A dura verdade sobre culturas inovadoras

 

A criatividade pode ser complicada. Precisa de disciplina e gerenciamento.

Gary P. Pisano HBR (janeiro a fevereiro de 2019)

Resumo. Culturas inovadoras são geralmente descritas como muito divertidas. Elas são caracterizadas por uma tolerância ao fracasso e uma vontade de experimentar. Elas são vistas como psicologicamente seguras, altamente colaborativas e não hierárquicas. E a pesquisa sugere que esses comportamentos … mais

Uma cultura que leva à inovação não é boa apenas para os resultados financeiros de uma empresa. Também é algo que tanto os líderes quanto os funcionários valorizam em suas organizações. Em seminários em empresas em todo o mundo, fiz uma pesquisa informal com centenas de gerentes sobre se eles desejam trabalhar em uma organização onde comportamentos inovadores são a norma. Não consigo pensar em uma única instância em que alguém tenha dito “Não, eu não”. 

Quem pode culpá-los: culturas inovadoras são geralmente descritas como muito divertidas. Quando pedi aos mesmos gerentes que descrevessem tais culturas, eles prontamente forneceram uma lista de características idênticas às preconizadas pelos livros de administração: tolerância ao fracasso, disposição para experimentar, segurança psicológica, alta colaboração e não hierarquia. E a pesquisa apóia a ideia de que esses comportamentos se traduzem em um melhor desempenho inovador.

Mas apesar do fato de que culturas inovadoras são desejáveis ​​e que a maioria dos líderes afirma entender o que elas implicam, são difíceis de criar e manter. Isso é intrigante. Como práticas aparentemente tão universalmente amadas – até divertidas – podem ser tão difíceis de implementar?

A razão, acredito, é que as culturas inovadoras são mal compreendidas. Os comportamentos fáceis de gostar que chamam tanta atenção são apenas um lado da moeda. Eles devem ser contrabalançados por alguns comportamentos mais duros e francamente menos divertidos. A tolerância ao fracasso exige intolerância à incompetência. A vontade de experimentar requer disciplina rigorosa. A segurança psicológica requer conforto com franqueza brutal. A colaboração deve ser equilibrada com a responsabilidade individual. E o nivelamento requer uma liderança forte. Culturas inovadoras são paradoxais. A menos que as tensões criadas por esse paradoxo sejam cuidadosamente administradas, as tentativas de criar uma cultura inovadora fracassarão.

1. Tolerância para o fracasso, mas sem tolerância para a incompetência

Dado que a inovação envolve a exploração de terreno incerto e desconhecido, não é surpreendente que a tolerância ao fracasso seja uma característica importante das culturas inovadoras. Alguns dos inovadores mais elogiados tiveram sua cota de fracassos. Lembra do MobileMe da Apple, do Google Glass e do Amazon Fire Phone?

Apesar de todo o seu foco na tolerância ao fracasso, as organizações inovadoras são intolerantes à incompetência. Eles definem padrões de desempenho excepcionalmente altos para seu pessoal. Eles recrutam os melhores talentos que podem. Explorar ideias arriscadas que acabam falhando é bom, mas habilidades técnicas medíocres, pensamento desleixado, maus hábitos de trabalho e gerenciamento deficiente não. As pessoas que não atendem às expectativas são dispensadas ou assumem funções que se adaptam melhor às suas habilidades. 

Steve Jobs era famoso por demitir qualquer pessoa que considerasse não estar à altura da tarefa. Na Amazon, os funcionários são classificados em uma curva forçada e a parte inferior da distribuição é abatida. O Google é conhecido por ter uma cultura muito amigável aos funcionários, mas também é um dos lugares mais difíceis do mundo para conseguir um emprego (a cada ano, a empresa recebe mais de 2 milhões de inscrições para cerca de 5.000 cargos). Ele também tem um sistema de gestão de desempenho rigoroso que move as pessoas para novas funções, caso elas não se destaquem nas funções existentes. Na Pixar, os diretores de cinema que não conseguem colocar os projetos nos trilhos são substituídos.

Parece óbvio que as empresas devem definir padrões de alta qualidade para seus funcionários, mas, infelizmente, muitas organizações ficam aquém nesse aspecto. Considere uma empresa farmacêutica com a qual trabalhei recentemente. Fiquei sabendo que um de seus grupos de P&D não descobria um novo candidato a medicamento há mais de uma década. Apesar do fraco desempenho, os líderes seniores não fizeram mudanças reais na gestão ou no pessoal do grupo. Na verdade, sob o sistema de compensação igualitária da empresa, os cientistas do grupo vinham recebendo aproximadamente os mesmos salários e bônus que os cientistas em unidades de P&D muito mais produtivas. Um líder sênior confidenciou-me que, sem violações da ética, a empresa raramente demitia alguém em P&D por desempenho abaixo da média. Quando perguntei por quê, ele disse: “Nossa cultura é como uma família. Demitir pessoas não é algo com que nos sentimos confortáveis. ”

A verdade é que a tolerância ao fracasso exige pessoas extremamente competentes. As tentativas de criar novos modelos tecnológicos ou de negócios são repletas de incertezas. Freqüentemente, você não sabe o que não sabe e tem que aprender à medida que avança. “Falhas” nessas circunstâncias fornecem lições valiosas sobre os caminhos a seguir. 

Mas o fracasso também pode resultar de projetos mal planejados, análises falhas, falta de transparência e gerenciamento incorreto. O Google pode incentivar a tomada de riscos e o fracasso porque pode ter certeza de que a maioria dos funcionários do Google é muito competente.

Criar uma cultura que valorize simultaneamente o aprendizado por meio do fracasso e o desempenho excepcional é difícil em organizações sem nenhum histórico. Um bom começo é a liderança sênior articular claramente a diferença entre falhas produtivas e improdutivas: As falhas produtivas geram informações valiosas em relação ao seu custo. Um fracasso deve ser comemorado apenas se resultar em aprendizado. (O clichê “comemorar o fracasso” não atinge o objetivo – devemos comemorar o aprendizado, não o fracasso.) Um protótipo simples que não funciona como esperado devido a um problema técnico anteriormente desconhecido é um fracasso que vale a pena celebrar se esse novo conhecimento puder ser aplicado projetos futuros. Lançar um produto mal projetado depois de gastar US $ 500 milhões para desenvolvê-lo é apenas um fracasso caro.

A construção de uma cultura de competência exige a articulação clara dos padrões de desempenho esperados. Se esses padrões não forem bem compreendidos, as decisões pessoais difíceis podem parecer caprichosas ou, pior, interpretadas erroneamente como punição por uma falha. Os líderes e gerentes seniores em toda a organização devem comunicar as expectativas de maneira clara e regular. Os padrões de contratação podem precisar ser elevados, mesmo que isso retarde temporariamente o crescimento da empresa.

Os gerentes ficam especialmente desconfortáveis ​​em demitir ou mover pessoas quando sua “incompetência” não é culpa deles. A mudança de tecnologias ou modelos de negócios pode tornar uma pessoa muito competente em um contexto incompetente em outro. Considere como a digitalização impactou o valor de diferentes habilidades em muitos setores. Esse representante de vendas cujas habilidades interpessoais hábeis o tornaram um superstar pode não ser mais tão valioso para a organização quanto o engenheiro de software introvertido que desenvolve os algoritmos usados ​​para prever quais clientes têm maior probabilidade de comprar os produtos da empresa. Em alguns casos, as pessoas podem ser retreinadas para desenvolver novas competências. Mas isso nem sempre é possível quando habilidades realmente especializadas (digamos, um PhD em matemática aplicada) são necessárias para fazer um trabalho. Manter as pessoas que se tornaram obsoletas pode ser compassivo, mas é perigoso para a organização.

Manter um equilíbrio saudável entre tolerar falhas produtivas e erradicar a incompetência não é fácil. Um artigo de 2015 do New York Times sobre a Amazon ilustra a dificuldade. A peça, que foi baseada em entrevistas com mais de 100 funcionários atuais e ex-funcionários, rotulou a cultura da Amazon como “contundente” e contou histórias de funcionários chorando em suas mesas em meio a enormes pressões de desempenho. Um dos motivos pelos quais é tão difícil encontrar um equilíbrio é que as causas do fracasso nem sempre são claras. O projeto de um produto acabou apresentando falhas devido ao mau julgamento de um engenheiro ou porque encontrou um problema que mesmo o engenheiro mais talentoso teria esquecido? E no caso de julgamentos técnicos ou comerciais inadequados, quais são as consequências apropriadas? Todos cometem erros, mas em que ponto o perdão se transforma em permissividade? E em que ponto o estabelecimento de padrões de alto desempenho passa a ser cruel ou a deixar de tratar os funcionários – independentemente de seu desempenho – com respeito e dignidade?

Why leaders should encourage failure - Duke Corporate Education

2. Vontade de experimentar, mas altamente disciplinada

As organizações que adotam a experimentação se sentem confortáveis ​​com a incerteza e a ambigüidade. Elas não fingem saber todas as respostas de antemão ou serem capazes de analisar seu caminho para o insight. Elas experimentam mais para aprender do que para produzir um produto ou serviço imediatamente comercializável.

A vontade de experimentar, porém, não significa trabalhar como um pintor abstrato de terceira categoria que joga tinta aleatoriamente em uma tela. Sem disciplina, quase tudo pode ser justificado como um experimento. Culturas orientadas para a disciplina selecionam experimentos cuidadosamente com base em seu valor potencial de aprendizagem e os projetam rigorosamente para produzir o máximo de informações possível em relação aos custos. Eles estabelecem critérios claros no início para decidir se deve avançar, modificar ou eliminar uma ideia. E eles enfrentam os fatos gerados por experimentos. Isso pode significar admitir que uma hipótese inicial estava errada e que um projeto que antes parecia promissor deve ser eliminado ou redirecionado significativamente. Ser mais disciplinado para matar projetos perdedores torna menos arriscado tentar coisas novas.

Um bom exemplo de cultura que combina a disposição de experimentar com disciplina rígida é a Flagship Pioneering, uma empresa de Cambridge, Massachusetts, cujo modelo de negócios é criar novos empreendimentos com base na ciência pioneira. O Flagship geralmente não solicita planos de negócios de empreendedores independentes, mas, em vez disso, usa equipes internas de cientistas para descobrir oportunidades de novos empreendimentos. A empresa tem um processo formal de exploração por meio do qual pequenas equipes de cientistas, sob a direção de um dos parceiros da empresa, realizam pesquisas sobre um problema de grande importância social ou econômica – nutrição, por exemplo. Durante essas explorações, as equipes lêem a literatura sobre o assunto e envolvem a ampla rede da empresa de consultores científicos externos para conceber novos insights científicos. As explorações são inicialmente irrestritas. Todas as idéias – embora aparentemente irracionais ou rebuscadas – são analisadas. De acordo com o fundador e CEO Noubar Afeyan, “no início de nossas explorações, não perguntamos: ‘Isso é verdade?’ Ou ‘Há dados que apóiem ​​essa ideia?’ Não procuramos artigos acadêmicos que forneçam prova de que algo é verdadeiro. Em vez disso, nos perguntamos: ‘E se isso fosse verdade?’ Ou ‘Se apenas isso fosse verdade, seria valioso?’ ”A partir desse processo, as equipes devem formular hipóteses de risco testáveis.

A vontade de experimentar não significa jogar tinta aleatoriamente em uma tela.

A experimentação é fundamental para o processo de exploração da Flagship porque é como as ideias são selecionadas, reformuladas e evoluídas. Mas a experimentação na Flagship difere fundamentalmente do que vejo em outras empresas. 

Em primeiro lugar, a Flagship não realiza experimentos para validar as ideias iniciais. Em vez disso, espera-se que as equipes projetem “experimentos matadores” que maximizem a probabilidade de expor as falhas de uma ideia. 

Em segundo lugar, ao contrário de muitas empresas estabelecidas que financiam pesadamente novos empreendimentos na crença errônea de que mais recursos se traduzem em mais velocidade e mais criatividade, a Flagship normalmente projeta seus experimentos matadores para custar menos de US $ 1 milhão e levar menos de seis meses. Essa abordagem enxuta de teste não apenas permite que a empresa percorra mais ideias com mais rapidez; também torna psicologicamente mais fácil abandonar projetos que não vão a lugar nenhum. Ele força as equipes a se concentrarem estreitamente nas incertezas técnicas mais críticas e fornece a elas um feedback mais rápido. A filosofia é aprender o que você errou cedo e então seguir rapidamente em direções mais promissoras.

Terceiro, os dados experimentais da Flagship são sagrados. Se um experimento produzir dados negativos sobre uma hipótese, espera-se que as equipes eliminem ou reformulem suas ideias de acordo. Em muitas organizações, obter um resultado inesperado é uma “má notícia”. As equipes geralmente sentem a necessidade de girar os dados – descrevendo o resultado como uma aberração de algum tipo – para manter seus programas ativos. Na Flagship, ignorar dados experimentais é inaceitável.

Por fim, os próprios membros da equipe de risco da Flagship têm um forte incentivo para serem disciplinados em seus programas. Eles não ganham nenhum benefício financeiro por aderir a um programa de perdedor. Na verdade, exatamente o oposto é verdadeiro. Continuar a perseguir um programa fracassado significa abrir mão da oportunidade de ingressar em um vencedor. Mais uma vez, compare este modelo com o que é comum em muitas empresas: Ter seu programa cancelado é uma notícia terrível para você pessoalmente. Isso pode significar perda de status ou talvez até mesmo de seu emprego. 

Manter seu programa vivo é bom para sua carreira. Na Flagship, iniciar um empreendimento de sucesso, não manter seu programa vivo, é bom para sua carreira. (Divulgação: eu atuo no conselho de uma empresa emblemática, mas as informações neste exemplo vêm de um caso da Harvard Business School que pesquisei e sou coautor.)

A experimentação disciplinada é um ato de equilíbrio. Como líder, você deseja encorajar as pessoas a terem “idéias irracionais” e dar-lhes tempo para formular suas hipóteses. Exigir dados para confirmar ou eliminar uma hipótese muito rapidamente pode esmagar o jogo intelectual necessário para a criatividade. É claro que nem mesmo os experimentos mais bem projetados e bem executados sempre produzem resultados em preto e branco. Julgamentos científicos e de negócios são necessários para descobrir quais idéias avançar, quais reformular e quais eliminar. Mas os líderes seniores precisam modelar a disciplina, por exemplo, encerrando projetos que patrocinaram pessoalmente ou demonstrando disposição para mudar de ideia diante dos dados de um experimento.

Session Sync | An Experiment In Willingness

3. Psicologicamente seguro, mas com franqueza brutal

A segurança psicológica é um clima organizacional no qual os indivíduos sentem que podem falar verdadeira e abertamente sobre os problemas, sem medo de represálias. Décadas de pesquisa sobre esse conceito pela professora Amy Edmondson da Harvard Business School indicam que ambientes psicologicamente seguros não apenas ajudam as organizações a evitar erros catastróficos, mas também apoiam o aprendizado e a inovação. Por exemplo, quando Edmondson, o especialista em saúde Richard Bohmer e eu conduzimos pesquisas sobre a adoção de uma nova tecnologia cirúrgica minimamente invasiva por equipes de cirurgia cardíaca, descobrimos que as equipes com enfermeiras que se sentiam seguras ao falar sobre os problemas dominavam a nova tecnologia com mais rapidez. Se as pessoas têm medo de criticar, desafiar abertamente os pontos de vista dos superiores, debater as ideias dos outros e levantar contra-perspectivas, a inovação pode ser esmagada.

Todos nós amamos a liberdade de falar o que pensamos sem medo – todos nós queremos ser ouvidos – mas a segurança psicológica é uma via de mão dupla. Se é seguro para mim criticar suas ideias, também deve ser seguro para você criticar as minhas – seja você em posição superior ou inferior na organização do que eu. A franqueza nua e crua é fundamental para a inovação porque é o meio pelo qual as ideias evoluem e se aprimoram. 

Tendo observado ou participado de várias reuniões da equipe do projeto de P&D, sessões de revisão do projeto e reuniões do conselho de administração, posso atestar que o conforto com a franqueza varia dramaticamente. Em algumas organizações, as pessoas ficam muito à vontade para confrontar umas às outras sobre suas idéias, métodos e resultados. A crítica é aguda. Espera-se que as pessoas sejam capazes de defender suas propostas com dados ou lógica.

Em outros lugares, o clima é mais ameno. Desacordos são contidos. As palavras são analisadas cuidadosamente. As críticas são abafadas (pelo menos abertamente). Desafiar com muita força é arriscar parecer que você não é um jogador de equipe. Uma gerente de uma grande empresa onde trabalhei como consultora captou a essência da cultura quando disse: “Nosso problema é que somos uma organização incrivelmente boa”.

Quando se trata de inovação, a organização sincera sempre supera a boa. Este último confunde polidez e gentileza com respeito. Não há nada de inconsistente em ser franco e respeitoso. Na verdade, eu diria que fornecer e aceitar críticas francas é uma das marcas do respeito. Aceitar uma crítica devastadora à sua ideia só é possível se você respeitar a opinião da pessoa que deu o feedback.

Ainda assim, deixando de lado essa importante advertência, organizações “brutalmente honestas” não são necessariamente os ambientes mais confortáveis ​​para se trabalhar. Para estranhos e recém-chegados, as pessoas podem parecer agressivas ou duras. Ninguém mede as palavras sobre filosofias de design, estratégia, suposições ou percepções do mercado. Tudo o que alguém diz é examinado (independentemente do cargo da pessoa).

Construir uma cultura de debate franco é desafiador em organizações onde as pessoas tendem a se esquivar do confronto ou onde tal debate é visto como uma violação das normas de civilidade. Os líderes seniores precisam definir o tom por meio de seu próprio comportamento. Eles devem estar dispostos (e capazes) de criticar construtivamente as ideias dos outros sem serem abrasivos. Uma forma de estimular esse tipo de cultura é exigir que sejam criticadas suas próprias ideias e propostas. 

Um bom plano para isso pode ser encontrado no briefing do plano de batalha do General Dwight D. Eisenhower aos oficiais superiores das forças aliadas, três semanas antes da invasão da Normandia. Conforme relatado em Eisenhower, uma biografia de Geoffrey Perret, o general iniciou a reunião dizendo: “Considero dever de quem vê uma falha neste plano não hesitar em dizê-lo. Não tenho simpatia por ninguém, seja qual for sua posição, que não tolere críticas. Estamos aqui para obter os melhores resultados possíveis. ”

Eisenhower não estava apenas convidando críticas ou pedindo contribuições. Ele estava literalmente exigindo isso e invocando outro aspecto sagrado da cultura militar: o dever. Com que frequência você exige críticas de suas ideias de seus subordinados?

4 Ways to Be Brutally Honest Without Being Brutal | Inc.com

4. Colaboração, mas com responsabilidade individual

Sistemas de inovação que funcionam bem precisam de informações, contribuições e integração significativa de esforços de uma ampla gama de colaboradores. Pessoas que trabalham em uma cultura colaborativa veem a busca de ajuda de colegas como algo natural, independentemente de fornecer essa ajuda está dentro das descrições de trabalho formais de seus colegas. Eles têm um senso de responsabilidade coletiva.

Mas muitas vezes, colaboração se confunde com consenso. E o consenso é um veneno para a rápida tomada de decisão e navegação pelos problemas complexos associados à inovação transformacional. Em última análise, alguém precisa tomar uma decisão e ser responsável por ela. Uma cultura de responsabilidade é aquela em que se espera que os indivíduos tomem decisões e se responsabilizem pelas consequências.

Não há nada inerentemente inconsistente em uma cultura que é tanto colaborativa quanto focada na responsabilidade. Os comitês podem revisar as decisões ou as equipes podem fornecer informações, mas no final do dia, indivíduos específicos são encarregados de fazer escolhas críticas de design – decidir quais recursos vão e ficam, quais fornecedores usar, qual estratégia de canal faz mais sentido, qual plano de marketing é o melhor e assim por diante. A Pixar criou várias maneiras de fornecer feedback a seus diretores de cinema, mas como Ed Catmull, seu cofundador e presidente, descreve em seu livro Creativity, Inc., o diretor escolhe qual feedback obter e quais ignorar e é responsável pelo conteúdo do filme.

A responsabilidade e a colaboração podem ser complementares, e a responsabilidade pode impulsionar a colaboração. Considere uma organização onde você pessoalmente será responsabilizado por decisões específicas. Não há como se esconder. Você é o dono das decisões que toma, para melhor ou para pior. A última coisa que você faria é se desligar de feedback ou de obter a cooperação e colaboração de pessoas dentro e fora da organização que podem ajudá-lo.

Um bom exemplo de como a responsabilidade pode impulsionar o comportamento colaborativo é a Amazon. Ao pesquisar um caso para a Harvard Business School, aprendi que quando Andy Jassy se tornou chefe do então incipiente negócio de computadores em nuvem da Amazon, em 2003, seu maior desafio era descobrir quais serviços construir (dificilmente uma tarefa fácil, dado que os serviços em nuvem eram um espaço completamente novo para a Amazon – e para o mundo). Jassy imediatamente procurou a ajuda das equipes de tecnologia da Amazon, seus líderes comerciais e técnicos e desenvolvedores externos. O feedback deles sobre requisitos, problemas e necessidades foi fundamental para o sucesso inicial do que acabou se tornando o Amazon Web Services – hoje um negócio lucrativo de US $ 12 bilhões administrado por Jassy. Para Jassy, ​​a colaboração era essencial para o sucesso de um programa pelo qual ele era pessoalmente responsável.

Os líderes podem encorajar a responsabilização, responsabilizando-se publicamente, mesmo quando isso cria riscos pessoais. Há alguns anos, quando Paul Stoffels chefiava a P&D na divisão farmacêutica da Johnson & Johnson, seu grupo experimentou uma falha em um importante programa clínico em estágio avançado. (Divulgação: Fiz consultoria para várias divisões da Johnson & Johnson.) Como Stoffels relatou em uma reunião de gerentes da J&J da qual participei, a liderança sênior e o conselho exigiram saber quem era o culpado quando o programa teve seu revés. “Eu sou responsável”, respondeu Stoffels. “Se eu deixar isso ir além de mim e apontar para as pessoas que assumiram o risco para iniciar e gerenciar o programa, criaremos uma organização avessa ao risco e ficaremos em situação pior. Isso para comigo. ” Stoffels, agora diretor científico da J&J, compartilha essa história com frequência com os funcionários de toda a empresa. Ele termina com uma promessa simples: “Você corre o risco; Eu vou assumir a culpa. ” E então ele incentiva seu público a difundir esse princípio por toda a organização.

Accountability with Collaboration | OE Cam | Mark Goodridge

5. Liderança plana, mas forte

Um organograma dá uma boa ideia do nivelamento estrutural de uma empresa, mas revela pouco sobre seu nivelamento cultural – como as pessoas se comportam e interagem independentemente da posição oficial. Em organizações culturalmente planas, as pessoas têm ampla liberdade para agir, tomar decisões e expressar suas opiniões. A deferência é concedida com base na competência, não no título. Organizações culturalmente horizontais podem responder mais rapidamente a circunstâncias que mudam rapidamente porque a tomada de decisões é descentralizada e mais próxima das fontes de informações relevantes. Eles tendem a gerar uma diversidade de ideias mais rica do que as hierárquicas, porque exploram o conhecimento, a experiência e as perspectivas de uma comunidade mais ampla de colaboradores.

A falta de hierarquia, porém, não significa falta de liderança. Paradoxalmente, as organizações horizontais exigem uma liderança mais forte do que as hierárquicas. Organizações planas freqüentemente se transformam em caos quando a liderança falha em definir prioridades e direções estratégicas claras. Amazon e Google são organizações muito planas nas quais a tomada de decisões e a responsabilidade são empurradas para baixo e os funcionários em todos os níveis desfrutam de um alto grau de autonomia para buscar ideias inovadoras. Ainda assim, ambas as empresas têm líderes incrivelmente fortes e visionários que comunicam objetivos e articulam princípios fundamentais sobre como suas respectivas organizações devem operar.

Aqui, novamente, o equilíbrio entre nivelamento e liderança forte requer uma mão hábil por parte da administração. O nivelamento não significa que os líderes seniores se distanciem dos detalhes ou projetos operacionais. Na verdade, o nivelamento permite que os líderes estejam mais próximos da ação. O falecido Sergio Marchionne, que liderou a ressurreição da primeira Fiat e depois da Chrysler (e foi o arquiteto de sua fusão) comentou comigo durante uma entrevista para um caso da Harvard Business School que escrevi: “Em ambas as empresas, usei os mesmos princípios básicos para a reviravolta. Primeiro, eu derrubei a organização. Tive que reduzir a distância entre mim e as pessoas que tomam decisões. [A certa altura, Marchionne tinha 46 subordinados diretos entre as duas organizações.] Se houver um problema, quero saber diretamente da pessoa envolvida, não de seu chefe ”.

Tanto na Fiat quanto na Chrysler, Marchionne mudou seu escritório para o andar de engenharia para estar mais próximo dos programas de planejamento e desenvolvimento de produtos. Ele era famoso tanto por ser orientado para os detalhes quanto por levar a tomada de decisões aos níveis mais baixos da organização. (Com tantos subordinados diretos, era quase impossível para ele não fazer isso!)

Conseguir o equilíbrio certo entre nivelamento e liderança forte é difícil para a alta administração e para os funcionários de toda a organização. Para os líderes seniores, requer a capacidade de articular visões e estratégias convincentes (coisas gerais) e, ao mesmo tempo, ser adepto e competente em questões técnicas e operacionais. Steve Jobs foi um grande exemplo de líder com essa capacidade. Ele expôs visões fortes para a Apple ao mesmo tempo em que se concentrava maniacamente em questões técnicas e de design. Para os funcionários, a uniformidade exige que desenvolvam suas próprias capacidades de liderança fortes e se sintam confortáveis ​​para agir e serem responsáveis ​​por suas decisões.

Flat Organizational Structure - Definition, Meaning, Characteristics

Liderando a jornada

Todas as mudanças culturais são difíceis. As culturas organizacionais são como contratos sociais que especificam as regras de associação. Quando os líderes se propõem a mudar a cultura de uma organização, eles estão, de certa forma, quebrando um contrato social. Não deveria ser surpresa, então, que muitas pessoas dentro de uma organização – particularmente aquelas que prosperam sob as regras existentes – resistam.

Liderar a jornada de construção e sustentação de uma cultura inovadora é particularmente difícil por três motivos. Primeiro, como as culturas inovadoras exigem uma combinação de comportamentos aparentemente contraditórios, elas correm o risco de criar confusão. Um grande projeto falha. Devemos comemorar? O líder desse programa deve ser responsabilizado? A resposta a essas perguntas depende das circunstâncias. A falha foi evitável? Foram conhecidos problemas com antecedência que poderiam ter levado a escolhas diferentes? Os membros da equipe foram transparentes? Houve um aprendizado valioso com a experiência? E assim por diante. Sem clareza em torno dessas nuances, as pessoas podem facilmente ficar confusas e até mesmo cínicas sobre as intenções da liderança.

Em segundo lugar, embora certos comportamentos exigidos por culturas inovadoras sejam relativamente fáceis de abraçar, outros serão menos palatáveis ​​para alguns na organização. Aqueles que pensam na inovação como um vale-tudo verão a disciplina como uma restrição desnecessária à sua criatividade; aqueles que se consolam no anonimato do consenso não receberão uma mudança em direção à responsabilidade pessoal. Algumas pessoas vão se adaptar prontamente às novas regras – algumas podem até surpreendê-lo – mas outras não vão prosperar.

Essas culturas não são só diversão e jogos.

Terceiro, como as culturas inovadoras são sistemas de comportamentos interdependentes, elas não podem ser implementadas de forma fragmentada. Pense em como os comportamentos se complementam e reforçam uns aos outros. Pessoas altamente competentes ficarão mais confortáveis ​​com a tomada de decisões e a responsabilidade – e suas “falhas” provavelmente resultarão em aprendizado em vez de desperdício. A experimentação disciplinada custará menos e produzirá mais informações úteis – então, novamente, a tolerância para experimentos fracassados ​​se torna mais prudente do que míope. A responsabilidade torna muito mais fácil ser simples – e as organizações horizontais criam um fluxo rápido de informações, o que leva a uma tomada de decisões mais rápida e inteligente.

Além das coisas habituais que os líderes podem fazer para impulsionar a mudança cultural (articular e comunicar valores, modelar comportamentos-alvo e assim por diante), construir uma cultura inovadora requer algumas ações específicas. Primeiro, os líderes devem ser muito transparentes com a organização sobre as realidades mais difíceis das culturas inovadoras. Essas culturas não são só diversão e jogos. Muitas pessoas ficarão entusiasmadas com a perspectiva de ter mais liberdade para experimentar, fracassar, colaborar, se manifestar e tomar decisões. Mas também precisam reconhecer que essas liberdades vêm com algumas responsabilidades difíceis. É melhor ser franco desde o início do que correr o risco de fomentar o cinismo mais tarde, quando as regras parecem mudar no meio do caminho.

Em segundo lugar, os líderes devem reconhecer que não existem atalhos na construção de uma cultura inovadora. Muitos líderes pensam que dividindo a organização em unidades menores ou criando “skunk works” autônomas, eles podem emular uma cultura de start-up inovadora. Essa abordagem raramente funciona. Isso confunde escala com cultura. O simples fato de dividir uma grande organização burocrática em unidades menores não os dota magicamente de espírito empreendedor. Sem grandes esforços de gerenciamento para moldar valores, normas e comportamentos, essas unidades descendentes tendem a herdar a cultura da organização-mãe que as gerou. Isso não significa que unidades ou equipes autônomas não possam ser usadas para experimentar uma cultura ou incubar uma nova. Eles podem. Mas o desafio de construir culturas inovadoras dentro dessas unidades não deve ser subestimado. E não serão para todos, portanto, você precisará selecionar com muito cuidado quem da organização-mãe se juntará a eles.

Finalmente, como as culturas inovadoras podem ser instáveis ​​e a tensão entre as forças contrabalançadoras pode facilmente ser desequilibrada, os líderes precisam estar vigilantes para sinais de excesso em qualquer área e intervir para restaurar o equilíbrio quando necessário. Descontrolada, a tolerância ao fracasso pode estimular o pensamento negligente e a criação de desculpas, mas o excesso de intolerância à incompetência pode criar o medo de correr riscos. Nenhum desses extremos é útil. Se levada longe demais, a disposição para experimentar pode se tornar permissão para assumir riscos mal concebidos, e uma disciplina excessivamente rígida pode esmagar ideias boas, mas mal formadas. A colaboração levada longe demais pode atrapalhar a tomada de decisões, mas a ênfase excessiva na responsabilidade individual pode levar a um clima disfuncional em que todos zelosamente protegem seus próprios interesses.

 Há uma diferença entre ser sincero e simplesmente desagradável. Os líderes precisam estar atentos a tendências excessivas, especialmente neles próprios. Se você deseja que sua organização atinja o equilíbrio delicado necessário, você, como líder, deve demonstrar a capacidade de atingir esse equilíbrio por si mesmo.

Uma versão deste artigo apareceu na edição de janeiro a fevereiro de 2019 (páginas 62 a 71) da Harvard Business Review.

Gary P. Pisano é o professor de administração de empresas Harry E. Figgie Jr. e reitor associado sênior de desenvolvimento do corpo docente da Harvard Business School. Ele é o autor de Creative Construction: The DNA of Sustained Innovation.

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A Canon instalou câmeras de IA em seus escritórios na China que só permitem que trabalhadores sorridentes entrem

O exemplo mais recente de vigilância distópica no local de trabalho

Por James Vincent The Verge em 17 de junho de 2021

A empresa de tecnologia Canon criou uma maneira totalmente distópica de lidar com o problema do moral no local de trabalho: ela instalou câmeras com tecnologia de IA para “reconhecimento de sorriso”  nos escritórios de sua subsidiária chinesa Canon Information Technology. As câmeras apenas permitem que funcionários sorridentes entrem em salas ou agendem reuniões, garantindo que cada funcionário fique 100% feliz o tempo todo.

Essa história deprimente foi destacada em um relatório do The Financial Times(FT) sobre como as empresas chinesas estão vigiando os funcionários em um grau perturbador com a ajuda de IA e algoritmos. As empresas estão monitorando quais programas os funcionários usam em seus computadores para avaliar sua produtividade; usando câmeras  para medir quanto tempo demoram na pausa para o almoço; e até mesmo rastrear seus movimentos fora do escritório usando aplicativos móveis.

Reconhecimento de sorriso em ação. Imagem: Canon Information Technologies

“AS TECNOLOGIAS ESTÃO AUMENTANDO O RITMO PARA PESSOAS QUE TRABALHAM COM MÁQUINAS EM VEZ DO OUTRO CAMINHO”

Como disse o acadêmico Nick Srnicek do King’s College London ao FT: “Os trabalhadores não estão sendo substituídos por algoritmos e inteligência artificial. Em vez disso, a gestão está sendo meio que aumentada por essas tecnologias […] As tecnologias estão aumentando o ritmo para as pessoas que trabalham com máquinas, e não o contrário, assim como aconteceu durante a revolução industrial no século 18 ”.

A Canon Information Technology realmente anunciou suas câmeras de “reconhecimento de sorriso” no ano passado como parte de um conjunto de ferramentas de gerenciamento de local de trabalho, mas a tecnologia não parece ter recebido muita atenção. Na verdade, o fato de ter passado pelo radar é uma boa ilustração de como ferramentas de vigilância comuns como esta estão se tornando – e não apenas na China.

Embora os leitores ocidentais às vezes tenham a tendência de rejeitar o tipo de vigilância descrito pelo FT como um fenômeno estrangeiro, países como os EUA e o Reino Unido são igualmente culpados. A Amazon é talvez o principal exemplo dessa dinâmica: é conhecida por espremer cada grama de esforço de seus funcionários de depósito às custas de sua saúde e até mesmo classificar sua produtividade usando algoritmos antes de demitir os que estiverem no final da escala.

Esse taylorismo moderno também não se restringe a empregos de colarinho azul: muitos softwares modernos, como o Microsoft 365, vêm com ferramentas de vigilância integradas. E com mais pessoas trabalhando em casa por causa da pandemia, mais empresas estão implantando esses recursos por medo de perder o controle sobre seus funcionários. (Ou, para uma leitura um pouco mais cínica: eles sempre quiseram usar essas ferramentas e a pandemia fornece um pretexto útil.)

Em outras palavras: as câmeras de reconhecimento de sorriso habilitadas para IA são, de muitas maneiras, os tipos menos perigosos de tecnologia de vigilância. Eles têm a vantagem de serem óbvios. Outros sistemas de controle são muito mais sutis e provavelmente chegarão a um escritório perto de você em breve.

https://www.theverge.com/2021/6/17/22538160/ai-camera-smile-recognition-office-workers-china-canon

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De drones a carro autônomo: as inovações na logística

Saiba por que o mercado de logística se tornou um diferencial competitivo para as empresas e qual é o papel das logtechs — startups que atuam no setor — neste cenário

Por Sabrina Bezerra – Startse – 20/07/2021

Logística se tornou um dos setores que mais se destaca na nova economia. O motivo é claro: o consumidor passou a comprar (cada vez mais) online e a preferência é por empresas que entregam melhor e mais rápido. Demorou? Perdeu a venda. De olho nisso, as companhias dos mais diversos segmentos estão investindo em tecnologias para melhorar o sistema logístico. E as inovações são as mais diversas: automação de sistemas, carros autônomos, drones, frota própria de avião, robôs e tantas outras (veja detalhes abaixo).

Neste cenário, além do consumidor, claro, quem também sai ganhando são as logtechs — startups que atuam no setor de logística. Atualmente, elas ocupam o 16º entre os 45 segmentos de startups mapeados pela Abstartups (Associação Brasileira de Startups) e grandes companhias estão desembolsando milhões para comprá-las ou fazer parceria. “E deve continuar neste ritmo. As empresas perceberam que fazer negócio com as startups se tornou uma necessidade. Isso porque, elas têm capacidade de criar soluções inovadoras e de forma rápida para a marca”, diz em entrevista à StartSe José Muritiba, diretor executivo na Abstartups.

Drone de entrega do iFood (Foto: divulgação iFood)

O QUE É LOGÍSTICA?

A logística atua em muitos nichos. É responsável por armazenar os produtos, controlar estoque e o transporte, entregar as mercadorias e planejar a execução. “O mercado de logística se responsabiliza por produtos e serviços de ponta a ponta e dos mais diversos segmentos”, afirma Muritiba. 

COMO AS LOGTECHS PODEM BENEFICIAR O MERCADO?

Com soluções capazes de otimizar todo o processo da logística. Seja com o uso de inteligência artificial para melhorar os processos logísticos, diferentes modais de entrega, tecnologia de armazenagem nos centros de distribuição, marketplace de fretes, entre outros. E qual a diferença entre uma empresa tradicional de logística e uma logtech? “Todo o processo de tecnologia usado na sua oferta de produto e serviço”, diz Muritiba. “As logtechs têm o propósito de fazer algo melhor, mais rápido (por ser otimizado) e mais barato. Basicamente, o empreendedor entende a dor [não curada por grandes marcas] e cria uma solução que faça sentido e seja comercialmente viável”, completa o especialista.

COMO A PANDEMIA IMPACTOU O MERCADO DE LOGÍSTICA

A chegada da pandemia de coronavírus acelerou a digitalização das empresas. Na contramão de muitos setores, por exemplo, o e-commerce brasileiro cresceu em 2020 73,88% em comparação com 2019, segundo o índice MCC-ENET, realizado pelo Comitê de Métricas da Câmara Brasileira da Economia Digital (camara-e.net) em parceria com o Neotrust Movimento Compre & Confie. O que afetou diretamente o setor de logística — que teve de se adaptar com mais entregas e prazos desafiadores. Além disso, segundo a pesquisa Global Consumer Insights, realizada pela consultoria americana PwC, 40% dos consumidores estão dispostos a pagar um pouco mais para receber suas encomendas o mais rápido possível. Diante deste cenário, empresas passaram a investir pesado em tecnologia e em soluções capazes de entregar mais rápido (veja no próximo tópico).

Robô de entrega da Domino’s feito pela Nuro (foto: Divulgação/Domino’s)

COMO AS EMPRESAS ESTÃO INOVANDO NO SETOR 

Se antes bastava ser um superapp para ser competitivo, hoje sai na frente as marcas que entregam mais rápido, melhor e que façam a diferença ao meio ambiente — a medida que cresce a importância da agenda ESG. De olho nisso, a Americanas vai compor a frota de entrega com mais de 500 veículos elétricos, 150 tuc-tucs e 170 bicicletas comuns e elétricas. O Magazine Luiza anunciou que as entregas feitas online serão feitas em até uma hora. Para isso, lojas foram transformadas em mini centros logísticos e também desembolsou dinheiro de seu caixa para comprar as startups de logística GFL e SincLog. O Mercado Livre tem a sua própria frota de aviões cargueiros. A MadeiraMadeira fez a aquisição da iTrack Brasil, startup de softwares para logística. 

A DHL, empresa de logística, deve fechar uma parceria com a desenvolvedora búlgara de aeronaves Dronamics para lançar um drone capaz de levar encomendas entre cidades. O iFood tem feito teste piloto com entregas por bicicletas, drones, motos elétricas e robôs autônomos. A Domino’s já está fazendo entrega de pizzas com robôs. 

Quanto o assunto é logtech brasileira, a Loggi, startup de entregas, se destaca por fazer parte do seleto grupo de unicórnios (empresas avaliadas em US$ 1 bilhão). A companhia atua em diversas frentes da logística: conecta usuários com entregadores por meio de uma plataforma, cria centros de distribuição estratégicos pelo país e otimiza rotas de tráfego a partir deles. A rede tem mais de 40 mil entregadores autônomos que fazem a entrega em diferentes tipos de veículos. Vale ficar de olho: outro potencial unicórnio, segundo Muritiba é a CargoX, startup focada em marketplace de fretes. 

Saiba mais: 5 grandes apostas para unicórnios brasileiros em 2021

Outra logtech é o Melhor Envio, plataforma de cotação e geração de fretes que oferece condições mais competitivas para quem vende pela internet. A empresa foi fundada em 2015 pelo empreendedor Éder Medeiros. Hoje, trabalha com as principais transportadoras do país, como Azul Cargo Express, Buslog, Correios, Jadlog e Latam Cargo. Atualmente tem cerca de 300 mil clientes e possui mais de 40 integrações com plataformas do ecossistema do e-commerce, entre elas Amazon, Loja Integrada, Wix, entre outras.

A TrazFavela Delivery atua em regiões periféricas de grandes cidades e atuando em regiões que, muitas vezes, não são atendidas pelos principais serviços de delivery. A plataforma oferece benefícios para comerciantes, entregadores e consumidores das periferias. 

A Carbono Zero Courier é uma empresa que oferece logística urbana de forma sustentável na Grande São Paulo e na Baixada Santista. “Substituímos veículos poluentes por bicicletas e veículos elétricos”, diz em entrevista à StartSe Leonardo Lorentz, sócio e gestor da Carbono Zero. A startup tem quatro tipos de modais: bicicleta tradicional e elétrica, motos elétricas, tuc-tuc e furgões elétricos. A cada serviço, o sistema calcula e exibe a emissão evitada de CO2. 

Veículos de entrega da Carbono Zero (Divulgação site Carbono Zero)

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Por que tantas marcas passaram a vender diretamente para o consumidor?

Estudo da EY-Parthenon traz exemplos de empresas que decidiram vender apenas no próprio e-commerce, e mostra por que tendência ganhou força na pandemia

Por exame.solutions  21/07/2021 

Há pouco mais de três anos, a Nike decidiu mudar sua estratégia nos Estados Unidos, reduzindo o número de distribuidores de seus produtos (incluindo o gigante Amazon) de 30.000 para apenas 40. O foco no mercado de vendas diretas para consumidores (fenômeno conhecido como direct to consumer) foi a forma encontrada pela empresa para manter o controle sobre sua marca e se aproximar dos consumidores.

A Nike não está sozinha. Outras fabricantes como Adidas, Whirlpool e Nestlé, que antes dependiam de varejistas para chegar ao público final, vêm se esforçando para ter um contato mais próximo do consumidor, oferecendo a ele a opção de compra por meio de canais próprios.

“Esse movimento foi intensificado na pandemia por uma razão óbvia: a partir do momento em que os pontos físicos perdem relevância, atratividade e o público, pelas circunstâncias, é obrigado a comprar por outros canais, abre-se espaço para o contato direto entre as empresas e as pessoas”, explica Miguel Duarte, sócio da EY-Parthenon.

Adotar o modelo e eliminar intermediários significa estar no controle de tudo, da gestão dos fornecedores, da produção e distribuição, relacionamento com os clientes e produção de conteúdo. Tudo isso alimentado por muitos dados, de dentro e de fora da companhia. Os dados são a inteligência do mecanismo. Eles metrificam e materializam a eficiência e a experiência do consumidor. Tão importante quanto os dados são a flexibilidade e a agilidade para entender o que o consumidor está pedindo e, se preciso, adaptar processos internos e até produtos em questão de dias.

É claro que há setores menos sensíveis à tendência do direct to consumer, como é o caso de commodities, por exemplo, ou de marcas que combatem não pela diferenciação, mas sim pelo preço. Mas, em geral, quem busca por diferenciação e lealdade vai precisar criar uma conexão direta com o consumidor.

Loja conceito da Nike na Champs-Élysées, em Paris: espaço para conectar a comunidade esportiva a experiências digitais  (EY-PARTHENON/Divulgação)

O futuro do consumo

Essa é uma das conclusões do EY Future Consumer Index 2021, estudo realizado pela EY-Parthenon – área de estratégia da EY –, para ajudar líderes de negócio do Brasil a compreender e acompanhar a evolução dos sentimentos e comportamentos dos consumidores durante a pandemia.

O levantamento, que traz um recorte local com 1.007 consumidores entre 18 e mais de 65 anos, destaca, por exemplo, a importância da coleta de dados no ambiente online (seja por meio de programas de fidelidade, aplicativos de descontos, ou outros benefícios) para conhecer o perfil e o comportamento dos consumidores e entregar a eles personalização e uma melhor experiência.

“Para criar valor agregado e diferenciação, as empresas terão de se movimentar da oferta de produtos para a entrega de serviços. Mas elas só conseguirão fazer isso com acesso e estruturação de dados”, diz Cristiane Amaral, sócia-líder do segmento de consumo, produtos e varejo para América Latina.

Para as empresas que seguem o caminho da inteligência de dados é preciso atenção à questão da privacidade, o que gera sentimento de insegurança para quase um quarto dos brasileiros. Mas há estratégias para resolver essa questão de forma benéfica para empresas e clientes. Setenta e dois por cento dos consumidores aceitam compartilhar algum tipo de informação que ajude na criação de novos produtos ou serviços e 69% para ter uma experiência de compra mais personalizada.

Existem dois modelos de experiência surgindo no mercado consumidor. Um – que chamamos de “experiência” – foca apenas na conveniência e na remoção do atrito do processo de compra. O outro – “experiência total” – se constrói em cima dessa fundação e busca fazer da marca uma parte indispensável da vida do consumidor.

As empresas que buscam este último modelo não podem mais contar com a simples venda de “coisas” para os consumidores de forma transacional. Elas devem desempenhar um papel enriquecedor ao longo de sua jornada – o que desbloqueia o potencial de valor adicional de vida dos consumidores.

Para chegar até aqui, os varejistas devem alcançar uma compreensão íntima do consumidor. O relacionamento começa bem antes de alguém entrar em uma loja ou em um site. Termina muito depois de uma venda ser realizada. Equipados com inteligência crescente em seus consumidores, os varejistas são capazes de fornecer interações significativas que são contextualmente relevantes, personalizadas e conectadas ao longo do tempo e entre canais. Mais de 60% dos entrevistados esperam ter uma experiência de compra melhor em função das transformações causadas pela pandemia.

Apoiados por uma cadeia de suprimentos confiável, operações adaptativas e função ágil de merchandising, os varejistas são capazes de dar vida à sua promessa de marca quando mais importa para seus consumidores.

“O desafio do varejista é aproveitar cada interação com seu consumidor e não ser somente transacional, que atenda às necessidades de seu público de forma relevante e funcional, tornando a interação enriquecedora, passando a ser desejável e impactante na jornada do consumidor”, ressalta Cristiane.

O novo papel das lojas físicas

Segundo ele, apesar de o e-commerce ter dado um salto na pandemia (44% dos consumidores esperam fazer mais compras online ​nos próximos dois anos, de acordo com o EY Future Consumer Index 2021), ao que tudo indica as lojas físicas seguirão tendo um papel importante, seja como showroom, para estabelecer uma nova forma de interação com o público, seja como ponto de venda. “A grande massa seguirá comprando no varejo físico. Por isso, será preciso buscar diferenciação também nesses pontos, buscando novos canais, novas formas de entrega”, destaca Duarte.

Ao ser perguntado sobre o recado que daria às marcas para que elas sigam no jogo, o especialista é categórico: “Não fiquem no meio. Movam-se se quiserem criar uma marca diferenciada e foquem mais em serviço do que produto”.

Duarte também ressalta como a polarização entre classes sociais muda o jogo para as marcas. “Uma massa da população fala em preço, preço, preço… outra em consumo saudável e consciente. São dois polos que ganharam mais relevância durante essa pandemia”. E aí, para qual direção caminha sua marca? Sua relação com o consumidor está sendo transacional ou realmente enriquecedora? Está fazendo uma transação, ou construindo um relacionamento? Uma coisa é certa: ficar no meio é arriscado.

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Indo para a Lua via nuvem

A computação de alto desempenho em nuvem permitiu que startups desenvolvessem protótipos e executassem simulações – até mesmo uma para a Lua – que até então eram feitas em supercomputadores

Craig S. Smith, The New York Times, O Estado de S.Paulo 20 de julho de 2021

A Firefly Aerospace, uma startup com sede nos subúrbios de Austin, Texas, está construindo um foguete para voar até a Lua.

Não, não é um remake do curta de animação A Grand Day Out With Wallace and Gromit, no qual a dupla de personagens vai à superfície lunar em busca de queijo; trata-se de uma empresa de verdade. E também de um exemplo de como a onipresente disponibilidade de computação de alto desempenho por meio da internet desencadeou uma onda global de criatividade. A “nuvem”, aquele eufemismo difuso para redes de grandes computadores servidores que qualquer pessoa pode acessar com um laptop e um cartão de crédito, colocou até os sonhos mais loucos ao alcance de pessoas com know-how suficiente.

Construir sistemas físicos complexos, como semicondutores ou submarinos, requer intensivas simulações de computador antes que se deva comprometer dinheiro para dobrar aço para um protótipo – isso para não falar na produção de uma espaçonave. Essas simulações requerem cálculos vastos que antes eram feitos em supercomputadores disponíveis apenas para governos ou para as corporações mais abastadas.

“Novas empresas de foguetes como Firefly, Virgin Orbit e SpaceX não conseguiriam prosperar quando eu era engenheiro na Boeing, quinze anos atrás”, disse Joris Poort, fundador e executivo-chefe da Rescale, uma empresa que orquestra a computação de alto desempenho na nuvem. “Naquela época, você tinha que levantar centenas de milhões de dólares só para construir a infraestrutura de computador necessária para executar as simulações”.

Os supercomputadores surgiram na década de 1960, quando os cientistas da computação começaram a dividir os problemas em partes e computar as partes simultaneamente, em vez de uma de cada vez em série. Para que a computação paralela funcione com eficiência, os dados precisam ser trocados entre os processadores do computador e, assim, as empresas começaram a construir “supercomputadores” com vários processadores de computador fortemente acoplados.

Os mais novos supercomputadores podem executar 1 quatrilhão de cálculos por segundo e já estão à vista 1 quintilhão de cálculos. Mas esses computadores são caros – até US$ 500 milhões – e exigem muito espaço e manutenção. Os clusters de computadores em rede, menos poderosos, mas mais flexíveis, agora podem fazer quase tudo isso e deram origem ao termo computação de alto desempenho.

NYT - Life/Style (não usar em outras publicações).

Ilustração de James Yang/The New York Times.

Hoje, a maioria das empresas de computação em nuvem, da Amazon ao Google e à Microsoft, oferece acesso a hardwares de computação de alto desempenho, que são quase tão poderosos, mas muito mais versáteis do que os supercomputadores. Qualquer empresa agora pode controlar a computação em pé de igualdade com a Nasa ou a Boeing.

Apenas cerca de 12% da computação de alto desempenho ocorre na nuvem atualmente, mas esse número – cerca de US$ 5,3 bilhões – está crescendo 25% ao ano, de acordo com a Rescale.

Pesquisadores, cientistas e engenheiros podem usar qualquer computador desktop e navegador para acessar facilmente a supercomputação por meio de serviços em nuvem, onde os recursos são sob demanda e cobrados pelo consumo. Como a demanda por recursos de computação continua crescendo, os serviços em nuvem estão ganhando popularidade entre grupos de pesquisa e desenvolvimento e campos de ciência aplicada por causa de sua acessibilidade, flexibilidade e mínimo custo de investimento.

Uma única carga de trabalho de computação de alto desempenho para otimizar o projeto de uma asa de aeronave pode custar US$ 20 mil, enquanto as cargas de trabalho de aprendizado de máquina usadas nas fases anteriores de desenvolvimento costumavam ser muito mais caras. A Firefly diz que normalmente gasta de milhares a dezenas de milhares de dólares por hora em seus cálculos – ainda muito menos do que o custo de construção e manutenção de um computador de alto desempenho.

Os desenvolvedores de software já vêm usando a computação em nuvem há algum tempo, mas engenheiros e cientistas estão apenas começando a aproveitar o poder da nuvem – transformando sonhos em realidade para empresas movidas pela ciência, como a startup de transporte HyperXite, a inovadora empresa de energia Commonwealth Fusion Systems e a fabricante de carros autônomos voadores Kitty Hawk (que prefere o termo “veículos elétricos de decolagem e pouso vertical”).

A Firefly, por exemplo, foi fundada em 2014 e hoje conta com cerca de 350 funcionários. No entanto, eles estão construindo tudo, desde os motores do foguete e o corpo de fibra de carbono até um módulo de aterrissagem lunar – que hoje é apenas um projeto conceitual mas será uma missão para a Lua em 2023. O programa Apollo da Nasa no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, em contraste, empregou centenas de milhares de pessoas e contratou dezenas de milhares de empresas externas.

“Novas startups espaciais com mil funcionários ou menos dependem muito dessa computação em nuvem”, disse Brigette Oakes, diretora de design e análise da Firefly. Seu pequeno tamanho contrasta com suas finanças: a empresa recentemente anunciou que havia levantado US$ 75 milhões em capital privado e estava avaliada em cerca de US$ 1 bilhão.

Os principais componentes dos supercomputadores foram gradualmente transformados em mercadoria e simplificados para facilitar e agilizar o uso. Na década de 1990, muito antes do surgimento da computação em nuvem, era possível remendar um supercomputador comum usando servidores de última geração e equipamentos de rede especializados. Com o tempo, esses clusters de computação de alto desempenho ficaram cada vez melhores e, por fim, as empresas de computação em nuvem os disponibilizaram em suas redes.

Antes da ampla disponibilidade desse tipo de computação, as organizações construíam protótipos caros para testar seus projetos. “Na verdade, íamos lá e construíamos um protótipo em escala real e o executávamos até o fim da vida antes de levá-lo a campo”, disse Brandon Haugh, engenheiro de projeto, referindo-se a um reator nuclear em que trabalhou com a Marinha americana. “Foi um teste multibilionário de vinte anos”.

Hoje, Haugh é o diretor de modelagem e simulação na startup de engenharia nuclear Kairos Power, com sede na Califórnia, onde ele aprimora o projeto de reatores acessíveis e seguros que a Kairos espera que ajudem a acelerar a transição do mundo para a energia limpa.

A energia nuclear há muito tempo é considerada uma das melhores opções para a produção de eletricidade com carbono zero – o problema é seu custo proibitivo. Mas os reatores avançados da Kairos Power estão sendo projetados para produzir energia a custos competitivos com o gás natural.

“A democratização da computação de alto desempenho agora chegou até as startups, permitindo que empresas como a nossa trabalhem rapidamente e passem do conceito à implantação de campo em tempo recorde”, disse Haugh.

Mas a computação de alto desempenho na nuvem também criou novos desafios.

Nos últimos anos, tem havido uma proliferação de chips de computador customizados, construídos para tipos específicos de problemas matemáticos. Da mesma forma, agora existem diferentes tipos de memória e configurações de rede na computação de alto desempenho. E os diferentes provedores de nuvem têm diferentes especializações: um pode ser melhor em dinâmica de fluxos computacionais, enquanto outro é melhor em análise estrutural.

O desafio, então, é escolher a configuração certa e obter a capacidade quando você precisa – porque a demanda aumentou drasticamente. E embora os cientistas e engenheiros sejam especialistas em seus domínios, eles não necessariamente o são em configurações de servidores, processadores e coisas do tipo.

Isso deu origem a um novo tipo de especialização – especialistas em computação em nuvem de alto desempenho – e novas plataformas de nuvem cruzada que atuam como espaços onde as empresas podem escolher a combinação certa de software e hardware. A Rescale, que trabalha em estreita colaboração com todos os principais provedores de nuvem, é a empresa dominante neste campo. Ela combina problemas de computação para empresas, como Firefly e Kairos, com o provedor de nuvem certo para fornecer computação que cientistas e engenheiros podem usar para resolver problemas mais rápido ou com o menor custo possível.

O custo de execução de uma simulação na nuvem pode ser inferior a um décimo do custo de uma empresa construir seu próprio computador de alto desempenho, e os provedores de nuvem atualizam continuamente seus chips de computador, algo que as empresas com seu próprio hardware são menos propensas a fazer.

A Firefly, que se baseou fortemente em simulações para projetar seu foguete, está planejando enviar suas primeiras cargas ao espaço dentro de alguns meses e, em seguida, em alguns anos, enviar seu módulo de pouso à Lua para ajudar a Nasa a se preparar para futuras missões tripuladas. O desenvolvimento total do foguete levou menos de quatro anos, tempo notavelmente curto para um foguete desse tamanho.

“Após nosso primeiro pouso lunar, esperamos enviar uma série de missões de reabastecimento à Lua, tanto para a Nasa quanto para clientes comerciais”, disse Oakes. “Se você conseguir fazer seu preço chegar a US$ 15 milhões ou menos por lançamento, terá mais clientes do que conseguirá atender”.

Trazer a computação em nuvem para os engenheiros muda a dinâmica da inovação. O projeto aeroespacial normalmente depende de testes em túnel de vento, por exemplo, mas o tempo de espera para entrar em um túnel de vento é de até dois anos – muito tempo para uma startup como a Firefly. Mas as simulações mais rápidas feitas em nuvem podem fazer o mesmo trabalho.

“Estamos trabalhando tão rápido no foguete que, quando chegar o momento do túnel de vento, teremos um foguete completamente diferente”, disse Oakes. “Estamos contando com a computação em nuvem, em vez de testes de hardware caros”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

The New York Times Licensing Group – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

https://internacional.estadao.com.br/noticias/nytiw,lua-nuvem-supercomputadores-simulacao,70003781538

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AmaZen, a cabine de relaxamento para os funcionários da Amazon, ou “caixões para meditar”

Acusada de práticas monopolísticas e exploração dos seus trabalhadores, empresa está sendo um alvo fácil para os usuários nas redes sociais

JUAN DIEGO GODOY – El Pais –– 01 JUN 2021 

A críticas à AmaZen não ajudaram a melhorar a imagem da empresa, abalada nos últimos meses por questões de direitos trabalhistas.VIDEO AMAZON

Anda estressado no trabalho? O que acha de fazer uma pausa e entrar numa espécie de cabine telefônica, onde poderá se sentar e assistir a vídeos de relaxamento? Essa é a nova proposta do gigante Amazon para reduzir a carga de estresse e cansaço de seus funcionários. As cabines se chamam AmaZen, e sua instalação ocorre num momento em que a empresa recebe uma enorme quantidade de críticas pelas condições de trabalho que oferece.

Segundo a companhia, o AmaZen ―cujo nome original era “sala de prática de mindfulness”― é parte do projeto Working Well, que a Amazon lançou em 17 de maio. O programa é descrito como “uma combinação de atividades físicas e mentais, exercícios para o bem-estar e apoio para uma alimentação saudável a fim de ajudar os funcionários a se recarregarem e revitalizarem”. As cabines de relaxamento seriam uma das várias estratégias desse projeto.

Dentro das cabines, instaladas nos edifícios da empresa, há plantas em um suporte e um ventilador, assim como folhetos e cartazes de relaxamento e nutrição nas paredes. Um vídeo publicado pela Amazon mostra que também há um computador com uma espécie de lista de reprodução de vídeos de relaxamento e meditação. 

Nesse vídeo, a criadora da AmaZen, Leila Brown, explica que se trata de “um quiosque interativo onde [o funcionário] pode navegar por uma livraria de produtos de saúde mental para recarregar suas baterias internas”. Mas nem todos parecem ter abraçado o conceito com tanto entusiasmo.

A críticas à AmaZen não ajudaram a melhorar a imagem da empresa, abalada nos últimos meses por questões de direitos trabalhistas.

“Caixão zen”

De fato, o vídeo foi retirado da conta oficial da Amazon no Twitter poucas horas depois de ser publicado, por causa da avalanche de críticas que começaram a chegar por diversas plataformas. As cabines AmaZen receberam todo tipo de apelido por parte dos usuários. Alguns as descreveram como “caixões zen”, “espaços para chorar”, “quartos do desespero”, “frigoríficos zen” e até “manicômios individuais”.

Um dos críticos foi o deputado espanhol Iñigo Errejón, do partido Mais País. “Um armário do desespero para ir chorar quando você for consumido pela falta de direitos. A alternativa ao futuro verde é o futuro Black mirror”, tuitou o político em sua conta oficial.

As críticas não ajudaram a melhorar a imagem da companhia com relação aos direitos trabalhistas. Em abril, a Amazon aumentou o salário mínimo de seus funcionários e aceitou conceder um aumento salarial para 500.000 de seus trabalhadores. A empresa também foi duramente criticada por suas práticas monopolísticas e por pagar “poucos impostos” em comparação ao seu enorme faturamento.

Até o momento, não houve uma resposta da Amazon sobre o futuro de suas cabines de relaxamento, embora a publicidade da AmaZen tenha sido retirada. O que é certeza é que, para evitar mais críticas, o gigante tecnológico deverá rever o conceito de “atividades físicas e mentais e exercícios de bem-estar” que define em seu programa Working Well.

https://brasil.elpais.com/tecnologia/2021-06-01/amazen-a-cabine-de-relaxamento-para-os-funcionarios-da-amazon-ou-caixoes-para-meditar.html

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Warren Buffett, o “Oráculo de Omaha”, agora busca respostas nas startups

Conhecido por sua resistência em investir em tecnologia e nas novatas do setor, o bilionário americano e sua gestora Berkshire Hathaway começam a colocar esses ativos no radar. E o Brasil desponta como um das escalas nesse novo percurso

Moacir Drska – Neofeed . •18/07/21 

Nesta sexta-feira, a startup indiana de pagamentos Paytm protocolou o registro para o seu IPO, no qual irá buscar uma captação de até US$ 2,2 bilhões. Uma das principais fintechs do país, a empresa tem entre seus investidores alguns gigantes ligados ao mercado de tecnologia, como o Softbank e o Alibaba.

O prospecto preliminar da oferta chama atenção, no entanto, por um outro nome que integra essa relação: a Berkshire Hathaway, do megainvestidor Warren Buffett, que detém uma participação de 2,8% na operação, fruto de um aporte de cerca de US$ 300 milhões, realizado em agosto de 2018.

Na época, a entrada na Paytm significou o primeiro grande movimento da Berkshire Hathaway no mundo das startups e, mais especificamente, em uma novata de tecnologia.

Na contramão dos seus investimentos em companhias mais tradicionais e estabelecidas, Buffett é conhecido por sua resistência ao setor, segundo suas próprias palavras, por não entende-lo. Apple e IBM foram algumas das raras exceções dentro da tese do bilionário.

Pouco a pouco, no entanto, o “Oráculo de Omaha” começa a dar sinais de que as startups e, mais especificamente, as fintechs, como a Paytm, estão entrando no radar da atenção e dos cheques da sua gestora. E o mercado brasileiro já se destaca como uma das principais escalas dessa estratégia.

No início de junho deste ano, por exemplo, a Berkshire Hathaway anunciou um investimento de US$ 500 milhões no Nubank, como parte de uma rodada de US$750 milhões, que avaliou a fintech brasileira fundada por David Vélez em US$ 30 bilhões.

Antes, também em 2018, alguns meses depois do aporte na Paytm, a gestora americana desembolsou US$ 340 milhões em uma participação de 11,3% na também brasileira Stone, quando a empresa abriu capital na Nasdaq, em outubro daquele ano.

No primeiro trimestre de 2021, a Berkshire Hathaway informou que reduziu sua posição na Stone, em cerca de 25%. Na época, a companhia liderada por Buffett acrescentou que mantinha uma fatia de 3,4% no negócio, avaliada, na cotação atual da empresa, em cerca de US$ 608 milhões.

À parte dessa redução, os sinais emitidos por Buffett até o momento também simbolizam a preferência por países menos maduros sob aspectos como digitalização e bancarização. Mas que, em função desse panorama, trazem mais oportunidades que mercados já consolidados como Estados Unidos e Europa.

O megainvestidor Warren Buffett

Outro ingrediente recente, que também chama atenção, é o fato de que, nos meses seguintes à chegada da pandemia, a gestora reduziu ou mesmo zerou sua participação em grandes bancos, um setor que sempre foi uma das prioridades no seu portfólio.

A Berkshire Hathaway vendeu, por exemplo, suas ações em bancos como Goldman Sachs e J.P. Morgan, além de diminuir sua fatia no Wells Fargo, entre outras negociações nessa direção. O único ativo no qual a empresa manteve sua posição foi o Bank of America.

Apesar dos principais passos envolverem fintechs, a aproximação, mesmo que ainda tímida, de Buffett e companhia com o mundo das startups não está restrito a esse segmento. Em outra iniciativa, em setembro do ano passado, a gestora foi uma das “patrocinadoras” do IPO da Snowflake.

Na oferta pública, a empresa americana de gestão de dados na nuvem captou US$ 3,3 bilhões e foi avaliada em US$ 33 bilhões. O processo contou com a chancela da Berkshire Hathaway, que se comprometeu a investir US$ 570 milhões na companhia, avaliada, atualmente, em US$ 73,9 bilhões.

A diversificação rumo a novas frentes também passa pela corrida dos carros elétricos. Mas não pela Tesla, a grande vedete do setor. E sim, por sua rival chinesa BYD, na qual a Berkshire Hathaway mantém uma participação de 8,2%, acima, por exemplo, da fatia de 3,7% detida na General Motors. E assim, aos 90 anos de idade, Buffett prova que sempre há tempo de abrir os olhos para boas oportunidades – ainda mais quando se é um “Oráculo”.

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Amazônia 4.0: As biofábricas de Carlos Nobre começam a sair do papel

Nas próximas semanas será inaugurada a biofábrica da cadeia do cacau e do cupuaçu, com o objetivo de transformar os insumos em produtos de maior valor agregado e fomentar a bioeconomia

Por Vanessa Adachi Infomoney 16 de julho de 2021

Está começando a sair do papel o projeto liderado pelo climatologista Carlos Nobre, batizado de Amazônia 4.0, que quer instalar minifábricas no coração da floresta para transformar os bioinsumos em produtos de maior valor agregado.

É a grande aposta de Nobre para criar uma bioeconomia, com lógica de mercado, capaz de manter a floresta em pé. 

O climatologista se tornou uma espécie de consciência nacional a respeito do risco de que a Amazônia atinja um ponto de não retorno, caminhando para a completa savanização, se o avanço do desmatamento não for detido a tempo. E o Amazônia 4.0, que começou a ser gestado em 2017, é a sua resposta ‘mão na massa’ para o problema.

“Propomos um novo modelo para a floresta, que não seja nem o da conservação estrita e nem o da liberação completa de qualquer atividade, como a pecuária, a mineração e a monocultura de grãos”, diz o biólogo Ismael Nobre, irmão de Carlos e que colidera a iniciativa.

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“Os estudos que fizemos mostraram que a razão para existir tão pouca riqueza econômica ligada à floresta é porque nunca houve a agregação de valor. Todos os ciclos de desenvolvimento foram de commodities, como borracha, ouro e até energia elétrica.”

A partir dessa constatação, surgiu a ideia de criar os Laboratórios Criativos da Amazônia (LCAs) para as principais cadeias de insumos produzidos da região.

Trata-se de minifábricas móveis que se deslocarão entre as comunidades e que, como o nome sugere, servirão para treinamento e experimentação. Ou seja, serão o ponto de partida para disseminar o projeto.

A ideia é que, depois de serem capacitadas nos LCAs, cada uma das comunidades se organize para levantar os recursos necessários para instalar sua própria fábrica e estruturar seu negócio a partir dela.

Depois de quatro anos de pesquisas e trabalho, será inaugurado o primeiro LCA, entre o fim de julho e início de agosto, para a cadeia de cacau e cupuaçu.

A inauguração se dará em São José dos Campos, no Parque Tecnológico da Univap, onde as pesquisas têm sido desenvolvidas. A ideia é deixar a minifábrica — com projeto arquitetônico desenvolvido pelo croata naturalizado brasileiro Marko Brajovic — em exposição e fazer os testes e ajustes finais antes de encaminhá-la, de fato, à Amazônia.

Em fevereiro de 2022, o laboratório finalmente começará a circular entre as quatro primeiras comunidades produtoras escolhidas, todas no Estado do Pará e com perfis diferentes, uma de mulheres trabalhadoras rurais, uma de quilombolas, uma de ribeirinhos e outra numa reserva extrativista.

“A Amazônia é o maior produtor de amêndoa de cacau, já à frente da Bahia. Mas a produção é feita no modo commodity, em que o valor aproximado de 1 quilo da amêndoa gira em torno de R$ 10, enquanto o quilo do chocolate fino, de amêndoa fermentada, sai a R$ 200 a R$ 300. É uma agregação de valor de 2000% ou mais”, diz Ismael.

Indústria 4.0 na Amazônia

Quando pensaram em agregar valor aos insumos amazônicos, os irmãos Nobre sabiam que a ideia passaria pela industrialização, algo complexo numa região com condições desfavoráveis de logística, acesso a recursos e insumos. 

“Mesmo quando há exemplos de tentativa de agregação de valor, há problemas sérios de qualidade dos produtos, o que não sustenta mercados bons e contínuos”, diz Ismael.

Tiveram, então, a ideia de incorporar tecnologias modernas da chamada indústria 4.0, como computação em nuvem, automação industrial e inteligência artificial, para viabilizar a bioindústria da Amazônia.

“Estudamos todos os passos com experts em chocolate, em engenharia mecânica, eletrônica, mecatrônica e programadores de computador e entendemos como pegar cada passo de um processo complexo e transformar em um passo facilitado pela inteligência de computadores dedicados à cadeia produtiva”, explica Ismael.

Na prática, a cada um dos maquinários usados na fabricação do chocolate foram acoplados pequenos computadores, com softwares especiais e sensores, capazes de cuidar do controle fino do processo. 

“Dentro do paradigma da Amazônia 4.0, para a fabricação de chocolate, você interage com uma tela de controle, que é sensível ao toque. E qualquer pequena comunidade da Amazônia que tenha uma área de produção de cacau ou cupuaçu poderá facilmente ter um chocolate de altíssimo nível, fino, fabricado ali mesmo.”

Fazendo jus ao adjetivo ‘criativo’, a plataforma permite adicionar características autorais ao processo, com adição de outros ingredientes da biodiversidade à receita, escolha de pontos de fermentação e de torra e até impressão de formas com design próprio.

Um exemplo concreto de como o conceito é revolucionário para o processo está na definição do ponto de torra das sementes, que é decisivo para o sabor final do chocolate. Hoje, o controle é feito em fornos manuais. “É uma loucura. É cronômetro, prancheta e termômetro na mão”, diz Ismael.

Dentro do LCA, o forno é equipado com sensores de temperatura e um computador, com um programa que controla as resistências elétricas, o que permite desenhar uma curva de torra, com a temperatura variando ao longo do tempo. 

“E basta apertar um botão para repetir essa curva que está na memória todas as vezes. Só isso resolve a principal dor de uma fábrica de chocolate que visitei.”

Todo o processo é rastreado de ponta a ponta e os dados são guardados em um banco de dados com tecnologia blockchain, que poderá ficar disponível publicamente através de um código de barras. “Esse fator será importante para a viabilidade desses produtos no mercado internacional, que se torna cada vez mais exigente em relação à origem dos produtos, às cadeias de fornecimento.”

Lógica de mercado

Embora tanta tecnologia de ponta embarcada possa sugerir que o custo de aquisição de equipamentos será alto demais para as comunidades conseguirem bancar, Ismael diz que não é por aí.

O custo de desenvolvimento, que é o mais caro, já foi bancado pelo capital filantrópico que financiou a empreitada até aqui. Com isso, as estimativas apontam que uma mini-fábrica 4.0 terá um custo apenas 10% superior ao de uma planta de mesmo porte sem os recursos tecnológicos.

Foram necessários R$ 5 milhões em capital filantrópico para concretizar o LCA do cacau e cupuaçu. Boa parte veio do BID Lab, o braço de inovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento. 

E também contribuíram alguns dos institutos mais atuantes no desenvolvimento de alternativas econômicas para a Amazônia: Arapyaú, do fundador da Natura Guilherme Leal, Instituto Humanize e Instituto Clima e Sociedade (ICS), além do Good Energies Foundation (GEF).

Mais capital filantrópico será necessário para implantar os demais laboratórios criativos e o pipeline já inclui as cadeias da castanha do Pará, do açaí e de óleos gourmet (pataúa, buriti, tucumã e castanha).

Mas, na visão dos irmãos Nobre, o sucesso da empreitada será medido pelo grau de autossuficiência e inserção das comunidades numa lógica capitalista.

Como a estruturação do negócio é uma etapa igualmente complexa, para pavimentar o caminho para as primeiras comunidades foi firmada uma parceria com o Conexus, instituto voltado a organizar negócios de locais produtores e cooperativas rurais e florestais para serem viáveis economicamente.

“Seremos bem sucedidos se eles conseguirem prescindir de ONGs e de capital filantrópico. Nosso modelo muda o padrão dos exemplos tradicionais em que uma instituição se responsabiliza por uma área e ali tudo acontece, com recursos, tecnologia, assistência técnica, mas não consegue se reproduzir por todos espaços da Amazônia porque  não existe dinheiro no mundo que vá dar tanta assistência a fundo perdido.”

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Britânico que perdeu HD com R$ 1 bilhão em bitcoin tem novo plano de busca

James Howells tenta encontrar equipamento desde 2013 e agora aposta em alta tecnologia para recuperar fortuna perdida, mas autoridades locais proíbem operação

Por Gabriel Rubinsteinn Exame  13/07/2021 

James Howells ficou famoso em 2013, quando jogou fora um disco rígido (HD) que continha 7.500 bitcoins, à época avaliados em 7,5 milhões de dólares. Desde então, a fortuna se multiplicou e, depois de diversas tentativas para encontrar o equipamento, o britânico agora tem uma nova arma: a tecnologia. Para isso, entretanto, ainda vai precisar convencer as autoridades.

Em janeiro de 2021, com o preço do bitcoin já acima de 30 mil dólares e seu HD avaliado em quase 250 milhões de dólares – ou mais de 1,3 bilhão de reais – ele chegou a oferecer 75 milhões de dólares de recompensa para quem o encontrasse. Mas não teve sucesso.

Desta vez, segundo o jornal britânico The Sun, Howells aposta na tecnologia para encontrar sua fortuna perdida, que ele acredita estar em um lixão de Newport, no País de Gales, onde vive. Ele teria contatado engenheiros, ambientalistas e especialistas em recuperação de dados de diversas partes do mundo para realizar uma busca com esteiras de transporte, dispositivos de varredura de raios-X e inteligência artificial.

A ideia é tentar remover entre 300 mil e 400 mil toneladas de lixo para encontrar o valioso disco rígido. A operação custaria cerca de 800 mil dólares, que Howells afirma ter conseguido com um fundo de hedge bilionário disposto a bancar a missão em troca de uma parte da fortuna.

 (Harald Freudenmacher/Getty Images)

As autoridades de Newport, entretanto, não gostaram nem um pouco da ideia, e rejeitaram qualquer possibilidade de aprovar a busca pelo equipamento. Recusaram inclusive a possibilidade de pagamento de parte do valor caso o HD fosse encontrado.

“A ideia é fazer uma busca profissional, não alguém entrando no lixão com um balde e uma pá”, disse Howells à publicação. “Seria uma operação delicada, porque não podemos danificar o equipamento durante o processo. Não dá para usar uma retroescavadeira”.

“O custo de escavação, armazenamento e tratamento do lixo seria de milhões de libras, sem a garantia de encontrar o equipamento ou de que ele esteja funcionando. Também explicamos diversas vezes que não temos licença para permitir esse tipo de escavação, que pode provocar enorme impacto ambiental nos seus arredores. Mesmo se pudéssemos aceitar seu pedido, ainda há a questão de quem pagaria esses custos caso o equipamento não fosse encontrado. Já fomos bastante claros de que não podemos ajudá-los com essa questão”, disse uma porta-voz da autoridade britânica.

James Howells jogou o equipamento no lixo por engano, quando fazia uma limpeza no seu escritório. Caso alguém encontrasse o equipamento, não poderia ficar rico sozinho, já que só ele tem a senha de acesso aos bitcoins. No entanto, quando oferecer a recompensa no início do ano, preocupou as autoridades pela possibilidade de causar uma corrida aos depósitos de lixo da região.

Se atualmente, com o preço do bitcoin em cerca de 33 mil dólares, o HD teria 1,3 bilhão de reais, há poucos meses, quando a criptomoeda chegou ao seu valor recorde de mais de 64 mil dólares, o equipamento perdido chegou a valer mais de 2,5 bilhões de reais.

https://exame.com/future-of-money/criptoativos/britanico-que-perdeu-hd-com-r-1-bilhao-em-bitcoin-tem-novo-plano-de-busca/

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O BRASIL TEM FUTURO?

por Silvio Meira – dia a dia, bit a bit – 13/07/2021

Uma das fases mais perigosas e certamente mais danosas para analisar e|ou entender o nosso país é a de que “O Brasil é o país do futuro”. Imediatamente passamos a achar que esse futuro é, ou seria, de um Brasil que haveria de se comparar com a China, a Rússia, os Estados Unidos da América e a Europa. E não é. 

Este blog tem um texto em 2018, absolutamente atual, de título “Uma Classe para o Brasil” no link bit.ly/2PUu0S1], onde se compara indicadores globais sobre educação, inovação, economia, violência e outros mais. Numa combinação de território, população e índices, descobre-se que não estamos na classe de nenhum país europeu, nem do Japão, ou China, Austrália ou da Nova Zelândia. O Brasil está na classe do México, da Malásia, Filipinas, da Indonésia, Tailândia,e da África do Sul. Essa é a, ou no mínimo uma, classe do Brasil.

Nessa classe, o Brasil tem futuro. Desta classe inteira, temos a segunda maior população. Mas quando a gente pega Malásia, Indonésia e Filipinas, esses países andaram fazendo coisas absolutamente miraculosas nos últimos 50 anos, enquanto basicamente andamos para trás. Ou ficamos parados. Nossa nação tem futuro não porque o futuro dela parece com a Europa. Não é porque vamos construir uma Paris no Recife, em Belo Horizonte ou em Taperoá, PB.

O Brasil tem futuro porque é grande. Tem futuro porque são 8,5 milhões de quilômetros quadrados. Porque são 211 milhões de habitantes. Por ter o potencial de 211 milhões de pessoas. Se as pessoas aprenderem qualquer coisa que tenha um valor, algum tipo de valor, no grande encontro global de contas – seja de filosofia, sociologia, economia, tecnologia digital… Se tivéssemos 10 milhões de brasileiros que escrevessem software, hoje, e falassem inglês, certamente exportaríamos pelo menos US$ 100 bilhões em software para o mundo, por ano. Duas vezes e meia a exportação do complexo de soja em 2020. Sem derrubar uma só árvore.

Para fazer isso, no entanto, e mantendo só o fato pequeno, minúsculo talvez, desse espaço-tempo digital no qual estamos agora, precisamos enfrentar grandes desafios. Eu não vi e não conheço, na história da humanidade, até agora, nenhum mecanismo de auto-articulação em rede (e a internet que existe hoje não é exatamente uma rede como gostaríamos que fosse) de alguma coisa do tamanho do Brasil: 211 milhões de agentes independentes, contando só as pessoas.

Isso talvez queira nos dizer que, para formar redes que querem alguma coisa ou redes que serão alguma coisa, temos que nos articular de alguma forma. A melhor forma conhecida na história da humanidade desde sempre -e não há nenhuma inovação nisso- é estabelecer grandes desafios. O Brasil sabe fazer isso e já fez bem mais de uma vez. Podemos citar pelo menos cinco grandes desafios sociais com os quais lidamos nos últimos 50 anos e equacionamos e resolvemos todos. Isso é muito pouco reconhecido por nós, brasileiros, que somos sempre o país do futuro mas também, ao mesmo tempo, somos os derrotados do presente. Aí não dá: é megalomania associada a complexo de inferioridade, ao mesmo tempo; tenso demais.

Na década de 1970, o Brasil resolveu que iria domar a epidemia de pólio, porque na década de 1950 e 1960, em números absolutos, o país tinha tido mais casos do que a Índia. E a Índia já tinha uma população muitas vezes maior do que a nossa. Um conjunto de epidemiologistas, sanitaristas, agentes de saúde, políticos de todos os vieses -e estávamos numa ditadura militar- trabalhou em conjunto e resolvemos a questão em três décadas: 1970, 1980 e 1990. Não foi um milagre, apesar de parecer. Foi resultado de um grande desafio que tinha uma grande estratégia para ter grandes resultados. 

Também na década de 1970, outro desafio real do Brasil era não ter moeda forte suficiente para comprar comida, que não conseguia produzir toda aqui, apesar de ter 8,5 milhões de quilômetros quadrados – do quais pelo menos 2 milhões são agricultáveis. Aí criou-se a Embrapa. Com o grande desafio de autossustentação e exportação alimentar, tendo a Embrapa como base uma estratégia para tal. Também demos conta disso, a ponto da exportação de soja ter chegado, em 2020, a US$43 bilhões.

O Brasil, hoje, é basicamente exportador de fragmentos de superfície: na forma de terra, mesmo, e como grãos e proteína animal. As minas, obviamente, não vieram da Embrapa, mas o agronegócio, que sustenta boa parte da dinâmica competitiva brasileira no mercado internacional, veio da Embrapa diretamente. A Embrapa custa ao Brasil, hoje, o equivalente a soma dos orçamentos das duas maiores universidades do país. E achamos isso muito, quando é mínimo. Se a Embrapa tivesse investimentos de R$ 30 bilhões por ano, quase 10 vezes mais do que investe hoje, talvez conseguíssemos, por exemplo, olhar para o futuro e dizer: “O Brasil não vai precisar transformar capim em picanha porque nós saberemos como (e em escala) transformar proteína vegetal em proteína “parecida com animal”, exportar isso globalmente e ainda por cima recuperar todo o ecossistema que destruímos para plantar capim”. Mas nós fizemos a Embrapa. É bom poder dizer isso. 

Em saúde, fizemos três coisas que quase ninguém no mundo conseguiu na nossa escala. Primeiro, a partir da década de 1980, reduzimos em 2/3 o número de fumantes no país, reduzindo drasticamente o custo humano, social e econômico do tabagismo. Segundo, tratamos a epidemia de HIV/AIDS, para qual até hoje não existe vacina, com uma política pública que pouquíssimos países, mesmo os ricos, têm e, num país que teria o potencial de 10% da população com a síndrome, temos menos de 0,5%. Estes dois feitos tiveram na sua base o terceiro, um Sistema Único de Saúde, criado como instruído pela constituição de 1988. O SUS é único em mais de um sentido da palavra, é quase único no mundo em vários sentidos. No país que queria ser “do futuro”, mas não é, e é de terceiro mundo como somos, se o SUS não existisse, o sofrimento e mortes causados pela pandemia quase certamente teriam sido estratosfericamente maiores.

Pólio, Embrapa, AIDS, fumo e SUS. Nós conseguimos fazer isso porque nós nos impusemos os desafios. Construir um país do futuro, onde [só por exemplo] 10 milhões de brasileiros, daqui a 20 anos, programem computadores, falem inglês fluentemente e estejam inseridos no mercado de trabalho internacional da economia do conhecimento –que é deslocalizada e dessincronizada e independe de fronteiras–, vai depender, quase certamente, de nós nos impormos o desafio de criar e manter um sistema único de educação. 

Um sistema único de educação que não esteja olhando para melhorar a nota da nossa própria avaliação –de 3,5 para 4,5 numa escala que vai até 10 pontos– e achar que foi um grande progresso global. Foi um grande progresso local. O que era horrível ficou muito ruim. Não é nem apenas ruim ainda. Mas precisamos nos avaliar, também, pelo nosso tamanho e complexidade. Aí, mesmo com todas as dificuldades que temos, muita coisa está acontecendo na educação, do ponto de vista estrutural. Por isso mesmo que, quanto mais articularmos as competências e habilidades que há no Brasil ao redor de grandes desafios estruturais, mais chance temos de, mais rápido, criar algum país do futuro. 

Os grandes desafios que começam na educação se perpetuam em todas as facetas da sociedade brasileira. Cerca de 40% da força de trabalho do Brasil é informal. Como é que conseguiremos ser “o país do futuro” se nos mantivermos assim? Desde que se fundou o Brasil, o país tem problemas que são intratáveis, como esse, porque tentamos apenas tratar o emprego informal, que é apenas uma febre, sintoma de doenças muito mais graves e profundas na sociedade como um todo. 

Na base de muitas das febres do Brasil, está uma causa-raiz que nos recusamos atacar como deveríamos, porque muitos, quase todos, acham muito complicado: educação. Ou nos impomos um desafio nacional de grande porte para resolver o problema da educação do Brasil -e não é com escolas piloto, não é com experimentos para ganhar prêmios que conseguiremos- ou não sairemos do lugar. Precisamos resolver o problema dos 85% dos alunos do ensino fundamental e médio que estão matriculados em escolas públicas. Elas custam muito caro e entregam muito pouco. Se quisermos resolver o Brasil e preparar o país para aquela economia que está logo ali na frente -onde digital vai ser só um suporte para fazermos engenharia genética, para fazermos tratamentos que são absolutamente ficção hoje- teremos que resolver a educação em escala e qualidade. 

Aí seremos um dos países mais competitivos do mundo por uma razão única, básica e simples: temos muita gente. Mas já perdemos o bônus populacional que tínhamos. E não dá para recuperar porque não vamos recuperar as taxas de fertilidade. Para o Brasil dar um salto, tem que dar um salto de performance. E isso não vai acontecer aleatoriamente, esperando que uma coisa aqui e outra coisa ali se juntem por acaso. Claro que uma parte significativa das grandes estratégias é emergente e teremos que aproveitar muito do que já está acontecendo. 

Mas outra parte, talvez maior, certamente muito maior, tem que ser determinada. Tem que ser escolhida, induzida. Porque, entre muitas outras coisas, há para isso. A Receita Federal acabou de recuperar créditos fiscais R$100 bilhões que eram dados por perdidos. Imagine se usássemos tal receita e investíssemos, nos próximos 10 anos, R$10 bilhões a mais, por ano, focados exclusivamente em educação, R$10 bilhões a mais, por ano, num sistema único de educação. Mas único mesmo. Com alta performance. Onde, por exemplo, todos os diretores de escola –que até poderiam ser indicação do prefeito, de quem fosse– teriam que ter as competências e habilidades de diretores de escola e serem certificados como tal. Teriam obrigatoriamente que entender o que é uma escola. O que é um projeto educacional. O que é um sistema educacional. O que são competências e habilidades e porquê as pessoas estudam. Que não é para fazer provas. É para resolver problemas.

Se criássemos, de verdade,  um sistema único de educação, mudaríamos o Brasil para sempre.

E isso leva de 30, 50 a 100 anos para ser criado, escalar e se tornar sustentável, porque inquestionável. Mas, se não começarmos algum dia… todo dia em que não começamos perdemos dois dias. O dia em que não fizemos nada e o dia que  teremos que fazer alguma coisa na frente. E o Brasil, se continuar assim, como vem sendo para tratar alguns de seus maiores problemas estruturais não há anos ou décadas, mas há séculos, pode até ser o país do futuro. Mas do futuro do pretérito.

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SOBRE O AUTOR

SILVIO MEIRA

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

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