A psicologia secreta das cores dos tênis

Você pensa que eles escolhem por acaso essas cores brilhantes dos tênis Nike, Adidas e New Balance? Pense novamente

Mark C. O’Flaherty, The New York Times – Life/Style, O Estado de S.Paulo 18 de agosto de 2021 

Azul-piscina, verde-limão, roxo-uva. Laranja misturado com rosa neon. Camurça cinza intercalada com estampas de leopardo e misturadas com branco e dourado. Essas não são descrições de um pesadelo minimalista, mas combinações de cores de tênis da Adidas, Reebok e New Balance. E são designs chocantes.

Na era do scroll infinito e da cultura do tênis, onde a concorrência para fazer o tênis mais raro, mais atraente e mais desejado está mais intensa do que nunca, os sapatos com as cores mais chocantes param o tráfego – pelo menos, o tráfego online. Como resultado, as fabricantes de tênis esportivos vêm se tornando cada vez mais aficionadas e fluentes naquela velha arte: a da teoria das cores.

NYT - Life/Style (não usar em outras publicações).O Nike x Sacai VaporWaffle.  Foto: via Nike via The New York Times

Os elos entre cor e emoção têm sido estudados há séculos, da codificação em cores dos traços de personalidade de Carl Jung a grupos de avaliação sobre como a cor do doce afeta o sabor. Empresas farmacêuticas colorem suas pílulas com cores “frias” ou “quentes” de acordo com o efeito desejado (remédios hipnóticos com frequência são de cor azul ou verde, os antidepressivos têm cor amarela), e usamos lâmpadas SAD (que imitam a luz do sol) no inverno para reproduzir as qualidades energizantes de um dia ensolarado.

Não surpreende o fato de as marcas de tênis terem departamentos dedicados a manipular mudanças minúsculas nas cores dos tênis, assim como arquitetar o equivalente visual de uma cena de um crime para que você possa dar uma olhadinha nos produtos no site. É a missão deles criar emoções e acelerar os negócios. 

“Entre 70% e 90% dos casos, o julgamento subconsciente de um produto é feito em alguns segundos com base apenas na cor”, disse Jenny Ross, chefe de design de conceito e estratégia da New Balance. “A cor nos excita ou nos acalma, aumenta nossa pressão sanguínea. É algo poderoso”.

Assim, enquanto a fonte de sustento de muitas marcas continua o básico – o Nike Air Force 1 foi o tênis mais vendido em 2020 e ele é todo branco – as peças que provocam alvoroço são edições limitadas que exploram nosso subconsciente para criar o desejo.

Às vezes, o que desencadeia o desejo é óbvio. O uso do Varsity Red, por exemplo, evoca a nostalgia do estilo Ferris Bueller (do filme Curtindo a Vida Adoidado), o roxo e dourado trazem à mente as cores dos Lakers e o branco está associado aos esportes com raquetes. Mas, no campo da moda, a cor é também a sua marca. No caso da Fendi é o amarelo. Hermès é o laranja e para a Tiffany é o azul. Do mesmo modo, as marcas de tênis alternam cores básicas e o experimento extravagante.

New Balance, por exemplo, tem raízes no cinza, onipresente em cada temporada, que sugere um tênis para corrida urbana, no concreto.

“O tênis cor cinza é algo do qual temos muito orgulho”, disse Ross. “Cada cinza no nosso gráfico de cores tem um caráter e personalidade. O Castle Rock é quente. O cinza escuro tem uma tonalidade azul. E no caso dos nossos modelos tradicionais, nos certificamos de que nossos curtumes nunca errem. Eles reproduzem com precisão”.

NYT - Life/Style (não usar em outras publicações).Tênis Foamposite Volt da Nike.  Foto: via Nike via The New York Times

Na outra extremidade está a Nike, com seu limão neon, a cor Volt, vista pela primeira vez nas Olimpíadas de 2012. Para algumas pessoas, é uma cor hedionda. Para outros, um golpe de mestre.

“Esta foi uma escolha intelectual e científica da Nike”. Disse Ryan Cioffi, vice-presidente de design da Reebok. “A primeira cor que você vê nos seus receptores ópticos é um limão super brilhante. Possivelmente, é uma visão evolucionária de animais venenosos e sinaliza perigo. Algo físico ocorre quando você o vê. A Nike calculou isso trigonometricamente e repetiu para sempre”.

É pela repetição que se vence o jogo das cores. Você pode ver o Volt e sentir repugnância, mas sempre vai pensar na Nike. Em se tratando de cores, este é um paradigma no caso do marketing de uma marca.

“Realizamos um estudo de inovação tecnológica sobre como essa cor é percebida na TV HD e nas trilhas esportivas”, disse Martha Moore, vice-presidente e diretora de criação da Nike. “Estudamos a ideia de velocidade e qual é a cor que a complementa na vibração do olho humano. Volt tem a ver com o emocional”.

Depois de um ano vivendo nossas vidas praticamente on-line, os pixels coloridos ficaram ainda mais importantes. “Estamos desenvolvendo cores que parecem iluminar de dentro, Pixels um ao lado do outro criam cores que antes não eram vistas. Eles criam novas combinações neutras e complexas. Estamos usando as neutras.

“Estamos vendo uma resposta particularmente positiva às cores pastel e ao amarelo forte”, disse Heiko Desens, diretor criativo da Puma. “Coisas que falam de energia e positividade”.

NYT - Life/Style (não usar em outras publicações).Tênis Puma Mirage.  Foto: via Puma via The New York Times

Todos nós temos um relacionamento pessoal complexo com cores. Para alguns, essas cores e padrões configurados e cuidadosamente escolhidos são interessantes, um desastre ou apenas bonitos. Mas para outros tem algo poético, talvez profundo. E nesse aspecto é que a teoria da cor intervém profundamente.

As colaborações de Grace Wales Bonner para a Adidas evocam de uma maneira bela os anos 1970, em particular o estilo da comunidade de jamaicanos e sua segunda geração em Londres durante aquela era. No caso dos tênis mais recentes, a estilista disse que sua paleta de cores quentes foi inspirada pelo “icônico cinema jamaicano”. “Estava interessada em explorar cores que desvanecem no sol jamaicano”, disse ela.

Moore, da Nike, também observou que seu “quadro de paletas de humor” com frequência engloba influências de vários cineastas. “Podemos querer uma sensação Wes Anderson versus Sofia Coppola“, disse.

E temos a perspectiva da marca Sacai no caso dos tênis de corrida VaporMax e Waffle Racer da Nike, que Moore chama de “autenticamente esportivo com um toque visionário”, E sem mencionar o Puma Mirage Tech, que propositadamente confronta cores de eras diferentes de uma maneira que parece o monitor digital de um hardware de DJ.

“É uma remixagem”, explicou Desens, da Puma. “Nosso desejo foi ligá-los à cultura da música eletrônica. Como uma expressão abstrata de EDM é notavelmente eficaz. Faz você se sentir animado”.

É por isso que a teoria das cores importa mais do que nunca quando se trata do que você coloca nos seus pés. “Consideramos as múltiplas visões de um tênis já nos estágios iniciais do seu design”, disse Cioffi, da Reebok. “Examinamos o brilho e a luz de fundo de modo mais crítico: como esta tonalidade de azul se traduz às oito horas da noite no seu Instagram, quando a bateria do seu celular está baixa? É importante refletir sobre isso”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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De WhatsApp a Netflix, consumo de conteúdo acelerado vira tendência em uma sociedade com pressa

Para especialistas, fenômeno tem a ver com o excesso de informações que circulam na internet

 Por Bruna Arimathea e Guilherme Guerra – O Estado de S. Paulo 20/08/2021 

Hoje, é possível passar um dia inteiro na internet em ritmo acelerado: as principais plataformas digitais já têm ferramentas para aumentar a velocidade de reprodução dos conteúdos. No Youtube, é possível assistir a um vídeo inteiro na metade do tempo. No WhatsApp, você também pode ouvir um áudio até duas vezes mais rápido. O efeito atinge até produções culturais, com opções para ver um documentário na Netflix acelerado em 50% ou ouvir um podcast no Spotify até 3,5 vezes mais rápido.

Para muitas pessoas, acelerar é o único jeito de consumir conteúdos em uma internet cada vez mais abarrotada de informações. A contadora Heloisa Motoki, 43, está acostumada com essa forma de usar a internet: ela acelera tanto os áudios de amigos no WhatsApp (recurso que chegou a todos os usuários do app em maio) quanto vídeos no YouTube – por lá, ela costuma acompanhar treinamentos para o trabalho e receitas de culinária. 

Dessa forma, diz ela, a “aula” fica mais curta, mas o conteúdo é absorvido da mesma forma. Para Heloisa, a exceção é na hora de ouvir músicas, que ficam na velocidade normal para degustar o ritmo do artista.

“A nossa mente se acostuma com a rapidez e, com isso, ganho tempo”, explica ela, cuja filha, de 16 anos, também adotou essa agilidade no YouTube para assistir a anime. “Eu faço muita coisa, recebo muitas mensagens e, com a pandemia, tudo foi para o online. Se eu não acelerar, não dou conta com o pouco tempo que me resta.”

Atarefada, Heloisa Motoki, 43, passou a utilizar o recurso de acelerar os audios tanto no celular como no computador

Atarefada, Heloisa Motoki, 43, passou a utilizar o recurso de acelerar os áudios tanto no celular como no computador

É comum navegar pelo YouTube, por exemplo, e ler comentários de usuários dizendo que determinada música fica mais “animada” em velocidade 1,75 (ou seja, 75% mais rápida). Existem também casos em que espectadores de plataformas de streaming “apertam o passo” no ritmo da série para pular momentos considerados maçantes – a Netflix implementou a ferramenta de aceleração em julho do ano passado. 

Não é possível dizer se são esses recursos que nos deixam mais acelerados ou se são as pessoas que exigem soluções que ajudem a superar essas dores. Como no exercício sem resolução “quem veio primeiro? O ovo ou a galinha?”, trata-se de uma pergunta cuja resposta não importa para o problema. Para especialistas, o ponto central da discussão são as consequências de toda essa pressa.

A psicóloga Andrea Jotta, pesquisadora do Janus (o Laboratório de Estudos de Psicologia e Tecnologias da Informação e Comunicação, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), afirma que a tecnologia acompanha o uso das pessoas, que são quem têm a autonomia sobre como vão utilizar essas ferramentas no dia a dia. “A aceleração de qualquer conteúdo vem por causa do excesso de informações”, aponta, citando que a pandemia potencializou esse cenário. “Não é possível consumir tudo o que está na internet e não é nem saudável buscar esse conhecimento todo. Por isso, temos de fazer escolhas.”

Andrea dá um exemplo: uma série de streaming é criada para reter a atenção do espectador, seja por truques de roteiro, seja por poderosos algoritmos de recomendação que mantêm o usuário na plataforma. O usuário pode escolher entre consumir aquilo da maneira que foi planejado, acelerar o tempo, pular episódios ou abandonar. Em todas, a decisão cabe ao indivíduo e as ferramentas estão ali para serem utilizadas ou não, diz Andrea: “É preciso fazer o consumo saudável da internet, sem extrapolar limites.”

Plataformas permitem que usuários acelerem vídeos e áudios para poupar tempo

Plataformas permitem que usuários acelerem vídeos e áudios para poupar tempo

Devagar aí

Ainda não há detalhes científicos sobre o impacto dessa aceleração no psicológico das pessoas. Contudo, há quem já esteja sentindo efeitos dessas ferramentas.

Para a advogada Thaís Vargas Binicheski, 26, que aumenta a velocidade dos áudios recebidos no WhatsApp para ganhar tempo no trabalho, a vida “offline” está parecendo mais agitada também – ela tem notado que as pessoas estão falando mais rápido depois de acostumarem a ouvir com tanta rapidez. “Conversando com alguns amigos, eles me disseram que também têm essa sensação. É um reflexo dessa ferramenta”, diz.

Na visão da professora de jornalismo Michelle Prazeres, da Faculdade Cásper Líbero e criadora do movimento Desacelera SP, as empresas de tecnologia, como o Facebook (dono do WhatsApp) e o Google (do YouTube), se aproveitam dessa sensação “latente” de urgência na sociedade para implementar esses recursos, solucionando dores que partem dos usuários, soterrados de mensagens recebidas e conteúdos recomendados. 

“Ao mesmo tempo, esses aceleradores são vistos como livre-arbítrio, mas as pessoas se entregam ao imperativo desta época, em que a velocidade é uma violência”, afirma Michelle, esclarecendo que o uso dessas ferramentas não pode ser criticado de forma unilateral porque pode trazer benefícios individuais, como em situações de emergência. “Mas, do ponto de vista coletivo, daqui a um tempo, isso vai ter reverberações no jeito que as pessoas conversam não só no âmbito da tecnologia, mas das relações humanas.”

Michelle levanta o ponto de que essas ferramentas podem “desumanizar” as relações. Um exemplo é uma conversa entre amigos, que, ao usar o áudio acelerado, alteram a entonação da voz e eliminam pausas dramáticas ou hesitações. “Em uma obra artística como uma série de televisão, o artista pensou a duração daquilo sob determinado ritmo. E isso também faz parte da arte. Se você pega a temporalidade e acelera, você descaracteriza o produto e desumaniza”, explica.

A psicóloga Andrea, porém, lembra que a aceleração no WhatsApp, por exemplo, faz parte de uma comunicação assíncrona, em que as duas partes da conversa estão em momentos distintos. “Ao contrário de um telefonema, que é em tempo real, aquele sentimento que expressei no áudio pode já ter desaparecido quando a outra parte, horas depois, escutou”, observa. “O áudio está fora do tempo.”

Sem tempo, irmão

Além dos áudios do “zap” acelerados, quem navega na internet sente que conteúdos digitais como um todo estão mais curtos – e não só porque foram acelerados por ferramentas. É como se, para consumir mais e mais, tudo tivesse sido enxugado. 

Revista americana especializada em música, a Billboard publicou, em 2019, que as canções mais tocadas nas rádios dos Estados Unidos estão 30 segundos mais curtas do que em 2018, algo que pode ser atribuído às plataformas de streaming, como Spotify – quanto mais curtas, mais as músicas podem ser reproduzidas repetidas vezes, aumentando o número de visualizações para o artista e gravadora, que faturam mais com o “hit”. 

Outro fenômeno está no aplicativo chinês TikTok e no concorrente Reels, do Instagram, que naturalmente trazem conteúdos rápidos. Neles, criadores de conteúdo sintetizam memes e histórias em até um minuto e meio de material, com velocidades que podem assustar os mais velhos. Como consequência, o conteúdo se torna mais fácil de ser viralizado.

“Se assistirmos a vídeos antigos de influenciadores conhecidos, eles tinham conteúdos de até uma hora, mas hoje existem métricas que dizem que esses materiais não eram vistos até o final”, explica o professor Fábio Mariano Borges, da Escola Superior de Propaganda e Marketing. Para ele, como remédio contra a sociedade acelerada, caminhamos para mensagens objetivas e sem rodeios. “Hoje, ter síntese é o futuro, apesar de termos sido educados para sermos prolixos.”

Apesar desse cenário de urgência sentido pela sociedade, Borges acredita que essas ferramentas não vão tomar a experiência de filmes de longa duração ou grandes obras literárias. “Não dá para falar que o mundo vai abolir tudo o que for demorado. Vai haver espaço para aquilo que se justifica e que tem sua importância.”

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Quais lideranças dão (mesmo) certo no novo ambiente de negócios?

A pandemia está exigindo um conjunto de novas capacidades para as lideranças e o processo de aprendizado precisa ser ágil, dinâmico e adequado às questões emergentes e importantes em cada momento

Por Da Redação Exame  21/08/2021 

Por Fundação Dom Cabral

O tema liderança não é de agora, porém, cada vez mais, se torna relevante para todo e qualquer tipo de organização. Um líder exerce o papel inspirador, provocador e conduz um conjunto de pessoas aos objetivos e interesses organizacionais, fazendo a grande diferença nos resultados entregues.

A pandemia está exigindo um conjunto de novas capacidades para as lideranças e o processo de aprendizado precisa ser ágil, dinâmico e adequado às questões emergentes e importantes em cada momento.

Além das entregas para a sua organização, ficou evidente nesta pandemia que muitos líderes tiveram que dialogar de forma mais ampla com diferentes públicos e em contextos distintos. Fazemos parte de um ecossistema no qual precisamos nos dedicar também em frentes de atividades responsáveis e entregas de valor. A cobrança aumentou. A complexidade do ambiente de negócios está maior, traz novas exigências e demanda um conjunto de características necessárias e fundamentais para esse novo papel.

Lampada acessa, novas ideias

Liderança do futuro: as recomendações para os líderes da atualidades (PM Images/Getty Images)

Quais são essas exigências que estão ganhando força e precisam de uma atenção especial deste líder?

Temos algumas questões que precisamos destacar tais como: os novos comportamentos e hábitos do consumidor; a formação de redes colaborativas; a inteligência e a responsabilidade com o uso dos dados; a diversidade corporativa; a sustentabilidade, a governança e o papel social (ESG); a relação com novas gerações e o papel crescente do propósito organizacional. Uma lista robusta de demandas que este líder precisa preparar e cuidar.

Vamos então destacar algumas iniciativas importantes e questões que podem ajudar na construção do sucesso esperado para este papel.

Como ser um bom líder no novo mundo dos negócios

  • Tenha uma visão

Ter um objetivo claro de onde a sua organização e suas equipes querem chegar traz engajamento, pertencimento, senso de direção e comprometimento com as escolhas. O que iremos conquistar neste próximo ciclo?

  • Desenvolva uma agenda com os temas importantes

Organizar as principais atividades chaves a partir dos objetivos construídos ajuda na melhor divisão, uso do tempo e clareza das entregas, além de evoluir na cadência e intensidade necessária. Quais rituais são importantes para impulsionar as entregas?

  • Tenha uma mente adaptável

Encontrar situações de “primeira vez” será cada vez mais comum. Isso pode parecer desmotivador inicialmente, porém podemos encarar como desafio da vez. Não perca o brilho nos olhos, pois são nesses momentos que as equipes buscam um porto seguro e aquela esperança de que vai dar certo. O que temos para hoje e vamos superar?

  • Abrace a mentalidade da abundância

Elevar a capacidade de enxergar contradições, questionar o impossível, ver possibilidades em relação a um futuro que outros não podem ver e só enxergam restrição, complicações e problemas. Busque, de forma incansável uma saída. Por que não?

  • Aprenda diariamente com os erros e acertos

Construir uma mentalidade ágil, adaptável que teste hipóteses irá funcionar em contextos em rápida mudança como uma esteira que impulsiona o aprendizado constante. Qual foi a lição aprendida de hoje?

  • Promova um ambiente favorável à diversidade

Trabalhar com a diversidade potencializa formas de enxergar as coisas como elas são, traz pontos de vista diferentes, estimula a criatividade e eleva a produtividade. Quem pensa e traz questionamentos, de forma diferente, que pode agregar a essa frente de trabalho?

  • Trabalhe constantemente o feedback com as suas equipes

Mostrar que estamos no caminho ou que ele precisa ser mudado. Trazer reflexões sobre quais melhorias precisam ser trabalhadas e dar destaque ao sucesso entregue ajuda no sentimento de pertencimento, unicidade e da importância de cada um no processo. Avançar de forma corajosa em cada conversa ajuda a enfrentar situações difíceis onde as pessoas podem estar se sentindo inseguras. Qual o nível de confiança atual e desejado da minha equipe?

  • Traga o cliente para o centro das discussões

Observar e ouvir sempre o cliente contribui para o entendimento do que é importante fazer e entregar para gerar valor. Em um ambiente onde existem mudanças constantes no comportamento do cliente, o líder precisa estimular esta escuta ativa por todos os envolvidos para um melhor entendimento do porquê que cada um faz o que faz e como pode ser feito de forma melhor. Para que o cliente “contratou” o nosso produto? Qual a tarefa que o cliente precisa realizar com o nosso produto?

  • Trabalhe em rede e colaboração

Para dar sentido à mudança de tendências, práticas e expectativas, os líderes no mundo de hoje precisam colaborar implacavelmente dentro e fora da organização. Estamos integrados em uma cadeia de valor que precisa de apoio e união de forças para maximizar resultados e entregar valor à sociedade. Qual o meu papel perante a sociedade?

  • Clarifique e dialogue constantemente

Ao trabalhar com a força de trabalho diversa, os líderes precisarão ter a capacidade de se comunicar de maneira eficaz entre diferentes culturas. Igualmente importante para os líderes é reiterar e reforçar a visão, os valores e as estratégias. Finalmente, os líderes precisam ajudar os outros a esclarecer o significado do seu trabalho. Comunicação e clareza são as moedas de liderança efetiva. O que é óbvio para mim, é claro para o outro?

  • Esclareça o significado do porquê aquela atividade é importante para cada pessoa

Criar uma influência positiva que desenvolva um ambiente favorável para identificar e esclarecer o significado do trabalho e assim, aproveitar a motivação individual de cada um. Por que somos importantes aqui?

Fundamental lembrar que cada liderança tem seu estilo e isso precisa ser preservado. O que prevalece na liderança com maestria é a convergência entre propósito e valores, sendo estas premissas fundamentais para valer a pena ao final de cada dia. O líder precisa estar feliz e realizado com cada desafio colocado e não esquecer de celebrar as pequenas vitórias como grandes conquistas.

Líderes do agora

Pela primeira vez, a EXAME Academy, plataforma de educação da EXAME, se juntou com a FRST Falconi (fala-se First), aceleradora de pessoas e learning tech (empresa de educação & tecnologia) criada por uma das maiores empresas de consultoria de gestão do Brasil. A parceria deu origem ao Programa Líderes do Agora.

Os participantes terão acesso a conteúdos relacionados a Liderança, Mindset de Inovação e Gestão para Resultados. E poderão desenvolver as cinco competências essenciais para a liderança atual:

  • pensamento sistêmico;
  • protagonismo;
  • gestão de resultados;
  • mindset de inovação;
  • cultura e hábitos de aprendizagem.

https://exame.com/pme/quais-liderancas-dao-mesmo-certo-no-novo-ambiente-de-negocios/

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Google mostra como startups brasileiras cresceram nos últimos anos — e o que precisa melhorar para elas decolarem

Relatório da empresa de tecnologia faz um resumo do desenvolvimento das startups no país ano a ano desde 2016

Por Mariana Fonseca InfoMoney 19 ago 2021 

SÃO PAULO — Nos últimos cinco anos, o Brasil criou um exército de startups: passamos de 5 mil para 13 mil negócios escaláveis, inovadores e tecnológicos, espalhados por 692 cidades. Também fomos de nenhum unicórnio, ou startup avaliada em ao menos US$ 1 bilhão, para 15 deles. Mesmo assim, alguns desafios continuam, como atrair mais investimentos, encontrar talentos e simplificar o ambiente regulatório.

Essa evolução é mostrada em um relatório da empresa de tecnologia Google, elaborado em parceria com a empresa de pesquisas Kantar. A pesquisa comemora os cincos anos de atuação brasileiro da vertical de fomento ao empreendedorismo inovador e tecnológico do Google, chamada Google for Startups.

O relatório também faz um resumo do desenvolvimento das startups no país ano a ano desde 2016, inclusive entrevistando fundadores de negócios que vivenciaram o crescimento do ecossistema empreendedor.

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“Hoje ficamos atrás apenas de China e Estados Unidos em número de unicórnios. Ultrapassamos ecossistemas maduras, como Alemanha e Israel”, disse Fabio Coelho, presidente do Google Brasil, em coletiva de imprensa realizada nesta quinta-feira (19) para apresentar o relatório.

“O impacto é inquestionável. Em todos os segmentos de mercado, no dia a dia de todos os brasileiros. Por trás de muitas transformações recentes vividas no Brasil, está o trabalho de uma startup, que cumpre seu papel de reinvenção. Esse impacto é impulsionado por um ecossistema empreendedor vibrante, espalhado por todo o Brasil e que, unido, é capaz de grandes transformações”, escreve o Google for Startups na pesquisa.

Foguete

Startups de 2016 até 2021

O primeiro campus brasileiro do Google for Startups foi inaugurado em 2016, na cidade de São Paulo. Além da unidade brasileira, existem outros cinco campi ao redor do mundo, em Madri, Seul, Tel Aviv, Tóquio e Varsóvia.

Em 2016, aplicativos de mobilidade urbana se tornaram parte do cotidiano nas grandes cidades e o comércio eletrônico seguiu em crescimento, apesar dos sites de compras coletivas terem perdido relevância. Os fundos de venture capital ainda concentravam seus investimentos nesses setores, e startups em estágio inicial tinham poucas opções para captar recursos.

“O Brasil estava em uma recessão, e os fundos internacionais tinham um ceticismo muito forte com relação ao crescimento das nossas startups”, escreve no relatório Vitor Torres, CEO da fintech de contabilidade Contabilizei.

A recessão econômica continuou em 2017, mas algumas tendências de negócio se firmaram. Além do comércio eletrônico e dos aplicativos de mobilidade urbana, as fintechs também diversificaram seus produtos e serviços. Fundos ficaram mais capitalizados e foram realizadas rodadas de investimento grandes, em negócios como 99 e Nubank. Por fim, o acesso a conteúdo sobre empreendedorismo foi ampliado por meio de mídias especializadas.

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Em 2018, a polarização política dominou as manchetes diante das eleições presidenciais. Ao mesmo tempo, houve a explosão dos aplicativos de mensagens. Foi também o ano do primeiro unicórnio brasileiro: a 99, adquirida pela chinesa Didi Chuxing.

Com o conhecimento sobre empreendedorismo ampliado desde o ano anterior, os fundadores de startups estavam mais maduros. Aceleradoras ligadas a corporações fortaleceram sua atuação e os fundos se multiplicaram, alguns deles focando em negócios em estágio inicial ou em setores específicos. “Começou a ter pessoas querendo resolver grandes dores, com tamanhos de mercado interessantes. Isso atraiu a atenção dos fundos”, escrevem no relatório os cofundadores da startup de saúde Neomed.

2019 foi um ano marcado por novas regulamentações, principalmente nas esferas trabalhista e previdenciária. Os patinetes e bicicletas compartilhadas se tornaram uma grande tendência, enquanto as redes sociais ganharam relevância agora como canal de venda. O Google for Startups afirma que as startups de recursos humanos foram bastante valorizadas, e que propostas de startups para a saúde começaram a aparecer.

O último ano, 2020, foi marcado pela pandemia do novo coronavírus. O isolamento social prejudicou alguns setores, como o turismo. Mas destacou outros, como logística e educação e varejo digitais. De modo geral, startups enfrentaram queda nas receitas, redução de funcionários e reorganização do modo de trabalho. As startups mais destacadas foram as de saúde, serviços financeiros e recursos humanos. Ainda, o tema da diversidade ganhou mais força entre os negócios escaláveis, inovadores e tecnológicos.

“O último ano foi muito desafiador e certamente acelerou muito o processo de transformação digital de toda a nossa sociedade. A pandemia da Covid-19 fez com que atividades como aulas, reuniões, compras e consultas online se tornassem essenciais em nossas rotinas. Em um momento tão crítico, as startups foram protagonistas e ajudaram a reinventar o modo como circulamos na cidade, pedimos uma refeição, fazemos pagamentos, consumimos informações e nos relacionamos”, escreveu no relatório André Barrence, diretor do Google for Startups.

O Google for Startups ressaltou que 2021 também está sendo marcado por uma alta taxa de infecção por Covid-19 no Brasil. Ao mesmo tempo, houve alguns avanços legislativos neste ano: o Marco Legal das Startups foi aprovado (veja as principais mudanças), assim como o Open Banking chegou à segunda fase de operação. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) também começou a valer, inclusive com multas que chegam a R$ 50 milhões.

Qual o futuro das startups brasileiras?

O Google for Startups também mediu a percepção sobre o ecossistema ao longo desses anos, a partir dos empreendedores que participaram de seus programas.

Mais de 250 startups fizeram parte das iniciativas de longa duração do Google for Startups no Brasil – para startups em estágio inicial, de crescimento ou de escala. Esses negócios geraram mais de 15 mil empregos e captaram mais de R$ 35 bilhões em investimentos. Entre as startups, estão seis unicórnios: Creditas, Loft, Loggi, Nubank, Nuvemshop e QuintoAndar.

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Os empreendedores podiam dar notas de zero a dez em diversos quesitos. Na média, o ecossistema empreendedor recebeu nota 1,7 em 2016. Em 2021, a nota média atribuída ao ecossistema empreendedor ficou em 4, evolução percentual de 133%.

(Google for Startups/Reprodução)(Google for Startups/Reprodução)

“Ainda há muito a caminhar. Apesar de ser reconfortante observar a evolução do ecossistema em um período que, além de curto (são apenas cinco anos!), foi marcado por grande instabilidade, é importante que se observe o tamanho do espaço ainda disponível para evolução”, escreve o Google for Startups.

Os fatores com maiores notas absolutas foram “Disponibilidade de organizações apoiadoras de startups, como incubadoras e aceleradoras” (5,8); “Densidade do ecossistema empreendedor” (5,7); e “Disponibilidade de informações sobre startups no Brasil” (5,1). Já os que apresentaram maior avanço percentual entre 2016 e 2021 foram “Facilidade de acesso a fundos de investimento” (+266%); “Disponibilidade de talentos” (+169%); e novamente “Disponibilidade de organizações apoiadoras de startups, como incubadoras e aceleradoras” (+141%).

Um estudo feito pela ABStartups e pelo Google em 2019 mostrou que existem mais de 60 comunidades de startups espalhadas pelo Brasil. “Acho que existe ainda concentração de startups em cidades, como Belo Horizonte, Florianópolis, Recife e São Paulo. Mas vemos ecossistemas emergentes, como os de Maceió e Manaus”, diz Barrence. “Para aumentar essa densidade, temos de ampliar as redes capazes de apoiar empreendedores onde quer que eles estejam.”

Por outro lado, os fatores com menores notas absolutas foram “Ambiente regulatório” (0,9); “Presença de diversidade” (2,8); e “Disponibilidade de Talentos” (3,5). Os menores avanços percentuais foram vistos novamente em “Ambiente regulatório” (+80%); “Disponibilidade de informações sobre startups no Brasil” (+88%); e “Densidade do ecossistema empreendedor” (+103%).

Em seu relatório, o Google for Startups detalhou três desafios para um maior crescimento de startups: acesso a fundos de investimento; disponibilidade de talentos; e ambiente regulatório.

Embora a facilidade de acessar fundos de investimento tenha sido o atributo de maior evolução no ecossistema empreendedor brasileiro nos últimos cinco anos, o estudo Brazil Digital Report 2019/McKinsey indica que há muito espaço para crescer a presença de fundos de investimento no país.

“O volume de investimentos realizados no Brasil, em relação ao PIB, quando comparado com países que abrigam ecossistemas empreendedores bem desenvolvidos é baixo. Enquanto o Brasil movimenta um volume de investimentos equivalente a 0,04% do seu Produto Interno Bruto, países como EUA, Canadá e Alemanha movimentam, respectivamente, 0,43%, 0,16% e 0,11%”, escreveu o Google for Startups.

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Barrence ressalta que esse dinheiro ainda está concentrado em alguns fundos e em algumas startups no Brasil. “Existe um número de empresas que captaram um volume significativo, e outras captaram um volume bem menor. A concentração é um desafios que ainda podemos evoluir no ecossistema.”

Outro problema enfrentado globalmente por startups é encontrar talentos, especialmente olhando para posições técnicas. Segundo a McKinsey, o Brasil tem cerca de 1% da sua população formada em áreas chamadas de STEM (Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática), enquanto em países como EUA e Canadá, o percentual chega a quase 5%.

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Estas startups estão faturando com a corrida por desenvolvedores no Brasil

Por fim, o ambiente regulatório ainda é visto pelos empreendedores como um dos aspectos mais críticos à evolução do ecossistema de startups e empresas de tecnologia no país.

Alguns desafios para as startups brasileiras são dependência de instituições públicas e mudanças frequentes de legislação. “Em certas áreas, o mercado se concentra em torno do Estado e de organizações públicas, o que pode implicar em risco por conta, por exemplo, do ritmo próprio de pagamento e da aplicação de índices oficiais. (…) Em mercados como o imobiliário, a flutuação de índices econômicos pode acabar afetando os negócios”, escreveu o Google for Startups.

Já a complexidade da legislação brasileira é um desafio para as startups que trabalham para automatizar serviços regidos por esse conjunto de leis e normas. “Se o governo troca alguma coisa, temos que fazer um ajuste na engenharia, na raiz do nosso produto”, escreveu Torres, da Contabilizei. “Estar sempre atualizado é o desafio da indústria, porque, se não estivermos por dentro de tudo, vamos errar para muito.”

“Nos próximos anos, serão necessários avanços regulatórios, novas legislações e políticas públicas que realmente coloquem os empreendedores e startups brasileiras nos mesmos níveis e patamares de competição com os principais mercados e ecossistemas globais”, escreveu o Google for Startups.

“Eu acredito que as startups realmente terão um papel de protagonista na retomada de economia. Tudo que vimos de transformação da sociedade vai continuar nos próximos anos”, analisou Barrence na coletiva de imprensa. “Temos também um momento oportuno do ponto de vista do mercado de capitais, com empresas recebendo aportes significativos locais e internacionais tanto de fundos quanto do mercado acionário. Veremos a consolidação de algumas das empresas que começaram como startups e se tornam líderes de setores.”

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EUA atraem corrida por visto para profissionais qualificados

Estados Unidos têm há algum tempo demanda por trabalhadores com formação superior em áreas como tecnologia da informação, engenharia e medicina

Por Marina Falcão — Valor Econômico 18/08/2021 

A busca dos brasileiros com alta qualificação profissional por um visto de permanência nos Estados Unidos ganhou força durante a pandemia. Para especialistas, a frustração com o mercado de trabalho por aqui – somada à política imigratória mais flexível do presidente americano Joe Biden – pode provocar um recorde no êxodo de mão de obra especializada.

Considerando apenas os pedidos feitos nos consulados do Brasil, a demanda pelo green card de profissionais de “interesse nacional” ou com oferta de emprego nos EUA subiu 36%, de 1.389 para 1.899, no ano-fiscal 2020, encerrado em setembro. “A pandemia pode ter exposto algumas fragilidades do Brasil e isso se refletiu no desejo de imigrar”, diz Wagner Pontes, presidente do D4U USA Group, que presta assessoria a brasileiros que buscam visto de permanência nos Estados Unidos.

Cerca de 60% dos vistos solicitados por brasileiros são feitos por meio dos consulados – o restante vem pessoas que já estão em território americano. Como desde março as entrevistas finais com os candidatos estão suspensas por conta da pandemia, a fila pelo green card está acumulada.

Para compensar a paralisação dos processos nos últimos meses, o governo americano aumentou de 140 mil para 260 mil o número de vistos de trabalho para profissionais de alta qualificação que poderão ser concedidos no ano fiscal 2021, que começa em outubro.

A política mais favorável aos imigrantes a partir da eleição de Biden após um período de fortes restrições no governo de Donald Trump vai além do discurso democrata. Na prática, os EUA buscam fechar lacunas na sua oferta doméstica de mão-de-obra e impulsionar a recuperação pós-pandemia.

“Vai ser um período do mais justo com imigrantes, com menos burocracia”, avalia o advogado e fundador da AG Imimigration, Felipe Alexandre.

Para ele, a forma como a pandemia foi tratada no Brasil, com o atraso da vacinação no início do ano, além de dificuldades vividas por pequenas empresários agravou frustrações em muitos brasileiros com a qualidade de vida no país. “Ainda estamos sob esse efeito. As buscas pelo green card continuaram avançando nos últimos meses”, disse.

Os EUA têm há algum tempo demanda por trabalhadores com formação superior em áreas como tecnologia da informação, engenharia e medicina e profissionais dessas áreas têm, em tese, mais facilidade de obter o green card. “O governo americano tem escutado o pleito de gigantes como Google e Microsoft por mão de obra. Há um reconhecimento de que há escassez em algumas áreas, não é porque essas empresas querem pagar menos”, diz o advogado.

Os EUA emitem em média 300 mil novos green cards por ano. Considerando apenas os três primeiros meses de 2021, já foram computados mais de 110 mil novos pedidos para o documento de residência, um número nunca antes registrado no período que aponta para um recorde histórico no ano-fiscal 2021.

Por enquanto, o ano de 2011 registrou o maior número de green cards emitidos na história, com aprovação de 390 mil novas permissões de moradia.

Apesar do maior interesse americano por determinadas categorias, qualquer profissional com bacharelado e pelo menos cinco anos de experiência em sua área – ou com bacharelado e mestrado -, pode ser considerados acima da média, logo, elegíveis para pleitear o green card.

Graduado em contabilidade, com MBA em finanças corporativas e experiência de 30 anos trabalhando na área intera de bancos, Wilson Luis Teixeira Silva, 51 anos, foi desligado do último emprego em 2019. Sem conseguir se recolocar no mercado, procurou assessoria jurídica para dar entrada no visto.

Silva conseguiu aprovação do seu green card de trabalho em meados do ano passado, mas ainda aguarda a data da entrevista no consulado, última etapa do processo, para poder viajar. Casado e pai de duas crianças, ele diz que está em busca de mais segurança, educação e oportunidade de trabalho para a família. “Na minha idade, o mercado de trabalho Brasil fica muito difícil”, diz. “Ainda nem embarquei e já fui chamado para entrevistas por empresas americanas, logo depois de enviar o currículo”, conta. Silva pretende morar na Flórida, possivelmente na cidade de Tampa, onde estão instalados diversos bancos. “Por conta do clima mais ameno, a adaptação será mais fácil”.

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2021/08/18/eua-atraem-corrida-por-visto-para-profissionais-qualificados.ghtml

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Quando realmente precisamos nos encontrar pessoalmente no trabalho?

por Rae Ringel HBR 26 de julho de 2021(Tradução Evandro Milet)

 

Resumo.

Enquanto os líderes da empresa lutam para saber como deve ser um retorno ao escritório, eles devem aproveitar a oportunidade para pensar cuidadosamente sobre quais partes do trabalho devem ser feitas pessoalmente, quais devem ser virtuais e quais podem se beneficiar de uma combinação, então podem projetar em direção a esse ideal. O autor oferece seis perguntas a serem feitas enquanto você traça o plano de trabalho de sua equipe. 

Considerando tudo o que superamos ao longo dos últimos 15 meses, seria uma vergonha se não aproveitássemos cada pérola de sabedoria arduamente conquistada em torno do trabalho, da vida e do nexo dos dois. Vamos aproveitar nossas novas perspectivas sobre tempo, tecnologia e união para repensar como trabalhamos – e especificamente, como nos reunimos.

Três dias no escritório, dois trabalhando em casa? Ou duas semanas no escritório, depois duas em casa (ou algum outro local remoto mais atraente)? Todo mundo o tempo todo, como em 2019?

Essas são algumas das opções que os líderes estão considerando enquanto lutam para saber como deve ser voltar ao trabalho. Alguns desses novos arranjos estão caindo de forma desconfortável. Na Apple, por exemplo, os funcionários estão resistindo a uma política que exige que eles fiquem no escritório três dias por semana, descrevendo uma “desconexão entre como a equipe executiva pensa sobre o trabalho remoto/local flexível e as experiências vividas por muitos dos funcionários da Apple .”

Para ir além desse empurra e puxa estressante, precisamos reformular a conversa e nos concentrar no que estamos realmente tentando alcançar, em vez de onde, precisamente, estaremos sentados quando o conseguirmos. Isso envolve examinar a natureza precisa das tarefas à nossa frente, nossos objetivos específicos e o peso que atribuímos àqueles que competem, como eficiência, eficácia, camaradagem e saúde mental. Depois de determinar quais partes de nosso trabalho devem ser feitas pessoalmente, quais devem ser virtuais e quais podem se beneficiar de uma combinação, podemos projetar em direção a esse ideal.

Como Priya Parker observa em The Art of Gathering: How We Meet and Why It Matters, “As reuniões consomem nossos dias e ajudam a determinar o tipo de mundo em que vivemos.” E assim, para garantir que avancemos – não voltemos – para o escritório, é fundamental que reimaginemos uma pedra angular do local de trabalho moderno: como nos encontramos.

Gandee Vasan/Getty Images

É um momento confuso. Conforme você traça o plano de trabalho de sua equipe, aqui estão seis perguntas que você deve fazer.

1. Isso deve ser uma reunião?

Se há algo que aprendemos no ano passado, é o valor do tempo – e como pode ser exaustivo quando a grande maioria do nosso tempo parece ser gasto em reuniões.

Foi o que aconteceu em 2020. Sem a capacidade de nos esbarrarmos perto da cafeteira ou passar perto da mesa de alguém, tínhamos que agendar cada interação. Como resultado, nossas transições entre as reuniões foram gastas tentando freneticamente encontrar o próximo link do Zoom.

Agora que interações pessoais inesperadas são possíveis, e agora que sabemos como fazer bem o trabalho virtual, vamos pensar com muito cuidado se o tempo gasto em reuniões pode ser mais bem gasto pensando, escrevendo ou se envolvendo em outros projetos. Menos é mais: Quanto menos reuniões tivermos, mais as que tivermos contarão. Tudo se resume a um propósito. Pergunte a si mesmo: Por que você está se encontrando? Certifique-se de que a resposta realmente faz sentido. Você realmente precisa se encontrar? Priorize o trabalho assíncrono e use as reuniões para ser criativo e fazer algo juntos, em vez de simplesmente compartilhar informações.

Podem não ser necessárias reuniões para membros da equipe para fornecer relatórios de progresso, por exemplo, onde cada indivíduo tem seu segmento, mas é relativamente passivo no resto do tempo. Aqui, os objetivos podem ser alcançados de forma mais eficiente por escrito. Por outro lado, as sessões de brainstorming, onde as pessoas estão construindo a partir das ideias umas das outras, se beneficiam da dinâmica de uma reunião.

2. Meus objetivos de reunião têm por base relacionamentos ou  tarefas?

Objetivos com base em tarefas podem incluir atualizar um quadro, informar os participantes ou planejar um evento. Muitas vezes, esses objetivos podem ser alcançados em uma reunião virtual (se uma reunião for considerada necessária).

Objetivos com base no relacionamento, que envolvem fortalecer ou reparar conexões entre os membros da equipe, geralmente são realizadas de forma mais eficaz pessoalmente. As pessoas devem receber um feedback difícil face a face. As conversas desafiadoras em grupo  também devem ocorrer pessoalmente, onde bate-papos paralelos destrutivos e perturbadores não podem ofuscar a discussão central.

Por que digo “geralmente”? Porque durante o ano passado, participei de algumas reuniões virtuais significativas onde os participantes se relacionaram e se abriram de maneiras que duvido que eles teriam feito pessoalmente. Para algumas pessoas, a tela cria uma sensação de segurança psicológica e, com ela, a liberdade de compartilhar pontos de vista e assumir riscos.

3. Quão complexos são meus objetivos?

Às vezes, a complexidade é uma estrutura mais útil para determinar a forma que uma reunião deve assumir. Isso inclui a complexidade emocional e o nível de interdependência que certas decisões ou resultados podem exigir.

O gráfico abaixo mostra as metas de acordo com seu nível relativo de complexidade. Você pode notar alguma correlação entre os objetivos baseados no relacionamento e a complexidade, mas a sobreposição não é completa. As reuniões para determinar as alocações de capital ou investimentos significativos, por exemplo, podem ser realizadas diretamente em território baseado em tarefas.

Mas se essas discussões envolverem navegar nas complexidades interpessoais e outras complexidades, ou equilibrar cuidadosamente  prioridades concorrentes, pode ser melhor navegá-las pessoalmente.

Ao mesmo tempo, os objetivos baseados no relacionamento podem ser relativamente simples. Uma das minhas histórias de sucesso favoritas da era de uma pandemia inesperada foi minha experiência ao dirigir a festa Zoom de Natal de uma grande imobiliária. Para a empresa Bernstein Management Corporation, este encontro é uma oportunidade para celebrar e conhecer os funcionários – um objetivo tão direto quanto possível.

“Se você me perguntasse há um ano se eu consideraria ser o anfitrião de uma festa de Natal virtual, eu teria dado um ‘não’ inequívoco e questionado o julgamento da pessoa que fez o pedido”, disse o CEO da empresa, Joshua Bernstein. “Mas, de muitas maneiras, funcionou melhor. Cada participante estava focado na mesma conversa. Não havia um lugar ruim na casa. Quase todos expressaram sua surpresa com o quão agradável o programa foi, e esse elemento de surpresa e novidade acabou fazendo parte do sucesso. ”

4. Minha reunião poderia assumir uma forma ou forma totalmente diferente?

Existe a sala, existe o Zoom e existe o híbrido. Mas também há um mundo de possibilidades que não se enquadram em nenhuma dessas categorias. Agora que temos tantas ferramentas à nossa disposição, existem outras maneiras de transmitir as informações para que sejam absorvidas de maneira mais eficaz?

Uma de minhas clientes substituiu sua reunião mensal com a equipe geral por um vídeo pré-gravado que os funcionários podem assistir ou ouvir em seu próprio tempo – talvez enquanto saem para uma corrida ou preparam o jantar. Se eles perderem algo, eles podem retroceder. Essa abordagem favorece diferentes tipos de alunos; alguns de nós retêm melhor as informações quando somos capazes de realizar várias tarefas ao mesmo tempo. 

As empresas que seguem esse caminho podem pedir aos funcionários que assistam ao vídeo até uma determinada data e, em seguida, oferecer sessões opcionais de acompanhamento de perguntas e respostas em uma plataforma como o Slack ou até mesmo o WhatsApp.

Quando trabalho com clientes virtualmente, muitas vezes designamos um escriba para cada sala de apoio. O escriba faz anotações sobre a conversa em um doc do Google. Quando retornamos, damos uma geral, passando vários minutos percorrendo o doc do Google, revisando o que os outros grupos criaram e anotando as ideias que eles gostam. Isso contorna um fenômeno conhecido como “morte por relato”: quando os representantes de cada grupo falam sobre os prós e os contras de suas conversas, enquanto outros passam o tempo todo pensando no que vão dizer quando finalmente for sua vez de falar. 

5. Que tipo de reunião será mais inclusiva?

Antes da Covid, eu era muito claro que o programa de Certificado Executivo em Facilitação de grupos que administro na Universidade de Georgetown precisava ser realizado pessoalmente, uma vez por mês, durante quatro meses consecutivos. Os gerentes seniores e executivos participantes chegavam de todas as partes do mundo por três dias seguidos. 

As profundas conexões interpessoais estabelecidas entre os participantes eram fundamentais para nosso sucesso – afinal, estávamos ensinando-os a ajudar outros grupos a formarem laços de confiança. Embora eu tenha facilitado workshops remotos por mais de uma década, eu duvidava que esse programa em particular pudesse funcionar.

Eu estava errado. Na verdade, uma das vantagens mais significativas do formato virtual é que ele é mais inclusivo. Pessoas do exterior ou da costa oeste não precisam enfrentar o jetlag. Aqueles cujas organizações estão dispostas a cobrir suas mensalidades, mas não seus voos ou hotéis, não enfrentam mais esses obstáculos financeiros. Tivemos mais mães com filhos pequenos participando do que nunca.

Isso não quer dizer que não experimentamos uma sensação real de perda por nossa incapacidade de estarmos juntos pessoalmente. Mas nosso programa tem muitos objetivos e abrange uma ampla gama de diferentes atividades ou “tarefas”. Alguns deles, como aqueles que têm um foco tático em design e desenvolvimento de equipe, podem ser extremamente eficazes online.

Seguindo em frente, planejamos realizar dois de nossos quatro módulos pessoalmente e dois virtualmente. Esta é uma maneira diferente e, sim, mais inclusiva de fazer o híbrido: em vez de ter algumas pessoas participando pessoalmente e outras na tela, todos estarão em pé de igualdade – maximizando a contribuição de cada pessoa e os benefícios de cada meio.

6. O meu facilitador tem as habilidades e tecnologia para realizar um encontro híbrido?

Nos primeiros dias de abertura de escritórios, há uma forte tentação de realizar reuniões presenciais com uma opção híbrida para aqueles que trabalham remotamente. Esta pode ser uma excelente solução quando bem feita, permitindo que todos apareçam do lugar onde se sentem mais confortáveis. Mas existem habilidades especiais envolvidas na facilitação de uma reunião híbrida. Feito incorretamente, você pode acabar marginalizando e até alienando participantes remotos.

Facilitadores híbridos habilidosos sabem como fazer os participantes do Zoom se sentirem participantes plenos. Eles estabelecem protocolos claros para que todos os participantes ofereçam sugestões. Eles fazem contato visual direto não apenas com as pessoas na sala, mas também com a câmera.

Tecnologia e preparação também são fundamentais. Pre-Covid, uma de minhas colegas apareceu em um hotel na cidade de Nova York, energizada para o encontro totalmente pessoal que ela pensava que estava prestes a liderar. Só quando ela chegou é que percebeu que um punhado de participantes se juntaria online. Ela tentou o seu melhor para improvisar, mas ela preparou um programa fisicamente ativo que envolvia se mover pela sala. Não se traduziu imediatamente em um ambiente virtual – pelo menos não com a tecnologia disponível. No final do dia, os participantes presenciais estavam totalmente engajados, mas a câmera de todos os participantes virtuais estava desligada.

Até que os responsáveis ​​por suas reuniões aprimorem suas habilidades na arte da facilitação híbrida e tenham a tecnologia para apoiá-los, considere a realização de uma reunião inteiramente virtual, mesmo que muitos participantes estejam no Zoom do escritório.

Considerando tudo o que superamos nos últimos 15 meses, seria uma vergonha se não aproveitássemos cada pérola de sabedoria arduamente conquistada em torno do trabalho, da vida e do nexo dos dois. Vamos aproveitar nossas novas perspectivas sobre tempo, tecnologia e convivência para repensar como trabalhamos – e, especificamente, como nos reunimos.

https://hbr.org/2021/07/when-do-we-actually-need-to-meet-in-person

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Empresas pagam cada vez mais caro para resgatar dados roubados em ciberataques

Valor médio dos resgates por ‘sequestros de dados’ subiu 82% no primeiro semestre; casos como os do laboratório Fleury e do frigorífico JBS mostram como as operações das empresas podem ficar à mercê de criminosos

Gabriel Baldocchi, O Estado de S.Paulo 17 de agosto de 2021 

A pandemia inflacionou o mercado ilegal do mundo digital. Os ataques cibernéticos se sofisticaram e os cibercriminosos passaram a cobrar recompensas cada vez mais salgadas de empresas que se veem obrigadas a pagar os resgates na tentativa desesperada de reverter os danos aos seus negócios, prática adotada até por grandes conglomerados.

No primeiro semestre deste ano, as corporações vítimas dos chamados ataques de ransomware (um software malicioso que sequestra dados) pagaram em média US$ 570 mil (cerca de R$ 3 milhões) para recuperar seus arquivos, valor 82% superior ao registrado no ano passado. 

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Os números fazem parte de um relatório global obtido com exclusividade pelo Estadão/Broadcast. O levantamento foi feito pela Unit 42, divisão de inteligência da Palo Alto Networks, multinacional de cibersegurança com atuação em mais de 150 países e US$ 3 bilhões em receitas, com base nos dados de clientes afetados.

FleuryA rede de laboratórios Fleury chegou a interromper atendimentos após ciberataque. Foto: Fleury

Dois dos principais casos no período mostram como as recompensas seguem em tendência de alta. No fim de maio, a empresa americana Colonial Pipeline pagou US$ 5 milhões para colocar fim ao ataque que danificou as operações de dutos nos EUA e afetou a oferta de combustíveis no país.

Em junho, foi a vez de a JBS arcar com o desembolso de US$ 11 milhões (cerca de R$ 60 milhões) aos hackers que invadiram os sistemas e, de maneira semelhante, prejudicaram o funcionamento do mercado de proteínas inteiro nos EUA.

“Existem muitos motivos pelos quais uma empresa pode pagar um resgate. Normalmente, tudo se resume ao impacto nos negócios”, afirma John Martineau, da Unit 42. “O ramsonware pode deixar as organizações paralisadas e, às vezes, em um estado irrecuperável, até o ponto em que a empresa considera necessário pagar o resgate para colocar seus negócios novamente em operação.”

Os ataques do tipo ransomware costumam ter como finalidade principal a vantagem financeira ao grupo criminoso. Trata-se de uma ameaça global da qual o Brasil não foi poupado.

Ataques conduzidos pela gangue Mespinoza em todo o mundo no mês de julho fizeram vítimas locais e colocaram o País como o quarto mais afetado pelos criminosos. Foram impactados setores como farmacêutico, varejo, finanças e saúde.

Um outro levantamento, feito pela empresa Apura Cyber Intelligence, mostrou que ao menos 69 empresas brasileiras foram impactadas por ransomwares no primeiro semestre. Uma das vítimas no setor de saúde foi o Fleury, que chegou a interromper atendimentos pela indisponibilidade dos sistemas.

O ataque sofrido pela rede de laboratórios afetou os resultados do grupo no segundo trimestre. A companhia informou um gasto de cerca de R$ 20 milhões com a contratação de consultorias, pagamento de horas extras para profissionais de segurança e equipes de investigação forense.

Negociação

Os pedidos de resgate que seguem ataques desse tipo costumam começar ambiciosos. Segundo dados da Unit 42, a média de valores requisitados inicialmente é de US$ 5,2 milhões (R$ 27 milhões), também bem superior ao registrado no fim de 2020 (US$ 847 mil).

JBSFábrica da JBS na cidade de Greely, no Estado americano do Colorado. Foto: Matthew Stockman/AFP – 16/4/2020

A maior cobrança observada neste ano foi de US$ 50 milhões (R$ 262 milhões). A vítima foi a empresa de petróleo Saudi Aramco, da Arábia Saudita, mas não se tem registo de que o pagamento tenha sido feito. No ano passado, o valor mais elevado havia sido de US$ 30 milhões (R$ 157 milhões).

A JBS foi a responsável pelo maior pagamento confirmado neste ano, com os US$ 11 milhões (cerca de R$ 60 milhões) desembolsados em junho. No ano passado a cifra mais alta havia ficado em US$ 10 milhões (R$ 52,5 milhões).

Houve mudança também na forma de atuar dos criminosos. Para tornar mais efetiva a cobrança, o método de extorsão evoluiu de duas para quatro formas. Agora, podem envolver o sequestro de dados pela invasão dos sistemas, ameaça de divulgação de dados sensíveis, interrupção dos serviços com a derrubada de sites externos das vítimas e a chantagem de expor o ataque junto a fornecedores, concorrentes e mídia.

“Embora seja raro que uma empresa seja vítima das quatro táticas, temos visto as gangues lançarem mão de métodos adicionais em caso de recusa de pagamento”, afirma o relatório. Não há sinal de que a onda de ataques esteja perto do fim. A Unit 42 vê continuidade das ameaças nos próximos meses.

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A adoção de carros autônomos provocará mudanças profundas na sociedade

 Por Alexandre Nascimento – Estadão – 16/08/2021 

Nos últimos anos, o desenvolvimento de veículos com níveis elevados de automação se intensificou. Através de sofisticações incrementais, os pilotos automáticos dos veículos estão ganhando novas funcionalidades. O objetivo das empresas é atingir um estágio de desenvolvimento em que um carro seja suficientemente autônomo para conduzir passageiros sem a necessidade de um motorista. 

Desde 2018, a empresa Waymo, que nasceu como um projeto de carros autônomos do Google, já oferece em Phoenix, nos Estados Unidos, o serviço de transporte particular de passageiros sem a presença de um motorista. De fato, a viabilidade desse nível de autonomia foi comprovado em 2007, numa competição promovida pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA, na sigla em inglês) dos EUA, quando os carros desenvolvidos pelos times das universidades americanas Carnegie Mellon, Stanford e Virginia Tech percorreram um trajeto urbano de 96 quilômetros respeitando todas as regras de trânsito sem nenhuma intervenção humana e nem acidentes.

Apesar de ainda existirem desafios tecnológicos a serem superados pela indústria automotiva para o amplo domínio dessa tecnologia, talvez os maiores desafios sejam de natureza não tecnológica, decorrentes da forma como alguns pilares da nossa sociedade estão organizados. Tais desafios podem dificultar, limitar ou restringir como lidar com potenciais situações que podem ocorrer com o uso dos carros autônomos.

Atualmente, no caso de uma colisão ou um atropelamento, a responsabilidade recai sobre o motorista. Mas e se não houver motorista? A responsabilidade seria do proprietário do veículo, do fabricante do veículo ou do criador da tecnologia inteligente que permite tal nível de automação? 

Com o progresso da tecnologia, espera-se que um carro autônomo na iminência de uma colisão tenha a capacidade de evitá-la tomando ações de forma antecipada ou, pelo menos, influenciar nos desdobramentos para reduzir os prejuízos materiais e riscos à vida. Como tais decisões a serem tomadas pelos carros têm natureza ética, muito se tem discutido a respeito desse assunto. 

Algumas dessas discussões giram em torno de situações hipotéticas fundadas em dilemas morais que a inteligência artificial embarcada nos carros autônomos terá de lidar. Por exemplo, o carro deve proteger a vida de seus integrantes ou dos pedestres em uma situação em que seja necessário fazer uma escolha? Ou ainda, o carro deve poupar a vida de um pedestre idoso ou a de um jovem numa situação em que seria impossível evitar o atropelamento de ambos?

Carro autônomo da empresa Waymo circulando em Mountain View, na Califórnia. Autoria Própria.

Essa é uma questão que tem sido investigada há algum tempo. Um estudo publicado na revista científica Nature analisou a opinião de 2,3 milhões de pessoas ao redor do mundo e identificou que os princípios morais que guiam a opinião dos respondentes varia de acordo com os países. Os respondentes de nações mais desenvolvidas, por exemplo, têm uma probabilidade menor (em relação aos demais países) de optar por salvar a vida de um pedestre que fez uma travessia desrespeitando uma lei de trânsito. Por outro lado, em um dilema entre poupar a vida de um indivíduo ou a de um grupo de pessoas, as diferenças se reduzem, com a maioria escolhendo poupar o maior número de vidas possível. 

Assim, um veículo com uma tecnologia avançada o suficiente para atuar reduzindo o potencial número de fatalidades decorrentes de um atropelamento ou colisão teria uma aceitação mais universal.Apesar disso, mesmo uma regra que poupasse o maior número possível de vidas traria potencialmente muitos desafios. A título de exemplo, os idosos são mais suscetíveis à morte por atropelamento do que os jovens, dentre outras razões, pela fragilidade e pelas complicações decorrentes de uma recuperação mais difícil. Assim, numa situação em que a escolha fosse entre atropelar um jovem ou um idoso, um carro autônomo regido por essa regra moral optaria por atropelar o jovem, visto que a probabilidade do jovem morrer é menor. 

Talvez um dos maiores desafios que teremos diante de carros com capacidade de interferir nos desdobramentos de uma colisão ou atropelamento seja o fato de que um acidente é conceituado  como um caso fortuito. Ou seja, um acidente tem uma relação com a perda de controle sobre os desdobramentos cujos efeitos não eram possíveis de serem evitados ou previstos. 

No entanto, quando um carro toma deliberadamente a decisão de poupar uma vida em detrimento de outras, não se trata mais de um acidente, mas sim de uma decisão tomada “racionalmente”. Nesse caso, quais seriam os desdobramentos jurídicos? E como ficaria a cobertura dos seguros, visto que não se trata mais de um acidente? Haveria um aumento no valor do seguro de vida e dos planos de saúde dos jovens devido ao novo perfil de risco.

A sociedade, bem como suas instituições e regras se moldaram num paradigma de mundo em que as pessoas controlam as máquinas e, portanto, são os responsáveis pelas consequências do uso delas. No entanto, estamos caminhando num ritmo acelerado para um novo paradigma, em que  os bens terão  inteligência e poder de tomada de decisão de forma autônoma. Essa quebra de paradigma exigirá uma profunda reavaliação das regras, das instituições, da organização de nossa sociedade e provocará mudanças mais significativas do que podemos imaginar.

https://link.estadao.com.br/blogs/alexandre-nascimento/os-carros-autonomos-poderao-provocar-mudancas-profundas-na-sociedade/

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Diminuição de investimento-anjo no País pode impactar futuro de startups

Aportes em startups no estágio inicial caíram 20% no País no ano passado; falta de política pública é obstáculo

 Por Guilherme Guerra – O Estado de S. Paulo – 11/08/2021 

 Vulneráveis a condições macroeconômicas desfavoráveis, os investidores-anjo (conhecidos por serem os primeiros “salvadores” de startups em estágio inicial, trazendo dinheiro e conhecimento para as empresas) foram mais conservadores em 2020: foram desembolsados R$ 856 milhões para esse tipo de investimento no ano passado, recuo de 20% em relação ao ano anterior. Ocorreu também uma diminuição de 15% do número de investidores dessa categoria, totalizando 6,9 mil no Brasil, segundo dados divulgados em julho pela organização sem fins lucrativos Anjos do Brasil.

“Se houver menos anjos, haverá um estrangulamento de startups nessa base, limitando o crescimento do ecossistema”, explica o fundador e presidente da Anjos do Brasil, Cassio Spina, em entrevista ao Estadão. “Podemos perder startups que poderiam estar surgindo, mas que não avançam por falta de capital.”

Apesar de haver sinais de recuperação em 2021, o cenário brasileiro ainda não é favorável às startups que estão começando, diz Spina. “A experiência internacional mostra que, para poder desenvolver a atividade de investimento em startups, tem de haver políticas públicas de incentivo. No Brasil, isso não existe”. 

Leia trechos da entrevista a seguir.

Por que caiu o investimento-anjo durante 2020?

Existem dois perfis de investidor: o proativo, que é o que busca ativamente por uma carteira, e o passivo, aquele executivo que é procurado para investir e ajudar. Percebemos que, enquanto os proativos tiveram um ligeiro crescimento em 2020, os passivos tiveram uma queda bastante significativa. Isso aconteceu em função da pandemia, principalmente nos primeiros meses, quando houve impacto forte na economia, com bolsas caindo e economia parando. Depois disso retomaram os investimentos, mas alguns investidores sofreram impacto em seus próprios negócios e priorizaram os recursos antes de investir novamente.

O empresário Cassio Spina é fundador e presidente da organização sem fins lucrativos Anjos do Brasil, dedicada a promover o investimento-anjo em startups

O empresário Cassio Spina é fundador e presidente da organização sem fins lucrativos Anjos do Brasil, dedicada a promover o investimento-anjo em startups

Por que isso aconteceu em um ano em que o aporte total em startups do País chegou ao recorde de US$ 3,5 bilhões?

Os fundos de investimento captam o recurso antes e investem depois. Assim que foi retomada a economia depois do baque inicial da pandemia, os fundos começaram a reinvestir o que estava planejado. Já o investidor-anjo usa capital próprio e é mais vulnerável à situação macroeconômica. Conheço investidor-anjo que é dono de uma rede própria de sapatos e que não iria voltar a investir até que o negócio se restabelecesse. 

Como tem sido 2021?

Tivemos uma recuperação e a perspectiva é positiva. O problema é que, em 2020, o Brasil também aumentou a defasagem em relação a investimentos em startups globalmente. A experiência internacional mostra que, para poder desenvolver a atividade de investimento em startup, tem de ter políticas públicas de incentivo. No Brasil, isso não existe.

Quais as consequências que um baixo investimento-anjo pode trazer para o ecossistema de inovação no curto e longo prazo?

Se houver menos anjos, vai haver um estrangulamento de startups na base, limitando o crescimento do ecossistema. Vamos perder oportunidades.

O que o governo pode fazer para resolver esse gargalo?

Não precisa reinventar a roda. Estimular é, no mínimo, equiparar o tratamento tributário dado a investimentos em startups. Hoje, por exemplo, para investir em startups no Brasil, você é tributado como renda fixa. Isso não tem o menor sentido, uma vez que startups têm um risco mais elevado e não têm liquidez. Ao investir numa empresa da Bolsa de Valores, se ela tiver valor abaixo de R$ 700 milhões, existe isenção total. Se for acima, no mínimo há como compensar as perdas com os ganhos, que é o  razoável. E, quando se investe em startups, não há como compensar. O governo afasta possíveis novos investidores do mercado de inovação com essa política de tratamento tributário desigual. Precisaríamos que uma parte desses 3 milhões de pessoas da B3 viesse para o investimento-anjo.

Qual é a situação do Brasil diante de outros países?

Todos os BRICS, menos o Brasil, fazem equiparação tributária. A África do Sul tem uma política de permitir com que o investidor compense até 100% do volume investido. É o governo dizendo: “Invista em uma startup e eu devolvo esse dinheiro para você”, porque entendem que isso fomenta a economia, não aumenta a renúncia fiscal e gera arrecadação. O Brasil está com uma defasagem de 20 anos.

O quadro de investidores-anjos no Brasil é pouco diverso, sendo majoritariamente branco e masculino. Quais as consequências disso?

A falta de diversidade de gênero e de raça não é algo específico do Brasil, e sim global. Estudos comprovam que, além de dar oportunidades, a diversidade traz valor e melhora resultados. Por exemplo, empresas com empreendedoras do sexo feminino têm taxas de sucesso maiores do que em companhias com conselhos totalmente masculinos, porque traz outra visão e identidades complementares.

Outro ponto é que existe pouca diversidade regional no Brasil. Isso se refletiu nos dados da pesquisa?

Infelizmente sim. Existe concentração regional, mas o bacana é que conseguimos ter investidores em todas as regiões do Brasil. Claro, são quantidades pequenas, mas temos. Temos criado grupos regionais para reunir investidores locais e mostrar e fomentar o empreendedorismo.

https://link.estadao.com.br/noticias/inovacao,diminuicao-de-investimento-anjo-no-pais-pode-impactar-futuro-de-startups,70003806559

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‘Sairemos da pandemia com nova visão do País’, diz presidente do Instituto Locomotiva

A solidariedade aumentou, ampla maioria quer se vacinar e ONGs já dialogam com doadores ricos, diz Renato Meirelles

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo 14 de julho de 2021 

A demora das vacinas, o avanço das fake news e a desigualdade social do País no último ano e meio de pandemia tornaram desafiador o cenário brasileiro dos próximos tempos – mortes e custos à parte. E o Instituto Locomotiva, do professor Renato Meirelles*, fez nesse período mais de 50 pesquisas para entender essa realidade – tarefa na qual sua equipe “descobriu” um pouco de tudo. Por exemplo, que pelo menos 11 milhões de brasileiros “não têm certeza” de que a Terra é redonda. E chegam a 25 milhões os que temem que a vacina anticovid possa fazer alterações no seu DNA e passar informações suas para alguma potência estrangeira.

Mas houve também coisas boas, ressalta Meirelles – a começar pela competência do Sistema Único de Saúde. “O SUS transportou vacinas de barco a unidades de saúde longínquas, instaladas em palafitas, pelo interior do Brasil.” Outra: ficou claro que a ampla maioria da sociedade quer, sim, se vacinar. Terceiro, algo que Meirelles afirma nunca ter visto antes em seus 20 anos de pesquisas focadas mais nas classes C, D e E: o contato direto entre líderes comunitários de instituições como a Central Única das Favelas (Cufa) e a Gerando Falcões e doadores ricos, pela internet, para definir e direcionar doações. “Foi o crescimento da solidariedade, o sentimento de que as soluções são coletivas, não individuais”, ressalta o pesquisador. 

De tudo isso, ele diz nesta entrevista a Cenários perceber razões para otimismo: “Acredito que sairemos da pandemia com nova visão, um novo jeito de enxergar o Brasil”. A seguir, trechos da conversa. 

Renato MeirellesSegundo Renato Meirelles, ‘crescimento da solidariedade’ é um dos acontecimentos positivos do período da pandemia. Foto: Claudio Belli – 30/05/2021

Vocês fizeram, no Instituto Locomotiva, uma ampla pesquisa sobre vacinação no Brasil. O que descobriram?

Fizemos mais de 50 pesquisas durante a pandemia. E talvez a maior delas seja a parceria com a Unidos Pela Vacina, movimento liderado pela Luiza Trajano. E o destaque, a meu ver, foi a reafirmação de que o SUS, Sistema Único de Saúde, é algo que não existe em lugar nenhum do mundo. Víamos gente levando caixas de vacinas de barco, a postos de saúde em casas de palafita. Mas vimos também que 19% das cidades não têm internet nas unidades de saúde, as UBSs.

O que isso tem a ver com a vacina?

Tem a ver com o cadastramento dessas pessoas. É preciso cadastrar quem já teve a primeira dose, a segunda. E muitos postos, sem internet, não cumprem essa meta. 

O que mais chamou a atenção de vocês? Gente que rejeita a vacina?

Há alguns dados assustadores. Essa pesquisa com a Unidos pela Vacina, a maior já feita com gestores de saúde, revelou sérios problemas de infraestrutura. Um deles é a impossibilidade de fazer um calendário amplo de vacinação. Como demoramos para ter vacina, ela chega aos poucos, não tem como organizar um calendário amplo. E isso dificultou o entendimento pela população sobre quando é a vez de cada um se vacinar. Outro problema foi o crescimento das fake news, que questionavam a importância da vacina. Mais de 25 milhões de brasileiros adultos acreditam que, se a tomarem, terão um chip implantado no seu corpo ou sofrerão algum tipo de alteração em seu DNA.

Medo de virar jacaré?

É quase virar jacaré. E quando perguntamos a essas pessoas se receberam algumas fake news sobre vacina, elas disseram que não.  Ou seja, não perceberam que aquilo era informação falsa. Diziam que a vacinação era para escanear seus dados e os oferecer a alguma potência internacional. 

E os extraterrestres?  Perguntaram também sobre isso?

Não. Mas havia uma pergunta sobre se a Terra é plana ou redonda. E 11 milhões de brasileiros afirmaram que não têm certeza se a Terra é redonda e desconfiam que ela é plana. O que temos aí, então, é uma desconfiança sobre verdade factual. E, quando não temos uma base mínima para fazer um debate, fica difícil até a manutenção da saúde pública. E o risco disso, somado à não realização do censo do IBGE, é muito grande. Ficarão comprometidas as políticas públicas, que são construídas com base em evidências.

É chocante a informação sobre esses 11 milhões. Essa dúvida já existia antes nas redes sociais?

O que havia antes era um grande consenso sobre as vacinas. O Zé Gotinha era um herói nacional. Esse questionamento todo veio com as redes, as fake news e a polarização política. O que essas redes fazem? Formam grupos que são homogêneos entre si. Então, uma pessoa de São Paulo que não acredita que a Terra é redonda  se conecta com outra que acha isso lá no interior da Bahia. 

E a crença se fortalece.

Sim. Desse modo, se formam grandes conglomerados de pensamento e essa “informação” vai retroalimentar as redes. E, aí, você junta isso tudo com gente acreditando em fake news sobre vacina,  sobre urna eletrônica, sobre a Terra plana. Isso tem consequências muito sérias.

Como entender qual o intuito da pessoa que cria essas coisas e da que as repassa adiante?

No  Instituto Locomotiva, eu e meu sócio Álvaro Machado Dias temos nos debruçado para entender se os negacionistas são todos iguais. Descobrimos que há dois tipos. Um é o negacionista intencional, que propaga mentiras sabendo que são mentiras. Para gerar descrédito nas instituições. O outro tipo é o que chamamos de negacionista inconsciente, que tem uma visão quase infantil sobre a verdade factual. Essas pessoas têm medo de uma verdade que não bate com sua visão de mundo. E, na prática, os negacionistas do primeiro grupo influenciam o negacionismo do segundo. E vão minando a credibilidade nas instituições. 

Como as pessoas mais conscientes e informadas podem ajudar?

A lógica da polarização não é buscar o consenso, a verdade dos fatos, é simplesmente destruir a opinião adversária. Aí, os que acreditam na ciência muitas vezes ficam irritados e respondem desqualificando os negacionistas, quando a posição correta seria buscar exemplos que desmontem o argumento deles. 

Numa entrevista recente, o infectologista Esper Kallas nos disse uma coisa sobre gente que sai às ruas sem máscaras: ‘Eu tenho muito medo de gente que não tem medo’.

Concordo plenamente. Até porque, quem não tem medo, em geral tem uma patologia social relacionada à empatia. Há alguns fatores que apareceram em nossas pesquisas que explicam o negacionismo. O primeiro é que a pandemia é algo novo – a própria ciência foi mudando seu entendimento sobre ela. O outro aspecto é a profunda desigualdade que temos no Brasil. Não é  à toa que o índice de contaminação das áreas mais pobres das grandes cidades é três vezes maior do que o das áreas nobres.

E por que isso acontece?

É que as pessoas que entregam mercadorias para os que estão em home office moram na periferia. E a concentração demográfica nessas áreas é muito maior. Foram esses moradores de favelas e periferias que fizeram o País continuar andando. Entregadores, motoristas de ônibus, os servidores da limpeza. A meu ver, esses profissionais mereceriam ser priorizados na vacinação.  

A iniciativa privada, pelo que se vê, acordou de alguma maneira para essa desigualdade, né? Vejo muita gente ajudando. As pesquisas revelam algo sobre isso?

Fizemos pesquisas sobre doações, sim, e vimos coisas interessantes. Primeiro, que a maior participação da iniciativa privada se deu em momentos nos quais o Estado faltou. Ela se uniu a grandes organizações do terceiro setor, como a Cufa (Central Única de Favelas), a Gerando Falcões. Só a Cufa está presente em mais de 3 mil cidades. E esse pessoal fez chegar a ajuda a quem precisava. O segundo foi o movimento Panela Cheia. 

Vocês trabalham também com o Data Favela, né?

Sim, é uma parceria do Locomotiva com a Central Única das Favelas, voltada para mais de 16 milhões de pessoas. Essas pesquisas revelam que a fome está presente entre 68% dos moradores de favelas – gente que não teve dinheiro para comprar comida, pelo menos uma vez, na segunda quinzena de maio. A pesquisa revela também que o maior uso que esses moradores de favela fazem da ajuda recebida é repassar parte dela a vizinhos, parentes e amigos. Não por acaso, o número de pessoas que doaram, na baixa renda, é maior do que o das que doaram nas altas rendas. Não quanto ao valor, mas em número de pessoas. E ocorreu algo que nunca vi em 20 anos com pesquisa: líderes comunitários fazendo contatos com as pessoas mais ricas do País. Estas entenderam que salvariam vidas ouvindo diretamente essas lideranças sociais. 

E em termos de economia, que tipo de pesquisa vocês fizeram?

Vimos que é preciso tomar cuidado com a euforia dos últimos números do PIB. Eles são fortemente impulsionados pelas commodities, mas não pelo consumo das famílias. Eu sou otimista com o crescimento da economia, mas não com a velocidade com que ele chegará ao bolso dos que mais precisam. Olha este dado: 15% dos estudantes de classes A e B pararam de estudar por causa da pandemia. E, entre estudantes das favelas, 50%.  Ou seja, o gap educacional, que já é grande, tende a crescer mais.

No meio desses dados todos, que horizontes você vê para o País?

Encontramos notícias positivas. Por exemplo, um crescimento da rede de solidariedade como não se via desde a campanha da fome do Betinho. Outra coisa: não tenho dúvida nenhuma de que quem defende a vida, as vacinas, é a ampla maioria da sociedade brasileira. E que sairemos dessa pandemia com uma nova visão, um novo jeito de enxergar o Brasil. 

*QUEM É: FORMADO NA ESPM, RENATO MEIRELLES É PROFESSOR DE CIÊNCIAS DO CONSUMO DO IBMEC. CRIOU O DATA POPULAR, VOLTADO PARA PESQUISAS NAS CLASSES C, D E E; AUTOR DO LIVRO UM PAÍS CHAMADO FAVELA.

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,sairemos-da-pandemia-com-nova-visao-do-pais-diz-presidente-do-instituto-locomotiva,70003777895

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