado a produção de petróleo e esse movimento deve continuar”, afirma José Augusto de Castro, presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). “À medida que a quantidade (produzida) sobe, e o preço não cai muito, a tendência é ampliar essa participação (na pauta exportadora).”

Em volume, a exportação de petróleo cresceu 1,7% em 2022 na comparação com o ano anterior, para 68,7 milhões de toneladas.

“Eu diria que o setor de petróleo é um dos que mais vão contribuir daqui para frente para o saldo da balança comercial brasileira”, afirma Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

Entre janeiro e julho deste ano, as exportações somaram US$ 22,3 bilhões, um pouco abaixo do apurado no mesmo período de 2022 (US$ 23,1 bilhões). “Essa queda já era esperada por causa do menor preço do petróleo”, afirma Castro.

Mudança de patamar

Para um país que sempre politizou a sua relação com o petróleo – a campanha, por exemplo, com o lema “o petróleo é nosso” na era Vargas – e sofreu com os choques nos anos 1970, os números do setor mostram que o País mudou de patamar nos últimos anos.

Em 2022, o Brasil se consolidou como o nono maior produtor de petróleo do mundo e apareceu entre os dez principais exportadores.

O cenário de crescimento da produção pode ser explicado, em parte, pelo desempenho do pré-sal e pelo aumento de preços do petróleo observado ao longo das últimas décadas, o que torna viável e interessante a exploração. Nas décadas de 80 e 90, o valor do barril chegou a US$ 20. Hoje, tem oscilado num patamar acima de US$ 85.

“A valorização do barril do petróleo foi crucial para que novas fronteiras (de exploração) ganhassem economicidade”, diz João Victor Marques, pesquisador da FGV Energia

O pré-sal responde por cerca de 75% da produção e tem uma grande vantagem adicional: o custo de operação é baixo e deixa a produção atrativa, mesmo quando há uma queda nos preços. “As empresas priorizam investir naquelas áreas em que aguentam a volatilidade do preço. Quando está alto, está ótimo. Quando está baixo, ainda é rentável”, afirma Walter de Vitto, economista e sócio da Tendências Consultoria.

Entre 2002 e 2022, a produção de petróleo saltou de quase 1,5 milhão de barris diários para 3,1 milhões no ano passado, de acordo com a consultoria Tendências. Em 2027, deve subir para 3,9 milhões barris. A expectativa é que continue crescendo até o fim desta década, quando a extração do pré-sal deve começar a perder força.

O caminho via exportação também se tornou natural, porque o País viu a sua capacidade de refino estagnada em pouco mais de 2 milhões de barris por dia nos últimos dez anos. Hoje, tecnicamente, o Brasil é autossuficiente na produção de petróleo e, portanto, todo aumento de produção acaba sendo exportado.

“O País tem contratado um aumento da produção de petróleo e, tudo mais constante, deve ter um aumento das exportações”, diz de Vitto. “O que pode fazer com que isso não ocorra, eventualmente, é o aumento da capacidade de refino, porque você não exportaria petróleo e usaria ele aqui.”

Novas fronteiras

A projeção de que a produção do pré-sal deve atingir o seu pico até o fim da década abre uma discussão importante sobre novas fronteiras de exploração num contexto em que transição energética ganha força.

O debate mais recente tem a ver com a Margem Equatorial, que fica entre o Amapá e o Rio Grande do Norte, e é formada por cinco bacias – Foz do Amazonas, Potiguar, Pará-Maranhão, Barreirinhas e Ceará.

“A busca por novas fronteiras exploratórias está relacionada em dar continuidade a esse crescimento da produção do pré-sal”, diz Marques, da FGV Energia.

A exploração da Margem Equatorial virou um tabu dentro do governo Luiz Inácio Lula da Silva. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) negou um pedido da Petrobras de exploração de petróleo próximo à Foz do Amazonas. O tema também opôs a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e o de Minas e Energia, Alexandre Silveira.

No início deste mês, Lula disse que a decisão do Ibama não é definitiva e que uma decisão deve ser tomada em breve. Na declaração da Cúpula da Amazônia, assinada pelos oito países que abrigam a floresta em seu território, não houve menção de eliminar planos de explorar petróleo na região.

“Adotando como premissa de que o mundo continuará precisando do petróleo por algumas décadas, será preciso entregar um petróleo de menor intensidade de carbono, e o Brasil tem condição de fazer isso”, diz o pesquisador da FGV Energia.

No novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), foram incluídos 47 projetos da Petrobras, entre eles novos poços exploratórios na Margem Equatorial.

https://www.estadao.com.br/economia/producao-de-petroleo-em-alta-consolida-brasil-entre-grandes-exportadores-e-turbina-balanca-comercial/

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Estado e desenvolvimento: Porto Digital e agronegócio

Porto Digital e agronegócio têm em comum desenvolvimento de novas tecnologias e cuidado no desenho da intervenção pública

Marcos Lisboa – Folha – 12.ago.2023    

Leia também https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/economia-verde-economia-do-espaco-economia-azul/

Existem exemplos no Brasil de combinação de políticas públicas, empreendedorismo privado e inovações tecnológicas que permitem aumentos recorrentes da produtividade, da renda das famílias e de crescimento econômico.

Esta coluna trata de duas experiências de sucesso: o Porto Digital do Recife e o agronegócio. Ambas têm em comum o desenvolvimento de novas tecnologias e o cuidado técnico no desenho da intervenção pública.

A forma da intervenção pública tem detalhes específicos em cada caso, revelando a necessidade da análise cuidadosa das características do setor e das condições de contorno.

No fim dos anos 1990, Recife tinha um excelente centro de formação em ciência da computação. Entretanto, a falta de empregos em tecnologia resultava na emigração de técnicos bem formados.

Surgiu a proposta de criar um polo de tecnologia, ou Ecossistema Local de Inovação (ELI), que incentivasse o empreendedorismo e a inovação em temas de ciência da computação.

Houve uma sugestão de implementar o ELI na Universidade Federal de Pernambuco, mas foi rapidamente rechaçada. A UFPE fica longe do centro, dificultando reter pessoas e atrair empresas, que preferem áreas mais densas, com vida cultural e oportunidades de encontros inesperados que resultem em ideias inovadoras.

Decidiu-se implementá-lo no bairro do Recife, região onde a cidade se iniciara, mas que se tornara uma área decadente com prédios históricos degradados. O projeto passou a ter um segundo objetivo: recuperar o centro antigo.

Foi criado o Núcleo de Gestão do Porto Digital (NGPD), conduzido por um conselho de administração com 19 pessoas representando governo, universidades, empresas e outras representações da sociedade civil. As decisões são colegiadas, e a gestão é profissional.

O município aprovou a Lei do Porto Digital, que reduzia o ISS das empresas ali instaladas. A concessão dos benefícios é gerida por um comitê com representantes da prefeitura e do NGPD. O governo do estado concedeu R$ 30 milhões para restaurar três prédios históricos e financiar por algum tempo o NGPD.

Mais de duas décadas depois, os resultados impressionam. Prédios foram restaurados pelo NGPD, que hoje tem nos aluguéis uma importante fonte de recursos. A região foi revitalizada com a atração de empresas privadas, que restauraram ainda mais prédios.

As empresas embarcadas no Porto Digital já somam 365, faturando R$ 4,75 bilhões por ano e empregando mais de 17 mil pessoas. Existem sete instituições de C&T, incluindo o Cesar, órgão de referência na área, que fatura cerca de R$ 400 milhões por ano.

Das 10 maiores empresas do Porto Digital, 7 foram iniciadas ali. Recife tem cerca de 700 doutores em ciência da computação, sendo perto de 600 formados na UFPE, nota 7 na Capes, a maior possível. Não há restrição à ida de profissionais brasileiros para o exterior. É comum saírem do Brasil e voltarem anos depois, com mais experiência e conhecimento.

Recentemente, o Porto Digital, em parceria com universidades privadas, iniciou um programa de bolsas integrais para jovens que se formam em escolas públicas. São cerca de 600 bolsistas por ano, mais de 60% negros.

Recife tem a maior proporção por habitante de formandos em áreas que envolvem programação de computador no país, e esse número irá dobrar em três anos, transformando a demografia da região com pessoas que vieram das periferias da cidade.

A história do agronegócio tem resultados semelhantes, mas por meios bem distintos. No fim dos anos 1960, o Brasil tinha dificuldades na agricultura. Nossas exportações dependiam principalmente do café, cujas oscilações de preço no mercado internacional geravam volatilidade na taxa de câmbio, prejudicando os demais setores, inclusive a indústria.

O governo apoiou pesquisas para adaptar as culturas das zonas temperadas, como a soja, para o trópico brasileiro, além de desenvolver pessoas que pudessem resolver outros problemas, como a inadequação do solo para a agricultura no Centro-Oeste, por ser demasiadamente pobre em nutrientes e ácido.

A Embrapa financiou a formação de cerca de 2.000 técnicos em boas universidades, muitas fora do Brasil. Além disso, existiam pesquisadores competentes em universidades públicas, como Esalq, Viçosa e várias outras, assim como em centros privados e públicos de pesquisa.

Em paralelo, empreendedores migravam para o Centro-Oeste, buscando desenvolver a produção agrícola, experimentando novas abordagens, por vezes fracassando.

Os resultados do agronegócio nos últimos 50 anos são de tirar o fôlego. A sua produtividade cresceu cerca de 2,9% ao ano. Em média, os preços dos alimentos pesquisados pela Fipe-USP caíram em termos reais perto de 2% ao ano, barateando a oferta de alimentos para a população. Entre 1975 e 2022, a redução real acumulada dos preços passa de 60%.

O aumento de produtividade permitiu o crescimento e a diversificação das exportações, gerando um círculo virtuoso. A expansão da escala de produção induziu novos aumentos recorrentes de produtividade, inclusive para enfrentar a concorrência de outros países.

O Brasil foi o que mais aumentou a produtividade total dos fatores na agricultura entre os principais países produtores e exportadores nas últimas duas décadas. Tornamo-nos referência internacional na produção de soja ou em setores como papel e celulose.

A expansão do agronegócio incentivou o desenvolvimento de insumos e da indústria de equipamentos. Impressiona o aumento de novas empresas de tecnologia (agtech) em áreas como agricultura de precisão, automatização e robotização, biotecnologia, entre outras.

A renda por habitante do Centro-Oeste, mesmo sem Brasília, cresceu bem mais do que a do Sudeste no último meio século.

Em meados dos anos 1990, a renda média por habitante dos moradores do Maranhão era de R$ 335 por mês, apenas 35% da renda média do Brasil. A chegada da soja ao sul do estado permitiu que a renda média dos moradores da região crescesse 235% desde então, muito acima do que ocorreu na renda média do país e nas outras áreas do MA.

Existem diferenças nas políticas adotadas no Porto Digital e no agronegócio. Mas ambos os casos têm em comum mecanismos sofisticados para incentivar a inovação tecnológica e a formação de gente para resolver problemas e aumentar a produtividade.

Documentar as experiências bem-sucedidas pode contribuir para evitar repetir os erros tão frequentes no desenho da nossa típica política industrial, que distribui subsídios e proteções de roldão a empresas locais, como se isso fosse suficiente para garantir o desenvolvimento.

Aparentemente, aprendemos pouco com nossos muitos fracassos e somos desatentos aos detalhes dos ocasionais casos de sucesso.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-lisboa/2023/08/estado-e-desenvolvimento.shtml

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Febre do ChatGPT se espalha em escritórios nos EUA e dispara alerta

Para empresas de segurança, uso da tecnologia pode resultar em vazamentos de propriedade intelectual e estratégia

Richa Naidu Martin Coulter Jason Lange- Folha/Reuters 11.ago.2023

Muitos trabalhadores nos Estados Unidos estão recorrendo ao ChatGPT para ajudar em tarefas básicas, mostrou uma pesquisa Reuters/Ipsos, apesar dos temores que levaram empregadores como Microsoft e Google a restringir seu uso.

Empresas em todo o mundo estão avaliando a melhor forma de usar o ChatGPT, um programa de chatbot que usa IA generativa para manter conversas com usuários e responder a inúmeras solicitações. Empresas de segurança e outras companhias, porém, levantaram preocupações de que isso poderia resultar em vazamentos de propriedade intelectual e estratégia.

Cerca de 28% dos 2.625 entrevistados na pesquisa online sobre inteligência artificial (IA) entre 11 e 17 de julho disseram que usam regularmente o ChatGPT no trabalho, enquanto apenas 22% disseram que seus empregadores permitiam explicitamente tais ferramentas externas.

Cerca de 10% dos entrevistados disseram que seus chefes proibiram explicitamente ferramentas externas de inteligência artificial, enquanto cerca de 25% não sabiam se sua empresa permitia o uso da tecnologia.

“As pessoas não entendem como os dados são usados quando usam serviços de inteligência artificial generativos”, disse Ben King, vice-presidente de confiança do cliente na empresa de segurança corporativa Okta .

“Para as empresas, isso é crucial, porque os usuários não têm contrato com muitos programas –uma vez que são um serviço gratuito–, portanto, as empresas não vão correr o risco por meio de seu processo de avaliação usual”, disse King.

A OpenAI se recusou a comentar quando questionada sobre as implicações de funcionários individuais usando o ChatGPT, mas destacou uma publicação da empresa garantindo aos parceiros corporativos que seus dados não são usados para treinar o chatbot ainda mais, a menos que eles dessem permissão explícita para isso.

Quando as pessoas usam o Bard, do Google, o programa coleta dados como texto, localização e outras informações de uso. A empresa permite que os usuários excluam atividades anteriores de suas contas e solicitem que o conteúdo inserido na tecnologia seja removido. De propriedade da Alphabet, o Google se recusou a comentar quando solicitado a fornecer mais detalhes.

‘Tarefas inofensivas’

Um funcionário do Tinder disse que os empregados do aplicativo de relacionamento usaram o ChatGPT para “tarefas inofensivas”, como escrever e-mails, embora a empresa não o permita oficialmente.

“São e-mails regulares. Muito sem consequências, como fazer convites engraçados para eventos da equipe, e-mails de despedida quando alguém está saindo… Também usamos para pesquisas gerais”, disse o funcionário, que não quis ser identificado porque não era autorizado a falar com repórteres.

O funcionário disse que a empresa tem uma “regra sem ChatGPT”, mas que os funcionários ainda o usam de uma “forma genérica que não revela nada sobre o Tinder”.

O aplicativo disse que forneceu “orientação regular aos funcionários sobre as melhores práticas de segurança e dados”.

Em maio, a Samsung proibiu os funcionários mundialmente de usarem o ChatGPT e ferramentas semelhantes depois de descobrir que um funcionário carregou um código confidencial na plataforma.

A Reuters informou em junho que a Alphabet alertou os funcionários sobre como eles usam chatbots, incluindo o Bard, ao mesmo tempo em que comercializa o programa globalmente.

O Google disse que, embora o Bard possa fazer sugestões indesejadas de código, isso ajuda os programadores. A companhia também disse que pretende ser transparente sobre as limitações de sua tecnologia.

Cautela

Algumas empresas disseram à Reuters que estão adotando o ChatGPT e plataformas semelhantes, mas de olho na segurança.

“Começamos a testar e aprender sobre como a inteligência artificial pode aumentar a eficácia operacional”, disse um porta-voz da Coca-Cola em Atlanta, acrescentando que os dados permanecem dentro de seu firewall.

“Internamente, lançamos recentemente nossa versão corporativa do Coca-Cola ChatGPT para produtividade”, disse o porta-voz, acrescentando que a Coca-Cola planeja usar a IA para melhorar a eficácia e a produtividade de suas equipes.

Enquanto isso, a diretora financeira Dawn Allen, da Tate & Lyle, disse à Reuters que a fabricante global de ingredientes estava testando o ChatGPT, tendo “encontrado uma maneira de usá-lo de maneira segura”.

“Temos equipes diferentes decidindo como querem usá-lo por meio de uma série de experimentos”, disse.

Mesmo assim, em algumas empresas, funcionários dizem que não conseguem acessar a plataforma nos computadores.

“Está completamente proibido na rede do escritório, como se não funcionasse”, disse um empregado da Procter & Gamble, que preferiu manter o anonimato por não estar autorizado a falar com a imprensa.

A P&G se recusou a comentar. A Reuters não conseguiu confirmar de forma independente se os funcionários da companhia não conseguiam usar o chatbot.

Paul Lewis, diretor de segurança da informação da empresa de segurança cibernética Nominet, disse que as empresas estavam certas em serem cautelosas.

“Todo mundo obtém o benefício dessa capacidade aumentada, mas a informação não é completamente segura e pode ser projetada para fora”, disse ele, citando “prompts maliciosos” que podem ser usados para fazer com que os chatbots divulguem informações.

“A proibição total ainda não é garantida, mas precisamos agir com cuidado”, disse Lew

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2023/08/febre-do-chatgpt-se-espalha-no-local-de-trabalho-nos-eua-e-dispara-alerta.shtml

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Hidrogênio verde, vetor para reindustrialização no Brasil

Brasil poderá ter uma nova matriz elétrica inteira até 2040 destinada à produção do H2V

Por Ramos, Gannoum e Koloszuk – Valor – 27/07/2023

A viabilidade do Brasil na produção do hidrogênio verde (H2V) mais competitivo do mundo o coloca em uma perspectiva bem favorável de se tornar o maior fornecedor global do combustível e da molécula para mercados europeus, asiáticos, norte-americanos, mas também para o mercado local. E mais: pode estabelecer um caminho perene de reindustrialização,possibilitando a atração de novas fábricas, mais capital estrangeiro, novas oportunidades de negócios e novas tecnologias. Este fator se deve fortemente à quantidade de recursos renováveis que o país possui para produzir eletricidade, com destaque para as fontes eólica e solar.

O hidrogênio verde tem o potencial de representar entre 12% e 22% de toda a demanda de energia no planeta até 2050. Segundo estudo da consultoria Mckinsey, o Brasil poderá ter uma nova matriz elétrica inteira até 2040 destinada à produção do H2V. Isso significa um total de US$ 200 bilhões em novos investimentos no período, destinado à geração de eletricidade, novas linhas de transmissão e mais unidades fabris do combustível e de estruturas associadas, incluindo terminais portuários, dutos e armazenagem.

O país apresenta os melhores potenciais do planeta para geração de energia solar e eólica. Somadas, essas duas fontes respondem por cerca de 30% da matriz elétrica nacional, com 30 GW e 27 GW de capacidade instalada, respectivamente. E serão as fontes que responderam em maior grau em termos de oferta para os próximos 20 ou 30 anos.

Vetor energético, molécula e combustível primário, limpo e versátil, o hidrogênio verde tem o potencial de se tornar eixo estratégico na transição energética e descarbonização dos setores produtivos em geral, de diversos segmentos, inclusive em termos geopolíticos. Trata-se de um processo extremamente sustentável, que pode ser utilizado em diversas aplicações, eliminando de processos industriais – e de seus produtos – as emissões de gases de efeito estufa ou outros poluentes.

No contexto das mudanças climáticas, o hidrogênio verde apresenta-se, portanto, com uma importante tecnologia na direção da descarbonização de variados setores, tais como na indústria, como fonte de energia na forma de molécula para produção de fertilizantes e aço, para fornecer calor e energia elétrica e, mais especialmente, como matéria-prima em processos químicos, no transporte pesado, como combustível de aeronaves, navios e caminhões, além de aplicações no próprio setor elétrico, para armazenamento do combustível em baterias na geração de energia elétrica.

A indústria de cimento internacional, por exemplo, é uma das manufaturas mais poluentes, sendo responsável por 7% das emissões totais de CO2 geradas pela atividade humana no mundo. E o hidrogênio verde pode ser utilizado para reduzir significativamente suas emissões. Também será essencial no setor siderúrgico, que ocupa o primeiro lugar nas emissões de CO2 entre as indústrias pesadas no mundo, e o segundo maior consumidor de energia. E, na produção de fertilizantes nitrogenados verdes, pode reduzir em até 100% nas emissões de carbono no processo produtivo, trazendo benefícios importantes para o nosso agronegócio: segurança alimentar – uma vez que importamos 96% dos nossos fertilizantes nitrogenados, um diferencial ambiental relevante, em linha com o Acordo de Paris e com metas de net-zero, além de ser competitivo com os preços dos fertilizantes fósseis que importamos de países como a Rússia.

Embora apresente uma grande potencialidade, é fundamental o posicionamento assertivo do Brasil como um dos principais produtores do H2V, de forma sólida e rápida, tendo em vista o rápido movimento da economia global em torno do tema. Do lado da demanda, os países europeus, principalmente, estão se movimentando para encontrar soluções de descarbonização dos seus processos produtivos, buscando novas cadeias de fornecimento, o Brasil é naturalmente o principal candidato.

Do lado da oferta, na América Latina, o Chile já se adiantou, com fortes políticas para a energia renovável e para o hidrogênio. Os EUA, com o Inflaction Reduction Action (IRA), apresentaram um pacote de cerca de US$ 400 bilhões para uma política industrial a partir da energia, pagando US$ 3 por Kg de hidrogênio sob a forma de incentivos. Falta por aqui um aparato legal-regulatório que apresente as principais diretrizes para a produção do hidrogênio e a criação de mecanismos de incentivos, adaptados às condições brasileiras, uma vez que é sabido que o estado não tem recursos para fazer jus a pacotes de recursos, como ocorre nos países desenvolvidos.

Devido a sua vantagem comparativa do recurso natural e os ganhos de escala para a produção de energia renovável de forma competitiva, se faz necessária a priorização dessas fontes para produção do hidrogênio verde, uma vez que todo o racional para o crescimento desse setor é a descarbonização. Outro ponto importante é o mapeamento e estudo da competitividade da cadeia de valor do H2V, inclusive como forma de identificar oportunidades e gargalos para o Brasil no âmbito de políticas públicas e incentivos.

O mundo avança em termos de políticas, com pelo menos 36 países que já tendo definidos planos para o desenvolvimento e uso do hidrogênio verde. No Brasil, a produção do hidrogênio e da amônia verde já é uma realidade, já temos plantas inauguradas e outras a serem inauguradas e implantadas, além de vários projetos com MOUs (memorandos de entendimento) assinados, que abrangem estados no Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil. O interesse dessas empresas é na produção de H2V nos portos, onde há potencial demanda por esse combustível in loco e acesso à energia renovável competitiva, além da logística disponível para exportação a outros mercados. Mas também projetos no interior do País para consumo pela indústria local.

Com o hidrogênio verde brasileiro, o País pode vivenciar um ciclo nunca visto de ampliação do setor produtivo, desta vez com alta tecnologia para a promoção do desenvolvimento sustentável, social e econômico que promovam a transição energética tanto no âmbito nacional quanto em nível global. Entretanto, se faz absolutamente necessário e urgente transformar esta potencialidade em realidade, ou, do contrário, perderemos o bonde da reindustrialização.

Camila Ramos é CEO da consultoria CELA – Clean Energia Latin America

Elbia Gannoum é presidente da Abeeólica

Ronaldo Koloszuk é presidente da Absolar e diretor da Fiesp

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/hidrogenio-verde-vetor-para-reindustrializacao-no-brasil.ghtml

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Egomídia: a ascensão dos influenciadores

Vantagens competitivas do marketing de influência são enormes

Ronaldo Lemos* – Folha – 6.ago.2023 

A competição que as mídias e marcas tradicionais enfrentam não se resume só às plataformas. Ela abrange também os influenciadores. Se antes o ecossistema das mídias era dominado por canais ou marcas, hoje assistimos à consolidação da “me-media” ou “egomídia”, cujo centro é o “eu”. Esse é um fenômeno global que não está só na superfície. 

É o capítulo mais recente do processo de mudança radical das mídias, com consequências estruturais. Mais gente quer consumir conteúdo de pessoas e menos de empresas ou marcas. No final do ano passado mais de 75% das marcas tinham um orçamento dedicado a pagar influenciadores, conforme artigo da Harvard Business Review. 

Além disso, o fenômeno tem desdobramentos econômicos, com influenciadores lançando seus próprios produtos e marcas. Nos EUA há influenciadores que lançaram marcas bem-sucedidas de café, moda, cosméticos, delivery e assim por diante. As vantagens competitivas do marketing de influência são enormes. Por exemplo, baixo custo de aquisição de novos clientes e de conversão de vendas junto a seguidores fiéis. 

Além disso, como os influenciadores usam seu próprio conteúdo para vender, ganham em eficiência e velocidade. São também multiplataforma, espalhando sua presença por várias redes e canais diferentes. 

Possuem também uma vantagem pouco discutida: não se sujeitam a praticamente nenhuma regulamentação, regra, ou normas éticas. Podem comunicar de forma agressiva (ou abusiva) e inclusive vender produtos duvidosos ou prejudiciais que não teriam trânsito em mídias tradicionais. Em outras palavras, não há um CONAR dos influenciadores. Ou melhor, não havia. 

Nos EUA a Comissão Federal de Comércio refez no início de julho as diretrizes aplicáveis aos influenciadores, tornando-as mais restritivas. A Inglaterra seguiu o mesmo caminho, e criou regras mais duras desde março. Já na União Europeia praticamente todos os países estão avançando na aprovação de leis e códigos de conduta aplicáveis aos influenciadores. A França é o destaque. Mesmo em meio a uma polarização política profunda, o país aprovou consensualmente no dia 9 de junho uma nova legislação para regular a atuação dos influenciadores (apelidados pejorativamente no país de “infuvoleurs”, mistura de influenciador com ladrão em francês). 

A lei é abrangente e clara. Define como influenciador quem “mobiliza sua notoriedade de forma onerosa para promover bens, serviços ou mensagens políticas”. Proíbe a divulgação de várias atividades por meio de marketing de influência. Por exemplo, procedimentos estéticos, incluindo cirurgia plástica, produtos falsificados, produtos com nicotina, apostas e jogos de azar em plataformas que possam ser acessadas por crianças. Nesse caso, as plataformas precisam estar inscritas e certificadas pelo governo francês. As penas para o descumprimento são de 2 anos de prisão e multa de 300 mil euros (cerca de R$ 1,6 milhão). 

Além disso, os influenciadores precisam seguir o Código de Defesa do Consumidor e de Propriedade Industrial, dentre outras diretrizes estabelecidas pela própria lei. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Carregando… No Brasil não há legislação específica sobre o tema. Ele também ficou ausente do texto da chamada Lei das Fake News, atualmente no Congresso. Mesmo assim, o judiciário brasileiro está em pé de guerra contra vários influenciadores. 

Não são poucos os casos com pedidos de suspensão de contas de influenciadores. Para evitar casuísmos, melhor seria que as regras para decisões como essas estivessem bem-estabelecidas e fossem claras, como outros países vêm fazendo.

 Já era – Comunicação só no modelo de broadcast (“one-to-many”) 

Já é – A utopia do modelo “many-to-many” 

Já vem – Comunicação no modelo “influencer-to-many” 

*Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

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Por que Brasil é um dos protagonistas do novo boom de petróleo na América Latina

  • Cecilia Barría –  BBC News Mundo – 6 agosto 2023

Embora possa parecer uma contradição, em meio à crise das mudanças climáticas, a produção mundial de petróleo aumentará nesta década, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE).

Os especialistas projetam que nos próximos anos o mercado internacional continuará demandando uma maior quantidade de petróleo bruto, embora antes do final desta década a tendência deva seja invertida, à medida em que as energias renováveis ​​ganham espaço sobre os combustíveis fósseis.

Enquanto isso não acontecer, o ouro negro continuará girando os motores da economia internacional.

Nesse contexto, a AIE estima que a produção mundial de petróleo aumentará em 5,8 milhões de barris por dia até 2028 — e cerca de um quarto dessa oferta adicional virá da América Latina.

Quem serão os protagonistas desse novo boom? Brasil, Guiana e, em menor escala, Argentina, três países que lideram um novo capítulo na produção de petróleo da região.

Deve ficar para trás a era dominada por nações como Venezuela, México, Equador e Colômbia que, por motivos diversos, reduzirão a oferta de petróleo bruto no mercado internacional nos próximos cinco anos, segundo a AIE.

“É muito difícil para esses países reverter seu declínio”, disse à BBC News Mundo Francisco Monaldi, diretor do Programa Latino-Americano de Energia do Instituto Baker Institute, na Universidade Rice (nos Estados Unidos).

Brasil: líder em petróleo da região

Juntos, Guiana e Brasil serão os principais protagonistas do boom petrolífero latino-americano.

A história do Brasil está ligada às descobertas subaquáticas.

Sob três quilômetros de água e mais cinco de rocha e sal, o país extrai a fonte de combustível de um dos maiores campos de petróleo do mundo.

A descoberta dessas jazidas do pré-sal mudou o destino do país, fazendo com que se tornasse o maior produtor de petróleo da América Latina em 2017, superando o México, que na época detinha a liderança.

A Venezuela, que durante anos foi o ícone do petróleo na região, estava em um momento de uma crise tão profunda que sua produção havia entrado em colapso.

Assim, nos últimos seis anos, o Brasil não parou de aumentar sua produção de petróleo até atingir 2,2 milhões de barris em 2022, o que lhe permitiu se tornar o oitavo maior produtor do mundo.

Mas não se trata apenas da quantidade de barris por dia que cada país produz. Tanto o Brasil quanto a Guiana produzem petróleo bruto de forma mais eficiente e lucrativa que outros países.

E quanto aos efeitos poluentes desse combustível fóssil, que é uma das principais causas da crise climática que o mundo vive, os dois países emitem uma quantidade menor de CO2 por barril produzido em relação à média mundial, argumenta Monaldi.

Como muitos países se comprometeram a reduzir seu nível de emissões, é possível que no futuro esse tipo de óleo tenha uma demanda maior no mercado.

Guiana, um país pobre que será rico

Com cerca de 800 mil habitantes, a Guiana é um dos menores e mais pobres países da América do Sul. Ou pelo menos era assim até 2015, quando a gigante norte-americana ExxonMobil descobriu a primeira de suas reservas comprovadas de petróleo bruto, estimadas em cerca de 11 bilhões de barris, nas profundezas do Oceano Atlântico.

Aproveitando a forte demanda por petróleo que haverá nesta década, a produção da Guiana está em aceleração e acredita-se que até 2028 possa chegar a 1,2 milhão de barris por dia.

Se as projeções se concretizarem, “a Guiana vai se tornar o país que mais produz barris por habitante no mundo, superando o Kuwait”, explica Monaldi.

Nesse cenário, a Guiana passaria de um país pobre a um país rico (considerando a riqueza per capita), dado o aumento espetacular de seu Produto Interno Bruto (PIB) — que no ano passado subiu 57,8% e este ano está previsto para 37,2 %.

Como será distribuída essa nova riqueza da Guiana? Isso é algo incerto até agora. O governo afirmou que tentará evitar os erros cometidos por outros países petrolíferos no passado, embora com tanta riqueza jorrando do fundo do mar não seja fácil controlar o destino dos recursos gerados.

Argentina

Em terceiro lugar está a Argentina, que apesar de ter uma inflação superior a 100% ao ano e uma crise crônica de endividamento, sua produção de petróleo (e gás) tem crescido nos últimos anos.

No centro desse desenvolvimento está o Vaca Muerta, um gigantesco campo localizado no noroeste do país que possui a segunda maior reserva do mundo em gás de xisto e o quarto maior em óleo de xisto.

Ambos os recursos são extraídos em formato “não convencional”, como se chama os hidrocarbonetos que devem ser extraídos da rocha geradora pela técnica do fracking (ou fratura hidráulica).

As projeções para o desenvolvimento da indústria do petróleo argentina são positivas.

A AIE espera que a produção chegue a 700 mil barris por dia este ano e algumas estimativas sugerem que pode chegar a 1 milhão de barris por dia até o final desta década, segundo a consultoria Rystad Energy.

No entanto, após 2030, as projeções apontam para um declínio porque a produção de petróleo convencional deverá continuar caindo e a produção de xisto não deverá ser suficiente para compensar.

Se o cenário previsto se concretizar, o grande salto do comércio de petróleo duraria alguns anos, até chegar a níveis mais baixos de produção.

Também é preciso levar em conta, dizem os especialistas, que a produção não convencional precisa de grandes investimentos de longo prazo. Isso exige garantia de estabilidade nas políticas do setor, algo que na Argentina é difícil de prever.

Ficando pra trás

Os líderes históricos da produção de petróleo na região ficaram para trás.

No México, a produção atingiu o pico em 2004 e, desde então, caiu pela metade.

Para tentar melhorar a situação, o governo de Andrés Manuel López Obrador tentou promover o desenvolvimento da Pemex, a estatal petrolífera, mas até agora não conseguiu os resultados esperados.

Embora o governo tenha dado à empresa milhões de dólares em incentivos fiscais e outras ajudas financeiras, a Pemex não conseguiu se recuperar.

Com mais de US$ 100 bilhões (cerca de R$490 bilhões) em dívidas, a Pemex é a empresa de petróleo mais endividada do mundo.

“Além de ser uma empresa com fins comerciais, ela também opera com fins políticos”, diz Diego Rivera, pesquisador associado do Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. “A produção parou.”

Por sua vez, a PDVSA, empresa estatal venezuelana, teve uma forte queda, intimamente ligada à profunda crise econômica e política que afeta o país.

A produção de petróleo venezuelano, a maior parte pesada e densa, despencou de 3,4 milhões de barris por dia em 1998 para 700 mil na atualidade.

“O que está acontecendo na Venezuela é uma queda brutal que pode ser explicada por motivos que vão da negligência à corrupção”, destaca Rivera.

Enquanto isso, no caso do Equador, projeções de especialistas apontam para uma queda dos atuais 460 mil barris por dia para 370 mil em 2028.

Esse declínio atingiria duramente o país porque sua economia depende das receitas do petróleo mais do que qualquer outro país da América Latina.

Enquanto isso, a Colômbia está se movendo em outra direção. O governo do presidente Gustavo Petro pretende avançar na transição energética do país, reduzindo gradativamente a produção de petróleo.

Recentemente, foram concedidas licenças para projetos de energia renovável na província de La Guajira, com a expectativa de que a energia limpa produzida por aquela região forneça toda a eletricidade que o país necessita.

A ideia é que esse tipo de projeto permita compensar a queda nas exportações de petróleo sem prejudicar a economia, mas alguns especialistas estão bastante céticos sobre a possibilidade dessa meta ser alcançada nos próximos anos.

O que vai acontecer na próxima década

Por enquanto, não se sabe com que rapidez avançará a transição energética na região e até que ponto o mundo demandará petróleo a partir da próxima década.

“Mas há muitos fatores que não podem ser controlados”, alerta Rivera, como, por exemplo, a invasão da Ucrânia pela Rússia ou pandemias.

“O que temos certeza é que a transição energética será confusa, complicada e com muita volatilidade”, acrescenta.

Mas, se as projeções da AIE para 2028 forem cumpridas, faltam poucos anos para que o pico de demanda termine, dando lugar a um novo cenário na produção mundial de energia.

Para o período 2030-2050, o destino da América Latina estará intimamente ligado ao que ocorrer com a demanda dos mercados internacionais.

Se o mundo atingir a meta de zero emissões líquidas até 2050, “a região vai se sair muito mal”, diz Monaldi.

Mas se formos ao outro extremo, ao cenário previsto pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), em que há um platô na demanda em vez de queda, “a América Latina se sairia muito bem, porque é a região com mais recursos petrolíferos do mundo, depois do Oriente Médio”, diz o especialista.

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