Estudo ilumina dia do choque de asteroide na Terra, há 66 milhões de anos

Poeira mineral espalhada pelo planeta provocou o inverno que mataria 75% da fauna e da flora — episódio crucial para entendermos os nós climáticos de hoje

Por Luiz Paulo Souza – Veja – Publicado em 10 nov 2023

Era o melhor dos tempos para os dinossauros que habitavam a Terra. E então, há 66 milhões de anos, houve o pior dos dias. Uma enorme rocha de 12 quilômetros de largura, um asteroide hoje conhecido por um carnaval de consoantes e vogais, o Chic­xu­lub, despencou dramaticamente onde hoje está a Península de Yucatán, no México. O impacto — 4,5 bilhões de vezes maior do que o da bomba de Hiroshima — levou à extinção de 75% de todas as espécies de plantas e animais da Era Mesozoica, inclusive os cultuados dinossauros. A força da rocha teria liberado enxofre e ácido sulfúrico na atmosfera, atalho para intermináveis chuvas ácidas. O escudo barrou a entrada de luz solar, as nuvens deixaram o ambiente escuro, impedindo o processo de fotossíntese e a abrupta diminuição de temperatura, em longo e severo inverno. 

Daria um filme-catástrofe — como, aliás, deu, e muitos. Foi a senha para milhares de estudos, incontáveis montagens ilustrativas. O fascínio por aquela tragédia seminal ainda hoje alimenta a humanidade, entre o enigma e a investigação, em um mar de incertezas. Virou, é natural, assunto pop, de permanente interesse. Faça a experiência, é engraçado: ponha “Chicxulub” no Google. Vai aparecer um meteoro animado, vindo da esquerda para a direita, a caminho do pé da página, que chacoalha ao contato da pedra.

Aquele instante indizível não cansa de entregar segredos, e brotou agora uma novidade que aponta para uma compreensão inédita. Um estudo publicado na reputada revista Nature Geoscience informa que a poeira de sílica, ou o pó de dióxido de silício — e não o enxofre ou o ácido sulfúrico — é que teria acelerado e mantido o esfriamento. Em alguns trabalhos científicos, a sílica tinha sido posta em cena, mas foi logo esquecida. “Tê-la na equação de volta nos deixa até emocionados”, disse a VEJA o pesquisador-chefe do estudo, Cem Berk Senel, do Observatório Real da Bélgica. 

A extraordinária conclusão deu-se a partir da investigação de partículas preservadas em um sítio geológico do estado americano de Dakota do Norte, próximo da colisão primordial. A poeira mineral, levantada depois do choque, teria ficado em suspensão por até quinze anos e ela é que teria puxado os termômetros em pelo menos 15 graus. “Em até quatro anos houve um colapso das grandes espécies em decorrência do frio e da falta de alimentos”, diz Aline Ghilardi, paleoecóloga e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. “É a extinção em massa mais rápida de que temos registro.” Mas se os efeitos foram tão profundos, como o um quarto de espécies restantes conseguiu passar ileso? 

O evento é uma das provas definitivas da teoria da evolução. Enquanto os seres dependentes apenas de plantas e frutos, assim como seus predadores diretos, foram mais afetados pelo fenômeno, os animais marinhos, que demoraram mais para sentir o efeito do frio, e os espécimes com padrões alimentares mais variados, como os então primitivos mamíferos, tiveram mais tempo para se adaptar. Prosperaram, portanto, os mais resilientes.

Mapa Dinossauros

A revelação da poeira é celebrada por enxergar o que ocorreu lá atrás, claro, mas também por iluminar o futuro. “O conhecimento mais profundo em torno do fenômeno nos ajuda a compreender a morte dos dinossauros e outros animais, mas também a projetar possíveis crises climáticas”, diz Berk Senel. Por óbvio, o que se supunha para o estrago provocado anteriormente pelo Chicxu­lub foi sempre relevante — e, ressalve-se, não é o caso ainda de abandonar a tese do enxofre e do ácido sulfúrico. 

Contudo, ao cravar a liberação no ar da sílica — que, aliás, em sua forma cristalina dá origem ao quartzo, ao topázio e à ametista, e que pode ser vista em profusão em diversos cantos do mundo —, os cientistas conseguem ser assertivos, ao ter certeza de que as grandes extinções são causadas por alterações drásticas da natureza. É impossível evitá-­las, mas convém não incentivá-las, daí a importância de, hoje, manter atenção para as mudanças climáticas aceleradas pelo ser humano. Eis a beleza da descoberta: saber o que houve há 66 milhões de anos é atalho para enxergar o aqui e agora, olhando para a frente.

Publicado em VEJA de 10 de novembro de 2023, edição nº 2867

https://veja.abril.com.br/ciencia/estudo-ilumina-dia-do-choque-de-asteroide-na-terra-ha-66-milhoes-de-anos

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O maior hub de inovação da América Latina

Com mais de 13.000 startups, uma população fortemente digitalizada e portas abertas para soluções vindas de fora, Brasil é o grande polo tecnológico da região

Lilian Rambaldi – Exame – Publicado em 10 de novembro de 2023 

Junto da reconhecida potência no agronegócio ou em energia renovável, existe um Brasil líder também em inovação na América Latina e Caribe e em contínua ascensão. Pelo terceiro ano consecutivo, o país subiu posições no Global Innovation Index (GII), o mais amplo e conceituado ranking internacional de avaliação dos países em relação aos seus ecossistemas de inovação.

Na edição de 2023, divulgada recentemente pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO, na sigla em inglês), que realiza o estudo, o Brasil foi o que mais avançou na classificação — subiu cinco degraus —, consolidando-se entre as 50 economias mais inovadoras do mundo.

Segundo Sacha Wunsch-Vincent, coeditor do GII, o desempenho em inovação do país é tão expressivo que tem consistentemente superado o seu próprio nível de desenvolvimento. “Isso é fruto de esforços sustentados do Brasil para converter recursos de inovação, como a capacidade do setor corporativo de impulsionar a pesquisa e o desenvolvimento e, em geral, a excelente infraestrutura nacional de P&D, que leva a resultados como manufatura de alta tecnologia, produção de software e capacidade de produzir unicórnios”, argumenta.

No relatório, o país apresenta pontuações elevadas em indicadores como serviços governamentais online (14ª posição) e participação eletrônica (11ª), situando-se entre as 15 economias mais bem avaliadas nas duas categorias. O Brasil também se destaca por seus ativos intangíveis (31ª), com bons resultados em marcas registradas (13ª) e valor global de suas marcas (39ª).

“O Brasil prospera em um ambiente favorável ao empreendedorismo, por um lado, e com a presença de multinacionais brasileiras com valor de marca global cada vez mais forte”, pontua Wunsch-Vincent. “E há uma alta capacidade das empresas de gerar ativos intangíveis, como propriedade intelectual, software ou reputação, e de transformá-los em valor empresarial para o crescimento nacional impulsionado pela inovação”, acrescenta o especialista da WIPO. “A evolução do ecossistema brasileiro é perceptível em diversas frentes. Temos centros de inovação cada vez mais avançados, programas de apoio às startups cada vez mais maduros, novos modelos de negócios sendo aplicados tanto pelos empreendedores quanto pelos investidores, e tudo isso gera mais oportunidades, mais trocas e mais competitividade”, avalia Lívia Carbonell, coordenadora de investimentos da ApexBrasil.

Um ecossistema robusto

Os resultados positivos no GII refletem o papel fundamental da tecnologia em avanços relevantes do país nos últimos anos, permeando todos os setores, desde a inclusão de mais pessoas no sistema financeiro até a melhoria do acesso à saúde na pandemia ou o aumento da produtividade e da sustentabilidade no agronegócio.

O Brasil tem hoje um ecossistema substancialmente mais robusto, na visão de Eduardo Fuentes, chefe de pesquisa da plataforma de inovação Distrito. “Os empreendedores estão cada vez mais capacitados. Contamos com um número crescente de investidores dispostos a apostar no país, as corporações reconhecem a inovação aberta como um caminho viável para melhorar seus negócios e temos um governo com uma agenda positiva em relação a esse assunto”, diz.

Esse amadurecimento explica a liderança absoluta do Brasil em número de startups na América Latina, firmando-se como o grande hub de inovação da região. São mais de 13.000 startups, representando 62,9% do total, bem à frente do segundo colocado, o México, com 11,7%, de acordo com o estudo Panorama Tech América Latina 2023, realizado pela Distrito.

O país é também o campeão latino-americano em número de unicórnios, startups avaliadas em pelo menos 1 bilhão de dólares antes de abrirem capital: são 24 companhias, segundo o levantamento, o que significa que mais da metade dos unicórnios de toda a América Latina, que somam 45, está aqui.

Fintechs se destacam

O mercado financeiro é historicamente o mais forte em inovação no Brasil, abrigando o maior número de startups e concentrando o maior volume de investimentos. Fuentes salienta que, apesar da maturidade do segmento, avanços consideráveis estão acontecendo, especialmente devido a uma agenda pró-inovação altamente positiva do Banco Central nos últimos anos. “Essa abordagem tem sido fundamental para garantir um maior acesso da população a produtos financeiros, resultando na inclusão de 75 milhões de brasileiros no sistema bancário nos últimos anos. Com uma diversidade maior de opções, a concorrência se intensificou, elevando o padrão geral para todos os produtos e serviços bancários”, afirma.

Área da saúde tem espaço para inovar

Entre os campos em crescimento hoje, o da saúde é um dos que apresentam mais oportunidades. A pandemia desencadeou uma verdadeira transformação no mercado, abrindo portas para inúmeras possibilidades. Atendimento remoto, implementação de prontuários eletrônicos e uso de inteligência artificial para diagnósticos são apenas alguns exemplos desse movimento, que se beneficiaram das evoluções regulatórias e conceituais no país.

Mas ainda há muito espaço para desenvolvimento, especialmente no segmento farmacêutico. De acordo com Norberto Prestes, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi), aumentar o número de startups deep techs (capazes de desenvolver novas drogas) é um dos objetivos pela frente. Um esforço importante nessa direção é o Programa de Inovação Radical da Abiquifi, que busca convergir iniciativas governamentais e privadas para o desenvolvimento de um ecossistema de inovação voltado para a cadeia farmacêutica.

Uma das faces da articulação estratégica, que conta com o envolvimento da Anvisa, é a criação de um parâmetro regulatório que ajude a promover a inovação radical no país, em nível internacional. “A discussão de normas regulatórias será determinante para o ritmo dos avanços esperados com inovação. Isso sem esquecer do equilíbrio entre a necessidade de normativas que tragam proteção e segurança às pessoas e o respaldo para a experimentação e a aprovação de tecnologias inéditas”, diz Prestes.

Terreno fértil para startups estrangeiras

O dinâmico mercado brasileiro — não só produtor de tecnologia mas grande consumidor de inovação — é também um destino atrativo para startups estrangeiras, que buscam ganhar tração. E há espaço para crescer. Com uma população de 203 milhões de habitantes e o maior Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina, o mercado nacional é imenso tanto em número de consumidores quanto em capacidade para abraçar novas soluções. “Também estamos bem colocados quanto à penetração da internet, com uma taxa de 81%, o que facilita o desenvolvimento de soluções tech por aqui”, pontua Eduardo Fuentes.

Esses fatores chamam a atenção de startups de fora, muitas provenientes de mercados vizinhos, que veem no Brasil uma oportunidade de expansão. “O fenômeno é observado em todos os setores, desde o financeiro até o imobiliário”, destaca.

É o caso da Rappi, startup colombiana de delivery, cujo ingresso no mercado brasileiro teve peso relevante para que a empresa atingisse o status de unicórnio em 2018. De acordo com Tijana Jankovic, vice-presidente global de negócios da Rappi, a maior base de usuários é exatamente o Brasil, ao lado do México. “Foram esses dois mercados que colocaram a companhia como um grande player de patamar mundial, na América Latina”, comenta.

Primeiro, porque o Brasil garante fatores macroeconômicos que favorecem a expansão e a sustentabilidade de negócios como o da Rappi, como grande representatividade de população urbana, alta digitalização da população e um segmento de usuários com elevado poder aquisitivo. Depois, nas palavras de Tijana, porque dos nove mercados em que a startup atua, o Brasil tem, de longe, o maior nível de exigência de produto, tecnologia e atendimento ao cliente. “Com isso, a Rappi teve que se desenvolver muito no aspecto tecnológico e operacional para, de fato, atender o usuário brasileiro com a melhor experiência possível. Esse know-how adquirido no Brasil fez com que a Rappi se desenvolvesse e se destacasse em todos os mercados onde opera”, afirma.

Rebocador da Wilson Sons: startup israelense DockTech monitorará mais de 754 quilômetros de vias navegáveis em associação

Apoio à entrada de novas soluções

Outro exemplo bem-sucedido é o da israelense DockTech. Usando inteligência artificial e dados dinâmicos, a empresa reproduz digitalmente as condições do leito marinho de portos e vias de navegação em tempo real, aumentando a eficiência e a segurança das operações marítimas e portuárias.

A startup entrou no mercado brasileiro com o suporte do ScaleUp in Brazil, programa premiado pela ONU da ApexBrasil e da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP) que apoia empresas internacionais inovadoras com a metodologia e as ferramentas necessárias para que comecem a operar no país. “O programa foi fundamental para que a DockTech fosse exposta aos players brasileiros e entendesse a melhor forma de atuar no nosso mercado. O objetivo foi trazer maturidade à empresa para que tivesse sucesso por aqui”, explica Raquel Kibrit, que foi a country manager da startup nesse processo de ingresso no mercado.

Missão cumprida. Associada à Wilson Sons, maior operadora integrada de logística portuária e marítima do Brasil, a israelense acaba de protagonizar um marco no país: depois de um acordo de cooperação técnica com o Porto de Santos, o maior complexo portuário da América Latina, a empresa assinou o primeiro contrato comercial de uma autoridade portuária, a Portos RS, com uma startup. Por meio dos rebocadores da Wilson Sons e outras embarcações que operam na região, a companhia vai monitorar o leito de mais de 754 quilômetros de vias navegáveis administradas pela Portos RS, em Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre, no sul do país.

Esses são alguns exemplos de como o Brasil não só é celeiro de startups como também um porto seguro para aquelas que, por aqui, querem atracar. 


O revolucionário Pix

Em três anos, inovação do Banco Central se tornou o sistema de pagamento mais usado no Brasil — e recebeu prêmios internacionais pela inclusão financeira sem precedentes

Uma das grandes inovações financeiras do país é certamente a criação do Pix em 2020 pelo Banco Central. O sistema de pagamento instantâneo brasileiro é um dos mais bem-sucedidos do mundo. O êxito do sistema é nítido: após três anos do lançamento, ele já supera todas as demais formas de transacionar dinheiro no país, como cartões de crédito, débito ou boleto. Somente em um dia, 6 de outubro, por exemplo, foram realizadas 163 milhões de transferências via Pix, segundo o Banco Central. Pela inclusão financeira sem precedentes promovida pela ferramenta, o Pix acaba de receber um prêmio internacional nos Estados Unidos, o Bravo Business Awards, que reconhece a excelência e a liderança em negócios e políticas públicas.

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Lilian Rambaldi

Repórter

Jornalista com mais de 20 anos de experiência no mercado. Atuação em grandes empresas de mídia do país, como coordenadora de projetos de branded content, editora-chefe, editora, repórter e redatora.

https://exame.com/revista-exame/o-maior-hub-de-inovacao-da-america-latina/

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‘Mercado da honestidade’ ganha espaço no Brasil, com multiplicação de lojas do tipo ‘pegue e pague’

País já tem de 5 mil a 6 mil estabelecimentos comerciais, sem caixa ou atendente, instalados em condomínios ou prédios corporativos

Por João Sorima Neto — O Globo – 05/11/2023 

O Brasil já viveu o boom dos hipermercados, dos atacarejos, das lojas de conveniência e agora vê um novo fenômeno, o das lojas de super proximidade, dentro de condomínios ou prédios corporativos. Elas se baseiam no “mercado honesto”, ou seja, não há atendentes e o cliente pega e paga pelos produtos.

Analistas estimam que já existam de 5 mil a 6 mil lojas do tipo no país, com potencial para movimentar até R$ 3,5 bilhões por ano, com salgadinhos, refrigerantes, comida congelada, desodorantes e produtos de limpeza.

— É um modelo que interessa às grandes marcas porque está quase “no sofá das casas” e vai crescer num ritmo de 10% nos próximos anos — diz Jean Paul Rebetez, sócio-diretor da Gouvea Consulting, braço de consultoria da Gouvea de Souza, especializada em varejo.

A Gouvea Consulting fez um estudo sobre essa tendência. Em condomínios com mais de 30 casas já surgem “lojas autônomas”, em cidades do interior do país ou periferias das grandes cidades. Elas se parecem mais com gôndolas de supermercados, e são diferentes das vending machines.

O conceito de mercado honesto foi consolidado pela Amazon, que criou a Amazon.Go, mercado inteligente que usa tecnologia para realizar as vendas sem intervenção humana, e entrou em operação comercial em 2018.

Há lojas similares a minimercados, em locais mais protegidos, com câmeras, e dispositivos antifraudes, como identificação do cliente pelo CPF. Mas as menores ficam em locais como o saguão de empresas ou academias de ginásticas, que contam no máximo com a câmera de vigilância do prédio.

O índice de clientes que “esquecem” de pagar pelos produtos no país fica entre 2,7% e 3,5%, dentro do que acontece em outros países, o que não traz prejuízo às operações. Mas quando esse índice sobe, num condomínio, por exemplo, a empresa pode pedir ajuda do síndico e das câmeras.

A comodidade nas compras, porém, tem custo:

— São (preços) entre 10% e 15% mais altos do que no mercado da esquina. É um prêmio que as pessoas acham que vale pagar — diz Jean Paul, da Gouvea Consulting.

A jornalista Helena Benfica, de 24 anos, de Belo Horizonte, costuma pegar lanches da tarde nas gôndolas de honest market da cidade.

— Ajuda muito quando a fome aperta, mas é preciso saber que os valores são mais altos — afirma.

Grandes redes e startups

Grandes redes de varejo alimentício estão aderindo ao modelo. O Hirota, rede de mercados de São Paulo, tem 120 lojas na capital paulista, em grandes condomínios residenciais, e abriu doze Hirota Office, em empresas como Bradesco, Magalu, Itaú e Santander. A meta é chegar em 2025 com 500 pontos em condomínios residenciais.

— Nossas lojas são em condomínios com mais de 300 apartamentos e vão muito bem, tendo o melhor resultado da companhia — diz Helio Freddi Filho, diretor de expansão do Hirota.

O Carrefour tem 29 mercados autônomos em São Paulo, a maioria em condomínios. Pelo aplicativo, o consumidor tem acesso à loja, escaneia os produtos, consulta preços, fecha o carrinho digital. Suas lojas variam de 15 metros a 50 metros quadrados e este modelo só é operado no Brasil pela rede francesa, diz João Gravada, diretor de proximidade do grupo:

— Essas lojas fazem parte da estratégia do Carrefour de estar disponível onde o consumidor precisar.

As empresas do setor são, na maioria dos casos, startups. Algumas até oferecem franquias de suas lojas, como a Market4u, de Curitiba, com 2,1 mil lojas em 22 estados, sendo 190 próprias e o restante franquias. O investimento inicial fica em R$ 130 mil, com direito à montagem de cinco pontos. O faturamento estimado de cada loja é de cerca de R$ 10 mil.

A empresa faturou R$ 100 milhões ano passado, e já inaugurou um centro de distribuição em Osasco, em São Paulo, para atender 480 pontos de vendas na capital e no ABC paulista. O Market4u mapeou 50 mil condomínios com potencial para mercado autônomo e só um em cada cinco já tem o equipamento.

— Nossa meta, até 2028, é ter 50 mil lojas — diz Eduardo Córdova, CEO do Market4u.

A empresa usa tecnologia como travamento e destravamento das lojas pelo aplicativo e câmeras inteligentes que mostram quantos itens foram retirados e quantos foram pagos.

Com 64 lojas na Grande São Paulo, a Imagine Store quer chegar a 85 no fim do ano, seja em condomínios residenciais ou empresas como Grupo Fleury, BodyTech e Banco BTG Pactual, onde já atua com produtos de alimentação e bebidas, incluindo itens saudáveis. Há planos de se expandir para estados como Rio, Minas Gerais, Bahia, Paraná e Santa Catarina no próximo ano e chegar a 300 lojas em 2024, com franquias.

Daniele Romero, CEO da empresa, conta que o mobiliário é específico para cada ponto. A Imagine montou loja exclusiva de água mineral na Bienal de São Paulo. E criou comunicação visual, com telas de led, onde as marcas podem apresentar produtos aos consumidores. O pagamento pode ser feito por Pix, cartões de débito ou crédito.

— Desenhamos a loja com design específico para cada espaço. A indústria vende direto ao consumidor e nós fazemos a curadoria dos produtos — conta Romero, que durante 15 anos atuou com logística.

Em Pernambuco, a Mercado Honesto tem 45 lojas em operação no Recife e começa a se instalar em Olinda, com mais de 350 rótulos de produtos. A empresa já tem um centro de distribuição e emprega 12 pessoas, entre pessoal de reposição das lojas e limpeza. Sao 68 fornecedores.

— No começo, usamos até refrigeradores usados — conta o arquiteto Rodrigo Cruz, um dos quatros ócios da empresa.

A Smart Brake tem 650 lojas próprias, em São Paulo, em hotéis, empresas e condomínios. Não oferece franquias. Foi uma das pioneiras do Mercado Honesto no país, em 2018, e já recebeu aportes de mais de R$ 40 milhões de investidores.

Ricardo Colas, CEO e fundador, conta que oferece 900 itens, entre vinho e carnes até desodorante. O mix de produtos varia em cada lugar. Seu índice de não pagamento é de 5%, mas ele diz que com dispositivos de inteligência artificial, e câmeras já consegue detectar atitudes suspeitas.

— Hoje, nas novas construções, assim como é obrigatório um espaço de academia, também já está sendo deixado um espaço para o mercado autônomo no prédio — constata.

https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2023/11/05/mercado-da-honestidade-ganha-espaco-no-brasil-com-multiplicacao-de-lojas-do-tipo-pegue-e-pague.ghtml

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Como grandes empresas estão transformando o reflorestamento em um negócio promissor

Perspectivas com o mercado de crédito de carbono e outras fontes de receitas ajudam a explicar por que nomes como Votorantim, BTG, Arminio Fraga e as famílias Moreira Salles e Klabin investem na recuperação florestal

Carlos Eduardo Valim – Estadão – 17/07/2023

São Paulo – Quando o grupo Votorantim transformou, há doze anos, uma área que detinha na Mata Atlântica numa reserva florestal chamada Legado das Águas, no Vale do Ribeira, em São Paulo, tratava-se apenas de mais um custo para o tradicional grupo industrial da família Ermirio de Moraes. Mas a boa ação ambiental, que compreendia a preservação de 31 mil hectares, uma área equivalente à de Belo Horizonte, agora, vem se comprovando um bom negócio.

Integrada a outra reserva em Niquelândia (GO), a Legado Verdes do Cerrado, permitiu a criação da empresa Reservas Votorantim, que agora estrutura um projeto-piloto de reflorestamento de 3 mil hectares para a geração de créditos de carbono. “Nós nos preparamos para isso, sabendo que o momento chegaria. Demorou um pouquinho, mas o momento chegou”, diz o diretor-executivo da Reservas Votorantim, David Canassa. “As promessas feitas no Acordo de Paris, de 2015, estão acontecendo agora. O mercado de conservação vem ganhando impulso e tem grande tendência de desenvolvimento.”

Para limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius até 2050, empresas do mundo inteiro divulgaram, nos últimos anos, metas de zerar as emissões líquidas de carbono em suas operações. O mercado de carbono é o carro-chefe deste desenvolvimento do reflorestamento como um negócio, mas há também outras formas explorar o potencial de receitas para manter a floresta de pé, seja provendo compensação ambiental, como forma de empresas cumprirem o Código Florestal, seja contribuindo para cadeias de negócios locais e para o turismo. Ao recuperarem áreas degradadas ou mesmo mantendo de pé as árvores de locais onde poderiam por lei serem derrubadas, as empresas podem emitir títulos de créditos de carbono. Já quem libera gás na atmosfera precisa comprar esses títulos, para cumprir suas promessas de baixar as suas emissões líquidas. Assim, as reflorestadoras ganham dinheiro vendendo para quem polui.

Segundo a consultoria McKinsey, a demanda por créditos de carbono no mundo pode crescer 15 vezes ou mais até 2030, e até 100 vezes até 2050. Com isso, passaria de uma movimentação de US$ 1 bilhão em 2021 para US$ 50 bilhões em 2030. O Brasil concentra 15% do potencial global de captura de carbono por meios naturais, a forma mais simples e econômica de se fazer isso.

Pesos-pesados

Além do Votorantim, outros grandes grupos e conhecidos pesos-pesados do mundo empresarial brasileiro e reconhecidos investidores entraram no negócio de reflorestamento. Um exemplo é o da startup re.green, fundada em 2021, que atraiu em sua segunda rodada de investimentos, no ano passado, capital de R$ 389 milhões. Os recursos vieram do BW, escritório de investimentos da família Moreira Salles, da Gávea Investimentos, do ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga e com participação de Fábio Barbosa, CEO da Natura&Co, e das gestoras de recursos Lanx Capital e Dynamo. Neste ano, Guilherme Leal, da Natura, se juntou a eles.

Assim, o seu conselho de administração é dos mais estrelados, com Arminio e João Moreira Salles. O objetivo da empresa é restaurar 1 milhão de hectares da Mata Atlântica e da Amazônia, uma área do tamanho de Sergipe. Para se ter ideia do tamanho do desafio, o compromisso climático feito pelo Brasil em 2015 previa reflorestar 12 milhões de hectares até 2030, como forma de cortar em 43% as emissões de gases-estufa relativas aos níveis de 2005.

Também deve ajudar a cumprir essa promessa a Biomas, que tem investimento de R$ 20 milhões de cada grupo associado, envolvendo Vale, Suzano, Marfrig, Rabobank, Itaú Unibanco e Santander, para reflorestar 2 milhões de hectares. E mais a Mombak, criada por um ex-diretor financeiro do Nubank, Gabriel Haddad Silva, e um ex-CEO da 99, Peter Fernandez, que estruturaram um fundo que busca levantar R$ 520 milhões para reflorestamento.

Já o BTG Pactual garantiu US$ 230 milhões numa rodada de investimentos no ano passado para o seu tradicional fundo americano Timberland Investment Group (TIG), que tem quatro décadas de atuação e agora tem meta de US$ 1 bilhão para reflorestamento na América Latina. Em abril, a Casa Branca anunciou que trabalha na liberação de empréstimo de US$ 50 milhões para essa empreitada do TIG.

No mês seguinte, o BTG anunciou a compra de participação minoritária na Systemica, empresa que estrutura, desenvolve e implementa projetos de redução de emissão de gases efeito estufa, além de comercialização dos ativos ambientais gerados.

Tudo isso faz parte de uma estratégia maior do banco, que olhando para o seu próprio balanço, já contabiliza mais de US$ 1,5 bilhão de linhas do portfólio de crédito ligadas a empresas e investimentos com aspectos sociais ou ambientais positivos, segundo a chefe de investimentos sustentáveis e de impacto do BTG, Patricia Genelhu. “Há toda uma frente na qual a América Latina pode contribuir internacionalmente, de recursos naturais e economia verde, e trazemos iniciativas para estruturar produtos financeiros num cenário global”, diz.

Por sua vez, a família Klabin-Lafer é reconhecida pelos esforços no Pantanal, com o Refúgio Ecológico Caiman, de Roberto Klabin, como forma de garantir a preservação da região. Até a Fazenda da Toca, que recebe investimentos da Península Participações, da família Diniz, e administrada em Itirapina (SP) pelo ex-piloto de Fórmula 1 Pedro Paulo Diniz, tem dedicado parte dos recursos para reflorestar a propriedade.

Potencial de ganhos

Essas são diversas boas ações que, cada vez mais, se caracterizam como negócios de alto potencial. O estudo da McKinsey, realizado em setembro do ano passado, revelou que o Brasil ainda gera menos de 1% da sua capacidade anual de créditos de carbono. E isso ainda acontece principalmente por conta de projetos de conservação e de geração de energia a partir de resíduos. Dessa forma, a atividade de reflorestamento abrirá todo um novo espaço de expansão e de geração de receita.

Cerca de 80% do potencial brasileiro está na restauração florestal, que são projetos geradores do que são considerados créditos de alta qualidade, por terem benefícios associados como de recuperação da biodiversidade e de impacto social para comunidades locais. “Projetos que realmente são sustentáveis e positivos podem receber preços maiores para seus créditos”, diz o executivo-chefe de investimento de impacto do BTG Timberland Investment Group, Mark Wishnie.

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A demanda por eles deve explodir. Segundo a McKinsey, das 80 principais empresas atuando no país, 77% já haviam publicado alguma meta de redução de emissões, até o ano passado. À medida que mais empresas entram em ação para cumprir as suas promessas o mercado de crédito de carbono voluntário se acelera. “Muitos executivos têm hoje remuneração financeira por bônus atrelada a emissões de gás carbônico. Isso muda toda a motivação para eles se engajarem em combater a mudança climática”, afirma o alemão Heiko Spitzeck, professor de sustentabilidade da Fundação Dom Cabral.

Ao mesmo tempo que as transações livres entre empresas evoluem, espera-se que o mercado regulado também ajude a trazer mais negócios. Para o Brasil, a expectativa é de que ocorra logo a criação da regulação do mercado de crédito de carbono, que teve as suas linhas gerais apresentadas na quarta-feira 12, num esforço coordenado envolvendo dez ministérios. Internacionalmente, certificados e padrões globais devem ser estabelecidos, o que vai permitir a compra de créditos gerados em outros países, o que deve beneficiar em muito o Brasil.

Com a demanda global crescente, o preço do crédito de carbono tende a aumentar bastante se a oferta não conseguir acompanhar a tendência na mesma velocidade. Isso, segundo Spitzeck, pode estimular até o agronegócio a atuar com a integração entre lavoura, pecuária e floresta, já que os três negócios podem passar a trazerem rendimentos comparáveis.

Desafio da regularização fundiária

Apesar do imenso potencial brasileiro, há também desafios locais. Um deles é a dificuldade de regularização fundiária em certas regiões, como na Amazônia. É preciso muito cuidado para garantir que a propriedade não será contestada ou que o vendedor da área assumiu a região de forma legal. “Trabalhamos de forma muito cautelosa, sempre com a assessoria jurídica acompanhando tudo”, diz a diretora de relações institucionais da re.green, Mariana Barbosa. “Pretendemos trabalhar com três modelos de acesso a imóveis, a compra, na qual avançamos muito, a parceria e outra que está surgindo, a de concessões florestais.” A empresa já comprou área da Mata Atlântica, no Sul da Bahia, rica em biodiversidade, e outra amazônica, no Noroeste do Maranhão. “Em breve, teremos mais duas ou três áreas”, diz.

Já a riqueza da biodiversidade brasileira, apesar de consistir num grande trunfo, também traz uma dificuldade de operação. “O Brasil é um dos países mais biodiversos do planeta. Quando se fala em construir floresta nativa, num hectare de terra, precisamos ter, às vezes, mais de 100 espécies diferentes. É muito diferente de florestas de eucalipto e pinus da Europa e EUA”, diz Canassa, da Reservas Votorantim. “Apesar disso, eu desafio a minha equipe a termos o mesmo índice de perdas de pinus e eucalipto, de menos de 1%. No Brasil, é muito comum perdas de 20% a 30%. Isso mostra a falta de protocolos de plantio e não faz sentido econômico.”

Desafios como esses só devem ser vencidos com a combinação entre ciência, vontade de fazer a diferença num mundo que percebe com cada vez mais clareza os impactos das mudanças climáticas e, claro, um bom volume de investimentos de empresários que entendem muito sobre como fazer bons negócios.

https://www.estadao.com.br/economia/negocios/reflorestamento-carbono-votorantim-btg-klabin-gavea-arminio/

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Fuga de cérebros: Brasil está perdendo talentos em inteligência artificial para exterior, diz ranking

No ramo da inteligência artificial (IA), o Brasil se sai bem quando o assunto é “talentos”. Porém muitos dos melhores profissionais brasileiros trabalham hoje para empresas e governos estrangeiros

Por Filipe Vilicic, BBC News Brasil – 25/10/2023 


O neurocientista Talmo Pereira, líder de laboratório no Salk Institute for Biological Studies, na Califórnia: exemplo de talento brasileiro 'perdido' na área de inteligência artificial — Foto: ARQUIVO PESSOAL/TALMO PEREIRA via BBC O neurocientista Talmo Pereira, líder de laboratório no Salk Institute for Biological Studies, na Califórnia: exemplo de talento brasileiro ‘perdido’ na área de inteligência artificial — Foto: ARQUIVO PESSOAL/TALMO PEREIRA via BBC

No ramo da inteligência artificial (IA), o Brasil se sai bem quando o assunto é “talentos”. Porém muitos dos melhores profissionais brasileiros trabalham hoje para empresas e governos estrangeiros.

Inteligência Artificial:

“É um cenário parecido com o de países como a Índia”, comenta o historiador Joe White, cientista de dados da Tortoise, grupo de mídia inglês, em entrevista à BBC News Brasil. “Nosso levantamento aponta que o talento criado em um país muitas vezes não é retido. Há uma fuga de cérebros, com êxodo para nações mais ricas.”

Essas são conclusões do The Global AI Index, pesquisa da Tortoise coordenada por White e por sua colega Serena Cesareo, também cientista de dados. O estudo avalia o cenário de 62 países no mercado de inteligência artificial, em torno de três pilares principais: investimento, inovação e implementação. O Brasil está no meio do ranking, em 35º lugar.

Os tópicos do ranking são divididos em sete categorias, respectivamente sob cada um desses três pilares: talento, infraestrutura e ambiente de operações (investimento); pesquisa e desenvolvimento (inovação); estratégia governamental e comércio (implementação).

“Nossa principal base de pesquisa para identificar talentos locais foi o Linkedin”, comenta Serena Cesareo. “Ficou evidente como o Brasil possui um grande número de profissionais no campo, tanto em termos absolutos quanto em proporcionais, em relação ao tamanho da população.”

O The Global AI Index se apresenta como a primeira pesquisa global a analisar o cenário dessa tecnologia de forma tão abrangente. Foi criado em 2019 e está em sua quarta edição. Em todas elas, os Estados Unidos lideraram o ranking, seguidos pela China.

O Brasil aparece em 35º lugar no ranking geral. Todavia, no critério “talentos”, está em 21º, à frente de países como Áustria, Bélgica, Portugal e Rússia, todos melhores colocados na listagem geral. E logo atrás da China, em 20ª neste tópico.

“Se um profissional brasileiro se forma em seu país, mora onde nasceu, só que trabalha no dia a dia para o escritório local da Microsoft, que é americana, nós o registramos como um talento brasileiro, mas que não contribui para o mercado nacional de IA, mas, sim, para o dos Estados Unidos”, diz Joe White, da Tortoise.

A comparação realizada por White com a Índia, logo no início desta reportagem, é evidenciada pelos números. Enquanto os indianos garantem um invejável segundo lugar no tópico “talentos”, estão em 14º na classificação geral.

Isso ocorre porque, em outros temas, a Índia não tem desempenho tão bom. Em “infraestrutura”, por exemplo, é quase a lanterninha da lista, na 59ª colocação. O país também vai mal em “estratégia governamental” (38ª) e “pesquisa” (30ª).

No caso do Brasil, em 21º lugar em “talentos”, os dados do levantamento apontam para carência em “estratégia governamental”, com o país em 30º lugar, assim como em indicadores impactados diretamente por ações do Estado, como em “pesquisa” e “desenvolvimento” (em 36º nesses dois âmbitos). “Esse cenário todo está ligado à fuga de cérebros do país”, resume Joe White.

Talentos perdidos

Com 31 anos de idade, e doutorado concluído em 2021 na Universidade de Princeton, o paulista Talmo Pereira rapidamente alcançou uma posição cobiçada no ramo acadêmico: a de líder de seu próprio laboratório.

Todavia, o feito foi conquistado a quase 10 mil quilômetros de distância de sua cidade natal, Campinas (SP).

No Salk Institute for Biological Studies, na cidade californiana de San Diego, nos Estados Unidos, ele está à frente de uma equipe de catorze pesquisadores e que se dedica a usar ferramentas computacionais de aprendizagem profunda (no termo em inglês, deep learning) para solucionar uma variedade de questões das biociências.

Em termos mais leigos, o neurocientista brasileiro usa a inteligência artificial como uma forma de investigar padrões biológicos em animais e humanos.

Talmo Pereira, com a equipe que lidera no Salk Institute for Biological Studies, na Califórnia: 'O Brasil infelizmente tem um contexto sócio-cultural, além de econômico, que prejudica quem ambiciona seguir uma carreira acadêmica', diz o neurocientista — Foto: ARQUIVO PESSOAL/TALMO PEREIRA via BBC Talmo Pereira, com a equipe que lidera no Salk Institute for Biological Studies, na Califórnia: ‘O Brasil infelizmente tem um contexto sócio-cultural, além de econômico, que prejudica quem ambiciona seguir uma carreira acadêmica’, diz o neurocientista — Foto: ARQUIVO PESSOAL/TALMO PEREIRA via BBC

“Criamos, por exemplo, uma tecnologia que prevê movimentos de animais, mesmo de pequenos insetos”, pontua Pereira.

Na sequência, ele continua a enumerar os estudos sob seu cuidado. “Temos avançado no uso dessa ferramenta para detectar doenças, como cânceres, antes que os sintomas apareçam. Em outra pesquisa, em parceria com um museu de Los Angeles, rastreamos como as pessoas se comportam diante de obras de arte. E também temos um trabalho com a Nasa.”

O time do Talmo Lab, o nome de seu laboratório em San Diego, tem realizado estudos sob encomenda da agência espacial americana.

“Vamos enviar experimentos para a Estação Espacial Internacional. Como astronautas permanecem muito tempo no espaço, e há planos de mandá-los a Marte, meu grupo procura criar métodos de prevenir doenças que podem se desenvolver mais rápido em ambientes de baixa gravidade.”

Talmo Pereira é exemplo de um talento brasileiro que foi perdido pelo país. No ranking do The Global AI Index, da Tortoise, todo seu trabalho rende pontos para os Estados Unidos, e não para o Brasil.

“O Brasil infelizmente tem um contexto sócio-cultural, além de econômico, que prejudica quem ambiciona seguir uma carreira acadêmica”, comenta. “Eu e minha mãe migramos para os Estados Unidos em busca de condições melhores para mim.” Pereira imigrou aos 16 anos de idade, com planos de entrar em uma universidade americana. Desde então, não voltou para sua terra natal.

“O Brasil não investe tanto quanto deveria em políticas públicas que incentivem a educação, principalmente para os menos privilegiados”, opina. “Se fosse diferente, se houvesse esse incentivo, eu não teria de ter saído de meu país para procurar pelas melhores oportunidades.”

A fuga de cérebros

“Tanto o sistema público quanto o privado brasileiros têm um cenário complicado para quem trabalha na nossa área”, avalia o economista Alexandre Chiavegatto, professor de aprendizado das máquinas [machine learning] da Universidade de São Paulo (USP).

“As empresas não valorizam o quanto deveriam. O governo, preocupa-se mais em regular e restringir, do que em desenvolvimento.”

Chiavegatto fez da graduação ao doutorado na USP, onde se especializou na área de ciências de dados de saúde. O pós-doutorado, que concluiu em 2012, foi na Universidade de Harvard.

“Decidi não ficar nos Estados Unidos pois passei no concurso público da USP e pude realizar um sonho que eu tinha, de me tornar professor nessa universidade”, diz Chiavegatto. “Mas o cenário lá fora é melhor, com empresas e o governo apostando mais no setor.”

Ele é um talento que permanece no Brasil. Na USP, lidera o Laboratório de Big Data e Análise Preditiva em Saúde. “Somos um time de trinta pesquisadores”, afirma. “Usamos a inteligência artificial para desenvolver algoritmos capazes de predizer e nos ajudar a combater doenças.”

Chiavegatto conta que seus melhores alunos costumam ser recrutados por universidades e empresas estrangeiras, principalmente dos Estados Unidos – o líder do mercado de IA, segundo o The Global AI Index.

“A qualidade dos trabalhos dos brasileiros nessa área é excelente, por isso acabamos por ganhar os empregos lá fora”, diz ele.

Ele cita, como “um de muitos exemplos”, o caso de Helena Schuch, que colaborou em trabalhos de seu laboratório na USP. “Agora, ela está em Harvard.”

Dentista dedicada às pesquisas acadêmicas, a gaúcha Helena, de 33 anos, é pesquisadora da Harvard School of Dental Medicine. À BBC News Brasil, ela conta que utiliza ferramentas de IA para prever incidências de problemas dentais em pacientes, em particular os de camadas mais pobres da sociedade.

“É difícil conseguir cargo de pesquisadora no Brasil”, opina ela. “Nas universidades brasileiras, é preciso se dedicar integralmente a ser professor, além de pesquisador. Isso não favorece o desenvolvimento da ciência por não aproveitar aqueles que, como eu, tem maior perfil de laboratório, não de dar aulas.”

Pesquisador da Fiocruz, o cientista da computação Paulo Carvalho, líder do laboratório de proteômica da instituição, também identifica o êxodo de talentos. “Um ex-aluno está em uma empresa do Vale do Silício. Tem um que mora no Brasil, mas trabalha para uma startup americana. Outro, na Universidade de Cincinnati. E dois foram para o Uruguai”, diz à BBC Brasil.

Segundo Carvalho contabiliza, a maioria dos estudantes de mestrado e doutorado que passaram por seu laboratório acabaram em vagas em instituições estrangeiras.

“Nos Estados Unidos, um jovem pesquisador pode ganhar três vezes mais que um sênior aqui no Brasil”, estima. “Faltam incentivos para ficar no país.”

Joe White, que elaborou o ranking global, diz que “para os países que querem subir na classificação, um caminho que tem se mostrado produtivo é o do governo criar mais possibilidades e incentivos para o setor de IA”.

Apesar das dificuldades do Brasil, o país tem melhorado no ranking.

Na edição de 2020 do The Global AI Index, o Brasil estava em 46º na classificação geral. Em 2021, avançou para 39º. Na última edição, publicada em junho (em 2022 o levantamento não foi realizado), chegou a 35º.

Os brasileiros sempre se destacam no indicador “talentos”, ficando em 35º em 2020 e em 31º, no penúltimo ranking. “O país está sendo puxado por seus profissionais, mas ao mesmo tempo apresenta dificuldade de mantê-los”, complementa White.

O que está em jogo nesse mercado? Segundo estimativa da consultoria MarketsandMarkets, trata-se de uma indústria que hoje movimenta anualmente cerca de US$ 150 bilhões (R$ 760 bilhões).

Um mercado promissor, que deve ser quase de vez maior em 2030, quando se calcula que chegará próximo de US$ 1,4 trilhão.

https://epocanegocios.globo.com/inteligencia-artificial/noticia/2023/10/fuga-de-cerebros-brasil-esta-perdendo-talentos-em-inteligencia-artificial-para-exterior-diz-ranking.ghtml

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Entrega por drones da Amazon, uma década depois, virou motivo de piada nos EUA

Empresa faz testes em algumas cidades americanas, mas equipamentos têm sido usados para fazer entregas de brindes

David Streitfeld – Estadão – 06/11/2023 

COLLEGE STATION, Texas – Há exatamente uma década, a Amazon anunciou um programa com o objetivo de revolucionar a forma de fazer compras e entregá-las. Drones lançados de um polo central voariam pelos céus, entregando praticamente tudo que alguém pudesse precisar. Eles seriam rápidos, inovadores e onipresentes – todas as características da Amazon.

O anúncio entusiasmado feito por Jeff Bezos na TV durante a Cyber Monday, a segunda-feira após a Black Friday, chamou a atenção do mundo todo. “Sei que isso parece ficção científica. Mas não é”, disse Bezos, fundador e CEO da Amazon na época. Os drones estariam “prontos para participar das operações comerciais assim que as regulamentações necessárias estiverem em vigor”, provavelmente em 2015, disse a empresa.

Oito anos depois daquele prazo, a entrega feita por drones é uma realidade – mais ou menos – nos arredores de College Station, Texas, ao noroeste de Houston. Esta é uma grande conquista para um programa que teve seus altos e baixos ao longo dos anos e que perdeu muitos de seus primeiros líderes para projetos mais recentes e urgentes.

No entanto, a iniciativa atualmente é tão decepcionante que a Amazon só consegue continuar com as entregas por drones ativas presenteando as pessoas. Anos de trabalho de renomados cientistas e especialistas da aviação renderam um programa que transporta pastilhas contra mau-hálito ou uma lata de sopa – porém não ambos ao mesmo tempo – para os clientes como brindes. Se isso é ficção científica, está parecendo mais uma piada.

Uma década é uma eternidade na tecnologia, mas, mesmo assim, a entrega por drones não chega perto da escala ou da simplicidade dos vídeos promocionais originais da Amazon. Esta disparidade entre as promessas espetaculares e a realidade mundana acontece o tempo todo no Vale do Silício. Os carros autônomos, o metaverso, os carros voadores, os robôs, os bairros ou até mesmo as cidades construídas do zero, as universidades virtuais capazes de concorrer com Harvard, a inteligência artificial – a lista de promessas atrasadas e incompletas é longa.

“Ter ideias é fácil”, disse Rodney Brooks, empresário e roboticista, além de crítico frequente da propaganda exagerada das empresas de tecnologia. “Transformá-las em realidade é difícil. Torná-las reais e prontas para serem usadas em grande escala é ainda mais difícil.”

A Amazon disse em outubro que as entregas por drones vão chegar em lugares como a Grã-Bretanha, Itália e outra cidade não identificada dos EUA até o final de 2024. Entretanto, mesmo no limiar do crescimento, uma dúvida permanece: agora que os drones finalmente existem, pelo menos de forma limitada, por que achamos que iríamos precisar deles antes?

Dominique Lord e Leah Silverman vivem na região de College Station que recebe entregas por drones. Eles são fãs da Amazon e costumam fazer compras regulares para serem entregues no modo convencional. Os drones são outra história, mesmo o serviço sendo gratuito para os assinantes do Amazon Prime. Embora seja legal ter coisas literalmente pousando na entrada da sua garagem, pelo menos nas primeiras vezes, há muitos obstáculos para receber as compras dessa maneira.

Apenas um item pode ser entregue por vez. Ele não pode pesar mais de 2,260 kg. Nem ser grande demais. Além de não poder ser algo quebrável, já que o drone libera o item a uma distância de 3,6 m do chão. Os drones não podem voar quando está muito quente, ou ventando demais, ou chovendo bastante.

Você precisa estar em casa para determinar o lugar onde a entrega deve pousar e garantir que ninguém pegue sua encomenda, ou que ela role para o meio da rua (o que já aconteceu com Lord e Leah). Entretanto, seu carro não pode estar na entrada da garagem. Permitir que o drone faça a entrega no seu quintal evitaria alguns desses problemas, a não ser que ele tenha árvores.

A Amazon também avisa aos clientes que a entrega por drones fica indisponível durante períodos de alta demanda do serviço.

Outro local de teste para a modalidade é Lockeford, Califórnia, no Vale Central. Em uma tarde recente, o polo de entregas de Lockeford parecia em grande parte inativo, com apenas três carros no estacionamento. A Amazon disse estar realizando entregas por meio de drones em Lockeford e marcou com um repórter do New York Times uma visita ao local. Assim como uma entrevista com David Carbon, o ex-executivo da Boeing que comanda o programa de drones. Depois, a empresa cancelou ambos sem qualquer explicação.

Uma postagem de 18 de outubro no blog da empresa afirma que os drones têm realizado “centenas” de entregas com segurança de utensílios domésticos em College Station desde dezembro de 2022 e que os clientes agora poderiam receber alguns medicamentos. Lockeford não foi mencionada.

Depois do interesse inicial de Silverman e Leah no programa de drones, a Amazon ofereceu US$ 100 em vale presentes em outubro de 2022 para que eles continuassem optando pelo serviço. No entanto, a modalidade só foi iniciada em junho deste ano e pouco tempo depois foi suspensa durante uma forte onda de calor, quando os drones não podiam voar.

Os incentivos, porém, continuaram chegando. Recentemente, o casal recebeu um e-mail da Amazon promovendo uma manteiga de amendoim que normalmente custaria US$ 5,38, mas seria “grátis”, enquanto durassem os estoques, se a entrega fosse feita por drones. Eles fizeram o pedido e, pouco tempo depois, um drone entregou uma caixa grande com um frasco pequeno do produto. A Amazon disse que “alguns itens promocionais” estão sendo oferecidos “como boas-vindas” ao serviço.

“Na verdade, não precisamos de nada que eles oferecem de graça”, disse Leah, 51 anos, escritora e cuidadora. “Os drones parecem muito mais um brinquedo do que qualquer outra coisa – um brinquedo que desperdiça uma quantidade enorme de papel e papelão.”

O clima do Texas causa estragos na entrega de itens importantes. Lord, 54 anos, professor de engenharia civil da Texas A&M, encomendou um medicamento, mas quando pegou o pacote, ele já tinha derretido. O professor universitário espera que os drones possam mais cedo ou mais tarde resolver problemas como este.

“Ainda vejo com bons olhos este programa, lembrando que está em fase experimental”, afirmou.

A Amazon disse que o serviço com drones vai melhorar com o tempo. A empresa anunciou um novo modelo de drone, o MK30, no ano passado e divulgou fotos dele em outubro. O MK30, que está previsto para começar a operar até o final de 2024, foi anunciado como tendo um alcance maior, a capacidade de voar em condições climáticas adversas e uma redução de 25% no “ruído percebido”.

Quando a Amazon começou a investir nos drones anos atrás, a varejista levava entre dois e três dias para enviar vários itens aos clientes. Ela tinha medo de ficar vulnerável aos possíveis concorrentes cujos fornecedores eram mais locais, entre eles o Google e o eBay. Os drones tinham tudo a ver com velocidade.

“Podemos fazer uma entrega em meia hora”, prometeu Bezos naquele anúncio na TV.

Durante um tempo, os drones foram a próxima grande novidade. O Google criou seu próprio serviço de drones, o Wing, que agora opera para o Walmart na entrega de itens em regiões de Dallas e Frisco, no Texas. As startups receberam verbas; cerca de US$ 2,5 bilhões foram investidos entre 2013 e 2019, de acordo com o Teal Group, uma consultoria aeroespacial. O capitalista de risco veterano Tim Draper disse em 2013 que “tudo, da entrega da pizza até as compras pessoais, poderia ser entregue por drones”. A Uber Eats anunciou a entrega de comida por drones no fim de 2019. O futuro estava em alta e nas alturas.

A Amazon começou a pensar a longo prazo. A empresa idealizou e conseguiu uma patente para um veículo de reabastecimento de drones que pairaria no céu a cerca de 13 quilômetros de altura. Isso fica acima dos aviões comerciais, mas a Amazon disse que poderia usar os veículos para entregar refeições quentes aos clientes.

No entanto, na prática, os avanços foram lentos — às vezes por razões técnicas e outras devido ao DNA corporativo da empresa. A mesma confiança agressiva que criou um negócio de trilhões de dólares prejudicou os esforços da Amazon para trabalhar com a Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla em inglês).

“A postura deles era: ‘Somos a Amazon. Vamos convencer a FAA’”, disse um ex-executivo do setor de drones da varejista, que pediu anonimato porque não estava autorizado a se manifestar publicamente sobre o tema. “A FAA quer que as empresas cheguem com grande humildade e transparência. Esse não é um ponto forte da Amazon.”

Uma questão mais complicada era fazer a tecnologia ser segura não apenas na maior parte do tempo, mas o tempo todo. O primeiro drone que pousasse na cabeça de alguém ou decolasse agarrando um gato poderia fazer com que o programa atrasasse mais uma década, principalmente se isso fosse filmado.

“Parte do DNA da indústria de tecnologia é realizar coisas que você nunca pensou que conseguiria”, disse Neil Woodward, que atuou como gerente sênior do programa de drones da Amazon durante quatro anos. “Mas a verdade é que as leis da física não mudam.”

Atualmente aposentado, ele passou anos no programa de astronautas da NASA antes de migrar para o setor privado.

“Quando você trabalha para o governo, há 535 pessoas no conselho de administração” — disse ele se referindo ao Congresso — “e uma boa parte delas quer acabar com suas verbas porque têm outras prioridades”, afirmou. “Isso torna as agências governamentais muito avessas ao risco. Na Amazon, eles dão muita corda e você pode acabar agindo impetuosamente.”

No fim, o que é necessário é existir um mercado. Como disse Woodward, usando um velho clichê do Vale do Silício: “Cães gostam da ração que produzem? Às vezes não”, referindo-se à prática das empresas de tecnologia conhecida como “dogfooding” de estimular os funcionários a experimentar os produtos que desejam lançar para ter a experiência do consumidor e entender o que precisam melhorar.

https://www.estadao.com.br/economia/entregas-drones-amazon-testes-texas/

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Mais empresas exigem o expediente 100% presencial no país

Levantamento mostra a evolução na adoção dos modelos de trabalho pelas companhias brasileiras desde dezembro até setembro deste ano. Saiba mais.

Por Adriana Fonseca, Para o Valor — 30/10/2023

Cada vez mais empresas estão exigindo que funcionários trabalhem de forma totalmente presencial. É o que aponta levantamento feito pela consultoria de recrutamento executivo Robert Half a pedido do Valor.

Ao mesmo tempo, o modelo híbrido, que permite alguns dias de trabalho no escritório e outros em casa, está perdendo espaço. Em dezembro do ano passado, 28% das organizações estavam funcionando no formato totalmente presencial e 67%, no modelo híbrido. No levantamento mais recente do Índice de Confiança Robert Half (ICRH), de setembro deste ano, 35% estão atuando no modelo totalmente presencial e 57%, no híbrido.

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Para Fernando Mantovani, diretor geral da Robert Half para a América do Sul, é difícil dizer se isso é, de fato, uma tendência. “É algo difícil de prever, mas, na minha visão, o mercado de trabalho ainda parece caminhar para um modelo de trabalho híbrido nos segmentos e áreas onde essa modalidade é viável”, afirma. “É importante, portanto, ir encontrando gradativamente, e de forma muito aberta, esse equilíbrio entre os anseios dos colaboradores e as estratégias de negócios.”

A edição mais recente do ICRH mostra que o formato que mescla entre dias remotos e presenciais ainda é o preferido da maior parte dos entrevistados. Entre eles, 72% o consideram como o modelo ideal de trabalho, enquanto 15% indicam o home office e somente 9% o modelo totalmente presencial. Os outros 4% não souberam responder.

Mantovani entende que o mercado continuará a se transformar de maneira cada vez mais veloz, e diz que as empresas que abraçarem as mudanças e olharem para o futuro do trabalho definitivamente terão mais facilidade em atrair, reter e prosperar com equipes talentosas.

O especialista comenta, ainda, que já se vê, na rotina de trabalho dos headhunters, profissionais dizerem não a vagas que exigem a presença no escritório todos os dias. “Sentimos isso na prática”, afirma. “A escolha do modelo de trabalho tornou-se um fator decisivo, capaz de impulsionar pedidos de demissão e mudanças de emprego em prol de bem-estar, qualidade de vida e saúde mental.”

Segundo Mantovani, em muitos casos, o regime de trabalho vem antes da remuneração nas prioridades dos profissionais. “Aqui, acredito ser importante destacar que, ao contrário do que se imagina, os colaboradores também valorizam o contato e a interação, pois demandam, em sua maioria, o modelo híbrido, não o 100% remoto.”

O especialista diz também que adiciona complexidade a essa situação o baixo nível de desemprego entre os profissionais qualificados, que são aqueles com 25 anos ou mais e ensino superior completo. Para essa categoria, ele continua, a taxa de desocupação gira em torno de 3,5%, “algo muito próximo do que podemos chamar de pleno emprego, o que garante maior poder de negociação a esses profissionais”.

Mesmo os executivos que estão liderando a iniciativa de retorno aos escritórios, impulsionados pela percepção de enfraquecimento da cultura organizacional, queda na produtividade e dificuldades com a gestão remota, valorizam a flexibilidade, aponta o ICRH. Nesse sentido, algumas ações estão em curso, como horários flexíveis de entrada e saída, prática adotada nas empresas de 50% das pessoas entrevistadas.

Para os recrutadores entrevistados, as cinco vantagens mais evidentes na promoção da flexibilidade no modelo presencial são: aumento da satisfação dos empregados (56%), melhoria no equilíbrio entre trabalho e vida pessoal (50%), retenção de talentos-chave (38%), maior atração de candidatos qualificados (37%) e fortalecimento da cultura organizacional baseada em confiança e autonomia (32%). Já na opinião dos profissionais, a flexibilidade no trabalho presencial influencia no bem-estar, na produtividade e no equilíbrio entre vida e trabalho. “Os melhores talentos buscam empresas que compreendem o papel da flexibilidade”, diz Mantovani. “Olhar estrategicamente para isso é uma das chaves para o recrutamento de alto nível.”

A pesquisa ICRH ouviu 387 respondentes para cada uma das três categorias (empregados, desempregados e recrutadores), distribuídos proporcionalmente pelo Brasil de acordo com os dados do mercado de trabalho da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad).

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2023/10/30/mais-organizacoes-exigem-o-expediente-100-presencial.ghtml?ref=SaibaMaisMidArticle_Valor_Economico

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A nova Governança Corporativa – com inovação, sustentabilidade e diversidade

Evandro Milet – Portal ES360 – 05/11/2023

(Obs: esse artigo foi enviado para algumas pessoas. Se já recebeu, desconsidere.)

Em 2008, logo após concluir um curso sobre governança corporativa no IBGC(Instituto Brasileiro de Governança Corporativa) para receber o selo de Conselheiro de Administração dessa instituição por experiência, escrevi artigo explicando os conceitos do tema. Àquela época, o caso ruidoso da Enron provocou mudanças de legislação e um tsunami nos conceitos de governança, inclusive no Brasil. Os Conselhos de Administração(CA) passaram a ter mais força e os controles aumentaram significativamente, reduzindo os poderes da Diretoria Executiva e aumentando a responsabilidade de todos. 

A literatura de gestão exaltava líderes carismáticos e pouca ênfase atribuía aos conceitos de governança corporativa(GC) definido, na época, pelo IBGC como o sistema pelo qual as sociedades são dirigidas e monitoradas, envolvendo os relacionamentos entre acionistas/cotistas, conselho de administração, diretoria, auditoria independente e conselho fiscal. 

O atual Código das Melhores Práticas de GC do IBGC, alterou um pouco essa definição, e é interessante observar os detalhes das mudanças nesses 15 anos. No novo conceito,  GC é “o sistema pelo qual as empresas e demais organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle e demais partes interessadas”.

A GC ampliou o papel de instrumento de controle,  traz agora um papel mais ativo de incentivo e abre o leque para incluir, com mais ênfase, as partes interessadas(stakeholders) no relacionamento da empresa. 

Os princípios básicos da GC eram, em 2008: transparência, equidade, prestação de contas(accountability) e responsabilidade corporativa. Agora,  integridade, transparência, equidade, responsabilização(accountability) e sustentabilidade. Certamente a repercussão da Lava-Jato para uma série de empresas provocou a introdução do conceito de integridade nos princípios, entendida como aprimorar a cultura ética, evitar conflitos de interesse, além de manter coerência entre discurso e ação e o cuidado com as partes interessadas e a sociedade em geral.

Por transparência entende-se que mais do que a “obrigação de informar”, a Administração deve cultivar o “desejo de informar” não apenas sobre o desempenho econômico-financeiro, mas também sobre todos os fatores que norteiam a ação empresarial. 

A equidade caracteriza-se pelo tratamento justo e igualitário de todos os grupos minoritários, sejam acionistas ou demais partes interessadas. 

O princípio da  responsabilização, tradução melhor de accountability, prega que os agentes da GC devem prestar contas de sua atuação a quem os elegeu, mas também às partes interessadas e ao meio ambiente e devem responder integralmente por todos os atos que praticarem. 

Finalmente, o princípio da responsabilidade corporativa, agora redefinido para o mais atual termo sustentabilidade, preconiza que conselheiros e executivos devem zelar pela perenidade da organização e assim devem considerar que as organizações atuam em um ambiente de interdependência com os ecossistemas social, econômico e ambiental com responsabilidades perante a sociedade.

Um dos mais importantes aspectos da GC é a separação entre propriedade e gestão, onde os acionistas elegem um CA, formado inclusive por conselheiros independentes, com as atribuições de monitorar resultados, aprovar estratégias, eleger o executivo principal, cuidar do capital humano e remuneração de executivos, definir estrutura de capital e política de dividendos e gerenciar riscos ambientais, trabalhistas, tecnológicos e financeiros. Mas o IBGC introduziu no Código das melhores práticas também a importância da inovação com a sugestão que na composição do CA haja algum especialista no tema, além de conselheiros com competências comportamentais e técnicas. 

E que a empresa pratique a diversidade, inclusive no CA, em termos de raça, gênero, conhecimentos, formação acadêmica, experiências profissionais e demais elementos que contribuam para o fomento da inovação. Pessoas com conhecimentos, origens e vivências diferentes aumentam a capacidade de inovação na organização.

O capitalismo mudou. O mundo dos negócios tem novas regras. O grande economista Joseph Schumpeter foi preciso quando disse: “ A evolução capitalista significa perturbação. O capitalismo é essencialmente um processo de mudança econômica endógena. Neste sentido, o capitalismo estabilizado é uma contradição em termos”.

Nesta semana foi criada a 11ª regional do IBGC, o Núcleo Espírito Santo. Que seja motivador para a profissionalização e crescimento das empresas capixabas.

https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/a-nova-governanca-corporativa-com-inovacao-sustentabilidade-e-diversidade/

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É possível corrigir defeitos do nosso genoma? Primeiro tratamento usando edição genômica é aprovado

Órgão dos EUA considerou método eficaz e seguro e recomendou sua liberação

Por Fernando Reinach – Estadão – 03/11/2023 

As primeiras pessoas curadas de uma doença genética através da modificação por edição do seu genoma já estão entre nós. E agora o FDA (Food and Drug Administration) dos EUA deu um passo histórico, aprovando o uso da edição genômica em seres humanos para curar a anemia falciforme.

A anemia falciforme é causada por uma mutação no gene da hemoglobina, a proteína que carrega oxigênio e dá a cor vermelha ao sangue. Pessoas que possuem somente uma cópia do gene defeituoso não têm sintomas, mas transmitem a doença, pois são portadoras do gene alterado.

Quando um portador do gene defeituoso se casa com outro portador, um em cada quatro filhos vai ter dois genes mutados e apresentará a doença. No mundo existem aproximadamente 5 milhões de pessoas com a doença, das quais aproximadamente 110 mil morrem todos os anos. O número de portadores sadios é muito maior.

São as células vermelhas (hemácias) que contêm a hemoglobina e que transportam o oxigênio do pulmão para o resto do corpo. Nos pacientes, ao invés das hemácias serem redondas, elas têm a forma de vírgulas. Devido a essa forma alterada, elas formam pequenos aglomerados de células que entopem os capilares mais finos em todos os órgãos do corpo. Esses pequenos entupimentos causam muitas dores, dificultam a passagem do sangue e a nutrição dos órgãos. A pessoa passa a vida de crise em crise e acaba morrendo mais cedo.

A anemia falciforme aparece na primeira infância. Ela não ocorre enquanto a pessoa está no útero ou logo que nasce, pois nessa fase da vida o gene que produz a proteína defeituosa está desligado e o grosso da hemoglobina que circula no sangue é a hemoglobina fetal, produzida por outro gene. Logo que a criança nasce, a produção da hemoglobina fetal é inibida e o sangue passa a ser composto principalmente pela hemoglobina adulta. Nesse momento a doença aparece. Para aliviar os problemas, a solução é fazer transfusões frequentes de sangue, o que dilui a hemoglobina defeituosa e faz com que os sintomas desapareçam por um tempo.

A ideia que os cientistas tiveram para tentar curar a doença foi baseada na observação de que basta diminuir a quantidade relativa de hemoglobina defeituosa usando hemoglobina normal. É o que ocorre com as transfusões e também em pessoas que possuem um gene normal e um defeituoso. Mas como alterar o genoma dos pacientes para que isso ocorra? Uma solução seria reativar a produção da hemoglobina fetal que foi desligada na infância.

Como sabemos que a produção da hemoglobina fetal é inibida nos adultos porque existe um gene (chamado BCL11A) que impede sua produção, os médicos e cientistas decidiram modificar esse gene imaginando que, destruindo o inibidor, os genes da hemoglobina fetal seriam ativados, a hemoglobina fetal seria produzida, diluiria no sangue a hemoglobina adulta defeituosa, e a pessoa ficaria curada. Para modificar o gene inibidor, decidiram utilizar a tecnologia CRISPR e modificar a sequência de DNA desse gene nos pacientes.

Os experimentos foram primeiro feitos em animais e depois repetidos em seres humanos. Os testes já envolveram mais de 40 pacientes. Funciona assim: primeiro as células que vão se transformar em hemácias, e produzir hemoglobina no seu interior, são retiradas do paciente. Essas células são então levadas ao laboratório e usando a técnica de edição genômica (CRISPR), o gene inibidor (BCL11A) é alterado e deixa de funcionar. Em seguida o paciente recebe uma espécie de quimioterapia para destruir ou reduzir as células no seu corpo que produzem hemácias e então as células modificadas no laboratório são injetadas de volta.

O que os cientistas descobriram é que, assim que se recupera, o paciente começa a produzir hemoglobina fetal em grande quantidade e a hemoglobina fetal em circulação faz com que a doença desapareça. A pessoa fica curada. Ou seja, a estratégia de destruir o inibidor e permitir a produção de hemoglobina fetal funciona e cura o paciente.

Com base no tratamento desses 40 pacientes, os médicos pediram ao FDA que aprove esse tratamento para uso na população. O que ocorreu na semana passada é que o grupo de cientistas e médicos do FDA que avalia esses pedidos considerou o tratamento eficaz e seguro e recomendaram sua liberação. Muito provavelmente o tratamento será liberado nas próximas semanas e deve ficar disponível.

É bom lembrar que esse ainda é um tratamento caro e difícil, pois envolve a retirada de células, sua modificação e sua reintrodução. Por esse motivo, deve levar tempo para ser aprovado e estar disponível no Brasil. Por aqui, temos quase 100 mil pessoas que sofrem com a doença, e mil pessoas nascem por ano com a doença.

O importante é que esse é o primeiro tratamento para uma doença genética que utiliza edição genômica (CRISPR) que é considerado seguro e eficaz. É uma enorme porta que se abre para corrigir defeitos presentes no nosso genoma.

https://www.estadao.com.br/ciencia/fernando-reinach/e-possivel-corrigir-defeitos-do-nosso-genoma-primeiro-tratamento-usando-edicao-genomica-e-aprovado/

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Fim das telas pode estar próximo com ascensão da inteligência artificial

Dispositivo portátil acionado por voz é aposta de duas empresas que usam tecnologia inspirada no ChatGPT

Por Pedro Doria – Estadão – 02/11/2023 

No final de setembro foi anunciado que o designer Jony Ive está conversando com a OpenAI, empresa por trás do ChatGPT, para criar “o iPhone da inteligência artificial”. O investimento na ideia já começa com US$ 1 bilhão do Softbank. E há um conceito por trás. É a aposta no fim das telas. Ou, ao menos, na possibilidade de que inteligência artificial nos leve a interagir com o mundo digital sem a necessidade de telas.

O designer inglês bolou o iMac azul translúcido, o iPod, então o iPhone — e o iPad. Até que, em 2019, deixou a Apple para criar um escritório independente. A entrada no jogo de alguém responsável por reinventar nossa vida digital pode, de fato, criar um ambiente no qual passemos a conviver com inteligência artificial sem precisar recorrer a telas. Ive, porém, chegará tarde neste circo. Há duas empresas empenhadas em fazer a mesma coisa.

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A que está mais na frente é a Rewind. Seu produto inicial, um app para Macs que chegará nas próximas semanas ao Windows, grava tudo que você faz no computador. Conversas pelo Zoom, trocas de Zap, buscas na web. Se daqui a três dias você precisar lembrar para quem prometeu um café, a resposta está a uma busca de distância.

Agora, a Rewind tem uma parceria com a OpenAI para criar um ChatGPT individual. Não precisa nem buscar mais — o robô dentro do seu computador gerencia sua agenda, faz uma ata das suas reuniões, sabe de seus e-mails. Basta perguntar. O passo seguinte é um pendente. Um cilindrozinho de pendurar no pescoço. Grava tudo que você ouve e fala no mundo real. O Rewind Pendant já está em pré-venda. Um assistente seu, que registra sua vida e depois responde às suas perguntas. Por apenas US$ 59.

É sempre possível que, assim como ocorreu lá atrás com o Google Glass, as pessoas passem a considerar invasivos esses aparelhos sem telas

Será invasivo demais para as pessoas? Ou nos adaptaremos?

A Humane é a outra concorrente. E como Ive no projeto secreto ou a turma da Rewind, usa o GPT. No início de outubro, a ex-top model Naomi Campbell circulou com o AI Pin da empresa pendurado na lapela de um paletó estiloso pela Paris Fashion Week. Este broche vai ser bem mais caro do que o pendente.

O AI Pin será capaz de projetar numa parede, ou mesmo na mão, imagens. Vem com câmera, gravação de voz, e seu objetivo é rigorosamente o mesmo: tornar-se um assistente pessoal inteligente, capaz de resolver as burocracias do dia a dia, uma memória constante para que não esqueçamos das coisas. Para que não precisemos lembrar. E tudo sem qualquer tela.

Ainda não há uma etiqueta para estes aparelhos. É sempre possível que, assim como ocorreu lá atrás com o Google Glass, as pessoas passem a considerá-los invasivos. E assim a gente olhe torto para quem os usa. Como pode acontecer de a utilidade ficar tão patente que ninguém queira abrir mão.

Ou, bem, que a gente ao menos combine o jogo. Para aqueles momentos um cadinho mais particulares. Pois, agora, é hora de desligar o gravador, tudo bem? Nós, jornalistas, estamos habituados com situações assim.

https://www.estadao.com.br/link/pedro-doria/fim-das-telas-pode-estar-proximo-com-ascensao-da-inteligencia-artificial/

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