Terras raras: minerais da indústria verde trazem bilhões à nova ‘corrida do ouro’

Após a busca pelo lítio, usado em baterias, minerais essenciais para a fabricação de produtos de tecnologia atraem capital estrangeiro

Por Cleide Carvalho e João Sorima Neto — O Globo – 19/11/2023 

A transição para energias limpas, capazes de estancar as mudanças climáticas, coloca o Brasil mais uma vez na rota de investimentos bilionários em mineração. Depois da corrida pelo lítio (usado em baterias) no Vale do Jequitinhonha (MG), o que atrai capital estrangeiro agora é a extração das chamadas terras raras, minerais essenciais para a fabricação de uma série de produtos de tecnologia e transição energética.

O Brasil concentra a terceira maior reserva do mundo, atrás da China e quase empatado com o Vietnã em meio à valorização dessas matérias-primas.

Minas Gerais desponta nessa corrida do “ouro do século XXI”, como têm sido chamados esses materiais, com três grandes projetos que somam R$ 4,6 bilhões. A australiana Meteoric Resources vai aplicar R$ 1 bilhão em Poços de Caldas, onde a Viridis planeja outro projeto de R$ 1,2 bilhão.

Elementos químicos, cujas frações de minerais são difíceis de extrair do solo e das rochas, estão até no seu celular — Foto: Editoria de Arte Elementos químicos, cujas frações de minerais são difíceis de extrair do solo e das rochas, estão até no seu celular — Foto: Editoria de Arte

A brasileira Terra Brasil vai minerar em Patos de Minas e Presidente Olegário, no Alto Paranaíba, e assinou protocolo de intenções de R$ 2,4 bilhões.

Em Goiás, a Mineração Serra Verde investe R$ 800 milhões em Minaçu. E a canadense Aclara Resources acaba de anunciar a descoberta de nova jazida no estado. Na Bahia, a Brazilian Rare Earths, de capital australiano, anunciou ter obtido concessão para explorar cerca de 460 quilômetros quadrados em Jequié. A expectativa é que Serra Verde seja a primeira a iniciar a exploração, em 2024.

— O Brasil tem potencial para atender de 10% a 15% do mercado mundial de terras raras nos próximos dez anos — anunciou Marcelo Carvalho, diretor executivo da Meteoric, em seminário no fim de outubro promovido pela Comissão Ambiental da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Poços de Caldas.

Potencial alto

A Meteoric anunciou investimentos de R$ 1 bilhão em três anos em Poços de Caldas e vai ter como vizinha a também australiana Viridis Mining and Minerals, que acaba de comprar direitos de pesquisa e exploração na cidade. Klaus Petersen, gerente da Viridis para o Brasil, disse ao GLOBO que a lavra deve começar em três ou quatro anos.

O investimento estimado é de R$ 1,2 bilhão, quando o projeto estiver a pleno vapor, e a expectativa é retirar de 2,5 a 3 quilos de terras raras por tonelada de argila, enquanto na China extrai-se de 800 gramas a 1 quilo. O nome das terras raras vem menos da sua ocorrência e mais da dificuldade de extração.

Com essa relação, a operação brasileira pode ser mais barata que a chinesa, que hoje atende quase toda a demanda global e acirra tensões geopolíticas em meio à corrida tecnológica.

— Temos certeza de que a operação será lucrativa. Quando estiver a pleno vapor, a expectativa é extrair 10 mil toneladas ao ano — diz Petersen.

Franco Martins, secretário de Desenvolvimento Econômico de Poços de Caldas, acredita que essa mineração vai melhorar a renda dos 163 mil habitantes, e a arrecadação da cidade pode crescer até 50%:

— Novas empresas devem chegar pelo potencial da região, que engloba também o município de Andradas.

Há ainda depósitos de terras raras identificados no sul do Tocantins, onde a Mineração Serra Verde faz pesquisas em dois municípios: Jaú do Tocantins e Palmeirópolis, e na Amazônia. Foram encontrados elementos químicos (chamados de ETRs) em rejeitos da mina de Pitinga, da Mineração Taboca, de onde é extraída cassiterita, em Presidente Figueiredo, no Amazonas.

Elas estão também no Morro dos Seis Lagos, em São Gabriel da Cachoeira (AM), ao lado de outros minerais, como nióbio. O Morro dos Seis Lagos, no entanto, integra a Reserva Biológica Morro dos Seis Lagos, de proteção integral, e a Terra Indígena Balaio, que reúne dez diferentes etnias.

Origem do nome

As terras raras (veja quadro) são 17 ETRs que não fazem jus ao nome, dado na Suécia em 1780. Estão mais presentes no subsolo que ouro ou prata, por exemplo. Mas é difícil extrair frações de toneladas de terra ou rocha. Exploradas no Brasil desde 1886, as terras raras eram tiradas de areia monazítica na faixa litorânea do Sul da Bahia ao Rio de Janeiro. Agora, virão de argila iônica, em regiões onde, há milhões de anos, havia vulcões.

Os ETRs são considerados o “ouro do século XXI” agora pela importância atual do uso. A industrialização das terras raras, que começou com a fabricação de mantas de lampiões, é hoje estratégica. Em diferentes combinações, os ETRs são matérias-primas de indústrias que vão da fabricação de diesel e gasolina a celulares, onde estão no brilho das telas, na vibração e no microfone, mas têm se destacado em equipamentos de transição energética, como lâmpadas de LED.

O pulo do gato da caça às terras raras no Brasil é o foco atual em três dos 17 ETRs (neodímio, praseodímio e disprósio) usados na fabricação de superímãs, usados em motores de carros elétricos e turbinas de energia eólica. Para se ter uma ideia, cada torre eólica consome 2 toneladas de concentrado de ETRs. Um motor elétrico usa mais de 1 quilo.

É por isso que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou em Nova York, no mês passado, que o Brasil pode se tornar exportador tanto “de terras raras e hidrogênio” quanto de “produtos verdes”. Ele se referiu à abundância no país de fontes de energia renovável e dessas matérias-primas.

Especialistas estimam que a procura por esses minerais deve crescer até seis vezes até 2040. Fernando Landgraf, professor da Escola Politécnica da USP e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), explica que o disprósio é o mais caro dos três, pela capacidade de resistir a altas temperaturas. Custa cinco vezes mais.

— O grande desafio é o resfriamento dos motores elétricos. Se não resfriar, para de funcionar — diz Landgraf.

Segundo ele, o Brasil tem os minerais e a ponta do consumo, mas falta o meio, que é a produção dos “óxidos”. O INCT desenvolveu a tecnologia de fabricação de superímãs e o laboratório-fábrica (labfab) da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais, que custou R$ 80 milhões e fez parte dos projetos de fomento à mineração financiados pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Agora, pode ser repassado ao governo federal ou à iniciativa privada.

Além do básico

Sem a indústria intermediária, diz o professor, o minerador vai ganhar muito dinheiro mandando esse material bruto para fora, mas o Brasil poderia usufruir mais:

— O óxido de neodímio, por exemplo, que sai da indústria intermediária, custa dez vezes mais que o que o produto que sai das minas. Ou seja, o Brasil pode ser mais uma vez só exportador de commodity.

Petersen lembra que a China já informou que deixará de fornecer superímã para o resto do mundo a partir de 2025.

Responsável por cerca de 95% desse mercado, o domínio chinês é visto como uma ameaça pelo resto do mundo. Hoje, só a China domina todo o processo, da extração desse mineral à aplicação na indústria de tecnologia, incluindo a fabricação de superímãs.

Henrique Tavares, gerente de Promoções e Investimento da Invest Minas, agência de promoção de investimentos do governo mineiro, ressalta que a exploração de terras raras ultrapassa a importância econômica:

— Há a questão geopolítica. Mais de 90% desses minerais são produzidos na China, fazendo países como EUA, Japão, Inglaterra e Austrália buscarem novas fontes desses minerais. E o Brasil é uma delas.

Atividade demanda tratamento de rejeitos

Ainda que ligada à economia verde, a mineração de terras raras tem os mesmos riscos da exploração de outros minerais: alteração de paisagem e ecossistemas, alto consumo de água. E ainda há perigo de contaminação de solo e cursos d’água com elementos radioativos e metais pesados, diz a Agência Nacional de Mineração (ANM), ligada ao Ministério de Minas e Energia, que autoriza pesquisa e exploração de áreas e fiscaliza atividades.

O professor da USP Osvaldo Antônio Serra, químico e pesquisador do tema, diz que não há na natureza terras raras sem urânio e tório, elementos radioativos. O que faz diferença é a quantidade, diz:

— A argila iônica, que será agora explorada, pode ter menos urânio e tório, mas tem. Preocupa é que tratamento será dado a esses rejeitos, que precisam ser controlados. Não temos boas regras de controle de resíduos da mineração, basta ver as tragédias de Brumadinho e Mariana (onde se romperam barragens de rejeitos de Vale e Samarco).

Impactos ambientais

Klaus Petersen, gerente da Viridis para o Brasil, diz que elementos radioativos em terras raras aparecem mais em mineração em “rocha dura”. Testes da empresa na argila iônica encontraram teores “quase inexistentes” de urânio e tório, diz, ressaltando que a sustentabilidade é hoje obrigatória para atrair investidores.

A ANM diz que, para mitigar impactos ambientais, as empresas devem adotar práticas sustentáveis e tecnologias avançadas. Em Poços de Caldas, a Viridis retira a argila em camadas de até 10 metros de profundidade. Com água e sulfato de amônia, os íons do mineirais de terras raras são separados. A argila lavada é devolvida à lavra. Como o sulfato de amônia é usado em fertilizantes, o solo ainda fica mais fértil.

— Numa mineradora tradicional, essa sobra iria para uma bacia de rejeitos — diz Petersen, acrescentando que ainda há reúso de água.

https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2023/11/19/terras-raras-minerais-da-industria-verde-trazem-bilhoes-a-nova-corrida-do-ouro.ghtml

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Como os táxis sem motorista estão estressando as cidades onde já estão em funcionamento

Em São Francisco e Austin, onde os passageiros podem chamar veículos autônomos, os carros aumentaram a carga de trabalho dos funcionários da cidade

Por Yiwen Lu – Estadão – 22/11/2023 

THE NEW YORK TIMES – Por volta das 2 horas da manhã do dia 19 de março, Adam Wood, um bombeiro de plantão de São Francisco, recebeu uma ligação do 911 e correu para o bairro de Mission, na cidade, para ajudar um homem que estava passando por uma emergência médica. Depois de colocar o paciente em uma ambulância, um carro preto e branco parou e bloqueou o caminho.

Era um veículo sem motorista operado pela Waymo, uma empresa de carros autônomos de propriedade da Alphabet, controladora do Google. Sem nenhum motorista humano para instruir a sair do caminho, o Sr. Wood falou por meio de um dispositivo no carro com um operador remoto, que disse que alguém viria levar o veículo embora.

Em vez disso, outro carro autônomo da Waymo chegou e bloqueou o outro lado da rua, disse Wood. A ambulância finalmente conseguiu sair depois de ser forçada a dar ré, e o paciente, que não estava em estado crítico, conseguiu chegar ao hospital. Mas os carros autônomos adicionaram sete minutos à resposta de emergência, disse ele.

Sua experiência foi um sinal de como os táxis autônomos estão começando a afetar cada vez mais os serviços da cidade. Em São Francisco e Austin, Texas, onde os passageiros podem chamar veículos autônomos, os carros diminuíram o tempo de resposta de emergência, causaram acidentes, aumentaram o congestionamento e aumentaram a carga de trabalho das autoridades locais, disseram policiais, bombeiros e outros funcionários da cidade.

Em São Francisco, mais de 600 incidentes com veículos autônomos foram documentados de junho de 2022 a junho de 2023, de acordo com a Agência Municipal de Transportes da cidade. Após um episódio em que um carro sem motorista da Cruise, uma subsidiária da General Motors, atropelou e arrastou um pedestre, os reguladores da Califórnia ordenaram que a empresa suspendesse seu serviço no mês passado. Kyle Vogt, executivo-chefe da Cruise, pediu demissão no domingo.

Em Austin, as autoridades municipais disseram que houve 52 incidentes com carros autônomos de 8 de julho a 24 de outubro, incluindo um acidente inédito de um protótipo de robotáxi sem volante contra um “pequeno prédio elétrico”.

Para lidar com as consequências, São Francisco designou pelo menos um funcionário da cidade para trabalhar com políticas de carros autônomos e pediu a duas agências de transporte que compilassem e gerenciassem um banco de dados de incidentes com base em chamadas para a emergência, publicações em mídias sociais e relatórios de funcionários. Neste verão, Austin também formou uma força-tarefa interna para ajudar a registrar incidentes com veículos sem motorista.

“Muitas pessoas da força-tarefa estão fazendo malabarismos com isso, além de outras operações normais do dia a dia”, disse Matthew McElearney, capitão de treinamento do Corpo de Bombeiros de Austin. “Na descrição do meu trabalho, não está escrito ‘membro da força-tarefa’.”

São Francisco e Austin oferecem uma prévia do que se pode esperar em outros lugares. Embora os carros autônomos tenham sido testados em mais de duas dúzias de cidades dos EUA ao longo dos anos, esses testes passaram para uma fase mais recente em que os motoristas humanos – que antes acompanhavam os veículos autônomos – não ficam mais nos carros durante as viagens. A Waymo e a Cruise começaram então a oferecer serviços de táxi totalmente sem motorista em algumas cidades com esses carros.

A Waymo e outras empresas continuam desenvolvendo e testando seus carros em mercados potenciais e a tecnologia se espalhará, disse Bryant Walker Smith, professor da Universidade da Carolina do Sul que prestou consultoria ao governo federal dos Estados Unidos sobre direção automatizada.

A Cruise testou seus táxis sem motorista em São Francisco, Austin e Phoenix e planejou expandir para Houston, Dallas e Miami. A Waymo, que oferece viagens sem motorista em Phoenix e São Francisco, disse que em seguida lançaria seus serviços em Los Angeles e Austin. A Zoox, outra empresa de carros autônomos, disse que planejava introduzir robotáxis em São Francisco e Las Vegas, mas não forneceu um prazo.

Outras cidades onde carros autônomos foram testados estão se preparando para quando os robotáxis forem totalmente implantados. O Corpo de Bombeiros de Nashville disse que estava criando um treinamento anual para os bombeiros sobre os carros. O Corpo de Bombeiros de Seattle disse que adicionou questões de segurança com carros sem motorista às responsabilidades de um funcionário durante cada turno.

Algumas cidades disseram que sua experiência com os robôs-táxis foi mais tranquila. Kate Gallego, prefeita de Phoenix, onde a Waymo opera serviços de táxi autônomo desde 2020, disse que a empresa se reuniu extensivamente com as autoridades locais e realizou testes de segurança antes de implantar uma frota de 200 veículos em locais como o aeroporto.

“Nossos residentes, de modo geral, apreciaram muito esse serviço”, disse ela.

A Waymo, a Cruise e a Zoox disseram que trabalharam em estreita colaboração com as autoridades de muitas cidades e continuaram a aprimorar seus veículos para minimizar os efeitos sobre os serviços locais. A Waymo acrescentou que não tinha “nenhuma evidência de nossos veículos bloqueando uma ambulância” em 19 de março em São Francisco.

Poucas cidades têm enfrentado mais problemas com carros autônomos do que São Francisco. O Google, cuja sede fica nas proximidades do Vale do Silício, começou a testar veículos sem motorista na cidade em 2009 e introduziu os serviços de robotáxi em novembro de 2022. A Cruise, fundada em São Francisco em 2013, começou a testar seus veículos nas estradas da cidade em 2015 e ofereceu sua primeira viagem sem motorista aos passageiros em fevereiro de 2022.

Desde então, centenas de carros percorreram as ruas de São Francisco. Em um determinado momento, a Waymo tinha 250 veículos sem motorista na cidade, enquanto a Cruise tinha 300 durante o dia e 100 à noite. Os moradores frequentemente viam os carros – sedãs equipados com mais de uma dúzia de câmeras e sensores de alta tecnologia, alguns girando no teto – passando.

Em julho de 2018, a Agência Municipal de Transportes da cidade pediu a Julia Friedlander, uma veterana em políticas de transporte, que trabalhasse para entender como São Francisco seria afetada pelos carros autônomos. Ela se reuniu com empresas de carros autônomos e reguladores estaduais, que emitem permissões para as empresas testarem e operarem seus veículos, para discutir as preocupações da cidade sobre segurança e congestionamento.

Depois de cinco anos, ainda não há padrões estaduais sistemáticos de segurança e relatórios de incidentes para carros sem motorista na Califórnia, disse Friedlander. “Esse é um tipo de mudança tão drástica no transporte que levará muitos anos para que a estrutura regulatória seja realmente finalizada”, disse ela.

No ano passado, o número de ligações para o 911 de residentes de São Francisco sobre robôs-eixo começou a aumentar, segundo as autoridades municipais. Em um período de três meses, foram registrados 28 incidentes, de acordo com uma carta que as autoridades municipais enviaram à Administração Nacional de Segurança de Tráfego Rodoviário.

Em junho, os incidentes com carros autônomos em São Francisco haviam chegado a um “nível tão preocupante” que o Corpo de Bombeiros da cidade criou um formulário separado para incidentes com veículos autônomos, disse Darius Luttropp, vice-chefe do departamento. Até 15 de outubro, 87 incidentes haviam sido registrados no formulário.

“Seguimos em frente com a expectativa de que essa tecnologia maravilhosa funcione como um motorista humano”, disse Luttropp. “Não foi o que aconteceu.”

O Sr. Wood, o bombeiro, participou de uma sessão de treinamento de uma semana realizada pela Waymo em junho no centro de treinamento do Corpo de Bombeiros para aprender mais sobre os veículos autônomos. Mas ele disse que ficou desapontado.

“Nenhum de nós saiu do treinamento com uma maneira de fazer um carro parado se mover”, disse ele, acrescentando que assumir manualmente o controle do carro leva 10 minutos, o que é muito tempo em uma emergência.

Sua principal lição foi que ele deveria bater na janela ou na porta do carro para poder falar com o operador remoto do veículo, disse ele. O operador tentaria, então, reativar o veículo remotamente ou enviar alguém para substituí-lo manualmente, disse ele.

A Waymo disse que havia lançado uma atualização de software para seus carros em outubro que permitiria que os bombeiros e outras autoridades assumissem o controle dos veículos em segundos.

Depois que a Comissão de Serviços Públicos da Califórnia, um órgão regulador estadual, votou em agosto para permitir a expansão dos serviços de robotáxi em São Francisco, a Waymo e a Cruise começaram a se reunir a cada duas semanas com os departamentos de bombeiros, polícia e gerenciamento de emergências da cidade.

Jeanine Nicholson, chefe dos bombeiros de São Francisco, disse que seu departamento estava agora em uma “posição decente” com as empresas e acrescentou que a suspensão de Cruise ofereceu mais tempo para resolver problemas com os carros em situações de emergência. Mas ela previu mais reuniões e ajustes à medida que outras empresas de condução autônoma avançassem.

“O tempo será tomado, e temos um corpo de bombeiros inteiro – uma cidade inteira – para administrar”, disse Nicholson.

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Brasil avança rumo à agricultura 4.0, com o uso de tecnologia de ponta nas lavouras

Máquina sem operador, plantadeira que regula quantidade de sementes e irrigador que leva água até a raiz são algumas das novidades no campo

Por José Maria Tomazela – Estadão – 29/11/2023 

Máquinas que não dependem de operador e “conversam” entre si, plantadeiras que se autorregulam para aplicar as quantias certas de sementes e adubos, pulverizadores que só liberam a quantidade de defensivo que aquela planta precisa, sistema de irrigação que leva água e fertilizante diretamente à raiz da planta. Uma revolução silenciosa muda os patamares de produtividade nas fazendas brasileiras com o uso cada vez maior de tecnologia e ferramentas digitais.

Conforme a Embrapa, o País avança rumo à agricultura digital, a chamada Agro 4.0, que emprega métodos computacionais de alto desempenho, rede de sensores, comunicação máquina a máquina, conectividade entre dispositivos móveis, computação em nuvem, métodos e soluções analíticas para processar grandes volumes de dados e construir sistemas de suporte à tomada de decisões na produção e manejo da propriedade rural. Engloba a agricultura e pecuária de precisão, a automação e a robótica agrícola, além de técnicas de big data e a internet das coisas.

Impulsionada pela internet, tecnologias desenvolvidas no Brasil permitem um sincronismo em todas as atividades no campo, com o produtor gerenciando de forma remota e com o máximo de desempenho as chamadas fazendas conectadas. São máquinas e equipamentos inteligentes, operando em rede, capazes de coletar e analisar as informações, otimizando processos ou identificando falhas e as corrigindo em tempo real. Ao melhorar a produtividade e eficiência no uso dos insumos, a inovação gera economia e menos impacto ambiental.

Dados da Conectar Agro, associação que tem a CNH Industrial como uma das fundadoras, apontam que, de dezembro de 2021 a maio de 2023, a cobertura de conectividade aumentou 132%, de 6,2 milhões para 14,4 milhões de hectares. O alcance da rede (banda estreita para internet das coisas) passou de 13 milhões para 29,2 milhões de hectares, cobrindo 525 municípios em 13 Estados. As pessoas beneficiadas passaram de 600 mil para 1,1 milhão.

Com o objetivo de mostrar como a conectividade aumenta a produtividade no campo, a Case IH, marca da CNH Industrial, criou em parceria com a operadora de telefonia TIM um laboratório de agricultura digital, no município de Água Boa, em Mato Grosso. O estudo, desenvolvido pela Agricef e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), analisou os resultados com base em eficiência agrícola, viabilidade econômica e sustentabilidade.

Com a produção de quase 12,9 mil toneladas de grãos, a safra 22/23 da fazenda-modelo foi 18% mais produtiva do que a safra anterior (sem conexão) e 13,4% mais produtiva do que a média do Brasil. Em comparativo com outra fazenda sem internet da mesma região, a conectividade aumentou em 3,5% a produtividade, resultando em 2,35 sacas de soja a mais por hectare em área de 3,2 mil/ha. Considerando a região de Água Boa, a produção foi 7,4% superior.

Economia

O uso eficiente de máquinas e frota proporcionado pela conectividade reduziu em 25% o consumo de combustível por hectare, representando uma economia de mais de R$ 300 mil. Houve ainda redução de 10% na emissão de “carbono equivalente” (quilos de CO2 equivalente por tonelada de grão produzida), calculado com base em aumento de produtividade, redução no uso de combustíveis e economia de fertilizantes. A eficiência operacional otimizada pelo sistema reduziu em 5,7% de motor ocioso das colheitadeiras e aumentou em 4,2% o tempo de trabalho.

Isso resultou em redução de três dias na janela de colheita. “Os dados nos mostram como a conectividade impacta efetivamente no resultado final da safra. O monitoramento em tempo real permite que dados se tornem informações e que a tomada de decisão seja mais rápida e eficiente”, disse Christian Gonzalez, vice-presidente da Case IH para a América Latina. “A safra 22/23 da fazenda conectada foi mais eficiente, produtiva e sustentável, graças à conectividade”, completou. O retorno do investimento de R$ 1,4 milhão em antena, kit de telemetria para as máquinas e consultoria foi estimado em um ano e meio.

Máquinas inteligentes

O acesso à internet proporciona que todos os equipamentos, soluções, pessoas e resultados estejam conectados em todas as etapas do ciclo produtivo, no ecossistema da fazenda. Nesse caso, até as máquinas de construção da Case, que atuaram na abertura de valas e carregamento de insumos, estavam conectadas. O benefício se estendeu à comunidade do entorno. As duas antenas instaladas pela TIM facilitaram o dia a dia de mais de 25 mil habitantes de Água Boa, com sinal de internet para 27 escolas e universidades, além de 10 hospitais e unidades de saúde que não possuíam acesso à rede 4G.

No Brasil, muitas fazendas já adotam a conectividade na maioria dos processos produtivos. De acordo com o engenheiro agrônomo Felipe Zmijevski, responsável pela fazenda da Case IH, o sistema garante a padronização dos processos, melhor capacitação profissional e maior eficiência agrícola. “É um processo de longo prazo, que seguirá reunindo as mais avançadas tecnologias a que o produtor brasileiro pode ter acesso”, disse. A expectativa é de que até 2030, pelo menos 25 milhões de aparelhos estejam conectados à internet das coisas.

Mais tecnologia

Inovação e tecnologia são palavras de ordem dos fabricantes de máquinas agrícolas. A John Deere investiu globalmente em 2022 US$ 1,9 bilhão (por volta de R$ 9,3 bilhões) em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias que podem ser usadas desde o preparo do solo até a colheita, permitindo a análise de dados coletados em todos os ciclos das lavouras. O sistema de pulverização See Spray TM utiliza visão computacional e machine learning (conceito de inteligência artificial) para identificar e pulverizar inseticidas especificamente em ervas daninhas.

Essa solução reduz o uso de defensivos e torna a produção mais econômica e sustentável. Com tecnologias de controle, a linha de pulverizadores evita a sobreposição de áreas já pulverizadas. Em outra versão, o equipamento funciona por pulsação, uniformizando até o tamanho das gotas do insumo.

Já Massey Ferguson lançou o trator modelo MF 8S, que é equipado com o MF Conect, sistema de monitoramento de frota que, como em um carro de Fórmula 1, transmite todas as informações para uma central que ajuda o produtor a avaliar as condições do máquina. Tem ainda o MF Guide, piloto automático que trabalha em conjunto com a plantadeira para manter o paralelismo entre linhas. “Desenvolvemos uma solução de plantio inteligente, que entrega valor agregado e com menor impacto ao meio ambiente”, disse Alexandre Stucchi, diretor de vendas da Massey Ferguson.

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Esta fábrica de remoção de carbono está tirando toneladas de CO2 do ar

Primeira usina comercial nos EUA a capturar e armazenar permanentemente o CO2 oferece serviço de remoção de carbono para outras empresas

Adele Peters – Fast Company Brasil – 16-11-2023

No Vale Central da Califórnia, uma nova e reluzente estrutura de três andares retira silenciosamente CO2 do ar. Operada por uma startup chamada Heirloom, esta é a primeira instalação comercial de “captura direta” dos EUA.

A usina é capaz de capturar até mil toneladas de gás carbônico da atmosfera por ano, e, futuramente, a empresa pretende alcançar a marca de milhões de toneladas. Para armazenar permanentemente o CO2, ele será injetado em concreto fresco – uma abordagem que também reduz a pegada de carbono do concreto. A startup está oferecendo o serviço de remoção de carbono para empresas, incluindo gigantes como Microsoft e Stripe.

Enquanto o mundo se esforça para reduzir as emissões, é cada vez mais necessário combinar diferentes abordagens para termos alguma chance de atingir as metas climáticas.

“No final das contas, é realmente uma questão matemática”, diz o CEO da Heirloom, Shashank Samala. O mundo já emitiu tanto CO2 que, para atingir emissões líquidas zero, “também precisamos remover carbono da atmosfera na ordem de bilhões de toneladas”, afirma.

O sistema da Heirloom acelera algo que acontece naturalmente: a absorção de CO2 pelo calcário durante sua formação. Primeiro, a empresa aquece a pedra calcária em um forno movido a energia renovável.

Este processo extrai o carbono e deixa para trás um pó mineral, que, em seguida, é colocado em bandejas ao ar livre, onde atua como uma esponja, absorvendo CO2 e transformando-o em calcário.

Um sistema automatizado monitora e move as enormes pilhas de bandejas. Quando prontas, as pedras calcárias retornam ao forno, onde o CO2 é extraído e pode ser armazenado permanentemente. Este processo pode ser ampliado adicionando mais pilhas de bandejas.

O mundo extrai bilhões de toneladas de calcário todos os anos para produzir cimento. Para capturar um bilhão de toneladas de CO2, a empresa precisaria de menos de 0,1% da produção anual. Além disso, a pedra calcária é uma rocha barata, o que pode ajudar a reduzir o custo de todo o processo.

Vários outros projetos de captura direta de ar também estão em andamento. Um projeto em construção na Islândia planeja capturar várias megatoneladas de CO2 até o final da década.

Outro, no Texas, espera capturar 500 mil toneladas de carbono por ano, com potencial para atingir até um milhão de toneladas. Em Wyoming, há planos de capturar cinco milhões de toneladas de CO2 por ano até 2030. Cada um desses projetos planeja armazenar o carbono capturado no subsolo.

Na usina da Califórnia, a Heirloom fez parceria com a CarbonCure, uma empresa que desenvolve tecnologia para tornar o concreto mais sustentável, adicionando CO2 capturado.

A startup também planeja armazenar carbono no subsolo, mas este é um processo mais demorado, que requer licenças e mais infraestrutura. A abordagem com concreto pode ser implementada agora e, devido à enorme escala da produção, tem muito espaço para crescimento – além de ser uma solução duradoura.

“Mesmo que um edifício seja demolido, o CO2 que armazenamos no concreto permanece lá”, afirma Samala. “É durável e permanente.”

Adicionar carbono deixa o concreto mais resistente, tornando-o um material de construção melhor. Além disso, isso significa que pode ser produzido com menos cimento, o que ajuda a reduzir as emissões durante a fabricação.

Samala argumenta que a captura direta do ar precisa ser expandida tanto quanto a energia eólica e solar, mas em uma fração do tempo. Para alcançar esse objetivo, os mercados de carbono terão que continuar a crescer.

Já existe demanda por remoção permanente de carbono de empresas como a Microsoft, que recentemente se comprometeu a comprar até 315 mil toneladas da Heirloom.

O apoio federal do governo norte-americano está ajudando a empresa a crescer, incluindo o financiamento para um novo centro na Louisiana e o crédito fiscal 45Q para empresas que sequestram carbono.

Samala está confiante de que a Heirloom atingirá sua meta – remover um bilhão de toneladas de CO2 até 2035. “Basta olhar o que conseguimos fazer nos últimos dois anos: capturávamos um quilo em uma placa de Petri e hoje temos uma instalação com capacidade de captura de um milhão de quilos. Estamos fazendo tudo o que podemos para chegar lá.”


SOBRE A AUTORA

Adele Peters é redatora da Fast Company. Ela se concentra em fazer reportagens para solucionar alguns dos maiores problemas do mundo

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Passou da hora de investir na formação dos profissionais aptos a levar o Brasil a um novo patamar

Baixa qualidade da formação é uma realidade que não pode ser ignorada

Luciana Allan – Exame –  11 de agosto de 2023 

Ao matricular uma criança ou um adolescente em uma escola, quantos pais ou responsáveis questionam a instituição sobre a formação dos professores que ali trabalham? É um ponto de atenção que chega a influenciar na escolha da escola? Ou será que, no caso de escolas particulares, a preocupação maior reside na análise da infraestrutura do local, com atenção aos currículos bilíngues e tecnológicos? Já nas públicas, não há o que questionar! Escolher, seja lá o que for, raramente é uma opção e dar a sorte de conseguir uma vaga em uma boa escola já é motivo de alegria para toda a família. 

Não se trata de culpar alguém pela falta de atenção dada a este aspecto importantíssimo na análise da qualidade da educação ofertada. Afinal, na nossa cultura nunca fomos preparados para ter esse olhar. Inclusive, também não é comum ver pais ou familiares preocupados em analisar a política pedagógica da instituição, o que inclui entender o método de ensino, as estratégias de avaliação adotadas e o foco da aprendizagem. Mas, nunca é tarde! Por isso, a importância da reflexão que fazemos aqui. 

A baixa qualidade da formação dos docentes brasileiros, principalmente daqueles recém-saídos das universidades, é uma realidade que não pode ser ignorada e que tem reflexo direto na qualidade do ensino, seja em escolas públicas ou particulares, haja vista os resultados das últimas avaliações externas.

No final de março, o Ministério da Educação revelou dados alarmantes relacionados à qualidade do ensino superior. Dentre os cursos de graduação avaliados em 2021, considerou 605 com qualidade  “insatisfatória”. Ou seja, receberam notas 1 e 2 em uma escala que vai até 5. Ao todo, foram avaliados 7.512 cursos, sendo 4.750 de licenciatura, 2.020 de bacharelado e 742 tecnológicos. 

É desalentador ver que entre os cursos com as piores notas recebidas estejam os de Pedagogia, História e Letras, principais responsáveis pela formação dos futuros professores, aqueles mais fortemente envolvidos com a alfabetização. São muitas as razões que culminam nesse resultado, dentre elas o fato de muitos cursos serem ofertados na modalidade a distância por meio de metodologias de ensino que não contribuem adequadamente para a formação e desenvolvimento dos cursistas.  

Ofertar um curso a distância exige outras estratégias de ensino, diferentes das disponibilizadas em cursos presenciais. Graduações que já são ruins no presencial, tornam-se ainda piores quando oferecidas na modalidade a distância. 

Segundo dados do último Censo da Educação Superior, o número de vagas em cursos de graduação em ensino a distância cresceu 23,8% de 2020 a 2021, enquanto a oferta na modalidade presencial, no mesmo período, teve queda de 2,8%. Já em relação às matrículas, havia 8.986.554 alunos no ensino superior em 2021. Desse total, os estudantes de graduação EAD representavam 41,4%. Quando analisados somente os cursos de licenciatura, essa porcentagem sobe para 61%. 

Embora a EAD seja uma maneira legítima de fechar lacunas no ensino brasileiro e promover a inclusão por chegar aos rincões do país, ela não pode ser feita de qualquer maneira. É importantíssimo garantir a melhor experiência para o estudante e promover uma vivência que o engaje em momentos de aprendizagem significativa.  

Entender quem é esse estudante, quais os gaps advindos da educação básica para buscar saná-los antes de introduzir o currículo previsto no curso superior, compreender como ele interage com a tecnologia, que tipo de acesso à internet ele geralmente dispõe, quanto tempo tem para estudar, quais as estratégias e recursos para ensinar que mais o atraem são apenas algumas das atividades que não podem ser ignoradas. 

Há muitos aspectos a serem levados em consideração quando se busca fazer a oferta de um curso superior de qualidade no formato EAD. 

Além disso, em teoria, nos cursos de licenciatura e pedagogia é obrigatório o estágio supervisionado. É exigido que ofereçam oportunidades para os alunos acompanharem e experenciarem práticas de sala de aula, mas isso nem sempre acontece. 

E não faltam relatos de cursistas afirmando que suas experiências presenciais pouco ou em nada ajudaram a prepará-los para a prática docente. 

Há quem se licencie como professor somente assistindo a outros professores, como estratégia “para contar as horas” obrigatórias. Uma licenciatura em Matemática, por exemplo, não se resume a aprender os conceitos elementares de matemática que irá ensinar. É preciso saber a realidade da profissão: preparar aulas, administrar conflitos, aplicar métodos de ensino, ou seja, reconhecer a complexidade que envolve a dinâmica do processo educacional. 

Pelos pontos expostos acima, além de outros que não apresentamos neste momento, é que os cursos de graduação na área de educação são alvos constantes de críticas.  

Além dos conhecimentos acadêmicos, é fundamental que os professores desenvolvam habilidades socioemocionais, como empatia, resiliência e inteligência emocional, habilidades tecnológicas e aprendam a ter um olhar atento e diálogo com a comunidade do entorno. Todos esses aspectos são fundamentais para lidar com a diversidade de perfis e necessidades dos alunos e ajudam a promover um ambiente acolhedor e estimulante, capaz de estabelecer relações de confiança entre as partes. 

Os problemas educacionais do país são inúmeros, não importa para qual estatística se olhe, mas me parece urgente pensarmos fortemente na qualidade da formação dos profissionais que estão ou estarão no dia a dia dialogando com nossos filhos e ajudando a formá-los como cidadãos críticos e participativos na sociedade do século XXI. 

Aos que já estão em sala de aula, oferecer uma formação continuada de qualidade e moderna, voltada ao uso das tecnologias digitais, a implementação de metodologias ativas e estratégias para trabalhar o desenvolvimento das competências socioemocionais, e aos que estão nos bancos escolares, antes de tudo, mais realismo e prática. 

O Ministério da Educação, de seu lado, não tem ignorado esses problemas e em meados de julho realizou o primeiro Ciclo Formativo do Programa Institucional de Fomento e Indução da Inovação da Formação Inicial e Continuada de Professores e Diretores Escolares (Pril). Participaram, ao todo, 12 instituições de educação superior com o objetivo de apresentar relatórios com iniciativas para reverter a má formação e também mostrar, com exemplos, boas práticas para aprimorar a licenciatura, além de propostas para encaminhamentos futuros.  

Não há uma fórmula mágica a ser alcançada. Investir na qualidade é indiscutível. Durante o evento, mesmo com os benefícios do EAD, a importância dos cursos presenciais de licenciaturas ganhou destaque. Porém, mesmo os presenciais devem acontecer de maneira integrada a ambientes virtuais de aprendizagem e programas como o LABCRIE – Laboratórios de Criatividade e Inovação para a Educação Básica, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).  

Formação continuada segue como o norte das discussões assim como os programas de pós-graduação e as parcerias consolidadas com redes de ensino da educação básica. Os currículos desses cursos focam em experiências de flexibilização, especialmente em interface com programas de extensão e de interdisciplinaridade nas licenciaturas.  

O Programa, vale notar, foi instituído pela Portaria nº 412 de 17 de junho de 2021 com uma meta ambiciosa: induzir a oferta de cursos de licenciaturas e de formação continuada inovadoras, a fim de atender às necessidades e à organização da atual política curricular da educação básica e da formação de professores e diretores escolares para atuarem nessa etapa de ensino.  

Mas também, além de todas as tecnicalidades, precisamos nos atentar a um ponto indispensável: o de atrair jovens que queiram estar nesta carreira inspiradora. E, para atrair e reter profissionais qualificados, é fundamental valorizar a carreira docente. 

Isso inclui a implementação de políticas que garantam salários adequados e progressão na carreira, além de reconhecimento público pela importância do trabalho realizado. 

Há bons exemplos de que esta equação dá certo e traz bons resultados educacionais. Finlândia, Canadá, Singapura e Japão são bons exemplos. Em todos, os professores são bem remunerados, têm autonomia para fazer a gestão da sala de aula e são envolvidos constantemente em estratégias de formação continuada. 

Nesses países, ingressar em um curso superior na área é extremamente difícil e as vagas são preenchidas, majoritariamente, pelos melhores alunos egressos da educação básica, além de serem altamente valorizados e respeitados. 

O resultado na educação, na economia e, por consequência, no desenvolvimento social não poderia ser diferente. Se olharmos o PIB destes países temos a Finlândia em 44°lugar, Singapura em 38°, Canadá em 10° e Japão em 3°, segundo dados do FMI de 2021. Todos bem-posicionados, principalmente se levarmos em consideração o tamanho desses países e seus recursos naturais.  

Já se olharmos pela perspectiva da educação temos Singapura em 2° lugar, Japão em 4°, Canadá em 6° e Finlândia em 7°, de acordo com registros da OCDE de 2018. E, em relação à desigualdade social, temos Finlândia, Canadá e Japão, os 3 para além do 20° lugar, segundo a ONU, em 2020. 

Enquanto isso, o Brasil tem como indicadores: PIB em 9°lugar, Educação em 57° e 8°lugar em desigualdade social. Ou seja, somos uma das maiores potências do mundo, mas na mesma proporção uma das mais desiguais, o que se reflete na violência e na corrupção que vemos fazer parte do nosso cotidiano. 

Se não dermos a devida atenção para a educação, o que significa inclusive investir na formação e valorização do professor, estaremos cada vez mais reféns e suscetíveis a situações de violência e risco, fruto de uma sociedade sem oportunidades. 

Se a resposta para quase todos os problemas sociais e econômicos é “investir em educação de qualidade”, seria magnífico se realmente exigíssemos de nossos governantes os melhores resultados, visto que investimento há e não é pouco. Com o 2° maior orçamento, que representa 6% do PIB e supera a média dos países desenvolvidos, o Ministério da Educação, junto com Estados e Municípios, tem recursos suficientes para transformar esta realidade e colocar o Brasil em um novo patamar. 

A melhoria da qualidade da educação é uma questão urgente e somente com um novo olhar, muita disposição, coragem e conhecimento técnico será possível mudar a realidade, permitindo que nossas crianças e jovens tenham e possam perseguir seus sonhos. 

Já passou da hora (e muito) de valorizar nossos professores. Procrastinar só irá acentuar a formação de uma geração de docentes despreparada para colocar o Brasil no lugar que merece: o de uma nação potente e dedicada a preservar e fortalecer seu capital intelectual.

https://exame.com/colunistas/crescer-em-rede/passou-da-hora-de-investir-na-formacao-dos-profissionais-aptos-a-levar-o-brasil-a-um-novo-patamar/

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Jogo de gato e rato com inteligência artificial

Acompanhe os avanços globais e quem está direcionando a tecnologia

Por Ivone Santana, Valor — 15/11/2023

A movimentação de empresas, especialistas e desenvolvedores que lidam, de alguma forma, com tecnologia associada a inteligência artificial foi intensa nos últimos dias. De startups a Big Techs, em todo o mundo, houve iniciativas relevantes sobre o avanço da tecnologia, envolvendo bilhões de dólares. As informações constam da newsletter Destaques de Inteligência Artificial do Valor que circula nesta quarta-feira.

Vem do “Financial Times” uma notícia curiosa, e preocupante para alguns, sobre a análise do que está por trás dos discursos e explicações dos executivos quando eles falam do desempenho das empresas que comandam. De olho em seu patrimônio, investidores já estão usando algoritmos para vasculhar transcrições de teleconferências de balanços financeiros e de apresentações de empresas para tentar desvendar informações ocultas.

Sistemas baseados em inteligência artificial analisam a emoção na voz dos executivos. Se há um leve tremor, pigarreio, gagueira ou hesitação, por exemplo, a IA pode interpretar que o discurso não é verdadeiro naquele ponto. A análise dessas pistas faz parte de um campo conhecido na tecnologia como “Processamento de Linguagem Natural”.

No contra-ataque, como em um jogo de gato e rato, executivos já estão sendo treinados para driblar a IA e não transmitir emoções nesses eventos.

Nessa mesma linha de tentar trocar o papel entre caça e caçador, o Google se coloca como vítima de inteligência artificial alheia. Em uma nova ação judicial, a gigante de tecnologia alega que golpistas estão se aproveitando do aumento do interesse do consumidor por ferramentas de IA para roubar senhas de contas de redes sociais de pequenas empresas dos Estados Unidos.

É preciso cuidado para não cair nesse golpe. Reportagem detalhada sobre o tema conta como hackers enganam usuários com anúncios falsos envolvendo o Bard, o chatbot (ou robô de conversação) do Google.

Mas quando as gigantes tecnológicas usam o conteúdo alheio indiscriminadamente e sem pagar por isso, o prejuízo é dos outros. O colunista do Valor, Guilherme Ravache, mostra que Big Techs como Google e Microsoft adotam um tipo de política que domina a internet e põe em risco a sobrevivência de outras empresas, pelo uso de conteúdo sem remuneração dos seus autores, entre outras ações.

O uso ‘predatório’ que escalou com a IA generativa ChatGPT, da OpenAi, foi aprofundado com o novo sistema de busca do Google (SGE), que usa inteligência artificial para gerar resumos do conteúdo acessado. O trabalho de profissionais é resumido em três parágrafos. A análise do colunista explica por que quem usa o recurso também perde e indica se há futuro em uma regulamentação.

Sam Altman, fundador da OpenAI, criadora do ChatGPT, já abocanhou US$ 10 bilhões em investimentos da Microsoft. Agora, ele quer mais para construir uma ‘superinteligência’.

(Obs: Mas já foi demitido)

Se o ChatGPT já provoca admiração e, ao mesmo tempo, receio, pelo seu potencial, imagine o que está por vir. É uma inteligência artificial geral (IAG), um software de computador tão inteligente quanto os humanos. É possível vislumbrar no horizonte as discussões que serão travadas em torno das eventuais regras de uso.

Ter ou não regulamentação e em que medida é um tema constante na pauta de especialistas e autoridades de diversos países.

Em Nova York, Glen Weyl, economista da Microsoft e fundador do Plurality Institute, um centro para pesquisadores de tecnologias plurais, diz que a concentração de poder produzida por modelos de inteligência artificial, como o da OpenAI, não tem precedentes e é potencialmente perigosa.

De Lisboa, onde acompanha o Web Summit 2023, um evento de inovação, a repórter Daniela Braun, do Valor, conta que o excesso de zelo em propostas de regulação de aplicações de IA pode travar os processos de inovação tecnológica, além de demandar tempo e dinheiro e não necessariamente evitar os riscos para a segurança e a saúde da população.

A reportagem sobre o Web Summit 2023 mostra os alertas de Andrew McAfee, cientista e pesquisador-chefe do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

E é do meio acadêmico que vem mais uma inovação. Três cientistas da computação, que estão à frente da startup Juristec+, de assuntos jurídicos, mostram que descobertas feitas nas universidades podem, sim, virar produto.

Os cientistas integraram a tecnologia GPT-3 do ChatGPT ao sistema judiciário brasileiro, em um mês, para atender a demanda do Supremo Tribunal Federal, que levara o problema às Big Techs, como conta o Pipeline, site de negócios do Valor Econômico.

Robô químico

Se você, como eu, gosta de acompanhar informações sobre o universo e explorações espaciais, veja como um robô de inteligência artificial usa meteorito de Marte para produzir oxigênio a partir da água.

O experimento automatizado aumenta a possibilidade de realizar futuras missões espaciais tripuladas, de acordo com artigo publicado na revista científica “Nature Synthesis”. Os autores estimam que teriam sido necessários 2 mil anos de trabalho humano para alcançar o mesmo resultado na base da tentativa e erro.

De volta à Terra, o avanço da automação conduz a indústria de autopeças em áreas nunca imaginadas quando empresas como a ZF foram fundadas. O grupo ZF já usa a inteligência artificial para que os carros identifiquem tanto pessoas quanto animais.

A diferenciação pode parecer uma tarefa trivial, mas para um sistema isso requer desenvolvimento. “O formato de uma pessoa é diferente de um animal e nisso a IA nos ajuda”, afirma o vice-presidente global de planejamento da ZF, Andrew Whydell.

E no mundo dos semicondutores, a Nvidia apresentou seu novo chip H200 Tensor Core GPU, para desenvolvimento de tecnologias ligadas a inteligência artificial. A performance desse chip é entre 60% e 90% melhor do que os atuais modelos H100, usados pelos desenvolvedores de IA, como a OpenAI, para treinar os chatbots.

O chip estará disponível para parceiros comerciais de computação em nuvem da Nvidia, incluindo a Amazon Web Services (AWS), Google Cloud, Azure (Microsoft) e Super Micro, a partir do segundo trimestre de 2024.

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NeoIndustrialização e commodities

Por Evandro Milet – Portal ES360 – 26/11/2023

Quando se fala em reindustrialização ou neoindustrialização surge sempre o raciocínio de considerar ruim a dependência do Brasil em commodities e a ideia de agregar valor a essas commodities. Em algum momento houve, por exemplo, a pressão do governo brasileiro para que a Vale agregasse valor ao minério entrando em siderurgia para não exportar o minério simplesmente. Contas rápidas são feitas comparando o preço da tonelada do minério exportado com uma tonelada de produtos fabricados em aço, certamente com valor muito maior.

Mas será esse o único caminho para aumentar a complexidade dos produtos desenvolvidos pela indústria nacional, considerando que o mercado quer a commodity para beneficiar no seu país?

Uma alternativa é melhorar a commodity e conseguir fugir do padrão de preço como acontece com os cafés especiais, o aço inteligente com tecnologia ou descarbonização da Arcelor, ou o briquete verde da Vale. Outra maneira é agregar mais tecnologia no processo,  aumentando a produtividade e assim reduzindo o custo e aumentando as margens, como faz a Suzano com mudas de eucalipto desenvolvidas com biotecnologia que crescem mais rápido e mais uniformes. Ou como as indústrias de produção de commodities fazem melhorando processos, desenvolvendo novos produtos, se parceirizando com startups para resolver dores, ou melhorando a logística. 

Muitas das soluções podem se transformar em produtos e serviços comercializáveis para o mercado. O agronegócio mostrou bem essa vertente ao agregar todo o cerrado para a produção de soja e agora com colheitadeiras autônomas, drones para aspergir defensivos e uso da agricultura de precisão com GPS. Também a pecuária se expande com alta tecnologia. A produção de petróleo onshore e offshore usa uma rede de empresas desenvolvendo tecnologia e novos serviços adaptadas às condições do pré-sal ou às características locais de produção em terra. 

Toda uma rede de tecnologia e serviços agregada à produção de commodities vai para o mercado mundial com base na experiência adquirida com o volume de produção que só nós temos.

A alternativa é aproveitar que entendemos profundamente de commodities e agregar valor na cadeia. Fundamental nesse caso é o incentivo à pesquisa e desenvolvimento nas universidades, à formação de gente e ao empreendedorismo que coloca as novidades no mercado. E quanto mais deeptechs, as startups saídas das bancadas dos pesquisadores, baseadas em ciência e engenharia avançadas em hardware, software, biotecnologia, nanotecnologia, fotônica ou mecânica, melhor para o país.

E se vento e sol são as novas commodities, também as temos à vontade para transformar em energia exportável e desenvolver a tecnologia para produzi-la.

Se o mundo precisa das nossas commodities vamos fazer do limão uma limonada tecnológica com alta produtividade e novas indústrias e novos serviços. A frase é clássica: “Na corrida do ouro, ganha dinheiro quem vende pás e picaretas”. 

Viva as commodities. 

https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/neoindustrializacao-e-commodities/

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Até quando o analfabetismo infantil será uma vergonha para o Brasil?

Em um país desigual como o Brasil, até aprender a ler e a escrever é um privilégio

Luciana Allan – Exame –  16 de novembro de 2023 .

Você consegue lembrar do momento em que aprendeu a ler e escrever? Quando, de repente, as placas de trânsito começaram a fazer sentido e as capas de livros e revistas passaram a ser decifráveis? O processo de aprendizagem é, claro, gradual, mas cada pessoa no processo de alfabetização guarda na memória algum fato marcante dos primeiros anos escolares. Bem, nem todos, já que em um país desigual como o Brasil até aprender a ler e a escrever é um privilégio. 

Por isso, é fácil imaginar o quão desafiador deve ter sido para as crianças nas séries iniciais atravessarem o período ideal de alfabetização durante a pandemia e o isolamento social. Longe dos colegas, com medo de um vírus mortal e, dependendo da região e classe social, sem nenhuma estrutura prática para que o aprendizado acontecesse. E, como era de se esperar, um dos piores cenários possíveis veio à tona. 

A pesquisa Alfabetiza Brasil, realizada pelo Ministério da Educação em parceria com o INEP, apresentou dados bastante alarmantes sobre as crianças brasileiras. De acordo com o levantamento, apenas 4 em cada 10 crianças do segundo ano do ensino fundamental foram de fato alfabetizadas em 2021. Em 2019, antes da emergência sanitária, a proporção era de 6 a cada 10. 

Foram consultados professores de 206 municípios em todos os Estados brasileiros, entre abril e maio. Entre os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2019 e 2021, o número de crianças não alfabetizadas no fim do segundo ano do ensino fundamental aumentou de 39,7% para 56,4%. Quando anunciou o resultado da pesquisa, o ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou que os números vão garantir um norte para o programa a ser lançado pelo governo. 

Mas será que nossa bússola está realmente funcionando quando mais da metade das crianças não sabem ler e escrever corretamente ao final do segundo ano?  

Encarar essa triste realidade diante de nós em 2023 é desesperador. O país de Paulo Freire, educador que independente de qualquer posição ideológica é reconhecido mundialmente por seu método de alfabetização, passa mais uma vez por um grande constrangimento internacional. 

A deficiência na alfabetização infantil é um problema recorrente e negligenciada ao longo dos anos. Mesmo com a disponibilidade de dados e registros históricos sobre essa fragilidade, não houve progresso significativo. Pelo contrário, tivemos um grande retrocesso. Se não sofremos um apagão de dados, por que não conseguimos mudar os resultados se sabemos onde está o problema? 

Antes de apontar culpados, acredito que o analfabetismo infantil não seja apenas um problema metodológico, relacionado à escolha da abordagem de alfabetização, já que existem diversas metodologias válidas. O verdadeiro problema reside na falta de um trabalho contínuo entre os diversos atores envolvidos no processo. 

Em primeiro lugar, não possuímos uma cultura de leitura enraizada na nossa sociedade, um aspecto crucial do qual é impossível fugir ou encontrar atalhos através de jogos ou da tecnologia. Crianças vão procurar os livros como entretenimento se virem os adultos fazendo o mesmo. 

Há ainda uma série de questões que dificultam a alfabetização, como a infraestrutura das escolas, o ambiente familiar, a condição socioeconômica e a saúde das crianças. Todos esses fatores acabam interferindo no processo de aprendizagem. Uma criança que convive em um lar desestruturado não terá o psicológico adequado para aprender. 

Crianças de pais também analfabetos têm menos apoio no ambiente familiar. Aquelas que não possuem um local adequado para estudar em casa, seja por falta de espaço ou pela necessidade de compartilhá-lo com muitas pessoas, enfrentam ainda mais obstáculos. 

No Brasil, o investimento público por aluno na educação básica é, infelizmente, pífio; e equivale a apenas um terço dos gastos dos países ricos nessa etapa. Isso foi revelado no relatório Education at a Glance 2023, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado em meados de setembro.  

Em um ranking que abrange quase 50 países, o Brasil ocupa a terceira pior posição, ficando à frente apenas do México (US$ 2.702) e da África do Sul (US$ 3.085). Por aqui, o investimento anual por aluno na educação básica é de US$ 3.583 (cerca de R$ 17,7 mil), enquanto a média da OCDE é de US$ 10.949. O primeiro colocado, Luxemburgo, investe US$ 26.370. 

Após Luxemburgo, estão Suíça, com US$ 17.333, e Bélgica, com US$ 16.500. Esses cálculos consideram todos os recursos públicos destinados à educação pública, divididos pelo número total de matrículas no ensino fundamental e médio. 

O relatório internacional, que utiliza dados de 2020 e compara indicadores educacionais, aponta ainda que o Brasil reduziu os gastos públicos com educação em 10,5% após a pandemia de Covid-19. No entanto, em outras áreas, houve um aumento de 8,9% nos investimentos. Membros da OCDE tiveram um crescimento semelhante entre 2019 e 2020 em outras áreas (9,5%), mas também aumentaram os recursos destinados à educação em 2,1%. 

Um lugar feliz 

A própria escola, como ambiente, possui o papel de estimular o interesse da criança em aprender. Fazer da escola um lugar feliz para os alunos requer a combinação ideal de pessoas, lugares e atividades.  

Os professores, como protagonistas, têm a missão de proporcionar um ambiente acolhedor e carinhoso, no qual os alunos se sintam seguros e confiantes, que seja também estimulante, bem organizado e com recursos tecnológicos adequados. Estudar em um local sujo, sem manutenção, com goteiras, carteiras quebradas e toda a sorte de precariedades será muito menos proveitoso, para não dizer impossível. 

Fatores mais amplos, como subnutrição e saneamento básico, também irão afetar o desenvolvimento da capacidade de leitura na idade correta. Crianças que vivem em comunidades sem saneamento encaram problemas de saúde com mais frequência e que as levam a faltar à escola, prejudicando ainda mais o aprendizado. 

A alfabetização na idade certa deve ser prioridade de todo país sério. Em junho, o Governo Federal publicou no Diário Oficial da União o Decreto Nº 11.556, que estabelece o “Compromisso Nacional Criança Alfabetizada”. A iniciativa, que usou os dados do Alfabetiza Brasil, tem como objetivo garantir que todas as crianças brasileiras estejam alfabetizadas até o final do segundo ano do Ensino Fundamental 

As diretrizes abrangem a política de formação de professores, enfrentamento das desigualdades regionais, socioeconômicas, étnico-raciais e de gênero, além da centralidade dos processos de ensino-aprendizagem e das necessidades das escolas. Serão destinados R$ 1 bilhão em 2023 e mais R$ 2 bilhões até 2026 para a implementação de políticas e ações de alfabetização. Também serão adotadas medidas para recompor as aprendizagens, focando também no aprimoramento das competências em leitura e escrita dos alunos do terceiro ao quinto ano.  

Será que dessa vez conseguiremos evoluir de forma consistente? Ou vamos continuar passando a vergonha de termos o triste título de sermos um dos campeões mundiais do analfabetismo infantil? O que será que conseguiremos ver de diferente do que já foi prometido por outros governos? 

(*) Luciana Allan é Doutora em Educação pela USP e diretora técnica do Instituto Crescer, onde há mais de 20 anos lidera projetos nacionais e internacionais na área de educação

https://exame.com/colunistas/crescer-em-rede/ate-quando-o-analfabetismo-infantil-sera-uma-vergonha-para-o-brasil/

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No varejo de moda, uma corrida contra o tempo por isonomia tributária

Setor amplia frentes com Executivo e Congresso e quer urgência para estancar perdas com a concorrência internacional, diz Abvtex

Raquel Brandão – Exame –   18 de novembro de 2023 

Edmundo Lima, presidente da Abvtex, associação que reúne 100 marcas de varejo de moda, saiu animado de uma reunião com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, há duas semanas.  

“Houve a promessa de que até o fim do ano haverá uma solução que traga isonomia tributária para o setor”, diz Lima em entrevista ao Exame IN. 

Mas, conforme o fim do ano se aproxima, a sensação do setor é de uma corrida contra o tempo. “A forma como chegamos no governo é de desespero, porque já são onze meses de perdas”, afirma o executivo, que tem sido uma das vozes mais ativas no debate sobre o avanço das vendas de plataformas internacionais à la Shein no país.

De janeiro até setembro, período mais recente de dados do IBGE, a produção de vestuário acumula perda de 10,1% em relação ao mesmo período do ano passado. 

Em paralelo com a agenda no Ministério da Fazenda e a Receita, a Abvtex, tem uma outra frente aberta no Congresso, em parceria com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).

A expectativa da associação é de que até o fim de novembro o deputado Paulo Guedes (PT-MG) apresente à Comissão de Finanças e Tributação da Câmara relatório sobre o projeto de lei 2339/22, que prevê o fim da isenção das compras internacionais até US$ 50.   

Pela proposta, o vendedor deverá recolher o imposto de tributação até o dia da entrada da mercadoria no Brasil. Se isso não acontecer, o consumidor terá de pagar o tributo.  

A principal reclamação dos varejistas é a de que a carga tributária entre as empresas nacionais e as plataformas estrangeiras é muito discrepante. De acordo com os cálculos da Abvtex, para produzir no país, as empresas pagam uma alíquota total na casa de 80% – Em outras palavras, sem impostos, uma camiseta de R$ 180 poderia custar R$ 100.  

Até agosto, apenas encomendas entre pessoas físicas até US$ 50 eram isentas do imposto de importação, o que gerava uma série de distorções. A Receita já tinha identificado, por exemplo, um emissor da China que enviou, como pessoa física, mais de 16 milhões de pacotes.  

Com a instituição do programa Remessa Conforme há pouco mais de três meses, as compras internacionais enviadas a partir de pessoas jurídicas também estão isentas até US$ 50 – mas com cobrança de ICMS, de origem estadual, numa tarifa abaixo de 20%. 

Para isso, as empresas precisam preencher formulário de requerimento de certificação no programa, aderir ao modelo de etiqueta para identificação da mercadoria e firmar contrato logístico com os Correios ou outra empresa de entrega expressa e última milha. 

O programa é um tema que a Abvtex vinha discutindo desde a gestão Bolsonaro, como uma forma de intensificar a fiscalização diante das denúncias de fraudes nos registros das encomendas. Segundo Lima, a Receita Federal sinalizou que chegou a um índice de 80% de fiscalização dos pacotes que chegam. 

Mas ainda que tenha representado algum avanço, o Remessa Conforme começa a gerar novos tipos de problemas. Recentemente empresas de porte relevante, como Mercado Livre e Magazine Luiza, aderiram ao programa, e começam a trazer mercadorias da China. “As grandes varejistas começaram a perceber que as regras mudaram e isso vira uma alternativa”, diz Lima. 

Hoje, os sites que importam de outros países dentro das regras do Remessa Conforme pagam apenas a alíquota de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), de origem estadual e abaixo de 20%.  

“Isso pode fazer com que o e-commerce de moda migre para outros países, colocando a produção local e empregos em risco”, diz o executivo.  

Hoje, no varejo de moda nacional, o tíquete médio de compra varia de R$ 140 a R$ 190, bem abaixo dos US$ 50 estabelecidos para isenção do Remessa Conforme.  

Ou seja, as empresas têm incentivos para migrar sua produção para fora do país. Ou para parar de importar em grandes lotes (sujeitos a imposto de importação de 60%) e mantendo operações no exterior para vender de fora para clientes brasileiros. “Isso coloca empregos em risco”, destaca Lima. Atualmente, indústria e varejo de moda empregam 2 milhões de pessoas. 

Citando Haddad e o vice-presidente e ministro da Indústria, Geraldo Alckmin, Lima diz que o governo tem se mostrado “sensível à demanda do setor” e em busca de uma solução. Mas alerta que é preciso senso de urgência, especialmente com o Natal (principal data de vendas do setor) se aproximando. “Precisamos achar uma condição de igualdade tributária agora.” 

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Raquel Brandão

Repórter Exame IN

Jornalista há mais de uma década, foi do Estadão, passando pela coluna do comentarista Celso Ming. Também foi repórter de empresas e bens de consumo no Valor Econômico. Na Exame desde 2022, cobre companhias abertas e bastidores do mercado

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‘A economia de mercado está sob ataque no mundo’, diz ex-presidente do Banco do Brics

Para Marcos Troyjo, o aumento do protecionismo deverá levar a um ‘subdesempenho’ da economia global nos próximos anos, mas a nova fase da globalização oferece ao Brasil a oportunidade de se tornar ‘a Arábia Saudita dos alimentos’

Por José Fucs – Estadão 28/08/2023 

Desde que deixou a presidência do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), mais conhecido como Banco do Brics, em março, o economista, sociólogo e diplomata Marcos Troyjo, de 57 anos, tem rodado o Brasil e o mundo, para falar sobre a economia do País e o futuro da globalização, a convite de instituições financeiras, entidades empresariais, escolas de negócios e organizações não governamentais.

Com uma trajetória acadêmica e profissional notável, Troyjo – que participou da equipe de Paulo Guedes no Ministério da Economia, como secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais, antes de assumir o comando do NBD, em julho de 2020 – tem atraído a atenção de uma audiência especializada, interessada em conhecer melhor sua visão sobre os acontecimentos e o que deve vir pela frente. Só nos últimos cinco meses, ele conta que deu palestras e aulas na Inglaterra, na França, na Suíça, na Itália, nos Estados Unidos, em Cingapura, nos Emirados Árabes Unidos, em Israel e em várias cidades do País.

Ex-professor da Universidade Columbia, em Nova York, onde criou o BricLab, em 2011, dedicado ao estudo do grupo composto inicialmente por Brasil, Rússia, Índia e China e depois também pela África do Sul, ele deverá retornar à academia de forma regular agora em setembro. Vai iniciar um período de um ano como acadêmico visitante na área de liderança transformacional na Blavatnik School of Government, ligada à Universidade de Oxford, na Inglaterra, em paralelo com as atividades que deverá exercer em posto semelhante no Hoffmann Global Institute for Business and Society, vinculado ao Insead, sediado em Fontainebleau, na França. Sua intenção é passar duas semanas por mês no exterior, uma em cada escola, e ficar as outras duas em São Paulo, onde está morando com a família.

Nesta entrevista ao Estadão, ele analisa a “desglobalização” e o aumento do protecionismo no mundo. Segundo ele, a multiplicação das restrições comerciais deve levar ao “subdesempenho” da economia global nos próximos anos. “A economia de mercado está sob ataque”, diz. “Os Estados Unidos, que sempre foram um grande proponente da liberalização econômica, também passaram a ser uma economia muito restritiva e isso acaba tendo um efeito multiplicador em todo o mundo.”

Troyjo fala também na entrevista sobre as consequências da desaceleração da China e o protagonismo que caberá nas próximas décadas aos sete países emergentes de maior contingente populacional, que ele chama de E7, em contraposição ao G7 (grupo dos países mais desenvolvidos), além de abordar as incertezas dos investidores estrangeiros em relação ao governo Lula e as novas oportunidades existentes para o Brasil na produção de alimentos e nos campos da transição energética e da economia verde.

A economia global está impactada por uma política monetária e fiscal que foi a mais expansiva desde os anos 1970

Como o sr. avalia o atual momento da economia global, em meio à guerra na Ucrânia e ao acirramento da disputa comercial e geopolítica entre Estados Unidos e China? Como isso está moldando a economia mundial no momento?

A economia global ainda está impactada pela covid-19, que foi o maior desafio relacionado à saúde pública desde a gripe espanhola. Está impactada também por aquele que é o maior risco geopolítico no coração da Europa desde o fim da 2ª Guerra Mundial, que é o conflito na Ucrânia. E está impactada por uma política monetária e fiscal que foi a mais expansiva desde os anos 1970, como resultado do combate aos efeitos da covid, que gerou um passivo importante até agora não revertido. Neste ano, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, falou-se muito no termo “policrises”. Agora, além dessas questões conjunturais, a economia global está impactada por questões mais estruturais. A primeira delas vem dos países emergentes e de grande contingente populacional, que eu chamo de E7. A gente tem o G7, que abriga os países mais desenvolvidos, e o E7, que reúne China, Índia, Brasil, Indonésia, Turquia, México e Arábia Saudita. Hoje, do ponto de vista do PIB (Produto Interno Bruto) medido pela paridade do poder de compra, o E7 já é maior do que o G7. Isso tem uma implicação para países como o Brasil, porque realça as características do País como produtor de alimentos, como fornecedor de energia e como protagonista da economia verde. Outra grande questão é a mudança no DNA da economia da China, que deixou de ser um país de baixo custo.

Em sua avaliação, como essa mudança no DNA da China está afetando a economia global?

Além dos efeitos geopolíticos e da diversificação das fontes de suprimento que estavam alocadas na China, você tem uma espécie de diáspora dos ativos manufatureiros para outros países. Muitos países estão aproveitando essa onda para desenvolver suas próprias estratégias industriais. Veja o caso do Vietnã. O Vietnã tem hoje uma empresa de carros elétricos, a VietFast, que tem um valor de mercado maior que o da GM e o da Ford. Há cerca de oito anos, a Índia elaborou uma das estratégias industriais mais inteligentes que eu conheço, com a administração do primeiro-ministro Narendra Modri, que é o projeto “make in India”. Não é “made in India”, é “make in India”. O objetivo é absorver capitais que estão saindo da China com a criação de condições especiais para a produção manufatureira na Índia. Então, como resultado da desindustrialização da China, o que está ocorrendo é um redesenho das redes globais de valor e uma reindustrialização potencial — ou uma neoindustrialização, como eu gosto de dizer – em outros lugares. Usa-se muito hoje o termo friend shoring, que é a realocação da produção que estava baseada na China em um país considerado mais amistoso.

O que o sr. quer dizer exatamente quando fala em “país mais amistoso”?

No limite, para o investimento privado, isso significa oferecer condições de alcançar um balanço patrimonial saudável. E um balanço patrimonial saudável é resultado de muitas coisas, entre elas a facilidade para fazer negócios, com segurança jurídica e regimes de propriedade intelectual e de remessas de lucro que sejam atraentes para os investidores internacionais.

Fala-se muito hoje nesse processo de ‘desindustrialização’ da China. Como isso está ocorrendo na prática? Que processo de “desindustrialização” é esse?

Nós nos acostumamos a uma maneira de classificar a atividade econômica, talvez até de uma forma superada, que inclui o setor primário, formado pela agricultura e pela mineração, o secundário, que é indústria, e o setor terciário, que são os serviços. O termo desindustrialização, que eu mencionei em relação à China, diz respeito a esse tipo de classificação, à diminuição progressiva do peso relativo da manufatura no PIB chinês e à multiplicação de valor agregado por diferentes setores da economia, inclusive aqueles intensivos em tecnologia. Outra coisa muito interessante que está acontecendo na China é que a participação do comércio exterior no PIB passou de 65% em 2006 para 37% hoje. Isso não significa que o comércio exterior da China está diminuindo nominalmente. Continua a crescer. A China é a principal potência comerciante do mundo. Mas, como percentual do PIB, sua fatia diminuiu. A participação do setor manufatureiro no PIB chinês também era muito maior vinte anos atrás do que é hoje.

O mundo está caminhando para uma economia dirigista. Acho isso muito preocupante

Agora, com a pandemia, houve um aumento do protecionismo no mundo e um questionamento da globalização, que vinha crescendo de forma contínua até então. Muita gente fala até em “desglobalização”. Como o sr. analisa esse movimento, essa reconfiguração da economia mundial? De que maneira isso deverá influenciar o comércio e as relações econômicas globais nos próximos anos?

Eu publiquei um livro em 2016 chamado Desglobalização e a minha hipótese é que, quando houve aquele fenômeno gêmeo da queda do Muro de Berlim em 1989, e do fim da União Soviética em 1991, teve início um processo de globalização profunda, que foi mais ou menos até a quebra do (banco de investimento americano) Lehman Brothers em 2008, com a crise no mercado de hipotecas dos Estados Unidos. Aí, veio um período de transição, entre 2008 e 2011, e depois uma nova fase, que eu chamo de desglobalização. Mas o termo desglobalização aqui deve ser entendido como desaceleração. Um veículo que está desacelerando não significa que ele parou. Significa apenas que a progressão dele passou a se dar num ritmo menor. Houve uma diminuição da liberalização econômica e comercial em várias praças. Agora, é curioso que, ao mesmo tempo, novas geometrias de comércio e investimento estão surgindo. Houve uma proliferação dos centros internacionais de irradiação de investimentos. Isso significa também uma outra globalização. Por isso, acredito que a gente está começando uma fase de neoglobalização. Agora, dito isso, o que está acontecendo hoje no mundo é que a economia de mercado no mundo está sob ataque. Os princípios da economia de mercado estão sob ataque. O mundo está caminhando para uma economia dirigista. Acho isso muito preocupante.

O que o leva a dizer que a economia de mercado está sob ataque?

Ao analisar os discursos do Jake Sullivan, que é o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, o que a gente vê é a defesa do protecionismo comercial, com o alastramento dos subsídios por muitos setores da economia, e de uma legislação que permite expandir o conceito de conteúdo nacional. Ou seja, é uma combinação de características que, em vários países do mundo, não deu certo. Quando isso ocorre com a economia americana, quando você tem princípios de economia dirigista tão fortes nos Estados Unidos, isso gera efeitos multiplicadores em todo o mundo. Os europeus, os japoneses e os chineses acabam fazendo a mesma coisa e isso se transforma numa bola de neve. É um fenômeno que o Robert Zoellick, que foi presidente do Banco Mundial, está chamando de Washington Oriented Economy, que quer dizer uma economia dirigida por Washington, em vez de ser dirigida pelos grandes atores privados, que fizeram a grandeza da economia dos Estados Unidos. Recentemente, eles aprovaram uma legislação lá que restringe a participação de investimentos americanos em certos mercados, entre eles o chinês, o que acaba levando à criação de atravessadores. Como os americanos não podem mais investir na China ou comprar da China, eles vão comprar do Vietnã. Só que, como os vietnamitas compram dos chineses, o que ocorre é que o número de atravessadores acaba aumentando. É algo que a gente conhece muito bem na América Latina e que não deu certo.

Que efeito esse aumento do protecionismo deve provocar na economia global?

Subdesempenho. Toda a importantíssima expansão econômica do mundo emergente que nós testemunhamos nos últimos trinta anos está muito associada a uma economia mais aberta do que fechada. O período de maior expansão da economia chinesa foi quando ela esteve mais aberta do que fechada. Nós temos a experiência concreta do Brasil, que já teve o maior parque industrial do hemisfério sul, permaneceu com uma economia fechada e não conseguiu alcançar o desempenho que se esperava. Na América Latina, nós temos muitas experiências de nacional-desenvolvimentismo que levaram ao protecionismo e a economias ineficientes. A Índia foi assim durante muito tempo. O Egito também. A China foi assim de 1949 até 1978 e a performance econômica chinesa não foi nada impressionante. De 1978 para cá, quando a China começou a se abrir, é que as coisas mudaram. Agora, os Estados Unidos, que sempre foram um grande proponente de liberalização econômica, passaram a ser uma economia também muito restritiva. E isso provoca um efeito multiplicador, com a propagação da ineficiência. Nos oito anos de governo Clinton e nos oito anos de governo Obama, que também eram do Partido Democrata, como o presidente Joe Biden, foram períodos de negociação de grandes acordos internacionais e de maior responsabilidade fiscal. Não é o momento que a gente está vivendo agora, em que o governo pode tudo, pode fazer o que quiser do ponto de vista fiscal, pode fazer o que quiser com a moeda.

O Brasil pode ser a Arábia Saudita dos alimentos no mundo

Como o sr. vê as perspectivas do Brasil nos próximos anos nesse cenário de ataque à economia de mercado?

O Brasil tem atrativos e características que fazem com que a sua performance possa ser mais positiva do que a que é impactada pelos ciclos políticos eleitorais. O Brasil vai ter um fluxo comercial muito grande no setor de alimentação. Eu tenho participado de diferentes conferências no mundo todo e o termo “segurança alimentar”, que é a capacidade de equilibrar o fornecimento de alimentos com o tamanho da população, tornou-se onipresente, mesmo em fóruns que falavam só de dívida de mercados emergentes e projeções de inflação. Quais são os quatro maiores produtores de alimentos no mundo hoje? Os Estados Unidos, que são o maior produtor mundial, mas são deficitários na balança comercial, a China, que é importadora líquida de alimentos, por causa do tamanho da população, a Índia, que é uma grande produtora, mas ainda tem muita ineficiência, muita propriedade baseada apenas na agricultura de subsistência, e o Brasil, que é o país onde você tem realmente o que eu gosto de chamar de “teto retrátil” para a produção agrícola, por conta de nossos “rios voadores”, de nossos índices pluviométricos e do nosso acesso a recursos hídricos. O Brasil é o grande ator dessa coisa toda, é uma superpotência do agronegócio. O Brasil pode ser a Arábia Saudita dos alimentos no mundo.

Agora, há muitos gargalos de infraestrutura para escoar toda essa produção, que acabam aumentando o chamado “custo Brasil”. Até que ponto isso pode prejudicar o País nesse processo?

Nós nos acostumamos a dizer que o Brasil é muito competente da porteira para dentro, mas tem dificuldade de escoar a produção porque tem estradas em más condições, poucas ferrovias e portos que não funcionam. Num contexto em que você tem uma gigantesca atenção voltada para segurança alimentar, isso passa a ser um problema global. E problemas globais geram possibilidades de solução global. Então, o estoque de investimento disponível para o Brasil hoje, para ajudar a resolver nosso déficit de infraestrutura, é muito grande.

O sr. está dizendo que o Brasil poderá, enfim, deixar de ser o país do futuro para ser o país do presente, mesmo num cenário complicado para a economia global?

Eu adoro aquela frase do filósofo espanhol José Ortega y Gasset: “Yo sou yo e mis circunstancias”. O Brasil é o Brasil e suas circunstâncias. E quais são as circunstâncias? Olha que dado fenomenal: o mundo hoje tem oito bilhões de pessoas. Até 1º de janeiro de 2050, haverá mais dois bilhões de pessoas no planeta. Ou seja, o crescimento populacional líquido nos próximos 27 anos será de dois bilhões de pessoas. Sabe quanto tempo levou para a humanidade ter dois bilhões de pessoas? 1927 anos. Agora, o mundo tem hoje pouco mais de 190 países e nos próximos 27 anos só haverá crescimento populacional líquido em nove: Índia, Paquistão, Nigéria, Uganda, Etiópia, Quênia, República Democrática do Congo e um crescimento marginal nos Estados Unidos. Nós crescemos com noção de que o Brasil tinha a quinta maior população do mundo, abaixo de China, Índia, Estados Unidos e Indonésia. Mas hoje já fomos ultrapassados pela Nigéria e pelo Paquistão. Se você fizer uma geografia do crescimento populacional no mundo, com exceção dos Estados Unidos, ele vem todo do mundo emergente e muito da África.

Hoje, há uma certa polifonia por parte do governo brasileiro que confunde os investidores estrangeiros

O sr. fala dessas circunstâncias favoráveis ao Brasil, mas a gente observa hoje um quadro preocupante, com a desaceleração da economia chinesa e o “subdesempenho” da economia global, que o sr. mesmo mencionou. Isso não tem de entrar na conta também?

Nós estamos vivendo agora uma conjuntura difícil para alguns mercados emergentes, inclusive a China, que é o mais importante deles. Mas a Índia, por exemplo, que ultrapassou a China como país mais populoso do mundo há quatro meses, vai crescer 6% este ano. A Indonésia, mais de 4%. Isso quer dizer que, no próximo quarto de século, o crescimento da população e da economia virá do E7, aquele grupo de países emergentes de grande contingente populacional do qual eu falei no início da nossa conversa. Os países do E7 vão crescer muito e a experiência internacional mostra que, quando você tem crescimento tão vertiginoso a partir de uma renda per capita razoavelmente baixa, a demanda por alimentos aumenta. Se a Índia, que tem renda per capita de US$ 3.000, continuar a crescer 6% ao ano, como está ocorrendo, a renda per capita vai dobrar em 12 anos. O que acontece quando você sai de uma renda per capita de US$ 3 mil para US$ 6 mil? Você come mais. Isso vai levar a uma mudança estrutural no mapa de demanda por alimentos no mundo. Se você associar essa mudança ao redesenho das cadeias globais de valor e ao potencial do Brasil na produção de alimentos e nos campos de energia e da economia verde, o cenário é muito favorável ao País.

Em que medida o Brasil já está se beneficiando com esse novo quadro?

Essa é uma das razões pelas quais o Brasil está caminhando para ter uma corrente comercial de US$ 1 trilhão. Mesmo num ano difícil como 2022, a corrente comercial do País chegou a US$ 600 bilhões, a maior da história. Em 2022, o Brasil teve o maior superávit comercial da sua história. Em 2022, o Brasil teve o maior nível de exportações da sua história. De 2019 a 2022, o comércio brasileiro cresceu com todas as regiões do mundo. Em 2022, o Brasil também foi o principal destino de investimento estrangeiro direto como proporção do PIB, dentre as economias do G20 (grupo que reúne as 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia). Em termos nominais, o Brasil oscilava entre o 5º e o 6º lugar na lista dos países que mais atraem investimentos diretos do exterior. Foi para o 3º lugar e o montante de capital que entrou como percentual do PIB nominal é o maior da história. Isso tem muito que ver com essa mudança no cenário internacional, no qual o Brasil tende a ser um jogador muito importante.

O (banco de investimento) Goldman Sachs lançou há cerca de 2 meses um paper chamado The rise of geopolitcal swing states (a ascensão dos países oscilantes na geopolítica), em referência aos swing states da política americana, que de vez em quando pendem para o lado democrata e de vez em quando para o lado republicano. Nesse estudo, eles analisam por que o Brasil se tornou um ator indispensável na produção mundial de alimentos e de energia e eventualmente na transição para a economia verde. É um diagnóstico que reforça a visão sobre o papel relevante que caberá ao Brasil nesse novo quadro global.

Desde que deixou o comando do Banco do Brics, o sr. tem circulado bastante pelo mundo e conversado com muitos investidores estrangeiros. Como eles estão vendo o novo governo e o que mudou até agora em relação ao que ocorreu em 2021 e em 2022? Como está a imagem do Brasil lá fora?

Eu estou muito impressionado. Os números que mencionei há pouco falam por si mesmos e mostram que os investidores estrangeiros diretos tinham noção clara de que estava acontecendo algo na economia brasileira naquele período. Há algumas semanas fiz a palestra de abertura num congresso internacional de hidrogênio verde e o montante de recursos que você tem na Europa, particularmente na Alemanha, para investir na produção de hidrogênio verde no Brasil, é enorme. O Brasil tem uma experiência longa em bicombustíveis e um horizonte promissor pela frente. Eu também estive este ano numa reunião em Cingapura e muita gente queria saber de investimentos no Brasil. Ouvi de um investidor de infraestrutura de Cingapura uma coisa interessante, que em 2022 o Brasil estava no sexto ano e meio de reformas estruturais. Em 2019, eu me lembro de estar conversando com um analista de mercados emergentes de um grande banco europeu e ele dizer o seguinte: “Hoje, o Brasil é o epicentro do processo de reformas estruturais no mundo emergente”. E ele tinha razão. Nós fizemos as reformas da Previdência e trabalhista, privatizamos a Eletrobras, realizamos diversas concessões, vendemos diversas empresas controladas por estatais, mudamos os marcos regulatórios do saneamento, da navegação de cabotagem, das ferrovias e do gás natural e melhoramos o ambiente de negócios. Concluímos também o maior acordo comercial entre blocos da história, que é o acordo do Mercosul com a União Europeia. Não foi pouca coisa.

Agora, você pode desperdiçar essa oportunidade ou subaproveitá-la, estancando o processo de reformas estruturais e não indo adiante no tema das concessões e privatizações, criando instabilidade jurídica. Hoje, o que está acontecendo é que você tem lado a lado esse quadro favorável ao País e uma certa polifonia por parte do governo brasileiro, com a tentativa de reversão de privatização da Eletrobras e do marco do saneamento, que confunde os investidores. Havia mais unidade quando o (ex-ministro da Economia) Paulo Guedes era a grande voz internacional da economia brasileira. Uma característica da gestão econômica do Paulo Guedes é que havia muita coordenação entre os diferentes atores. Se você pegar o (Gustavo) Montezano (ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), o Adolfo Sachsida (ex-ministro de Minas e Energia e ex-secretário de Política Econômica), o Caio (Paes de Andrade, ex-presidente da Petrobras e ex-secretário de Desburocratização do Ministério da Economia) e eu, entre outros da equipe econômica na época, a gente tem uma visão de mundo baseada em economia de mercado, na concorrência, na liberalização comercial. Por meio dessa mesma visão de mundo, você cria um consenso que tem força.

Os investidores estrangeiros percebem claramente que, apesar dessa polifonia mais central, há muitos governadores bons no Brasil

Como essa “polifonia” do atual governo está afetando a percepção dos investidores diretos estrangeiros?

É como se houvesse duas forças magnéticas operando ao mesmo tempo. Há uma força que demanda mais cuidado, na linha do “vamos ver o que esta nova administração vai fazer”. Isso desacelera ou modula o interesse dos investidores. Ao mesmo tempo, os países precisam comer. Você precisa criar alternativas energéticas, tem de promover a transição verde. A minha impressão é de que, entre esse polo mais atraente do Brasil e o outro, que sugere mais cautela, o polo mais atraente acaba se sobrepondo. Tudo isso, como eu falei há pouco, é mais forte do que os ciclos políticos eleitorais. É como se o Brasil tivesse uma espécie de rede protetora, que muitos países não têm, para evitar os piores cenários possíveis. É um privilégio, mas por vezes serve também para desencorajar a realização de reformas mais ambiciosas. Agora, os investidores percebem claramente que, apesar dessa polifonia mais central, há muitos governadores bons no Brasil, como os do Paraná, de Goiás, do Mato Grosso, do Rio Grande do Sul, de São Paulo, de Minas. Tem gente que está percebendo o que está acontecendo no mundo e está ajustando, no que lhes cabe, os seus discursos e as estruturas de políticas públicas para fazer frente a essa oportunidade.

O curioso é que, durante o governo Bolsonaro, a narrativa predominante dizia que a imagem do Brasil lá fora era a pior possível, que o Brasil estava isolado e era um pária no cenário global. No entanto, houve esse desempenho que o sr. mencionou há pouco, com números espetaculares no setor externo. E agora, quando prospera a narrativa de que teria chegado um “redentor”, que vai colocar o Brasil de volta no centro dos acontecimentos e atrair bilhões e bilhões de dólares ao Brasil, os investimentos estrangeiros diretos no País caíram 40% nos primeiros seis meses do governo Lula, segundo os dados do Banco Central, e há incertezas em relação ao que pode acontecer na economia. Como o sr. avalia essa dicotomia entre a realidade dos números e as narrativas?

Eu me lembro muito de uma entrevista do Carlos Alberto Parreira, quando o Brasil disputou a semifinal da Copa de 1994 contra a Suécia e ganhou de 1 a 0, com gol de cabeça do Romário. Na coletiva de imprensa, um repórter disse para ele: “Professor Parreira, o Brasil jogou feio, jogou mal, e a imagem do futebol brasileiro é sempre da alegria.” Aí o Parreira falou o seguinte: “Olha, eu aprendi a ver o jogo pelos números. Quantas vezes o meu goleiro foi vazado? Quantas vezes o time adversário fez uma jogada de linha de fundo e cruzou para a nossa área? Quantas vezes a gente agrediu o gol adversário? Quantas vezes a gente chutou de meia distância com perigo?” Então, por meio dos números, o Parreira mostrou que a performance do Brasil tinha sido boa. O Brasil foi para a final com a Itália e ganhou o título nos pênaltis. Essas coisas também valem agora, para a economia. Se você pensar em qualquer Nação hoje, na ótica do que a gente chama no Brasil de uma forma bem ampla de “imagem do País no exterior”, vai ver que todos os países têm seus problemas. Se a gente olhar a França, tem gente que verá ali elementos de decadência. Se olhar a Inglaterra, idem. Se olhar a China, vão fazer críticas à política econômica e ao regime de governo. Se olhar os Estados Unidos, vão dizer “poxa, esse é um país que tem a crise dos opioides, está muito polarizado”.

Na sua opinião, então, a imagem do País lá fora não tem tanto impacto nas decisões dos investidores estrangeiros?

A imagem de um país no exterior é importante. Não estou dizendo que não seja. Mas ela precisa ser contrastada com uma realidade mais concreta, que é a realidade dos números. Se o Brasil chegou a esses números em 2021 e em 2022, todos relacionados ao exterior, e se a imagem do Brasil era tão ruim quanto se dizia, a gente pode chegar mesmo à conclusão de que a imagem não é tão importante assim — e isso não é verdade. Acho que imagem é uma coisa muito importante. Então, se a imagem do Brasil nesse período foi ruim, quando o Brasil aumentou a sua fatia no comércio internacional, aumentou a sua fatia como destino de investimentos estrangeiros diretos e concluiu o maior acordo comercial entre blocos da história, que é o acordo do Mercosul com a União Europeia, há algo estranho aí, que merece uma reflexão mais profunda.

Sustentabilidade não significa necessariamente intocabilidade ou ‘museificação’ dos recursos naturais

O acordo do Mercosul com a União Europeia pode até ter sido concluído, como o sr. diz, mas não foi implementado, “subiu no telhado”, como se diz por aí.

Ele precisa ser assinado.

Houve restrições de parte da Europa, em decorrência de posições adotadas pelo governo Bolsonaro, em especial na área ambiental, que acabaram retardando a formalização do acordo.

Mas o acordo estava fechado. Era uma questão de insistir na percepção de que as metas de comércio, de meio ambiente, de formação de parcerias e joint ventures são mais fáceis de alcançar com o acordo do que sem o acordo. A gente fez também o acordo com o Efta (Associação de Livre Comércio Europeia), que reúne aqueles europeus muito ricos que não adotam o euro (Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça) e começou o processo de adesão formal à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Ou seja, tudo isso se deu nesse período do qual a gente está falando.

Como o sr., que participou da negociação do acordo do Mercosul com a União Europeia, vê a perspectiva de sua assinatura agora e as restrições do atual governo à liberalização das compras governamentais, que estava incluída na versão original?

Eu tenho uma visão econômica de mundo mais liberal. Por meio de compras governamentais liberalizadas, com mais concorrência, a tendência é de que haja um aumento da eficiência e a diminuição dos custos. Agora, para prosseguir com a dinâmica do acordo Mercosul-União Europeia, acredito que é importante que as conversas não fiquem só centralizadas na questão ambiental e nas compras governamentais, mas que ambos os blocos entendam com muita clareza que, se de fato haverá uma fase agora de subdesempenho da economia internacional, por conta do protecionismo de alguns dos principais atores globais, como os Estados Unidos e a China, as oportunidades vão minguar. No momento em que você tem a perspectiva de implementar um processo de liberalização progressivo no comércio entre o Mercosul e a União Europeia durante os próximos 15 anos, isso automaticamente vai estimular a formação de parcerias econômicas e dos fluxos comerciais de parte a parte. O Brasil ganha mais um grande mercado e facilita as regras para investimento europeu e para que eles usem o País como uma importante plataforma para alcançar outros mercados na América Latina. Os grandes acordos de comércio na realidade são acordos de investimento. Veja o caso dos Estados Unidos, do México e do Canadá, em que há um fluxo de investimentos industriais, manufatureiros para o México, cujo principal destino é o próprio mercado americano.

Como a política ambiental na Amazônia, a eventual exploração de petróleo no que chamam de Foz do Amazonas, pode influenciar o investimento estrangeiro e a percepção do Brasil no exterior?

O Brasil tem uma responsabilidade primordial com o seu próprio desenvolvimento e o seu próprio interesse nacional. Dito isso, nós fazemos parte de diferentes convenções internacionais de proteção do meio ambiente, inclusive da Amazônia. A questão sustentabilidade não significa necessariamente a intocabilidade ou da “museificação” dos recursos naturais. Nós precisamos tomar cuidado com a utilização de discursos protecionistas que se valem desse verniz ambiental para fechar mercados, subsidiar produtores e discriminar o Brasil. Outro elemento que a gente tem que levar em conta é que cada vez mais caem no gosto do consumidor internacional os produtos que têm selo verde, que tem uma boa relação entre emissão de carbono e produção, processos de produção que são sustentáveis. Essa não é apenas uma característica de proteção comercial, mas também de preferência do consumidor. Precisamos estar atentos a isso.

Para finalizar, uma palavra sobre a candidatura do Brasil à OCDE, chamada pelo presidente Lula de “clube de países ricos”, que não será “prioridade” para o atual governo. Como o sr. avalia essa decisão?

Todos os países que tiveram um aumento de renda considerável, uma prosperidade considerável, por meio de atividades de comércio exterior e atração de investimentos, fizeram isso em parceria com países ricos. Acredito que não existem exemplos mais eloquentes que os da China e da Coreia do Sul. Não há nada contra países ricos. E na OCDE há países de menor desenvolvimento relativo, como Costa Rica, Chile e México. A importância da OCDE vai muito além disso. Por que a adesão à OCDE é importante? Porque daria uma característica única ao Brasil. O Brasil seria o único país a ser membro do Brics, com a Rússia, a China, a Índia e a África do Sul, do G20 e da OCDE.

Os acordos comerciais e de investimentos do presente e do futuro não são mais os velhos tratados de tarifas e cotas. Eles são também entendimentos sobre padrões: trabalhistas, de propriedade intelectual, de compras governamentais. Se a gente está na OCDE, tem mais capacidade de influir no desenho disso, para beneficiar a nossa economia, do que se ficar de fora. Caso contrário, você deixa de ter uma mão na modelagem dos grandes marcos jurídicos dos tratados. Ao participar desse grupo, a gente fica também mais habilitado para outras geometrias de acordos comerciais. Se a gente for negociar um acordo comercial com Cingapura, com os Estados Unidos ou com o Japão, muito daquilo que foi trabalhado e ensaiado no âmbito da OCDE vai ser também aplicado. Além disso, depois da crise de 2008, muitos investidores, sobretudo aqueles de característica internacional, passaram a abraçar critérios de governança abraçados pela OCDE. Para entrar na OCDE, você tem de fazer uma série de lições de casa prévias. Então, se isso tiver continuidade, o Brasil vai se credenciar também a girar a chave do cofre para receber esses recursos, porque os próprios estatutos desses fundos de investimento facilitam a alocação de recursos em um país que abraça os parâmetros adotados pela OCDE. O Brasil criaria uma camada adicional de investimento para sua economia.

https://www.estadao.com.br/amp/economia/a-economia-de-mercado-esta-sob-ataque-no-mundo-diz-ex-presidente-do-banco-do-brics/

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