Estúdios de Hollywood precisam agir agora ou a IA vai tomar o seu lugar

Atores e roteiristas temem ser substituídos por inteligência artificial. Mas os estúdios também deveriam estar preocupados

Michael Grothaus Fast Company Brasil 05-08-2023 

Uma das muitas preocupações legítimas dos atores e roteiristas em greve é que Hollywood possa substituí-los por IA. Os estúdios já propuseram escanear os rostos dos figurantes, pagar-lhes apenas uma vez e usar suas imagens em projetos futuros para sempre, sem qualquer tipo de remuneração adicional (atualmente, eles recebem entre US$ 100 e US$ 200 por dia de gravação).

Também se recusaram a negociar com os roteiristas sobre o uso de IA para escrever filmes e séries. Essa recusa levou muitos dos grevistas a temerem que Hollywood possa usar a inteligência artificial como uma ferramenta para reduzir custos (algo que a indústria do entretenimento está buscando ativamente). Humanos precisam ser pagos; a IA não.

Mas esse plano poderia, inadvertidamente, levar os próprios estúdios à ruína. Por quê? Porque até a década de 2030, é provável que a inteligência artificial os tenha tornado obsoletos.

HISTÓRIAS GERADAS POR IA

Lembra quando você era criança e, antes de dormir, queria ouvir uma história? Sua mãe, pai ou babá então inventava uma na hora. É o que a IA será capaz de fazer no futuro. Mas, muito além de apenas histórias curtas em áudio, ela poderá gerar filmes inteiros sob medida.

Esses filmes terão uma variedade de personagens, temas, tramas e trilhas sonoras emocionantes – tudo gerado por inteligência artificial, mas com a aparência de produções de Hollywood.

A grande diferença é que esse conteúdo não será produzido em estúdio. A IA não precisa deles, só precisa de si mesma. E poderá oferecer ao público algo que Hollywood não pode: filmes adaptados aos gostos individuais de cada pessoa.

A verdade é que os atores e roteiristas não estão lutando apenas pelo seu próprio futuro, mas também pelo dos estúdios.

Imagine ter um voo de oito horas pela frente e poder pedir à IA em seu tablet para gerar uma trilogia de espionagem exatamente com essa duração, ambientada em, digamos, Tóquio, a cidade para onde você está viajando.

Agora imagine, além de tudo, poder se ver no papel principal. A inteligência artificial será capaz de gerar um longa como esse com a mesma facilidade com que pais inventam uma história de ninar para seus filhos.

Em um mundo no qual qualquer um pode ter acesso ao filme que imaginar diretamente em seu smartphone, tablet ou smart TV, por que os investidores colocariam dinheiro em produções pelas quais as pessoas precisam ser convencidas a pagar para assistir? Os estúdios logo ficariam obsoletos.

Vale ressaltar que não sou o único que pensa assim. A atriz, escritora e diretora Justine Bateman publicou uma thread interessante no Twitter em maio com previsões semelhantes. E ela pode falar sobre o tema melhor que ninguém, já que, além de ter uma carreira consolidada em Hollywood, também é programadora e possui formação em ciência da computação.

Se você está lendo este artigo e acha tudo isso um absurdo, talvez não esteja prestando atenção suficiente na velocidade com que a IA generativa está evoluindo. Veja o tuíte abaixo, que mostra o progresso impressionante do Midjourney. Em apenas 15 meses, suas imagens passaram de estranhas até chegar ao ponto de serem quase indistinguíveis de fotografias reais.

Agora, observe como modelos que geram textos, como o ChatGPT, estão cada vez melhores. A versão 3.5 foi lançada no final de novembro de 2022. A 4.0, apenas três meses e meio depois, em março de 2023. As diferenças em termos da complexidade das histórias que cada versão pode gerar são surpreendentes.

O ChatGPT 3.5 produzia textos rudimentares, que não se comparavam às histórias escritas por humanos. Porém, como apontado pelo “Search Engine Journal”, a nova versão é capaz de gerar textos usando dialetos regionais e suas histórias apresentam enredos, personagens e narrativas mais coesas.

até a década de 2030, é provável que a inteligência artificial tenha tornado os estúdios obsoletos.

A próxima etapa é combinar essas duas tecnologias, como pesquisadores e empresas já estão fazendo. Em breve, teremos um sistema de IA capaz de produzir filmes roteirizados sob demanda. E essas tecnologias serão exponencialmente melhores em questão de meses. Imagine como estarão daqui a alguns anos.

“Ainda assim”, podem dizer os produtores, “os estúdios poderiam usar a inteligência artificial apenas para substituir roteiristas e atores. Jamais criariam uma IA generativa que qualquer um pudesse usar para gerar filmes com a mesma qualidade de produções hollywoodianas.”

A questão é que os estúdios não são os únicos que podem criá-la. Alguma gigante da tecnologia ou nova startup certamente o fará. Convenhamos, se você acredita que a Amazon se recusaria a lançar um Fire TV Stick com capacidade de gerar conteúdos personalizados, talvez não conheça tão bem assim a empresa de Jeff Bezos. Sem dúvida, seria um grande sucesso.

O Vale do Silício nunca teve problema em eliminar indústrias ultrapassadas, e o próximo alvo será Hollywood.

É importante lembrar que os escritores estão tão vulneráveis quanto os estúdios. Falo isso com propriedade, pois também sou escritor. Depois de estudar cinema no final dos anos 1990, mudei meu foco para jornalismo e literatura para ter mais controle sobre o processo de contar histórias.

As novas gerações podem deixar de notar as diferenças entre histórias humanas e aquelas inteiramente geradas por IA.

Há cerca de seis anos, comecei a me interessar por IA generativa, principalmente por causa dos deepfakes. Escrevi um livro de não-ficção sobre a tecnologia, e meu mais recente romance, “Beautiful Shining People” (Pessoas Sorridentes e Belas), será lançado nos Estados Unidos em outubro. Nesta obra, exploro como a IA mudará nossa sociedade e nossas relações, para melhor e para pior, nas próximas décadas.

Depois de pesquisar muito e escrever esses dois livros, estou cada vez mais convencido de que, em um futuro próximo, o Kindle será capaz de gerar livros de ficção sob demanda, adaptados aos gostos individuais do leitor, incluindo enredo, cenário e quantidade de páginas.

OS ESTÚDIOS PRECISAM AGIR, E RÁPIDO

Como, então, os estúdios podem evitar a obsolescência em um mundo impulsionado pela IA? Na verdade, não tenho certeza se isso será possível. Mas, se eles têm alguma esperança de sobreviver, precisam agir o quanto antes.

Leia também sobre a evolução dos drones : https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/cavalos-e-fogos-vao-ficando-pelo-caminho-com-a-inovacao/

Primeiramente, terão que aceitar as demandas dos roteiristas e atores quanto ao uso da IA e encontrar formas de garantir que eles não serão substituídos. Em seguida, precisarão trabalhar com esses profissionais para fazer o que fazem de melhor: criar uma nova narrativa.

Hollywood precisa lançar uma campanha o mais rápido possível para convencer o público de que histórias humanas – isto é, aquelas criadas por pessoas de verdade – são as únicas que valem a pena ser contadas e, sobretudo, pelas quais vale a pena pagar para assistir.

Isso não é apenas marketing; é algo que eu e todo escritor, roteirista e diretor que conheço acreditamos plenamente. Filmes, peças e livros são feitos para explorar a condição humana. Somente nós, seres humanos, sabemos como é sermos nós mesmos, como é viver, amar e sofrer.

Quando entendemos isso, nos tornamos mais conectados uns com os outros e nos sentimos mais compreendidos. É uma sensação incrível quando assistimos ou lemos algo criado por outra pessoa e de repente percebemos: “ah, quem criou isso teve os mesmos pensamentos que eu!”. Isso nos faz sentir menos sozinhos.

É por essa conexão emocional que o público estará disposto a pagar. Conteúdos gerados por inteligência artificial jamais poderiam nos tocar dessa forma, pois sabemos que ela não compartilha genuinamente nossos pensamentos, experiências ou dificuldades, independentemente do que cria.

Os filmes terão uma variedade de personagens, temas, tramas e trilhas sonoras emocionantes, tudo gerado por IA, mas com a aparência de produções de Hollywood.

Tudo o que a IA produz é uma imitação, que causa profunda estranheza nos espectadores – não apenas nos nossos sentidos, mas também na alma. Naturalmente, essa falta de conexão pode deixar de existir quando a IA se tornar consciente e tiver algo próprio a dizer, mas provavelmente estamos a pelo menos meio século disso.

Dito isso, devo admitir que essa percepção pode não parecer tão óbvia para as gerações futuras. Tenho 45 anos e tive contato com a arte antes da IA. Mas tenho a sensação de que as novas gerações podem se acostumar com conteúdos produzidos artificialmente. Com o tempo, podem deixar de notar as diferenças mais profundas e significativas entre histórias humanas e aquelas inteiramente geradas por IA.

Para elas, o que a inteligência artificial produz pode se tornar a norma, fazendo com que os filmes criados por seres humanos percam seu valor. Se este for o caso, por que não pedir que seu tablet gere um longa personalizado em vez de pagar para assistir uma produção de Hollywood?

A verdade é que os atores e roteiristas não estão lutando apenas pelo seu próprio futuro, mas também pelo dos estúdios. Por isso, é fundamental que cheguem a um acordo o quanto antes. Caso contrário, a IA provavelmente se encarregará de escrever um novo final para essa história. Um final sobre o qual os estúdios não terão nenhum controle.

O tempo está se esgotando.


SOBRE O AUTOR

Michael Grothaus é escritor, jornalista, ex-roteirista e autor do romance “Epiphany Jones”.

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Descoberto metal capaz de se regenerar – e é tão fantástico quanto parece

“Estamos procurando por uma ‘fonte da juventude’ para os metais”, dizem pesquisadores

Elissaveta M. Brandon – Fast Company Brasil  04-08-2023 

Primeiro foram os polímeros que se autorregeneravam. Depois veio o concreto capaz de se consertar sozinho. Agora temos metais capazes de se “curar” sem a ajuda de ninguém.

Uma equipe de cientistas no Laboratório Nacional de Sandia, no Novo México (EUA), recentemente observou uma folha rachada de platina se regenerar enquanto realizava pesquisas sobre fadiga de metais.

Em um minuto, a rachadura era visível sob um microscópio eletrônico; no próximo, ela havia desaparecido completamente e o metal parecia novo.

as primeiras aplicações poderiam ser para componentes que operam no vácuo do espaço.

O mesmo aconteceu com um pedaço de cobre, e os cientistas especulam que isso possa se aplicar a outros metais também. As descobertas foram publicadas na revista científica “Nature”.

A fadiga de metais ocorre quando eles são expostos a estresses repetidos, como movimentos ou cargas recorrentes, o que pode causar rachaduras microscópicas que pioram com o tempo.

“Quando as pessoas pensam em falha de material, geralmente imaginam algo explodindo ou quebrando. Mas, na maioria das vezes, é devido ao uso repetido”, diz Michael Demkowicz, professor de ciência e engenharia de materiais da Universidade do Texas e coautor do estudo. “Você senta na mesma cadeira de novo e de novo e, eventualmente, ela quebra.”

Demkowicz previu a autorregeneração de metais há uma década, com base em simulações por computador. Agora, a equipe tem evidências claras de que, sob condições específicas (ainda a serem definidas), alguns metais possuem a capacidade de se autorregenerar sem intervenção humana.

“Acredito que a chave será modificar a microestrutura para otimizar a autorregeneração”, diz Demkowicz. “Isso é uma tarefa complexa, com muitas variáveis, por isso acredito que levará tempo até que aplicações concretas sejam possíveis.”

SOLDAGEM A FRIO

No entanto, isso não significa que não haja nenhuma aplicação possível. Como o estudo foi realizado em um ambiente de vácuo, é difícil dizer se o metal se regeneraria em um ambiente com ar. Assim, as primeiras aplicações poderiam ser para componentes que operam no vácuo do espaço. “Já tivemos contatos de pessoas da NASA nos ligando”, diz o pesquisador.

Junções de solda como as encontradas na eletrônica, além de máquinas rotativas – como eixos ou rolamentos de motores ou geradores – também poderiam se beneficiar dessa característica, pois são os tipos de mecanismo mais propensos à fadiga de metais.

Solda a frio (Crédito: Reprodução/ YouTube)

A mesma tecnologia seria útil para evitar o colapso de pontes metálicas ou infraestruturas maiores? A escala torna difícil especular, mas, como Demkowicz aponta, uma grande rachadura começa com uma rachadura pequena, portanto, não está fora de questão.

Durante o estudo, os pesquisadores utilizaram uma máquina que puxava as extremidades de um pedaço de metal cerca de 200 vezes por segundo. Quando uma rachadura se formou, tinha alguns micrômetros de largura e 60 nanômetros de comprimento.

A fadiga de metais ocorre quando eles são expostos a estresses repetidos, o que pode causar rachaduras microscópicas que pioram com o tempo.

Cerca de 40 minutos após o início do experimento, a rachadura começou a desaparecer e um terço dela se regenerou, depois cresceu em uma direção diferente. “Essa é uma das razões pelas quais pudemos apresentar um caso convincente de que o metal realmente se regenerou. A rachadura desapareceu e depois surgiu em outro lugar.”

O que é particularmente interessante é que a rachadura desapareceu à temperatura ambiente. Os pesquisadores chamam isso de soldagem a frio, um processo muito usado nas indústrias aeroespacial e eletrônica, que não precisa de calor nem eletricidade para soldar metais.

A soldagem a frio acontece quando duas superfícies de metal se aproximam tanto uma da outra que os átomos nas extremidades se ligam para reconstituir uma superfície lisa. “É uma questão simples de átomos querendo se unir”, diz Demkowicz.

Pode levar mais 10 anos para que a descoberta encontre aplicações fora do laboratório. Mas, se e quando isso acontecer, levará a ciência dos materiais um passo mais perto da ficção científica.

“O efeito da fadiga em metais é como o do envelhecimento no corpo humano”, explica. “Então, você poderia dizer que estamos procurando uma fonte da juventude para os metais.”


SOBRE A AUTORA

Elissaveta Brandon é colaboradora da Fast Company.


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A extinção dos CEOs

Nos próximos anos, devido à inteligência artificial, CEOs serão reduzidos ao papel de curadores, motivadores e articuladores

Rodrigo Tavares – Folha – 26.jul.2023 

A empresa chinesa de games NetDragon, a produtora colombiana de rum Dictador e a portuguesa AIsthetic Apparel, que opera no setor têxtil, têm algo em comum: os CEOs foram substituídos por robôs virtuais desenvolvidos por inteligência artificial (IA).

O CEO da empresa americana de software Logikcull anunciou que a permuta será feita em 2024: “Eu realmente acredito que substituir-me por IA é a melhor decisão para a nossa empresa.”

A IA permite identificar padrões processando gigantescas quantidades de informações, analisar dados de forma mais precisa e economizar custos. Os novos robôs poderão ser programados e customizados de acordo com a cultura de cada empresa.

Para tomar uma decisão, um CEO humano apoia-se no seu próprio conhecimento e experiência. Conta também com a contribuição da sua equipe. Para situações especiais, pode contratar os serviços de uma consultoria especializada.

Por definição, decisões empresariais são o somatório do eventual valor que pode ser gerado por cada indivíduo, de acordo com a experiência corporativa de cada um, a formação técnica de cada um e o perfil sociomoral de cada um. É uma espécie de antropocentrismo corporativo. “Eu Sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim”, como no Livro do Apocalipse.

A IA derruba as limitações físicas e intelectuais da individualidade. Por que uma empresa precisa estar dependente apenas do conhecimento finito e da experiência particular de um conjunto limitado de pessoas? Com IA, a decisão não é tomada a partir das partes (o conhecimento individual), mas do todo.

Analisam-se automaticamente todos os dados de todas as empresas sobre todas as decisões para se conseguirem identificar vantagens, desvantagens e riscos. Qual o Valor Presente Líquido de uma nova área de negócios? Em determinado país, devemos crescer organicamente ou por intermédio de Fusões e Aquisições? A inteligência artificial processa tudo o que foi feito por todos os competidores no passado para recomendar opções estratégicas. Seria algo impossível de ser concretizado por seres humanos, por mais engenhosos que sejam.

Contrariamente à crença inicial de que a inteligência artificial só iria substituir tarefas repetitivas e rotineiras baseadas em regras, um estudo demonstrou que posições no topo da gestão corporativa, que demandam altos níveis educacionais, poderão ser significativamente reconfiguradas ou eliminadas por IA.

O primeiro passo talvez seja a automatização de várias tarefas administrativas e financeiras como a produção de orçamentos, acompanhamento do desempenho da empresa, gerenciamento de agenda, envio de emails ou revisão do desempenho financeiro. O ChatGPT Plus também já possui uma ferramenta que analisa dados, cria gráficos e executa cálculos complexos.

Desvendando IA

Em breve, a IA auxiliará CEOs a prever tendências de mercado futuras, comportamento do cliente e riscos potenciais, permitindo que tomem medidas proativas. Algoritmos de IA poderão otimizar a gestão financeira, prevendo orçamentos, identificando oportunidades de economia de custos e gerenciando riscos financeiros.

A IA poderá aprimorar a eficiência da cadeia de suprimentos, reduzindo despesas e otimizando processos logísticos. Com o tempo, a IA como a conhecemos hoje irá evoluir para Inteligência Artificial Geral (AGI, na sigla em inglês), a partir da qual as máquinas irão exercer tarefas intelectuais de forma autônoma, ampliando as capacidades humanas. Nessa altura, irá reforçar-se a predominância de um CAIO (Chief AI Officer) relativamente a um CEO.

Porém, a IA não conseguirá substituir integralmente os CEOs. Há um elemento humano, consubstanciado, por exemplo, em negociações de contratos, avaliações e motivação de funcionários, alocações de capital ou comunicação pública, que apenas um ser humano pode realizar eficazmente. Mas cada CEO contará com um CAIO do seu lado.

Nas religiões cristã e judaica, acredita-se em anjos da guarda, um ser espiritual designado para velar pelo bem-estar e orientação espiritual de um indivíduo. Na religião dos negócios, o anjo da guarda irá chamar-se inteligência artificial. A Inflection.ai e a Bunch já disponibilizam assistentes pessoais que auxiliam na tomada de decisões difíceis e criativas.

A redução do papel do CEO permitirá também a eliminação dos preconceitos inatos que cada indivíduo imprime às suas decisões, o controle mais eficaz da corrupção e o encolhimento significativo de despesas salariais. De acordo com o Economic Policy Institute, nos EUA, um CEO de uma grande empresa recebe em média US$ 28 milhões anualmente ou 399 vezes mais do que o salário médio dos funcionários.

Outra grande vantagem da IA comparativamente a um humano é que não está sujeita a flutuações de produtividade e pode operar 24 horas por dia, sete dias por semana, sem precisar de pausas, permitindo a constante otimização de recursos.

Os CEOs serão escolhidos pelas suas qualificações éticas, psicológicas, comunicacionais e capacidade de liderança –muito menos pelo seu valor técnico ou científico. Exercerão, sobretudo, o papel de curadores, motivadores e articuladores.

As escolas de negócios terão necessariamente de se adaptar para conseguirem sobreviver. O ensino voltado para maximizar as habilidades lógicas individuais será gradualmente substituído pela integração de IA nos currículos e pela formação em ciências humanas e em ética dos profissionais de finanças, administração e economia.

Naturalmente que esta transformação não será imune a adversidades, principalmente legais e regulatórias. Levará tempo para consumidores e legisladores acreditarem plenamente na durabilidade e estabilidade da inteligência artificial. Atualmente, o Direito Societário e a Teoria Geral dos Contratos estão alicerçados na ideia de que atos jurídicos são exercidos por indivíduos com responsabilidade civil. Poderão, no futuro, Chief AI Officers assinar contratos?

Há outros desafios. A artificialização da inteligência poderá levar também ao apreguiçamento de seres humanos. Por que estudar ou trabalhar quando nenhum conhecimento adquirido está aparentemente à altura de um chatbot? Quem terá capacidade para auditar e corroborar a qualidade da informação provida por IA? Quando é que a IA irá remunerar os geradores de dados e informações das quais se alimenta? Como garantir que a tecnologia seja inclusiva e capture as necessidades de comunidades menos elitizadas? Como regular os avanços da IA além das cartas de princípios e códigos de conduta ética? A IA não tem de ser a solução para todos os nossos imbróglios sociais e profissionais.

A semana passada, o improvável Vladimir Putin perguntou ao CEO do Sberbank, o maior banco russo, num encontro com dezenas de empresários no Kremlin, se ele poderia ser substituído por IA. “A IA é absolutamente o futuro, está a par do poder atômico ou militar de um país” disse o sorridente presidente russo. O banqueiro reagiu com outro sorriso.

A inteligência artificial identifica no mínimo duas dezenas de tipos de sorrisos. O do banqueiro foi um “sorriso de resposta ouvinte” que usamos para mostrar que estamos prestando atenção no que está sendo dito. O de Putin aparentou ser um “sorriso sarcástico” que denota cinismo ou apreço pela desgraça alheia. E você? Quando pensa em inteligência artificial qual é o seu sorriso?

Rodrigo Tavares

Professor catedrático convidado na NOVA School of Business and Economics, em Portugal. Nomeado Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial, em 2017

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rodrigo-tavares/2023/07/a-extincao-dos-ceos.shtml

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Mais inteligente não é quem pensa mais rápido, mostra estudo

Quem tem inteligência maior resolve logo problemas fáceis, mas perde velocidade mental nos mais complexos

Folha/Deutsche Welle – 4.ago.2023 

Definir a inteligência continua sendo um desafio para a ciência, apesar de séculos de pesquisas. Muitos duvidam da validez dos métodos para medi-la, como os testes de QI, e a irrefreável ascensão da inteligência artificial (IA) problematiza ainda mais o conceito.

No entanto, uma noção tem persistido: que os graus mais elevados de inteligência humana estariam associados a um processamento mais rápido da informação –o que se denomina velocidade mental.

Um estudo publicado na revista Nature Communication, contudo, coloca em questão também essa hipótese tão difundida: seus três autores demonstraram que quem é mais inteligente demora mais a resolver problemas complexos, por ser menos propenso a tirar conclusões precipitadas.

No contexto do Projeto Conectoma Humano, Michael Schirner e Petra Ritter, da Charité – Universitätsmedizin Berlin, e Gustavo Deco, da Universidade de Pompeu Fabra, em Barcelona, submeteram 1.176 indivíduos a um teste de raciocínio, analisando em seguida a relação entre o desempenho e os tempos de reação.

Ficou demonstrado que, embora solucionassem mais rápido os problemas mais fáceis, os participantes com pontuações de inteligência mais altas demoravam mais a resolver os mais difíceis, por dedicarem mais tempo para decifrar determinados aspectos, antes de chegar a uma solução.

Coordenando dados sensórios e decisões

O estudo sobre “como a estrutura de rede configura a tomada de decisões para computação de inspiração biológica” sugeriu, ainda, que inteligência implica uma maior sincronia entre os lóbulos frontal e parietal do cérebro. O lóbulo frontal desempenha papel importante na atenção e na tomada de decisões, enquanto o parietal recolhe informação sensorial.

Os cientistas geraram modelos personalizados das redes cerebrais de 650 dos participantes. Para tal, combinaram os dados individuais de conectividade, obtidos através de rastreamento cerebral, com modelos genéricos de circuitos neuronais para a tomada de decisões.

O cotejamento revelou que quem demorava mais para resolver tarefas difíceis apresentava mais conectividade fronto-parietal em estado de repouso, além de uma maior sincronia entre ambas as regiões.

Isso contraria a suposição comum de que uma maior inteligência implique um cérebro mais rápido. Em circunstâncias mais complexas, é necessário um equilíbrio entre velocidade e precisão, permitindo tomar decisões mais acertadas.

Assim, enquanto o processamento mais rápido e automático é adequado para decidir sobre tarefas simples, um raciocínio mais lento e laborioso, favorecendo a compreensão gradual da informação relevante, pode ser mais eficaz na solução de questões mais complexas.

https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2023/08/mais-inteligente-nao-e-quem-pensa-mais-rapido-mostra-estudo.shtml

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Elon Musk acumula poder global com sucesso da Starlink e preocupa governos em todo o mundo

Bilionário se tornou o poder dominante na tecnologia de internet por satélite

Por Adam Satariano, Scott Reinhard, Cade Metz, Sheera Frenkel e Malika Khurana

Estadão/NYT 03/08/2023 

THE NEW YORK TIMES – Em 17 de março, o general americano Mark A. Milley e o general Valeri Zaluzhni, líder das Forças Armadas da Ucrânia, entraram em uma chamada para discutir a invasão da Rússia à Ucrânia. Na linha segura, os dois líderes militares conversaram sobre sistemas de defesa aérea, avaliações de campo de batalha em tempo real e compartilharam informações de inteligência sobre as perdas militares da Rússia.

Eles também falaram sobre Elon Musk.

O general Zaluzhni falou sobre a Starlink, a tecnologia de internet via satélite feita pela empresa de foguetes de Musk, a SpaceX. O comandante ucraniano afirmou que as decisões de campo de batalha da Ucrânia dependiam do uso contínuo da Starlink para comunicações – ele queria garantir o acesso e discutir como cobrir o custo do serviço.

O general Zaluzhni também perguntou se os Estados Unidos tinham uma avaliação de Musk, que tem interesses comerciais diversificados e posição política obscura – os oficiais americanos não deram resposta.

Musk, que lidera SpaceX, Tesla e Twitter, tornou-se o nome mais dominante no setor aeroespacial ao acumular poder sobre o campo a internet por satélite. No entanto, diante de pouca regulamentação e supervisão, além do estilo errático, tem preocupado cada vez mais militares e líderes políticos em todo o mundo – uma das coisas que assusta é que o bilionário às vezes exerce sua autoridade de maneiras imprevisíveis.

Desde 2019, Musk tem enviado foguetes SpaceX ao espaço quase todas as semanas, que transportam dezenas de satélites do tamanho de um sofá. Os satélites se comunicam com terminais na Terra, para que possam transmitir internet de alta velocidade para quase todos os cantos do planeta. Hoje, mais de 4,5 mil satélites Starlink estão nos céus, representando mais de 50% de todos os satélites ativos no mundo – e eles já começaram a mudar a aparência do céu noturno, mesmo antes da conclusão dos planos de Musk de colocar em órbita até 42 mil satélites.

O poder do sistema de internet, que ajudou a aumentar o valor da SpaceX para quase US$ 140 bilhões, está apenas começando a causar impacto.

A Starlink é muitas vezes a única maneira de obter acesso à internet em zonas de guerra, áreas remotas e lugares atingidos por desastres naturais. É usado na Ucrânia para coordenar ataques de drones e coleta de informações de inteligência. Ativistas no Irã e na Turquia procuraram usar o serviço como uma defesa contra controles governamentais. O Departamento de Defesa dos EUA é um grande cliente da Starlink, enquanto outros militares, como no Japão, estão testando a tecnologia.

Mas o controle quase total de Musk sobre a internet por satélite gerou alarmes.

Personalidade inflamável

Enquanto Musk, 52, é aclamado como um inovador genial, ele tem poder para decidir desligar o acesso à internet Starlink para um cliente ou país inteiro – e ele tem a capacidade de alavancar informações sensíveis que o serviço coleta. Tais preocupações têm sido intensificadas porque nenhuma empresa ou governo se aproximou do que ele construiu.

Na Ucrânia, alguns medos se tornaram realidade. Musk restringiu o acesso à Starlink várias vezes durante a guerra. Em certo momento, ele negou o pedido do exército ucraniano para ligar a Starlink perto da Crimeia, o território controlado pela Rússia, afetando a estratégia do campo de batalha. No ano passado, ele sugeriu publicamente um “plano de paz” para a guerra que parecia alinhado com os interesses russos.

Em certos momentos, Musk ostentou abertamente as capacidades da Starlink. “Entre Tesla, Starlink e Twitter, eu posso ter mais dados econômicos globais em tempo real do que qualquer um”, ele tuitou em abril.

Musk não respondeu aos pedidos de comentários. A SpaceX se recusou a comentar.

Preocupados com a excessiva dependência da tecnologia de Musk, os oficiais ucranianos têm conversado com outros provedores de internet via satélite, embora tenham reconhecido que nenhum rivaliza com o alcance da Starlink.

“Starlink é de fato o sangue de toda a nossa infraestrutura de comunicação agora”, disse Mykhailo Fedorov, ministro digital da Ucrânia, em uma entrevista.

Pelo menos nove países – incluindo na Europa e no Oriente Médio – também falaram sobre a Starlink com funcionários americanos nos últimos 18 meses, com alguns questionando o poder de Musk sobre a tecnologia. Poucos países falarão publicamente sobre suas preocupações, por medo de alienar Musk, disseram oficiais de inteligência e cibersegurança informados sobre as conversas.

As autoridades americanas têm falado pouco publicamente sobre a Starlink, pois equilibram as prioridades domésticas e geopolíticas relacionadas a Musk, que criticou o presidente Biden, mas cuja tecnologia é inevitável.

O governo federal é um dos maiores clientes da SpaceX, usando seus foguetes para missões da NASA e lançando satélites de vigilância militar. Oficiais de alto escalão do Pentágono tentaram mediar questões envolvendo a Starlink, particularmente na Ucrânia. O Departamento de Defesa confirmou que possui contratos com a Starlink, mas se recusou a elaborar, citando “a natureza crítica desses sistemas”.

Outros governos estão cautelosos. Taiwan, que tem uma infraestrutura de internet que pode ser vulnerável em caso de uma invasão chinesa, reluta em usar o serviço em parte por causa dos laços comerciais de Musk com a China, disseram funcionários taiwaneses e americanos.

A China tem suas próprias preocupações. Musk disse no ano passado que Pequim buscava garantias de que ele não ligaria a Starlink dentro do país, onde a internet é controlada e censurada pelo estado. Em 2020, a China se registrou em um órgão internacional para lançar 13 mil satélites de internet próprios.

A União Europeia, em parte motivada por desconfianças sobre a Starlink e Musk, também destinou US$ 2,6 bilhões, no ano passado para construir uma constelação de satélites para uso civil e militar.

“Não se trata apenas de uma empresa, mas de uma pessoa”, disse Dmitri Alperovitch, um especialista em cibersegurança que cofundou a think tank Silverado Policy Accelerator e aconselhou governos sobre internet via satélite. “Você está completamente à mercê de seus caprichos e desejos.”

Alcançando os céus

Martin Sweeting, engenheiro britânico que fundou a empresa de design e fabricação de satélites Surrey Satellite Technology, foi incentivado por um associado de negócios em 2001 a se encontrar com um “cavalheiro que queria colocar uma estufa em Marte”. Era Musk.

Sweeting e Musk se encontraram logo depois para tomar café da manhã em uma conferência espacial no Colorado, onde o empreendedor de tecnologia criticou a NASA e falou sobre a construção de uma frota espacial privada.

“Ele era muito focado”, disse Sweeting, cuja empresa mais tarde recebeu um investimento de Musk e teve ele em seu conselho de diretores antes de ser vendida para a Airbus em 2009.

Musk também estava interessado em um campo emergente de pesquisa onde pequenos satélites são colocados no céu a várias centenas de quilômetros acima do nível do mar, uma área conhecida como “órbita terrestre baixa”, disse Sweeting.

O trabalho conjunto deles foi um dos primeiros exemplos do foco de Musk em uma tecnologia que ajudaria a sustentar a Starlink. Os satélites datados dos anos 1960 são tipicamente maiores – muitas vezes do tamanho de ônibus escolares – e localizados mais alto no espaço, em uma área conhecida como “órbita geoestacionária”, limitando suas capacidades de comunicação. Satélites menores podem orbitar em uma altitude mais baixa, permitindo que eles se conectem com terminais na Terra para transmitir serviço de internet de alta velocidade para locais distantes.

Muitos satélites pequenos são necessários para que isso funcione. Isso porque, à medida que um satélite se move acima de um terminal Starlink em terra, ele passa o sinal de internet para outro satélite atrás dele para manter um fluxo único e ininterrupto para os usuários abaixo.

Musk lançou seus primeiros satélites Starlink em 2019. Na época, a internet via satélite era vista como uma missão tola. Nos anos 90 e 2000, outras empresas perseguiram satélites de comunicação de baixa órbita com pouco sucesso devido ao custo e às dificuldades técnicas de colocá-los no espaço.

Mas Musk tinha uma vantagem. Os foguetes da SpaceX retornam à Terra após uma viagem ao espaço e são parcialmente reutilizáveis. Isso efetivamente deu a ele controle de um trem expresso para entregar constantemente satélites ao espaço, às vezes dezenas de cada vez.

Agora, quase todas as semanas, um foguete SpaceX carregado com satélites Starlink decola de um local na Califórnia ou na Flórida. Cada satélite é projetado para funcionar por cerca de três anos e meio. Há tantos em órbita que muitas vezes são confundidos com estrelas cadentes. Astrônomos documentaram como os dispositivos interferiram com telescópios de pesquisa e alertaram sobre o risco de colisões.

“O céu noturno é um dos shows mais gloriosos que a natureza apresenta e os humanos estão mudando isso para sempre”, disse Patrick Seitzer, um astrônomo da Universidade de Michigan que estuda detritos orbitais.

A Starlink oferece velocidades de download de internet normalmente em torno de 100 megabits por segundo, comparáveis a muitos serviços terrestres. A SpaceX geralmente cobra de cada cliente individual cerca de US$ 600 (R$ 1,4 mil para clientes brasileiros) por cada terminal que recebe uma conexão do espaço, mais uma taxa de serviço mensal de cerca de US$ 75 (R$ 184 para clientes brasileiros), com custos mais altos para empresas e governos. A empresa conhece a localização, movimento e altitude de cada terminal Starlink, disseram os especialistas.

O serviço, que estreou oficialmente em 2021 já está disponível em mais de 50 países, incluindo Estados Unidos, Japão, grande parte da Europa e partes da América Latina. Na África, onde o acesso à internet está atrás do resto do mundo, a Starlink está disponível na Nigéria, Moçambique e Ruanda, com mais de uma dúzia de outros países seguindo até o final de 2024, de acordo com o site da Starlink.

“Todo lugar na terra terá internet de alta largura de banda e baixa latência”, previu Musk no podcast Joe Rogan em 2020.

Militares, empresas de telecomunicações, companhias aéreas, linhas de cruzeiro e transportadoras marítimas têm recorrido à Starlink, que disse ter mais de 1,5 milhão de assinantes.

Os rivais têm lutado, embora a concorrência esteja crescendo. A britânica OneWeb foi tão atormentada por dificuldades financeiras que teve que ser resgatada pelo governo local e vendida para um grupo de investidores. A Amazon, fundada por Jeff Bezos, que possui a empresa de foguetes Blue Origin, planeja um concorrente da Starlink, o Project Kuiper, mas ainda não conseguiu colocar um satélite no espaço.

Linha de vida no campo de batalha

Nenhum evento demonstrou mais o poder da Starlink – e a influência de Musk – do que a guerra na Ucrânia. Mais de 42 mil terminais Starlink estão em uso na Ucrânia pelo exército, hospitais, empresas e organizações de ajuda. Durante as campanhas de bombardeio russas no ano passado, que causaram apagões generalizados, as agências públicas da Ucrânia recorreram à Starlink para permanecerem online.

“Sem a Starlink, não podemos voar, não podemos nos comunicar”, disse um comandante adjunto ucraniano conhecido pelo apelido Zub, ou Dente, que falou sob condição de anonimato por razões de segurança.

A Starlink entrou na Ucrânia em fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu e um ataque cibernético – mais tarde atribuído à Rússia – derrubou um sistema de satélite operado pela empresa de comunicações de alta velocidade Viasat que estava sendo usado pelo exército ucraniano. Com as tropas e comandantes offline, Fedorov, o ministro digital, fez um apelo a Musk por ajuda.

Dentro de horas, Musk contatou Fedorov para dizer que a Starlink havia sido ativada na Ucrânia. Dias depois, chegaram os terminais Starlink.

A tecnologia – encontrada em florestas, campos, vilas e montada nos tetos de veículos militares – deu ao exército ucraniano uma grande vantagem sobre as forças russas. O sistema permitiu que as equipes de artilharia, comandantes e pilotos assistissem simultaneamente a filmagens de drones enquanto conversavam online. Os tempos de resposta para encontrar um alvo e atingi-lo foram reduzidos para cerca de um minuto, em comparação com quase 20 minutos, disseram os soldados.

“O enorme número de vidas que a Starlink ajudou a salvar pode ser medido aos milhares”, disse Fedorov. “Esta é uma das componentes fundamentais do nosso sucesso.”

Mas as preocupações entre os oficiais ucranianos e ocidentais em relação ao controle de Musk sobre a tecnologia aumentaram, chegando a um ponto crítico no outono passado, quando ele fez repetidos comentários sobre a guerra que levantaram questões sobre seu compromisso com o serviço da Starlink na Ucrânia.

Em setembro, em um evento privado sobre assuntos mundiais e de negócios em Aspen, Colorado, Musk propôs um plano de paz para a Ucrânia que incluía a Rússia anexando terras ucranianas. A proposta indignou muitos participantes. Por volta dessa época, surgiram questões sobre quem pagaria pelo serviço Starlink na Ucrânia. A SpaceX inicialmente cobriu alguns dos custos, com os Estados Unidos e outros aliados também fornecendo fundos.

No mesmo mês, a SpaceX disse ao Departamento de Defesa dos EUA que não poderia continuar o arranjo e pediu ao Pentágono para assumir o financiamento. A empresa estimou o custo em quase US$ 400 milhões ao longo de 12 meses, de acordo com uma carta da SpaceX relatada pela CNN, que foi verificada pelo The New York Times.

A administração Biden orientou um alto funcionário do Pentágono, Colin H. Kahl, a mediar. Em 7 de outubro, Kahl ligou para Musk, que expressou medo de que a Ucrânia usasse a Starlink não apenas para se defender, mas também para conduzir operações ofensivas para recuperar território tomado pela Rússia, o que poderia causar baixas militares russas significativas, disse um ex-funcionário da administração. Kahl disse a Musk que mais pessoas na Ucrânia sofreriam se a Starlink fosse desligada.

Musk, no entanto, desligou o acesso para alguns terminais Starlink na Ucrânia. No final do ano passado, cerca de 1,3 mil terminais Starlink comprados por meio de um fornecedor britânico pararam de funcionar no país depois que o governo ucraniano não pôde pagar a taxa mensal de US$ 2,5 mil por cada um.

O acesso à Starlink também flutuou dependendo dos movimentos da guerra. À medida que as linhas de batalha se deslocavam, Musk usou um processo chamado geofencing para restringir onde a Starlink estava disponível nas linhas de frente. A SpaceX usa dados de localização coletados por seu serviço para impor limites de geofencing.

Isso causou problemas. Quando as tropas ucranianas tentaram retomar cidades como Kherson em áreas controladas pelos russos, elas precisavam de acesso à internet para se comunicar. Fedorov e membros das forças armadas enviaram mensagens a Musk e aos funcionários da SpaceX pedindo para restaurar o serviço nas áreas onde o exército estava avançando.

Fedorov disse que a SpaceX respondeu “muito prontamente”.

Musk tinha outras linhas vermelhas que ele não cruzaria. Ele recusou o pedido da Ucrânia no ano passado para fornecer acesso Starlink perto da Crimeia, a península controlada pela Rússia, para que ela pudesse enviar um drone marítimo cheio de explosivos para navios russos ancorados no Mar Negro, disseram duas pessoas familiarizadas com as discussões. Musk mais tarde disse que a Starlink não poderia ser usada para ataques de drones de longo alcance.

Outras autoridades dos EUA se manifestaram. Em junho, o Secretário de Defesa Lloyd Austin aprovou um acordo do Pentágono para comprar de 400 a 500 novos terminais Starlink e serviços. O acordo dá ao Pentágono o controle para definir onde o sinal de internet da Starlink funciona dentro da Ucrânia para esses novos dispositivos realizarem “capacidades-chave e certas missões”. Isso parecia destinado a fornecer à Ucrânia terminais e serviços dedicados para realizar funções sensíveis sem medo de interrupção.

O comportamento de Musk dividiu os oficiais ucranianos. Mykhailo Podoliak, um assessor do presidente Volodimir Zelenski, disse no Twitter em fevereiro que a SpaceX precisava escolher um lado.

Mas Fedorov disse que perguntas sobre o compromisso de Musk eram injustas. Quando a Ucrânia estava sob pesado bombardeio e enfrentava grandes cortes de energia em novembro, Musk ajudou a acelerar a entrega de cerca de 10 mil terminais Starlink, disse ele.

“A SpaceX e Elon Musk mostraram por meio de seus atos de que lado realmente estão”, disse Fedorov.

De Taiwan à Europa

Em fevereiro, dois cabos de internet submarinos que corriam entre a ilha principal de Taiwan e as ilhas periféricas de Matsu foram cortados por navios chineses. O incidente interrompeu o acesso online em todo Matsu, intensificando as preocupações de que a infraestrutura de comunicações de Taiwan estava vulnerável.

Taiwan pareceria ser um lugar ideal para trazer a Starlink. Mas o território estava relutante – uma preocupação cada vez mais ecoada em outros lugares à medida que os governos pesam o poder da internet por satélite contra os riscos de trabalhar com Musk.

Funcionários taiwaneses haviam conversado com a SpaceX sobre a Starlink, disse Jason Hsu, um ex-legislador de Taiwan que assessora o governo em infraestrutura digital. Mas as conversas desaceleraram parcialmente por causa de “grandes preocupações” sobre Musk, cujos interesses financeiros estão ligados à China, disse ele. Com cerca de 50% dos novos carros Tesla estimados para serem fabricados em Xangai, Taiwan não confia que Musk fornecerá acesso à Starlink se Pequim pressionar para desligar o serviço, acrescentou ele.

“Nos preocupamos que, se encomendarmos dispositivos da Starlink, cairemos em algum tipo de armadilha”, disse Hsu, agora pesquisador sênior da Harvard Kennedy School em Taipei. “Elon tem grandes interesses comerciais na China.”

Quando uma delegação do congresso dos EUA visitou Taiwan em abril, o representante Michael McCaul do Texas, um republicano e presidente do Comitê de Relações Exteriores da Câmara, perguntou à presidente taiwanesa, Tsai Ing-wen, durante um almoço sobre a possibilidade de usar a Starlink. Tsai não se comprometeu. Assistentes do Congresso concluíram logo depois que o serviço não era uma opção viável para Taiwan devido aos laços de Musk com a China, disse a equipe do comitê.

A influência de Musk tem sido debatida em outros lugares. Na União Europeia, preocupações sobre o domínio da Starlink influenciaram o bloco de 27 nações a reservar 2,4 bilhões de euros no ano passado para uma constelação de satélites “soberana”, para ser lançada o mais rápido possível em 2027.

“O espaço se tornou um domínio altamente disputado onde a União Europeia deve salvaguardar seus interesses vitais”, disse Thierry Breton, o comissário europeu que supervisiona o projeto. “A UE não pode se dar ao luxo de depender de outros.”

Para atender às necessidades do governo, a SpaceX introduziu um serviço relacionado à Starlink no ano passado, o Starshield, que oferecia maior segurança para o manuseio de material classificado e processamento de dados sensíveis. A Starlink também enfrenta críticas de governos mais autoritários.

Quando os protestos anti-governo eclodiram no Irã no ano passado, Musk disponibilizou a Starlink lá para ajudar os ativistas a permanecerem online. O governo iraniano acusou a SpaceX de violar sua soberania.

A China reclamou este ano para um painel das Nações Unidas que a SpaceX estava colocando tantos satélites em órbita que impediria outros de acessar o espaço. Em fevereiro, a Turquia recusou a oferta de Musk de fornecer acesso Starlink após um grande terremoto, que grupos da sociedade civil viram como um esforço para evitar a disseminação de notícias desfavoráveis online.

“O governo estava com medo de que a Starlink não estivesse sob seu controle, e poderia representar uma ameaça”, disse Chérif El Kadhi, analista de políticas que monitora a Turquia para o Access Now, uma organização de direitos digitais.

O domínio de Musk no espaço é improvável que seja igualado tão cedo. Em maio, a Amazon se preparou para colocar seus dois primeiros satélites em órbita, mas o lançamento foi adiado após um problema ser descoberto nos testes de foguete.

Desde então, Musk enviou pelo menos mais 595 satélites Starlink para o espaço. /TRADUZIDO POR ALICE LABATE

https://www.estadao.com.br/link/empresas/elon-musk-acumula-poder-global-com-sucesso-da-starlink-e-preocupa-governos-em-todo-o-mundo/

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Buffett entra na contramão do trem ESG

CVM deu aval à regra da B3 que pede pelo menos uma mulher e um integrante de “comunidade subrepresentada” no conselho ou na diretoria

 Nelson Niero – Valor – 03/08/2023

Uma semana antes da tradicional assembleia anual dos acionistas da Berkshire Hathaway, do investidor Warren Buffett, o jornalista Roger Lowenstein escreveu um ensaio para o jornal “The New York Times” no qual discorre longamente sobre o que aquele que foi chamado de “oráculo de Omaha” pensa sobre a pressão crescente de fundos, governo e outros lobbies para que as empresas sejam “agentes de mudança social”.

Lowenstein, que escreveu a biografia “Warren Buffett: A Formação de um Capitalista Americano” (Nova Fronteira, 1997), começa o artigo dando as credenciais progressistas do investidor, que “doou milhões para organizações pró-aborto, levantou recursos para Barack Obama e Hillary Clinton e sempre pede mais impostos para os ricos”.

Provavelmente esse primeiro parágrafo foi o único que agradou o leitor médio do “NYT”, a bíblia da esquerda americana. Na sequência, o jornalista só tem críticas à pauta de interferência externa no sistema de governança das companhias com ações em bolsa para dar espaço aos chamados “stakeholders”, em detrimento dos acionistas que puseram seu capital no empreendimento. “Buffett é definitivamente contra a ortodoxia progressista nos conselhos de administração”, escreve Lowenstein.

Buffett é democrata, mas definitivamente não é “woke”. O termo ganhou as mídias durante os tumultos provocados pelo movimento “Black lives matter” e é usado genericamente para definir os “engajados” de esquerda na guerra cultural com a direita conservadora. Para estar no lado certo da história é preciso ser “woke”, algo como não ser “careta” nos anos 1960. (Foi nessa época que Buffett trocou os republicanos, partido do seu pai, congressista por quatro mandatos, pelos democratas, por causa do engajamento do partido na luta pelos direitos civis.)

Não demorou para começar a circular também o termo capitalismo “woke”, ativismo que junta questões climáticas, diversidade e governança empresarial, que atualmente faz morada na sigla onipresente ESG. O período da pandemia teve um papel relevante nessa consolidação do conceito de “capitalismo de stakeholder” (com forte empenho do Fórum Econômico Mundial, segundo o qual “o propósito de uma companhia é engajar todos seus stakeholders numa criação de valor compartilhada e sustentável”), porém o momento que marcou a ruptura veio antes, em agosto de 2019, quando o tradicional The Business Roundtable, associação de executivos, declarou ter deixado de acreditar que a principal função das companhias é dar retorno aos seus acionistas. “É como se o Partido Comunista dissesse que os trabalhadores não eram mais sua preocupação principal”, comparou Lowenstein.

O que a poderosa entidade de lobby fez, na prática, foi revogar a “lei” do economista americano Milton Friedman, desenvolvida no livro “Capitalismo e Liberdade” e exposta num famoso artigo também no “NYT”, em 1970. “Há uma e apenas uma responsabilidade social da empresa – usar seus recursos e se envolver em atividades destinadas a aumentar seus lucros, desde que permaneça dentro das regras do jogo, ou seja, participe de uma concorrência aberta e livre, sem fraudes.” O executivo, especialmente numa companhia com controle disperso, é um funcionário dos acionistas e deve usar seu tempo e os recursos da empresa para obter os melhores resultados para os seus patrões.

Ao desempenhar sua função com diligência, o executivo vai fazer com que a empresa sobreviva, cresça e distribua a riqueza que criou aos seus acionistas, funcionários, prestadores de serviços, fornecedores, fornecedores dos fornecedores e à burocracia estatal, esta sim obrigada a cuidar das questões sociais. Esse foi o circuito impresso da máquina que transformou os Estados Unidos na maior e a mais dinâmica economia do planeta e criou o ambiente que fez surgir empresas da garagem ao bilhão em alguns anos.

Não mais. O novo dogma imposto com grande ênfase por gestores e fundos de pensão “ativistas” que administram trilhões em recursos é que a as empresas têm que dar lucro – sim, porque os salários, honorários e impostos têm que vir de algum lugar -, mas também têm que salvar o mundo – delas mesmas, em alguns casos, como das demonizadas petrolíferas.

Mesmo assim, ainda falta combinar com os acionistas. O Calpers, maior fundo de pensão dos EUA, até tentou tirar Buffett da presidência do conselho da Berkshire e forçar a empresa a adotar pautas relacionadas a clima e diversidade. Os indivíduos que entregaram suas economias para Buffett administrar preferiram não arriscar e barraram a mudança.

A disputa pelo coração das empresas não só chegou ao Brasil, como já foi institucionalizada. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), regulador do mercado de capitais, deu aval à regra da B3 que pede – na modalidade “pratique ou explique” – pelo menos uma mulher e um integrante de “comunidade subrepresentada” – no conselho ou na diretoria. Segundo a bolsa, a medida “induz práticas que atenuam desigualdades presentes na sociedade brasileira”.

Como se diz no mercado de ações, é temerário ir contra o fluxo. É quase digno de meme que um nonagenário se disponha a ficar na frente dessa onda gigantesca. No entanto, poucos como ele têm o histórico e o estofo para ir contra a corrente. Como ele é um “contrarian” quando se trata de investimentos, está acostumado a remar rio acima e fugir da manada. E pode ter ainda algumas lições para ensinar aos reformadores do capitalismo.

Nelson Niero é editor de S.A. do Valor Econômico.

E-mail: nelson.niero@valor.com.br

https://valor.globo.com/brasil/coluna/buffett-entra-na-contramao-do-trem-esg.ghtml

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Empresas brasileiras perdem funcionários para companhias estrangeiras

Pesquisa feita com 81 organizações apontou que mais da metade recebeu, nos últimos dois anos, pedidos de demissão de profissionais que decidem trabalhar para o exterior em modelo remoto

Por Fernanda Gonçalves, Para o Valor 28/06/2023

Uma nova pesquisa descobriu que, nos últimos dois anos, 54% das empresas brasileiras perderam funcionários para companhias que atuam fora do país. No modelo em questão, o profissional continua vivendo no Brasil, mas trabalha em formato remoto para empresas estrangeiras.

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O estudo, obtido com exclusividade pelo Valor, foi realizado pela Think Work, plataforma de conhecimento sobre gestão de pessoas, em parceria com a Atlas, HR tech focada em contratações internacionais. Ao todo, foram ouvidas 81 organizações.

Dentro do grupo de empresas que relataram receber pedidos de demissão de funcionários que resolvem atuar para companhias de fora do Brasil, 41% afirmam que isso acontece com alguma frequência e 7% consideram a situação bastante comum.

Diante desse cenário, mais de 60% dos respondentes preveem problemas relacionados à falta de trabalhadores no próximo ano. Tatiana Sendin, CEO da Think Work, observa que o maior desafio está na área de tecnologia, já que empresas de diversos setores estão em busca de profissionais que as auxiliem na digitalização de processos e na inovação. “A contratação de brasileiros por organizações no exterior adiciona mais um desafio na tarefa do RH de atrair e manter os funcionários”, lembra.

O levantamento também descobriu que uma das soluções encontradas pelas empresas é, justamente, buscar ou contratar pessoas residentes em outros países. Assim, cerca de 27% das companhias têm feito esse movimento e outras 23% dizem estar considerando essa possibilidade. Ao mesmo tempo, para quase 10% dos respondentes da pesquisa, a expectativa é que, em dois anos, mais de 20% da força de trabalho seja encontrada no exterior.

“Isso vai exigir mudanças na maneira como as organizações atraem e contratam os funcionários, além de uma transformação cultural”, analisa Sendin. “Tanto o RH como os líderes devem estar abertos para a possibilidade de talentos globais, localizados não só em outras cidades, mas em outros países”.

Ela acredita que, para as empresas, essa é uma boa maneira de adicionar talentos diversos aos seus quadros. “Além dos conhecimentos técnicos, os funcionários estrangeiros trazem uma visão cultural e experiência de vida diferentes, o que pode contribuir com a estratégia de diversidade e com a transformação da cultura organizacional”, pontua.

Já para o profissional, Sendin explica que a principal vantagem reside em poder permanecer em seu país de origem, próximo aos familiares e, ao mesmo tempo, ter a oportunidade de conhecer outras culturas e ampliar sua empregabilidade ao se expor a ofertas de trabalho além do mercado local.

Além disso, ela destaca que o trabalhador muitas vezes tem a possibilidade de adaptar sua rotina de acordo com o horário de funcionamento da empresa. “Por exemplo, uma mãe ou um pai que vive na Europa e trabalha para uma empresa brasileira, com uma diferença de fuso horário de quatro ou cinco horas, pode dedicar as manhãs para cuidar dos filhos e começar a trabalhar depois do almoço, iniciando a jornada ainda pela manhã no Brasil”, detalha.

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2023/06/28/empresas-brasileiras-perdem-funcionarios-para-companhias-estrangeiras.ghtml

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Saiba quais são os sete empregos que causam mais infelicidade, de acordo com Harvard

Estudo analisou mais de 700 profissionais desde 1938 e determinou que alguns fatores são capazes de diminuir ou aumentar a alegria no trabalho

Por Revista Época/La Nacion — 31/07/2023 

Universidade de Harvard conduziu um estudo desde 1983 com mais de 700 profissionais para descobrir quais fatores são capazes de aumentar ou diminuir a felicidade no trabalho Universidade de Harvard conduziu um estudo desde 1983 com mais de 700 profissionais para descobrir quais fatores são capazes de aumentar ou diminuir a felicidade no trabalho Freepik

Ao longo da vida, as pessoas procuram encontrar a felicidade, que pode estar nas relações pessoais e, em algumas ocasiões, até no trabalho. No entanto, um estudo de Harvard revelou que nem todos os empregos podem gerar este sentimento — e, em algumas ocasiões, podem até causar o extremo oposto.

Quais são os empregos que causam mais infelicidade?

Para descobrir este dado, a Universidade de Harvard conduziu um estudo de 85 anos, desde 1938, com mais de 700 profissionais de todo o mundo e os questionou sobre suas vidas profissionais a cada dois anos. O objetivo era determinar quais fatores são capazes de aumentar ou diminuir a felicidade no trabalho. Como resultado, descobriram que as profissões mais infelizes são, na maioria das vezes, as mais solitárias, nos quais os funcionários não têm a oportunidade de trabalhar com uma equipe.

O estudo conclui que o segredo para viver uma vida mais feliz, saudável e longa, não é dinheiro, sucesso profissional, exercícios ou uma dieta saudável – relacionamentos positivos são o que tornam as pessoas felizes ao longo de suas vidas. E isso também se aplica ao nosso trabalho.

Isso porque, segundo os pesquisadores, as tarefas solitárias fazem com que as horas de trabalho pareçam mais longas. A falta de interações sociais também afeta negativamente a saúde, situação que costuma se agravar, de acordo com o estudo, quando se adicionam rotações ou turnos noturnos.

Nesse sentido, a Universidade de Harvard estabeleceu que estes são os sete empregos que geram maior insatisfação nos trabalhadores:

  1. Entregadores
  2. Motoristas de caminhões de longa distância
  3. Guardas de segurança
  4. Trabalhos com horários noturnos, como vigilantes e porteiros
  5. Trabalhos remotos
  6. Atendimento ao cliente
  7. Comércio varejista

Na lista, há trabalhos que oferecem serviço ao cliente. Na pesquisa, é explicado que isso se deve às interações negativas, uma vez que é difícil lidar com pessoas impacientes ou com problemas constantes. É por isso que os funcionários costumam se sentir mais frustrados e estressados.

— Nós sabemos que pessoas em call centers estão comumente estressadas, principalmente porque elas ficam no telefone o dia todo com clientes frustrados e impacientes — disse Robert Waldinger, professor de psiquiatria da Harvard Medical School e diretor do Harvard Study Of Adult Development, um dos estudos mais antigos sobre felicidade e equilíbrio entre vida pessoal e profissional, ao “CNBC Make It”.

Socializar faz bem para a saúde mental

A pesquisa também aborda a importância das relações interpessoais no trabalho, que podem ajudar a aliviar o sentimento de solidão, além do estresse que pode ser gerado por um dia cansativo. Além disso, reforça que o trabalho em equipe é necessário não apenas para a produtividade, mas também para o moral dos funcionários.

Waldinger ressalta que as expectativas do líder de uma equipe também são relevantes.

— Se você é incentivado a trabalhar em equipe, a construção de relações é facilitada. O mesmo não acontece se o esperado é que o funcionário trabalhe sempre sozinho ou que entre em competição com os colegas — afirmou o pesquisador, destacando que as relações no ambiente de trabalho devem ser levadas em consideração na hora de buscar um emprego, assim como se faz com outros benefícios.

Dicas para melhorar o ambiente de trabalho:

  • O desenvolvimento de vínculos com seus colegas de equipe pode ajudá-lo muito a trabalhar de forma mais inteligente e também a elevar seu moral.
  • Tente encontrar colegas de trabalho que compartilhem seus interesses. Forme um grupo ou clube com eles, como um clube do livro ou uma comunidade de jogos.
  • Não tenha medo de pedir ajuda ou orientação. Esteja pronto para ajudar os outros também.
  • Se possível, tente encontrar locais de trabalho onde a comunicação com seus colegas de equipe sobre assuntos não relacionados ao trabalho seja permitida.
  • Se o seu gerente ou a cultura do trabalho valorizar o trabalho em equipe, isso se tornará muito mais fácil.

– Relacionamentos positivos no trabalho levam a níveis mais baixos de estresse e a menos dias em que voltamos para casa chateados – explica o professor Waldinger.

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Como os oceanos viraram novos campos de batalha da tecnologia; leia o artigo da Economist

A Ucrânia repeliu a Frota Russa no Mar Negro; mas drones navais podem são ser suficientes para derrotar os russos

Por The Economist – 25/07/2023 |

“Frotas maiores vencem”, afirma o almirante James Parkin, diretor de desenvolvimento da Marinha britânica. Dentre 28 batalhas navais, afirma ele, todas exceto uma foi vencida pela frota maior. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, no ano passado, os russos tinham cerca de 20 navios de guerra no Mar Negro.

A Marinha ucraniana mal existia. No primeiro dia da guerra, os ucranianos afundaram a única fragata que possuíam — um cruzador enferrujado, da era soviética, no qual este correspondente embarcou a caminho de Odessa — para impedir que a embarcação caísse nas mãos dos russos. Mas a guerra no mar, assim como na terra, desmentiu expectativas. “Depois da guerra nós certamente escreveremos uma cartilha”, afirma o vice-almirante Oleksii Neizhpapa, comandante da Marinha ucraniana, “e a mandaremos para as academias militares da Otan”.

O ponto de inflexão ocorreu em 14 de abril de 2022, quando a Ucrânia afundou o cruzador russo Moskva, a maior perda naval desde a Guerra das Malvinas, em 1982. A Frota Russa no Mar Negro se afastou prontamente da costa e atualmente se localiza em posições entre 180 quilômetros e 280 quilômetros distantes da costa ucraniana, afirma o almirante Neizhpapa. Isso baixou a ameaça de um ataque anfíbio contra Odessa: obstáculos antitanques que bloqueavam estradas foram retirados, e soldados rumaram para outras partes do front — o que abriu caminho para o acordo de julho no qual a Rússia concordou em permitir que a Ucrânia continue importando grãos. Isso ajuda não apenas a Ucrânia, que tinha 70% das exportações anteriores à guerra atravessando o Mar Negro, mas também países importadores de grãos no Sul Global.

A operação que afundou o Moskva não teve nada de revolucionária. “Para mim, isso mostra a importância de se ter mísseis em terra para combater navios, minas submarinas e boa inteligência”, afirma Niklas Granholm, da Agência Sueca de Pesquisa em Defesa (FOI), “instalados simultaneamente em um conceito operacional coerente”. A sorte desempenhou um papel: condições atmosféricas podem ter permitido aos radares ucranianos enxergar excepcionalmente mais longe. Assim como a inépcia russa. Da mesma forma que suas massivas perdas de tanques se deveram a táticas ruins, não à mudança tecnológica que tornou sua blindagem obsoleta, portanto o caso do Moskva é uma lição sobre a importância de se fazer o básico corretamente.

Ser atingido é uma coisa; não conseguir combater o incêndio subsequente é outra. “Controle de danos segue sendo uma métrica crítica à qual padrões navais profissionais devem atender”, conclui Alessio Patalano, da King’s College London. “No dia do afundamento, colegas do Exército me confrontaram: será mesmo este o fim do argumento pela construção de grandes navios de guerra?”, recorda-se o comandante da Marinha norueguesa, Rune Andersen. “Eu disse, ‘Não, é o fim da era dos navios com 40 anos de idade não modernizados sem tripulações treinadas’.” Uma embarcação de guerra mais nova, com melhores defesas antiaéreas e uma tripulação mais sagaz poderia ter resistido aos mísseis ucranianos.

A contenda naval encontra-se em um impasse. A Ucrânia conquistou um bloqueio do acesso marítimo nas proximidades de sua costa, impedindo os navios russos de se aproximar. Mas os aviões militares russos voam livremente, evitando que embarcações de guerra ucranianas deixem os portos. O resultado é uma “zona cinzenta” de 25 mil quilômetros quadrados no noroeste do Mar Negro, na qual nenhum dos lados pode “mover-se livremente”, afirma o almirante Neizhpapa.

A Frota Russa no Mar Negro se posiciona em relativa segurança, impondo um bloqueio distante e disparando com frequência mísseis de cruzeiro Kalibr contra a Ucrânia. Kiev tem dados de inteligência claros a respeito da movimentação da frota graças aos americanos e aos britânicos, que colocam o foco em dados produzidos por satélites e aeronaves de vigilância. Mas faltam aos ucranianos mísseis com alcance suficiente para atingir o que eles têm capacidade de enxergar. Isso os tem forçado a apelar para outros meios.

Uma característica impressionante desta guerra tem sido o uso da Ucrânia de embarcações de superfície não tripuladas (ESNTs), essencialmente drones navais, para atingir territórios controlados pelos russos. Os barcos não tripulados foram acionados em outubro e novembro, juntamente drones aéreos, para atacar Sevastopol, o quartel-general da Frota Russa no Mar Negro e o entreposto petrolífero de Novorossiisk, um porto russo. Outros ataques se seguiram, incluindo um tiro aparentemente bem-sucedido contra um barco-espião próximo ao Bósforo, em 24 de maio. Esses eventos reeditam uma longa tradição de guerra naval.

Rebeldes houthi, apoiados pelo Irã, usaram uma ESNT para atacar uma fragata saudita em 2017. Os EUA testam barcos-drone desde os anos 40. Mas a eletrônica moderna, as ferramentas poderosas de inteligência artificial e as comunicações via satélite onipresentes — no caso da Ucrânia por meio da Starlink — tornaram possíveis ESNTs compactos, menos detectáveis por radares e que possuem capacidade de navegar longas distâncias e encontrar alvos. A Ucrânia não tem capacidade de enfrentar a Frota Russa no Mar Negro de igual para igual. Mas é capaz de danificar seus portos e prejudicar sua logística.

“Drones são elementos muito importantes da nossa guerra neste momento”, afirmou o almirante Neizhpapa. “A guerra do futuro será a guerra dos drones.” Ele acrescenta que a Ucrânia está aprendendo com a prática. “Nenhum outro país tem mais experiência no uso de drones navais.” Resta saber se isso será suficiente para romper o bloqueio russo. Um ataque contra Sevastopol em março parece ter sido repelido, com o uso de uma ESNT bloqueada por uma explosão e outros dois barcos-drone destruídos por fogo de metralhadoras. Nem todas as ESNT romperão linhas. Mas a tecnologia está se provando útil em outra frente, mais obscura, da guerra naval.

Gasodutos

Em 26 de setembro de 2022, explosões arrebentaram os gasodutos Nord Stream 1 e 2, entre Rússia e Alemanha, no Mar Báltico. A responsabilidade pelos ataques segue desconhecida. Mas os incidentes sublinharam a vulnerabilidade da infraestrutura submarina a sabotagens. A vigilância da Rússia sobre tubulações e cabos submarinos remonta a décadas, é fornida de recursos e cresce em intensidade, de acordo com autoridades de segurança americanas e europeias.

Em abril, um documentário escandinavo revelou detalhes a respeito de uma frota de embarcações russas disfarçadas de barcos de pesca ou pesquisa que opera no Mar do Norte. Um desses navios, o Almirante Vladimirski, foi detectado nas proximidades de sete fazendas eólicas nas águas das costas britânica e holandesa numa mesma viagem. Quando jornalistas se aproximaram, foram recebidos por homens armados e mascarados.

Proteger cada centímetro de cabos ou tubulações é impossível, reconhecem autoridades navais. Mas drones são parte da resposta. Após os ataques contra os gasodutos Nord Stream, os governos europeus quiseram se preparar para possíveis ameaças. O almirante Andersen afirma que a Noruega conversou com empresas privadas que trabalham em atividades no exterior como extração e processamento de petróleo e gás. “Nós descobrimos uma indústria com um enorme senso de responsabilidade e disposição para contribuir.”

Dentro de dias ele obteve 600 drones submarinos avançados, uns operados remotamente e outros autônomos. Trabalhando com Reino Unido, Dinamarca, Alemanha e Países Baixos, os equipamentos escanearam “cada centímetro” dos gasodutos instalados em 9 mil quilômetros quadrados de leito marinho, para depois monitorar cabos de energia e dados. O projeto mostrou como a tecnologia, que antes se movia do mundo militar para o civil, poderá agora mover-se na direção oposta. Em 15 de fevereiro, a Otan estabeleceu uma nova célula de coordenação submarina crucial para encorajar esse tipo de cooperação em defesa.

Agressões são outra questão. O paradoxo é que os países que ajudam a Ucrânia a construir esses sistemas — com frequência sob sigilo profundo — e fornecem a Kiev dados de inteligência necessários para usá-los com eficácia, como mapas atualizados de interferências russa nas comunicações, são, eles próprios, tolhidos em sua capacidade de desenvolver essas mesmas tecnologias domesticamente. “As coisas que uma empresa britânica financiada com dinheiro de contribuintes britânicos e consistente com interesses britânicos pode fazer na Ucrânia eu não posso fazer dentro do Reino Unido porque leis de tempos de paz as proíbem”, lamenta-se o almirante Parkin.

Autoridades marítimas europeias não querem barcos-drone perdendo o curso e acabando em águas civis. Isso evita que Marinhas realizem treinamentos e experimentos tão ousados quanto poderiam. Pobre do ambicioso almirante. “Estamos num instante em que embarcações de superfície não tripuladas são equivalentes a um farol vermelho diante de um carro de corrida.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

https://www.estadao.com.br/internacional/como-os-oceanos-viraram-novos-campos-de-batalha-da-tecnologia-leia-o-artigo-da-economist/

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Finlândia, país mais feliz do mundo, indica banho gelado e carne de rena para ser feliz

Brasileira participa de curso de felicidade promovido pela nação nórdica, 1ª colocada no World Happiness Report, da ONU

Ivan Finotti – Folha – 29.jul.2023 

Carne de rena e banho gelado toda manhã. Ninguém disse que ser feliz é fácil, mas, de acordo com os finlandeses, encarar essas duas tarefas já é meio caminho andado.

Quem testou a receita foi a brasileira Laura Petrolino, uma das 14 pessoas de todo o mundo a participar do “Masterclass of Happiness” (aulas de felicidade), que a Finlândia promoveu em junho.

 Laura Petrolino no lago do resort onde foi realizado o curso de felicidade promovido pelo governo da Finlândia

Laura Petrolino no lago do resort onde foi realizado o curso de felicidade promovido pelo governo da Finlândia – jun.23/Arquivo Pessoal

Os finlandeses sabem do que estão falando: em março, o país foi eleito, pela sexta vez consecutiva, o mais feliz do mundo, segundo o World Happiness Report (relatório mundial da felicidade), da ONU.

De olho em dividir tanta alegria, e, claro, promover o turismo no país, a agência estatal Business Finland promoveu o curso do qual Laura participou. Além das aulas, toda a viagem foi paga pelo governo.

“Realmente aprendi formas de ser mais feliz no dia a dia”, diz Laura. “Mas há muitos aspectos da felicidade finlandesa que não temos como replicar. O fato de não haver corrupção é um deles.”

Lá fora

De fato, a “percepção de corrupção” é um dos sete indicadores usados pela ONU para listar os países no relatório. Os outros são PIB per capita, expectativa de vida saudável, liberdade, generosidade, apoio social e um questionário em que o instituto Gallup pergunta que nota, de 0 a 10, as pessoas dariam à sua vida.

O curso aconteceu no Kuru Resort, próximo à cidade de Rantasalmi, na região conhecida por seus 4.000 lagos. E a primeira tarefa do primeiro dia foi justamente o banho gelado. “Toda manhã, íamos pelo píer de madeira e pulávamos no lago. Na hora, é horrível. Mas após uns 40 segundos seu corpo fica anestesiado. O mergulho dura cinco minutos. Quando a gente saía, a toalha queimava no corpo”, conta a paulista, que emigrou há dois anos e meio para a Holanda para trabalhar como gerente de projetos de marketing.

“Sentia o corpo funcionando. O banho te deixa mais acordado, mais ativo e faz o sangue circular mais.”

Na aula “Natureza e Modo de Vida”, Laura fez trilhas pela floresta ao redor, coletando frutas e temperos, o que é permitido para a população em toda a Finlândia. Depois, conheceu um ermitão que vive a quilômetros da civilização, sem eletricidade ou gás, e que caça, pesca e colhe tudo o que come.

A segunda aula foi batizada de “Design e Cotidiano”. “Os finlandeses têm um design prático e funcional, com coisas pensadas para durar a vida inteira. Tudo é local. Fizemos um tapete de lã numa fazenda de ovelhas e aprendemos que os móveis são feitos apenas com madeira da região”, afirma Laura.

Participantes do curso de felicidade promovido pelo governo da Finlândia – Acervo Pessoal

“Saúde e Equilíbrio” foi o tema seguinte, no qual os finlandeses defenderam “confiança” como palavra-chave para encarar a felicidade. Em relação a si mesmos, eles usam “sisu” (autoconfiança e força interior), termo que também abarca, por exemplo, os vizinhos, as instituições e sua menor desigualdade social.

“A Finlândia não é um país consumista. Várias marcas de fast food e de roupas de grife não deram certo lá e fecharam suas lojas. Eles se vestem de forma básica: branco, preto, cinza e bege em todas as estações.”

“Alimentação e Bem-Estar” foi a última aula, na qual o chef Remi Trémouille apresentou a tal carne de rena. Nos seis dias em que a paulista passou lá, serviram rena ao menos quatro vezes para o grupo, grelhada ou no ravioli. Laura, vegetariana, não experimentou, o que segundo a receita finlandesa a deixou menos feliz.

“O chef nos ensinou a fazer canapés com rena fina e grelhada, além de uma pasta de ervilhas frescas, tudo com itens locais e temperos colhidos na floresta.” O restaurante do resort, o Solitary, aliás, só trabalha com ingredientes produzidos, pescados, caçados ou colhidos na área de 30 km ao redor.

Laura Petrolino no resort onde aconteceu o curso de felicidade – Acervo Pessoal

De volta à Holanda, Laura diz que tem aproveitado as dicas no dia a dia. “Passei a ser menos materialista, compro menos por impulso, pedalo, vou ao parque por dez minutos após um dia estressante, compro alimentos da estação e medito lembrando dos sentimentos que tinha naquele lago finlandês.”

Ela planeja voltar à Finlândia nas férias do ano que vem, desta vez com o namorado. E, claro, também incorporou a ducha gelada à sua rotina, todas as manhãs, por cinco minutos. “É até um pouco frustrante que o segredo da felicidade seja tão simples, né? Mas ela está aí, à disposição de todos.”

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