Por que as big techs são a nova mídia tradicional

Cada vez mais dependentes da boa e velha publicidade e do modelo de assinaturas, Spotify, Google, Meta e Netflix sofrem para buscar novas fontes de receita e cortam custos para agradar investidores

Por Guilherme Ravache* – Valor Econômico — Recife 06/12/2023

O Spotify anunciou nesta semana que irá demitir mais 1.500 funcionários, ou cerca de 17% de sua mão de obra. É a terceira onda de cortes na empresa neste ano. Segundo Daniel Ek, CEO do Spotify, a empresa precisa reduzir custos para dar lucro.

Ek tenta acalmar os investidores dando um novo foco em eficiência. As ações da companhia subiram mais de 150% neste ano, mas ainda estão cerca de 45% abaixo do valor de 2021. Após o anúncio das demissões na segunda-feira, as ações chegaram a subir 11%.

Assim, o Spotify se junta a gigantes de mídia tradicional como Disney, Paramount e Warner, que também se esforçam para cortar custos. Com o aumento das taxas de juro no mundo, os investidores passaram a exigir mais lucro em menos tempo.

Dificuldade para inovar e os ecos do passado

O sucesso do Spotify parecia certo até pouco tempo. Após revolucionar a maneira como as pessoas consumiam música, a plataforma de streaming parecia destinada à dominância do mercado. E esta era a premissa dos investidores – só faltou combinar com os concorrentes e os usuários.

Com a arrogância típica do Vale do Silício, e munidas de dados e planilhas convincentes, as gigantes de tecnologia subestimaram (ou omitiram) o fato de que conteúdo é um negócio caro e difícil de fazer. Também ajudou o discurso de que eram empresas de tecnologia e não negócios de conteúdo.

O Spotify, a exemplo da Netflix, mudou a maneira que consumimos conteúdo, mas não o modo de monetizá-lo. Enquanto o vento soprava a favor e os juros eram baixos, o Spotify podia se dar ao luxo de gastar US$ 1 bilhão na produção de podcasts.

O problema é que todo esse dinheiro investido gerou resultados pouco significativos. Em junho, a empresa demitiu 2% de sua equipe, principalmente em seus estúdios de podcast, e reduziu sua programação original. Além do anúncio das demissões nesta semana, a empresa informou que iria encerrar o contrato com algumas de suas principais atrações de podcast.

Ou seja, o Spotify segue altamente dependente das gravadoras, já que não conseguiu expandir suas fontes de receita com os podcasts. E, para azar da companhia, praticamente todas as músicas do mundo se concentram em apenas três gravadoras que sabem usar seu peso e influência para monetizar o que produzem.

Segundo a revista especializada MBW, apenas no primeiro trimestre deste ano, a Universal Music Group, Sony Music Group e Warner Music Group geraram mais de US$ 6,21 bilhões em receita. Apenas com streaming de música gravada, as três principais gravadoras coletivamente faturaram US$ 3,32 bilhões nos primeiros três meses de 2023. A expectativa é que as três maiores gravadoras tenham receita de mais de US$ 25 bilhões neste ano.

Enquanto isso, o Spotify projetou prejuízos operacionais para o quarto trimestre fiscal na faixa de 93 milhões de euros (US$ 101 milhões), citando encargos de 130 milhões de euros a 145 milhões de euros, provenientes de pagamentos de rescisão.

Para quem acha que o rádio morreu, uma pesquisa da Deloitte revela que podcast gera nos Estados Unidos cerca de US$ 2 por usuário, enquanto o rádio fatura mais de US$ 10 por usuário. A alta fragmentação do mercado de podcasts ajuda a explicar a diferença. A verdade é que muitos podcasts são ouvidos, mas poucos têm um número relevante de ouvintes.

Os novos conglomerados de mídia são as big techs

O Spotify não é um caso isolado. Apesar de uma quantidade significativa de investimento direcionado à área de cloud do Google, os consumidores há muito tempo veem a plataforma de nuvem da gigante de buscas como atrasada em relação a concorrentes, como Amazon e Microsoft. Ao anunciar os resultados da área de cloud em outubro, a Alphabet, controladora do Google, viu suas ações caírem 11%.

Mais de 80% do lucro do Google ainda vêm de publicidade, apesar das diversas tentativas e bilhões de dólares em investimentos para diversificar o negócio da empresa. Neste momento, por exemplo, o Google está atrás do ChatGPT.

O Google lançou nesta quarta-feira o seu modelo de IA Gemini, considerado o “rival” do GPT-4, desenvolvido pela OpenAI. Segundo o The Information, o Google discretamente cancelou um conjunto de eventos presenciais para lançar o Gemini e anunciou a nova IA em um evento virtual. O Gemini estaria enfrentando problemas com consultas em idiomas não ingleses.

Apesar do Google dizer que o Gemini é superior ao GPT-4, as primeiras avaliações de especialistas tem sido negativas, como informou o Techcrunch. Procurado, o Google não comentou.

Na Meta, a tentativa de criar o metaverso foi um fiasco que deu bilhões de dólares de prejuízo. Por lá o que dá dinheiro ainda são os anúncios no Facebook e Instagram, e Mark Zuckerberg já disse que o WhatsApp é o futuro da companhia. Não surpreende, com o Facebook e Instagram perdendo relevância, a saída é mexer com o WhatsApp, que por anos seguiu intocado pela companhia.

Mas o Google e a Meta têm uma diferença importante: por usarem conteúdo criado pelos usuários, são mais baratos. O problema é que o conteúdo gerado por usuários têm pouco ou nenhum controle e oferece pouca segurança para as marcas, que ficam cada vez mais expostas às controvérsias. Com cada vez mais alternativas para veicular publicidade e preços mais baixos, o conteúdo gerado por usuário tende a perder parte de seu encanto.

Inclusive plataformas como a Netflix passaram a usar as mesmas estratégias da mídia tradicional. A líder de streaming agora oferece publicidade em sua plataforma, garantindo segurança e atenção concentrada como na TV, mas com a capacidade de segmentação do digital.

Não é um caso isolado. O Amazon Prime, que transmite partidas da NFL, também irá oferecer publicidade em 2024. Além disso, empresas de mídia tradicional como a Globo, Disney, Warner e Paramount criaram plataformas de streaming e se tornaram concorrentes mais eficientes no digital.

Google copia a TV

O Google, nos Estados Unidos, comprou os direitos de transmissão da NFL e cobra assinatura na YouTube TV de quem quer assistir às partidas. O modelo do YouTube TV é bastante semelhante ao da TV à cabo, com a diferença que as transmissões chegam pela internet no segundo caso.

Já a Apple e a Paramount estariam discutindo uma parceria para oferecer seus serviços de streaming em uma única assinatura. Lembra a TV a cabo, não?

Aparentemente, as gigantes de tecnologia cada vez inovam menos e copiam mais as fórmulas antigas. Quem reclamava dos preços dos CDs e da TV a cabo deve ter notado a estratégia de constantes aumentos de preços nas assinaturas no streaming. Instagram, Facebook e YouTube agora também oferecem assinaturas. Assistir ao YouTube sem um plano pago está se tornando um suplício pelas constantes interrupções por comerciais.

“O crescimento econômico diminuiu drasticamente e o capital tornou-se mais caro. O Spotify não é uma exceção a essas realidades”, disse Daniel Ek em uma carta explicando as demissões aos funcionários. “Ser enxuto não é apenas uma opção, mas uma necessidade”, acrescentou.

Ek tem razão, é uma necessidade do Spotify e de todas as gigantes de mídia serem enxutas, mas a vantagem neste sentido é da mídia tradicional, que começou a cortar e se reinventar desde que o digital começou a crescer anos atrás.

Agora é a vez de Google, Spotify, Netflix e Meta se reiventarem. Obviamente estas empresas podem usar os bilhões em caixa e seu domínio de mercado para tentar barrar a concorrência por meio de práticas anticompetitivas. Não surpreende que governos na Europa e até nos Estados Unidos tenham aumentado as conversas em torno de regulação.

*Guilherme Ravache é consultor e atua em projetos de jornalismo digital no Brasil e exterior. Nos últimos anos, especializou-se na cobertura do mercado de mídia

https://valor.globo.com/opiniao/guilherme-ravache/coluna/por-que-as-big-techs-sao-a-nova-midia-tradicional.ghtml

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A força está com eles! Geeks dominam o mercado de cultura pop

Eles lotam cinemas, enchem feiras, assistem jogos e compram, mesmo. Um público variado que guarda o superpoder que as marcas precisam conhecer

Camila de Lira – Fast Company Brasil – 10-12-2023

Quadrinhos, séries, filmes, livros, animes… O mundo dos geeks é maior do que todos os multiversos da Marvel. E, mesmo assim, até pouco tempo atrás, a audiência era vista como uma audiência de nicho.

O jogo virou. Só nos últimos dias, o trailer do game Grand Theft Auto 6 teve mais de 100 milhões de visualizações em poucas horas, e a décima edição da CCXP brasileira recebeu mais de 287 mil visitantes.

Não foram situações atípicas do final do ano, foi a regra do ano todo. Das 10 maiores bilheterias de 2023, seis foram de filmes cultuados pelos geeks. Os cinemas encheram e as audiências de streaming também.

Nas séries de mais sucesso neste ano, estão uma versão de um game (“The Last of Us“, da HBO), um live-action de anime (“One Piece“, da Netflix), além de uma série sobre Star Wars (“Ashoka“) e outra da Marvel (a segunda temporada de “Loki“), ambas do Disney+.

As turnês mais populares de música de 2023 são de duas artistas preferidas pelos geeks no ano: Taylor Swift e Beyoncé.

“O geek é pop. Estamos saindo do porão, saindo do estereótipo e chegando na vanguarda da produção criativa mundial”, diz Otávio Juliato, CCO da Omelete Company, empresa de entretenimento responsável pela CCXP.

Em parceria com a consultoria GoGamers, a Omelete Company preparou a pesquisa Geek Power, em que traça o perfil deste público no Brasil. De acordo com o levantamento, a renda mensal de metade deles fica em torno de dois a quatro salários mínimos. A maioria (55%) tem entre 22 e 39 anos e curso superior completo ou pós-graduação (52%).

É um público que consome mesmo. Na CCXP do ano passado, o tíquete médio gasto por cada participante dos quatro dias do evento foi de R$ 912.

CADA UM NO SEU QUADRADO

O que marca este público é a paixão por produtos da cultura pop. No Brasil, 42,5% dos que se dizem geeks amam filmes, 18,6% são fãs de séries, 11,6% são aficionados por música, 7,8% por animes, mangás e quadrinhos e 7,5% por jogos.

Embora haja interseção entre os gostos, cada um dos públicos demonstra comportamentos diferentes. Os fãs de quadrinhos, por exemplo, são em sua maioria pessoas com mais de 40 anos e sete em cada 10 colecionam objetos ligados ao tema de interesse. Enquanto isso, 69,4% dos gamers seguem criadores de conteúdo e acompanham streams de gameplay.

Na categoria dos que amam animes e mangás, os “otakus”, quase 40% fazem cosplay (atividade de interpretar e se vestir como seus personagens favoritos).

Para o pesquisador e membro da GoGamers,Mauro Berimbau, os geeks não são apenas fãs, mas consumidores que querem participar da criação. “São pessoas que querem ajudar a construir os produtos, que fazem questão de se envolver”, afirma.

Quando desbalanceada, essa energia toda pode levar as marcas a sentirem o lado sombrio da força. A paixão anda para os dois lados. Por serem tão presentes e engajados, os geeks são exigentes com o que consomem.

Ter o personagem favorito ou o tema que gostam não é o bastante. Como o que aconteceu com o live action dos Cavaleiros do Zodíaco ou o filme do The Flash. Ambos têm uma base de fãs fiéis, mas a qualidade do produto, os efeitos especiais e a história renderam ondas de críticas fervorosas, o que desestimulou a audiência geral.

NÃO TEM NERD, MAS TEM O HULK

Entender como canalizar a força passa por muito treinamento. Mas não precisa do mestre Yoda, ou de uma Academia Jedi. O primeiro passo é simples: não confundir geek com nerd. São definições que se interpolam, mas não são as mesmas.

O que conecta o público à “identidade geek” é o gosto pela cultura pop e pelo estilo de vida que se liga a essas preferências. O nerd, não exatamente. A palavra pode ser usada para se referir a pessoas que gostam de estudar ou que são boas em assuntos específicos.

os geeks não são apenas fãs, mas consumidores que querem participar da criação.

Na visão de Carlos Silva, sócio da GoGamers, são denominações que carregam julgamentos e preconceitos. O termo “nerd” não costuma ser usado com conotação positiva e, por muito tempo, foi usado como forma de ofender e excluir. Já o termo “geek” se tornou mais popular e divertido.

“O nerd e o geek têm valores muito próximos em diversos comportamentos. Em outros momentos o geek estaria mais associado a alguém tecnológico e o nerd, a um perfil mais informado, estudioso. Esses comportamentos não são muito diferentes, mas é bem possível que, para essas pessoas, esses sejam os parâmetros que definem a sua identidade”, explica Silva.

No Innovation Fast 2023, o head de parcerias da Garena (criadora do jogo FreeFire), Marcio Milani, contou que já deixou de fazer contratos com marcas porque elas queriam chamar os gamers de nerds. “A marca precisa ser aceita por essa comunidade e se tornar relevante”, afirmou.

Para Mauro Berimbau, outra dica para as empresas se conectarem a este público é entender as subdivisões e as subculturas dentro das paixões. “Existem aqueles que são fãs de séries e aqueles que são super-fãs de ‘Doctor Who‘. Não são exatamente o mesmo público”. Até entre os gamers, se criam subculturas diferentes: há aqueles que amam jogar e os que preferem assistir eSports.

O MONSTRO NO MEIO DA SALA

Embora cheia de poder, a audiência geek tem um calcanhar de Aquiles, uma criptonita: a diversidade. Segundo a pesquisa, 51,8% do público geek brasileiro é composto por homens e um pouco mais de 53% se identificam como brancos. Apenas 20% não é heterossexual.

É uma composição de público que tende a ser reativa a conversas sobre inclusão e representatividade. O que não impediu que, este ano, o filme favorito da audiência geek tenha sido “Barbie“.

Quando se pensa em tamanho de produção, tipo de lançamento, estúdios envolvidos e qualidade do blockbuster, “Barbie” se encaixa perfeitamente como produto da cultura pop. Mas o fato de ter uma temática feminina gerou dúvidas entre os criadores da pesquisa. “Quem imaginaria, no ano passado, que Barbie seria o filme mais visto em 2023?”, pergunta Oliviato, da Omelete Company.

Foram também levantadas dúvidas e até brincadeiras quando se revelou que Taylor Swift foi a artista favorita entre os geeks. Nesta semana, a artista recebeu o título de pessoa do ano pela revista “Time“, além de ser indicada como a mais ouvida de 2023 no Spotify e de ter uma turnê que esgotou ingressos pelo mundo todo.

A audiência, em sua maioria masculina, se desprendeu dos preconceitos com relação ao termo nerd, mas ainda parece se ligar aos estereótipos de gênero. Romances e comédias românticas figuram entre os livros preferidos dos geeks, mas não são considerados produtos “bons o bastante” por parte da crítica de cultura pop.

Não é incomum surgirem campanhas online que pedem boicote a certo filme ou game por conta da caracterização de personagens femininas ou da escolha de atores negros para protagonizar filmes ou séries. Em 2022, alguns fãs fizeram campanhas contra a série “O Senhor dos Anéis: Anéis do Poder” por causa de um personagem negro como elfo.

O próprio trailer de GTA 6, que causou comoção entre os fãs, recebeu críticas porque, pela primeira vez, os usuários poderão jogar com uma personagem feminina.

Muitos disseram que, por contar com mais personagens negros e latinos, o game estaria sendo cooptado pela “cultura woke” – termo usado para rechaçar as discussões sobre representatividade na mídia.

Mas esse padrão está mudando aos poucos, como explica Andreza Delgado, cocriadora do Perifacon, evento voltado para os geeks da periferia de São Paulo. Este ano, a quinta edição do evento teve público de 13 mil pessoas.

“É importante a gente ocupar esse espaço e mostrar que a periferia não gosta só de um tipo de filme ou série, mas curte quadrinho, anime, games”, afirma Andreza.

Mais importante do que tudo isso, é que a periferia não é padawan (aprendiz), é mestre Jedi. Existem criadores, produtores e designers de cultura pop na favela. O Perifacon mostra esse lado.

Para Andreza, houve transformações significativas no cenário da cultura pop, como o longa-metragem de animação “Homem-Aranha no Aranhaverso”, que ficou em quinto lugar entre as maiores bilheteria no mundo.

O filme mostra um menino negro, Mike Morales, como o super-herói. A mudança é reflexo da entrada de mais negros, negras e mulheres na sala de criação, o que já traz novos efeitos. Um movimento que, diferente da linha da linha do tempo da Marvel, não pode voltar. E que tende a dar ainda mais poderes aos geeks.


SOBRE A AUTORA

Jornalista formada pela ECA-USP, early adopter de tecnologias (e curiosa nata) e especializada em storytelling para negócios.

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Planejamento: Tudo o que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo

Por Evandro Milet – Portal ES360 em 10/12/2023

Mike Tyson em alusão à estratégia de seus oponentes antes da luta: “Todo mundo tem um plano até levar um direto na boca”. Não precisa exagerar, nem comparar com planejamento de empresas, mas está mesmo difícil fazer planejamento. Tudo o que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo. Tudo muda o tempo todo no mundo. Lulu Santos já sabia. Tudo que é sólido desmancha no ar, diria aquela dupla de filósofos. Quando somamos a pandemia com as mudanças tecnológicas, a mudança climática, o movimento pela diversidade e a geopolítica, a velocidade fica alucinante. 
O ecommerce, acelerado pela pandemia, provocou terremotos no varejo e o tsunami continua a varrer o comércio, trazendo os sites chineses que souberam surfar na onda. Empresas tentam trazer de volta os empregados para os escritórios, em vão. Os bons bancam o home office e não voltam. Nômades digitais carregam seus laptops mundo afora. Todo mundo aprendeu a fazer reuniões virtuais e a insanidade de longas viagens para reuniões curtas já era. 
Mudou o dress code. Gravatas e ternos evaporaram. O tênis venceu. A informalidade e a descontração se espalharam. Trabalhar de bermuda? Claro. A diversidade agora permite tudo. Tudo bem, quase tudo. Na pré-história empresarial do século passado, empresas exigiam terno, cabelo cortado, barba feita, vestido arrumado, principalmente para quem atendia clientes. Hoje vale tudo: cabelo Milei, colorido, brinco masculino, tatuagem de jogador de futebol. 

Modelos tinham o corpo escultural nas vitrines. Hoje vale toda forma de corpo e todas as cores nas vitrines. Afinal, essa é a realidade do mundo que quer comprar o que está exposto. Não cabe mais também contratar pela aparência, conceito subjetivo e discriminatório.

Cinquenta anos atrás, Milton Friedman, ganhador do Prêmio Nobel em ciências econômicas, cunhou esta frase em uma entrevista para a revista Time nos Estados Unidos: “O único propósito de uma empresa é gerar lucro para os acionistas”. Não mais. 

A sigla ESG se espalhou, apesar de muita gente ainda resistir, achando que é um movimento de esquerda. Seria, se tivesse vindo de Cuba ou da Coreia do Norte. Na realidade veio  captado pelo mundo financeiro e pelas grandes empresas capitalistas. Quando a Magalu fez, há muitos poucos anos, uma seleção de trainees para negros, foi uma comoção em muitos setores. Nas mídias sociais, Luiza Trajano virou comunista. O movimento, porém, se espalhou pelo mundo e pelo Brasil criando uma nova realidade para as empresas e para a sociedade. Mas há reações a esse movimento, principalmente nos EUA, em estados governados por republicanos.

O negacionismo das mudanças climáticas está se reduzindo à medida que a temperatura aumenta, criando novos produtos, novos mercados e novo consumo. Fontes de energia são questionadas criando novos fornecedores.

A globalização, que tinha sido abalada pela pandemia ao se perceber a dependência do mundo a alguns países quanto aos insumos de saúde, levou novo choque com a geopolítica confrontando blocos e países e o protecionismo e as políticas industriais voltaram. 

As mudanças tecnológicas não param. A inteligência artificial entrou definitivamente na realidade das empresas e dos empregos. Grandes empresas aceitam abrir as portas para o empreendedorismo das startups. A universidade é questionada. Os cursos não atendem a necessidade do mercado em mutação. Os novos profissionais no mercado querem trabalhar em empresas com propósito ou empreender o seu próprio negócio.

E como fica o planejamento? A chave para gerenciar uma estratégia é a habilidade para se detectar padrões emergentes e auxiliá-los a tomar forma, diz Henry Mintzberg, guru tradicional do tema. O importante é estar antenado com o que está acontecendo e rapidamente ajustar as velas. Ameaças e oportunidades mudam a toda hora. Não existe mais planejamento de longo prazo. 

https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/planejamento-tudo-o-que-se-ve-nao-e-igual-ao-que-a-gente-viu-ha-um-segundo/

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Geração de 68 agora promove a velhice ‘selvagem, raivosa, apaixonada, impertinente’

Franceses como Annie Ernaux criam movimento para lutar contra o etarismo

Por Helena Celestino — Para o Valor, 15/11/2023

A geração 68 voltou à luta na França. Elas e eles são os mesmos que há 55 anos inventaram a juventude como valor, mudaram o jeito de ser mulher e, agora envelhecidos, se organizam para criar uma nova maneira de viver para velhas e velhos. “Envelhecer é ser selvagem, raivosa, apaixonada, impertinente”, afirmam.

Esses adjetivos, raramente usados para qualificar a velhice, são agora reivindicados para repudiar o etarismo, preconceito que torna invisíveis os que têm mais de 65 anos e lhes confisca a palavra. Nos protestos de maio de 1968 eles diziam, aos berros, não acreditar em ninguém com mais de 30 anos; agora, aos 60, 70, 80 e 90, lutam para que os velhos tenham espaço e voz na sociedade.

No estilo tradicional dos movimentos da sociedade civil, criaram o Conselho Nacional autoproclamado dos Velhos (CNaV), ao qual já aderiram cerca de 2 mil pessoas, atuando em subgrupos por toda a França. São muitos os famosos a participar do coletivo: a escritora prêmio Nobel Annie Ernaux, a diretora do Théatre du Soleil, Ariane Mnouchkine, o sociólogo da École des Hautes Études en Sciences Sociales Michel Wieviorka, vários ex-ministros, além de jornalistas, cineastas e centenas de “seniors” anônimos e combativos.

Fundado em dezembro de 2021 num teatro parisiense, o CNaV evoca a impertinência e a radicalidade das suas aspirações. Nos dias 17 e 19 a associação vai realizar em Paris o Contrassalão de Velhas e Velhos, título que reafirma a contracultura da qual seus membros sempre fizeram parte e que pretendem recriar na velhice. Serão três dias de ateliês, workshops e palestras, num grande espaço no Marais, bairro dos “modernos” em Paris.

Está fora do debate o valor das aposentadorias e os sucessos da “economia prateada”. É em torno da vida afetiva e íntima, da desigualdade de gênero após os 65, do espaço dos velhos na sociedade e do direito de ser ator da própria vida que se estruturam as bandeiras de luta do coletivo.

Não dá mais para sair correndo da polícia como nos protestos de 1968, mas as hashtags atuais são inspiradas nas palavras de ordem daquela época: “Velhos de pé”; “Nenhuma decisão sobre os velhos sem a participação dos velhos”; “Envelhecer não é renunciar”; “Somos velhos mas não somos bem-comportados”.

Eles se chamam de “novos velhos”. É a primeira geração a ver seus pais chegarem aos 80 anos e muitos só morrerão aos 100 ou mais. Na França, 900 mil mulheres e homens tinham entre 90 e 99 anos no censo de 2022.

Ao longo dos últimos séculos, a humanidade ganhou 30 anos de vida, um terço a mais do que tiveram nossos avós. A longevidade colocou o envelhecimento no debate público, mudou o equilíbrio entre as gerações e deixou fora de foco a política de assistência social à velhice.

“Existe na França uma cultura que leva à desresponsabilização dos velhos, privando-os de seus direitos elementares”, escreveu num artigo Laure Adler, 71, jornalista, escritora e âncora de um programa de rádio durante 40 anos. Um dia depois de fazer 70 anos, foi demitida sob o pretexto de que velhos deveriam ficar em casa durante a pandemia.

Para Francis Carrier, 69 anos, a indignação maior vem da tentativa de calar os velhos LGBTQIA+, uma violência vivida nos asilos franceses. Engenheiro aposentado, ele estava nas ruas nos anos 70, nas manifestações em defesa do direito dos gays de viverem sem se esconder. Voltou à militância ao ser diagnosticado como soropositivo nos anos 80, lutando para romper o silêncio em torno da aids e, assim, todos juntos, recuperarem o orgulho e o amor próprio, mesmo se fragilizados. Agora depara de novo com a violência contra o direito à sexualidade dos velhos.

“Tentam nos dessexualizar para nos reduzir progressivamente a objetos de tratamento, que se resumem a comer, tomar remédios e dormir. Progressivamente, essa fase da vida vira a antessala da morte”, denuncia Carrier.

Ele tomou consciência dessas práticas ao trabalhar com a associação Petit Frères des Pauvres (pequenos irmãos dos pobres) e acompanhar várias mulheres bem idosas até a morte. Lá se surpreendeu com a inexistência de homens gays e mulheres lésbicas. Ao perguntar onde estavam as “minorias”, todos olharam assustados para ele.

“Não era nem homofobia, era um não pensamento”, observa Carrier. “Os velhos não têm nem identidade sexual, têm de voltar para o armário, não podem mais contar sua vida, com quem viveram, os prazeres que tiveram. Achei inaceitável e resolvi agir para não ser maltratado no futuro.”

Ele criou o Gray Power e foi um dos fundadores do CNaV. Para ele, os velhos héteros também não são bem-tratados, já que a necessidade de afeto e sexualidade é considerada imprópria para todos os gêneros. “Portanto, precisamos lutar para valorizar a velhice como o feminismo fez com as mulheres no passado. Trata-se de um problema social.”

A desigualdade de gênero, contra a qual mulheres do CNaV lutaram nos idos dos anos 70, continua na velhice. É mais difícil para as mulheres envelhecerem e elas são muito mais numerosas na nova frente de luta — sofrem muito cedo com o olhar negativo sobre os seus corpos submetidos desde sempre a padrões inalcançáveis de perfeição e juventude. Agora, juntam-se exigências de rapidez e conexão com as últimas conquistas tecnológicas.

“Os homens héteros preferem ignorar o tema porque mexe com tabus como a potência sexual. Acham-se belos e capazes de procriar até morrer. A velhice é uma questão essencialmente feminina”, ironiza Carrier.

Véronique Fournier, 69 anos, a única mulher entre os quatro fundadores do CNaV, vive isso em casa. Mora há 40 anos com um homem que teve muitas mulheres e filhos, um com ela e três com outras companheiras. Casaram-se há quatro meses e o marido não quer saber das discussões sobre velhice.

Cardiologista, aposentada faz três anos, ela há muito tempo trabalha com o prolongamento da vida ouvindo a palavra dos velhos. Fundou há 20 anos, no Hospital Cochin, em Paris, o primeiro centro de ética pública na França, um lugar aonde as pessoas podem ir quando uma decisão médica é tomada por considerações éticas. É um espaço de diálogo, uma interface entre a sociedade civil e a medicina, ao qual recorrem pessoas com desejo de abreviar sofrimentos de um filho ou dos pais.

Lá encontram sociólogos, juristas, médicos abertos à discussão. “É um momento tenso; as pessoas brigam entre si, uns querem continuar o tratamento, outros preferem parar”, explica Fournier. “Nesse espaço, os médicos compreendem e escutam quem pensa diferente deles, tentam entender se são eles ou não a tomar a decisão.”

Na França, a lei proíbe induzir pacientes à morte mesmo se esse for seu desejo. O debate sobre o tema opõe o governo — decidido a não usar o termo eutanásia na lei em preparação sobre o fim da vida — e a Assembleia Nacional, majoritariamente a favor. A tendência é aprovar o suicídio assistido, como já acontece na Bélgica e na Suíça. “Nós trabalhamos muito sobre como a medicina deve tratar os velhos. Devemos fazer uma cirurgia cardíaca para tentar salvar alguém que teve um grande infarto aos 90 anos?”, pergunta a fundadora do CNaV.

O coletivo dedicou duas jornadas a discutir o assunto, partindo da ideia de que não é possível dissociar o fim da vida da maneira como vivemos. A posição defendida pelo CNaV é liberdade total para os velhos decidirem sobre a própria  morte, seja quanto ao momento de partir ou quanto à maneira de encerrar a vida. “Por quê? Por princípio é por ser um dos últimos direitos fundamentais que falta obter. Uma sociedade que permite os jovens a mudar de gênero pode continuar a proibir os cidadãos adultos a ter opinião sobre a morte?”, indaga uma newsletter enviada aos membros do coletivo. “Na França, quando você é velho, não pode tomar decisão sobre sua vida; botam você no asilo ou consideram que você é vulnerável e precisa de proteção. Nós dizemos não. Vamos inventar uma nova vida para velhas e velhos”, defende Fournier.

Não por acaso, durante a pandemia, explodiu o clamor contra os Ephads, a rede pública e privada de abrigos para pessoas idosas e dependentes. No quinto confinamento motivado pela covid, circulou um abaixo-assinado, com milhares de apoiadores, repudiando a proibição de visitar ou acompanhar os parentes internados nos Ephads, ressaltando que a atitude os tornava “suscetíveis de perder as referências existenciais e até a vontade de viver”.

Estavam todos sob o impacto de “O coveiro”, livro lançado pouco antes pelo jornalista Victor Castanet, com denúncias graves sobre a maior rede privada de asilos, a Orphea, proprietária de 200 estabelecimentos no país. Na vitrine do grupo, um asilo na beira do Sena, o cheiro de urina empesteava o ambiente, faltavam cuidadores e enfermeiros, a higiene era deficiente, os hóspedes só tinham direito a três fraldas por dia, independentemente do estado de saúde de cada um. A ideia era economizar para lucrar, embora o quarto mais barato custasse 6.500 por mês (em torno de R$ 32 mil) e as tarifas chegassem a 12 mil nas suítes (R$ 60 mil).

Pressionado, o governo tomou medidas de emergência e, não por acaso, muitas personalidades aderiram ao CNaV, escandalizadas com o tratamento dos velhos nos asilos. “Privilegiou-se a sobrevivência em detrimento do sentido da vida”, disse Michel Wieviorka ao jornal “Le Monde”. Com isso, ficou claro que era indispensável uma estrutura de representação das pessoas idosas diante dos poderes públicos para garantir os direitos dos 65+.

“Subscrevo a ideia de que as soluções devem vir da sociedade civil e que as pessoas de muita idade devem ser sujeitos e atores”, disse o professor, enfatizando que ele se engajou no movimento como “futuro velho’ que será.

Às vésperas da abertura do Contrassalão de Velhas e Velhos, o coletivo teve uma vitória a ser comemorada só pelos próximos. Depois de meses pedindo encontros a vários ministros sem receber resposta, o CNaV foi convidado para reflexão sobre “envelhecer na França”, lançado pela nova ministra encarregada dos velhos. “Ela marcou essa jornada no mesmo dia do nosso Contrassalão. Pode ser um ato falho, mas acho que sentiu nosso poder e tentou nos calar”, sugere Fournier.

Além disso, Fournier leva ao evento uma frustração: não conseguiu fazer nenhuma loja de brinquedos eróticos montar um estande no Contrassalão. “Não sei se foi preconceito, mas deve ser”, comenta Carrier.

https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2023/11/15/geracao-de-68-agora-promove-a-velhice-selvagem-raivosa-apaixonada-impertinente.ghtml

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Google quer enfrentar ChatGPT

Um agente inteligente é capaz de acompanhar o preço das passagens aéreas e esperar o momento propício para comprar

Pedro Doria – O Globo – 08/12/2023

O Google lançou nesta semana o Gemini, sua resposta ao GPT-4. As ações na Bolsa subiram, muitas linhas de jornalismo foram publicadas — e ninguém viu o bicho ainda. O Gemini não é um modelo de inteligência artificial. É uma família de três modelos. O primeiro já começará a chegar a alguns celulares: o Gemini Nano, pequenino, menos poderoso, mas pode rodar no bolso da gente. Aí tem o Gemini Pro e o Gemini Ultra — este último só estará à disposição para uso, ainda não está claro exatamente como, no ano que vem. É o Ultra, que, segundo testes feitos pelo Google, supera a última versão do GPT.

Pois é. Segundo testes do Google. E não dá para ignorar que se espera o lançamento do GPT-5 para os próximos meses. A OpenAI não fez anúncio, mas é o que circula no Vale do Silício.

O problema não está tanto nos testes do Google. É difícil medir o que torna um modelo de IA melhor que outro. A turma do Google explica que dois pontos diferenciam o Gemini do GPT. O primeiro é que o Gemini foi desenhado desde a base para ser multimodal. Quer dizer que ele não lida apenas com texto, lida também com imagens, vídeo e áudio. O Gemini é capaz de enxergar ou ouvir um arquivo sobre o qual faremos perguntas.

Embora não tenha sido desenhado com esse objetivo, o ChatGPT ganhou a capacidade de enxergar e produzir imagens estáticas em novembro. Talvez a versão do Google faça isso melhor, mas não é como se o espaço já não estivesse trilhado.

A outra característica pode ser mais importante. O Gemini Ultra é, segundo o Google, melhor na capacidade de fazer raciocínios lógicos e estruturar planejamentos. Se for realmente melhor que o GPT nisso, podemos estar próximos de agentes inteligentes. E todo mundo quer construir esses agentes.

Com eles, é possível dar ao computador a ordem para fazer compras no site do supermercado ou para planejar as férias no verão que vem. Um agente inteligente é capaz de acompanhar o preço das passagens aéreas e de esperar o momento mais propício para dar o bote e comprar. De fazer o mesmo com o hotel ou sugerir um Airbnb que é um charme só.

Mas essas são apenas as garantias que o Google dá. O PaLM 2, modelo que hoje alimenta o Bard, havia chegado justamente para enfrentar o ChatGPT na versão 4. O resultado é que muitos dos leitores desta coluna talvez nem saibam o que é Bard, o ChatGPT do Google. Pouca gente usa, por uma razão muito específica — é bastante inferior.

Ainda não temos boas ferramentas para avaliar como medir esses sistemas. Uma das razões é que estamos inventando para que servem. A OpenAI, quando lançou em dezembro do ano passado o ChatGPT, não esperava que fosse fazer o sucesso que fez. Muita gente encontrou ali uma ferramenta particularmente útil para produzir resumos, organizar informações, construir textos do cotidiano. Principalmente, para ajudar num brainstorming.

O ChatGPT é útil não apenas porque o GPT-4, que o alimenta, é um modelo de inteligência artificial poderoso como nunca vimos ao lidar com texto. É útil também porque conversamos com ele por meio de um chat. A sacada de que ele funciona melhor num diálogo do que operando de outra forma é talvez mais importante que todo o resto.

A forma que os produtos alimentados pelo Gemini tomarem é tão importante quanto o poder do modelo. Tudo indica que 2024 será um ano tão cheio de surpresas no mundo da IA quanto foi 2023.

https://oglobo.globo.com/opiniao/pedro-doria/coluna/2023/12/google-quer-enfrentar-chatgpt.ghtml

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China luta para manter avanços em IA apesar de ‘guerra fria’ com os EUA

Regime investiu US$ 100 bi para obter autossuficiência em chips e reduzir vulnerabilidade às sanções americanas

Patrícia Campos Mello e Danilo Verpa Shenzhen (China) – Folha – 2.dez.2023 

“O povo chinês é esperto. Dê para a gente uns cinco ou dez anos, e resolveremos esse problema”, diz Xu Hao, diretor de serviços da Shenzhen Smart City, maior empresa de “cidades inteligentes” da China. O problema em questão é a falta de chips ultra-avançados, essenciais para manter o progresso do gigante asiático no ramo da inteligência artificial (IA). 

Na guerra fria tecnológica entre o país e os EUA, a Casa Branca vem ampliando restrições à exportação dos semicondutores de ponta e aos equipamentos usados para fabricá-los. Os chips são necessários para treinar modelos com dados. Um exemplo são as centenas de milhares de câmeras espalhadas pelo país. Essas câmeras gerenciam o tráfego de carros e drones, indicam onde é necessário fazer reparos em estradas, apontam onde construir novas vias a partir de projeções de crescimento demográfico, e identificam supostos “criminosos” por reconhecimento facial. 

Os componentes ainda são vitais para os carros, táxis e veículos de transporte público autônomos (isto é, sem motorista) que se multiplicam pela China; a entrega de comida por drones; os mais de cem “ChatGPT”s chineses, grandes modelos de linguagem; e inúmeros outros aspectos do cotidiano de uma população de mais de 1 bilhão de pessoas. Pequim corre para fabricar seus próprios chips avançados, na tentativa de repetir a história de “nacionalização” da internet e das redes sociais do país. 

O Partido Comunista bloqueia as big tech no país há anos, fazendo uso de uma espécie de Grande Muralha digital que levou à criação das versões chinesas do Google, X, Uber, eBay, e outros —respectivamente, Baidu, Weibo, Didi, Alibaba, e Tencent, criadora do “super aplicativo” WeChat. 

 A nacionalização dos chips é uma das frentes da política industrial Made in China 2025. Lançada em 2015, ela já recebeu mais de US$ 100 bilhões —ou R$ 490 bilhões— do regime, segundo o CSIS (Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, na sigla em inglês).

A estratégia ganhou força a partir de 2018, quando o governo de Donald Trump começou a impor sanções sobre as empresas chinesas Huawei e ZTE. No papel, as restrições se deviam a violações da Huawei a sanções americanas contra o Irã. Mas depois das últimas duas rodadas de restrições à exportação de chips e equipamentos para Pequim, entre 2022 e 2023, ficou claro que o propósito é brecar a indústria de alta tecnologia chinesa. “O objetivo é limitar o acesso da China a chips que podem alimentar avanços em inteligência artificial e computadores sofisticados essenciais para usos militares”, disse a secretária de Comércio dos EUA, Gina Raimondo, em outubro. 

Em resposta, uma das porta-vozes da chancelaria chinesa, Mao Ning, disse à Reuters que os americanos “precisam parar de politizar questões comerciais e tecnológicas e de desestabilizar as cadeias de fornecimento globais”. Apesar de todas as sanções, a Huawei lançou, em setembro, o Mate 60, um novo celular com um chip de 7 nanômetros, surpreendendo vários analistas que duvidavam da capacidade chinesa de desenvolver essa tecnologia. 

 Segundo a consultoria especializada em semicondutores TechInsights, foi a SMIC, a maior fabricante de chips do país asiático, que produziu o chip. Ao lado da Huawei, ela lidera uma força-tarefa criada em março pelo regime chinês para acelerar a substituição de importações. Além disso, houve outras demonstrações de avanços chineses na área: o lançamento de um chip de memória ultra avançado em um drive ZhiTai Ti600. Não se sabe, porém, se o país consegue produzir em escala esses semicondutores ou se poderá, no curto prazo, fabricar os mais modernos, de 3 nanômetros. 

Para desenvolver um grande modelo de linguagem como o GPT, são necessários mais de 10 mil chips avançados. “A China está duas gerações atrasada em relação a esses chips de processamento, e está emparelhada em alguns chips de memória. Será muito difícil para ela nacionalizar toda a cadeia de fornecimento de chips, nenhum país conseguiu fazer isso até hoje”, diz Dan Hutcheson, vice-presidente da TechInsights. 

Robin Li, presidente e fundador da Baidu —gigante de buscas chinês que atua na área de carros autônomos, chatbots e desenvolve seus próprios chips, os Kunlun—, afirma que a empresa ainda não foi afetada pelas sanções americanas, apesar de ainda depender dos chips da empresa californiana Nvidia. À revista Time, Li disse que as restrições ”são uma preocupação”, mas também podem ser uma oportunidade. “Se as restrições para comprarmos chips americanos ficarem cada vez maiores, os chips domésticos se tornarão uma opção viável.” 

A competição contra os EUA e a fabricação dos chips se tornaram uma questão de honra na China. O Huawei Mate 60 esgotou poucas horas após ser lançado, e muitos chineses afirmaram ter comprado o aparelho para apoiar a indústria nacional. Pequim também adotou retaliações contra os EUA. O governo proibiu o uso de iPhones em órgãos estatais e a compra de chips da americana Micron para o setor de infraestrutura. Além disso, impôs licenças de exportação que dificultam a venda de gálio e germânio, dois minerais usados na indústria de alta tecnologia. 

A rixa com os americanos está em toda parte. A BYD, maior fabricante de carros elétricos na China, por exemplo, alfineta sua concorrente americana até no showroom para clientes na cidade de Shenzhen, no sul. Lá, a empresa faz uma demonstração de como a bateria dos carros da Tesla supostamente explode durante colisões, ao contrário da chinesa. Na Apollo Go, uma funcionária mostra, orgulhosa, os LiDARS usados em um dos veículos da empresa, e acrescenta: “São muito menores e melhores do que os americanos”. Para minimizar os efeitos da escassez de chips, muitas empresas têm buscado alternativas. 

Shenzhen, por exemplo, tem um movimentado mercado de chips contrabandeados. Algumas companhias importam os semicondutores por meio de empresas de fachada sediadas fora da China. Enquanto isso, Baidu, Tencent, Alibaba e Bytedance —por trás do Douyin e de sua versão internacional, o TikTok— compraram US$ 5 bilhões (R$ 25 bilhões) em chips Nvidia nos últimos meses para fazer estoque. As mesmas Baidu e Tencent desenvolvem seus próprios semicondutores. E outras empresas tentam combinar vários chips menos avançados para obter o poder computacional dos mais poderosos —a um custo bem maior. 

Por fim, muitos se aproveitam de brechas. É possível contratar por exemplo empresas de computação em nuvem —que detêm chips avançados— para realizar serviços de treinamento de dados, ou “alugar” semicondutores. “Ainda não vimos o impacto real das restrições porque elas não entraram em vigor imediatamente”, diz Matt Sheehan, pesquisador do think tank Carnegie Endowment for International Peace. “Além disso, muitas companhias chinesas tinham estocado chips e empresas como a Nvidia tinham criado chips específicos para a China que escapavam das restrições. 

Agora que as regras foram atualizadas e ampliadas, acho que veremos seus efeitos em 2024 e 2025.” “Quando as sanções começarem a surtir efeito, haverá um grande impacto sobre as empresas de IA chinesas, tornando muito mais difícil e caro treinar modelos mais avançados. Mesmo assim, não acho que os EUA vão conseguir minar completamente o setor, e nos próximos anos os chineses vão encontrar atalhos técnicos e desenvolver recursos nacionais.” 

Segundo Xiaomeng Lu, diretora da área de Geotecnologia do Eurasia Group, as restrições americanas reduziram o ritmo nas áreas de semicondutores, supercomputadores e 5G na China. “Veículos autônomos e grandes modelos de linguagem também podem sofrer retrocessos”, diz. A executiva afirma não ver um distensionamento entre os dois países no futuro próximo e acha que, ao final, ambos saem perdendo com a guerra fria tecnológica. “Isso mantém a China atrasada em três gerações tecnológicas, mas também desacelera os EUA. As autoridades responsáveis por essa estratégia são muito focadas em segurança, e não levam as implicações comerciais a sério.” 

Os jornalistas viajaram a convite da Beijing Review, do Partido Comunista Chinês. 

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/12/china-luta-para-manter-avancos-em-ia-apesar-de-guerra-fria-com-os-eua.shtml

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De açaí a sandálias, exportadores diversificam vendas para a China de olho em 400 milhões de consumidores

No alvo dos produtores brasileiros estão chineses de classe média e alta renda

Por Victoria Abel — O Globo – 26/11/2023 

Loja da Melissa na China: Grendene investe na exportação de sandálias para a China, que já é o terceiro destino de suas vendas para o exterior Loja da Melissa na China: Grendene investe na exportação de sandálias para a China, que já é o terceiro destino de suas vendas para o exterior — Foto: Divulgação / Grendene

Com itens personalizados e produtos típicos do Brasil, empresas brasileiras tentam conquistar um lugar nos hábitos de consumo da crescente classe média da China, maior parceira comercial do Brasil, mas com uma pauta de compras dominada pelas commodities agrícolas e minerais, como soja e minério de ferro. Com o crescimento do consumo interno na China, puxado pelo aumento progressivo da renda, medida pelo PIB per capita, a tendência é que as exportações de produtos primários comecem a dar mais espaço para alimentos processados e itens industrializados. Por isso, produtores brasileiros correm para se posicionar no gigante asiático. No alvo, está o grupo de 400 milhões de chineses de rendas média e alta.

A brasileira Novo Mel, produtora de mel e própolis de São Paulo, começou aos poucos essa jornada. Há cerca de dez anos, fez contatos com empresários chineses em feiras de negócio e acabou encontrando uma empresa local para se tornar sua parceira. Conseguiu conquistar o mercado de Hong Kong, que tem uma política de negócios menos burocrática que a do restante do país. Agora, prepara o crescimento em toda a China.

— Diferente das commodities, que são negociadas em Bolsas, a gente tem que ir lá, colocar a pastinha debaixo do braço, falar com as pessoas, achar os parceiros corretos. Não dá para entrar na China sem parceiro local, seja uma rede grande, um distribuidor ou um importador. Outra forma de fazer isso é abrir um escritório lá, mas não temos estrutura para isso — comenta Roberto Rehder, diretor da Novo Mel.

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As vendas de mel e própolis da empresa brasileira são feitas pelo site T-Mall, que pertence ao Alibaba, gigante chinês de e-commerce. O objetivo da Novo Mel agora é espalhar os itens pelo resto da China, mas ainda aguarda autorizações de órgãos de saúde chineses para disseminar as vendas.

— Hoje fazemos comércio on-line em Hong Kong. Para entrar em toda a China, é preciso um processo de registro por vários anos no órgão de saúde de lá — afirma Rehder.

Para se adaptar ao mercado chinês, a Novo Mel precisou mudar características das embalagens. O extrato de própolis, por exemplo, precisa levar o conta-gotas separado da tampinha. Além disso, a empresa criou um modelo com rótulos em português e inglês e a parte de trás em mandarim. Rehder diz que os compradores pediram para deixar as informações em outras línguas para caracterizar que é um produto importado:

— Disseram que se mantivéssemos apenas em mandarim poderia parecer que o mel era chinês, e o mel chinês não é valorizado lá.

Mudança após a covid

Um produto tipicamente brasileiro que entrou no gosto dos chineses é o açaí. Empresas do setor veem oportunidades não só de exportar açaí industrializado para o país, mas também o modelo de loja que serve a iguaria em diferentes variações, comum em grandes centros do Brasil. A presidente do conselho da Associação Brasileira de Franchising (ABF), Cristina Franco, diz que a investida na nova classe média chinesa se ampliou no pós-pandemia:

— Depois da pandemia, encontramos uma China mais preparada para o consumo. O açaí, por exemplo, entrou no gosto do chinês, mas hoje o maior vendedor do produto para eles é belga. Queremos levar mais marcas brasileiras para o mercado chinês em 2024. São mais de 400 milhões de pessoas nessa classe média, então são dois “Brasis” em potencial de vendas.

O açaí paraense chega aos mercados asiáticos em forma liofilizada, em pequenas embalagens. Ou seja, o produto é desidratado, o que dá ao açaí um tempo de vida maior para aguentar a viagem até o outro lado do mundo. Ao chegar na China, pode ser reidratado e batido, como se faz com a polpa no Brasil.

O comércio de açaí para a China ainda é tímido, mas já corre por meio de indústrias no Pará e até fora do Brasil. O ASA Açaí, empresa com fábricas no Pará, está começando as negociações com parceiros chineses para distribuição no país. O diretor, João Hermeto, conta que eles estão em fase de preparação do produto para a entrada no mercado asiático.

— Estamos em contato com os executivos do Alibaba e estamos nos preparando para as exportações. Desenvolvemos um produto liofilizado, com embalagens de alumínio duplo, de 50 a 200 gramas, à vácuo. Esse processo preserva os componentes e o sabor do açaí. Não dá para ter o resultado 100% igual ao da polpa, é difícil, mas é tudo uma descoberta, e o chinês tem aceitado esse formato.

Um segmento da indústria brasileira que já está no país e agora tenta ampliar sua presença é o calçadista. Um exemplo de grande empresa que entendeu o mercado chinês é a Grendene, com a Melissa. A venda de sapatilhas, sandálias e chinelos coloridos da marca feminina, produzidos no Ceará, para a China já ocupa o terceiro lugar nas exportações da companhia. Até 15% do faturamento da Melissa vêm desse mercado asiático. Com o avanço dos negócios, a marca montou lojas próprias em Xangai, Pequim e Guangzhou.

— O primeiro passo foi a venda por meio de lojas multimarcas, depois passamos a ter alguns corners (prateleiras exclusivas em lojas de departamentos), até termos algumas lojas próprias e exclusivas em shoppings asiáticos, há cerca de oito anos. A linguagem da Melissa combina muito com a asiática. Essa coisa do mangá (que tem origem japonesa), do colorido, de produtos que têm uma certa ironia.

’Influencers’ locais

Para o executivo, “o trabalho de internacionalizar uma marca é um tijolinho de cada vez”. O momento atual da Melissa na segunda maior economia do mundo é de impulsionar as vendas com a criação de modelos que agradem mais as chinesas e a contratação de influenciadores digitais na China. O país tem internet e redes sociais praticamente isoladas do restante do mundo, o que exige um esforço ainda maior no alcance digital.

— A maior parte das vendas ainda ocorre no ambiente on-line. A China foi se desenvolvendo e passou de produtor de cópias para um país que faz suas marcas. Por isso, para nós é importante também essa atuação cultural, com os influenciadores. Uma delas é a Rosy. O nosso posicionamento de ser um “luxo acessível” funciona muito bem lá — diz Pedo.

Rosy, nome artístico e ocidentalizado da atriz Lusi Zhao, tem mais de 40 milhões de seguidores no Douyin, equivalente ao TikTok na China, e 26 milhões no Weibo, o Twitter chinês. A maior parte dos seguidores dela é do sexo feminino e nasceu após os anos 2000, perfil compatível com a pegada moderninha que a marca busca projetar.

— Tem uma questão de acertar a cartela de cores para o mercado chinês. Determinados produtos funcionam melhor lá, como sapatilhas. A numeração também precisa ser acertada, vendem mais as numerações menores — afirma o executivo da Melissa.

Café ‘Gourmet’

A secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Tatiana Prazeres, diz que o desempenho brasileiro na exportação de commodities como a soja para a China segue sendo o carro-chefe da relação com aquele país, com crescimento de aproximadamente 13% ao ano. Mas ela diz que o governo vê com atenção as mudanças naquele país e quer incentivar a venda de outros produtos:

— A China não crescerá mais a dois dígitos por ano. Mas um crescimento de 4% ou 5% ao ano, hoje, sobre uma base muito mais robusta, significa uma contribuição maior para a economia global do que um crescimento de dois dígitos há 10 ou 15 anos. Com a queda na população chinesa, vemos um aumento na renda per capita dos chineses, aumento da classe média e da urbanização no país. Vemos espaço para o comércio de alimentos e bebidas processados, além de itens de moda, como calçados e cosméticos.

O presidente da Apex Brasil, Jorge Viana, diz que a agência de fomento às exportações fechou convênio com e-commerces chineses para tentar acesso ao mercado para os brasileiros. Ele vê uma mudança de hábito do chinês que também abre caminho para um novo tipo de exportação: o de café. O objetivo do governo brasileiro é exportar, principalmente, grãos especiais e está à procura de uma marca que possa liderar a empreitada. Segundo a Apex, em 2023, 527 companhias contam com apoio da agência para alavancar exportações para a China, sendo a maioria micro e pequenas empresas:

— Queremos dar oportunidade para quem nunca exportou, como cooperativas — comenta Viana.

https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2023/11/26/de-acai-a-sandalias-exportadores-diversificam-vendas-para-a-china-de-olho-em-400-milhoes-de-consumidores.ghtml

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Clubes de leitura ajudam executivos a discutir gestão

Com clássicos da literatura e títulos modernos, ação promove conexão entre as pessoas, estimula o trabalho em equipe, a resiliência e a motivação

Por Jacilio Saraiva — Para o Valor, 09/11/2023

Os clubes de leituras corporativos estão dando um passo à frente. Depois de promoverem debates on-line entre executivos durante o confinamento provocado pela covid-19, agora organizam mentorias sobre gestão e liderança, baseadas em títulos lidos pelas equipes, com encontros híbridos ou presenciais. Para as empresas que adotam as atividades, a intenção é gerar mais conexões entre os funcionários e estimular o trabalho em equipe, além de discutir temas como resiliência, carreira e motivação.

Na Adium, grupo farmacêutico com presença em 18 países e 700 funcionários no Brasil, a ideia, iniciada em 2021, foi batizada de laboratório de leitura e já percorreu obras como “A festa de Babette”, da dinamarquesa Karen Blixen (1885-1962) e o “O conto da ilha desconhecida”, do português José Saramago (1922-2010).

De acordo com Alexandre Seraphim, gerente geral da Adium no Brasil e idealizador da iniciativa na companhia, o número de participantes, todos da liderança, passou de 36 em 2021 para 58 no ano passado e chegou a 72 executivos, até setembro. “Em 2024, vamos ampliar a participação focando nos novos colaboradores”, diz.

O clube de leitura da empresa conta com o apoio de uma biblioteca com cerca de 1,5 mil opções, entre volumes físicos, digitais e audiolivros. O espaço conta com curadores que renovam o acervo e recomendam novidades com base nos interesses dos times, explica.

Livro escolhido deve ter potencial de gerar reflexão

Estante: 6 livros sobre carreira e gestão

Lideranças discutem o papel das empresas para melhorar a educação e a empregabilidade

Um dos clássicos revisitados nas mentorias é “O velho e o mar”, do americano Ernest Hemingway (1899-1961), que acompanha um pescador que se lança sozinho ao mar, luta pela sobrevivência e passa dias sem pescar, até conseguir fisgar um espadarte de 500 quilos. Mas acaba perdendo o peixe após ataques de tubarões e retorna à costa apenas com uma carcaça.

Seraphim diz que o enredo é analisado pelos gestores a fim de avaliar se o personagem pode ser considerado um empreendedor de sucesso. “A leitura remete a valores como coragem, resiliência e autoconhecimento, elementos fundamentais no enfrentamento dos desafios cotidianos das corporações”, assegura.

O gestor explica que o método dos “laboratórios” de leitura consiste em três encontros com grupos de 10 a 15 funcionários, após a leitura dos livros. Podem começar a distância e serem finalizados com uma reunião presencial. “Um dos efeitos mais importantes que identificamos na ação é o fortalecimento da empatia, com mais estímulo à colaboração e ao trabalho em equipe.”

A próxima obra a ser “mentorada” deve ser “A tempestade”, do inglês William Shakespeare (1564-1616), com integrantes do comitê executivo. A peça, que tem como cenário uma ilha habitada por um feiticeiro em busca de vingança, é repleta de reviravoltas que abordam questões como liberdade e perdão. “É uma história de superação, sabedoria e reconciliação, com reflexões sobre o exercício da liderança.”

Leitores corporativos se dão melhor com livros que, sem deixar de serem densos, são mais curtos [pela falta de tempo]”

— Dante Gallian

O gerente geral da Adium diz que a escolha das obras é feita pela área de recursos humanos, em conjunto com a equipe da Casa Arca, empresa especializada em organizar atividades de leitura em grandes organizações.

De acordo com o historiador Dante Gallian, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e sócio-fundador da Casa Arca, os leitores “corporativos” se dão melhor com livros que, sem deixar de serem densos, são mais curtos. “Levamos em consideração a falta de tempo dos executivos”, explica. Clássicos menos volumosos ou contos podem ser lidos de forma tranquila e, a partir daí, iniciamos os encontros, diz. “As reuniões podem ser semanais e com duração de uma hora e meia,, quando convidamos os participantes a contarem suas histórias de leitura, privilegiando a maneira com que cada livro despertou questionamentos”, detalha Gallian.

Na opinião de Isabel Alves Azevedo, chief human resources officer (diretora de RH) da seguradora Fairfax Seguros (FF), empresa com 320 funcionários que acaba de iniciar um programa trimestral de leituras e mentorias, a proposta é incentivar conexões e a formação de lideranças.

O primeiro assunto na mesa é inspirado em “Todos são importantes – O extraordinário poder das empresas que cuidam das pessoas como gente e não como ativos”, de Bob Chapman, CEO da multinacional americana de tecnologia Barry-Wehmiller, e Raj Sisodia, autor de vários títulos sobre gestão de negócios, como a série “Capitalismo consciente”.

“O programa é aberto a todos os colaboradores, mas o público-alvo são coordenadores, superintendentes, gerentes e diretores, que terão atividades individuais e coletivas”, explica Azevedo. O grupo de líderes representa 20% da equipe da companhia. Cada mentoriapode levar até quatro semanas, uma hora por semana, no horário do expediente.

Os mentores orientam os funcionários, enquanto leem juntos e discutem as ligações entre o livro e experiências pessoais, diz Azevedo. Em uma segunda fase, as turmas apresentam sugestões de novas obras e, após uma votação, escolhem o assunto das próximas sessões. “As mentorias são coordenadas pelas lideranças e, dependendo do tema, podem ser conduzidas pelo head de RH ou o CEO.”

O projeto começou a partir da criação de um espaço de leitura, com empréstimo de livros, dentro da empresa, em agosto. O local conta com mais de 100 exemplares, doados pelos empregados, como “Shackleton, uma lição de coragem – A incrível saga de dedicação e heroísmo do grande explorador da Antártida”, da dupla Margot Morrell e Stephanie Capparell.

A proposta é colaborar para uma cultura de desenvolvimento, assegura a diretora. “Não aprendemos apenas com os livros, mas sobre as pessoas da organização.”

Em setembro, a adesão dos times ao núcleo literário da FF Seguros marcava 10% da folha. “A meta para o primeiro semestre de 2024 é subir para 25%”, afirma Azevedo. Nessa linha, foi desenhado um plano de fidelidade para os visitantes, que poderão trocar pontos por mais livros, cursos e viagens.

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2023/11/09/clubes-de-leitura-ajudam-executivos-a-discutir-gestao.ghtml

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Q*: Por que a nova corrida pela IA matemática intriga e assusta?

Busca de modelo capaz de raciocínio com números gerou guerra interna na OpenAI e é objeto de novo prêmio de US$ 10 milhões

Por Rafael Garcia — O Globo – 03/12/2023 

A criação de um novo sistema de inteligência artificial (IA), supostamente capaz de raciocínio matemático como o praticado por humanos, desencadeou uma guerra interna na OpenAI, empresa dona do ChatGPT. Foi apontado como um dos motivos por trás da demissão e recondução do CEO da empresa, Sam Altman, num espaço de cinco dias, no mês passado. Descrito como revolucionário pelo executivo, esse novo tipo de IA foi visto como perigoso por parte do antigo conselho da mais valiosa startup do Vale do Silício. Mas por que está gerando tanta controvérsia?

Uma reportagem da agência de notícias Reuters, que teve acesso a informações internas da empresa, revelou que o novo projeto se chama Q* (Q-Star), e que ele seria supostamente capaz de solucionar problemas matemáticos para os quais não foi programado. Ele teria, portanto, um certo poder de criar conhecimento próprio à medida que raciocina, aprendendo sozinho.

Lidar com matemática é algo para o qual os “grandes modelos de linguagem” (LLMs), sistemas de IA da classe do ChatGPT, não foram projetados. Esses sistemas de IA generativa que se popularizam atualmente funcionam mapeando grandes quantidades de informação escrita que os alimentam, para depois regurgitar textos de uma maneira peculiar, prevendo quais palavras são mais prováveis de ocorrer antes de outra.

Essa estratégia funciona quase como mágica em tarefas de geração de texto, mas não é particularmente boa para responder a questões matemáticas, mesmo algumas relativamente simples. Resolver uma equação de segundo grau, por exemplo, é uma tarefa que envolve uma fórmula predefinida e um número de passos num sistema formal de resolução, que não é o que os LLMs fazem.

Quando o ChatGPT foi lançado, professores que testaram sua capacidade para resolver questões do Enem, por exemplo, logo constataram que ele não ia muito bem em matemática. A própria OpenAI já vinha tentando compensar essa limitação de seu sistema. A versão paga do ChatGPT hoje está acoplada ao sistema Wolfram Alpha, um projeto de IA que já existe há mais de uma década e foi criado especificamente para resolver questões técnicas que envolvam matemática e conceitos das ciências naturais.

O Wolfram nunca chegou perto, porém, de alcançar a popularidade que o ChatGPT conquistou em 2023 em poucas semanas. Em parte, isso se deve à maneira com que os usuários devem interagir com o sistema, obedecendo a uma formalidade ao digitar a questão, detalhando a operação que se deseja resolver.

Acoplado ao ChatGPT, esse desconforto foi superado, mas nem sempre o sistema retorna uma resposta correta. É um desafio ainda, para a IA, saber “como” pensar diante de cada tarefa. Num problema com enunciado informal, a conexão da linguagem com a matemática pode se perder.

A controvérsia em torno do Q* certamente ajudou a atrair atenção para esse problema, mas não se sabe ainda se ele consegue raciocinar matemática de uma forma realmente mais eficaz.

Encadeamento lógico

Segundo Paulo Orenstein, pesquisador do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), o que os LLMs fazem hoje ainda é uma matemática rasa, e não operações que exigem de fato um encadeamento lógico.

— Se eu perguntar quanto é 2 + 2, você vai falar 4, mas você não teve que pensar para fazer a conta. Você basicamente decorou isso um dia, porque já ouviu essas palavras algumas vezes. Agora, se eu pedir para calcular 17 x 34, você sabe fazer, mas vai ter que parar e pensar com calma, aplicar o seu próprio algoritmo, para chegar à resposta — explica o matemático. — Uma maneira de pensar o que o ChatGPT faz, por enquanto, é que ele só têm fundamentalmente esse primeiro sistema de pensamento, que é basicamente um “fluxo de consciência”.

É razoável imaginar que essa limitação é algo que o Q* esteja tentando resolver, porque a OpenAI não está sozinha nessa busca. Criar ou acoplar sistemas de raciocínio matemático às LLMs é uma meta que várias empresas e grupos de pesquisa estão perseguindo, e um prêmio acaba de ser anunciado para quem chegar lá primeiro.

A XTX Markets, uma empresa especializada em algoritmos para atuação no mercado financeiro, patrocina a Olimpíada Internacional de Matemática, uma competição em que estudantes competem na solução de problemas. A companhia anunciou nesta semana um prêmio de US$ 10 milhões para o primeiro grupo de pesquisa que conseguir criar um sistema de inteligência artificial capaz de ganhar medalha de ouro no torneio.

Se é consenso que essa é uma frente importante para a inteligência artificial avançar, muitos pesquisadores veem um pouco de exagero quando se especula que sistemas capazes de um raciocínio mais eficiente no campo trarão mais ameaças que hoje.

Apocalipse cibernético

A Academia Brasileira de Ciência publicou recentemente um documento sobre potenciais de benefício e riscos da IA para o país.

A Academia Brasileira de Ciência publicou recentemente um documento sobre benefícios e riscos potenciais da IA para o país. O texto — assim como manifestos similares em outros países — não menciona a chance de LLMs produzirem a “inteligência artificial geral”, capaz de atingir um ponto de “singularidade”, em que computadores se tornam mais inteligentes ou conscientes que humanos.

— A gente tem de separar o que realmente está acontecendo daquilo que é muito mais uma propaganda — diz Edmundo de Souza e Silva, professor de Ciência da Computação na UFRJ e um dos autores do relatório. — Já teve livro de ficção científica dizendo que algum dia pode ser que atinja esse estágio, mas na minha opinião ainda estamos bastante longe.

Imagem gerada por inteligência artificial mostra robô solucionando equação matemática — Foto: Dall-E 3/OpenAI Imagem gerada por inteligência artificial mostra robô solucionando equação matemática — Foto: Dall-E 3/OpenAI

Existem preocupações éticas mais prementes para a regulação da inteligência artificial, diz Souza e Silva, como a ameaça a empregos que serão automatizados e a possibilidade de se gerar mais caos na internet com a criação de notícias falsas mais convincentes.

— Não é nada como no filme “Exterminador do Futuro”, com aquele sistema de IA Skynet, que virou vilão e tentou aniquilar os humanos — diz. — Precisamos é ter o cuidado de evitar que a IA que já existe seja usada para o mal. Como sociedade, precisamos assegurar que seja usada para o bem.

O problema com os temores que o Q* estaria gerando internamente na OpenAI é que ninguém de fora sabe se não passam de confabulação catastrofista ou se há alguma preocupação concreta que os embase. A maior parte dos arcabouços éticos e de regulação para IA aponta os itens de “segurança” e “transparência” como as principais frentes de risco para essa tecnologia. São esses os dois valores em jogo nessa história.

https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2023/12/03/q-por-que-a-nova-corrida-pela-ia-matematica-intriga-e-assusta.ghtml

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Deeptechs: inovação a partir da ciência e da engenharia

Por Evandro Milet – Portal ES360 – 03/12/2023

As startups DeepTech são empresas baseadas em uma descoberta científica ou inovação significativa de engenharia. Envolvem risco tecnológico e P&D significativos, mas são fundamentais para enfrentar os grandes desafios da humanidade. As empresas DeepTech têm o potencial de provocar mudanças disruptivas, estabelecer novas indústrias e perturbar as existentes. Tecnologias de ponta como a IA, a energia solar, os veículos elétricos, os veículos autônomos, a biotecnologia, a produção 4.0, os satélites, a robótica, o IoT , a modelagem 3D, os gêmeos digitais, a nanotecnologia, a engenharia genética, a fotônica, a ciência dos materiais, a computação quântica, os drones, a microeletrônica e a visão computacional têm o potencial de abrir novos caminhos para o crescimento econômico, a redução das desigualdades sociais e a sustentabilidade ambiental no mundo.

Esta modalidade, que está impactando o mercado de forma crescente, surgiu como conceito em 2014 pela social media indiana Swati Chaturvedi, com o objetivo de diferenciar empresas de “tecnologia profunda” das startups de internet, apps e comércio eletrônico. Foi definido da seguinte forma: “As empresas de tecnologia profunda são construídas sobre bases tangíveis de descobertas científicas ou inovações de engenharia. Elas estão tentando resolver grandes problemas que realmente afetam o mundo ao redor delas. Por exemplo, um novo dispositivo médico ou técnica de combate ao câncer, captura e análise de dados para ajudar os agricultores a cultivar mais alimentos ou uma solução de energia limpa tentando diminuir o impacto humano nas alterações climáticas.”

As startups digitais tradicionais se concentram no produto ou inovação do modelo de negócios com menores custos e maior velocidade para entrar no mercado. Deeptechs demandam mais recursos, mais tempo e mais riscos. Em compensação, resolvem problemas mais profundos.

As deep techs já movimentam um mercado relevante e possuem perspectivas importantes de crescimento. De acordo com o Meeting the Challenges of Deep Tech Investing, realizado pelo Boston Consulting Group (BCG), o ecossistema de deep techs pode atrair de R$ 695 bilhões (US$ 140 bi) a R$ 993 bilhões (US$ 200 bi) em investimentos até 2025.

Os países desenvolvidos estão bem à frente em deeptechs, até porque há necessidade de técnicos com excelente formação em quantidade, universidades de ponta, recursos para P&D e inovação e investidores dispostos a maiores riscos. Mas temos problemas que eles não têm e precisamos resolvê-los na saúde, na pobreza, na segurança, na agricultura, na medicina, na logística, na educação, no trânsito, ou mesmo na nossa indústria, comércio e governo. E temos oportunidades que eles não dispõem no agronegócio, na biodiversidade, na diversidade da população, no clima, na geopolítica e que precisamos aproveitar. Muitos dos problemas eles não vão resolver por nós, e ainda levam os nossos técnicos de alto nível. 

É fundamental a educação básica, envolvendo fortemente o que se denomina STEAM, da sigla em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática. E recursos para P&D, pesquisadores empreendedores e uma maneira de evitar a fuga de cérebros. 

Um pedaço do fundo soberano poderia apoiar um novo fundo para deeptechs, considerando a pouca disponibilidade ainda de investidores privados, os custos mais altos, os riscos tecnológicos e o alto impacto dos casos de sucesso.

https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/deeptechs-inovacao-a-partir-da-ciencia-e-da-engenharia/

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