Juros nos ‘unicórnios’


Por Rennan Setti O Globo 16/01/2022

Uma hora a música tinha de parar. Diante da escalada inflacionária, bancos centrais (BCs) pelo mundo começam a retirar os anabolizantes econômicos injetados em doses cavalares no choque pandêmico. Os consumidores sentem o baque, claro. Mas a redução de estímulos deverá, pelo menos, impor algum freio aos excessos do ecossistema de startups — cujos valores alcançaram a estratosfera justamente quando a economia real implodia. A notícia é boa para quem se preocupa com a saúde da livre concorrência.

Na pandemia, a combinação de juros baixíssimos, estímulos fiscais e imperativo digital fez com que os investidores corressem para aplicar o “dinheiro grátis” em startups. Um termômetro da farra é a proliferação de “unicórnios”, apelido das empresas que valem mais de US$ 1 bilhão. Só no ano passado, surgiram 340 deles nos EUA; no Brasil, a lista subiu de 15 para 25.

É verdade que, desde a crise de 2008, BCs de mercados desenvolvidos já mantinham condições frouxas, e elas prepararam o terreno para a inflação de “unicórnios”. Mas os estímulos pandêmicos foram os catalisadores. No Brasil, a depreciação do real contribuiu, barateando o investimento de fundos do Vale do Silício em startups locais.

A despeito do mérito empreendedor de cada uma delas e da comprovada demanda por seus serviços, há um consenso de que as cifras foram exageradas pelas distorções monetárias do momento. Embora o problema pareça restrito ao bolso dos investidores desse ecossistema, a verdade é que valores inflados têm consequências para além da ponte aérea Faria Lima-San Francisco.

O fluxo quase ilimitado de dinheiro, não raro, financia modelos de negócio que não se sustentam. Como alguns gestores confidenciam, tem muita startup pagando R$ 1 para vender R$ 0,70. É certo que, historicamente, as startups sempre operaram nessa lógica, e a trajetória da Amazon é prova disso. Mas ela só se justifica quando erigida sobre modelos realmente inovadores, com obsessão pela eficiência. Não é o caso de parte importante dos “unicórnios” que têm surgido.

A disponibilidade irrestrita de recursos financia de maneira desproporcional corridas do tipo the winner takes all (o vencedor leva tudo). Trata-se de arena competitiva típica de negócios que se beneficiam do efeito de rede, como marketplaces e redes sociais. Nesses mercados, quanto mais clientes uma startup tiver, maiores são suas chances de atrair novos consumidores — espécie de versão Harvard Business Review do nosso “paradoxo de Tostines”… O resultado óbvio dessa ciranda são monopólios com que os reguladores ainda não sabem como lidar.

Afrouxamentos monetários adotados para dar apoio à economia em momento de fragilidade acabam fomentando monopólios artificiais que, no futuro, terão consequências econômicas deletérias. Pior: como só haverá um vencedor, grande parte do capital aplicado é desperdiçado. Enquanto a startup segue na corrida, esses recursos só beneficiam, na forma de serviços subsidiados, consumidores das classes mais altas em áreas privilegiadas das grandes metrópoles.

A abundância de capital para startups também atropela modelos tradicionais que já se provaram economicamente viáveis. Quando uma startup se impõe graças exclusivamente ao bolso sem fundo do capital de risco — sem modelo de negócio que pare de pé sob condições normais de temperatura e pressão —, dá-se o contrário da destruição criadora de que falava Joseph Schumpeter. Nesses casos, é destruição tout court, sem a companhia do adjetivo.

Inovação é a força vital de uma economia próspera, mas a conta precisa fechar em horizonte factível. Caso contrário, as condições de competição se tornam ainda mais desequilibradas. Unicórnios são bem-vindos, mas precisam de asas, não de turbinas, para voar.

*Colunista do GLOBO

https://blogs.oglobo.globo.com/opiniao/post/juros-nos-unicornios.html
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