O que mudou nos países que já adotaram o 5G

A polícia se tornou mais eficaz, a velocidade de transmissão de dados disparou e as máquinas ficaram mais inteligentes

Por Sabrina Brito –  Publicado em 14 ago 2020 Veja

Na Coreia do Sul, em algumas cidades da China e em certas regiões da Suécia o download de filmes em alta resolução demora poucos segundos para ser finalizado. As videochamadas jamais travam. A polícia usa câmeras de altíssima qualidade conectadas à internet que captam imagens em tempo real, 24 horas por dia, sete dias da semana. Mães atarefadas vestem seus bebês com fralda dotada de sensores que avisam quando ela está suja. Testes com carros autônomos são bem-sucedidos. 

Essa sucessão de bons resultados se tornou possível graças à rede de internet móvel 5G, pivô da atual Guerra Fria entre Estados Unidos e China, tecnologia que está prestes a transformar a vida de bilhões de pessoas em diversos países — até mesmo no Brasil. As mudanças se devem a um fator essencial: velocidade. Com o 5G, a internet é pelo menos 100 vezes mais rápida do que a da geração anterior, atalho para o mundo da inteligência artificial. A transmissão de dados será imediata. Os aparelhos vão se conectar entre si. A vida não será mais como antes, como provam as primeiras experiências nos países que já adotaram o sistema.

As aplicações do 5G são ilimitadas. “Ele vai tornar as cidades mais inteligentes”, diz Daniel Batista, cientista da computação e professor de programação do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo. O especialista dá um exemplo prático. Na maioria dos municípios, apenas algumas poucas avenidas, ruas ou ciclofaixas são monitoradas por câmeras. Com o 5G, praticamente todo o espaço urbano poderá ser esquadrinhado pelo olhar atento dos sistemas de vídeo. Outro potencial uso ajudará a salvar vidas.

 “Com o 5G, será possível, por exemplo, ter sistemas de GPS em ambulâncias conectados a um serviço de emergência que abriria os semáforos à medida que o veículo se aproximasse do local do acidente ou do hospital”, afirma o professor da USP. A mesma lógica vale para carros de polícia, que teriam prioridade na passagem por faróis ou outros reguladores de trânsito. 

Os veículos autônomos, que têm consumido bilhões de dólares em investimentos das montadoras, terão um estímulo para virar realidade. Para funcionar sem oferecer riscos, eles dependem de uma rede complexa de sensores interligados por inteligência artificial. Antes do 5G, o carro autônomo poderia demorar alguns centésimos de segundos mais para tomar uma decisão, como desviar de um obstáculo ou frear bruscamente. Na era do 5G, a resposta do automóvel será imediata, e a probabilidade de alguma falha de conexão afetar o seu funcionamento será reduzida a quase zero.

Na Coreia do Sul, maior adepta do 5G no planeta, a produção desses veículos foi impulsionada pela instalação da nova rede, que se deu em abril de 2019. O país, o primeiro a adotar o 5G comercialmente (desde então foi seguido por Estados Unidos, Reino Unido, Suécia e China), pretende investir 20 bilhões de dólares até 2022 para ampliar o uso da tecnologia. 

Atualmente, 6 milhões de sul-coreanos têm acesso ao 5G, mas os outros 45 milhões de habitantes esperam pela chance de adotar o sistema. Na Suécia, o 5G deu novo impulso à indústria de games. Desde o advento da tecnologia, no fim de 2019, o download de jogos on-line aumentou 200%. 

O Brasil vê a tecnologia como um sonho distante. O leilão das frequências 5G, que serve para determinar quais empresas poderão operar a nova rede, está marcado para 2021 — isso se não houver, como é típico no país, atrasos ou adiamentos. No mês passado, a Claro anunciou a implementação, em algumas regiões e em caráter experimental, do 5G DSS (Compartilhamento Dinâmico de Espectro, da sigla em inglês), espécie de transição entre o 4G e o 5G, que é dez vezes mais veloz do que o primeiro.

Enquanto o 5G não chega, será preciso melhorar a segurança das redes de internet. “Com o aumento da taxa de transmissão de dados, criminosos vão conseguir vazar informações privadas em poucos segundos”, diz o professor Daniel Batista. O avanço da tecnologia suscita debates apaixonados sobre os limites da inteligência das máquinas. “Com equipamentos aprendendo diversas funções, passaremos a ser escravos da tecnologia”, afirmou a VEJA o professor de comunicação wireless na King’s College London Mischa Dohler. O 5G, de fato, provocará grandes revoluções. Resta à humanidade saber usá-las.

Publicado em VEJA de 19 de agosto de 2020, edição nº 2700 

https://veja.abril.com.br/tecnologia/o-que-mudou-nos-paises-que-ja-adotaram-o-5g/

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Homo Zapiens e a limonada digital

por Evandro Milet


Na pandemia muita gente aprendeu a utilizar ferramentas que não sabia usar e que talvez até rejeitasse. Avós agora sabem como se comunicar com os netos pelas plataformas, muitos usaram pela primeira vez o comércio eletrônico, quantidade grande se viciou em joguinhos eletrizantes, outros aprenderam a descobrir filmes e séries no Netflix. Professores aprenderam como se comunicar em uma ainda precária educação à distância emergencial, empresas que relutaram muitos anos com o teletrabalho agora dizem que não voltarão mais aos escritórios, pelo menos não na mesma proporção. O fato é que a pandemia foi um antecipador de futuros para quase todos, menos para grande parte das universidades federais. 

Enquanto as universidades particulares se sentiram pressionadas pela possibilidade de perda de alunos e reagiram com o EAD que deu para fazer, professores de universidades federais continuaram a receber dinheiro público sem contrapartida de trabalho, em uma apropriação indébita escandalosa. Alunos que se esforçaram durante todo o ano passado para conseguir passar em uma universidade federal ficaram agora todo o primeiro semestre sem aulas. A justificativa, à la socialismo cubano, é ridícula: se todos não podem ter a educação online por falta de acesso a computadores ou internet, então que ninguém tenha. 

Louve-se a Unicamp, que logo em março identificou os alunos que não tinham recursos e deu um jeito de conseguir computadores e acesso a eles. O elogio se estende a poucas outras como o Ifes que se virou para acessar os alunos. Enquanto isso a Ufes deixou seus alunos em casa sinalizando uma incompetência deprimente. 

Daqui para frente todos terão de enfrentar problemas maiores, que a transformação digital forçada acelerou. As crianças que estão entrando nas escolas são todas nativos digitais e tem que enfrentar a posição fora de época que considera transgressão um aluno usar celulares em sala de aula. Os celulares são quase uma prótese, uma extensão do braço, um amplificador de sentidos e não tem sentido afastá-los. E nas aulas virtuais não há como vigiar transgressões. Há que se conseguir uma maneira de conviver com isso. Alunos não precisam mais decorar aquilo que eles têm acesso na hora que quiser e os professores e os métodos terão que considerar isso. 

O mercado de trabalho quer profissionais com a alma digital  e não faz sentido separá-los da sua ferramenta básica. Se a geração passada já mudava hábitos zapeando canais na TV, essa geração zapeia páginas na internet, sem paciência com qualquer atraso, e se comunica pelo zap. Temos o novo Homo Zapiens e podemos aproveitar esse meteoro da pandemia para fazer desse limão uma limonada digital, mudando a forma de ensinar e incorporando definitivamente o mundo digital no ensino.

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O open banking está pronto e deve revolucionar o sistema bancário

Programas de pagamentos como o PIX e plataformas de open banking prometem mudar a vida financeira dos brasileiros a partir de novembro 

Por Josette Goulart, Luisa Purchio – em 7 ago 2020  Veja

Quando o Uber chegou, os taxistas se revoltaram. De repente viram seu mercado ameaçado por concorrentes que cobravam mais barato, ofereciam um serviço com mais qualidade e ainda ofertavam água e bala de graça aos clientes. Teve carreata, tentativa de leis para barrar os aplicativos e choradeira. Não adiantou, o consumidor gostou do serviço. Os taxistas não tiveram escolha além de aceitar e se adaptar. 

Pois uma revolução nos mesmos moldes está prestes a acontecer no sistema bancário brasileiro, gestada em plena pandemia, que levará as instituições tradicionais a mudar a forma de relacionamento com seus correntistas — sob risco de acabarem como os antigos taxistas. Termos como PIX, API e open banking vão mudar radicalmente a forma como as pessoas e as empresas realizam suas transações financeiras em um prazo já definido pelo Banco Central, a partir de novembro. 

O PIX, a primeira inovação a ser lançada pelo BC, é a nova TED, com a diferença de que funcionará 24 horas por dia, sete dias por semana. O novo sistema, que poderá ser utilizado a partir do celular, promete alterar diretamente a forma como as pessoas pagam suas contas e fazem suas compras, pois elimina a necessidade de dinheiro ou de cartão de débito ou crédito. Com o uso do sistema, o custo de operação das empresas de telefonia, água e luz, entre outras, também cai, porque o PIX elimina a necessidade de emissão de boletos físicos. 

O sistema de pagamento instantâneo, entretanto, é apenas o começo de um processo que culminará em outra novidade, o open banking. Essa é a inovação mais radical, pois permitirá que os clientes tenham acesso a seus dados e histórico financeiro (hoje eles são mantidos pelos bancos) e compartilhem com qualquer instituição regulada pelo Banco Central. A tecnologia por trás dessa plataforma aberta é chamada API.  

O modelo de funcionamento é comparável a um site que permite que o usuário se cadastre via Facebook ou Google, o que gera o compartilhamento dos dados. No caso do open banking, o cliente poderá esco­lher quais informações quer compartilhar e com quais empresas. Com isso, poderá optar por aquelas que ofereçam condições e taxas mais vantajosas para os serviços que lhe interessem. As mudanças são tão significativas que deixam eufóricos representantes de entidades setoriais como Cláudio Guimarães, diretor executivo da ABBC, associação que defende os interesses de bancos de pequeno e médio porte. “O custo vai cair muito. Finalmente o cliente será rei”, comemora.

Obviamente, clientes com histórico de maus pagadores terão dificuldades em um sistema que promete tal grau de transparência. A expectativa é que, no auge do funcionamento do open banking, todos os dados estejam disponíveis em um único aplicativo. Caso uma pessoa queira comprar uma casa maior, por exemplo, basta acessar a plataforma e conferir todos os bancos com financiamentos disponíveis para seu perfil financeiro e sob quais condições. “O open banking é a integração de toda a vida econômica em um só lugar, como conta-corrente, poupança, aplicações, compras e meios de pagamento, de forma que se pode avaliar e negociar do mesmo jeito que se faz hoje nas compras a crédito no varejo”, diz Pietro Delai, executivo da consultoria IDC. 

Para os bancos pequenos e médios e as fintechs que têm dificuldades para fazer análises de crédito mais consistentes, o open banking abre uma avenida de oportunidades. Com a abertura dos dados pessoais, é como se um banco pudesse entrar no sistema de um concorrente e saber tudo sobre o cliente que ele quer conquistar. A Stone, uma fintech que nasceu como operadora de máquinas de cartões e hoje concede crédito a pequenas empresas, já está operando na tecnologia do open banking. Seus clientes podem fazer pagamentos de folha de salários, contas de luz, água, fornecedores, tudo de forma automática, sem o processo manual, via API. Quando a abertura de dados efetivamente acontecer, a Stone já estará com um produto mais bem-acabado.

 Em relação aos bancos tradicionais, há vantagens e desvantagens em igual medida. No primeiro caso, a disputa pelos clientes com concorrentes menores será atroz. No segundo, é que terão acesso a dados de clientes de outros grandes bancos, que até então não estavam disponíveis. O maior problema que enfrentarão é de natureza tecnológica. Os grandes bancos brasileiros funcionam com sistemas antigos herdados de suas dezenas de aquisições. “É como se eles estivessem numa corrida de 100 metros rasos carregando uma bigorna”, compara Rafael Stark, fundador da fintech Stark Bank, empresa que já nasceu aberta e que opera a tecnologia de API com clientes como o Rappi. 

Em meio ao processo de implantação do open banking, algumas instituições chegaram a pleitear a alteração do cronograma por não terem condições de atualizar suas plataformas digitais a tempo, mas o Banco Central manteve regras e prazos. A primeira fase começa em novembro, com dados públicos das próprias instituições. Depois serão abertas informações dos clientes e, em outubro de 2021, começam a ser oferecidos produtos em plataformas abertas.

O acirramento da concorrência com as fintechs não é a única dificuldade no horizonte dos bancos tradicionais. Startups como o Nubank, que rapidamente conquistaram milhões de clientes, chegaram a preocupar os bancos em um primeiro momento, mas o incômodo passou rápido. O problema é que as empresas de tecnologia — e nesse caso se incluem as gigantes como Apple, Google e Facebook — também vão entrar na concorrência. “É questão de tempo, ainda mais que elas já estão acostumadas a lidar com plataformas abertas”, avalia o consultor Cezar Taurion, ex-­executivo da IBM. 

As três big techs, por sinal, já possuem seus próprios sistemas de pagamento, sendo o WhatsApp Pay o mais novo do trio. As empresas de telefonia também prometem entrar no jogo. A Claro já tem tudo pronto para lançar a própria fintech e deu o primeiro passo ofertando crédito, nos moldes do que já fez a Vivo. A multinacional de origem mexicana não se posiciona oficialmente sobre essa nova ofensiva, mas o diretor da operação brasileira, Maurício Santos, diz que o open banking abre a possibilidade para a entrada de outros setores da economia. Obviamente, Bradesco, Itaú e Santander, os principais bancos privados do país, guardam a sete chaves os planos para o embate. E terão de ser ágeis, uma vez que os concorrentes já estão com a faca entre os dentes.

Publicado em VEJA de 12 de agosto de 2020, edição nº 2699

https://veja.abril.com.br/economia/o-open-banking-esta-pronto-e-deve-revolucionar-o-sistema-bancario/

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Metamorfoses ambulantes

O que Raul cantava como preferência nos anos 1970 tornou-se obrigação nos 2020

Nizan Guanaes  24 agosto 2020 na Folha

Eu prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

O que Raul cantava como preferência nos anos 1970 tornou-se obrigação nos anos 2020.

Isso vale para as pessoas e isso vale para as empresas. Sua capacidade de mudar é o maior seguro contra sua capacidade de ficar para trás.

As empresas mais valiosas do mundo são empresas de tecnologia, e elas têm o DNA da mudança. Facebook, Google, Apple, Amazon investem bilhões e bilhões e bilhões de dólares todos os anos na busca de novas tecnologias (e na aquisição de rivais inovadoras).

O melhor momento para inovar é quando as coisas estão indo bem. O maior freio à inovação é a complacência. A estratégia mais importante da sua empresa é a estratégia de mudança, é ela que garante o futuro. Alguém grande na empresa precisa focar isso, mas não o fundador ou o presidente-executivo, por mais brilhantes que sejam.

Isso vale para as empresas, isso vale para as pessoas. Vivemos vidas cada vez mais longas, que exigirão transformações pessoais. Antes, uma pessoa com 50 anos começava a planejar sua aposentadoria. Hoje, ela precisa planejar sua vida profissional para a segunda metade da sua vida. É preciso se preparar para ter várias vidas e várias atividades. E é normal se assustar com isso.

O Abilio Diniz fez 80 anos e organizou uma festa para falar de longevidade com qualidade. Ele reuniu os melhores do mundo em saúde, alimentação, atividade física. Um cientista barbudo subiu ao palco e disse que naquele momento estava nascendo um ser humano que não vai morrer. Ele será como um carro, que troca as peças e segue rodando.

Por isso voltei a estudar em Harvard. Se não dá para ter cabeça e disposição de 20 anos, dá para aprender como eles pensam. E agregar a minha vasta experiência, que isso não tem Mastercard que compre.

Eu já estou na minha quarta vida. Entrei na publicidade como redator. Naquele tempo a Bahia já era muito criativa, mas atrasada como mercado publicitário. A melhor ideia da minha vida foi vir morar em São Paulo. Quando cheguei aqui, todos os publicitários eram chiques. Só falavam em Nova York, Londres, e queriam fazer coisas superinteligentes.

Eu me posicionei diferente: vou falar do Brasil, para o Brasil. E falar o óbvio, demonstrar as coisas boas do produto. Duas agências eram ícones naquele tempo, a W/GGK, do mestre Washington Olivetto, e a Talent, do mestre Júlio Ribeiro. Uma era criação, a outra era planejamento. Eu, pretensiosamente, quis ser a W/GGK Talent, juntando as duas. Deu tão certo que vendi muito bem a minha agência.

Saí por contrato da publicidade e fundei o iG, numa época em que as pessoas perguntavam: “Mas, Nizan, esse negócio de internet vai dar certo?”.

Do iG, voltei à publicidade e criei com meus sócios um dos maiores grupos de comunicação do mundo. Deu tão certo que vendi muito bem o meu grupo.

Agora tenho uma empresa de estratégia, porque, num mundo em transformação acelerada, a estratégia mapeia os caminhos. Mas quero ter poucos clientes porque é preciso tempo para estudar e viajar, tempo para me informar, senão você é que fica para trás.

Meu pai era ascensorista quando conheceu minha mãe. Ele tinha um livro no colo, e ela perguntou o que ele estava lendo. Ele respondeu que estava estudando medicina. Ele sabia que a educação é o ascensorista da vida. Virou médico de sucesso e, com minha mãe engenheira, criou os filhos com retidão, educação e cultura.

O que você está aprendendo para a sua próxima vida?

Nizan Guanaes

Empreendedor, criador da N Ideias

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/nizanguanaes/2020/08/metamorfoses-ambulantes.shtml

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O plano do Google de provocar uma disruptura no ensino superior é exatamente o que o mercado de ensino superior precisa

Uma rápida olhada no modelo do Google mostra por que as faculdades devem se preocupar.

Jon Miltimore

por Jon Miltimore(tradução Evandro Milet) 

Minha esposa e eu recentemente contratamos um consultor financeiro que está nos ajudando a mapear nosso futuro financeiro. Ele parecia surpreso por não querermos tirar proveito da cláusula 529 do código tributário dos EUA, que ajuda os pais a economizar para a educação de seus filhos.

“Você tem três filhos”, disse ele. “As chances são de que pelo menos um irá para a faculdade. Não tem o que discutir. 

”Mesmo assim, questionamos. Gosto de reduzir minhas obrigações fiscais tanto quanto qualquer outra pessoa, mas a verdade é que tanto minha esposa quanto eu temos sérias dúvidas sobre o ensino superior. 

Embora nós dois tenhamos frequentado a universidade, as opções hoje parecem menos promissoras do que antes. 

A faculdade pode ter sido uma decisão sem discussão no passado para pais e alunos que podiam pagar, mas esse não é mais o caso. Custos crescentes, inflação de notas, redução de valor dos diplomas, a politização dos campi e uma série de outras questões tornaram menos claros os benefícios antes claros da faculdade.

Apesar de tudo isso, uma grande parte de mim ainda quer que meus filhos façam faculdade, porque parece que há poucas opções disponíveis. Isso pode estar mudando, no entanto.

Em julho, Kent Walker, vice-presidente sênior de assuntos globais e diretor jurídico do Google, anunciou no Twitter que a empresa estava expandindo suas opções de educação.

Foi um golpe direto na indústria de ensino superior da América.

“Diplomas universitários estão fora do alcance de muitos americanos, e você não precisa de um diploma universitário para ter segurança econômica”, escreveu Walker no blog do Google. “Precisamos de soluções novas e acessíveis de treinamento profissional – de programas vocacionais aprimorados à educação online – para ajudar a América a se recuperar e se reconstruir.

”Hoje, o @google está lançando um novo programa de empregos digitais abrangente para ajudar os americanos a voltar ao trabalho, quebrar barreiras educacionais priorizando habilidades e apoiar a recuperação econômica do país. Detalhes em minha postagem e destaques abaixo. https: //t.co/c4GrH5OA6h

– Kent Walker (@Kent_Walker) 13 de julho de 2020

Com certeza, é difícil imaginar alguém assumindo a indústria de ensino superior de US$ 600 bilhões dos Estados Unidos. No entanto, uma rápida olhada no modelo do Google mostra por que as faculdades devem se preocupar.

O Google está lançando vários cursos profissionais que oferecem treinamento para empregos específicos de alta remuneração e alta demanda. Os graduados do programa podem receber um “Certificado de Carreira do Google” em uma das seguintes posições: Gerente de projeto (US $ 93.000); Analista de dados ($ 66.000); Designer UX (US $ 75.000).

Embora o Google não tenha dito quanto custaria para receber um certificado, se for algo próximo ao Certificado de Profissional de Suporte de TI do Google, o custo é bastante baixo, especialmente em comparação com a faculdade.

Esse programa de suporte de TI do Google custa US$ 49 por mês para inscrições. Isso significa que um programa de seis meses custaria cerca de US $ 300 – mais ou menos o que muitos estudantes universitários gastam apenas com livros didáticos em um semestre, destaca Inc. 

Compare esse preço com o da faculdade, em que os alunos pagam em média cerca de US$ 30.000 por ano quando computados os custos de mensalidade, hospedagem, alimentação, taxas e outras despesas.

Ao contrário da faculdade, o Google não apenas entregará a você um diploma e o mandará embora. A empresa prometeu ajudar os graduados em suas buscas de emprego, conectando-os a empresas como Intel, Bank of America, Hulu, Walmart e Best Buy.

Os graduados também serão elegíveis para uma das centenas de oportunidades de aprendizagem que a empresa está oferecendo.

A Universidade ‘Vale a pena’?

Em economia, usamos um termo simples para falar sobre o que vale algo: valor. Sabemos que o valor é subjetivo. Mas se os consumidores compram algo livremente, isso sugere que os consumidores atribuem um valor àquele bem mais alto do que o preço.

Julgar o valor de um diploma é complicado, no entanto. Não é como comprar bife no mercado. Os compradores estão, em sua maioria, protegidos dos custos no curto prazo, e os benefícios da compra se estendem por muitos anos.

Sabemos que para muitos alunos, a faculdade é um excelente investimento que aumenta seus ganhos, enquanto para outros será um mau investimento porque eles não se formam ou adquirem habilidades de trabalho que não se traduzem em aumento de ganhos. (Por exemplo: eu trabalhei em um bar depois de receber meu diploma de graduação; não ganhei mais dinheiro porque tinha um diploma.)

Também sabemos que os preços e o valor mudam com o tempo. No caso do ensino superior, os preços aumentaram fortemente nos últimos 30 anos, enquanto o valor diminuiu.

Como Arthur C. Brooks apontou no The Atlantic em julho, de 1989 a 2016, os custos universitários com mensalidades e taxas aumentaram 98% em dólares reais (ajustados pela inflação), cerca de 11 vezes a renda familiar média.

Ao mesmo tempo, há evidências convincentes de que, embora o preço da faculdade esteja aumentando drasticamente, o valor dos diplomas está diminuindo devido ao excesso de diplomas.

Para pais como eu, a ideia de gastar US$ 350.000 para mandar meus três filhos para a universidade, para ser franco, me deixa um pouco enjoado. Do jeito que está, eu não vejo valor nisso. (Como digo à minha esposa, no entanto, isso não significa que não vou mandar meu filho para Princeton se ele ou ela for admitido e eu acreditar que a faculdade é a escolha certa para esse filho em particular.) Nos últimos dois anos, sempre que pensava no futuro dos meus filhos, ficava cada vez mais nervoso. Se não for a faculdade, então é o quê? Por que não existem opções melhores? Está aí uma grande necessidade.

A beleza dos mercados livres é que as necessidades não ficam sem atendimento por muito tempo. Em um sistema livre, a inovação tem uma forma de preencher as lacunas para atender ao que os consumidores desejam.

A expansão do sistema de certificação do Google oferece duas coisas que os jovens (e seus pais) valorizam muito: 1) treinamento em habilidades profissionais; e 2) prestígio.

Não subestime o poder deste último. Prestígio vale muito. Na verdade, quando você olha para a educação real que muitos estudantes universitários recebem hoje, prestígio é o que eles estão comprando, não educação.

O valor dos diplomas pode ter diminuído durante anos, mas pais e filhos ainda podiam aceitar os custos excessivos porque havia uma certa quantidade de status e reconhecimento conferidos simplesmente por estar na faculdade e depois se formar.

Grandes corporações como o Google têm mais a oferecer do que imaginam. No mercado de hoje, ter o Google em um currículo pode oferecer o mesmo prestígio de uma universidade – e possivelmente muito mais em termos de habilidades profissionais.

Assim que as empresas descobrirem que sua marca pode oferecer as mercadorias que os consumidores desejam – treinamento e validação para o trabalho -, isso pode perturbar o modelo educacional atual. É possível que as corporações também possam trazer um ressurgimento do antes popular estilo de aprendizagem prática que pode ser rastreado desde o Código de Hammurabi na Antiga Babilônia até os programas de treinamento de negócios de hoje, como Praxis e Google.

No mínimo, programas como os Certificados de Carreira do Google oferecerão competição muito necessária para o sistema universitário e opções adicionais para jovens que procuram dar seu próximo passo no mundo.

Pais do mundo, alegrem-se!

Jon Miltimore

Jonathan Miltimore é o editor-chefe da FEE.org. Seus artigos e reportagens têm sido tema de matérias na revista TIME, The Wall Street Journal, CNN, Forbes, Fox News e Star Tribune.Bylines: The Washington Times, MSN.com, The Washington Examiner, The Daily Caller, The Federalist, Epoch Times.

https://fee.org/articles/google-s-plan-to-disrupt-the-college-degree-is-exactly-what-the-higher-education-market-needs/amp

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Impactos da Pandemia na Educação: Uma Entrevista com Cláudio Moura Castro

Por André Medici no blog Monitor da Saúde  Ano 14, Número 109, agosto de 2020

Os efeitos da Covid-19 afetaram muitas vidas em todas as suas dimensões, mas certamente uma das dimensões onde o impacto parece ter sido maior foi a da educação. O ano de 2020 parece ter sido perdido em termos de progressos educacionais. Será verdade? Pode-se dizer que nem tanto ao mar e nem tanto à terra. É o que revela a entrevista de Cláudio Moura Castro.

Cláudio é um dos maiores especialistas em educação e formação profissional no Brasil, detendo uma vasta trajetória nacional e internacional. Nascido no Rio de Janeiro, foi bem cedo para Minas Gerais incorporando a perspectiva e a cultura daquele Estado em seu DNA intelectual. Graduado em Economia pela UFMG, mudou-se para os Estados Unidos onde fez mestrado na Yale University e, na sequência, doutorado na Vanderbilt University, ambos em Economia.  A passagem de Yale para Vanderbilt ocorreu através de uma longa viagem cruzando os Estados Unidos pela Route 66 no dorso de uma motocicleta. Ao longo do tempo complementou sua formação com cursos nas Universidades de Berkeley e Harvard.

Suas atividades como professor incluíram várias universidades como a PUC-Rio de Janeiro, Universidade de Chicago, Universidade de Brasilia, Univeristé de Geneve e Université de la Borgnone. No Brasil, liderou várias instituições como o Centro Nacional de Recursos Humanos (CNRH) do IPEA e foi Diretor da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) do Ministério Educação.

Passou um longo tempo de sua vida no exterior, inicialmente como Chefe da Unidade de Políticas de Formação da Organização Internacional do Trabalho em Genebra (Suiça), mudando-se depois para Washington, onde foi economista da educação do Banco Mundial e posteriormente, Assessor-Chefe de Educação no Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Ao retornar para o Brasil, na primeira década do milênio, Claudio foi assessor de grupos privados de educação superior, como o Pitágoras e Positivo e atualmente atua na consultoria Eduqualis e também como colunista da Revista Veja e do jornal Estado de São Paulo. Tem cerca de 50 livros e 300 artigos acadêmicos publicados em temas como educação, políticas sociais, saúde, ciência e tecnologia. Tem também interesse e publicações em áreas como turismo-aventura, arquitetura, ofícios manuais, marcenaria, mecânica, e expedições de aventura. Um livro que congrega parte dessas aventuras e é uma leitura imperdível é “Meio Século no Limiar do Perigo”, publicado em 2005 pela Editora Record.

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Monitor de Saúde (MS) – Uma das principais estratégias de combate a Pandemia do Covid-19 foi o distanciamento social, que inclui um conjunto de várias medidas, dentre as quais a primeira tomada na maioria dos países (ainda no início de março) foi o cancelamento das aulas presenciais em quase todos os países desenvolvidos, mas também nos países em desenvolvimento afetados pela pandemia. De acordo com dados da UNICEF para fins de julho de 2020, 1,7 bilhões de estudantes estavam temporariamente sem aulas, afetando 98% da população estudantil no mundo. Quais estratégias os países estão utilizando para evitar que haja uma perda, não só no ano letivo, mas principalmente, nos níveis de aprendizado dos estudantes?

Cláudio de Moura Castro (CMC) – Para início de conversa, ensino a distância (EAD) não é novidade. Em 1728 foi anunciado um curso pela Gazeta de Boston, oferecendo material para ensino e tutoria por correspondência. Em 1829, cria-se na Suécia, o Instituto Líber Hermondes, que ofereceu cursos à distância para mais de 150.000 pessoas. Essa modalidade dá um grande salto com a invenção do selo de correio, em meados do século XIX. Portanto, começando com o ensino por correspondência, o caminho do EAD vem sendo trilhado por mais de dois séculos.

No Brasil, em 1904, o Jornal do Brasil registra um anúncio oferecendo profissionalização por correspondência para datilógrafos. No ano de 1939, surgiu em São Paulo o Instituto Monitor, seguido do Instituto Universal Brasileiro. Ambos ofereciam cursos profissionalizantes. Estima-se em vários milhões de brasileiros aprenderam assim a consertar rádios. 

Em meados dos anos 50, aprendi também reparação de rádios, cursando o Monitor. E aprendi melhor por correspondência os assuntos equivalentes ao ensinado no nível médio.

Os avanços digitais tornaram as comunicações no ensino a distância amplamente mais rápidas e eficientes do que pelo correio. Mas a ideia é a mesma. Nada de novo. De resto, no ensino superior, antes da pandemia, a matrícula no EAD brasileiro já se aproximava da presencial.

O que há de novo e nem tão bem-vindo é o uso do EAD no ensino básico. Está longe de ser uma solução satisfatória, pois a presença física é essencial nesse nível. Porém, é a distância ou nada.

Por ser uma solução antes inexistente para este alunado, a transição sofreu com o inevitável atropelo e com a inexperiência de operar nesse nível. Não obstante, foi extraordinário o esforço para vencer essa barreira inicial. Considerando o formidável desafio, não se pode dizer que a escola fracassou.

MS – Os dados mostram que muitos países, especialmente os países mais avançados, têm utilizado tecnologias digitais, como a tele-educação, para manter a regularidade das classes nas escolas. Estas estratégias são eficientes, no sentido de cobrir a totalidade dos conteúdos transmitidos em aulas presenciais? Há alguma avaliação de que a qualidade da educação não está caindo pela troca de experiências presenciais por experiências digitais?

CMC – Mesmo países como o Brasil usam a Internet, Blackboard, YouTube, Zoom e múltiplas outras ferramentas. Não há nada de essencial que não esteja sendo usado dentre nós. Inexiste uma diferença significativa no que se adota nos nossos melhores sistemas de ensino, em comparação com, digamos, os Estados Unidos. O grande fosso é entre categorias de escolas. As melhores privadas embarcaram rapidamente e incorporaram todo o repertório tecnológico. Mas daí, é morro abaixo. A disponibilidade de computadores e banda larga cai, quanto mais pobre a escola – e inevitavelmente, os alunos. Dependendo de como se define ‘disponibilidade de tecnologia’, entre metade e 90% dos alunos têm alguma coisa que lhe permite o acesso às redes. Quando nada, um smartphone. Mas há uma diferença enorme entre os extremos. E note-se, uma família com cinco alunos, mesmo de classe média, não tem cinco computadores em casa. No limite inferior, algumas redes distribuem e recolhem materiais escritos nas casas dos alunos mais desprovidos. Está longíssimo do desejável, mas é melhor do que nada.

Diante desse quadro tão variado, os resultados não são menos díspares. Milhões de alunos perdem pouco ao frequentar o novo sistema. E há quem ganhe, pois as discussões digitais são mais eficazes para certos perfis psicológicos. Na outra ponta da distribuição, há muitos alunos a quem nada é oferecido ou que, desencorajados com a má experiência, abandonam o curso.

 MS – Ainda que haja o uso de estratégias digitais para substituir as aulas presenciais, nem sempre isso é possível dado que nem todos os alunos tem disponibilidade de tecnologia (computadores e internet) para aulas digitais. Nas economias avançadas, as escolas buscam levar aos estudantes mais carentes os computadores e a conexão para evitar estas perdas. Mas isto não ocorre nos países em desenvolvimento e de renda baixa. Qual o impacto que isto poderá trazer no aumento da inequidade de oportunidades futuras, para usar a linguagem de Amartya Sen, dado que a desigualdade educacional está na raiz das futuras inequidades sociais e na dinâmica do desenvolvimento econômico? É possível ter estratégias alternativas para evitar estas nefastas consequências?

CMC – Há respostas divergentes para duas questões paralelas. Na primeira, consideremos que a educação sempre serviu para arrumar as pessoas dentro de uma hierarquia econômica – que a curto prazo a pandemia não afeta. Quem tem mais e melhor educação, já começa em um galho mais alto. E vice-versa. Como todos estão sendo prejudicados, pode-se imaginar que esta ordenação não vai mudar muito. Na segunda questão, todos sofrem por receber uma educação improvisada. Porém, é pior para os mais pobres. Esta perda subtrai do já limitado capital humano que tem nossa sociedade. É um grande prejuízo, mas é de longo prazo e não temos como medi-lo de forma confiável.

MS – Como a Covid-19 tem afetado o desempenho da educação pública no Brasil? Por exemplo, na área de educação básica, os municípios estão dando boas respostas para evitar perdas de aulas e conteúdos educacionais na escola pública? Como os Estados estão enfrentando isso na educação secundária. Como o governo federal enfrenta a questão na educação superior?

CMC – Uma coisa é certa: o COVID-19 precipitou uma revolução tecnológica no ensino formal. Quem se persignava diante de um computador ou seus aplicativos, de um dia para o outro, passou a usá-los em tempo integral. Esse talvez seja o lado positivo mais espetacular da crise, uma vez que as tecnologias digitais podem trazer grandes benefícios, se bem usadas. Difícil imaginar que, ao fim da crise, tudo será abandonado.

Todavia, a qualidade do que acontece segue linhas quase previsíveis. Os estados sulinos, de São Paulo para baixo, reagiram rapidamente e estão se saindo tão bem quanto se poderia esperar. Algumas secretarias estaduais se organizaram seriamente para apoiar suas escolas. Filantropias como a Leman Foundation e o Instituto Unibanco montaram programas para ajudar as secretarias.

No resto do país a situação é muito variável. No Fundamental, os municípios mais estruturados e com educação melhor parecem mostrar dinamismo e capacidade de reação.  Em outros, já precários no seu ensino tradicional, não se pode esperar muito.

O MEC, mergulhado no maremoto das incessantes mudanças de equipe, pouco pôde ou soube oferecer para ajudar estados e municípios. O mais óbvio seria financiar tecnologia para escolas e alunos mais pobres. Mas sua ação tem sido tíbia. Com o novo Ministro, parece que vai mover-se nesta direção.

MS – Há no Brasil alguma diferença entre as estratégias, recursos e processos de enfrentamento da crise do Covid-19 na educação entre os setores público e privado de educação?

CMC – Monumental! O sistema privado, seja no Básico ou no Superior, em semanas ou dias se baldeou para a EAD. Claro, instituições alertas como o INSPER e FIA-USP andaram rápido e bem. Outras menos, mas não consta que alguma ficou paralisada, em qualquer nível.

Já no lado público, há duas situações fundamentalmente distintas. Praguejando, lamentando e sofrendo, o ensino básico foi arrastado para o EAD, algumas redes mais rapidamente do que outras. Não estavam preparadas e não tinham os meios financeiros e intelectuais para a transição. Mas a fizeram.

Em contraste, quase todas as universidades federais, simplesmente, empacaram. Segundo sua explicação, como nem todos os alunos têm acesso pleno à tecnologia, passar os cursos para EAD seria prejudicá-los, aumentando a desigualdade. Mas note-se que, segundo a Fundação Leman, quase todos os alunos do ensino médio têm, pelo menos, um smartphone.  É de se imaginar que, no ensino superior, quase todos tenham também computadores. E, não nos esqueçamos, o correio funciona. Seja como for, pela lógica das universidades públicas, é preferível prejudicar a todos do que apenas a uma pequena minoria. A se registrar, algo como meia dúzia das federais embarcaram no EAD (e vale notar, USP e Unicamp também).

MS – Quais são as diferentes modalidades de enfrentamento da crise da educação em escolas e universidades públicas e privadas?

CMC – Escolas tecnologicamente mais bem equipadas usam aplicativos como o Zoom para continuar com as aulas, seguindo o mesmo modelo do presencial. É a fórmula que menos terremotos provoca. E funciona. No nível superior, o EAD já é uma realidade consolidada em muitas instituições. Nessas escolas, seja com materiais escritos, seja com clipes televisivos, a única mudança é a migração de todos os alunos para a modalidade a distância. Naturalmente, para quem já era fraco ou não tinha EAD, as dificuldades foram maiores. Mas não nos esqueçamos, neste nível, a maturidade dos alunos e seus meios econômicos já são bem superiores. E como mostram os resultados do ENADE – pré-pandemia – entre distância e presencial não há diferenças significativas em favor de uma ou outra alternativa.

No nível Básico, a situação é muito mais incerta. Para começar, embora inevitável, não é uma boa solução suprimir a convivência com pares e professores.

 Na sua operação, algumas redes caminharam para soluções ao estilo Telecurso 2000, ou seja, a mesma aula para todos os alunos. Ilustrando, um único professor dá o curso de português da quarta série para toda a rede. O que complementa essas aulas é bem mais variado e de eficácia igualmente diferente.

A experiência norte-americana mostrou o enorme potencial de usar projetos, mais do que aulas expositivas regulares. Mas não tenho informações sobre esta prática no Brasil.

Um problema novo é que o aluno do ensino básico requer muito mais apoio pessoal. Necessita sentir-se parte de um grupo social e pode precisar atendimento personalizado para vencer as barreiras que vão aparecendo. Mas não creio que tenhamos informações adequadas sobre o desempenho das escolas nesse tópico.

MS – Um dos problemas associados a pandemia do Covid-19 é a sua instabilidade dada pelo risco de retornos ao crescimento de contaminados e novas ondas pandêmicas. Vários países estão passando por esse processo recentemente, como a Nova Zelândia, levando a ameaças de fechar novamente as escolas. Mesmo que as escolas não fechem, a insegurança dos pais deixa de levar as crianças às escolas. Nesse processo de incertezas, é possível fazer com que o modelo de educação digital passe a ser uma regra permanente e não uma exceção associada a crise?

CMC – Qualquer solução única para todos seria um desastre. Dado o maior grau de maturidade dos alunos do ensino superior há indicações de que o híbrido seja amplamente melhor do que o presencial tradicional. Ou seja, em casa mais leitura e mais escrita. E menos tempo ouvindo preleções. Fica o presencial para discussão e socialização. Mas quem olha para o mapa do Brasil logo vê que as distâncias impedem muitos de viver próximo a um curso. Portanto, o EAD puro é inevitável.

Nos primeiros doze anos de ensino, não pode estar em cogitação manter o ensino a distância, uma vez superados os riscos da pandemia. Além do que já foi mencionado, esse regime exige mais disciplina e responsabilidade pessoal, o que é uma capacidade mais precariamente distribuída entre os mais jovens e, em particular, entre os mais pobres.

Porém, à margem das rotinas presenciais, a nova tradição de reuniões a distância tem boas razões para ser mantida. Por exemplo, não seria mais fácil reunir-se com os pais por esta forma? Igualmente, muitos usos da tecnologia, impostos pela distância, podem ser mantidos no futuro.

Quando voltarão as aulas presenciais? O pior cenário seriam voltar todas no mesmo dia, pois em cada lugar a pandemia tem a sua dinâmica própria. Seja como for, lamento confessar que não saberia dizer quando deve começar o lento processo de volta às aulas. De fato, é particularmente ambígua, mesmo a literatura técnica mais séria sobre esse assunto.

MS – No caso da educação superior, o modelo digital de @learning tem sido utilizado por muitas universidades e cursos digitais, especialmente ao nível de pós graduação, antes vistos com maus olhos, passam agora a ser encarados seriamente e muitas universidades de grande porte, como as Ivy-Leagues norte-americanas (Harvard, Stanford, Berkeley) estão utilizando este modelo como principal em muitas áreas. É possível que esse modelo passe a acontecer com maior frequência em outros níveis educacionais?

CMC – Entre a realidade e a imagem há uma distância. Ou como já dito, o fato vale menos do que a versão. Quando Sir Walton of Perry recebeu a missão de criar a Open University, logo procurou Oxford e Cambridge. Mas foi rechaçado sumariamente. Hoje já se viu que um bom EAD deixa pouco a desejar diante do presencial. E o híbrido, além de mais barato, mostra rigorosamente o mesmo resultado.

Com quinze anos de idade, morando no interior das Minas Gerais, ao fazer o curso do Monitor, achava que estava sendo muito bem servido. Era melhor e mais prático do que a escola local. Paradoxalmente, o curso por correspondência tinha mais atividades concretas e com as mãos do que a escola. Mais de meio século depois, pesquisas rigorosas mostram que minha percepção juvenil não estava equivocada.

Na Rússia, na década de 30, uma boa proporção dos estudantes de Engenharia estudava por correspondência. Nos fins de semana, iam praticar nos laboratórios e oficinas da escola. 

Mas números nem sempre enfrentam com êxito as mitologias arraigadas. Persistiu um ceticismo arrogante por décadas, desqualificando o ensino a distância. A pandemia veio mostrar a infantilidade de tais preconceitos.

Façamos um exercício intelectual singelo. Tomemos dois cursos fracos, um presencial e outro EAD. No primeiro, os alunos passam vinte horas semanais sentados diante de um professor que fala sem parar. Ou seja, a interação é mínima. Apenas para ouvi-lo, como é o caso, pouca diferença faria se estivesse em Tóquio, com o Zoom. Mas como aulas expositivas de 50 minutos não funcionam no EAD, para cumprir a carga horária, os cursos são obrigados a mandar os alunos lerem, escreverem e resolverem problemas. Ora, essa segunda solução é mais próxima do ‘ensino ativo’, amplamente mais eficaz que o ‘passivo’, que consiste em ouvir preleções. Ou seja, pela natureza do processo de ensino, o EAD é obrigado a usar uma pedagogia superior.

MS – Quais as tendências que podem ser estabelecidas para a educação no mundo pós-pandêmico dos próximos anos?

CMC – Obviamente, espera-se mais uso de modalidades a distância. Podem ser cursos inteiros, como já ocorre na graduação e na pós-graduação lato sensu. Ou então, reduzindo a carga presencial de outros. O que é para ler e escrever, será feito em casa. Para os laboratórios e discussões, se preservará o espaço físico da faculdade.

A pandemia reforça a tendência recente de usar mais metodologias ativas na sala de aula. Quebrado o encanto da velha aula expositiva, tudo fica mais fácil. E ao se experimentar novas fórmulas, facilita-se o diálogo, em vez do tradicional monólogo.

Rompido o tabu das tecnologias digitais, entra em cena o LMS, como Blackboard e Moodle. E mais vídeos, prontos ou feitos pelo professor. Mais aulas invertidas – apoiadas no YouTube. Mais discussões e chats a distância. Mais celebridades acadêmicas falando para turmas imensas.

Haverá mais pragmatismo e menos superstição, diante das escolhas de como conduzir um curso e suas tecnologias.

E como consequência, haverá também mais poder para aqueles encarregados de lidar com as tecnologias.    

Impactos da Pandemia na Educação: Uma Entrevista com Cláudio Moura Castro

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Grandes empresas podem funcionar como startups

por Evandro  Milet

Startup é um bicho diferente. Uma definição, no clássico “A Startup Enxuta”, Eric Ries afirma que startup é uma instituição humana projetada para criar novos produtos e serviços sob condições de extrema incerteza. Incerteza porque elas não sabem quem são seus clientes ou como devem ser os seus produtos. 

Desse modo, os métodos antigos de administração não são adequados para startups. Muitos afoitos partem então para fazer de qualquer jeito, sem método – e a coisa não funciona. Como muitas startups começam só com pessoal técnico, sem experiência administrativa, acabam seguindo essa linha. As incubadoras e aceleradoras costumam suprir essa deficiência com apoio e orientação.

Tudo começa com uma estratégia, que inclui um modelo de negócios, onde a ferramenta Canvas domina, mas o lema principal é “Pense grande. Comece pequeno. Cresça rápido.”

Assim, a gestão de startups ganhou um método e um jargão próprio, glamourizado por frases dos pioneiros do Vale do Silício. Por exemplo, “pedir a opinião dos clientes não é científico, científico é saber como eles vão se comportar diante do seu produto”. Daí a ideia de aprendizagem validada, onde se constrói o MVP – Mínimo Produto Viável para iniciar o ciclo construir-medir-aprender e o coloca em clientes para validar a ideia. 

Como diz outro pioneiro: “se você não tiver vergonha da primeira versão do seu produto, você o lançou tarde demais”. Ou “um projeto não resiste ao primeiro contato com um cliente”.  A pergunta por trás de uma startup de sucesso não é “Isso pode ser feito?”, e sim “Isso deve ser feito?”. Como o meu produto muda a vida das pessoas? Alguém estaria disposto a comprá-lo? 

Os possíveis investidores gostam de saber que existem clientes dispostos a testar o seu produto, e que você está aprendendo com eles e melhorando. Startups quebram porque estão fazendo coisas que ninguém quer. Se a ideia não se validar no cliente é melhor pivotar, isto é, mudar, começar de novo. Fundamental é errar rápido.

A velocidade das startups, muitas vezes provocando disrupções catastróficas em grandes empresas, chamaram a atenção destas que tentaram inicialmente trazê-las para dentro até perceberem que elas perdiam sua natureza rápida, afogadas pelas burocracias naturais de quem é grande. Fica o dilema: se não funciona trazê-las para dentro, a opção seria investir em startups fora como corporate venture, eventualmente criando um ambiente de startups para resolver desafios da empresa. De qualquer forma é um organismo fora da cultura e de um controle mais próximo e mais difícil de incorporar depois nos processos normais da empresa.

Eric Ries, novamente, no seu mais recente livro “O Estilo Startup”, mostra a alternativa de como uma grande empresa pode adotar o estilo em sua gestão normal, trocando grandes planejamentos por MVPs validados em clientes, mesmo para produtos não digitais como uma geladeira ou um motor.

As empresas modernas precisam de muito mais do que labs e hubs, puffs coloridos e pessoal descolado. Precisam de capacidade de fazer, de modo consistente e confiável, apostas em projetos de alto risco e grandes lucros sem comprometer a empresa. É assustador para elas, mas fracassar deve ser uma opção, diz Ries. 

A empresa precisa de uma área funcional de empreendedorismo cuja primeira responsabilidade é supervisionar as startups internas da empresa. A maioria das grandes empresas já está repleta de empreendedores, só não consegue identificá-los, e ainda por cima, sem perceber, os forçam a se esconderem ou a saírem da empresa. E todos têm dificuldade de lidar com a questão básica de como distinguir um empreendedor de um rebelde que simplesmente não tem disciplina e compromisso para seguir regras.

Grandes empresas querem o estilo startup na sua gestão, mas não é fácil manobrar um transatlântico.

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SÃO OS JOVENS QUE VÃO TER DE PAGAR PORQUE CORTAMOS IMPOSTOS DOS RICOS

Professor e analista de tendências, Scott Galloway compara cenário da pandemia a “Jogos Vorazes” e defende “mais milionários e menos bilionários” 

Texto: Luciano Huck  22 de agosto de 2020 no Estadão

Quem nasceu em uma família pobre em qualquer região do Brasil provavelmente não terá uma vida melhor. Segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômica), o tempo médio de mobilidade social de um brasileiro das camadas menos abastadas para atingir a média da classe média nacional é de, pasmem, 9 gerações. A vida como ela é retira a palavra esperança da língua portuguesa.

Quanto mais aprofundo meu interesse em buscar soluções definitivas para a redução das nossas obscenas desigualdades, mais solidifica a certeza de que, para não ser uma equação de soma zero, a educação deveria ser a prioridade número um do Estado.

Hoje o resgate da esperança, da mobilidade social e da geração de oportunidades ainda depende do acaso, da sorte. Como a que colocou o professor Gustavo Bezerra no caminho de Wanderson e Ewerton. Para ser mais preciso, não exatamente no caminho, mas em uma sala de aula da escola estadual Dario Gomes de Lima, a única no distrito de Fátima, município de Flores, a mais de 400 km do Recife.

Ambos vêm de famílias humildes e têm histórias cheias de reviravoltas. Ewerton nasceu em Salgueiro, também em Pernambuco. Mudou-se com a família para Fátima quando tinha 11 anos. A mãe, Valdilene, é costureira. O pai, pastor, morreu num acidente há três anos. Mora com a mãe e o irmão, Josué, 13. Wanderson nasceu em Planaltina, cidade-satélite de Brasília. A mãe, Maria José, é empregada doméstica. O pai, Adaelson, agricultor. Em 2008, pai e mãe se separaram —e Wanderson migrou para Fátima com o pai e o irmão, William, 14. Plantam mandioca, milho e feijão.

E foi por lá que o professor de 27 anos instigou em sala de aula seus alunos a encontrar e resolver um problema no povoado de 2,5 mil moradores. E entre um e outro invento, surgiu um modelo 100% sustentável de produção de biodiesel a partir do óleo de cozinha. À época com 15 anos, a dupla de alunos criadores dessa ideia nunca havia nem sequer pensado sobre o que é a ciência e a sua função no mundo.

Hoje, quase três anos depois, a ideia de transformar em biodiesel o óleo usado — que antes era descartado irregularmente e agredia o meio ambiente — deu certo. Rendeu à dupla o 1.º lugar da Feira Brasileira de Jovens Cientistas 2020 na categoria ciências exatas e um reconhecimento da embaixada norte-americana. Tudo isso levou Ewerton e Wanderson a virar referência no povoado — e a despertar crianças e adolescentes da comunidade rural para a educação, para a ciência. Uma transformação possível graças à vocação e à provocação de um bom professor.

Poucos meses atrás e 7 mil quilômetros distante da sala de aula do professor Gustavo, um burburinho movimentava os corredores da Stern School da New York University, uma das mais prestigiosas universidades do mundo. Os alunos do segundo ano do MBA (Master in Business Administration) espichavam o olhar em direção ao lado oposto do longo corredor que leva à sala de aula. Com passos firmes, figurino básico, careca reluzente que emoldura uma grossa armação preta de um óculo estiloso, lá vinha o professor Scott Galloway.

Assim como o professor Gustavo, o professor Galloway é uma unanimidade entre seus alunos. Sua área de influência, porém, transbordou a sala de aula e ganhou o mundo. Galloway foi nomeado “um dos 50 melhores professores de escolas de negócios do mundo” pela Poets & Quants e eleito um dos Líderes Globais do Amanhã pelo Fórum Econômico Mundial.

Conhecido por antecipar tendências e fazer análises agudas de cenários, especialmente sobre a disrupção de novas tecnologias, ele atuou em conselhos de administração de empresas como Urban Outfitters, Eddie Bauer e The New York Times. E é também autor dos best-sellers “Os Quatro: Apple, Amazon, Facebook e Google. O Segredo dos Gigantes da Tecnologia” e “A Álgebra da Felicidade: Notas sobre a Busca por Sucesso, Amor e Significado”.

Os professores sempre tiveram especial destaque na minha vida. Sou, afinal, filho de dois deles. Nos últimos anos, me reaproximei das salas de aula no intuito de ouvir e aprender sobre áreas que entendo necessárias para as transformações que o Brasil precisa. Por isso, aliás, os docentes têm merecido especial destaque nesta série de conversas que tenho tido ao longo da pandemia e compartilhado no Estadão. Yuval Harari, Esther Duflo, Michael Sandel e Peter Diamandis, todos esses pensadores de vanguarda são professores. E hoje é a vez de Scott Galloway.

Luciano Huck: Nos últimos anos você tem antecipado comportamentos e acertado previsões, principalmente em relação ao universo da tecnologia. Posto isso, gostaria de começar nossa conversa evocando seu lado “mediúnico” e te perguntar como você avalia o impacto do coronavírus?

Scott Galloway: A covid-19 é muito mais um acelerador do que um agente de mudança. Basta escolher qualquer forte tendência na economia, no mundo dos negócios, na sociedade, e adiantá-la em dez anos. Claramente, a questão mais evidente é a da desigualdade de renda. Nos EUA, o 1% mais rico concentrou 93% da renda nacional dos últimos 10 anos. Nós vimos essa tendência se acelerar neste ano e da noite para o dia estamos chegando a uma distopia. Se você tem uma renda de mais de 100 mil dólares no ano, há uma probabilidade de 60% de que você possa trabalhar de casa e de apenas 10% de que você seja demitido. Ou seja, você está seguro, tem acesso a assistência médica etc. 

Mas, se você ganha menos de 40 mil dólares no ano, a probabilidade de você trabalhar de casa é de apenas 10% e a de perder o emprego é de 40%. Então o que muitos norte-americanos e economistas ocidentais não querem admitir é que os muito mais ricos não só estão bem, mas eles estão no seu “auge”. A população mais pobre não tem a mesma renda, não tem o mesmo acesso a assistência médica, tem que se colocar em situações de risco para trabalhar, não tem quem cuide dos seus filhos enquanto trabalham. Então, de um dia para o outro, algumas tendências bastante prejudiciais se aceleraram.

Luciano Huck: Você trafega muito bem no mundo bilionário da tecnologia, discorre com muita fluidez e assertividade. Queria, então, te desafiar a refletir não sobre a riqueza, mas, sim, sobre a pobreza. Mesmo sendo uma das maiores economias do planeta, o Brasil também está no topo do ranking dos países mais desiguais. A pandemia veio para iluminar ainda mais essas nossas desigualdades. Não só do mais rico para o mais pobre, mas de acesso, de oportunidade, de educação, digital, de saúde, entre tantas outras. Somos um país de contrastes. Ao mesmo tempo que temos mais de 200 milhões de chips de celulares ativos, temos mais de 100 milhões de pessoas sem coleta de esgoto, ou 30 milhões sem água tratada. 

Não há dúvida que nas últimas décadas a tecnologia colocou a humanidade em um patamar de qualidade de vida jamais visto. Ainda assim, não conseguimos endereçar desigualdade abissais que estão em inúmeros recortes da sociedade. Qual a reflexão que você faz sobre isso?

Scott Galloway: Como comunidade global, nós progredimos bastante até 5 ou 10 anos atrás. O número de pessoas que vivem na miséria diminuiu pela metade em 10 anos — e a Organização Mundial da Saúde estimava que isso levaria 20 anos. Infelizmente, nossas políticas econômicas mais recentes decidiram gastar quase todo o capital excedente em basicamente duas coisas, guerras intermináveis no Oriente Médio e corte dos impostos dos ricos. Nós temos cada vez mais lucro nas mãos de menos pessoas. Então, enquanto a economia global cresceu e gerou uma tremenda prosperidade, nós não tivemos muito progresso. 

Nós abandonamos as pessoas comuns. Se você nasceu numa família rica, se você é bom no que faz, se você entende a tecnologia, essa é a melhor época para viver nos EUA, como no Brasil. Crianças comuns como eu nos anos 80 ainda tinham oportunidades notáveis, e havia cada vez mais oportunidades para a classe média brasileira nos anos 90 e nos anos 2000 também. Mas nossas políticas fiscais resultaram na economia do filme Jogos Vorazes — os que ganham muito têm a melhor das vidas, nunca tiveram tanta renda. Acho importante ter pessoas ricas. É motivador e bom para a economia. Mas nós precisamos produzir menos bilionários — e mais milionários. Aqui nos EUA nós temos um indivíduo que vale o PIB da Noruega. O que nós preferimos? Um homem com 165 bilhões de dólares ou 165 mil pessoas, a população de uma cidade pequena, todas milionárias?

A boa notícia é que o sistema, quando há tamanha concentração, acaba por se autocorrigir. A má notícia é que isso costuma se dar por meio de três mecanismos: guerra, fome ou revolução. E é possível dizer que nos EUA nós já estamos vendo dois desses três mecanismos. A onda de fome avança junto com o coronavírus. E nós temos uma leve revolução aqui. Os protestos nunca foram tão grandes nem tão amplos. Se poucas pessoas concentram todo o lucro, em algum momento o resto se cansa, e aí nós entramos em momentos muito preocupantes da nossa história. 

O capitalismo é o melhor sistema que existe, mas, se ele não se basear na empatia, se ele não se basear em algum nível de distribuição de oportunidades, ele não será sustentável. E eu sinto que estamos vendo isso nos EUA agora, e, de certa maneira, no Brasil também. O que você acha, Luciano?

Luciano Huck: Eu concordo. Aqui no Brasil eu tenho tentado ir além de expressar a minha opinião. Tenho pensado o que podemos efetivamente fazer para mudar essa realidade. E, na minha opinião, nós temos primeiro que reconhecer nossos privilégios. Nós somos brancos, tivemos todas as oportunidades na vida, ganhamos dinheiro. E eu acho que, se esse 1%, no caso do Brasil, que sempre foi acusado de omissão quando o debate era sobre como reduzir desigualdades, não se empenhar para ser parte da solução, nós vamos colapsar em breve. 

Podemos juntar todos os filantropos que mesmo assim o ponteiro das desigualdades não vai mudar. A meu ver, só o Estado tem o poder exponencial de transformação social, e o Estado é comandado por políticas, e quem faz as políticas são os políticos. Nós precisamos tentar seduzir boas cabeças a entrar na política e mostrar que elas devem servir ao seu país por um período. Temos que trazer as pessoas mais brilhantes para a política, não para ficar a vida toda lá, mas para passar 5 ou 10 anos e ajudar de alguma maneira. Em uma outra conversa neste mesmo Estadão, ouvi do geneticista Peter Diamandis que, “se você quer ficar bilionário, ajude 1 bilhão de pessoas”.

Scott Galloway: Há o estereótipo de que esse 1% são pessoas maléficas que só querem ficar em casa e encontrar maneiras de tirar mais dinheiro dos pobres. Mas o que eu descobri é que, de modo geral, as pessoas mais ricas são generosas e muito preocupadas. Além disso, elas são inteligentes. Elas sabem que, se a desigualdade de renda crescer muito, há uma grande chance de aparecerem governos populistas que, com o apoio das pessoas cansadas de serem abusadas, vão confiscar as suas riquezas. Pense em quantas vezes, na América Central, um grupo pequeno de pessoas agregou muito poder e usou esse poder para concentrar uma quantidade desproporcional de renda, e então os populistas elegeram um líder que tomou esses bens, tomou as propriedades privadas deles. 

Se sete famílias valem mais do que todo o Hemisfério Sul do planeta, em algum momento esse Hemisfério vai encontrar uma maneira de tomar as riquezas dessas sete famílias. Acho que nos EUA, e talvez no Brasil, mesmo os ricos se dão conta de que precisam se comprometer com uma divisão do lucro.

O que é vergonhoso nos EUA é que nós somos o país mais rico do mundo, mas 40% da nossa população não consegue sobreviver três ou quatro semanas sem receber algum dinheiro. Nós estamos completamente dependentes do governo nesta época de pandemia, e o que descobrimos é que nós não investimos o suficiente nas nossas instituições, nos centros de controle e prevenção de doenças, nas redes locais de assistência médica, no sistema de segurança social. E isso deixou metade dos nossos irmãos vulneráveis. É um fracasso da nossa sociedade.

Uma das ações-chave para acabar com isso é o governo parar de auxiliar o poder privado e começar a conspirar virtuosamente junto com ele. Eu não sei como é no Brasil, mas cerca de um quarto do nosso PIB vai para o governo por meio de impostos. E nós podemos ajudar pensando, ok, não podemos ter um terço das famílias com a alimentação e as crianças ameaçadas, nós não podemos deixar que as escolas e as universidades entrem num sistema onde o 1% mais rico tem 77 vezes mais chance de ter uma educação de elite do que alguém que vem de uma família de baixa renda. Então eu acho que dentro do 1% mais rico, e eu sou um deles, há uma disposição de pagar mais impostos, o reconhecimento de que o que nos trouxe até aqui não vai nos levar até onde precisamos chegar.

Nós precisamos de liderança, de mais empatia, de mais cooperação global. Se você pensar na Segunda Guerra Mundial, tantas nações se uniram e trabalharam juntas… Se os russos, os ingleses e os americanos se acertaram durante a Segunda Guerra Mundial, não há motivo para não nos unirmos e trabalharmos juntos numa vacina, por exemplo. Não há razões para não compartilharmos conhecimento. O superpoder da nossa espécie é a cooperação, e eu gosto de pensar que vamos melhorar quando aceitarmos esse superpoder e começarmos a cooperar.

Luciano Huck: Já que puxei o tema da desigualdade… Talvez a mais grave e crítica delas no Brasil é em relação à qualidade da educação. Pessoalmente não enxergo uma transformação exponencial no Brasil enquanto o ensino do pobre não tiver qualidade similar ao do rico. Pelo que tenho lido e ouvido das suas ideias mais recentes, você enxerga de forma muito apocalíptica as transformações que a pandemia irá impor aos formatos atuais de educação. Você poderia falar um pouco sobre isso?

Scott Galloway: Nos EUA, a educação era o lubrificante da classe média. Ou seja, se você estudasse direito, você teria uma vaga numa escola estadual de baixo custo. O filho de uma mãe solteira imigrante que nunca ganhou mais de 40 mil dólares no ano, que nasceu e morreu como uma secretária, tinha a oportunidade de estudar na UCLA e de fazer uma pós-graduação na Berkeley — e a taxa escolar de um total de 7 anos era de 7 mil dólares.

Mas aumentamos tanto o preço que agora muitas universidades cobram mais de 250 mil dólares por uma taxa escolar de quatro anos. É uma época muito complicada para as famílias assumirem essa dívida. E isso coloca muita pressão sobre o jovem. Ele não consegue abrir um negócio, não assume riscos. Começa logo a trabalhar em grandes empresas para quitar o financiamento, o que atrapalha a economia, porque nas empresas pequenas é que estão a inovação e o avanço nos empregos. Nós gostamos de pensar que os EUA são uma meritocracia, e que qualquer pessoa pode ser o que quiser, mas, na verdade, nós somos um sistema de castas — diferentemente da Europa, aqui o sistema não é baseado no seu sobrenome, mas na sua universidade.

Nos EUA, agora existem só dois tipos de pessoas que frequentam as melhores universidades: os filhos dos ricos e alguns jovens muito notáveis de 15 a 17 anos, que, nessa idade, já têm uma patente, construíram poços na África ou são capitães dos seus times de  futebol. E a realidade é que 99% de nós não somos notáveis.

Se você pensar nas empresas que valem centenas de bilhões de dólares, como Amazon, Apple, Facebook e Google, o que todas têm em comum? Todas elas se encontram a uma distância percorrível de bicicleta das melhores universidades do mundo. As nossas melhores universidades não são apenas o epicentro de grandes oportunidades, mas também o epicentro do lucro.

Luciano Huck: Li que, se você nasce numa família pobre brasileira, vai levar nove gerações para alcançar a média da classe média. Então, se você precisa de nove gerações para melhorar a sua vida, você perde o direito de sonhar. Nós vivemos tempos muito desafiadores no Brasil. Quando você comenta sobre escolas, oportunidades, sonhos, e em como isso é estruturado nos EUA, eu lembro de uma fala sua sobre família e valores. Eventos que deslocam muita energia tendem a gerar transformações importantes. A pandemia que todos estamos vivendo era algo inimaginável. Como você entende que será o impacto dela da porta para dentro das famílias?

Scott Galloway: Há uma grande oportunidade, que eu chamaria de um despertar, baseado num senso de mortalidade. A curva da felicidade se parece com um sorriso. Entre 0 e 25 anos, todos nós somos muito felizes — nós surfamos, nós vamos a festas, temos amigos, nos apaixonamos, temos o coração partido, assistimos o Brasil na Copa do Mundo, vemos Guerra nas Estrelas, todas essas coisas maravilhosas da infância e juventude. Depois, dos 25 aos 40 anos, de modo geral, temos os anos menos felizes, porque, apesar do que os seus pais te disseram, você não vai emplacar um hit musical, um perfume com seu nome, você não vai ser um senador, você não vai ser o que quiser…

Você vai ter filhos, e a sua rotina vai ser muito estressante. Aí alguma coisa começa a acontecer entre os 45 e os 55 anos: você percebe que a vida vai acabar, que você alcançou algum sucesso econômico, que você é saudável, que você é incrivelmente abençoado e então você passa a sentir prazer em coisas que antes não sentia — na alimentação, na natureza, na arte, na música, nos relacionamentos. E as pessoas mais felizes do mundo são aquelas que deveriam ser menos felizes, porque são as menos saudáveis: os idosos, mas porque eles adquiriram essa visão em perspectiva. Tudo isso que agora nós estamos vivendo, de certa maneira, acelerou o tempo e nos adiantou em décadas essa visão em perspectiva.

A pandemia nos oferece a oportunidade de conseguirmos reparar e solidificar relacionamentos em poucas semanas. Isso porque a crise nos empurrou questionamentos. Tenho a relação que gostaria com os meus irmãos? E se tiver que me despedir deles por videochamadas por causa da doença? Estou no relacionamento amoroso que gostaria de estar? Não terei permitido que desatenção, competitividade e outras bobagens atrapalhassem minhas amizades?

O segredo da felicidade, segundo qualquer estudo, é o número e a profundidade dos relacionamentos que o indivíduo tem. Por causa da pandemia, existem hoje muitas pessoas sofrendo psicologicamente, fisicamente e economicamente. Se você se aproxima de seus irmãos, de seus amigos, de seus pais, e ajuda a cuidar deles, você fortalece essas relações.

“A pandemia nos oferece a oportunidade de conseguirmos reparar e solidificar relacionamentos em poucas semanas. Isso porque a crise nos empurrou questionamentos.”

Scott Galloway, professor

Luciano Huck: Um outro best-seller seu discorre sobre as quatro grandes empresas globais de tecnologia: Apple, Google, Facebook e Amazon. Todas elas, de diferentes maneiras, têm presença expressiva no Brasil. A pandemia já gerou transformações exponenciais nas relações digitais do nosso dia a dia. Seja na forma que trabalhamos, estudamos, nos relacionamos, compramos, nos alimentamos e etc… O que está mudando na área da tecnologia e para essa quatro gigantes?

Scott Galloway: Nos EUA, o e-commerce cresceu cerca de 1% ao ano na década de 2000. Em março deste ano, aproximadamente 18% das vendas de varejo aconteciam por meios digitais. A partir daí, em apenas 10 semanas de pandemia, esse índice foi de 18% para 28%. Ou seja, nós assistimos a uma década de progresso do e-commerce em menos de três meses. A porcentagem de pedidos online e entregues por delivery saltou de 2% para 20%. O que esses dados significam em termos de cadeia de suprimentos, de armazenagem, de transações, de empacotamento, de perecibilidade? Vai haver uma transição bilionária das lojas terciárias para as lojas online.

Há várias outras grandes oportunidades de investimento. Estamos vendo um progresso imenso na telemedicina e na assistência remota de saúde, graças ao uso de smartcâmeras, de tecnologias portáteis pelas quais pode ser feito o rastreamento de contatos ou conseguir informações a respeito de uma possível contaminação. Teremos oportunidades no ensino online remoto também, já que descobrimos que o câmpus universitário não precisa ser o lugar em que entregamos toda a educação.

Quanto às quatro grandes, infelizmente elas são monopólios sem regulamentação. Eu acho que deveria existir mais de dois sistemas operacionais de placa-mãe, eu acho que deveria existir mais de uma empresa de e-commerce. Tradicionalmente, nos EUA, nós quebrávamos essas empresas antes que elas chegassem a esse nível de concentração de poder, mas, por algum motivo, nós deixamos elas avançarem. Então a minha advertência para o Brasil é que não deixem essas empresas invadirem certos setores da economia.

“O capitalismo é o melhor sistema, mas, se não se basear na empatia e distribuição de oportunidades, ele não será sustentável.”

Scott Galloway, professor

Luciano Huck: Seus artigos, seu podcast e mesmo seus disputados cursos da NYU orbitam muito sobre a sociedade norte-americana. Por isso lhe pergunto, qual a imagem e percepção que você tem em relação ao Brasil? E qual é a imagem que você acha que atualmente estamos passando para o mundo?

Scott Galloway: Na Europa, quando você vê o noticiário, dois terços são sobre o mundo e um terço é sobre o país específico do noticiário. Nos EUA é ao contrário: em dois terços nós falamos sobre nós mesmos e no outro terço sobre o resto do mundo. Os norte-americanos são muito narcisistas. Agimos como se fossem os EUA e os sete anões, quando se trata das outras partes do mundo. De modo geral, eu diria que a impressão dos norte-americanos sobre o Brasil era muito otimista nos anos 1990 e 2000. Na época do Bric, havia uma animação com o Brasil, a Rússia a Índia e a China. Mas os últimos dez anos foram uma década perdida para o Brasil e para a América Latina, em virtude de políticas deficientes e fatores macroeconômicos.

O país não alcançou a expectativa de prosperidade e o potencial que muita gente na Europa e nos EUA acreditava que alcançaria. Fora isso, eu acho que muitos de nós pensam no Brasil como um aliado, como um país cujas pessoas têm um entusiasmo incrível pela vida, um país com muitas belezas naturais. Todo ano eu vou surfar com amigos em Floripa e sempre agarro as oportunidades para ir a São Paulo. É um país com vantagens incríveis, porque a marca dele no mundo é a de um lugar de beleza extraordinária, com relevância cultural e, economicamente, à espera de decolar. Então eu diria que, de modo geral, nossa visão do Brasil é a de um potencial não alcançado.

Luciano Huck: Nossos países, Brasil e EUA, não passaram no teste da pandemia. São dois exemplos de países mal liderados nesta crise de saúde. Como você vê o impacto disso na imagem de ambos os países e no arranjo geopolítico mundial?

Scott Galloway: Pensando no Brasil, as pessoas querem ir ao Brasil, as pessoas querem trabalhar com brasileiros, há uma ideia global dos valores e das belezas do Brasil, e isso é uma vantagem enorme. Quanto aos EUA, dois terços das pessoas que ganham uma certa quantidade de dinheiro sonham em ir para os EUA. Querem comprar produtos dos EUA, querem colocar os filhos em escolas americanas. Então a imagem de uma nação para o mundo é um bem muito importante.

Não há como negar que a marca do Brasil e a marca dos EUA sofreram um desgaste expressivo durante a pandemia. Os EUA são a nação mais rica do mundo, e o Brasil também é relativamente rico, mas nós sairemos dessa pandemia com números desproporcionais de infectados e de mortos. Tudo isso diante do fato de que nós gostamos de pensar que nossas culturas são inovadoras, que nossa assistência médica é robusta, que temos economias fortes. E, além de tudo, os EUA e o Brasil tiveram mais tempo para se preparar para isso do que a China e a Europa. Nossas reputações globais sofreram golpes muito fortes. 

Você pode dizer que isso aconteceu por vários motivos, desde a politização das massas até o enfoque total na economia, assistências médicas caras, porque esse vírus não é um vírus de oportunidades iguais, ele tem atacado os pobres e os negros mais intensamente. E, além disso, houve uma negação completa por parte das nossas lideranças em tentar entender o que realmente estava acontecendo, em reconhecer a ciência, em respeitar a verdade. Eles acharam que podiam ignorar tudo. O nosso presidente disse essas exatas palavras: “Eu acho que isso vai desaparecer em um passe de mágica”. Nossas nações vão sair disso menos saudáveis, menos respeitadas. Nossos filhos e os nossos netos vão pagar o preço por isso.

Em vez de nos adiantarmos em investimentos agressivos e sacrifícios, nos EUA estamos lidando com novos impostos, com novos desafios para gerar trilhões de dólares de estímulo econômico. E, como nós diminuímos os impostos dos ricos nos últimos 20 anos, para financiar esse estímulo nós teremos que emprestar dinheiro dos nossos filhos e dos nossos netos por meio de dívidas públicas, coisa que outras nações não precisam fazer, porque elas quebraram a curva da contaminação. O que nós decidimos fazer nos EUA e no Brasil foi falar para os mais jovens: “queremos que vocês trabalhem mais, queremos que vocês passem menos tempo com as suas famílias para financiar o reparo dos erros que estamos cometendo”. Não estamos apenas tomando más decisões nos dois países; nós estamos decidindo que quem pagará por esses erros são os mais pobres, neste primeiro momento, e depois os nossos filhos e netos, porque estamos financiando o estímulo econômico por meio de dívidas.

Vamos sair disso substancialmente enfraquecidos. O bastão da liderança global saiu dos EUA e foi para a China. A China é um país mais denso, tomou as medidas necessárias para controlar a pandemia, lidou com isso de modo eficiente e rápido. Já nos EUA, nós pensamos que somos excepcionais, que somos diferentes, nós pensamos confortavelmente que isso não chegaria até aqui. Acho que no Brasil também teve isso, algo fez vocês acreditarem que eram excepcionais, que seria possível escapar do vírus — vocês pegaram da gente um pouco do que eu chamo de vírus da arrogância. O problema é que o coronavírus não recebe esse memorando dizendo o quanto somos excepcionais nos EUA ou no Brasil.

Nossa população também tem que ser responsabilizada. Nossos avós fizeram grandes sacrifícios na Segunda Guerra Mundial. Muitos dos nossos pais, nos EUA, fizeram sacrifícios no Vietnã. Mas parece que a nossa população não quer fazer os sacrifícios necessários. Nos EUA, um terço dos homens não usa máscara regularmente, porque eles acham que isso os faz parecerem fracos. Precisamos lidar com algumas questões difíceis, não só sobre os nossos líderes, os quais falharam em todos os aspectos no trabalho principal deles, que era nos manter seguros. Precisamos também olhar no espelho e nos perguntarmos se tivemos a garra e se tomamos as atitudes necessários. Usar uma máscara não é para se proteger, é para proteger as pessoas vulneráveis para as quais você poderia passar o vírus.

Luciano Huck: Você acha que o crescimento de Joe Biden na corrida presidencial americana pode significar o enfraquecimento desta narrativa, que se multiplicou em várias democracias mundo afora, terraplanista, obtusa, negacionista, truculenta e polarizadora? Este techpopulismo raso e barato está perdendo espaço?

Scott Galloway: Se você olhar para a nossa história, a combinação do nacionalismo com uma economia fraca pode levar a lugares muito tenebrosos. O lado bom disso é que talvez a próxima geração de líderes no Brasil e nos EUA volte a valorizar o superpoder da nossa espécie, a cooperação. E implementar políticas que promovam os sacrifícios necessários para ajudar os nossos conterrâneos a saírem da pobreza, mudar essa tendência poderosa e resistente de desigualdade, começar a sair das trincheiras. Espero que, da mesma maneira que nós fizemos mal para o mundo com esse nacionalismo, que inclusive pode se tornar fascismo se não tomarmos cuidado, espero que possamos cauterizar, mudar de direção, contornar essas tendências perigosas. 

Espero que tudo isso comece aqui no dia 3 de novembro, que comecemos a rejeitar essa odiável tendência nacionalista e polarizadora que temos nos EUA. As pessoas ainda olham para os EUA como uma liderança, e espero que uma vitória retumbante do Biden em novembro possa ser a fagulha de uma explosão ao redor do mundo que faça as pessoas se unirem novamente para tirar os pobres da miséria. Espero que, com isso, possamos aproveitar as forças uns dos outros e parar de focar nas nossas diferenças para focar no que nos une. Que seja um momento de rejuvenescimento, de recuperação e de alianças fortes.

Luciano Huck: Muito obrigado pela conversa, foi uma honra compartilhar ideias com você e ouvir suas reflexões sobre o mundo na pandemia e no pós-pandemia.

https://www.estadao.com.br/infograficos/cultura,sao-os-jovens-que-vao-ter-de-financiar-os-reparos-porque-cortamos-impostos-dos-ricos,1114826

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Sim, a política na empresa ainda é uma coisa relevante quando você está trabalhando remotamente.

A política na empresa está bem viva, mesmo quando o cafezinho ou a sala de reuniões são virtuais. Veja porque a ciência diz que nunca vamos fugir deles.
Por Tomas Chamorro-Premuzico(Fast Company) (Tradução Evandro Milet)
O bom senso e a experiência ditam que sempre haverá política de empresa em ação, mas o que acontece quando removemos o escritório?
Essa questão é mais pertinente do que nunca porque, pela primeira vez na história, uma grande parte da força de trabalho industrializada foi desligada de seu habitat físico. A tecnologia pode apagar, ou pelo menos descontaminar, as forças invisíveis que governam a dinâmica de poder de uma organização? As estratégias maquiavélicas tóxicas ainda têm lugar em um mundo exclusivamente digital? As habilidades políticas ainda são um forte lubrificante de carreira na era aparentemente estéril das reuniões do Zoom? E se tudo isso acabar, estaremos realmente melhor?
Há uma longa tradição na psicologia organizacional de estudar a política do escritório. Isso é definido amplamente como qualquer tentativa de operar fora dos processos organizacionais formais para atingir objetivos pessoais, muitas vezes às custas da organização. Embora as políticas de escritório tenham má reputação, geralmente são vistas como inevitáveis. Alguns acadêmicos dizem que pode haver um lado bom na política. Ao ajudar os colegas de trabalho a negociar entre diferentes alternativas, um funcionário pode chegar a um consenso que equilibre seus próprios interesses e os da organização. A política também é um ingrediente essencial de confiança e reciprocidade, por isso fortalece as relações interpessoais no trabalho, seja para fins positivos ou negativos.
Bem ou mal, os pesquisadores sempre estudaram a política no contexto de interações físicas ou de sinais entre colegas de trabalho. Desde rumores, fofocas e acordos tácitos em torno do mítico bebedouro do escritório, ao agora muito distante networking após o expediente em um bar, a política organizacional sempre presumiu o contato offline entre as pessoas, em parte porque essas interações eram mais difíceis de rastrear e registrar. 
Muitos dos principais ingredientes que alimentam a política do escritório (química, carisma, adequação à cultura, atratividade e habilidades sociais) têm maior probabilidade de se manifestar no mundo real do que online. 
Mover o escritório para online e tornar cada interação entre os funcionários (e seus chefes) padronizada e digitalizada por tecnologia faz a diferença. Por exemplo, as pessoas passam um dia durante uma reunião tradicional presencial interagindo individualmente, durante os intervalos, no bar e em um jantar pós-reunião. O tempo todo, eles são capazes de monitorar as expressões uns dos outros ao vivo. 
Em uma videoconferência, apesar de todos os recursos avançados e dispositivos para replicar o mundo real, encontramos pessoas distraídas e fazendo várias tarefas ao mesmo tempo enquanto tentam acompanhar uma apresentação linear e ainda fazer seus comentários para todos. Claro, as pessoas ainda podem enviar mensagens individuais e há um motivo para isso acontecer fora dos canais da empresa no WhatsApp ou mensagem de texto. 
Mas isso requer muito esforço e concentração, e ainda não há química ou comunicação offline para ler a sala e usar as habilidades políticas adequadas.
Pesquisas mostram que, quando o escritório muda do mundo físico para o virtual, a política diminui. Há menos tentação de trocar idéias e seduzir, jogar charme e negociar, persuadir e influenciar. As habilidades típicas que permitem que pessoas manipuladoras e influentes consigam isso – principalmente introvertidos carismáticos com uma disposição narcisista e moralmente fraca – são menos eficazes no mundo digital. 
No entanto, pesquisas anteriores podem ter subestimado o impacto da política no escritório virtual, porque ainda havia um mundo presencial para política e animais políticos podem ter focado seus esforços de movimentação e negociação no mundo analógico, em vez de no mundo digital. 
Há cinco razões para esperar que a política do escritório continue a existir, mesmo se acabarmos com o escritório.
1 – HUMANOS SÃO POLÍTICOS POR NATUREZA
Sempre encontraremos uma maneira de usar nossas habilidades sociais e vieses pessoais para promover nossos próprios interesses. Grupos e organizações são essenciais para nos ajudar a atingir certos objetivos pessoais, como ser pagos para trabalhar, mas também restringem nossos próprios interesses exigindo sacrifícios. 
O trabalho em equipe é sempre sobre deixar de lado suas próprias agendas individuais para que você possa colocar os interesses coletivos em primeiro lugar. É inerentemente humano otimizar nosso interesse próprio no processo.
2 – AMBIENTES ONLINE REPLICAM SEUS EQUIVALENTES OFFLINE
A internet pode ter começado como um universo alternativo ao mundo real, mas quase sempre acabou replicando, se não ampliando esse mundo real. As pessoas compram, namoram e trabalham online como faziam offline. Você pode ver os interesses políticos em e-mails da mesma forma que na comunicação analógica ou falada. Então, embora seja tentador ver novos aplicativos e ambientes virtuais como sem precedentes e estranhos, eles são simplesmente complementos tecnologicamente habilitados para o que sempre tivemos, desejamos e precisávamos. O Facebook não criou a motivação para espionar você
O Facebook não criou o impulso de espionar seus amigos do ensino médio, assim como o Tinder não inventou conexões impulsivas e superficiais, o Twitter não criou nosso apetite por notícias falsas ou viés de confirmação, e o Instagram não é o culpado por nossos impulsos narcisistas de se envolver em compartilhamento excessivo.
3 – A PERSONALIDADE SE TRANSFERE INTACTA DO OFFLINE PARA O MUNDO ONLINE
Uma consequência natural disso é que nossas personalidades não mudam muito do mundo analógico para o digital. Na verdade, somos bastante consistentes e desejosos de expressar nossa identidade e preferências com o mesmo entusiasmo em ambientes virtuais. (Isso explica por que nossos dados pessoais são tão valiosos para os profissionais de marketing.) A pessoa que aparentamos ser online é a mesma que comprará produtos relevantes ou consumirá mídia relevante – online ou offline. Isso significa que os indivíduos políticos encontrarão uma maneira de serem políticos mesmo se você tirar o escritório e eles nunca mais se encontrarem fisicamente com um colega de trabalho ou chefe. Você só se livrará de sua política se se livrar completamente deles.
4 – NÃO PERMITIREMOS QUE A TECNOLOGIA NOS CONTROLE
Antes da pandemia, os funcionários já estavam produzindo grandes quantidades de dados que podiam ser analisados pela IA para inferir seus estados emocionais, produtividade, engajamento e personalidade. Embora esse uso de tecnologia possa parecer “assustador”, na verdade poderia ser implantado para fins éticos e pró-sociais. Por exemplo, um chefe desprezível pode perseguir um funcionário offline, mas seus comentários e ações seriam detectados e registrados em um ambiente online. Comentários sexistas ou racistas podem passar despercebidos offline, mas não online. Mesmo metadados (mapeamento dos padrões e redes de comunicação) podem ser usados para medir se uma cultura é mais ou menos inclusiva e se as forças políticas estão em jogo. Imagine dois chefes planejando algo e e-mails sendo trocados com muita frequência até altas horas, por exemplo. Esta é a razão pela qual talvez nunca vejamos a IA alavancada da maneira que poderia. Não é porque os funcionários não podem confiar nela, mas porque podemos acabar expondo chefes antiéticos.
5 – AQUELES QUE TÊM PODER PRECISAM DE POLÍTICA PARA MANTÊ-LO
Alguns líderes lideram porque devem. Eles têm talento para a liderança e são um recurso valioso para a organização, combinando competência com uma admirável ética de trabalho e integridade. Mas também existem aqueles que lideram apesar de terem talento limitado para liderança. Eles são os que precisam da política para manter o poder e proteger seus próprios interesses acima dos da organização. Organizações caracterizadas por culturas poluídas e podres permitem que líderes egoístas e maquiavélicos prosperem.Não é a tecnologia, mas a cultura de uma organização, que determinará o grau de política que os funcionários terão de suportar, mesmo quando estão trabalhando em casa.
SOBRE O AUTOR
Dr. Tomas Chamorro-Premuzic é uma autoridade internacional em avaliação de liderança, people analytics e gestão de talentos

https://www.fastcompany.com/90512705/yes-office-politics-are-still-a-thing-when-youre-working-remotely-heres-why

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A próxima pandemia global será tecnológica?

7 de julho Klaus Æ. Mogensen

Os patógenos digitais se comportam de maneira muito semelhante a suas contrapartes biológicas. Então, quão vulneráveis somos a uma epidemia global de vírus de computador?

Pandemias passadas e presentes foram todas de natureza biológica. Elas começaram a partir de um patógeno de doença, geralmente aquele que passou do contágio animal para o humano. A definição de livro didático de uma pandemia é “uma epidemia de doença que se espalha por uma grande região, por exemplo, vários continentes ou em todo o mundo, afetando um número substancial de pessoas”. 

No entanto, poderíamos imaginar uma pandemia que não fosse de natureza biológica? E se as pessoas afetadas não estivessem infectadas, mas sim afetadas por seus dispositivos tecnológicos sendo contaminados por um patógeno digital? Em outras palavras: em nosso mundo tecnologicamente interconectado, faz sentido falar sobre uma pandemia ocorrendo no mundo digital? 

Afinal, os vírus de computador são chamados de vírus porque se comportam de maneira muito semelhante a suas contrapartes biológicas, espalhando-se rapidamente de um hospedeiro para outro e passando de um problema local a regional e global em um período de tempo exponencial. 

Semelhante a como um vírus biológico deve sequestrar uma célula humana para se espalhar, um vírus de computador deve sequestrar uma informação – como um arquivo ou documento infectado. Uma pessoa infectada só pode viajar na velocidade de um avião, mas as informações infectadas podem viajar (quase) na velocidade da luz. Não há fronteiras na Internet, portanto, não há como instituir quarentenas nacionais. Consequentemente, as doenças em nossos sistemas digitais são menos facilmente contidas porque se espalham mais rápido do que podemos nos adaptar. 

Existem vários exemplos de infecções de computador que podem ser consideradas pandemias tecnológicas. Em 1998, cerca de 10% de todos os computadores conectados à Internet foram infectados por um software malicioso chamado ‘worm Morris’, que reduziu a velocidade dos computadores até a paralisação. Na época, havia apenas cerca de 60.000 desses computadores; hoje, uma taxa de infecção semelhante seria desastrosa. Cinco anos depois, em 2003, o ‘Blaster worm’ infectou milhões de computadores em todo o mundo e, em 2007, os hackers usaram o ‘Storm worm’ para assumir o controle de milhões de computadores e usá-los para espalhar spam e roubar identidades. 

Desde então, nossos computadores ficaram mais protegidos, mas também se tornaram muito mais complexos, com mais oportunidades de encontrar falhas exploráveis. Além disso, agora usamos todos os tipos de dispositivos conectados que podem não ser tão protegidos quanto nossos computadores. Em 2016, o botnet Mirai assumiu o controle de um número desconhecido, mas grande, de câmeras de vigilância e outros dispositivos IoT e os usou em ataques de negação de serviço que tornaram sites populares como GitHub, Twitter, Reddit, Netflix e Airbnb inacessíveis. 

Com o crescimento da Internet das Coisas e o surgimento de dispositivos portáteis conectados, espera-se que essas explorações de vulnerabilidades cresçam. Somando-se à vulnerabilidade, quase todos os computadores, tablets, smartphones e smartwatches do mundo funcionam em apenas três sistemas operacionais – Windows, MacOS e Android – o que significa que bilhões de dispositivos são suscetíveis a um ataque efetivo de um único dispositivo de malware. 

Também estamos usando cada vez mais a ‘nuvem’ para executar nosso software e armazenar nossos dados, com alguns provedores importantes dominando o mercado de serviços em nuvem – e se um grande provedor for atacado com sucesso, isso pode afetar seriamente centenas de milhões de usuários em todo o mundo, potencialmente levando à perda permanente de informações vitais e à destruição de projetos de desenvolvimento em andamento. 

Em um futuro próximo, a inteligência artificial pode ser treinada para direcionar e explorar vulnerabilidades em softwares e sistemas operacionais, encontrando falhas nas atualizações segundos após seu lançamento, mas esperando para explorá-las até que as atualizações tenham sido amplamente instaladas – tudo sem supervisão humana que poderia intervir e interromper ataques que podem causar danos muito mais graves do que o pretendido. 

Dados todos esses fatores, o evento futuro de uma grave pandemia tecnológica pode não ser uma questão de “se”, mas sim de “quando” e “quão grave”. No pior caso, todos os computadores do mundo podem ser bloqueados e todos os dados em dispositivos conectados à Internet destruídos, resultando em um colapso econômico massivo. Dispositivos médicos de relógios esportivos pessoais até tecnologia hospitalar avançada se tornariam inoperantes, resultando na perda de vidas para potencialmente milhões de pessoas. 

Carros automatizados, trens, aviões e drones ficariam fora de controle, matando inúmeras pessoas no processo. Tal evento também poderia disparar sistemas de defesa automatizados, lançando arsenais de mísseis nucleares que não podem ser interrompidos – sem possibilidade de alertar alvos em potencial ou lançar contra-medidas. 

Uma pandemia tecnológica dessa magnitude é possível, mas improvável. Assim como existem contingências globais no caso de uma pandemia mundial como a COVID-19, também existem medidas em vigor para prevenir a propagação de uma pandemia de computador. Mesmo assim, poderemos um dia ver um vírus de tecnologia que essas medidas não conseguem deter e para o qual, como o vírus é desenvolvido por uma máquina, é impossível encontrar um antídoto. 

Nesse caso, devemos estar preparados para viver em um mundo de baixa tecnologia por algum tempo.Uma defesa eficaz contra tal evento é usar dispositivos que não estão conectados à web para todos os fins vitais. Isso, no entanto, tornaria muitas tarefas de trabalho e lazer muito mais complicadas, tornando-se um preço pela proteção que a maioria de nós provavelmente não está disposta a pagar.

ESCRITO POR

Klaus Æ. Mogensen

Este artigo é um trecho do relatório recentemente publicado do Copenhagen Institute for Futures Studies “Pandemics: Existential risk and enablers of change”. Você pode ler o relatório completo aqui 

https://cifs.dk/news/pandemics-existential-risks-and-enablers-of-change/

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