Aumenta a disputa por desenvolvedores no país

Trabalho remoto e transformação digital aceleram contratações

Por Barbara Bigarelli Valor Econômico 22/04/2021 

“Não quero ser arrogante. Mas recebo de sete a dez abordagens de emprego por semana”. Em um país onde cinco a cada dez profissionais que receberam diplomas em 2019 e 2020 estão sem emprego, segundo pesquisa de abril do Nube (Núcleo Brasileiro de Estágios), o depoimento do desenvolvedor sênior, Richard Santana, 31, mostra como o setor de tecnologia se descola da falta de oportunidades e do fechamento de vagas na pandemia no mercado de trabalho brasileiro.

“Já havia uma escassez grande desses profissionais antes da pandemia, mas no último ano, com a ampliação do trabalho remoto, a transformação digital das empresas e, diante da alta do dólar, tornando mais barato para empresas de fora contratarem brasileiros, os desenvolvedores estão ainda mais procurados”, avalia Anderson Nielson, diretor de talentos da Resultados Digitais. Esse cenário reforçou a percepção de que atrair e reter esses profissionais é uma “via de mão dupla”, segundo André Petenussi, CTO da Localiza. “Além da empresa escolher os desenvolvedores certos que precisa para sua estratégia, eles também têm que escolher a empresa”.

Nielson, da Resultados Digitais, diz que pandemia agravou escassez de talentos — Foto: Divulgação

Os desenvolvedores podem utilizar várias linguagens de programação, e de modo geral são os responsáveis pelos códigos por trás de todos os sistemas eletrônicos de uma empresa – quem garante que os sistemas vão funcionar do jeito que deveriam. Um levantamento realizado pela startup de recrutamento digital, Intera, indica o que essa categoria de profissionais ambiciona – em termos de remuneração, benefícios e carreira. Realizado no início deste ano em âmbito nacional, a Intera ouviu 5.332 mil engenheiros de softwares, desenvolvedores e tech leads – com especialidade back-end (atividades de bastidores em um software, site ou app), de nível júnior, pleno e sênior, além de 50 empresas.

A primeira constatação que chama atenção, segundo Paula Morais, cofundadora da Intera, é a de que há uma diferença entre a expectativa salarial média que os profissionais têm versus quanto ganham dependendo do nível de senioridade. “As faixas júnior e pleno esperam receber menos do que o mercado oferece em média, mas no nível sênior a expectativa salarial está superior ao que o mercado vem oferecendo”. Para vagas de back-end juniores, as empresas oferecem uma média de R$ 4,5 mil a R$ 5,5 mil, enquanto os profissionais possuem uma expectativa de ganhar até R$ 3,6 mil(ver tabela).

No entanto, no âmbito dos profissionais sêniores, enquanto as empresas oferecem salários entre R$ 7,6 mil e R$ 10,8 mil, eles estão buscando valores acima de R$ 12 mil. O maior salário registrado para sênior back-end engineer ficou em R$ 18 mil – sendo que a linguagem técnica exigida para ocupar a vaga era a Java. “Houve um encarecimento da expectativa salarial dos profissionais seniores pelo descompasso entre demanda e oferta. É uma escassez porque formar experientes leva tempo e há uma dança das cadeiras”, afirma Paula.

Embora esta régua salarial não esteja ajustada, a remuneração não é o principal fator que leva os desenvolvedores a mudarem de emprego. “Eles são ambiciosos no quesito de desenvolvimento profissional”, diz Michele Tosta, gerente de recrutamento do iFood, empresa que tem cerca de 300 desenvolvedores. Quase 40% dos profissionais apontaram ter desafios como motivação de troca de emprego e 24% a falta de oportunidades no emprego atual, segundo a pesquisa. “Fazer algo que seja repetitivo e manual não faz sentido para mim. Estou sempre me questionando se o meu trabalho agrega na carreira, qual tipo de problema estou resolvendo”, diz Richard Santana, que em dez anos de carreira passou pelo UOL, Netshoes e ThoughtWorks e hoje trabalha na função sênior em uma fintech. Paula, da Intera, diz que a principal dificuldade das organizações para atrair esses profissionais é “tangibilizar como entregarão esses desafios no dia a dia”.

A Localiza diz que mudou seu jeito de trabalhar há dois anos e um dos principais fatores que a ajudaram a atrair e reter esses profissionais foi o novo modelo operacional. “Até dois anos atrás, éramos organizados por projeto, com times cuidando do sistema A, B e C. Hoje, os times estão em 80 squads e são orientados, não pela tecnologia utilizada, mas pelos desafios do negócio”, diz Petenussi. Do Localiza Labs, que reúne 700 profissionais (o triplo do que era há dois anos), de desenvolvedores a cientistas de dados, saíram iniciativas na pandemia como um serviço de carro por assinatura. O modelo permitiu não só maior agilidade e colaboração, mas que as pessoas acompanhassem a criação de um produto do começo ao fim, percebessem o impacto do trabalho e tivessem a oportunidade de trabalhar com novidades. 

“A área de tecnologia evolui muito rápido, se o desenvolvedor não está trabalhando em algo que é a crista da onda, sente que ficará defasado e diminui a empregabilidade. É preciso oferecermos uma combinação de: propósito como emprego, impacto positivo que o trabalho dele gera e o desafio intelectual”, diz Nielson, da Resultados Digitais. O executivo diz isso com a experiência de um gestor, mas também de quem começou como desenvolvedor aos 16 anos. Além de estimular a participação dos desenvolvedores em fóruns e de iniciativas de código aberto, Nielson diz que um dos grandes acertos da RD foi a criação há 18 meses de um programa de mentoria estruturado. “A existência de um ambiente de troca de conhecimentos e experiência é muito valorizada por eles e há muito desenvolver sênior que não quer ser gestor, mas quer ensinar os outros”.

O iFood também fala em um ambiente de autonomia e que reúnam referências técnicas e de pessoas com as quais vão trabalhar. As empresas também ressaltam a necessidade de criar trilhas de carreiras em Y, onde o desenvolvedor que não deseja gerenciar times possa ter claro para onde consegue subir sem diferença salarial. Do lado dos desenvolvedores, há um pedido por uma estrutura de gestão que tenha metas transparentes, factíveis e que zele pelo bom clima organizacional. 

Em termos de benefícios, a pesquisa da Intera indica que os profissionais consideram a assistência médica como um dos três benefícios mais importantes, mas apenas (79%) recebem esse amparo de saúde, 25% apontaram a importância do auxílio educação, porém apenas (18%) podem ter e, por fim, (62%) dos talentos gostariam de receber assistência odontológica.

Paula, da Intera, também lembra que a carreira de desenvolvedor já tinha maior vivência com o home office antes da pandemia, mas que, a partir de agora, a flexibilidade do local de trabalho virou fator para os candidatos. “Vemos nas entrevistas que eles já estão esperando trabalho remoto como pré-condição”. Do lado das empresas, a pesquisa indica que os conhecimentos mais buscados por elas hoje abrangem experiência com a plataforma de nuvem da Amazon (AWS), abordagem arquitetônica no desenvolvimento de software e “Spring Boot”, que facilita o processo de configuração e publicação de aplicações.

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2021/04/22/aumenta-a-disputa-por-desenvolvedores-no-pais.ghtml

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Robôs ameaçam empregos menos do que afirmam os alarmistas

Recessões e pandemias aceleram a automação. No entanto, os avisos de um futuro sem empregos são exagerados

Relatório especial edição de 10 de abril de 2021(Tradução Evandro Milet)

O coffeeshop é um motor de mobilidade social. Os empregos de barista exigem habilidades sociais e pouca experiência, o que os torna uma primeira parada para jovens e imigrantes em busca de trabalho. Portanto, pode ser preocupante que os baristas robóticos estejam se espalhando. O rc Coffee, que se autointitula “o primeiro café robótico do Canadá”, abriu em Toronto no verão passado. “A interação do barista com o cliente é um tanto arriscada, apesar dos melhores esforços das pessoas para manter um ambiente seguro”, afirma a empresa. Quando esse correspondente fez uma visita em janeiro, um bando de pessoas estava por perto, tentando fazer funcionar.

Muitas pessoas esperam que a pandemia acelere a automação em setores muito além do café. São inúmeras as histórias de robôs trazidos para reduzir os riscos de infecção, de matadouros automatizados a entregas de bagagem “faça você mesmo” em aeroportos. Esta onda de automação, alguns temem, eliminará empregos, especialmente para aqueles com habilidades menos comercializáveis, o que significa mais desemprego e desigualdade. Os empregos em coffeeshops podem não pagar muito, mas seu fim seria um desastre. “Uma coisa pior do que muitos empregos mal pagos são poucos empregos mal pagos”, argumenta David Autor do MIT.

Frequentemente, as recessões levam a uma explosão de automação e não são maiores do que esta. Quando as receitas, mas não os salários, caem, os humanos se tornam relativamente mais caros, dando aos patrões um incentivo para usar máquinas. Um artigo de Joel Blit, da University of Waterloo, em Ontário, argumenta que “todas as perdas rotineiras de empregos no Canadá ocorreram nas últimas três recessões”, com a América vendo tendências semelhantes. A pandemia acelera a automação, em parte pelo motivo identificado pela rc Coffee: impedir que as pessoas adoeçam. Os economistas chamam isso de “automação forçada”. Pandemias anteriores, de h1n1 em 2009 ao ebola em 2014, aceleraram a adoção de robôs.

Será esse? Pesquisas da Deloitte e da McKinsey, duas consultorias, mostram que as empresas têm grandes ambições de automatizar. Em recente depoimento no congresso, Daron Acemoglu do MIT argumentou que “agora há mais razões para os empregadores procurarem formas de substituir os trabalhadores por máquinas e evidências recentes sugerem que eles já estão fazendo isso”. Há uma sensação de que antes de 2020 as empresas perdiam tempo com a automação, e a pandemia as está forçando a tentar novas maneiras de fazer as coisas.

No entanto, os propagadores da desgraça lutam para apontar evidências reais de automação acelerada. Muitos não se preocupam em tentar rastreá-la, preferindo se concentrar na próxima previsão horripilante. Então, tentamos encontrar alguma evidência que apontasse, de alguma forma, para a conclusão oposta. As importações americanas de robôs industriais caíram 3% em 2020. O crescimento dos gastos com automação desacelerou em 2020, sugere um relatório em setembro do Gartner, uma empresa de pesquisas. A Rockwell Automation, a maior empresa do mundo dedicada à automação industrial, viu as vendas caírem 5,5% no ano passado. Pesquisas de empresas que afirmam que a robotização está chegando não são confiáveis. Se alguém da McKinsey perguntar a um gerente se ele em breve adotará a computação em nuvem ou big data, ele dirá “não”? 

Uma pesquisa feita pela UBS sobre o que as empresas na França, Alemanha, Itália e Espanha estão fazendo encontra poucas evidências de interesse crescente em automação.

Algumas pesquisas econômicas sugerem que mais empregos estão sendo automatizados. Lei Ding e Julieth Saenz Molina, do Federal Reserve Bank da Filadélfia, analisaram os empregos que parecem estar em maior risco. Com base em dados até agosto último, constata que “a pandemia deslocou mais trabalhadores em ocupações automatizáveis”. 

Mas o efeito é pequeno. E o emprego em muitas áreas supostamente de maior risco pode ter diminuído não por causa da automação, mas por causa da pandemia. Pegue os táxis, que muitos economistas dizem que em breve serão dirigidos por robôs. Seus números despencaram em 2020, mas porque as pessoas viajaram menos, não por causa dos táxis sem motorista.

Adaptando a pesquisa do Federal Reserve Bank de St. Louis, dividimos os empregos americanos em “rotineiros” e “não rotineiros”. Os trabalhos de rotina são vistos como mais facilmente automatizáveis ​​porque contam com padrões repetitivos que as máquinas podem aprender. Durante a pandemia, a tendência para menos empregos rotineiros, que existia desde os anos 1980, na verdade diminuiu. Existem pelo menos 900.000 empregos de rotina “extras” hoje do que o esperado um ano atrás, dado o emprego geral da América. Mesmo a Austrália, que mais do que a maioria pode ser considerada “pós-covid”, oferece resultados semelhantes: empregos automatizáveis ​​são tão comuns quanto o esperado sem a pandemia.

O volume de trabalho

Se uma onda de robôs destruidores de empregos induzida por uma pandemia não acontecer, isso é apenas mais um exemplo de medos equivocados sobre as máquinas. Os luditas na Grã-Bretanha do início do século 19 destruíram máquinas têxteis por aparentemente colocá-los fora do trabalho. Em 1928, o New York Times proclamou que a “marcha da máquina faz mãos ociosas”. Em 1961, a revista Time falava da “automação sem emprego”. Um artigo de 2013 de Carl Benedikt Frey e Michael Osborne, da Universidade de Oxford, foi amplamente mal interpretado como significando que 47% dos empregos americanos corriam o risco de serem automatizados. No entanto, esses temores não se concretizaram.

A década de 1920 viu uma onda de automação com poucos efeitos nocivos. Apesar dos temores da Time, a década de 1960 teve baixo desemprego. Antes de covid-19, o emprego estava aumentando, mesmo com a melhoria dos robôs. Um artigo de janeiro de 2021, de Alexandre Georgieff e Anna Milanez, da OCDE, testa como as previsões dos teóricos da automação realmente se revelaram. Os países que enfrentaram o que eles chamam de maior “risco de automação” em 2012 viram um crescimento mais forte do emprego, consistente com a ideia de que a adoção da tecnologia leva a uma maior produtividade. É impressionante que Japão, Cingapura e Coréia do Sul tenham taxas de adoção de robôs sem precedentes e, ainda assim, baixo desemprego. Talvez a tecnologia permita que mais pessoas, e não menos, sejam empregadas.

Como os catastrofistas entenderam tudo errado? Um problema bem conhecido é a chamada “falácia do volume de trabalho”: que há uma quantidade finita de trabalho, portanto, se algum for automatizado, haverá menos trabalho. Na verdade, ao reduzir os custos de produção, a automação pode criar mais demanda por bens e serviços, impulsionando empregos que são difíceis de automatizar. A economia pode precisar de menos atendentes de caixa nos supermercados, mas de mais massoterapeutas. Muitas vezes, a tecnologia muda, em vez de destruir empregos. Francis Miers, da Automation Consultants, uma empresa de software britânica, argumenta que a tecnologia de sua empresa não elimina a necessidade de desenvolvedores: “Apenas os torna mais produtivos”.

Se a pandemia até agora não levou os robôs a assumirem todos os empregos, ainda é cedo. E alguns acreditam que desta vez será diferente. A tecnologia é tão sofisticada que é difícil dividir os trabalhos entre os que podem e os que não podem ser automatizados. Os massoterapeutas não são seguros. A Capsix Robotics, empresa francesa, desenvolveu um robô que faz uma massagem de corpo inteiro. É certo que não parece a melhor massagem do mundo. Mas é um exemplo, de máquinas que lêem exames médicos a engenhocas que compõem música no estilo de Bach, de tecnologia se intrometendo em um novo território.

Em um novo livro, Daniel Susskind, da Universidade de Oxford, estende essas idéias, falando sobre uma “falácia da falácia-do-volume-de-trabalho”. O progresso tecnológico aumenta a demanda por trabalho, mas “é errado pensar que o ser humano necessariamente estará em melhor posição para realizar as tarefas que envolvem o atendimento dessa demanda”, afirma. As pessoas que obtêm seu café mais barato no rc Coffee podem ter mais para gastar em massagens – mas podem obter um robô Capsix para dar-lhes.

Talvez, então, este seja um ponto de inflexão para o relacionamento dos humanos com as máquinas. Se algo poderia causar uma mudança tão grande nos mercados de trabalho, uma pandemia que ocorre uma vez a cada geração pode ser essa. Mesmo assim, seria sensato não se preocupar com o futuro do trabalho. Dada a história de previsões bizarras e fracassadas, é difícil, por princípio, levar as piores previsões muito a sério. E há mais três razões para acreditar que a pandemia terá apenas um impacto modesto na automação.

O primeiro diz respeito a viagens. Os economistas falam amplamente sobre a mudança de tarefa de um humano para uma máquina. Mas escolher o que automatizar e como requer um entendimento completo de como o negócio opera. “Automação é difícil”, diz um consultor secamente. Mesmo em um mundo pré-covid, demorava muito para entender os meandros de um processo de negócios e como a tecnologia poderia melhorá-lo – e isso era quando as pessoas podiam ver os escritórios e fábricas pessoalmente. Torna-se ainda mais complicado em um mundo onde a única comunicação é via vídeo-link, diz um especialista em automação. As restrições a viagens internacionais e encontros pessoais permanecerão em vigor por algum tempo.

A segunda razão diz respeito aos níveis de investimento. As empresas evitam gastos de capital quando a incerteza é alta, o que ocorre atualmente. Os padrões globais de empréstimos bancários ficaram mais rígidos e o estímulo fiscal se concentrou amplamente na proteção dos balanços patrimoniais das famílias e das empresas, não na criação de mais incentivos para o investimento. Uma pesquisa recente da Oxford Economics, uma consultoria, descobriu que o crescimento do investimento global em 2019-25 será menor do que teria sido sem a pandemia.

O terceiro fator é mais difícil de medir, mas crucial para entender como as formas da tecnologia funcionam. Muitos teóricos da automação têm uma visão estreita da produção econômica. Eles vêem os humanos como uma das muitas entradas e, portanto, como intercambiáveis ​​com máquinas. Quando os consumidores compram produtos, muitas vezes é uma suposição justa: poucos consumidores se importam se uma cadeira é feita pelo homem ou por uma máquina, desde que seja uma boa cadeira. Mas na economia de hoje, essa suposição parece confusa. Os humanos não são apenas uma entrada; para muitos bens e, especialmente, serviços, eles também são a saída.

Um exemplo veio no início deste ano no Japão. O South China Morning Post relatou o caso de um homem de 37 anos que chamava seu trabalho de “alugar uma pessoa que não faz nada”, vendendo companhia para clientes, inclusive para alguém que visitou o túmulo de um amigo morto. Eu não faço “nada em particular”, disse o homem, mas ele cobrou o equivalente a US $ 95 por seus serviços. Este exemplo atinge o cerne de algo sobre a economia. Uma parcela cada vez maior de empregos exige que as pessoas estejam fisicamente envolvidas. O número de empregos na área de saúde e educação está aumentando rapidamente. Quando alguém está doente ou precisa ser ensinado, eles esperam o contato cara a cara, não porque as pessoas sejam melhores nisso, mas porque eles transmitem simpatia e solidariedade. Algo irredutível se perderia sem eles.

Ou volte ao exemplo do café. A degustação às cegas sugere que robôs ou máquinas são melhores do que humanos para fazer café. No entanto, esses mesmos testes mostram que as pessoas ficam irritadas quando descobrem que estão pagando por uma bebida feita à máquina. Acontece que eles valorizam não apenas o sabor do café, mas o mero fato de que uma pessoa real o preparou.

https://www.economist.com/special-report/2021/04/08/robots-threaten-jobs-less-than-fearmongers-claim

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Tecnologia faz ator ficar ‘igual’ a Tom Cruise e acirra polêmica sobre ‘deep fakes’.

Site de genealogia também usa software para trazer à vida pessoas que já morreram e figuras históricas. Especialistas temem uso da técnica em pornografia

O Globo, com New York Times 10/03/2021

NOVA YORK – Os deep fakes — vídeos falsos de pessoas geradas por computador — estão ficando cada vez mais sofisticados, e dois usos recentes da tecnologia deixaram especialistas de cabelo em pé diante da evolução dos softwares — o que aponta para um futuro em que, além das fake news, podemos nos deparar com uma realidade fake, ao menos virtualmente.

Primeiro, um artista de efeitos visuais trabalhou com um imitador de Tom Cruise para criar vídeos surpreendentemente precisos imitando o ator. Os vídeos falsos, criados com a ajuda de técnicas de aprendizado de máquina (machine learning, um dos ramos da inteligência artificial), ganharam milhões de visualizações no TikTok, no Twitter e em outras redes sociais no final do mês passado.

Poucos dias depois, o site de árvores genealógicas MyHeritage ofereceu uma ferramenta para animar digitalmente fotos antigas de entes queridos, criando um pequeno vídeo em loop no qual as pessoas podem ser vistas movendo a cabeça e até sorrindo. Mais de 26 milhões de imagens foram animadas com a ferramenta, chamada Deep Nostalgia.

O imitador de Tom Cruise, Miles Fisher, no video deepfake em que encarna o ator Foto: Reprodução

O imitador de Tom Cruise, Miles Fisher, no video deepfake em que encarna o ator Foto: Reprodução

No YouTube, há vários vídeos transformando fotos de figuras históricas em figuras coloridas e com movimentos leves, inclusive atrizes famosas de outros séculos, como Sarah Bernhardt, e até da família imperial brasileira.

Os  deep fakes chamaram novamente a atenção para o perigoso potencial da mídia sintética, que, se por um lado pode levar a melhorias significativas nas indústrias de publicidade e entretenimento,  também pode levantar dúvidas sobre vídeos legítimos e até inserir pessoas, inclusive crianças, em imagens pornográficas.

Os criadores do vídeo viral do Tom Cruise fake argumentam que a experiência necessária para usar a tecnologia torna o abuso muito mais difícil, e a empresa por trás da ferramenta de animação de fotos no site disse que implementou salvaguardas para evitar o uso indevido.

Especialistas dizem que os dois exemplos recentes de deepfakes suscitam questões preocupantes sobre o futuro da tecnologia.

— Embora a Deep Nostalgia em si seja inócua, é parte deste conjunto de ferramentas que são potencialmente muito ameaçadoras — disse Sam Gregory, um diretor da Witness, organização sem fins lucrativos focada no uso ético de vídeo e um especialista em inteligência artificial.

A imitação digital de Tom Cruise não foi uma tarefa simples. Chris Ume, o artista belga de efeitos visuais que criou os vídeos, disse em uma entrevista que eles exigiram grande experiência e tempo.

Muito do que se vê nos vídeos é o corpo e a voz de Miles Fisher, um imitador de Tom Cruise que já era fluente nos maneirismos e na fala do ator e que tem uma forte semelhança com ele, mesmo sem as manipulações. Apenas o rosto, da testa ao queixo, do verdadeiro Tom Cruise é mostrado nos vídeos.

Ume passou dois meses treinando seu modelo de computador para criar as expressões faciais de Cruise. Gastou cerca de 24 horas na produção de cada vídeo de um minuto, ajustando detalhes como o alinhamento dos olhos.

Mesmo se a tecnologia melhorar, vídeos como o seu exigiriam muito trabalho manual e um imitador habilidoso, disse ele.

— Não é algo que você pode fazer em um computador doméstico, pressionando um botão.

A ferramenta Deep Nostalgia foi criada para o MyHeritage pela D-ID, uma empresa de inteligência artificial com sede em Tel Aviv. Gil Perry, o presidente-executivo da D-ID, disse que a empresa trabalha apenas com parceiros em que pode confiar para não abusar da tecnologia, e que tem um relacionamento de quatro anos com o MyHeritage.

Os vídeos criados com a ferramenta têm marcas d’água para indicar que não são reais e não incluem áudio, uma decisão que Perry disse que torna mais difícil usá-los para fins desagradáveis.

Ele disse que a tecnologia que alimentou a Deep Nostalgia era “apenas a ponta do iceberg do que somos capazes de fazer”.

— O potencial para a parte boa dessa tecnologia é infinito — afirma.

Usos para o bem e para o mal

Quando os otimistas falam sobre os pontos fortes da tecnologia, eles geralmente apontam para seus usos na defesa de direitos, onde ela pode dar um rosto aos problemas e criar conexões emocionais mais profundas.

Uma organização não governamental criou um vídeo de Javier Arturo Valdez Cárdenas, jornalista mexicano assassinado em 2017, no qual ele parecia pedir justiça pela própria morte.

Os pais de Joaquin Oliver, um jovem de 17 anos que foi assassinado em um tiroteio em uma escola de segundo grau em Parkland, Flórida, em 2018, o ressuscitaram digitalmente para um vídeo promovendo a legislação contra armas.

Os efeitos também poderiam ser usados em Hollywood para melhor envelhecer ou diminuir os atores, ou para melhorar a dublagem de filmes e programas de TV em diferentes idiomas, alinhando os movimentos labiais com a linguagem na tela.

Os executivos de empresas internacionais também podem parecer mais naturais ao se dirigirem a funcionários que falam idiomas diferentes.

Mas os críticos temem que a tecnologia seja mais usada para o mal à medida que se sofistica, principalmente para criar pornografia que coloque o rosto de uma pessoa no corpo de outra.

Nina Schick, autora de “Deep fakes: The Coming Infocalypse”, disse que a pornografia deepfaked mais antiga levava horas de vídeo para ser produzida, então celebridades eram os alvos típicos. Mas, à medida que a tecnologia se torna mais avançada, menos conteúdo será necessário para criar os vídeos, colocando mais mulheres e crianças em risco.

Uma ferramenta do aplicativo de mensagens Telegram que permitia aos usuários criar imagens simuladas de nudez a partir de uma única foto enviada já foi usada centenas de milhares de vezes, de acordo com o BuzzFeed News.

— Isso se tornará um problema que pode afetar a todos, especialmente aqueles que não têm recursos para se proteger — disse Schick.

Henry Ajder, um pesquisador de deep fakes, imaginou um futuro em que nossas próprias vozes possam ser usadas por assistentes como Alexa, da Amazon, permitindo-nos ficar conectados com seus entes queridos mesmo após nossas mortes. Ou, como mostrado em um episódio de “Black Mirror”, aspectos inteiros de nossas personalidades poderiam ser simulados após a morte, treinados por nossas vozes nas redes sociais.

https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia-faz-ator-ficar-igual-tom-cruise-acirra-polemica-sobre-deep-fakes-veja-video-24917798

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Brasil poderia faturar 3 vezes mais exportando software que com soja

O cientista Silvio Meira compara Brasil e Índia no desenvolvimento de capital humano para programação e afirma que o país investe errado em educação

Por Bia Magalhães* Exame 24 abr 2021

A receita total em exportações do complexo de soja brasileiro em 2021 deve chegar a mais de US$ 43 bilhões, de acordo com a Datagro. E se o Brasil fosse capaz de gerar três vezes mais receita exportando software? Segundo Silvio Meira, cientista-chefe da TDS Company e membro dos conselhos de administração de grupos como Magalu e MRV, o país poderia estar à frente de economias como Índia, que exportou mais de US$ 128 bilhões em código para programas de computador entre 2019 e 2020.

O especialista diz que, para isso, o Brasil precisaria ter uma estratégia para investimento em políticas públicas de educação e qualificação de capital humano para a produção digital. “Se a gente soubesse como programar em escala, que significa basicamente sentar em frente a uma tela de computador e escrever um texto muito parecido com o inglês estruturado, conseguiria estar hoje no mercado global exportando dezenas de bilhões de dólares em objetos digitais. Se você consegue treinar uma pessoa pra tirar 600 na redação do ENEM, você consegue treiná-la pra escrever programas de computador. É tão simples quanto isso”, afirma.

Uma pesquisa da GeekHunter, especializada em recrutamento de profissionais de TICs, aponta um aumento de 310% nas vagas de tecnologia em 2020. Dados do Banco Mundial mostram que serão criadas cerca de 420 mil novas vagas na área até 2024, enquanto números do MEC indicam apenas 46 mil formados por ano, em média, o que resulta em um déficit anual de quase 60 mil pessoas qualificadas. Isso tudo enquanto, pelas projeções do FMI,  a taxa de desemprego no Brasil deve chegar a 14,5% neste ano, somando quase 15 milhões de desempregados. Sobra capital humano em alguns setores e falta em outros.

“A gente investiu errado em capital humano. Estamos em um dos únicos países do mundo em que, se a pessoa termina o ensino médio, ela não está preparada para absolutamente nada, salvo a pequeníssima porcentagem que teve a possibilidade de cursar uma escola técnica. Estamos precisando de gente que saiba falar inglês, escrever código e analisar dados, programar robô e carro autônomo. As pessoas estão estudando por conta própria, estão se formando sozinhas, porque não foram dirigidas e não estão sendo habilitadas pra esse processo”, diz o especialista.

O Porto Digital, maior parque tecnológico do país, localizado no centro de Recife (PE), é um exemplo bem-sucedido de implementação de política que incentiva não só a formação de talentos em carreiras digitais, mas de empreendedorismo e atração de investidores. Em 2020, o projeto que conta com 349 empresas apresentou faturamento de R$ 2,86 bilhões, representando um crescimento de 21,7% em relação ao ano anterior e de mais de 50% em relação a 2018.

“O que fizemos em 20 anos do Porto Digital? Tiramos computação de um lugar – universidades e pequenas empresas – e colocamos em outro patamar de relevância de teorias aplicadas na prática, grandes e inovadoras empresas nacionais e internacionais. Desenvolvemos um conjunto de carreiras, e Recife tem, hoje, a maior quantidade de alunos de computação por 100 mil habitantes no Brasil. Demos uma demonstração clara de que é possível fazer”, afirma Meira.

*Bia Magalhães é coordenadora de Comunicação na FSB Comunicação

https://exame.com/bussola/brasil-poderia-faturar-3-vezes-mais-exportando-software-que-com-soja/amp/?__twitter_impression=true

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A Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial

O uso adequado de soluções de Inteligência Artificial é sem dúvida um grande diferencial competitivo no cenário mundial. Contudo, seu uso ético e a delegação de decisão para uma máquina ainda são temas polêmicos.

by Fabio Correa Xavier – MIT Technology Review Abril 23, 2021

Quando falamos em Inteligência Artificial, é impossível não imaginar robôs humanoides que agem e pensam como seres humanos, como é frequentemente retratado nos cinemas. Gosto de dois exemplos dessa abstração: o personagem Ash do filme Alien — interpretado pelo ator inglês Ian Holm — e outro Ash mais recente, do episódio Be right back, o primeiro da segunda temporada da série Black Mirror — este interpretado pelo ator irlandês Domhnall Gleeson. Esses Ashes são robôs criados à imagem e semelhança do homem, tão perfeitos a ponto de serem reconhecidos como humanos. Contudo, a realidade ainda não é assim. Há dois tipos de IA e essa dos filmes é a IA geral (ou forte), ou seja, um sistema completo, praticamente indistinguível de um ser humano. O outro tipo é a IA restrita (fraca ou especializada) na qual um sistema exibe traços de inteligência semelhantes a humanos em um campo ou tarefa específica, como um chatbot, que pode responder perguntas sobre determinado assunto para o qual foi treinado. Em meu artigo “Fundamentos, pilares e aplicações da Inteligência Artificial no setor público”, discorri um pouco mais sobre esses conceitos e sobre os dilemas enfrentados pela IA e sua aplicação no setor público, que tem se expandido. Para corroborar essa afirmação o Gartner identificou as dez tendências tecnológicas para o setor público em 2021. Uma delas é a adoção estratégica de tecnologias baseadas em dados, como a Inteligência Artificial (IA) e machine learning, em cada estágio da atividade governamental para melhorar a eficiência, eficácia e consistência dos dados. O Gartner batizou essa abordagem de Operacionalized Analytics e prevê que até 2024, 60% dos investimentos em IA e análise de dados pelo setor público terão feitos como objetivo impactar diretamente o processo de tomada de decisão e resultados operacionais em tempo real.

No último dia 06 de abril, foi publicada a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA), por meio da Portaria nº 4.617 do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). A EBIA foi construída em três etapas, conduzidas pelo MCTIC.

A primeira etapa, que teve início em 2019, foi a contratação de consultoria especializada em IA, por meio de Projeto de Cooperação Técnica Internacional junto à UNESCO. Essa consultoria teve como objetivo realizar estudo sobre os potenciais impactos sociais e econômicos da Inteligência Artificial e a apresentação de propostas para mitigar seus efeitos negativos e maximizar os efeitos positivos.

Em paralelo, foi realizada a segunda etapa, um processo de busca das melhores práticas (benchmark) nacionais e internacionais, observando-se estratégias similares que foram adotadas por outros países, que geralmente incluem tópicos como ganho de produtividade e consequente vantagem competitiva, preocupações com uma verdadeira revolução no mercado de trabalho, políticas de educação e requalificação profissional, tudo isso aliado a uma política pública de incentivo à pesquisa, desenvolvimento e inovação na área de IA, com aplicação da tecnologia em áreas específicas como saúde, mobilidade e segurança pública.

Por fim, a terceira etapa foi uma Consulta Pública à sociedade, entre 12 de dezembro de 2019 e 3 de março de 2020, na qual foram recebidas mais de 1000 contribuições que forneceram subsídios à EBIA.

Princípios da Inteligência Artificial da OCDE

Ao pensar em princípios de IA, lembro-me das três leis da robótica de Asimov: 1ª Lei: um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal; 2ª Lei: um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que conflitar com a primeira lei; 3ª Lei: um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a primeira ou segunda leis. O objetivo das leis era permitir a coexistência pacífica entre robôs inteligentes (como as Ashes) e os humanos.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) definiu algumas regras mais adequadas para que tenhamos uma gestão responsável dos sistemas de IA. A OCDE definiu cinco princípios básicos:

I) A IA deve beneficiar as pessoas e o planeta ao impulsionar o crescimento inclusivo, o desenvolvimento sustentável e o bem-estar.

II) Os sistemas de IA devem ser concebidos de forma a respeitar o Estado de Direito, os direitos humanos, os valores democráticos e a diversidade, e devem incluir salvaguardas adequadas — por exemplo, permitindo a intervenção humana quando necessário — para garantir uma sociedade justa.

III) Deve haver transparência e divulgação responsável em torno dos sistemas de IA para garantir que as pessoas entendam os resultados baseados em IA e possam desafiá-los.

IV) Os sistemas de IA devem funcionar de maneira robusta, segura e protegida ao longo de seus ciclos de vida e os riscos potenciais devem ser avaliados e gerenciados continuamente.

V) Organizações e indivíduos desenvolvendo, implantando ou operando sistemas de IA devem ser responsabilizados por seu funcionamento adequado, de acordo com os princípios acima.

Tendo esses princípios como valores, a OCDE faz cinco recomendações aos líderes dos países:

(i) Facilitar o investimento público e privado em pesquisa e desenvolvimento para estimular a inovação em IA confiável.

(ii) Promover ecossistemas de IA acessíveis com infraestrutura digital e tecnologias e mecanismos para compartilhar dados e conhecimento.

(iii) Garantir um ambiente de política que abrirá o caminho para a implantação de sistemas de IA confiáveis.

(iv) Capacitar as pessoas com as habilidades para IA e apoie os funcionários para uma transição justa.

(v) Cooperar além das fronteiras e setores para progredir na gestão responsável de IA confiável.

Eixos temáticos e verticais da EBIA

O MCTIC, com base nesses princípios e recomendações, estabeleceu a Estratégia Brasileira de IA com três eixos temáticos (transversais) e 6 eixos verticais.

Os três eixos temáticos — que devem ser considerados em todas as verticais e aplicações da IA — são:

1. Legislação, regulação e uso ético: trata de parâmetros jurídicos, regulatórios e éticos para o desenvolvimento da IA;

2. Governança de IA: estrutura de governança que promova métodos e procedimentos para assegurar a observância aos princípios da IA no desenvolvimento de soluções com essa tecnologia;

3. Aspectos internacionais: trata de plataformas de cooperação e integração para trocas de informações, experiências, regulamentações e boas práticas na condução da IA no cenário mundial.

Os seis eixos verticais — que definem as áreas prioritárias para aplicação de IA — são:

1. Educação: qualificar e preparar as gerações atuais e futuras para as mudanças da IA, para o chamado futuro digital;

2. Força de trabalho e capacitação: preparar os trabalhadores para a transformação do mercado de trabalho, com a substituição de ocupações pela automatização e para o surgimento de novas posições; qualificação e requalificação profissional;

3. Pesquisa, desenvolvimento, inovação e empreendedorismo: promover investimentos públicos e privados em P&D para incentivar a inovação de IA confiável de uma maneira holística – aspectos técnicos, sociais, jurídicos e éticos;

4. Aplicação nos setores produtivos: promover o uso de IA nos diversos setores da economia de forma a melhorar a eficiência das empresas brasileiras;

5. Aplicação no Poder Público: promover o uso ético da IA pelo Poder Público para melhorar a qualidade dos serviços prestados à sociedade, privilegiando a economicidade e eficiência;

6. Segurança Pública: incentivar o uso não discriminatório de IA na área da segurança pública, respeitando o direito à privacidade e à proteção da imagem do titular, com mecanismos de supervisores de monitoramento para garantir o seu uso ético.

Esses eixos, norteadores para aplicação da Estratégia Brasileira de IA, estão relacionados conforme a figura a seguir (OPICE BLUM, 2021):

Fonte: https://opiceblum.com.br/estrategia-brasileira-de-inteligencia-artificial-e-definida-com-base-nos-principios-da-ocde/

Objetivos da EBIA

Segundo o MCTIC, a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial irá nortear as ações do governo federal no desenvolvimento da tecnologia, em todos os seus aspectos de forma a estimular a pesquisa, inovação e desenvolvimento de soluções em Inteligência Artificial, bem como seu uso consciente, ético e em prol de um futuro melhor. A inteligência artificial já havia sido citada na Estratégia Brasileira de Transformação Digital (E-Digital) como um vetor de mudança da tecnologia digital na sociedade. Especificamente em relação à IA, o E-Digital estabeleceu como ação estratégica “avaliar os potenciais impactos sociais e econômicos de tecnologias digitais disruptivas, como Inteligência Artificial e Big Data, propondo políticas que mitiguem seus efeitos negativos ao mesmo tempo em que maximizem seus efeitos positivos”.

Nesse sentido, a EBIA apresenta inicialmente seis objetivos estratégicos que poderão ser desdobrados em ações específicas. Os objetivos estratégicos inicialmente estabelecidos foram:

i) Contribuir para a elaboração de princípios éticos para o desenvolvimento e uso de IA responsáveis.

ii) Promover investimentos sustentados em pesquisa e desenvolvimento em IA.

iii) Remover barreiras à inovação em IA.

iv) Capacitar e formar profissionais para o ecossistema da IA.

v) Estimular a inovação e o desenvolvimento da IA brasileira em ambiente internacional.

vi) Promover ambiente de cooperação entre os entes públicos e privados, a indústria e os centros de pesquisas para o desenvolvimento da Inteligência Artificial.

O uso adequado de soluções de Inteligência Artificial é sem dúvida um grande diferencial competitivo no cenário mundial. Contudo, seu uso ético e a delegação de decisão para uma máquina ainda são temas polêmicos. A LGPD (Lei nº 13.709/18) tenta endereçar tal questão dispondo sobre o direito de titulares solicitarem a revisão das decisões automatizadas de dados pessoais, quando estas afetam seus interesses, incluindo o mapeamento de perfil pessoal, profissional, de consumidor e crédito, bem como quaisquer aspectos da personalidade da pessoa.

A EBIA é um bom começo para tratar adequadamente no âmbito nacional esse tema de extrema relevância e impacto na vida de todos. Contudo, falta materialidade e um plano de ação mais detalhado para fazer a estratégia sair do papel e se transformar em resultados em benefício da sociedade. Isso só será possível com uma forte parceria entre o governo e os diversos atores do mercado, setores que serão beneficiados pelo uso massivo da Inteligência Artificial. Tudo isso, claro, com os devidos cuidados para que a pessoa humana seja apenas um beneficiário e não uma vítima dessa revolução digital.

Autor

Fabio Correa Xavier

https://mittechreview.com.br/a-estrategia-brasileira-de-inteligencia-artificial/

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Como a pandemia mudou a forma de fazer mídia?

Os principais investimentos neste ano serão em redes sociais, vídeos, search, streaming, podcasts, mídia nativa, display, OTT e TV conectada

Por Jaderson Alencar*  Exame 06/03/2021 

Temos falado há algum tempo da aceleração da transformação digital com o contexto da Covid-19 no mundo. Com o isolamento social necessário, atividades ligadas a educação, consumo, trabalho, entretenimento e até a paquera se tornaram rapidamente menos físicos e mais digitais.

Isso impacta uma mudança importante para a comunicação: a mídia.

Há alguns anos, a mídia digital ainda tinha investimento mediano em relação ao montante total de uma marca ou empresa. Com as pessoas circulando menos nas ruas e mudando seus hábitos de consumo, essa realidade se inverte rapidamente em 2021.

Isso é demonstrado na segunda edição da Pesquisa da IAB-BRASIL com a Nielsen para identificar as mudanças que a pandemia acarretou no mercado de mídia brasileiro. Foram entrevistados 167 executivos (entre anunciantes, agências, veículos e adtechs) para entender este novo comportamento.

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 (Rafael Pera/Revista VIP)

Vamos aos dados:

– 63% investem ou investirão mais da metade das verbas agora nos meios digitais.

– 20% inserem mais de 80% de todo seu orçamento na internet.

– 45% têm a intenção de ampliar este investimento ainda mais ao longo de 2021.

– As principais apostas em investimento neste ano serão em redes sociais, vídeos, search, streaming e podcasts, seguidos de mídia nativa, display, OTT e  TV conectada e-mail.

– 14% dos entrevistados querem dar um salto gigantesco do investimento em mídia para influenciadores e criadores de conteúdo digital.

Já imaginávamos o aumento do consumo e, por consequência, do investimento dos anunciantes em mídia digital. Mas o que chama a atenção são alguns dos formatos citados. Streaming, podcasts, mídia nativa e de OTT (over the Top), por exemplo.  A verdade é que precisamos estar atentos ao novo consumo e a novas formas de engajamento que derivam infinitas possibilidades para as marcas.

A criatividade, o uso de dados corretamente e o entendimento claro do seu público aqui são fundamentais. Porque, sem estratégia, também não há mídia. Independentemente de onde ela esteja.

*Sócio-diretor de Estratégia da FSB Comunicação

https://exame.com/bussola/como-a-pandemia-mudou-a-forma-de-fazer-midia/

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Novos milionários de tecnologia estão tentando não ostentar o enriquecimento na pandemia

Enquanto boa parte da população global lida com os efeitos negativos da covid-19 na economia, uma nova geração de ricaços tenta adotar uma postura menos extravagante

 Por Erin Griffith – The New York Times/Estadão 18/04/2021 

As ofertas públicas de ações (IPO) e a ascensão de novos milionários ligados à tecnologia estão maiores e mais barulhentas do que nunca. Mas, durante a pandemia, os novos ricos do Vale do Silício não estão comemorando com as tradicionais festas e aposentadorias precoces para viajar pelo mundo.

Nos últimos seis meses, pelo menos 35 empresas fundadas na área da baía de São Francisco – entre elas Airbnb, DoorDash e a empresa de armazenamento de dados Snowflake – abriram capital por um valor de mercado combinado de US$ 446 bilhões, segundo o New York Times. Os “períodos de lockup” dessas empresas, que impedem os funcionários de vender a maior parte de suas ações logo após um IPO, irão expirar nos próximos meses, desencadeando uma onda de riqueza.

Um pequeno punhado desses IPOs poderia cunhar cerca de 7 mil milionários, de acordo com uma análise da EquityBee, plataforma que facilita as transações de capital. O fluxo de IPOs tem sido grande o suficiente para que sua receita de impostos possa acabar com parte do déficit orçamentário projetado da Califórnia.

Em comparação com booms anteriores, há “mais gratidão”, explica Aaron Rubin, sócio da Werba Rubin Papier Wealth Management. 

Quando a pandemia chegou, um ano atrás, os executivos de tecnologia se preocuparam com a possibilidade de suas ações nunca renderem o esperado. O solavanco – e ansiedade geral com a economia – até agora os desencorajou a fazer os tipos de ostentação que costumam acompanhar fortunas que surgem da noite para o dia, disse Rubin. “Podem até comprar um Tesla novo ou um carro conversível, mas não saem por aí comprando aviões”, diz.

As festas são no Zoom, a conversa sobre impostos está no Slack, a compra de casas anda um pouco menos intensa e o clima é de cautela. É uma época estranha para ficar rico.

“A mentalidade das pessoas não pode ser de ostentação”, disse Riley Newman, que foi um dos primeiros funcionários do Airbnb, empresa que abriu o capital em dezembro e imediatamente atingiu US$ 100 bilhões em valor.

As pessoas mudaram o foco das casas de férias e dos carros chamativos para casas suburbanas e escolas, disse Newman, que agora dirige a Wave Capital, uma empresa de capital de risco. “Está simplesmente diferente”, acrescentou.

Em comparação com "booms" anteriores do setor de tecnologia, novos ricos de São Francisco, nos EUA, preferiram abraçar gratidão e cautela

Em comparação com “booms” anteriores do setor de tecnologia, novos ricos de São Francisco, nos EUA, preferiram abraçar gratidão e cautela

Caixa gourmet

Antes da pandemia, quando startups abríam capital, os executivos comemoravam com esculturas de gelo em forma de foguete e bandas dos anos 1980. Agora, as empresas estão mandando aos seus funcionários caixas de festa para as reuniões no Zoom.

Daniel Figone, dono da Handheld Catering and Events, recentemente entregou jantares e lanches embalados nas casas de vários trabalhadores de empresas do Vale do Silício que abriram capital. As caixas – que custam de US$ 45 a US$ 100 cada – podem trazer produtos caseiros, sais marinhos, mistura de cacau quente, queijos sofisticados, frutas e champanhe. Além disso, estavam incluídos cartões impressos parecidos com convites de casamento detalhando o código de login para uma reunião no Zoom.

Os altos executivos ganham ainda mais: arranjos florais, refeições de três pratos e um chef no local para terminar o preparo, disse Figone. Em algumas pequenas reuniões ao ar livre, ele ofereceu “casquinhas” individuais cheias de lanches, em vez de bufês e aperitivos.

Mas as celebrações no Zoom de todas as empresas podem ser muito parecidas com as reuniões no Zoom de todas as empresas. Então, as empresas também estão adicionando perguntas e respostas virtuais com autores famosos ou membros do elenco do ‘Saturday Night Live’, palestras inspiradoras de palestrantes do TED e até sessões de meditação em grupo conduzidas por praticantes famosos.

Quando tem algum músico – Alicia Keys, Train e John Legend são os principais pedidos – a apresentação se limita a uma ou duas músicas, disse ele.

Model 3, da Tesla, está entre itens de desejo dos novos milionários de tecnologia

Model 3, da Tesla, está entre itens de desejo dos novos milionários de tecnologia

Gastos diferentes 

De fato, os novos ricos estão gastando de maneiras muito diferentes. Em vez de arte, eles estão comprando NTFs, ou seja, tokens não fungíveis que representam a propriedade de peças de arte digital, memes ou artefatos da história da internet.

Em vez de viajarem pelo mundo, eles estão se amontoando em vans Sprinter. Em vez de looks de grife, eles estão buscando roupas que fiquem bem nas ligações do Zoom, aulas de maquiagem virtual para a câmera e reformas para os fundos de Zoom.

Eles também estão comprando presentes de “conforto” para amigos e familiares, como cobertores e roupões aconchegantes, itens de cuidados com a pele, pijamas e jogos. E, em vez de apartamentos de luxo, eles estão atrás de casas com espaço ao ar livre, academias caseiras e boas “salas de Zoom”.

J.T. Forbus, gerente tributário da Bogdan & Frasco, uma empresa de contabilidade de São Francisco, disse que seus clientes têm evitado a ostentação. Sua maior despesa, além da casa, é com o consultor financeiro.

“Quando eles enlouquecem e gastam, é para investir em criptografia”, disse Forbus, referindo-se às moedas digitais.

Caridade

No ano passado, quando o Airbnb abriu capital, ex-funcionários iniciaram o Equity for Impact, um programa no qual os funcionários se comprometem a doar uma parte não especificada de seus rendimentos de IPO para instituições de caridade. Até agora, mais de 400 pessoas comprometeram cerca de US$ 50 milhões em ações, o que está a meio caminho da meta do grupo para o momento em que o período de bloqueio do Airbnb expirar, em junho.

O foco na caridade nesse momento de sorte inesperada é uma mudança em relação às ondas passadas de novos ricos, disse Forbus.

“Eles vão ter uma dedução de impostos, claro”, disse ele. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

https://link.estadao.com.br/noticias/empresas,novos-milionarios-de-tecnologia-estao-tentando-nao-ostentar-o-enriquecimento-na-pandemia,70003684250

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Frederico Trajano, do Magazine Luiza: mais um empresário a entrar no setor de mídia

Com a compra de uma participação de 25% no site de notícias de política Poder360, Frederico Trajano aumenta a lista de empresários que investem em mídia

Ralphe Manzoni Jr. – Neofeed •19/04/21 • 15h05

Nos últimos anos, o empresário Frederico Trajano esteve nas manchetes de jornais e sites pelas numerosas aquisições do Magazine Luiza, a rede varejista da qual é o CEO e que comprou 17 empresas desde janeiro de 2020 – a mais recente deles, da plataforma de conteúdo Jovem Nerd.

Agora, Trajano volta às manchetes por outro motivo. Ele está fazendo uma incursão no mundo da mídia, ao anunciar um investimento pessoal no site de política Poder360, do jornalista Fernando Rodrigues, que cobre os bastidores do poder. Trajano está comprando uma fatia de 25% do Poder360, por um valor não revelado.

“Acredito no jornalismo profissional como um dos pilares da democracia e do aperfeiçoamento das instituições e tenho total afinidade com os princípios editoriais do veículo: isenção, apartidarismo, independência, qualidade e credibilidade das informações publicadas e foco no interesse público”, disse Trajano, por meio de uma nota divulgada à imprensa sobre o seu investimento.

O aporte acontece em um momento em que o nome de Luiza Helena Trajano, sua mãe e presidente do conselho de administração do Magazine Luiza, aparece como uma possível candidata a eleição presidencial de 2022 – ela sempre negou que tenha interesse em entrar na política.

A negociação com o Poder360 envolveu um aporte primário de recursos, que serão investidos na expansão do site. Em março de 2021, o Poder360 bateu recorde de audiência, com 9,3 milhões de visitantes únicos e 32,3 milhões de páginas visualizadas, segundo a nota.

O empresário Frederico Trajano

A entrada de Trajano no mundo da mídia pode parecer inusitada à primeira vista. Mas, na verdade, trata-se de uma tendência que cresce no Brasil e no mundo nos últimos anos.

Empresários com empresas consolidadas em diversos setores da economia estão cada vez mais investindo em veículos de mídia. No fim de março deste ano, por exemplo, Rubens Menin, dono da construtora MRV, do Banco Inter e da Log Commercial Properties, comprou a fatia de 35% do jornalista Douglas Tavolaro e passou a deter 100% da CNN Brasil.

No ano passado, o empresário Chaim Zaher, que comando o grupo de educação SEB, dono de marcas como Pueri Domus, Concept e Maple Bear, comprou três três emissoras de TV e sete emissoras de rádio da NovaBrasilFM.

O banqueiro André Esteves, do banco BTG Pactual, arrematou a revista Exame, do grupo Abril, em um leilão judicial por R$ 72,3 milhões, em dezembro de 2019. Antes disso, o próprio BTG Pactual ajudou a Fábio Carvalho a comprar o grupo Abril, que estava em recuperação judicial.

No mundo da economia e finanças, o controlador da XP Inc., Guilherme Benchimol, é dono também do site Infomoney. E a Empiricus, de Felipe Miranda, tem participação nos sites Money Times e Seu Dinheiro.

Mundialmente, o maior exemplo de um empresário investindo no setor de mídia é o de Jeff Bezos, da Amazon, que comprou o tradicional The Washington Post, por US$ 250 milhões, em agosto de 2013.

A mulher de Steve Jobs (1955-2011), Laurenne Powell, comprou a revista The Atlantic em 2017. Antes, ela já tinha uma fatia no site Axios. E Marc Benioff, fundador da Salesforce, adquiriu a revista Time, a mais tradicional dos Estados Unidos, por US$ 190 milhões em 2018.

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PicPay chega aos 50 milhões de usuários e fundador fala dos planos para chegar aos celulares de todos os brasileiros

Com IPO no radar, aplicativo segue a trilha aberta pelo chinês WeChat e acelera crescimento com novos serviços e a contratação de pesos-pesados do mercado

Vinícius Pinheiro Seudinheiro.com 13 de abril de 2021

Houve um tempo em que Anderson Chamon conhecia pelo nome todos os usuários do PicPay. Mas isso não se deve a um dom especial de memorização, e sim ao fato de o aplicativo criado por ele e dois amigos em Vitória (ES) ter demorado a engrenar.

Lançada no fim de 2012, a carteira digital que surgiu como uma forma de facilitar os pagamentos entre amigos só começou a ganhar tração três anos depois. “A gente pensou que o negócio iria explodir, mas o foguete caiu para o lado”, disse Chamon, que recordou os primeiros e difíceis tempos do aplicativo durante uma entrevista por videoconferência ao Seu Dinheiro.

O foguete pode ter levado algum tempo para decolar, mas acabou ganhando a órbita. O PicPay não só entrou na rota do crescimento exponencial como acaba de alcançar a impressionante marca de 50 milhões de usuários — sendo 39 milhões deles ativos.

O avanço também é notável se considerarmos que a empresa encerrou o ano passado com 38,8 milhões de usuários cadastrados. Ou seja, mantido o ritmo dos três primeiros meses, o app pode se aproximar do patamar de 80 milhões de pessoas no fim de 2021.

Chamon compara o crescimento a uma longa estrada, na qual cada marca, incluindo a dos 50 milhões de usuários, funciona como uma placa de quilometragem. E qual seria o destino dessa rodovia?

“Nosso objetivo é impactar a vida de todos os brasileiros, ou pelo menos todos que sejam capazes de baixar o aplicativo.”

O fundador do PicPay não fala de projeções nem de prazos, mas falou de um número que classificou como um “sonho”: chegar ao patamar dos 120 milhões de usuários.

Anderson Chamon, fundador e vice-presidente de produtos e tecnologia do PicPay

Anderson Chamon, fundador e vice-presidente de produtos e tecnologia do PicPay – Imagem: Divulgação

Pandemia e PIX

O forte crescimento recente do aplicativo foi impulsionado pela pandemia — que estimulou as transações online, incluindo os pagamentos — e por uma campanha agressiva de marketing que incluiu até o disputado espaço do Big Brother Brasil.

Antes disso, o PicPay já vinha ganhando espaço nos celulares dos brasileiros por meio de parcerias com estabelecimentos comerciais, programas de “cashback” e recompensas aos usuários — cada indicação rende um crédito na conta do “promotor”.

O dinheiro para financiar a expansão vem dos controladores. O PicPay recebeu um investimento em 2015 do Banco Original e hoje é controlado pela J&F Participações, a holding que reúne os investimentos da família Batista, da JBS.

O aplicativo ainda ganhou um empurrão recente — e até certo ponto inesperado — com a entrada em operação do PIX, a plataforma de pagamentos instantâneos do Banco Central. Em vez de ser uma ameaça, como se podia imaginar à primeira vista, o sistema acabou facilitando o trabalho dos usuários de transferir dinheiro para a carteira digital.

Se antes Chamon conhecia de perto os usuários, hoje já não faz mais sentido falar em um perfil de quem acessa o aplicativo. “Conforme a gente cresce, mais a base fica parecida com a da própria população brasileira.”

Além do “super app”

O número atual de usuários já coloca o PicPay bem à frente de fintechs badaladas como o Nubank e mesmo grandes bancos, como o Santander Brasil. A ambição da empresa, contudo, não é apenas concorrer na mesma arena das instituições financeiras.

Chamon não gosta de usar o termo “super app”, que para ele ficou banalizado. Mas diz que a pretensão do PicPay é se tornar uma versão ocidental do WeChat, o aplicativo pelo qual os chineses fazem praticamente tudo, da troca de mensagens a compras e transações bancárias.

Uma das novas funcionalidades do PicPay, inclusive, é a troca de mensagens instantâneas, ao estilo WhatsApp. “A gente sempre acreditou na combinação de social e dinheiro, as relações sociais são muito envolvidas com dinheiro”, disse Chamon, que hoje é o vice-presidente responsável por produtos e tecnologia da plataforma.

Quanto vale o show?

Em meio ao crescimento de usuários e dos serviços disponíveis, a empresa se prepara para um passo ainda maior com uma oferta pública inicial de ações (IPO).

Eu questionei o fundador do PicPay sobre o assunto, mas ele disse que não poderia comentar nada sobre o IPO. No mercado, porém, a ampla expectativa é que a abertura de capital aconteça ainda no primeiro semestre, na bolsa norte-americana Nasdaq.

E quanto pode valer o PicPay? Em um relatório recente, a Empiricus avaliou o aplicativo em impressionantes US$ 35 bilhões (quase R$ 200 bilhões, no câmbio atual), tendo como base de comparação um valor de mercado por cliente equivalente ao do Nubank e do Banco Inter.

O desafio agora é fazer com que o crescimento da base seja acompanhado do aumento do volume de transações realizadas pelo aplicativo. Em 2020, o chamado TPV atingiu R$ 36,6 bilhões.

Chamon não revelou projeções para este ano, mas uma estimativa com base no resultado anualizado de dezembro aponta para R$ 50 bilhões em transações. Mas esse é apenas um “chute” educado e conservador, já que o lançamento das novas funcionalidades deve turbinar o dinheiro que passa pela plataforma.

O aplicativo já oferece crédito pessoal, com uma base pré-aprovada de 14 milhões de pessoas. Mas quem estiver em busca de dinheiro emprestado tem como opção recorrer a outro usuário, com o sistema de P2P lending lançado recentemente.

O PicPay também deu um passo importante para ampliar as transações fora do aplicativo com o lançamento de um cartão de crédito que chegou a 5 milhões de unidades emitidas. 

Outra grande aposta da fintech é no comércio eletrônico. O app conta com uma loja virtual aberta para qualquer parceiro se conectar. É como uma plataforma aberta, aliás, que o PicPay espera ser visto.

Ainda que concorra com os bancos nos serviços financeiros, a empresa quer ser vista também como um “marketplace” financeiro, no qual as instituições possam se plugar para ofertar seus produtos.

Para acelerar todas essas iniciativas, a empresa reforçou o time de executivos com pesos-pesados do mercado. Para tocar a vice-presidência de serviços financeiros, a companhia contratou recentemente Eduardo Chedid, que comandava a bandeira de cartões Elo. Tanto Chamon como Chedid hoje estão subordinados a José Antonio Batista, CEO do PicPay.

Entre as contratações recentes também estão Guilherme Telles, responsável por trazer a Uber para o Brasil em 2014, e Adriano Navarini, que comandava o SafraPay, empresa de meios de pagamento do Safra. Dentro da preparação para o IPO, a empresa trouxe André Cazotto, que estava na PagSeguro, para o cargo de diretor de relações com investidores.

A expansão da fintech também tem uma característica particular: ocorreu sem nenhuma aquisição. O fundador do PicPay disse que não foi algo premeditado. “Acompanhamos de perto muitas coisas, mas até agora não fomos muito agressivos em aquisições.”

Ele não descartou, porém, uma mudança nessa postura, desde que aquisições encurtem o caminho dentro da estratégia da empresa.

Ao mencionar as pretensões de tornar o PicPay o “WeChat ocidental”, Chamon destaca outro desejo: ampliar as operações para fora do país. Mas essa por enquanto é apenas uma aspiração da companhia. “Não gastamos um segundo do nosso tempo hoje pensando em expandir para o exterior, o mercado e os desafios por aqui ainda são muito grandes.”

E o lucro, quando vem?

Assim como outras empresas de tecnologia em forte ritmo de crescimento, o PicPay opera no vermelho. O prejuízo no ano passado — o primeiro desde que a empresa recebeu a licença para atuar como instituição de pagamento — foi de R$ 275 milhões.

Chamon disse que o resultado é fruto da expansão e que a companhia já opera com margens positivas, tirando os investimentos no crescimento da plataforma. “O PicPay está pronto para dar lucro”, afirmou.

https://www.seudinheiro.com/2021/empresas/picpay-entrevista-anderson-chamon-50-milhoes/?xpromo=XV-MI-SD-SITE-WEBS-X-X-X-X-X&utm_source=SD&utm_medium=X&utm_campaign=XV-MI-SD-SITE-WEBS-X-X-X-X-X

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Haverá um colapso nas áreas de TI e Inovação no pós-pandemia; Entenda!

Por Fernando D´Angelo – Canaltech| 13 de Abril de 2021 

O que era minha percepção está se mostrando realidade. Existe uma grande chance de colapso nas áreas de TI e Inovação no período pós-pandemia — e não pela falta de vagas, mas sim pela falta de mão de obra qualificada.

Em um país com cerca de 14 milhões de desempregados, alguns setores estão sofrendo um apagão de mão de obra, e a área de TI é uma delas. Já tem alguns anos que a quantidade de pessoas que se capacitam é menor que o número de vagas abertas na área de TI no Brasil.

Cerca de 3 anos atrás, o número de vagas em aberto no setor era de 100 mil, e este número chegará perto de 200 mil ainda em 2021. E a cada ano esse déficit tem aumentado em cerca de 30 a 40 mil vagas. Estima-se que, em 2024, serão cerca de 300 mil vagas em aberto.

Já a área de inovação, por se tratar de uma carreira nova que exige uma qualificação ampla, mais moderna e diferenciada, está em processo de formação de um corpo de profissionais dedicados a isso. Os primeiros profissionais dedicados a esta área estão chegando no marcado agora, são poucos, e já são amplamente disputados pelas empresas.

E o que a pandemia tem a ver com isso?

A pandemia acelerou esse cenário, aumentando a demanda por profissionais da área de TI e inovação, uma vez que forçou a grande maioria das empresas a se adaptarem ao universo digital e ao home-office, além de ter sido o empurrão que faltava para que essas empresas iniciassem a já atrasada Transformação Digital em seus processos e serviços.

Além disso, na “Pesquisa BRAngels/HSM-LearningVillage/FirstCom Cenário Econômico Pós-Vacina: o que podemos esperar dos negócios?”, que entrevistou 320 empresários de diversos setores e divulgada no dia 07/04, 56% das empresas sinalizaram que ampliarão os investimentos em TI e 25% delas em inovação.

E para compor a tríade do colapso da área de tecnologia e inovação, esta pesquisa também sinalizou que cerca de 37% dos empresários estão dispostos a investir em Venture Capital e 47% em fazer investimentos-Anjo no Pós-Pandemia. Segundo Orlando Cintra, CEO do BR Angels: “Nos surpreendeu, particularmente, o grande interesse pelo investimento-anjo e os fundos de venture capital, uma clara demonstração que os executivos do alto escalão estão cada vez mais preocupados com o desafio de se conectar com a inovação. A tendência é vermos uma escalada de investimentos em startups e negócios disruptivos para manter a competitividade em um novo mercado no qual já não cabe atuar com velhos modelos que se tornaram totalmente obsoletos, especialmente depois da pandemia”.

Mas o que tudo isso significa?

Se, por um lado, temos uma quantidade significativa de empresas pretendendo aumentar seus investimentos nas áreas de TI e Inovação (e muitos executivos decididos a investir dinheiro em startups e novos negócios), do outro lado há um crescente aumento da falta de mão de obra nestes setores.

Isso significa que os profissionais dessa área estão sendo amplamente disputados pelas empresas, o que infla seus salários e, ao mesmo tempo, aumenta a pressão e a cobrança por resultados e performance. Reynaldo Gama, CEO da HSM Educação, me disse durante uma conversa: “enquanto não resolvermos esse problema, as empresas ficarão brincando de rouba-monte entre elas”.

E esse ciclo coloca os profissionais da área frente a desafios, responsabilidades e projetos de forma precoce e gerando um grande aumento na expectativa de crescimento profissional. Eu costumo dizer, por exemplo, que há muitos profissionais na área de programação que estão em um nível Júnior de conhecimento, ganham como Pleno e pensam que são Sênior, o que demonstra um pouco das distorções que vêm acontecendo por conta desse apagão.

E, para complementar, esse cenário potencializa o desenvolvimento de sistemas com alto grau de problemas e bugs, e um número crescente de profissionais da área com estafa física e mental extremas, o que aumenta ainda mais a seriedade desse apagão.

E como podemos solucionar esse apagão de mão de obra?

“A solução para o médio e longo prazo é investir em capacitação de novos profissionais para o setor, mas não há milagres”. Reynaldo Gama, CEO da HSM Educação.

E eu concordo com ele, pois, apesar de estes setores não exigirem formação acadêmica específica (como é o caso de médicos, engenheiros e outras carreiras), é necessário possuir habilidades e capacidades bem específicas, como a facilidade de acompanhar e desenvolver raciocínios lógicos, alto poder de abstração e conexão de ideias, afinidade com análise de dados e capacidade de compreender e criar processos eficientes, entre outros.

E esses fatores infelizmente são grandes barreiras para a entrada rápida de profissionais nas áreas de TI e inovação. Afinal, não é na faculdade que desenvolveremos essas habilidades, e sim ao longo de anos, muitas vezes sendo trabalhadas desde crianças, sem percebermos, e se tornam parte de nossa essência como pessoas (é o que Reynaldo Gama chama de ”Essential Skills”). Assim, seja por questão de falta de afinidade ou por dificuldade, há enorme evasão e déficit de profissionais na área.

Então, para o curto prazo, o que pode ser feito?

A curto prazo, o apagão de mão de obra nas áreas de TI e inovação não será resolvido. Será necessário conviver com este cenário por alguns anos.

“Para passar por esse período com êxito, as empresas precisam capacitar e potencializar os profissionais que já estão dentro de seus quadros. Isso significa investir em treinamentos e planos de carreira, mas principalmente na elaboração de ambientes com uma abordagem mais humana, centrada nas pessoas. É necessário que se respeite e valorize a diversidade, que existam lideranças genuinamente preocupadas e interessadas nas pessoas e que saibam identificar e potencializar o que cada um tem de melhor, que o propósito da empresa vá além do quadro na parede e esteja alinhado com os interesses e valores de seus colaboradores. Essa abordagem tende a diminuir o turnover de profissionais, reduzir o nível de fadiga do time, garantir um desenvolvimento tecnológico mais confiável e robusto, e de quebra poderá proporcionar a contratação de novos colaboradores através de indicações vindas do time. E assim a empresa gera um maior grau de envolvimento, confiança e comprometimento dentro do grupo”. Reynaldo Gama, CEO DA HSM Educação.

Penso que a década que estamos iniciando será um enorme desafio para o desenvolvimento tecnológico no Brasil, mas também uma grande oportunidade de nos reinventarmos e formarmos as novas gerações já sob novos paradigmas, preparados para enfrentarem e se divertirem com os desafios que estão por vir nesta era de revolução tecnológica que estamos vivenciando.

E você, o que pensa a respeito?

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