O manual de instruções que falta à GenZ para desenvolver suas habilidades

Esta geração enfrentou obstáculos inéditos antes de entrar no mercado de trabalho. É nosso trabalho ajudá-los a preencher as lacunas


Ana Homayoun – Fast Company Brasil – 26-07-2023 | 

Até 2030, a geração Z representará um terço da força de trabalho, mas o caminho deles não será fácil. Afinal, a pandemia afetou a educação desses jovens que, ainda por cima, estão entrando em um ambiente de negócios em rápida mudança para atender às preocupações climáticas, tecnológicas e econômicas.

Embora sejam conhecidos por serem os primeiros “nativos digitais”, a geração mais instruída e a mais diversa racial e etnicamente, eles também são descritos por estigmas contraditórios: os mais endividados; os mais preocupados com dinheiro e estabilidade e “a geração mais solitária”.

Para os empregadores, é importante saber o que os especialistas dizem sobre os obstáculos que a geração Z tem enfrentado nos últimos anos. Muitos estão entrando no mercado de trabalho sem algumas habilidades críticas, muitas vezes invisíveis, para interagir com colegas e lidar com a vida profissional. Uma situação que pode levar à frustração e ao esgotamento não apenas para eles, mas também para seus chefes e colegas de trabalho.

O que os empregadores podem fazer?

1. Reconheça as lacunas e tente compensá-las 

“A maioria das lacunas dessa geração tem a ver com o que chamo de ‘habilidades de poder’, muitas vezes chamadas de

aqueles que não enxergam chances de serem promovidos rapidamente abandonam o barco.

soft skills – a capacidade de conversar, de fazer contato visual, de apertar as mãos ou de partilhar uma refeição em uma mesa com várias pessoas. São tipos de comportamento considerados indicativos de uma sociedade que é social”, diz Kaye Monk-Morgan, presidente e CEO do Kansas Leadership Center, que passou mais de 25 anos trabalhando com estudantes universitários.

Depois que a formação universitária e os estágios foram alterados pela pandemia, muitos membros da geração Z tiveram pouquíssima experiência de trabalho no escritório. Trabalhar de casa os privou da chance de solucionar problemas na prática e de trabalhar em equipe em tempo real. Isso atrapalhou o desenvolvimento de habilidades de autodefesa, observa ela.

Como os GenZs viram suas rotinas diárias serem completamente alteradas durante seus principais anos de desenvolvimento, eles agora precisam de mais tempo, mais estrutura e maior suporte para criar estratégias de fluxo de trabalho, gerenciar distrações e desenvolver o “profissionalismo” que as gerações mais velhas consideram básico.

2. Comunique-se, comunique-se e depois… Comunique-se um pouco mais

Explicar como seu escritório funciona é essencial, diz Robin Blanchette, CEO e fundador da Norton Creative, agência de publicidade que tem 26 funcionários, 10 dos quais são da geração Z.

“Percebi que muitos carecem de habilidades tradicionais de redação e envio de e-mail. Não é que não saibam escrever, eles não necessariamente sabem para quem encaminhar, que pessoas copiar na lista de destinatários ou mesmo para quem enviar um e-mail”, diz Blanchette.

É importante pedir aos funcionários que acompanhem os recém-chegados em procedimentos importantes. Conforme os GenZs forem dominando esses processos, os veteranos devem procurar oportunidades para orientar os novos membros da equipe, para que eles possam gerenciar as expectativas e os sentimentos de incerteza, além de incentivá-los a sinalizar quando precisarem de alguma ajuda extra.

3. Seja empático com os objetivos de carreira deles

Entenda que o crescimento desejado e a trajetória de liderança podem ou não corresponder às suas habilidades, mas eles querem subir rapidamente e podem querer mudar de emprego para chegar lá.

Depois que a formação universitária e os estágios foram alterados pela pandemia, muitos membros da geração Z tiveram pouquíssima experiência de trabalho no escritório.

Cecilia Montalvo, por exemplo, se formou na faculdade em 2019 e trabalha como coordenadora de diversidade, equidade e inclusão na indústria do entretenimento desde então. Mas agora ela já está de olho no próximo movimento, e tem seus objetivos.

“Estou em um momento da minha carreira em que tento pensar e planejar o que é importante para mim e o que quero obter do meu trabalho. Nos próximos cinco a 10 anos, adoraria me tornar uma sócia de uma empresa de RH”, diz ela.

Mas alguns membros dessa geração são ansiosos e parecem querer ser promovidos mesmo que ainda não tenham qualificação ou capacidade de liderança, diz Monk-Morgan.

“Eles têm essa ideia de que podem fazer qualquer coisa. E de que querem estar no comando dentro de três anos, ou dentro de cinco anos.” Ela percebeu que aqueles que não enxergam chances de serem promovidos rapidamente abandonam o barco.

4. Ensine os benefícios de construir redes no trabalho

Montalvo admite que não sabia como os relacionamentos no trabalho poderiam ser importantes até que viu seu chefe buscar apoio em relacionamentos estabelecidos com colegas para lidar com situações emergenciais. “Não sabia que essa seria uma habilidade que eu precisaria desenvolver profissionalmente”, diz ela.

Agora, ela enxerga os projetos de trabalho como uma forma de descobrir como atuar em equipe. “Como podemos descobrir quais pontos fortes podem ser usados? Como podemos realmente construir uma equipe que trabalha em conjunto?”

5. Encare os desafios da geração Z como uma oportunidade de todos crescerem juntos

Toda geração teve que superar algo algo difícil, diz Blanchette, lembrando como os membros da geração X foram chamados de preguiçosos e os millennials, de difíceis. “Acho que grande parte dessas características advém do simples fato de que eles têm apenas 21 ou 22 anos.”

É bom que os veteranos acompanhem os recém-chegados em procedimentos importantes.

Ela sugere reformular as habilidades perdidas desta geração como uma oportunidade de reexaminar as políticas de gerenciamento e os procedimentos de treinamento para beneficiar a todos.

“Aceitamos muito facilmente essa ideia de que os alunos não estão preparados porque a universidade não fez o trabalho dela. Mas a realidade é que essa é a geração com a qual estamos trabalhando hoje”, diz Monk-Morgan, aproveitando seu tempo em um ambiente universitário e como chefe de um centro de liderança.

As regras que eles conheciam da escola deixaram de valer e um novo conjunto foi estabelecido. Agora, eles não sabem como se virar. Seus colegas mais experientes têm o dever moral de ajudar a orientá-los e de aprender com eles ao longo do caminho.


SOBRE A AUTORA

Ana Homayoun é educadora, escritora e conselheira acadêmica.


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Como a inteligência artificial pode mudar o foco das escolas? Veja o que diz a Unesco

Relatório mundial afirma que IA pode se ocupar de tarefas repetitivas, mas também há o risco de desestimular a reflexão do estudante

Por Renata Cafardo – Estadão – 26/07/2023 

A inteligência artificial pode se ocupar de tarefas repetitivas e facilitar a busca de informações na educação e isso faria com que as escolas se preocupassem em estimular habilidades importantes como pensamento crítico, criatividade, resolução de problemas. Mas, ao mesmo tempo, a IA também pode, ao dar respostas rápidas, fazer com que o estudante deixe de refletir e de buscar soluções sozinho. Essa é uma das discussões que aparece no Relatório Global de Monitoramento da Educação 2023 da Unesco, divulgado nesta quarta-feira, 26, intitulado “A tecnologia na educação, uma ferramenta a serviço de quem?”

A IA também foi abordada durante o evento de apresentação do documento no Uruguai, do qual participaram ministros da Educação de vários países e outras autoridades internacionais. “A inteligência artificial vai substituir o docente? Não”, disse o diretor de Direitos Humanos para América Latina e Caribe do Banco Mundial, Jaime Saavedra, durante o evento.

Celular em sala de aula: quais países já proíbem e como isso afeta a aprendizagem?

“Mas o professor pode usá-la para ter informações mais fáceis, consumindo menos tempo, pode fazer exercícios mais interessantes para os alunos, e ter tempo para se dedicar ao que a tecnologia não faz, que é investir na criatividade, na reflexão, no pensamento”, completou. Segundo ele, a tecnologia pode acelerar os processos de aprendizagem. “Mas precisamos olhar para o fator humano, para os professores.”

O documento, que reúne evidências de pesquisas do mundo todo, expõe os benefícios da tecnologia na educação, mas faz também uma leitura crítica do uso não regulado e não moderado por educadores. É a primeira vez que o relatório anual da Unesco, braço da Organização das Nações Unidas (ONU) para a educação, discute a tecnologia.

Segundo mostrou o Estadão, o documento indica que um em cada quatro países do mundo proíbe ou tem políticas sobre o uso do celular em sala de aula. Entre os que recentemente anunciaram a proibição estão Finlândia e Holanda.

Com relação à inteligência artificial, o relatório diz que é preciso que “haja mais evidências para entender se as ferramentas de inteligência artificial são capazes de mudar a forma pela qual os estudantes aprendem, para além do nível artificial de correção de erros”. Mas que ao simplificar o processo de obter respostas, “essas ferramentas poderiam exercer um impacto negativo na motivação do estudante de conduzir pesquisas independentes e achar soluções.”

A Unesco alerta ainda que a IA pode aumentar a desigualdade na educação se não souber considerar as diferentes formas e tempos de aprender.

Por outro lado, o texto diz que a inteligência artificial pode ajudar na identificação de plágio e de outras maneiras de burlar regras em trabalhos escritos de estudantes. A Unesco menciona que a inteligência artificial tem sido aplicada a jogos de aprendizagem imersiva, como aplicativos como Duolingo, de aprendizagem de línguas. E que ela pode ajudar a identificar quando os alunos não estão engajados na aprendizagem.

O texto fala ainda que ferramentas como o Chat GPT têm sido rapidamente adotadas por estudantes – cerca de 1 bilhão de pessoas por mês entram na plataforma. “Seus criadores acreditam que a inteligência artificial vai aumentar a eficácia dessas ferramentas de tal forma que seu uso pode se tornar generalizado, personalizando ainda mais a aprendizagem e reduzindo o tempo que os professores gastam em tarefas como correção e cálculo de notas, além de preparação de aulas”, diz o relatório.

Além disso, se “tarefas repetitivas forem cada vez mais automatizadas e mais empregos exigirem habilidades de pensamento mais importantes” as escolas serão pressionadas a desenvolver cada vez mais a reflexão em seus alunos. O trabalho dos professores também pode ser mudado caso a “tutoria inteligente” da AI se ocupe de algumas tarefas.

A questão, segundo a Unesco, é se a IA vai ser o ponto de virada na educação, que vem sendo discutido há anos desde que a tecnologia passou a ser inserida nas escolas. Para a organização, a inteligência artificial não pode substituir totalmente os professores, mas, sim, dar mais responsabilidade a eles “para ajudar a sociedade a navegar por este momento crítico”. O relatório completa que é preciso “eliminar os riscos de seu uso indiscriminado, por meio de regulamentação relacionada à ética, responsabilidade e segurança”.

“A inteligência artificial já é usada por milhões de estudantes no mundo, é importante desenhar políticas e pensar em monitoramento com a participação de alunos e professores”, disse o diretor geral do relatório na Unesco, Manos Antoninis.

Kristina Kallas, ministra da Educação da Estônia, um dos sistemas de ensino com melhor desempenho em exames internacionais, participou da apresentação da Unesco por meio de vídeo. Para ela, as competências digitais precisam ter como foco a inclusão de todos os estudantes. “A digitalização não pode ser um objetivo por si, ela precisa simplificar o processo de aprendizagem”, completou

https://www.estadao.com.br/educacao/como-a-inteligencia-artificial-pode-mudar-o-foco-das-escolas-veja-o-que-diz-a-unesco/

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Veículos elétricos e hidrogênio verde devem atrair R$ 2,2 trilhões ao País para energia renovável

Demanda por energia no Brasil irá aumentar por fatores como o crescimento do PIB, a eletrificação de setores como a indústria e a produção de hidrogênio verde

Por Denise Luna – Estadão – 20/07/2023 

RIO – Com o avanço da eletrificação da frota de veículos e da produção de hidrogênio no País, a demanda extra por energia deve exigir investimentos de R$ 2,2 trilhões até 2050. Esse é o montante estimado para instalar cerca de 540 gigawatts (GW) de energia renovável, como solar e eólica, segundo levantamento do Portal Solar, empresa franqueadora de projetos fotovoltaicos.

O estudo foi feito com base no cruzamento de dados oficiais e projeções de entidades setoriais, órgãos de governo e institutos internacionais. De acordo com o trabalho, a transição energética da atual frota de veículos circulantes do Brasil traria uma demanda adicional de 403 terawatts-hora/ano (TWh/ano), um volume que se aproxima da capacidade total de geração de energia elétrica do Sistema Interligado Nacional (SIN). Ou seja, seria necessário acrescentar 270 GW de capacidade instalada.

Além disso, a demanda por energia no País irá aumentar por uma série de outros fatores, como o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), a eletrificação de outros setores, como a indústria, e a produção de hidrogênio verde.

De acordo com Luiz Piauhylino Filho, da Secretaria de Hidrogênio Verde (SHV) do Instituto Nacional de Energia Limpa (INEL), a Europa, por exemplo, precisará instalar 3.350 GW de energia renovável para tornar viável a eletrificação e produção de hidrogênio verde, necessárias para atingir a meta de descarbonização até 2050. Mas o continente europeu só tem capacidade de instalar 20% desse total e o restante terá de ser importado.

Segundo relatório do Portal Solar, se o Brasil quiser atender 10% dessa demanda, teria que instalar 268 GW adicionais de projetos renováveis para a produção de hidrogênio verde e seus derivados nos próximos 27 anos. Este cenário desconsidera a necessidade de investimento para servir ao mercado doméstico — em particular o transporte de carga por caminhões, a siderurgia e outros usos energéticos industriais.

Para o presidente do Portal Solar, Rodolfo Meyer, nesse cenário, embora outras fontes devam crescer para acompanhar a nova onda de demanda por energia no País, a solar fotovoltaica se configura como uma das mais competitivas e atrativas. Isso porque houve nos últimos anos uma queda expressiva no preço dos equipamentos fotovoltaicos, melhora na geração por metro quadrado das placas solares e baixo custo da geração descentralizada.

https://www.estadao.com.br/economia/negocios/veiculos-eletricos-hidrogenio-verde-investimento-energia-renovavel/

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Como a IA está revolucionando a forma de trabalhar

Serviços profissionais, incluindo o escopo de advogados e consultores, e programação já usam a nova tecnologia em tarefas rotineiras

Sarah O’Connor, Christopher Grimes e Cristina Criddle — Valor/Financial Times 29/06/2023

Uma revolução que libertará os trabalhadores de tarefas extenuantes ou uma destruidora de milhões de empregos? As novas capacidades da inteligência artificial (IA) têm despertado ao mesmo tempo enorme entusiasmo sobre a produtividade no trabalho e terríveis sinais de alerta para os trabalhadores. O “Financial Times” selecionou dois setores que estão entre os primeiros a adotar a tecnologia para analisar como ela está sendo usada no trabalho cotidiano.

Tem sido um ano estranho para advogados como Alex Shandro e Karishma Brahmbhatt. Por todos os lados, economistas, tecnólogos e jornalistas têm feito previsões sobre o que os novos avanços em IA poderiam significar para a chamada área de serviços profissionais. Manchetes advertindo que “a IA está chegando para os advogados” estão em todos os lugares.

Shandro e Brahmbhatt, entretanto, têm uma forma diferente de ver a questão – a da linha de frente. Como advogados da Allen & Overy (A&O) em Londres, eles já usam as novas ferramentas de IA generativa no dia a dia. Aproximadamente 3,5 mil funcionários da A&O têm acesso ao Harvey, plataforma de IA construída com base em uma versão dos modelos mais recentes da OpenAI que foi aprimorada para trabalhos jurídicos.

Shandro, especializado em propriedade intelectual comercial, diz ter usado o Harvey recentemente para se preparar para uma transação que envolvia direitos de propriedade no metaverso. “Quais são as normas da publicidade no Reino Unido que também poderiam valer para a realidade aumentada? Perguntei ao Harvey e obtive uma lista muito boa. Antes, eu teria pedido ao meu estagiário ou a um advogado júnior para pesquisar isso, e levaria muito mais tempo.”

Os profissionais precisam entender a ética do que estão fazendo”

— Rashik Parma

Da mesma forma, Brahmbatt diz que ela e seus auxiliares usam a tecnologia regularmente – embora com resultados ambíguos. “Na verdade, fiz a ele uma pergunta e ele inventou os casos completamente”, ri. “Se você o encarar com a ideia de que ‘vou ter que ler e checar tudo de qualquer maneira’, então é útil. Acho que ainda não é algo que você possa simplesmente pegar e usar sem cuidado.”

David Wakeling, chefe do grupo de inovação de mercados da A&O, diz que o quadro de funcionários adotou o Harvey com bastante rapidez desde que a banca de advocacia iniciou os testes em novembro, embora ainda não esteja sendo usado por todo mundo todos os dias. “Verifiquei ontem – cerca de 800 pessoas o usaram nas últimas 24 horas, e elas fizeram em média de três a quatro perguntas cada uma, em diferentes idiomas e grupos de especialidades”, diz.

De acordo com Wakeling, uma das questões mais importantes é evitar que os funcionários achem que a ferramenta é mais capaz do que realmente é. “Nós dizemos que o Harvey é como um adolescente de 13 anos muito confiante e articulado. Ele não sabe o que não sabe. Tem alguns conhecimentos fabulosos, mas incompletos. Você não confiaria em um adolescente de 13 anos para fazer sua declaração de imposto de renda.”

Em vez de uma caixa com “mágica” escrito na tampa, o escritório considera a tecnologia “um ganho de produtividade chato”. “Tem problemas, comete erros, está desatualizado. Mas tudo bem, porque estamos tentando economizar uma ou duas horas por semana para 3,5 mil pessoas.”

Em Londres, o jovem quadro de funcionários da PwC (a idade média é de cerca de 31 anos) também começou a usar novas ferramentas de IA, entre as quais o Harvey, em seu trabalho. Um sistema permite que eles insiram documentos – uma pilha de contratos legais ou de contratos sociais de uma empresa, por exemplo – e façam perguntas a respeito deles. As respostas, escritas fluentemente, vêm acompanhadas de notas sobre a fonte de origem, que remetem às partes exatas dos documentos das quais a IA tirou suas conclusões.

Euan Cameron, líder de IA da PwC no Reino Unido, diz que a maior diferença dessas novas ferramentas é que elas democratizam o acesso. “Antes, era como estar em um mundo movido a cavalos e ter um carro com motor de 1 litro, mas com controles como os de um Boeing 747. Você precisava de pessoas muito espertas e especializadas para fazê-lo funcionar. Agora, você tem ferramentas que podem ser integradas à barra lateral do Office 365 ou do Google Suite”. Ele alerta, no entanto, que é preciso ter “guard-rails” em torno disso”. Essas proteções incluem o “uso apenas como versão preliminar; a revisão por humanos; o uso apenas em casos com baixo custo de falha”.

O uso ainda está em seus primórdios, mas até agora as maiores economias de tempo para as firmas de serviços profissionais parecem estar nas tarefas que normalmente seriam atribuídas a funcionários iniciantes. Será que isso significa que bancas de advocacia e firmas de consultoria não precisarão mais dessas funções? E, caso positivo, quem treinará aqueles novatos que, algum dia, serão os experientes, e como?

Bivek Sharma, diretor de tecnologia do departamento tributário, jurídico e de pessoas da PwC, reitera que a empresa ainda vai querer – e precisar – treinar pessoas para que sejam “especialistas em determinados assuntos”, mas a maneira e a rapidez como fazem isso logo mudarão. “As expectativas a respeito delas aumentarão”, prevê.

Na área jurídica também há a dúvida se faria sentido economizar mão de obra humana, tendo em vista que muitas bancas cobram pela hora trabalhada dos advogados. Por essa lógica, no entanto, as empresas teriam continuado com aparelhos de fax e máquinas de escrever, argumenta Wakeling. “Isso vai chegar de qualquer forma, então estamos vendo como adotar isso de forma segura.”

Quanto aos temores de que a IA substituirá completamente uma série de profissões, como as de advogados e contadores, as pessoas que começaram a usar as ferramentas parecem tranquilas, por enquanto. Shandro fala sobre a arte de negociar um contrato, “cheia de contextos”, que depende tanto do “instinto” e da “experiência” quanto do conhecimento da lei.

Na KPMG, a chefe global de pessoas, Nhlamu Dlomu, está mais preocupada com a possibilidade de intensificação do trabalho. “O que pode nos ajudar a não cair nessa armadilha?”

Sharma, da PwC, faz a mesma previsão. “O que vai acontecer daqui a um ano é que nossos clientes vão esperar que apresentemos insights de alto valor em prazos muito mais curtos.

Os programadores têm se beneficiado da IA generativa para ganhar eficiência, usando ferramentas como o ChatGPT para ajudar a escrever softwares. Quando alimentados com instruções específicas, “chatbots” de IA generativa são capazes de sugerir linhas de código que os programadores podem rodar e testar. Especialistas em dados, contudo, advertem que ainda há limitações. “É muito útil e de fato acelera bastante as coisas, mas você precisa saber como seria uma resposta [correta] para que isso funcione”, diz Edward Rushton, cientista de dados e cofundador da consultoria Efficient Data Group.

Ele diz que há muito trabalho de tentativa e erro, portanto, é crucial entender como consertar o que a IA gerou. “[A tecnologia] simplesmente faz coisas erradas e inventa coisas. Inventará uma função que não existe, tudo parece perfeitamente plausível, mas não está correto e não funciona”, alerta.

Archana Vaidheeswaran, gerente de produtos de dados da organização sem fins lucrativos Women Who Code, usou o ChatGPT para criar uma extensão para o Google Chrome que ajuda falantes não nativos de inglês a traduzir textos e a ajustar o tom para um estilo de conversa mais natural. O chatbot da OpenAI criou as linhas de código para a interface do produto, a parte que os usuários podem ver e interagir, enquanto Vaidheeswaran escreveu a tecnologia de fundo. “O ChatGPT pode escrever algo muito específico, mas depois você precisa trabalhar nisso”, diz.

Matt Shumer, CEO da Otherside AI, startup que tem um produto para escrever e-mails, diz que sua equipe utiliza IA para auxiliar na programação, e boa parte das linhas de código da empresa foi feita com ela. “Tecnicamente não é um requisito, mas duvido que alguém que não estivesse usando fosse capaz de acompanhar o ritmo do restante da equipe.”

Por outro lado, ele destaca a necessidade de contar com engenheiros experientes que avaliem e validem os resultados da IA e verifiquem as respostas corretas. “A IA transformou o papel dos programadores. Em vez de se concentrarem apenas na codificação manual, agora eles passam mais tempo definindo o problema, projetando a estrutura e orientando a IA a realizar o trabalho pesado”, diz.

A British Computing Society informa que as ferramentas de IA generativa, além de escreverem código, podem servir para analisar as que já foram feitas e procurar erros ou vulnerabilidades que poderiam ser explorados por hackers. A associação também ressalta a necessidade de os desenvolvedores revisarem de forma crítica as respostas dadas pela IA e de levarem em conta como os dados inseridos nos sistemas de IA generativa podem ser usados. “Os profissionais precisam entender o nível de competência necessário [quando usam a IA], porque estão assumindo uma grande responsabilidade”, diz Rashik Parmar, executivo-chefe da British Computing Society. “Eles precisam entender a ética do que estão fazendo e estar sujeitos a prestar contas caso algo dê errado”. (Tradução Sabino Ahumada)

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2023/06/29/como-a-ia-esta-revolucionando-a-forma-de-trabalhar.ghtml

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Bens de uso duplo, semicondutores e desglobalização

Dificultar a progressão da China na sofisticação da produção de semicondutores tornou-se peça central da política dos EUA

Otaviano Canuto – Folha – 24.jul.2023 

Membro sênior do Policy Center for the New South, membro sênior não residente do Brookings Institution, professor na Elliott School of International Affairs da George Washington University, professor afiliado na Universidade Politécnica Mohamed VI e principal do Center for Macroeconomics and Development em Washington. Foi vice-presidente e diretor executivo no Banco Mundial, diretor executivo no FMI e vice-presidente no BID. Também foi secretário de assuntos internacionais no Ministério da Fazenda e professor da USP e da Unicamp 

Em 2017, quando era um dos diretores-executivos do Banco Mundial, visitei em missão de trabalho a Faixa de Gaza, na Palestina. Um projeto de saneamento financiado pelo Banco para uma área residencial sujeita a enchentes de fezes quando chovia muito estava parado por proibição de entrada de tubos hidráulicos. Quando conversamos com a autoridade militar israelense responsável pelo bloqueio dos tubos, ele nos disse que o problema estava em sua possível dupla utilização, civil ou militar. Lembro disso ao ver as referências à segurança nacional em argumentos contra o comércio livre de bens de dupla utilização. 

Como abordamos aqui, a segurança nacional é o argumento mais poderoso contra a globalização irrestrita e impulsionada pelo mercado. É também o mais difícil de avaliar, pois não pode ser analisado diretamente por pesquisadores, analistas de mercado ou jornalistas –é preciso tomar o que dizem as fontes de inteligência de governos. O argumento encontrou apoio bipartidário nos Estados Unidos em relação à China. Um grave problema sempre pode vir caso uma interpretação ampla de “uso duplo” resulte na restrição de muitos bens e serviços –de até roupas ou de medicamentos usados pelos militares. Como o conceito tem o potencial de levar a restrições amplas e abrangentes em vários setores, há o risco de que estimule guerras econômicas sob a forma de retaliações. 

 A principal categoria visada até o momento é o setor de semicondutores. Os semicondutores são um componente integral de vários produtos de consumo, como carros e smartphones, mas também podem ser usados em bens de uso duplo, como aeronaves civis e militares. Além disso, são usados em supercomputação e inteligência artificial, áreas com implicações potenciais em termos de segurança nacional. A disputa no caso diz respeito aos segmentos mais avançados na indústria de semicondutores. Há que se distinguir entre semicondutores mais avançados com 3-14 nanômetros de tamanho e os chips mais simples e baratos acima de 14 nanômetros. 

Taiwan e Coreia do Sul têm um domínio da tecnologia de fabricação dos chips de ponta e ocupam perto de 50% do mercado mundial de semicondutores. Os Estados Unidos respondem por 12% do mercado global, mas suas empresas locais não produzem chips avançados em grande escala. Por outro lado, muitos estágios do processo de produção de semicondutores dependem de tecnologias originárias nos EUA, inclusive os equipamentos necessários para a produção dos chips mais avançados. 

No passado recente, a China ocupou larga parcela dos mercados de semicondutores baratos, com nanômetros mais altos. Pode-se ver no caso uma tentativa de repetição da trajetória na qual o país se utilizou bem da globalização para ascender nas escalas de valor adicionado –e consequentemente na escada da renda per capita. As dificuldades criadas pelos Estados Unidos no caso dos semicondutores consistem justamente em cortar o acesso a degraus da escada que estão no exterior. A China terá de construí-los ela própria. 

Em outubro de 2022, os Estados Unidos anunciaram amplos controles de exportação na indústria de semicondutores mirando na China. Os Estados Unidos não exportam muitos semicondutores diretamente para a China. No entanto, os controles de exportação visaram países terceiros, ou seja, não os próprios Estados Unidos ou a China, e sim países fabricantes de chips que usam software e/ou máquinas dos EUA em suas instalações de fabricação.

De acordo com as restrições, qualquer semicondutor fabricado com tecnologia americana para uso em supercomputação ou inteligência artificial apenas pode ser vendido para a China com uma licença de exportação emitida pelos Estados Unidos, licença essa difícil de obter. Dado que quase todos os semicondutores são produzidos usando tecnologia dos Estados Unidos, esta regra abrange efetivamente toda a indústria global. 

Os países terceiros estão submetidos à seguinte escolha: buscar as licenças de exportação exigidas pelos Estados Unidos ou deixar de usar tecnologia e equipamentos destes. Vem daí um uso crescente da frase “interdependência armada” para caracterizar como os Estados Unidos usaram a interdependência inerente ao comércio e às cadeias de suprimentos globais para forçar seus parceiros comerciais a se alinharem com sua guerra econômica contra a China. Além disso, seus cidadãos estão proibidos de trabalhar com produtores de chips chineses, a não ser com aprovação específica. 

Com estas medidas, os EUA procuram impedir que a China avance tecnologicamente usando o que já existe na fronteira no lado americano em setores cruciais para a segurança nacional. Uma interpretação alternativa das recentes restrições à exportação de semicondutores é que elas têm pouco a ver com a segurança nacional, mas visam conter o caminho de desenvolvimento econômico chinês através da absorção criativa de tecnologia disponível no exterior. Se assim for, as novas restrições marcam o fim de uma era do globalismo e da cooperação econômica e o início de outra guerra fria. 

Dado o caráter crítico assumido por semicondutores hoje em dia, suas versões avançadas e sua fabricação se tornaram uma espécie de substituto para armas e exércitos usados nas “guerras por procuração” durante a guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética. Dificultar a progressão da China na sofisticação da produção de semicondutores tornou-se peça central da política dos EUA em relação ao país. 

Não deixou de ser notável também como o pacote fiscal de Biden dedicado a semicondutores facilmente recebeu suporte bipartidário no país. O caso dos semicondutores se encaixa como uma luva no que observamos ser uma reversão da globalização nos segmentos de alta tecnologia, considerados sensíveis do ponto de vista de segurança nacional, com custos ainda considerados justificáveis por autoridades governamentais. Como no caso dos tubos hidráulicos do projeto de saneamento na Faixa de Gaza, na Palestina, tudo vai depender de qual dos usos duplos é considerado prioritário. 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/por-que-economes-em-bom-portugues/2023/07/bens-de-uso-duplo-semicondutores-e-desglobalizacao.shtml

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Grigori Perelman, o gênio que resolveu um dos maiores problemas matemáticos do milênio e ‘sumiu do mapa’

Dalia Ventura – Da BBC News Mundo – 9 junho 2019

Grigori Perelman

Legenda da foto,

Grigori Perelman, em foto antiga; matemático russo é considerado tão brilhante quanto recluso

Há uma década, Grigori Perelman, um dos grandes cérebros do século 21, deu adeus à profissão e à vida pública.

Na época, ele já era mundialmente famoso por resolver um dos mais difíceis enigmas matemáticos do milênio, cuja origem remete ao século 18 e se materializa na antiga cidade prussiana de Königsberg (hoje Kaliningrado, na Rússia).

A cidade tinha sete pontes sobre o rio Pregel, para conectar não só os dois lados da cidade, mas também duas ilhotas dentro do curso do rio. Reza a lenda que as pessoas da época formularam um questionamento, que se converteu em um célebre problema:

Será possível sair de casa em uma das quatro regiões de Königsberg, cruzar todas as pontes uma única vez e voltar ao mesmo ponto de partida?

A solução não só é mais difícil do que parece, como levou à criação de novos ramos da matemática, incluindo a topologia.

Antigo mapa de Königsberg

Legenda da foto,

Pontes de Königsberg deram origem a dilema matemático….

Desenho das pontes de Königsberg

Crédito, Creative Commons

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…seria possível sair de casa em uma das quatro regiões de Königsberg, cruzar todas as pontes uma única vez e voltar ao mesmo ponto de partida?

Em 1735, o grande matemático Leonhard Euler deu a resposta: não era possível. Mas o mais curioso é que, na resolução do problema, deu um salto conceitual.

Euler se deu conta de que as distâncias entre as pontes eram irrelevantes. O que realmente importava era como as construções estavam conectadas entre si, o que faz com que a teoria não se limite unicamente à cidade de Königsberg, mas sim a todas as configurações topologicamente iguais.

Eis o início dos conceitos de topologia, que hoje embasam praticamente todos os trajetos de mapas de metrô do mundo, para comunicar claramente aos usuários o que eles necessitam saber: como chegar aonde querem ir.

Embora as origens da topologia remetam às pontes de Königsberg, foi só nas mãos do mais famoso e respeitado matemático do final do século 19, o francês Henri Poincaré, que o tema se converteu em uma nova e poderosa maneira de enxergar a forma.

A topologia

A principal ideia atrás da topologia é que, quando se estuda um objeto, o mais importante são as suas propriedades, e não o objeto em si. E, se dois objetos compartilham as mesmas propriedades, devem ser estudados, porque os resultados disso poderão ser escalonados a todos os objetos que compartilhem das mesmas propriedades – ou seja, os objetos homeoformos.

Algumas pessoas se referem a esse importante campo da matemática como “geometria flexível”, porque, segundo ele, duas formas são a mesma se for possível transformar uma em outra sem quebrá-la.

Então, por exemplo, topologicamente uma bola de futebol e uma bola de rúgbi são equivalentes, porque uma pode ser moldada para se transformar na outra.

Bolas

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Na topologia, uma bola de futebol e uma bola de rúgbi são equivalentes, porque uma pode ser moldada para se transformar na outra

É por isso que se brinca que um topologista não consegue distinguir entre uma xícara de café e uma rosquinha de donut.

É que, embora soe estranho, topologicamente uma xícara e o donut são iguais.

Donut e xícara

Crédito, Science Photo Library

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Um donut se converte em xícara (e vice-versa) sem ser quebrado

Mas, se é possível deformar um donut para transformá-lo em uma xícara e vice-versa, não há como deformar uma bola a ponto de transformá-la em um donut, porque não podemos criar o buraco em seu meio sem mudar as propriedades da esfera.

O problema

Poincaré chegou a conhecer todas as possíveis superfícies topológicas bidimensionais. Além disso, desenvolveu todas as formas possíveis nas quais poderia envolver esse universo bidimensional plano.

Mas o fato é que vivemos em um universo tridimensional. O que levou o matemático a se perguntar em 1904: quais são as formas possíveis que nosso Universo pode ter?

Ele morreu em 1912 sem conseguir encontrar as respostas. O problema se converteu na “conjectura (ou hipótese) de Poincaré” e ficou como legado para futuras gerações de matemáticos, que por décadas não conseguiram resolver o problema para superfícies 3D.

Henri Poincaré

Crédito, Science Photo Library

Legenda da foto,

Henri Poincaré (1854-1912) levou o problema adiante, mas não conseguiu resolvê-lo para superfícies em 3D

Assim, a hipótese de Poincaré foi incluída na lista dos sete problemas matemáticos do milênio, cuja resolução seria premiada com US$ 1 milhão pelo Instituto Clay de Matemáticas de Massachusetts, nos EUA.

Até que, em 2002, o site de internet arXiv publicou a primeira de três partes de um artigo com o intrincado título “A fórmula de entropia para o fluxo de Ricci e suas aplicações geométricas”.

O texto tinha 39 páginas e era assinado por Grisha Perelman.

Pouco ortodoxo

Grigori “Grisha” Perelman vinha se debruçando sobre o tema em sua cidade natal, São Petersburgo, à qual havia regressado depois de viver alguns anos nos EUA. Segundo um colega, Perelman voltou porque percebeu que seu trabalho fluía melhor na Rússia.

Grigori Perelman em foto de 2006

Crédito, Getty Images

Legenda da foto,

Grigori Perelman resolveu o problema por conta própria, mas recusou qualquer tipo de reconhecimento por isso

Ele não era um desconhecido na comunidade matemática: em 1994, já havia provado a “conjectura da alma”, segundo a qual pode-se deduzir as propriedades de um objeto matemático a partir de pequenas regiões desses objetos, chamados alma.

Depois disso, ele recebeu ofertas de cargos em algumas das principais universidades do mundo, como Stanford e Princeton, mas preferiu tornar-se pesquisador do Instituto Steklov, em São Petersburgo, um cargo que pagava menos de US$ 100 por mês.

Em sua temporada nos EUA havia conseguido, disse, dinheiro suficiente para viver bem.

Mas também conseguira avançar em uma dúvida levantada por um matemático americano que ele admirava: Richard Hamilton.

Fluxos que não fluíam

Em 1982, Hamilton havia publicado um artigo sobre uma equação chamada “fluxo de Ricci”, com a qual se suspeitava ser possível comprovar a conjectura de Poincaré.

Mas a tarefa era extremamente técnica e sua execução, complicada.

Fluxo de Ricci

Crédito, CBM

Legenda da foto,

Fluxo de Ricci, acima em 2D, foi usado por Perelman para encontrar suas respostas

Em 1993, Perelman havia aceitado uma bolsa de pesquisa na Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde assistiu a várias conferências de Hamilton.

No final de uma delas, Hamilton explicou a Perelman os obstáculos que havia encontrado na tentativa de provar a conjectura; o russo respondeu que havia feito um estudo que poderia ajudá-lo nesses obstáculos. Hamilton, porém, não lhe deu muita atenção.

Dois anos mais tarde, Perelman voltou a escrever para Hamilton explicando suas ideias, mas o americano nunca respondeu.

Perelman acabou trabalhando sozinho, e em 2002 publicou na internet o resultado de seus esforços. Essa publicação acabou despertando um enorme interesse entre matemáticos.

A resolução

Embora o artigo sequer citasse Poincaré, quatro anos mais tarde emergiu o consenso de que Perelman havia, de fato, solucionado a conjectura.

E se quatro anos parecem ser um período longo, é bom lembrar que estamos falando da matemática.

À diferença de outros campos do conhecimento, em que as teorias sempre podem ser revisadas, a prova de um teorema é definitiva. No caso de Perelman, ao menos duas equipes de especialistas se debruçaram sobre seu artigo para confirmar que não havia brechas ou erros, e a partir disso produziram estudos de centenas de páginas (enquanto que o artigo original tinha meras 39 páginas).

Além disso, a proposta de Perelman era tão complexa que até especialistas tiveram dificuldade em entendê-la.

O silêncio do gênio

Depois de mais de um século de tentativas frustradas, a hipótese de um matemático brilhante havia sido comprovada por outro também genial, embora mais excêntrico.

Perelman recebeu nova chuva de ofertas – de prêmios, cargos, honras, pagamentos em dinheiro, convites para conferências e fundos de pesquisa -, as quais considerou, segundo relatos, profundamente ofensivas.

“A monetização do êxito é o máximo insulto à matemática”, afirmou.

Grigori Perelman

Legenda da foto,

“Se a teoria está correta, não necessita de outro tipo de reconhecimento”, afirmou Perelman

Consequentemente, rejeitou até mesmo a medalha Fields, equivalente matemático a um prêmio Nobel, por “suas contribuições à geometria e suas ideias revolucionárias”; um prêmio da Sociedade Matemática Europeia e o milhão de dólares que o Instituto Clay queria entregá-lo por solucionar um dos problemas do milênio.

“Se a teoria está correta, não necessita de outro tipo de reconhecimento”, afirmou Perelman.

Ele logo deixou de falar com a imprensa, anunciou que pretendia abandonar a profissão e se aposentou, para viver com sua mãe como um semirrecluso em um modesto apartamento. Há relatos de que ele só sai de casa para comprar itens básicos ou para assistir à ópera e a concertos de música clássica.

“Não me interessa o dinheiro ou a fama. Não quero estar em exibição como um animal em um zoológico”, disse certa vez.

Alguns conhecidos afirmam que ele se interessa simplesmente por demonstrar teoremas, e não por ganhar prêmios.

No mundo científico, muitos lamentaram que ele tenha abandonado a matemática por completo. A não ser que, em algum momento, ele surpreenda a comunidade com alguma outra publicação brilhante na internet.

https://www.bbc.com/portuguese/geral-48521904

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O exército dos R$ 20

Avaliações pagas fazem da internet uma mídia em que a espontaneidade está à venda

Ronaldo Lemos – Folha – 23.jul.2023 às 8h00

A esta altura, muita gente já deve ter recebido alguma mensagem do tipo: “Trabalhe de casa e ganhe R$ 2.000 por mês”. Muitas dessas mensagens são golpes. Outras fazem parte de um sistema de contratação de trabalhadores avulsos para postar reviews positivos de produtos online, criando a impressão de que são genuinamente bem avaliados. Cada uma dessas avaliações pagas, feitas muitas vezes na forma de vídeos de um minuto de duração, gera até R$ 20 para a pessoa que é contratada. O jornalista Gabriel Daros publicou na semana passada uma investigação sobre esse fenômeno no Brasil, na interessante plataforma chamada Rest of the World, que tem por objetivo justamente cobrir em inglês situações que ocorrem em países pouco visíveis nas mídias dos EUA e da Europa. 

Fazendas de cliques – Catarina Pignato Daros relatou que, através de plataformas como Vintepila, 99freelas e Vinteconto, é possível tanto ofertar como contratar serviços de “freelancers” para escrever avaliações pagas de produtos. De fato, essas plataformas estão cheias de pessoas se oferecendo para “gravar vídeos e outros tipos de depoimento para o seu produto”. O grande valor desse tipo de marketing é justamente dar a impressão de autenticidade. Quem fala do produto não é uma celebridade. É gente “como a gente”. 

Quanto mais espontâneo e natural for o depoimento ou vídeo, melhor. Só que a espontaneidade tem limites. Daros relata que boa parte dessas ações é feita através de roteiros pré-elaborados pelo contratante. Muitas das pessoas que gravam vídeos ou escrevem depoimentos nem sequer tiveram contato ou usaram o produto. Outro problema é que esses reviews são publicados sem nenhum tipo de aviso de que se trata de conteúdo pago. Exatamente para não desfazer a impressão de espontaneidade. Esse fenômeno é a ponta de uma transformação mais profunda. 

Na internet de hoje, é cada vez mais importante ocupar o espaço destinado aos “comentários”. Não basta para empresas (nem para campanhas políticas) apenas produzir e postar conteúdos maravilhosos. Existe hoje a ambição de controlar o que se fala sobre o conteúdo postado. De nada adianta fazer um grande post de um produto ou serviço se logo abaixo dele há uma infinidade de pessoas falando mal. 

É aí que entra esse “exército dos R$ 20”. Pessoas e perfis fakes são recrutados por agências para ocupar os espaços abertos nas principais plataformas. Quando alguém coloca um comentário sobre alguma dessas marcas “gerenciadas”, logo a pessoa é cercada por um exército de fãs fakes que se juntam para contestar a má avaliação e até mesmo atacar quem profanou a marca “gerenciada”. Se, para o comércio e os serviços, isso já é nocivo, para temas de interesse público, é pior ainda. 

Assim como um espelho de parque de diversões pode fazer alguém parecer mais alto ou mais magro, essas avaliações distorcem a verdadeira imagem dos produtos e serviços, moldando nossa percepção de acordo com a narrativa que os contratantes desejam que vejamos. Isso torna a internet uma mídia em que a espontaneidade está à venda. Converte a utópica “rede global” descentralizada que a internet deveria ser em uma mídia em que praticamente todos os espaços estão à venda. Tornando a confiança um bem escasso na rede hoje. 

Já era Marketing focado apenas em campanhas de massa

Já é Marketing digital baseado em dados e comportamentos

Já vem Marketing social, que explora as dinâmicas sociais na internet

Ronaldo Lemos

Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2023/07/o-exercito-dos-r-20.shtml

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A Opep do lítio

A corrida para o lítio foi acelerada pela produção de carros elétricos

Por Geoberto Espírito Santo – Valor – 21/07/2023

A estratégia econômica mundial do aquecimento global, segurança climática, transição energética e segurança energética chegou aos minerais estratégicos. Já vinham sendo utilizados nos celulares, tablets, laptops e agora, em maiores proporções, nas bicicletas, carros e ônibus elétricos e no armazenamento de energia. Temos lítio e cobalto nos computadores, celulares e baterias, onde também o níquel e o grafite melhoram o desempenho e a longevidade. Nos painéis solares, o telúrio e o silício. Numa eólica, aço, zinco, alumínio, carbono, vidro, níquel e ferro. Terras raras são utilizadas em semicondutores, catalizadores e lâmpadas LED.

Se o gás natural foi considerado o combustível da segurança energética, o lítio agora é a matéria-prima essencial para o armazenamento da transição energética. Basicamente, um carro convencional usa o cobre e o manganês, por causa do aço. Num carro elétrico, além do cobre e do manganês, são utilizados lítio, níquel, zinco, grafite, cobalto e terras raras. Relatório da Agência Internacional de Energia (IEA, sigla em inglês) diz que, em 2022, as vendas de carros elétricos ultrapassaram 10 milhões de unidades, registrando um aumento de 60% em relação a 2021. O lítio também está presente nos grandes armazenamentos de energia elétrica, que servem, dentre outras finalidades operacionais, de base para o despacho de renováveis.

A quantidade de carbonato de lítio num celular é de 3g, tablet 20g, laptop 30g, bicicletas elétricas 300g, nos carros elétricos 50 kg e num ônibus elétrico 200 kg. O consumo de lítio, que em 2021 era de 95 mil toneladas passou em 2022 para 134 mil. Seu preço nos EUA em 2021 era de US$ 14.000 por tonelada, passando para US$ 37.000 em 2022. Segundo projeções do Serviço Geológico dos EUA e Secretaria de Mineração da Argentina, a demanda por milhares de toneladas de carbonato de lítio, que no ano passado era 427, passará para 1.793 em 2030.

Esses materiais, principalmente o lítio, cobalto, níquel e cobre estão sendo vistos pelos investidores como matéria crítica e estratégica para a chama da energia limpa das próximas décadas. China e Estados Unidos claramente já duelam por esses minerais essenciais

No período 2017 a 2022, o setor de energia fez a demanda por lítio aumentar 300%, a de cobalto 70% e a do níquel em 40%. A corrida para o lítio foi acelerada pela produção de veículos elétricos, motivada pelo tamanho médio das baterias nos principais mercados. Em 2022, esse mercado de minerais de transição energética tem recebido da indústria global de mineração uma maior atenção, tendo atingido US$ 320 bilhões. Esses materiais, principalmente o lítio, cobalto, níquel e cobre estão sendo vistos pelos investidores como matéria crítica e estratégica para a chamada energia limpa das próximas décadas. China e Estados Unidos, as duas grandes superpotências mundiais do momento, claramente já duelam por esses minerais essenciais, mas a Europa está se posicionando.

A China é líder em terras raras, detém 60% das reservas de grafite e possui relevante reserva de lítio, produzindo cerca de 75% das baterias de íon-lítio no mundo. No Plano Nacional de Recursos Minerais da China, além dos recursos energéticos tradicionais como o carvão, petróleo, gás natural e gás de xisto, estão incluídos 24 minerais estratégicos, dentre eles o alumínio, cobre, cobalto, ferro, lítio, níquel, ouro e terras raras. Mas, no caso do lítio, poderá ficar com um alto grau de dependência externa desse mineral indispensável porque é lá que está a maior concentração do seu processamento.

Os Estados Unidos planejam recuperar parte da sua independência energética e o lítio aparece como elemento chave para essa competição tecnológica e geopolítica com a China. Atualmente, os chineses estão levando vantagem porque seu governo está investindo na América Latina na produção de baterias, em mineração e montando fábricas. Os Estados Unidos estão mais focados na aquisição das matérias-primas para as empresas americanas construírem suas próprias tecnologias ecológicas. Um olhar geopolítico nos leva a República Democrática do Congo, um país com conflitos internos onde se concentram as jazidas de cobalto. Certamente os norte-americanos vão recuperar esse atraso e o Brasil vai estar incluído nessa disputa.

Temos no mundo 98 milhões de toneladas de lítio identificadas, sendo 21 milhões de toneladas na Bolívia, 20 milhões na Argentina e 20 milhões no Chile. Temos ainda 12 milhões nos EUA, 8 milhões na Austrália, 7 milhões na China, um milhão no Brasil e 11 milhões no restante dos países. Na América do Sul, está o Triângulo do Lítio, com 62% de suas reservas mundiais, localizada em Salar de Uyuni, na Bolívia, Salinas Grandes, Salar Hombre Muerto e Salinas Arizaro, na Argentina e Salar Atacama, no Chile. Apesar das maiores reservas estarem na América do Sul, não fomos os maiores produtores mundiais de carbonato de lítio em 2022: na Austrália foram produzidas 52%, no Chile 25%, na China 13%, na Argentina 6%, no Brasil, EUA, Portugal e Zimbábue 1% cada e 0,1% nos demais países.

A empresa canadense Sigma Lithium, já tem licença para iniciar suas operações em Minas Gerais, numa mina chamada Grota do Cirilo, projeto de R$ 3 bilhões com a produção do lítio endereçada à exportação. Nossa demanda de carbonato de lítio em 2020 era de 327 quilotoneladas (kt) e espera-se que seja de 2.114 kt em 2030, portanto, um crescimento anual de 2,1%. A meta do Brasil para 2026 é estar produzindo 5% do lítio do mundo e, segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), nossas reservas de lítio estão no Ceará, no eixo Rio Grande do Norte/Paraíba, no sul de Tocantins com o nordeste de Goiás, na Bahia e em Minas Gerais, no conhecido médio Jequitinhonha, região leste e São João del Rei. É claro que a exportação é um bom caminho, mas precisamos mesmo é fazer a transformação da matéria-prima.

Os desafios nessa cadeia de produção são muitos, desde a concentração em poucos países até os impactos ambientais da mineração e o consumo de energia, visualizando que, após a vida útil, as baterias poderão se tornar um lixo perigoso. Hoje é feita reciclagem na China, EUA e Europa, mas deve mudar na próxima década porque as baterias dos veículos elétricos vão chegar aos 10-15 anos de vida útil.

Geoberto Espírito Santo GES Consultoria, Engenharia e Serviços

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/a-opep-do-litio.ghtml

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A briga silenciosa: felicidade ou estresse?

A colunista Betânia Tanure fala sobre como as relações afetivas em crise se conectam com a realização profissional e o propósito

Betania Tanure – Valor – 13/07/2023

Nunca se viu tanto estresse no ambiente corporativo. Nossas pesquisas revelam que o uso de medicamentos prescritos por psiquiatras mais que quadriplicou nos últimos tempos. Há uma insatisfação difusa, uma briga silenciosa com a própria alma, uma tentativa comum de achar “culpados”. Culpa-se a empresa por tensões de origem pessoal e debita-se na “conta” das pessoas as incompetências organizacionais. Por mais que as duas esferas se sobreponham, deve-se dar a César o que é de César…

Foram divulgados no Brasil os dados de um estudo liderado pelo professor de Harvard Robert Waldinger que teve como tema relações afetivas significativas, variável fundamental no índice de “felicidade” dos participantes, essencialmente americanos. Considerando a nossa amostra brasileira, me junto ao Robert neste finding e vou abordar aqui outros dois pontos, ou contrapontos, sempre considerando que “felicidade” não é um estado, é uma viagem.

Nossas pesquisas também mostram que as relações afetivas são ponto-chave da (“in)felicidade” e estão em crise: 42% dos casamentos desmoronaram durante a pandemia e suas repercussões persistem. Nesse pantanoso terreno também se observaram diferenças relevantes de sentimentos, ou de conflitos, entre mães e pais.

Particularmente mulheres executivas expressam um sentimento ambíguo, recheado de culpa por essa escolha e pela consequente terceirização doméstica – tema, aliás, em parte ressignificado nos tempos de pandemia. É frequente o relato de que passaram a ter a “posse” da sua casa, a estabelecer a sua dinâmica nesse ambiente e do prazer inesperado que isso gerou. Tal sentimento também se mostrou mal equilibrado: para algumas, a maior convivência com o parceiro revelou problemas. E filhos em período de homeschooling são um capítulo à parte: prazer por estar perto, mas incômodo com a falta de espaço individual, o que é impublicável. Por sua vez, muitos pais passaram a conhecer o prazer em ver peripécias cotidianas dos filhos em crescimento.

O fato é que só se constroem momentos de “felicidade” com relações afetivas significativas, realização profissional e o propósito que guia a vida das pessoas como Cidadãs, com C maiúsculo. Ou seja, nada simples.

Em países emergentes, o cidadão é ainda mais responsável por contribuir para a construção de um país melhor. Há, porém, certa angústia: se por um lado isso é fonte de prazer, de realização, por outro é mais uma demanda e desafia a competência de influenciar e realizar. A alma Estadista, teoria nossa, está cada vez mais presente entre eles: já se tem, de forma crescente, especialmente entre os que me leem, a consciência da responsabilidade de cada pessoa de impactar os rumos do seu país.

Em 95% dos casos, porém, essa consciência ainda não se reflete na prática. Medo? Falta de competência? Dificuldade de mergulhar em um novo papel? Talvez um pouco de cada coisa.

Agir, impactar o meio, articular de modo saudável e republicano por uma sociedade mais justa: você que faz isso também usufrui do benefício da satisfação e da “felicidade” de ter uma vida com propósito. Afinal, não permanece na História quem acumulou riquezas, e sim quem ajudou a construir um país. É com você! É conosco!

Betania Tanure é doutora, professora e consultora da BTA. Atua na área de gestão, cultura empresarial e formação de equipes de alta performance.

https://valor.globo.com/carreira/coluna/a-briga-silenciosa-felicidade-ou-estresse.ghtml

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Bill Gates: ‘O que gostaria de ter ouvido na formatura’

Cinco conselhos do empresário fundador da Microsoft a formandos numa universidade nos Estados Unidos

Por Roberto Macedo – Estadão – 20/07/2023 

Ele afirmou isso em inglês num texto que publicou no seu site (www.gatesnotes.com), que ele também chama de seu blog e tem muitas publicações interessantes. Gates começou um curso de graduação na famosa Universidade Harvard, nos EUA, no início dos anos 1970, mas abandonou o curso no terceiro semestre, ao se envolver de corpo e alma com a criação da Microsoft e ficar sem condições e interesse de continuar seguindo o curso. É muito famoso por ser um empresário de sucesso, muito rico, e por seu papel na criação dessa empresa. Eu fui apresentado a ele numa visita que fez a São Paulo. É uma pessoa muito simples, de fácil comunicação e muito sabido.

A afirmação citada veio no seu discurso como paraninfo dos formandos em Engenharia e Administração Florestal na Universidade do Nordeste do Arizona, nos EUA. Foi a terceira vez que ele falou como paraninfo de estudantes de curso de graduação. Passemos às cinco coisas nas palavras dele, em tradução livre e em resumo.

Primeira: “Sua vida não é uma peça de um ato. Provavelmente vocês estão sob pressão para tomar decisões certas sobre suas carreiras. Pode parecer que essas decisões são permanentes, mas não são. O que vocês vão fazer amanhã – ou pelos próximos dez anos – não tem de ser o que vocês farão para sempre. Quando deixei a universidade, pensei que trabalharia na Microsoft pelo resto da vida. Hoje, continuo amando meu trabalho com software, mas filantropia é o que eu faço em tempo integral, focado em inovações para lutar contra mudanças climáticas e reduzir desigualdades pelo mundo, inclusive em saúde e educação. Eu me sinto feliz porque nossa fundação apoia instituições muito interessantes, mesmo se não é algo que eu imaginava quando eu tinha 22 anos. Não é o.k. apenas por mudar sua cabeça ou ter uma segunda carreira. Pode ser uma coisa muito boa.”

Segunda: “Você nunca é tão inteligente a ponto de não se confundir. Eu pensei que sabia tudo de que precisava saber quando deixei a faculdade. Mas o primeiro degrau para aprender algo novo é abraçar o que você não sabe, em lugar de focar no que você sabe. Em algum ponto de sua carreira, você se verá diante de um problema que você não pode resolver por si mesmo. Quando isso ocorrer, não entre em pânico. Respire. Procure se esforçar para pensar sobre o que está diante de si. E, então, procure pessoas inteligentes para aprender com elas. Poderá ser um colega com mais experiência ou que tenha uma boa perspectiva e que o levará a pensar diferentemente. Ou um especialista no campo de interesse e que se disponha a responder suas questões. Quase tudo o que consegui veio porque eu procurei outras pessoas que sabiam mais. As pessoas querem ajudar. A chave é não ter medo de perguntar.”

Terceira: “Gravite em torno de um trabalho que resolve um grande problema. A boa notícia é que vocês estão se formando num tempo em que há muitos problemas importantes por resolver. Novas atividades e empresas estão surgindo todo dia e isso permitirá a você ganhar a vida e fazer uma diferença, e avanços em ciência e tecnologia facilitaram mais do que nunca alcançar um grande impacto. Por exemplo, muitos de vocês irão lidar com florestas. Seus professores ensinaram a usar tecnologias de ponta como drones que produzem mapas precisos do piso florestal. Vocês poderiam buscar novas formas de usar essa tecnologia para lutar contra mudanças climáticas. Quando você gasta seus dias fazendo alguma coisa que resolve um grande problema, isso lhe dará energia para fazer o seu melhor trabalho.”

Quarta: “Não subestime o poder da amizade. Quando estava na faculdade, eu e Paul Allen ficamos amigos e compartilhamos muitos interesses, como ficção científica, livros sobre personagens imaginários e eventos, e revistas sobre computadores. Começamos a Microsoft juntos. Eu pouco sabia quão importante essa amizade seria. A única coisa mais importante do que com quem você desce do palco é com quem você sobe nele.”

Quinta: “Esta me tomou muito tempo para aprender. Você não é um folgado se deixar de trabalhar um pouco. Quando estava na idade de vocês, não acreditava em férias nem em fins de semana. Trazia todo mundo perto de mim para trabalhar longas horas. Nos primeiros dias da Microsoft, meu escritório tinha vista para o estacionamento do prédio e eu observava quem estava saindo cedo ou ficando até tarde. Mas, quando fiquei mais velho – e especialmente quando me tornei um pai –, percebi que há algo mais na vida além do trabalho. Não tome tanto tempo, como eu, para aprender essa lição. Separe tempo para avançar nos seus relacionamentos, para celebrar seus sucessos e para se recuperar de suas perdas. Tire uma folga quando precisar. E relaxe com as pessoas que o rodeiam quando elas também precisarem de uma folga. E antes de começar a próxima etapa de sua vida, tire um momento e divirta-se. Esta noite, no próximo fim de semana, neste verão ou a qualquer tempo. Você merece.”

*

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

https://www.estadao.com.br/opiniao/roberto-macedo/bill-gates-o-que-gostaria-de-ter-ouvido-na-formatura/

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