Tecnologia dos carros flex, “a jabuticaba brasileira”

O consumo de etanol pelos veículos flex em substituição à gasolina reduz as emissões de gases de efeito estufa (GEE) em até 90%

Por Giovana Araújo*- O GloboRural – 15/11/2023 


Frequentemente utilizada, a expressão “jabuticaba brasileira” descreve algo que é exclusivo do Brasil e que não existe em nenhum outro lugar do mundo. Na chamada “Era de Ouro da Globalização”, que ficou definitivamente para trás, caracterizada pela ambição de economias nacionais abertas e desreguladas, as nossas “jabuticabas” muitas vezes eram vistas como indesejadas.

Com a emergência da “nova economia”, marcada pela priorização de interesses nacionais e pela emergência da agenda climática, é preciso construir um outro olhar sobre as nossas peculiaridades, particularmente no que tange as estratégias de descarbonização da matriz de transportes do país.

Neste contexto, uma das jabuticabas que merece destaque é a tecnologia dos carros flex, surgida em 2003, no Brasil, com o lançamento do Gol 1.6 Total Flex. De forma pioneira e disruptiva, a tecnologia trouxe a possibilidade de escolha entre gasolina, etanol ou a mistura desses dois combustíveis em qualquer proporção para abastecimento dos veículos.

O carro flex foi uma inovação da indústria automotiva no país, que abriu relevante avenida de crescimento do etanol para fins combustíveis e geração de valor pelo setor sucroenergético.

Naquele ano, o setor produzia 14,7 bilhões de litros de etanol. Desde então, a agroindústria mais que duplicou a produção de etanol para os atuais 31,0 bilhões de litros, considerando o etanol de cana-de-açúcar e o etanol de milho. Passados 20 anos, a cadeia sucroenergética movimenta hoje um valor bruto superior a US$ 100 bilhões e registra um PIB de, aproximadamente, US$ 40 bilhões, além de gerar US$ 13,4 bilhões em divisas externas com as exportações de açúcar e de etanol.

Para além do valor econômico gerado no país, existem também as externalidades socioambientais da produção sucroenergética, amplamente conhecidas. O consumo de etanol pelos veículos flex em substituição à gasolina reduz as emissões de gases de efeito estufa (GEE) em até 90%. Desde o lançamento dos veículos flex no Brasil, o consumo de etanol para fins combustíveis no país reduziu a emissão de gases de efeito estufa (GEE) em mais de 630 milhões de toneladas de CO2eq12, o equivalente ao plantio de 4,5 bilhões de árvores.

A contribuição da geração de bioeletricidade, a partir da biomassa de cana, para a rede é relevante – 18,4 TWh em 2022, o equivalente a 15,4% de todo consumo residencial do Brasil no ano – o que traz uma série de benefícios, entre os quais, a poupança nos níveis de água nos reservatórios das hidrelétricas do subsistema Sudeste e Centro-Oeste. E não menos importante, a cadeia de valor sucroenergética emprega 2,1 milhões de pessoas, considerando diretos e indiretos.

Olhando para frente, o potencial de geração de valor econômico e socioambiental da cadeia sucroenergética é ainda mais promissor, com destaque para novos produtos – como biogás, nosso “pré-sal caipira”, e o biometano – e novos usos, como a produção de insumo para combustíveis renováveis na aviação e fertilizantes.

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A vocação tripartite do setor sucroenergético como provedor de energia renovável, alimentos e rações, incentiva a inovação a ser inerentemente circular, integrando, inclusive, outras cadeias produtivas, ao mesmo tempo que diversifica a renda e maximiza o retorno dos produtores.

Vivemos um ponto de inflexão da mobilidade globalmente e novas tecnologias estão sendo importadas pelo Brasil, entre as quais, os veículos híbridos e os veículos elétricos a bateria, que podem ser alimentados com biocombustíveis ou recarregados com eletricidade.

O estudo “Vigor híbrido: por que os híbridos com biocombustíveis sustentáveis são melhores que os veículos elétricos puros”, conduzido por pesquisadores da USP/UNICAMP/UNESP, mostra que as emissões calculadas de gases de efeito estufa (por quilômetro) para veículos híbridos que utilizam etanol são 26% inferiores às observadas para veículos elétricos a bateria no Brasil.

Além disso, são 47% inferiores para veículos elétricos a bateria na Europa, onde a intensidade de carbono da matriz elétrica é alta comparativamente à brasileira. Os resultados para o biometano para fins combustíveis são ainda mais impressionantes. As emissões por quilômetro para um veículo híbrido com biometano são 43% inferiores às observadas para veículos elétricos a bateria no Brasil e 59% inferiores para veículos elétricos a bateria na Europa.

Os caminhos para a descarbonização da matriz de transportes e da economia brasileira são múltiplos. É preciso, entretanto, priorizar e valorizar as alternativas em que temos diferenciais competitivos na produção e que gerem valor ambiental, social e econômico no país.

Quando é considerado o inventário das emissões de GEE associadas ao ciclo de vida do combustível – desde o “poço até rodas” e as emissões associadas à fabricação de veículos, geração de eletricidade e infraestrutura de recarga – a eficácia ambiental dos biocombustíveis está comprovada. Neste contexto, o etanol precisa se transformar em uma paixão nacional. Afinal de contas, jabuticaba como essa só existe aqui no Brasil.

* Giovana Araújo é sócia líder de agronegócio da KPMG no Brasil.

Obs: As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da revista Globo Rural

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Como a IA ajudou a “reunir” os Beatles para gravar uma nova canção

A nova música, que conta com vocais de John Lennon, levou 50 anos para ser finalizada – e só foi possível com a ajuda da inteligência artificial

David Salazar – Fast Company Brasil – 08-11-2023 

Toda vez que ouvimos Beatles é difícil não ficar imaginando “e se?”. E se eles nunca tivessem se separado? E se John Lennon nunca tivesse sido assassinado? Quantas outras canções poderiam ter sido criadas?

Agora, temos um vislumbre interessante de qual seria a resposta para algumas dessas perguntas com “Now and Then”, a nova faixa que está sendo anunciada como a última música dos Beatles.

Coproduzida por Paul McCartney e Giles Martin, a canção incorpora elementos dos quatro rapazes de Liverpool – incluindo os vocais de John Lennon, que foram originalmente gravados em uma fita na década de 1970.

Now and Then” esteve em desenvolvimento por décadas, e sua existência pode ser atribuída, em parte, aos membros remanescentes da banda, a Yoko Ono, ao produtor e diretor de cinema Peter Jackson e ao machine learning.

Antes de trabalhar no projeto “The Beatles Anthology”, de 1995, que incluiu um documentário para a televisão, três álbuns duplos e um livro, a viúva de Lennon enviou quatro fitas demo a McCartney, George Harrison e Ringo Starr.

Quando os três Beatles se reuniram em estúdio, eles conseguiram transformar duas dessas demos em canções completas, “Free as a Bird” e “Real Love”. Também gravaram algumas partes de guitarra e bateria para acompanhar a faixa “Now and Then” de Lennon. Mas a produção se mostrou inviável: a qualidade da gravação era muito ruim e a voz estava abafada pelo som do piano e de uma televisão ao fundo.

A demo permaneceu nos arquivos de McCartney até recentemente, quando o trabalho de Jackson no documentário “The Beatles: Get Back”, lançado em 2021, abriu as portas para a mixagem de áudio com inteligência artificial.

Jackson e sua equipe desenvolveram a tecnologia para a série, usando-a para isolar e melhorar vozes e instrumentos de gravações mono feitas na década de 1970, como parte de um documentário chamado “Let it Be”, lançado simultaneamente ao álbum.

McCartney pediu que aplicassem a tecnologia ao registro de “Now and Then”, e eles finalmente conseguiram isolar adequadamente os vocais de Lennon do som de fundo. Com ajuda da tecnologia, o artista se dedicou a transformar a demo em uma música completa dos Beatles.

Além de gravar suas próprias partes de baixo e harmonias, McCartney recuperou rifes de guitarra que Harrison havia gravado em 1995, convocou Starr para tocar bateria e pediu a Martin que escrevesse acordes para os instrumentos de cordas. Também criou um solo de guitarra inspirado em Harrison. O resultado é uma canção surpreendentemente coesa, apesar de ser montada com elementos de diferentes décadas.

Martin enfatiza que os fãs não devem se preocupar com a tecnologia usada para criar a música. A indústria vem trabalhando nesse sentido há muito tempo. Ele tentou usar uma versão mais rudimentar para revisitar o catálogo dos Beatles alguns anos atrás, “mas não era suficiente”. A tecnologia usada em “The Beatles: Get Back” foi um divisor de águas.

O produtor também destaca a importância de as pessoas compreenderem que a criatividade humana ainda está no centro da música. Mesmo que a IA estivesse envolvida, ela não foi usada para criar vocais sintéticos de Lennon.

“Era fundamental para nós garantir que os vocais fossem de John, e não uma versão gerada por machine learning”, afirma Martin, cujo pai, George Martin, foi por muito tempo produtor da banda.

Embora esse esforço esteja sendo usado, em parte, para promover o relançamento dos álbuns da antologia 1962-1966 e 1967-1970 (conhecidos como “álbum vermelho” e “álbum azul”), Martin deixa claro que não se trata de uma jogada de marketing.

Ele diz que foi um projeto movido pelo amor, principalmente por parte de McCartney. “As pessoas podem achar difícil acreditar, mas não foi ideia de algum executivo de marketing”, diz ele. “Paul fez isso por conta própria e depois me chamou para ajudar.”

Na verdade, a música soa exatamente como o que é: uma oportunidade para voltar a um período em que faziam música juntos, com letras de Lennon que parecem ser premonitoriamente nostálgicas. É uma despedida, sem dúvida, mas por quatro minutos e oito segundos, os Beatles estão de volta à vanguarda da música.

“Eles usaram as ferramentas disponíveis de maneira inovadora – seja criando loops de partes gravadas em fita ou rifes de guitarras invertidos”, diz Martin.

A tecnologia pode ter mudado, mas o espírito inventivo que ajudou a criar “Revolver” e “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” permanece – e está evidente na nova canção. “Adoro ver os Beatles explorando novas tecnologias, como fizeram quando meu pai trabalhava com eles”, completa.


SOBRE O AUTOR

David Salazar é editor associado da Fast Company.

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Hubs de inovação: a solução pode estar bem perto de casa

Grandes empresas investem em startups para otimizar diferentes processos, que vão da contratação de talentos à gestão de caixa

Por Guilherme Meirelles – Valor – 31/10/2023

Pequenas empresas, grandes soluções. Com o avanço das ferramentas de machine learning e inteligência artificial (IA), algumas das principais companhias têm estreitado cada vez mais o relacionamento com startups por meio de seus hubs de inovação. Seja por meio da aceleração (apoio técnico e financeiro) ou de participação no controle, as iniciativas apontam para o caminho das parcerias.

Instalado no parque tecnológico de Piracicaba (SP), o hub de inovação Pulse, criado pelo grupo Raízen em 2017, proporcionou um impacto financeiro positivo de R$ 40 milhões em redução de gastos, contratação de talentos e mapeamento de tendências de mercado, entre outros pontos.

Com foco na diversidade, a empresa fechou parceria com a edutech Soul Code para a prospecção de pessoas em situação de vulnerabilidade social e digital para preencher vagas nas áreas de tecnologia. Por meio de bootcamps (aulas imersivas) e treinamentos on-line gratuitos, que incluem aulas de inglês, a Soul Code já colocou 19 profissionais dentro da Raízen em funções como desenvolvedores e analistas de dados, sendo 35% de Estados do Nordeste. “Temos contatos com ONGs e entidades e ressignificamos a vida profissional de pessoas, independentemente de gênero e faixa etária”, afirma Carmela Borst, CEO da SoulCode, destacando a colocação de um homem negro e ex-sapateiro, acima de 40 anos, em uma posição técnica na Raízen.

Para atingir a meta zero em acidentes de trabalho, a Raízen fechou parceria com a startup carioca AlfaPlace no desenvolvimento de um sistema de supervisão remoto de câmeras, que detecta on-line desvios e falhas mecânicas e humanas em atividades de rotina como abastecimento de tanques de caminhões nos depósitos. Denominado Supervisor Ubíquo Raízen, o sistema foi ampliado para outras áreas, como análise de dados em postos da bandeira Shell, verificando a passagem de veículos nas rodovias e a entrada para abastecimento, conforme a categoria do veículo. Segundo Maria Frastrone, sócia da AlfaPlace, a presença do hub potencializa a entrada no mundo digital. “Antes, o monitoramento de entrada e saída nos postos era feito manualmente”, destaca.

Em determinados momentos, é natural que surja desconfiança quanto à capacidade de uma startup resolver as necessidades de uma corporação. “Normalmente, a Porto desenvolve suas soluções internamente, mas, em 2021, optamos por buscar startups para implantar o Pix para pagamento de boletos e seguros por meio de cartões emitidos pela Porto Seguro Cartões. Houve quem achasse que uma startup não daria conta do nosso universo de clientes, mas fomos em frente”, recorda Mauricio Martinez, gerente de pesquisa e desenvolvimento da Porto e da aceleradora Oxigênio.

Após passar por uma série de testes e entrevistas, a startup Shipay implantou o sistema de conexão entre instituições financeiras e empresas, em março de 2021, com inovações pioneiras no setor. “Além de implantarmos o pagamento instantâneo, permitimos ao cliente a opção de antecipar o pagamento da fatura via Pix e permanecer com o limite de crédito do cartão para futuras compras”, afirma Luiz Coimbra, fundador e CEO da Shipay, startup com apenas três anos de vida. No primeiro mês, foram 150 mil transações, saltando para 250 mil no terceiro mês e, hoje, na casa acima de um milhão de transações mensais.

Com 3,03 GW de capacidade instalada em energia renovável, a geradora Auren é a maior comercializadora do país no mercado livre. Porém, frequentemente, a companhia enfrentava problemas de recursos humanos em razão da elevada volatilidade dos traders no Balcão Brasileiro de Comercialização de Energia (BBCE) – plataforma on-line para negociações bilaterais de compra e venda de energia elétrica no mercado livre. “O profissional saía e levava junto o seu conhecimento de mercado. Criamos um robô alimentado por IA que atuasse como um trader no balcão na recomendação de compra e venda”, diz Marcos Santos, CEO da Aquarela, que recebeu parte do aporte de R$ 10 milhões em startups feito pela Auren em 2022.

Decisões que demoravam horas em análise saíam em segundos, o que gerou mais assertividade nas operações. “Em três semanas, o investimento foi amortizado”, conta o executivo. Batizado como Tatics Energy, o robô é abastecido com dados de 260 fontes, que vão desde informações meteorológicas até estatísticas de mercado. Segundo Eduardo Diniz, diretor de comercialização da Auren, em dois anos de projeto, a assertividade é de 65% em mais de 520 operações.

Há quatro anos no mercado, a Beegol, startup desenvolvedora de softwares para conexão de internet, atua em parceria com a operadora Vivo desde 2021. O contato veio pela aceleradora Wayra, hub de inovação da Vivo. “A Vivo tinha dificuldades em lidar com sua enorme quantidade de dados e transformá-los em oportunidades de negócios”, afirma Andre Monlevade, sócio da Beegol.

Por meio de ferramentas de IA e dados coletados junto ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), a Beegol desenvolveu modelos estatísticos em todas as regiões cobertas por fibra óptica, o que permitiu um diagnóstico mais preciso em questões mercadológicas, como a relação entre reparos frequentes na rede e a perda de clientes ou cancelamentos devido ao preço. “Nossa ferramenta é mais cirúrgica”, diz. Segundo Monlevade, o sistema está presente nas mais de 400 cidades cobertas por fibra óptica. “O ganho veio em escalabilidade. Antes, a detecção de um problema em um município exigia a ida de duas pessoas.”

No caso do Hospital Albert Einstein, a preocupação do hub Eretz.bio foi buscar uma inovação que melhorasse a experiência do paciente no leito e a eficiência da equipe de enfermagem, que muitas vezes era sobrecarregada por solicitações que não eram de sua competência. A solução veio com o apoio à startup Hoobox, que desenvolveu um sistema no qual o paciente usa um tablet ou celular para suas solicitações cotidianas. “Havia uma dependência de 65% do tempo da enfermagem em pedidos como lanche ou limpeza do quarto”, diz Claudio Pinheiro, diretor de operações da Hoobox. No momento, o sistema está em operação apenas na área de ortopedia da unidade do bairro do Morumbi, na zona sul de São Paulo.

https://valor.globo.com/publicacoes/especiais/revista-inovacao/noticia/2023/10/31/hubs-de-inovacao-a-solucao-pode-estar-bem-perto-de-casa.ghtml

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O Ceará nem começou a produzir hidrogênio verde, e já vendeu tudo

Em evento da FIEC, o CEO da siderúrgica Arcelor Mittal se compromete a comprar todo o combustível que sair do Complexo de Pecém. Setor deve movimentar US$ 30 bilhões no Brasil

Rodrigo Caetano – Exame – 27 de outubro de 2023 

De Fortaleza

Parece uma cena de filme. No auditório lotado, o presidente da grande corporação anuncia, para a incredulidade de todos, uma mudança radical de posicionamento, que vem acompanhada de uma grande injeção de capital na comunidade. O final feliz se dá graças a uma inovação há pouco tempo considerada inviável, uma utopia. Só não é ficção: aconteceu no Ceará.

A grande corporação, no caso, é a Arcelor Mittal, uma das maiores siderúrgicas do mundo. A inovação é o hidrogênio verde (H2V). Nesta quarta-feira, 25, durante o FIEC Summit, evento promovido pela Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), Erick Torres, CEO da Arcelor Pecém, anunciou que a empresa “não vai abrir mão de utilizar o H2V produzido no pólo de Pecém”. A afirmação foi compreendida como uma espécie de compromisso de compra, uma vez que a demanda da siderúrgica compreende praticamente toda a capacidade futura do complexo. Ainda que falte assinar o contrato e cumprir as etapas dos estudos de viabilidade técnica, como ressaltou a siderúrgica em e-mail enviado à EXAME, é um compromisso que muda o jogo. “Isso significa que o consumo será interno”, afirma Ricardo Cavalcante, presidente da FIEC.

Mas, e o porto de Rotterdam, na Holanda, sócio do Complexo de Pecém e que espera receber parte desse hidrogênio para abastecer a Europa, questiona a EXAME. “Vamos ter de produzir mais”, conclui Cavalcante, com um sorriso no rosto.

O polo cearense de produção de H2V está sendo gestado há alguns anos. Na visão do empresariado local, e do atual governo do estado, trata-se de uma oportunidade histórica de colocar o Ceará na liderança de um processo de reindustrialização do país a partir de uma fonte de energia limpa. Além da injeção financeira, o movimento da Arcelor Mittal foi comemorado por trazer, justamente, essa dimensão à indústria, setor que vem perdendo espaço no PIB ano a ano. “O objetivo é a descarbonização”, explicou o CEO da siderúrgica, em conversa reservada com a reportagem.

A Arábia Saudita do hidrogênio verde

A economia do Ceará é uma história muito mais de escassez do que de abundância. A falta de chuva, o sol escaldante e os ventos de arrancar guarda-sol pareciam condenar o cearense a uma vida de resiliência. A caatinga, bioma predominante no estado, não por acaso, é tido pelos cientistas como um dos mais resilientes do planeta, o que dá a dimensão dos desafios de se produzir qualquer coisa por lá. O que era fraqueza, no entanto, hoje é fortaleza.  O sol e o vento impulsionam a produção de energia limpa, a base da transição para uma economia de baixo carbono.

Idealizado nos anos 90, o Complexo de Pecém tinha como âncora econômica a instalação de uma refinaria de petróleo, que nunca veio. Por décadas, os governos do estado lutaram para convencer a Petrobras a tirar do papel o projeto, sem sucesso. Apesar do fracasso, o plano inicial deixou como legado as fundações de uma zona industrial, que hoje se volta para o hidrogênio verde, combustível com enorme potencial para substituir os hidrocarbonetos em indústrias intensivas em carbono, como a siderurgia.

Além da abundância de vento e sol, características geográficas tornam o Ceará um local privilegiado para essa nova indústria. A viabilidade de geração eólica offshore (em alto mar) começa muito próxima à costa. Algumas centenas de metros mar adentro, há um desnível no fundo do mar, cuja profundidade atinge uma altura ideal para a instalação de plataformas, condição que se prolonga por quase 30 quilômetros em direção à Europa. O porto também oferece a rota mais rápida para se chegar de navio à Europa, aos Estados Unidos e ao Norte da África, viagens que levam, em média, uma semana.

Os planos da Arcelor Mittal

De capital indiano, a Arcelor Mittal produz anualmente 7,5 milhões de toneladas de aços planos na América Latina. Sua principal unidade no Brasil está localizada em Tubarão, no Espírito Santo. Em março deste ano, a companhia adquiriu, por completo, a Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), que pertencia à Vale e a duas empresas sul-coreanas. A transação movimentou 2,2 bilhões de dólares (cerca de 11 bilhões de reais).

O CEO Erick Torres explica que os investimentos em hidrogênio verde estão relacionados ao compromisso global de se tornar carbono zero até 2050. “Onde é possível acelerar, estamos fazendo”, disse. A disponibilidade do combustível é essencial, e o hub cearense, segundo o executivo, oferece condições únicas de custo e velocidade de implementação. A CSP produz chapas zincadas, utilizadas, principalmente, pelas indústrias automotiva e de construção.

Junto ao complexo portuário, também foi instalada uma Zona de Processamento de Exportações (ZPE), que são “distritos industriais incentivados, destinados a sediar empresas orientadas para o mercado externo”, como explica o site do porto. Na prática, trata-se de uma zona franca, cujo objetivo é atrair investimentos estrangeiros.

Nessa combinação de recursos energéticos abundantes, localização privilegiada, estrutura industrial e desembaraço aduaneiro acelerado, a expectativa é de que Pecém seja um polo de hidrogênio com o potencial do que foi, em seus tempos áureos, o município de Macaé, no Rio de Janeiro, base das operações do pré-sal durante o primeiro governo Lula. A cidade atraiu todo tipo de empresa interessada em prestar serviço e fornecer produtos para a cadeia do petróleo. Por alguns anos, Macaé vislumbrou o enriquecimento, mas a derrocada da Petrobras e do petróleo transformou o sonho em pesadelo, e hoje Macaé tenta se reerguer das cinzas do abandono empresarial.

No Ceará, esse risco parece menor. Não só a perspectiva para o mercado de hidrogênio é melhor e de mais longo prazo (estima-se que o combustível movimentará 350 bilhões de dólares no mundo e 30 bilhões no Brasil, até o final da década), como a transição energética oferece ao Brasil, e ao Nordeste em particular, uma oportunidade de ouro para ganhar protagonismo global, fortalecer a economia e reduzir as desigualdades sociais. “Se o Nordeste falhar, o Brasil falha”, disse à EXAME Alexandre Negrão, CEO da Aeris Energy, fabricante brasileira de pás para geradores eólicos. Negrão espera uma aceleração dos investimentos a partir do compromisso feito pela Arcelor Mittal, e se diz preparado para atender a demanda dos projetos offshore cearenses.

“Precisamos de pouquíssima adaptação para isso. A indústria nacional de geradores eólicos está consolidada, o que facilita a decisão de investir no Brasil. Essa é uma consequência positiva dos incentivos dados ao setor nas últimas duas décadas”, afirma Negrão. Uma política mais clara e efetiva de fomento ao setor, por sinal, era a principal demanda dos executivos e empresários no evento da FIEC. A segunda mais importante era para o governo, se não for ajudar, pelo menos não atrapalhar.

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Rodrigo Caetano

Editor ESG Trabalhou como repórter e editor nas principais publicações de negócios do país. Venceu os prêmios Petrobras e Citi Journalistic Excellence. Atualmente, lidera a editoria ESG da Exame e apresenta o podcast ESG de A a Z.

https://exame.com/esg/o-ceara-nem-comecou-a-produzir-hidrogenio-verde-e-ja-vendeu-tudo/

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Estudo ilumina dia do choque de asteroide na Terra, há 66 milhões de anos

Poeira mineral espalhada pelo planeta provocou o inverno que mataria 75% da fauna e da flora — episódio crucial para entendermos os nós climáticos de hoje

Por Luiz Paulo Souza – Veja – Publicado em 10 nov 2023

Era o melhor dos tempos para os dinossauros que habitavam a Terra. E então, há 66 milhões de anos, houve o pior dos dias. Uma enorme rocha de 12 quilômetros de largura, um asteroide hoje conhecido por um carnaval de consoantes e vogais, o Chic­xu­lub, despencou dramaticamente onde hoje está a Península de Yucatán, no México. O impacto — 4,5 bilhões de vezes maior do que o da bomba de Hiroshima — levou à extinção de 75% de todas as espécies de plantas e animais da Era Mesozoica, inclusive os cultuados dinossauros. A força da rocha teria liberado enxofre e ácido sulfúrico na atmosfera, atalho para intermináveis chuvas ácidas. O escudo barrou a entrada de luz solar, as nuvens deixaram o ambiente escuro, impedindo o processo de fotossíntese e a abrupta diminuição de temperatura, em longo e severo inverno. 

Daria um filme-catástrofe — como, aliás, deu, e muitos. Foi a senha para milhares de estudos, incontáveis montagens ilustrativas. O fascínio por aquela tragédia seminal ainda hoje alimenta a humanidade, entre o enigma e a investigação, em um mar de incertezas. Virou, é natural, assunto pop, de permanente interesse. Faça a experiência, é engraçado: ponha “Chicxulub” no Google. Vai aparecer um meteoro animado, vindo da esquerda para a direita, a caminho do pé da página, que chacoalha ao contato da pedra.

Aquele instante indizível não cansa de entregar segredos, e brotou agora uma novidade que aponta para uma compreensão inédita. Um estudo publicado na reputada revista Nature Geoscience informa que a poeira de sílica, ou o pó de dióxido de silício — e não o enxofre ou o ácido sulfúrico — é que teria acelerado e mantido o esfriamento. Em alguns trabalhos científicos, a sílica tinha sido posta em cena, mas foi logo esquecida. “Tê-la na equação de volta nos deixa até emocionados”, disse a VEJA o pesquisador-chefe do estudo, Cem Berk Senel, do Observatório Real da Bélgica. 

A extraordinária conclusão deu-se a partir da investigação de partículas preservadas em um sítio geológico do estado americano de Dakota do Norte, próximo da colisão primordial. A poeira mineral, levantada depois do choque, teria ficado em suspensão por até quinze anos e ela é que teria puxado os termômetros em pelo menos 15 graus. “Em até quatro anos houve um colapso das grandes espécies em decorrência do frio e da falta de alimentos”, diz Aline Ghilardi, paleoecóloga e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. “É a extinção em massa mais rápida de que temos registro.” Mas se os efeitos foram tão profundos, como o um quarto de espécies restantes conseguiu passar ileso? 

O evento é uma das provas definitivas da teoria da evolução. Enquanto os seres dependentes apenas de plantas e frutos, assim como seus predadores diretos, foram mais afetados pelo fenômeno, os animais marinhos, que demoraram mais para sentir o efeito do frio, e os espécimes com padrões alimentares mais variados, como os então primitivos mamíferos, tiveram mais tempo para se adaptar. Prosperaram, portanto, os mais resilientes.

Mapa Dinossauros

A revelação da poeira é celebrada por enxergar o que ocorreu lá atrás, claro, mas também por iluminar o futuro. “O conhecimento mais profundo em torno do fenômeno nos ajuda a compreender a morte dos dinossauros e outros animais, mas também a projetar possíveis crises climáticas”, diz Berk Senel. Por óbvio, o que se supunha para o estrago provocado anteriormente pelo Chicxu­lub foi sempre relevante — e, ressalve-se, não é o caso ainda de abandonar a tese do enxofre e do ácido sulfúrico. 

Contudo, ao cravar a liberação no ar da sílica — que, aliás, em sua forma cristalina dá origem ao quartzo, ao topázio e à ametista, e que pode ser vista em profusão em diversos cantos do mundo —, os cientistas conseguem ser assertivos, ao ter certeza de que as grandes extinções são causadas por alterações drásticas da natureza. É impossível evitá-­las, mas convém não incentivá-las, daí a importância de, hoje, manter atenção para as mudanças climáticas aceleradas pelo ser humano. Eis a beleza da descoberta: saber o que houve há 66 milhões de anos é atalho para enxergar o aqui e agora, olhando para a frente.

Publicado em VEJA de 10 de novembro de 2023, edição nº 2867

https://veja.abril.com.br/ciencia/estudo-ilumina-dia-do-choque-de-asteroide-na-terra-ha-66-milhoes-de-anos

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O maior hub de inovação da América Latina

Com mais de 13.000 startups, uma população fortemente digitalizada e portas abertas para soluções vindas de fora, Brasil é o grande polo tecnológico da região

Lilian Rambaldi – Exame – Publicado em 10 de novembro de 2023 

Junto da reconhecida potência no agronegócio ou em energia renovável, existe um Brasil líder também em inovação na América Latina e Caribe e em contínua ascensão. Pelo terceiro ano consecutivo, o país subiu posições no Global Innovation Index (GII), o mais amplo e conceituado ranking internacional de avaliação dos países em relação aos seus ecossistemas de inovação.

Na edição de 2023, divulgada recentemente pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO, na sigla em inglês), que realiza o estudo, o Brasil foi o que mais avançou na classificação — subiu cinco degraus —, consolidando-se entre as 50 economias mais inovadoras do mundo.

Segundo Sacha Wunsch-Vincent, coeditor do GII, o desempenho em inovação do país é tão expressivo que tem consistentemente superado o seu próprio nível de desenvolvimento. “Isso é fruto de esforços sustentados do Brasil para converter recursos de inovação, como a capacidade do setor corporativo de impulsionar a pesquisa e o desenvolvimento e, em geral, a excelente infraestrutura nacional de P&D, que leva a resultados como manufatura de alta tecnologia, produção de software e capacidade de produzir unicórnios”, argumenta.

No relatório, o país apresenta pontuações elevadas em indicadores como serviços governamentais online (14ª posição) e participação eletrônica (11ª), situando-se entre as 15 economias mais bem avaliadas nas duas categorias. O Brasil também se destaca por seus ativos intangíveis (31ª), com bons resultados em marcas registradas (13ª) e valor global de suas marcas (39ª).

“O Brasil prospera em um ambiente favorável ao empreendedorismo, por um lado, e com a presença de multinacionais brasileiras com valor de marca global cada vez mais forte”, pontua Wunsch-Vincent. “E há uma alta capacidade das empresas de gerar ativos intangíveis, como propriedade intelectual, software ou reputação, e de transformá-los em valor empresarial para o crescimento nacional impulsionado pela inovação”, acrescenta o especialista da WIPO. “A evolução do ecossistema brasileiro é perceptível em diversas frentes. Temos centros de inovação cada vez mais avançados, programas de apoio às startups cada vez mais maduros, novos modelos de negócios sendo aplicados tanto pelos empreendedores quanto pelos investidores, e tudo isso gera mais oportunidades, mais trocas e mais competitividade”, avalia Lívia Carbonell, coordenadora de investimentos da ApexBrasil.

Um ecossistema robusto

Os resultados positivos no GII refletem o papel fundamental da tecnologia em avanços relevantes do país nos últimos anos, permeando todos os setores, desde a inclusão de mais pessoas no sistema financeiro até a melhoria do acesso à saúde na pandemia ou o aumento da produtividade e da sustentabilidade no agronegócio.

O Brasil tem hoje um ecossistema substancialmente mais robusto, na visão de Eduardo Fuentes, chefe de pesquisa da plataforma de inovação Distrito. “Os empreendedores estão cada vez mais capacitados. Contamos com um número crescente de investidores dispostos a apostar no país, as corporações reconhecem a inovação aberta como um caminho viável para melhorar seus negócios e temos um governo com uma agenda positiva em relação a esse assunto”, diz.

Esse amadurecimento explica a liderança absoluta do Brasil em número de startups na América Latina, firmando-se como o grande hub de inovação da região. São mais de 13.000 startups, representando 62,9% do total, bem à frente do segundo colocado, o México, com 11,7%, de acordo com o estudo Panorama Tech América Latina 2023, realizado pela Distrito.

O país é também o campeão latino-americano em número de unicórnios, startups avaliadas em pelo menos 1 bilhão de dólares antes de abrirem capital: são 24 companhias, segundo o levantamento, o que significa que mais da metade dos unicórnios de toda a América Latina, que somam 45, está aqui.

Fintechs se destacam

O mercado financeiro é historicamente o mais forte em inovação no Brasil, abrigando o maior número de startups e concentrando o maior volume de investimentos. Fuentes salienta que, apesar da maturidade do segmento, avanços consideráveis estão acontecendo, especialmente devido a uma agenda pró-inovação altamente positiva do Banco Central nos últimos anos. “Essa abordagem tem sido fundamental para garantir um maior acesso da população a produtos financeiros, resultando na inclusão de 75 milhões de brasileiros no sistema bancário nos últimos anos. Com uma diversidade maior de opções, a concorrência se intensificou, elevando o padrão geral para todos os produtos e serviços bancários”, afirma.

Área da saúde tem espaço para inovar

Entre os campos em crescimento hoje, o da saúde é um dos que apresentam mais oportunidades. A pandemia desencadeou uma verdadeira transformação no mercado, abrindo portas para inúmeras possibilidades. Atendimento remoto, implementação de prontuários eletrônicos e uso de inteligência artificial para diagnósticos são apenas alguns exemplos desse movimento, que se beneficiaram das evoluções regulatórias e conceituais no país.

Mas ainda há muito espaço para desenvolvimento, especialmente no segmento farmacêutico. De acordo com Norberto Prestes, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi), aumentar o número de startups deep techs (capazes de desenvolver novas drogas) é um dos objetivos pela frente. Um esforço importante nessa direção é o Programa de Inovação Radical da Abiquifi, que busca convergir iniciativas governamentais e privadas para o desenvolvimento de um ecossistema de inovação voltado para a cadeia farmacêutica.

Uma das faces da articulação estratégica, que conta com o envolvimento da Anvisa, é a criação de um parâmetro regulatório que ajude a promover a inovação radical no país, em nível internacional. “A discussão de normas regulatórias será determinante para o ritmo dos avanços esperados com inovação. Isso sem esquecer do equilíbrio entre a necessidade de normativas que tragam proteção e segurança às pessoas e o respaldo para a experimentação e a aprovação de tecnologias inéditas”, diz Prestes.

Terreno fértil para startups estrangeiras

O dinâmico mercado brasileiro — não só produtor de tecnologia mas grande consumidor de inovação — é também um destino atrativo para startups estrangeiras, que buscam ganhar tração. E há espaço para crescer. Com uma população de 203 milhões de habitantes e o maior Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina, o mercado nacional é imenso tanto em número de consumidores quanto em capacidade para abraçar novas soluções. “Também estamos bem colocados quanto à penetração da internet, com uma taxa de 81%, o que facilita o desenvolvimento de soluções tech por aqui”, pontua Eduardo Fuentes.

Esses fatores chamam a atenção de startups de fora, muitas provenientes de mercados vizinhos, que veem no Brasil uma oportunidade de expansão. “O fenômeno é observado em todos os setores, desde o financeiro até o imobiliário”, destaca.

É o caso da Rappi, startup colombiana de delivery, cujo ingresso no mercado brasileiro teve peso relevante para que a empresa atingisse o status de unicórnio em 2018. De acordo com Tijana Jankovic, vice-presidente global de negócios da Rappi, a maior base de usuários é exatamente o Brasil, ao lado do México. “Foram esses dois mercados que colocaram a companhia como um grande player de patamar mundial, na América Latina”, comenta.

Primeiro, porque o Brasil garante fatores macroeconômicos que favorecem a expansão e a sustentabilidade de negócios como o da Rappi, como grande representatividade de população urbana, alta digitalização da população e um segmento de usuários com elevado poder aquisitivo. Depois, nas palavras de Tijana, porque dos nove mercados em que a startup atua, o Brasil tem, de longe, o maior nível de exigência de produto, tecnologia e atendimento ao cliente. “Com isso, a Rappi teve que se desenvolver muito no aspecto tecnológico e operacional para, de fato, atender o usuário brasileiro com a melhor experiência possível. Esse know-how adquirido no Brasil fez com que a Rappi se desenvolvesse e se destacasse em todos os mercados onde opera”, afirma.

Rebocador da Wilson Sons: startup israelense DockTech monitorará mais de 754 quilômetros de vias navegáveis em associação

Apoio à entrada de novas soluções

Outro exemplo bem-sucedido é o da israelense DockTech. Usando inteligência artificial e dados dinâmicos, a empresa reproduz digitalmente as condições do leito marinho de portos e vias de navegação em tempo real, aumentando a eficiência e a segurança das operações marítimas e portuárias.

A startup entrou no mercado brasileiro com o suporte do ScaleUp in Brazil, programa premiado pela ONU da ApexBrasil e da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP) que apoia empresas internacionais inovadoras com a metodologia e as ferramentas necessárias para que comecem a operar no país. “O programa foi fundamental para que a DockTech fosse exposta aos players brasileiros e entendesse a melhor forma de atuar no nosso mercado. O objetivo foi trazer maturidade à empresa para que tivesse sucesso por aqui”, explica Raquel Kibrit, que foi a country manager da startup nesse processo de ingresso no mercado.

Missão cumprida. Associada à Wilson Sons, maior operadora integrada de logística portuária e marítima do Brasil, a israelense acaba de protagonizar um marco no país: depois de um acordo de cooperação técnica com o Porto de Santos, o maior complexo portuário da América Latina, a empresa assinou o primeiro contrato comercial de uma autoridade portuária, a Portos RS, com uma startup. Por meio dos rebocadores da Wilson Sons e outras embarcações que operam na região, a companhia vai monitorar o leito de mais de 754 quilômetros de vias navegáveis administradas pela Portos RS, em Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre, no sul do país.

Esses são alguns exemplos de como o Brasil não só é celeiro de startups como também um porto seguro para aquelas que, por aqui, querem atracar. 


O revolucionário Pix

Em três anos, inovação do Banco Central se tornou o sistema de pagamento mais usado no Brasil — e recebeu prêmios internacionais pela inclusão financeira sem precedentes

Uma das grandes inovações financeiras do país é certamente a criação do Pix em 2020 pelo Banco Central. O sistema de pagamento instantâneo brasileiro é um dos mais bem-sucedidos do mundo. O êxito do sistema é nítido: após três anos do lançamento, ele já supera todas as demais formas de transacionar dinheiro no país, como cartões de crédito, débito ou boleto. Somente em um dia, 6 de outubro, por exemplo, foram realizadas 163 milhões de transferências via Pix, segundo o Banco Central. Pela inclusão financeira sem precedentes promovida pela ferramenta, o Pix acaba de receber um prêmio internacional nos Estados Unidos, o Bravo Business Awards, que reconhece a excelência e a liderança em negócios e políticas públicas.

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Lilian Rambaldi

Repórter

Jornalista com mais de 20 anos de experiência no mercado. Atuação em grandes empresas de mídia do país, como coordenadora de projetos de branded content, editora-chefe, editora, repórter e redatora.

https://exame.com/revista-exame/o-maior-hub-de-inovacao-da-america-latina/

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‘Mercado da honestidade’ ganha espaço no Brasil, com multiplicação de lojas do tipo ‘pegue e pague’

País já tem de 5 mil a 6 mil estabelecimentos comerciais, sem caixa ou atendente, instalados em condomínios ou prédios corporativos

Por João Sorima Neto — O Globo – 05/11/2023 

O Brasil já viveu o boom dos hipermercados, dos atacarejos, das lojas de conveniência e agora vê um novo fenômeno, o das lojas de super proximidade, dentro de condomínios ou prédios corporativos. Elas se baseiam no “mercado honesto”, ou seja, não há atendentes e o cliente pega e paga pelos produtos.

Analistas estimam que já existam de 5 mil a 6 mil lojas do tipo no país, com potencial para movimentar até R$ 3,5 bilhões por ano, com salgadinhos, refrigerantes, comida congelada, desodorantes e produtos de limpeza.

— É um modelo que interessa às grandes marcas porque está quase “no sofá das casas” e vai crescer num ritmo de 10% nos próximos anos — diz Jean Paul Rebetez, sócio-diretor da Gouvea Consulting, braço de consultoria da Gouvea de Souza, especializada em varejo.

A Gouvea Consulting fez um estudo sobre essa tendência. Em condomínios com mais de 30 casas já surgem “lojas autônomas”, em cidades do interior do país ou periferias das grandes cidades. Elas se parecem mais com gôndolas de supermercados, e são diferentes das vending machines.

O conceito de mercado honesto foi consolidado pela Amazon, que criou a Amazon.Go, mercado inteligente que usa tecnologia para realizar as vendas sem intervenção humana, e entrou em operação comercial em 2018.

Há lojas similares a minimercados, em locais mais protegidos, com câmeras, e dispositivos antifraudes, como identificação do cliente pelo CPF. Mas as menores ficam em locais como o saguão de empresas ou academias de ginásticas, que contam no máximo com a câmera de vigilância do prédio.

O índice de clientes que “esquecem” de pagar pelos produtos no país fica entre 2,7% e 3,5%, dentro do que acontece em outros países, o que não traz prejuízo às operações. Mas quando esse índice sobe, num condomínio, por exemplo, a empresa pode pedir ajuda do síndico e das câmeras.

A comodidade nas compras, porém, tem custo:

— São (preços) entre 10% e 15% mais altos do que no mercado da esquina. É um prêmio que as pessoas acham que vale pagar — diz Jean Paul, da Gouvea Consulting.

A jornalista Helena Benfica, de 24 anos, de Belo Horizonte, costuma pegar lanches da tarde nas gôndolas de honest market da cidade.

— Ajuda muito quando a fome aperta, mas é preciso saber que os valores são mais altos — afirma.

Grandes redes e startups

Grandes redes de varejo alimentício estão aderindo ao modelo. O Hirota, rede de mercados de São Paulo, tem 120 lojas na capital paulista, em grandes condomínios residenciais, e abriu doze Hirota Office, em empresas como Bradesco, Magalu, Itaú e Santander. A meta é chegar em 2025 com 500 pontos em condomínios residenciais.

— Nossas lojas são em condomínios com mais de 300 apartamentos e vão muito bem, tendo o melhor resultado da companhia — diz Helio Freddi Filho, diretor de expansão do Hirota.

O Carrefour tem 29 mercados autônomos em São Paulo, a maioria em condomínios. Pelo aplicativo, o consumidor tem acesso à loja, escaneia os produtos, consulta preços, fecha o carrinho digital. Suas lojas variam de 15 metros a 50 metros quadrados e este modelo só é operado no Brasil pela rede francesa, diz João Gravada, diretor de proximidade do grupo:

— Essas lojas fazem parte da estratégia do Carrefour de estar disponível onde o consumidor precisar.

As empresas do setor são, na maioria dos casos, startups. Algumas até oferecem franquias de suas lojas, como a Market4u, de Curitiba, com 2,1 mil lojas em 22 estados, sendo 190 próprias e o restante franquias. O investimento inicial fica em R$ 130 mil, com direito à montagem de cinco pontos. O faturamento estimado de cada loja é de cerca de R$ 10 mil.

A empresa faturou R$ 100 milhões ano passado, e já inaugurou um centro de distribuição em Osasco, em São Paulo, para atender 480 pontos de vendas na capital e no ABC paulista. O Market4u mapeou 50 mil condomínios com potencial para mercado autônomo e só um em cada cinco já tem o equipamento.

— Nossa meta, até 2028, é ter 50 mil lojas — diz Eduardo Córdova, CEO do Market4u.

A empresa usa tecnologia como travamento e destravamento das lojas pelo aplicativo e câmeras inteligentes que mostram quantos itens foram retirados e quantos foram pagos.

Com 64 lojas na Grande São Paulo, a Imagine Store quer chegar a 85 no fim do ano, seja em condomínios residenciais ou empresas como Grupo Fleury, BodyTech e Banco BTG Pactual, onde já atua com produtos de alimentação e bebidas, incluindo itens saudáveis. Há planos de se expandir para estados como Rio, Minas Gerais, Bahia, Paraná e Santa Catarina no próximo ano e chegar a 300 lojas em 2024, com franquias.

Daniele Romero, CEO da empresa, conta que o mobiliário é específico para cada ponto. A Imagine montou loja exclusiva de água mineral na Bienal de São Paulo. E criou comunicação visual, com telas de led, onde as marcas podem apresentar produtos aos consumidores. O pagamento pode ser feito por Pix, cartões de débito ou crédito.

— Desenhamos a loja com design específico para cada espaço. A indústria vende direto ao consumidor e nós fazemos a curadoria dos produtos — conta Romero, que durante 15 anos atuou com logística.

Em Pernambuco, a Mercado Honesto tem 45 lojas em operação no Recife e começa a se instalar em Olinda, com mais de 350 rótulos de produtos. A empresa já tem um centro de distribuição e emprega 12 pessoas, entre pessoal de reposição das lojas e limpeza. Sao 68 fornecedores.

— No começo, usamos até refrigeradores usados — conta o arquiteto Rodrigo Cruz, um dos quatros ócios da empresa.

A Smart Brake tem 650 lojas próprias, em São Paulo, em hotéis, empresas e condomínios. Não oferece franquias. Foi uma das pioneiras do Mercado Honesto no país, em 2018, e já recebeu aportes de mais de R$ 40 milhões de investidores.

Ricardo Colas, CEO e fundador, conta que oferece 900 itens, entre vinho e carnes até desodorante. O mix de produtos varia em cada lugar. Seu índice de não pagamento é de 5%, mas ele diz que com dispositivos de inteligência artificial, e câmeras já consegue detectar atitudes suspeitas.

— Hoje, nas novas construções, assim como é obrigatório um espaço de academia, também já está sendo deixado um espaço para o mercado autônomo no prédio — constata.

https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2023/11/05/mercado-da-honestidade-ganha-espaco-no-brasil-com-multiplicacao-de-lojas-do-tipo-pegue-e-pague.ghtml

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Como grandes empresas estão transformando o reflorestamento em um negócio promissor

Perspectivas com o mercado de crédito de carbono e outras fontes de receitas ajudam a explicar por que nomes como Votorantim, BTG, Arminio Fraga e as famílias Moreira Salles e Klabin investem na recuperação florestal

Carlos Eduardo Valim – Estadão – 17/07/2023

São Paulo – Quando o grupo Votorantim transformou, há doze anos, uma área que detinha na Mata Atlântica numa reserva florestal chamada Legado das Águas, no Vale do Ribeira, em São Paulo, tratava-se apenas de mais um custo para o tradicional grupo industrial da família Ermirio de Moraes. Mas a boa ação ambiental, que compreendia a preservação de 31 mil hectares, uma área equivalente à de Belo Horizonte, agora, vem se comprovando um bom negócio.

Integrada a outra reserva em Niquelândia (GO), a Legado Verdes do Cerrado, permitiu a criação da empresa Reservas Votorantim, que agora estrutura um projeto-piloto de reflorestamento de 3 mil hectares para a geração de créditos de carbono. “Nós nos preparamos para isso, sabendo que o momento chegaria. Demorou um pouquinho, mas o momento chegou”, diz o diretor-executivo da Reservas Votorantim, David Canassa. “As promessas feitas no Acordo de Paris, de 2015, estão acontecendo agora. O mercado de conservação vem ganhando impulso e tem grande tendência de desenvolvimento.”

Para limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius até 2050, empresas do mundo inteiro divulgaram, nos últimos anos, metas de zerar as emissões líquidas de carbono em suas operações. O mercado de carbono é o carro-chefe deste desenvolvimento do reflorestamento como um negócio, mas há também outras formas explorar o potencial de receitas para manter a floresta de pé, seja provendo compensação ambiental, como forma de empresas cumprirem o Código Florestal, seja contribuindo para cadeias de negócios locais e para o turismo. Ao recuperarem áreas degradadas ou mesmo mantendo de pé as árvores de locais onde poderiam por lei serem derrubadas, as empresas podem emitir títulos de créditos de carbono. Já quem libera gás na atmosfera precisa comprar esses títulos, para cumprir suas promessas de baixar as suas emissões líquidas. Assim, as reflorestadoras ganham dinheiro vendendo para quem polui.

Segundo a consultoria McKinsey, a demanda por créditos de carbono no mundo pode crescer 15 vezes ou mais até 2030, e até 100 vezes até 2050. Com isso, passaria de uma movimentação de US$ 1 bilhão em 2021 para US$ 50 bilhões em 2030. O Brasil concentra 15% do potencial global de captura de carbono por meios naturais, a forma mais simples e econômica de se fazer isso.

Pesos-pesados

Além do Votorantim, outros grandes grupos e conhecidos pesos-pesados do mundo empresarial brasileiro e reconhecidos investidores entraram no negócio de reflorestamento. Um exemplo é o da startup re.green, fundada em 2021, que atraiu em sua segunda rodada de investimentos, no ano passado, capital de R$ 389 milhões. Os recursos vieram do BW, escritório de investimentos da família Moreira Salles, da Gávea Investimentos, do ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga e com participação de Fábio Barbosa, CEO da Natura&Co, e das gestoras de recursos Lanx Capital e Dynamo. Neste ano, Guilherme Leal, da Natura, se juntou a eles.

Assim, o seu conselho de administração é dos mais estrelados, com Arminio e João Moreira Salles. O objetivo da empresa é restaurar 1 milhão de hectares da Mata Atlântica e da Amazônia, uma área do tamanho de Sergipe. Para se ter ideia do tamanho do desafio, o compromisso climático feito pelo Brasil em 2015 previa reflorestar 12 milhões de hectares até 2030, como forma de cortar em 43% as emissões de gases-estufa relativas aos níveis de 2005.

Também deve ajudar a cumprir essa promessa a Biomas, que tem investimento de R$ 20 milhões de cada grupo associado, envolvendo Vale, Suzano, Marfrig, Rabobank, Itaú Unibanco e Santander, para reflorestar 2 milhões de hectares. E mais a Mombak, criada por um ex-diretor financeiro do Nubank, Gabriel Haddad Silva, e um ex-CEO da 99, Peter Fernandez, que estruturaram um fundo que busca levantar R$ 520 milhões para reflorestamento.

Já o BTG Pactual garantiu US$ 230 milhões numa rodada de investimentos no ano passado para o seu tradicional fundo americano Timberland Investment Group (TIG), que tem quatro décadas de atuação e agora tem meta de US$ 1 bilhão para reflorestamento na América Latina. Em abril, a Casa Branca anunciou que trabalha na liberação de empréstimo de US$ 50 milhões para essa empreitada do TIG.

No mês seguinte, o BTG anunciou a compra de participação minoritária na Systemica, empresa que estrutura, desenvolve e implementa projetos de redução de emissão de gases efeito estufa, além de comercialização dos ativos ambientais gerados.

Tudo isso faz parte de uma estratégia maior do banco, que olhando para o seu próprio balanço, já contabiliza mais de US$ 1,5 bilhão de linhas do portfólio de crédito ligadas a empresas e investimentos com aspectos sociais ou ambientais positivos, segundo a chefe de investimentos sustentáveis e de impacto do BTG, Patricia Genelhu. “Há toda uma frente na qual a América Latina pode contribuir internacionalmente, de recursos naturais e economia verde, e trazemos iniciativas para estruturar produtos financeiros num cenário global”, diz.

Por sua vez, a família Klabin-Lafer é reconhecida pelos esforços no Pantanal, com o Refúgio Ecológico Caiman, de Roberto Klabin, como forma de garantir a preservação da região. Até a Fazenda da Toca, que recebe investimentos da Península Participações, da família Diniz, e administrada em Itirapina (SP) pelo ex-piloto de Fórmula 1 Pedro Paulo Diniz, tem dedicado parte dos recursos para reflorestar a propriedade.

Potencial de ganhos

Essas são diversas boas ações que, cada vez mais, se caracterizam como negócios de alto potencial. O estudo da McKinsey, realizado em setembro do ano passado, revelou que o Brasil ainda gera menos de 1% da sua capacidade anual de créditos de carbono. E isso ainda acontece principalmente por conta de projetos de conservação e de geração de energia a partir de resíduos. Dessa forma, a atividade de reflorestamento abrirá todo um novo espaço de expansão e de geração de receita.

Cerca de 80% do potencial brasileiro está na restauração florestal, que são projetos geradores do que são considerados créditos de alta qualidade, por terem benefícios associados como de recuperação da biodiversidade e de impacto social para comunidades locais. “Projetos que realmente são sustentáveis e positivos podem receber preços maiores para seus créditos”, diz o executivo-chefe de investimento de impacto do BTG Timberland Investment Group, Mark Wishnie.

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A demanda por eles deve explodir. Segundo a McKinsey, das 80 principais empresas atuando no país, 77% já haviam publicado alguma meta de redução de emissões, até o ano passado. À medida que mais empresas entram em ação para cumprir as suas promessas o mercado de crédito de carbono voluntário se acelera. “Muitos executivos têm hoje remuneração financeira por bônus atrelada a emissões de gás carbônico. Isso muda toda a motivação para eles se engajarem em combater a mudança climática”, afirma o alemão Heiko Spitzeck, professor de sustentabilidade da Fundação Dom Cabral.

Ao mesmo tempo que as transações livres entre empresas evoluem, espera-se que o mercado regulado também ajude a trazer mais negócios. Para o Brasil, a expectativa é de que ocorra logo a criação da regulação do mercado de crédito de carbono, que teve as suas linhas gerais apresentadas na quarta-feira 12, num esforço coordenado envolvendo dez ministérios. Internacionalmente, certificados e padrões globais devem ser estabelecidos, o que vai permitir a compra de créditos gerados em outros países, o que deve beneficiar em muito o Brasil.

Com a demanda global crescente, o preço do crédito de carbono tende a aumentar bastante se a oferta não conseguir acompanhar a tendência na mesma velocidade. Isso, segundo Spitzeck, pode estimular até o agronegócio a atuar com a integração entre lavoura, pecuária e floresta, já que os três negócios podem passar a trazerem rendimentos comparáveis.

Desafio da regularização fundiária

Apesar do imenso potencial brasileiro, há também desafios locais. Um deles é a dificuldade de regularização fundiária em certas regiões, como na Amazônia. É preciso muito cuidado para garantir que a propriedade não será contestada ou que o vendedor da área assumiu a região de forma legal. “Trabalhamos de forma muito cautelosa, sempre com a assessoria jurídica acompanhando tudo”, diz a diretora de relações institucionais da re.green, Mariana Barbosa. “Pretendemos trabalhar com três modelos de acesso a imóveis, a compra, na qual avançamos muito, a parceria e outra que está surgindo, a de concessões florestais.” A empresa já comprou área da Mata Atlântica, no Sul da Bahia, rica em biodiversidade, e outra amazônica, no Noroeste do Maranhão. “Em breve, teremos mais duas ou três áreas”, diz.

Já a riqueza da biodiversidade brasileira, apesar de consistir num grande trunfo, também traz uma dificuldade de operação. “O Brasil é um dos países mais biodiversos do planeta. Quando se fala em construir floresta nativa, num hectare de terra, precisamos ter, às vezes, mais de 100 espécies diferentes. É muito diferente de florestas de eucalipto e pinus da Europa e EUA”, diz Canassa, da Reservas Votorantim. “Apesar disso, eu desafio a minha equipe a termos o mesmo índice de perdas de pinus e eucalipto, de menos de 1%. No Brasil, é muito comum perdas de 20% a 30%. Isso mostra a falta de protocolos de plantio e não faz sentido econômico.”

Desafios como esses só devem ser vencidos com a combinação entre ciência, vontade de fazer a diferença num mundo que percebe com cada vez mais clareza os impactos das mudanças climáticas e, claro, um bom volume de investimentos de empresários que entendem muito sobre como fazer bons negócios.

https://www.estadao.com.br/economia/negocios/reflorestamento-carbono-votorantim-btg-klabin-gavea-arminio/

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Fuga de cérebros: Brasil está perdendo talentos em inteligência artificial para exterior, diz ranking

No ramo da inteligência artificial (IA), o Brasil se sai bem quando o assunto é “talentos”. Porém muitos dos melhores profissionais brasileiros trabalham hoje para empresas e governos estrangeiros

Por Filipe Vilicic, BBC News Brasil – 25/10/2023 


O neurocientista Talmo Pereira, líder de laboratório no Salk Institute for Biological Studies, na Califórnia: exemplo de talento brasileiro 'perdido' na área de inteligência artificial — Foto: ARQUIVO PESSOAL/TALMO PEREIRA via BBC O neurocientista Talmo Pereira, líder de laboratório no Salk Institute for Biological Studies, na Califórnia: exemplo de talento brasileiro ‘perdido’ na área de inteligência artificial — Foto: ARQUIVO PESSOAL/TALMO PEREIRA via BBC

No ramo da inteligência artificial (IA), o Brasil se sai bem quando o assunto é “talentos”. Porém muitos dos melhores profissionais brasileiros trabalham hoje para empresas e governos estrangeiros.

Inteligência Artificial:

“É um cenário parecido com o de países como a Índia”, comenta o historiador Joe White, cientista de dados da Tortoise, grupo de mídia inglês, em entrevista à BBC News Brasil. “Nosso levantamento aponta que o talento criado em um país muitas vezes não é retido. Há uma fuga de cérebros, com êxodo para nações mais ricas.”

Essas são conclusões do The Global AI Index, pesquisa da Tortoise coordenada por White e por sua colega Serena Cesareo, também cientista de dados. O estudo avalia o cenário de 62 países no mercado de inteligência artificial, em torno de três pilares principais: investimento, inovação e implementação. O Brasil está no meio do ranking, em 35º lugar.

Os tópicos do ranking são divididos em sete categorias, respectivamente sob cada um desses três pilares: talento, infraestrutura e ambiente de operações (investimento); pesquisa e desenvolvimento (inovação); estratégia governamental e comércio (implementação).

“Nossa principal base de pesquisa para identificar talentos locais foi o Linkedin”, comenta Serena Cesareo. “Ficou evidente como o Brasil possui um grande número de profissionais no campo, tanto em termos absolutos quanto em proporcionais, em relação ao tamanho da população.”

O The Global AI Index se apresenta como a primeira pesquisa global a analisar o cenário dessa tecnologia de forma tão abrangente. Foi criado em 2019 e está em sua quarta edição. Em todas elas, os Estados Unidos lideraram o ranking, seguidos pela China.

O Brasil aparece em 35º lugar no ranking geral. Todavia, no critério “talentos”, está em 21º, à frente de países como Áustria, Bélgica, Portugal e Rússia, todos melhores colocados na listagem geral. E logo atrás da China, em 20ª neste tópico.

“Se um profissional brasileiro se forma em seu país, mora onde nasceu, só que trabalha no dia a dia para o escritório local da Microsoft, que é americana, nós o registramos como um talento brasileiro, mas que não contribui para o mercado nacional de IA, mas, sim, para o dos Estados Unidos”, diz Joe White, da Tortoise.

A comparação realizada por White com a Índia, logo no início desta reportagem, é evidenciada pelos números. Enquanto os indianos garantem um invejável segundo lugar no tópico “talentos”, estão em 14º na classificação geral.

Isso ocorre porque, em outros temas, a Índia não tem desempenho tão bom. Em “infraestrutura”, por exemplo, é quase a lanterninha da lista, na 59ª colocação. O país também vai mal em “estratégia governamental” (38ª) e “pesquisa” (30ª).

No caso do Brasil, em 21º lugar em “talentos”, os dados do levantamento apontam para carência em “estratégia governamental”, com o país em 30º lugar, assim como em indicadores impactados diretamente por ações do Estado, como em “pesquisa” e “desenvolvimento” (em 36º nesses dois âmbitos). “Esse cenário todo está ligado à fuga de cérebros do país”, resume Joe White.

Talentos perdidos

Com 31 anos de idade, e doutorado concluído em 2021 na Universidade de Princeton, o paulista Talmo Pereira rapidamente alcançou uma posição cobiçada no ramo acadêmico: a de líder de seu próprio laboratório.

Todavia, o feito foi conquistado a quase 10 mil quilômetros de distância de sua cidade natal, Campinas (SP).

No Salk Institute for Biological Studies, na cidade californiana de San Diego, nos Estados Unidos, ele está à frente de uma equipe de catorze pesquisadores e que se dedica a usar ferramentas computacionais de aprendizagem profunda (no termo em inglês, deep learning) para solucionar uma variedade de questões das biociências.

Em termos mais leigos, o neurocientista brasileiro usa a inteligência artificial como uma forma de investigar padrões biológicos em animais e humanos.

Talmo Pereira, com a equipe que lidera no Salk Institute for Biological Studies, na Califórnia: 'O Brasil infelizmente tem um contexto sócio-cultural, além de econômico, que prejudica quem ambiciona seguir uma carreira acadêmica', diz o neurocientista — Foto: ARQUIVO PESSOAL/TALMO PEREIRA via BBC Talmo Pereira, com a equipe que lidera no Salk Institute for Biological Studies, na Califórnia: ‘O Brasil infelizmente tem um contexto sócio-cultural, além de econômico, que prejudica quem ambiciona seguir uma carreira acadêmica’, diz o neurocientista — Foto: ARQUIVO PESSOAL/TALMO PEREIRA via BBC

“Criamos, por exemplo, uma tecnologia que prevê movimentos de animais, mesmo de pequenos insetos”, pontua Pereira.

Na sequência, ele continua a enumerar os estudos sob seu cuidado. “Temos avançado no uso dessa ferramenta para detectar doenças, como cânceres, antes que os sintomas apareçam. Em outra pesquisa, em parceria com um museu de Los Angeles, rastreamos como as pessoas se comportam diante de obras de arte. E também temos um trabalho com a Nasa.”

O time do Talmo Lab, o nome de seu laboratório em San Diego, tem realizado estudos sob encomenda da agência espacial americana.

“Vamos enviar experimentos para a Estação Espacial Internacional. Como astronautas permanecem muito tempo no espaço, e há planos de mandá-los a Marte, meu grupo procura criar métodos de prevenir doenças que podem se desenvolver mais rápido em ambientes de baixa gravidade.”

Talmo Pereira é exemplo de um talento brasileiro que foi perdido pelo país. No ranking do The Global AI Index, da Tortoise, todo seu trabalho rende pontos para os Estados Unidos, e não para o Brasil.

“O Brasil infelizmente tem um contexto sócio-cultural, além de econômico, que prejudica quem ambiciona seguir uma carreira acadêmica”, comenta. “Eu e minha mãe migramos para os Estados Unidos em busca de condições melhores para mim.” Pereira imigrou aos 16 anos de idade, com planos de entrar em uma universidade americana. Desde então, não voltou para sua terra natal.

“O Brasil não investe tanto quanto deveria em políticas públicas que incentivem a educação, principalmente para os menos privilegiados”, opina. “Se fosse diferente, se houvesse esse incentivo, eu não teria de ter saído de meu país para procurar pelas melhores oportunidades.”

A fuga de cérebros

“Tanto o sistema público quanto o privado brasileiros têm um cenário complicado para quem trabalha na nossa área”, avalia o economista Alexandre Chiavegatto, professor de aprendizado das máquinas [machine learning] da Universidade de São Paulo (USP).

“As empresas não valorizam o quanto deveriam. O governo, preocupa-se mais em regular e restringir, do que em desenvolvimento.”

Chiavegatto fez da graduação ao doutorado na USP, onde se especializou na área de ciências de dados de saúde. O pós-doutorado, que concluiu em 2012, foi na Universidade de Harvard.

“Decidi não ficar nos Estados Unidos pois passei no concurso público da USP e pude realizar um sonho que eu tinha, de me tornar professor nessa universidade”, diz Chiavegatto. “Mas o cenário lá fora é melhor, com empresas e o governo apostando mais no setor.”

Ele é um talento que permanece no Brasil. Na USP, lidera o Laboratório de Big Data e Análise Preditiva em Saúde. “Somos um time de trinta pesquisadores”, afirma. “Usamos a inteligência artificial para desenvolver algoritmos capazes de predizer e nos ajudar a combater doenças.”

Chiavegatto conta que seus melhores alunos costumam ser recrutados por universidades e empresas estrangeiras, principalmente dos Estados Unidos – o líder do mercado de IA, segundo o The Global AI Index.

“A qualidade dos trabalhos dos brasileiros nessa área é excelente, por isso acabamos por ganhar os empregos lá fora”, diz ele.

Ele cita, como “um de muitos exemplos”, o caso de Helena Schuch, que colaborou em trabalhos de seu laboratório na USP. “Agora, ela está em Harvard.”

Dentista dedicada às pesquisas acadêmicas, a gaúcha Helena, de 33 anos, é pesquisadora da Harvard School of Dental Medicine. À BBC News Brasil, ela conta que utiliza ferramentas de IA para prever incidências de problemas dentais em pacientes, em particular os de camadas mais pobres da sociedade.

“É difícil conseguir cargo de pesquisadora no Brasil”, opina ela. “Nas universidades brasileiras, é preciso se dedicar integralmente a ser professor, além de pesquisador. Isso não favorece o desenvolvimento da ciência por não aproveitar aqueles que, como eu, tem maior perfil de laboratório, não de dar aulas.”

Pesquisador da Fiocruz, o cientista da computação Paulo Carvalho, líder do laboratório de proteômica da instituição, também identifica o êxodo de talentos. “Um ex-aluno está em uma empresa do Vale do Silício. Tem um que mora no Brasil, mas trabalha para uma startup americana. Outro, na Universidade de Cincinnati. E dois foram para o Uruguai”, diz à BBC Brasil.

Segundo Carvalho contabiliza, a maioria dos estudantes de mestrado e doutorado que passaram por seu laboratório acabaram em vagas em instituições estrangeiras.

“Nos Estados Unidos, um jovem pesquisador pode ganhar três vezes mais que um sênior aqui no Brasil”, estima. “Faltam incentivos para ficar no país.”

Joe White, que elaborou o ranking global, diz que “para os países que querem subir na classificação, um caminho que tem se mostrado produtivo é o do governo criar mais possibilidades e incentivos para o setor de IA”.

Apesar das dificuldades do Brasil, o país tem melhorado no ranking.

Na edição de 2020 do The Global AI Index, o Brasil estava em 46º na classificação geral. Em 2021, avançou para 39º. Na última edição, publicada em junho (em 2022 o levantamento não foi realizado), chegou a 35º.

Os brasileiros sempre se destacam no indicador “talentos”, ficando em 35º em 2020 e em 31º, no penúltimo ranking. “O país está sendo puxado por seus profissionais, mas ao mesmo tempo apresenta dificuldade de mantê-los”, complementa White.

O que está em jogo nesse mercado? Segundo estimativa da consultoria MarketsandMarkets, trata-se de uma indústria que hoje movimenta anualmente cerca de US$ 150 bilhões (R$ 760 bilhões).

Um mercado promissor, que deve ser quase de vez maior em 2030, quando se calcula que chegará próximo de US$ 1,4 trilhão.

https://epocanegocios.globo.com/inteligencia-artificial/noticia/2023/10/fuga-de-cerebros-brasil-esta-perdendo-talentos-em-inteligencia-artificial-para-exterior-diz-ranking.ghtml

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Entrega por drones da Amazon, uma década depois, virou motivo de piada nos EUA

Empresa faz testes em algumas cidades americanas, mas equipamentos têm sido usados para fazer entregas de brindes

David Streitfeld – Estadão – 06/11/2023 

COLLEGE STATION, Texas – Há exatamente uma década, a Amazon anunciou um programa com o objetivo de revolucionar a forma de fazer compras e entregá-las. Drones lançados de um polo central voariam pelos céus, entregando praticamente tudo que alguém pudesse precisar. Eles seriam rápidos, inovadores e onipresentes – todas as características da Amazon.

O anúncio entusiasmado feito por Jeff Bezos na TV durante a Cyber Monday, a segunda-feira após a Black Friday, chamou a atenção do mundo todo. “Sei que isso parece ficção científica. Mas não é”, disse Bezos, fundador e CEO da Amazon na época. Os drones estariam “prontos para participar das operações comerciais assim que as regulamentações necessárias estiverem em vigor”, provavelmente em 2015, disse a empresa.

Oito anos depois daquele prazo, a entrega feita por drones é uma realidade – mais ou menos – nos arredores de College Station, Texas, ao noroeste de Houston. Esta é uma grande conquista para um programa que teve seus altos e baixos ao longo dos anos e que perdeu muitos de seus primeiros líderes para projetos mais recentes e urgentes.

No entanto, a iniciativa atualmente é tão decepcionante que a Amazon só consegue continuar com as entregas por drones ativas presenteando as pessoas. Anos de trabalho de renomados cientistas e especialistas da aviação renderam um programa que transporta pastilhas contra mau-hálito ou uma lata de sopa – porém não ambos ao mesmo tempo – para os clientes como brindes. Se isso é ficção científica, está parecendo mais uma piada.

Uma década é uma eternidade na tecnologia, mas, mesmo assim, a entrega por drones não chega perto da escala ou da simplicidade dos vídeos promocionais originais da Amazon. Esta disparidade entre as promessas espetaculares e a realidade mundana acontece o tempo todo no Vale do Silício. Os carros autônomos, o metaverso, os carros voadores, os robôs, os bairros ou até mesmo as cidades construídas do zero, as universidades virtuais capazes de concorrer com Harvard, a inteligência artificial – a lista de promessas atrasadas e incompletas é longa.

“Ter ideias é fácil”, disse Rodney Brooks, empresário e roboticista, além de crítico frequente da propaganda exagerada das empresas de tecnologia. “Transformá-las em realidade é difícil. Torná-las reais e prontas para serem usadas em grande escala é ainda mais difícil.”

A Amazon disse em outubro que as entregas por drones vão chegar em lugares como a Grã-Bretanha, Itália e outra cidade não identificada dos EUA até o final de 2024. Entretanto, mesmo no limiar do crescimento, uma dúvida permanece: agora que os drones finalmente existem, pelo menos de forma limitada, por que achamos que iríamos precisar deles antes?

Dominique Lord e Leah Silverman vivem na região de College Station que recebe entregas por drones. Eles são fãs da Amazon e costumam fazer compras regulares para serem entregues no modo convencional. Os drones são outra história, mesmo o serviço sendo gratuito para os assinantes do Amazon Prime. Embora seja legal ter coisas literalmente pousando na entrada da sua garagem, pelo menos nas primeiras vezes, há muitos obstáculos para receber as compras dessa maneira.

Apenas um item pode ser entregue por vez. Ele não pode pesar mais de 2,260 kg. Nem ser grande demais. Além de não poder ser algo quebrável, já que o drone libera o item a uma distância de 3,6 m do chão. Os drones não podem voar quando está muito quente, ou ventando demais, ou chovendo bastante.

Você precisa estar em casa para determinar o lugar onde a entrega deve pousar e garantir que ninguém pegue sua encomenda, ou que ela role para o meio da rua (o que já aconteceu com Lord e Leah). Entretanto, seu carro não pode estar na entrada da garagem. Permitir que o drone faça a entrega no seu quintal evitaria alguns desses problemas, a não ser que ele tenha árvores.

A Amazon também avisa aos clientes que a entrega por drones fica indisponível durante períodos de alta demanda do serviço.

Outro local de teste para a modalidade é Lockeford, Califórnia, no Vale Central. Em uma tarde recente, o polo de entregas de Lockeford parecia em grande parte inativo, com apenas três carros no estacionamento. A Amazon disse estar realizando entregas por meio de drones em Lockeford e marcou com um repórter do New York Times uma visita ao local. Assim como uma entrevista com David Carbon, o ex-executivo da Boeing que comanda o programa de drones. Depois, a empresa cancelou ambos sem qualquer explicação.

Uma postagem de 18 de outubro no blog da empresa afirma que os drones têm realizado “centenas” de entregas com segurança de utensílios domésticos em College Station desde dezembro de 2022 e que os clientes agora poderiam receber alguns medicamentos. Lockeford não foi mencionada.

Depois do interesse inicial de Silverman e Leah no programa de drones, a Amazon ofereceu US$ 100 em vale presentes em outubro de 2022 para que eles continuassem optando pelo serviço. No entanto, a modalidade só foi iniciada em junho deste ano e pouco tempo depois foi suspensa durante uma forte onda de calor, quando os drones não podiam voar.

Os incentivos, porém, continuaram chegando. Recentemente, o casal recebeu um e-mail da Amazon promovendo uma manteiga de amendoim que normalmente custaria US$ 5,38, mas seria “grátis”, enquanto durassem os estoques, se a entrega fosse feita por drones. Eles fizeram o pedido e, pouco tempo depois, um drone entregou uma caixa grande com um frasco pequeno do produto. A Amazon disse que “alguns itens promocionais” estão sendo oferecidos “como boas-vindas” ao serviço.

“Na verdade, não precisamos de nada que eles oferecem de graça”, disse Leah, 51 anos, escritora e cuidadora. “Os drones parecem muito mais um brinquedo do que qualquer outra coisa – um brinquedo que desperdiça uma quantidade enorme de papel e papelão.”

O clima do Texas causa estragos na entrega de itens importantes. Lord, 54 anos, professor de engenharia civil da Texas A&M, encomendou um medicamento, mas quando pegou o pacote, ele já tinha derretido. O professor universitário espera que os drones possam mais cedo ou mais tarde resolver problemas como este.

“Ainda vejo com bons olhos este programa, lembrando que está em fase experimental”, afirmou.

A Amazon disse que o serviço com drones vai melhorar com o tempo. A empresa anunciou um novo modelo de drone, o MK30, no ano passado e divulgou fotos dele em outubro. O MK30, que está previsto para começar a operar até o final de 2024, foi anunciado como tendo um alcance maior, a capacidade de voar em condições climáticas adversas e uma redução de 25% no “ruído percebido”.

Quando a Amazon começou a investir nos drones anos atrás, a varejista levava entre dois e três dias para enviar vários itens aos clientes. Ela tinha medo de ficar vulnerável aos possíveis concorrentes cujos fornecedores eram mais locais, entre eles o Google e o eBay. Os drones tinham tudo a ver com velocidade.

“Podemos fazer uma entrega em meia hora”, prometeu Bezos naquele anúncio na TV.

Durante um tempo, os drones foram a próxima grande novidade. O Google criou seu próprio serviço de drones, o Wing, que agora opera para o Walmart na entrega de itens em regiões de Dallas e Frisco, no Texas. As startups receberam verbas; cerca de US$ 2,5 bilhões foram investidos entre 2013 e 2019, de acordo com o Teal Group, uma consultoria aeroespacial. O capitalista de risco veterano Tim Draper disse em 2013 que “tudo, da entrega da pizza até as compras pessoais, poderia ser entregue por drones”. A Uber Eats anunciou a entrega de comida por drones no fim de 2019. O futuro estava em alta e nas alturas.

A Amazon começou a pensar a longo prazo. A empresa idealizou e conseguiu uma patente para um veículo de reabastecimento de drones que pairaria no céu a cerca de 13 quilômetros de altura. Isso fica acima dos aviões comerciais, mas a Amazon disse que poderia usar os veículos para entregar refeições quentes aos clientes.

No entanto, na prática, os avanços foram lentos — às vezes por razões técnicas e outras devido ao DNA corporativo da empresa. A mesma confiança agressiva que criou um negócio de trilhões de dólares prejudicou os esforços da Amazon para trabalhar com a Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla em inglês).

“A postura deles era: ‘Somos a Amazon. Vamos convencer a FAA’”, disse um ex-executivo do setor de drones da varejista, que pediu anonimato porque não estava autorizado a se manifestar publicamente sobre o tema. “A FAA quer que as empresas cheguem com grande humildade e transparência. Esse não é um ponto forte da Amazon.”

Uma questão mais complicada era fazer a tecnologia ser segura não apenas na maior parte do tempo, mas o tempo todo. O primeiro drone que pousasse na cabeça de alguém ou decolasse agarrando um gato poderia fazer com que o programa atrasasse mais uma década, principalmente se isso fosse filmado.

“Parte do DNA da indústria de tecnologia é realizar coisas que você nunca pensou que conseguiria”, disse Neil Woodward, que atuou como gerente sênior do programa de drones da Amazon durante quatro anos. “Mas a verdade é que as leis da física não mudam.”

Atualmente aposentado, ele passou anos no programa de astronautas da NASA antes de migrar para o setor privado.

“Quando você trabalha para o governo, há 535 pessoas no conselho de administração” — disse ele se referindo ao Congresso — “e uma boa parte delas quer acabar com suas verbas porque têm outras prioridades”, afirmou. “Isso torna as agências governamentais muito avessas ao risco. Na Amazon, eles dão muita corda e você pode acabar agindo impetuosamente.”

No fim, o que é necessário é existir um mercado. Como disse Woodward, usando um velho clichê do Vale do Silício: “Cães gostam da ração que produzem? Às vezes não”, referindo-se à prática das empresas de tecnologia conhecida como “dogfooding” de estimular os funcionários a experimentar os produtos que desejam lançar para ter a experiência do consumidor e entender o que precisam melhorar.

https://www.estadao.com.br/economia/entregas-drones-amazon-testes-texas/

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