Pesquisa do Fórum de Davos com a PwC revela que o investimento na requalificação da mão de obra poderia trazer um ganho no PIB global de 6,5 trilhões de dólares
Nesta quinta-feira, 28/1, um dos maiores desafios para o futuro do trabalho entra em debate no Fórum Econômico Mundial, realizado nesta semana de maneira virtual em função da pandemia: como capacitar a mão de obra para os empregos do futuro?
Com o tema Skilling the Global Workforce (algo como “ensinando a força de trabalho global, numa tradução livre), dois painéis discutem como governos e empresas podem colaborar de maneira mais robusta para um treinamento contínuo da mão de obra global após o choque profundo causado pela pandemia colocar de cabeça para baixo o ambiente corporativo.
Entre os convidados estão nomes de instituições na vanguarda do capitalismo mundial, como Angel Gurría, secretário-geral da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), clube de nações de renda alta, Jonas Prising, principal executivo da consultoria de recrutamento e seleção ManpowerGroup e Frida Polli, fundadora da Pymetrics, empresa de tecnologia dedicada ao emprego de inteligência artificial e neurociência na tentativa de remover vieses na seleção de pessoas para o mercado de trabalho.
Num cenário em que empresas prometem estender o home office ou adotar o trabalho híbrido (parte presencial, parte em casa) mesmo após a vacinação em massa, especialistas estão às voltas com dúvidas do tipo: que treinamento a mão de obra precisa para ser produtiva trabalhando de qualquer lugar?
Segundo o relatório Future of Jobs 2020, do próprio Fórum Econômico Mundial, metade de todos os trabalhadores do mundo vão precisar de requalificação até 2025. Entre as 15 habilidades mais requisitadas pelo mercado de trabalho do futuro, segundo o relatório, estão competências técnicas, como programação e experiência de usuário, com habilidades socioemocionais, como criatividade, liderança, pensamento analítico e inteligência emocional.
A janela de oportunidades para treinar a força de trabalho pode estar ficando mais estreita por causa da crise econômica causada pela pandemia – afinal, com receitas em perigos numa economia global numa das fases mais incertas da história, como as empresas conseguirão investir recursos em treinamentos de sua mão de obra?
Segundo o relatório, que ouviu a liderança de 291 grandes empresas em 24 países, inclusive o Brasil, 43% dos entrevistados esperam reduzir sua força de trabalho nos próximos anos, fatia superior aos 34% com planos de expandir o quadro de funcionários para integrar novas tecnologias.
Segundo Andrew McAfee, co-diretor do MIT Initiative on the Digital Economy, fórum de estudos da prestigiada universidade de tecnologia dos Estados Unidos, em palestra no primeiro dia do Fórum de Davos de 2021, a lacuna de habilidades digitais é um dos desafios mais urgentes para os governos, negócios e trabalhadores.
O risco não é somente de a automação acabar com as vagas de emprego, mas de uma mudança nas competências exigidas pelo mercado afetar todas as profissões. Na área de tecnologia, por exemplo, que já tem uma demanda de mão de obra muito superior à oferta no mundo todo, diversas empresas já se atentaram para o problema e buscam novas soluções para capacitar seus futuros empregados.
Uma pesquisa do Fórum com a consultoria PwC revela que o investimento de empresas junto ao setor público na requalificação em larga escala da mão de obra poderia trazer um ganho no PIB global de 6,5 trilhões de dólares e levar à criação de 5,3 milhões de empregos até 2030.
Aqui e ali, empresas e especialistas estão mostrando a importância da qualificação constante da mão de obra. Resta saber se esses esforços vão conseguir acompanhar a velocidade das mudanças no mercado de trabalho causadas nos próximos anos.
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Becky Frankiewicz e Tomas Chamorro-Premuzic HBR 16 de março de 2021
Nas últimas décadas, a rápida transformação digital permitiu que as empresas reinventassem completamente a maneira como trabalham e gerenciam talentos. De plataformas de videoconferência estáveis a softwares de colaboração digital, da conectividade onipresente baseada na nuvem à abordagem centrada em dados para a tomada de decisões estratégicas alimentada pela sinergia entre inteligência artificial e humana, um trabalhador imaginário dos anos 1950 certamente ficaria maravilhado com o mundo do trabalho dos dias atuais, como se saído de um episódio do Black Mirror.
Mesmo assim, foi necessária uma pandemia para realmente acelerar essa tendência e transformar a maneira como a maioria das pessoas trabalha no dia a dia, lançando mão desses aspectos fundamentais da tecnologia para mudar drasticamente a forma como encaramos os empregos e as carreiras, talvez para sempre. De fato, para aqueles que possuem a capacitação para trabalhar remotamente, a crise impulsionou uma mudança sem paralelo em direção a um trabalho mais flexível, com a possibilidade de se viver uma vida que combine melhor os aspectos profissional e familiar – tendências que sabemos que os trabalhadores desejam há algum tempo.
A tecnologia tem o potencial de ser um grande facilitador, dando às pessoas as ferramentas para permanecerem emocional e socialmente conectadas, mesmo quando em isolamento físico, e a crise tem sido o catalisador essencial para essa mudança. No início da crise, o talento literalmente saiu do prédio, e agora começamos a perceber que, em muitos lugares, é improvável que ele volte a campo. No que certamente contará como uma das mais fortes demonstrações da extraordinária capacidade humana de adaptabilidade, os trabalhadores do mundo foram capazes de permanecer produtivos mesmo em confinamento.
A Humanyze, uma empresa de tecnologia especializada em sensoriamento social (liderada por Ben Waber, do MIT, que cunhou o termo people analytics, agora amplamente usado), garimpou e-mails, bate-papos e dados de calendário anônimos de empresas para descobrir que trabalhar fora do escritório de fato estendeu o expediente do trabalhador entre 10% e 20% em média, ao mesmo tempo que reduziu o estresse e as emoções negativas relacionados ao trabalho, aumentando a confiança e o bem-estar e melhorando a comunicação com colaboradores próximos em surpreendentes 40%. Nos estágios iniciais da pandemia, a Microsoft relatou um aumento de 200% nas reuniões virtuais (extraindo dados de clientes do Microsoft Teams), com um total de 2,7 bilhões de reuniões por dia. Embora as equipes virtuais e o trabalho remoto já existissem antes da Covid-19, é provável que a colaboração geral aumente de fato quando todos estiverem remotos, com empresas como Twitter e Square anunciando que seus funcionários podem trabalhar de casa para sempre, e com indícios sugerindo que a colaboração empresarial é mais forte hoje do que antes da pandemia.
Ao esperarmos qual será a próxima novidade, não surpreende que muitas pessoas não queiram voltar ao escritório em tempo integral e, por extensão, serem obrigadas a morar perto dele, especialmente se ele existir apenas para fins simbólicos ou decorativos. Como aponta a análise global recém-publicada pelo ManpowerGroup, oito em cada dez trabalhadores desejam um trabalho mais remoto, a fim de obter uma combinação mais saudável entre vida profissional e vida privada. Sem dúvida, temos argumentado sobre os benefícios de uma força de trabalho ágil, híbrida e fluida por algum tempo, mas a pandemia marca a entrada formal na era dos nômades digitais e uma força de trabalho personalizada, em que se destacam cinco tendências (e oportunidades) a considerar:
1. A tecnologia tem aprofundado as conexões humanas: as discussões sobre novas tecnologias, como a inteligência artificial (IA), muitas vezes pintam um quadro desolador e desumanizado. Por exemplo, o autor de Sapiens: uma breve história da humanidade, Yuval Noah Harari, advertiu sobre o surgimento de uma “classe inútil” entre os seres humanos. E há alarmes exagerados sendo acionados a respeito da automação. Uma tendência mais óbvia até agora é que humanos trabalhando com, e aprimorados pela IA, quase sempre produzem melhores resultados do que humanos sem IA, ou IA sem humanos. Enquanto a crise acelerou o uso da tecnologia, permitindo a dissociação do trabalho de um “local”, essa mudança já estava ocorrendo, visto que um grande número de empresas – grandes, médias e pequenas – fazia os investimentos necessários em ferramentas de colaboração online como Zoom e Teams, contribuindo com o crescimento global superior a US$ 45 bilhões do mercado de software de colaboração (resultando em um aumento de 300% no preço das ações da Zoom desde o início da pandemia).
A tecnologia está rapidamente se tornando mais humana. Não estamos simplesmente colaborando; estamos administrando empresas, visitando familiares, frequentando casamentos e educando nossos filhos por meio da tecnologia, tornando o mundo virtual mais humano, forjando conexões digitais profundas alicerçadas em laços genuinamente humanos. A crise transformou o software de colaboração em “software de convivência”, com a Microsoft divulgando um aumento de 10% nas reuniões sociais (incluindo o “dia do pijama” ou o “dia do pet”) nos últimos meses. Tudo isso nos permite existir “no mesmo espaço e ao mesmo tempo” juntos, enquanto nós determinamos o lugar.
2. Construindo a cultura fora dos edifícios: no ano passado, quando o mundo não conseguia nem imaginar o estado atual das coisas, apresentamos nossa pesquisa intitulada What Workers Want (O que querem os trabalhadores), e um CEO de uma empresa da Fortune 500 nos perguntou: “Como é possível criar uma cultura sem estarmos no mesmo lugar”? Nossa resposta foi que a cultura não existe dentro das paredes; ela existe dentro das pessoas, então você tem que construir a cultura por meio das pessoas, não importa onde elas estejam. Deu para notar seu ceticismo; mas a pandemia provou que podemos e devemos construir a cultura a partir das salas de estar e home offices de todo o país. Os trabalhadores já sabiam disso tempos atrás. É por isso que as pessoas podem usar uma mesma tecnologia, mas experimentar o trabalho de uma maneira muito distinta quando mudam de uma empresa para outra. Essencialmente, a cultura é “como tocamos nosso barco”, isto é, a soma de comportamentos, preferências, valores e decisões padrão que tornam cada organização um habitat único, independentemente de as pessoas frequentarem um escritório ou não.
Agora os líderes de empresas também estão percebendo isso. Eles podem se concentrar na construção da cultura em qualquer lugar, evitando a microgestão, superando a política do presentismo e aprendendo a medir o que cada funcionário realmente produz e contribui para a organização com o máximo de objetividade e dados possível. Acima de tudo, ao cultivar a confiança e a justiça nas relações com os funcionários, os líderes podem aprimorar a cultura empresarial, mesmo em um mundo apenas virtual.
3. Trabalho como base da vida: nossa pesquisa ManpowerGroup mostra que a segunda preocupação dos trabalhadores na pós-crise, depois da saúde, é manter a flexibilidade. A maioria dos trabalhadores deseja trabalhar remotamente alguns dias por semana; querem um ambiente de trabalho que seja um híbrido entre trabalho e casa, e que permita um equilíbrio melhor. Mas o escritório ainda tem um papel na conexão humana. Empresas como a Ford estão aproveitando esse momento para repensar a forma como o espaço do escritório funciona. Outras estão investindo em novos hubs para as pessoas se reunirem para colaborar e socializar. Os funcionários da Geração Z estão mais otimistas em voltar ao escritório (em seus próprios termos) e veem o ambiente de trabalho principalmente como fonte de socialização e como um lugar para fazer contatos e aprender. A Geração X e os Boomers, que lideram muitas empresas hoje, apreciam a separação que o local de trabalho físico traz em suas tentativas de manter o trabalho e a casa um pouco mais separados.
É fundamental que os líderes percebam que, embora os funcionários ainda desejem ir ao escritório ocasionalmente, poucos querem frequentá-lo todos os dias. Para ocupações que precisam ser presenciais, será importante flexibilizar os horários para minimizar o deslocamento, flexibilizar o expediente para permitir que pais sejam professores em meio período e flexibilizar os dias para permitir que o trabalho seja a base da vida.
4. A tela como o grande nivelador: o ponto forte das videochamadas é que as janelinhas são todas do mesmo tamanho – e esse é um ótimo nivelador. Antes da crise, todos já havíamos participado de reuniões em que uma parte da equipe estava presencial e outra parte online. Os participantes online eram principalmente espectadores da reunião presencial. Havia uma vantagem em estar “na sala”, algo semelhante a estar no lugar certo na hora certa, e dizer a coisa certa para a pessoa certa.
Com as empresas se esforçando para aumentar a diversidade, a equidade e a inclusão, a tecnologia fornece o campo de jogo nivelado que a maioria dos grupos deseja. Além de se tornar mais difícil se envolver na política do escritório, ostentar ou gerenciar tudo através de uma reunião pelo Zoom em que todos estão vendo, a possibilidade de captar, armazenar e analisar dados de reuniões fornece às empresa fatos concretos para avaliar questões de diversidade, equidade e inclusão (DE&I) em tempo real. A análise da diversidade, incluindo uma medida do quanto pessoas de diferentes grupos falam durante as reuniões, se são incluídas ou excluídas das redes sociais informais que governam a dinâmica de poder de uma empresa e se suas ideias e comentários são bem recebidos pelo grupo , promete acelerar o progresso em uma área ainda imperfeita. Se existe um lado bom da tecnologia e da crise de saúde global foi a depuração que acabaram promovendo em muitas das políticas tóxicas e do nepotismo que corrompem o ideal meritocrático das organizações centradas no talento: é bem mais difícil “fingir estar trabalhando” quando ninguém vê você ou se importa com onde você está.
5. Talento desencadeado geograficamente: se o vírus não está confinado por fronteiras, tampouco está o talento em um mundo virtual. Durante anos o modelo foi o mesmo; quando você está interessado em contratar talentos, uma das primeiras perguntas costuma ser: “Você pode se transferir para cá?” Na maioria dos planos de talentos ao redor do mundo, esse é o maior fator limitante, pois tem restringido o avanço de carreiras e o crescimento de empresas por décadas. No entanto, mais recentemente, temos visto uma maior autonomia por parte dos talentos qualificados, em que determinam onde escolhem viver e onde contribuem para o trabalho. Os programadores de software experimentaram a primeira mudança – o trabalho seguiu o talento. Então, com um dos níveis de desemprego mais baixos já vistos no mundo no ano passado, vimos essa abertura em relação à localização se expandir para outros setores, como o setor financeiro e o de bens de consumo.
A tecnologia agora desvinculou o talento de sua localização. Indivíduos capacitados para funções com alta demanda em qualquer setor agora percebem que podem viver onde quiserem e trabalhar onde forem mais qualificados. E os empregadores agora percebem que podem encontrar os melhores talentos em qualquer lugar do mundo, desde que tenham uma conexão de internet. A ideia de que os trabalhadores precisam se deslocar fisicamente para conseguir um emprego está ultrapassada, junto com os custos de mudança de endereço. Na verdade, é bem simples: trabalhadores talentosos querem ser livres – livres de fronteiras geográficas, livres de expectativas de localização física e livres de restrições governamentais. Segundo estimativas da revista The Economist, abrir fronteiras para liberar talentos resultaria em um aumento de US$ 78 trilhões no PIB mundial: “A mão-de-obra é a mercadoria mais valiosa do mundo – no entanto, por conta de regulamentações de imigração rígidas, boa parte dela é desperdiçada”. Se a tecnologia e as mudanças culturais nas empresas permitem que as pessoas trabalhem de onde quiserem, elas liberarão talentos mesmo com as atuais leis e restrições de imigração, contrariando a recente tendência política de desacelerar a globalização em favor de políticas nacionalistas.
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Local de trabalho e funcionários agora se separaram, ao passo que trabalho, casa e escola se juntaram. A tecnologia tem afastado as pessoas dos escritórios, trazendo-as de volta ao lar em nosso país todos os dias. Estamos construindo uma cultura fora dos edifícios, com o trabalho como base da vida em um campo mais equilibrado, com talentos que podem se originar de qualquer lugar. Ao olharmos para o futuro, é hora de criarmos uma nova forma de trabalhar no longo prazo, com foco no bem-estar, na igualdade e na produtividade, que pode funcionar tanto para empregadores quanto para funcionários muito depois do fim da crise. É hora de abraçar o pool de talentos verdadeiramente global que está disponível para impulsionar o crescimento, não importa o local que essas pessoas chamam de lar.
Em suma, o pool global de talentos está diante de nós, e o talento é a nova moeda global… se as empresas tiverem a cultura, a segurança e a tecnologia para explorá-lo.
Becky Frankiewicz é Presidente da ManpowerGroup North America e especialista em mercado de trabalho. Antes de ingressar na ManpowerGroup, ela liderou uma das maiores subsidiárias da PepsiCo, a Quaker Foods North America, e foi eleita pela Fast Company uma das pessoas mais criativas do setor. Encontre-a no Twitter:@beckyfrankly.
Tomas Chamorro-Premuzic é o Cientista Chefe de Talentos da ManpowerGroup, professor de psicologia empresarial na University College London e na Columbia University, além de colaborador do Laboratório de Finanças Empresariais de Harvard. É autor do livro “Why do so many incompetent men become leaders?(and how to fix it)”, livro que embasa sua palestra no TEDx.
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SÃO PAULO – Muitos associam a economia de Santa Catarina ao turismo gerado por suas praias – mas o estado está surfando uma onda diferente nas últimas décadas: a das startups.
A representatividade da tecnologia no faturamento estadual já representa quase o dobro da média nacional. Com apenas 1,1% do território nacional e 3,4% da população brasileira, Santa Catarina é o quarto estado com maior faturamento em tecnologia. Fica atrás apenas de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Mesmo entre esses estados, Santa Catarina teve o maior crescimento no número de empresas de tecnologia durante o período de 2015 a 2019.
A alta foi de 11,8%, levando a mais de 12 mil o número de empresas de tecnologia catarinenses. No mesmo período, a quantidade de empresas no setor de tecnologia caiu 8,5% no acumulado brasileiro. Boa parte dessas companhias são startups – negócios escaláveis, inovadores e tecnológicos.
Praia em Santa Catarina: estado vai além do turismo (Pixabay)
Florianópolis tem a maior densidade de startups por mil habitantes no país – são cinco empreendimentos do tipo para cada mil habitantes. Mas as startups de Santa Catarina não ficam mais restritas apenas à “Ilha do Silício”. Blumenau (no Vale do Itajaí) e Joinville (no norte) também estão entre as dez cidades brasileiras com maior densidade de negócios escaláveis, inovadores e tecnológicos.
O próximo passo é fazer startups de outras regiões do estado – como oeste, serra e sul – ganharem relevância e provocarem a criação de mais empreendimentos do tipo. Com apoio de instituições acadêmicas e públicas, cada localidade está criando suas próprias iniciativas de fomento à inovação. O InfoMoney conversou com fundadores de empresas de tecnologia em cada região de Santa Catarina para traçar um panorama do fomento à inovação no estado.
Mapa de Santa Catarina (Wikipédia/Reprodução)
1970 e 1980: indústria e informática
Os dados apresentados acima são da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate). Seu presidente, Iomani Engelmann, explica que as startups de Santa Catarina têm como embrião o atendimento às indústrias espalhadas pelo estado.
Nas décadas de 1970 e 1980, empresas de informática passaram a fornecer soluções como gestão e folha de pagamentos para a indústria. É o caso, por exemplo, de Datasul (1978) e Betha (1985). “Aproveitar o arranjo local das indústrias pode ser um caminho de menor risco e com colheita mais rápida de resultados. A carteira de potenciais clientes já existe”, diz Engelmann.
A Betha fornece softwares de gestão pública para mais de 3 mil clientes, em 800 municípios brasileiros. São prefeituras, câmaras de vereadores, fundações, autarquias, escolas e empresas estatais de saneamento. O negócio cresceu 8,1% em 2020, e espera expandir 25% em 2021. “A história da tecnologia no estado – ou informatização, como chamávamos na época – mistura-se com a da Betha. Ainda não havia incentivo à tecnologia, que era concentrada em pouquíssimas empresas, e havia limitações no próprio desenvolvimento de soluções. Começamos alugando computadores para prefeituras que tinham dificuldade para comprá-los”, conta Aldo Garcia, CEO da Betha.
“Com o barateamento dos equipamentos, cresceu a demanda por softwares de administração. Vimos mais empresas de tecnologia surgindo nos últimos 15 anos, algumas até de antigos funcionários da Betha. Fica difícil decidir qual produto ou serviço adquirir hoje.”
Aldo Garcia, CEO da Betha (Divulgação)
Compufour Zucchetti (1995) e NDD (2004) foram criadas nas décadas seguintes, mas seguem a tradição das empresas de informática. A Compufour Zucchetti fornece um software de gestão fiscal para 40 mil micro e pequenos empreendedores, por meio de 1,7 mil canais de distribuição e assinaturas mensais. Seu CEO, Wagner Muller, conta uma história parecida com a da Betha. Ele gostava de programar e começou como office boy na empresa, para acessar computadores e testar códigos nas horas vagas. Após promoções, compras de participações e saída dos sócios-fundadores, Muller tornou-se CEO em 2017.
“Era uma empresa de informática no começo, não de tecnologia. Começamos a vender equipamentos e a fornecer suporte técnico para as empresas da agroindústria. Um computador custava cerca de 45 salários mínimos, então o desenvolvimento de software entrou apenas como um hobby. Não havia demanda, usávamos apenas para controle interno”, diz Muller.
As vendas de sistemas de gestão fiscal começaram a partir de 1995, com a participação em feiras de informática, como a Fenasoft. “Só se falava de tecnologia em Blumenau ou Joinville. Florianópolis ainda nem havia entrado no radar. Fomos convidados para preencher espaço, mas vendemos todos os disquetes que havíamos preparado, mesmo sem existir tantos computadores entre micro e pequenas empresas. Vimos a oportunidade de investir na vertical de software, que tinha bem mais escala”, conta o CEO.
A vertical de venda de equipamentos foi descontinuada em 2001. Apenas em 2020, a Compufour mediou R$ 26 bilhões em emissões de notas fiscais. Em outubro do último ano, a Compufour foi vendida para o grupo italiano Zucchetti, em uma transação avaliada em R$ 100 milhões. A Zuchetti fornece softwares para 400 mil micro e pequenos empreendedores em países como Alemanha, Espanha, Estados Unidos, França e Suíça. Agora, a Compufour Zucchetti espera crescer na ordem de dois dígitos em 2021.
Wagner Muller, CEO da Compufour Zucchetti (Divulgação)
A NDD também começou vendendo equipamentos de informática, em 2004, mas logo passou para o gerenciamento de impressoras e documentos. Anos depois, a NDD focou no segmento de processamento de documentos fiscais eletrônicos, apoiada pelo surgimento da NFe.
A empresa processa e controla 1,2 bilhão de documentos fiscais para 20 mil empresas. Recentemente, expandiu para a digitalização de documentos de transporte, como guias de fretes.
A NDD cresceu 13% em 2020, e espera repetir a taxa em 2021. “Tínhamos uma forte indústria madeireira. Depois veio a agricultura. Depois ainda, o comércio. Era uma loucura abrir uma empresa de tecnologia em 2004. Mas a situação mudou, e até a impressão virou digitalização. Temos sempre de pensar nas futuras necessidades dos clientes. Várias empresas de tecnologia surgiram ao nosso redor, inclusive criadas por ex-funcionários”, diz Raphael Serrana, diretor executivo da NDD.
1980 em diante: a Ilha do Silício
Florianópolis inaugurou o primeiro caso de fomento artificial ao segmento de tecnologia em Santa Catarina – não mais para atender indústrias próximas. “Professores entenderam que as universidades da região, como a UFSC, formavam uma boa mão de obra em tecnologia. Mas os alunos não viam oportunidades de trabalho, em uma ilha sem indústrias, e partiam para o Sudeste”, diz Engelmann.
A primeira geração de empresas de tecnologia da ilha pode ser vista pela Dígitro (1977) e pela Softplan (1990). Em 1986, entidades acadêmicas, iniciativa pública e iniciativa privada criaram o Centro Empresarial para Laboração de Tecnologias Avançadas (Celta). A incubadora de empresas em estágio inicial e de cunho tecnológico abrigou mais de 100 projetos desde então.
Apoiadas pelo barateamento do desenvolvimento tecnológico, outras iniciativas de fomento ao empreendedorismo surgiram, assim como uma nova geração de empresas de tecnologia. Focadas em grandes e velozes taxas de crescimento, tais organizações faziam parte do movimento de startups.
Florianópolis acumula casos de sucesso, como a startup de marketing digital RD Station (2011), que inspiraram mais pessoas a criarem negócios inovadores. “A tecnologia é uma das poucas vocações econômicas possíveis para a ilha de Florianópolis que não dependem da sazonalidade, característica do turismo, ou da condição de capital do estado para os serviços públicos”, diz Engelmann.
Uma série de entidades de apoio e uma comunidade de empreendedorismo na qual todos se conhecem renderam comparações entre Florianópolis e o Vale do Silício, nos Estados Unidos. Por isso, a capital catarinense foi apelidada de Ilha do Silício.
Conheça os novos criadores de startups
A história da Ilha do Silício é conhecida e a região da Grande Florianópolis ainda é a mais representativa para a tecnologia de Santa Catarina, com 32,5% das empresas catarinenses no segmento.
O desafio atual de Santa Catarina é replicar o método que criou o ecossistema de empreendedorismo tecnológico em Florianópolis pelo resto do estado. “A descentralização é sadia para fomentar um equilíbrio de desenvolvimento pelas regiões e evitar um processo migratório para o litoral. Não é preciso estar em uma grande cidade para trabalhar com tecnologia”, diz Engelmann.
A Acate representa a indústria desde 1986, mesmo ano de fundação do Celta. O governo estadual tem a Acate entre as parceiras para nove centros de inovação espalhados por Santa Catarina – prédios fornecidos pelo próprio governo estadual e que abrigam iniciativas públicas e privadas de empreendedorismo. Outros três estão em construção, e mais três em fase de projeto.
Sede da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate) (Divulgação)
“Mapeamos a maturidade de cada região e qual tipo de programa ela pode absorver. Não adianta criar um fundo de capital de risco local se não existem empresas para receber o dinheiro”, explica Engelmann. A Acate elenca quatro conjuntos de iniciativas, com maturidade crescente: competições tecnológicas e encontros (hackatonse meetups); programas de incubação e aceleração; investimento anjo; e, finalmente, fundos de capital de risco locais e iniciativas de conexão com grandes empresas.
O Vale do Itajaí, por exemplo, fica próximo a Florianópolis e já tem Blumenau como carro chefe em termos de empreendedorismo escalável, inovador e tecnológico. A região vem logo depois da Grande Florianópolis, em termos de concentração de empresas de tecnologia – tem 27,4% das companhias no estado. O norte vem logo depois, com 18,7% de participação, e tendo Joinville como destaque.
Mas ainda existe o desafio de levar o movimento de startups para outras cidades do Vale do Itajaí e do norte do estado. Jonatan da Costa, fundador da startup que gere centrais de negociação comercial Área Central, lista algumas iniciativas de fomento ao empreendedorismo tecnológico em Rio do Sul, no Alto Vale do Itajaí. A cidade tem cerca de 70 mil habitantes e está a cerca de 100 km de Blumenau.
A Área Central atende 190 redes, responsáveis por oito mil unidades de negócio. As unidades se unem e conseguem negociar preços melhores com fornecedores – por exemplo, filiais de supermercados podem se agrupar para conversar com a gigante de bens de consumo Unilever. A startup cresceu 25% em 2020, e espera expandir 61% em 2021.
A Área Central surgiu a partir de outro negócio do empreendedor, uma empresa de serviços digitais chamada Área Local. A Área Local passou por uma incubação na Universidade para o Desenvolvimento do Alto Vale do Itajaí (Unidavi) em 2004. Em 2012, um investimento anjo de R$ 150 mil transformou um projeto de rede interna para gestão de compras na nova empresa.
A Área Central participou cinco anos depois do Startup SC, programa de capacitação do Sebrae em parceria com o Governo do Estado de Santa Catarina. Em 2018 e 2019, o empreendedor trouxe duas edições do Startup Weekend para Rio do Sul. O Startup Weekend é uma mistura de hackaton e meetup. Durante um final de semana, empreendedores formam grupos para criar projetos de negócio.
A iniciativa mais representativa para startups em Rio do Sul é o Centro de Inovação Norberto Frahm. O espaço de coworking e confraternizações empreendedoras foi criado em 2019, no encontro dos rios Itajaí do Sul e Itajaí do Oeste. A região é considerada o berço da inovação do Alto Vale do Itajaí, servindo de tribos indígenas até balsas para transporte de madeira. A Vila de Bella Aliança se formou ao redor dos rios – e depois trocou seu nome para Rio do Sul.
O Centro de Inovação Norberto Frahm foi criado pela UNIDAVI e pela Associação Empresarial de Rio do Sul (ACIRS) para se tornar “um grande polo de inovação, desenvolvimento e empreendedorismo”, segundo o próprio site do centro. Além de CEO da Área Central, Costa é diretor de inovação na ACIRS. “O centro hoje funciona junto da associação e da universidade, mas conseguimos orçamento para construir um prédio exclusivo em breve. Já temos um núcleo de inovação, provando que a criação de startups em Santa Catarina vai além de Florianópolis ou Joinville”, diz.
Jonatan da Costa, fundador da Área Central (Divulgação)
Já o oeste de Santa Catarina concentra 10,6% das empresas de tecnologia do estado. A região foi a que mais cresceu sua participação percentualmente no período de 2015 e 2019, adicionando 27,7% empresas de tecnologia no período.
Concórdia tem 75 mil habitantes e é conhecida por abrigar agroindústrias, como a fábrica da BRF. Nos últimos anos, surgiram startups focadas nesse segmento – assim como as primeiras empresas de tecnologia catarinenses surgiram para atender as indústrias no seu entorno. A Compufour Zucchetti, por exemplo, surgiu em Concórdia.
A menos de 100 quilômetros está Chapecó, com pouco mais de 200 mil habitantes. Uma das startups de Chapecó é a PackID. A empresa faz o monitoramento em tempo real de temperatura e umidade para produtos perecíveis, como alimentos e medicamentos. A PackID atende mais de 50 clientes. O negócio dobrou de tamanho em 2020 e espera repetir a proporção em 2021.
A PackID começou em 2016, a partir de um aporte financeiro do Sinapse, programa de pré-incubação promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC) em parceria com o Sebrae de Santa Catarina. Depois, a Pack ID participou de diversos programas de incubação e aceleração, como Inchtec (Unochapecó), InovAtiva (Ministério da Economia e Sebrae), BioStartup Lab (Biominas e Sebrae), ACE Start e ACE Growth. O negócio também recebeu aportes dos fundos GV Angels e WE Ventures.
Caroline Dallacorte, engenheira de alimentos e CEO da PackID, está escrevendo uma tese de doutorado sobre o desenvolvimento do ecossistema de inovação da região de Chapecó. “Inauguramos recentemente o Parque Científico e Tecnológico da Unochapecó. Agora precisamos mostrar mais resultados e criar iniciativas como as aproveitadas pela PackID em regiões mais afastadas do estado. Vejo pessoas que têm ideias, mas precisam de mais suporte”, diz Caroline.
Thales Akimoto, Caroline Dallacorte e Duan Bressan, da PackID (Divulgação)
“Estamos desenvolvendo nos últimos cinco anos esse modelo de empreender assumindo mais risco, com metodologia consagrada e tendo como objetivo crescimento e posterior venda. A mudança de mentalidade ainda tem de acontecer nas empresas e nas populações das cidades menores do oeste catarinense – os colonos braçais têm de abraçar a inovação. Iniciativas de empreendedorismo ajudam a transformar essa cultura”, completa Muller, da Compufour Zucchetti.
Além do oeste, outras regiões viraram promissoras para iniciativas de empreendedorismo tecnológico. Levando em consideração apenas os anos de 2018 e 2019, as zonas com maior crescimento em número de empresas de tecnologia foram serra (+12,5%) e sul (+12,3%). Mas também são as regiões com menor representatividade absoluta em tecnologia, concentrando 10,8% das companhias catarinenses no segmento.
A serra catarinense abriga players tradicionais, como a NDD, mas agora também as startups. Uma delas é a ilergic, aplicativo lançado em 2018 que leva orientações alimentares para pessoas com alergias e intolerâncias. O usuário configura seu perfil, escolhendo entre mais de 200 restrições, e pode escanear códigos de barra com a câmera do celular. O algoritmo da ilergic analisa componentes de cerca de 55 mil produtos e fornece o risco de consumo para cada usuário. O aplicativo tem 13 mil usuários cadastrados, 7% deles ativos mensalmente. O negócio investirá em interações sociais e na criação de perfis corporativos ao longo de 2021, com o objetivo de chegar a 50 mil usuários e 15% deles ativos.
O negócio está em Lages, cidade com cerca de 150 mil habitantes. “Cinco anos atrás, a região praticamente não tinha um ecossistema de startups”, diz Vitor Kuster, CEO da ilergic. Algumas primeiras iniciativas mencionadas pelo empreendedor são a MIDILages, incubadora da Universidade do Planalto Catarinense, e o Centelha SC, vertical catarinense do programa de subvenção econômica e networking do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
Kuster levou o Startup Weekend para Lages em 2019, após ter participado de uma edição em Concórdia. Em 2020, a ilergic foi incubada no Orion Parque Tecnológico, um complexo recém-inaugurado para abrigar empresas de tecnologia na serra catarinense. O espaço de incubação, coworking e networking já forneceu suporte para 50 empresas e possibilitou que a ilergic participasse de uma apresentação para a gigante alimentícia Danone Nutricia.
“Houve uma articulação entre entidades públicas e associações comerciais para que se construísse um centro de inovação, após aprendizados em Florianópolis e Joinville”, diz Kuster. O Orion Parque Tecnológico tem sua manutenção e programas cobertos por editais, que contam com participação pública e privada. “O povo serrano tinha receio de empreender, mas ganhamos confiança e referências por meio de iniciativas como o MIDILages e o Orion Parque. Era um desafio receber apoio, e hoje as pessoas procuram a incubação para novas empresas. Tenho visto isso principalmente a partir de 2018”, afirma Serrana, da NDD. “Precisamos agora de mais engajamento da comunidade, o que provavelmente virá depois de um caso de sucesso. O ecossistema ainda é muito novo”, complementa Kuster.
Claiton de Souza, Marco Cevey, Vitor Kuster e Rafael Peletti, da ilergic (Divulgação)
Já no sul, o embrião das empresas de tecnologia foi a Betha. De 2018 para cá, a região tem visto startups como a Nextfit. A sede tanto da Betha quanto da Nextfit é Criciúma, cidade com pouco mais de 200 mil habitantes.
A Nextfit fornece um sistema de gestão de avaliações físicas, clientes e pagamentos para mil academias e 2,5 mil profissionais de treino. Douglas Waltricke fundou a startup em 2018. O engenheiro de computação treina há dez anos e sempre recebeu perguntas sobre se conhecia um bom sistema de gestão para academias. “Onde tem gente reclamando, tem problema. Onde tem problema, tem oportunidade”, diz. A Nextfit dobrou seu número de academias atendidas em 2020, recuperando o movimento a partir de agosto com investimentos em marketing, vendas e recursos como um botão de pagamento para treinos online. Em 2021, o objetivo é quintuplicar o número de academias atendidas.
“Criciúma é um polo de carvão e cerâmica. As startups começaram a ser comentadas por volta de 2019, conheci mais sobre esse universo só depois de fundar a Nextfit. É um movimento bem incipiente, mas já temos algumas iniciativas, como um espaço de coworking e uma incubadora universitária”, diz Waltricke.
Douglas Waltricke, da NextFit (Divulgação)
O próximo passo em Criciúma é criar as próprias startups maduras. Atualmente, o aprendizado vem das conversas com empreendedores de Florianópolis. “Temos um grande potencial. Isso porque estamos bem localizados, a meia hora do mar e a uma hora da serra catarinense. Contratamos pessoal das duas regiões, unindo uma cultura tradicional de fidelidade e empreendedorismo de entrega a uma cultura mais aberta para mudanças e com foco no resultado”, completa Garcia, da Betha.
Startups em SC têm potencial, mas também desafios
Um sinal de maturidade para qualquer ecossistema de empreendedorismo tecnológico são os eventos de liquidez – quando os fundadores conseguem sair de suas startups com recursos, prontos para criar um novo negócio ou fomentar outros empreendedores por meio de investimentos. Esses eventos de liquidez são conhecidos como saídas (exits).
Segundo Engelmann, Santa Catarina já viu saídas importantes: a Datasul foi vendida para Totvs em 2008, enquanto Neogrid e Intelbras realizaram ofertas públicas inicias de ações (IPOs) em 2020 e 2021, respectivamente. “Os eventos de liquidez para empresas de tecnologia faltavam não apenas no estado, mas em todo o Brasil. São um pilar importante para o desenvolvimento do setor”, diz o presidente da Acate.
Outro potencial está na conexão com grandes corporações – o que vem da histórica relação entre as empresas de tecnologia e as indústrias de Santa Catarina. “Temos empresas como Ambev e Klabin no estado, que constroem iniciativas de inovação. Vemos oportunidades de acesso a corporações, como a participação em hackatons“, diz Kuster, da ilergic.
Mesmo com esses benefícios e com fortes comunidades empreendedoras, os empreendedores catarinenses ouvidos pelo InfoMoney listam alguns desafios para a popularização e o amadurecimento das startups locais.
Um primeiro desafio é incluir disciplinas relacionadas às startups no currículo das universidades. “Temos cursos de programação, mas não existem disciplinas focadas em experiência do usuário, design de produto ou vendas digitais. É um desafio encontrar esses profissionais” diz Kuster. “Sinto falta de cursos de curta duração em áreas visadas por startups, como growth e inteligência artificial. Precisamos contratar profissionais nessas áreas”, completa Caroline, da PackID.
Outro obstáculo é a captação de investimentos de capital de risco. “O networking ajuda muito para captar uma rodada com anjos e fundos, e ele é intenso nas capitais. Nós demoramos relativamente para conseguir um aporte – foram quase três anos para um seed. Em uma capital, teria sido mais rápido”, diz Waltricke, da Nextfit. “Existem poucos investidores e mentores regionais para as startups. As entidades de apoio nos ajudam na conexão com profissionais externos, e a pandemia tornou comum o networking por encontros virtuais. Mas temos de evoluir localmente”, completa Kuster.
Mais um desafio afeta todas as startups de menor porte, e foi intensificado durante a pandemia: a disputa por mão de obra, especialmente em tecnologia. “Retenção de talentos é um desafio especialmente para as empresas de menor porte alcançarem o sucesso. As startups captam recursos muitas vezes para fazer contratações”, diz Aldo, da Betha. As startups do interior de Santa Catarina competem com salários maiores oferecidos por metrópoles como Florianópolis, São Paulo ou Rio de Janeiro – sem falar nas remunerações de startups nos Estados Unidos ou na Europa.
A solução encontrada pelos empreendedores está em promover a qualidade de vida no estado como diferencial. Outra estratégia é criar mais profissionais, por meio de treinamentos in company. Ainda que até mesmo as menores cidades de Santa Catarina tenham universidades com cursos na área de exatas, a demanda supera a oferta de profissionais. Existem também adultos formados em outros cursos, mas que gostariam de começar na programação.
A capacitação interna é uma realidade constante nas empresas de tecnologia mais antigas de Santa Catarina. Compufour Zucchetti e NDD têm academias de programadores próprias. “A maior parte dos funcionários é formada em casa. Completamos o restante com funcionários remotos ou com serviços terceirizados por cooperativas e software houses”, diz Muller, da Compufour Zucchetti.
Já a NDD firmou uma parceria com o Senac e criou a própria academia de programadores. Os alunos são funcionários atuais ou pessoas que desejam trabalhar com programação, possivelmente na NDD. “Suprimos a nossa demanda e, ao mesmo tempo, ajudamos no crescimento econômico da serra catarinense. Vamos construir nossa nova sede do lado do Orion Parque Tecnológico. Temos 480 funcionários e pretendemos triplicar o quadro nos próximos cinco anos”, diz Serrana.
Ainda que tenham menos funcionários, as startups também estão investindo em capacitações. “Temos um programa de treinamento para pessoas que moram na região. Temos casos como filhos de agricultores, que entram para a tecnologia e acabam se dando muito bem”, diz Costa, da Área Central. Waltricke, da Nextfit, também criou um programa para recolocação profissional. “Temos muitas joias brutas em Criciúma, e a fórmula de ensinar tem funcionado. Pescamos bons profissionais em mercados saturados, como direito, olhando para características como comportamento e resiliência”.
Um último desafio para as startups catarinenses é desenvolver um olhar global. “Por termos muitas empresas, é natural querermos atendê-las. Pelo tamanho da população, muitas empresas se satisfazem abastecendo apenas o Sul e o Sudeste do Brasil. Mas é preciso ter a noção de que o mercado pode ser o mundo”, diz Engelmann, da Acate.
A mentalidade global é uma característica de Israel, por exemplo, país que criou sucessos como o Waze e concentra a maior densidade de startups do mundo. Mas Engelmann diz que a inspiração está ainda mais perto, na vizinha Argentina.
“Um mercado consumidor pequeno permitiu um olhar mundial desde o primeiro dia para suas startups. O Mercado Livre é o melhor exemplo”. A ligação entre os argentinos e Santa Catarina pode ir muito além do turismo – assim como a própria economia do estado.
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Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Enquanto o mundo estava fechado em casa de quarentena, a prefeitura de Lisboa elaborou um plano milionário para abrir suas portas aos empreendedores digitais estrangeiros. Com ênfase nos brasileiros.
A prefeitura da capital de Portugal tem parcerias com gigantes tecnológicas e vai apoiar cada nova empresa, start-up ou empreendedor selecionados com um pacote de benefícios de €500 mil (R$ 3,3 milhões).
A medida foi batizada de “Lisboa’s Growth Program” e está integrada ao programa municipal “Made of Lisboa”. Gerente de projeto, João Pedro Martins explica ao Portugal Giro que o Brasil tem sido exportador de talentos para Lisboa.
-De acordo com dados do Economic Graph do LinkedIn, o Brasil é o país de onde Lisboa mais recebe talento no mundo. Essa é uma ligação muito importante para nós, que queremos continuar a desenvolver – disse Martins.
No ranking de origem dos prodígios tecnológicos que chegam a Lisboa, enviado por Martins, a cidade de São Paulo está no topo, seguida por Caldas da Rainha, em Portugal, Araruama (RJ), Rio de Janeiro e Coimbra.
Bondinho circula pelas ruas vazias de Lisboa na quarentena | Pedro Nunes/Reuters
O brasileiro Fernando Jardim é gerente do programa e explica esta onda de mão de obra qualificada.
-Profissionais do Brasil têm mais conhecimento e experiência porque atendem um mercado maior. E as empresas querem contratá-los por este fator – disse Jardim.
Os voos comerciais para Portugal ainda estão suspensos. Mas estão previstas partidas extras do Brasil este mês.
Em tempos de crise econômica, o projeto quer incentivar o ecossistema local. O acesso aos benefícios exige que as empresas ou profissionais estejam ligados a pelo menos uma das incubadoras, ‘coworkings’ e programas de aceleração de Lisboa.
Uma vez elegível, um mundo se abre. Empreendedores e nômades digitais têm acesso direto aos benefícios caríssimos e essenciais ao desenvolvimento dos seus negócios. São pacotes de apoio de ‘big techs’ como Google, Transferwise, Amazon Web Services, Hubspot e Microsoft. Veja aqui os detalhes.
– Quem entra no programa não paga por serviços até €500 mil, porque os custos de ferramentas são nossos em parcerias com as empresas. São apoios de ferramentas para o desenvolvimento, além de não pagarem taxas de cartão e operadoras – explica Martins.
O programa concede acesso a pagamentos na internet sem taxas da transação, armazenamento em nuvem, marketing, atendimento ao consumidor e etc. Em três semanas, 40 candidaturas foram enviadas.
Em abril, a prefeitura tem planejado um evento online em português chamado “Apply for Lisboa”. O objetivo é mostrar os benefícios da internacionalização de uma empresa para a Europa a partir de Portugal.
– Nosso objetivo é atrair talentos para esta fase de retomada – contou Margarida Figueiredo, diretora municipal de Economia e Inovação de Lisboa.
Diretora do departamento de emprego de Lisboa, Isabel Advirta conta como a tecnologia transformou a imagem da capital.
-Lisboa é mais que fado, comida e praia. Há dez anos percebemos que podíamos ser um hub e apostamos nesta atividade econômica, sendo local de atração de talentos e tecnologia para competir na Europa – explicou Advirta.
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A expressão “xeque mate”, usada para indicar o lance final de uma partida no jogo de xadrez, aplica-se bem para o atual modelo de educação. É o que apontam as últimas pesquisas realizadas em 2020. A UNICEF, apresentou o resultado de uma pesquisa online feita com 40 mil jovens em mais de 150 países, mostrando que aquela crença de que um diploma universitário garantiria a qualificação profissional e um emprego valorizado e bem remunerado não seria mais uma realidade percebida por estudantes, profissionais e executivos. A pesquisa apontou que muitos jovens sentem que o modelo educacional atual não os ajuda a desenvolver habilidades necessárias para conseguir um emprego. Da mesma forma, os programas de treinamento que lhes são oferecidos não correspondem às suas aspirações de carreira.
As principais habilidades que os jovens desejam adquirir para ajudá-los a conseguir emprego na próxima década são liderança (22%), seguida de pensamento analítico e inovação (19%) e processamento de informações e dados (16%) – UNICEF
Essa percepção também ocorre entre os CEOs globalmente (74%). Segundo uma pesquisa da PwC, eles se preocupam em desenvolver habilidades para que possam expandir seus negócios, e consideram que as pessoas que mais precisam de qualificação são aquelas que têm menor acesso às oportunidades.
Assim, enquanto a sociedade demanda por uma educação que garanta o aprendizado de habilidades profissionais desde a escola, a partir dos 11 anos no mundo, e no Brasil aos 14 anos, o sistema de educação se distancia das questões reais, complexas e práticas da sociedade, a partir de um ensino que privilegia a memorização, em vez de profundidade e compreensão.
Para um melhor entendimento, o Fórum Econômico Mundial mapeou quais são os desafios globais mais urgentes, e trouxe interconexões entre várias tendências, realçando conexões importantes e que continuarão a evoluir de formas imprevisíveis nos próximos anos.
Tendências e riscos globais (Fonte: Fórum Mundial de Educação e CCR)
Diante desse cenário, o nosso desafio é enorme: como construir um novo modelo de educação, em um ambiente de complexas e constantes mudanças, com profissões e demandas que ainda nem existem?
O Center for Curriculum Redesign (CCR), órgão internacional e centro de pesquisas, reuniu grupos (organizações internacionais, jurisdições, instituições acadêmicas, corporações e organizações sem fins lucrativos) com diversos pontos de vista e tem se dedicado a identificar quais são os padrões educacionais para o século XXI, como por exemplo, o Projeto de Educação 2030, da OECD ( Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). A partir de 32 estruturas, consideradas importantes no mundo inteiro, chegou a quatro dimensões de objetivos para a educação do século 21.
A educação em 4 dimensões (Fonte: Center for Curriculum Redesign – CCR)
Conhecimento – A educação seguirá no aprendizado de matérias tradicionais e consideradas importantes. No entanto, não cabe mais reproduzir conhecimento, mas sim extrapolar o que se conhece, aplicando esse conhecimento em situações inseridas em uma realidade do mundo real.
Habilidades – É ensinar como se usa o conhecimento. Esta visão redefine a transferência do aprendizado para que as pessoas aprendam em situações novas no mundo real, desenvolvendo a criatividade, o pensamento crítico, a comunicação e a colaboração.
Caráter – Se refere à aquisição e ao fortalecimento de virtudes (qualidades) e valores (crenças e ideais) e à capacidade de se tomar decisões para que a vida seja mais equilibrada e a sociedade mais próspera.
Meta-aprendizado ou ‘aprender a aprender’ – Se refere aos processos internos pelos quais refletimos e adaptamos nosso aprendizado. Está na importância de desenvolvermos ao longo da vida habilidades e motivações, e no entendimento de que, quanto mais aprendemos, mais as concepções que temos do mundo ficam antiquadas. Para isso acontecer, é preciso que o estudo e o ensino sejam dinâmicos e permanentes (lifelong learning), sendo necessário a evolução do currículo estático e único, para um dinâmico que possa ser revisto e atualizado continuamente. Outro ponto é reservar partes do currículo para que possam ser personalizadas aos interesses e objetivos de crescimento pessoal de cada aluno.
Ao invés de se seguir um padrão único e inflexível, o que acaba limitando e desestimulando o indivíduo no próprio aprendizado e no desenvolvimento de sua criatividade, é importante respeitar as diferenças individuais no aprendizado. Isso é mostrado poeticamente na animação “Cloudy”. O novo modelo de educação, independente de ser voltado para crianças, adultos ou executivos, deve trazer resultados práticos, como uma maior realização pessoal e profissional, propiciando maior capacidade de participação na sociedade, colaborando para um mundo mais sustentável. Para se adequar a esta realidade, o Fórum Econômico Mundial lançou a Plataforma Reskilling Revolution para ajudar a preparar 1 bilhão de pessoas a conseguir melhores empregos, educação e habilidades essenciais nos próximos 10 anos.
Mesmo diante de pesquisas que demonstram profissionais, estudantes e líderes insatisfeitos com a educação, por que é tão difícil mudar as metodologias, possibilitando melhorias individuais e sociais?
O artigo Cultural Innovation (Inovação Cultural) aponta que para ocorrer mudanças significativas é fundamental desconstruir certos valores culturais que predominam na educação. É importante entender de que forma as empresas, pessoas e mídia atuam, e quais são suas principais crenças, preferências e valores. Por isso, é importante pensar como um sociólogo, dando um passo para trás, identificando aquilo que seja óbvio. Para o autor, somente estes questionamentos abrem novas perspectivas para a inovação.
No livro Relativizando, Roberto Da Matta, propõe um excelente exercício para sairmos da nossa zona de conforto: “torne o familiar em estranho, e o estranho em familiar”. A partir deste pensamento, eu trago alguns autores consagrados que provocaram questionamentos e com isso, possíveis rachaduras no sistema cultural vigente:
Será que a memorização de grande quantidade de conteúdo ainda é necessária nesta era em que podemos encontrar a resposta para tudo na internet?
Uma universidade poderia admitir também pessoas com notas mais baixas nos testes e transformá-las em líderes (em vez de admitir apenas aquelas com as notas mais altas, a maioria oriunda de família de maior renda, que possivelmente poderiam torna-se líderes, independentemente dos quatro ou cinco anos de graduação?
Por que, embora os empregadores desejem candidatos com níveis altos de QE, resiliência, empatia e integridade, esses raramente são atributos que as universidades desenvolvem ou selecionam nas admissões?
Os questionamentos acima trazem um ponto importante: colocam o ser humano no centro, da mesma forma que a metodologia apresentada pelo Center for Curriculum Redesign (CCR). Só o ser humano tem capacidade em usar suas emoções para apaziguar conflitos, utilizar o pensamento crítico na tomada de decisões, ou a criatividade na busca de soluções, para um mundo melhor. São visões assim que fazem a diferença.
Como exemplos, cito a professora brasileira, Doani Emanuela Bertan, que é TOP 10 no ‘Global Teacher Prize 2020′, considerado o Nobel da educação. Ela ensina matemática, português, geografia e ciências em Português e em linguagem de Sinais (Libras), no canal de Youtube Sala8, tornando mais acessível o conhecimento a jovens surdos. Outro exemplo é o do professor indiano Ranjitsinh Disale, ganhador do Prêmio Professor Global, que tem contribuído paratransformar a vida de muitas jovens estudanteslivrando-as do casamento precoce, e para que se dediquem aos estudos na Índia. No mundo corporativo o livro 6D: as seis disciplinas que transformam educação em resultados para o negócio, apresenta ações estratégicas que têm como objetivo tornar programas de treinamento corporativos mais efetivos e mensuráveis, eliminando obstáculos para que o aprendizado alcance seu pleno potencial e contribua de forma estratégica.
O mundo exige uma educação integrada com a sociedade e com o mercado de trabalho. Somente assim, teremos uma sociedade mais igualitária e próspera. O xeque-mate foi dado, e agora, como cidadãos, temos mais condições de exigir novos modelos de educação e de desenvolvimento como um direito para melhorias individuais e sociais.
Michael Fullan, especialista em reforma educacional, acredita que a ideia seja 25% e a implementação, 75% da solução. Por isso, é urgente colocar a mão na massa. Educadores, escolas públicas e privadas, empresas de treinamento, RH das empresas, corporações, institutos e startups, podem aplicar os resultados dessas pesquisas no mundo real. Testando, errando, avaliando e ajustando em parceria com a sociedade civil. O “xeque mate” na educação foi dado.
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Seja no dia a dia do trabalho ou resolvendo as questões pessoais, o termo multitarefa pode até ser visto como uma habilidade positiva. Mas a história não é bem assim.
Uma pesquisa feita por Joshua Rubinstein, Jeffrey Evans e David Meyer fez experiências com jovens adultos que alternavam entre diferentes tarefas, como resolver problemas ou classificar objetos geométricos. Feito em 2001, ela é a principal referência no que diz respeito a como o cérebro é afetado ao trocarmos de atividades continuamente.
Em todas as tarefas, os participantes perderam tempo quando tiveram de mudar de uma para outra. À medida que elas se tornam mais complexas, os participantes perdem ainda mais tempo.
Isso acontece porque o cérebro não se concentra em mais de uma coisa por vez. Ele faz pequenas e rápidas alternâncias de foco, o que dá a impressão para a pessoa de que ela está mantendo a atenção em várias coisas. Mas isso é uma ilusão.
A cada troca de atenção, há um tempo necessário para o cérebro se reconectar com a nova atividade, o que consome energia mental.
A pesquisa, que foi fundamental para compreender a dinâmica cerebral do foco, pode ser usada para desconstruir a fantasia da multitarefa, mas não nos ensina como desenvolver o foco e a concentração. Para isso, valem algumas outras dicas.
“O foco é uma habilidade comportamental, desenvolvida para a pessoa conseguir se manter sob o controle de alguma coisa, que pode ser um relacionamento, o trabalho, a tarefa, um livro. No longo prazo, ele gera o que chamamos de produtividade”, explica a psicóloga e professora da The School Of Life Desirée Cassado.
O foco é uma habilidade comportamental justamente porque ele não é “natural”, explica Desirée. Nosso cérebro tem uma herança de estar em alerta para possíveis riscos e ameaças, uma herança genética puramente instintiva.
Multitarefa: a cada troca de atenção, há um tempo necessário para o cérebro se reconectar com a nova atividade, o que consome energia mental (ojogabonitoo/Getty Images)
De olho nos riscos
No mundo contemporâneo, a presença de um chefe que causa desconforto e uma situação de imprevisibilidade como a da pandemia são exemplos desses “riscos” que o cérebro fica atento e faz com que a pessoa desloque sua atenção.
É por isso que profissionais com quadros ansiosos têm dificuldade de concentração. A ansiedade nada mais é do que uma generalização das ameaças, reais ou imaginadas.
“O foco depende de uma habilidade cognitiva muito difícil de se conseguir, que se perde facilmente, porque nosso sistema neurológico não está preparado para estar sob controle de algo por muito tempo. Ele busca a sobrevivência, e vai ficar buscando o tempo inteiro por possibilidades de riscos”, explica Desirée Cassado.
A psicóloga destaca que a mente tem mais dificuldade de se concentrar quando ela está dividida, “de olho” em um risco que vem de fora e tentando se ocupar com algo interno, que é a tarefa e a concentração.
“O foco é um feixe de luz, e não um abajur que ilumina tudo. Se eu estou focando em algo, e quero focar em outra coisa, preciso direcionar e abandonar o que eu estava fazendo. Isso significa que a gente é muito ruim em ser multitarefa”
Desirée Cassado. psicóloga
Uma das estratégias é voltar a atenção para fora, para o momento presente, como prestar a atenção nos pés colados no chão, na respiração, no sabor que está na sua boca. Sem isso, a atenção é dissipada e fica mais difícil completar uma tarefa.
“A gente pode treinar, como músculo. É uma coisa que se aprende. Tenta falar para uma criança de quatro anos para preencher uma folha completa com palavras. Ela não consegue ficar ali 10 minutos parada. Ela vai aprender isso com o tempo.”
Para manter a concentração ao longo do dia, o intervalo é essencial, mas é importante observar para ele não virar uma procrastinação. Para isso, o intervalo deve ser contado e ter 10 a 15 minutos, após 45 minutos de foco, em média.
Além disso, o ambiente deve ser o ideal. Luz adequada, ambiente com poucas distrações e boa ergonomia são opções. Também é importante selecionar um momento do dia em que você sente que está mais disposto para encarar uma tarefa desafiadora.
Desirée também dá outra dica: é importante se antecipar às nossas esquivas e se conhecer. Saber se é uma mensagem no celular, a vontade de ir buscar água ou de comer algo que podemos usar como justificativa para procrastinar.
A exceção da multitarefa
Como tudo na vida, existem exceções. Há atividades em que é possível ser multitarefa. Nós só conseguimos fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo quando uma delas já é um hábito ou uma habilidade que já conhecemos, como dirigir, lavar louça, andar de bicicleta.
Quem sabe fazer isso há um bom tempo, consegue manter a tarefa enquanto conversa, bebe uma bebida e até olha no celular.
“No livro Rápido e Devagar, do economista comportamental Daniel Kahneman, ele explica que quando a gente faz algo pela primeira vez, aprendendo algo, usando o córtex pré-frontal, a gente utiliza uma estrutura neurológica que precisa de muito esforço para se apropriar. Ela é lenta. Uma vez que a gente aprende, ela fica automática e exige menos do cérebro. A gente, então, só consegue ser multitarefa quando algo é automático para a gente”.
O foco no home office
Devido à pandemia, mais de 10% dos trabalhadores brasileiros chegaram a trabalhar totalmente de forma remota em 2020, de acordo com Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar de reconhecer as vantagens do modelo, a aprovação dos brasileiros pelo home office oscilou durante a pandemia. Entre uma das fortes reclamações está a dificuldade em se concentrar.
O foco não pode ser utilizado nas oito horas completas de trabalho, já que ele precisa de intervalos e é uma energia finita. Uma dica dada por Desirée é alternar atividades complexas e de reflexão com outras mais automáticas.
No caso do home office, é importante sinalizar para o corpo que você está no ambiente de trabalho, como colocar uma roupa diferente, além de ter um ambiente que pareça o ambiente de trabalho.
É preciso de um momento de preparação para entrar no trabalho, e para sair. E até perfume pode ser utilizado. Seus colegas não vão sentir do outro lado da tela, mas se ajudar na concentração, por que não?
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Startup de marketing digital foi vendida por R$ 1,86 bilhão à gigante de gestão para pequenas e médias empresas. Avaliação da RD Station ficou em R$ 2 bi
SÃO PAULO – A Totvs (TOTS3), focada em softwares de gestão empresarial, já realizou mais de 40 aquisições desde 1983. A última delas surpreendeu o mercado por seu valor: a compra de 92% da RD Station, por R$ 1,86 bilhão.
A startup de Florianópolis (Santa Catarina), criada pelos empreendedores Eric Santos, Guilherme Lopes, Bruno Ghisi, André Siqueira e Pedro Bachiega em 2011, oferece softwares como serviços (SaaS), que ajudam pequenas e médias empresas a automatizar o marketing e gerar vendas.
O InfoMoney conversou com Santos sobre o processo de negociação da venda – e sobre os impactos do anúncio no ecossistema brasileiro de startups. Os grandes vencedores: o modelo de SaaS; a venda como oportunidade de saída para negócios escaláveis, inovadores e tecnológicos; e o ecossistema brasileiro de startups.
RD Station custou caro? Entenda os múltiplos de SaaS
Santos conta que as conversas com Dennis Herszkowicz, CEO da Totvs, começaram por meio da apresentação de um amigo em comum, no ano de 2019.
“O Dennis conheceu os meandros da RD, e nós vimos as oportunidades que existiam para a startup dentro da Totvs. O flerte virou proposta de namoro no segundo semestre de 2020. Agora, virou casamento. Sentimos que era uma parceria muito promissora e chegamos a um bom múltiplo”, afirma o cofundador do RD Station.
Houve a consideração dentro da startup de seguir o caminho da oferta pública inicial de ações (IPO). A estratégia foi adotada por outras startups recentemente, como Méliuz (CASH3) e Enjoei (ENJU3).
“Entendíamos como uma possibilidade interessante e viável, mas avaliamos nossos próximos dez anos e a Totvs apareceu como uma parceria mais sólida em termos de plataforma, expansão internacional e impacto para os empreendedores brasileiros. Nosso potencial era maior com os negócios juntos do que separados, mesmo com a captação de recursos por IPO.”
A Totvs tem cerca de 10 mil funcionários e atende mais de 40 mil negócios. Sua receita anual foi de R$ 2,6 bilhões no último ano. Já a RD Station tem 650 funcionários e atende 25 mil empresas em 20 países. Em 2020, a startup faturou 156,5 milhões.
Com uma avaliação de R$ 2 bilhões após a venda, o múltiplo a RD Station fica em 12,78 vezes (EV/Sales, valor de mercado mais dúvidas sobre as vendas) considerando o faturamento de 2020. Em comunicado sobre a aquisição, a Totvs estima uma receita líquida de R$ 206 milhões para a RD Station em 2021. Nesse caso, o múltiplo ficaria em 9,7 vezes. A própria Totvs tem um EV/Sales de 6,18 vezes.
“É certamente um múltiplo alto para empresas brasileiras listadas em bolsa, inclusive maior do que o da Totvs. Ficou no top 25% para empresas no modelo SaaS. A avaliação é derivada da nossa velocidade acelerada de crescimento”, analisa Santos. A HubSpot, startup que é referência global de automação em marketing digital, tem um múltiplo de 23,24 vezes.
Eric Santos, CEO da RD Station (Divulgação)
O cofundador da RD Station também destaca as sinergias entre a startup e a Totvs. “Temos uma sobreposição de clientes relativamente baixa, então temos oportunidades de inserir nossos sistemas de marketing digital dentro do braço de gestão da Totvs. Ao mesmo tempo, a companhia tem um braço que monta produtos financeiros dotados de tecnologia para suas empresas. Isso pode ser interessante para os nossos clientes”, diz Santos.
A análise de Santos é corroborada por analistas ouvidos anteriormente pelo InfoMoney. Apesar de o negócio ter sido visto como positivo para a Totvs, alguns deles destacaram que a aquisição pode ser considerada cara num primeiro momento e a análise de como a operação será financiada são fatores que podem pesar negativamente para as ações da empresa. O valor do negócio ficou acima das especulações iniciais sobre a negociação, que girava em torno de R$ 1 bilhão em janeiro.
Cabe destacar que, nos primeiros dias do ano, havia informações de disputa de que a Totvs disputava os ativos da RD Station com a Locaweb (LWSA3). Mesmo assim, os analistas indicaram que o alto crescimento e as sinergias entre Totvs e RD Station justificaram o preço.
O SaaS Capital Index mostra que o múltiplo das empresas globais de software como serviço explodiu nos últimos meses. No final de fevereiro deste ano, chegou a 16 vezes. Há um ano, estava em 9,4 vezes. O SaaS Capital Index leva em conta a receita anualizada das startups (ganhos obtidos no último mês multiplicados por 12). O software como um serviço tem métricas específicas e algumas características que o diferenciam de outros modelos de atendimento a empresas (B2B): receita previsível por meio de recorrência e alto potencial de escalabilidade, por exemplo.
“Valuation é importante, porque tínhamos de dar retorno aos investidores”, diz o cofundador da RD Station. A venda representou uma realização de lucros para os investidores que aportaram na RD Station – Astella, DGF, Endeavor Catalyst, Redpoint eventures, Riverwood e TPG. “Mas mais importante ainda foi chegar a um modelo que preserva nossa autonomia, ao mesmo que mantemos poder de fogo”. Os fundadores da startup continuam na empresa, que segue com marca, governança e planos de contratação e de estratégia mantidos. Mas o conselho de administração, formado por esses investidores, será trocado por membros da Totvs.
A capitalização da RD Station – que ainda não fez uso de uma rodada de R$ 200 milhões, captada em 2019 – também agora se une à da Totvs. “Podemos fazer investimentos para crescimento orgânico e inorgânico, ou seja, por desenvolvimento interno ou por aquisições”, diz Santos. A RD Station planeja investir cerca de R$ 100 milhões neste ano em desenvolvimento de produto e em aquisições.
Performance de negócios e serviços financeiros
Em análise sobre o balanço da empresa do quarto trimestre de 2020, o Bradesco BBI afirma que a Totvs está se tornando um ecossistema, com outras frentes começando a gerar resultados. A companhia tem frentes de gestão, techfin (tecnologia em serviços financeiros) e business performance (performance de negócios).
A compra coloca a RD Station no centro da última vertical. A área de performance de negócios pretende analisar dados para ajudar em processos relacionados ao contato com clientes, como marketing e vendas.
A vertical foi formalizada há seis meses, em uma apresentação para investidores da Totvs (Investor Day). “A business performance é cada vez mais necessária para empresas de todos os portes. As companhias tiveram de criar novos canais de relacionamento com o cliente nos últimos anos, como atendimento digital ou delivery. A quantidade de dados trafegados aumentou e pode virar ouro, se usada como vantagem competitiva. Queremos que nossos clientes cheguem ao cliente certo, com o produto certo e no momento certo”, afirmou Juliano Tubino, vice-presidente de Negócios da Totvs, em entrevista anterior ao InfoMoney.
“A construção desse ecossistema visa aumentar o addressable market [mercado endereçável], bem como o take rate [percentual de ganhos] e também a fidelização de clientes, através do avanço na cadeia de valor gerado aos nossos clientes”, diz a Totvs no comunicado sobre a aquisição. “Adicionalmente, a soma da competência e do modelo de negócio 100% digital da RD Station, com a robustez das operações e do portfólio da companhia, representa a aceleração do crescimento exponencial dos negócios e aumento da capacidade de entrega, atendimento, inovação e agilidade no desenvolvimento de produtos.”
Impacto no ecossistema de startups
Para Santos, a aquisição deve reforçar essa possibilidade de saída para outras startups brasileiras, especialmente para as de Florianópolis. “As startups costumam ser vendidas em um estágio bem anterior. Abrimos uma avenida para aquisições mais agressivas”, diz Santos. “Recebi muitas mensagens do pessoal de Florianópolis falando quão boa a notícia era para o ecossistema. Faltava uma saída que carimbasse o trabalho feito pelas boas empresas daqui e atraísse os olhares de mais investidores. Mas ressalto que aprendemos tanto quanto ajudamos – o empreendedorismo tem essa relação simbiótica.”
Outras beneficiadas serão as startups que têm outras empresas como clientes, na visão do cofundador. “Também vamos experimentar um movimento que foi intenso nos EUA: a consolidação dos negócios B2B, e especificamente os SaaS. Quando a RD Station surgiu, o padrão de sucesso na internet eram serviços de internet com alta visibilidade e foco no consumidor, como o Facebook. Mas hoje vemos cases de sucesso absurdo com atendimento às empresas por meio de softwares, como HubSpot, Zendesk e Zoom. Por aqui já vemos outras startups nesse modelo captando rodadas relevantes, como a Olist. Existe uma nova onda de saídas que está vindo, ainda que com atraso.”
Santos é membro dos conselhos de organizações de fomento ao empreendedorismo, como Endeavor e Fundação Certi. “Invisto em startups por meio de fundos, não como um anjo, como forma de evitar conflitos de interesse. Mas agora vejo um novo papel, de trazer as lições aprendidas na Totvs para o ecossistema de startups”, conta. “Elas estão acostumadas a olhar para referências recentes, mas uma empresa com a trajetória da Totvs tem muito a ensinar.”
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Anne-Laure Fayard, John Weeks, Mahwesh Khan HBR 5 de março de 2021
Em junho de 2019, o Comitê Olímpico Internacional (COI) inaugurou a Casa Olímpica, sua nova sede, em Lausanne, na Suíça. Construído ao longo de seis anos ao custo de US$ 150 milhões, o novo prédio ficou vazio em apenas nove meses. Os funcionários do COI, assim como os profissionais do conhecimento em todo o mundo, passaram a trabalhar em casa.
O experimento natural imposto ao mundo pelo coronavírus demonstra que os acadêmicos e visionários da tecnologia, que desde os anos 1980 falam das possibilidades do trabalho remoto, não estavam exagerando. Pesquisas anteriores à pandemia verificaram que alguns trabalhadores em países industrializados ricos poderiam trabalhar em casa de modo efetivo, e que cerca de 80% deles gostariam de fazê-lo, pelo menos em tempo parcial. Depois de meses trabalhando remotamente, também os empregadores perceberam que, em sua maioria, mesmo fora do escritório, as tarefas são cumpridas e as reuniões dão certo.
É claro que as empresas não abandonarão o espaço físico de forma repentina, porque ir para o escritório nunca foi apenas questão de trabalho. E, no futuro próximo, a tecnologia não vai diminuir a importância do contato interpessoal direto para a socialização. Mas precisamos repensar o design padronizado adotado por muitos escritórios.
Antes da pandemia, a maioria das empresas via o escritório como lugar de trabalho. Após a pandemia, o escritório será apenas um lugar secundário para executar tarefas ou participar de reuniões de rotina, especialmente para os profissionais do conhecimento. Eles serão capazes de trabalhar em casa graças à crescente funcionalidade das tecnologias da informação e comunicação. Como resultado, o trabalho será feito no chamado escritório híbrido — na prática, a alternância para fins profissionais entre o espaço doméstico e o imóvel comercial tradicional. Para os trabalhadores, este será prioritariamente um espaço de cultura e uma base social que lhes darão acesso às conexões, ao aprendizado e à colaboração inovadora e improvisada.
Nas páginas a seguir, exploramos as funções sociais do escritório e descrevemos o novo modelo desenvolvido pelas várias empresas com visão de futuro — graças ao design inteligente e tecnológico que transforma locais de trabalho ergonômicos em espaços de cultura socialmente envolventes.
O ESCRITÓRIO COMO BASE SOCIAL
No decorrer de nossa pesquisa sobre o impacto do trabalho remoto, um gestor de marketing sênior de Paris nos disse que, antes do lockdown de março de 2020, seu horário era flexível e ele gostava de trabalhar em casa dois ou três dias por semana. Assim, não se importou muito quando sua empresa anunciou que o escritório permaneceria fechado pelo menos até o fim de dezembro. No entanto, no início de julho, apesar de participar de reuniões virtuais o dia inteiro, quase todos os dias, ele se sentia solitário e ansioso para ver seus colegas pessoalmente. Já ouvimos a mesma história várias vezes: no início, os relacionamentos parecem vicejar quando as pessoas trabalham remotamente. Mas, com o tempo, surgem os problemas. Mesmo os introvertidos declarados que adoram trabalhar em casa descobrem que uma coisa boa em excesso pode se tornar ruim.
Estudos de psicologia cognitiva e neurociência mostram que a cognição humana depende não apenas do modo como o cérebro processa os sinais, mas também do ambiente em que esses sinais são recebidos. É por isso que, nas videoconferências, a linguagem corporal limitada pode desencadear interpretações equivocadas e dificultar o vínculo. Estar perto fisicamente ajuda as pessoas a interpretar o humor e a personalidade alheia, o que facilita a construção de relacionamentos sólidos.
Um breve encontro na mesa de um colega pode resultar no que o psiquiatra Edward Hallowell chama de momento humano: permite empatia, conexão emocional e comunicação não verbal para complementar o que é dito. Quando a comunicação é virtual, a conexão pessoal é mais fraca, e captar os sinais não verbais, mesmo se as pessoas podem ver e ser vistas na tela, torna-se bem mais difícil. Em momentos humanos, as pessoas se sentem estimuladas e propensas a demonstrar empatia, o que fortalece a cultura organizacional e a colaboração. Segundo pesquisas da neurociência, a química do cérebro em momentos humanos é diferente daquela em encontros meramente práticos.
Muitos encontros remotos são focados apenas em tarefas e praticamente livres de conexão emocional. Recentemente, a Microsoft entrevistou seus funcionários para saber como estavam lidando com o ambiente de trabalho remoto durante a pandemia. Um dos efeitos mais citados foi o aumento no número de reuniões (mais curtas) necessárias para resolver problemas porque, como disse um entrevistado na pesquisa, as pessoas já não podiam “simplesmente passar na sala de um colega para perguntar alguma coisa”. Outro disse: “Não posso ir até a mesa de alguém ou tomar um café na copa. Como resultado, acho que passo muito mais tempo em reuniões”.
As reuniões são importantes, claro, mas não mais do que os momentos humanos, porque são as relações, e não apenas os atos de colaboração, que geram confiança entre os colegas de trabalho. Há muito tempo os estudos mostram que as interações pessoais frequentes levam ao compromisso, apoio e cooperação entre as pessoas da equipe. É por isso que muitas empresas de tecnologia que se gabam de estar 100% online ainda mantêm um escritório. Mesmo aquelas que não têm espaço físico enfatizam que as equipes devem se encontrar regularmente: “Juntamos a empresa toda uma vez por ano, durante sete dias, para que os funcionários possam criar laços que os influenciem no decorrer do ano”, diz o website da Automattic, empresa americana de desenvolvimento de softwares cujas subsidiárias incluem a WordPress e a Tumblr.
Pesquisas com comunidades de desenvolvimento distribuído de software de código aberto mostram que os membros consideram as reuniões regulares presenciais úteis para cultivar relacionamentos. O WELL (Whole Earth ’Lectronic Link), que começou em 1985, é uma das mais antigas comunidades virtuais. O WELL atribui sua sobrevivência ao fomento de relacionamentos profundos por meio do contato pessoal: seus membros praticamente cresceram juntos — eles compareciam aos casamentos dos colegas e funerais de seus familiares e apoiavam-se mutuamente na criação dos filhos e nas doenças.
O ESCRITÓRIO COMO ESCOLA
Quando as empresas migram para o trabalho remoto, precisam considerar o impacto na forma como o conhecimento é compartilhado. Em grande parte, isso pode ser codificado, aumentado em escala de forma eficiente e distribuído por sistemas de gestão de conhecimento a todos os funcionários, estejam eles trabalhando na empresa ou remotamente. Mas o conhecimento que realmente importa na maioria das empresas não pode ser explicitado. Pergunte a novos funcionários e, em quase todas as empresas, eles dirão que aprenderam tanto observando seus colegas e gestores e interagindo com vários stakeholders quanto durante as sessões de orientação e de treinamento especializado para novos funcionários. Tradicionalmente, esse aprendizado no trabalho ocorre por meio de programas para trainees. Os novos funcionários aprendem a maneira correta e adequada de se comportar — “a forma como as coisas são feitas por aqui” — observando diretamente as pessoas ao seu redor, especialmente seus mentores.
A tecnologia pode ser usada para facilitar esse tipo de aprendizado, mas, sem dúvida, o escritório torna o processo muito mais fácil. Em setembro de 2020, Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, disse em uma sessão com analistas de ações que, após seis meses trabalhando em casa, os funcionários juniores estavam perdendo os benefícios intangíveis e informais de ficarem sentados juntos no escritório e não aproveitavam mais a aprendizagem espontânea e a criatividade propiciadas pelo contato humano. Embora o JPMorgan Chase, como outros bancos e escritórios de advocacia, faça treinamentos virtuais para ensinar as habilidades essenciais, eles não fornecem uma visão real de como, por exemplo, um gestor de portfólio escolhe entre duas ações tecnicamente semelhantes.
A necessidade de ir ao escritório foi expressa de forma enfática por um jovem profissional de TI que conhecemos em Londres durante nossa pesquisa. Ele descreveu sua experiência de integração virtual em meados de 2020 em uma empresa global de serviços financeiros como “surreal”. Como os escritórios estavam fechados, ele não pôde visitá-los nem conhecer pessoalmente um único membro de sua nova equipe. A integração foi feita pelo Zoom, e a equipe teve encontros e reuniões virtuais regulares.
Ele ficou impressionado com o esforço de sua nova empresa para criar a melhor experiência possível, mas nos disse: “A verdade é que ainda não conheço o sistema e o ambiente, e não há nada que minha empresa possa fazer. Coisas que eu teria resolvido em dez segundos, virando a cadeira e fazendo uma pergunta ao meu vizinho de mesa, agora exigem vários emails para que eu possa entender”. E as perguntas enviadas por email têm mais peso do que as perguntas feitas pessoalmente, então ele hesitava em enviar mensagens a colegas que não conhecia. “Estou sempre em dúvida se devo ou não fazer uma pergunta boba”, disse ele. Ele temia que levasse mais tempo para aprender a fazer o trabalho com eficiência. E se perguntava quais eram as normas de interação e formas de trabalho. Tentou aprender por meio de emails, ligações e reuniões por Zoom, mas achou mais difícil entender a cultura desta empresa do que a anterior em que trabalhou.
O ESCRITÓRIO COMO CENTRO DE COLABORAÇÃO NÃO ESTRUTURADA
Quando pessoas de diferentes funções e departamentos colaboram, elas podem resolver problemas complexos e gerar ideias inovadoras. Essa colaboração geralmente é desencadeada por encontros informais — conversas em torno da máquina de café ou da copiadora — em que as pessoas identificam outras com as quais podem trabalhar ou das quais podem obter ajuda (“Você já conversou com a Sofia? Ela trabalhou com um cliente parecido no ano passado. Talvez ela possa informar o que fez ou dar uma indicação.”). A pesquisa confirma isso: o grupo The Human Dynamics no Laboratório de Mídia do MIT coletou dados dos crachás eletrônicos dos funcionários e descobriu que as interações pessoais frequentes fora das reuniões formais eram o melhor indicador de produtividade.
Embora você não possa planejar conversas improvisadas, pode torná-las mais prováveis. Uma gestora que entrevistamos falou da criação de um grande quadro para postar todos os insights que sua equipe teve para determinado projeto.
Ela colocou o quadro em uma área central por onde as pessoas passavam com frequência e realizou reuniões de equipe ao redor dele; os circunstantes ouviam e às vezes participavam.
A mesa dela ficava perto, então quando as pessoas paravam para olhar o quadro, ela conversava com elas sobre ele, explicando o projeto e obtendo feedback. Os insights que ela obtinha desses encontros informais eram adicionados ao quadro.
Esse tipo de colaboração não estruturada requer contato pessoal próximo, o que não é possível quando todos estão trabalhando em casa. Pode ser difícil conseguir isso mesmo quando as pessoas estão no mesmo prédio, porque a comunicação de todos os tipos é prejudicada se os colegas ficam longe um do outro. Em 1970, Tom Allen, psicólogo organizacional do MIT, demonstrou que, com apenas 50 metros de distância entre as pessoas, a comunicação regular (pessoal ou não pessoal) diminui.
As empresas que reduziram a densidade no local de trabalho para promover o distanciamento social constataram isso na prática. Um conglomerado europeu de eletrodomésticos dividiu em dois grupos os funcionários da sede. Um entrava às segundas e terças-feiras, o outro às quintas e sextas-feiras, sem rodízio. Depois de quatro meses, vários projetos atrasaram porque muitos dos colaboradores compareciam em dias diferentes e nunca se encontravam pessoalmente.
Justamente por ter reconhecido a importância de fornecer oportunidades regulares de contato, alguns pioneiros do trabalho remoto, como a IBM e a Yahoo, decidiram, há alguns anos, reverter parcialmente suas políticas bastante flexíveis de trabalho remoto. E quando a Microsoft mudou sua política em 2020 para permitir que mais funcionários trabalhassem em casa, forneceu-lhes espaços de descanso no escritório — prática esta chamada por vezes de hoteling.
COMO CRIAR O ESCRITÓRIO DO AMANHÃ
A tecnologia não está apenas facilitando o trabalho remoto, mas também automatizando progressivamente grande parte do trabalho de rotina que, tradicionalmente, definia as tarefas das pessoas. Juntos, esses dois desenvolvimentos estão redefinindo de forma fundamental o significado do trabalho e o papel do funcionário na empresa. O que as empresas mais precisam das pessoas é a criatividade — e, como vimos, as pessoas são mais criativas quando estão juntas e podem compartilhar momentos humanos. É por isso que precisamos do escritório. Mas os escritórios do amanhã serão muito diferentes do que estamos acostumados, e serão definidos por três características. Eles serão:
Projetados para momentos humanos. Escritórios de plano aberto, baixo custo e atulhados de cadeiras — claramente prejudiciais ao moral, à colaboração e à produtividade, como demonstram as pesquisas — são onipresentes, mas algumas empresas foram além desse modelo. A nova abordagem atinge o equilíbrio entre abertura e privacidade, incorporando elementos de design que permitem interações sociais de muitos tipos — como uma conversa rápida no canto da escada ou uma fofoca contada em voz baixa no balcão da copa ou perto da máquina de café. Entre esses elementos pode estar um nicho na parede onde algumas pessoas podem aperfeiçoar uma apresentação ou uma mesa alta onde duas pessoas podem se levantar para uma reunião improvisada e se juntar a um funcionário júnior que passar, escutar por acaso o que dizem e parar para fazer uma pergunta.
A Casa Olímpica do COI, construída com o propósito de humanizar o trabalho, tem muitas dessas características. No século seguinte à sua fundação, o COI cresceu e ocupou quatro localidades em Lausanne. Em 2012, seus líderes perceberam que essa fragmentação estava prejudicando o relacionamento entre os mais de 400 funcionários. Embora a natureza do trabalho significasse que as pessoas viajavam extensivamente e muitas vezes trabalhavam remotamente, a liderança do COI acreditava que uma única base doméstica era essencial para criar um senso de comunidade que promovesse o bem-estar dos funcionários e stakeholders e, acima de tudo, fornecesse momentos humanos para construir confiança e estimular a criatividade.
Em apenas alguns meses, a Casa Olímpica se tornou, como disse um gestor do COI, um “lugar feliz para visitar todos os dias, onde nos alimentamos da energia uns dos outros”. Seu design promove encontros formais e informais, mudando profundamente a forma como as equipes interagem. Por exemplo, a grande escadaria central — na forma dos cinco anéis do símbolo olímpico — força pessoas de diferentes departamentos a se encontrar no caminho de ida e volta para suas mesas e as encoraja a parar e conversar. “Esses espaços ao redor da escada”, explicou um gestor do COI, “são cheios de sofás e cafeterias onde dá vontade de passar cinco ou dez minutos falando com os colegas sobre as questões em aberto que você precisa resolver, em vez de enviar diversos emails. Esse elemento humano está no cerne do que fazemos.”
Os designers prestaram atenção especial também à acústica. Nas áreas com mesas — alocadas de acordo com um esquema de hotelaria — os sons são silenciados por tapetes e material para isolamento acústico no teto e nos móveis. Perto da escada central e em outras áreas destinadas à socialização, os arquitetos usaram material menos absorvente de som para criar um “burburinho de cafeteria” e atrair as pessoas para conversar e socializar.
Detalhes como esses são importantes. Uma empresa global de tecnologia que conhecemos decidiu cortar custos eliminando a máquina de café em um de seus centros de P&D. Inicialmente, houve aumento de produtividade: os gestores comprovaram acréscimo no número de linhas de código produzidas e diminuição no número de bugs. As pessoas estavam gastando menos tempo conversando durante o café e mais tempo codificando. Mas depois, o número total de lançamentos de produtos diminuiu em virtude do aumento nos bugs de integração. Afinal, a conversa no café provou ser uma colaboração valiosa.
Personalizado com tecnologia. A tecnologia nos ajudou a levar para casa o trabalho que podemos fazer de forma mais eficiente por conta própria. Também pode nos ajudar a entender melhor como operamos socialmente, e esse entendimento pode levar a um design e uso mais eficazes dos espaços sociais.
A Silverstein Properties, empresa de desenvolvimento e gestão imobiliária de Nova York, é um bom exemplo. A empresa criou uma plataforma baseada em IA chamada Dojo, que rastreia o movimento das pessoas para alimentar um sistema de pontuação baseado em dados que gera layouts de escritório e mapas de assento para maximizar a probabilidade de interações informais.
A Dojo permite que os usuários criem perfis de colaboração para indivíduos, equipes e a empresa como um todo (alguns setores e funções exigem proporção maior de trabalho independente do que outros). Isso permite que as empresas agrupem os funcionários por estilo de trabalho, usando métricas como porcentagem de tempo gasto em reuniões, quantidade média de tempo livre entre as reuniões e a distribuição das reuniões durante o dia. O resultado é uma espécie de organograma não hierárquico que pode ajudar os gestores a encontrar maneiras de usar os espaços físicos e a tecnologia da empresa para criar mais oportunidades de
os funcionários conectarem-se.
Um dos inquilinos de Silverstein, empresa de tecnologia com mais de 400 funcionários, usou os insights da Dojo para reprojetar seu escritório. A plataforma mostrou que se o inquilino redistribuísse seu pessoal de acordo com “bairros” interdepartamentais, isso poderia melhorar a colaboração.
A empresa de tecnologia descobriu que ninguém usava salas pequenas nem espaços com privacidade que ficavam longe do lugar onde a maioria das pessoas se sentava. Em vez disso, os funcionários faziam suas ligações particulares no saguão do elevador. Por isso, acabou com as pequenas salas e instalou cabines telefônicas no saguão. Depois dessas alterações, ficou sobrando 20% do espaço, que pode ser sublocado.
A tecnologia também pode apoiar relacionamentos entre pessoas que trabalham remotamente e pessoas no escritório. Em meados da década de 1980, os pesquisadores da Xerox PARC criaram um espaço de mídia combinando vídeo, áudio e tecnologias de computação para apoiar as interações sociais entre seus laboratórios em Palo Alto e Portland, Oregon. Isso permitiu que as pessoas nas áreas de descanso dos laboratórios e em alguns escritórios individuais se conectassem virtualmente. Experimentos semelhantes no EuroPARC da Xerox, Reino Unido, em Bellcore e na Universidade de Toronto mostram que até uma presença periférica pode ajudar as pessoas que trabalham remotamente a sentir-se mais próximas das que estão no local de trabalho e vice-versa.
É claro que a tecnologia funciona até certo ponto. Contanto que os funcionários possam ver quem está presente fisicamente e quem está disponível virtualmente — algo que uma tecnologia como a Dojo pode facilitar —, eles devem ser livres para criar seus próprios encontros e momentos de pensamento colaborativo.
Gerencie para encorajar conexões. Por sua vez, os gestores precisam garantir que, quando as pessoas vierem ao escritório, sintam que é permitido socializar e se conectar com os colegas. Além de afirmarem isso explicitamente, os líderes devem enfatizá-lo, dedicando-se às áreas comuns e participando de eventos sociais.
A consultoria de design global Frog fornece um bom exemplo do que isso significa. A Frog tem escritórios, ou “estúdios”, em todo o mundo, que a empresa usa para fortalecer laços sociais e ensinar a cultura da empresa aos recém-chegado. Os rituais hoje abundantes promovem o aprendizado informal, como as “reuniões de segunda-feira de manhã” (nas quais os temas recorrentes em todos os projetos e setores são discutidos, ou conteúdo novo é compartilhado em alguma apresentação); as “quartas-feiras do bem-estar” (durante as quais, por exemplo, uma aula de ioga pode ser ministrada); e a hora do café da tarde e as happy hours para membros da equipe e ocasionalmente para clientes.
Todos esses rituais oferecem oportunidades para funcionários juniores e mais antigos se misturarem, compartilharem histórias sobre projetos e sobre a vida e pedirem conselhos informalmente. O trabalho acontece tanto no lounge e na copa quanto nas salas, onde as equipes de projeto fazem brainstorming com quadros brancos e post-its. Assistir a essas sessões de trabalho formais e informais é fundamental para aprender as sutilezas de um bom design e gestão de relacionamento com o cliente.
Quando o mundo entrou em lockdown, a Frog descobriu alguns aspectos positivos de trabalhar em casa. Por exemplo, a colaboração em toda a rede global de estúdios melhorou. Sem as restrições do trabalho presencial, a Frog poderia aumentar a polinização cruzada entre seus estúdios em todo o mundo e utilizar melhor os talentos. Ela foi capaz de manter vivos alguns dos rituais, com alguns ajustes. Em um café diário virtual, por exemplo, alguém poderia postar uma pergunta como “qual o jeito mais maluco que você se machucou?” para tirar as pessoas do “modo trabalho”. Dados esses benefícios e a economia de custo com o fechamento de um estúdio em um mercado caro como o de Nova York, os líderes da Frog se perguntavam se a empresa poderia continuar trabalhando em casa, já que a transição fora tranquila. Mas eles perceberam que o estúdio desempenha um papel central na cultura da empresa para o aprendizado informal e socialização — e embora os aluguéis em Nova York sejam caros, o custo do espaço é uma parte relativamente pequena das despesas gerais da Frog. Mesmo que o trabalho no estúdio precise ser reinventado, ele continuará sendo parte essencial da experiência do funcionário.
Quando voltarmos para o escritório, ao avaliar o desempenho, será essencial evitar a confusão entre o tempo presencial e a produção real — para que as pessoas não sintam que precisam aparecer para convencer o chefe de que estão trabalhando duro. E quando estiverem no escritório, eles não deveriam se sentir obrigados a estar em reuniões ou em seus computadores o tempo todo. Se voltar significa apenas trabalho individual e reuniões focadas em tarefas, as lições positivas da pandemia terão se perdido e o desempenho e a cultura da empresa poderão ser prejudicados.
Para evitar isso, Adam D’Angelo, presidente executivo do site de perguntas e respostas Quora, anunciou que a empresa não adotaria a modalidade seletiva de trabalho remoto — em que determinados líderes ou grupos vão para o escritório e determinados funcionários trabalham em casa. Em vez disso, todos desde o CEO ficariam em home office, mas teriam de passar algum tempo também no escritório. A intenção, como D’Angelo explicou no blog da empresa, foi “evitar que o escritório se tornasse a verdadeira sede”. Isso foi um claro sinal de que comparecer ao escritório não impressonaria o chefe; aos olhos da gerência, trabalhar em casa era e continuaria sendo igualmente legítimo.
Quando estão no escritório, os líderes precisam servir de modelo de comportamento social. Não devem gastar todo o tempo em reuniões, mas seguir o exemplo do diretor de criação da IDEO, Paul Bennett, que afirma sentar-se “frequente e resolutamente com a equipe de TI no help desk, que é o ponto central e mais visível do nosso escritório de São Francisco”. Ele acrescenta: “Eu vejo o help desk como o ponto de encontro entre o café e o posto de salva-vidas tecnológico. É onde as pessoas transbordam energia e bom humor. Sentar no banquinho e conversar com eles encorajou-os a aproximar-se de mim espontaneamente e a interagir ao longo do dia”.
A prática de rituais não relacionados ao trabalho (como meditação, ioga e o desafio da prancha) é uma ótima maneira de cultivar relacionamentos e de conectar-se. Obviamente, as reuniões presenciais não devem ser proibidas, mas precisam ser limitadas para que um dia no escritório não se transforme em um dia de reuniões — e devem envolver atividades que podem ser difíceis de fazer remotamente (como brainstorming em pé ou andando ao redor de uma mesa).
Da mesma forma, as empresas devem garantir que seus funcionários não estejam “sempre trabalhando” se quiserem gerar envolvimento e criatividade. Fazer pausas nem sempre é fácil, especialmente se eles estão sendo monitorados via software de vigilância ou gerenciados por chefes que valorizam menos a produtividade do que a quantidade de tempo passada diante da tela do computador. Deixe claro que não há problema em fazer pausa para o almoço ou reagendar uma reunião às 8 horas para acomodar uma corrida matinal ou prática de natação ou ioga. Aqui, novamente, oferecer modelos é importante. E pode ser tão simples quanto definir o próprio status no Slack ou outra ferramenta para dizer “Saí para almoçar” ou “Esta semana estou online, exceto na quinta-feira”. As pessoas precisam de feriado ou de um fim de semana prolongado. O provedor de serviços de software Basecamp concede a todo funcionário um sabático de 30 dias de três em três anos.
COMO MUITAS EMPRESAS permitem que as pessoas trabalhem remotamente por pelo menos parte do tempo, vale lembrar que a colaboração distribuída tem longa tradição. O que essa tradição e nossa experiência mostram é que infraestrutura de apoio, tecnologia e processos organizacionais são necessários, mas não suficientes para a colaboração produtiva. As pessoas ainda precisam de pontos de contato pessoais que ofereçam oportunidades de esclarecer e alinhar expectativas, atualizar regras e práticas de trabalho e construir ou renovar a confiança. Em um mundo que incentiva o trabalho em casa em grande escala, é ainda mais importante reunir as pessoas novamente no escritório para atender a essas necessidades humanas.
ANNE-LAURE FAYARD é professora associada na New York University.
JOHN WEEKS é professor do IMD em Lausanne, Suíça.
MAHWESH KHAN, ex-diretora de governança corporativa da International Finance Corporation, é pesquisadora associada no IMD.
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Um dos requisitos é aprender a aprender — e desaprender para abrir espaço para o novo
Por Ernesto Yoshida – Exame 12/02/2021
Mulher em home office: a nova realidade do trabalho vai exigir mais flexibilidade das empresas, treinamento e mudanças na legislação (Oli Scarff/Getty Images)
O impacto do coronavírusna nossa vida tem sido tão grande que virou chavão dizer que, depois que a pandemia passar, nada será como antes. Isso se aplica também ao trabalho? Qual é o impacto mais profundo que a crise da covid-19 trouxe para o futuro do trabalho? Para discutir esse tema, a EXAME CEO reuniu três especialistas para um bate-papo de 60 minutos por videoconferência, no início de janeiro: Priscila Castanho, diretora de employee success da Salesforce para a América Latina; Iza Dezon, consultora de estratégia que trabalha com análises de novas tendências socioculturais; e Denise Asnis, especialista em educação corporativa e sócia fundadora do Taqe, aplicativo para recrutamento de jovens talentos de forma 100% online. A seguir, os principais trechos do bate-papo.
EXAME CEO: Qual foi a principal mudança que a covid-19 e a aceleração digital trouxeram para o trabalho? Dá para afirmar que nada será como antes?
→ IZA DEZON: É óbvio nesta pandemia que a primeira grande pergunta que todo mundo faz é se tudo mudou completamente. E eu gosto de lembrar que as mudanças de comportamento acontecem em ondas. Não são ondas gigantes que vêm de repente e mudam as coisas completamente. O trabalho é altamente impactado por essas novas dinâmicas, mas não é uma transformação imediata. As coisas ocorrem em ondas e vamos sentir, provavelmente nos próximos dez anos, as mudanças que começaram em 2020.
→ PRISCILA CASTANHO: A pandemia mudou o jeito de trabalhar, especialmente em empresas que ainda não estavam na era digital. Muitas tiveram de correr atrás para ter uma força de trabalho 100% no remoto do dia para a noite. Ainda está sendo um período de adaptação, mas acho que nunca voltaremos ao que era antes. Vamos ter de conviver com o vírus por muitos anos, e fazer um reset e voltar a trabalhar como antes vai ser impossível. Vamos ter talvez um blend, trabalhar metade no escritório, metade remotamente. A Salesforce fez uma pesquisa global recentemente, com mais de 20.000 pessoas, incluindo 2.000 no Brasil. Mais da metade disse que, se tivesse opção de trabalhar remotamente, trabalharia, mas não são todas as empresas que conseguem oferecer essa flexibilidade. E muitas pessoas também não se sentem preparadas para trabalhar dessa forma.
Denise Asnis, sócia fundadora do aplicativo de recrutamento Taqe: mercado mais competitivo, mas com novas possibilidades
Denise Asnis, sócia fundadora do aplicativo de recrutamento Taqe: mercado mais competitivo, mas com novas possibilidades (Divulgação/Divulgação)
→ DENISE ASNIS: O que temos percebido é que mesmo empresas muito tecnológicas estão vivendo um processo complicado hoje de se voltar para o indivíduo. Porque antes era muito forte o conceito de que a tecnologia bastava por si. Mas o ser humano é, por natureza, social. E isso, de certa forma, estava sendo negligenciado pelas empresas mais digitais. Recentemente, conversei com uma pessoa que estava muito triste. Ela disse: “Não estou aguentando mais ficar sozinha. Estou lutando comigo mesma para conseguir trabalhar, para produzir o que produzia antes. A empresa entende o que estou passando, mas estou mal”. Está claro que as empresas vão ter de olhar para duas coisas: manter-se atualizada para acompanhar as novas tendências de tecnologia, mas ao mesmo tempo acolher as pessoas e incluir o lado humano e social nessa história.
→ IZA: Eu só queria lembrar que, no Brasil, 50% das pessoas não têm saneamento básico, e menos ainda são as que têm acesso à tecnologia. Então, quando falamos em trabalho remoto, estamos falando de um nicho de privilegiados, de pessoas que têm acesso à internet. É importante lembrar também da economia do cuidado, que inclui o trabalho de cuidados da casa, da alimentação, da criança. Essa economia invisível não é contabilizada e sobrecarrega especialmente as mulheres. Estou trazendo esses dois pontos porque, se as pessoas vão trabalhar mais em home office, elas necessitam de apoio. O Google, por exemplo, deu 1.000 dólares a cada funcionário para montar um escritório em casa.
Mulher em home office: a nova realidade do trabalho vai exigir mais flexibilidade das empresas, treinamento e mudanças na legislação (Oli Scarff/Getty Images)
→ PRISCILA: O coronavírus nos fez repensar várias questões, mas uma coisa que ficou marcada é que nossa desigualdade aumentou durante a pandemia. E uma forma de diminuir esse gap é por meio da educação. Com a pandemia, surgiram novas oportunidades, incluindo trabalhos que não existiam antes. E há muitas pessoas que gostariam de se recapacitar e se preparar para esses novos trabalhos. Hoje existem várias plataformas de ensino online e gratuitas que ajudam as pessoas a se qualificar nesse novo ambiente, democratizando a educação. Na plataforma da Salesforce, temos várias histórias de sucesso de pessoas que nunca trabalharam com tecnologia e começaram a se capacitar, viram uma possibilidade e conseguiram um emprego ou montaram o próprio negócio, viraram empreendedores, desenvolvendo novas capacidades para atender às demandas de hoje.
→ DENISE: É interessante perceber hoje o movimento de que uma formação não mais prediz sua função, seu trabalho, o que acho sensacional. Você pode se formar engenheiro e trabalhar em RH, pode se formar em psicologia e trabalhar em inovação. Conheço uma pessoa que fez biologia na USP. Quando terminou o curso, ela disse: “Não é isso que quero”. Foi fazer uma pós-graduação e conseguiu uma bolsa em turismo na Suíça. Estava trabalhando na Inglaterra nessa área, quando veio a pandemia e acabou com o mercado de turismo no curto prazo. Ela está agora usando o tempo livre para estudar ciência de dados. Está mudando de carreira pela terceira vez em três anos, mas com muita tranquilidade. As pessoas estão começando a perceber que há oportunidades em lugares onde antes não enxergavam. O emprego hoje não é mais local, virou global. Uma pessoa no Acre pode trabalhar remotamente para uma empresa de São Paulo. Por um lado, o mercado de trabalho está cada vez mais competitivo. Por outro, está se abrindo um novo cenário para quem antes tinha poucas possibilidades de trabalho.
EXAME CEO: Alguns estudos mostram que a maioria dos jovens vai trabalhar no futuro com profissões que nem sequer existem ainda. Como preparar as pessoas para trabalhos que ainda vão ser inventados?
→ DENISE: A primeira coisa é que as pessoas precisam aprender a aprender. Essa é a competência mais importante de todas.
→ PRISCILA: E aprender a desaprender.
→ DENISE: Sim, para aprender, você precisa dar um espaço ao desaprender. Estão embutidas nessa ideia a resiliência, um pouco mais de flexibilidade, maior abertura à inovação. Hoje o mercado usa o termo soft skills, de competências sociais, mas não importa o nome. Resiliência e flexibilidade são duas coisas fundamentais.
Priscila Castanho, diretora de employee success da Salesforce: plataforma para democratizar a educação
Priscila Castanho, diretora de employee success da Salesforce: plataforma para democratizar a educação (Marcelo Justo/Divulgação)
→ PRISCILA: Eu acrescentaria, com base em uma pesquisa que fizemos, a criatividade e a adaptabilidade. Novos trabalhos estão surgindo, e para um grande número de pessoas o foco hoje é em análise de dados, ciência de dados, codificação, porque tudo está sendo criado em torno da tecnologia. Não há como fugir da revolução tecnológica. Para esses cargos que ainda não existem, o próprio RH deve acompanhar as tendências e adaptar seus programas. Na Salesforce, acabamos de criar uma área, com um executivo c-level, de work from anywhere, o trabalho de qualquer lugar, porque há muita coisa que precisará ser adaptada. Ter um funcionário que trabalhe remotamente fora do Brasil ou um funcionário que trabalhe no Brasil para uma empresa do exterior tem implicações trabalhistas e tributárias. Há muita coisa que vai mudar, e as empresas precisam se preparar para isso.
→ IZA: Acho muito bacana quando a gente fala em soft skills, mas Seth Godin, que é um cara de marketing que acho incrível, pede por favor que a gente pare de chamar as soft skills dessa maneira, porque elas não têm nada de soft. Godin prefere falar em real skills, as verdadeiras habilidades que precisamos ter no trabalho, na escola, em casa ou em qualquer lugar. Sobre criatividade, lembro-me de que, quando era pequena, sempre trabalhava com cores e dizia a meu pai, que trabalhava com estatística: “Coitado, seu trabalho não é criativo”. Aí ele me respondia: “Minha filha, não é porque é tudo colorido que é criativo”. Temos ainda esse problema de ficar presos a esse conceito de criatividade, mas precisamos misturar os departamentos para potencializar as sinergias e as convergências. Outra coisa valiosa para o futuro do trabalho é a ruptura da ideia que os americanos chamam de snowflake complex, ou “complexo de floco de neve”, para descrever uma geração que cresceu com a ideia de que “eu sou muito único, maravilhoso e, para obter sucesso, preciso ser o CEO”. Só que não vamos a lugar nenhum se tivermos só CEOs. O CEO precisa de uma equipe para ser CEO. As pessoas precisam encontrar seu lugar no coletivo e entender que todas as peças de um quebra-cabeça são importantes. O objetivo não é sempre virar o grande chefe, ou o dono do negócio, ou o empreendedor. Essa noção combina mais com um sistema patriarcal que, aos poucos, está ficando para trás. E um último ponto sobre novas habilidades. Há 20 anos, meu pai dizia: “Por que você está estudando italiano? Você tem de aprender chinês”. Hoje acho que todo mundo tem de aprender é a fazer programação.
→ PRISCILA: Eu concordo.
→ IZA: Quando falamos em transformação digital, a língua do futuro será a da programação. Um dos empregos mais loucos que estão em alta hoje, e ouvi isso de alguém da IBM, é que precisamos educar as inteligências artificiais, precisamos formá-las ética e moralmente. Toda máquina precisa ser abastecida, da mesma forma que abastecemos uma criança contando histórias desde que ela é pequena. Por isso, é importante ter noções básicas de programação.
→ DENISE: Acho que há duas coisas que para mim são interessantes de relembrar. A primeira é o papel da liderança, que precisa mudar em seu aspecto básico. Não dá para eu ser o líder que era lá no presencial e não dá para eu ser o líder que sou hoje no online total, porque no sistema híbrido, que é para onde vamos caminhar depois da pandemia, há uma série de questões que esse líder vai precisar olhar. A primeira é esse desejo de ter controle sobre tudo, sobre o processo, sobre as pessoas, sobre o horário. Isso tem de mudar. As pessoas vão trabalhar por projeto, por resultado. Então precisamos mexer na cabeça da liderança. Um segundo ponto importante tem a ver com a remuneração nas organizações. Temos ainda uma estrutura de natureza fabril, onde quem opera ganha pouco e quem pensa ganha muito. Mas na área de programação, por exemplo, todo mundo pensa e opera. Não dá para você pensar num processo e mandar o outro fazer. Acho que vamos caminhar nessa direção.
EXAME CEO: Nesse novo cenário, em que posso trabalhar de qualquer lugar e uma empresa pode também contratar funcionários de qualquer lugar, o que muda na relação entre empresa e empregado?
→ PRISCILA: Uma coisa que já ajudou bastante foi uma mudança que tivemos na CLT, há três ou quatro anos. Hoje podemos contratar pessoas 100% no remoto, sem controle de jornada. Falta a regulamentação das que estão trabalhando no remoto e têm controle de jornada. Como as empresas vão fazer esse controle, se é que vão? A pandemia mudou a forma como a pessoa trabalha. Ela pode ter um filho que fica pulando no colo, então precisa fazer uma pausa e trabalhar de madrugada ou na hora que for possível. Haverá muitas discussões sobre como adaptar a jornada de trabalho a essa nova realidade.
→ DENISE: Já mencionei que as pessoas vão trabalhar cada vez mais por projeto, por job, por atividade. Em alguns países, isso é supertranquilo. Você combina com a pessoa, contrata, paga, e está tudo certo em termos de legislação, mas no Brasil ainda é um deus nos acuda. Aqui as empresas tiveram de criar estruturas paralelas de MEIs e PJs, que vão entrando e ficando, misturando tudo. Será necessária uma grande revolução nessa questão, ainda mais porque os jovens que estão chegando hoje ao mercado de trabalho convivem com outras três gerações. Nós nunca passamos por isso. Antes, as empresas até meio que exigiam que funcionários com 60 anos saíssem, mas agora existe a tendência de trazer pessoas aposentadas de volta, para trabalhar com jovens que estão chegando. Essas estruturas que estão valorizando mais a diversidade vão exigir uma mudança na forma como as empresas fazem a gestão de pessoas.
Iza Dezon, consultora que analisa novas tendências socioculturais: a língua do futuro será a da programação
Iza Dezon, consultora que analisa novas tendências socioculturais: a língua do futuro será a da programação (Divulgação/Divulgação)
→ IZA: A geração que está vindo é menos paciente e mais fluida do que os millennials. As empresas vão precisar cativar a atenção desses jovens, que falam: “Isso é chato, vou fazer outra coisa”. As empresas não conseguem reter da mesma forma esse público que pode ficar em home office, que tem a possibilidade de mudar de emprego, que é mais maleável. Elas precisam cativar essa geração da mesma forma que tentam cativar o consumidor. Dar benefícios, criar oportunidades, permitir maior flexibilidade e mobilidade dos vários talentos dentro da empresa.
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Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Cada vez mais brasileiros aderem à tendência, que pode sobreviver à pandemia
Por Sabrina Brito Veja 5 mar 2021
Estamos na era do anywhere office, ou seja, do escritório em qualquer lugar. Para manter distância do novo coronavírus, por decisão própria ou determinação da empresa, muita gente começou a trabalhar em casa, na escrivaninha já instalada ou improvisada de última hora. Mas casa, assim como o escritório, também pode ser em qualquer lugar: na praia, no campo, em um hotel ou dentro de um transatlântico — desde que haja conexão com a internet, o negócio está feito.
Uma pesquisa sobre turismo encomendada pelo aplicativo de locação Airbnb revelou que 83% dos entrevistados se mostram a favor de acomodação em outro espaço, que não o próprio lar, para trabalhar remotamente. Afinal, já que o trabalho é virtual, por que não fazê-lo a partir de um endereço com uma bela vista, ao alcance de uma caminhada quando o expediente acabar? E se, além disso, o profissional ainda puder aproveitar serviços de lavanderia, limpeza de quarto e restaurante? Não pode haver mundo melhor do que esse.
Já sabendo disso, hotéis e resorts, até por necessidade de sobrevivência, lançaram-se a alugar por temporada, dando a oportunidade ao hóspede de aliar férias ao trabalho. Para aqueles com filhos, a hotelaria oferece monitores que cuidam dos pequenos enquanto os adultos trabalham. Algumas bandeiras vão além, disponibilizando salas de aula onde as crianças estudam enquanto a escola não abre.
Os destinos dessa migração variam, mas o Nordeste, por tudo o que oferece, inclusive distanciamento social nas amplas praias, ganha de goleada. De acordo com a Azul Conecta, braço de aviação regional da Azul, um dos lugares que têm se sobressaído é Porto de Galinhas, em Pernambuco. Na Costa do Sauípe, roteiro popular na Bahia, um novo pacote, adequadamente chamado “Meu Escritório É na Praia”, permite que o hóspede trabalhe remotamente de uma mesa colocada em frente ao mar, com direito a guarda-sol e internet.
NO PARAÍSO – porto de Galinhas, em Pernambuco: o Nordeste é preferência nacional – iStock/Getty Images
A ideia foi suficientemente tentadora para o empresário Carlos Henrique Carvalho, morador de São Paulo, juntar trabalho remoto com um pacote de curtas estadas em praias paulistas como Barra do Sahy, Juquehy e Ilhabela, e também em Sergipe e na Bahia. “Meu objetivo era me isolar em um lugar mais seguro que a cidade, onde eu pudesse ter contato com a natureza”, diz o executivo. Ele acredita que trabalhar num canto em que se sente melhor só aumenta a produtividade.
Para quem não gosta de praia, há opções rodeadas de verde. Cidades como Itu, Taubaté e Campos do Jordão, no interior de São Paulo, estão vendendo pacotes semelhantes. A rigor, não é preciso nem mesmo sair da cidade em que se mora para fazer o anywhere office. “O legal é justamente poder trabalhar literalmente de qualquer lugar”, afirma Victor Peixoto, gerente de comunicação. Paulistano, ele e a mulher resolveram passar dois dias no hotel de luxo Hilton São Paulo, só com o intuito de mudar de ares. Dizem ter funcionado, magnificamente. No Rio, o Vila Santa Teresa Hotel, um refúgio urbano de 85 000 metros quadrados com uma vista invejável do Pão de Açúcar, passou a receber 40% de sua clientela de cariocas. “Antes, 80% dos hóspedes eram estrangeiros. Nos últimos tempos, moradores da cidade passaram a reservar nossos quartos e, entre um mergulho na piscina e caminhadas pela propriedade, trabalham daqui”, diz a empresária Eva Monteiro de Carvalho.
LOUCOS PARA VIAJAR - Em Londres: britânicos contam os dias para curtir a temporada de verão em cruzeiros – Chris Gorman/Getty Images
O advento do escritório por aí afora, sem amarras, foi um alívio para o setor de turismo, que vem tendo pesadas perdas de receita desde que a pandemia começou logo após o Carnaval de 2020. É uma das poucas oportunidades de evitar estragos maiores do que os já registrados, já no patamar de 50 bilhões de reais. “Essa tendência é vital para o turismo, que se movimenta, e também para o viajante”, diz Magda Nassar, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens. Segundo ela, o efeito clausura provocado pela pandemia despertou o desejo de viajar, e o anywhere office propicia essa possibilidade sem que se diminua o ritmo de trabalho.
Aproveitar a moda é uma boa ideia, mas ela perdurará? Uma pesquisa da consultoria Cushman & Wakefield aponta que três em cada quatro empresas brasileiras pretendem fazer do home office uma prática definitiva mesmo após a pandemia. Dessa forma, se o trabalho remoto veio para ficar, pode ser que o mesmo aconteça com o anywhere office. Nos países com campanhas de vacinação avançadas, o turismo dá sinais animadores de voltar à vida normal. Em Israel, hotéis, shoppings, safáris e museus estão reabrindo de forma segura. Da população de quase 9 milhões de pessoas, 50% já foi vacinada — o que não significa necessariamente que elas estão voltando ao trabalho presencial. Muita gente pretende trabalhar de casa ou, insista-se, de qualquer outro lugar.
E, falando em retomada, o Reino Unido começou a negociação com outros governos para reabrir os corredores turísticos. Os 20 milhões de britânicos que tomaram pelo menos uma dose do imunizante têm demonstrado preferência por destinos na Turquia e cruzeiros no Mediterrâneo. Países como Indonésia, Dinamarca e Suécia estudam a possibilidade de permitir a entrada apenas de turistas imunizados. Já a Grécia quer receber os viajantes britânicos, estejam vacinados ou não. O motivo da pressa é claro: grande parte da receita grega vem do setor turístico. Outro exemplo são as Ilhas Seychelles, arquipélago localizado no Oceano Índico, cuja dependência do turismo é total. O país foi o primeiro a anunciar a disposição em receber turistas vacinados sem exigência de quarentena na chegada.
Verdade seja dita, não há nação que não anseie pelo retorno das viagens internacionais, incluindo aí o Brasil. Levando em conta o cenário global, é de esperar que, à medida que o brasileiro vá sendo vacinado, o setor de turismo volte a funcionar paulatinamente, como um jato aquecendo suas turbinas. Nesse sentido, as expectativas não são ruins. “Acreditamos que, em julho, a temporada de turismo começará a se solidificar”, diz Magda Nassar. Por enquanto, com a vacinação avançando lentamente, o turista brasileiro terá de se contentar com viagens curtas a destinos onde possa trabalhar e se divertir ao mesmo tempo. Mas há quem esteja empolgado tanto com a continuidade do anywhere office quanto com a retomada do turismo tradicional. É o caso de Marcos Arbaitman, presidente do grupo controlador da Maringá Turismo. Ele espera para maio uma recuperação de 100% do turismo nacional e acredita que, quando 30% da população estiver imunizada, voltará a vender destinos internacionais como Nova York. É uma visão otimista. Tomara que aconteça.
Publicado em VEJA de 10 de março de 2021, edição nº 2728
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