IA movimenta mercado de trabalho, e empresas buscam profissionais capazes de aplicar tecnologia

Ferramentas como ChatGPT mudam rotina das companhias. Investimento em inteligência artificial deve somar R$ 69 bi em três anos

Por Juliana Causin — O Globo 16/07/2023 

No Hospital Albert Einstein, em São Paulo, uma equipe de 80 cientistas e especialistas foi formada para trabalhar especialmente com algoritmos e IA. O grupo de saúde vem há alguns anos aplicando a tecnologia para diagnósticos, administração de leitos e pesquisas No Hospital Albert Einstein, em São Paulo, uma equipe de 80 cientistas e especialistas foi formada para trabalhar especialmente com algoritmos e IA. O grupo de saúde vem há alguns anos aplicando a tecnologia para diagnósticos, administração de leitos e pesquisas Divulgação

Quando prestou vestibular pela primeira vez, há mais de dez anos, Luiza Del Negro não imaginava que um dia poderia exercer uma profissão na área de tecnologia. Parecia coisa “daqueles gênios da matemática”, diz. Depois de mudar radicalmente de área, trocando a veterinária pela programação, a carioca, de 29 anos, agora faz parte de um grupo de profissionais cada vez mais procurados pelas empresas no Brasil: os habilitados para aplicar a inteligência artificial (IA) nos negócios.

Há um mês, ela trabalha no desenvolvimento de sistemas de IA no escritório brasileiro de uma das maiores consultorias do mundo, a Bain & Company. A empresa tem uma parceria com a OpenAI, criadora do ChatGPT, para o uso da tecnologia por trás do chatbot. A ideia é que o cérebro eletrônico possa ser integrado a serviços e sistemas de clientes.

— A tecnologia cresceu muito, mas como profissional dessa área, vejo que ainda há espaço (de expansão), e a IA ainda vai participar mais das nossas vidas — diz Luiza, que atua na equipe de Análise Avançada da Bain & Company.

A expectativa da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom) é que a IA puxe 20% de todo o investimento da indústria de tecnologia local até 2026, com um montante de R$ 69,1 bilhões.

Globalmente, a aplicação da IA do tipo generativa, como a do ChatGPT, poderá injetar até US$ 4,4 trilhões por ano em produtividade na economia mundial, projeta um estudo da McKinsey. E os reflexos já aparecem no mercado de trabalho. A estimativa é que a IA generativa poderá automatizar tarefas que consomem entre 60% e 70% do tempo dos trabalhadores. Se há o temor de perda de vagas, por outro lado cresce a demanda por profissionais que saibam lidar com a inovação.

O mais recente relatório do Fórum Econômico Mundial sobre o futuro do trabalho aponta que 75% das empresas no mundo devem abraçar a IA nos próximos quatro anos, com 2,6 milhões de postos de trabalho criados especificamente para atuar com ela, como cientistas, programadores e engenheiros de dados.

No Brasil, especialistas em recursos humanos (RH) apontam sinais de que o apetite das empresas por mão de obra para essa área deve se intensificar nos próximos meses.

No primeiro trimestre deste ano, a plataforma Vagas.com registrou 52,6 mil ofertas de trabalho que mencionaram o termo “inteligência artificial” no Brasil. Um levantamento do Linkedin, feito a pedido do GLOBO, identificou crescimento de 94% no número de pessoas que adicionaram habilidades relacionadas a IA em seus perfis desde maio do ano passado. Segundo relatório do Google Trends, a busca por vagas na área de IA cresceu 90% no país nos últimos seis meses.

Novas rotinas

Nos EUA, berço das big techs que lideram a corrida global pela IA, as vagas na área cresceram 20% em junho, segundo a plataforma Indeed. Além de especialistas na tecnologia, as companhias buscam pessoas que têm condições de trabalhar com soluções de IA.

O advogado Manoel Monteiro, sócio da área de direito societário do escritório Viseu Advogados, é um deles. No escritório, a IA se tornou uma auxiliar para traduções, pesquisas iniciais, formulações de textos-base e outras funções.

— É muito mais fácil revisar um texto que criá-lo do zero. Temos usado o ChatGPT como ferramenta de apoio — diz Monteiro, que tem uma pessoa na equipe dedicada a acompanhar novas soluções de IA que são lançadas.

A popularização desses sistemas tem mudado a rotina até de profissionais fora dos grandes centros urbanos. Na região de Nova Olímpia, no interior do Mato Grosso, 2,5 mil trabalhadores rurais estão conectados a um software de IA que reporta em tempo real as condições do plantio de cana-de-açúcar e as necessidades de manejo do campo.

Os comandos vêm por uma assistente de voz. A IA é conectada também ao WhatsApp, que leva alertas para os funcionários sobre a lavoura. O mecanismo vem sendo implantado pela biorrefinaria Uisa, que treinou a equipe para usar os dispositivos.

— Os funcionários recebem todos os avisos por uma IA que chamamos de Sugar. Ela avisa quando uma máquina precisa ser reabastecida, quando um local precisa de mais adubo ou quando há necessidade de manutenção — diz Rodrigo Gonçalves, diretor de Tecnologia e Inovação da biorrefinaria.

Na Bain, além da vaga preenchida por Luiza, outras dez posições estão abertas para profissionais que atuam com IA, especialmente engenheiros especializados em aprendizado de máquina. Pesquisa da consultoria com 600 empresas de vários países indica que IA é prioridade para 85% nos próximos anos.

— O que a gente tem visto é um apetite das empresas por ao menos experimentar e ver como a tecnologia funciona — diz Lucas Brossi, sócio e head de Análise Avançada na América do Sul da consultoria.

Onda crescente

Quem já trabalha há algum tempo com esses sistemas intensifica o uso com a chegada das inovações generativas. No Hospital Albert Einstein, em São Paulo, uma equipe de 80 cientistas e especialistas foi formada para trabalhar especialmente com algoritmos e IA. O grupo vem há alguns anos aplicando tecnologia em diagnósticos, administração de leitos e pesquisas.

— Temos uma área que constrói a interface e realiza a implementação das tecnologias para todo o corpo clínico. Simplificamos para que a IA sirva de apoio. Hoje, temos 70 aplicações diferentes desse tipo — conta Igohr Schultz, diretor executivo digital do Einstein.

As startups também aceleram as aplicações de IA, ampliando áreas de atuação. Na WeClever, empresa de base tecnológica mineira que cria robôs de atendimento, a maior parte do quadro de 75 funcionários está focada em IA. A empresa, que contratou cinco pessoas nos primeiros meses deste ano, espera ampliar ainda mais a equipe até dezembro, conta Ana Abreu, diretora operacional da startup.

A IA também está criando novas posições na cúpula das empresas para reger as transformações com a tecnologia. Há um mês, o físico Weslley Patrocinio passou a gerenciar os esforços da plataforma de RH Gupy para expandir o uso da IA em ferramentas de ranqueamento de currículos, recomendação de perfis e descrição de vagas.

— Pensamos em como mudar a experiência de determinado produto com a IA, melhorar a experiência. Ajudamos os times de produtos, pessoas e vendas a considerar a IA — diz Patrocinio, que se tornou head de IA da Gupy e lidera uma equipe de 20 pessoas dedicadas ao assunto.

Desafio de todos

O interesse pelo tema explodiu depois do lançamento do ChatGPT, no fim do ano passado, iniciando uma onda que teve como último lançamento o Bard, do Google, na semana passada. Mas especialistas avaliam que a demanda por profissionais com foco em IA ainda é incipiente e mais concentrada no setor de tecnologia.

Segundo Lucas Oggiam, diretor-executivo do PageGroup, do grupo Michael Page, as empresas “ainda estão descobrindo como lidar com ela”. No entanto, Lucas Nogueira, diretor regional da Robert Half, avalia que os profissionais em geral devem buscar entender as mudanças que a inteligência artificial traz para o trabalho:

— O que a gente indica é que os profissionais se preparem para esse tipo de linguagem e esse tipo de desafio, sejam eles de varejo, marketing ou contabilidade. No longo prazo, o uso será muito mais amplo que somente o da área de tecnologia.

Como trabalhadores podem começar a se familiarizar com o universo da IA

Médico, engenheiro, designer ou administrador também precisam entender de IA? Tudo indica que essa tecnologia estará presente na vida de diferentes profissionais daqui para frente. Para quem quiser começar a entender esse novo mundo, já existem cursos sobre o tema, on-line ou presenciais, mas não são o único caminho.

Tatear as ferramentas de IA que já existem pode ser uma forma de se familiarizar aos poucos. A habilidade de fazer isso já tem até um nome: “AI Fluency” ou fluência em IA.

Andrea Janér, fundadora e CEO da Oxygen, plataforma de conteúdo sobre inovação, sugere passos iniciais. Ter a compreensão mínima do que é um sistema de IA é o primeiro. Isso passa por conhecer termos como aprendizado de máquina e processamento de linguagem natural, que caracterizam o processamento de dados por ferramentas de IA. O próprio ChatGPT ou o Bard podem dar essas respostas.

Procure entre as soluções disponíveis de IA as que podem ajudar a resolver problemas específicos. Os sistemas mais conhecidos podem criar modelos de e-mail, resumir informações de textos longos, criar listas e até revisar ortografia. Também existem apps específicos para o mundo corporativo que podem acelerar processos repetitivos.

É importante atentar para os desafios e preocupações éticas associadas à IA. Estamos falando de aplicativos novos, tecnologias ainda em uso experimental e que carecem de regulações. Robôs virtuais podem apresentar informações incorretas ou com viés preconceituoso. Ter consciência das limitações é importante, assim como entender que o que pode ser uma mão na roda tem implicações sociais mais amplas. Um dos riscos é a ampliação da exclusão digital e a eliminação de empregos. Para as empresas, é importante cuidar para que o uso da tecnologia não seja excludente.

https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2023/07/16/ia-movimenta-mercado-de-trabalho-e-empresas-buscam-profissionais-capazes-de-aplicar-tecnologia.ghtml

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O ChatGPT não é bom para ‘colar’ na escola, mas ajuda muito a estudar; saiba como

Ferramentas gerativas de IA podem anotar documentos longos, fazer flashcards e produzir questionários práticos

Por Brian X. Chen – Estadão/NYT – 03/07/2023 

THE NEW YORK TIMES – A especialidade da inteligência artificial (IA) gerativa é a linguagem – adivinhando qual palavra vem a seguir – e os estudantes rapidamente perceberam que poderiam usar o ChatGPT e outros chatbots para escrever redações. Isso criou uma situação complicada em muitas salas de aula. Acontece que é fácil ser pego “colando” com IA gerativa porque ela tende a inventar coisas, um fenômeno conhecido como “alucinação”.

Mas a IA gerativa também pode ser usada como assistente de estudo – e isso não precisa ser feito apenas com o ChatGPT. Algumas ferramentas destacam trechos em longos trabalhos de pesquisa e até respondem a perguntas sobre o material. Outras podem ajudar criando materiais de estudo, como quizzes e flashcards.

Geração Z já está alfabetizada em IA e quer mudar o mercado de trabalho

Vale reforçar: para estudar, é essencial que as informações estejam corretas e, para obter os resultados mais precisos, você deve direcionar as ferramentas de IA para focar em informações de fontes confiáveis.

Como usar IA para resumir informações

Primeiro, vamos explorar uma das tarefas de estudo mais desafiadoras: ler e anotar documentos longos. Algumas ferramentas de IA, como Humata.AI, Wordtune Read e vários plug-ins dentro do ChatGPT, atuam como assistentes de pesquisa que irão resumir documentos para você.

Eu prefiro o Humata.AI porque ele responde às suas perguntas e mostra destaques diretamente no material de origem, permitindo que você verifique a precisão.

No site Humata.AI, enviei um PDF de um artigo científico sobre a precisão de smartwatches no monitoramento dos batimentos cardíacos. Depois cliquei no botão Ask (Perguntar) e perguntei como os relógios Garmin se saíram no estudo. Ele rolou até a parte relevante do documento que mencionava a Garmin, fez destaques e respondeu à minha pergunta.

Humata.AI responde a perguntas e faz destaques relevantes dentro de documentos

Humata.AI responde a perguntas e faz destaques relevantes dentro de documentos Foto: Brian X. Chen/The New York Times

O mais interessante para mim foi quando perguntei ao robô se minha compreensão do artigo estava correta – que, em média, dispositivos vestíveis como Garmins e Fitbits monitoravam a aptidão cardíaca com bastante precisão, mas que há eletrônicos cujos resultados estavam muito errados. “Sim, você está correto”, o robô respondeu. Ele seguiu com um resumo do estudo e listou os números das páginas onde esta conclusão foi mencionada.

Como usar IA com memorização

A IA gerativa também pode ajudar com memorização. Embora qualquer chatbot possa gerar flashcards ou quizzes se você fornecer as informações que está estudando, decidi usar o ChatGPT porque ele inclui plug-ins que geram materiais de estudo a partir de artigos ou documentos específicos da web. Detalhe: apenas assinantes que pagam US$20 por mês pelo ChatGPT Plus podem usar plug-ins.

Eu queria que o ChatGPT criasse flashcards para me ajudar a aprender palavras em chinês. Para fazer isso, instalei dois plug-ins: Link Reader, que me permite dizer ao robô para usar dados de um site específico, e MetaMentor, um plug-in que gera flashcards automaticamente.

No painel do ChatGPT, selecionei ambos os plug-ins. Então, escrevi este prompt:

Aja como um tutor. Sou um falante nativo de inglês aprendendo chinês. Pegue as palavras e frases de vocabulário deste link e crie um conjunto de flashcards para cada um: https://preply.com/en/blog/basic-chinese-words/

Cerca de cinco minutos depois, o robô respondeu com um link onde eu poderia baixar os flashcards. Eram exatamente o que eu havia pedido.

Como usar o ChatGPT para gerar testes

Em seguida, eu queria que meu tutor me fizesse um teste. Eu disse ao ChatGPT que estava estudando para o exame escrito para obter minha habilitação de motocicleta na Califórnia, EUA. Novamente, usando o plug-in Link Reader, colei um link para o último manual de motocicleta do DMV da Califórnia (um passo importante porque as leis de trânsito variam entre os estados americanos e as regras são ocasionalmente atualizadas) e pedi um quiz de múltipla escolha.

O robô processou as informações dentro do manual e produziu um quiz, fazendo-me cinco perguntas de cada vez.

Finalmente, para testar meu entendimento do assunto, pedi ao ChatGPT para me fazer perguntas sem apresentar opções de múltipla escolha. O bot se adaptou de acordo, e eu acertei todas as perguntas no quiz.

Eu teria adorado ter essas ferramentas quando estava na escola e provavelmente teria tirado notas melhores com elas como companheiras de estudo./TRADUZIDO POR ALICE LABATE

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De hijab gaúcho a mahjong carioca: empreendedores brasileiros ‘ganham o mundo’ nas lojas de apps

Na economia dos aplicativos, shoppings virtuais abrem caminho para a exportação de serviços sem burocracia

Por Bruno Rosa — O Globo – 17/07/2023 

A equipe do aplicativo de moda do RS que que conquistou muçulmanas A equipe do aplicativo de moda do RS que que conquistou muçulmanas Divulgação

Pode parecer improvável, mas sai da capital do Rio Grande do Sul o desenho de alguns hijabs, véus para mulheres muçulmanas, consumidos em países do Oriente Médio. Diretamente da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio, uma sessão de relaxamento alivia o estresse de alguém que vive no México. Também da Barra saem jogos eletrônicos que entretêm aficionados no Japão. A exportação de serviços brasileiros como estes é possível, sem nenhuma burocracia, por meio de aplicativos, que ganham a chance de competir em praticamente todos os mercados do mundo por meio das lojas de apps dos sistemas operacionais para smartphones das gigantes de tecnologia Apple e Google.

Pesquisa da consultoria Analysis Group constatou que 40% dos downloads de aplicativos somente na App Store, da Apple para o sistema operacional iOS, são feitos fora dos países de origem do desenvolvedor. Na empresa dona do iPhone, são mais de 1,76 milhões de aplicativos disponíveis, 123 vezes o que havia em 2008. Somando o portfólio da Play Store, do Google para o Android, são outros 2,6 milhões de títulos. É mercado em potencial de mais de 8 bilhões de aparelhos móveis em quase 180 países e mais de 40 idiomas.

US$ 1, 1 trilhão em vendas

O avanço da economia dos apps, que acelerou na pandemia, se mantém. A Analysis Group estima que tenham sido gerados negócios de US$ 1,1 trilhão (R$ 5,27 trilhões) em vendas no ano passado, alta de 29% em relação a 2021. Em busca de um naco desse bolo é que empreendedores digitais brasileiros investem em apps que possam atrair consumidores estrangeiros.

Em Porto Alegre, Roberta Weiand decidiu criar um aplicativo que pudesse dar às pessoas ferramentas simples para desenhar roupas com um toque no celular, usando moldes prontos. Com a ideia na cabeça, ela desenvolveu o app Prêt-à-Template, e disponibilizou versões em 14 idiomas. Conta com 8 milhões de downloads em mais de cem países, parte muito pequena no Brasil.

— A lógica foi começar olhando o exterior para crescer e usar a musculatura das lojas de aplicativos. Já comecei com o app funcionando em inglês e português. E fui crescendo. E passei a personalizar o aplicativo estudando os diferentes mercados, como o árabe, oferecendo moldes para desenhar os hijabs. Esse foi o planejamento e o desafio.

‘Não há barreiras on-line’

Com o sucesso do app de roupas, Roberta iniciou outra aventura: o Prêt-à-Makeup, de maquiagem. Eleito recentemente pela Apple um dos melhores do segmento para iPad, simula as texturas dos produtos e reage à luz exposta na tela do celular com uma tecnologia já patenteada. O app tem 90 mil usuários mensais em 12 línguas. A empreendedora espera que os dois apps tenham crescimento de 40% este ano:

— Não há barreiras no mundo on-line. Tenho pacotes de assinatura anual e trimestral em dólar, convertidos para as moedas locais. Hoje, 45% da receita vêm dos EUA, seguidos de Europa (UE), com 11%, e Reino Unido, com 10%. A China representa 6%, e o Brasil tem 3% — diz ela, que comanda a empresa ao lado de Bruno Werberich.

Outro segmento popular no Brasil que vem ganhando espaço é o da culinária. O paulista Diego Zambrano percebeu o potencial digital do setor durante a pandemia. Decidiu colocar em um aplicativo, chamado Creme, diferentes chefs ao redor do mundo ensinando suas receitas. Para isso, padronizou as dicas e as diferentes unidades de medida de forma a serem compatíveis com diversos países em inglês. Agora, diz ele, trabalha em uma versão em português e pretende usar inteligência artificial para oferecer o conteúdo em outros idiomas, inclusive com a substituição de ingredientes por similares locais.

— Já temos 800 chefs e mil receitas que são acessados em 50 países, como Japão, Dinamarca e Albânia. Na economia digital, se você focar sua atuação, fica moldado a uma cultura ou região. Isso restringe a tecnologia — diz Zambrano, que pretende usar a localização dos usuários para oferecer mais serviços. —Vamos adicionar o comércio eletrônico gerando uma lista de compras. Vamos começar com parceiros nos EUA, nosso maior mercado. Estamos montando a estratégia global.

Segundo a Analysis Group, além de Europa e EUA, a maior parte dos desenvolvedores de apps está em Brasil, China, Japão, Coreia do Sul e Índia. A consultoria estima que 80% deles têm apps listados em várias lojas virtuais. É o caso da Gazeus, sediada na Barra, no Rio, que atua num ramo em que o Brasil se destaca: o de games. Ela tem 15 jogos em apps individuais, como dominó, buraco, poker e mahjong.

Dario Souza, CEO e fundador da empresa, diz que a estratégia desde o começo foi estar presente nas principais plataformas digitais globais, como App Store, Play Store e no Instant Games, do Facebook. Contabiliza mais de 20 milhões de downloads em países como Itália, México, Egito, Argélia e Japão, entre outros.

— Estar listado nas lojas de apps abre um mar de oportunidades, pois as pessoas acessam o celular o tempo todo. O desafio é entender como o público joga e entender as especificidades locais — diz Souza, que estima em 60% a parcela da receita que vem do exterior.

Taxas incomodam

Otimista, Souza prevê um crescimento nos negócios, já que vários países estão estudando medidas para que as lojas de aplicativos abram seus ecossistemas a concorrentes em meio à disputa acirrada entre Microsoft, Epic, Apple e Google no setor.

— Isso vai aumentar as possibilidades de distribuição. Hoje, em geral, as gigantes cobram uma taxa de 30% (do valor do download para listar o app na loja) no primeiro ano, patamar que cai para 15% no segundo ano, embora em alguns casos não sejam cobradas taxas — diz Souza.

Para o especialista em tecnologia João Neto Fernandes, os aplicativos são um dos pilares de crescimento das big techs, impulsionando também os pequenos empreendedores:

— Isso gerou debates sobre criar ambiente mais justo do ponto de vista concorrencial.

Matheus Veloza, sócio do Zen App, um aplicativo de meditação, diz que negócios desse tipo têm a seu favor o fato de o usuário já ter assimilado o modelo de pagar para acessar um conteúdo fechado, algo impensável há alguns anos. Com mais de 7 milhões de downloads e 40 mil usuários ativos por mês, a empresa tem, além do Brasil, EUA e México entre os países com maior audiência, diz:

— A pandemia fez surgir mais apps, o que aumentou a concorrência. As lojas de aplicativos conseguem distribuir o app globalmente, o que ajuda nessa expansão. É preciso entender os usuários. A economia digital mudou tudo.

Segundo Veloza, a demanda é um pouco diferente entre os países. Se no Brasil o maior interesse é combater o burnout, nos EUA a busca é por serviços para amenizar a insônia:

— Para crescer ainda mais, estamos nos associando a apps com foco no mercado corporativo e, assim, embarcar nossos serviços de forma a atingir mais pessoas em países como a Romênia, por exemplo.

Para Oscar Nascimento, consultor de marketing, a maior velocidade do 5G, o surgimento de mais aparelhos conectados, como os relógios, e o desenvolvimento de óculos de realidade aumentada, expandem as oportunidades na economia dos aplicativos:

— Estamos apenas no início dessa nova corrida

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ChatGPT vive à sombra de um grande escândalo de dados; entenda

Origem incerta de informações que alimentam grandes sistemas de inteligência artificial causam preocupações em especialistas e autoridades

Por Bruno Romani – Estadão – 16/07/2023 

A inteligência artificial (IA) conquistou o mundo nos últimos meses graças aos avanços dos grandes modelos de linguagem (LLM), que abastecem serviços populares como o ChatGPT. À primeira vista, a tecnologia pode parecer mágica, mas, por trás dela, estão imensos volumes de informações que turbinam as respostas espertas e eloquentes. No entanto, esse modelo pode estar à sombra de um grande escândalo de dados.

Sistemas de IA generativa, como o ChatGPT, são grandes máquinas probabilísticas: eles analisam quantidades gigantes de texto e fazem conexões entre termos (algo conhecido como parâmetros) para gerar texto inédito quando solicitados – quanto maior a quantidade de parâmetros, mais sofisticada tende a ser a IA. A primeira versão do ChatGPT, lançada em novembro passado, tinha 175 bilhões de parâmetros.

O que começa a assombrar autoridades e especialistas é a natureza dos dados que estão sendo usados para treinar esses sistemas – é difícil saber a origem das informações e o que exatamente está alimentando as máquinas. O artigo científico do GPT-3, primeira versão do “cérebro” do ChatGPT, dá uma ideia do que foi usado. Foram usados os pacotes Common Crawl e WebText2 (pacotes de textos filtrados de internet e redes sociais), Books1 e Books2 (pacotes de livros disponíveis na web) e a versão em inglês da Wikipédia.

Ainda que os pacotes tenham sido revelados, não se sabe exatamente o que os compõe – ninguém sabe dizer se há um post de um blog pessoal qualquer ou de uma rede social alimentando o modelo, por exemplo. O jornal Washington Post analisou um pacote chamado C4, usado para treinar os LLMs T5, do Google, e o LLaMA, do Facebook. Encontrou 15 milhões de sites, que incluem veículos jornalísticos, fóruns de jogos, repositórios piratas de livros e dois bancos de dados que hospedavam informações estaduais de eleitores nos EUA.

Com a intensa competição no mercado de IA generativa, a transparência sobre o uso de dados piorou. A OpenAI não revelou quais bases de dados usou para treinar o GPT-4, o atual cérebro do ChatGPT. Ao falar sobre o Bard, chatbot que chegou recentemente ao Brasil, o Google também adotou um discurso vago de que treina seus modelos com “informações disponibilizadas publicamente na internet”.

Movimentação de autoridades

Isso vem gerando movimentação de reguladores em diferentes países. Em março, a Itália suspendeu o ChatGPT por preocupações de violação das leis de proteção de dados. Em maio, reguladores canadenses iniciaram uma investigação contra a OpenAI sobre a coleta e uso de dados. Nesta semana, a Federal Trade Comission (FTC) dos EUA passou a investigar se o serviço causou danos a consumidores e se a OpenAI realizou práticas “injustas ou enganosas” em termos de privacidade e segurança de dados. Segundo o órgão, essas práticas podem ter causado “dano reputacional” às pessoas.

A Rede Iberoamericana de proteção de Dados (RIPD), que reúne 16 autoridades de dados de 12 países, incluindo o Brasil, também decidiu investigar as práticas da OpenAI. Por aqui, o Estadão procurou a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), que afirmou em nota que está “realizando um estudo preliminar que, embora não dedicado exclusivamente ao ChatGPT, tem por objetivo fundamentar os conceitos relacionados aos modelos generativos de inteligência artificial, bem como identificar potenciais riscos à privacidade e proteção de dados”. Anteriormente, a ANPD havia publicado um documento no qual ela indica querer ser a autoridade fiscalizatória e regulatória sobre IA.

As coisas só mudam quando há um escândalo. Começa a ficar visível que não aprendemos com os erros do passado. O ChatGPT é muito opaco sobre as bases de dados utilizadas

Luã Cruz, especialista em telecomunicações no Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec)

Luca Belli, professor de Direito e coordenador do centro de tecnologia e sociedade da Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio, peticionou a ANPD sobre o uso de dados por grandes modelos de IA. “Como titular de dados pessoais, eu tenho direito de saber como a OpenAI gera respostas sobre mim. É evidente que o ChatGPT criou resultados a partir de um enorme banco de dados que incluem também minhas informações pessoais”, diz ele ao Estadão. “Existe consentimento para que usem meus dados pessoais? Não. Existe uma base legal para que usem os meus dados para treinar modelos de IA? Não.”

Belli afirma que não teve resposta da ANPD. Perguntado sobre o assunto pela reportagem, o órgão não respondeu – também não indicou se está trabalhando com o RIPD a respeito do tema.

A agitação lembra o período que antecedeu o escândalo Cambridge Analytica, no qual os dados de 87 milhões de pessoas no Facebook foram usados indevidamente. Especialistas em privacidade e proteção de dados apontavam para o uso problemático de dados em grandes plataformas, mas a ação de autoridades não deu conta do problema.

“As coisas só mudam quando há um escândalo. Começa a ficar visível que não aprendemos com os erros do passado. O ChatGPT é muito opaco sobre as bases de dados utilizadas”, afirma Luã Cruz, especialista em telecomunicações no Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

Não é só privacidade

Ao contrário, porém, do caso do Facebook, o uso indevido de dados por LLMs pode gerar não apenas um escândalo de privacidade, mas também de direitos autorais. Nos EUA, os escritores Mona Awad e Paul Tremblay entraram com um processo contra a OpenAI por acreditarem que seus livros foram usados para treinar o ChatGPT.

Além disso, artistas visuais também temem que suas obras alimentem geradores de imagens, como o DALL-E 2, Midjourney e Stable Diffusion. Nesta semana, a OpenAI fechou um acordo com a agência Associated Press para usar seus textos jornalísticos no treinamento de seus modelos. É um passo ainda tímido diante do que a companhia já construiu.

“Veremos no futuro uma enxurrada de ações coletivas disputando os limites de uso de dados. Privacidade e direito autoral são ideias muito próximas”, afirma Rafael Zanatta, diretor da Associação Data Privacy Brasil. Para ele, a pauta de direito autoral tem mais apelo e deverá pressionar mais as gigantes da tecnologia.

Zanatta argumenta que os grandes modelos de IA colocam em xeque a ideia de que dados públicos na internet são recursos disponíveis para uso independentemente do contexto em que são aplicados. “É preciso respeitar a integridade contextual. Por exemplo, quem postou uma foto no Fotolog anos atrás não imaginava e nem permitiu que a sua imagem fosse usada para treinar um banco de IA”, afirma.

Para tentar ganhar alguma segurança jurídica, o Google, por exemplo, alterou os seus termos de uso no dia 1.º de julho para indicar que dados “disponíveis na web” poderão ser usados para treinar sistemas de IA.

O documento diz: “Podemos, por exemplo, coletar informações disponíveis publicamente online ou de outras fontes públicas para ajudar a treinar os modelos de IA do Google e criar recursos como o Google Tradutor, o Bard e recursos de IA na nuvem. Ou, caso as informações sobre sua empresa apareçam em um site, podemos indexá-las e exibi-las nos Serviços do Google.” Procurada pelo Estadão, a gigante não comenta o assunto.

Até aqui, os gigantes da IA tratam seus bancos de dados quase como a “receita da Coca-Cola” – ou seja, um segredo industrial. No entanto, para quem acompanha o tema, isso não pode ser desculpa para ausência de salvaguardas e transparência.

“A Anvisa não precisa saber a fórmula específica da Coca-Cola. Ela precisa saber se, na construção e regulação do produto, foram seguidas regras básicas e se o produto causa algum dano ou não à população. Se causa dano, precisa ter um alerta. Há níveis de transparência que podem ser respeitados e que não entregam o ouro das tecnologias”, afirma Cruz.

Leia também: Coluna Evandro Milet no Portal ES360

https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/trabalhar-junto-ainda-importa-para-inovar/

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Fundos de venture capital do Vale do Silício trocam investimento em cripto por inteligência artificial

Novos desenvolvimentos em inteligência artificial tornaram-na altamente atraente para os investidores, ao mesmo tempo em que uma enxurrada de escândalos, novas tentativas de regulação e preços em queda tornaram as criptomoedas tóxicas

Por Hannah Miller, Bloomberg 11/07/2023

Investidores de venture capital (VCs) do Vale do Silício estão correndo para entrar em empresas de inteligência artificial (IA) – incluindo gestores que antes apostavam alto em criptoativos.

No trimestre mais recente, os VCs assinaram menos cheques para empresas de criptomoedas e ativos digitais do que em qualquer momento desde 2020, de acordo com dados da empresa de pesquisa PitchBook. Ao mesmo tempo, o valor global total dos investimentos em inteligência artificial para o período de abril a junho foi maior do que no segmento cripto, mesmo em seu pico.

Os números refletem a tendência recente de muitos investidores em tecnologia – mesmo aqueles que já apoiaram cripto – de se afastar da indústria de ativos digitais atormentada por escândalos em direção aos mais recentes avanços em IA, disse Robert Le, analista de cripto da PitchBook.

Novos desenvolvimentos em inteligência artificial tornaram-na altamente atraente para os investidores, ao mesmo tempo em que uma enxurrada de escândalos, novas tentativas de regulação e preços em queda tornaram as criptomoedas tóxicas.

Joe Zhao, sócio-gerente da Millennia Capital, disse que está pronto para deixar os ativos digitais para trás. Zhao e Millennia já financiaram empresas de criptoativos como Blockstream e Lumida; agora eles estão mergulhando ainda mais na inteligência artificial. A Millennia já investiu em startups acompanhadas de perto, incluindo Stability AI.

“A IA está oferecendo muito mais casos de uso do que o blockchain”, disse Zhao.

Alguns investidores em cripto foram criticados por mostrar interesse em inteligência artificial. A Paradigm, gestora de cripto venture capital fundada pelo cofundador da Coinbase Fred Ehrsam e pelo ex-sócio da Sequoia Capital, Matt Huang, removeu as menções a criptoativos de seu site e demonstrou interesse em inteligência artificial, informou o canal de notícias cripto the Block em maio.

Huang tuitou este mês que a atualização do site foi “um erro” e direcionou os usuários para uma nova versão da página inicial da empresa que inclui banners em verde neon e preto com a palavra “crypto”.

Huang disse em um tuíte em junho que as indústrias de criptoativos e inteligência artificial “são interessantes e terão muita sobreposição” e que a Paradigm está “animada para continuar explorando” oportunidades no segmento.

Enquanto isso, a investidora da Sequoia Capital, Michelle Fradin, que ajudou a liderar a decisão da empresa de investir na agora falida exchange cripto FTX, tuitou recentemente mais sobre inteligência artificial do que cripto. Ela também foi coautora de um artigo para a empresa intitulado “The New Language Model Stack: How companies are making AI applications to life”. A Sequoia não respondeu a

Alguns investidores acreditam que existem maneiras de investir em inteligência artificial e ativos digitais. “Há muito interesse na interseção de IA e cripto”, disse Le. Ele observou que duas startups que abrangem esses setores – Tools For Humanity, desenvolvedora do Worldcoin e Gensyn – levantaram rodadas de financiamento significativas durante o segundo trimestre.

Inteligência artificial e criptoativos são “contrapesos naturais um para o outro”, disse Ali Yahya, sócio geral da Andreessen Horowitz, que financiou a Tools for Humanity e a Gensyn.

“O segmento cripto aprimorará a inteligência artificial, fornecendo parte da descentralização de que a IA talvez precise”, disse ele, observando que empresas como OpenAI, Google da Alphabet Inc. e Microsoft Corp. já acumularam controle significativo sobre esse setor.

Os cofundadores da Gensyn, Ben Fielding e Harry Grieve, disseram que estavam mais interessados em aprendizado de máquina do que em cripto antes de fundar a startup. E agora, apesar de ser financiada principalmente por investidores em criptomoedas, a Gensyn se vê mais como uma startup de infraestrutura de tecnologia.

“Não nos consideramos um projeto cripto, por assim dizer”, disse Grieve.

A Gensyn está construindo um protocolo blockchain que sustentará um mercado descentralizado para compra e venda de poder de computação que pode ser usado para modelos de aprendizado de máquina. Fielding disse que a plataforma pode tornar o mercado de computação mais competitivo, “já que os únicos fornecedores são organizações muito, muito grandes que acumularam enormes centros de dados e depois os alugam”.

O financiamento global de empreendimentos de inteligência artificial ficou praticamente estável no segundo trimestre em relação ao ano anterior, embora tenha havido um aumento substancial nos investimentos no mercado dos EUA. Por outro lado, no mesmo período, o investimento global em startups de ativos digitais caiu 76% em comparação com o mesmo período do ano passado, disse a PitchBook.

Apesar da queda, porém, negócios envolvendo cripto ainda estão acontecendo. Le observou que os mercados cripto na Europa, Dubai, Hong Kong e Cingapura estão mostrando mais força do que nos EUA, onde a regulamentação afetou fortemente o setor. Ele também disse que espera ver o investimento em empreendimentos cripto continuar nos EUA e no exterior, já que muitos fundos do segmento têm mandatos que exigem que apoiem o espaço de ativos digitais.

A Andreessen Horowitz, que levantou o maior fundo cripto de todos os tempos de US$ 4,5 bilhões, anunciou recentemente que estava abrindo um escritório em Londres por causa do ambiente cripto amigável do Reino Unido. Yahya disse que a empresa está ainda comprometida em investir em startups de criptoativos, inclusive por meio de rodadas de investimento em token.

“Não temos planos de desacelerar”, disse ele.

https://valor.globo.com/financas/criptomoedas/noticia/2023/07/11/fundos-de-venture-capital-do-vale-do-silicio-trocam-investimento-em-cripto-por-inteligencia-artificial.ghtml

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Chief Happiness Officer: o que faz esse profissional?

Heineken e Chilli Beans anunciaram recentemente a criação do cargo. Entenda o que faz quem assumiu essa nova função

Por Adriana Fonseca, Para o Valor 11/07/2023

Chief Happiness Officer (CHO) ou, em português, diretor de felicidade. O cargo está nos holofotes, desde que passou a se falar mais sobre a importância de cuidar do bem-estar e saúde mental dos funcionários. Mas, afinal, o que faz esse profissional?

Áreas de RH e tecnologia começam a ser lideradas pelo mesmo gestor

A inteligência artificial vai substituir a criatividade humana?

Bem-estar no local de trabalho: como melhorá-lo – e o que o torna pior

“Sou responsável por definir a estratégia, preparar as lideranças e acompanhar as ações e indicadores internos, incluindo a pesquisa da felicidade”, resume Lívia Azevedo, recém-empossada como diretora de felicidade do grupo Heineken. Antes, ela ocupava o cargo de diretora de pessoas na companhia.

Lívia Azevedo, diretora de felicidade do grupo Heineken, lidera área responsável por acompanhar e agir para aumentar o sentimento de bem-estar dos 14 mil funcionários da empresa no país — Foto: Divulgação

A Heineken afirma ter começado a medir a felicidade de seus empregados em meados de 2022 e, como continuidade desse trabalho, criou a diretoria de felicidade, que Azevedo comanda. Segundo a companhia, a nova área será responsável por “acompanhar e agir para aumentar o sentimento de bem-estar dos 14 mil colaboradores espalhados pelo Brasil”. Ainda de acordo com a empresa, a iniciativa “representa um novo pilar estratégico da companhia para sustentar o crescimento previsto nos próximos anos”.

A nova área é formada por profissionais de recursos humanos e de saúde, como psicólogos e médicos, na intenção de fazer um cuidado integrado entre saúde física e mental. Dessa forma, Azevedo se reporta à vice-presidência de pessoas da companhia.

A diretora de felicidade explica que a área, sozinha, não é capaz de alcançar o resultado esperado. “Esse é um trabalho que conduzimos, orientamos e acompanhamos, mas faz parte da agenda de todas as áreas e lideranças da companhia”, diz. “Para aplicação da pesquisa da felicidade, por exemplo, utilizamos a ciência da felicidade como base teórica. O modelo PERMA, da psicologia positiva, traz cinco pilares (emoções positivas, engajamento, relacionamentos positivos, propósito e realizações) que, se trabalhados intencionalmente, podem contribuir para o aumento da felicidade das pessoas.”

Além disso, ela continua, “os laboratórios de felicidade contribuem para experimentarmos ações voltadas ao desenvolvimento desses pilares e têm nos ajudado a compreender quais caminhos podemos seguir e quais ações são mais efetivas para cada time”.

O envolvimento dos gestores é parte essencial. “Focamos também no desenvolvimento da nossa liderança por meio do programa Be Leader, compartilhando conhecimento sobre a ciência da felicidade e segurança psicológica e proporcionando um ambiente aberto para trocas, dúvidas e conversas verdadeiras entre líderes.”

Também como estratégia, a empresa tem o que chama de embaixadores da felicidade, colaboradores voluntários, que iniciaram uma formação em felicidade corporativa para que possam influenciar e atuar na sua localidade alinhados à agenda da “jornada da felicidade”.

Quando questionada sobre como define felicidade, Azevedo comenta que “a felicidade é única e exclusivamente individual, por mais que trabalhemos no coletivo, sabemos que cada indivíduo é um universo e isso importa”.

Nesse sentido, ela diz que no grupo Heineken as pessoas podem ser quem são, o que contribui para o bem-estar e a tal felicidade. “Cada pessoa na sua individualidade pode ser quem ela é”, afirma. “Criar esse ambiente onde as pessoas possam ser quem são, onde elas se sintam seguras em expor seus sentimentos e emoções é o que faz com que elas se sintam pertencentes e reconhecidas, e isso traz mais felicidade.”

A executiva diz, ainda, que pessoas felizes consigo e com o local em que trabalham ficam mais tempo nas empresas, são mais produtivas e mais saudáveis, além de terem mais emoções positivas, maior engajamento, melhores relações e mais propósito naquilo que fazem. “Existem estudos que comprovam os benefícios para o negócio, financeiramente falando, quando investimos na felicidade do time. É uma agenda em que todos podem sair ganhando e isso é ótimo.”

Outra empresa que anunciou recentemente um chief happinnes officer foi a Chilli Beans, rede especializada em óculos escuros. Segundo a marca, “o trabalho do CHO vai bem além do happy hour”, sendo esse especialista “o grande incentivador e influenciador do tema da felicidade nas companhias”.

Denize Savi, CHO da Chilli Beans: “Está sob minha responsabilidade promover um ambiente com empatia, respeito e autonomia.” — Foto: Divulgação

Denize Savi, CHO da Chilli Beans, diz que não existe um modelo ideal de planejamento para trabalhar a felicidade dentro das organizações porque o assunto ainda é muito novo. “Há algumas linhas a serem escolhidas”, afirma.

Ela, que vai atuar como CHO em tempo parcial para a empresa, adotou a estratégia de introduzir o tema através de um programa de felicidade que começou a rodar em janeiro e está sendo conduzido pelo consultor em felicidade corporativa Vinícius Kitahara.

“Uma vez por semana reunimos colaboradores de diferentes setores para apresentar a iniciativa e desenvolver as ferramentas com eles”, comenta. “O programa tem duração de um ano, mas ele é a porta de entrada de uma estratégia mais ampla de olhar para o bem-estar e a saúde mental do colaborador de forma permanente.”

Segundo Savi, depois de finalizada essa primeira etapa, a empresa dará sequência implementando outras iniciativas. “Basicamente, minha atribuição é ser a pessoa dentro da empresa que responde pela divisão de bem-estar do colaborador”, explica. “Está sob minha responsabilidade promover um ambiente com empatia, respeito e autonomia.”

Isso é possível, diz Savi, transformando o clima organizacional, desenvolvendo um ambiente com segurança psicológica, abrindo espaço para que os funcionários falem o que pensam sem preocupações, sem medo de serem invalidados. “Onde eles possam compartilhar suas opiniões e ideias abertamente, mostrar todas as suas habilidades, assumir riscos, admitir falhas, aprender com as falhas, estimular a inovação e terem discussões honestas e abertas.”

Savi, que estuda a ciência da felicidade há cinco anos, comenta, ainda, que ao contrário do que muitas pessoas pensam, felicidade corporativa não é ser uma empresa descolada, que abraça a diversidade, onde pode levar o pet, não tem dress code, pode fazer home office, etc. “Isso tudo já existe na Chilli Beans, mas não é isso que faz uma empresa feliz”, afirma. “O que faz uma empresa feliz vem antes de tudo isso. É investir na saúde mental dos trabalhadores e, consequentemente, na satisfação com a vida profissional. Uma empresa não é feita de processos, é feita de pessoas. É preciso criar uma cultura humanizada.”

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2023/07/11/chief-happiness-officer-o-que-faz-esse-profissional.ghtml

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Na era da IA, vale a pena incentivar as pessoas a continuar estudando?

É preciso aproveitar a IA para transformar a abordagem educacional em experiências de aprendizado dinâmicas, personalizadas e baseadas na prática


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Tigran Sloyan – Fast Company Brasil – 08-06-2023

Se perguntássemos a alunos do quarto ano se eles gostariam que o ChatGPT fizesse suas tarefas de casa, certamente ouviríamos um “sim” unânime. Afinal, se a inteligência artificial pode dar conta do trabalho, por que gastar tempo fazendo redações ou resolvendo problemas de matemática?

Essa não é a primeira vez que nos deparamos com essa questão. Com calculadoras, computadores e acesso ilimitado à informação, há muito tempo debatemos quais habilidades realmente precisamos aprender. Alguns argumentam que, à medida que a IA avança e automatiza cada vez mais tarefas, não precisaremos mais adquirir habilidades ou conhecimento por conta própria.

No entanto, essa linha de pensamento está equivocada e pode ser perigosa. A história nos mostra que o surgimento de novas tecnologias aumenta a demanda por profissionais qualificados.

Na verdade, à medida que a IA e outras tecnologias avançam, a complexidade das habilidades necessárias para ter sucesso no mercado de trabalho também aumenta. Em vez de abandonar o aprendizado, devemos abraçá-lo e adaptar nossos sistemas educacionais para preparar as pessoas para os desafios e oportunidades que estão por vir.

DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL À ERA DA INFORMAÇÃO

Ao longo da história, a evolução tecnológica tem levado a uma maior demanda por profissionais qualificados, acompanhada de um aumento na complexidade dessas habilidades. Esse fenômeno pode ser observado em diversos momentos da história, desde a Revolução Industrial até a Era da Informação.Conforme a tecnologia avança, o tempo necessário para aprender e dominar essas habilidades também aumenta.

A história nos mostra que o surgimento de novas tecnologias aumenta a demanda por profissionais qualificados.

Consideremos a Revolução Industrial, quando o trabalho agrícola começou a ser substituído por atividades em fábricas, que exigiam treinamento especializado de pelo menos alguns meses. Com o surgimento de máquinas a vapor e de novos processos de fabricação, os trabalhadores precisaram aprender a operar esses equipamentos. Essa mudança levou à criação de escolas técnicas e programas de aprendizagem para formar indivíduos com as habilidades necessárias.

À medida que avançamos para os séculos 20 e 21, com a introdução dos computadores e a ascensão da internet, testemunhamos uma transformação significativa na forma como trabalhamos e vivemos. Esse novo cenário aumentou a demanda por profissionais altamente qualificados em áreas como programação e análise de dados.

A complexidade dessas habilidades muitas vezes requer anos de formação e treinamento especializado, começando com o aprendizado básico de leitura e escrita aos cinco anos, seguido por ciências, matemática e outras competências, até alcançar uma posição profissional aos 25 anos – quase 20 anos de preparação. Além disso, os profissionais precisam se manter constantemente atualizados para acompanhar as rápidas mudanças tecnológicas.

A principal lição desses exemplos históricos é que quanto mais avançada a tecnologia se torna, maior é a necessidade de pessoas altamente qualificadas e mais tempo é necessário para aprender e dominar essas habilidades. É improvável que essa tendência mude com a IA.

O NÍVEL DE EXIGÊNCIA ESTÁ PRESTES A AUMENTAR

A integração da IA em diversas indústrias certamente automatizará muitas tarefas, mas também criará novas funções mais complexas e especializadas. Esses empregos exigirão um profundo entendimento dos princípios da IA, considerações éticas e a capacidade de trabalhar harmoniosamente com máquinas inteligentes.

Além disso, o ritmo acelerado dos avanços desta tecnologia significa que as habilidades necessárias para se destacar nessas novas funções estão em constante evolução, tornando a aprendizagem ao longo da vida mais importante do que nunca.

quanto mais avançada a tecnologia se torna, maior é a necessidade de pessoas altamente qualificadas.

Devemos também ter em mente que, com a automação impulsionada pela IA e a substituição de empregos existentes, haverá dezenas de milhares de pessoas cujos meios de subsistência serão ameaçados.

Como disse John Maynard Keynes em 1930, cada avanço tecnológico causa uma “fase temporária de desajuste” – mesmo que traga benefícios à humanidade no longo prazo. Muitos dos profissionais de hoje precisarão aprender novas habilidades para encontrar novas oportunidades de emprego.

Isso ressalta ainda mais a importância do aprendizado e a necessidade de sistemas educacionais sólidos que possam ajudar as pessoas a se adaptar e prosperar em um mundo impulsionado pela IA. É fundamental que aprendamos com a história e abordemos proativamente os potenciais impactos sociais e econômicos da substituição de empregos por meio da educação e do desenvolvimento de habilidades.

COMO SOBREVIVER E PROSPERAR

Pesquisadores do MIT conversaram com educadores ao redor do mundo para compreender o impacto de tecnologias como o ChatGPT no ensino e no aprendizado. Eles constataram que o pensamento crítico é agora mais importante do que nunca para os estudantes – enquanto habilidades como memorização estão se tornando obsoletas.

Ao reconhecermos a crescente importância da aprendizagem humana na era da IA, é essencial também compreender como ela pode revolucionar os sistemas educacionais e as abordagens para o desenvolvimento de habilidades.

Os métodos tradicionais de ensino, baseados em salas de aula, com conteúdos densos e padronizados, não são adequados para preparar indivíduos para as habilidades complexas e dinâmicas necessárias nas indústrias em rápida evolução.

A integração da IA em diversas indústrias automatizará muitas tarefas, mas também criará novas funções mais complexas e especializadas.

Para prosperar nesta nova realidade, precisamos aproveitar a inteligência artificial para transformar nossa abordagem educacional em experiências de aprendizado dinâmicas, personalizadas e baseadas na prática. As plataformas de IA podem facilitar a aprendizagem adaptativa, ajustada às necessidades de cada um, fornecendo feedback em tempo real e acelerando o processo de aprendizado.

Além disso, podem nos ajudar a identificar e prever as habilidades futuras com alta demanda, capacitando educadores e formuladores de políticas a projetar currículos acadêmicos e programas de treinamento que promovam o sucesso na economia emergente liderada pela IA.

A colaboração entre instituições educacionais, empresas e legisladores é essencial para garantir que os currículos e os programas de treinamento estejam alinhados com as necessidades em constante evolução do mercado de trabalho. Trabalhando juntos, podemos promover uma cultura de aprendizado contínuo e de adaptabilidade, preparando as pessoas para se destacarem em meio a essa nova realidade.

Ao transformar os sistemas educacionais, promover uma cultura de aprendizado contínuo e usar a IA como uma ferramenta para o desenvolvimento de habilidades, podemos garantir que a humanidade não apenas sobreviva, mas prospere na era da inteligência artificial.


SOBRE O AUTOR

Tigran Sloyan é cofundador e CEO da CodeSignal.


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Cadê o porco?

O caminho é promissor. Diversas empresas estão apostando na carne cultivada como alternativa viável e sustentável

Por Natalia Pasternak – O Globo – A Hora da Ciência 10/07/2023

Médicos e cientistas abordam diferentes aspectos da saúde. 

Um prato de frango feito a partir de carne cultivada em laboratório da Upside Foods na Califórnia Um prato de frango feito a partir de carne cultivada em laboratório da Upside Foods na Califórnia Gabriela Hasbun/The New York Times

Carnes artificiais, derivadas de plantas ou cultivadas a partir de células animais, já fazem parte do debate de produção sustentável de alimentos. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), a demanda por alimentos deve aumentar em 50% até 2050, se as projeções populacionais se concretizarem. Produzir proteína animal para alimentar 10 bilhões de pessoas será um desafio para a sustentabilidade do planeta. Aumentar a criação animal implica maior uso de terra e de água — não somente para os animais, mas também para o cultivo necessário para ração — aumento do aquecimento global e aumento do uso de antibióticos. O uso de antibióticos na pecuária é uma das principais causas do surgimento de bactérias multirresistentes.

Não faltam, pois, justificativas para investir em alternativas para o mercado de carnes. Os benefícios vão além da sustentabilidade: consumidores preocupados com o bem-estar animal poderão desfrutar do sabor da carne sem ter em sua consciência o abate do animal. Mas é preciso ficar de olho na origem do produto: carnes feitas à base de proteína vegetal são consideradas vegetarianas ou veganas, e até mesmo como kosher e halal, pois são apenas imitações de produtos de origem animal. Algumas contam com leveduras geneticamente modificadas para imitar a textura e o sabor da carne, mas ainda assim, são produtos de origem vegetal.

Já as carnes cultivadas, feitas a partir de células, têm origem animal. A diferença é que são células multiplicadas em laboratório, a partir de uma biópsia do animal: ou seja, nenhum animal foi morto, mas apenas “doou” as células que depois crescem e se reproduzem com ajuda da tecnologia. O tempo de cultivo também é bem diferente. Leva em média de dois a três anos para criar bois e porcos para o abate, mas um bife feito em laboratório pode estar pronto para a frigideira em poucas semanas.

Claro que nem tudo são flores: para escalar a produção (e assim ter, em semanas, tantos bifes quanto os que viriam de um boi inteiro), é necessário também avaliar o impacto ambiental do uso de biorreatores e do consumo de energia necessários para o cultivo artificial. Mas o caminho é promissor. Diversas empresas estão apostando na carne cultivada como alternativa viável e sustentável. Sadia e Perdigão apostaram na israelense AlephFarms. Swift e Seara já anunciaram investimento em empresa de biotecnologia em Florianópolis.

Enquanto o mundo olha para o cultivo tecnológico de proteína animal, uma empresa brasileira adotou a gordura de porco. A banha suína é um ingrediente comum em frituras, e também é usada como conservante de alimentos. Com biotecnologia o consumidor pode ter o sabor da gordura animal, sem a questão da crueldade animal, e até mesmo com uma gordura programada para ser menos saturada e mais saudável. Essa é a aposta da Cellva, fundada por Sergio Pinto e Bibiana Matte, combinando a experiência de um alto executivo da indústria de alimentos e a formação cientifica qualificada de uma pesquisadora acadêmica.

A Cellva é um exemplo tanto na área de biotecnologia como na do empreendedorismo. Fugindo da moda das carnes e focando em um ingrediente auxiliar, a empresa pretende fornecer não diretamente para o consumidor, mas para a indústria. O protótipo teve “test-drive” numa degustação, num restaurante paulista, Green Kitchen, de linguiça vegetal feita com a gordura da Cellva. Por enquanto, a produção ainda é de laboratório: a empresa consegue fazer 20g de gordura a cada três semanas. Ampliar será um desafio, e requer investimento. Mas dá orgulho saber que temos uma startup brasileira que pode ajudar a resolver problemas de segurança alimentar, meio ambiente, e colocar o Brasil como protagonista da biotecnologia de alimentos.

https://oglobo.globo.com/blogs/a-hora-da-ciencia/post/2023/07/cade-o-porco.ghtml

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Reforma Tributária: veja histórias de bizarrices do sistema de impostos brasileiro que atrapalham os negócios

O atual “manicômio” do modelo nacional introduz uma série de distorções e ineficiências nas empresas, do ‘planejamento químico-tributário’ ao dilema se software é produto ou serviço

Por Vinicius Neder, Ivan Martínez-Vargas, Juliana Causin e João Sorima Neto — O Globo 09/07/2023 

A Reforma Tributária é uma das prioridades do governo. Aprovada na Câmara, ainda vai ser analisada pelo Senado A Reforma Tributária é uma das prioridades do governo. Aprovada na Câmara, ainda vai ser analisada pelo Senado Editoria de Arte

A aprovação da Reforma Tributária na Câmara dos Deputados na semana passada é apontada por líderes empresariais como uma oportunidade inédita para o país combater distorções provocadas pelo caos do sistema de impostos brasileiro.

A complexidade do atual sistema de cobrança de impostos introduz nos negócios uma série de ineficiências com decisões influenciadas por estratégias para reduzir o impacto da carga tributária nos custos de produtos e serviços.

Isso significa que, se confirmada pelo Senado, a Reforma Tributária tem grande potencial positivo sobre o dia a dia e na produtividade de muitas empresas.

Veja a seguir quatro áreas em que a retirada da sopa de letrinhas de tributos distintos e o fim da cobrança de impostos “em cascata” poderá fazer diferença a partir da reforma.

Obra rápida e eficiente? Imposto não deixa

Na construção civil, a cobrança “em cascata” de tributos gera ineficiência, dizem agentes do setor. Por causa da tributação, as empresas são incentivadas a verticalizarem operações, como fazer no próprio canteiro de obras peças de concreto como tijolos, blocos, lajes e pilares, com vigas de aço ou não, em vez de comprá-las de fornecedores especializados.

Segundo Felipe Cassol, presidente da Cassol, fabricante desses produtos, os pré-moldados tornam obras mais rápidas e eficientes, com menos rejeitos. O resultado seria mais produtivo: a construtora conseguiria gerar mais valor com menos desperdício e maior foco, além de impulsionar a demanda de um outro setor.

— A obra vira um sistema de Lego. Teoricamente, é possível subir um pavimento a cada um ou dois dias, enquanto, numa construção convencional, demora-se uma ou duas semanas — diz Cassol.

A tributação acaba influenciando no custo dos pré-moldados, limitando esse segmento da indústria da construção. Segundo Cassol, somente entre 8% e 10% das obras no Brasil usam peças feitas fora da obra.

Em países ricos, como a Finlândia, essa participação é de 60% – em lugares frios, a prática é ainda mais eficiente. Na China, a perspectiva é chegar a 2030 com 30% das obras usando pré-moldados, segundo Cassol.

— O edifício industrializado é mais caro que o arcaico de 20 a 25% — diz Luiz Henrique Ceotto, presidente da construtora Urbic, que usa estruturas metálicas e fachadas industrializadas em seus projetos habitacionais mesmo com o custo maior, fugindo à regra. — Construir com alta produtividade, com estruturas de metal e pré-fabricados, só fica mais caro por causa do ICMS e do IPI, que desincentivam. O edifício industrializado

Segundo Ceotto, a maior parte do custo é concentrada no início das obras, quando as peças são encomendadas e produzidas.

Cassol conta que sua empresa acaba tomando decisões menos eficientes por causa da tributação. Para conquistar clientes, a companhia oferece serviços de montagem nas obras. Num cenário com um sistema tributário mais racional, o serviço poderia ficar a cargo de empresas especializadas, enquanto a Cassol focaria na produção, expandindo fábricas, ampliando investimentos e contratando funcionários.

A demanda de pré-moldados é geralmente concentrada em projetos de centros de distribuição, indústrias e shoppings, nos quais a rapidez é decisiva e se paga. O setor imobiliário costuma ficar de fora.

Carlos Bianconi, presidente da RNI, construtora do Grupo Rodobens, confirma o diagnóstico. Segundo ele, o uso de pré-moldados pode elevar em até 25% o custo do projeto, apesar de dar mais velocidade à obra. A companhia, que tem empreendimentos imobiliários em 12 estados e atua no segmento de habitação de médio padrão, quase não usa pré-moldados devido ao custo majorado por impostos:

— Trabalhamos com formas de alumínio no canteiro, nas quais é injetado o concreto. É mais econômico, mas, obviamente, se eu trouxesse as partes da casa pré-montadas, seria fantástico. Só que é totalmente inviável porque o tributo é pesado.

Paulo Mingione, do Sindicato da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), identifica o imbróglio: a produção no canteiro é considerada um serviço e paga apenas ISS, tributo municipal que tem alíquotas menores que a dos impostos sobre a venda de produtos. O tributo incentiva uma prática menos eficiente, que reduz a velocidade da obra e, em consequência, a produtividade.

— Sempre que o construtor quer comprar viga, pilar ou laje pré-moldados, tem de pagar ICMS e IPI em alíquotas elevadas e isso faz com que essas opções sejam mais caras. O custo pode aumentar na ordem de 30%. Quando se faz moldado no canteiro da própria obra, o imposto é menor. Essa opção é muito menos eficiente e demorada, praticamente artesanal, mas é mais escolhida por questões tributárias — explica. — A gente tem uma máxima que diz que se tiver de atravessar a rua, o material fica mais caro devido aos impostos.

Nos cosméticos, impõe-se o ‘planejamento químico-tributário’

Na indústria de cosméticos, o sistema tributário nacional criou o “planejamento químico-tributário”, conta um advogado especializado na área, que pediu para não ser identificado. Tudo por causa da disparidade entre as tarifas cobradas no setor conforme cada produto.

Considerando apenas o IPI, a taxa é de 42% para perfumes e 12% para água de colônia, por exemplo. É ainda menor ainda para desodorantes, que são considerados itens essenciais.

— Várias indústrias tiram concentração aromática do produto e adicionam um antibactericida, mexem na fórmula, para classificar como desodorante. No Brasil, surgem figuras que não existem no resto do mundo, como “deo-colônia”, “deo-perfume” e até o “deo-hidratante” — diz o advogado.

Com o alto IPI, não é vantajoso produzir perfumes no país. Na Touti, marca para consumidores de renda intermediária, eles representam menos de 5% das vendas. Segundo Diogo Costa, fundador da empresa sediada em Jaboatão dos Guararapes (PE), o preço do perfume, para o consumidor final, é 80% maior do que o da “duo colônia”, carro-chefe da marca:

— Visto que a população brasileira tem baixo poder de compra, os perfumes acabam sendo menos competitivos. A diferença brutal de alíquota gera uma discrepância nos preços. Na prática o que muda é a concentração de cada produto.

O executivo espera que a reforma tributária contribua para a redução de distorções como essa no mercado em que atua, mas alerta que é importante que a implementação não eleve a carga tributária sobre produtos, que já considera alta no Brasil.

— Poderíamos entregar produtos de melhor qualidade e maior concentração de essência na fórmula, com considerável benefício para o consumidor, se não tivéssemos que optar (pela qualidade do produto) em função de classificação fiscal — diz Olindo Junior, diretor geral da Água de Cheiro, sediada em Belo Horizonte, que tem 150 lojas espalhadas pelo país.

Para o executivo, isso prejudica a percepção do produto nacional junto ao consumidor:

— Há sempre a percepção do consumidor que o produto nacional tem “menos poder de fixação” do que o importado, já que, por opção de custos, temos que usar a nomenclatura de “água de colônia” ao invés de “perfume”. O Brasil é o único país do mundo que classifica produtos por concentração de essência na fórmula, algo esdrúxulo e com origens na década de 1960. O imposto deveria ser igual para toda a categoria de perfumaria, permitindo que o consumidor tivesse acesso a diferentes propostas de produto em função de qualidade e não tributação.

A L’Oréal considera que as diferenças de classificação na tributação, que mudam em cada estado, não têm “nenhum fundamento mercadológico”. Segundo a francesa, no Brasil, alguns protetores solares têm ICMS reduzido, considerados bem essencial, mas outros, não.

Maior exportador de soja, mas só se for em grão

A complexidade da tributação atrapalha a vida dos exportadores, por causa da dificuldade para pegar de volta os impostos pagos na cadeia de produção. Isso ocorre em vários setores, mas chama a atenção nos derivados da soja. O Brasil é o maior produtor mundial do grão, principal cultura agrícola do país. É também o maior exportador global, mas 60% da produção deixam o país na forma bruta.

A Brejeiro, que começou como produtor de arroz, fabrica farelo de soja, mistura proteica, óleo de soja e biodiesel, mas exporta de 20% a 25% da matéria-prima bruta que compra dos produtores agrícolas ou das comercializadoras (tradings) que atuam no país.

Segundo Rodrigo Ruiz, gerente de controladoria da Brejeiro, a decisão de exportar é financeira e está relacionada à tributação. Se fosse fácil pegar os tributos de volta, a empresa “esmagaria” mais soja e poderia até ampliar suas exportações do óleo, que equivalem a menos de 5% da produção.

— Se estivéssemos esmagando com a capacidade total das fábricas, e existisse incentivo para a ampliação dessas fábricas, geraríamos mais empregos e mais investimentos no negócio, consumiríamos mais combustíveis e energia elétrica. Essa movimentação é representativa na economia do país. Geramos uma riqueza muito maior esmagando a soja, em vez de simplesmente exportar in natura — afirma Ruiz.

O polêmico dilema do software: é produto ou serviço?

Em 2021, o Supremo Tribunal Federal concluiu uma discussão de anos, digna do surrealismo do sistema de impostos nacional. Decidiu que os softwares que rodam nos computadores são um serviço, não produtos.

A Reforma Tributária resolve esse tipo de dilema com a CBS e o IBS, um tipo de imposto mais adequado a uma economia em que bens e serviços se misturam cada vez mais porque incide sobre ambos. Hoje há muitas variações.

— Quando começamos, em 1989, tínhamos duas fontes de receita. Vendíamos o software e cobrávamos manutenção mensal. Ao longo do tempo, ficamos puramente com a manutenção. O que a gente cobra hoje não é produto — diz Ladmir Carvalho, fundador da desenvolvedora de softwares fluminense Alterdata, lembrando que, antes da disseminação da internet, a empresa tinha que pagar ICMS sobre os CD-ROMs que levavam os programas.

Isso não é novidade no setor de tecnologia da informação (TI). No jargão do setor, o software as a service define o modelo em que a empresa desenvolvedora não vende simplesmente o programa de computador para o cliente, mas oferece manutenção e suporte na utilização.

Empresas de TI, que usam a tecnologia para otimizar processos em outras organizações, não escapam da burocracia do sistema tributário nacional. A Stefanini, multinacional brasileira que faturou R$ 6,2 bilhões no ano passado, gasta três vezes mais para desenrolar a contabilidade aqui do que nos outros 41 países em que atua.

— O custo a mais da burocracia não é o principal problema. Considero a insegurança jurídica e a alta carga tributária problemas maiores — diz Marco Stefanini, líder da empresa.

https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2023/07/09/reforma-tributaria-veja-historias-de-bizarrices-do-sistema-de-impostos-brasileiro-que-atrapalham-os-negocios.ghtml

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Economia do cuidado gera oportunidades

Há um caminho promissor a ser trilhado, através de políticas públicas guiadas pela equidade

Ricardo Henriques – O Globo 03/07/2023 


Para que adultos possam se dedicar a atividades remuneradas, alguém precisa cuidar de crianças, idosos com limitações ou pessoas com deficiência limitantes. Sabemos, porém, que esse alguém, em geral, é uma mulher. São, desproporcionalmente, elas que assumem tal responsabilidade na vida privada, prejudicando sua inserção no mercado laboral. Junto com os demais afazeres domésticos – também majoritariamente femininos –, trata-se de um trabalho árduo, sempre invisibilizado e não remunerado.

O relatório “Tempo de cuidar”, de 2020, produzido pela organização internacional Oxfam, calcula que todas as horas de trabalho com a economia do cuidado correspondem a uma quantia de aproximadamente 10,8 trilhões de dólares por ano, cerca de três vezes mais do que o valor gerado pela indústria, apenas para citar um exemplo.

No mundo todo, há um esforço ainda incipiente, porém crescente, de reconhecer sua importância para a economia e de construção de políticas públicas que garantam o atendimento a esses grupos, sem recorrer à sobrecarga do trabalho feminino.

É nessa direção que caminham, por exemplo, as discussões do grupo de trabalho criado em maio pelo governo para propor uma Política Nacional de Cuidados. Essa agenda ganha ainda mais relevância a partir da constatação, pelo Censo Demográfico do IBGE, que o processo de envelhecimento populacional está acontecendo mais rápido do que prevíamos.

A negligência histórica dessa pauta gerou um problema hoje conhecido como a crise do cuidado. A redução da fecundidade e a urbanização facilitaram o processo de escolarização e participação feminina no mercado de trabalho.

Só que essa transição demográfica é também marcada pelo crescimento de uma população idosa que, assim como as crianças e algumas pessoas com deficiência, necessitam de atendimento humanizado. As mulheres têm lutado e conquistado cada vez mais seu espaço fora de casa, mas os homens não quiseram assumir os afazeres domésticos, relativos à casa ou às pessoas que nela vivem.

Como resume a economista Hildete Pereira de Melo, as mulheres saíram, mas os homens não entraram. Isso resulta em jornadas exaustivas para elas ou na precarização da mão-de-obra remunerada – também majoritariamente feminina – que assumiu essas tarefas.

Não podemos resolver esse problema apenas na esfera doméstica ou individual. Precisamos, citando a escritora Rosiska Darcy de Oliveira, de uma reengenharia do tempo, com ações que competem à sociedade, do poder público às empresas. Isso inclui licenças parentais remuneradas, acesso a serviços de cuidado acessíveis e de qualidade, programas de educação e conscientização sobre a igualdade de gênero, além de incentivos para promover uma maior participação dos homens no setor.

Por outro lado, há formas positivas de explorar esta agenda. O investimento em licença igualitária de gênero, creche universal e serviços de cuidado de longo prazo pode gerar cerca de 300 milhões de empregos até 2035 e criar um atendimento contínuo que reduziria a pobreza, incentivaria a igualdade de gênero e apoiaria o cuidado de crianças e idosos, segundo relatório de 2022 da OIT.

De acordo com os autores, lidar com tais desafios exigiria um investimento anual de US$ 5,4 trilhões (4,2% do PIB anual total) até 2035, parte do qual poderia ser compensado por um aumento na receita tributária dos rendimentos e empregos adicionais.

No Brasil, não é diferente. Segundo pesquisa de 2018 da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, o número de postos de trabalho neste campo cresceu 547% entre 2007 e 2017. De acordo com relatório do BID, de 2021, o setor financeiro já está absorvendo uma ampla gama de demandas deste público, oferecendo serviços de gerenciamento de propriedades, além de pensões e poupanças.

O setor educacional está desenvolvendo soluções para o envelhecimento ativo e a participação contínua dos idosos na vida econômica e social. Serviços de entretenimento, por sua vez, estão em expansão, com o surgimento de vários serviços focados em cultura, lazer, culinária, esporte, saúde, turismo e bem-estar etc.

A profissionalização será pré-condição para o Brasil aproveitar essas oportunidades. Isso envolve o reconhecimento e regulamentação das ocupações, criação de programas de capacitação e formação, promoção de cursos e certificações específicas, estímulo à pesquisa e inovação, proteção trabalhista e benefícios adequados, além do estabelecimento de parcerias público-privadas.

Há, portanto, um caminho promissor a ser trilhado, através de políticas públicas guiadas pela equidade e que garantam um atendimento profissional e humanizado aos mais vulneráveis, sem recorrer à sobrecarga de trabalho das mulheres.

*Ricardo Henriques, economista, é superintendente-executivo do Instituto Unibanco e professor associado da Fundação Dom Cabral

https://oglobo.globo.com/economia/ricardo-henriques/coluna/2023/07/economia-do-cuidado-gera-oportunidades.ghtml

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