Pesquisas recentes mostram que reforço pode ser eficaz contra a nova variante do covid. Veja o que se sabe
Por Exame/Agência O Globo 23/12/2021
Com o avanço da Ômicron pelo mundo, pesquisadores na área da saúde têm concentrado os esforços em avaliar a melhor forma de proteção contra a nova variante do coronavírus. Os estudos que avaliaram as diferentes doses de reforço da vacina (incluindo combinações entre as fabricantes) mostraram que todas apresentaram maior eficácia para a prevenção do que o uso de apenas duas doses. Mas em relação às variantes da doença, especialmente a Ômicron, o que se sabe até agora?
O projeto britânico CoV-Boost, um coletivo de pesquisadores, mostrou em estudo publicado na revista médica Lancet que, além do vírus original das amostras chinesas de Wuhan, o soro dos pacientes com dose de reforço foi testado contra as variantes Beta (descoberta na África do Sul) e Delta (descoberta na Índia). A linhagem específica de vírus porém, não afetou muito o resultado das doses de reforço.
Contudo, a proteção das vacinas oferecidas é um pouco menor contra a Ômicron em comparação com versões anteriores da Covid, mas a dose complementar ainda deve manter muitas pessoas fora do hospital.
A vacinação contra a Covid-19 começou no dia 19 de janeiro. (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Pesquisadores do Reino Unido analisaram o provável impacto que uma dose de reforço da vacina contra a Covid-19 terá na Ômicron, e dizem que ela pode fornecer cerca de 85% de proteção contra casos graves da doença.
Veja, abaixo, os estudos mais recentes sobre a variante.
AstraZeneca
Testes clínicos realizados pela Universidade Oxford, no Reino Unido, divulgados nesta quinta-feira, mostraram que a terceira dose da vacina AstraZeneca contra a Covid-19 aumentou significativamente a resposta imunológica à variante Ômicron em comparação com resultados de apenas duas doses.
Foi concluído que duas doses das vacinas contra Covid-19 de Oxford-AstraZeneca e da Pfizer-BioNTech induzem poucos anticorpos neutralizantes contra a Ômicron. A dose extra aumenta significativamente as concentrações de anticorpos.
Pfizer
As farmacêuticas Pfizer e BioNTech declararam no dia 7 de dezembro que duas doses da vacina podem não ser suficientes para proteger contra a infecção com a variante Ômicron, mas que três doses são capazes de neutralizar a nova cepa.
De acordo com os dados preliminares das empresas, uma terceira dose fornece um nível semelhante de anticorpos neutralizantes para a Ômicron ao observado após duas doses contra a cepa original ou as variantes anteriores.
Antes do surgimento da nova cepa, pesquisas apontaram que o imunizante foi capaz de reduzir o risco de internações em mais de 90%. A eficácia contra infecções em pessoas totalmente vacinadas ficou em torno de 33%.
Já um estudo da Discovery Health, em parceria com o Conselho de Pesquisa Médica da África do Sul (SAMRC, na sigla em inglês), divulgado no dia 14 de dezembro, apontou que duas doses da vacina Pfizer contra a Covid-19 tiveram 70% de eficácia contra hospitalizações em meio ao aumento de casos da variante Ômicron da África do Sul. A pesquisa não analisou os efeitos da dose de reforço.
Coronavac
Um estudo realizado em Hong Kong, também divulgado nesta quinta, indicou que três doses da vacina CoronaVac contra a Covid-19 não produzem níveis suficientes de anticorpos para combater a variante Ômicron.
No entanto, a análise revelou que a dose de reforço da Pfizer-BioNTech forneceu “níveis protetores” de anticorpos contra a Ômicron para quem tinha completado o esquema com a CoronaVac. Segundo os pesquisadores, três doses da Pfizer também são suficientes para atingir a proteção.
A pesquisa mais recente foi conduzida por pesquisadores da Universidade de Hong Kong e da Universidade Chinesa de Hong Kong, e financiado pelo Fundo de Pesquisa Médica e de Saúde e pelo Governo de Hong Kong.
Contudo, outro estudo conduzido na China, liderado pelo cientista Xiangxi Wang, pesquisador do Laboratório de Infecção e Imunidade do Instituto de Biofísica da Academia Chinesa de Ciências, analisou mais de 500 unidades de anticorpos neutralizantes obtidos após a aplicação da terceira dose da Coronavac e concluiu que o reforço produz anticorpos capazes de reconhecer a variante Ômicron.
— Cerca de um terço dos anticorpos apresentaram grande afinidade de ligação com a proteína Spike das cepas de preocupação, incluindo a Ômicron, que tem mais de 30 mutações — afirmou Wang em um comunicado do Instituto Butantan.
Os estudos da farmacêutica Janssen sobre a eficácia das vacinas contra a Ômicron ainda estão em andamento. A empresa informou que está fazendo análises em parceria com grupos de pesquisa da África do Sul, com amostras de soro de participantes obtidas em ensaios, sobre a dose de reforço.
Além disso, a Janssen informou que pretende buscar uma vacina específica para a Ômicron, que será desenvolvida, caso seja necessário.
Moderna
A Moderna, farmacêutica americana que desenvolveu uma das vacinas contra a Covid-19 atualmente em uso nos Estados Unidos, mas não no Brasil, afirmou na segunda-feira que o imunizante
aumentou a proteção contra a variante Ômicron do coronavírus, segundo testes clínicos realizados pela companhia. A dose de reforço da vacina pode aumentar anticorpos contra Ômicron em 83 vezes.
A farmacêutica deve desenvolver uma vacina específica para a variante Ômicron, e espera avançar em testes clínicos no início de 2022.
Intercambialidade de vacinas
A análise feita em Hong Kong revelou que a dose de reforço da Pfizer-BioNTech forneceu “níveis protetores” de anticorpos contra a Ômicron para quem tinha completado o esquema com a CoronaVac. Ou seja, quem está imunizado pela CoronaVac terá imunidade contra a Ômicron se tomar a dose de reforço da Pfizer, mas não apresentará a mesma resposta imunológica sem nenhum reforço ou com a terceira dose da mesma fabricante.
A cidade do Rio privilegiará a “mistura de vacinas”, esquema conhecido por especialistas como vacinação heteróloga, na aplicação da terceira dose do imunizante contra a Covid-19. A medida visa a promover uma maior resposta imunológica do organismo, como sugerem estudos internacionais.
Ainda há poucas informações sobre a intercambialidade de vacinas em relação à Ômicron, mas em relação à forma original do vírus, ela tem se apresentado como uma alternativa positiva.
Conforme publicação da Universidade Oxford na revista Lancet, a combinação de uma dose de vacina anticovid da AstraZeneca ou da Pfizer com a 2ª dose do imunizante da Moderna ou da Novavax produz maior resposta imune do que se a 2ª dose for do mesmo imunizante para a forma original da Covid-19.
A proposta de vacinação heteróloga é promissora e vem sendo adotada como estratégia em países como o Canadá e alguns países europeus, como a Espanha. Pesquisadores concordam que a “mistura” de vacinas pode apresentar efeito positivo sinérgico na resposta imune, com reforço da resposta de células T de memória.
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Novo documentário sobre os “Fab Four” também é imperdível para gestores
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The Economist/Estadão 23 de dezembro de 2021
Paul está dedilhando seu baixo em um estúdio em Londres. George boceja e Ringo observa sem prestar muita atenção. John está atrasado, como de costume. De repente, a mágica acontece. Uma melodia começa a tomar forma, George acompanha Paul com sua guitarra e Ringo, batendo palma. Quando John chega, o mais novo single dos Beatles, “Get Back”, está incrivelmente reconhecível.
“Get Back” é a base tanto desse momento memorável como o título de um maravilhoso novo documentário de Peter Jackson, que mostra o registro dos dias que a banda passou junta em janeiro de 1969, escrevendo e gravando músicas para um novo álbum. Para os fãs de música, cultura pop ou criatividade, o filme é uma coleção de pequenos tesouros. Quando George está tendo dificuldades para compor o trecho após “Something in the way she moves” (Algo na maneira como ela se movimenta), John dá um conselho. “Basta dizer o que vier à sua cabeça toda vez – ‘attracts me like a cauliflower’ (Me atrai como uma couve-flor) – até encontrar as palavras certas.”
Os executivos também deveriam ver esse documentário. A questão do que faz uma equipe “cantar” é um ponto básico da pesquisa em gestão, e o documentário dos Beatles é uma chance única de observar uma equipe realmente de alto nível em ação. O filme reforça princípios conhecidos e oferece outros também.
Pense no papel de Ringo, por exemplo. Quando ele não está tocando de verdade, o baterista da banda passa a maior parte do tempo sonolento ou parecendo estar perdido. Quando os outros três músicos discutem, Ringo sorri contente. Para um observador desatento, ele talvez pareça não ser necessário. Mas, musicalmente, nada funciona sem ele e, como integrante da equipe, ele atenua conflitos e limita divisões.
A composição psicológica é importante para a forma como as equipes unem forças. Pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts descobriram que o desempenho dos grupos não está correlacionado com a média da inteligência de seus participantes, mas com características como sensibilidade e o quanto as equipes são boas em dar a todos tempo para falar. Ringo oferece apoio; a banda seria menos coesa sem ele.
Outro princípio reforçado pelo documentário: procure inspiração aqui, ali e em todos os lugares. Em um estudo da McKinsey, mais de 5 mil executivos foram solicitados a descrever o ambiente no qual tiveram suas melhores experiências como parte de uma equipe. Entre outras coisas, a consultoria identificou a importância da “renovação”, o hábito de evitar ficar ultrapassado correndo riscos, aprendendo com os demais e inovando.
“Get Back” mostra uma equipe de superstars adotando exatamente esse ethos: tocar as músicas de outras bandas, agarrar ideias como aves capturam suas presas e aceitar conselhos e ajuda de pessoas de fora da equipe com todo prazer. É a participação de um pianista chamado Billy Preston, conhecido do grupo desde os tempos em que tocou em Hamburgo, o que realmente faz as sessões de gravação começarem a funcionar. (Vamos fazer dele o quinto Beatle, sugere John. “Já é ruim o bastante com quatro”, suspira Paul.)
Uma terceira mensagem do filme diz respeito a quando e como deixar uma equipe trabalhar. Em uma iniciativa de 2016 chamada Projeto Aristóteles, o Google tentou definir as características de suas equipes mais eficientes. Uma de suas descobertas foi que os objetivos devem ser “específicos, desafiadores e possíveis”.
Quando os músicos se encontram pela primeira vez, no segundo dia de 1969, a banda tem uma tarefa que se encaixa perfeitamente nesses critérios: compor novas músicas dignas de um álbum em apenas alguns dias e apresentá-las em um especial de TV. Mas como alcançam esse objetivo fica, em grande parte, nas mãos deles. Isso nem sempre funciona. A certa altura, Paul anseia por uma “figura central paterna” para orientá-los em sua programação. Contudo, a combinação de prazo e autonomia produz resultados extraordinários.
Há limites para o que pode ser aprendido com “Get Back”. Os Beatles nem sempre apoiam uns aos outros – George, sentindo-se menosprezado por John e Paul, abandonou a banda durante alguns dias. As drogas tiveram um papel importante no que eles produziram: o LSD talvez seja algo inaceitável para alguns gestores. Embora a habilidade técnica não seja o único fator de sucesso, o enorme talento ajudou. Qualquer banda com um Lennon, um McCartney e um Harrison teria uma vantagem.
Mas uma lição maior aparece em alto e bom som. Os Beatles amam o que fazem para ganhar a vida. Quando não estão tocando, estão conversando sobre música ou pensando nisso. Eles tocam as próprias músicas cena após cena e improvisam constantemente. Os gestores que pensam que para construir espírito de equipe é preciso uma atividade separada do trabalho – aqui vai uma dica, deixem para lá os arremessos de machado, batalhas de gifs ou qualquer outra coisa igualmente abominável – estão perdendo de vista um ponto fundamental. As equipes com os melhores desempenhos alcançam maior satisfação não individualmente, mas pelo trabalho que realizam em conjunto. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA
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Os altos salários refletem a disputa contínua dessas companhias por estabelecer dominância sobre as demais em termos de oferta ao mercado
Por Da Redação Exame 22/12/2021
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Já pensou em trabalhar num cargo que pague mais de R$ 120 mil ao mês? Pois esse emprego existe — só não está no Brasil. Um levantamento publicado pelo Business Insider mostra que grandes companhias de tecnologia, como Google e Amazon, aumentaram contratações e salários durante a pandemia. Nessas empresas, os cargos com a maior remuneração são aqueles, é claro, ligados à principal atividade dessas companhias: inovação e tecnologia.
De acordo com as informações, engenheiros de software no Google podem ganhar de 353 mil dólares até 650 mil dólares por ano, sendo este último o salário de um vice-presidente sênior de engenharia.
Na DoorDash, o cenário é similar: para o nível de entrada na mesma área, o salário é de 250 mil dólares por ano. Na Intel, gerentes de engenharia de software podem ganhar mais de 300 mil dólares por ano.
No Facebook, diretores de engenharia podem ganhar 360 mil dólares na mesma comparação. E na Amazon, cargos relacionados ao desenvolvimento de serviços na nuvem chegam a 185 mil dólares por ano.
E, por fim, empresas como UBer oferecem até 200 mil dólares por ano aos engenheiros e cerca de 150 mil dólares por ano aos cientistas de dados.
De acordo com as informações, engenheiros de software no Google podem ganhar de 353 mil dólares até 650 mil dólares por ano (oatawa/Thinkstock)
Disputa acirrada
Os altos salários refletem a disputa contínua dessas companhias por estabelecer dominância sobre as demais em termos de oferta ao mercado. Com a competição contínua — e a mão-de-obra qualificada extremamente escassa — os altos salários entram em campo como fator de decisão para que colaboradores decidam para onde ir.
“A alta demanda dos profissionais de tecnologia é global, não é só uma questão do Brasil. A pandemia acelerou ainda mais. Houve um crescimento da digitalização das empresas, que criaram produtos, investiram em vendas online, vendas de plataformas, etc. Todas tiveram que desenvolver isso”, explica Luana Castro, gerente de Tecnologia da Informação da consultoria Michael Page.
No Brasil, o cenário não é diferente. Dados de fevereiro deste ano mostram que há mais de 260 mil vagas em Tecnologia sem dono. De novo, desenvolvedores, cientistas de dados e programadores estão na mira de empresas como a Hotmart, que abriu mais de 400 vagas dedicadas ao setor.
Apesar de existirem ações pontuais que podem ajudar a contratar mais profissionais de Tecnologia da Informação, o Brasil vive um problema estrutural, na visão dos especialistas.
Para resolver essa falta de profissionais, é necessário que as empresas entendam seu papel social e de treinamento de talentos na área em que atuam. “Qual é o papel da sua empresa na área em que ela atua?”, questiona Luana Castro, da Michael Page.
Além disso, políticas públicas de educação voltadas para tecnologia também podem contribuir para uma equilíbrio melhor entre oferta e demanda de profissionais no médio prazo.
Uma solução definitiva, contudo, depende de mudanças estruturais como mais cursos para formar esses profissionais disputados pelo mercado, como ciências da computação. Por ora, ao que tudo indica, a TI vai seguir sendo uma das poucas áreas em que, mesmo com a crise causada pela pandemia, sobram vagas de trabalho e faltam bons profissionais.
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Febre de retrospectivas dos aplicativos de música, fotos ou entregas revela que eles sabem muito sobre sua vida. Compartilhamentos viram propaganda gratuita
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Letycia Cardoso O Globo 17/12/2021
RIO – Se alguém te perguntasse qual cantor você mais ouviu ao longo de 2021 ou por quantos minutos deixou rodar repetidamente a sua canção favorita, você saberia responder?
E se a pergunta fosse sobre qual o tipo de comida mais pedido por você nos restaurantes? Ou ainda quais os lugares você mais visitou este ano? Se as respostas não estiverem na ponta da língua, não se preocupe: os aplicativos respondem por você.
Nessa época do ano, cada vez mais aplicativos apresentam uma retrospectiva individualizada — que nada mais é do que uma ação de marketing disfarçada de conteúdo interativo. O conteúdo é baseado no monitoramento diário que os seus algoritmos fazem da forma como você os usa.
Uma das mais famosas retrospectivas é a do Spotify, disponibilizada desde 2013 para todos os usuários cadastrados em mais de 104 países.
A campanha deste ano, lançada no início de dezembro, ganhou as redes e até rendeu memes. Famoso pelo vídeo de comédia da Pfizer, o influenciador Esse Menino ensinou no Instagram como se assumir gay para a família e compartilhou a retrospectiva com Lady Gaga e Beyoncé no topo da playlist.
Rivais do Spotify são cobrados
No Twitter, usuários de apps concorrentes, como Apple Music e Deezer, cobraram ação semelhante.
Além de mostrar quais foram os artistas, gêneros, músicas, podcasts mais ouvidos e quantos minutos o usuário passou escutando música, por exemplo, a Retrospectiva 2021 do Spotify permitiu comparar a própria experiência com a de um amigo e criar uma playlist colaborativa com o gosto de ambos.
Os cartões de compartilhamento foram modernizados, podendo ser publicados no Snapchat, Twitter, Instagram, Facebook e, ainda, no TikTok.
“Estamos muito felizes com os resultados até agora. Sabemos que nosso público tem uma paixão por nosso serviço e quando lançamos a retrospectiva todo fim de ano isso fica cada vez mais claro ao ver o engajamento dos ouvintes, artistas e criadores ao compartilhar suas experiências na plataforma”, afirmou a empresa, em nota.
Retrospectivas viram mídias gratuitas
O Youtube Music realizou ação semelhante. Através da sua página personalizada do 2021 Recap no aplicativo do YouTube Music, os usuários podem conferir os artistas, canções, vídeos e playlists mais ouvidos no ano.
O especialista em branding, Galileu Nogueira, afirma que as retrospectivas se transformam em mídias gratuitas, ao passo que as empresas ganham espaço nas redes sociais sem ter que pagar qualquer tipo de anúncio. Os próprios usuários se encarregam de fazer a publicidade.
— A estratégia o tempo todo dá ‘call to actions’ (chamada para ação), ao dizer compartilhe com seus amigos, mostre para a sua rede, o que estimula a vontade de publicar mesmo. No caso do Spotify, o grande aliado para o sucesso é que o conteúdo é muito interessante, tem um envelope divertido. Se fosse um banco mostrando no que você mais gastou dinheiro, talvez ninguém quisesse compartilhar — sugere Nogueira.
Melhores momentos no Instagram
Instagram e Facebook, da Meta, também embarcaram nesse movimento. Em 2021, pela primeira vez, as redes sociais lançaram recursos para as pessoas compartilharem seus momentos significativos do ano.
No Facebook, será possível ver quais os amigos, reações, lugares e pessoas que mais se destacaram para cada um.
Em 2020, o Ifood também fez uma retrospectiva individualizada mostrando quais os tipos de comida mais pedidos pelo app e quais os restaurantes favoritos de cada cliente.
Eles sabem onde você esteve no verão passado
Já o Google Maps mostrou com precisão — até um pouco assustadora — quais lugares cada pessoa esteve, quantas vezes foi lá, quais distâncias percorridas de bike, a pé, de carro ou ônibus, além do tempo nos trajetos.
Neste ano, ambas as empresas ainda não divulgaram as retrospectivas às quais os usuários aguardam com ansiedade. O Waze, por sua vez, não fez uma retrospectiva individualizada. Porém, com a sua base de dados, monitorou o comportamento dos brasileiros.
Segundo o app de mobilidade urbana, as atividades que mais fizeram os brasileiros saírem às ruas e dirigirem em 2021 foram ir às compras (68%), ir ao trabalho (61%), visitar a família (53%) e os amigos (43%).
‘Dados são o novo urânio’, diz especialista
O levantamento ainda constatou que 30% dos motoristas só param para abastecer no momento em que o carro atinge menos de um quarto da capacidade e antes da luz de emergência acender, outros 18% só vão aos postos de gasolina quando já estão na reserva.
A diretora Jurídica do escritório Russell Bedford Brasil, Vitória Bernardi, afirma que “os dados são o novo urânio” — ou seja, o que se tem de mais valioso atualmente — e que as retrospectivas só são possíveis por causa da coleta de informações pessoais ao longo de muitos meses, o que permite entregar uma análise detalhada.
Por isso, alerta que é preciso ter atenção aos termos de consentimento:
— Muitas vezes, a gente não lê os termos de uso por preguiça ou por não fazer parte da nossa cultura, mas isso tem consequências. Aceitando o compartilhamento de dados estamos de acordo com essas consequências. O usuário tem que se educar a ler antes de clicar em ok.
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Bilionários disputam como vai ser o futuro e quem vai chegar lá primeiro
Por Vilma Gryzinski – Veja – 17 dez 2021
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Não houve algo parecido nem quando os Medici e os Borgia compartilharam o mesmo tumultuado céu da península italiana, disputando quem fazia mais papas, patrocinava mais artistas e, de modo geral, mandava mais. Os bilionários da era high-tech querem moldar o futuro da raça humana, neste planeta e fora dele.
É um mundo com zero emissão de gás carbônico (Elon Musk), sem doenças transmissíveis (Bill Gates), vivido virtualmente (Mark Zuckerberg) e reproduzido em colônias espaciais ou no planeta Marte (Musk, Jeff Bezos, Richard Branson). Como circulam no mundo das centenas de bilhões de dólares — Musk está perto dos 300 bilhões, um três seguido por onze zeros —, não ligam muito quando a esquerda diz que são de direita, e vice-versa.
“A maioria das ideias mais convincentes e visíveis sobre o amanhã está sendo concebida e desenvolvida por uma pequena minoria de indivíduos ultrarricos e companhias do setor privado”, bufou o Guardian, jornal guardião de todas as relíquias esquerdistas, incluindo a ideia de que o setor público poderia competir com os gênios da era tecnológica em criatividade, agilidade, empreendedorismo e visionarismo.
Elon Musk, CEO da Tesla Patrick Pleul/Pool/Getty Images
A escolha de Elon Musk como pessoa do ano da Time trouxe para mais perto dos mortais comuns o ambiente de ficção científica vivido no presente pelo homem mais rico do planeta, nascido na África do Sul, filho de um pai “horrível”, portador de síndrome de Asperger e piadista de nível primário que tuíta quando está sentado no “trono” e faz relatos sobre os resultados (66 milhões de seguidores acompanham os detalhes).
“Eu ficaria surpreso se não estivermos pousando em Marte dentro de cinco anos”, disse ele à revista, contrariando todos os prognósticos. A Tesla de Musk hoje domina dois terços do mercado de carros elétricos, o que lhe dá um poder de barganha enorme, embora ainda longe de comparável ao monopólio das redes sociais e dos mecanismos de busca, que podem induzir, seduzir, arrebatar, cooptar, censurar e dar a última palavra sobre quem diz o que no mundo digital onde estaremos vivendo mais do que nunca.
“O poder não corrompe os homens; os tolos, no entanto, se chegarem a uma posição de poder, corrompem o poder”, dizia o frasista George Bernard Shaw. Os bilionários que estão moldando o futuro são gênios que conquistaram o direito de guiar a humanidade rumo a um futuro que não temem projetar agora ou tolos que sabem fazer muito bem as atividades originais onde foram tão afortunados, mas se metem em campos que não lhes dizem respeito ou deveriam, como acha o Guardian, ser reserva de instituições de Estado?
“Conhecimento demais é uma desgraça”, é uma frase atribuída a Lorenzo de Medici, da família de banqueiros florentinos que financiou o Renascimento e um jovem e promissor intelectual chamado Nicolau Maquiavel.
Os bilionários contemporâneos que inundam de dinheiro seus projetos prediletos correm na pista oposta. Querem todo o conhecimento que podem adquirir e monetizar — de preferência antes dos concorrentes. E sentados no “trono”.
Publicado em VEJA de 22 de dezembro de 2021, edição nº 2769
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A tecnologia tornou mais fácil e vantajoso vender roupas velhas
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The Economist 18 DE DEZEMBRO DE 2021(Tradução Evandro Milet com Google tradutor)
A flat white* pode durar três minutos; uma garrafa de uísque de qualidade por ano, se for saboreado lentamente. Normalmente, os iPhones são substituídos após dois ou três anos e os carros após uma década ou mais. Algumas posses provavelmente sobreviverão a você, principalmente a sua casa. Algumas civilizações sobreviveram: veja as joias da Roma Antiga. Tudo o que você possui está em um espectro, com bens de consumo, como um café ou jornal, em uma extremidade e bens de investimento, como uma casa ou um diamante, na outra. No meio estão bens duráveis ou “ mais ou menos duráveis”, como carros, mesas de centro e máquinas de lavar.
Os bens de investimento se degradam tão lentamente que, se escassos, seu valor pode aumentar. Os duráveis têm utilidade e, portanto, valor por muitos anos, mas tendem a se depreciar enquanto você os possui. (Exceções raras incluem carros antigos e edições do pouso na Lua do New York Times.)
A localização dos bens neste espectro determina não apenas quanto tempo eles duram, mas que tipo de mercado se desenvolve para comercializá-los. Muito mais pessoas compram casas usadas ou alugam propriedades do que compram novas, e apenas cerca de um quarto das compras de automóveis são de veículos novos. Ninguém, ao contrário, tenta revender alface ensacada. A roupa fica no meio. Artigos de couro ou jeans bem feitos podem durar uma década; uma camisola de seda fina uma temporada. Mas a durabilidade não é o único fator. A moda também é importante: o desejo pode ser passageiro.
Ainda mais em uma era de cadeias de suprimentos just-in-time e influenciadores de mídia social. As pessoas agora gastam uma parcela menor de sua renda em roupas do que antes, mas o número de itens comprados a cada ano aumentou. Muitos itens são usados algumas vezes antes de serem descartados; 95% das roupas que os americanos enviam para aterros sanitários estão em boas condições para serem reutilizadas ou revendidas. Isso é um desperdício e preocupante para o meio ambiente. Estimativas confiáveis são escassas, mas estudos da indústria calculam que a fabricação e distribuição de roupas respondem por entre 2% e 8% das emissões globais de carbono. A indústria da moda provavelmente emite mais carbono do que a aviação (3% das emissões) ou o transporte marítimo (2%).
No entanto, a tecnologia está reduzindo a fricção no comércio de todos os tipos. Isso começou nos mercados financeiros, onde algoritmos fantásticos e grandes quantidades de dados empurraram os custos de negociação praticamente para zero. Mais recentemente, plataformas online como OpenDoor e Redfin, que usam dados sobre características e localizações de propriedades para estimar valores de casas por meio de algoritmos, começaram a reduzir as comissões dos agentes imobiliários. A tendência então se estendeu para além dos bens de investimento. Isso foi totalmente mais radical, pois criou mercados onde nenhum existia. Veja o Airbnb e o Uber, que transformaram casas vazias e carros parados em fontes de renda.
Agora, mudou-se para bens no meio do espectro de consumo-investimento. Uma década atrás, você teria dificuldade para se livrar de roupas de segunda mão, quanto mais para ser pago por isso. Esvaziar o armário significava ir a uma loja de caridade. Alguns itens de alto valor poderiam ser revendidos, diz Julie Wainwright, fundadora do The RealReal, um site on-line de roupas de segunda mão, mas principalmente em “lojas de penhores ou lojas de produtos em consignação, onde a experiência e os pagamentos não eram bons” .
Tudo isso significava que o mercado, em linguagem de economista, era fraco e sem liquidez. Combinar compradores e vendedores era complicado; as transações eram raras; as comissões eram altas. “Um tipo de mercado ilíquido costumava ser o mercado de bugigangas no sótão”, diz Alvin Roth, um economista da Universidade de Stanford que ganhou um prêmio Nobel por seu trabalho sobre estrutura de mercado. “Mas a Internet tornou possível ter seu gramado vendido no eBay.”
A indústria da moda provavelmente emite mais carbono do que a aviação ou navegação
Depois que o Airbnb e o Uber impulsionaram a ideia de uma economia compartilhada para o mainstream, as empresas que transformam roupas usadas em uma classe de ativos não ficaram muito atrás. Tal como acontece com hospedagem e transporte, não apenas a revenda, mas o aluguel foi revolucionado. By Rotation e Rotaro agem como aplicativos de economia compartilhada para guarda-roupas. Agora, quer as pessoas estejam revendendo bugigangas, emprestando roupas velhas, alugando um quarto vago ou pegando passageiros em suas horas vagas, elas estão fazendo um uso melhor de seus bens do que antes.
Em 2021, roupas revendidas renderam cerca de US$ 15 bilhões, ante menos de US$ 1 bilhão em 2013. Outros US$ 21 bilhões foram gastos em roupas de lojas de caridade e brechós. O total gasto em roupas de segunda mão, cerca de US$ 36 bilhões, é um pouco maior do que os US $30 bilhões gastos em “fast fashion” em lojas como Zara ou h& m. Em 2025, de acordo com a GlobalData, uma empresa de pesquisa, o valor das roupas revendidas e em brechós aumentará para US$ 77 bilhões, quando as receitas de revenda triplicarão para US$ 47 bilhões anualmente e as receitas das lojas de caridade subirão para US$ 30 bilhões. As receitas combinadas superarão as do fast fashion, que devem crescer para apenas US $40 bilhões.
Os modelos de negócios dos revendedores de roupas online variam. O RealReal e Vestiaire Collective visa a moda sofisticada – pense em bolsas Chanel e mocassins Gucci. Eles facilitam as vendas, por exemplo, enviando mensageiros para coletar itens. Mas eles são exigentes com o que pegam. O RealReal cobra pelo menos 20% do preço de venda (e até 60%). Em troca, eles se posicionam entre compradores e vendedores, definindo ou sugerindo preços, organizando o envio e autenticando as roupas para que os compradores possam confiar que suas compras são genuínas.
ThredUP também toma posse de itens, mas aceitará qualquer coisa de que um vendedor queira se livrar, de marcas de fast-fashion da moda a etiquetas de estilistas, antes de classificar, precificar e listar itens que passam por uma inspeção de qualidade (os rejeitos são devolvidos ou reciclados ) Os usuários recebem uma fração do preço de venda (tão pouco quanto 5% para um item de $ 5; até 80% para aqueles que vendem por mais de $ 200). Outros, como Depop e Poshmark, são plataformas ponto a ponto. Isso permite que os usuários listem seus próprios itens a um preço de sua escolha, mas também permitem que eles façam o trabalho braçal e o envio. Eles aceitam comissões de taxa fixa simples: Depop’s é de 10%; Poshmark 20%.
de bolsas para bens valiosos
Todos agora estão firmemente estabelecidos. O RealReal se tornou o primeiro a abrir o capital em 2019. ThredUp and Poshmark foram listadas em 2021. A Depop, que foi fundada na Grã-Bretanha, foi adquirida pela Etsy, um mercado online com sede em Nova York, em junho. Vestiaire permanece privada. Entre eles, esses revendedores de moda estão avaliados em cerca de US$ 8,4 bilhões, uma pequena fração da capitalização de mercado dos gigantes da moda rápida, Inditex (que possui Zara) e Hennes e Mauritz (que possui h & m junto com & Other Stories, COS e Weekday ), de $ 100 bilhões e $ 30 bilhões, respectivamente.
Mas os varejistas também acreditaram na ideia de que roupas velhas podem ser vendidas. thredUP trabalha com marcas de rua como a Madewell, que agora oferece itens usados (ou “pré-aprovados”) junto com coisas novas nas lojas e online. As marcas podem personalizar o que pegam. “Madewell queria contar uma história particular sobre jeans”, diz James Reinhart, o cofundador da thredUP. A mercadoria e a tecnologia da thredUP estão por trás dos braços de revenda de muitos varejistas importantes, como o Walmart. Os lucros são divididos entre o varejista, a thredUP e os vendedores que enviam os produtos para serem revendidos.
O tédio dos bloqueios de covid-19 pode ter impulsionado a revenda, dando às pessoas tempo para limpar seus guarda-roupas e navegar na moda de segunda mão online. De acordo com estimativas da GlobalData, no ano passado houve mais de 33 milhões de novos compradores e 36 milhões de novos vendedores de roupas velhas.
A ideia de que roupas são para uma temporada, não para sempre, é ainda mais clara no mercado de aluguel pessoa a pessoa. Eshita Kabra-Davies criou o By Rotation, um aplicativo de troca de guarda-roupa, em 2019. Ele permite que os usuários listem itens disponíveis para empréstimo. A taxa é geralmente de cerca de 5% do preço de varejo de uma roupa por dia. Os vestidos costumam ser alugados por três ou quatro dias, para usar no fim de semana ou para tirar férias. A Sra. Kabra-Davies se inspirou ao experimentar um serviço americano que alugava roupas de sua propriedade, apenas para ficar desapontada quando a seleção parecia desatualizada. “Na verdade, quero pegar emprestado as roupas que as mulheres estão usando no Instagram agora”, diz ela. “Foi quando pensei que deveríamos simplesmente deixar as pessoas compartilharem.”
Ao alugar roupas, assim como ao permitir que estranhos entrem em seu carro ou em sua casa, vem a preocupação de que eles estraguem seus bens preciosos. By Rotation permite que os credores cobrem mais dos mutuários se uma bainha estiver rasgada ou um vestido manchado (intervém se o proprietário e o mutuário não concordarem). Mas contratempos, especialmente aqueles que requerem intervenção, são raros, diz a Sra. Kabra-Davies. E os rendimentos do aluguel podem aumentar rapidamente. Alguns credores frequentes com guarda-roupas grandes ganham até £ 2.500 ($ 3.300) por mês.
As roupas não são o único bem durável de alto valor que é compartilhado mediante o pagamento de uma taxa. FatLlama, uma plataforma britânica, permite que as pessoas aluguem qualquer coisa (equipamentos de câmera sofisticados funcionam bem). De fato, a ideia de alugar bens duráveis, ou parecidos com duráveis, faz tanto sentido que é surpreendente que não tenha decolado antes. No caso das roupas, pode ser porque as percepções precisavam mudar. Apenas amigos próximos poderiam ter sido solicitados a emprestar um casaco ou vestido – e mesmo assim eles podem não compartilhar de seu gosto, ou mesmo medidas.
A simples ideia de que um item possa ser alugado ou revendido no futuro muda a maneira como os consumidores abordam a compra inicial. A Sra. Wainwright, do The RealReal, diz que a maioria de seus usuários costuma fazer compras em lojas de departamentos chiques. Suas pesquisas proprietárias descobriram que eles “estão começando a verificar o RealReal primeiro para ver como um item de luxo retém valor no mercado de segunda mão antes de fazer compras no mercado primário”. Ou seja, eles têm maior probabilidade de comprar roupas de alta qualidade, sabendo que pelo menos parte do custo pode ser recuperada.
A maior mudança de percepção, no entanto, não ocorre entre as pessoas que vendem ou alugam suas roupas, mas na outra ponta do negócio. Uma pesquisa realizada em 2016 pela GlobalData revelou que 45% dos adultos compraram roupas em segunda mão, ou disseram que considerariam fazer isso. Essa participação agora é de 86%. Os influenciadores documentam as viagens a lojas de caridade e exibem suas compras. Uma década atrás, usar roupas de segunda mão não era legal, e os adolescentes frequentavam a Abercrombie & Fitch ou Jack Wills. Passeie por um bairro moderno hoje – Williamsburg no Brooklyn, digamos – e os transeuntes terão comprado suas roupas em brechós como Goodwill and Housing Works ou em lojas selecionadas como a Awoke Vintage.
Desta forma, a mudança para a moda de segunda mão é auto-reforçada, com os gostos da moda mudando porque … bem, porque os gostos da moda mudaram. Uma vez que um criador de tendências veste algo, outros procuram imitar o visual. Quanto mais as pessoas vendem suas coisas antigas, mais bacana também fica o uso delas. ■
ilustração: franziska barczyk
*Flat White é uma bebida feita a partir da mistura de café espresso e leite vaporizado, com uma camada bem fina de espuma por cima. É um drink que tem uma possível origem na Austrália ou Nova Zelândia. O seu nome está relacionado à fina camada de espuma de leite vaporizado encontrada no topo da bebida.
Este artigo apareceu na seção Especiais de Natal da edição impressa sob o título “Lixo de uma mulher”
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As empresas não precisam gastar fortunas patrocinando influencers de carne e osso. Basta criar máquinas que fazem todo o serviço — e jamais decepcionam
Por André Sollitto – Veja 10 dez 2021
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Em 2003, nos primórdios do e-commerce no Brasil, o empresário Frederico Trajano criou uma personagem virtual para “humanizar” o processo de compras no Magazine Luiza. Tia Luiza, como era chamada, ajudaria os ainda inseguros consumidores a colocar informações sensíveis, como o número de seus cartões de crédito, no site da empresa. Corta para 2021. A mesma personagem, rebatizada de Lu, é hoje a influenciadora virtual mais popular do planeta, com 5,7 milhões de seguidores só no Instagram. Nos últimos anos, ganhou novo visual, tornou-se a voz da companhia nas redes e até dançou ao vivo na TV, fazendo uma coreografia ao lado de Anitta, em uma amostra da avançada tecnologia por trás de sua existência.
LU – Pioneira no universo das conselheiras virtuais, hoje é a mais seguida do mundo no Instagram e já dançou ao vivo ao lado de Anitta na televisão – @magazineluiza/Instagram
A Lu é a face mais conhecida de um fenômeno que vem ganhando força: a popularidade de influenciadores digitais no sentido literal da expressão. Eles são criações computadorizadas dotadas de personalidade, visual chamativo e outras características para gerar identificação com os seguidores. A inspiração vem do entretenimento. “Para ter referência, estudamos muito os personagens da Pixar”, diz Pedro Alvim, gerente sênior de marca e redes sociais do Magazine Luiza. A quantidade de iniciativas recentes mostra que a estratégia pegou. Afinal, não faz muito sentido gastar dinheiro patrocinando influenciadores de carne e osso se as empresas podem criar seus próprios robôs — e, claro, controlar tudo o que dizem e fazem.
SATIKO – Inspirada em Sabrina Sato, a figura tem personalidade própria e conquistou 16 000 seguidores poucos dias após sua apresentação oficial ao público – @oficialsabrinasato/Facebook
É fácil entender a empolgação pelo modelo. Os influenciadores virtuais podem estar em vários lugares ao mesmo tempo e não têm as limitações de seus concorrentes humanos, como hora certa para trabalhar. Garantem, ainda, uma comunicação sem ruídos, avessa a tolices, característica decisiva em um momento em que os usuários das redes sociais exigem posicionamentos sobre demandas da sociedade. “Na internet, as marcas se comportam como pessoas e são cobradas como tal”, afirma Mafê Albuquerque, vice-presidente global de marketing da Havaianas. A fabricante de calçados lançou sua assistente virtual, Iana, em 2020. Há alguns dias, ela foi transformada em uma persona 3D que atuará como embaixadora do Twitter da companhia.
O ecossistema de personagens virtuais também é povoado de criações sem conexão direta com marcas, em um modelo que se aproxima dos influenciadores humanos. É o caso de Lil Miquela, fruto do trabalho da startup americana de tecnologia Brud. Com visual extremamente realista, ela já conquistou 3 milhões de seguidores no Instagram. Miquela aparece em fotos ao lado de famosos como Ariana Grande e “publica” cenas de sua rotina, seja na praia, seja na balada. Não à toa, participou de campanhas para grifes como Prada e Calvin Klein.
LIL MIQUELA – Com pouco mais de 3 milhões de seguidores no Instagram, a criação da startup Brud estrelou campanhas de grifes como Prada e posa ao lado de celebridades reais – @lilmiquela/Instagram
Celebridades estão aderindo à digitalização. O caso mais recente é o de Satiko, avatar inspirado em Sabrina Sato. “Construímos uma personagem com algumas características dela, além de tudo o que ela queria ter, mas não tem”, diz Ricardo Tavares, CEO da Biobots, startup responsável pelo projeto. Satiko, por exemplo, curte esportes radicais. Com isso, faz mais do que Sabrina, alcançando um público diferente e consolidando ainda mais a sua presença nas redes. Desenvolvida ao longo de cinco meses, Satiko foi o projeto de estreia da startup, que agora já tem uma fila de empresas interessadas em criar projetos semelhantes.
Esse tipo de interação deve se tornar ainda mais frequente — e ninguém parece achar isso estranho. O público gamer já se acostumou a visitar exposições, participar de eventos e assistir a shows em ambientes virtuais, representados por seus avatares. A pandemia teve papel importante nessa transformação. “Fomos forçados a fazer um uso mais frequente de ferramentas como chatbots e atendentes virtuais”, diz João Vitor Rodrigues, professor de marketing digital da ESPM. “Isso ajuda a naturalizar a tecnologia.” Quem diria, os influenciadores humanos, que pareciam invencíveis, têm agora rivais que ameaçam a sua primazia. Talvez um dia todos eles serão substituídos por robôs.
Publicado em VEJA de 15 de dezembro de 2021, edição nº 2768
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Horizon Worlds, plataforma social de realidade virtual da Meta está em fase de testes; voluntária disse ter sofrido abuso de estranho em praça digital
O Globo e Agências Internacionais 17/12/2021
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A empresa Meta, novo nome da companhia controladora de Facebook, Instagram e WhatsApp, liberou a plataforma de realidade virtual Horizon Worlds para testes nos Estados Unidos e Canadá.
É parte do plano do líder da empresa, Mark Zuckerberg, de explorar as possibilidades do metaverso, ambiente digital que mescla os mundos físico e virtual, onde as pessoas interagem por meio de avatares.
Milhares de voluntários podem visitar praças públicas virtuais no universo digital e participar de brincadeiras, conversas e eventos. Em uma dessas experiências, uma mulher relatou que seu avatar virtual foi “apalpado” por um estranho.
Nas últimas semanas, diferentes comportamentos abusivos foram denunciados, incluindo o que já é considerado o primeiro caso de assédio sexual registrado na história dessa plataforma, que é um ambiente do metaverso: termo usado para descrever espaços compartilhados imersivos acessados por meio de diferentes plataformas, onde o físico e o digital convergem.
Ou seja, um “mundo virtual” à parte, controlado por pessoas reais.
A Horizon Workrooms é a plataforma dedicada a reuniões virtuais dentro do Metaverso, também de Zuckerberg Foto: Reprodução
Metaverso: Ambiente que mescla físico e virtual é a nova aposta de Zuckerberg Foto: Reprodução/FacebookNo metaverso idealizado por Zuckerberg, mundos virtuais em 3D poderão se conectar com experiências reais Foto: Reprodução/FacebookNo metaverso, corpos físicos se misturam com avatares e público poderá curtir um evento sem que o espaço físico limite o tamanho do público no local Foto: Reprodução/FacebookNo metaverso, fronteira entre o físico e o digital é interrompida Foto: Reprodução/FacebookNo novo ambiente ‘metaversal’, artes serão em 3D e poderão proporcionar experiência imersiva Foto: Reprodução/Facebook
No metaverso, ações do mundo físico podem ser reproduzidas no mundo digital e vice-versa Foto: Reprodução/FacebookExperiência imersiva deve mudar a forma como realizamos compras Foto: Reprodução/Facebook
Assédio em realidade virtual
O incidente ocorreu no Plaza, o principal ambiente público do Horizon Worlds, no dia 26 de novembro.
Na denúncia realizada, a vítima escreveu que “assédio sexual não é brincadeira na internet normal, mas estar em realidade virtual adiciona toda uma nova camada que faz o evento ficar ainda mais intenso”.
A voluntária, que não teve o nome divulgado, relatou que outras pessoas presentes no momento “apoiaram o comportamento” e não prestaram ajuda, o que a deixou ainda mais desconfortável.
Empresa cogita aprimorar funções de bloqueio
O vice-presidente do projeto, Vivek Sharma, falou ao The Verge que o caso foi “absolutamente infeliz” e disse que a companhia já analisou o ocorrido.
Contudo, Sharma afirmou que a própria vítima poderia ter usado mecanismos de segurança presentes no metaverso — a chamada Safe Zone (“Zona Segura”).
“Zona Segura” do metaverso Horizon Universe Foto: Reprodução/Facebook
— Esse é um bom feedback para nós, porque queremos tornar (o recurso de bloqueio) mais fácil e localizável — destacou.
A Zona Segura, quando acionada, abre um menu especial e cria uma “bolha” no avatar, permitindo que ele fique isolado, coloque pessoas ao seu redor no mudo ou em modo de bloqueio, além de permitir a realização de denúncias.
A Meta ainda reconheceu que a notificação foi importante, e pode utilizar esse tipo de caso para facilitar a abertura do modo de segurança em versões futuras, tornando a ação mais intuitiva.
O que é o metaverso?
O metaverso é possibilitado por tecnologias como óculos de realidade virtual (RV), roupas com sensores tácteis e conexões de internet ultrarrápidas, e já está presente em jogos populares como “Roblox”, “Fortnite” e “Minecraft”.
No caso do Horizon Worlds, os usuários utilizam fones de ouvido e o headset da empresa, o Quest 1 e Quest 2, e interagem entre si.
O 5G é o ar que se respira no metaverso, ambiente que mescla o mundo físico e virtual no qual boa parte da população mundial poderá socializar em poucos anos Foto: Angel Garcia/BloombergCom sinal turbinado no celular por conta do 5G e o avanço da Internet das Coisas, consumidor usará cada vez mais dinheiro digital Foto: Angel Garcia/BloombergProdutos de consumo como tênis, geladeiras, cafeteiras e até escovas de dente já contam com chips e sensores para exercer funções de forma autônoma ou prover dados Foto: DivulgaçãoCom conexão mais veloz, devem avançar tecnologias como as do carro autônomo e a telemedicina Foto: Alex Kraus/BloombergA chegada do 5G deve ampliar ainda mais o mercado brasileiro de games. Por aqui, os 84 milhões que jogam algum tipo de game representam 70% dos brasileiros com acesso à internet Foto: Arquivo
A instalação das redes para a nova geração de telefonia gera negócios e empregos. Na foto, linha de produção de placas de radio 5G na fábrica da Ericsson em São José dos Campos (SP) Foto: Roosevelt CássioUso do espaço urbano é um dos entraves para instalação de antenas de telefonia, responsabilidade dos municípios. O 5G demanda cinco vezes mais que a rede atual. Foto: Ian Forsyth/BloombergLeilão do 5G destravou R$ 40 bilhões em investimentos na telefonia, já começa a influenciar negócios e aumentou a competição entre as empresas do setor Foto: Isac Nóbrega/PR
Especialistas explicam que o metaverso encontrou espaço fértil para se desenvolver primeiro na indústria dos games. As tentativas começaram ainda por volta dos anos 2000, com jogos virtuais como o Second Life, da Linden Lab.
Após uma série de tentativas de consolidação desse espaço virtual, games como Roblox e Fortnite são considerados os principais protagonistas que já formalizaram sua entrada no metaverso.
Ambas as plataformas costumam realizar uma série de experiências imersivas com capacidade para milhares de usuários em tempo real.
Mercado bilionário
Segundo projeções da Bloomberg Intelligence Unit, o metaverso deve movimentar US$ 800 bilhões até 2024.
Surgido no mundo dos games, essa realidade digital entrou no mundo corporativo, atraiu marcas e celebridades e fisgou consumidores ávidos por novidades, ainda que só virtuais.
A Gucci já vendeu uma bolsa Dionysus, que só existe neste universo paralelo, na plataforma de games Roblox pelo equivalente a R$ 21,8 mil (ou 350 mil Robux, a “moeda local”).
E uma live do avatar do cantor Travis Scott no game Fortnite atraiu nada menos do que 12 milhões de pessoas simultaneamente.
— A próxima onda da internet vai estar ligada ao metaverso. As empresas já entenderam que estar nos games é necessário para que elas vendam seus produtos. A atenção dos consumidores, assim como hoje está nas redes sociais, vai estar nesse ambiente. E, naturalmente, as empresas vão precisar estar lá — diz André Micelli, coordenador do MBA de Marketing e Negócios Digitais da FGV.
5G e ‘gadgets’ para imersão
O potencial desse novo ambiente alimenta uma onda de financiamentos a start-ups dispostas a ajudar a construir as bases para que o metaverso se incorpore ao cotidiano de bilhões de pessoas, do lazer ao mercado de trabalho. São vários os exemplos.
A Magic Leap, “unicórnio” que produz óculos de realidade aumentada, captou US$ 500 milhões para a criação de um fone de ouvido.
O SoftBank, gigante que é um dos principais financiadores globais para start-ups, criou um fundo que investirá US$ 170 milhões na plataforma de metaverso Naver Z Corp.
De acordo com dados do CB Insights, há pelo menos 90 start-ups empenhadas em construir o metaverso.
Essa indústria abrange desde equipamentos (hardware), passando pelos wearables (dispositivos eletrônicos, como óculos de realidade virtual), softwares de computação 3D e processos computacionais como NFTs (sigla para tokens não-fungíveis, uma espécie de selo virtual de autenticidade de objetos virtuais) e o blockchain (sistema que garante a segurança da operação).
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Não importa qual indústria ou setor econômico, promover produtos e serviços baseados nos valores, comportamentos, hábitos e opiniões de cada consumidor é condição básica (e inevitável) para que empresas sigam competitivas no mercado
Leonardo Pujol MIT Sloan Review 09 de Dezembro 2021
Pare e pense: qual é a característica de sua personalidade ou “essência” que faz você se diferenciar de todas as outras 7,9 bilhões de pessoas que habitam o planeta? O que faz de você um ser humano único? Essa é a pergunta que organizações tentam descobrir há décadas – e que, com o advento da internet, esperam responder antes de suas concorrentes. O prêmio? A possibilidade de oferecer produtos e serviços especialmente moldados aos seus gostos, opiniões, hábitos e comportamentos.
Foi essa reflexão que levou à criação da DNA 11, fundada em 2004 na província de Ontario, no Canadá, por Adrian Salamunovic e Nazim Ahmed. Os empreendedores pensavam há anos em criar algum tipo de presente que fosse totalmente personalizado – e a resposta encontrada foi o DNA, o conjunto de moléculas que fazem de cada um de nós indivíduos únicos (com exceção de gêmeos univitelinos, claro). Assim, a empresa consiste em coletar amostras de DNA e transformá-las em peças de arte 100% customizadas, isto é, jamais uma pintura será igual a outra.
A inovação trazida pela DNA 11 é o exemplo perfeito de como os negócios são capazes de colocar o consumidor no centro de suas estratégias, provendo produtos customizados e intransferíveis. É a expressão máxima da chamada era da hiperpersonalização.
Hiperpersonalizar is the new black
De acordo com Caue Moresi, head de insights & data da Capgemini Brasil, a hiperpersonalização vai muito além de internalizar e digitalizar políticas de customer experience, criar um novo modelo de atendimento ao cliente ou obter uma montanha de dados de um cliente. A hiperpersonalização é capaz de traduzir as demandas mais profundas e particulares de cada consumidor, respeitando suas aspirações, razões e emoções, e somente é possível com inteligência de dados.
“É usar inteligência analítica para oferecer o produto certo, para a pessoa certa, na hora ideal e com preço justo. É ter a habilidade de antecipar tendências de compra, promovendo uma jornada customizada, fluída e dinâmica. As variáveis estão cada vez mais abertas e quantos mais dados qualificados estiverem disponíveis para as organizações, mais a estratégia de hiperpersonalização se torna possível e condição básica para que empresas sigam competitivas no mercado”, afirma Moresi.
Embora a cultura data-driven esteja, portanto, no epicentro da inovação e da transformação digital, as empresas precisam lidar com a quantidade exponencial de dados gerados diariamente. De acordo com o Seed Scientific, em 2020, havia 44 zetabytes de dados disponíveis no mundo. Em 2025, é esperada uma geração diária de 43 exabytes – isso significa que, em apenas 95 dias, será gerado o mesmo volume de dados de 2020.
Para isso, Moresi destaca a importância do desenvolvimento adequado de uma estratégia de ecossistema de dados. Faz-se necessário conectar informações concebidas por diferentes segmentos de mercado em diferentes áreas do negócio e fazer uso em larga escala de APIs, somados à ciência de dados para geração de insights. E diante desse complexo ecossistema, o uso de inteligência artificial se torna grande aliada.
O emprego da IA para hiperpersonalizar
O termo “inteligência artificial” (IA) pode parecer recente ou mesmo carregar ares futuristas, mas surgiu em 1956 durante uma conferência de tecnologia na Dartmouth College (EUA). Desde então, o progresso da IA foi lento, exceto pelos últimos 10 anos, quando se observou um intenso desenvolvimento da tecnologia. Se hoje existem carros autônomos, aplicativos que podem detectar doenças e plataformas de streaming que parecem adivinhar o que gostamos de assistir, é justamente por causa do avanço significativo da inteligência artificial.
Isso ficou ainda mais claro após a eclosão da pandemia. Segundo um estudo realizado em 2020 pelo Capgemini Research Institute, 84% das empresas brasileiras – dos setores automotivo, varejo, bancário e de seguros – disseram investir em algum sistema de IA nas interações com clientes.
A pesquisa também revelou que oito em cada dez empresas têm de 30% a 50% das interações com os consumidores através da inteligência artificial. E que sete em cada dez clientes brasileiros esperam aumentar as interações online mesmo após o fim da pandemia. O levantamento ouviu 1.060 líderes de empresas com pelo menos US$ 1 bilhão em receita anual em 2019, além de 5,3 mil consumidores – 500 deles brasileiros.
Outra pesquisa realizada pelo Capgemini Research Institute – com empresas que injetaram pelo menos 1 bilhão de dólares em ações relacionadas à IA – mostra que o uso da tecnologia é recompensador: 97% das 950 organizações entrevistadas disseram ter atingido ou superado as expectativas relacionadas ao investimento. Entre as vantagens está a melhor compreensão sobre as preferências e necessidades dos clientes. Afinal, a cada interação digital, o usuário compartilha informações. Existem diversas soluções e programas de IA capazes de analisar esses dados. A partir dessa análise, é possível sugerir ofertas de maneira hiperpersonalizada ao cliente.
Entre quem mais se beneficia da hiperpersonalização estão as áreas de bens de consumo, varejo, telecom e instituições financeiras. “A análise do histórico de consumo individual do cliente e evolução do seu perfil, como mudança de estado civil, condição empregatícia, cidade de residência, são indispensáveis para a geração de novas ofertas nesses setores”, afirma Caue Moresi.
“A clusterização clássica tende a perder força. Em instituições bancárias, por exemplo, significa que a oferta única e exclusivamente baseada na renda será substituída por uma paleta dinâmica de serviços hiperpersonalizados, considerando outras informações analisadas pela IA, como estilo de vida e investimentos. Com o uso inovador e otimizado das ferramentas digitais, os bancos substituem a comunicação em massa por uma conversa personalizada.”
Aliás, é exatamente o que a maioria dos clientes quer. Conforme a Capgemini, 86% dos correntistas concordam em compartilhar seus dados para ter uma experiência mais personalizada. No entanto, o percentual de clientes de bancos e seguradoras que confiam na interação com soluções de IA é de 50%, atualmente. Na área automotiva, a confiança é de 54%; em bens de consumo e varejo, 44%. A média geral é de 49,6%.
Hiperpersonalização na prática
Quando uma empresa decide investir em dados e IA na tentativa de melhorar a experiência do consumidor, estreitando laços e oferecendo produtos de forma individualizada ao seu contexto, é necessário primeiramente definir como o dado será extraído de forma ética e transparente. O mix de canais de captura inclui login através de redes sociais, navegação no e-commerce, preenchimento de dados no aplicativo, interação com chatbot, cadastro em loja física ou em landing page. A tomada de decisão é feita pelo líder da estratégia.
Os engenheiros de dados são os responsáveis por captar as informações e estruturá-las. Para o desenvolvimento dos protótipos e os primeiros casos de uso, também são necessários profissionais como analista de negócio, analista de business intelligence (que lida com visualização) e cientista de dados – que é quem identifica padrões e obtém os insights.
“O cientista de dados faz muito uso da estatística, estimando a probabilidade de conversão de determinada oferta para determinado cliente, por exemplo. É de extrema importância que o cientista de dados tenha conhecimento sobre o domínio em que está desenvolvendo seu modelo preditivo”, explica Caue Moresi, da Capgemini. O restante da equipe é formado por: gerente de projetos, UX designer, engenheiros de machine learning, de software, entre outros profissionais da TI.
Os primeiros projetos nascem após a identificação dos desafios de negócio. É necessário a exploração de dados e formular hipóteses com potencial de agregação de valor. Se os insights apresentam potencial de retorno e viabilidade técnica mínima, o time de cientistas desenvolve um modelo preditivo utilizando dados reais – ajustando o comportamento da IA.
O aperfeiçoamento evita problemas semelhantes ao que a Amazon enfrentou em 2015. Na ocasião, a companhia percebeu que o algoritmo usado para contratar funcionários era tendencioso contra as mulheres. Isso porque a ferramenta se baseava no número de currículos enviados nos últimos dez anos. Como a maioria dos candidatos eram homens, a máquina acabou treinada para favorecer os candidatos masculinos.
Uma vez feitos os ajustes, a solução baseada em IA é finalmente implementada. O processo de gestão integrada da personalização continua com a execução da campanha de marketing. Aqui, é medida a taxa de retorno em cliques, rejeição e outras métricas – além da personalização propriamente dita. A inteligência artificial é que vai definir o next best offer e orquestrar experiências multicanal para o cliente-alvo. Enquanto isso, na operação, outro algoritmo de inteligência artificial estima a propensão de churn (taxa que indica o cancelamento de serviços) para cada cliente da base, buscando otimizar o relacionamento com o cliente.
“Para disponibilizar soluções éticas e seguras, é necessário estabelecer uma governança adequada e definir padrões internos consistentes. Isso inclui uma liderança responsável (accountability), um código de ética para desenvolvimento de IA, o uso de ferramentas de tecnologia e melhores práticas de design, além de auditorias regulares”, alerta Moresi.
A tendência é que as interações com a tecnologia aumentem e sejam cada vez mais personalizadas. Muitos chatbots, por exemplo, abandonaram o jeitão arcaico e limitado de tempos atrás. A ciência de hoje segue incapaz de criar máquinas superinteligentes como HAL 9000 de 2001: Uma Odisseia no Espaço, mas estratégias de hiperpersonalização e automação são totalmente viáveis.
7 passos para desenvolver soluções de IA seguras na hiperpersonalização, segundo Caue Moresi
Descreva claramente a finalidade das soluções de IA e avalie seu impacto para todos os envolvidos
Utilize IA orientada para ações de sustentabilidade de forma proativa (ESG)
Incorpore princípios de diversidade e inclusão de forma proativa ao longo do ciclo de vida das soluções de IA
Aumente a transparência e explicabilidade com a ajuda de ferramentas de tecnologia
Humanize a experiência e garanta a supervisão humana das soluções de IA
Garanta a robustez tecnológica e segurança das soluções de IA
Conceda aos clientes controles de privacidade para colocá-los no comando das interações de IA
O Fórum: A era da hiperpersonalização é uma coprodução MIT Sloan Review Brasil e Capgemini.
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Elon Musk diz que quer ser generoso com seus críticos. Mas depois de anos combatendo um exército de descrentes na indústria de automóveis e em Wall Street, é difícil para o executivo-chefe da Tesla conter a frustração.
Faz quase uma década que o Model S de sua empresa provou que os carros elétricos poderiam competir com os melhores em estilo e desempenho, e quatro anos desde que seu Model 3 levou a tecnologia a um mercado maior. Durante esses anos, Musk não apenas teve de construir um mercado para veículos elétricos quase sozinho, enquanto lutava contra a falência, como também travou uma batalha em curso com vendedores a descoberto em Wall Street e iniciou discussões com os órgãos reguladores.
“Durante muito tempo, o resto da indústria automobilística basicamente chamou a Tesla e a mim de loucos e fraudes”, disse Musk em entrevista ao Financial Times. “Diziam que os carros elétricos não funcionariam, que não poderiam alcançar a autonomia e o desempenho. E mesmo que o fizessem ninguém os compraria.”
Musk acrescenta que os ativistas da mudança climática ajudaram a empurrar os fabricantes de carros na direção de uma tecnologia mais sustentável. Mas afirma que há um motivo predominante pelo qual eles finalmente se tornaram elétricos: “Até que começamos a tirar sua participação de mercado de modo significativo, eles não reagiram”.
Elon Musk em cerimônia da Tesla em Xangai, China – Aly Song – 7.jan.2019/Reuters
Ele não é o único com essa opinião. Bob Lutz, um ex-vice-presidente da General Motors e presidente da Chrysler que já duvidou das chances de sobrevivência da Tesla, hoje chama o impacto de Musk na indústria automobilística de “inacreditável —nada menos que incrível”. Apontando suas incursões até nos mercados de carros de luxo europeus, Lutz diz: “É por isso que a Mercedes-Benz e a BMW têm tanto medo dele”.
Elon Musk esteve em todo lugar este ano —e não só de maneiras que o distinguem como uma das mais consequentes, embora polêmicas, figuras dos negócios dos últimos tempos.
Armado com 66,3 milhões de seguidores, ele usou sua conta hiperativa no Twitter para promover a dogecoin, criptomoeda que começou como uma brincadeira e cujo nome é uma homenagem a um meme da internet que apresenta um cachorro shiba inu. Ele também continuou a espicaçar os reguladores, incluindo a Comissão de Valores Mobiliários (SEC), apesar de pagar uma multa de US$ 20 milhões (R$ 114 milhões) em 2018 depois que o órgão regulador o acusou de cometer fraude em títulos com seus tuítes.
Embora quase 800 mil americanos tenham morrido com o vírus, Musk, que fez 50 anos este ano, passou a pandemia criticando as restrições da Covid —e os políticos que o acusaram de não pagar impostos suficientes.
Mesmo alguns de seus maiores apoiadores reconhecem uma certa badalação em torno da Tesla. No meio de um boom no mercado de ações, sua avaliação superou a barreira de US$ 1 trilhão (R$ 5,7 trilhões) este ano, tornando Musk a pessoa mais rica do mundo —apesar de vender menos de 2% dos novos carros e caminhões do mundo.
Mas por trás do barulho, do frenesi especulativo e da aparente infração das regras, há uma conquista de grande substância. O FT está nomeando Elon Musk sua Pessoa do Ano porque ele provocou uma mudança histórica na indústria automobilística mundial, em direção aos veículos elétricos. Mesmo que a Tesla de alguma forma falisse no próximo ano —algo que, ao contrário de dois anos atrás, ninguém prevê hoje—, Musk teria transformado uma das indústrias mais importantes do mundo de maneiras que poderão ter profundas implicações para governos, para investidores e para o clima.
Em uma era muitas vezes definida por novas tecnologias, Musk reivindica ser o empresário mais realmente inovador de sua geração.
Os resultados da maneira incomum como Musk assume riscos e força limites não se resumiram aos carros. Sua companhia espacial privada, SpaceX, trouxe o voo espacial tripulado de volta ao solo americano no ano passado, pela primeira vez desde o ônibus espacial. Sua rede Starlink está perto de lançar o primeiro serviço de banda larga comercial via satélite do mundo, e um novo foguete gigante que poderá mudar os orçamentos das viagens espaciais, chamado Starship, aguarda seu primeiro teste de lançamento.
Musk às vezes parece tímido e tropeça nas ideias antes de fazer pronunciamentos abrangentes —muitas vezes sobre o futuro e como a tecnologia o reformulará. Suas declarações são apresentadas como fatos ousados, como que desafiando o ouvinte a contestá-lo. Para os admiradores, isso faz dele um visionário livre das restrições mentais que limitam outros empresários. Mas para os críticos ele personifica uma arrogância tecnocrática subjetiva que desconsidera seu impacto no mundo.
Então Musk acha que a meta que ele definiu para a Tesla há mais de 15 anos, de liderar uma revolução nos transportes, finalmente foi alcançada? “Estou muito encorajado pelo menos pelo que eles [outras fábricas de veículos] estão dizendo. Pelo menos nós temos a palavra.
“Nós fizemos a Tesla basicamente por desespero, não porque pensássemos que seria lucrativa, mas só para mostrar que podia ser feita”, acrescenta ele.
Talvez —mas ela teve resultados financeiros espetaculares. Depois de lutar durante anos para provar que podia ser financeiramente viável, as margens de lucro da Tesla se tornaram surpreendentemente robustas, e muitos investidores decidiram apostar que ela vai liderar uma grande nova indústria global de veículos elétricos e autônomos.
Em um momento em que os tecnólogos e os bilionários se tornaram objetos de crescente desconfiança populista, Musk tem muitos críticos, mas ainda desfruta de um nível de aprovação pública mais alto que muitos. Isso pode ser explicado em parte porque sua marca pessoal se tornou tão entrelaçada com uma cultura popular influenciada por memes e games. Musk acha que é por causa das aspirações que seus produtos tentam realizar.
“Estou apenas tentando levar as pessoas a Marte, e permitir a liberdade de informação com a Starlink, acelerar a tecnologia sustentável com a Tesla, libertar as pessoas da chatice de dirigir carros”, diz ele.
“Certamente é possível que a estrada para o inferno até certo ponto esteja pavimentada com boas intenções, mas a estrada para o inferno é principalmente pavimentada com más intenções.”
Sua pressão sobre os limites e o flerte com a polêmica lhe causaram problemas. A Tesla está sob investigação dos órgãos reguladores de transporte e do mercado de valores dos Estados Unidos, sobre a segurança de sua tecnologia de assistência ao motorista e se ela escondeu riscos de incêndio em seus painéis solares. A franqueza de Musk no Twitter causou uma queixa regulatória que o forçou a abandonar a presidência da Tesla, enquanto suas zombarias dos críticos e provocações aos reguladores esgotaram a paciência até de muitos de seus admiradores.
Às vezes, enquanto atira insultos da segurança de sua conta no Twitter, Musk pode parecer mesquinho e vingativo. O apogeu foi em 2018, quando ele chamou um crítico de “sujeito pedo”, levando a uma denúncia por danos morais e um depoimento de quatro horas no tribunal para afirmar que ele não havia pretendido fazer uma acusação literal de pedofilia.
“Ele é como o presidente Trump —fez muitas coisas boas, mas deveria ter ficado de boca fechada e fora do Twitter”, diz Lutz.
Indagado por que ele zomba publicamente dos reguladores, Musk indica o que afirma ser uma falha da Comissão de Valores Mobiliários para proteger os investidores de especuladores. Sobre o Conselho Nacional de Segurança nos Transportes, ele diz: “Senti que eles queriam mais manchetes do que realmente segurança. Isso é obviamente [algo] que eu não respeito, nem deve ser respeitado.” Mas ele nega qualquer desdém pela regulamentação em si.
“Certamente é possível que algum imbecil reúna o punhado de vezes que discordei dos reguladores, escreva uma reportagem e faça parecer que sou algum tipo de maluco atirando com pistolas.” Ele acrescenta: “Em nenhum momento eu sugeri que qualquer agência reguladora seja cancelada, ou coisa parecida. Não sou algum tipo de libertário impulsivo”.
Então a personalidade de mau menino de Musk no Twitter faz parte de algum plano de marketing elaborado, é um caso de liberar o vapor, ou uma demonstração de ego incontido? Ele ri da pergunta. Tomando uma frase do filme “Gladiador”, ele indaga: “Quero dizer, você não está se divertindo?”, antes de acrescentar: “Não estou dizendo que eu não faça tuítes bobos, é claro que faço. Às vezes dou um tiro no pé. Mas você sabe, no balanço, é divertido e interessante, informativo, o que você quiser”.
Um resultado das peculiaridades de Musk foi fazer da Tesla uma marca muito conhecida sem gastar um único dólar em publicidade, diz Simon Sproule, um ex-diretor de marketing e comunicações da companhia. “Ele rasgou o livro de regras de como os CEOs devem se comportar”, no processo tornando-se quase uma figura da contracultura e alcançando pessoas que normalmente não teriam interesse por carros ou pelo espaço, acrescenta ele.
O impacto de Musk na indústria de carros global demorou a ocorrer. Depois de um sucesso inicial como um dos fundadores do PayPal, o empresário serial nascido na África do Sul investiu na Tesla e se tornou seu presidente em 2004, pouco tempo após sua criação.
Antes da Tesla, diz Lutz, os engenheiros da GM se recusavam constantemente a acreditar que o tipo de baterias de íons de lítio usadas em computadores laptop pudessem produzir energia suficiente para mover um carro. O primeiro carro da Tesla, o Roadster, afinal bastou para convencê-los, acrescenta ele, levando diretamente ao Chevrolet Volt híbrido, uma década atrás. Mas a GM não o seguiu.
A Daimler e a Toyota também pareceram captar um primeiro vislumbre do futuro elétrico que se iniciava, associando-se à Tesla pouco antes de sua entrada na Bolsa em 2010 para usar sua tecnologia de tração elétrica, enquanto fornecia injeções de dinheiro muito necessárias. As alianças não foram duradouras.
“Eles não estavam levando a sério os veículos elétricos, e ficou claro que apenas queriam fazer o menor número de veículos elétricos necessários para cumprir as exigências regulatórias”, diz Musk.
Provar que os carros elétricos podiam ser rentáveis significava derrubar praticamente toda a sabedoria convencional do setor, do modo como as cadeias de suprimentos funcionam até como alcançar os consumidores, diz Pierre Ferragu, analista na New Street Research. A cada vez “ele ouvia ‘isso não é verdade’ e ‘isso não pode ser feito’. E nunca desistiu”, diz ele.
Laurie Yoler, um dos primeiros membros do conselho da Tesla, também atribui a Musk a visão para começar com uma folha de papel em branco e a tenacidade para levar a coisa até o fim. “Ele não tem medo de as pessoas o chamarem de louco”, diz ela. “Muita gente diz que pensa a partir de princípios, mas está apenas sendo incremental. Ele realmente vê a ideia maior.”
A explicação do próprio Musk para o sucesso da Tesla aciona sua paixão pela engenharia. “O que as pessoas que não trabalham comigo não entendem é que sou em primeiro lugar e principalmente um engenheiro”, diz. “Como a Tesla e a SpaceX tiveram sucesso quando outras companhias têm muito mais recursos e dinheiro que eu? O problema é que elas não podem me contratar.” Ele também diz que a dedicação à excelência na engenharia e o foco para desafios importantes foram críticos para atrair grandes talentos da engenharia.
“Quando você vai atrás do problema mais difícil do mundo, as melhores pessoas do mundo querem vir trabalhar com você”, diz Gene Berdichevsky, um ex-executivo de baterias da Tesla. “Durante uma década inteira a Tesla foi o único nome no mercado.”
Musk diz que passa sete dias e 80 a 90 horas por semana entre os projetos mais críticos da Tesla e da SpaceX. “Não é que eu tente microadministrar arbitrariamente”, diz. “Na verdade estou envolvido na triagem: qual é a coisa mais útil que eu poderia fazer? E sou muito bom em tecnologia e engenharia. Cada um tem seus talentos, esse é um dos meus. Não sei cantar ou dançar, mas sei fazer isso.”
Apesar da riqueza —e dos US$ 13 bilhões (R$ 74,2 bilhões) em ações da Tesla que ele embolsou no último mês—, Musk diz que não tem uma casa ou um barco, nem viaja de férias. “Não acho que muita gente realmente quisesse trocar de lugar comigo”, diz ele. “Pretendo trabalhar enquanto conseguir e ser produtivo e contribuir —essa é a minha natureza. Eu gostaria de trabalhar um pouco menos, isso seria bom.”
Dias depois de dizer isso, um tuíte de Musk em que ele dizia estar “pensando em deixar meu emprego” fez cabeças girarem em Wall Street. Era mais uma provocação de Musk, ou algo a ser levado a sério?
“Infelizmente, as pessoas o levam ao pé da letra e não percebem quando é irônico”, diz Yoler. Segundo ela, as pessoas que não conhecem Musk muitas vezes não notam que ele tem um “ótimo senso de humor”. Mas, acrescenta, às vezes seus tuítes parecem o produto de exaustão e “muito pouco sono”.
O estilo de administração total de Musk, e a pressão que ele coloca em sua equipe para resolver problemas, têm seus lados negativos. As pessoas que trabalharam com ele contam que Musk pode semear confusão e caos. Um ex-executivo da cadeia de suprimentos diz que a alta rotatividade do pessoal que resultou do estilo de gestão de Musk fez que a cada novo modelo a Tesla tivesse que reaprender as mesmas lições. Outro ex-executivo diz que Musk muitas vezes toma decisões apressadas para atirar equipes de engenheiros em novos problemas, só para depois reverter o rumo e desfazer todo o trabalho.
Queixas como essas não tocam o ponto certo, diz Ferragu. Apesar de Musk entender muitas coisas errado, diz ele, o fato de pressionar constantemente contra os limites do possível faz que ele chegue a inovações importantes antes de qualquer outro. Ele “sabe onde estão os gargalos, onde ele tem de apertar as pessoas ao máximo”.
Musk sugere que essa é uma qualidade que o distingue de Jeff Bezos, cuja companhia espacial, a Blue Origin, ficou atrás da SpaceX. Ele amaldiçoa seu rival com falsos elogios, dando um aceno à “aptidão razoavelmente boa para a engenharia” de Bezos, antes de acrescentar: “Mas ele não parece estar disposto a gastar energia mental entrando nos detalhes da engenharia. O diabo está nos detalhes”.
Bezos “se leva um pouco a sério demais”, acrescenta Musk, com seu lado maligno nunca muito abaixo da superfície. “De certas maneiras, estou tentando fazê-lo gastar mais tempo na Blue Origin para eles fazerem mais progresso. Como diz um amigo meu, ele deveria passar mais tempo na empresa e menos na banheira”.
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Forçar os limites do tecnicamente possível significa que as empresas de Musk estão sempre flertando com o desastre, mesmo agora. A Tesla está tentando pôr em produção uma desafiadora nova tecnologia de baterias, e a companhia não realizou seus planos de lançar um grande caminhão elétrico, um novo modelo de seu Roadster original e a caminhonete elétrica Cybertruck.
Há também os desafios técnicos supremamente difíceis que às vezes parecem fazer até Musk duvidar de si mesmo, como construir a Starship totalmente reutilizável e aperfeiçoar a tecnologia de piloto automático que Musk afirma há anos estar logo ali adiante. Essas, diz ele, são as duas coisas que ocupam “a maior quantidade de carga cognitiva” em sua vida.
“Estou confiante que não precisamos de uma nova física”, diz Musk sobre a Starship. “Mas é apenas um problema técnico incrivelmente difícil. Às vezes me pergunto se de fato está dentro da capacidade humana realizar isso. Sei que pode ser feito, mas ainda não foi.”
Recentemente, ele vem tentando preparar os funcionários da SpaceX para um caminho difícil à frente, escrevendo para o pessoal que seu futuro não está garantido. Muitos na companhia não passaram por um lançamento de foguete fracassado, diz ele. E descreve como a empresa poderá enfrentar dificuldades financeiras se a SpaceX não produzir os motores necessários para realizar seus planos de lançamento da Starship e colocar diversos satélites Starlink em órbita. “A falência não está descartada”, diz Musk. “Por isso não devemos ser complacentes ou presunçosos.”
Sobre o desafio da condução autônoma, entretanto, ele chega perto de admitir que parte de sua confiança anterior estava deslocada. “Eu não pensei que teríamos de resolver uma parte significativa da inteligência artificial para fazê-la funcionar.” Mas acrescenta que hoje está “99,9% —arredonde para 100%— confiante em que a autocondução vai funcionar, é só uma questão de tempo”.
Para os críticos, as garantias errôneas de Musk ao longo dos anos de que os carros Tesla estão prestes a se tornar totalmente autônomos são sintomáticas de um executivo propenso a exagerar as capacidades de seus veículos. Assim ele enganou os clientes da Tesla sobre a tecnologia de autocondução, com um potencial risco para a segurança deles?
“Não”, diz ele redondamente. “Leia o que diz quando você encomenda um Tesla. Leia o que diz quando você dá a partida. É muito, muito claro.” Apontando para as altas notas de segurança da Tesla, e a disposição da Nasa a confiar seus astronautas aos foguetes da SpaceX, ele acrescenta: “Acho que não existe um CEO neste planeta que se importe mais com a segurança que eu”.
Ele também recusa as críticas de que suas previsões às vezes foram excessivamente otimistas. “As previsões que eu faço que se realizam, ou estão antes do tempo, não recebem atenção, e as previsões que eu faço que estão atrasadas ganham muita atenção”, resmunga.
Como exemplos do primeiro caso, Musk diz que a fábrica gigante de baterias em Nevada “superou em muito as expectativas”, e que a produção da Tesla do Model S chegou a mais que o dobro do que foi projetado na época de seu IPO.
Uma marca do sucesso de Musk é que finalmente está surgindo uma verdadeira concorrência em veículos elétricos. A startup Rivian já lançou uma caminhonete elétrica e a Ford deverá lançar sua versão elétrica da F-150 na primavera.
Musk parece despreocupado sobre a nova concorrência, e prevê que companhias como Volkswagen e Ford terão sucesso com carros elétricos —mas adverte que a Rivian está enfrentando o mesmo esforço doloroso para alcançar a produção em larga escala que a Tesla sofreu. Mais adiante, porém, ele aponta um novo desafio que está se formando para as companhias de carros mundiais.
“Acho que as pessoas estão esquecendo um pouco o progresso que a China está fazendo. É incrível.” Ele o compara com a “onda de importações do Japão que ocorreu nos anos 1980 e 90. Eu acho que teremos algo parecido com as companhias de carros chinesas”
“A ética do trabalho, o mero número de pessoas inteligentes e trabalhadoras na China é maravilhoso de se observar —ao mesmo tempo incrível e ligeiramente assustador. E elas vão realizar muitas coisas.”
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