Preços da Shein mudam e varejo brasileiro acirra competição. Quem ganha?

Distância entre preços diminui; mercado aponta que empresa da Bolsa está mais preparada para competir

Daniel Rocha  – Estadão – 23/10/2023

  • Os preços de uma cesta com oito produtos da Shein subiram 6,7% nos meses de abril a outubro
  • O aumento acontece em decorrência da cobrança de 17% do ICMS, imposto de âmbito estadual
  • Já as varejistas brasileiras conseguiram reduzir em até 15% os preços de seus produtos durante o mesmo período

Desde que a Shein caiu no gosto dos brasileiros, as varejistas do País ficaram preocupadas com a presença da nova concorrente no mercado local. Os preços praticados pela marca chinesa bem abaixo da média nacional adicionaram ainda mais pessimismo entre os investidores com a capacidade de recuperação das varejistas locais devido ao cenário de juros elevados e à alta inadimplência dos brasileiros. No entanto, a boa notícia é que a diferença de preço da Shein para as outras marcas nacionais caiu nos últimos meses, o que pode aliviar a pressão da concorrência nas ações do setor.

Qual varejista perderá mais na concorrência com chinesas na Black Friday?

Segundo relatório do BTG Pactual, uma cesta com oito produtos da Shein custava em média R$ 648 em abril deste ano. Ao avaliar os mesmos itens em outubro, os analistas do banco identificaram uma elevação nos preços. Isso porque os mesmos produtos estavam sendo vendidos por R$ 692, o que representa uma alta de 6,7% durante os últimos seis meses. O aumento aconteceu no mesmo período em que a fiscalização da cobrança dos impostos de produtos vindos do exterior ficou mais rigorosa no Brasil.

Em abril, as varejistas nacionais e entidades do setor alegaram que as remessas importadas vendidas pelas plataformas estrangeiras de e-commerce, como a Shein, não estavam sendo tributadas pela Receita Federal como prevê a legislação. Os grupos ressaltavam que a ausência de fiscalização ajudava a criar uma concorrência desleal no mercado nacional.

Segundo a Receita Federal, nas compras de itens importados, os consumidores eram obrigados a pagar a alíquota de 60% em cima do valor aduaneiro (custo do produto + custo do frete + seguro) para compras de até US$ 3 mil. A isenção do tributo só acontecia para os produtos no valor de até US$ 50 entre pessoas físicas e que não configurassem uma transação comercial. Com o aumento da fiscalização, os itens quase dobraram de preço.

Para amenizar esse efeito, o governo federal lançou o programa Remessa Conforme, que retirou a alíquota de importação para as empresas que aderirem. Apenas a cobrança de 17% do Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias (ICMS), de âmbito estadual, foi mantida, como mostramos nesta reportagem. Nesse meio tempo, a Shein informou que pretende iniciar produção no Brasil. A ideia da marca é adquirir 80% dos produtos localmente e importar apenas 20% da China.

Enquanto os preços da Shein subiram, as varejistas nacionais conseguiram tornar os seus itens mais acessíveis ao bolso do consumidor. Ao comparar a mesma cesta de produtos, o BTG Pactual identificou uma queda de 15,4% na Riachuelo (GUAR3), de 13,7% na Lojas Renner (LREN3) e de 10,7% na C&A (CEAB3) entre os meses de abril e outubro. A variação contribuiu para reduzir a diferença de preços entre as marcas.

Ainda assim, de acordo com o banco, os itens da Shein estão atualmente 26% mais baratos do que os da Renner, 22% mais baratos do que os da Riachuelo e 17% mais baratos do que os da C&A. Em abril, ao comprar os mesmos itens disponíveis na Shein em lojas nacionais, os brasileiros desembolsavam cerca de 40% a mais nas Lojas Renner e 34% na C&A e na Riachuelo.

Para os próximos meses, a tendência é que essa diferença se reduza ainda mais devido ao “custo Brasil”. “Junto com um potencial aumento de tributação, a Shein deve competir nas mesmas condições (ou pelo menos mais próximas) que as varejistas locais e que enfrentam desafios semelhantes em aumentar a capacidade de produção local”, escreveram os analistas Gabriel Disselli, Luiz Guanais e Pedro Lima em relatório.

 Shein menos competitiva?

O aumento dos custos dos preços da marca chinesa torna a empresa menos competitiva em relação às outras varejistas locais. Por outro lado, a estratégia utilizada pela Shein para atender a demanda dos brasileiros continua sendo o seu principal diferencial. Segundo Gustavo Cruz, estrategista chefe da RB Investimentos, a plataforma se mostra mais eficiente ao estudar o seu público-alvo e antecipar tendências de forma mais rápida do que as varejistas brasileiras.

“O poder de inteligência de trabalho de dados é um diferencial da Shein, que está muito à frente das empresas brasileiras. A marca consegue trabalhar com base de dados de fora para prever as tendências no Brasil”, diz Cruz. A característica traz um alerta aos investidores monitorarem as marcas brasileiras nos próximos trimestres.

Por enquanto, os analistas avaliam a Lojas Renner como a principal concorrente da marca chinesa. Na avaliação de Gabriel Bassotto, analista chefe de ações do Simpla Club, a companhia possui lojas espalhadas pelos principais shoppings brasileiros, tem uma cadeia logística eficiente e dispõe de tecnologia aplicada em seus negócios.

Vale destacar ainda que, segundo um levantamento do TradeMap, nos anos de 2010 a 2020, a varejista conseguiu entregar um retorno sobre patrimônio líquido (ROE) médio anual, indicador que mede a capacidade da companhia em gerar lucro aos acionistas, acima de 20%. O retorno seguiu elevado mesmo nos anos de 2015 e 2016, quando a Selic estava cravada no patamar de 14,25% ao ano. Veja os detalhes nesta reportagem.

“Apesar disso tudo, não quer dizer que a empresa vai ser totalmente defensiva. Por que se a Shein apresentar uma logística mais eficiente e inaugurar lojas físicas, pode acabar com a principal vantagem da Renner”, afirma Bassotto. Ou seja, a tendência é que a competição fique ainda mais acirrada no longo prazo.

Qual é a recomendação?

Diante desse cenário, os analistas de mercado aconselham aos investidores que busquem se posicionar em ações voltadas para o público de alta renda. Lucas Rietjens, analista da Guide Investimentos, cita os papéis da Vivara (VIVA3), devido à liderança de mercado.

“É uma empresa resiliente porque consegue crescer independente do cenário econômico por estar exposto a um segmento de mercado com ticket médio elevado”, diz Rietjens. Por essa razão, a Guide mantém recomendação de compra para a companhia, com um preço-alvo de R$ 30.

A RB Investimentos também possui recomendação de compra das ações da Track&Field (TFCO4) por enxergar a companhia menos exposta à concorrência de preço da Shein. “Quem compra dessas lojas se preocupa menos com o preço do que os consumidores de uma C&A e Renner”, afirma Cruz.


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A atenção humana foi hackeada e isso tem afetado a sua vida

A economia da atenção está fragmentando as percepções de mundo, a produtividade e as experiências com uma enxurrada de informações geradas por diferentes meios e a todo momento.

by Genesson Honorato – MIT Technology Review – agosto 11, 2023

Alguém já deve ter dito ou ouvido outra pessoa dizer que o tempo está voando, passando rápido demais. Quando param para prestar atenção, já passou o primeiro quarter, a metade do ano, então já é Natal. A boa notícia é que não, o ano não está passando mais rápido, o dia continua tendo 24 horas e os meses e semanas são os mesmos. Já a má notícia é que a percepção do tempo está fragmentada, porque a atenção humana virou o produto mais concorrido do planeta e isso tem nome: Economia da Atenção — termo cunhado pela primeira vez pelo economista, psicólogo e cientista político Herbert Alexander Simon na década de 1970, que explica como a atenção virou algo a ser capitalizado e transformado em mercadoria.  

Vale ressaltar que toda essa inovação (e manipulação) de ponta, já era debatida mesmo quando o primeiro protótipo de internet, a Arpanet (Advanced Research Projects Agency Network), tinha apenas dois anos de idade. Ou seja, Alexander Simon chegou a essa conclusão antes mesmo da invenção de fato da internet como é conhecida hoje, levantando inúmeras discussões sobre os rumos que a sociedade poderia tomar. Esse viés econômico atrelado à atenção tem afetado a vivência coletiva de variadas formas, seja na família, na relação com os amigos, na maneira como os conhecimentos são apreendidos ou no trabalho, onde as pessoas passam grande parte de suas vidas.  

Uma breve olhada no celular durante uma tarefa importante e lá se foi a sua atenção, hackeada por uma rede social ou por uma informação irrelevante para a sua vida naquele momento. E, com isso, minutos ou horas preciosas se foram. Quando isso acontece, é comum não perceber de primeira o que levou a perder o foco. É comum a pessoa não lembrar o que estava fazendo antes de ter sua atenção capturada pela engenharia sociodigital. É menos provável ainda que ela deixe de repetir o padrão poucos minutos depois de lembrar a atividade que estava desempenhando anteriormente, ainda que essa “pausa” já tenha tomado um longo período de tempo até que essa pessoa consiga se reconectar àquilo que realmente precisava fazer naquele momento.  

Por serem comportamentos rotineiros, é difícil perceber as problemáticas — e, principalmente, as motivações — de a cada dez minutos ou até menos, ter a sua atenção hackeada de diferentes maneiras. Talvez as pessoas ainda não tenham percebido, por exemplo, que o celular é uma arma de desatenção em massa, portada a todo tempo e em todos os lugares.  

O cientista social escocês Johann Hari conta, em um artigo, como o seu sobrinho é aficionado pelas redes sociais, uma reflexão perfeita do quanto as pessoas estão sendo hackeadas pelo uso do celular a todo tempo. Fazendo uma conexão com a cultura sci-fi, parece que se as pessoas não estiverem conectadas em tudo e em todo lugar ao mesmo tempo, como é o caso da protagonista Evelyn Wan do longa metragem ganhador do Oscar, não estarão antenadas e incluídas o suficiente. Quando, na verdade, estão inseridas no multiverso da infodemia, à deriva em um grande fluxo de informações que se espalham pela internet e se multiplicam no scroll infinito da batalha por atenção.  

Hackeamento em bolhas 

O Cambridge Dictionary define o termo “hacking” como a atividade de usar um dispositivo para acessar informações armazenadas em outro sistema sem permissão ou para espalhar um vírus. E, apesar dos seres humanos serem uma das invenções mais incríveis do universo, é importante dizer que somos, sim, passíveis de hackeamento e isso vem sendo feito em larga escala por meio da dopamina gerada pelos likes. 

Existe uma disputa diária e um condicionamento operante para manter a atenção das pessoas virada para a palma de suas mãos. Uma pesquisa realizada pela NordVPN, sobre os hábitos digitais dos brasileiros maiores de 18 anos, trouxe dados impactantes. O estudo mostra que os internautas passam, em média, quatro dias inteiros por semana totalmente conectados. Isso seria o equivalente a 197 dias por ano. E, levando em consideração que a expectativa de vida no país é de cerca de 76 anos, esses dados resultam em um total de 41 anos, três meses e 13 dias. Ou seja, é 54% do tempo de vida gasto em telas. 

Chega a ser assustador pensar que muitas pessoas nem se dão conta do tipo de conteúdo que estão consumindo no período em que estão entregues aos algoritmos. Em síntese, não estão prestando atenção no que estão prestando atenção, uma necessária e urgente metafísica da atenção. Sem tentar encontrar uma resposta, é bem capaz que muitos indivíduos se rendam às tentações dos frequentes lançamentos de novas redes sociais, que tentam superar umas às outras no que diz respeito à atenção.  

Cyber disputa por atenção 

Certa vez o cofundador da Netflix, Reed Hastings, disse que um dos seus principais competidores é o sono das pessoas, sugerindo que ali há um grande tempo a ser hackeado. Ele disse: “pensem bem, quando veem uma série da Netflix e ficam viciados nela, ficam acordados até tarde da noite. Estamos competindo com o sono, na margem. Portanto, trata-se de uma grande quantidade de tempo”. Ou seja, dormir, uma atividade humana central, é um péssimo negócio para a economia da atenção.  

Outro inimigo do sono no Brasil e no mundo é o aplicativo chinês de vídeos curtos e de rolagem infinita, o TikTok — que só no Brasil tem mais de 80 milhões de usuários ativos, segundo dados do DataReportal. A consultora da Organização Mundial da Saúde (OMS), Ilana Pinsky, analisou que o aplicativo gera no cérebro jovem uma ideia de que a vida é muito simples e acelerada, o que pode atrapalhar o desenvolvimento cognitivo, especialmente para aqueles que já têm tendência a evitar interações com outras pessoas.  

O X (antigo Twitter), por exemplo, já capturou tanto as pessoas que nenhuma outra novidade parece ser tão atrativa e confortável a longo prazo. Na antiga rede do passarinho elas já têm asas moldadas, um ninho confortável, então para que arriscar voo em terras desconhecidas? E esse argumento foi comprovado por um levantamento recente da BR Media Group. Segundo a pesquisa, o Threads, rede social da Meta inspirada no modelo de postagens de textos do Twitter, perdeu força nos dias posteriores ao lançamento, registrando uma queda de 20% de seus usuários ativos em comparação ao primeiro final de semana no ar. E ainda considerando o mesmo período, o tempo que os usuários passaram na plataforma caiu 50% na comparação com os primeiros dias de lançamento. Na queda de braço da atenção, o X ainda ganha de lavada. 

Sua atenção é dinheiro 

Um dos responsáveis pelo hackeamento da atenção são os algoritmos. Esses pautam os principais assuntos das bolhas e levam muitos usuários a mergulhar de cabeça em um quebra-cabeças de informações soltas. E é aí que elas precisam parar suas tarefas importantes para tentar encaixar as peças. Essa é uma crítica, inclusive, debatida a fundo no documentário “O Dilema das Redes”, lançado em 2020 pela Netflix.  

É inocente pensar que é gratuito baixar aplicativos e viver entregue ao que os algoritmos direcionam. Como bem disse o ex-designer do Google, Tristan Harris: “se você não está pagando pelo produto, então você é o produto”. Ou seja, há uma contribuição humana, na maioria das vezes genuína, que ajuda a engajar um mercado bilionário ao mesmo tempo em que, muitas vezes, há uma falta de investimento do indivíduo consigo mesmo, no seu trabalho, estudos, e no tempo de qualidade com família e amigos. 

Agora, é importante parar e questionar: o quanto o universo virtual influencia o estilo de vida das pessoas? Existe uma forma de estar 100% em todas essas camadas sociais de forma segmentada e particular e mantendo o foco? O tempo de uso de tela, mostrado por alguns smartphones, condiz com o tempo dedicado a outras atividades em sua vida? Ou as pessoas viverão culpadas por não conseguirem se dedicar a algo de forma plena dado o bombardeamento de informações que sofrem todos os dias? 

Não existe apenas uma resposta para todas essas perguntas. Diferentemente da homogeneidade das bolhas, na vida real é preciso analisar o quanto o excesso de informação está impactando a produtividade e o bem-estar. É comum que em casos de excesso de redes sociais as pessoas sintam-se mais lentas para desempenhar atividades que antes eram fáceis, fiquem mais cansadas e, consequentemente, mais insatisfeitas com elas mesmas. A culpa por não conseguir cumprir as tarefas enquanto o planeta dá uma volta em torno de si mesmo (24 horas) também pode ser sufocante, visto que é impossível esgotar as demandas e os conteúdos que são ofertados no scroll infinito dos algoritmos. 

A importância de criar hábitos fora das telas 

Descansar a mente fora das telas, como ler um livro, por exemplo, pode ser um ato revolucionário. Um estudo feito por pesquisadores da Universidade de Sydney, publicado na revista científica Educational and Developmental Psychologist, mostrou que uma pausa para tomar um cafezinho no meio do expediente, uma breve caminhada pelo escritório ou até mesmo passar cinco minutos sem fazer nada (inclusive mexer no celular) ajuda a recuperar a concentração. Diante desse cenário caótico e imagético, o documentário “O Dilema das Redes”, citado acima, também pode ser uma boa fonte para visualizar como bilhões de pessoas se comportam e escrevem as próprias histórias de vida diante dos likes e dos conteúdos de 15 segundos produzidos em massa ao redor do mundo.   

Os depoimentos dos próprios desenvolvedores das plataformas no filme fazem críticas à criação desenfreada de gatilhos tecnológicos. Em uma de suas falas, Justin Rosenstein, ex-engenheiro da Meta e do Google e coinventor do botão de Like do Facebook afirma: “nós criamos isso, é nossa responsabilidade mudar”. Como criar soluções para quebrar o vício, os desenvolvedores destacam a importância de, às vezes, desligar as notificações e ficar atento aos dados pessoais cedidos. 

Mas lembre-se, o despertar é um processo e não precisa ser aniquilador. Pelo viés poético e contemplativo, pode ser reconfortante refletir sobre o hackeamento de seu tempo. E falando em poesia, a música ‘Oração ao Tempo’, na qual Caetano diz: “peço-te o prazer legítimo. E o movimento preciso. Tempo, tempo, tempo, tempo. Quando o tempo for propício. Tempo, tempo, tempo, tempo”, pode apontar um caminho. 

No fundo, é tentar tomar de volta sua atenção para perceber a passagem do tempo de forma mais consciente, porque ele é a moeda de maior valor no mercado.  

Como disse Marshall McLuhan, “primeiro fazemos as ferramentas, depois as ferramentas nos fazem”, o que as ferramentas estão fazendo com as pessoas e a vida em sociedade passa diretamente por tudo isso, portanto, atenção.  


Por Genesson Honorato, Especialista em RH, Inovação e Futuro do Trabalho 

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China está pronta para dominar as profundezas do mar e sua riqueza de metais raros

Com a mineração em águas profundas, país que já controla 95% do suprimento mundial de metais de terras raras planeja ampliar controle sobre setores emergentes, como o de energia limpa

Por Lily Kuo – Estadão/ The Washington Post – 20/10/2023 

KINGSTON – Quando o Dayang Hao, de 5,1 mil toneladas, um dos navios de expedição em águas profundas mais avançados da China, deixou o porto ao sul de Xangai há dois meses, uma faixa vermelha e branca — do tipo usado para divulgar exortações do Partido Comunista — lembrou a tripulação de sua missão: “Esforçar-se, explorar, contribuir”.

O Dayang Hao tinha como destino um trecho de 45,8 quilômetros quadrados do Oceano Pacífico, entre o Japão e o Havaí, onde a China tem direitos exclusivos de prospecção de rochas irregulares, do tamanho de bolas de golfe, que têm milhões de anos e valem trilhões de dólares.

Esse é o mais recente contrato da China, conquistado em 2019, para explorar “nódulos polimetálicos”, que são ricos em manganês, cobalto, níquel e cobre — metais necessários para tudo, desde carros elétricos até sistemas avançados de armas. Eles se encontram tentadoramente no fundo do oceano, apenas esperando para serem coletados.

Seja trabalhando nas profundezas do mar ou em terra, na sede do órgão regulador do fundo do mar das Nações Unidas, em Kingston, na Jamaica, Pequim está se esforçando para dar um salto no crescente setor de mineração em águas profundas.

A China já detém cinco das 30 licenças de exploração que a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA, na sigla em inglês) concedeu até o momento — a maior de todos os países — e está em preparação para o início da mineração em águas profundas já em 2025. Quando isso acontecer, a China terá direitos exclusivos de escavar 148 quilômetros quadrados do leito marinho internacional — aproximadamente o tamanho do Reino Unido — ou 17% da área total atualmente licenciada pela ISA.

O fundo do oceano está se moldando para ser o próximo palco da competição mundial por recursos globais — e a China está pronta para dominá-lo. Acredita-se que o mar contenha mais metais raros do que a terra, que são essenciais para quase todos os produtos eletrônicos, produtos de energia limpa e chips de computador avançados. Com a corrida dos países para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, a demanda por esses minerais deve disparar.

Quando a mineração em águas profundas começar, a China — que já controla 95% do suprimento mundial de metais de terras raras e produz três quartos de todas as baterias de íons de lítio — ampliará seu controle sobre os setores emergentes, como o de energia limpa. A mineração também dará a Pequim uma nova e poderosa ferramenta em sua crescente rivalidade com os Estados Unidos. Como um sinal de como esses recursos podem ser transformados em armas, em agosto a China começou a restringir as exportações de dois metais que são essenciais para os sistemas de defesa dos EUA.

“Se a China conseguir assumir a liderança na mineração do fundo do mar, ela realmente terá acesso a todos os minerais essenciais para a economia verde do século 21”, disse Carla Freeman, especialista sênior em China do Instituto da Paz dos Estados Unidos.

No caso dos nódulos polimetálicos, isso significa enviar veículos robóticos a até 5,4 mil metros de profundidade para o vasto e escuro fundo do mar, onde eles aspirarão lentamente cerca de 10 centímetros do leito marinho e, em seguida, bombearão o material para um navio.

A área marcada para mineração, embora represente menos de 1% do total do leito marinho internacional, ainda seria enorme. Os 30 contratos de exploração cobrem 869 mil quilômetros quadrados, mas estão concentrados em uma extensão do Pacífico chamada Zona Clarion-Clipperton. Com uma extensão de 4,9 mil quilômetros, ela é mais larga do que a área contígua dos Estados Unidos e contém até seis vezes mais cobalto e três vezes mais níquel do que todas as reservas terrestres.

Em sua busca para dominar esse setor, a China concentrou seus esforços na ISA, sediada em Kingston, em um prédio de pedra calcária com vista para o Mar do Caribe. Ao exercer influência em uma organização na qual é, de longe, o agente mais poderoso — os Estados Unidos não são membros da ISA — Pequim tem a chance de moldar as regras internacionais a seu favor.

Essa abordagem é fundamental para a tentativa de Xi Jinping de obter preeminência global. Líder mais forte da China em décadas, Xi está determinado a transformar a China em uma potência global que não esteja mais subordinada ao Ocidente, inclusive tornando-se uma potência marítima capaz de competir militarmente com os Estados Unidos.

Se você quiser se tornar uma potência global, terá que manter a segurança de suas rotas marítimas e de seus interesses. Portanto, tornar-se uma potência marítima é inevitável”, disse Zhu Feng, diretor executivo do Centro Chinês de Estudos Colaborativos do Mar do Sul da China na Universidade de Nanjing.

Os Estados Unidos fizeram pouco para responder aos movimentos da China em alto-mar. O país é apenas um observador na ISA, o que significa que corre o risco de ser deixado de lado à medida que as regras para esse futuro setor forem sendo estabelecidas. Ao contrário da China, as empresas americanas não têm nenhum contrato de exploração com a ISA, e os críticos dizem que Washington não tem um plano claro sobre como competir nesse novo setor.

“A lógica é que se não fizermos as regras, eles farão”, disse Isaac Kardon, autor de China’s Law of the Sea e membro sênior do Carnegie Endowment for International Peace.

“Essas são áreas de fronteira do direito internacional em que não há um regime óbvio, e são especialmente atraentes porque os EUA não estão lá”, disse ele. “É uma frente óbvia em qualquer que seja essa competição entre grandes potências.”

Abordagem ‘lenta e segura’

Eram quase 21h em uma noite de meados de julho quando Gou Haibo, alto e magro em um terno escuro, saiu de mais de seis horas de conversas a portas fechadas na sede da ISA.

O membro da delegação chinesa parou para fumar um cigarro em um jardim fora do salão principal, onde apresentaria o caso de seu país sobre a questão em pauta: como abrir o leito marinho internacional, que cobre mais da metade do planeta, para a mineração industrial.

A ISA está sob pressão para criar regras depois que a ilha de Nauru, no Pacífico, em parceria com a empresa canadense The Metals Company, acionou em 2021 uma disposição que exige que a organização permita a mineração dentro de dois anos, mesmo que um código regulatório não esteja em vigor.

Os países membros da ISA devem chegar a um acordo sobre um código final ou enfrentarão a possibilidade de a mineração continuar sem restrições. Por enquanto, a discussão sobre a “regra dos dois anos” foi adiada para o próximo ano. A China, de acordo com Gou, quer que as coisas andem mais rápido. Ele discordou da declaração do grupo, após dias de negociação, de que os países “pretendem” chegar a um acordo sobre um conjunto de regulamentações até o final de 2025.

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“A delegação chinesa ainda prefere o termo original — ‘compromete-se’”, disse Gou na reunião. Caso contrário, disse ele, “parece um pouco incerto o que faremos nos próximos meses ou nos próximos anos”.

A posição da China foi um exemplo da persistência com que seus diplomatas trabalham para serem ouvidos e para direcionar os procedimentos na ISA. Os delegados e ex-funcionários da ISA descrevem Pequim como exercendo uma influência discreta por meio de vários canais, inclusive organizando workshops e jantares regados a baijiu, o notoriamente forte licor chinês.

Sandor Mulsow, que ocupou cargos seniores na ISA de 2013 a 2019, disse que a China tem uma “agenda muito forte e de longo prazo”.”A China sempre trabalha de forma muito lenta e segura, e continua avançando”, disse ele.

A partir de 2021, a China se tornou o maior contribuinte para o orçamento administrativo da organização, informou a ISA. Pequim faz doações regulares para vários fundos da ISA e, em 2020, anunciou um centro de treinamento conjunto com a ISA na cidade portuária chinesa de Qingdao.

“É bastante claro que, quando a China fala, todos tendem a ouvir e tentam se acomodar”, disse Pradeep Singh, especialista em governança oceânica do Instituto de Pesquisa para Sustentabilidade na Alemanha, que participa das reuniões da ISA desde 2018.

Em julho, a delegação chinesa compareceu em peso. Ela incluiu representantes dos ministérios das relações exteriores e de recursos naturais do país, sua missão permanente na ISA e as três empresas estatais que controlam os cinco contratos de exploração do país.

Em um momento em que a participação ocidental no sistema da ONU está em declínio, acadêmicos e autoridades chinesas têm pressionado por um papel maior em organizações como a ISA — atendendo ao apelo de Xi para aumentar a influência internacional de Pequim. Na equipe de 52 membros da secretaria da ISA, que administra a organização, dois cargos são ocupados por cidadãos chineses. Uma comissão de assuntos jurídicos e um comitê de assuntos financeiros incluem um cidadão chinês cada um. Os especialistas indicados pela China estão sempre nesses órgãos, de acordo com o secretário geral Michael Lodge.

“Se você tiver pessoas nesses cargos, saberá tudo o que está acontecendo”, disse James McFarlane, chefe do Escritório de Recursos e Monitoramento Ambiental da ISA de 2009 a 2011.

Perguntado se a China exerce mais influência por causa de suas contribuições financeiras, Lodge disse: “Todo Estado participa na medida em que decide fazê-lo”.

O Ministério das Relações Exteriores da China, a Embaixada da China na Jamaica e as três empreiteiras chinesas não responderam aos diversos pedidos de entrevista. Os delegados presentes nas reuniões em Kingston se recusaram a falar oficialmente.

Mas especialistas que estão acompanhando de perto dizem que Pequim está sendo estratégica em sua abordagem. ”A China é provavelmente o país mais ativo da ISA”, disse Peter Dutton, professor de direito internacional da Faculdade de Guerra Naval dos EUA. ”Uma das coisas que os chineses estão fazendo de forma muito eficaz é se envolver na elaboração de regras e redigir regulamentos que possam favorecer seus interesses. Eles estão à nossa frente, e essa é uma área com a qual precisamos nos preocupar.”

Domínio da tecnologia e riscos ambientais

Para a China, a mineração em águas profundas nunca foi apenas uma questão de recursos naturais. Ela também tem a ver com a derrubada da ordem internacional tradicional dominada pelo Ocidente.

Nas décadas de 1960 e 1970, quando os pesquisadores perceberam a extensão da riqueza mineral do oceano, a questão sobre quem tem direito a esses recursos tornou-se ideológica.

Os países ricos, como os Estados Unidos, queriam operar por ordem de chegada, enquanto a China, um país em desenvolvimento, ficou do lado das nações do sul global e disse que os espólios deveriam ser compartilhados. O lado da China venceu, e a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), acordada em 1982, foi ratificada pela maioria dos países. Os Estados Unidos reconhecem a convenção, mas não a ratificaram, em parte devido à oposição às suas disposições sobre mineração no fundo do mar.

De acordo com a convenção, a ISA foi criada em 1994 e encarregada de supervisionar a mineração em águas profundas. Os críticos dos EUA afirmam que a adesão ao tratado prejudicaria a soberania dos EUA em alto-mar ao transferir o poder para a ISA.

A China foi um dos primeiros países a enviar uma missão permanente para a ISA. O jornal oficial do Partido Comunista Chinês declarou a UNCLOS uma vitória contra a “hegemonia marítima”, enquanto o chefe da Administração Oceânica Estatal da China a chamou de “formação de uma nova ordem marítima internacional”.

A China entrou na corrida do mar profundo e passou as últimas décadas investindo cada vez mais em tecnologia e equipamentos, alcançando seus rivais ocidentais — que estavam muito à frente — e, em algumas áreas, superando-os.

Em 2001, a primeira empresa de mineração em águas profundas do país, a China Ocean Mineral Resources Research and Development Association (Associação de Pesquisa e Desenvolvimento de Recursos Minerais Oceânicos da China), ou COMRA, obteve a primeira licença da China para explorar nódulos polimetálicos.

Atualmente, a China abriga pelo menos 12 instituições dedicadas à pesquisa em águas profundas — uma delas, um amplo campus em Wuxi, província de Jiangsu, planeja contratar 4 mil pessoas até 2025. Dezenas de faculdades surgiram para se concentrar em ciências marinhas.

Em um discurso em 2016, Xi falou sobre acessar os “tesouros” do oceano e ordenou que seu país “dominasse as principais tecnologias para entrar no fundo do mar”.

O cerne do debate sobre a mineração em águas profundas é se isso pode ser feito de uma forma que não prejudique os ecossistemas e as espécies oceânicas. Os cientistas afirmam que esse tipo de atividade no fundo do mar destruirá uma biblioteca de informações importantes para descobertas médicas, compreensão das origens da vida e outros avanços. Os ambientalistas dizem que a mineração em águas profundas perturbará o maior sumidouro natural de carbono do mundo, que absorve um terço do dióxido de carbono gerado em terra. As plataformas de mineração, o maquinário e os navios de transporte aumentarão o ruído e a poluição que prejudicam a vida marinha.

Além dos nódulos polimetálicos, dois outros tipos de depósitos estão sendo considerados para mineração oceânica — sulfetos polimetálicos, encontrados em fontes hidrotermais, e crostas de cobalto ricas em metal, que se encontram em camadas endurecidas ao longo de montanhas submarinas. Ambos serão ainda mais difíceis de minerar.

Os ambientalistas também se preocupam com o fato de que o histórico da China de privilegiar o setor em detrimento do meio ambiente levará a regulamentações diluídas. Os moradores e as autoridades do sudeste da China ainda estão lutando contra a poluição generalizada do solo e da água causada por um boom na mineração de metais de terras raras a partir da década de 1990.

Durante a sessão de três semanas em julho, os delegados chineses aconselharam a ISA a ser “prudente” na aplicação de punições financeiras às empreiteiras que violarem as regras. A delegação se opôs à criação de uma comissão independente para garantir que as empresas sigam as normas ambientais.

Durante toda a última semana da reunião, a China bloqueou sozinha o debate sobre a proteção marítima, incluindo a discussão de uma moratória sobre a mineração em alto-mar, uma proposta que agora é apoiada por 22 países preocupados com os danos ambientais.

As autoridades chinesas costumam dizer que a preservação ambiental deve ser equilibrada com a necessidade de desenvolvimento — uma abordagem que preocupa outros delegados. ”Se você equilibrar essas questões, não será eficaz. É um mandato da UNCLOS”, disse Gina Guillen-Grillo, chefe da delegação da Costa Rica, citando o Artigo 145 da UNCLOS, que diz que os países devem garantir “proteção efetiva do ambiente marinho contra efeitos nocivos”.

“É preciso cumpri-lo e, depois de cumpri-lo, você pode minerar”, disse ela. “Não é como se você pudesse minerar um pouco e cumprir um pouco.”

Mas os defensores dizem que a mineração em águas profundas é o único setor do mundo a ser regulamentado antes de existir e que é necessário para os carros elétricos e outras tecnologias que ajudarão a evitar desastres climáticos.

Empreiteiras como a The Metals Company — a única empresa a testar um sistema completo de mineração em águas profundas na zona de Clarion-Clipperton — estão à frente na corrida tecnológica, mas as empresas chinesas estão se aproximando.

“Elas estão começando a ganhar impulso”, disse Gerard Barron, CEO da The Metals Company, referindo-se às três empresas chinesas que controlam as reivindicações de exploração da China. ”Estamos vendo, certamente, um aumento na atividade. Elas agora têm orçamentos substanciais que não tinham há dois anos.”

Em 2021, a COMRA da China testou um sistema para coletar nódulos polimetálicos a uma profundidade de 1,28 mil metros nos mares do leste e do sul da China.

“Quando se trata de escrever regras internacionais para águas profundas, a voz da China está ficando mais forte”, escreveu Liu Feng, então chefe da COMRA, em um artigo de 2021.

A China agora está se posicionando como um líder pronto para ensinar outros países sobre o mar. Seus submersíveis produzidos internamente são capazes de mergulhar mais de 10,6 mil metros até o fundo da Fossa das Marianas, o ponto mais profundo da Terra.

“Agora que temos esse equipamento, podemos recuperar o tempo perdido”, disse em uma entrevista Wang Pinxian, um geólogo marinho chinês que liderou alguns dos primeiros programas de águas profundas da China. “A China pode ser seu próprio mestre e pode receber e trabalhar com pessoas de países em desenvolvimento.”

Tecnologia com aplicações militares

Enquanto o Dayang Hao fazia a prospecção de nódulos polimetálicos nos últimos meses, a Beijing Pioneer Hi-Tech Development — a empreiteira chinesa que controla essa área de reivindicação — testava um sistema de pesquisa de alta precisão que pode operar em profundidades de mais de 5,8 mil metros. A embarcação tinha estudantes do Quênia, Argentina, Nigéria e Malásia a bordo, onde estudavam o oceano e brincavam de cabo de guerra, de acordo com a mídia estatal.

Essas descrições benignas desmentem o que os pesquisadores dizem ser o outro objetivo claro do programa de águas profundas da China: desenvolver vantagens militares no oceano.

A pesquisa necessária para se preparar para a mineração em alto-mar — medir a acústica ou a temperatura das correntes, mapear a topografia e desenvolver equipamentos que possam operar sob alta pressão e com baixa visibilidade — é a mesma necessária para a guerra submarina.

“Quando eles enviam submersíveis, os planejadores por trás disso estão pensando em minerais, mas também em como aproveitar as profundezas do mar para obter vantagens militares, não apenas na guerra antissubmarina, mas também para seus submarinos”, disse Alexander Gray, ex-funcionário do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, atualmente no Conselho Americano de Política Externa.

A China também sinalizou que está pensando dessa forma. A lei de segurança nacional da China agora inclui o fundo do mar internacional como uma área onde os ativos e interesses chineses devem ser protegidos. A Comissão Militar Central da China, que supervisiona as forças armadas do país, identificou o fundo do mar como um novo campo de batalha.

Acadêmicos chineses destacaram a importância dos nódulos polimetálicos para equipamentos militares e aeroespaciais, enquanto o Exército de Libertação Popular da China observou as oportunidades do mar profundo para a guerra moderna em um artigo de 2022.

Há conexões estreitas entre os setores acadêmico, comercial e militar da China, e vários dos mais ambiciosos projetos de mineração em águas profundas do país foram financiados por programas de pesquisa militar. A China Minmetals, uma das empreiteiras que controla as licenças de exploração em águas profundas da China, realizou testes de mineração no âmbito do Programa 863, uma iniciativa do governo para desenvolver tecnologia de ponta para a segurança nacional.

Esses vínculos estreitos tornam difícil saber quando os navios chineses de pesquisa em águas profundas estão coletando dados para fins científicos ou militares.

De acordo com os dados de rastreamento de navios coletados pela Global Fishing Watch e pelo Benioff Ocean Science Laboratory da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, os navios chineses de pesquisa em alto-mar, incluindo o Dayang Hao, aventuraram-se nos últimos anos nas zonas econômicas exclusivas das Filipinas, Malásia, Japão, Taiwan, Palau e Estados Unidos.

Um desses navios, o Kexue, realizou pesquisas durante 20 dias em julho e agosto de 2022 perto do Scarborough Shoal, uma das áreas mais contestadas no Mar do Sul da China e local de um confronto contínuo entre a China e as Filipinas, que reivindicam o atol. O Dayang Hao também parece ter realizado um levantamento do leito oceânico nas zonas econômicas exclusivas das Filipinas e da Malásia, perto das disputadas Ilhas Spratly. De acordo com a lei internacional, é ilegal realizar pesquisas comerciais ou científicas na zona econômica exclusiva de outro país sem permissão.

Harrison Prétat, diretor associado da Iniciativa de Transparência Marítima da Ásia no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, disse que a vasta frota de navios de pesquisa da China poderia estar coletando informações para os militares chineses. ”É muito provável que muitas dessas pesquisas sejam científicas e militares, ou comerciais e militares”, disse Prétat.

No final de 2021, uma embarcação irmã do Dayang Hao, o Dayang Yihao, estava explorando a Zona Clarion-Clipperton como parte de uma expedição de quatro meses da China Minmetals quando, de repente, se afastou da área de reivindicação da China, indo direto para o norte. Ele cruzou a zona econômica exclusiva dos EUA perto do Havaí, onde viajou por cinco dias, traçando um loop ao sul de Honolulu, antes de retornar à sua área de reivindicação. O Departamento de Estado não recebeu nenhuma solicitação da China para realizar pesquisas científicas na zona dos EUA nessas datas, disse um porta-voz.

O desvio teria dado aos pesquisadores a chance de entender a topografia do fundo do mar ao redor do Havaí, ou as condições das operações navais e como os submarinos entram e saem. ”Os EUA ficariam preocupados se alguma embarcação estatal estivesse próxima”, disse Thomas Shugart, ex-oficial de guerra de submarinos da Marinha dos EUA e membro sênior adjunto do Center for a New American Security. Esses movimentos são uma preocupação para ambos os países — e uma preocupação que só se tornará mais urgente à medida que a mineração em águas profundas se tornar uma realidade.

“Para a China, à medida que se torna uma potência marítima”, disse Zhu, da Universidade de Nanjing, “como e se ela pode estabelecer um mecanismo para trabalhar com os Estados Unidos é definitivamente um problema difícil”.

https://www.estadao.com.br/economia/china-mineracao-aguas-profundas-riqueza-metais-raros/

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A avó do Vale do Silício

Por que Shockley escolheu o lugar? Porque em Palo Alto vivia May Shockley, sua mãe

Pedro Doria – O Globo – 20/10/2023 

Às vezes precisamos de histórias leves — ultimamente, elas se tornaram preciosas. Uma história sem política, ditadores ou ameaças à democracia. Esta até envolve semicondutores, mas nenhuma geopolítica. É uma história leve, de um filho e sua mãe. E também de por que o Vale do Silício fica onde fica. Essa resposta já foi dada muitas vezes, mas nunca de forma tão convincente. Tem muito pouco a ver com tecnologia e tudo a ver com Sigmund Freud. Quem descobriu a história — ou, ao menos, ligou os pontos que estavam na cara de todo mundo e ninguém tinha visto antes — foi o jornalista e escritor Malcolm Gladwell, na última edição de seu excelente podcast, Revisionist History.

O filho é um dos mais brilhantes físicos do século XX, William Shockley. Foi ele um dos três cientistas que descobriram o efeito transístor. Em essência, que semicondutores poderiam ser ligados e desligados usando eletricidade. Por isso recebeu apenas o Prêmio Nobel — foi uma das descobertas científicas fundamentais de todo o século.

Por volta de 1955, Shockley decidiu largar simultaneamente seu trabalho com o Departamento de Defesa americano e o emprego que tinha no Bell Labs, o mais prestigioso laboratório de desenvolvimento tecnológico dos Estados Unidos. Circulou o país convencendo alguns dos mais brilhantes físicos da área a se juntarem a ele para erguer uma empresa, a Shockley Semiconductor. Ele convenceu todo mundo que chamou. E escolheu para sede da companhia uma pequena cidade na Península de San Francisco chamada Mountain View.

Mais sobre Intel

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Era um lugar de todo improvável. É verdade que a cidadezinha, hoje sede do Google, fica ao lado de Palo Alto, onde está a Universidade Stanford. Mas Stanford não era a escola que é hoje, em constante disputa com Harvard pelo topo da lista das melhores universidades do país. Era uma boa universidade dentre muitas. Para qualquer um a quem se perguntasse, escolher Mountain View para sediar uma empresa de tecnologia era para lá de aleatório.

Shockley não era um homem fácil. Agressivo, paranoico. Com o passar do tempo, tornou-se um eugenista. Abertamente racista. A empresa havia começado fazia pouco quando dois de seus principais engenheiros, Gordon Moore e Robert Noyce, decidiram deixá-la. Mas, como já haviam comprado casas nas redondezas, decidiram fundar sua própria companhia também por ali. Batizaram-na Intel. Graças aos microchips da Intel, nasceram incontáveis empresas na região que planejavam fazer computadores pessoais.

O efeito transístor dos semicondutores permitia miniaturizar o cérebro de computadores que ocupavam salas inteiras. É por isso que eles foram parar no topo da mesa e, depois, no colo e, enfim, no bolso. Graças à Intel. Pois não haveria Intel se não fosse, antes, a Shockley. Por causa do sucesso daquela indústria, a Universidade Stanford acabou por atrair os melhores professores e os alunos mais capazes para alimentar aquele setor nascente da economia.

Por que Shockley escolheu o lugar? Porque em Palo Alto vivia May Shockley, sua mãe. Ele estava recém-divorciado, ela era viúva. E era uma mãe hiperprotetora. Freud puro. May aturava o físico racista e paranoico, genial, como ninguém mais.

O nome de Shockley não ficou na memória do Vale. Não se conta a história da indústria sem falar da Intel, claro. Ao falar da Intel, sempre se diz que Moore e Noyce vieram da Shockley. E que Shockley, o homem, foi um dos três que perceberam uma propriedade-chave de determinados materiais, permitindo que surgissem microprocessadores. Mas era desagradável demais, poucos gostavam dele. Virou nota de pé de página.

https://oglobo.globo.com/opiniao/pedro-doria/coluna/2023/10/a-avo-do-vale-do-silicio.ghtml

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Shein avança com produção no Brasil e chega a 336 fábricas parceiras em 12 Estados

Meta é atingir 2 mil parceiros até 2026, movimentando 100 mil empregos diretos e indiretos; empresa lança no País coleções plus size, fitness e underwear

Estadão – 19/10/2023 

A varejista Shein já atingiu o número de 336 fornecedores parceiros para a sua estratégia de produção local para atender o mercado brasileiro. Em maio, em resposta às críticas que recebeu dos concorrentes nacionais pela importação de produtos e ao plano depois abandonado do governo de taxar as remessas internacionais de encomendas abaixo dos US$ 50, a empresa fundada em 2012 pelo chinês Chris Xu e sediada em Cingapura assumiu o compromisso de ter 2 mil parceiros de manufatura no Brasil e investir R$ 750 milhões num período de três anos.

A meta envolve também, segundo a empresa, movimentar 100 mil empregos diretos e indiretos no País e ter 85% das vendas feitas no Brasil relacionadas a produtos de fabricação local até o fim de 2026. Com essa estratégia, a empresa está tornando o Brasil um dos seus três grandes centros de produção global, ao lado de China e Turquia. “Temos um objetivo ousado, de tornar o Brasil um ‘hub’ de exportações. O País tem um parque têxtil bom”, afirma a diretora de produção local da Shein, Fabiana Magalhães. A empresa opera em 150 países.

As 336 fábricas parceiras estão localizadas em 12 Estados: Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Ceará, Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Norte. Até o momento, 213 dessas fábricas já operam no modelo de negócios da Shein, conhecido por trazer inovações no lançamento e testes de aceitação de cada peça, baseados em inteligência artificial.

Fabiana Magalhães, diretora de produção local da Shein no Brasil

Fabiana Magalhães, diretora de produção local da Shein no Brasil Foto: Divulgação Shein

“Somos uma empresa de tecnologia. A gente testa, comprova e alavanca a produção. Começamos com quantidade pequenas, de 50 a 200 peças, e nos baseamos em dados para produzir mais peças de cada modelo”, diz a executiva. “Muitos fornecedores querem aprender a atuar de forma inovadora, e fazer mais do mesmo não levá-los ao futuro.”

Segundo a estratégia da Shein, 100% dos fornecedores ficam com acesso a todos os dados da empresa, e conseguem acompanhar a evolução das vendas de cada peça. “Se uma peça é lançada e no primeiro dia vende duas unidades, e no terceiro já salta para 50, a fabricante pode já planejar um aumento da produção e pode sugerir para nós uma variação sobre o mesmo tema.”

Novas coleções

Desde que a produção local se iniciou, 4 mil modelos já foram criados. “No centro de toda a estratégia para o País está oferecer custo benefício, variedade, moda brasileira e inovação.”

Essa expansão da produção brasileira acontece no momento em que a Shein lança três novas coleções para o mercado local: plus size, fitness e underwear. Tudo isso considerando a modelagem para o corpo e os gostos brasileiros. “Toda a produção é baseada em dados, não no feeling. As novas categorias são com base no que o consumidor quer”, diz Fabiana.

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https://www.estadao.com.br/economia/negocios/shein-producao-local-fabricas/

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Cinco maiores bancos do país fecharam mais de 2,5 mil agências em 3 anos. E estão mudando as que ficaram

Digitalização acelerada de transações bancárias e a popularização dos smartphones torna os espaços físicos obsoletos em meio à concorrência crescente. As abertas estão ganhando novos usos

Por Letycia Cardoso — O Globo – 18/10/2023 

De um dia para o outro, as grandes filas nos balcões e caixas eletrônicos dos bancos para fazer saques, pagar contas ou resolver qualquer problema simples foram substituídas por um clique. Nos aplicativos das instituições financeiras, é possível desde abrir uma conta e pegar empréstimos até investir e pagar praticamente qualquer coisa com Pix.

A acelerada digitalização do setor bancário e o avanço dos smartphones estão tornando obsoletas as agências bancárias. Para cortar custos e enfrentar a concorrência acirrada pela chegada dos bancos digitais — que nascem sem uma agência sequer —, os bancos estão fechando suas operações físicas. As que ainda estão com as portas abertas, vêm ganhando novos layouts e funções.

Segundo um levantamento da Ável Investimentos, com base em dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Bradesco, Itaú Unibanco, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal fecharam juntos 2.563 agências bancárias de 2020 a 2022. No primeiro trimestre deste ano, 256 unidades foram encerradas. O movimento acabou levando ao desemprego mais de 14 mil bancários, estima uma pesquisa da Dieese.

Embora alguns perfis de clientes, como idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade, não estejam tão acostumadas a lidar com ferramentas tecnológicas, o Banco Central não estabelece um número mínimo de agências bancárias que as instituições financeiras tradicionais têm que manter em cada região. E os bancos tradicionais estão investindo cada vez mais na interface digital.

Mesmo o Banco do Brasil, que no ano passado abriu mais agências que fechou, já possui 93,1% das operações dos clientes realizadas por meio dos canais digitais.

No Bradesco, com 98% das transações digitais, um novo modelo de atendimento está transformando parte das agências em unidades de negócios. Isso inclui tanto alteração do tamanho do espaço físico ocupado até unificação de unidades que ficam próximas. Além disso, o banco está apostando em unidades do Bradesco Expresso, uma rede de pequenos correspondentes bancários com mais de 40 mil pontos que funcionam em horário ampliado, maior que o expediente tradicional das agências.

Em vez de fechar, o Santander vem transformado algumas agências em um tipo de estabelecimentos multiuso, muito diferente das agências convencionais. O novo modelo já está em 12 cidades do país. No espaço original da agência, saem balcões, mesas e estofados e entram uma cafeteria e um espaço de coworking aberto ao público, o WorkCafé. Uma unidade de atendimento com funcionários do banco é apenas uma das funções ali, ocupando uma parte limitada do espaço.

O Itaú, que estima que 80% das transações de seus clientes sejam on-line, implementa um plano que pretende adaptar e modernizar toda a rede de atendimento até 2025. O banco diz que a ideia é que as agências tenham um novo formato, “numa configuração mais moderna e acolhedora”, voltada, por exemplo, para aconselhamento sobre investimentos e planejamento financeiro.

Victor Borba, assessor de investimentos e especialista de setor bancário da Ável, diz que a tendência não é exclusiva do setor. Ele observa que, além de ter se provado não ser necessário um grande espaço físico para prestar serviços e ganhar mais clientes, a estratégia digital pode ser mais fácil de melhorar resultados.

— Quem vai fisicamente ao banco é um número restrito de pessoas e, cada vez mais, os bancos vêm perdendo espaço na parte de investimento para as corretoras — avalia. — Então, ao invés de ter uma agência numa grande avenida, montar um quiosque dentro de um metrô, em que há grande circulação de pessoas, colocar café, assim como abrir a própria corretora são estratégias mais eficazes para expandir o marketshare (fatia de mercado).

Pablo Alencar, especialista da Valor Capital, explica que o custo de manutenção das agências físicas é muito elevado. Por isso, as instituições têm tomado decisões estratégicas, como manter um maior número de agências tradicionais em bairros onde há clientes de faixas etárias mais altas, que ainda gostam de ir pessoalmente às agências.

Os mais jovens tendem a preferir resolver quase tudo pelo celular, de forma autônoma. Por isso, os espaços físicos remanescente precisam oferecer algo a mais para atrair visitantes. É aí que os cafés, espaços com internet e outros benefícios passam a ser estratégicos.

Caixa na contramão

A Caixa, com tradição em financiamentos imobiliários e que tradicionalmente atende a muitos idosos aposentados e beneficiários de programas sociais, é o único banco convencional na contramão. Não tem planos de reconfigurar suas agências.

Segue abrindo unidades de atendimento em uma rede de atendimento que já é composta por 4,3 mil agências e postos de atendimento, 22,6 mil lotéricos e correspondentes CAIXA Aqui, dez agências-caminhão e duas agências-barco para regiões ribeirinhas.

— A Caixa é um caso peculiar porque, em geral, a pessoa quando quer realizar um financiamento imobiliário acaba preferindo ir presencialmente. Assim como o público de classe mais baixa, que prefere falar com o gerente antes de qualquer transação — diz Borba.

https://oglobo.globo.com/economia/financas/noticia/2023/10/18/cinco-maiores-bancos-do-pais-fecharam-mais-de-25-mil-agencias-em-3-anos-e-estao-mudando-as-que-ficaram.ghtml

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The Economist: O livre-comércio global ficou no passado?

Os governos estão descartando os princípios que enriqueceram o mundo em favor da ‘economia patriota’

The Economist – 08/10/2023 

Às vezes, em guerras e revoluções, mudanças fundamentais chegam fazendo estrondo. Com mais frequência, porém, elas chegam de mansinho – e assim é a coisa em relação ao que nós estamos chamado de “economia patriota”, uma ideologia protecionista, com altos subsídios e intervenções pesadas administradas por Estados ambiciosos. Cadeias de fornecimento frágeis, crescentes ameaças à segurança nacional, a transição energética e a crise no custo de vida têm exigido ações de governos – e por uma boa razão. Mas, quando nós juntamos isso tudo, fica claro quão sistematicamente o pressuposto dos livres mercados e governos limitados tem sido deixado ao léu.

Na opinião desta revista, trata-se de uma tendência alarmante. Nós fomos fundados em 1843 para advogar por, entre outras coisas, livre-comércio e um papel modesto dos governos. Hoje, esses valores liberais clássicos não apenas são impopulares, mas estão cada vez mais ausentes do debate político. Menos de oito anos atrás, o ex-presidente Barack Obama tentava colocar os Estados Unidos em um gigantesco acordo comercial no Pacífico. Hoje, quem argumenta favoravelmente ao livre-comércio em Washington é ridicularizado, rotulado como irremediavelmente ingênuo; e no mundo emergente é classificado como uma relíquia neocolonialista da era em que o Ocidente ainda sabia das coisas.

Nosso argumento é que a economia patriota se provará, em última instância, uma decepção. Ela diagnostica equivocadamente o que saiu errado, sobrecarrega o Estado com responsabilidades impossíveis de cumprir e frustrará um período de rápida mudança social e tecnológica. A boa notícia é que, eventualmente, ela destruirá a si mesma.

A ideia de que o protecionismo é a maneira de lidar com turbulências de livres mercados é central ao novo regime. O sucesso da China convenceu ocidentais da classe trabalhadora de que eles têm muito a perder com a livre circulação de mercadorias através das fronteiras. A pandemia de covid-19 fez as elites pensarem que os riscos devem diminuir nas cadeias globais de fornecimento, com frequência mudando a produção para países mais próximos. A ascensão da China sob o “capitalismo estatal”, com seu desrespeito ao comércio com base em regras e o desafio ao poder americano, foi adotada por economias ricas e emergentes como justificativa para intervenção.

Esse protecionismo caminha ao lado de gastos extras do governo. A indústria está devorando subsídios para impulsionar a transição energética e garantir o abastecimento de itens estratégicos. Vastas ajudas em dinheiro aos lares durante a pandemia elevaram as expectativas do Estado enquanto “porto seguro” contra os infortúnios da vida. Os governos espanhol e italiano estão até resgatando devedores que não conseguem arcar com os custos em elevação das hipotecas.

E, inevitavelmente, ajudas em dinheiro do Estado caminham ao lado de mais regulações. A vigilância antitruste se torna ativista. Agências reguladoras vigiam mercados nascentes, de games na nuvem a inteligência artificial. Já que o valor dos créditos de carbono ainda está baixo demais, os governos acabam microgerenciando a transição energética por decreto.

Essa combinação entre protecionismo, gastos e regulações tem um custo pesado. Para começar, trata de um diagnóstico equivocado. Concentrar e arcar com riscos é realmente função essencial dos governos. Mas não todos os riscos: para os mercados funcionarem, ações têm de ter consequências.

Em contraste à visão aceita, a covid e a guerra na Ucrânia mostraram que os mercados lidam com choques melhor do que planejadores. O comércio globalizado lidou com enormes oscilações na demanda do consumidor: o fluxo nos portos americanos em 2021 foi 11% mais alto que em 2019. Em 2022, a economia alemã repetiu o truque, sem sofrer nenhuma calamidade, conforme mudou rapidamente sua matriz energética do gás russo para outras fontes.

Em contraste, mercados como o de fornecimento de projéteis para a Ucrânia, dominados por Estados, ainda enfrentam dificuldades. Da mesma forma que as antigas reclamações a respeito do comércio com a China, que incrementou a renda real dos americanos, queixas a respeito da suposta fragilidade da globalização ergueram um castelo sobre um grão de verdade.

Outra falha na economia patriota é sobrecarregar o Estado. Governos estão perdendo completamente o comedimento quando o que precisam é cortar gastos com bem-estar social. Populações envelhecidas pesam em orçamentos com contas maiores de pensões e assistência de saúde. Taxas de juros subindo pioram tudo. Depois de uma crise no mercado de títulos em 2022, o governo de direita do Reino Unido está aumentando impostos em relação ao PIB mais do que qualquer outro mandato parlamentar na história do país.

Conforme as taxas dos títulos de longo prazo aumentam, a endividada Itália parece oscilar novamente. A crescente conta dos serviços de dívidas dos EUA provavelmente atingirá seu maior nível na história antes do fim desta década – o que comprova a fragilidade fiscal da nova era.

A falha menos visível, mas potencialmente mais custosa, é que a economia patriota é uma faca cega em um tempo de mudanças rápidas. As transições nas matrizes de energia e em inteligência artificial são grandes demais para qualquer governo planejar. Ninguém conhece a maneira mais barata de descarbonizar, nem os melhores usos da nova tecnologia. Ideias precisam ser testadas e canalizadas para os mercados, não governadas por agendas centralizadas. Regulações excessivas inibirão a inovação e, por aumentar os custos, tornarão a mudança mais lenta e dolorosa.

Apesar de suas falhas, será difícil conter a economia patriota. As pessoas gostam de gastar o dinheiro dos outros. Conforme orçamentos do governo aumentam, os interesses específicos que se alimentam deles crescerão em tamanho e influência. É mais difícil retirar proteções e ajudas do que concedê-las – particularmente a eleitores mais idosos, que contribuem menos para o crescimento econômico. Qualquer pessoa atenta ao arco da história dobrando-se na direção do progresso deveria lembrar que, um século atrás, a Argentina era rica como a Suíça.

Um plano para o caminho à frente

Mas a desilusão eventualmente se manifestará. Pode ser porque a extravagância fiscal se aconchegue com governos endividados. Talvez a ganância dos caçadores de subsídios fique difícil de esconder. Ou uma China em estagnação e repressiva pode deixar de cumprir a promessa da prosperidade comandada pelo Estado.

Quando a mudança vier, poderá ser surpreendentemente brusca – ao menos nas democracias. Nos anos 70, a maré virou a favor dos livres mercados quase tão rapidamente quanto virou contra eles hoje, ocasionando as eleições de Margaret Thatcher e Ronald Reagan. A tarefa para os liberais clássicos é preparar-se para esse momento definindo um novo consenso que adapte suas ideias para um mundo mais perigoso, interconectado e fragmentado – o que não será fácil, especialmente em face à rivalidade entre EUA e China. Mas isso já foi feito no passado. E pensem na recompensa. / Tradução de Augusto Calil

https://www.estadao.com.br/economia/the-economist-livre-comercio-global-passado/

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Baby boomers: geração que definiu a juventude ressignifica a maturidade

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Paula Englert – Fast Company Brasil – 05-10-2023 

Talvez a expressão “baby boomer” não seja capaz de sintetizar o poder de influência da geração que define. Distante da abordagem alfabética que demarca demografias mais jovens, o termo crava a origem desse recorte etário, falhando em dar espaço para interpretações identitárias mais conceituais e abstratas.

Didático, ele nomeia os nascidos entre 1946 e 1964 apresentando um marco na história contemporânea: o aumento vertiginoso da taxa de natalidade presenciado no meio do século 20. Um momento onde o mundo, recém-saído de eras marcadas por revoluções e guerras, pode abrir espaço para um boom menos literal.

os boomers, antes protagonistas da juventude, hoje representam um novo papel: reinventam o conceito de maturidade. Esse sim, criado antes deles.

De fato, os baby boomers abriram alas para um novo contexto. Um lapso otimista, principalmente no mundo ocidental. Um hiato de relativa calmaria política e crescimento econômico. Algo que definitivamente não podemos afirmar sobre o zeitgeist vivido pelos X, Y e Z – e, muito provavelmente, sobre o panorama que se desenha para os Alpha.

Inaugurais, fazendo jus ao seu nome, construíram conceitos que perduram até hoje, destruindo tantos outros que abandonamos enquanto sociedade.

O desmantelamento de algumas estruturas, capitaneado por movimentos da contracultura dos anos 1960, são um símbolo do desbravamento dessa geração. Questionando, deixaram um legado maior do que a sua própria intenção: o conceito de juventude.

O “jovem” como conhecemos hoje não era uma convenção presente até então. Ávido e transviado como o James Dean de 1955, se tornou um personagem novo no elenco arquetípico global. Um roteiro reprisado, com ajustes, até hoje.

Agora, presenciamos o que pode ser o maior redesenho da nossa estrutura geracional até então: os boomers, antes protagonistas da juventude, hoje representam um novo papel: reinventam o conceito de maturidade. Esse sim, criado antes deles. Mas no qual relutam em se encaixar. Não era para menos, já que nasceram com vocação para explodir o imposto.

A antiga classificação da “terceira idade” está descompassada com quem chega hoje nos seus 60, 70, 80. Vemos este fato frequentemente nos estudos comportamentais liderados pela Box1824. A miopia está em um mercado programado para recortes que não representam mais o presente.

Acompanhando a queda da natalidade e o aumento da expectativa de uma vida cada vez mais ativa e criativa, os boomers combatem estigmas com sua simples presença. Se vivemos cada vez mais e melhor, três quartos de século neste mundo ainda permitem muitos começos e recomeços. Espaço para planejar e sonhar sonhos ainda distantes.

Inaugurais, fazendo jus ao seu nome, os boomers construíram conceitos que perduram até hoje, destruindo tantos outros que abandonamos enquanto sociedade.

Chegam aos 60 anos com muita vida para viver. Ficar velho significa tornar-se obsoleto. E obsolescência é ausência de vida, de relevância, de presença. Nada disso se determina pela idade, e sim pela forma que vivemos.

Estes são os estigmas que vão se esvaindo enquanto os baby boomers chegam a sua etapa madura. Adentram esta fase interessantes e interessados, vivos como poucos, com tempo e experiência para ressignificar a sua existência, inaugurando novas formas de morar, de se relacionar, de aprender, de ser belo, saudável e de recomeçar.

Mais uma vez, com o pioneirismo típico de eternos revolucionários, os até então conhecidos pelo seu nascimento agora refazem a sua história. Inauguram um novo polo de influência.

Descentralizam o Z-centrismo de uma sociedade obcecada pelos vinte e poucos, tornando-se um polo exportador de comportamento. De inspiração. Forçam marcas e organizações a se reprogramarem, atendendo demandas consumidoras, sociais e afetivas antes silenciadas ou ignoradas.

Nossos conceitos são desafiados na mesma velocidade que as pirâmides demográficas se redesenham. Chegou a hora de honrar esse topo, mais potente que nunca.


SOBRE A AUTORA

Paula Englert

Paula Englert é CEO da Box1824, empresa focada em desenhar estratégias de negócio baseadas em visões de futuro. Apaixonada por decodificar o comportamento humano, seu foco nos últimos anos tem sido estruturar um grupo de empresas que auxiliem corporações nas suas estratégias de negócio, impacto positivo, caminhos de construção de aspiracionalidade e relevância. Tem mais de 20 anos de experiência no mercado nacional e internacional e é formada em Comunicação Social, com pós-graduação em Psicologia de Grupos e Especialização em Sociologia. Já participou como palestrante ou painelista em eventos como SXSW, Web Summit Rio, MaxMídia, entre outros.

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Inteligência artificial aumenta perigo de postar fotos de filhos nas redes

Recursos que fazem reconhecimento facial podem ser usados por criminosos e abusadores

Kashmir Hill  Folha/New York Times – 15.out.2023

Nova York | The New York Times Existem dois tipos de comportamentos distintos de pais no TikTok: aqueles que quebram ovos na cabeça de seus filhos para rir e aqueles que estão desesperadamente tentando garantir que a internet não saiba quem são seus filhos. Para a estrela do TikTok que posta sob o nome de Kodye Elyse, uma experiência desconfortável online a fez parar de incluir seus três filhos em suas redes sociais. Um vídeo que ela postou em 2020 de sua filha pequena dançando atraiu milhões de visualizações e comentários assustadores de homens estranhos. (Ela solicitou que o The New York Times não publicasse seu nome completo porque ela e seus filhos já foram alvos de pessoas que revelaram suas identificações na internet no passado.) 

Lucy e Mike Fitzgerald evitam postar fotos das filhas nas redes sociais – Whitney Curtis/The New York Times “É como se fosse (o filme) “O Show de Truman” na internet”, disse Elyse, 35, que tem 4 milhões de seguidores no TikTok e posta sobre seu trabalho como tatuadora e suas experiências como mãe solteira. “Você nunca sabe quem está olhando.” Após essa experiência, ela apagou as imagens de seus filhos da internet. Ela rastreou todas as suas contas online, em sites como Facebook e Pinterest, e as excluiu ou as tornou privadas. Desde então, ela se juntou ao barulhento grupo de TikTokers que incentiva os pais a não postarem sobre seus filhos publicamente. 

Mas, no mês passado, ela descobriu que seus esforços não foram totalmente bem-sucedidos. Kodye Elyse usou o PimEyes, um mecanismo de busca que encontra fotos de uma pessoa na internet em segundos usando a tecnologia de reconhecimento facial. Quando ela enviou uma foto de seu filho de 7 anos, os resultados incluíram uma imagem dele que ela nunca havia visto. Ela precisava de uma assinatura de US$ 29,99 (R$ 152,59) para ver de onde a imagem tinha vindo. 

 Seu ex-marido tinha levado seu filho a um jogo de futebol, e eles estavam ao fundo de uma fotografia em um site de notícias, sentados na primeira fileira de assentos atrás do gol. Ela percebeu que não seria capaz de fazer com que o site de notícias apagasse a foto, mas preencheu um pedido de exclusão no PimEyes para remover a imagem de seu filho para que ela não aparecesse se outras pessoas procurassem por seu rosto. 

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Ela também encontrou uma foto de sua filha quando era criança, agora com 9 anos, sendo usada para promover um acampamento de verão que ela havia frequentado. Ela pediu ao acampamento para remover a foto, o que eles fizeram. “Acho que todo mundo deveria verificar isso”, disse ela. “É uma boa maneira de saber que ninguém está reutilizando as imagens de seus filhos.

“Cuidado com o “sharenting” 

Até que ponto os pais devem postar sobre seus filhos online tem sido discutido e examinado a um grau tão intenso que tem o seu próprio termo: “sharenting”. Historicamente, a principal crítica aos pais que compartilham demais online tem sido a invasão da privacidade de seus filhos, mas os avanços em tecnologias baseadas em inteligência artificial apresentam novas maneiras para pessoas mal-intencionadas apropriarem-se indevidamente de conteúdo online de crianças. Entre os riscos novos estão golpes com o uso de tecnologia “deepfake”, que imitam vozes de crianças, e a possibilidade de um estranho descobrir o nome e o endereço de uma menor de idade apenas pesquisando sua foto. 

Amanda Lenhart, chefe de pesquisa da Common Sense Media, uma organização sem fins lucrativos que oferece conselhos de mídia para pais, destacou uma recente campanha de serviço público da Deutsche Telekom (operadora de telecomunicações da Alemanha) que propagava o compartilhamento mais cuidadoso dos dados das crianças. O vídeo apresentava uma atriz interpretando uma menina de 9 anos chamada Ella, cujos pais fictícios eram indiscretos ao postar fotos e vídeos dela online. A tecnologia deepfake gerou uma versão digitalmente envelhecida de Ella que foi usada para chantagear seus pais fictícios, dizendo-lhes que sua identidade foi roubada, sua voz foi duplicada para enganá-los pensando que ela foi sequestrada e uma foto nua de sua infância foi vendida.

Lenhart chamou o vídeo de “exagerado”, mas afirmou que mostrava que “na verdade, essa tecnologia é realmente muito boa” para qualquer fim. As pessoas já estão recebendo ligações de golpistas imitando entes queridos em perigo usando versões de suas vozes criadas com ferramentas de IA. Jennifer DeStefano, uma mãe que mora no estado de Arizona (EUA), recebeu uma ligação este ano de alguém que afirmava ter sequestrado sua filha de 15 anos. “Eu atendi o telefone ‘Alô’; do outro lado estava nossa filha Briana soluçando e chorando dizendo: ‘Mãe'”, relatou a mãe em depoimento no Congresso no fim do semestre passado. DeStefano estava negociando para pagar aos sequestradores US$ 50 mil quando descobriu que sua filha estava em casa “descansando em segurança na cama”. 

O que um rosto revela 

Fotos e vídeos obscuros online podem ser vinculados ao rosto de alguém com tecnologia de reconhecimento facial, que tem se tornado mais poderosa e precisa nos últimos anos. Fotos tiradas em uma escola, uma creche, uma festa de aniversário ou um parquinho podem aparecer em uma busca. (Uma escola ou creche deve apresentar um termo de consentimento e deixar o responsável à vontade para negar) “Quando uma criança é mais nova, os pais têm mais controle sobre sua imagem”, disse Debbie Reynolds, consultora de privacidade de dados e tecnologias emergentes. “Mas as crianças crescem. Elas têm amigos. Elas vão a festas. As escolas tiram fotos”, destacou. 

Reynolds recomenda que os pais pesquisem online pelos rostos de seus filhos usando um serviço como PimEyes ou FaceCheck.ID. Se não gostarem do que encontrarem, eles devem tentar fazer com que os sites nos quais a foto foi postada a removam, disse ela. (Alguns irão, mas outros —como sites de notícias—podem não fazê-lo.) 

Em uma pesquisa de 2020 do Pew Research, mais de 80% dos pais relataram compartilhar fotos, vídeos e informações sobre seus filhos em sites de rede social. Especialistas não conseguiram dizer quantos pais estão compartilhando essas imagens apenas em contas privadas em vez de publicamente, mas disseram que o compartilhamento privado era uma prática cada vez mais comum. Embora um mecanismo público de busca facial seja uma ferramenta potencialmente útil para um pai, ele também pode ser usado para fins nefastos. 

“Uma ferramenta como o PimEyes pode ser —e provavelmente é— usada tão facilmente por um perseguidor quanto por um pai preocupado”, disse o pesquisador de privacidade Bill Fitzgerald, que também expressou preocupação com pais autoritários que a usam para monitorar as atividades de seus filhos adolescentes. O proprietário do PimEyes, Giorgi Gobronidze, disse que mais de 200 contas foram desativadas no site por pesquisas inadequadas de rostos de crianças. 

Um mecanismo de reconhecimento facial semelhante, Clearview AI, cujo uso é limitado às forças policiais, foi utilizado para identificar vítimas em fotos de abuso sexual infantil. Gobronidze explicou que o PimEyes também foi o recurso adotado por organizações de direitos humanos para ajudar crianças. Mas ele está preocupado o suficiente com possíveis usuários que são predadores de crianças e alega que o PimEyes está trabalhando em um recurso para bloquear pesquisas de rostos que parecem pertencer a menores de idade. Por sua vez, o consultor Bill Fitzgerald está preocupado que os pais que usam a ferramenta para procurar seus próprios filhos possam estar ajudando inadvertidamente o algoritmo do PimEyes a melhorar seu reconhecimento desses menores. 

Antropóloga cultural e diretora do Connected Learning Lab da Universidade da Califórnia, Mimi Ito afirmou que a tecnologia de reconhecimento facial tornou o compartilhamento online de fotos de crianças, que normalmente é alegre, mais desafiador. “Há uma crescente consciência de que, com a IA, não temos realmente controle sobre todos os dados que estamos espalhando no ecossistema das redes sociais”, disse. 

Zuckerberg e Snowden escondem rostos de filhos 

Lucy e Mike Fitzgerald, dançarinos profissionais de dança de salão em Saint Louis, nos EUA, mantêm uma presença ativa nas redes sociais para divulgar seu negócio e se abstêm de postar imagens online de suas filhas, de 3 e 5 anos, e pediram a amigos e familiares que respeitem a decisão. Eles acreditam que as crianças devem ter o direito de criar e controlar por si mesmas. Eles também se preocupam que suas imagens possam ser usadas de forma inadequada. “O fato de você poder roubar a foto de alguém em alguns cliques e depois usá-la para o que quiser é preocupante”, disse Lucy. 

“Eu entendo o apelo de postar fotos de seus filhos, mas, no final das contas, não queremos que sejam eles que tenham que lidar com possíveis consequências não intencionais.” Ela e seu marido não são especialistas que foram “informados sobre o que está por vir no horizonte da tecnologia”, mas explicou que eles “tiveram uma sensação” anos atrás. “(achávamos que) haveria capacidades que não podemos prever agora que eventualmente serão problemáticas para nossos filhos”. 

Pais que são mais propensos a conhecer detalhes sobre o que está por vir no horizonte da tecnologia, como Edward Snowden, o contratante da Agência de Segurança Nacional que se tornou denunciante, e Mark Zuckerberg, o co-fundador do Facebook, escondem os rostos de seus filhos em postagens públicas de mídia social. Em postagens temáticas de feriados no Instagram, Zuckerberg usou o método desajeitado de emojis – postando um adesivo digital nas cabeças de seus filhos mais velhos – enquanto Snowden e sua esposa, Lindsay Mills, posaram artisticamente um de seus dois filhos atrás de um balão para obscurecer seu rosto. “Eu quero que meus filhos tenham a opção de se revelarem ao mundo, da forma que escolherem, quando estiverem prontos”, disse Mills. 

Um porta-voz de Zuckerberg se recusou a comentar ou explicar por que o rosto de seu bebê não recebeu o mesmo tratamento e se foi porque a tecnologia de reconhecimento facial não funciona muito bem em bebês. 

Privacidade e sucesso no futuro 

Muitos especialistas observaram que os adolescentes pensavam muito sobre como resolver suas identidades digitais e que alguns usavam pseudônimos online para evitar que os pais, professores e potenciais empregadores encontrassem suas contas. Mas se houver uma imagem pública nessa conta que mostre o rosto deles, ainda pode ser vinculada a eles por meio de um mecanismo de busca facial. 

“É muito difícil manter seu rosto fora da web”, disse Priya Kumar, professora assistente na Universidade da Pensilvânia, que estudou as implicações de privacidade do compartilhamento de informações pessoais online. Kumar sugere que os pais envolvam as crianças, por volta dos 4 anos de idade, no processo de postagem e conversem com elas sobre quais imagens são adequadas para compartilhar. 

Amy Webb, CEO da consultoria focada em tecnologia Future Today Institute, prometeu em um post no Slate há uma década não postar fotos pessoais ou informações de identificação de sua filha pequena online. Alguns leitores encararam isso como um desafio e encontraram uma foto da família que Webb inadvertidamente tornou pública, ilustrando o quão difícil pode ser manter uma criança fora da internet. Sua filha, agora adolescente, disse que gostava de ser um “fantasma online” e achava que isso a ajudaria profissionalmente. 

“Futuros empregadores ‘não vão encontrar absolutamente nada sobre mim porque eu não tenho nenhuma plataforma”, disse ela. “Isso vai me ajudar a ter sucesso no futuro.” Outros jovens que cresceram na era do compartilhamento online também disseram que eram gratos por terem pais que não postavam fotos deles publicamente na internet. Shreya Nallamothu, de 16 anos, é uma estudante cuja pesquisa sobre influenciadores infantis ajudou a promulgar uma nova lei estadual em Illinois, nos EUA, que exige que os pais reservem ganhos para seus filhos se estiverem apresentando-os em conteúdo online monetizado. 

Ela disse que era “muito grata” por seus pais não postarem “momentos super embaraçosos de mim nas redes sociais”. “Há pessoas na minha turma que são muito boas em encontrar o Facebook dos pais dos seus colegas e rolar a página”, explicou. Eles usam qualquer material embaraçoso para postagens de aniversário que desaparecem no Snapchat. Arielle Geismar, de 22 anos, estudante universitária e defensora da segurança digital em Washington, descreveu isso como um “privilégio crescer sem que uma identidade digital seja criada para você”. “As crianças são atualmente cobaias da tecnologia”, disse Geismar. “É nossa responsabilidade cuidar delas.” 

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FT: “Nação das startups” vai à guerra

Estima-se que 10% a 15% dos funcionários de empresas de tecnologia estejam entre os 360 mil reservistas convocados para o conflito, o que representa uma desestabilização no mercado de uma hora para outra

Por Ivan Levingston, Financial Times/Valor — 13/10/2023 

O CEO da startup de softwares Venn, Or Bokobza, mal conseguiu falar com os colegas de trabalho na última semana.

Como reservista de uma unidade de combate de elite das Forças Armadas israelenses, ele está na frente de batalha praticamente desde que o grupo terrorista Hamas lançou um ataque surpresa contra Israel no sábado.

“Estou fora, concentrado no que agora é o mais importante, que é a segurança de nosso país”, disse ao “Financial Times” em rápida ligação. “[Os colegas] ficam me dizendo: ‘Não se preocupe [com a empresa]”.

Bokobza, ao lado de cerca de 10 dos 90 funcionários da empresa, está entre os milhares de trabalhadores do setor de alta tecnologia israelense convocados na mobilização em massa do país para a guerra.

Fundadores e investidores de tecnologia israelenses estimam que entre 10% e 15% de suas equipes estão entre os 360 mil reservistas convocados, o que, para empresas relativamente pequenas, representa uma grande desestabilização de uma hora para outra.

Enquanto Israel se prepara para uma possível ofensiva terrestre em Gaza, a autodenominada “nação das Startups” se depara com o que será um teste sem precedentes.

Uma guerra muito longa pode afetar o próspero setor de tecnologia do país, um dos principais propulsores de sua economia, fonte de cerca de 15% de todos os empregos, de acordo com a agência de inovação de Israel. Essa força de trabalho está distribuída em centenas de startups e em importantes filiais de multinacionais como Intel e Microsoft.

Israel também atrai um alto volume de investimento em tecnologia do exterior. Em 2023, o país levantou um total de US$ 5,5 bilhões em capital de risco, em 320 contratos de investimento, mesmo com o setor no mundo como um todo estando em desaceleração, de acordo com a empresa de análises de mercado IVC. Investidores que queiram estabilidade podem achar difícil continuar apostando no país em meio a um conflito prolongado.

“Eu presumo que se isso continuar por alguns meses, pode haver certo impacto na produtividade, basicamente por causa das regras da física; você tem menos pessoas”, disse o CEO da empresa de cibersegurança Pentera, Amitai Ratzon.

Dovi Frances, sócio-fundador da empresa de capital de risco Group 11, disse que vários dos principais executivos de empresas que fazem parte de sua carteira de investimentos estão atualmente entre os reservistas convocados. As empresas do setor já estão se adaptando, já que a perspectiva de guerra há muito tempo faz parte da vida em Israel, segundo Frances e outros executivos do setor.

O CEO da startup de cibersegurança Armis, Yevgeny Dibrov, está precisando lidar com a saída de 20 membros da equipe.

A empresa, que tem oito anos de vida e 660 funcionários, logo entrou em modo de crise. Transferiu algumas operações e colocou a equipe restante em Israel em trabalho remoto, e está oferecendo apoio psicológico aos funcionários após o ataque do Hamas.

“Somos capazes de nos ajustar a isso, essa é basicamente a realidade”, disse Dibrov.

Os funcionários “podem trabalhar na segurança de suas casas e ficar perto de abrigos e salas seguras, então sob esse ponto de vista, acredito que a covid realmente nos ajudou a nos preparar”, disse Gili Raanan, fundador empresa de capital de risco Cyberstarts.

Alguns executivos ressaltaram que muitas startups israelenses têm altos executivos e grupos de marketing e vendas trabalhando nos Estados Unidos. “As empresas sabem como dar continuidade aos negócios e sabem como trabalhar nessas situações. Essa é uma das forças”, disse Shmuel Chafets, presidente da empresa de capital de risco Target Global.

Em outros casos, as startups vêm direcionando sua competência tecnológica para o esforço de guerra, uma vez que o setor israelense de cibersegurança, entre os melhores do mundo, emergiu das Forças Armadas e do setor de inteligência de Israel.

Nadav Zafrir, ex-comandante da unidade de elite israelense “8200”, da chamada inteligência de sinais, e hoje sócio-gerente da empresa de investimento Team8, disse que sua companhia está trabalhando no uso de várias tecnologias, como ciência de dados, para apoiar o governo nos esforços para localizar reféns israelenses.

“Nosso ciclo de inovação não parou, estamos pesquisando diferentes áreas”, disse Zafrir. “Todas elas são incrivelmente relevantes para este momento.”

Empresas maiores de tecnologia também observam a situação com atenção. A Intel, uma das maiores multinacionais em Israel, com 13 mil funcionários, informou estar “monitorando de perto a situação em Israel e tomando medidas para proteger e apoiar” sua equipe.

Até quinta-feira, mais de 300 empresas de capital de risco haviam assinado uma declaração de apoio a Israel, destacando que o país “tem sido um parceiro constante para o ecossistema global de inovação, fomentando avanços tecnológicos pioneiros e a inovação das startups”. A declaração foi assinada por alguns dos maiores nomes americanos do setor, como Bessemer Venture Partners, GGV Capital e Insight Partners, muitos dos quais têm investido em empresas israelenses ao longo dos anos. Outras empresas, como Sequoia Capital e General Catalyst, também anunciaram doações.

Executivos das startups enfatizam que, independentemente do impacto em suas empresas, o esforço de guerra de Israel está em primeiro lugar. Frances, do Group 11, disse que sua empresa vem organizando doações de dinheiro, comida e equipamentos, voos para reservistas no exterior voltarem a Israel e até um envio de 50 mil sacas de café para a linha de frente.

Bokobza, da Venn, disse que tem acesso apenas esporádico a seu telefone, e que quando o verificou recentemente, tinha mais de 100 mensagens de apoio. “Minha única esperança é que nossos clientes, parceiros e clientes em todo o mundo saibam que estamos aqui para ficar”, disse. (Colaboraram Richard Waters, George Hammond e Camilla Hodgson, de San Francisco). (Tradução de Sabino Ahumada)

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2023/10/13/ft-nao-das-startups-vai-guerra.ghtml

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