Neuralink, de Elon Musk, se prepara para implantar chips em cérebros humanos

Startup anunciou que está contratando um diretor de testes clínicos

 Por Redação Link – O Estado de S. Paulo 23/01/2022 | 19h06

A Neuralink, empresa criada em 2016 pelo bilionário Elon Musk dedicada a chips cerebrais, está se preparando para realizar os primeiros implantes em seres humanos. No ano passado, a startup revelou os primeiros resultados de pesquisas realizadas com macacos – em um vídeo, é possível ver o macaco Pager jogando Pong sem precisar de um joystick, executando os comandos apenas com o poder da mente.  

Recentemente, a empresa postou um anúncio classificado no qual busca um “diretor de testes clínicos”. Na descrição do cargo, a empresa diz que o contratado “trabalhará de perto com alguns dos médicos e engenheiros mais inovadores, além de trabalhar com os primeiros participantes de teste clínico da Neuralink”. Conhecido por exagerar em suas promessas, Musk já afirmou que espera que seus implantes possam voltar a fazer tetraplégicos voltarem a andar. 

“Temos a chance de restaurar a funcionalidade integral do corpo de alguém que teve uma lesão na coluna. A Neuralink está trabalhando bem com macacos e estamos fazendo muitos testes e confirmando de que é muito seguro e confiável. E o dispositivo da Neuralink também pode ser removido com segurança”, disse ele em evento do Wall Street Journal

A maior aposta da Neuralink é no uso médico. Segundo a empresa, a tecnologia poderia proporcionar uma “simbiose” entre máquina e mente humana, permitir armazenamento e reprodução memórias, curar paralisia, cegueira, perda de memória e outras doenças nervosas — ou fazer coisas simples, como trazer até você um Tesla por meio de telepatia ou fazer tocar uma playlist direto no seu cérebro.

Antes dos testes em macacos, a companhia havia também revelado uma demonstração que previu as ações de uma porca, chamada Gertrude, que carregava um implante no crânio. Cientistas independentes, porém, já alertaram que os sucessos em animais de laboratório podem não se traduzir em humanos e que testes em humanos seriam necessários para determinar a promessa da tecnologia.

O anúncio da Neuralink não dá datas para que os primeiros testes em humanos tenham início. Além do diretor, a empresa está contratando um coordenador de testes clínicos. Os cargos serão ocupados no laboratório da startup em Fremont, na Califórnia. 

Fundada por Musk, Neuralink está contratando diretor de testes clínicos

Fundada por Musk, Neuralink está contratando diretor de testes clínicos

Técnica diferenciada

Uma das técnicas que diferencia a Neuralink é que ela coloca linhas flexíveis de eletrodos nas proximidades dos neurônios, as minúsculas células que são os pilares básicos do cérebro.

Os fios são colocados com o uso de finas agulhas, e um sistema de visão computacional ajuda a evitar os vasos sanguíneos na superfície do cérebro. A técnica envolve a inserção de um feixe de fios, cada um com cerca de um quarto do diâmetro de um fio de cabelo humano.

Os fios flexíveis são, na verdade, sanduíches finos de um material parecido com celofane que isola fios condutores que ligam uma série de minúsculos eletrodos, ou sensores, muito semelhantes a um fio de pérolas.

Eles podem ser inseridos em diferentes locais e em diferentes profundidades, dependendo do experimento ou aplicação. Pesquisas médicas e terapia podem se concentrar em diferentes partes do cérebro, como centros de fala, visão, audição ou movimento. /COM INFORMAÇÕES DO NEW YORK TIMES 

https://link.estadao.com.br/noticias/empresas,neuralink-de-elon-musk-se-prepara-para-implantar-chips-em-cerebros-humanos,70003958922

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Em que as maiores empresas de tecnologia da América estão investindo

Seu foco está no metaverso, carros e cuidados de saúde

The Economist 22 de janeiro de 2022(Tradução Evandro Milet)

Quando os chefes corporativos querem impressionar os investidores, eles recorrem cada vez mais à i-word. As menções de “inovação” durante as chamadas de resultados das empresas s&p500 quase dobraram na última década. E nenhum outro setor fala tanto sobre isso quanto as empresas de tecnologia. Para a Hewlett-Packard, um fabricante de impressoras e computadores pessoais, a inovação às vezes se tornou o que a localização é para os corretores de imóveis e a educação para Tony Blair: tão importante que precisa ser dita três vezes em rápida sucessão.

Eles protestam muito? Ao longo daquela década, alguns críticos sustentaram que o setor de tecnologia não estava oferecendo tanta inovação quanto deveria. Quando Tim Cook, o chefe da Apple, disse que 2020 foi o “maior ano de inovação de todos os tempos” da empresa, graças ao lançamento do novo iPhone, Mac e outros dispositivos e serviços, foi possível sentir que ele poderia estar de alguma forma, construindo um caso para os críticos. As coisas que os produtos podiam fazer e a facilidade com que os faziam representavam uma conquista notável. Sim, o poder de computação continuou aumentando e o software continuou fazendo mais. Mas onde estavam os carros voadores, serviçais robóticos e fones para conectar mentes?

Em 2020, um relatório de um subcomitê antitruste no Congresso dos Estados Unidos argumentou que o domínio da grande tecnologia havia “enfraquecido materialmente a inovação”. Os gigantes, disse, acumulam grandes benefícios dos efeitos de rede que fazem com que ter mais usuários seja a melhor maneira de adicionar novos usuários; eles aumentam a proteção que esses fossos fornecem ao adquirir antecipadamente rivais em potencial. Acabar com essas “aquisições assassinas” foi um dos objetivos da ordem executiva do presidente Joe Biden para aumentar a concorrência no ano passado.

Um contra-argumento para isso é que a competição em tecnologia está longe de estar morta. É difícil encontrar uma parte da indústria onde dois ou mais dos “Big Five” – Alphabet, Amazon, Apple, Meta e Microsoft – não estejam se enfrentando. Outra é que, quando se trata de inovação tecnológica, a concorrência não é necessariamente o que mais importa.

Quando as fundações gêmeas da era do computador, o transistor e a teoria da informação de Claude Shannon, saíram da Bell Labs em meados do século 20, não foi porque o dono dos laboratórios, at&t, estava enfrentando muitos concorrentes desorganizados. Foi porque queria fazer e possuir o futuro. Rob Atkinson, chefe da Information Technology and Innovation Foundation, um think-tank, argumenta que algo semelhante é verdade hoje: os Big Five são “oligopolistas que usam seu poder de mercado para ganhar a próxima grande novidade”.

Tendo passado por um crescimento exponencial, todos eles estão bem cientes de que perder a próxima mudança transformadora pode levá-los a serem expulsos do jogo de criar futuro. Para ter uma ideia de suas estratégias, The Economist analisou uma série de dados sobre as atividades das Big Five, incluindo o foco em tecnologia das empresas que adquiriram recentemente e daquelas nas quais têm participações minoritárias, perfis de seus funcionários no LinkedIn e suas publicações e patentes. O trabalho fornece uma noção de onde esse fenomenal surto de investimento está indo.

Não há dúvida de que as grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos estão gastando uma quantia realmente vasta em pesquisa e desenvolvimento. Em 2020, os gastos públicos e privados dos Estados Unidos em pesquisa e desenvolvimento somaram US$ 713 bilhões. Em 2021, as Cinco Grandes gastaram US$ 149 bilhões, o equivalente a cerca de um quarto desse total (embora parte desse dinheiro não seja gasto nos Estados Unidos). Isso é significativamente maior do que o maior orçamento de pesquisa e desenvolvimento de um único governo, o do Pentágono.

Muitos desses gastos são em desenvolvimento de produtos, e é verdade que o regime tributário incentiva que os gastos sejam deduzidos para P&D, se possível, o que pode distorcer as coisas. Mas isso dificilmente explica o aumento de 34% desde 2019: o regime tributário permaneceu inalterado ao longo desse tempo.

As despesas de capital – que vão principalmente para data centers, mas também para os centros de distribuição da Amazon – também cresceram, para US$ 131 bilhões por ano. Nos últimos 12 meses, a participação das Big Five no fluxo de caixa das operações investidas em P&D e despesas de capital foi de 53%. Isso se compara a uma mediana de 32% para todas as empresas do s&p500.

Uma razão para gastos realmente grandes são as empresas realmente grandes. As receitas das Cinco Grandes, que têm um valor de mercado combinado de mais de US$ 9 trilhões, quase triplicaram entre 2015 e 2020. Mas, embora, quando expresso em proporção do aumento das vendas, o investimento pareça mais modesto, ainda é real (veja o gráfico 1). Os gastos com pesquisa e desenvolvimento aumentaram em um terço no mesmo período, de cerca de 9% das vendas para 12%, e as despesas de capital cresceram mais de um quarto, subindo dois pontos percentuais para cerca de 9% das vendas.

Mas uma parte crucial disso é que existem metas específicas que as empresas desejam alcançar e que exigem muita pesquisa e desenvolvimento. A Apple está à procura do hardware que se tornará o novo iPhone, seja um carro ou um headset de realidade virtual (VR). 

A Amazon está tentando incansavelmente melhorar a eficiência de seus armazéns e sistema de entrega e expandir a gama de indústrias que utilizam o Amazon Web Services. Para a Meta, que viu sua principal oferta, o Facebook, ser evitada por pessoas mais jovens, uma nova grande novidade pode ser a única maneira de garantir a sobrevivência: sua recente mudança de nome será em vão sem a nova tecnologia para apoiá-la.

Pesquisadores do Big Five publicaram mais de 16.000 artigos científicos nos cinco anos até 2019, e seus tópicos fornecem algumas informações sobre o que está acontecendo. Os negócios principais estão sendo aprimorados – um artigo recente da Amazon discute maneiras de “evitar duplicatas nos resultados da pesquisa” – e algumas possibilidades esotéricas exploradas – um artigo de uma equipe com membros do Google Research fornece insights sobre uma “amostra cirúrgica humana do lobo temporal do córtex cerebral”. Mas as diferentes políticas de publicação em diferentes empresas dificultam o uso quantitativo dos dados.

A Alphabet é generosa quando se trata de publicação, buscando atrair pesquisadores que não entrariam em uma empresa que os obrigasse a esconder sua luz em um subterrâneo. Como resultado, a Alphabet fica bem em medidas baseadas em publicações: é a quarta instituição corporativa mais bem classificada na edição atual do Nature Index, que mede o impacto da pesquisa acadêmica nas ciências (Roche, empresa suíça de saúde , encabeça a lista). A Apple é muito mais rigorosa quanto à publicação. Mas isso não significa que seja menos inovadora.

Carros, o metaverso e tudo mais

Os analistas calculam que algo entre 5% e 20% dos gastos maciços em P&D dos gigantes da tecnologia vão para o que, para os propósitos deste artigo, estamos chamando de “tecnologias de fronteira”: o metaverso, veículos autônomos, saúde, espaço, robótica, fintechs, criptografia e computação quântica. (A inteligência artificial, AI, agora é tão onipresente que não a consideramos uma fronteira em si mesma.) Analisamos aquisições, investimentos e dados de emprego para ver qual das empresas parecia mais interessada em quê.

Nos últimos três anos, as Cinco Grandes adquiriram cerca de 110 empresas, de acordo com dados da PitchBook, uma empresa de pesquisa (esses dados não incluem a aquisição de US$ 69 bilhões da Activision Blizzard pela Microsoft anunciada esta semana). Há um limite para o quanto esses dados podem revelar. Na maioria dos casos, o tamanho do negócio não foi divulgado e muitas aquisições menores são tratadas como recrutamento e, portanto, não nos dados. Os que acreditam em “aquisições matadoras” podem ver alguns desses acordos como tentativas de impedir a inovação em vez de acelerá-la. Mas mesmo que seja esse o caso, eles mostram onde as empresas estão focadas.

Dos cerca de 40 negócios que vieram com números, a avaliação total foi de aproximadamente US$ 50 bilhões. Mais de um quarto das empresas adquiridas especializou-se em IA ou em processamento de grandes conjuntos de dados. Talvez um quarto deles estivesse desenvolvendo tecnologias de ponta (veja o gráfico 2 para um detalhamento).

A Microsoft é a grande investidora. Em abril, concordou em comprar a Nuance Communications, fornecedora de software e nuvem com foco em saúde, por US$ 19,7 bilhões, na maior aquisição para a qual temos dados nos últimos três anos. Também comprou startups que facilitam serviços de nuvem, como a Mover.io, que ajuda as empresas a transferir dados para a nuvem, e a CloudKnox, uma empresa de cibersegurança. O Google, que fica atrás da Microsoft e da Amazon em sua oferta de nuvem, comprou três startups baseadas em nuvem, incluindo a Actifio. Também comprou três empresas de vestíveis(wearables), incluindo a Fitbit, nas quais gastou US$ 2,1 bilhões, refletindo seu crescente interesse em assistência médica.

Em termos de obstinação, o sinal mais claro é a busca de Meta por todas as coisas do metaverso. Das 13 empresas que trabalham em realidade aumentada (RA) ou RV que foram compradas a preço divulgado, a Meta comprou oito, incluindo BigBox VR e Downpour Interactive. A Apple comprou outras quatro, incluindo Next VR e IKinema. Mas sua maior prioridade por esta medida foi IA. De suas 22 compras desde 2019, mais da metade foram startups relacionadas à IA.

Outra janela para as prioridades de quatro das cinco empresas é onde elas escolhem ter participações minoritárias. Das 101 empresas nas quais os dados do PitchBook mostram as empresas que investiram muito nos últimos três anos, mais de um terço são ativas em tecnologia de ponta. A exceção aqui é a Apple, que faz muito poucos investimentos desse tipo, nenhum dos quais nas áreas de fronteira.

Aqui, também, as escolhas são reveladoras. Veja as cinco investidas que fabricam carros. A Amazon investiu em duas, Aurora e Rivian. A última, na qual tem 20% de participação, abriu o capital em novembro e está avaliada em US$ 67 bilhões. Além disso, no ano passado a Amazon comprou a Zoox, que como a Aurora, se concentra em veículos autônomos, por US$ 1,3 bilhão.

Analistas suspeitam que o interesse imediato da Amazon no setor esteja na possibilidade de tornar seu serviço de entrega mais barato e eficiente – já encomendou 100.000 vans de entrega da Rivian. 

O investimento pode ser comparável à compra da Kiva Systems, uma empresa de robótica, em 2012. A tecnologia da Kiva agora ajuda os armazéns da Amazon a funcionar eficientemente.

O Google também investiu em duas empresas de carros autônomos: Waymo, uma empresa originalmente desmembrada da X, a unidade “moonshot” interna da gigante de tecnologia; e Nuro, uma empresa de entrega autônoma. A Apple, que em 2019 adquiriu a Drive. ai, uma startup de carros autônomos, está trabalhando principalmente em seus carros autônomos internamente. Seu Projeto Titan visa lançar um veículo em 2025. Esta semana, a Microsoft entrou na corrida, com um investimento na Wayve, uma empresa de carros autônomos com sede em Londres.

No geral, 9% dos investimentos feitos pelas grandes empresas de tecnologia são em carros e mobilidade, em comparação com apenas 2,4% para o setor de capital de risco(VC). De fato, todas as tecnologias de fronteira, exceto as criptomoedas, possuem uma parcela do investimento Big Five maior do que para VCs em geral. No geral, 37% dos grandes investimentos em tecnologia, em número, estavam nas fronteiras, em oposição a cerca de um quarto para investidores de risco em geral.

Alphabet, Amazon e Microsoft também têm subsidiárias de investimento separadas. Desde 2019, os braços de capital de risco da Alphabet (Gradient Ventures e gv) e sua unidade de private equity (CapitalG) fecharam cerca de 400 negócios. Cerca de 100 deles foram para empresas que trabalham em ciências da vida ou assistência médica – uma área que as empresas de tecnologia consideram atraente em parte devido à crescente aplicabilidade da IA ​​à biologia. Agora você pode “escrever a estrutura de RNA em um computador como se fosse um software”, diz Tom Slater, da Baillie Gifford, uma grande gestora de ativos que investe em empresas de tecnologia. Os investimentos de capital de risco do Google incluem a Editas Medicine, uma empresa de edição de genoma, e a Adagio Therapeutics, uma empresa de descoberta de medicamentos.

Outros 45 investimentos dos braços de financiamento do Google foram em empresas de tecnologia financeira como a Botkeeper, um serviço automatizado de contabilidade. Outras empresas de tecnologia estão fazendo movimentos semelhantes. A Apple adquiriu a Mobeewave, uma startup de pagamentos, em 2020 para transformar os iPhones em terminais móveis de pagamento sem contato. No ano passado, a Amazon comprou a Perpule, uma fintech indiana, e está trabalhando com a Goldman Sachs para expandir a oferta de empréstimos da empresa.

A Perpule e várias outras fintechs fazem parte de outra tendência: das 101 empresas nas quais os titãs da tecnologia têm participação desde 2019, 24 são da Índia, mais do que qualquer outro país, exceto os Estados Unidos. A Amazon construiu uma participação no BankBazaar, um mercado financeiro online baseado em Chennai. Em 2020, o Google disse que planejava investir US$ 10 bilhões em empresas de tecnologia indianas nos próximos cinco a sete anos. Em geral, as grandes empresas de tecnologia parecem muito mais dispostas a investir na Índia do que as empresas americanas de VCs.

Outra maneira de avaliar onde as empresas de tecnologia estão apostando é observar as pessoas que empregam e as que desejam empregar. The Economist examinou os perfis do LinkedIn dos funcionários das Cinco Grandes para as palavras-chave mais usadas (veja o gráfico 3). Novamente, os dados do Meta são muito metaversais. Encontramos alguma experiência de trabalho com RA ou RV em 2-4% dos perfis associados aos funcionários da Meta, mais do que em qualquer outra empresa.

Quantidade de empregos

De acordo com a Thinknum Alternative Data, uma empresa de pesquisa, os gigantes da tecnologia também estão procurando contratar nessas áreas. As menções a RA e RV nas listas de empregos das Cinco Grandes saltaram de cerca de 75 em agosto de 2020 para 567 hoje. A Meta e a Amazon estão publicando cerca de 200 desses empregos cada no momento – um fato impressionante, já que a Amazon emprega 20 vezes mais pessoas do que a Meta. Um aumento semelhante pode ser visto em listagens relacionadas a carros. Algumas contratações são de alto perfil. Em junho, a Apple contratou Ulrich Kranz, ex-executivo sênior da unidade de veículos elétricos da BMW, para reforçar o Projeto Titan. Também abocanhou dois executivos da Tesla.

Há um interesse crescente na computação quântica, mesmo que partindo de uma base baixa. Em média, cerca de 0,5% dos funcionários das grandes empresas de tecnologia se referem a computação quântica em suas páginas do LinkedIn. Amazon e Alphabet estão mencionando mais quando anunciam vagas. Em julho, o Google anunciou um grande passo na supressão de erros quânticos, vital para que a tecnologia seja comercializada. Kevin Scott, diretor de tecnologia da Microsoft, vê o investimento em computação quântica como uma necessidade para a empresa. “Se tal máquina [de computação quântica] existisse no futuro, seria importante que a Microsoft tivesse uma”, diz ele. Esses medos de perder podem impulsionar grandes projetos de pesquisa.

Outras formas de dados sustentam muito do que nossa pesquisa sugere. Tome patentes. Microsoft, Amazon e Google solicitaram recentemente patentes relacionadas à computação quântica. Mais da metade dos pedidos de patentes da Meta desde 2019 mencionam RA ou RV. Nos eventos sobre resultados financeiros, Meta, sem surpresa, bate no metaverso; Microsoft e Google são muito mais propensos a falar sobre a IA que sustentará a maioria das novas fronteiras tecnológicas.

Nada disso quer dizer que os oligopolistas estão investindo de forma a maximizar a inovação em si, muito menos os benefícios econômicos e sociais que ela pode trazer. É difícil não acreditar que o tamanho desses incumbentes constitua algum tipo de bloqueio às tentativas radicais de reinventar o mundo. Mas, embora cada empresa tenha seus interesses particulares, nossa visão de suas prioridades mostra que em muitos setores há realmente uma concorrência significativa.

E apesar de toda essa inovação ser uma palavra fácil de usar, investir enormes quantias de dinheiro e recursos nela é muito mais difícil. É muito melhor que a grande tecnologia faça esse trabalho duro do que apenas ficar de costas para maximizar seus rendimentos. ■

https://www.economist.com/briefing/2022/01/22/what-americas-largest-technology-firms-are-investing-in

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10 profissões em alta – e as cidades com mais contratação dos cargos – no Brasil, segundo o LinkedIn

Cargos com demanda crescente no país estão ligados, em sua maioria, ao trabalho com dados, cibersegurança e sistemas

Por Mariana Zonta d’Ávila Infomoney 21 jan 2022 

Com o modelo de trabalho remoto se tornando uma nova realidade para muitos desde o início da pandemia de Covid-19, a procura por profissionais ligados à área de tecnologia — que antes já era grande —, se intensificou nos últimos anos.

Ao mesmo tempo, diversos setores foram afetados pela crise e um grande número de profissionais está hoje em busca de uma oportunidade de trabalho.

Pensando nisso, o LinkedIn organizou uma lista com as carreiras mais promissoras no Brasil, que tiveram alta demanda nos últimos cinco anos.

A pesquisa foi feita na rede social com a base de dados de janeiro de 2017 a julho de 2021 e considera cargos que tiveram crescimento consistente na base de usuários, além de um aumento significativo em 2021.

O levantamento mostra ainda as competências mais comuns da função, as cidades com mais contratações para aquele profissional, tempo médio de experiência antes de a pessoa assumir a posição, entre outros.

Entre as dez mais demandadas, destaque para cargos ligados, em sua maioria, ao trabalho com dados, cibersegurança e sistemas.

Profissional diante de computador (Pixabay)

Confira, a seguir, 10 cargos com demanda crescente no país, segundo o LinkedIn:

1. Recrutador(a) especializado(a) em tecnologia

Competências mais comuns: Recrutamento de TI, Entrevistas, Triagem de currículos

Setores mais comuns: Tecnologia da informação & Serviços, Recrutamento, Recursos Humanos

Cidades com mais contratações: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte

Tempo médio de experiência antes de assumir o cargo: 7,3 anos

Principais cargos ocupados antes da contratação: Analista de recursos humanos, recrutador(a), assistente administrativo

Divisão por gênero de contratados em 2021: 20,8% homens; 79,2% mulheres

2. Engenheiro(a) de confiabilidade de sites (Site Reliability Engineer – SRE)

O que faz: Avalia e otimiza a confiabilidade de sistemas com ferramentas de probabilidade e estatística. Entre suas atribuições estão o diagnóstico e o prognóstico de falhas e desenvolvimento de soluções de automação para aprimorar a usabilidade de uma plataforma.

Competências mais comuns: DevOps, Amazon Web Services, Docker

Setores mais comuns: Tecnologia da informação & Serviços, Serviços Financeiros, Internet

Cidades com mais contratações: São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis

Tempo médio de experiência antes de assumir o cargo: 10,5 anos

Principais cargos ocupados antes da contratação: Consultor(a) de DevOps, Engenheiro(a) de software, Engenheiro(a) de servidor

Divisão por gênero de contratados em 2021: 95,1% homens; 4,9% mulheres

3. Engenheiro(a) de dados (Data engineer)

Competências mais comuns: Apache Spark, Hadoop, Hive

Setores mais comuns: Tecnologia da informação & Serviços, Serviços Financeiros, Internet

Cidades com mais contratações: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte

Tempo médio de experiência antes de assumir o cargo: 9,8 anos

Principais cargos ocupados antes da contratação: Engenheiro(a) de software, Analista de dados, Analista de Business Intelligence

Divisão por gênero de contratados em 2021: 86% homens; 14% mulheres

4. Especialista em cibersegurança

Competências mais comuns: Cibersegurança, Segurança da informação, Segurança de rede

Setores mais comuns: Tecnologia da informação & Serviços, Serviços Financeiros, Contabilidade

Cidades com mais contratações: São Paulo, Rio de Janeiro, Osasco

Tempo médio de experiência antes de assumir o cargo: 12,2 anos

Principais cargos ocupados antes da contratação: Analista de cibersegurança, Analista de segurança da informação, Especialista em segurança da informação

Divisão por gênero de contratados em 2021: 83,5% homens; 16,5% mulheres

5. Representante de desenvolvimento de negócios (Business Development Representative)

Competências mais comuns: Outbound Marketing, Prospecção de vendas, Vendas internas

Setores mais comuns: Tecnologia da informação & Serviços, Software de computadores, Serviços Financeiros

Cidades com mais contratações: São Paulo, Curitiba, Florianópolis

Tempo médio de experiência antes de assumir o cargo: 5,1 anos

Principais cargos ocupados antes da contratação: Vendedor(a), Assistente administrativo, Especialista em vendas

Divisão por gênero de contratados em 2021: 44,9% homens; 55,1% mulheres

6. Gestor(a) de tráfego (Traffic manager)

Competências mais comuns: Gestão de tráfego, Google Ads, Marketing digital

Setores mais comuns: Marketing & Publicidade, Tecnologia da informação & Serviços, Serviços de facilities

Cidades com mais contratações: São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro

Tempo médio de experiência antes de assumir o cargo: 5,8 anos

Principais cargos ocupados antes da contratação: Assistente administrativo, Analista de marketing, Vendedor(a)

Divisão por gênero de contratados em 2021: 79,8% homens; 20,2% mulheres

7. Engenheiro(a) de machine learning (Engenheiro de aprendizagem de máquina)

Competências mais comuns: Aprendizado de máquina, Aprendizagem profunda, Ciência de dados

Setores mais comuns: Tecnologia da informação & Serviços, Serviços Financeiros, Software de computadores

Cidades com mais contratações: São Paulo, Porto Alegre, Brasília

Tempo médio de experiência antes de assumir o cargo: 4,8 anos

Principais cargos ocupados antes da contratação: Engenheiro(a) de software, Cientista de dados, Engenheiro(a) de dados

Divisão por gênero de contratados em 2021: 85,9% homens; 14,1% mulheres

8. Pesquisador(a) em experiência do usuário (User Experience Researcher)

Competências mais comuns: Teste de usabilidade, Experiência do usuário (UX), Design thinking

Setores mais comuns: Tecnologia da informação & Serviços, Serviços Financeiros, Internet

Cidades com mais contratações: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte

Tempo médio de experiência antes de assumir o cargo: 8,5 anos

Principais cargos ocupados antes da contratação: Designer de experiência do usuário, Consultor(a) em design de produto, Estrategista de design

Divisão por gênero de contratados em 2021: 28,6% homens; 71,4% mulheres

9. Cientista de dados (Analista de dados, Data Science Specialist)

Competências mais comuns: Ciência de dados, Aprendizado de máquina, Python

Setores mais comuns: Tecnologia da informação & Serviços, Serviços bancários, Serviços Financeiros

Cidades com mais contratações: São Paulo, Brasília, Campinas

Tempo médio de experiência antes de assumir o cargo: 7,5 anos

Principais cargos ocupados antes da contratação: Cientista de dados, Analista de dados, Engenheiro(a) de software

Divisão por gênero de contratados em 2021: 77,2% homens; 22,8% mulheres

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10. Analista de desenvolvimento de sistemas

Competências mais comuns: Scrum, AngularJS, Microsoft SQL Server

Setores mais comuns: Tecnologia da informação & Serviços, Software de computadores, Serviços de utilidade pública

Cidades com mais contratações: São Paulo, Belo Horizonte, Brasília

Tempo médio de experiência antes de assumir o cargo: 7 anos

Principais cargos ocupados antes da contratação: Analista de sistemas, Engenheiro(a) de software, Analista de desenvolvimento

Divisão por gênero de contratados em 2021: 83,7% homens; 16,3% mulheres

Metodologia do levantamento

A pesquisa “LinkedIn Economic Graph” examinou milhões de empregos iniciados por usuários do LinkedIn entre 1º de janeiro de 2017 e 31 de julho de 2021 para calcular uma taxa de crescimento para cada cargo.

Para fazer parte da lista, os cargos precisavam ter um crescimento consistente na base de usuários da rede social, além de terem registrado um aumento significativo em 2021.

Cargos idênticos com diferentes níveis de experiência foram agrupados e classificados em conjunto. Já estágios, cargos de voluntariado, funções temporárias e funções de estudantes foram excluídos. Cargos em que a contratação era dominada por algumas poucas empresas em cada país também foram excluídos, destaca o LinkedIn.

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Estas são as habilidades mais buscadas pelas multinacionais

Estudo em 16 países, com 1,1 mil gestores e executivos, indica que pandemia ressaltou a demanda por competências comportamentais

Por Barbara Bigarelli – Valor 14/01/2022 

Liderança e comunicação são as habilidades consideradas fundamentais para as empresas terem sucesso nos negócios e enfrentarem a guerra global por talentos após o impacto da pandemia. A conclusão aparece em uma pesquisa recente, realizada com 1.188 profissionais em posição de comando em multinacionais em 16 países, incluindo o Brasil, e realizada pela agência Sapio Research para a Hult EF Corporate Education. Entre os entrevistados, 59% ocupavam cargos sêniores ou de nível executivo e 63% das organizações pesquisadas empregavam mais de 5.000 funcionários.

Segundo o estudo, se antes da pandemia as organizações já eram pressionadas com a missão de atrair e reter talentos, após o impacto da covid-19 esse desafio se acentuou. Mais de 60% dos entrevistados acreditam que é mais difícil encontrar trabalhadores com as habilidades necessárias e que é preciso mais tempo para preencher vagas agora do que há 2 anos.

Três em cada cinco empresas dizem que é difícil recrutar uma equipe sênior com as habilidades necessárias para seus cargos e 63% acreditam que se tornará mais difícil recrutar funcionários qualificados no futuro. Entre os motivos para a demanda por novas habilidades, os entrevistados apontaram a transformação digital (66%), a ascensão do trabalho remoto (65%), a liderança de equipes virtuais (60%), liderança rumo à mudança (57%), e programação e inteligência artificial (56%).

“O início da pandemia demandou funcionários que pudessem liderar, inovar e executar tarefas de forma rápida e eficaz durante uma crise. À medida que nos aproximamos de quase dois anos de pandemia, surgem outras questões que precisam ser abordadas, por exemplo, o extremo “isolamento” dos indivíduos e suas consequências; a perda de talentos promissores na chamada “grande demissão”; a erosão da cultura das empresas, entre outros”, analisa Eduardo Santos, diretor-geral da Hult EF Corporate Education.

Nos últimos dois anos, as habilidades com maior probabilidade de aumento de demanda foram aquelas associadas a transição de modelos de negócios e aceleração de processos digitais, além de formas de comunicação com colegas de trabalho e clientes, aponta análise do estudo. Para os entrevistados, as habilidades prioritárias para o desenvolvimento de sua força de trabalho visando o sucesso dos negócios hoje são:

Liderança (22%)

Comunicação (20%)

Tomada de decisões estratégicas (19%)

Resolução de problemas (19%)

Habilidades técnicas (18%)

Transformação digital (18%)

Gerenciamento de projetos (15%)

Análise de dados (15%)

Planejamento de negócios (15%)

Criatividade (13%)

A liderança exigida hoje é aquela avaliada não apenas pelo que entrega ou executa no horário de trabalho, mas pelas visões, valores e pela forma como se comunica no público e no privado, diz Santos. “Estamos vendo cada vez mais líderes corporativos expostos, comunicando-se com mais frequência e também mostrando vulnerabilidade e compaixão. Isso ajuda a unir as pessoas e gera identificação dos colaboradores. O líder do futuro vai precisar desenvolver muito mais habilidades sociais (soft skills) do que habilidades técnicas”, defende.

O estudo avaliou se as empresas se veem no papel de reservar orçamento e investir na requalificação profissional. Mais de 40% dos entrevistados dizem que o desenvolvimento das habilidades sociais de seus funcionários aumentou nos últimos dois anos, e isso deve continuar, com uma maior proporção do orçamento reservado no futuro para tais habilidades em relação às habilidades técnicas.

Os principais desafios para desenvolver funcionários espalhados em diversas regiões geográficas são segundo a pesquisa: encontrar programas de aprendizagem que sejam consistentes em todos os países (42%) e programas de aprendizagem não oferecidos em vários idiomas (29%).

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2022/01/14/estas-sao-as-habilidades-mais-buscadas-pelas-multinacionais.ghtml

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OPINIÃO: Quem vai vencer a corrida das agtechs?

Alguém aqui imagina o produtor rural entrando em 50 apps todos os dias?

Por Octaciano Neto e Guilherme Raucci* — Valor 19/01/2022 

A agricultura digital vem avançando rapidamente nos últimos anos e milhares de agtechs foram criadas. Só no Brasil, segundo levantamento do Radar Agtech 2021, existem 1574, divididas em várias categorias: análise laboratorial, crédito, genômica, controle biológico, IoT, automação, rastreabilidade, plantio urbano, etc. Desde 2009, os aportes realizados em Agtechs foram de US$ 160 milhões, segundo o Distrito Mining Report — Agtech 2021. O mesmo relatório destaca as maiores agtechs do Brasil: Solinftec, Agrosmart, SoluBio, Xmobots e GlobalYeast.

A indústria também passou a adotar estratégias voltadas para o fornecimento de soluções aos seus clientes, seja através de soluções proprietárias, seja através de investimentos em agtechs. Se olharmos para as indústrias do agronegócio, antes e depois da porteira, iremos observar que, majoritariamente, o desenvolvimento dos produtos digitais está sendo protagonizado pela indústria de insumos, ao lado, evidentemente, das próprias agtechs. As agroindústrias, que processam os produtos agrícolas, estão um pouco mais distantes deste novo mundo.

Existem ameaças digitais que estão colocando em risco o paradigma predominante no modelo de negócio gerador das grandes corporações vencedoras até então, o qual considera que intensos investimentos em P&D, marketing, forte base financeira e robusta equipe comercial seria suficiente para manutenção na liderança do mercado. Além disso, o próprio modelo vem perdendo competitividade com as quebras de patentes, entradas de produtos genéricos, quebra de resistência das moléculas, falta de suprimentos, aumentos dos custos de produção e escassez de mão de obra.

A americana John Deere apresentou recentemente o primeiro trator totalmente autônomo — Foto: Divulgação

Na nova economia, o modelo tradicional não garante vida longa às empresas líderes. As indústrias tradicionais são pesadas, demoram a ajustar a proa. Mesmo com recursos e acesso rápido ao mercado. Estão buscando reagir.

Muitos executivos, com a melhor das intenções ou para apresentar “conexão com o novo mundo” aos acionistas e conselhos de administração, saem aportando muito dinheiro em soluções e produtos digitais. E muitos erros acontecem.

No outro lado, as agtechs têm agilidade e possuem um mindset de experimentação. No entanto, com poucos recursos apresentam dificuldade de aplicar e testar os seus produtos e serviços em casos reais, além das dificuldades em escalar a experimentação em várias empresas e/ou fazendas. Mas mesmo com tantos desafios de todos os lados, existe uma corrida do ouro, ou da agricultura autônoma e integrada.

A estrada deste mundo digital no agronegócio está só no começo. Outros setores da economia tiveram avanços mais rápidos, tais como bancos/setor financeiro e mídia. Olhando pelo copo meio cheio, é uma ótima oportunidade, pois há muita coisa para ser feita no mundo rural.

São muitas as decisões que um produtor precisa tomar ao longo do ciclo produtivo de uma determinada cultura, ao longo da sua jornada diária na fazenda. A tomada de decisões de forma empírica, com base na tradição, na experiência prática, sem considerar comprovação científica, tem seus riscos. A assertividade reduz prejuízos ao produtor. A transformação digital no campo, materializada nestas soluções e produtos digitais, traz maior assertividade. Cria uma rotina data-driven.

No entanto, mesmo que estejamos no início da estrada (agricultura autônoma), um novo desafio se apresenta: excesso de soluções e produtos digitais. Em geral, as soluções ou produtos digitais que estão no mercado buscam resolver dores pontuais da jornada do produtor rural.

Com muitas soluções no mercado, o produtor não sabe qual escolher. Um mosaico tecnológico que faz lembrar Frankenstein. As soluções não se falam e o retorno do investimento às vezes é comprometido. O interesse em vender mais se sobrepõe às dores do cliente, no caso, dos produtores rurais.

Existe solução para recomendar a melhor semente, a formulação do fertilizante, o momento certo de irrigar, que otimiza o uso dos tratores e implementos agrícolas, outras dão crédito digitalmente, assim vamos numa lista interminável. Resumindo: milhares de soluções que buscam resolver dores pontuais da jornada do produtor rural. O problema: alguém aqui imagina o produtor entrando em 50 apps todos os dias?

Vale reforçar que o produtor tem uma jornada mais ampla do que só produzir: precisa comprar insumos, tomar crédito, vender a safra, etc. Os produtores desejam uma experiência personalizada.

Nesse contexto, vemos o surgimento de um novo conceito no agronegócio — o “farming as a service” ou “agricultura como serviço”. O modelo “as a service” já faz parte de nossas vidas há algum tempo e designa um novo modelo de consumo onde o consumidor final não precisa possuir os bens para usufruir do benefício. Alguns exemplos conhecidos são os aplicativos de transporte (queremos ir do ponto A ao ponto B, não preciso comprar um carro para isso), streaming de filmes e músicas (não preciso necessariamente comprar o DVD ou o CD novo) e por aí vai.

Na agricultura, já vemos exemplos claros desse modelo com cooperativas montando unidades de agricultura digital para seus produtores (o produtor não precisa comprar o drone e saber voar, ou assinar a agtech A ou B — é a cooperativa quem presta o serviço quando necessário), nas empresas de polinização (como o “Uber das abelhas” AgroBee, que aluga colméias para serem utilizadas na época de florada) e até exemplos mais inovadores como a proposta da Bayer em cobrar pelo aumento da produtividade e não pelos insumos diretamente.

O nome do próximo jogo desta estrada da agricultura autônoma é plataforma ou construção de ecossistemas digitais no agro. Vamos olhar para outros setores da economia para refletirmos sobre o nosso agro.

Na agricultura como serviço, o produtor não precisa comprar o drone e saber voar — Foto: Pixabay

O Alibaba é um expoente quando se discute ecossistemas que deram certo. Segundo Ming Zeng, “hoje a Alibaba não é apenas uma empresa de comércio online. Ele é o conjunto de todas as funções associadas ao varejo coordenadas online em uma vasta rede orientada por dados que inclui vendedores, profissionais de marketing, prestadores de serviços, empresas de logística e fabricantes. Em outras palavras, a Alibaba faz o que a Amazon, a eBay, a PayPal, a Google, a FedEx, os atacadistas e boa parte dos fabricantes fazem nos Estados Unidos, com a saudável ajuda de serviços financeiros para guarnecer”.

Imagine a sua jornada de turista. Você precisa comprar passagem aérea num site, reservar hotel em outro, procurar e selecionar um restaurante, fazer a reserva num app. Além disso, alugar carro numa empresa diferente, contratar seguro-viagem por um corretor e ainda financiar (parcelar) a sua viagem, etc. Imagine agora uma plataforma que consiga ofertar e resolver todas as dores da jornada de um turista num ambiente integrado?

É nesta linha que veremos o ecossistema de agtechs evoluir nos próximos anos. A Mckinsey define um ecossistema como um “conjunto interconectado de serviços que permitem aos usuários atender a uma variedade de necessidades em uma experiência integrada”. Registra também: “As fronteiras da indústria estão se confundindo e as cadeias de valor estão se consolidando em ecossistemas”.

Nesse mesmo estudo, são apresentados os benefícios estratégicos da construção de ecossistema: redução de custo de aquisição do cliente, maior acesso a dados e a possibilidade de monetizá-los, melhoria do relacionamento e da retenção dos clientes e permanente avaliação que ajuda na manutenção da competitividade.

Os ecossistemas surgem porque, como resultado da digitalização, se torna possível conectar um grande conjunto de empresas para fornecer uma solução ao cliente.

Você já imaginou a integração do Cropwise (solução de monitoramento de lavoura da Syngenta Digital), com os sensores e a inteligência de irrigação da Agrosmart, tratores John Deere, os silos Kepler Weber, o Gira (plataforma de soluções financeira do Santander), as estações meteorológicas do INPE e os dados mercadológicos do CEPEA/Esalq/USP?

Muitas questões estão em aberto. Faz sentido uma empresa ser proprietária de todas as aplicações? Eu posso criar a plataforma e disponibilizar APIs para que outras empresas possam integrar seus produtos e serviços? A minha plataforma será aberta ou fechada? A minha empresa será construtora, orquestradora ou participante do ecossistema? Como monetizar os dados na plataforma? E como monetizar meus parceiros nas aplicações? Como será a reação dos meus concorrentes?

Quem olhar de forma integrada focado nas dores do produtor rural e responder de forma mais eficiente as perguntas acima, certamente sairá do outro lado como vencedor. Não será apenas um. Serão alguns vencedores. Talvez um misto de empresas da economia tradicional com agtechs que nasceram na economia digital. No entanto, haverá uma nova configuração na constelação das atuais empresas que protagonizam o fornecimento de produtos e serviços ao agronegócio brasileiro e mundial. E cada vez mais “farming as a service”.

* Octaciano Neto é head de agronegócios da EloGroup e Guilherme Raucci é professor da FGV e especialista em transformação digital na agricultura

https://pipelinevalor.globo.com/startups/noticia/opiniao-quem-vai-vencer-a-corrida-das-agtechs.ghtml

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Startups brasileiras tentam um lugar ao sol do metaverso

Após guinada do Facebook, segmento ganhou novo gás e abriu oportunidades para empresas que criam bens digitais

 Por Giovanna Wolf e Guilherme Guerra – O Estado de S. Paulo 19/01/2022

 

Desde outubro passado, quando o Facebook mudou seu nome corporativo para Meta, um dos principais assuntos do mundo da tecnologia tem sido o metaverso – segundo a Bloomberg Intelligence, o setor pode movimentar US$ 800 bilhões até 2024. Além de atrair os olhares de grandes empresas, o conceito, que planeja fazer a ponte entre mundos digitais e o mundo real por meio de realidade virtual (RV) e realidade aumentada (RA), começa a abrir um novo mercado para startups brasileiras.

Enquanto Facebook, Microsoft e outros titãs do setor pensam no uso mais amplo do conceito, como a construção de universos digitais gigantescos e hardwares de última geração, as nossas startups trabalham em desenvolvimentos mais focados. Uma delas é a paulistana MedRoom, que criou um universo digital para o ensino de Medicina. Fundada em 2016, a empresa foi comprada em novembro de 2020 pelo grupo Ânima Educação.

A startup desenvolveu um software que funciona como um laboratório de anatomia em RV, em que estudantes conseguem interagir virtualmente com partes do corpo humano em 3D – para acessar a plataforma, é preciso usar o dispositivo de realidade virtual do Facebook, chamado de Oculus Quest

“A RV é excelente para a educação. Nunca tivemos uma ferramenta que conseguisse prender tanto a atenção”, afirma Vinicius Gusmão, cofundador e presidente executivo da MedRoom, ao Estadão. “As peças de cadáveres se decompõem, o que atrapalha o aspecto visual e tátil dos órgãos. Com interações digitais, conseguimos colocar um coração batendo na frente dos estudantes, como se fosse de uma pessoa viva”. 

Gusmão, da MedRoom, aposta no poder educacional da tecnologia

Gusmão, da MedRoom, aposta no poder educacional da tecnologia

Atualmente, a MedRoom oferece o software para 40 instituições de ensino, entre elas Einstein, Estácio e Pontifícia Universidade Católica (PUC) – as escolas pagam uma assinatura anual pela plataforma e são responsáveis por comprar as estações de realidade virtual. Além da experiência com os óculos, a startup disponibiliza uma versão mais restrita do corpo humano virtual em um app e um site. 

Outro uso do metaverso é no varejo. A startup R2U, por exemplo, oferece uma ferramenta de RA que gera objetos digitais em 3D – a solução é usada principalmente na área de decoração. Com o recurso, que funciona pelo navegador do celular, o consumidor consegue simular como o produto desejado, como um sofá ou uma cadeira, ficaria no ambiente onde ele seria instalado. Sediada em São Paulo, a R2U atende hoje 38 varejistas, entre elas Leroy Merlin, Mobly e Electrolux – em novembro de 2020, a startup captou US$ 800 mil em uma rodada de investimentos liderada pela firma de venture capital Canary.

A startup também vai ajudar varejistas a criarem lojas em um universo virtual, digitalizando seus produtos. “Fazemos itens em 3D para vários sistemas há muitos anos. Temos todo o potencial para sermos os arquitetos do metaverso”, diz Caio Jahara, cofundador e presidente executivo da R2U. A empresa está desenvolvendo uma plataforma de metaverso que deve ser lançada em abril, em que consumidores poderão comprar os produtos das marcas por meio de NFTs (formato de arquivo único que dá ao seu detentor a propriedade digital sobre o item na internet). 

Jahara conta que os planos da startup foram impulsionados após a mudança de nome do Facebook. “Uma das maiores empresas do mundo falou que o metaverso é a prioridade. Depois disso, temos sentido uma demanda gigantesca dos nossos próprios clientes pelo assunto”. 

Startup R2U vai ajudar varejistas a criarem lojas em um universo virtual, digitalizando seus produtos

Startup R2U vai ajudar varejistas a criarem lojas em um universo virtual, digitalizando seus produtos

O mercado publicitário é um dos que mais demonstrou interesse pelo metaverso – o que deu um gás nas startups que atendem o setor. É o caso da Biobots, que cria avatares, como influenciadores virtuais, para marcas ou pessoas. Um dos projetos da empresa, que oficializou sua chegada ao mercado em novembro passado, é a Satiko, avatar da apresentadora Sabrina Sato

“Existem vários aplicativos para criar avatares. A Biobots, porém, faz um boneco exclusivo. Temos um trabalho quase manual de concepção como se fosse uma produção de uma animação para a Disney”, explica Ricardo Tavares, presidente executivo da Biobots, que, além do Brasil, pretende atender clientes em Miami e Portugal. A ideia é que os avatares possam ser usados em diferentes plataformas, desde redes sociais até servidores de metaverso. 

Também na área da publicidade, a carioca Vitulo, nascida em abril de 2021, usa tecnologia de realidade aumentada para trazer mais interação às marcas, como em filtros de Instagram – o recurso, mais conhecido por ter se popularizado no jogo Pokémon Go e no aplicativo Snapchat, é uma das aplicações mais comuns do metaverso, já que exige apenas o uso de um smartphone. 

A startup já visualiza novos usos para a realidade aumentada do futuro, inserida nesse ambiente digital conectado: o principal é o conceito de “moda digital”, em que o usuário possui réplicas digitais de suas roupas (para usar em games, por exemplo). Outra possibilidade é utilizar as câmeras cada vez mais potentes nos aparelhos para experimentar novas roupas, sem sair de casa, com precisão similar à de um provador de loja. 

“Será uma grande quebra de paradigma. Essa nova camada cria um novo segmento de mercado”, afirma Pedro Cormann, cofundador da Vitulo.

Modismo e oportunidades

Na visão de Alexandre Pompeu, gerente de negócios e inovação da consultoria ACE Cortex, a guinada para o metaverso é um caminho sem volta. “É um movimento que vai atingir 100% das corporações e virá em conjunto com as startups”, afirma. Para ele, da mesma forma que muitas empresas estão focadas hoje em digitalizar as operações de outras companhias – criando e otimizando sites, por exemplo –, startups ajudarão a conduzir a migração para o metaverso. 

Dentro disso, deve haver um nicho de atuação para as empresas de tecnologia iniciantes. A produção de equipamentos, como óculos de realidade virtual, talvez não engate por aqui. “Faz mais sentido para as startups deixarem o hardware nas mãos das gigantes de tecnologia e focarem em software. O Brasil não fabrica celular competitivo e mesmo assim é um país relevante que exporta diversas aplicações para o mundo”, diz Pompeu.

Mesmo no software, porém, surgirão desafios, tendo em vista a complexidade tecnológica do metaverso, afirma Felipe Matos, presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups) e colunista do Estadão. “O País tem dificuldade na produção de tecnologia de ponta, como os algoritmos e plataformas de base sobre os quais o metaverso irá rodar. Talvez o potencial maior esteja na indústria criativa: o metaverso precisará de conteúdo, e nisso o País é muito bom”, diz. 

Apesar dos entraves, o metaverso já está no radar dos fundos de capital de risco brasileiros. “Ainda é muito cedo. Não sabemos se vai existir um grande metaverso ou vários metaversos. Mas sabemos que a oportunidade de ter uma economia digital, com ativos financeiros nesses universos virtuais, traz um valor”, diz Renato Valente, sócio da Iporanga Ventures.

A Terracota Ventures, firma de capital de risco focada em negócios de tecnologia para construção e mercado imobiliário, já enxerga aplicações específicas. “Será que vender um imóvel no mundo virtual é tão diferente do processo no mundo real? As startups que tiverem esse olhar talvez saiam na frente”, afirma Bruno Loreto, sócio da Terracotta Ventures.

Mas o pé ainda está no chão. “No curto prazo, há risco de ser um modismo, porque é uma onda nova que está em evidência. Com o tempo, esses negócios vão mostrar se são rentáveis ou não”, diz Loreto. 

https://link.estadao.com.br/noticias/inovacao,startups-brasileiras-tentam-um-lugar-ao-sol-do-metaverso,70003954279

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Do fracasso do Facebook ao ano dos superapps no Ocidente: as previsões de Scott Galloway

Moacir Drska – Neofeed – 05/01/2022

Escritor, professor da Universidade de Nova York e guru do Vale do Silício, Galloway divulga suas já famosas previsões em tecnologia e negócios para 2022. Confira suas principais apostas

Escritor, empreendedor e professor da Stern School of Business da Universidade de Nova York. Com esse currículo e um histórico de análises ácidas, contundentes e, quase sempre, polêmicas, , 57 anos, é apontado, não à toa, como um dos gurus do Vale do Silício.

Todos os anos, nessa época, o americano reforça essa fama ao divulgar a sua já famosa lista de previsões para o mundo dos negócios nos 12 meses seguintes. Dono de um estilo irreverente, ele não hesita em disparar seus palpites, por mais arriscados que, a princípio, eles possam parecer.

Em 2021, o saldo foi positivo. Com muitos acertos e alguns pitacos parcialmente concretizados, seu único erro, de fato, foi a previsão de que a Apple compraria a Peloton, empresa que combina bikes e esteiras ergométricas tecnológicas com aulas de fitness transmitidas ao vivo, via streaming.

Em compensação, ele previu, por exemplo, que a cotação do Bitcoin superaria a marca de US$ 50 mil no decorrer do ano, o que se realizou em fevereiro. Dois meses antes, quando Galloway fez sua “profecia”, a criptomoeda valia cerca de US$ 27 mil.

Foi também em fevereiro que outra das suas previsões tornou-se realidade. A ação do Twitter ultrapassou o patamar de US$ 60 e chegou a US$ 77, seu pico no ano. Como ele também havia cravado, em novembro, Jack Dorsey, cofundador da empresa, deixou o posto de CEO da operação.

Scott Galloway 1

Na noite de terça-feira, 04 de janeiro, Galloway promoveu uma transmissão online e voltou a colocar sua bola de cristal – e sua língua afiada – para trabalhar, ao fazer uma série de prognósticos para 2022. E o NeoFeed selecionou as principais previsões feitas pelo guru. Confira:

1 – O metaverso de Mark Zuckerberg será o grande fracasso tecnológico em 2022

Em outubro de 2021, o Facebook passou a se chamar Meta, dentro do plano da empresa de ir além da rede social pela qual ficou conhecida e fincar os pés em um novo campo: o metaverso, que mescla realidade aumentada e virtual para estabelecer uma interação digital e imersiva entre as pessoas.

“O metaverso é a próxima fronteira para conectar pessoas, assim como as redes sociais eram quando começamos. E ele afetará todos os produtos que construímos”, destacou Mark Zuckeberg, fundador e CEO da companhia, na época.

Na avaliação de Galloway, porém, a guinada da empresa será o maior fracasso tecnológico de 2022. “A noção de que passaríamos mais tempo online sacrificando nossas atividades offline é assustadora. Mas qual é a boa notícia? Não vai funcionar. Simplesmente não faz sentido”, afirmou.

Mark Zuckerberg, fundador do Facebook

Ele ressaltou que a habilidade demonstrada pelo Facebook em aquisições não se repete em boa parte de seus projetos internos. E citou como exemplo o desenvolvimento do seu óculos de realidade virtual, fruto da compra da Oculus, em 2014, e sua grande aposta para ganhar escala no metaverso.

“O Oculus é o calcanhar de Aquiles aqui”, disse. “E a razão é que ninguém quer usar esta coisa e pouquíssimas pessoas estão comprando. Eles venderam 3,5 milhões de unidades em 2020. Só para dar uma ideia de escala, foram 70 milhões de pares de Crocs vendidos no mesmo período.”

Em contrapartida, Galloway entende que a Apple é a empresa mais bem posicionada para construir o verdadeiro metaverso. “Eles têm dispositivos onipresentes, a confiança dos usuários, mais capital do que qualquer outra empresa no mundo e já provaram serem incrivelmente hábeis com tecnologia.”

2 – O ano dos superapps, com o Twitter e o Pinterest novamente no radar de aquisições

Para Galloway, o conceito de superapp ganhará, definitivamente, escala além da China e essa será a palavra de ordem em 2022. Ele entende que haverá uma corrida para consolidar uma operação desse porte no mundo ocidental e isso recolocará dois ativos, em particular, como alvo de aquisições.

“Um componente-chave de um superapp é algum tipo de mídia social e isso faz com que o Twitter e o Pinterest sejam bem atrativos para uma aquisição”, afirmou. Ele destacou que o Pinterest está valorizado, mas que o preço de suas ações está recuando, o que já aconteceu com o Twitter.

Galloway enxerga boas chances de uma nova proposta da Salesforce para comprar o Twitter, repetindo um movimento feito há pouco mais de cinco anos. Um atalho para um eventual acordo seria o fato de que, agora, as duas companhias compartilham um executivo: Bret Taylor.

Em novembro do ano passado, Taylor foi nomeado presidente do Conselho de Administração do Twitter. Poucos dias depois, o executivo, que atuava como diretor de operações da Salesforce, foi apontado como coCEO da companhia.

“O Twitter ficou muito mais barato porque suas ações não chegaram a lugar nenhum”, disse Galloway, sobre o desempenho das ações da companhia desde a primeira investida da Salesforce. “Agora, a empresa está 60% abaixo do que estava quando eles pensaram em comprá-la.”

Avaliado em US$ 21,6 bilhões, o Pinterest, por sua vez, esteve no centro de uma oferta de US$ 45 bilhões do PayPal, em outubro de 2021. E já tinha atraído o interesse da Microsoft, entre o fim de 2020 e o início do ano passado.

“O PayPal teve a ideia certa indo atrás do Pinterest e acho que ainda pode acontecer um acordo”, disse Galloway. “Veremos muitas aquisições de empresas de mídia e de conteúdo, por conta do seu engajamento por fintechs, que podem rentabilizar melhor esses ativos.”

3 – O choque de realidade para as fabricantes de carros elétricos

Sob a direção do bilionário Elon Musk, a Tesla se firmou, em 2021, no posto de montadora mais valiosa do mundo e hoje está avaliada em US$ 1,15 trilhão. Também no decorrer do ano passado, outros nomes, como Lucid Motors e Rivian, pegaram carona no rali dos carros elétricos.

Depois de estrear na Nasdaq em julho, por meio de uma fusão com a SPAC Churchill Capital, a Lucid está avaliada em US$ 64,8 bilhões. Já a Rivian, que abriu capital em novembro, vale US$ 89,5 bilhões. Com um detalhe: seus primeiros veículos devem começar a serem entregues apenas neste ano.

Entretanto, de acordo com a bola de cristal de Galloway, o setor não terá pista livre em 2022. “Penso que o mercado de carros elétricos será cortado pela metade”, afirmou ele. “Há uma grande chance de a Tesla cair 80%. Ainda assim, a empresa valerá mais do que a Ford e a General Motors.”

Na visão de Galloway, a razão por trás desse recuo está no fato de que o mercado irá frear as eventuais super valorizações dos ativos e passará a priorizar os aspectos técnicos e os fundamentos por trás dessas operações.

4 – Na corrida bilionária do turismo espacial, a Virgin Galactic pode ficar pelo caminho

O ano de 2021 também foi marcado por uma corrida bilionária pela conquista do espaço, capitaneada pelas aeronaves das empresas comandadas por um trio de endinheirados: Elon Musk, com a SpaceX, Jeff Bezos, com a Blue Origin, e Richard Branson, com a Virgin Galactic.

Galloway vai na contramão do entusiasmo em torno do turismo espacial. “É desanimador. Acho isso niilista e simplesmente deprimente”, afirmou. E suas previsões pessimistas recaem, em particular, sobre uma dessas empresas.

Richard Branson (o quarto da esq. à dir.), o bilionário à frente da Virgin Galactic

“A Virgin Galactic pode ir à falência ou ser vendida por sua propriedade intelectual”, ressaltou. “Não creio que existam tantas pessoas dispostas a pagar US$ 400 mil para subir 60 milhas e flutuar por oito minutos. E sua capacidade é limitada. Eles terão 1,6 mil assentos em 2025.”

Ao mesmo tempo, embora não tenha entrado em detalhes, Galloway disse que a SpaceX irá valer mais do que a Tesla em 2025. Ele se mostrou mais animado, porém, com outro projeto de Musk: a The Boring Company, empresa de túneis subterrâneos para serem usados em transporte de alta velocidade.

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Polêmica da mineração submarina aumenta no exterior

Por João Lara Mesquita Estadão 11 de dezembro de 2021

Faz já algum tempo que um dos assuntos dominantes na mídia estrangeira, em se tratando dos oceanos, é a iminente mineração submarina. Ao mesmo tempo em que as reservas terrestres começam a se esgotar, o mundo vive a problemática da descarbonização de suas economias que exigirá cada vez mais metais raros como as terras raras, nódulos polimetálicos, e outros. Estima-se que, coletivamente, os nódulos no fundo do oceano contenham seis vezes mais cobalto, três vezes mais níquel e quatro vezes mais ítrio metálico de terras raras do que na terra. As indústrias de alta tecnologia dependem deles. Para piorar, a superpopulação mundial é fato, e dá ainda mais gás à questão da mineração. A polêmica da mineração submarina cresce no exterior.

Robô gigante, como 25 T, para mineração submarina, Imagem, https://www.311institute.com/.

Polêmica da mineração submarina cresce no exterior

Um dos últimos acontecimentos a colocar mais lenha no fogo foi uma bombástica entrevista do  ex-diretor da ISA – Autoridade Internacional para os Fundos Marinhos, o Dr. Sandor Mulsow, Professor chileno de geologia marinha, ex-diretor do Escritório de Gerenciamento Ambiental e Recursos Minerais da Autoridade Internacional para os Fundos Marinhos (ISA, em inglês) de 2013 a 2019.

ISA, ou Autoridade Internacional dos Fundos do Mar

A ISA é uma organização internacional autônoma — criada sob a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar — encarregada de definir regras que vão regulamentar as eventuais atividades de exploração no fundo do mar.

O monstro de 25 T sendo colocado no mar. Imagem,https://www.311institute.com/.

Por que foi criada a ISA?

Era preciso algum mecanismo para controlar os usos de uma gigantesca área dos oceanos conhecida como alto-mar. Por definição, o alto-mar é um conceito de direito no mar, definido como sendo todas as partes do mar não incluídas no mar territorial e na zona econômica exclusiva de um estado costeiro, nem nas águas arquipelágicas de um estado insular.

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‘Res communis  usus’  

No direito internacional esta parcela dos oceanos  é conhecida como ‘res communis  usus’  ou ‘patrimônio comum a todos’. É a parte dos oceanos que pode ser livremente utilizada por todos os países do mundo. São cerca de 60%, dos 364 milhões de quilômetros quadrados de oceanos globais.

infográfico distribuição dos nódulos polimentálicosO que se sabe sobre a distribuição dos nódulos polimentálicos. Ilustração, https://brasilminingsite.com.br/.

A vasta maioria do alto-mar é uma área livre (para exploração com fins pacíficos) para todos os países, e com quase nenhuma proteção legal. Pois bem, para regular este espaço foi criada a ISA. Mas, os problemas começam pelo fato de ser uma ‘organização autônoma’, portanto, não responde a nenhum organismo internacional como a ONU, por exemplo, mas apenas aos interesses dos países membros.

Mercado pode valer cerca de US$ 7 bilhões de dólares até 2026

Este é, aparentemente, o maior perigo. E os valores em jogo são altíssimos. Matéria da ocean.economist.com, de Agosto de 2019, diz que ‘As empresas de mineração de alto-mar esperam se tornar um dos setores líderes da economia azul, capitalizando sobre uma abundância de minerais no fundo do mar. O mercado global de mineração marinha pode valer cerca de  US $ 7 bilhões até o final de 2026, embora haja uma incerteza considerável, visto que a mineração comercial em alto mar ainda não começou.’

A bombástica entrevista do  ex-diretor da ISA 

A entrevista foi dada ao China Dialogue Ocean e fez crescer a polêmica da mineração submarina. O Mar Sem Fim fez uma seleção dos melhores trechos.

China Dialogue Ocean: Você costuma alertar que há uma tragédia prestes a acontecer. Pode descrevê-la?

Sandor Mulsow: Existe um movimento que atualmente deseja começar as atividades de mineração no fundo do mar. E quando isso acontecer, não haverá meia volta. É muito mais barato minerar o fundo do mar, o que é muito atraente para as indústrias, e isso seria feito em lugares muito remotos, onde ninguém pode reclamar.

Outro robô para mineração submarina.

China Dialogue Ocean: Qual é o problema da mineração do fundo do mar?

Sempre nos foi dito que os oceanos são imensos. Setenta por cento da superfície do planeta é coberta por oceanos e pensamos que eles aguentam qualquer coisa. É por isso que todos os países do mundo jogam rejeitos no mar, esperando que o lixo suma naturalmente. Mas este é um ambiente extremamente frágil, que não estamos protegendo como deveríamos.

China Dialogue Ocean: Quem está encarregado de garantir a proteção dos oceanos?

A Autoridade Internacional para os Fundos Marinhos é quem deveria cuidar disso. Entretanto, na prática, não o faz. Há outros interesses por trás dela. No momento, a ISA tem dois mandatos que são contraproducentes.

Os impactos da polêmica da mineração submarina. Ilustração, pewtrusts.org.

Um deles, que está nos artigos 136 a 145 [da Convenção da ONU sobre o Direito do Mar], tem a ver com o patrimônio comum da humanidade, com a busca da igualdade de todos os países, com a promoção da pesquisa e outros aspectos muito positivos. Mas, por outro lado, possui os artigos 150, 151 e 152, que focam em produção, exploração e lucro.

CDO: O mandato da ISA é positivo?

Seria positivo se tivéssemos conhecimento disponível. Sabemos muito pouco sobre o fundo do mar. Não temos dados e pesquisas suficientes para entender o que está acontecendo em águas profundas. Durante meus cinco anos como diretor do escritório de gestão ambiental e recursos minerais da ISA, vi muitas irregularidades.

A Zona Clarion-Clipperton, que fica no meio do Oceano Pacífico entre o México e o Havaí, é uma das áreas mais exploradas. Estima-se que tenha quase o dobro do tamanho do México, e lá existem 17 contratos de exploração de 75 mil quilômetros quadrados cada.

Mapa de áreas requisitadas para mineração submarinaImagem, https://www.un.org/.

(Segundo o ocean.economist.com, ‘os acordos legais de 15 anos posicionam os países e empresas para obter o direito de explorar, ou de realizar mineração comercial real, uma vez que o código de mineração seja acordado).

Existem empreiteiras que enviam cem amostras do que encontram em sua concessão — uma amostragem insignificante. É como se fôssemos para o meio do Central Park em Nova York, que tem 3,4 quilômetros quadrados, e fizéssemos um teste com um tubo de dez centímetros para determinar quantas minhocas existem em todo o local. É possível medir a biodiversidade dessa forma?

Como vamos medir o impacto real que estamos gerando? Não é possível com esses dados. Mas tendo apenas isso em mãos, querem promover a mineração subaquática.

CDO: Como você avalia o trabalho da ISA?

Há uma enorme inclinação em favor de novos empreiteiros. Muito pouco trabalho de pesquisa tem sido feito, mas eles ainda querem fazer a mineração. Como acabei de dizer, eles estão se baseando em evidências muito ruins. A ISA está respondendo em prol dos interesses da mineração dos oceanos.

CDO: Em junho deste ano, o pequeno estado insular de Nauru invocou uma regra nunca antes utilizada, que leva a ISA a permitir a mineração em dois anos, sob quaisquer regulamentos que estejam em vigor no momento. Quão importante é o “gatilho de Nauru”?

Em 2013, o então primeiro-ministro britânico David Cameron declarou que a mineração submarina geraria £40 bilhões [mais de R$ 300 bilhões] para a economia britânica nos 30 anos seguintes…

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Portanto, não me surpreende que Nauru, uma ilha com uma economia incipiente, mas que faz parte da Commonwealth, tenha feito este pedido.

Por trás deste movimento estratégico estão DeepGreen e The Metals Company (The Metals Company, anteriormente DeepGreen Metals, é uma startup canadense de mineração fundada em 2011 por David e Robert Heydon. A empresa está focada na mineração em alto mar de nódulos polimetálicos do fundo do mar.) — empresas que estão promovendo de todas as formas a mineração do fundo do mar.

A nódulos polimentálicos pode levar até 3 milhões de anos! Ilustração, https://worldoceanreview.com/.

Por outro lado, até hoje ainda não existe uma peça fundamental em toda a história, um código de mineração submarina. Como reforça matéria da ocean.economist.com: ‘ Esperava-se que a ISA publicasse o código de mineração em 2020. No entanto, o cronograma  está atrasado, os países membros concordaram em levar mais tempo para desenvolver os projetos de regulamentos de exploração’.

E prossegue o texto: ‘As empresas de mineração de alto mar que participaram da reunião do ISA também querem clareza sobre os padrões ambientais para que possam preparar operações futuras e calcular os custos de investimento necessários’.

Jamaica acaba de ganhar um contrato de exploração

CDO: Parece que tudo está confuso…

Aqui está outro exemplo: a Jamaica, também da Commonwealth, acaba de ganhar um contrato de exploração. Quando vi para quem estava por trás dele, havia empresas que estavam na Inglaterra e que valiam apenas um dólar.

E essas empresas estavam justificando os custos de exploração durante os cinco anos seguintes com a quantia de US$ 2 milhões. Como isso é possível? Como o secretário-geral da ISA, o inglês Michael Lodge, não faz uma análise técnica dessa situação ou pergunta de onde vem esse dinheiro? Um pouco estranho, não é?

CDO: O que você quer dizer?

Assista aos vídeos do DeepGreen. Estamos caminhando para a destruição dos oceanos. Se nada for feito, em 25 de junho de 2023, Nauru começa a exploração. E com isso, todos os países. Haveria um caos e uma destruição sem precedentes, porque ninguém controlaria a atividade.

máquinas pesadas para extração de minerais submarinosCom máquinas deste porte revolvendo o assoalho marinho é quase impossível não haver severo impacto ambiental. Imagem, Nautilus Minerals.

CDO: E quanto à ISA?

Se ela continuar com a mesma atitude que teve até agora, dará carta branca à mineração submarina. Haverá uma reunião em dezembro, mas nada é feito nessas reuniões. Eles só validam técnica e legalmente tudo o que a secretaria lhes apresenta sem nenhuma objeção. A maioria dos membros se cala e ninguém se pronuncia. A ISA acabará validando o início da exploração.

A polêmica da mineração submarina e as propostas do Dr. Sandor Mulsow

Antes de encerrar, Mulsow propõe que os países assinem uma moratória (já em andamento, ao menos por titãs da indústria de tecnologia como as montadoras BMW e Volvo, e ainda a Samsung, e o Google) que não permita a exploração subaquática até que tenhamos certeza científica sobre o que devemos fazer.

Pôr freios na ISA

Mulsow sugere pôr freios na ISA, ‘Também é necessário que haja uma reforma na ISA para assegurar que os processos de tomada de decisão e regulamentação sejam transparentes, inclusivos, eficazes e ambientalmente responsáveis. Isto só pode acontecer quando a ISA fizer de fato parte da ONU. A ISA é um órgão independente, não responde a ninguém’.

O Brasil e a extração mineral submarina

O Brasil é um dos países que está adiantado na questão. Em 2014, o País ganhou autorização da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos para estudar a região da Elevação do Rio Grande por 15 anos, visando fazer um levantamento geológico atrás de sua possível  riqueza mineral.

A Elevação do Rio Grande fica a cerca de 1.500 km da costa (litoral do Rio Grande do Sul), em águas internacionais. A Marinha do Brasil estuda a região em parceria com a academia. Recentemente, a USP descobriu uma jazida no fundo do mar, tida como um ‘tesouro submarino’ em forma de jazidas minerais.

O lado bom e ruim para o Brasil

Como nação signatária da ISA, o Brasil tem todo o direito de estudar o subsolo marinho e, ao descobrir jazidas de valor, requerer o direito internacional de lavra.

Somos um País em desenvolvimento com imensas carências sociais, e uma das piores divisões de renda do planeta. Logo, explorar petróleo offshore, como a Petrobras vem fazendo, é uma obrigação apesar dos riscos de acidentes num mar já muito degradado pela poluição, exploração descontrolada de recursos vivos, leia-se a pesca, e acidificação entre outros e graves problemas ambientais.

O mesmo raciocínio vale para os estudos das riquezas potenciais do subsolo marinho. Ao que tudo sinaliza, a Elevação do Rio Grande, onde o País desenvolve pesquisas no momento, pode, no futuro, contribuir muito com a balança comercial,  caso se confirmem os previsões que ainda estão no início.

Mas, mesmo que se prove que as riquezas existem de fato, isto não quer dizer que devemos explorá-las agora, quando ainda não se sabe a dimensão dos estragos que a mineração submarina pode causar. São inúmeros os alertas de renomados cientistas sobre os perigos que a atividade pode gerar.

Ao mesmo tempo, com os avanços da tecnologia e mais estudos, é possível que a polêmica da mineração submarina possa ser superada, se realizada com impacto mínimo ou, ao menos, controlado num futuro próximo. É esperar para ver.

‘Uma rápida injeção de centenas de milhões de toneladas dos principais metais usados nas novas baterias será necessária para a transição dos combustíveis fósseis para a energia limpa. A maneira como obtemos esses metais – e como os usamos para construir baterias – terá um impacto enorme. Estamos desenvolvendo a capacidade de recuperar nódulos polimetálicos de maneira responsável  com o mínimo de perturbação. Este breve vídeo destaca como pretendemos coletar, processar e refinar essas rochas notáveis em metais essenciais’.

Imagem de abertura: https://www.311institute.com/

Fontes: https://dialogochino.net/pt-br/industrias-extrativistas-pt-br/49347-sandor-mulsow-autoridade-marinha-isa-age-em-prol-de-interesses-da-mineracao-subaquatica/;   https://ocean.economist.com/governance/articles/international-seabed-authority-under-pressure-over-deep-sea-mining-impacts.

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Juros nos ‘unicórnios’

Por Rennan Setti O Globo 16/01/2022

Uma hora a música tinha de parar. Diante da escalada inflacionária, bancos centrais (BCs) pelo mundo começam a retirar os anabolizantes econômicos injetados em doses cavalares no choque pandêmico. Os consumidores sentem o baque, claro. Mas a redução de estímulos deverá, pelo menos, impor algum freio aos excessos do ecossistema de startups — cujos valores alcançaram a estratosfera justamente quando a economia real implodia. A notícia é boa para quem se preocupa com a saúde da livre concorrência.

Na pandemia, a combinação de juros baixíssimos, estímulos fiscais e imperativo digital fez com que os investidores corressem para aplicar o “dinheiro grátis” em startups. Um termômetro da farra é a proliferação de “unicórnios”, apelido das empresas que valem mais de US$ 1 bilhão. Só no ano passado, surgiram 340 deles nos EUA; no Brasil, a lista subiu de 15 para 25.

É verdade que, desde a crise de 2008, BCs de mercados desenvolvidos já mantinham condições frouxas, e elas prepararam o terreno para a inflação de “unicórnios”. Mas os estímulos pandêmicos foram os catalisadores. No Brasil, a depreciação do real contribuiu, barateando o investimento de fundos do Vale do Silício em startups locais.

A despeito do mérito empreendedor de cada uma delas e da comprovada demanda por seus serviços, há um consenso de que as cifras foram exageradas pelas distorções monetárias do momento. Embora o problema pareça restrito ao bolso dos investidores desse ecossistema, a verdade é que valores inflados têm consequências para além da ponte aérea Faria Lima-San Francisco.

O fluxo quase ilimitado de dinheiro, não raro, financia modelos de negócio que não se sustentam. Como alguns gestores confidenciam, tem muita startup pagando R$ 1 para vender R$ 0,70. É certo que, historicamente, as startups sempre operaram nessa lógica, e a trajetória da Amazon é prova disso. Mas ela só se justifica quando erigida sobre modelos realmente inovadores, com obsessão pela eficiência. Não é o caso de parte importante dos “unicórnios” que têm surgido.

A disponibilidade irrestrita de recursos financia de maneira desproporcional corridas do tipo the winner takes all (o vencedor leva tudo). Trata-se de arena competitiva típica de negócios que se beneficiam do efeito de rede, como marketplaces e redes sociais. Nesses mercados, quanto mais clientes uma startup tiver, maiores são suas chances de atrair novos consumidores — espécie de versão Harvard Business Review do nosso “paradoxo de Tostines”… O resultado óbvio dessa ciranda são monopólios com que os reguladores ainda não sabem como lidar.

Afrouxamentos monetários adotados para dar apoio à economia em momento de fragilidade acabam fomentando monopólios artificiais que, no futuro, terão consequências econômicas deletérias. Pior: como só haverá um vencedor, grande parte do capital aplicado é desperdiçado. Enquanto a startup segue na corrida, esses recursos só beneficiam, na forma de serviços subsidiados, consumidores das classes mais altas em áreas privilegiadas das grandes metrópoles.

A abundância de capital para startups também atropela modelos tradicionais que já se provaram economicamente viáveis. Quando uma startup se impõe graças exclusivamente ao bolso sem fundo do capital de risco — sem modelo de negócio que pare de pé sob condições normais de temperatura e pressão —, dá-se o contrário da destruição criadora de que falava Joseph Schumpeter. Nesses casos, é destruição tout court, sem a companhia do adjetivo.

Inovação é a força vital de uma economia próspera, mas a conta precisa fechar em horizonte factível. Caso contrário, as condições de competição se tornam ainda mais desequilibradas. Unicórnios são bem-vindos, mas precisam de asas, não de turbinas, para voar.

*Colunista do GLOBO

https://blogs.oglobo.globo.com/opiniao/post/juros-nos-unicornios.html
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Chips provocam corrida entre nações para não mais depender da China

Estados Unidos e Europa estão distribuindo milhões em incentivos para construir fábricas de microcomponentes em seu território

Por Caio Saad – Veja – 14 jan 2022 

Os semicondutores, materiais que conduzem correntes elétricas na forma de microchips, são a espinha dorsal do mundo interconectado. Presentes em todos os recantos do universo eletrônico no papel de cérebro de máquinas que vão de simples calculadoras a automóveis, aparelhos de TV, smartphones, videogames, passando pelos equipamentos de exploração espacial, eles se tornaram cruciais para a cadeia produtiva mundial — e, desde a pandemia, também uma enorme dor de cabeça global. 

A elevada procura após quase um ano de demanda reprimida, período em que as esteiras seguiram apenas parcialmente operantes, e a concentração da fabricação em alguns poucos países colocaram os semicondutores no centro de um ringue em que setores diversos se estapeiam para ver quem fica com a produção de indústrias que já operam com capacidade máxima. 

Indo além das leis de mercado, a briga por chips transbordou para uma guerra geopolítica: diante da extrema dependência do fornecimento asiático, ainda mais evidente agora, Estados Unidos e Europa estão distribuindo milhões em incentivos para construir fábricas de chips em seu território.

Depois de explodir em 2021, com crescimento de 26% e faturamento de 550 bilhões de dólares, a venda mundial de chips deve continuar em franca ebulição, segundo as projeções. A maior produtora é, de longe, Taiwan — lá, uma única empresa, a TSMC, fornece quase metade de todos os semicondutores do planeta. 

Os chips da ilha são tão essenciais para o mundo que parte da escassez atual se deve a duas secas sem precedentes, que provocaram uma redução forçada no fornecimento taiwanês nessa indústria que é movida a enormes volumes de água. Juntas, Taiwan e China respondem por 70% dos chips que o mundo consome — e a aberta intenção de Pequim de engolir a ilha, hoje um país reconhecido por poucos e amparado quase unicamente pelos Estados Unidos, faz o Ocidente tremer. 

“A escassez atual expôs os riscos geopolíticos da dependência tecnológica”, alerta Raluca Csernatoni, pesquisadora do instituto Carnegie Europe, sediado em Bruxelas.

ELS TÊM A FORÇA - Asiáticos dominam o mercado do produto: após um ano freada pela pandemia, a demanda explodiu -

ELES TÊM A FORÇA – Asiáticos dominam o mercado do produto: após um ano freada pela pandemia, a demanda explodiu – Liu Yucai/VCG/Getty Images

NA BRIGA - Biden: a ideia é dar incentivos à produção em solo americano -NA BRIGA – Biden: a ideia é dar incentivos à produção em solo americano – Drew Angerer/AFP

Os Estados Unidos continuam a ser o motor da pesquisa e desenvolvimento de chips, uma atividade dominada por empresas do Vale do Silício, como Nvidia e Qualcomm, e cada vez mais requisitada diante da acelerada especialização dos semicondutores. 

Em relatório recém-publicado, a Casa Branca destacou as vantagens de estar à frente no design do produto, mas a posição perde força quando se constata que os chips que os americanos criam são, quase todos, feitos na Ásia. 

Devolver para os Estados Unidos a cadeia produtiva de diversos itens considerados estratégicos era uma bandeira de Donald Trump, que para isso impôs tarifas extras e termos duros para o comércio, principalmente com a China. 

A política não teve muito resultado — até a pandemia chegar e estabelecer a desordem nas engrenagens do fornecimento, levando as empresas a repensar sua localização.

O governo de Joe Biden está empenhado agora em passar no Congresso uma lei com o objetivo de reservar um aporte bilionário para impulsionar a proliferação de fábricas de chip em solo americano, uma tentativa de escapar das garras do dragão chinês. Enquanto a bolada não vem, injeções de verbas estaduais começam a mudar a paisagem. 

A Micron Technology, sediada no estado de Idaho, anunciou recentemente que vai investir 150 bilhões de dólares nos próximos dez anos em pesquisa, desenvolvimento e fabricação dos tão disputados chips no seu local de origem. Também a sul-coreana Samsung reservou 17 bilhões de dólares para erguer uma fábrica de semicondutores no Texas.

arte Chips

Igualmente preocupada em garantir pronto acesso aos componentes do mundo digital, a União Europeia formulou um projeto de lei que mira alavancar de 5% para 20% seu quinhão no mercado de semicondutores até o fim da década. 

Os maiores investimentos são na região de Dresden, na Saxônia, localizada na antiga Alemanha Oriental — a região, apelidada de “Vale do Silício saxão”, fornece hoje um de cada três chips feitos na Europa e tem entre seus compradores gigantes como Apple, Samsung e Amazon. 

Os semicondutores floresceram ali nos anos 1990, aproveitando a oferta de especialistas em microeletrônica treinados pela Alemanha comunista e desempregados após a queda do Muro de Berlim. A ideia agora é abrir a Saxônia a imigrantes qualificados e aumentar assim em quase 50% a força de trabalho dedicada aos chips. 

Na contramão global, o mercado brasileiro perdeu sua única fábrica de chips (também a única do Hemisfério Sul) em junho, quando o Ministério da Economia fechou o Centro de Excelência em Tecnologia Eletrônica Avançada, estatal criada em 2008. De fato, a empreitada estava dando prejuízo aos cofres públicos. 

“Alcançar uma posição de força na cadeia de produção dos semicondutores leva tempo e é tarefa difícil para quem está chegando”, afirma a especialista Raluca Csernatoni. Pelo visto, vamos continuar produzindo apenas commodities no grande jogo global. Quase nada de tecnologia.

Publicado em VEJA de 19 de janeiro de 2022, edição nº 2772

https://veja.abril.com.br/mundo/chips-provocam-corrida-entre-nacoes-para-nao-mais-depender-da-china/

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