Pesquisa do BID diz que o Brasil está na lanterna de nações do continente em que os cidadãos têm mais confiança nos outros; Uruguai lidera ranking, enquanto Venezuela ocupa penúltima posição
Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo 13 de janeiro de 2022
BRASÍLIA – Brasileiros e latino-americanos confiam menos nas pessoas do que o restante do mundo, e isso está contribuindo para o baixo desenvolvimento econômico e social da região. É o que concluiu estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), obtido pelo Estadão/Broadcast com exclusividade.
O documento, que será divulgado hoje, mostra que apenas 12,6% dos latino-americanos confiam na maioria das pessoas. Último colocado entre os vizinhos, o Brasil tem desconfiança ainda maior: somente 4,69% dos brasileiros acreditam uns nos outros.
Apenas 4,69% dos brasileiros acreditam uns nos outros; o empoderamento dos cidadãos é uma forma de reverter o quadro. Foto: Tiago Queiroz – 4/10/2021
O porcentual está abaixo da média mundial (25%) e dos países ricos que integram a OCDE (41%). O estudo analisou correlações entre a confiança e questões como níveis de produtividade, inovação e formalização do mercado de trabalho e concluiu que, quanto maior o descrédito, pior são as questões econômicas e sociais.
Na América Latina, o nível de confiança é maior em países com maior desenvolvimento econômico e humano: no Uruguai (21,08%), no México (18,37%) e no Chile (17.07%). Na Argentina, o porcentual é de 16,15%. O penúltimo colocado, ainda à frente do Brasil, é a Venezuela, com 5,21%.
“Quando pensamos em política pública, vêm à cabeça temas como reformas fiscais e produtividade, que são essenciais, evidentemente, mas a confiança também é um tema central para a recuperação econômica”, disse ao Estadão/Broadcast o representante do BID no Brasil, Morgan Doyle.
Obstáculo
Doyle afirmou que a desconfiança prejudica o apoio a reformas, trava a inovação e prejudica a redução da burocracia. “A boa notícia é que o Brasil tem ferramentas para superar esse desafio: é enorme o potencial do País, por exemplo, em digitalização, uma das chaves para aumentar transparência, empoderar cidadãos e gerar mais confiança.”
Para o BID, aumentar a confiança é fundamental para a recuperação econômica na América Latina e Caribe no pós pandemia. “A confiança é o problema mais urgente e ainda assim menos discutido na América Latina e no Caribe. Seja nos outros, no governo ou em empresas, a confiança é menor na região do que em qualquer outro lugar do mundo”, afirmou o texto.
Informação
O estudo oferece recomendações para os formuladores de políticas públicas de como reduzir o problema. De acordo com o organismo, é necessário reduzir as diferenças no acesso à informação, “investindo em órgãos reguladores de alta qualidade e educando e informando melhor os cidadãos para lhes dar as condições necessárias para detectar e evitar comportamentos não confiáveis”.
“Os governos também precisam reduzir as assimetrias de poder, aumentando a prestação de contas e fortalecendo instituições de controle externas para que os cidadãos e empresas sintam que podem confiar nessas instituições quando forem desrespeitados por governos, empresas ou outros cidadãos”, disse o BID.
Entre as sugestões estão ainda maior transparência no orçamento público e na regulação, fortalecer partidos, eleições e sociedade civil e aumentar as oportunidades de participação dos cidadãos.
Governos e instituições
O descrédito na América Latina não é maior apenas nas outras pessoas, mas também em governos e instituições. O estudo do BID mostra que somente 29% dos latino-americanos têm confiança no governo, ante 44% no mundo todo e 38% dos países ricos. Os dados segmentados não foram detalhados por país.
A região também tem menor segurança em instituições, como o sistema judicial e nos militares e nas eleições. A fé no estado de direito é tida por 44,8% dos latino-americanos, ante 50,8% no mundo todo e 86,12% na OCDE.
O estudo mostra ainda que a menor confiança está relacionada a democracias mais frágeis, menos inovação e disposição a riscos. Além disso, nos países com maior descrédito há mais informalidade no mercado de trabalho, maior ineficiência nos mercados financeiros, políticas anticrime menos eficazes. Também há menos demandas por bens e investimentos públicos
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Stuart Russell, professor da Universidade da Califórnia e um dos maiores especialistas em ciências da computação do mundo, alerta para a relação entre IA e poder político e econômico
Eduardo Graça O Globo 13/01/2022
SÃO PAULO – Professor da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA), Stuart Russell é um dos maiores especialistas em ciências da computação e inteligência artificial (IA) no mundo. Foi vice-presidente do Conselho de IA e Robótica do Fórum Econômico Mundial e consultor da ONU para o controle de armas.
Um dos autores de “Inteligência artificial”, livro que é referência acadêmica central no tema, o britânico lança agora no Brasil “Inteligência artificial a nosso favor: como manter o controle sobre a tecnologia” (Cia. das Letras).
Em conversa por e-mail com O GLOBO, Russell destaca o avanço impressionante da IA em áreas como a de carros autônomos (“serão mais popularizados nesta década”), mas alerta para seu efeito na desigualdade: “Mais pessoas serão marginalizadas”.
Ele defende uma moratória para o uso da tecnologia na indústria armamentista: “Pode haver impacto devastador comparável ao de bombas nucleares”.
Professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, Stuart Russell é um dos maiores especialistas em ciências da computação, inteligência artificial (IA) e robótica no planeta Foto: Divulgação
O que o surpreendeu mais no desenvolvimento da IA nos últimos 25 anos?
A locomoção com pernas feita de forma incrivelmente ágil, semelhante a um animal, demonstrada em 2010 pelo robô BigDog (da americana Boston Dynamics).
Até então os robôs com pernas eram lentos, rígidos, pesados, caíam ao menor distúrbio. Não mais. Nosso progresso também foi enorme em resolver problemas de raciocínio lógico e de planejamento, nos jogos, na percepção visual e na aprendizagem.
Tradução automática é outro problema difícil e antigo essencialmente resolvido para fins práticos. Os carros sem motoristas já são uma realidade e vão se difundir ainda mais nesta década.
Já robôs completamente autônomos e domésticos podem estar mais distantes, pois exigem muito mais flexibilidade para lidar com as complexidades, por exemplo, de um canteiro de obras ou de uma residência.
Em outubro, o senhor alertou oficiais da Defesa britânica sobre riscos da IA na indústria de armamentos. Algumas reportagens deram conta de que o senhor fez comparações com bombas nucleares…
Não disse textualmente que sistemas de IA armados poderiam acabar com a Humanidade, mas sim que grandes enxames de armas-robôs letais podem ter um impacto devastador comparável ao de armas nucleares. E seria muito mais “em conta”, mais fácil de se construir e de se usar.
Não haveria ruína radioativa e (como já se vê com os drones usados pelos EUA na Ásia) será possível matar apenas pessoas-alvo. Preciso dizer que me deu alegria, aliás, o Brasil, por meio de tratado internacional, apoiar a campanha para se banir estas armas autônomas letais.
Uma moratória de armas autônomas letais seria de fato possível com EUA e Rússia opostos à medida?
É preciso banir todas as armas que localizam, selecionam e atacam alvos humanos sem supervisão de um ser vivo responsável, ou seja, as autônomas letais. E banir a pesquisa, a criação, o desenvolvimento e o uso.
E mais: deveríamos ter mecanismos de fiscalização e punição na linha da Convenção Sobre as Armas Químicas (CWC, na sigla em inglês), de 1997, podendo exigir que fabricantes de determinados dispositivos interrompam imediatamente a produção e/ou façam uma seleção rigorosa de compradores em potencial.
Também se poderia incluir restrições no design de drones pilotados remotamente, para garantir que qualquer alteração de software não os transforme em armas autônomas.
No momento, de fato, EUA e Rússia bloqueiam o avanço de um tratado global. Há a possibilidade de que o tema, hoje em Genebra, seja levado para a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, onde não haveria necessidade de unanimidade para aprovação. Ou, como no caso do Tratado de Ottawa, de 1997, que bane as minas terrestres, de ser negociado fora do âmbito da ONU.
De qualquer forma, não entendo por que EUA e Rússia arriscam permitir a possibilidade de criação de armas de destruição em massa ‘baratas’, que podem ser produzidas e oferecidas de forma perigosamente ampla.
Países como o Brasil, que sofrem com violência urbana, em áreas sem controle do Estado, deveriam estar atentos à proliferação deste tipo de armas?
No México, cartéis já estão usando drones controlados à distância para assassinar rivais. É uma questão de tempo para tentarem usar armas-robôs letais. Mas há um porém estratégico: se não for para o uso em escalas gigantescas, como em um ataque-enxame, não vejo vantagem no uso deste tipo de armamento inteligente.
Inclusive, o tratado que está sendo discutido bane o uso de armas-robôs apenas no caso de enfrentamento entre nações, não para uso local. É como o gás lacrimogêneo. Os países, individualmente, poderão banir a produção local, a importação e o uso em seu solo destas armas.
Não há hoje, no entanto, legislação voltada para o tema. A Comunidade Europeia bane qualquer decisão “tomada por algoritmo” que tenha “efeito legal similar” ao de um indivíduo, mas não trata de armamentos ou de ação que cause a morte de outra pessoa. Defendo a lógica de se estender a interpretação para armas inteligentes letais…
Quais outros aspectos merecem atenção urgente no desenvolvimento da IA?
Os algoritmos nas redes sociais, que têm papel central no aumento da polarização e na amplificação da desinformação. Também precisamos pensar sobre o que acontecerá se tivermos sucesso em criar uma espécie de super-homem artificial inteligente.
Quando (o matemático e cientista britânico) Alan Turing (1912-1954) considerou esta possibilidade, em palestra em 1951, afirmou que “após se iniciar um método de pensamento da máquina, não demorará muito para ela nos superar, devemos esperar que em algum momento elas assumam o controle”. Ou, de outra maneira: uma inteligência artificial de uso geral será sim muito mais poderosa que nós.
Mas, o título de seu livro diz ser possível usar inteligência artificial a nosso favor…
Como assegurar que ela não se voltará contra nós? Há muitas maneiras de se responder esta questão, e todas incluem repensar completamente a maneira como estamos projetando e construindo hoje os sistemas de IA. E, claro, precisamos fazer isso antes de criar essa IA de uso geral.
O aumento das desigualdades sociais é uma preocupação?
Sim, central. Se seguirmos os caminhos de hoje, quem controlar os sistemas de IA terá gradualmente mais poder econômico em escala global. Mais pessoas serão marginalizadas e a “democratização” da tecnologia não resolverá a questão.
Se uma casa construída por robôs custar US$ 20 mil e uma por humanos sair por US$ 200 mil, “democratizar” o acesso tecnológico, em um mundo em que a moradia permanecerá sendo um problema social central, não protegerá o emprego das pessoas.
Temos de pensar em mecanismos tributários específicos ou num esquema de participação acionária especial para garantir que os benefícios econômicos gerados pela IA sejam amplamente compartilhados.O problema é que nenhum de nós consegue oferecer, até o momento, visão convincente deste novo mundo em que sistemas de IA farão a maior parte do que hoje chamamos trabalho.
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Atualmente, 99% dos serviços públicos do país, como registros de empresas, certidões de recém-nascidos e pagamento de taxas, são acessados de maneira online. Alta conectividade traz ganhos para o PIB e ajuda o cidadão a ter mais tempo livre
LabNeofeed 10/01/2022
Vamos imaginar que houve um acidente de carro com uma vítima que precisa ser levada para o hospital. Assim que chega ao local e identifica a pessoa que necessita de socorro, o atendente da ambulância acessa, digitalmente, o tipo sanguíneo dela, as possíveis alergias e outras informações que poderão assegurar o melhor atendimento médico possível.
Enquanto isso, o hospital é informado, também digitalmente e em tempo real, que uma ambulância está a caminho com aquele paciente específico. De imediato, o sistema do pronto-socorro resgata todo o histórico médico da vítima e seleciona um profissional – o que estiver melhor preparado para aquele tipo de situação –, para cuidar do indivíduo a partir das informações disponíveis.
O modelo, que tem ajudado a salvar vidas e reduzir os danos causados por todos os tipos de acidentes, não é obra da ficção científica. Ele existe e funciona perfeitamente na Estônia, o pequeno país de 1,4 milhão de habitantes no mar báltico que ganhou a merecida fama de “sociedade mais digital do mundo.”
O exemplo acima é apresentado, com evidente ânimo, por Diego Martins, um dos fundadores e CEO da unico, IDTech brasileira especializada em soluções de identidade digital, como biometria facial e assinatura eletrônica de documentos.
No final de 2021, Martins visitou a Estônia ao lado de outros 16 executivos da unico, entre vice-presidentes, heads de produtos e especialistas da área técnica. Foi a quarta vez que ele esteve no país e, mais uma vez, a experiência trouxe inúmeros aprendizados.
“A Estônia é uma grande referência para nós”, diz Martins. “Contratamos muitas pessoas novas na unico e algumas delas enxergam apenas uma pecinha do quebra-cabeça digital. A viagem representou um jeito de conhecer todas as peças do tabuleiro e mostrar para onde deveríamos ir.”
O grupo se encontrou com representantes do governo estoniano, visitou empresas privadas e dialogou com especialistas de diversas áreas. Ficou claro que não há comparativo no planeta quando o assunto é desenvolvimento digital.
A Estônia passou a investir em programas digitais após a independência da antiga União Soviética, em 1991. O país não tinha os recursos financeiros para rivalizar com vizinhos mais prósperos, como a Finlândia, e decidiu que o único caminho para melhorar a qualidade de vida da população – e, portanto, turbinar o PIB – era a completa digitalização da sociedade.
“A Estônia é uma grande referência para nós”, diz Diego Martins, cofundador e CEO da unico
Desde então, uma revolução ganhou corpo. A espinha dorsal da transformação digital da Estônia foi a criação da infraestrutura chamada X-Road, que permitiu que praticamente todos os sistemas de informação dos setores público e privado se conectassem.
A X-Road foi, digamos, a avenida por onde começaram a trafegar todos os dados e informações dos indivíduos. A partir daí, criou-se o sistema de identidade digital, que atualmente é adotado por 98% da população. Identidade digital, lembre-se, é o foco de negócio da unico.
A identidade digital trouxe avanços extraordinários para a Estônia. Atualmente, 99% dos serviços públicos do país, como registros de empresas, certidões de recém-nascidos e pagamento de taxas, são acessados de maneira online.
A população tem acesso a mais de 2.500 serviços digitais. Quase tudo pode ser feito no ambiente online. Apenas casar e divorciar ainda exige a presença física da pessoa. Ainda.
Martins lembra também que vota-se em casa, por meio do sistema digital. “A pessoa tem um período de 15 dias para tomar a decisão”, diz ele. “Se for o caso, ela pode mudar o voto dentro desse período, o que torna a escolha ainda mais assertiva.”
O sistema de saúde é um exemplo para o mundo. Além do caso relatado na abertura deste texto, o paciente conta com inúmeras facilidades.
Na Estônia, não existem receitas médicas físicas. Elas são 100% digitais. Após a consulta, o médico prescreve o medicamento no sistema online e as farmácias imediatamente são informadas. Basta o paciente ir ao estabelecimento para retirar o remédio.
O sistema financeiro também deixou para trás a era analógica. Em 2021, 99,8% das transações bancárias ocorreram no ambiente online, índice mais alto do mundo.
O CEO da unico destaca que, apesar do elevado nível de digitalização da sociedade, nenhum dado é duplicado. “Se você muda de endereço, basta atualizar a nova informação em um único lugar”, diz. “Alterar conta de água, luz e internet pode ser um caos em um país como o Brasil. Na Estônia, o ecossistema digital é totalmente integrado.”
Ou seja, uma vez transmitida a informação, jamais a pessoa terá de repassá-la novamente. Parece algo banal, mas tem imenso valor. A não-duplicação de dados torna a informação ainda mais confiável e garante que uma pessoa, em especial, é ela mesma, seja qual for a situação.
Outro aspecto que chamou a atenção de Martins e sua comitiva é a segurança dos dados privados. Eles são gravados em blockchain, a mesma tecnologia que registra moedas virtuais como bitcoin. O cidadão sempre é avisado quando alguém tenta acessar os seus dados. Acessos indevidos são passíveis de prisão.
Quais são as vantagens de ser tão digital? Martins aponta diversos benefícios. Apenas com a assinatura eletrônica de documentos – tecnologia que a unico domina no Brasil –, estima-se que a Estônia economize o equivalente a 2% do PIB por ano.
“O segundo benefício visível é que as pessoas têm mais tempo, já que não perdem energia com questões burocráticas”, diz Martins. “Além disso, a economia digital gera um ambiente de confiança e torna a vida das pessoas mais simples.”
Nesse contexto, o que a unico planeja para o futuro? “Queremos ser o grande hub de identidade digital do Brasil”, diz Martins. “As pessoas terão os seus documentos, a sua biometria, os seus dados em um mesmo lugar, de forma segura e com respeito à privacidade. Isso abre as portas para o futuro.” Na Estônia, o futuro já chegou.
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Gigantinho em termos de PIB, o Brasil é um anão em termos de exportações
Por Edmar Bacha – Valor 31/05/2021
Causa surpresa que mesmo com o câmbio tão desvalorizado a indústria brasileira não consiga exportar. Em avaliação trimestral da qualidade do comércio exterior, a Confederação Nacional da Indústria observa com desalento que “a participação de industrializados na pauta exportadora caiu de 46% no primeiro trimestre de 2020 para 42% no primeiro trimestre deste ano”.
Tradicionalmente, os representantes da indústria dizem que não exportam porque os juros são muito altos e o câmbio muito valorizado. Os juros baixaram e o câmbio desvalorizou, mas a indústria continua não exportando. Na lista de reclamações dos industriais também constam os impostos altos e distorcidos – mas esses são rebatidos quando os produtos são exportados, portanto, essa também não deve ser a razão.
Em 2018, a fatia das importações no PIB foi de 11,6%, a menor entre 164 países considerados pelo Banco Mundial
O CEO da Pirelli para a América do Sul deu recentemente entrevista a O Globo (23/05) que motiva uma explicação para o paradoxo. Depois de se referir à imprevisibilidade do governo e ao retardamento da reforma tributária, diz: “Além disso, o real tão desvalorizado frente ao dólar também não ajuda”. Real desvalorizado não ajuda a indústria? Como pode ser?
Vamos por partes. Os economistas costumamos dividir os bens e serviços num conjunto que chamamos de comercializáveis – os que entram no comércio exterior – e outro que chamamos de não-comercializáveis – os destinados exclusivamente ao mercado interno.
A indústria em geral devia estar nos produtos comercializáveis, pneus em particular podem ser exportados e importados. Se os pneus fabricados no Brasil são comercializáveis, por definição deveriam se beneficiar de um real desvalorizado, pois este encarece os pneus importados em moeda nacional e barateia os pneus nacionais em moeda estrangeira. Por que, então, a desvalorização do real não ajuda?
A explicação parece estar num fenômeno observado nos anos 1960 pelos economistas Harry Johnson e Jagdish Bhagwati e por eles denominado de “crescimento empobrecedor”. Quando uma multinacional investe no Brasil, ela o faz para substituir produtos que antes exportava para o país e que agora não consegue mais fazê-lo pelo aumento das tarifas às importações. Os produtos que fabrica aqui são mais caros que os importados, mas ainda assim conquistam o mercado interno por causa da proteção tarifária. Como são produtos caros e possivelmente de qualidade inferior não conseguem ser exportados, mesmo com o câmbio desvalorizado.
Embora aparentemente comercializáveis, esses produtos são na prática não-comercializáveis, cujos custos, que incluem insumos importados, aumentam quando o real se desvaloriza. Para os acionistas da multinacional, pior ainda. Pois vendem os produtos localmente em reais, mas querem converter seus lucros em moeda forte e esses encolhem quando o real se desvaloriza.
Isso esclarece por que a desvalorização não ajuda. Uma multinacional que vem para o Brasil para substituir importações e explorar o mercado interno vê seus lucros em moeda forte diminuídos quando o real se desvaloriza.
O país permite a livre entrada de empresas estrangeiras, mas cria embaraços às exportações e importações de bens e serviços. Esta é uma receita pronta para o crescimento empobrecedor de que falam Harry Johnson e Jagdish Bhagwati. As multinacionais prosperam ao explorar o mercado interno protegido.
Por exemplo, produzindo e vendendo, dentro do país, carros de qualidade inferior com preços elevados, pois não há a concorrência de carros importados nem a possibilidade de produzir carros melhores, devido às restrições à importação de máquinas e insumos de qualidade. Mas o resto do país empobrece, ao ver seus recursos domésticos aplicados na substituição ineficiente de importações (automóveis caros e de qualidade inferior aos importados) em lugar de serem empregados na produção de bens e serviços nos quais o país poderia competir no mercado internacional.
Em contraste com a abundante evidência dos benefícios do comércio internacional, o Brasil permanece sendo umas das economias mais fechadas do mundo. Grandes economias são grandes exportadoras: os Estados Unidos são a primeira economia do mundo e a segunda maior exportadora; a China é a segunda maior economia e a primeira exportadora; o Japão é a terceira maior economia e a quarta maior exportadora; a Alemanha é a quarta maior economia e a terceira maior exportadora; a França ocupa a quinta posição tanto no tamanho da economia quanto na importância das exportações; o Reino Unido tem a sexta maior economia do mundo e é o décimo maior exportador.
Já o Brasil, em 2018 a oitava maior economia do mundo, era apenas o 25º maior exportador. O PIB do Brasil representava 3% do PIB mundial, mas suas exportações alcançaram apenas 1,1% das exportações mundiais. Um gigantinho em termos de PIB, o Brasil é um anão em termos de exportações.
O que se vê do lado das exportações se confirma do lado das importações. Em 2018, a participação das importações no PIB do Brasil foi de apenas 11,6%. Esse é o menor valor entre os 164 países considerados pelo Banco Mundial.
O que fazer? A resposta quem sugere é o ex-prócer da indústria automobilística, Carlos Ghosn, em entrevista há tempos para o Valor. Quando perguntado por que não fabricava aqui Renaults de tão boa qualidade quanto os franceses, ele respondeu: “Deixem-me importar insumos da Europa que eu produzo aqui carros tão bons quanto os de lá”. É o que fez o México, cuja indústria automobilística, integrada às dos EUA e Canadá, fabrica automóveis com produtividade duas vezes maior do que a brasileira, como estima a consultoria McKinsey.
Para o país interessa atrair multinacionais, mas não somente para vender ao mercado interno, e sim para também exportar como o fazem no México e na Ásia. Para isso, é necessário melhorar a qualidade, ter maior especialização, expandir a escala e acirrar a concorrência. O que só se consegue com integração às cadeias internacionais de valor. Urge abrir a economia para que a indústria brasileira consiga exportar quando o câmbio se desvaloriza!
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Desacreditado quando substituiu Steve Jobs, executivo mostrou eficiência e aumentou a receita e o lucro
Por Patrick McGee — Financial Times/Valor 10/01/2022
Dois anos após a morte de Steve Jobs, o CEO da Oracle, Larry Ellison, afirmou ser inevitável que a Apple enfrentaria problemas sob o comando de Tim Cook. Basta ver, disse ele, o que aconteceu com a empresa no período que se sucedeu à demissão de Jobs, em 1985.
“Já sabemos. Nós vimos. Fizemos o experimento”, disse Ellison ao apresentador do programa de entrevistas Charlie Rose, em 2013. Com o dedo traçando uma curva ascendente, ele disse que a Apple foi um sucesso extraordinário durante o primeiro período de Jobs na empresa, só para despencar – seu dedo veio abaixo – quando ele saiu.
“Vimos a Apple com Steve Jobs” quando ele voltou em 1997 – mais uma vez seu dedo subiu. “Agora vamos ver a Apple sem Steve Jobs” – outra queda. “Ele é insubstituível. Eles não chegarão nem perto do sucesso anterior.”
Poucas previsões já se revelaram tão equivocadas. O triunfo de Tim Cook como sucessor de Jobs foi tão sem paralelo que os números não falam por si, eles gritam por si: o valor de mercado da Apple cresceu em mais de US$ 700 milhões ao dia desde quando Cook assumiu o cargo, em agosto de 2011, até a semana passada, quando chegou a US$ 3 trilhões, antes de voltar a cair.
Com serviços, Cook deu estabilidade à receita, e, diplomaticamente, evitou punições em Bruxelas e nos EUA
Mas Ellison não estava sozinho. “O ceticismo era generalizado” quando Cook foi nomeado, diz Tripp Mickle, autor do livro a ser lançado em breve, “After Steve”, uma história dos últimos 10 anos da Apple. “Seja Wall Street, seja clientes que adoram seus iPhones ou amigos e colegas do setor tecnológico – todos, sem exceção, ficaram apavorados quando ele foi nomeado para o cargo.”
Tim Cook, CEO da Apple desde agosto de 2011 – construiu uma potência para extrair cada centavo do ecossistema da Apple, criando um fluxo contínuo de receitas — Foto: David Paul Morris/Bloomberg
A alta extraordinária do valor de mercado da Apple é fruto da sólida era do smartphone que Jobs instaurou. Mas mesmo os maiores admiradores de Jobs foram obrigados a reconhecer que subestimaram ou entenderam mal as qualidades que Cook trouxe para o cargo, desde excelência em termos de cadeia de suprimentos até perícia diplomática.
A supremacia da Apple durante a “segunda vinda” de Jobs, de 1997 a 2011, tinha fixado para a Apple o paradigma de uma força inovadora, capaz de subverter setores inteiros com produtos únicos. Os lançamentos do iMac, iPod, iPhone e iPad se tornaram temas de filmes. Mas Cook, que ganhou quase US$ 100 milhões em 2021, não se encaixa nesse modelo. Suas habilidades estão em áreas que a cultura popular, na verdade, não alcança, menos ainda valoriza.
“Steve era um incitador visionário, e Tim é um especialista em eficiência, um guru operacional”, diz Ray Wang, presidente do conselho de administração da Constellation Research, sediada no Vale do Silício. “Precisa-se desses dois tipos em uma empresa”, diz. “Precisa-se de uma pessoa que vem com a grande ideia que deixa as pessoas empolgadas, e da pessoa que a põe no mercado em escala massiva.”
Os apoiadores de Cook insistem que ele mudou fundamentalmente a natureza da empresa. Durante seu tempo no comando, as receitas anuais da Apple dispararam dos US$ 108 bilhões computados no ano em que ele assumiu para US$ 365 bilhões em 2021. Os lucros líquidos ficaram 3,7 vezes maiores, ao evoluir de US$ 26 bilhões para US$ 95 bilhões.
Mas mais significativa é a maneira pela qual Cook construiu uma potência para extrair, um por um, cada centavo do ecossistema da Apple, acumulando um fluxo contínuo de receitas recorrentes das comissões da App Store e de uma carteira de quase 800 milhões de clientes que pagam por mídia digital, que se expandiu durante seu mandato. Isso reduziu significativamente a dependência da Apple em relação ao iPhone – e impeliu o valor das ações da empresa para um nível em que sua relação preço-lucro é, agora, três vezes maior do que era dez anos atrás.
“O maior sucesso de Tim Cook é o cultivo e o fomento dos serviços, e o quanto ele foi capaz de revolucionar a maneira pela qual a empresa é percebida pelos investidores”, diz Mickle.
Dois grandes produtos surgiram nos primeiros dez anos de Cook, os AirPods e o Apple Watch – grandes sucessos, com participações de mercado de 25% e de 31%, respectivamente. Mas a divisão de serviços se revelou muito mais significativa. Gerou, no ano passado, quase US$ 70 bilhões de receita – aproximadamente o dobro que a do Mac, do iPad ou de divisões de produtos “de vestir” – e as margens foram de 70%.
“Não atribuímos a Tim o mérito de ter concebido a próxima ideia inovadora, mas o mérito que se pode atribuir a ele é que se tem uma plataforma de hardware que, de repente, tem serviços que responderão por 25% da receita até 2025”, diz Ray Wang. ”Tem-se um ecossistema sem paralelo com qualquer outro. Uma cadeia de suprimentos sem paralelo com qualquer outra. E, em todos os vários ataques às Big Techs, a Apple foi a que melhor os suportou.”
Dan Wang, professor de administração na Universidade da Colúmbia, diz que um dos maiores êxitos de Cook foi dar consistência às operações da Apple. Jobs dava mais foco aos produtos, e não aos serviços, o que trazia uma volatilidade inerente às receitas, como a de uma empresa de artigos de moda. “Se você consegue prever como vão ser os gostos do consumidor no ano seguinte, então você fica com todo o filão […], mas se você erra, tem que arcar com o custo. E o que Tim Cook soube fazer bem foi tirar a Apple desse ciclo, de ter que encontrar um novo produto de sucesso a todo momento”.
Cook provou ter habilidades diplomáticas. Ao dar atenção especial à privacidade do consumidor, ajudou a Apple a evitar a fúria de Bruxelas em meio ao sentimento generalizado antitecnologia. Na China, assinou contratos para expandir ainda mais sua gigantesca base industrial, enquanto erigiu um negócio faturando US$ 68 bilhões no país – muito mais do que qualquer rival tecnológica. E, em Washington, ele evitou tarifas sobre os produtos da Apple recorrendo ao narcisismo de Trump.
“Cook, um legítimo sulista, ligava para Trump o tempo todo. Foi simpático com ele [Trump]”, diz Margaret O’Mara, historiadora de tecnologia e autora de “The Code” (o código). “Ele foi muito perspicaz navegando pelas correntes mais amplas do comércio global, primeiro em meio às tarifas de Trump e, depois, em meio à covid […] o valor da Apple está refletindo essa destreza. Se Jobs [estivesse vivo e] fosse CEO, isso talvez não tivesse saído tão bem”.
Alguns observadores acreditam que Cook também merece ganhar crédito pelo que não fez. A Apple evitou em grande medida, embora não totalmente, juntar-se às fileiras do Google e do Facebook na monetização dos dados de seus usuários, no que a professora de Harvard Shoshana Zuboff chama de “capitalismo de vigilância”.
A Apple tampouco esbanjou em nada desnecessário. A maior aquisição da Apple na era Cook – comprar a Beats, uma marca de fones de ouvido e de serviço de streaming, por US$ 3 bilhões – pôde ser paga com três dias de receita.
Houve alguns produtos que fracassaram. O sistema de alto-falantes HomePod decepcionou. O lançamento do Maps foi malsucedido. As tentativas de construir um carro autônomo parecem ter atolado. Foram, contudo, poucos erros realmente dignos de nota.
Paralelamente, a Apple produziu com cadência regular novas versões de seus produtos, atraentes o suficiente para que os consumidores aceitassem pagar valores relativamente mais altos que os de aparelhos rivais, em níveis que o resto do setor apenas é capaz de sonhar. O iPhone teve uma participação de mercado de 17% em 2021, mas ficou com 80% do lucro da indústria de smartphones como um todo, segundo a Counterpoint Research.
Wang, da Constellation, diz que um dos maiores feitos de Cook é ter mostrado percepção aguçada sobre onde a Apple deveria competir ou não. “O trabalho de Tim, todos os dias, é dizer ‘o que não vamos fazer?’”, diz. “Não é uma questão do que eles podem fazer. Há tantas opções. Quero dizer, a Apple poderia comprar a Irlanda amanhã. É assim de ridículo. Esse nível de maturidade e gerenciamento que Tim Cook tem exercido se compara ao de um estadista”.
Wall Street adora Cook por dois motivos. Um é a recompra de ações. O número de ações da Apple nos últimos dez anos caiu 37%, de 26 bilhões, segundo números ajustados, para cerca de 16 bilhões hoje. Como resultado, o lucro por ação aumentou 5,6 vezes. Dessa forma, enquanto a capitalização de mercado da Apple aumentou nove vezes em dez anos, os preços das ações subiram 14 vezes.
Outro motivo é o pagamento de dividendos, que a Apple retomou em 2012, após um intervalo de 17 anos. Dessa forma, em termos de retorno total, os acionistas na era Cook ganharam 33% ao ano durante dez anos.
Se Cook deveria receber todo ou a maior parte do crédito pelo crescimento do valor de mercado da Apple é algo sueito a debate.
Os últimos dez anos de políticas que facilitaram a captação de dinheiro, a grande adesão das pessoas aos dispositivos móveis e o surgimento da computação em nuvem foram muito favoráveis ao setor de tecnologia. No mesmo período em que o valor de mercado da Apple subiu cerca de US$ 2,7 trilhões, a Microsoft ganhou US$ 2,1 trilhões, a Alphabet, US$ 1,6 trilhão, e a Amazon, US$ 1,5 trilhão.
A parte mais difícil de explicar é a valorização espetacular durante a pandemia. A Apple, uma feliz beneficiária da onda de trabalho remoto, viu o preço das ações da mais do que dobrar desde o lockdown de Wuhan (China) em janeiro de 2020. Isso coloca em dúvida sobre até que ponto toda essa valorização foi realmente produto das ousadas políticas de estímulo adotadas por governos ocidentais.
O’Mara, a historiadora, diz que é difícil racionalizar qualquer comparação do valor de mercado hoje em relação ao passado recente do setor de tecnologia. Ela recorda que, quando o valor da Netscape decolou em seu primeiro dia de negociação em 1995, “isso sacudiu o mundo de todos”. E o valor da empresa era de pouco menos de US$ 3 bilhões. Agora, diz O’Mara, uma fabricante de veículos elétricos como a Rivian pode ser avaliada 50 vezes acima disso, tendo entregue 150 veículos até hoje. “É um reflexo da loucura que é o sistema financeiro global”, diz. “Há muito dinheiro em todos os lugares.”
Ron Adner, professor de estratégia do Dartmouth College, argumenta que a Apple poderia estar ainda melhor se Cook tivesse sido capaz de igualar a capacidade de Jobs de construir plataformas que permitem aos parceiros compartilhar o sucesso da Apple. “Com Jobs, a Apple foi magistral na transição do iPod para o iPhone”, diz ele. “Pois o que tornou o iPhone tão especial não é o fato de ser um celular tão diferenciado – Samsung e HTC o copiaram de imediato, mas foi o acordo que a Apple fechou com as teles. E foram os termos que eles puderam impor aos programadores por meio da App Store.”
Sob o comando de Cook, diz Adner, a Apple foi uma e outra vez vítima do que ele chama de “armadilha do egossistema”, referindo-se ao empenho ferrenho da Apple em garantir sua posição de líder. “Cook fez essas declarações grandiosas, sobre [os mercados de] casas inteligentes, meios de pagamento, saúde, televisão, educação e editorial — todos essesecossistemas que eles iriam virar de ponta-cabeça, mas eles foram incrivelmente ineficazes em promover mudanças reais nisso”, diz Adner. “São incapazes de fazer com que os parceiros se alinhem a seu plano.”
Apesar do valor recorde da Apple, a reputação inovadora de Jobs é tão grande na imaginação cultural que há uma sensação persistente de que Cook precisa comandar o lançamento de algo verdadeiramente importante para realmente cimentar seu legado.
“Ele sempre terá algo a provar até que eles realmente entrem numa nova categoria de produto ou em algo que as pessoas digam: ‘Meu Deus, nunca pensei que alguém inventaria isso’”, diz Aaron Cheris, que dirige área de varejo nos Estados Unidos da consultoria Bain. “Ele precisa desse momento mágico.”
Cheris acrescenta que os altos escalões em torno a Cook são compostos em grande parte por executivos da era Jobs, e não por pessoas que ele trouxe para a empresa. Dos 12 principais executivos da Apple, apenas três vieram para a Apple depois da morte de Jobs. “Ele não formou essa equipe, ele a herdou em grande medida”, diz Cheris.
Leander Kahney, biógrafo não oficial de Cook, considera que o legado de Cook já está sacramentado. Ele argumenta que os AirPods e o Apple Watch se tornaram produtos emblemáticos e que as vendas desses aparelhos “usáveis” superaram as do iPod em seu auge, e o fizeram por muitos anos. Cook, entretanto, não recebe o reconhecimento que merece, diz Kahney, por seu estilo discreto e sua inclinação a dar espaço no palco a dezenas de outros executivos.
“Ele simplesmente não ganha o crédito, porque não absorve o crédito do jeito que Jobs fazia.” (Colaborou Richard Waters) (Tradução de Rachel Warszawski e Sabino Ahumada)
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Pesquisa mostra que 9 em 10 profissionais digitais da América Latina pretendem mudar de empresa em até dois anos; mas busca não é só por quem paga mais
Eles são disputados pelas empresas pelo menos desde que os computadores chegaram aos escritórios na década de 80. Já fazem quase 40 anos, mas os profissionais de tecnologia, como desenvolvedores e cientistas de dados ganharam o protagonismo do mercado de trabalho.
A demanda é tanta que são eles que escolhem onde vão trabalhar. No Brasil, dados da associação de empresas do setor Brasscom projetam uma demanda de 797.000 profissionais até 2025.
Com essa alta valorização, os profissionais costumam ver altos salários sendo oferecidos e a rotatividade do setor também é grande.
A nova edição do estudo Decoding Digital Talent, conduzida pelo Boston Consulting Group (BCG) e a The Network, descobriu que 93% dos funcionários de empresas latino-americanas entrevistados que trabalham em tecnologia ou têm cargos em áreas digitais esperam trocar de empresa nos próximos dois a três anos, enquanto que 64% estão buscando ativamente por novos empregos. Globalmente, as porcentagens foram menores, 73% e 40%, respectivamente.
A principal razão para trocar de profissão é uma melhor oportunidade de carreira em outras posições.
Entre as exigências desses profissionais, algumas já estão até batidas neste início de terceiro ano de pandemia: nada de obrigação de trabalho presencial, por exemplo. 95% dos entrevistados querem trabalhar de casa pelo menos uma vez por semana; apenas uma pequena fração quer estar em tempo integral no escritório.
Programadores: dados da associação de empresas do setor Brasscom projetam uma demanda de 797.000 profissionais até 2025. (alashi/Getty Images)
A maior parte dos profissionais digitais (46%) prefere também uma combinação de horários fixos e flexíveis. Essa configuração pode exigir, por exemplo, que cada um em uma equipe trabalhe algumas das mesmas horas a cada ou que se combine que as pessoas estejam disponíveis em certos horários em dias específicos da semana.
Embora a pandemia tenha mudado a maneira como as pessoas trabalham, muitas das características que um trabalho precisa ter para reter esses profissionais digitais permanecem. A pesquisa mostra que a principal delas é contribuir para a manutenção do equilíbrio entre o emprego e sua vida fora do trabalho.
Apesar da mudança das reuniões presenciais para as virtuais, os trabalhadores digitais dão mais importância ao bom relacionamento com colegas e ao reconhecimento pelo que fazem.
Segundo a pesquisa, isso é um lembrete para os gerentes fazerem um esforço para reconhecer e elogiar as pessoas, mesmo aquelas que trabalham remotamente ou em horários que os deixam fora do escritório mais do que estão nele.
Abaixo, veja as 10 prioridades para os talentos digitais levantados no estudo:
Equilíbrio entre vida profissional e pessoal
Bom relacionamento com colegas
Compensação financeira
Bom relacionamento com o superior
Estabilidade financeira do empregador
Apreciação pelo trabalho
Aprendizado e treinamento de habilidades
Conteúdo de trabalho interessante
Desenvolvimento de possibilidades de carreira
Agenda e espaço de trabalho flexíveis
Para atrair e manter esses talentos, a pesquisa defende que a estratégia das empresas tem de ir além de aumentar o salário simplesmente por aumentar.
Esses trabalhadores têm fortes valores sociais, ambientais e pessoais, o que costuma estar conectado com o modo de pensar da geração a que fazem parte.
Assim, a recomendação do estudo é que as empresas devem ficar atentas a esses tópicos e desenvolver uma posição e uma “voz” para se comunicar rapidamente com as profissões que são alvo dela no mercado. Ao fazer isso, é possível se conectar rapidamente com a filosofia daquele profissional, garantindo que ele se atraia pelas suas oportunidades profissionais.
Para talentos digitais, o trabalho remoto durante a pandemia também abriu as fronteiras dos seus países. 68% por cento dos trabalhadores digitais dizem que estão dispostos a trabalhar remotamente para um empregador do exterior.
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Em 2021, o segmento atraiu mais de R$ 21,8 bilhões em investimentos e cresceu 65% em potência operacional instalada no País na comparação com o ano anterior
Celso Ming*, O Estado de S.Paulo 08 de janeiro de 2022
Estratégica na função de diversificar a matriz elétrica brasileira com fontes renováveis, em 2021, a energia solar cresceu no Brasil impressionantes 65%.
A fonte solar fotovoltaica, que inclui as grandes usinas solares de geração centralizada e o segmento de geração distribuída, que é o da energia elétrica gerada no local de consumo por meio de sistemas de captação de luz solar instalados em telhados e fachadas, chegou aos 13 gigawatts (GW) de potência operacional.
Assim, a fonte solar no Brasil se aproxima da atual capacidade instalada da Usina de Itaipu, segunda maior hidrelétrica do mundo, que é de 14 GW. E ultrapassa a potência instalada de termoelétricas movidas a derivados de petróleo e carvão mineral, que possuem pouco mais de 12,9 GW de potência instalada.
Mesmo com o dólar mais valorizado ante o real e com as restrições na oferta de painéis pela escassez de semicondutores, os investimentos seguem em expansão. Como apontam as estatísticas da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica,a energia solar atraiu investimentos de quase R$ 22 bilhões somente em 2021.
Desde 2012, a fonte solar já movimentou mais de R$ 66,3 bilhões em novos investimentos no Brasil. Desses, cerca de R$ 24 bilhões foram direcionados para usinas de grande porte. Já na geração distribuída, onde o País possui mais de 720 mil sistemas solares fotovoltaicos conectados à rede, os investimentos acumulados ultrapassam os R$42,4 bilhões. E os números tendem a crescer, mesmo com o fim gradual dos subsídios que estimulam o uso dessa energia.
“Apesar dos avanços, ainda não estamos numa posição que reflita o potencial que a energia solar tem no Brasil. Em comparação com outras fontes renováveis, como a geração de energia hidrelétrica e a partir da biomassa, o Brasil ocupa a 2ª posição no ranking mundial e na geração eólica, a 7ª colocação, mas na solar não somos referência ainda, ocupamos apenas a 14ª posição no ranking mundial de geração desse tipo de energia ”, observa Rodrigo Sauaia, presidente da Absolar.
Segundo a Absolar, o País saltou de 7,9 gigawatts (GW) de potência operacional da fonte solar fotovoltaica ao final de 2020 para 13 GW ao final de 2021, crescimento de 65% no período. Foto: Felipe Rau/Estadão
Sauaia reforça que a energia solar continua sendo uma das fontes mais competitivas entre as fontes renováveis, com preços médiosabaixo dos US$ 30,90/MWh, por este motivo o País precisa continuar desenvolvendo estratégias para que a energia solar faça parte do planejamento energético brasileiro e que sejam criadas políticas públicas para facilitar o acesso à tecnologia e democratizar o uso da energia solar para todas as faixas econômicas.
O presidente Jair Bolsonarosancionou nesta sexta-feira o marco legal da geração própria de energia, que limita até 2045 a isenção de encargos para os que já possuem sistemas fotovoltaicos e os que solicitarem o serviço até 12 meses após a sanção da lei e impõe cobranças gradativas, a partir de 2023, para os consumidores que instalarem o sistema.
Hoje, os usuários que produzem a própria energia não pagam alguns encargos, como a utilização da rede e tarifas por distribuição. Pela nova lei, as distribuidoras serão compensadas mensalmente por essas despesas e os consumidores atendidos pelas distribuidoras vão pagar parte dos encargos na própria conta de luz. O repasse das tarifas associadas à energia elétrica para geração distribuída começa, a partir de 2023, em 15% do total dessas vantagens.
Para o professor e pesquisador Nivalde de Castro, coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ, essa nova regra pode aumentar a participação da energia solar na matriz brasileira, uma vez que é mais fácil realizar investimentos para criação de plantas solares em centrais já instaladas (hidrelétrica, eólica, termoelétrica), porque ela é uma fonte que consegue facilmente se complementar às outras. /COM PABLO SANTANA
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O aplicativo vermelhinho é líder de mercado com 80% dos restaurantes que trabalham com esse modelo de entrega, segundo levantamento de setembro da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes
Valor Econômico 07/01/2021
A notícia sobre o fim do serviço de entrega de refeições do Uber Eats no Brasil dá a dimensão do poder (e do tamanho) do iFood no país. O aplicativo vermelhinho é líder de mercado com 80% dos restaurantes que trabalham com esse modelo, segundo levantamento de setembro da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel).
Já o Uber Eats aparece em segundo lugar nesse ranking, com 24%, e o Rappi em terceiro, com 18%. A soma supera 100%, pois há restaurantes que trabalham com mais de um aplicativo de entregas.
Entre os motivos para o avanço do iFood, estão os contratos de exclusividade que a companhia fechou com restaurantes ao longo dos anos. Esse fator fez com que o Rappi entrasse com pedido de investigação no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), em setembro de 2020. Em março do ano passado, a Superintendência-Geral proibiu o iFood de fazer novos contratos nesse estilo, enquanto a investigação é concluída.
Em outro questionamento ao Cade, a Abrasel pede que nenhuma plataforma possa firmar contratos de exclusividade com restaurantes. A crítica é que esse modelo cria uma barreira para novos concorrentes.
Entregador do iFood na cidade de Campo Grande, Mato Grosso do Sul — Foto: Vinícius Soares Pereira/Wikimedia Commons
Procurado na quinta-feira, o iFood afirmou que não comenta decisões de negócio de outras empresas. Sobre o mercado de entrega de refeições, disse que o setor segue em constante evolução “com a entrada frequente de novos competidores”. “A plataforma reforça que as suas políticas comerciais estão em estrita conformidade com a legislação concorrencial.”
Mas o que explica o tamanho do iFood? É bom lembrar que não foi da noite para o dia que a plataforma se transformou em um unicórnio (empresa com valor de mercado acima de US$ 1 bilhão). A empresa investiu muito em tecnologia e, ao longo dos anos, comprou 13 companhias do setor.
Além disso, faz parte de um ecossistema de inovação, a Movile, que conta com nove marcas debaixo de seu guarda-chuva, o que garante sinergia de receita e disrupção em projetos de tecnologia e gestão. Ao todo, a Movile — que é dona da MovilePay e da Sympla, por exemplo — conta com 5 mil funcionários, em seis países, e atende mensalmente 200 milhões de clientes.
Operação durante a pandemia
O iFood cresceu durante a pandemia de covid-19, com mais pessoas fazendo pedidos de refeições em casa. Para se ter ideia, entre março de 2020 e junho de 2021, a média mensal de pedidos duplicou, indo de 30 milhões para 60 milhões – eram 21,5 milhões de solicitações em setembro de 2019.
Além disso, a companhia lançou o iFood Benefícios, cartão corporativo de vale-refeição e alimentação; começou a aceitar pagamentos via Pix e estendeu a facilidade iFood Mercado, de compras em supermercados, a 15 Estados.
Mas houve percalços também. Durante a pandemia, entregadores realizaram protestos exigindo o fim de bloqueios nos aplicativos, melhores taxas e outras demandas. Em dezembro do ano passado, a plataforma se reuniu pela primeira vez com a categoria para debater condições de entrega.
Além das paralisações, muitos entregadores entraram na Justiça do Trabalho para exigir vínculo empregatício. Não à toa, o volume de novas ações judiciais bateu recorde em 2021, segundo ano da pandemia da covid-19. Foram 4,4 mil casos propostos – quase o dobro do total registrado nos cinco anos anteriores -, considerando cinco empresas: Uber, 99, Rappi, iFood e Loggi.
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Entre os dez maiores ocupantes de condomínios logísticos atualmente no Brasil, três têm operações exclusivamente de ecommerce, com cerca de 1,1 milhão de m² locados, quase o dobro dos 583 mil m² ocupados um ano atrás.
A taxa de vacância, que indica o percentual de metros quadrados disponíveis para locação, segue em queda, apesar do aumento expressivo de novos espaços. O número varia entre 8,95% e 12,56%, a depender da consultoria (algumas incluem apenas os imóveis considerados de alto padrão, outras, de todos os tipos).
De janeiro a setembro, pouco mais de 1 milhão de m² foram entregues, segundo a consultoria SiiLA Brasil. O grosso das finalizações, porém, estava previsto para o último terço de 2021.
Obras de condomínio logístico da Prologis na altura do km 41 da rodovia Castello Branco, em Santana de Parnaíba, Grande SP Bruno Santos/Folhapress
Se todas as previsões se concretizarem, outro 1,2 milhão de m² ficarão disponíveis para locação até que este ano termine, superando em 12% a área total locável registrada ao fim de 2020.
O ano passado já havia sido considerado o melhor para o setor, quando a absorção líquida, somente em São Paulo, chegou a quase 1,2 milhão de m², duas vezes o recorde da série histórica da Newmark, iniciada em 2014.
Mariana Hananaia, diretora de pesquisa e inteligência de mercado da consultoria, diz que as projeções indicam que um novo recorde será batido em 2021. No terceiro trimestre, foram acumulados 568 mil m² em novas locações.
A maior parte delas foi em Cajamar, município da Grande São Paulo que abriga alguns dos principais centros de distribuições do comércio online do Brasil –Amazon, Mercado Livre e B2W Digital (dona de Submarino, Shoptime e Americanas.com) estão lá.
Proximidade com grandes rodovias é um dos atributos esperados dos novos condomínios de alto padrão – Bruno Santos/Folhapress
Além de Cajamar, outras cidades da região metropolitana como Barueri, Jundiaí e Guarulhos também estão no raio de interesse da logística. A rede, porém, começa a se expandir, mesmo que o estoque, tanto novo quanto já instalado, ainda esteja muito concentrado em terras paulistas.
O crescimento das compras online fortaleceu as operações das empresas em outras regiões. Giancarlo Nicastro, presidente-executivo da consultoria SiiLA Brasil, diz que há muita oportunidade de expansão fora de São Paulo. Até o fim deste ano, há entregas previstas também no Ceará, em Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul.
No Rio, três empreendimentos estão ficando prontos, com tamanhos entre 19,5 mil m² e 28,7 mil m², o que poderá elevar ainda mais a taxa de vacância, hoje entre 18% e 19,8%, a depender da consultoria, posicionando o município como uma espécie de patinho feio em meio ao boom da logística.
O principal ruído, segundo Nicastro, vem da segurança, pois muitas empresas passaram a não conceder seguro a cargas que circulam no município. Para André Romano, gerente da divisão industrial e logística da JLL, o mercado responde prioritariamente à demanda: se houver consumidor comprando, as empresas montarão centros de distribuição.
“De fato, é um mercado que anda de lado. Não é dinâmico como São Paulo, nem estável como vendo sendo Ceará e Pernambuco”, diz.
A JLL projeta que o novo estoque chegue a 2,5 milhões de m² em 2022, ultrapassando o recorde de 2021. Quase 78% desses condomínios ainda estarão em São Paulo. Depois, 13,6%, em Minas Gerais, e 4,4%, na Bahia.
O presidente da SiiLA Brasil vê o aumento do estoque total, que chega a 19 milhões de m² como um ponto de atenção para o mercado. O risco é o de que a oferta cresça muito e rápido, derrubando os preços, que depois de patinar por anos, tinham começado a subir.
Mariana, da Newmark, diz acreditar que o estoque poderá assustar, mas se manterá na média histórica em relação às novas locações. Ela aposta em um movimento de “fly to quality”, quando empresas optam por uma locação de padrão superior.
“Vai trocar 10 mil m² de qualidade ruim por 10 mil m² de qualidade boa”, diz.
Andre Romano, da consultoria JLL, vê também a possibilidade de uma reacomodação dos contratantes, de acordo com a atividade. Operadores logísticos (como DHL e Fedex) podem ficar mais distantes das capitais, onde pagarão menos pelo m², mantendo hubs menores nos grandes centros.
“Antes, essas compras eram grandes, eram TVs, geladeira. Hoje, já se compra coisa de uso diário e até mesmo supermercado”, diz Romano. Para essa compra de miudezas, o consumidor tem muito mais pressa em receber do que no caso de um eletrodoméstico.
No estado de São Paulo, as principais absorções do terceiro trimestre vieram do crescimento do digital. O Mercado Livre fechou 50,8 mil m² com a Prologis. A Mobly, varejista online de móveis e itens de decoração, locou 70 mil m² no Centro Logístico Especulativo WT, que integra um fundo da XP. Também com a Prologis, a Loggi contratou 46 mil m². Todos em Cajamar.
Nicastro, da SiiLA, diz que o mercado logístico em São Paulo vive um momento diferente em relação ao restante do país. “Em São Paulo é o ‘last mile’, a briga para ver quem entrega antes e mais barato, e isso só se faz com eficiência e descentralização”.
A tradução aproximada para o significado de “last mile” é a última parada, ou seja, a etapa final antes da entrega ao cliente. A ambição dos operadores é conseguir ficar a 15 quilômetros do centro de São Paulo, em uma infraestrutura que permita, além do armazenamento de mercadorias, a manobra de caminhões e o entra e sai desses veículos.
Marina Cury, presidente da Newmark, diz que hoje há seis projetos bem encaminhados entre aprovações e licenciamentos e que deverão atender esse perfil.
Por outro lado, outras regiões do país só agora começam a ter centros de distribuição próximos. Dos 16 condomínios com entrega prevista neste trimestre, sete estão em São Paulo.
“Ter que esperar inibe o consumo e já se sabe que o consumidor está disposto a pagar até 15% mais se receber antes o produtor”, diz Nicastro, da SiiLA.
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Tecnologia que surgiu em 2009 têm aplicações que vão da proteção de dados pessoais a soluções para grandes movimentações logísticas
Por Da Redação Exame 26/12/2021
Um blockchain é uma rede digital descentralizada, distribuída, utilizada para registrar transações em muitos computadores simultaneamente. Seu objetivo é criar maior confiança e segurança para transações, agilidade e precisão nas informações. Além disso, confere a garantia – maior do que métodos tradicionais – de que os processos serão incorruptíveis.
Em 2009, com o lançamento do primeiro blockchainvoltada para bitcoins, era comum pensar: será que uma rede open-source, com dados distribuídos e abertos ao público, é realmente confiável e não será hackeada?
Avance dez anos: só agora conseguimos ter a clareza do tamanho da disrupção provocada por essa tecnologia. Ela tem um potencial enorme de transformar para sempre a sociedade em que vivemos em todos os setores, não apenas o setor financeiro e dos negócios.
Se o blockchain pode atuar em diversos setores, qual é o limite para essa tecnologia? O que um blockchain pode fazer? No artigo de hoje, vamos nos debruçar sobre algumas das utilidades dessa fascinante inovação tecnológica e entender como eles – afinal, estamos falando de vários blockchains -, podem atuar além do mercado de criptomoedas e ativos digitais.
Identidade digital
Você sabia que fraudes geram perdas de US$ 18,5 bilhões por ano em todo o mundo? Em outras palavras, isso significa que, para cada US$ 3 gastos, US$ 1 é fraudado. Por esse motivo, a segurança digital é uma das principais preocupações de empresas de todos os tamanhos.
Esse é um importante ponto de discussão quando o assunto é blockchain. Os seus dados, hoje, são vendidos com a sua autorização, na maioria das vezes, sem que você saiba disso ou tenha autorizado de forma consciente. Na maioria das vezes, essa autorização está naqueles contratos longos em que clicamos apenas “Eu li e concordo”, sem realmente ler todo o conteúdo.
A tendência é que esse esquema seja transformado com o uso dos blockchain, misturando o uso de chaves públicas e particulares. Para entender melhor esses conceitos: uma chave pública representa como você é identificado na multidão (como um endereço de e-mail), e uma chave privada é como você expressa seu consentimento para interações digitais, como uma senha – a chave privada é conhecida apenas por você.
O uso de blockchains para a identidade digital ainda precisa ser trabalhado pensando também na LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados). A LGPD é uma nova lei – construída com base na GDPR (General Data Privacy Regulation), da Europa -, que busca a transparência sobre a obtenção e uso de dados por organizações e empresas. Garante também o direito ao esquecimento. E é aqui que surge o ponto de choque.
É possível que blockchains e o direito ao esquecimento coexistam em redes descentralizadas? Afinal, a LGPD surgiu pensando em bases de dados centralizadas nas grandes corporações. Mas apagar informações em uma rede blockchain é tecnicamente impossível, já que em geral os próprios blockchains foram criados para impedir que as informações sejam deletadas ou alteradas.
Entenda para que funciona o blockchain além das transações em criptomoedas (metamorworks/Getty Images)
Logística
O setor de logística e cadeia de suprimentos definitivamente é um dos que mais está investindo na tecnologia blockchain. Algumas empresas já oferecem soluções para atacadistas e compradores ao longo da cadeia de aquisições para verificar exatamente onde, quando e como os ingredientes para alimentos, produtos farmacêuticos, entre outros, foram produzidos.
Um exemplo brasileiro muito interessante é a startup Caipira Express, de Araxá (MG), que comercializa os famosos queijos mineiros da Serra da Canastra. A startup faz a certificação e a verificação da procedência de queijos, rastreando toda a cadeia de produção e distribuição com o uso da tecnologia blockchain e registrando um número de série e QR Code, vinculado à rede.
Esse é um caso de sucesso de pequena escala, obviamente, mas a tecnologia pode ser aplicada a produtos em cadeias de logística de maior escala dos grandes varejistas multinacionais, como o Walmart, que pretende aplicar o blockchain para rastrear a origem dos frutos do mar que comercializa em suas lojas.
Tokenização de produtos
Autenticar um produto físico exclusivo será um processo muito mais fácil com o uso de blockchain. Os tokens serão usados para integrar o mundo físico ao digital. Eles ajudarão na gestão da cadeia de suprimentos, na propriedade intelectual e na detecção de fraudes. Além disso, terão um importante papel na anti-falsificação de produtos de marcas registradas.
Pagamentos e transferências monetárias
Essa é uma das mais conhecidas aplicações do blockchain. E vamos além: essa aplicação pode ser benéfica inclusive para donos de pequenos negócios. Isso porque a tecnologiapermite a transferência monetária de forma segura e direta para diversos lugares no mundo, de forma quase instantânea e com taxas menores, já que há menos intermediários no processo de pagamento.
Esse novo formato de pagamento representa uma ótima opção para agências de comunicação ou empresas que trabalham na área criativa ou de TI e que possuem diversos colaboradores espalhados pelo mundo, para fazer pagamentos de forma remota.
Prova de posse
Todos os dias, diamantes, carros, equipamentos agrícolas, máquinas industriais, equipamentos de engenharia pesada, obras de arte e muitos outros produtos de alto valor são vendidos e comprados ao redor do mundo, e a logística para envio é bastante complexa.
O blockchain também consegue modificar esse esquema. O registro de propriedade desses produtos é super importante, pois em alguns casos são bens que valem milhões e podem ser trocados ou perdidos no caminho para seus donos.
Imagine uma coleção particular de obras de Van Gogh que viaja o mundo. Elas podem ser trocadas por cópias falsificadas em uma das viagens a algum país. Para evitar esse problema, seria possível criar uma identificação específica para cada obra, registrá-la via blockchain e pronto: cada tela teria uma autenticação única e inalterável.
As aplicações são infinitas
Essas são apenas algumas das milhares de aplicações diferentes para a tecnologia blockchain. Ela já é utilizada em uma série de áreas, mas ainda há muitas funcionalidades para explorar.
O fato é que o blockchain permite uma proteção para relacionamentos digitais que até então era impossível de conseguir sem intermediários. Os dados estão sendo armazenados e assegurados de maneira diferente.
O blockchain permite uma transformação nas transações comerciais ao redor do mundo e cria um ambiente mais pacífico quanto à confiança e segurança física e digital. Essa nova forma de transacionar produtos e serviços está permitindo a automação de negociações locais e globais e ampliando a utilização de contratos inteligentes.
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