O poder de um texto bem escrito

A escrita que encanta transmite informação com mais competência. Um texto que foge das chatices e das abstrações faz mágica

Por Isabel Clemente – Valor – 01/11/2023

A loja da Apple em Covent Garden, no centro de Londres, vive cheia de gente como são as lojas da Apple em cidades ricas e turísticas como Londres. Sentada no hall principal –aguardando atendimento com um computador agonizante nos braços – assisti a uma das oficinas gratuitas diárias sobre fotografar com celular.

Por um instante esqueci que eu tinha um problema (uma escritora sem uma máquina para escrever tem um problema) e parei para admirar o óbvio: qualquer pessoa com um bom celular pode fazer fotos impressionantes hoje em dia. Quase profissionais, disse o convincente instrutor, em meio ao entra-e-sai da loja e ao burburinho de clientes e curiosos.

Quase dois anos depois, a cena volta para me lembrar que a tecnologia viabilizou fotos muito mais bonitas. Todo mundo quer sair bem no retrato. Comunicar com imagens que fiquem. O que falta para essa ideia tomar conta da escrita?

A escrita que entretém, seduz e encanta transmite informação com mais competência. Um texto, um ensaio e um artigo que comunicam com clareza e charme, que fogem das chatices e das abstrações fazem mágica. Uma leitura fluida entra na nossa mente como um sinal de wi-fi nos conecta ao mundo. Sem dor.

Tudo isso para dizer que eu continuo inconformada com as regras do Enem para a redação de aspirantes a uma vaga em universidade pública no Brasil. Continuo inconformada com orientações que associam coesão de ideias ao uso obrigatório de conectivos e placas, o que confunde quem escreve sem tanta prática. Não me conformo com essa proposta que enterra a criatividade em nome de uma suposta habilidade de argumentar. Quem diria que o país “do samba e do futebol” proibiria gingados e dribles no texto?

Amy Tan, autora de várias obras de ficção, conta em seu livro “The opposite of fate” sua trajetória de escritora. No capítulo em que aprofunda um debate sobre literatura, ela relata ser incapaz de defender uma ideia num ensaio. Ela escreve por ter perguntas sobre a vida, e não respostas. “Escrevo porque quase sempre não consigo me expressar de outra forma, e acredito que eu implodiria se não encontrasse as palavras. Eu não consigo parafrasear ou oferecer uma moral sucinta sobre amor e esperança, dor e perdas. Eu preciso recorrer a uma caligrafia mental, refletir e trabalhar sob a forma de uma história”, escreve Amy Tan.

A redação do Enem quer um texto dissertativo-argumentativo. Não é contação de história. Tudo certo. A “produção textual” para entrar no nível superior tende a influenciar (e limitar) o ensino da escrita nas escolas. Sempre foi assim. E isso pode ser um problema.

Procure exemplos de redações “nota 1000” e me conte o que achou do texto.

“As sete pragas do ensino de português”, de Carlos Alberto Faraco, é um livro de 1975 que continua atual. A terceira praga, segundo o autor, são as redações. Reproduzo aqui um pequeno trecho que encontrei no livro “A prova de redação e o acesso à UFRJ” (Ed. UFRJ/2013), de Marcelo Macedo Corrêa e Castro:

“Queremos que nossos alunos escrevam, mas não lhes criamos as condições para tal. (…) Todos sabemos o quanto nos custava atingir os limites mínimos de linhas (estes limites são indispensáveis neste processo, do contrário, ninguém escreve nada!). Mas, assim mesmo, continuamos a submeter nossos alunos a essa tortura monstruosa que é escrever sem ter ideias. Consequência: os alunos deixam a escola sem saber redigir, sem ter desenvolvida a capacidade de escrever. (Faraco, 1990, p. 19)”

Graças à pesquisa de Corrêa e Castro, pude resgatar o tema da redação do meu vestibular, em 1990. O texto motivador era uma crônica de Affonso Romano de Sant’anna e a proposta, “discutir”, por meio de uma dissertação, a pergunta do cronista: “a palavra vale ou não vale?”

As crônicas do Veríssimo foram a porta de entrada para eu me interessar pelo resto do jornal. Crônica é o gênero que me levou inteira para a literatura, os livros e para o jornalismo. Dois dos meus livros são de crônicas. Então posso agora reimaginar – porque lembro – o quão à vontade me senti. Eu tinha 17 anos.

A minha filha de 17 anos fará vestibular no próximo domingo. E uma de suas preocupações é chegar ao fim da redação do Enem indicando o que precisa ser feito (proposta de intervenção) para mitigar um problema (que ela ainda não sabe qual é), quem fará a ação, como e para quê. Sem isso, perderá pontos. A capacidade de fazer perguntas, logo elas, tão importantes para expressar curiosidade e inteligência, perdeu a vez entre as competências da escrita. O mais importante é trazer respostas e defender um ponto de vista. Num mundo tão cheio de questões complexas, e tanta gente cheia de certezas, precisamos de assertividade sobre temas que desconhecemos

Por que você escreve?

“Escrevo porque amo palavras desde criança”, escreveu Amy Tan, em meu nome e de tanta gente por aí. A escrita sempre me salvou e continua me salvando. Me ajudou a entrar numa escola pública disputada e a pagar minhas contas, a lidar com dor e a eternizar alegrias, a fazer amizades e conexões inesperadas. Um dos meus maiores prazeres é topar com textos lindamente escritos, ensaios sedutores que transmitem conhecimento sem que eu sofra. Amo histórias que me levam pela mão para lugares que não habito, para a vida de personagens que desconheço. Um texto bem escrito é um presente, um evento, uma paisagem bonita feita de palavras. Em última instância, um texto bem escrito me faz sentir melhor porque me sinto inteligente.

Eu não entendo por que a redação passou a ser algo tão chato. Eu não entendo por que certos grupos, como os acadêmicos, consolam-se com a produção de textos pouco lidos fora da academia. Eu não entendo por que tanta gente acredita estar condenada a escrever sem criatividade, prazer e liberdade. Eu não entendo por que a redação passou a ser algo tão chato. Eu não entendo por que certos grupos, como os acadêmicos, consolam-se com a produção de textos pouco lidos fora da academia. Eu não entendo por que tanta gente acredita estar condenada a escrever sem criatividade, prazer e liberdade. Eu não entendo por que o uso de jargões e abstrações como a tal da metalinguagem ainda são vistos como prova de erudição. Já era tempo de simplicidade ter virado sinônimo inquestionável de sofisticação também na escrita, como fez na moda, na arquitetura, no design, onde menos é mais.

Imagina se a tal oficina de fotografia com celular lá em Covent Garden começasse com o seguinte disclaim:

“Essa aula é exclusiva de profissionais da fotografia, gente que usa a foto como um fim e não um meio. Quem não se encaixa na definição, favor retirar-se do hall, tapar os ouvidos ou virar de costas. Continue tirando fotos sem-graça, sem enfeite, sem poesia, porque você não precisa disso.”

Quem ama palavras precisa de chance para perseguir uma escrita que comunique, informe, inspire e atenda seus propósitos de um jeito cativante e potente, algo que há pouco tempo a gente acreditava ser exclusividade da literatura. Essa paixão pelas palavras extrapola carreiras. Isso que chamamos de escrita criativa é muito mais eficiente para arrastar multidões do que um texto discursivo-argumentativo cravejado de termos antiquados.

Qual a habilidade que a galera universitária vai precisar, afinal, para defender seus pontos de vista?

https://valor.globo.com/opiniao/isabel-clemente/coluna/o-poder-de-um-texto-bem-escrito.ghtml

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O desabafo do CEO da Gerdau 

Em evento em São Paulo, o tema eram as oportunidades verdes do Brasil, mas Gustavo Werneck roubou a cena com discurso sobre a situação “dramática” com a competição chinesa

Ana Costa, Gustavo Werneck, Leonardo Pontes e Vivianne Valente (Tiago Mendes/Divulgação)

Ana Costa, Gustavo Werneck, Leonardo Pontes e Vivianne Valente (Tiago Mendes/Divulgação)

Natalia Viri – Exame –  30 de outubro de 2023 

Na sexta-feira, mais de 100 empresários, congressistas e membros dos governos federal e estadual se reuniram em São Paulo para um evento do Movimento Brasil Competitivo. Em pauta, as oportunidades e os desafios para o Brasil destravar suas vantagens quando o assunto é energia limpa e meio ambiente. Num painel com executivos e executivas de empresas como Cosan, Natura e Tigre o tema era a neoindustrialização verde. Mas um desabafo de Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, que compunha a bancada, roubou a cena (é possível conferi-lo aqui, a partir de 1h56m). 

“A coisa mais importante para descarbonizar o setor industrial é ter indústria. Se não tem indústria, não precisa descarbonizar nada. Eu sinceramente estou num momento em que acredito que estamos indo pelo caminho mais fácil que é não ter indústria no Brasil”, disparou Werneck, dando o tom do que viria pela frente nos próximos 10 minutos. 

Num discurso de indignação, ele usou a palavra “dramático” cinco vezes para ilustrar a situação da indústria nacional e elencou as dificuldades sofridas pelo setor siderúrgico com a enxurrada de aço chinês que tem chegado ao país.

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“Me lembro em 2015, por exemplo, nós tomamos uma decisão muito significativa de investir R$ 5 bilhões em equipamentos para produção de aços planos em nossas usinas em Minas Gerais, na crença de que a gente teria uma indústria naval no Brasil, que nunca veio. Na crença de que teríamos no longo prazo um fornecimento de aço muito significativo para o setor de energia eólica. Nesse momento, não tenho mais nenhum cliente de energia eólica. Todos se foram”, disse. 

E continuou. “Estamos passando por um momento muito difícil de desindustrialização e ela é mais crítica num ano como este no qual temos um recorde de importação de aço chinês no Brasil.”

No primeiro semestre deste ano, a receita da Gerdau caiu 6,2%. Com o menor crescimento no mercado interno, a China tem colocado o pé no acelerador nas exportações, com subsídios que tornam o preço do produto final por vezes menores que o custo dos produtores locais. Hoje, as importações diretas e indiretas correspondem a 29% do mercado brasileiro de aço, metade disso vinda dos chineses. 

Werneck tem sido cada vez mais vocal sobre o impacto da competição e tem batido ponto em Brasília para pleitear o estabelecimento de uma alíquota de 25% para a importação de produtos siderúrgicos – um pedido que não agrada consumidores intensivos em aço, como a indústria automotiva e de máquinas. Até agora, o governo só concordou em retirar incentivos à importação, com antecipação para 1º de outubro do fim da redução de 10% na alíquota de imposto de importação sobre 12 produtos de aço que só acabaria em 31 de dezembro. 

No evento do Movimento Brasil Competitivo – formado há 22 anos e do qual Jorge Gerdau, da família controladora, é chairman –, Werneck também foi enfático sobre o papel das importações de carros chineses sobre a indústria automotiva. Recentemente, a Gerdau concluiu um investimento de US$ 250 milhões na usina de Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, para a produção de aços limpos, mais leves e resistentes e utilizados principalmente pela indústria de carros híbridos e elétricos. 

“Fizemos investimentos muito significativos na esperança de que essa indústria aconteceria. E nos deparamos com uma situação em que clientes tradicionais produtores de automóveis no Brasil, como a Ford, deixam o Brasil”, afirmou. “Temos uma penetração muito forte de veículos importados. Tem essa BYD, Build Your Dreams [montadora chinesa]. Talvez ela tenha construído o sonho de alguém, mas certamente não é o meu, porque para um veículo desse a gente não vende sequer um quilo de aço.”

“Em um momento no qual precisamos criar condição para a camada da população brasileira entre 18 e 25 anos que tem um desemprego na faixa de 25%, eu estou na infelicidade de ter demitido 700 pessoas este ano”. 

Segundo o executivo, a Gerdau consegue produzir um aço com um décimo das emissões de carbono da China, por conta tanto da matriz energética brasileira quanto o uso de carvão vegetal nos alto-fornos e da grande utilização de sucata de aço no seu processo.

“Estamos num momento dramático, o que é uma pena porque conseguimos construir uma capacidade produtiva muito competitiva do ponto de vista ambiental e estamos vendo isso ser colocado em xeque”, afirmou. 

Ainda que o foco tenha ficado na competição com a China e na necessidade do que chamou de “medidas de curto prazo” para preservar a competitividade nacional – leia-se aumento de alíquotas –, o CEO da Gerdau falou também sobre as dificuldades tributárias. 

“Hoje aqui no Brasil tenho 118 pessoas na minha área tributária. Na América do Norte, incluindo México, Estados Unidos e Canadá, eu tenho quatro”, afirmou. As operações têm tamanho semelhante – e, nos últimos dois anos, a divisão americana superou inclusive a brasileira em receita pela primeira vez nos 122 anos da companhia. 

Num contraste aparente com o discurso, ele encerrou afirmando que se mantém “otimista” e que a companhia vem buscando sempre os melhores benchmarks internacionais e iniciativas de eficiência operacional para manter a competitividade. 

“Do muro para dentro, dificilmente se encontrará hoje uma indústria no mundo que é tão competitiva como a nossa no Brasil. Mas tudo quando sai dos muros de nossas empresas fica complexo demais.”

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Natalia Viri

Editora do EXAME INJornalista com mais de 15 anos de experiência na cobertura de negócios e finanças. Passou pelas redações de Valor, Veja e Brazil Journal e foi cofundadora do Reset, um portal dedicado a ESG e à nova economia.

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Como as novas tecnologias da Amazon favorecem as vendas de produtos de baixa qualidade

Recursos de inteligência artificial generativa podem ajudar a vender publicidade, mas acabam afetando a confiança entre os clientes e a loja online

Por Dave Lee – Bloomberg – 30 de Outubro, 2023 

Bloomberg Opinion — De todos os artigos negativos escritos sobre a Amazon (AMZN) ao longo dos anos, um texto específico afetou a empresa mais do que a maioria. Alegando que a busca agressiva de crescimento se deu às custas de uma boa experiência de compra para seus clientes, a revista New York em janeiro deste ano criticou o que chamou de “The Junkification of Amazon” (“O aumento das tralhas na Amazon”, em tradução livre).

É verdade que a experiência da loja on-line da Amazon havia se deteriorado devido a vendedores terceirizados não confiáveis, muitos dos quais marcas que não têm credibilidade – muitas sediadas na China – com pouca consideração pela qualidade, confiabilidade e, em alguns casos, segurança. Em sua imensa escala, a Amazon havia desenvolvido um grave problema de confiança.

Lembrei-me do artigo esta semana ao saber de uma nova iniciativa na qual a Amazon trabalha para dar a seus vendedores a capacidade de gerar imagens falsas com mais estilo de produtos usando inteligência artificial.

Uma ferramenta, atualmente em fase beta, pega uma imagem tediosa (real) do item do vendedor – como uma torradeira, por exemplo – e cria uma foto mais interessante em segundos. Talvez a torradeira esteja agora em um balcão de cozinha, ao lado de alguns croissants de aparência saborosa. As imagens podem então ser usadas em espaços publicitários no site da Amazon.

Com margens melhores do que as de seu principal negócio de varejo, a publicidade tornou-se uma fonte de receita essencial para a Amazon em um momento em que os investidores pressionam a empresa a aumentar os lucros. No último trimestre, conforme relatado na quinta-feira (26), a publicidade foi o segmento de crescimento mais rápido em todo o negócio. Os anúncios geraram US$ 32 bilhões em receita este ano.

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Ao contrário de outros players do mercado de anúncios digitais, a Amazon disse que não estava preocupada com a volatilidade política que afetava as vendas gerais de anúncios, porque, embora a empresa estivesse perdendo alguns anúncios no “topo do funil” – como propagandas de TV no Prime Video –, ela não tinha esse problema com as vendas “mais abaixo no funil” de espaços patrocinados em sua loja.

Aqueles que acusam a Amazon de comportamento anticompetitivo dizem que isso ocorre porque a Amazon lhes dá pouca escolha a não ser comprar anúncios se quiserem que seu produto tenha alguma chance realista de ser visto.

Essas ferramentas de IA são projetadas para gerar ainda mais receita de publicidade, ajudando os anunciantes a criar mais anúncios com mais rapidez, sem o esforço de realmente tirar uma foto real. “As taxas de cliques podem ser 40% mais altas em comparação com anúncios com imagens de produtos padrão”, disse a Amazon em um comunicado à imprensa.

A motivação da Amazon e dos anunciantes é clara. Para o consumidor, no entanto, o lançamento da IA generativa parece mais uma erosão da confiança. A empresa contesta essa percepção, mas o que se resume a isso é o potencial para mais deturpações sobre a qualidade dos produtos e a integridade do vendedor que os vende aos compradores.

A Amazon, para dizer o óbvio, não é como uma loja tradicional. Você não consegue julgar a qualidade dos produtos olhando e tocando-os pessoalmente. Em vez disso, você deve confiar em pistas subjetivas: o produto é de uma marca em que confio? Muitas outras pessoas compraram o produto? As avaliações são boas?

Com o passar do tempo, a Amazon permitiu que todos esses sinais se tornassem confusos: as marcas muitas vezes são completamente desconhecidas, os vendedores podem pagar para fazer com que seus produtos pareçam mais populares e o sistema de avaliações é usado erroneamente há muito tempo.

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A publicidade se tornou o segmento de crescimento mais rápido em todos os negócios da AmazonFonte: Bloomberg(Source: Bloomberg)

A IA generativa remove outras pistas. Uma maneira de os itens de qualidade na Amazon se destacarem das falsificações é porque as imagens manipuladas tornam isso óbvio. Uma imagem feita por IA pode parecer mais profissional, mas um vendedor que pode se dar ao luxo de comercializar adequadamente seu produto – com imagens reais – e que se esforçou para fazer isso é o que devemos preferir.

Outra ferramenta que a Amazon agora oferece gera descrições de produtos com IA, um desenvolvimento que dificultará a identificação de um produto de baixa qualidade – descrições mal escritas em um inglês ruim eram um bom indício de um item ruim. A IA vai mudar isso.

A Amazon enfatizou que as imagens geradas por IA são restritas para uso apenas em espaços publicitários e não em páginas de listagem de produtos. Pessoalmente, não faço nenhuma distinção ética quanto a isso.

A empresa acrescentou que possui um processo robusto de moderação em relação à publicidade, mas não quis explicar quais medidas adicionais específicas foram implementadas para garantir que a ferramenta de IA não estivesse sendo usada para dar uma impressão injusta do produto, por menor que fosse.

A empresa argumentou que, como os produtos em si são reais, e apenas a cena ao redor é gerada por IA, os clientes podem ter certeza de que estão recebendo o que compraram (e que há uma boa política de devolução, caso contrário).

Esse parece ser o início de um caminho bastante complicado. Nos exemplos mostrados pela Amazon, não há informação de que a IA está sendo usada. A Amazon me disse que ainda estava considerando como a rotulagem poderia ser aplicada, mas ela deveria ter sido implementada já no primeiro dia.

O fundador da Amazon, Jeff Bezos, gostava de dizer que o princípio orientador da empresa era sempre fazer o que fosse melhor para a experiência do cliente. Mas recursos como esse me fazem pensar com qual “cliente” a Amazon se preocupa mais hoje em dia.

A crescente importância do negócio de anúncios para manter os resultados financeiros da Amazon significa que a empresa começa a se comportar como outros gigantes da tecnologia dependentes de anúncios, para os quais o cliente não é você ou eu, mas as empresas que têm orçamentos de marketing.

A medida a favor do consumidor seria a Amazon insistir que todas as imagens em sua loja fossem genuínas e usar a IA para detectar e eliminar qualquer tipo de falsificação.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Dave Lee é colunista da Bloomberg Opinion e cobre a área de tecnologia dos EUA. Foi correspondente para o Financial Times e a BBC News.

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O ingrediente secreto dos bons artigos de opinião

Estudo revela perfil das pessoas mais persuasivas. Conheça o segredo da escrita que levará seu ponto de vista mais longe

Por Isabel Clemente* – Valor – 31/08/2023 

Texto impecável, informações confiáveis, pesquisa, lugar de fala (ou experiência pessoal), nada disso supera a força de uma escrita permeada pelo mais poderoso dos ingredientes, aquele que tornará seus argumentos mais persuasivos, levará seu ponto de vista mais longe e ainda te protegerá de eventuais mancadas: a humildade. Exagero meu?

Em tempos de discussões acaloradas em redes sociais, e em que tantos temas se tornam controversos com facilidade, ser humilde é uma vantagem competitiva nos debates. É o que mostra um novo estudo que investigou o uso de argumentações políticas entre republicanos e democratas, as duas forças antagônicas da política dos Estados Unidos. Os autores queriam entender o que torna algumas pessoas mais influentes do que outras.

Com uma amostra de 597 indivíduos, de ambos os partidos, os autores pediram que escolhessem e escrevessem de forma argumentativa sobre algum tema político. Depois, submeteram os textos a mais de 3.000 pessoas para ranquear quais foram considerados mais válidos, sensatos e convincentes. Concluíram que mulheres, liberais e pessoas capazes de admitir que seus pontos de vista podem estar errados foram as mais bem sucedidas na defesa de suas ideias, tanto em relação aos pares quanto ao “lado de lá”.

Como todo estudo social, esse também tem lá suas limitações, mas nos deixa algumas dicas sobre a importância de se adotar certa postura num embate. Gente com habilidade para mudar de opinião atrai mais admiração e respeito. É gente que opina de um lugar com mais nuances.

“A persuasão política é fundamental para uma democracia vibrante, onde os cidadãos se envolvem em tentativas sinceras de influenciar os corações e as mentes dos outros. A persuasão é um mecanismo não só de mudança de atitude ao longo do tempo, incluindo a redução de preconceitos, mas também de polarização e radicalização de grupo”, escreveram os autores.

Em entrevista à Greater Good Magazine – publicação da Berkley University -, o pesquisador-líder desse trabalho, Jeffrey Lees, da Universidade Princeton, ressaltou a importância de se conhecer, neste momento tenso da política (não só nos Estados Unidos, como sabemos), quem está mais bem equipado para sustentar debates mais eficazes, e menos polarizados. “Mulheres e pessoas que são realmente humildes, bem como pessoas menos identificadas com o seu partido político, podem ser melhores nisso”, afirmou Lees.

Humildade também é elemento destacado por grandes escritores na hora de explicar a beleza de sua arte. Na The Atlantic você lê (em inglês) um ensaio que relaciona a boa escrita à humildade. Tirei de lá a seguinte declaração do premiado escritor suíço Peter Stamm (alguns de seus livros estão traduzidos no Brasil), numa conversa em que comenta seu livro All days are night: a novel (tem amostra disponível na Amazon).

“Acho que é bom que os artistas tenham esse tipo de humildade em mente. (…) Delírios de grandeza provavelmente facilitam o trabalho – mas o tornam mais profundo se você admitir que não é tão especial. Tornou mais difícil para mim escrever com os pés no chão, mas, por outro lado, acho que minha escrita se tornou mais substancial quando percebi que não sou melhor do que ninguém.”

Considerando que vaidade é da natureza humana, e que se torna ainda mais resistente em atividades intelectuais e artísticas, onde a beleza do produto se confunde com a de quem o criou, estamos tratando aqui de algo difícil: opinar sem ser prepotente. A prepotência nos espreita ali da fronteira da especialização. Depois de estudar tanto um assunto, pode ser complicado admitir que não se sabe tudo ainda e que, talvez, a pessoa mais desinformada da área tenha uma opinião para dar. Surpreendente, no entanto, e transformador, será perceber que até essa opinião desprovida de conhecimento técnico às vezes joga luz numa falha do seu raciocínio, nem que seja na necessidade de se comunicar melhor com não-especialistas. Na verdade, montar um argumento para defender algo que nos parece óbvio exige humildade em doses cavalares.

Humildade também é o princípio que vai te ajudar a dosar informações. Nem sempre é útil despejar tudo o que se sabe sobre um tema, mas selecionar os argumentos que farão diferença para não cansar o público-leitor. Deixar espaço para conclusões independentes demonstra também generosidade. Muita informação quase sempre leva a um excesso de didatismo que, apesar das boas intenções, pode se voltar contra você, ainda mais se a audiência se sentir desrespeitada. Expressões como “vou desenhar para você que não entendeu”, comuns quando se chega ao ponto de não-retorno (também conhecido como impaciência), atrapalham. Pessoas humildes costumam ser mais cautelosas na hora de defender opiniões.

Artigo de opinião talvez represente o subgênero mais desafiante da escrita de não-ficção, porque isso de convencer alguém sobre alguma coisa é lutar contra a teimosia humana, a nossa também. Toda vez que reflito sobre artigos de opinião, busco inspiração em outro subgênero, o dos ensaios pessoais.

Nessa forma de escrita, em que um pouco da sua história pode fazer toda a diferença, adota-se um tom de conversa. Conversas continuam sendo o caminho mais recomendado (e seguro) para a arte de persuadir e fortalecer a democracia. O ideal, na hora de escrever um ensaio pessoal, é imaginar-se diante de alguém com quem você pode pensar alto, sendo transparente e acessível. Você não tem medo de ser humano. Talvez você faça perguntas retóricas. Ou não. Admita dúvidas. Reconheça falhas. Essa atitude de conversa, que Philip Lopate define como “um cochicho no ouvido de outra pessoa” em seu The Art of the Personal Essay não comporta gente gritando com o dedo em riste.

Ouvi esta semana o podcast The Witch Trials of J.K.Rowling – que recomendo com louvor. No último episódio, tem uma pequena entrevista com Stacy Shiff, jornalista ganhadora do Pulitizer e autora de “As bruxas: Intriga, Traição e Histeria em Salem” – em que reproduziu um dos mais assustadores episódios da história americana sobre perseguição e surto coletivo. Ela decidiu pesquisar o assunto por enxergar um paralelo entre o que se passou naquele longínquo século 17 e a destruição de reputações e perseguições facilitadas pelas redes sociais e a cultura do cancelamento. E o que me chamou atenção na história não foi tanto o obscurantismo religioso daquele evento sinistro, mas o fato de os responsáveis pela condenação serem pessoas com acesso a leitura e estudos. “Não era uma multidão ignorante, mas pessoas educadas, muitas delas em Harvard. É um paradoxo engraçado ver que estamos falando dos mais bem educados numa comunidade”, disse Shiff. “Todo mundo ali acreditava estar fazendo o melhor pela comunidade.”

Pois é, não havia espaço para dúvida nem para questionamento. A falta de humildade enfraquece nosso poder de persuasão e, não raro, nos leva a más decisões – inclua nisso a escolha das piores palavras. E, na hora de escrever um bom texto, toda palavra importa.

*Carioca, é formada em Jornalismo pela PUC-Rio e mestre em Escrita Criativa pela Royal Holloway, University of London

https://valor.globo.com/opiniao/isabel-clemente/coluna/o-ingrediente-secreto-dos-bons-artigos-de-opiniao.ghtml

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Ghosting: Quando o silêncio é a resposta

Em breve a limitação da nossa capacidade de responder às mensagens vai desaparecer

Ronaldo Lemos* – Folha – 29.out.2023

Responder é perigoso. Quem diria que responder (ou não) a uma mensagem, post, notícia ou comentário na internet fosse virar uma atividade cheia de complicações. Recentemente, a escritora Mariah Kreutter abordou esse fenômeno do “reply” na publicação Dirt.

O que é respondido importa. Mariah lembra que a pior resposta ou reação que alguém pode receber é a mão com o polegar levantado (o popular joinha). Na cultura que emergiu na internet, reagir de forma não solicitada a um post ou story com o polegar amarelo em riste é praticamente uma ofensa. Na visão dela, um símbolo do acrônimo IDGAF em inglês (“I don’t give a fuck”) —”eu não dou a mínima”, em português.

Há também os respondedores profissionais. Você publica qualquer coisa e a pessoa responde na hora, seja com texto ou emoji. O que significa? É algo a ser celebrado, ter alguém que acompanha tudo que você faz, ou a ser temido?

Há também o problema da demora na resposta. Você escreve para alguém e a pessoa não responde. Ou demora a responder. Isso leva automaticamente a especulações. A pessoa viu a mensagem? O celular quebrou, está sem sinal? Ou será que sofreu um acidente?

Na maioria dos casos ninguém pensa na hipótese mais provável: de que todos nós temos demandas por atenção cada vez maiores, e capacidade de responder limitada. Um atraso ou ausência de resposta pode significar simplesmente que o destinatário não conseguiu ler ou ter o tempo ou a oportunidade para responder.

Claro que o silêncio também pode ter um significado. Ele pode ser a própria mensagem. Essa hipótese também é provável, mas não gostamos de pensar nela.

Uma das formas de comunicação mais características da atualidade é o “ghosting”. Simplesmente desaparecer e deixar de responder às mensagens de alguém, sem explicações. Esse tipo peculiar de silêncio é muito usado para encerrar relacionamentos contemporâneos, evocando o poema de T. S. Eliot que diz que o mundo acaba “não com estrondo, mas com gemido”.

O ghosting em si virou um tema literário. Há vários poemas recentes escritos sobre ele. Um deles, de J. Autherine, diz “sem adeus nem clareza, apenas o vento frio do afastamento, estranhos de novo, sem nem um emoji para nos aquecer”.

Em breve essa limitação da nossa capacidade de responder vai desaparecer. Está chegando o momento dos assistentes virtuais baseados em inteligência artificial. A tendência é que cada pessoa tenha o seu. Esses assistentes vão ser capazes de ler as mensagens que recebemos e responder a todas elas usando nosso estilo e nossa orientação.

Por exemplo, um celular recém-lançado por uma big tech tem um assistente que responde a todas as ligações telefônicas em nosso nome, com voz natural.

Ele se identifica como nosso assistente artificial e conversa com a pessoa do outro lado normalmente. Pergunta do que se trata e a partir daí filtra a ligação. Se for telemarketing, diz que estamos ocupados e não podemos atender. Se for algo importante, repassa a ligação e só então o telefone toca.

No futuro, é possível que nossos assistentes de IA fiquem falando entre si, respondendo uns aos outros. Enquanto pescamos ou passeamos no parque. Nesse momento ninguém mais vai ficar sem resposta. Quando a abundância das respostas artificiais chegar, talvez até do vento frio do ghosting teremos saudades.



Já era O ‘joinha’ como sinal de reconhecimento

Já é Ghosting como linguagem no mundo digital contemporâneo

Já vem Assistentes de IA respondendo por nós

*Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2023/10/ghosting-quando-o-silencio-e-a-resposta.shtml

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Computação quântica já ameaça segurança de eletrônicos e ‘desespera’ potências; entenda

A tecnologia quântica pode comprometer nossos sistemas de criptografia. Será que vamos conseguir substituí-los antes que seja tarde demais?

Por Zach Montague – Estadão/NYT – 26/10/2023

THE NEW YORK TIMES – Eles o chamam de Q-Day: o dia em que um computador quântico, mais poderoso do que qualquer outro já construído, poderia destruir o mundo da privacidade e da segurança como o conhecemos. Isso aconteceria por meio de um ato de bravura da matemática: a separação de alguns números muito grandes, com centenas de dígitos, em seus fatores primos.

Isso pode parecer um problema de divisão sem sentido, mas prejudicaria fundamentalmente os protocolos de criptografia nos quais os governos e as empresas confiam há décadas. Informações confidenciais, como inteligência militar, projetos de armas, segredos industriais e informações bancárias, geralmente são transmitidas ou armazenadas sob cadeados digitais que o ato de fatorar números grandes poderia abrir.

Entre as várias ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos, a quebra da criptografia raramente é discutida nos mesmos termos que a proliferação nuclear, a crise climática global ou a inteligência artificial geral (AGI, na sigla em inglês). Mas para muitos dos que estão trabalhando no problema nos bastidores, o perigo é existencial.

“Esse é um tipo de problema completamente diferente de todos os que já enfrentamos”, disse Glenn S. Gerstell, ex-conselheiro geral da National Security Agency (NSA) e um dos autores de um relatório de consenso de especialistas em criptologia. “Pode ser que haja apenas 1% de chance de isso acontecer, mas 1% de chance de algo catastrófico é algo com que você precisa se preocupar.”

A Casa Branca e o Departamento de Segurança Interna deixaram claro que, nas mãos erradas, um computador quântico potente poderia interromper tudo, desde comunicações seguras até as bases de nosso sistema financeiro. Em pouco tempo, as transações com cartão de crédito e as bolsas de valores poderiam ser invadidas por fraudadores. Os sistemas de tráfego aéreo e os sinais de GPS poderiam ser manipulados e a segurança da infraestrutura essencial, como usinas nucleares e a rede elétrica, poderia ser comprometida.

O perigo se estende não apenas a futuras violações, mas também a violações passadas: os dados criptografados coletados agora e nos próximos anos poderiam, após o Q-Day, ser desbloqueados. Autoridades de inteligência atuais e anteriores afirmam que a China e outros rivais em potencial provavelmente já estão trabalhando para encontrar e armazenar esses conjuntos de dados na esperança de decodificá-los no futuro. Pesquisadores de políticas europeias reiteraram essas preocupações em um relatório nos últimos meses.

Ninguém sabe quando, se é que algum dia, a computação quântica chegará a esse nível. Atualmente, o dispositivo quântico mais poderoso usa 433 “qubits”, como são chamados os equivalentes quânticos dos transistores. Provavelmente, esse número precisaria chegar a dezenas de milhares, talvez até milhões, para que os sistemas de criptografia atuais caíssem.

Mas dentro da comunidade de segurança cibernética dos EUA, a ameaça é vista como real e urgente. A China, a Rússia e os Estados Unidos estão correndo para desenvolver a tecnologia antes que seus rivais geopolíticos o façam, embora seja difícil saber quem está à frente porque alguns dos ganhos estão envoltos em sigilo.

Do lado americano, a possibilidade de um adversário vencer essa corrida deu início a um esforço de anos para desenvolver uma nova geração de sistemas de criptografia, que nem mesmo um poderoso computador quântico seria capaz de quebrar.

O esforço, que começou em 2016, culminará no início do próximo ano, quando se espera que o Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia finalize sua orientação para migrar para os novos sistemas. Antes dessa migração, o presidente dos EUA Joe Biden, no final do ano passado, sancionou a Lei de Preparação para a Segurança Cibernética da Computação Quântica, que orientou as agências a começarem a verificar se há criptografia em seus sistemas que precisará ser substituída.

Mas, mesmo com essa nova urgência, a migração para uma criptografia mais forte provavelmente levará uma década ou mais – um ritmo que, segundo alguns especialistas, pode não ser rápido o suficiente para evitar uma catástrofe.

Ficando à frente do relógio

Desde a década de 1990, os pesquisadores sabem que a computação quântica – que se baseia nas propriedades das partículas subatômicas para realizar vários cálculos ao mesmo tempo – poderá um dia ameaçar os sistemas de criptografia em uso atualmente.

Em 1994, o matemático americano Peter Shor mostrou como isso poderia ser feito, publicando um algoritmo que um computador quântico então hipotético poderia usar para dividir rapidamente números excepcionalmente grandes em fatores – uma tarefa na qual os computadores convencionais são notoriamente ineficientes. Esse ponto fraco dos computadores convencionais é a base sobre a qual se assenta grande parte da criptografia atual. Ainda hoje, a fatoração de um dos grandes números usados pelo R.S.A., uma das formas mais comuns de criptografia baseada em fatores, levaria trilhões de anos para ser realizada pelos computadores convencionais mais potentes.

No início, o algoritmo de Shor era pouco mais do que uma curiosidade inquietante. Grande parte do mundo já estava adotando exatamente os métodos de criptografia que Shor havia demonstrado serem vulneráveis. O primeiro computador quântico, que era muito fraco para executar o algoritmo de forma eficiente, não seria construído antes de quatro anos.

Mas a computação quântica tem progredido rapidamente. Nos últimos anos, a IBM, o Google e outros demonstraram avanços constantes na construção de modelos maiores e mais capazes, o que levou os especialistas a concluir que o aumento de escala não é apenas teoricamente possível, mas alcançável com alguns avanços técnicos cruciais.

“Se a física quântica funcionar da maneira que esperamos, será uma questão de engenharia”, disse Scott Aaronson, diretor do Centro de Informações Quânticas da Universidade do Texas em Austin.

Espera-se que a computação quântica traga benefícios radicais para campos como química, ciência dos materiais e IA. Os dispositivos do futuro poderão simular reações químicas complexas, turbinando a descoberta de novos medicamentos e materiais que poderão levar a baterias mais duradouras para veículos elétricos ou alternativas sustentáveis de plástico.

No ano passado, as empresas iniciantes de tecnologia quântica atraíram US$ 2,35 bilhões em investimentos privados, de acordo com uma análise da empresa de consultoria McKinsey, que também projetou que a tecnologia poderia criar US$ 1,3 trilhão em valor nesses campos até 2035.

Especialistas em segurança cibernética alertam há algum tempo que rivais com grandes recursos, como a China e a Rússia – entre os poucos adversários com o talento científico e os bilhões de dólares necessários para construir um computador quântico formidável – provavelmente estão avançando com a ciência quântica em parte em segredo.

Apesar de várias conquistas dos cientistas americanos, os analistas insistem que o país corre o risco de ficar para trás – um temor reiterado este mês em um relatório do Center for Data Innovation, um grupo de reflexão voltado para a política tecnológica.

‘Perto demais para ser confortável’

Cientistas do National Institute of Standards and Technology (Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia) são responsáveis pela manutenção dos padrões de criptografia desde a década de 1970, quando a agência estudou e publicou a primeira cifra geral para proteger as informações usadas por agências civis e contratadas, o padrão de criptografia de dados. À medida que as necessidades de criptografia evoluíram, o NIST tem colaborado regularmente com órgãos militares para desenvolver novos padrões que orientam empresas de tecnologia e departamentos de TI em todo o mundo.

Durante a década de 2010, os funcionários do NIST e de outros órgãos se convenceram de que a probabilidade de um salto substancial na computação quântica dentro de uma década – e o risco que isso representaria para os padrões de criptografia do país – havia se tornado muito alta para ser prudentemente ignorada.

Nosso pessoal estava fazendo o trabalho de base que dizia: “ei, isso está se tornando muito próximo para o conforto”, disse Richard H. Ledgett Jr., ex-vice-diretor da NSA.

O senso de urgência foi intensificado pela consciência de quão difícil e demorada seria a implementação de novos padrões. A julgar, em parte, por migrações passadas, as autoridades estimaram que, mesmo depois de se estabelecer uma nova geração de algoritmos, poderia levar mais 10 a 15 anos para implementá-los amplamente.

Isso não se deve apenas a todos os atores, desde gigantes da tecnologia até pequenos fornecedores de software, que precisam integrar novos padrões ao longo do tempo. Algumas criptografias também existem no hardware, onde pode ser difícil ou impossível modificá-las, por exemplo, em carros e caixas eletrônicos. Dustin Moody, matemático do NIST, ressalta que até mesmo os satélites no espaço podem ser afetados.

“Você lança o satélite, o hardware está lá e não será possível substituí-lo”, observou o Dr. Moody.

Uma defesa de código aberto

De acordo com o NIST, o governo federal estabeleceu uma meta geral de migrar o máximo possível para esses novos algoritmos resistentes ao quantum até 2035, o que muitos funcionários reconhecem ser ambicioso.

Esses algoritmos não são o produto de uma iniciativa semelhante à do Projeto Manhattan ou de um esforço comercial liderado por uma ou mais empresas de tecnologia. Em vez disso, eles surgiram após anos de colaboração em uma comunidade diversificada e internacional de criptógrafos.

Após sua chamada mundial em 2016, o NIST recebeu 82 propostas, a maioria desenvolvida por pequenas equipes de acadêmicos e engenheiros. Como no passado, o NIST se baseou em um manual no qual solicita novas soluções e, em seguida, as libera para pesquisadores do governo e do setor privado, para que sejam desafiadas e analisadas em busca de pontos fracos.

“Isso foi feito de forma aberta, de modo que os criptógrafos acadêmicos, as pessoas que estão inovando nas formas de quebrar a criptografia, tiveram a chance de avaliar o que é forte e o que não é”, disse Steven B. Lipner, diretor executivo da SAFECode, uma organização sem fins lucrativos voltada para a segurança de software.

Muitos dos trabalhos mais promissores foram desenvolvidos com base em redes, um conceito matemático que envolve grades de pontos em várias formas repetidas, como quadrados ou hexágonos, mas projetadas em dimensões muito além do que os seres humanos podem visualizar. À medida que o número de dimensões aumenta, problemas como encontrar a menor distância entre dois pontos tornam-se exponencialmente mais difíceis, superando até mesmo os pontos fortes de computação de um computador quântico.

À medida que o número de dimensões aumenta, a complexidade de encontrar a distância entre dois pontos se torna exponencialmente mais difícil

À medida que o número de dimensões aumenta, a complexidade de encontrar a distância entre dois pontos se torna exponencialmente mais difícil Foto: Douglas Stebila/University of Waterloo

Por fim, o NIST selecionou quatro algoritmos para recomendar o uso mais amplo.

Apesar dos sérios desafios da transição para esses novos algoritmos, os Estados Unidos se beneficiaram da experiência de migrações anteriores, como a que foi feita para solucionar o chamado bug do milênio e as mudanças anteriores para novos padrões de criptografia. O tamanho das empresas americanas, como Apple, Google e Amazon, com seu controle sobre grandes faixas de tráfego da internet, também significa que alguns poucos participantes poderiam realizar grande parte da transição com relativa agilidade.

“Você realmente consegue que uma fração muito grande de todo o tráfego seja atualizada diretamente para a nova criptografia com muita facilidade, de modo que você pode obter esses grandes pedaços de uma só vez”, disse Chris Peikert, professor de ciência da computação e engenharia da Universidade de Michigan.

Mas os estrategistas alertam que a maneira como um adversário pode se comportar depois de obter um grande avanço torna a ameaça diferente de qualquer outra que a comunidade de defesa já enfrentou. Aproveitando os avanços em inteligência artificial e aprendizado de máquina, um país rival pode manter seus avanços em segredo em vez de demonstrá-los, para invadir discretamente o maior número possível de dados.

Especialmente porque o armazenamento se tornou muito mais barato, dizem os especialistas em segurança cibernética, o principal desafio agora para os adversários dos Estados Unidos não é o armazenamento de grandes quantidades de dados, mas sim fazer suposições informadas sobre o que eles estão coletando.

“Junte isso aos avanços em ofensiva cibernética e inteligência artificial”, disse Gerstell, “e você terá uma arma existencial potencialmente justa para a qual não temos nenhum impedimento específico”.

https://www.estadao.com.br/link/cultura-digital/computacao-quantica-ja-ameaca-seguranca-de-eletronicos-e-desespera-potencias-entenda/

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Redes sociais passam por transformações que devem mudar nossa relação com a internet

É impossível dizer como devem ser as plataformas do futuro, mas é certo dizer que não vão ser como as de antes

Por Pedro Doria – Estadão – 26/10/2023

Uma série de transformações podem vir a mudar por completo nossa relação com as redes sociais. Por um lado, há um movimento coletivo do Vale do Silício de se distanciar do jornalismo. Em paralelo, há outro movimento silencioso — o das pessoas se retraindo mais. Se mostrando menos. Some-se à proliferação de novas redes, uma fragmentação generalizada de plataformas. Há algo novo no ar.

A proposta inicial era de aproximar a todos: quem juntasse a maior quantidade de pessoas tenderia a vencer o jogo. Ou seja, a rede ideal seria aquela onde amigos do tempo da escola ou faculdade, colegas de trabalho, conhecidos do clube, torcedores de um mesmo time, todos se encontrariam. De alguma forma houve uma vencedora desta corrida. O Facebook.

Mas a busca por um modelo de negócios que sustentasse a estrutura terminou por derrubar o conceito inicial. Afinal, a ideia de um lugar onde todos se encontram teve de ceder espaço à de promoção artificial de engajamento para vender publicidade. Foi em 2012 — é quando algoritmos de inteligência artificial assumiram as rédeas de Facebook e Twitter. Esse editor digital tem o trabalho de descobrir o que deixa a todos ligados, aquilo que gera ansiedade de voltar e, em essência, manipula emocionalmente para expor publicidade.

Com o tempo, o ambiente se tornou desagradável. Ao distribuir para milhões conteúdos inflamáveis e esconder tanto aquilo que não desperta emoções fortes, o convívio cotidiano nas redes ficou desagradável para mais e mais pessoas.

As redes são cada vez menos sociais, cada vez mais de entretenimento

Não foi só por causa do algoritmo. Conversar o tempo todo com o mundo não é natural. Nunca na história estivemos em assembleia permanente, convocados a opinar sobre assuntos de toda sorte. A soma de tudo trouxe dois resultados. O primeiro é um grupo de usuários que publica disciplinadamente, com o intuito de transformar a presença digital em renda. O segundo é o de que todo o resto está cada vez mais tímido, mais ausente. Perfis fechados tornam-se comuns. As redes são cada vez menos sociais, cada vez mais de entretenimento.

Estresse nas plataformas levou a uma onda de concorrência. Primeiro, de TikTok e Kwai. Depois, nas redes de texto, de BlueSky, Mastodon e finalmente Threads. A proliferação está lentamente gerando redes parecidas frequentadas por públicos diferentes. Há fragmentação do espaço.

Legislação que obriga plataformas digitais a pagarem pelo jornalismo que publicam foi o incentivo final para que o Vale do Silício tomasse a decisão de se afastar do ramo das notícias. Entre os executivos, parte da esperança é de que o ambiente desestresse. Mas será preciso convencer as pessoas a conversarem sobre temas não relacionados ao que ocorre no dia a dia.

Ainda é impossível dizer que ambiente ficará. Mas as redes como ficarão não são como as do tempo da sua avó.

https://www.estadao.com.br/link/pedro-doria/redes-sociais-passam-por-transformacoes-que-devem-mudar-nossa-relacao-com-a-internet/

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A evolução da responsabilidade socioambiental global na cadeia de fornecimento e as implicações para empresas brasileiras

Márcio Pereira, Fernanda Tanure, Marina Maciel e Giovanna Lino, advogados do BMA, comentam neste artigo sobre a obrigação da devida diligência na cadeia de fornecimento

Por Márcio Pereira, Fernanda A. Tanure, Marina Maciel e  Giovanna Lino, Para o Prática ESG (*) — Valor – 25/10/2023 

Dentre as iniciativas ESG (sigla para se referir a questões ambientais, sociais e de governança corporativa) , destaca-se um fenômeno global de regulamentação da obrigação das empresas realizarem a devida diligência na cadeia de fornecimento, garantindo a integridade de toda a sua cadeia de fornecimento.

Estudo publicado em 2020 na Harvard Business Review mostra algumas alternativas para o desenvolvimento de práticas ESG em cadeias de suprimentos, bem como aponta que o principal erro das organizações é focar no seu fornecedor chamado de “top-tier”, isto é, de “primeira linha”, quando, na realidade, o maior risco vem da parte mais baixa da cadeia. A ideia é, assim, que cada empresa demande de seu fornecedor direto que atenda a essas práticas, e que estes, por sua vez, demandem o mesmo de seus fornecedores diretos, criando um efeito cascata de diligência.

Na comunidade europeia, o tema passou a ter uma atenção maior em 2017, com a promulgação de lei na França que obriga determinadas empresas nacionais ou empresas estrangeiras que operam no país a realizarem a devida diligência ambiental e de direitos humanos (human rights and environmental Due Diligence – hreDD) nas suas cadeias de suprimentos, bem como a publicarem um Plano de Vigilância anual.

Outro importante marco legislativo ocorreu na Alemanha, no início deste ano, com a entrada em vigor da chamada “Lei de Devida Diligência na Cadeia Produtiva”, que obriga as empresas a estabelecerem um sistema de compliance e gestão de riscos dos impactos socioambientais ao longo das suas cadeias produtivas.

Os efeitos dessa lei repercutem em empresas localizadas em outros países e que têm relação comercial com empresas sujeitas à nova regulamentação sediadas na Alemanha, à medida que as obrigações se desdobrarem ao longo das cadeias de valor. Portanto, é relevante para as empresas brasileiras que travam algum tipo de relação com empresas alemãs, ainda que esta não seja direta.

Visando garantir a sua efetividade, a lei prevê a adoção de garantias contratuais de que os compromissos assumidos deverão ser observados pelos fornecedores direitos, bem como devidamente endereçados por eles aos fornecedores indiretos ao longo da cadeia produtiva. Por isso, ganham especial relevo as cláusulas de Compliance relacionadas a mecanismos de controle, performance socioambiental, critérios de materialidade para medição e reporte, além de incentivos, bônus e sanções.

Recentemente, o Parlamento Europeu aprovou regulamento de grande repercussão, o qual visa proibir importações no bloco econômico de commodities e produtos agrícolas que decorram de áreas desmatadas. Dentre os produtos contemplados destacam-se gado, óleo de palma, soja, madeira, cacau, café e borracha, além de chocolate, móveis de madeira, papel impresso e outros produtos feitos com as commodities mencionadas.

O regulamento entrará em vigor a partir do dia 30 de dezembro de 2024 e prevê a necessidade da realização do dever de diligência para a exportação dos produtos que especifica, devendo ser observados, necessariamente: (i) o cumprimento das normas do país de origem; (ii) se a cadeia de produção não importa em desmatamento ou degradação florestal desde 2021; e, (iii) a observância aos direitos humanos e das comunidades indígenas.

Diante do movimento para se impor a responsabilidade socioambiental na cadeia de fornecimento, um crescente número de empresas multinacionais passa a se comprometer a ter em sua cadeia de fornecedores somente parceiros que comprovadamente aderem aos padrões por elas estabelecidos. Tais medidas impactam diretamente países exportadores de commodities, como o Brasil, sendo que as empresas exportadoras já estão se mobilizando, por meio de associações setoriais, para estabelecer uma governança comum de monitoramento da regularidade das atividades, observados os devidos cuidados em termos de legislação concorrencial e transparência.

Sobre os autores

Márcio Pereira é sócio da área Ambiental e Mudanças Climáticas do BMA Advogados

Fernanda A. Tanure é sócia da ára Ambiental e Mudanças Climáticas do BMA Advogados

            Marina Maciel é advogada da área Ambiental e Mudanças Climáticas do BMA Advogados

           Giovanna Lino é advogada da área Ambiental e Mudanças Climáticas do BMA Advogados

https://valor.globo.com/empresas/esg/artigo/a-evolucao-da-responsabilidade-socioambiental-global-na-cadeia-de-fornecimento-e-as-implicacoes-para-empresas-brasileiras.ghtml

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Com avanço de carros elétricos, demanda global por petróleo vai parar de crescer nesta década, diz AIE

Agência Internacional de Energia prevê pico do consumo de combustíveis de origem fóssil até o fim dos anos 2020 e o início de um período de estabilidade enquanto avança a transição energética

Por Bloomberg/O Globo 24/10/2023 

A Agência Internacional de Energia (AIE) previu hoje, pela primeira vez, que a demanda mundial por petróleo atingirá o pico nesta década, diante da popularidade crescente dos carros elétricos e da desaceleração da economia da China.

O pico, que a agência também prevê para o carvão e para o gás natural, não significa que uma rápida queda no consumo de combustíveis fósseis seja iminente. O ápice da demanda provavelmente será seguido por uma estabilização oscilante que durará muitos anos, e as emissões permanecerão elevadas demais para limitar o aquecimento global a apenas 1,5ºC, afirmou a AIE.

O consumo mundial de petróleo chegará a 102 milhões de barris por dia até o fim da década de 2020, caindo para 97 milhões até meados do século, de acordo com o cenário base do relatório anual de perspectivas da AIE divulgado nesta terça-feira.

“A transição para a energia limpa está acontecendo em todo o mundo e não tem volta”, disse o diretor-executivo da agência, Fatih Birol, em comunicado. “Alegações de que o petróleo e o gás representam escolhas seguras para o futuro energético e climático do mundo parecem menos convincentes do que nunca.”

Opep tem visão diferente

A visão da AIE, que assessora as nações desenvolvidas em matéria de política energética, contrasta com as previsões da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). A entidade prevê que a demanda por petróleo continuará a crescer nas próximas décadas, atingindo 116 milhões de barris por dia em 2045.

A demanda por petróleo na indústria petroquímica, aviação e transporte marítimo continuará a aumentar até 2050, mas não será suficiente para compensar o consumo menor para transporte rodoviário diante de um “aumento surpreendente nas vendas de veículos elétricos”, afirmou a AIE.

China vai reduzir demanda

A China, que durante anos impulsionou o crescimento do consumo global de petróleo, verá o seu consumo enfraquecer nos próximos anos, de acordo com o relatório. “Estamos no caminho certo para ver o pico de todos os combustíveis fósseis antes de 2030”, afirmou a AIE.

É a primeira vez que todos os cenários elaborados pela agência sediada em Paris apontam para um declínio próximo do consumo de hidrocarbonetos.

https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2023/10/24/com-avanco-de-carros-eletricos-demanda-global-por-petroleo-vai-parar-de-crescer-nesta-decada-diz-aie.ghtml

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O balanço entre a potência das comunidades e o risco das bolhas

Paulo Emediato – Fast Company Brasil – 21-09-2023 

Em uma era de hiperconexão e volatilidade, a capacidade de estabelecer relacionamentos e a flexibilidade cognitiva para se adaptar é fundamental. As comunidades representam um oásis de estabilidade diante de mudanças cada vez mais aceleradas.

Elas se tornaram nossos norteadores, portos seguros em meio à tempestade de informações. Esses agrupamentos proporcionam apoio, validação e uma sensação inestimável de pertencimento. 

Tanto no conclamado ecossistema de inovação como na interação humana em geral, grupos organizados por afinidade servem como faróis de suporte, conhecimento (nem sempre) e identidade.

Mas, como a diferença entre veneno e remédio muitas vezes está na dose, também existem desafios e riscos que pretendo explorar um pouco mais adiante. 

O INEGÁVEL PODER DO COLETIVO

As comunidades são tesouros compartilhados. Dentro delas, nos encontramos envolvidos em um mar de experiências, desafios e objetivos comuns. Por mais peculiar que seja um grupo, ele se beneficia da dinâmica segmentada, encontrando camaradagem, aprendizado mútuo e, mais importante, acolhimento para suas ideias.

As comunidades representam um oásis de estabilidade diante de mudanças cada vez mais aceleradas.

Empreendedores, líderes e profissionais, quando imersos em suas respectivas comunidades, têm acesso a experiências compartilhadas como se cada membro trouxesse uma peça para um mosaico.

O valor desta conexão vertical é inquestionável: leva à especialização, dá profundidade ao conhecimento, promove oportunidades e recursos. Você está cercado por pessoas que falam sua língua, que “entendem” as nuances do seu domínio.

Essas conexões, embora incrivelmente enriquecedoras, vêm com uma ressalva: o risco de se tornarem câmaras de eco, onde suas ideias são sempre recebidas com aplausos.

BOLHAS E EFEITO ECO

Por outro lado, mergulhar muito fundo em uma comunidade pode, paradoxalmente, limitar nosso campo de visão. Entramos no reino das “bolhas”, onde nos cercamos apenas de vozes e opiniões semelhantes. Isso nos leva ao groupthink, ou “pensamento de manada”, um cenário perigoso, que mata a inovação e inibe a criatividade, onde as ideias são repetidamente reforçadas sem questionamento.

Dentro da comunidade, nos encontramos envolvidos em um mar de experiências, desafios e objetivos comuns.

Esse fenômeno, também conhecido como “efeito eco”, cria câmaras de ressonância, amplificando certos pontos de vista e silenciando outros. Nos tornamos refratários à diferença e a qualquer coisa que ameace a ordem estabelecida no contexto já criado. O custo da mudança aumenta e nos induz aos padrões do coletivo.

Comunidades online podem abranger geografias e culturas, o que ajuda a mitigar alguns aspectos do efeito bolha. No entanto, plataformas digitais exacerbam câmaras de eco devido à curadoria algorítmica de conteúdo. Assim, embora ofereçam acesso amplo, o desafio permanece em buscar ativamente feedback diversificado. 

INTERAÇÕES: VERTICAIS x HORIZONTAIS

Agora, imagine a diferença entre mergulhar em um poço e se estender por um campo. As interações verticais são o poço, indo mais fundo em uma área de conhecimento ou indústria. Por outro lado, as horizontais expandem nossa rede através de diversos campos e disciplinas, oferecendo a degustação de perspectivas diversas.

mergulhar muito fundo em uma comunidade pode, paradoxalmente, limitar nosso campo de visão.

Comunidades podem operar de ambas as formas, como uma dinâmica constante de troca horizontal ou um aprofundamento especializado.

Verticais: são interações que ocorrem dentro de uma indústria ou domínio específico. Elas permitem que as pessoas aprofundem seu conhecimento em uma área particular, tornando-se especialistas. Tais interações são cruciais para entender as nuances e detalhes de um setor ou tema e para construir uma base sólida de expertise.

Horizontais: se referem a interações que acontecem entre diferentes indústrias ou domínios. Elas são a porta de entrada para insights interdisciplinares e inovações que podem ser aplicadas de um campo de conhecimento para outro. As interações horizontais ampliam o escopo de compreensão e abrem oportunidades para abordagens inovadoras.

A BELEZA DA CURIOSIDADE TRANSVERSAL

É aqui que é importante resgatar o conceito de “get out of the building” ou “saia do prédio”, intimamente associado à metodologia lean startup, popularizada por Steve Blank e Eric Ries.

Por mais que tenha se tornado um jargão “startupeiro”, essa abordagem não foi criada ontem, por força de moda. Em sua essência, enfatiza a importância de interagir com potenciais clientes fora dos limites da sua empresa para realmente entender suas necessidades, desejos e desafios.

o crescimento verdadeiro muitas vezes ocorre na intersecção entre o familiar e o desconhecido.

O que vale entre empresas e clientes se aplica a outras relações e contextos sociais. Inspirado em práticas etnográficas da antropologia, este mantra de ir a campo nos impulsiona a explorar, questionar e interagir com mundos fora de nossos círculos habituais.

Não é apenas sobre coleta de dados, mas sobre alimentar uma “curiosidade transversal”, um desejo de compreender contextos diferentes dos nossos.

É isso que nos permite confrontar suposições e realidades, descobrir e nos conectar com os contextos e motivações dos outros e trabalhar a nossa plasticidade para navegar fora do contexto que nos deixa confortáveis. 

HARMONIZANDO PROFUNDIDADE E DIVERSIDADE

As comunidades, sem dúvidas, favorecem muitas inovações e avanços, tanto individuais quanto coletivos. No entanto,

ir a campo nos impulsiona a explorar, questionar e interagir com mundos fora de nossos círculos habituais.

para verdadeiramente crescer, precisamos exercitar a curiosidade, expandir horizontes e desafiar nossas próprias suposições.

Em outras palavras, precisamos de um equilíbrio harmonioso entre a especialização que as comunidades oferecem e a perspectiva ampla que o mundo fora da bolha nos proporciona. Um dos caminhos possíveis pode ser: 

  • Ancore-se primeiro em sua comunidade especializada. Construa credibilidade, adquira expertise no domínio e forme uma base sólida.
  • Uma vez bem preparado, aventure-se. Engaje-se com diferentes indústrias, participe de debates variados e absorva perspectivas diversas. Pense nisso como enriquecer sua biblioteca com os mais diversos autores, histórias e personagens. 
  • A magia muitas vezes está em mixar. Una seus insights profundos de domínio com perspectivas amplas e inter-trans-multidisciplinares. Essa fusão frequentemente gera  insights mais criativos e caminhos inovadores.
  • Inclua ambos os grupos para feedback. Suas conexões verticais fornecem uma lupa, enquanto as horizontais oferecem uma visão panorâmica.

Então, da próxima vez que você se encontrar imerso em conversas e ideias familiares, dê um passo atrás, respire fundo e pergunte-se: “Estou realmente vendo o quadro completo?”.

E lembre-se, o crescimento verdadeiro muitas vezes ocorre na intersecção entre o familiar e o desconhecido.


SOBRE O AUTOR

Paulo Emediato

Paulo Emediato vivencia a inovação na prática, de diferentes formas, desde 2012. Com mais de 15 anos de experiência corporativa, já empreendeu em novas jornadas de aprendizado e conduziu desafios em mais de 100 organizações, enquanto Managing Partner da DesignThinkers Group no Brasil. Hoje, lidera a área de marketing e engajamento com o ecossistema na Oxygea – veículo de Corporate Venture Capital, Venture Building e aceleração – com foco em sustentabilidade e transformação digital na indústria. Também é professor convidado na Miami Ad School e criador da newsletter Marmitex.Sua formação inclui programas executivos na Stanford Graduate School of Business (EUA) e na Hebrew University (Israel). É pós-graduado em gestão pela Fundação Dom Cabral e graduado em comunicação pela PUC Minas.

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