As cidades resilientes no pós-pandemia

Por Amanda Péchy

Chega de aperto: a revolução no cotidiano das cidades que reabrem

Conceitos como prioridade a ciclistas e pedestres, distância nos parques e casas bem ventiladas vieram para ficar 

Por volta de 1486, quando a Europa era castigada por surtos recorrentes de peste bubônica, Leonardo Da Vinci esboçou o projeto de uma cidade às margens do Rio Ticino, no norte da Itália, com ruas largas, banhadas por luz natural e monitoramento do ciclo hidrológico para conter inundações. Avançada demais para a época renascentista, como muitas de suas ideias, a proposta ganharia nova forma já nos tempos modernos, quando finalmente os governantes perceberam que só metrópoles limpas e saudáveis romperiam a sequência de epidemias mortais. Grandes reformas nos séculos XIX e XX resultaram no traçado amplo das avenidas parisienses, que inspiraram o prefeito carioca Pereira Passos e o sanitarista Oswaldo Cruz a replicar o modelo no Rio de Janeiro. São mostras de como a história das cidades se confunde com a das epidemias, e não será diferente com a Covid-19, o novo flagelo da humanidade.

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Por onde será a saída para a economia?

Por Evandro Milet

 A pandemia tem provocado turbulências em todos os setores da economia. Mesmo os que se safam economicamente enfrentam problemas de logística, de mudança para o mundo digital, de gestão de home office ou de empregados com covid-19. 

Supermercados viram as vendas aumentarem inicialmente mas enfrentam problemas de atraso de entrega pela sobrecarga não prevista e pela deficiência do e-commerce precário. No setor de saúde as farmácias mantiveram vendas, mas os hospitais, mesmo os de referência, têm problemas. Com 45% a menos de receita, o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, cortou em 25% o salário e a jornada de trabalho de 33% dos seus 15 mil funcionários. Antes da pandemia, o Einstein fazia até 140 cirurgias por dia e agora não chegou ainda à metade desse número. O setor de medicina diagnóstica também sofre. As pessoas estão com medo e adiando consultas e exames. Até o fim de abril, o setor contabilizava queda de 70% nos exames de imagem. Nos laboratórios clínicos, o atendimento tinha caído, em média, 60% se comparado ao movimento registrado no mesmo período de 2019. 

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A mãe da invenção: o vulcão e a bicicleta

Por que as crises globais são a mãe da invenção

Em 1815, uma erupção vulcânica causou estragos em todo o mundo. Mas isso levou ao nascimento da bicicleta.

A erupção em abril de 1815 do Monte Tambora, um vulcão no que é hoje a Indonésia, foi uma das maiores da história. Uma vasta nuvem de poeira e cinzas se espalhou pelo mundo, bloqueando o sol e reduzindo as temperaturas globais. Na China, o tempo frio matou árvores, plantações e búfalos. Na América do Norte, uma “névoa seca” avermelhou o sol e houve uma nevasca no verão em Nova York. Houve tumultos e saques na Europa quando as colheitas fracassaram. Os preços dos alimentos dispararam e dezenas de milhares de pessoas morreram de fome e doenças. Os cavalos passavam fome ou eram abatidos, pois o alto preço da aveia obrigava as pessoas a escolher entre alimentar seus animais ou a si mesmas.

Essa última situação levou Karl von Drais, um inventor alemão, a conceber uma máquina de transporte pessoal para substituir o cavalo: uma engenhoca de madeira de duas rodas que ele chamou de Laufmaschine (literalmente, “máquina de corrida”). Sentado em uma sela, Drais a impulsionou, plantando os pés no chão e empurrando a cada poucos metros, enquanto o dirigia usando um leme. Um passeio de demonstração, no qual ele viajou 64 quilômetros em quatro horas, mostrou que era tão rápido quanto um cavalo trotador e podia ser alimentado por seu cavaleiro sem muito esforço. A parte complicada era mantê-la equilibrada enquanto planava, o que exigiu alguma prática.

A invenção de Drais não substituiu o cavalo: o tempo voltou ao normal, levando a uma colheita abundante em 1817. Mesmo assim, os entusiastas continuaram a melhorar seu design. A adição crucial de pedais ocorreu na França na década de 1860. Outros refinamentos incluíram freios melhores, uma estrutura de aço, rodas leves de metal e uma corrente para acioná-los. No final da década de 1880, esses elementos foram combinados em um design reconhecidamente moderno: a bicicleta.

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Quem é o dono da vacina?

por Evandro Milet

Em geral, uma vacina leva ao menos de 12 a 18 meses para ficar pronta, mas as farmacêuticas tentam iniciar a produção ainda em 2020. Em mais de uma ocasião, o governo do presidente Donald Trump sugeriu que, apesar de disposto a compartilhar seu conhecimento científico, priorizaria a produção de doses para a população americana. 

O governo dos Estados Unidos assinou um contrato com um grupo farmacêutico de Paris, o Sanofi, para garantir que tenha prioridade na produção de futuras vacinas. Esse acordo provocou indignação na França, forçando a empresa a esclarecer que essa prioridade seria dada apenas para doses de vacinas produzidas em fábricas que o grupo possui nos Estados Unidos. 

O governo americano foi rápido para assegurar acordos de abastecimento com produtores de vacinas. Ele também deu US$ 483 milhões para Moderna acelerar a produção de sua potencial vacina e está apoiando pesquisas da Johnson & Johnson (J&J) . 

E vai investir US$ 1,2 bilhão na farmacêutica AstraZeneca para assegurar o fornecimento de uma potencial vacina que poderá estar disponível já no início de outubro. Pelo acordo, o governo irá bancar um teste da vacina em 30 mil pessoas nos Estados Unidos a partir de meados de julho, além de acelerar a produção de pelo menos 300 milhões de doses de vacina. 

Também o governo britânico informou que vai pagar 65,5 milhões de libras para a AstraZeneca para assegurar 100 milhões de doses para sua população, com 30 milhões de doses disponíveis já em setembro.

A AstraZeneca informou que está em negociações com vários outros governos, assim como entidades internacionais sem fins lucrativos.

 A aplicação em massa da vacina vai liberar as economias dos países que primeiro imunizarem a sua população.  Como ficamos nós brasileiros? No fim da fila?

A vacina será de propriedade das empresas que as desenvolverem e por isso cobrarão caro ou será de propriedade pública? Se não tiverem o lucro que esperam elas se empenharão para encontrar outra em situação semelhante no futuro?

Carlos Alberto Sardenberg, jornalista de O Globo fez um bom resumo:  Mas, afinal

Quem é o dono da vacina?

O acesso às doses exigirá um amplo esforço global, num ambiente de colaboração entre empresas, governos e instituições internacionais

Coluna Carlos Alberto Sardenberg jornal O Globo 21/05/2020 

No início deste ano, a companhia farmacêutica Moderna, com sede em Cambridge, nos EUA, tinha um valor de mercado em torno de US$ 7 bilhões. No início desta semana, bateu US$ 30 bilhões depois de ter informado que obtivera resultados positivos em testes com humanos para a vacina contra o novo coronavírus. Dois dias depois, esse valor caiu uns US$ 2 bilhões, quando cientistas e autoridades sanitárias levantaram algumas questões.

A principal: o teste havia sido limitado a poucas pessoas e ainda na fase 1. Mas a companhia já tinha autorização do governo americano para iniciar a fase 2, com milhares de testes. Estará pronta, se tudo der certo, depois de uma fase 3, lá pelo final deste ano ou início de 2021. Esperanças. Mas, de todo modo, a companhia já adiantou planos de levantar no mercado um aporte de US$ 1,2 bilhão.

A empresa recebeu ajuda do governo americano – algo como 500 milhões de dólares – mas é privada, com ações diluídas em bolsa.

Diversas outras companhias privadas estão trabalhando na vacina antiCovid-19. Há também laboratórios ligados a governos ou a universidades, mas é grande a possibilidade de que empresas privadas cheguem antes aos melhores resultados. E diferentes: as empresas estão desenvolvendo tecnologias diversas — por exemplo, ou enfraquecendo o vírus ou usando partes dele.

Na verdade, a melhor expectativa entre cientistas e autoridades sanitárias é a seguinte: que várias farmacêuticas, cada uma no seu caminho, cheguem a, digamos, quatro ou cinco tipos de vacinas.

Uma primeira razão é econômica. Encontrada a fórmula, será preciso produzir algo como 5 bilhões de doses ou o dobro disso, se forem necessárias duas doses para a imunização completa. Já há empresas reservando instalações para isso, mas o esforço será monumental.

E mais: as companhias privadas terão a patente — o segredo da fórmula — e obviamente terão que ser remuneradas por isso. Dirão: mas isso é uma insensibilidade, uma crueldade; com centenas de milhares de pessoas morrendo, vai-se proteger o lucro dos acionistas?

Imaginemos que não. As patentes são tornadas públicas e as vacinas já produzidas, confiscadas.

Daqui a alguns anos, aparece outra mutação desse coronavírus — qual companhia vai torrar dinheiro na busca de uma vacina ou de um remédio?

Por outro lado, deixada a coisa por conta do mercado, sem nenhuma intervenção, sabemos o que vai acontecer: os mais ricos serão os primeiros a ter acesso às primeiras vacinas, a preços de rico. Depois, o conhecimento vai se espalhando, surgem outras fórmulas, depois de algum tempo, os genéricos e o medicamento vai alcançando as classes médias. Quanto tempo levaria até alcançar os pobres?

Por isso, cientistas, autoridades sanitárias, empresários, governos e instituições internacionais estão procurando soluções intermediárias. Na OMS, surgiram propostas para que as patentes descobertas sejam de propriedade social, mundial.

É generoso, mas não resolve o problema de remunerar as pesquisas — as atuais e as que serão necessárias no futuro. Bill Gates falou em montar um consórcio de bilionários e grandes empresas que comprariam as vacinas e as distribuiriam nas regiões mais pobres.

Por outro lado, governos também precisarão comprar, mas com preços relativos, como já se faz com medicamentos de controle do HIV. Países mais ricos pagam mais, outros pagam menos.

E os ricos, as pessoas ricas, onde quer que se encontrem, vão pagar do seu bolso ou de seus caros planos de saúde. Aliás, vai ser outra briga: entre os planos e as seguradoras versus os fabricantes — também como já ocorre hoje.

O importante é ter regras e negociações razoáveis, de tal modo a combinar os interesses — melhor, as necessidades das pessoas — e os estímulos para que as empresas formem e contratem os quadros capazes de descobrir essas maravilhas da tecnologia.

Será preciso um amplo esforço global, num ambiente de colaboração entre empresas, governos e instituições internacionais. Acho que, por necessidade, voltaremos a prezar a globalização e a eficiência dos mercados.

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Caos em cadeias de suprimentos provoca desperdício de alimentos

Por Marvin G. Perez, Michael Hirtzer e Deena Shanker, Bloomberg — Nova York e Chicago

18/05/2020 

O desperdício de alimentos ganha novo significado na pandemia. Leite jogado fora em Wisconsin. Ovos esmagados na Nigéria. Uvas podres na Índia. Porcos enterrados em Minnesota. As perturbadoras imagens provocaram indignação no mundo todo. Mas há um dado surpreendente: o desperdício pode não estar acima do normal, já que 30% da produção global de alimentos acaba em aterros sanitários.

A diferença agora é que, em vez de ser jogada fora por consumidores como lixo de cozinha, uma quantidade sem precedentes de alimentos é desperdiçada antes mesmo de chegar aos supermercados.

Culpe o caos nas cadeias de suprimentos. Globalmente, a produção é processada por meio dos chamados métodos “just in time”. A produção das fazendas pode ser transportada para lojas ou restaurantes em apenas alguns dias, e a próxima carga de produtos agrícolas e gado pode estar no lugar destinado imediatamente.

Quando essas cadeias enfrentam desafios ― como foi o caso de caminhões, portos, falta de mão de obra, paralisações de restaurantes e lentidão no comércio ―, há um enorme estoque de suprimentos que nunca chega aos supermercados.

Isso provavelmente terá consequências devastadoras para a segurança alimentar. Os preços poderiam subir ainda mais, já que milhões passam por dificuldades financeiras devido ao impacto da covid-19.

“As pessoas que mal conseguem se alimentar agora enfrentarão ainda mais problemas”, disse Marc Bellemare, coeditor do American Journal of Agricultural Economics. “O que me preocupa é o bem-estar humano.”

Antes da pandemia, cerca de US$ 1 trilhão em produção de alimentos acabava perdida ou desperdiçada. A maior parte disso vinha do lixo doméstico: cerca de 40% nos Estados Unidos. Agora, como as pessoas se programam para ir menos aos supermercados e estão mais preocupadas com os preços, o desperdício das cozinhas deve cair, compensando outras perdas.

Alguns analistas dizem que o desperdício total ainda pode ser “potencialmente” maior este ano, mas nenhum entrevistado tem certeza de que a estimativa deve se materializar.

Consumidores têm escolhido itens com maior validade, preparam listas de compras para reduzir o tempo que passam no supermercado e se tornaram mais conscientes sobre hábitos culinários.

Dados do Reino Unido mostram que quase metade dos entrevistados disse que está jogando menos alimentos fora, de acordo com pesquisa encomendada pelo grupo ambiental Hubbub.

https://valor.globo.com/agronegocios/noticia/2020/05/18/caos-em-cadeias-de-suprimentos-provoca-desperdicio-de-alimentos.ghtml

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Paixão e inteligência artificial

por Evandro Milet

Para quem está confinado, cinema inteligente é ótima opção de diversão. Her(Ela), é um filme americano de comédia dramática, ficção científica e romance de 2013 escrito, dirigido e produzido por Spike Jonze. O filme gira em torno de um homem solitário que desenvolve uma relação com um um aplicativo no estilo assistente pessoal como a Alexa da Amazon, Siri da Apple ou Cortana da Microsoft, com personalidade, voz feminina e baseada em inteligência artificial(IA). A voz sensual de Scarlett Johansson como Samantha, nome que o próprio aplicativo escolheu depois de consultar instantaneamente um catálogo de nomes próprios, ajuda a compor uma personagem feminina cativante, inteligente e competente até para ajudá-lo nas atividades profissionais. O resultado é uma paixão recíproca e improvável, com todas as situações normais da relação envolvendo emoções, inclusive ciúmes e sexo.

Samantha vai aprendendo ao longo da relação, sabe tudo consultando seus big data e gera uma crise quando o solitário descobre que ela mantém a mesma relação com centenas de pessoas simultaneamente, afinal é apenas um programa de computador(perdão pelo spoiler).

Essa ficção aponta para a maior preocupação de gente importante como o físico Stephen Hawking e o mega empresário Elon Musk: até onde pode ir o desenvolvimento da IA em atitudes e raciocínios que ultrapassem os seres humanos. “O desenvolvimento da IA total poderia significar o fim da raça humana”, afirmou Hawking em um evento. Musk, criador da Tesla, pioneira no desenvolvimento de veículos elétricos e baterias poderosas, acredita que, a longo prazo, a IA se torne “nossa maior ameaça existencial”. Musk diz que só há 5 a 10% de probabilidade de se conseguir desenvolver uma solução de IA segura e que esses sistemas de IA ultra-inteligente serão tão avançados que nós humanos seremos como animais de estimação ou gatos domésticos. 

Kevin Kelly, no seu livro “Inevitável”, afirma que não estamos apenas redefinindo o que é IA, estamos redefinindo o que significa “ser humano”. Kelly continua dizendo que conforme processos mecânicos passaram a replicar comportamentos e habilidades até então considerados exclusivos dos humanos, tivemos de repensar o que nos diferencia das máquinas. À medida que avançamos com a IA seremos forçados, cada vez mais, a abrir mão de coisas que supostamente são próprias dos seres humanos. Não seremos mais a única mente capaz de jogar xadrez(já não somos), pilotar um avião, compor música ou inventar uma lei matemática – será doloroso e triste. Teremos uma crise de identidade, continuamente nos perguntando para que serve o ser humano, conclui ele. Talvez como animal de estimação da Scarlett Johansson, pensaria algum marmanjo. 

A indústria de jogos está bombando

por Evandro Milet

Há um segmento que está passando pela crise econômica gerada pelo novo coronavirus sem prejuízos: a indústria de games. Os gastos feitos por consumidores do mundo todo com jogos digitais em março deste ano atingiram a cifra de US$ 10 bilhões, o maior total mensal de todos os tempos e um reflexo direto do isolamento social em prática em boa parte do mundo.

Espera-se que os jogos gerem mais de US$ 160 bilhões em receita em 2020, o que seria mais do que o dobro do registrado mundialmente pela indústria musical (cerca de US$ 19 bilhões) e pelas bilheterias mundiais (cerca de US$ 43 bilhões) juntas.

Para dominar o entretenimento digital, a Amazon está investindo centenas de milhões de dólares para se tornar um dos principais criadores e distribuidores de games do mundo. A gigante de Jeff Bezos anunciou para 20/5 seu primeiro jogo de grande orçamento. Um ambicioso game de ficção científica, Crucible é a ponta de lança de uma aposta grande da varejista para ser uma potência em mais um segmento. 

A empresa também está desenvolvendo uma plataforma de jogos em nuvem completa, com o codinome Project Tempo. E trabalha em novos jogos que são transmitidos em seu popular serviço de streaming Twitch, no qual jogadores podem jogar com telespectadores em tempo real. Esse serviço teve aumento de 50% de março para abril. O esforço é o investimento mais significativo da Amazon em entretenimento original desde que se tornou o maior produtor de séries e filmes de streaming. A Amazon também está mirando rivais estratégicos como o Google e a Microsoft, que expandiram suas áreas de games nos últimos anos. O serviço Game Pass da Microsoft(o Netflix dos games) registrou 10 milhões de usuários em março.

Games são produtos que nascem de forma internacional. Jogar não requer idioma. Além disso, o game que você comprou pode até ter sido lançado por uma empresa norte-americana, mas ele certamente passou pelas mãos de desenvolvedores, animadores, criadores e demais profissionais de qualquer lugar do mundo. 

Há vários tipos de jogos: entretenimento, educacionais, empresariais ou de propaganda. 

No Brasil, essa indústria é composta em sua imensa maioria por pequenas e médias empresas. Das 375 empresas do ramo no País, cerca de 96,8% têm faturamento abaixo de R$ 3,6 milhões, segundo o II Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais realizado pela Associação Brasileira de Games (Abragames), em 2018.

Como exemplo, hoje 18/5, às 22h estréia a série “Lincoln Rhyme – The Hunt for the Bone Collector”, no canal a cabo AXN. E a MITO GAMES, startup incubada na TecVitória, criou uma experiência interativa, um game do tipo propaganda, para divulgar essa nova série. 

O trabalho remoto é uma realidade do setor. A produção de um game não precisa ser interrompida se é tudo virtual, diferentemente de um filme e pode ser desenvolvido em casa. Já existem empresas que trabalham 100% remotas. Muitas usam desenvolvedores brasileiros diretamente conectados com empresas fora do Brasil. Em Vitória, Luis Gualandi, um jovem universitário, já desenvolveu, em casa, jogos para plataformas internacionais com mais de milhão de usuários.

Nesse momento, o mundo demanda produtos de entretenimento. Quem tem projeto para ser lançado agora vai ter uma vantagem comercial absurda, pois as plataformas de publicação estão batendo recorde de usuários jogando e de vendas. O mundo quer mais conteúdo por conta do isolamento social. E mesmo que a demanda caia depois da pandemia, muitos novos jogadores foram incorporados a essa mania.

Crônica confinada: ih!-commerce e outros perrengues

Por Evandro Milet

Quando vamos novamente comer uma fatia de bolo de aniversário depois de alguém ter soprado a velinha? Por falar em aniversário, uma ampla pesquisa do Google sobre mudanças no comportamento do público desde março, quando o vírus passou a assustar os brasileiros, entrega que “pizza” e “brigadeiro” estiveram entre as palavras mais buscadas por internautas. Não se sabe como vamos sair dessa pandemia, se mais solidários ou não, mas certamente muitos com alguns quilos a mais. Quando formos liberados vai haver corrida para academias. Mas como correr na esteira se as gotas de suor do vizinho de exercício se espalham longe, agora que entendemos tudo de coronavírus? E como tem especialistas em coronavírus na internet. Tem sempre um médico não-sei-de-onde para dizer que tudo está errado em um vídeo que recebemos dezenas de vezes de todos os lados. Se falar de cloroquina então, fica a dúvida se o remédio é de direita ou de esquerda em debates raivosos, com argumentos onde a ciência passa longe. E coitada da ciência – e da razão -, o iluminismo ainda não chegou na internet. O ambiente está perfeito, até peste tem, e mais terra plana, negação de vacinas, mistura de Estado com igreja, execução sumária de bandidos e elogio à torturadores. Tentei mostrar a extrapolação de uma curva exponencial de contaminados e disseram que era adivinhação. Se não é a idade média de volta pode ser a idade mídia que nos afoga de informação. Alguém já disse que se informar pela internet é como beber água em um hidrante. Mas água é problema. A pandemia encontrou 35 milhões de brasileiros sem água encanada enquanto a principal arma contra o vírus é lavar as mãos. Saneamento em geral é problema. Pelo menos há uma cultura de higienização sendo espalhada. Material de limpeza é item dos mais vendidos nos supermercados que, por sua vez se enrolam com o delivery. Na internet um cliente reclamava que na ida presencial ao supermercado foi avisado que o ítem desejado só era vendido no delivery. Dali mesmo ligou o telefone e conseguiu levar o produto. Deve ser o ih!-commerce, vários dias para entregar e muita coisa errada. A internet porém é a salvação para dias de confinamento. Os artistas já não podem fazer shows ao vivo, descobriram as lives. Recordes de audiência revelaram uma preferência nacional: das dez maiores lives da história do YouTube, todas realizadas desde abril deste ano, sete são brasileiras. O ranking é liderado por sertanejos: Marília Mendonça, com 3,3 milhões de acessos em 8 de abril, é seguida de Jorge & Mateus, com 3,2 milhões quatro dias antes. A taça da live é nossa. Alguns fatores explicam o fenômeno das lives: o consumo de música local no país é um dos maiores do planeta, 70% do mercado. Brasileiro ouve música brasileira. Confinamento patriótico.

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O que os brasileiros querem aprender na quarentena

Publicado em Valor Econômico – 14/05/2020

Nos últimos dois meses, o confinamento fez disparar a procura por cursos on-line, dos mais variados temas. Das aulas de desenho à metodologia Scrum, a busca por conhecimento rápido virou febre na maior parte dos países. A Udemy, maior plataforma de cursos virtuais do mundo, gratuitos ou com preços bem acessíveis, registrou um aumento de 425% nas matrículas globais apenas nesse período. No Brasil, esse crescimento foi de 95%.

Por aqui, a maior procura foi por cursos que ensinam a fazer marketing pelo Instagram (103%), edição de vídeos (102%) e desenho (84%). Enquanto isso, os alemães preferiram ensinamentos sobre marketing digital (186%), os franceses sobre o mercado financeiro (223%), os americanos sobre ilustração (326%), os mexicanos sobre análise financeira (235%) e os indianos buscaram habilidades de comunicação (606%). Há temas mais leves, como a busca por habilidades musicais. Espanhóis optaram por cursos de piano, enquanto os italianos procuraram os de guitarra.

Em todos os países, o interesse predominantes foi por temas ligados às habilidades comportamentais, chamadas soft skills, segundo Sérgio Agudo, diretor de negócios para a America Latina na Udemy. O que pode incluir liderança até mindfulness, uma mania global.

A plataforma Udemy é uma EduTech criada em 2010 em São Francisco, na Califórnia. Atualmente, possui mais de 50 milhões de alunos globais e reúne 57 mil especialistas, de 190 países, que ministram mais de 150 mil cursos on-line, em 65 idiomas. Antes da pandemia, entre os tópicos mais populares apareciam estudos de programação e ciência de dados.

Agudo explica que no braço do negócio voltado à companhias que buscam treinamento para funcionários, o Udemy for Business, a grande corrida na pandemia foi por cursos relacionados ao teletrabalho, cujas matrículas cresceram 215 vezes e os que ensinam a fazer a gestão de times virtuais, que aumentaram 15 vezes.

Nos últimos dois meses, o número de cursos novos mais do que dobrou globalmente, e segundo o diretor, a tendência é que eles continuem a crescer. Agudo lembra que além de ser uma opção ao ensino tradicional, a plataforma pode se transformar em uma ferramenta de trabalho para quem ficou desempregado ou está com tempo livre durante a quarentena e quer experimentar novas habilidades, como ensinar.

O executivo conta que para ter um curso aprovado, o profissional precisa mandar um trecho do que pretende ensinar em vídeo para que seja feita uma curadoria sobre a qualidade do conteúdo, do som e da imagem.

Em uma segunda fase, se for aprovado, ele vai receber instruções de como melhorar o que apresentou inicialmente. Se conseguir chegar à terceira fase, quem vai dizer se o curso funciona é o usuário. “Ele vai dar estrelinhas e os cursos mais bem avaliados sobem na busca do site”, diz.

Na covid-19, a plataforma fez uma seleção dos cursos gratuitos mais bem avaliados (www.udemy.com/pt/courses/free). Entre os brasileiros, os que mais se destacam nesse momento são os de trabalho remoto, Zoom para reuniões on-line profissionais e produtividade no home office.

Zoom fatigue: o esgotamento provocado pelo excesso de videoconferências

Sobretudo como ferramenta de trabalho, os encontros on-line andam causando cansaço mental que já tem nome

Por André Lopes – Publicado em 15 maio 2020

É provável que nunca tantos tenham ficado tão próximos mesmo estando distantes. O motivo para esse paradoxo, claro, é a pandemia do novo coronavírus — que, de resto, vem virando de cabeça para baixo outras incontáveis facetas da vida social. Mas, se é verdade que tecnologias como a da videoconferência — que permite vizinhança na distância — não surgiram com a Covid-19, foi devido à sua propagação, e à necessidade de isolamento social para contê-la, que tais ferramentas explodiram mundo afora.

Em poucos meses, aplicativos mais antigos como Skype e Hangouts, e os novatos Houseparty e Zoom, transformaram-se em acessórios indispensáveis para o dia a dia — seja para permitir que parentes e amigos joguem conversa fora, seja, sobretudo, para viabilizar a prática de home office e do ensino a distância compulsório. Não sem cobrar um alto preço — e, isso, insista-se, em um período reduzidíssimo de tempo. O preço: um inédito cansaço mental — que já ganhou até nome (em inglês): Zoom fatigue.

Do que se trata? O termo, que, num primeiro momento, faz menção a um dos mais populares aplicativos de videoconferência, revela uma fadiga, como o próprio nome indica, a que o cérebro se vê submetido após uma sucessão de sessões diante da tela. O fenômeno se dá em especial no caso do trabalho remoto. Com o contato presencial anulado, a necessidade de chamadas para novas interações cresce, fazendo com que, no fim do expediente, a pessoa sinta como se houvesse passado o dia em uma longa e interminável reunião.

Para os estudiosos do comportamento humano, o esgotamento pode ser explicado com facilidade. Durante um diálogo, o cérebro não se concentra apenas nas palavras. Ele recolhe — como se fizesse, digamos, um “zoom” — significados adicionais a partir de dezenas de sugestões não verbais, como olhares, movimentos do corpo e até a frequência respiratória. Essas manifestações ajudam a criar uma percepção holística do que está sendo transmitido e do que é esperado em resposta do ouvinte. “Como somos animais sociais, perceber essas pistas no contato direto é natural, requer pouco esforço cognitivo e pode estabelecer as bases para relações mais íntimas como a amizade”, afirma o psicólogo carioca Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da Uerj. “Contudo, no caso de uma chamada de vídeo, essa habilidade é parcialmente prejudicada”, explica ele. “Além disso, a imagem da galeria onde todos os participantes da reunião aparecem desafia a visão central do cérebro, forçando-o a decodificar tantos indivíduos simultaneamente que nada é absorvido de maneira significativa, o que gera tensão — e stress.”

Outro problema são os travamentos e dessincronias que ocorrem durante as chamadas. Segundo um estudo feito por acadêmicos alemães em 2014, um pequeno intervalo de 1,2 segundo entre a voz e a imagem é capaz de trazer à mente, com maior frequência, a impressão de que a outra pessoa é menos amigável ou está desatenta à conversa. Nesse sentido, até a ligação telefônica tradicional parece ser menos cansativa para o cérebro, o que recomenda fortemente seu uso — aliás, retomado com força nestes dias de surto epidêmico.

É possível que em algum momento surjam recursos que atenuem o cansaço mental que as videochamadas têm provocado. Ou que acabemos nos acostumando com ele. Até lá, se a Zoom fatigue bater, e houver oportunidade, desligue a câmera. E desligue-se um pouco.


Publicado em VEJA de 20 de maio de 2020, edição nº 2687

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