Vision Pro indica que computador do futuro estará onde pousa o olhar.
Pedro Doria – Estadão -08/06/2023
OApple Vision Pro, óculos de realidade mista que o CEOTim Cook anunciou na segunda-feira, 5, a uma plateia na sede da empresa, não é novo. AMicrosoft tem já há vários anos seu HoloLens, aMeta também já cumpriu alguns ciclos com os Oculus Quest. É mais um. Só que não. O novo aparelho da Apple é algo completamente distinto do que oferece a concorrência. Ele reinventa radicalmente como usamos, como pensamos computador. Ele mostra que, mais de dez anos após sua morte, o espírito deSteve Jobs segue presente na companhia de Cupertino.
Porque é isto que aApple faz. A Xerox já tinha computadores com ícones e mouse — eram um fracasso comercial. Jobs visitou os laboratórios da empresa, reempacotou tudo no Macintosh, lançado em 1984. Era caro, mas foi um sucesso imediato. Poucos anos depois, ninguém mais usava computadores escrevendo códigos na tela. Já existiam players de música digital — mas quando o iPod saiu, todo mundo entendeu que queria um. Explodiram. Nokias e Blackberries já se insinuavam como celulares capazes de usar a internet, mas foi oiPhone que mostrou como é um smartphone — reinventando o computador como um aparelho de mão.
O método Apple é este. Na empresa, não inventam nada novo. Fazem algo bastante mais difícil: dão sentido ao que ainda é novo. A Microsoft sugeriu que seu HoloLens poderia servir para videogames. Terminou encontrando mercado em técnicos que consertam maquinário delicado em grandes plataformas de petróleo e estruturas do tipo. É útil ter informação sobre o que estão fazendo na tela enquanto as duas mãos seguem ocupadas. Na Meta,Mark Zuckerberg ainda tenta convencer alguém a entrar no metaverso. Fora dos departamentos de marketing endinheirados, ninguém comprou a ideia.
Os óculos da Apple têm ambições muito mais simples e, ao mesmo tempo, transformadoras. Filmar as crianças em 3D e depois assistir num ambiente de realidade virtual a cena que capturamos. Poder trabalhar com a tela do tamanho que quisermos, não importa onde. Uma tela pequena e central para bater textos, uma ampla e detalhada para editar imagens. Bote os óculos e crie à sua frente, na sala mesmo, a tela que deseja. E, claro, cinema. Cinema de verdade em casa, cinema imersivo, o Cinemascope de volta, abraçando a gente para rever Lawrence da Arábia ou 2001 ou até mesmo Avatar. Deslumbres visuais.
A Apple batizou sua nova ideia de “computação espacial”. Termos comorealidade virtual ou aumentada são pouco práticos. A capacidade de usar o espaço em que estamos para que toda a área possa ser tela, em que mexemos os dedos no ar qual maestros enquanto manipulamos objetos digitais, tudo faz sentido. Após o computador se tornar portátil, daí ir para a palma da mão, o caminho natural estava dado. O computador estará onde pousa o olhar.
Os óculos podem ser, tecnicamente, a mesma tecnologia que os de Microsoft e Meta. Mas a Apple entendeu para que servem.
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De acordo com o levantamento, os entraves para a produção no país chegam a 19,5% do PIB
Luciano Pádua – Exame – 17 de maio de 2023 .
Burocracia, infraestrutura deficiente, dificuldade de pagar impostos, falta de pessoal qualificado… Somadas, essas ineficiências custam anualmente R$ 1,7 trilhão ao país. É o Custo Brasil, medido pelo Movimento Brasil Competitivo (MBC) em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC). Os números serão apresentados nesta quarta-feira, 17, no Fórum da Competitividade, do MBC, que conta com a parceria de mídia da EXAME.
A cifra se aproxima de um quinto do PIB nacional – 19,5% – e mostra que a economia brasileira precisa trabalhar em questões crônicas para facilitar o ambiente de negócios e criar um ciclo virtuoso de mais oportunidades, empregos e renda.
A mandala, criada pelo MBC em 2020, busca medir os impactos da burocracia em 12 dimensões, que representam o ciclo de vida de uma empresa. Os pesquisadores pegam o desempenho da média dos países da OCDE nesses tópicos e comparam os resultados com o Brasil. A diferença negativa compõe o Custo Brasil.
Decompondo a mandala, chamam a atenção três dimensões que, somadas, correspondem a mais da metade do Custo Brasil:
Empregar capital humano
Honrar tributos
Dispor da infraestrutura
Rogério Caiuby, conselheiro executivo do MBC, diz que o dado deste ano é ambíguo: houve aumento de R$ 200 bilhões no Custo Brasil, e ao mesmo tempo a proporção desse custo na relação com o PIB brasileiro caiu de 22% para 19,5%.
“Custo Brasil são todos aqueles fatores que tiram a competitividade de uma empresa”, afirma Caiuby. “Quando tenho uma logística ruim para transportar meu produto, gasto mais dinheiro do que precisaria. Quando tenho dificuldade de honrar meus tributos tenho que ter uma estrutura administrativa que não adiciona valor ao produto.”
Andando de lado
De mais a mais, ele avalia que o país “andou de lado”. Um destaque positivo no comparativo com 2020 foi o aumento de acesso à banda larga. “Avançamos bem. Não estamos no mesmo patamar da OCDE, mas reduzimos em 30% o gap”, afirma o conselheiro-executivo do MBC.
Por outro lado, o Brasil, embora tenha avançado, teve queda nas métricas de custo logístico na comparação com a OCDE. “A beleza do estudo é que não compara a gente conosco, mas com nossos concorrentes”, diz Cauiby. “O Plano Nacional de Logística está bem estruturado, faz reequilíbrio da matriz logística. O que precisamos é tirar do papel.”
Segundo Caiuby, o enfrentamento aos custos que diminuem a competitividade das empresas brasileiras terá de ser feito por meio da parceria dos setores público – incluídos aqui o Executivo e o Legislativo — e privado e a capacidade de avaliação sobre o que funcionou ou não.
“A lei do gás, por exemplo, não saiu do papel, apesar de ter sido aprovada. Ela precisa ser aprovada também em nível estadual”, afirma. “Mesmo reformas estruturantes têm um tempo para ser implementadas. O importante é manter o observatório.”
No projeto inicial, de 2020, o MBC já havia identificado projetos que poderiam diminuir o Custo Brasil em R$ 500 bilhões. Agora, em maio, assinará um novo acordo de cooperação com o MDIC para mapear outras propostas que possam reduzir em R$ 300 bilhões adicionais.
‘One in, one out’
Segundo a Secretaria de Competitividade e Regulação do MDIC, Andrea Macera, com os novos dados do estudo, a ideia é combater de forma estratégica e dentro do escopo da pasta o Custo Brasil.
“É essencial ter um indicador. Só podemos mudar o que medimos e monitoramos. A mandala do custo Brasil tem 12 indicadores, que representam o ciclo de vida de uma empresa”, diz Macera.
Segundo ela, o primeiro passo é monitorar e diagnosticar o problema — que se encerra com o lançamento do novo estudo. A segunda etapa vai até meados de junho: o governo recebe indicações de setores da economia e da sociedade civil em uma consulta pública desde abril (veja aqui). Finalizadas as contribuições, a ideia é incorporar as sugestões e montar um observatório do Custo Brasil junto com o MBC no segundo semestre.
A partir da consulta pública, a secretária prevê criar uma metodologia de combate à burocracia com metas anuais até 2026. Ela divide a tarefa em três dimensões:
Dialogar com diferentes órgãos os atos normativos que podem derrubar barreiras ao mercado
Guilhotina regulatória para eliminar os atos que trazem custo excessivo
One in, one out: a construção de regras para racionalizar o custo regulatório
“A lógica do one in, one out é que cada real de custo o órgão em questão tem de eliminar outro real de custo das normas antigas”, afirma Macera.
Segundo a secretária, desde 2006 as agências reguladoras receberam capacitação e evoluíram para dar conta dos desafios regulatórios. “Em nosso mapeamento interno, há mais de 130 órgãos reguladores no Executivo federal”, diz Macera. Ela lembra do Pro-Reg, programa que de 2007 a 2013 tentou melhorar a qualidade regulatória no Brasil em uma parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento. “Agora queremos um novo Pro-Reg”, afirma a secretária.
A referência diz respeito a secretarias do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), do Ibama ou do Ministério de Meio Ambiente, dentre tantas outras com poder regulatório — e cuja racionalização do estoque de normativos pode auxiliar em novos negócios e diminuir as tensões entre o público e o privado.
A ideia é introduzir ainda mais na gestão as boas práticas regulatórias. Alguns instrumentos – velhos conhecidos das agências reguladoras – como a análise de impacto regulatório e revisão do estoque regulatório são vistos como essenciais nessa jornada.
Editor de Macroeconomia. Formado pela UFRJ e mestre em administração pública pela Harvard Kennedy School. Tem passagens pelo JOTA, revista VEJA, Jornal do Brasil e O Antagonista. Atualmente, é responsável pelas editorias EXAME Agro, Brasil, Economia e Mundo.
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Avanços na tecnologia permitem que seguidores efetuem compras diretamente em lojas e perfis de blogueiros nas redes sociais
Por João Sorima Neto – O Globo – 28/05/2023
Um mês depois do nascimento de sua filha, Lua, os ex-BBBs Viih Tube e Eliezer — que se tornaram influenciadores digitais com milhões de seguidores após o reality —, aproveitaram o último Dia das Mães para lançar uma marca de brinquedos e acessórios infantis. O casal apresentou itens como chocalhos, mordedores e “naninhas” em seus perfis nas redes sociais, principalmente o Instagram, que somam mais de 32 milhões de seguidores. Em 24 horas, foram cerca de 30 mil pedidos e um faturamento de ao menos R$ 2 milhões em um só dia.
Acredite, a cifra não surpreende no mundo do marketing digital. Influencers estão evoluindo de meros garotos-propaganda para vendedores diretos de produtos, muitas vezes com suas marcas próprias, e faturando alto com avanços na tecnologia que permitem que seus seguidores efetuem compras diretamente em suas lojas personalizadas e perfis nas redes sociais. É o chamado social commerce.
Trata-se de um filão que cresce rápido na esteira do carisma das celebridades da internet, abrindo uma nova era no comércio eletrônico. Nesse ecossistema, há espaço tanto para os superinfluencers quanto para os nanoinfluenciadores, gente comum que não fala para milhões, mas é capaz de convencer muita gente em nichos de mercado pela internet. Grandes plataformas de e-commerce estão em busca desse tipo de vendedor digital.
Na China, as vendas em transmissões ao vivo de influenciadores nas redes sociais já representam 25% do comércio eletrônico do país. Um relatório do banco Goldman Sachs estima que a chamada economia da influência deverá dobrar de tamanho até 2027. Os recursos movimentados passarão dos atuais US$ 250 bilhões para US$ 480 bilhões, globalmente, em quatro anos.
O Brasil, cuja população é uma das mais aderentes às redes sociais, é uma das principais frentes dessa expansão, mas ainda não há dados precisos sobre quanto o social commerce já movimenta por aqui. Mas uma live feita em abril pela influenciadora Virginia Fonseca mostrou a força dessa tendência no país. Depois de uma transmissão de 13 horas nas redes sociais, ela vendeu nada menos de R$ 22 milhões em produtos de sua marca de beleza e fez questão de exibir um recibo do total de vendas nas redes. O número parece fora da realidade, mas especialistas no ramo dizem que não.
No Brasil, influenciadores encontram grande mercado para produtos recomendados — Foto: Infografia
— O potencial do Brasil é enorme, e o país poderá movimentar algo como R$ 75 bilhões com essas vendas por ano até 2028, especialmente quando os consumidores puderem fechar a compra na própria plataforma, como acontece na China — estima In Hsieh, da Chinnovation, uma aceleradora de negócios digitais entre Brasil e China, lembrando que, no país asiático, há até cursos para formar influencers com foco em vendas, conhecidos pela sigla KOL, do inglês key opinion leader (“líder de opinião-chave”).
No Brasil, as vendas dos influencers ainda não podem ser fechadas diretamente em seus perfis nas principais redes, mas isso já é possível em EUA, Reino Unido, China e alguns países do Sudeste Asiático. Essa evolução poderá aumentar ainda mais os negócios por aqui, onde os influenciadores operam links para lojas virtuais patrocinadas e cupons.
Uma das vantagens do social commerce é a possibilidade de interação entre influenciador e cliente em chats, uma diferença em relação ao modelo de vendas na TV, no qual o apresentador só mostra itens, não conversa. Hsieh diz que, para converter vendas, as lives têm de oferecer entretenimento, conteúdo (instruções de uso e qualidades do produto) e algum benefício, como desconto ou frete grátis:
— Os consumidores confiam nas redes e no influenciador, principalmente se ele se posiciona como um curador e não representante das marcas.
Pequenos importam
Micro e nanoinfluenciadores acabam escalando essa tendência. É o caso de Gisele Fernandes, a Gisa, influenciadora da papelaria on-line Cícero, do Rio. Ela também é vendedora da grife Farm, e faz renda extra no social commerce. Começou a postar fotos e vídeos na pandemia pelo Instagram (onde hoje tem quase 13 mil seguidores), e o interesse pelas cadernetas e agendas surgiu. Quando um consumidor é “influenciado” por seus posts, coloca o código de identificação dela ao fechar uma compra pelo link do e-commerce que ela indica, que dá vantagens como frete grátis ou descontos. Na outra ponta, Gisa recebe comissões.
— Procuro explicar cada produto e faço postagens constantes. Num mês bom, consigo tirar até R$ 3,5 mil — conta.
Um levantamento da Meta (dona de Facebook e Instagram) mostra que o Brasil tem cerca de 20 milhões de pessoas que produzem algum tipo de conteúdo digital. As redes mais focadas no social commerce são as chinesas, que já oferecem ferramentas de vendas por aqui e buscam dados sobre os hábitos dos brasileiros.
O Kwai diz que oferece o serviço de live commerce no Brasil desde 2021 e que vê a modalidade como a mais nova tendência global. Cerca de 85% dos usuários do TikTok no Brasil dizem confiar no que veem nos vídeos da rede, segundo pesquisa citada por Daniela Okuma, diretora-geral de Negócios da plataforma no país:
— O elemento de autenticidade gera engajamento e acaba desencadeando a compra.
Marca própria
Pesquisa da Accenture com dez mil internautas no mundo aponta que 59% estão mais propensos a comprar de marcas menores nas redes. A consultoria prevê que o social commerce movimentará US$ 1,2 trilhão por ano até 2025.
Nos EUA, a Amazon lançou, no fim de 2022, um aplicativo batizado de “Inspire” com recursos iguais aos do TikTok, como recursos para vídeos curtos e fotos personalizadas que podem ser usadas em lives de vendas, mas ainda não há data para a chegada ao Brasil. O Google lançou, no início do mês, a aba “Perspectives”. Quando um usuário faz uma pesquisa sobre temas como compras, viagens ou dicas de como fazer algo, o buscador oferece entre as respostas links com vídeos de influencers testando produtos no YouTube.
A Mynd, que agencia mais de 400 influencers no Brasil, abriu recentemente uma unidade só para cuidar do licenciamento de marcas de seus contratados. Entre eles está Mari Maria, que começou gravando tutoriais de maquiagem no YouTube e logo chegou a outras plataformas. Com o interesse pelos itens que mostrava, ela decidiu criar um pincel de maquiagem com sua própria marca. Atualmente, tem uma linha inteira de cosméticos, a Mari Maria Makeup, é embaixadora da marca de produtos para cabelo Hair Care OX e ainda apresenta de sabão em pó a biscoito.
Mari Maria, fenômeno entre os perfis voltados para beleza nas redes, vende sua própria marca de cosméticos — Foto: Edilson Dantas/Agência O Globo
— Atualmente, minhas redes sociais somam mais de 30 milhões de seguidores. E temos também o Instagram da marca Mari Maria, com mais de 2 milhões de interessados — diz a influencer, que tem equipe para edição de vídeos e vê a venda nas redes crescendo. — Nossos pedidos mensais triplicaram no último ano.
Saulo Sampaio, ou Sausampaio, como se identifica nas redes, trabalhava com marketing para empresas de tecnologia em 2020, quando começou a postar no TikTok. Ele já recebia muitos vídeos pelo WhatsApp e resolveu se dedicar a conteúdo para redes. Hoje, tem quase 6 milhões de seguidores, principalmente no TikTok e no YouTube, onde faz de 12 a 25 vídeos por mês.
Com faturamento mensal de R$ 75 mil, tem cinco funcionários. Seu foco agora é crescer no Instagram, onde tem “apenas” 200 mil. Ele tem sido tão procurado por marcas para vendas com cupons e lives, de banco a fabricante de biscoito, que já pensa em vender produtos com sua própria marca em áreas como alimentos e bebidas, seus principais focos, mas também roupas e óculos.
— Vejo esse segmento se profissionalizar e muitos criadores buscando produtos próprios, mas que façam sentido para seu público — observa.
Suporte técnico
No suporte tecnológico às parcerias entre marcas e influenciadores, pequenas empresas brasileiras começam a crescer. É o caso da 4Show, que surgiu para ajudar a indústria de calçados do Rio Grande do Sul em meio ao fechamento do comércio no início da pandemia, em 2020. Os fabricantes movimentaram R$ 20 milhões nas primeiras lives, e Rogério Correa, fundador e dono de uma empresa de softwares, viu no ramo uma oportunidade. Investiu R$ 2,5 milhões na 4Show, que dá suporte e consultoria a empresas interessadas em lives com influencers.
— Ainda vejo por aqui muitas empresas querendo superprodução, mas, nesse segmento, as lives são simples e podem ser feitas por pequenos influenciadores, que não têm milhões de seguidores — diz.
A Moneri, outra plataforma de gestão de social commerce, surgiu operando cashback. A pandemia a levou ao varejo nas redes. Em dois anos, já transacionou R$ 50 milhões em vendas promovidas por mais de 50 mil influenciadores e cem varejistas cadastrados. Para alguns deles, a Moneri representa em torno de 30% de suas vendas digitais.
— É um caminho irreversível, inclusive para os varejistas. Queremos crescer até cinco vezes em 2023, escalando o mercado — diz Paulo Stohler, CEO da Moneri, observando que influência vende de itens de beleza a imóveis na planta.
Para Raphael Avellar, fundador da plataforma BrandLovrs, que já levantou R$ 10 milhões em investimentos, o social commerce está mudando o relacionamento entre marcas e consumidores e como as pessoas podem ganhar dinheiro:
— Todos vão monetizar influência na internet. O que foi para poucos na última década será democratizado.
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Candidatos dizem que IA ajuda a ser chamado para mais entrevistas de emprego
Por Bárbara Nór — Para o Valor – 05/06/2023
O ChatGPT pode acabar com o seu emprego. Essa frase vem se tornando lugar comum desde o lançamento da ferramenta de inteligência artificial, em novembro do ano passado. E não à toa. A IBM, por exemplo, anunciou que, em cinco anos, a expectativa é substituir pelo menos 30% dos cargos administrativos com a tecnologia. Já o banco Goldman Sachs concluiu, em um estudo, que ferramentas como o ChatGPT devem impactar 300 mil profissionais no mundo todo nos próximos anos.
Mas há também quem veja na ferramenta um aliado da carreira. Fazer currrículos, melhorar e-mails para o chefe ou simular entrevistas de emprego são alguns exemplos das tarefas que podem ser realizadas pelo ChatGPT.
Em um levantamento com 5.635 profissionais feito para o Valor pelo Infojobs, 27% afirmaram já ter usado o ChatGPT em alguma fase do processo de seleção, e 15% disseram que ainda pretendem usar a ferramenta para esse fim.
Lá fora, os números são ainda mais expressivos: em um estudo feito pela ResumeBuilder nos Estados Unidos, 46% dos candidatos disseram usar a tecnologia para escrever currículos ou cartas de apresentação. Entre estes, sete em cada dez afirmaram ter alcançado uma taxa de resposta mais alta das empresas ao usar o currículo feito pela IA – e 59% foram contratados.
Ramon Ferreira, 23, engenheiro de processos de desenvolvimento em São Paulo, experimentou a tecnologia. Desde março em busca de uma nova posição, conta que já havia experimentado o ChatGPT por hobby, para ajudar na criação de um site. “Percebi que o LinkedIn, assim como outros meios de pesquisa, tenta indexar palavras principais que os recrutadores usam para encontrar candidatos”, diz. Ele teve a ideia, então, de refazer seu perfil na rede social usando palavras-chave importantes para sua área. Primeiro, usou um programa chamado WordCloud para descobrir quais palavras-chave eram essas a partir de vagas e perfis que ele considerava interessantes. Com isso, conseguiu ter uma ideia do que os recrutadores mais procuram em profissionais da sua área.
O próximo passo foi pedir para o ChatGPT reescrever seu perfil no LinkedIn usando aqueles termos. “Depois que fiz a mudança, passei a receber mais contatos, fiz entrevistas com várias empresas, e recebi proposta até para trabalhar fora do Brasil”, afirma.E isso sem interagir mais na rede, o que, para ele, é sinal de que o ChatGPT é que teria feito a diferença. “Ficou mais fácil chegar na etapa da entrevista.”
Adriano Mussa, reitor e diretor acadêmico da escola de negócios Saint Paul, explica que o ChatGPT é preditivo, então busca predizer respostas com base no que aprendeu. “Mas não está preocupado se é verdade ou não”, diz. “Ele requer que o usuário tenha capacidade de curadoria para avaliar se a resposta está adequada”. Um dos perigos, comenta, é ficar impressionado com o texto bem-escrito da IA e acabar deixando passar detalhes que não estão corretos ou foram simplesmente “inventados”, para usar uma ou outra palavra-chave.
Saber formular as perguntas corretas também pode fazer toda a diferença. E quanto mais informações fornecidas para a ferramenta, como dizer a área em que se quer atuar e o que a empresa desejada valoriza, melhor tende a ser o resultado. “Se você fizer perguntas bem-feitas, ele pode dar informações sobre a empresa e sobre a vaga de forma mais rápida do que você mesmo buscar na internet”, diz Paulo Lemos, diretor de educação executiva da Fundação Getulio Vargas (FGV) em São Paulo. “Mas ele não pode ser o instrumento final, é preciso colocar a sua criatividade e os seus conhecimentos em cima do que ele trouxer.”
Para Mussa, um uso ainda melhor da IA seria para simular entrevistas de emprego. “Você pode dizer que vai participar de uma entrevista, descrever o cargo, o setor, trazer elementos que estão no site da empresa, como preocupação com transformação digital e sustentabilidade”, diz. “Quando se detalha o contexto, é surpreendente o quanto o ChatGPT pode ser útil.”
Um uso ainda melhor da ferramenta seria simular entrevistas de emprego
— Adriano Mussa
Essa foi a experiência de Yago Viveiros, 28, analista de planejamento em uma empresa de educação no Rio de Janeiro. “Pode ter sido coincidência, mas duas semanas depois de mudar meu perfil [no LinkedIn] com o ChatGPT, consegui mais engajamento sem eu publicar nada.”
Assim como Ferreira, Viveiros colocou as palavras-chave junto com informações sobre sua carreira e pediu para a IA fazer um texto sobre sua experiência. “O meu medo era que ele fizesse algo igual para todo mundo, que fosse algo pronto”, diz.
Mas, comenta Viveiros, ao trocar com seus colegas sobre a ferramenta, eles perceberam que o sistema nunca devolve o mesmo texto, nem responde da mesma maneira.Além disso, o analista foi aprendendo a pedir para a tecnologia fazer os ajustes necessários. Se o texto gerado é muito formal, por exemplo, é possível pedir para mudar o tom, além de determinar limite de tamanho. “Achei que ajudou a melhorar a linha de raciocínio, a transformar tópicos em um texto que fizesse mais sentido.”
Ferreira viu vantagem similar. “Como engenheiro, nunca fui muito uma pessoa da redação, e fazer textos mais elaborados acaba levando bastante tempo”, afirma. Mas isso não significa que a ferramenta faça tudo sozinha. “Você precisa saber editar e tomar cuidado com o que pede, porque o ChatGPT pode acabar inventando coisas que não foram o que você pediu.”
De fato, de nada adianta chegar à etapa da entrevista se a carreira do profissional não corresponder ao que está em seu perfil ou currículo. “Uma coisa é você expressar de forma mais adequada o que realmente fez”, diz Jacqueline Resch, sócia-diretora da consultoria Resch RH. “Outra é usar todos os termos que você sabe que o recrutador busca, mas sem que seu currículo tenha realmente aquelas competências ou experiências.”
Para ela, usar o ChatGPT pode ser positivo, mas requer cautela. Resch conta que ela mesma fez o teste, para ver quais perguntas o ChatGPT sugeriria a um headhunter que fosse entrevistar um diretor industrial. “Ele me deu uma série de perguntas genéricas, que não são realmente o que buscamos avaliar em uma entrevista”, diz. “Como recrutadora, mais do que os conhecimentos, avalio a forma como você enxerga as coisas, conduz projetos, e se você tem a ver com a cultura do meu cliente.”
Além disso, acrescenta Resch, as perguntas em uma entrevista de emprego não seguem um roteiro fixo, pois dependem das respostas do entrevistado. Para ela, o uso da ferramenta pelos candidatos vai exigir um olhar ainda mais apurado do recrutador. “Isso já acontece remotamente. É difícil saber se o candidato teve ajuda para preencher testes ou fazer uma redação no processo seletivo”, diz. “Um bom entrevistador precisa saber identificar que competências de fato aquele candidato tem, independente de ter usado o ChatGPT.”
Além dos candidatos, as empresas estão de olho na ferramenta para tornar mais fácil a busca por profissionais. No Infojobs, por exemplo, a novidade acabou de ser integrada ao PandaPé, plataforma de recrutamento e seleção. Colocando o título de vaga e se ela é híbrida, remota ou presencial, o sistema gera automaticamente a descrição do perfil buscado, incluindo competências e descrição de atividades básicas do cargo. Depois disso, o recrutador precisa apenas checar as informações para ver se está tudo correto. “Tem se mostrado bastante útil, porque fazer descrição de vaga, principalmente quando é um cargo novo, demanda muita pesquisa”, diz Ana Paula Prado, CEO do Infojobs. “O recrutador, muitas vezes, precisa conversar com o gestor da área e nem sempre ele sabe descrever bem as atividades que o cargo exige.”
Um teste feito internamente pela empresa mostrou que a ferramenta reduziu o tempo de preenchimento de perfil de vaga de 25 para 3 minutos. A ideia, agora, é fazer mais estudos para ver se as vagas geradas por IA são mais efetivas para atrair candidatos e explorar outros usos da ferramenta no processo seletivo.
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Mudança nos últimos dez anos foi radical; pandemia também ajudou a acelerar processo de transformação digital dos bancos e da população
Por Lucas Agrela – Estadão – 05/06/2023
A modernização tecnológica levou as empresas do setor financeiro a enxugarem radicalmente suas estruturas nos últimos anos. Entre janeiro de 2014 e fevereiro de 2023, as instituições fecharam 5.716 agências bancárias e eliminaram 70.445 postos de trabalho, segundo dados do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) e do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região.
A digitalização do setor deu aos clientes mais facilidade para operações como abertura e fechamento de conta, consulta de saldo, realização de transferências (pix, TED ou DOC) e investimentos, como fundos, CDBs ou Tesouro Direto. Ou seja, o autoatendimento nos aplicativos de celular assumiu as funções dos bancários ou mesmo dos caixas eletrônicos.
Hoje, calcula-se que o País tenha mais de umsmartphone por habitante, o que facilita a popularização dos aplicativos para fazer operações financeiras. Segundo o professor de Finanças doInsper, Ricardo Rocha, a aceleração no processo de transformação digital dos bancos brasileiros começou a partir da crise do subprime em 2008, que impactou o sistema financeiro global.
Com a digitalização, as instituições começaram uma corrida pela eficiência e inovação. Nesse processo, surgiram os aplicativos com funções de autoatendimento e asfintechs. “A população passou a ter acesso a muitos produtos financeiros, ficou mais bancarizada, enquanto o sistema financeiro em si entrou num processo de desbancarização”, diz Rocha.
Esse movimento ficou mais intenso com apandemia e o isolamento social. Sem poder sair de casa e ir às agências, boa parte da população foi obrigada a se digitalizar. Mesmo pessoas avessas às operações online tiveram de se render aos aplicativos para pagar suas contas. Essa onda acabou tendo reflexos na mão de obra do setor.
“Os bancos têm feito uma movimentação que se intensificou após a pandemia. As pessoas aprenderam a usar o celular, especialmente as mais idosas. Com isso, muitas agências têm sido fechadas. Hoje, na agência, o número de trabalhadores é cada vez menor, e isso tem a ver com o uso da tecnologia no setor”, diz Ivone Silva, presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região. Segundo ela, o resultado é que quem fica tem uma carga de trabalho enorme nas agências e em outras áreas, porque são cada vez menos pessoas trabalhando. O Sindicato, porém, não soube informar o total de pessoas que trabalham hoje nos bancos.
E esse movimento ainda deve continuar, segundo especialistas. “Ainda há tendência de queda de funcionários e agências. Em uma retomada econômica, alguns bancos podem até voltar a aumentar o número de funcionários, mas não vão abrir novas agências”, diz Ricardo Rocha.
Segundo dados do NovoCaged(o cadastro geral de empregados e desempregados, do Ministério do Trabalho), o volume de demissões no mês de março ficou 39% acima da média mensal de 2022, quando o número de desligamentos chegou a 1.474. Já o número de contratações ficou 16,5% abaixo da média mensal registrada no setor no período. Março foi o sexto mês consecutivo de cortes de postos de trabalho no setor bancário.
No primeiro trimestre deste ano, os bancos eliminaram 2.662 vagas, enquanto haviam aberto 3.160 vagas no mesmo período em 2022. Nos grandes bancos, o corte de pessoal chegou a 2.394, comparando os dados do primeiro trimestre de 2023 com igual período no ano passado.
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) afirma, no entanto, que “no primeiro trimestre 2023 houve uma ligeira redução no nível de empregos no setor, de 0,6%, que é equivalente à expansão no nível de emprego que houve de 2021 para 2022, de 0,6%. Portanto, o nível de emprego no setor tem se mantido estável”.
No Banco do Brasil, a equipe foi reduzida de 86.466 para 85.457 em relação ao ano passado, um corte de 1.009. Na Caixa Econômica Federal, a redução foi menor: passou de 86.850 para 86.741, uma diferença de 109 pessoas. Segundo os dois bancos, esse é um decréscimo natural, como pedidos de demissão ou aposentadoria. Procuradas, as demais empresas que fecharam postos de trabalho não comentaram o caso.
Mais vagas na área de tecnologia
De acordo com o relatório do Novo Caged, o impacto maior na eliminação dos postos de trabalho tem ocorrido na categoria dos bancários. Considerando o ramo financeiro como um todo, que inclui gestoras, corretoras e assessores, houve crescimento de vagas. Só em março, foram 925 novos postos de trabalho, número que, apesar de positivo, é 68,5% inferior ao registrado um ano antes. Ao levar em conta os últimos 12 meses, foram criados 28,5 mil postos de trabalho no ramo financeiro, ou seja, a média é a criação de 2,3 mil vagas por mês.
Devido à transformação digital dos bancos e instituições financeiras em geral nos últimos anos, os novos postos de trabalho, na maioria dos casos, foram para profissionais de tecnologia da informação, como programadores, analistas e gerentes de produto.
As instituições que contataram funcionários no período de 12 meses até março disseram que buscam manter suas operações com estrutura para atender a todos os clientes, para lidar com o cenário econômico desafiador e para atender às necessidades dos planos de negócio para 2023
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A explosão de ferramentas desafia os direitos autorais e abre debate sobre os limites para o uso da inteligência artificial
Por Felipe Branco Cruz – Veja – 2 jun 2023
Em abril, uma música com apenas quatro notas de piano e batida eletrônica repetitiva se tornou um hit viral com mais de 10 milhões de execuções no TikTok e 254 000 no Spotify. Heart on My Sleeve era interpretada em dueto pelas vozes dos pop stars The Weeknd e Drake — e a letra versava sobre o término do namoro do primeiro com a cantora Selena Gomez. Ela poderia ser só mais uma dentre tantas canções de dor de cotovelo que pipocam diariamente no pop. Só que os dois artistas jamais escreveram ou interpretaram a música de fato, que foi criada pelas novas ferramentas de inteligência artificial.
Dessa forma, Heart on My Sleeve logo se converteu num caso emblemático dos desafios da regulamentação da música feita por meio da IA — inovação que já tira o sono de executivos e compositores, ainda que a exploração de seu potencial esteja só engatinhando. O uso causa um misto de euforia e apreensão nas mais diversas áreas — e na música não é diferente. Seu fruto mais vistoso até agora é a recriação das vozes de estrelas vivas ou mortas. Em 2021, o cantor sul-coreano Kim Kwang-seok, falecido há 27 anos, teve seu vocal refeito por um software numa canção inédita. Mas o fenômeno explodiu de fato nos últimos meses, com o progresso das novas tecnologias de clonagem de voz e a proliferação de sites que permitem fazer experiências de forma gratuita, como Aiva, Magenta, Watson, Amper, Covers.AI e Jukebox.
O grau de fidelidade e a facilidade de copiar as vozes de grandes artistas impressionam. O sucesso fake de The Weeknd e Drake foi criado por um usuário do TikTok identificado apenas como ghostwriter977. Ele treinou um software de IA para reproduzir as vozes dos dois cantores e disseminou o resultado no streaming — sem que eles recebessem um tostão por isso. A Universal Music entrou na jogada e pediu que a canção fosse retirada do ar, mas não foi atendida de imediato por ser necessário confirmar a infração aos direitos autorais, já que se tratava de composição inteiramente original — algo inédito e surreal.
Entre os músicos e as gravadoras, a preocupação é com a monetização de canções criadas sem a autorização dos artistas. Para se ter ideia do desafio para as gravadoras, Heart on My Sleeve só foi barrada após a Universal achar uma brecha legal para tanto, alegando que a obra usava indevidamente trecho de uma música de outro produtor de seu cast. A legislação, enfim, não avança na mesma velocidade que a tecnologia: nem nos Estados Unidos há lei que assegure os direitos sobre uma voz criada virtualmente.
A prática esbarra ainda em questões éticas: é correto, afinal, recriar uma voz famosa para cantar algo que o artista talvez jamais cantaria? “Como filho da Elis Regina, acharia curioso ouvir minha mãe cantando Marília Mendonça. Mas isso jamais seria a Elis de verdade. Música é uma tradução de sentimentos, ideais e emoções humanas”, diz o produtor João Marcello Bôscoli.
Um episódio recente ilustra a bola dividida. A voz de Renato Russo foi usada para interpretar uma música sertaneja, Batom de Cereja. O espólio do artista, morto em 1996, ameaçou entrar na Justiça — e o criador da montagem a retirou do ar. No exterior, os exemplos abundam, com as vozes de Rihanna cantando Beyoncé, Frank Sinatra entoando um hit de Britney Spears, e Ariana Grande dando voz a músicas de Anitta e Pabllo Vittar. Há exemplos tocantes, como o de John Lennon cantando New, uma canção da carreira-solo de Paul McCartney.
Para além dos dilemas, a novidade é vista com bons olhos por produtores musicais, e artistas empolgam-se com o admirável mundo novo da IA. Para o engenheiro de som Carlos Freitas, que já trabalhou em gravações de João Gilberto e Tom Jobim, a ferramenta será inevitável na criação de novas músicas. “Todas as tecnologias passam por essa fase de adaptação”, diz ele. A opinião é compartilhada pelo produtor Pablo Bispo, autor de hits de Iza, Anitta e Ludmilla. “Um machado pode cortar madeira ou ferir alguém. Tudo depende do uso — e é assim com a IA”, compara.
Recentemente, o produtor americano Timbaland investiu numa startup para recriar vozes de artistas mortos e lançou uma música com o rapper Notorious B.I.G. (1972-1997). “Não tenho medo do que está acontecendo”, declarou. O DJ David Guetta também entrou na onda, ao emular a voz do rapper Eminem num show. “O futuro da música está na IA”, disse. Mas foi a cantora Grimes quem teve a iniciativa mais arrojada até agora. A ex de Elon Musk lançou seu próprio app, o Elf.Tech, liberando qualquer um para usar seus vocais em novas canções — desde que receba 50% dos lucros. Até o momento, mais de 300 músicas já foram feitas. Os robôs nunca tiveram tantas vozes — e também nunca provocaram tanto barulho.
Publicado em VEJA de 7 de junho de 2023, edição nº 2844
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Descoberta de grupo de cientistas australianos impacta pesquisas e pode levar a uma mudança de paradigma
Por Fernando Reinach – Estadão – 02/06/2023
Santiago Ramon y Cajal foi o cientista espanhol que descobriu a estrutura dos neurônios. E, por isso, ganhou oPrêmio Nobel em 1906. O cérebro de cada um de nós contém 86 bilhões de neurônios. É muito: lembre que hoje só existem 8 bilhões de seres humanos no planeta, menos de um décimo do número de neurônios no cérebro de cada um de nós. Ramon y Cajal descobriu que os neurônios estavam interligados por longos filamentos, os dendritos e axônios. Cada neurônio recebe sinais elétricos de dezenas de outros neurônios através de sinapses presentes nos dendritos e, dependendo de quanto é estimulado ou inibido por esses sinais, envia sinais elétricos para outros neurônios através de seu axônio.
Essa descoberta gerou a analogia que é usada até hoje para explicar o funcionamento do cérebro: uma gigantesca rede de interconexões elétricas entre neurônios, algo parecido com a rede elétrica ou telefônica que interliga países, cidades, casas e pontos de luz ou tomadas dentro de cada prédio. O modelo do cérebro, visto como uma rede de conexões, foi reforçado quando se descobriu que os axônios conectam, por exemplo, os olhos às regiões do cérebro que controlam a visão e também as regiões do cérebro que controlam os movimentos dos músculos.
Essa rede que conecta os 86 bilhões de neurônios entre si é chamada de conectoma e está longe de ser totalmente conhecida. Um dos objetivos dos neurocientistas é construir um mapa dessa rede, como construir um mapa de uma rede elétrica de uma cidade ou um projeto elétrico de uma casa. Por trás desse objetivo está a crença que, conhecendo o conectoma, será possível entender como nosso cérebro funciona, guarda nossas memórias ou produz nossa consciência.
Outra consequência dessa teoria é que a forma, ou geometria do cérebro, não é relevante, o importante é qual parte está ligada a que parte. É como o circuito elétrico de uma casa: o que importa é qual interruptor liga a lâmpada. Se o interruptor está do lado esquerdo ou direito de uma porta isso não é relevante para o funcionamento do sistema.
Essa semana foi publicado um estudo que mostra que esta maneira de imaginar o cérebro pode estar errada ou incompleta. Isso pode revolucionar nossa maneira de entender o cérebro, mudando nosso paradigma, de maneira semelhante à ocorrida quando a teoria da relatividade de Einstein substituiu a visão newtoniana da Física.
Mesmo sem saber os detalhes do conectoma, os cientistas conseguem estudar que partes do cérebro estão ativas ou inativas quando estamos em repouso, executando uma atividade qualquer, como ver um filme, ler um livro, andar ou falar. Isso é feito usando uma máquina de ressonância semelhante às que existem nos hospitais. Essas máquinas conseguem produzir filmes que mostram que parte do cérebro está ativa, ligada ou desligada quando o cérebro executa tarefas como as descritas acima.
Essa variação na atividade de cada região do cérebro corresponde a maior ou menor atividade dos neurônios presentes nessas regiões e se espalham pelo cérebro como se fossem ondas de atividade. A teoria clássica é que este espalhamento da atividade depende unicamente da estrutura do conectoma. Mas será que pode existir outra explicação para esse fenômeno?
Em muitos sistemas, as propriedades observadas dependem da forma do objeto, algo que a teoria do conectoma não leva em conta. Alguns exemplos são a produção do som por um tambor, a transmissão de luz em uma fibra óptica ou o movimento de correntes elétricas em diversos materiais. Em todos esses casos existe um modelo matemático, que só depende da forma (ou da geometria) do objeto, de sua composição e organização, que explica esse comportamento.
O que um grupo de cientistas australianos fez foi tentar usar esses modelos físico/matemáticos (chamados de eigenmodes) para explicar a ativação e o espalhamento da atividade dos neurônios quando o cérebro executa diferentes atividades. O sistema usado é complicado, mas basta entender que os cientistas utilizaram 10 mil desses filmes de atividade cerebral, obtidos em experimentos com pacientes, e tentaram modelar o que acontecia no cérebro usando o modelo de conectoma e o modelo dos eigenmodes. Para surpresa dos cientistas, os modelos usando os métodos de eigenmodes se mostraram capazes de simular o que ocorre no cérebro. E mais, quando comparados com modelos baseados nos conectomas, se mostraram capazes de explicar melhor o que é medido de fato no cérebro dos voluntários.
Esses resultados indicam que talvez a maneira como o cérebro funciona seja diferente do que imaginávamos até agora. Se isso se confirmar é provável que, para compreender seu funcionamento, teremos que construir modelos (talvez mais simples, talvez mais complicados) do que os imaginados pelas teorias tradicionais do conectoma.
Ainda é cedo para entender como essa descoberta vai impactar as pesquisas sobre o cérebro, mas muitas vezes na história da ciência uma mudança de paradigma pode levar os cientistas a progredir rapidamente. Isso ocorre pois o progresso estava bloqueado por um paradigma incorreto ou incompleto. Foi isso que ocorreu na astronomia quando a ideia que a Terra era o centro do universo foi substituída pela ideia que os planetas, a Terra inclusive, giram ao redor do Sol. Vamos ter de esperar, mas seguramente essa descoberta vai gerar muita discussão.
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O Brasil lidera o uso e o desenvolvimento de insumos biológicos — uma tendência que coloca o país na vanguarda da revolução verde no campo
Mariana Grilli – Exame – 25 de maio de 2023
Para praticar a agricultura regenerativa e acompanhar a agenda ESG, o agronegócio precisa equilibrar o uso dos defensivos agrícolas químicos com alternativas biológicas. Nos últimos cinco anos, esses produtos deixaram de ser uma suposta alternativa à proteção de cultivos para se tornarem assunto estratégico entre produtores, indústrias e varejo. Hoje, quase 30% da área produtiva recebe manejo com bioprodutos. Surgiram, especialmente em fazendas com alto rendimento, os mipeiros, em referência ao manejo integrado de pragas (MIP), que após medições cuidadosas da lavoura, por vezes com uso de tecnologia infravermelha, aplicam o produto certo para o ponto exato onde a saúde da plantação precisa de reforço.
Podem ser aplicados produtos biológicos e até insetos modificados geneticamente para aplacar uma praga no local. Ao final, gasta-se menos e se produz mais. O movimento não acontece à toa: companhias tradicionais buscam alternativas para a resistência que as doenças de planta criaram aos agrotóxicos. Também as varejistas de insumos estão ampliando o portfólio de biológicos na prateleira, respondendo a uma demanda crescente por parte dos agricultores. Além do quesito ambiental, os benefícios são financeiros. Trata-se de um mercado que deve triplicar até o final da década. Como em outros segmentos do agro, o Brasil está na vanguarda e tem tudo para ser dominante na fabricação e no uso de biológicos.
Atualmente, 85% dos fertilizantes utilizados no país são importados, mas o governo federal pretende reduzir essa dependência em 50% até 2050. Impulsionada pela eclosão da guerra entre Rússia e Ucrânia e pela volatilidade nos preços dos fertilizantes, a discussão sobre a diminuição da dependência de produtos sintéticos fez nascer o Plano Nacional de Fertilizantes. Vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin aponta que a dependência nas importações custa 25 bilhões de dólares anuais aos cofres brasileiros. Por isso, defende o investimento em pesquisa e tecnologia. Enquanto isso, a pesquisa de novos produtos biológicos vem ganhando peso na iniciativa privada, incluindo empresas até então dedicadas às moléculas sintéticas.
De 2018 a 2022, de acordo com a entidade CropLife Brasil, o mercado brasileiro de biodefensivos cresceu 62%, enquanto no cenário global a alta foi de 16% no período. Ao analisar a evolução da adoção entre as safras 2019/2020 e 2021/2022, o salto é ainda maior: crescimento de 219% no uso dos biológicos, segundo a consultoria S&P Global, movimentando 3,3 bilhões de reais em comercialização na temporada 2021/2022. Pela estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), isso significa que 28% do total da área plantada em 2021/2022 recebeu manejo com algum tipo de bioproduto, isto é, 85,7 milhões de hectares somando todos os tipos de culturas. Todo o restante da área produtiva é oportunidade de mercado.
Um levantamento da consultoria Fortune Business Insights constata que o mercado global de bioprodutos em 2022 foi estimado em 11,67 bilhões de dólares. Em 2029, ele deve representar 29,31 bilhões de dólares. Para chegar lá, Corey Huck, head global de biológicos da Syngenta, multinacional suíça voltada para a proteção de cultivos e biotecnologia, acredita que um dos fatores contribuintes será a sucessão familiar vista nas fazendas ao redor do mundo. “Os estudos estão avançando, estamos descobrindo as potencialidades.
A próxima geração verá outro nível de eficiência nos biológicos, terá outra percepção sobre a adoção e investirá ainda melhor nessa ciência”, afirma. Ele pondera que é preciso consistência em políticas regulatórias para cada tipo de produto, como biopesticidas e biofertilizantes. “Tem de adaptar o regulatório para incentivar o biocontrole, a aprovação, ter revisão de eficácia”, diz Huck, ao considerar que o manejo sustentável é porta de entrada para falar de outras pautas ESG no campo. Um dos avanços já conquistados, ele compara, é o tempo de aprovação dos biológicos por parte de órgãos como o Ministério da Agricultura e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Enquanto os defensivos químicos levam cerca de sete anos, a versão mais sustentável é aprovada, na média, em 36 meses.
– (Arte/Exame)
Os produtores no Brasil, na Índia e nos Estados Unidos estão entendendo mais a eficiência dos biofertilizantes, o que tem feito esse mercado se consolidar também no setor das varejistas. Resultado da fusão entre Potash Corporation of Saskatchewan e a Agrium Inc., em 2018, a Nutrien Soluções Agrícolas é uma das principais fornecedoras de fertilizantes e produtos agrícolas do mundo e há quatro anos tem contribuído para aquecer o varejo brasileiro.
“Para trabalhar significativamente no agronegócio global, é preciso estar no Brasil”, afirma Carlos Brito, CEO da Nutrien. Não por acaso, desde que chegou ao país, em 2019, a Nutrien fez oito aquisições para ampliar a presença física nos interiores. Com ampla atuação em produtos com base em nitrogênio, potássio e fosfato, as vendas dos biológicos ganharam proporção na estratégia da companhia, o que levou ao lançamento da própria linha Loveland Bio, na safra 2022/2023.
A partir disso, a empresa canadense começou a oferecer sete produtos de biocontrole focados na cultura de soja e milho e, em 2022, vendeu mais de 200.000 sacas de sementes de soja, todas tratadas com soluções biológicas exclusivas. O objetivo é multiplicar a receita e alcançar mais de 20% do portfólio de defensivos agrícolas nos próximos anos. “O Brasil tem tudo para ser visto como a agricultura mais sustentável do globo. Com investimentos em infraestrutura corretos, não existe lugar melhor para estar do que no agro”, afirma Brito ao apontar que a agricultura de precisão é uma propulsora dos biológicos.
Essa é a lógica apresentada por Konstantin Kretschun, head global do Xarvio, plataforma digital de soluções da multinacional alemã Basf. Ele diz que a demanda por bioprodutos é crescente na Europa devido à pressão política, a exemplo do Green Deal — Acordo Verde Europeu para evitar o avanço do aquecimento global. E, para não haver novas aberturas de área, a aposta é usar tecnologias e dados para que os biológicos tenham ainda mais efetividade. “Não estou convencido de que, até o começo de 2030, mudaremos para 50% ou 60% de uso dos biológicos, e sim teremos uma simbiose e uma transparência entre o uso de ambos, objetivando descarbonizar a produção”, afirma.
Everson Zin, head comercial da The Climate Corporation, pertencente à Bayer, acredita que o futuro será de uma agricultura de intensificação vertical, incluindo esse combo entre biológicos e tecnologias de manejo. Isso significa que aumentar a produtividade na mesma área exigirá insumos sustentáveis geridos à base da coleta de dados. “Vai haver uma série de tecnologias, como biológicos, biotecnologia e drones. Quando você começa a olhar a área com informações, esse vai ser o salto da produção sustentável”, diz.
A urgência de cuidar do solo já bateu à porta, e o Brasil pode ser o campo de testes de defensivos e fertilizantes biológicos para o futuro. Governo, indústria e produtores terão de trabalhar lado a lado para não deixar a oportunidade escapar.
Repórter de AgroGraduada em Jornalismo com especialização em Agronegócios pela FGV. Trabalhou como repórter na Rádio Jovem Pan e na Revista Globo Rural. É vencedora do 2° Prêmio GTPS de Jornalismo e do Prêmio Rede ILPF de Jornalismo.
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Inteligência artificial facilita criação de imagens fakes usando fotos de pessoas famosas ou anônimas e aumenta risco de fraudes e violência
Por Luciana Garbin -Estadão – 31/05/2023
Se você é daqueles que a cada dia se surpreende com alguma nova função da inteligência artificial, prepare-se para ouvir esta: por alguns poucos dólares é possível comprar na internet apps que tiram a roupa de alguém numa imagem. Gente famosa ou anônima. E aí começa o perigo.
Funciona de maneira simples. A partir da imagem de uma mulher com roupa se cria uma nova imagem da mesma pessoa sem a camiseta, o biquíni ou qualquer outra peça de roupa.
O primeiro aplicativo do tipo ficou famoso em 2019 com justamente o nome de DeepNude e logo viralizou. A tal ponto que o criador veio a público tempos depois dizendo que ia parar de vendê-lo porque “o mundo ainda não estava preparado” para ele. Também advertia que o termo de uso do aplicativo proibia a quem já o tinha adquirido de compartilhá-lo. Hahaha.
No Brasil, o chamado deep nude já tem motivado até ações na Justiça. Como a de uma mulher que começou a se relacionar com um homem que vivia terminando e voltando com a ex. Quando ele realmente resolveu ficar com a nova namorada, a ex não aceitou o fim da conturbada relação. Passou então a criar perfis falsos em redes sociais e a fazer montagens com imagens da vítima e de seu filho menor de idade. Entre elas, um deep nude, enviado a todos os seus contatos.
Outro caso envolveu uma jovem cujo ex não se conformava com o fim de um namoro de adolescência. Irritado, passou a ameaçá-la dizendo que divulgaria fotos suas nuas para a toda a família. Fotos fakes.
“No primeiro caso conseguimos uma liminar para excluir os perfis falsos, retirar os conteúdos do ar e identificar o IP da ofensora. A ação ainda está em curso”, conta a advogada Marina Affonso Silva, especialista em Direito Digital. “No segundo, a vítima ficou com medo da exposição processual e do Efeito Streisand. Então optamos por resolver tudo de forma extrajudicial.”
Efeito Streisand é o nome que se dá ao fenômeno em que se tenta ocultar ou remover algum tipo de informação e se acaba, em vez disso, por divulgá-la ainda mais. O termo vem do sobrenome da atriz e cantora americana Barbra Streisand. Em 2003, ela processou um fotógrafo e um site que disponibilizava fotos aéreas da costa da Califórnia. Alegando preocupação com a privacidade, ela pediu que a imagem de sua casa fosse retirada. Mas o caso ficou tão popular que milhares de pessoas passaram a acessar o site só para ver a propriedade.
Marina explica que a divulgação de deep nudes costuma vir de mãos dadas com o stalking. “Se a pessoa se dá a esse trabalho todo de fazer as montagens é porque quer atingir a vítima pessoalmente por algum motivo específico, seja por rejeição ou vingança.”
Especialistas dizem que os riscos podem aumentar quando a inteligência artificial facilitar a criação e o compartilhamento de vídeos pornôs ultrarrealistas. Tudo sem consentimento. Isso não é exatamente uma novidade. Mas a rapidez com que a IA tem simplificado a tarefa de atormentar a vida de alguém com alguns poucos cliques, sim. Num país onde já pesam sobre as mulheres tantos tipos de violência, o prognóstico é desanimador.
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Cada vez menos “sociais”, as redes têm implicações de uso muito maiores do que se pensa
Marcelo Vidigal M de Barros – Exame – 30 de maio de 2023 .
As redes sociais tornaram-se as principais plataformas de geração e distribuição de conteúdo, ofuscando os antigos e poderosos canais de TV, rádios e jornais. Então, não surpreende que sua influência venha chamando a atenção dos governos e da sociedade, lá fora e aqui.
Contudo, apesar de haver boas razões para essa atenção –como a necessidade de combater mentiras que incitam ódio – também há motivos ruins, como o desejo de censurar conteúdos que não agradam as lideranças do momento ou grupos de interesse organizados.
Ainda temos muito chão pela frente até encontrarmos boas soluções para a moderação de conteúdo nestas redes. E também há muito a aprender ao longo do caminho. Neste sentido, acredito ser relevante trazer neste artigo como os mecanismos de recomendação estão funcionando nas redes.
Ainda que as pessoas, em geral, tenham percebido diferenças em seus feeds, muita gente ainda não entendeu o alcance e as implicações das mudanças recentes, que se aceleraram nos últimos 12 meses. A verdade é que as mídias sociais, como conhecemos nos últimos dez anos, acabaram. E isso tem consequências que ainda estamos começando a compreender.
domínio dos algoritmos
Com o crescimento do TikTok e a mudança dos feeds do Facebook e Instagram para um modelo de recomendação baseado em algoritmos, entramos em uma nova era – na qual o conteúdo gerado por sua rede de “amigos” não está mais entre as principais recomendações do seu feed.
O algoritmo passou a privilegiar o conteúdo que entende ser mais interessante para você, e não mais o que seus amigos estão postando. Se o algoritmo identificar que você gosta de futebol, por exemplo, vai te apresentar mais vídeos com os golaços da última rodada. A novidade, porém, é que logo abaixo de um lance mágico do Messi, o algoritmo, agora, mostra um “frango” em uma pelada da periferia, postado por alguém fora de sua rede.
Neste novo padrão de recomendação, o componente “social”, isto é, o conteúdo distribuído por sua rede, perdeu importância. E esta mudança parece fazer sentido. O simples fato de seus amigos poderem distribuir conteúdo facilmente, não quer dizer que este conteúdo seja interessante para você! E neste novo modelo, temos à disposição todo o conteúdo da plataforma, e não ficamos limitados apenas à nossa rede.
O impacto para os influenciadores
Essa mudança também impacta os influenciadores e todo o modelo de negócios criado em torno deles. Quando a recomendação de conteúdos era definida apenas pela quantidade de seguidores e likes, os grandes influenciadores conquistaram o poder de definir comportamentos, influenciar nosso consumo e ganhar muito com isso.
Mas esse poder está mudando para a mão dos algoritmos, pois estes são capazes de apresentar ao usuário o conteúdo que você gosta, e não o conteúdo que seus “amigos” e influenciadores tentam vender.
Não é à toa que, em 2022, Kim Kardashian e, duas das maiores influenciadoras do mundo, apoiaram a campanha “Make Instagram Instagram again”, uma tentativa de reverter a decisão da empresa de não dar preferência para os conteúdos postados por “amigos”.
Esta é a grande mudança. E uma mudança grande, ao mesmo tempo. Migramos para uma versão das mídias sociais dominada por algoritmos e não por influenciadores. Em contraste com o modelo antigo, quando a competição era por popularidade, no novo modelo, a competição é por relevância de conteúdo. E este modelo, difundido pelo TikTok, é melhor para as plataformas: quanto maior for o match do conteúdo sugerido com o que cada um de nós gosta, maior será o nosso tempo de permanência nestas plataformas.
TikTok: apenas uma modinha dos adolescentes?
O crescimento do TikTok tem sido usualmente atribuído à rejeição da nova geração das redes mais maduras, como o Instagram. Mas esta não é a razão principal, na minha opinião. O TikTok criou um formato que tornou o consumo de vídeos mais conveniente e desenvolveu um algoritmo que entrega conteúdos mais relevante para cada usuário.
A nova geração apenas percebeu isto antes do resto de nós e aderiu rapidamente porque não tinha o mesmo custo de mudança. Não aderiu por ser apenas uma novidade, mas por ser uma novidade interessante. O Instagram percebeu que não se tratava apenas de um novo concorrente, mas de um novo modelo, tanto que reagiu e lançou o Reels para ser uma alternativa ao TikTok.
O uso dos algoritmos vai ampliar ou reduzir a polarização atual?
Com a entrada dos algoritmos na jogada, aumentou muito capacidade das plataformas de sugerir conteúdos que reforçam ainda mais a visão de mundo que as pessoas já têm. Mesmo que os otimistas defendam que algoritmos melhores poderiam identificar e barrar conteúdos impróprios ou mentirosos, acredito que boa parte deste conteúdo não teria como ser claramente enquadrado nesta categoria. Então, pelo menos no curto prazo, haverá uma ampliação dos problemas atuais de polarização e radicalização.
Ainda há muito por vir e é impossível prever todas as consequências desta mudança, mas ao entendermos melhor as primeiras implicações, podemos estar mais preparados para os desafios que, como sociedade, temos pela frente.
Colunista Marcelo é fundador membro do YPO e CEO da Sales Impact, onde lidera projetos de aceleração de vendas B2B. Ele acompanha como a tecnologia e os novos modelos de negócio estão mudando a forma como as empresas geram demanda e vendem.
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