Em novo episódio do CBN Professional, Léo Xavier, fundador da Môre Talent Tech descreve iniciativas para atrair e reter talentos na área de tecnologia
Por Jacilio Saraiva — Para o Valor, 28/11/2022
Até que ponto um gestor pode ir para não perder profissionais para a concorrência? Na visão de Léo Xavier, CEO e fundador da Môre Talent Tech, companhia brasileira de serviços e produtos digitais com 194 funcionários, vale divulgar a remuneração dos cargos, aprimorar as tradicionais avaliações de desempenho individual e até distribuir bônus semestrais para quem escolheu dizer não às propostas do mercado.
“Vivemos hoje um tempo de escassez de profissionais da economia digital e os talentos têm uma nova relação com o trabalho”, explica Xavier no novo episódio do CBN Professional, podcast realizado pelo Valor e a rádio “CBN”. Ele conta que há funcionários na Môre que recebem até 14 propostas de emprego por mês, via LinkedIn – e a tendência é de escala na briga por mão de obra especializada.
A Associação das Empresas de Tecnologia da Informação, Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom) calcula que em cinco anos serão criados quase 800 mil novos postos no setor. Como o Brasil forma, ao ano, pouco mais de 53 mil profissionais de TI, o déficit de currículos na área pode chegar a 532 mil. “Se a gente não entender isso, vamos continuar construindo práticas de trabalho anacrônicas”, diz. “É preciso cuidar dos funcionários de forma diferente, em um momento diferente do mercado.”
Léo Xavier, fundador da Môre Talent Tech, diz que é hora de repensar a gestão de pessoas — Foto: Divulgação
Na Môre, as inovações na gestão de RH já mostram resultados. O turnover no último trimestre foi o mais baixo da história da companhia: marcou 0,8%, ante 4,5% no início do ano. De acordo com Xavier, a prática de publicar a faixa salarial dos cargos – não de cada empregado – pode ser seguida por grandes organizações. “Já fui funcionário de empresa e todo mundo fala de salário no cafezinho”, diz o executivo, 46, que acumulou experiências nos setores de marketing digital e estratégias mobile, antes de fundar a Môre em 2020, às vésperas da pandemia.
Xavier garante que a transparência com os números da folha de pagamento ajuda a solidificar a retenção dos empregados. O funcionário fica sabendo quanto um diretor ganha e pode ser estimulado a almejar a mesma função, diz.
A Môre criou ainda um bônus de “permanência ou escolha” para quem preferiu continuar na empresa. Todos os funcionários recebem a partir de R$ 220 por semestre – valor que é multiplicado de acordo com o tempo de casa.
Outra forma para reter os talentos é a realização mensal de “leituras de temperatura” nos squads. A ideia, segundo o CEO, é checar se a pessoa está satisfeita com a área escolhida ou se prefere mudar de projeto – a startup atende clientes em diversas verticais, como finanças e saúde, caso do Itaú e Dasa. “Se o profissional desejar, fazemos uma troca coordenada e todo mundo ganha – a empresa, o funcionário e o cliente.”
As novas “lógicas” nas relações de trabalho também aparecem nas avaliações de desempenho. O objetivo é não seguir o fluxo de performance da organização, mas as fases de entrega dos funcionários, por períodos determinados. “A pessoa está no centro das avaliações”. Os ciclos profissionais estão cada vez mais curtos, caíram de anos para meses, afirma. “O ciclo médio [de produção] de um profissional do ambiente digital está flutuando de onze a 14 meses.”
A ideia é que as avaliações sejam semestrais e aconteçam no sexto ou 12º mês de entregas do empregado, ao contrário da maioria das análises tradicionais do mercado, realizadas no final de cada ano.
Xavier afirma que todas as inovações na “experiência do empregado” são baseadas em três “Es”: escuta, exemplo e escala; que se encaixam em três “Ps” – plataformas, processos e pessoas. “Hoje, tudo é sobre pessoas – e isso não é apenas mais uma frase bacana. É a realidade”, diz. O episódio está disponível nas plataformas de streaming, como Spotify e Apple Podcasts, e no site da CBN.
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Demanda por colaborações aumentaram, mas empresas precisaram mudar processos internos para acomodar formas diferentes de trabalho
ESPECIAL PARA O ESTADÃO – Incrementar negócios com a ajuda destartupsé um movimento que tem crescido entre grandes corporações no Brasil. Segundo a 100 Open Startups, foram fechados 4,5 mil contratos do tipo em 2022, alta de 30% em relação a 2021 – o montante total chegou a R$ 2,7 bilhões, ou R$ 260 mil por contrato. Mas a relação entre empresas e startups nem sempre é fácil, o que vem forçando nomes tradicionais a ajustarem seus processos internos para lidar com as novatas tecnológicas.
AGlobo, que interagiu com mais de 2 mil startups no Brasil e no Vale do Silício, enfrentou desafios no processo, como o alinhamento de suas próprias prioridades com as das startups. Segundo Carlos Octavio Queiroz, diretor de estratégia corporativa e arquitetura da empresa, a companhia precisou balancear suas metas imediatas com o horizonte de exploração das inovações e a execução da estratégia de longo prazo.
“Criamos um fluxo de experimentação e de processos internos para avaliação mais ágil das startups. Também tivemos que adequar processos jurídicos e de suprimentos, criamos documentos mais leves e bilaterais para gerar agilidade nos processos de maneira geral”, acrescenta o executivo.
Mudanças nesse sentido aconteceram naNestlé, que se relacionou com mais de 500 startups nos últimos dois anos em áreas desde automatização de limpeza de tubulações de máquinas de café até logística.
“Durante processos de compras que envolvem startups, ficamos mais próximos. Pagamentos são feitos em prazos menores, pois sabemos que muitas destas empresas não têm caixa para sustentar grandes investimentos”, diz Roberto Boiani, gerente de transformação digital da Nestlé, que investe entre R$ 50mil e R$ 100 mil por prova de conceito conduzida com startups.
A questão dos pagamentos é complexa, diz Jhonata Emerick, CEO da startup de análise de dados Datarisk. “Algumas empresas pagam em mais de 90 dias após o início da prestação de serviço, e isso pode ser difícil para startups no começo da jornada”.
As adaptações são fundamentais para as novatas. Fechar um grande contrato é um dos fatores que pode determinar a sobrevivência de uma startup. Segundo a Associação Brasileira de Startups (ABStartups), sete em cada 10 startups fecham as portas antes de completar cinco anos de atividade, por motivos como acesso a capital e dificuldades para entrar no mercado.
Carlos Queiroz, da Globo: trabalho com startups para projetar futuros
Mudança de mentalidade
Processos de transformação mais profundos costumam anteceder o sucesso de empresas que avançaram com startups, um processo conhecido como inovação aberta. NaAmbev(onde 20% da receita vem de novos negócios), as conquistas vieram na esteira de uma transformação interna iniciada em 2018.
Entre os aprendizados da gigante está envolver “o quanto antes” áreas como compliance e jurídico nos projetos com startups, bem como a participação do alto escalão. Bruno Stefani, diretor de inovação da companhia, diz que usa startups em frentes como experiência do consumidor, logística e sustentabilidade. “Reconhecer as áreas transversais envolvidas, com a presença das lideranças, é fundamental para mantermos o engajamento e o trabalho colaborativo”, frisa.
A Gerdau é outra empresa que tem colhido frutos: aGerdau Next, área criada em 2020 que inclui um braço de investimento e uma aceleradora, gerou mais de R$ 1 bilhão em novas receitas só no primeiro ano de operação. Cerca de 50 startups trabalham com a companhia no Brasil nas Américas em áreas como construção civil, mobilidade, sustentabilidade e logística. Além disso, a empresa criou suas próprias startups, em áreas como grafeno.
Graças à transformação digital promovida desde 2012, a Gerdau automatiza processos como homologação e pagamentos, diz Juliano Prado, vice-presidente da companhia e responsável pela Gerdau Next. “Hoje, as coisas acontecem de forma fluida, porque nos adaptamos dentro de casa. Abraçamos a velocidade, a experimentação, e a mentalidade que fomenta a inovação e colaboração com as startups”, frisa.
Juliano Prado, da Gerdau: R$ 1 bilhão em novas receitas com startups
Sobrevivência
Apesar de casos de sucesso, as corporações ainda precisam evoluir suas abordagens em inovação aberta de forma geral tanto do ponto de vista digital quanto cultural, avalia Hugo Tadeu, professor da Fundação Dom Cabral (FDC). “Ainda há um descompasso entre a quantidade de dinheiro que está na mesa e os resultados. Deveríamos buscar mais profundidade e técnica na relação com startups”, diz o professor.
“Muitas empresas se esforçam para mostrar que estão se relacionando com startups mas nunca terminam um projeto”, dispara Arthur Rufino, CEO daOcta, startup que criou um marketplace circular que conecta frotistas a centros de desmontagem veicular, e atende empresas como a Gerdau,EDP,AudieBasf. “Ainda vamos ver isso por um tempo, mas precisamos focar na prática e menos no hype.”
Cultura também importa
Além das mudanças processuais, as corporações precisam aplicar uma mudança cultural para trabalhar com startups, Amanda. “Quando se toma uma decisão de trazer startups para perto, não deveria ser só uma agenda de ganhos de eficiência e escala. É também sobre contratar negócios que têm culturas diferentes do seu”, diz.
Parte desta mudança cultural precisa estar relacionada ao trabalho com startups lideradas por times diversos, diz Marina Ratton, CEO da Feel, femtech que desenvolve produtos e serviços com foco na saúde íntima feminina, e trabalha com nomes comoRennereGrupo Boticário.
“(Grandes empresas) precisam considerar, como será possível olhar para este mundo novo de forma realmente abrangente, se o conselho é 100% masculino, branco e hétero? Esta é uma grande contradição, dada a composição da população brasileira”, diz a fundadora.
Corporações ainda têm arestas a aparar quando o assunto é o modus operandi junto a startups, mas Bruno Rondani, CEO da 100 Open Startups, prefere ver o copo meio cheio. “As empresas precisam fazer ajustes internos, alinhar projetos com a estratégia eI fazer uma melhor curadoria das startups. Mas o ponto central é reconhecer que este ecossistema existe, e gera muito resultado”, diz.
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Aulas de matemática ensinam, por exemplo, como estatísticas podem ser distorcidas; em história, os professores explicam como o uso de determinados elementos são usados para influenciar uma população
Quando a Rússiaanexou a Crimeiaem 2014, aFinlândia, país vizinho e que fez parte do território russo até 1917, passou a conviver com uma onda de desinformação sem precedentes no país. Notícias falsas começaram a surgir nos diversos sites finlandeses e nas redes sociais para influenciar o debate público, levando o governo finlandês a agir para evitar que mentiras se espalhassem. A resposta foi encontrada na educação e, em 2016, a alfabetização midiática foi incluída no currículo escolar.
Como resultado, o país passou a ser considerado o mais resistente à desinformação entre as nações da Europa pelo estudo anual do instituto Open Society e virou uma referência mundial no combate às fake news. Enquanto países como Brasil e Estados Unidos passaram a sofrer com a disseminação das notícias falsas, a Finlândia se manteve resistente, com índices de confiança no governo de 71%, de acordo com aOrganização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em comparação, a média de confiança do estudo é de 41% (o Brasil não foi incluído no relatório).
No plano finlandês, a educação midiática passou a ser tratada em todas as disciplinas no ensino básico para desenvolver o pensamento crítico dos alunos. As aulas de matemática ensinam, por exemplo, como estatísticas podem ser distorcidas; em história, campanhas de propaganda são mostradas e os professores explicam como o uso de determinados elementos – palavras, imagens, metáforas – são usados para influenciar uma população.
Os alunos também são desafiados constantemente a pesquisar sobre determinados temas e apresentar fontes sólidas, na intenção de se tornarem “detetives digitais”. Há exercícios para que eles examinem alegações encontradas em vídeos de YouTube e em postagens veiculadas em redes sociais, compare o viés da mídia em uma série de notícias “clickbait” e investigue como a desinformação ataca as emoções dos leitores. Outra proposta é que os alunos tentem escrever notícias falsas.
Em uma entrevista concedida em 2020 ao jornal inglês The Guardian, o então diretor da escola franco-finlandesa em Helsinque, Kari Kivinen, afirmou que o objetivo do governo finlandês ao implementar a educação midiática foi criar cidadãos e eleitores críticos, proativos e responsáveis. “Pensar criticamente, verificar, interpretar e avaliar todas as informações que você recebe, onde quer que elas apareçam, é crucial. Fizemos disso uma parte central do que ensinamos, em todos os assuntos”, explicou.
A implementação das políticas é facilitada pelo histórico da educação na Finlândia, com os índices do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) sendo os mais altos da União Europeia. “Isto (os índices educacionais) constitui uma base particularmente boa para o desenvolvimento e a aplicação deste tipo de iniciativa em larga escala contra a desinformação e a desinformação”, declarou a pesquisadora de notícias falsas e teorias da conspiração da Universidade de Helsinki, Gwenaelle Bauvois.
A inclusão da educação midiática aconteceu em todos o período escolar básico, começando com as crianças e indo até os adolescentes. O objetivo não é fazer que todos os finlandeses desacreditem em tudo que é dito pela Rússia ou acreditem em tudo o que o governo finlandês diz, mas fazer com que a sociedade não aceite todas as informações de forma passiva.
Segundo Kivinen, hoje membro do grupo de combate à desinformação e promoção à educação digital da Comissão Europeia, que desenvolve políticas para toda a União Europeia nesta área desde outubro de 2021, o objetivo é que os alunos se perguntem: quem produziu a notícia? e por quê? há provas do que é dito ou se trata apenas de uma opinião? “Queremos que nossos alunos pensem duas vezes antes de compartilhar uma notícia”, resumiu.
Crianças pegam livros em escola em Helsinki, na Finlândia: matemática para combater a desinformação Foto: Jussi Nukari/Lehtikuva
Em 2014, as propagandas russas na Finlândia estavam relacionadas a questões como imigração, União Europeia e a adesão do país à Otan. De acordo com o diretor de comunicações do Centro Nacional de Segurança Cibernética da Finlândia, Jussi Toivanen, os danos não se restringiam ao governo finlandês, mas a toda sociedade. “Então passou a ser uma tarefa de todos, desde o professor do primário até as autoridades do alto escalão, defender a democracia”, disse.
Além da educação, outro pilar no combate à desinformação é a Agência Nacional de Suprimentos de Emergência. Neste ano, a agência criou um centro de pesquisa que foca na “resiliência da informação” para desenvolver, junto com empresas privadas e ONGs, estratégias de verificação de fatos e informações sobre campanhas de desinformação inovadoras.
O centro é um projeto piloto que vai seguir até 2024. Segundo Gwenaelle Bauvois, as novas estratégias visam, por exemplo, combater a desinformação veiculadas em jogos online. “O principal objetivo desta iniciativa é oferecer ferramentas e procedimentos ao público, às autoridades e aos meios de comunicação para enfrentar e combater a desinformação agora e no futuro”, declarou.
O centro foi criado depois que a agência identificou que a abordagem finlandesa para lidar com as notícias falsas também precisa se dar através de diversas cooperações para desenvolver competências de empresas, autoridades e organizações de comunicação social. O país conta com parcerias entre o governo, empresas privadas e ONGs para auxiliar no combate à desinformação, em trabalhos semelhantes aos desenvolvidos no Brasil pelas agências de checagem.
A mais conhecida delas, a Faktabaari, também realiza projetos na área educacional, produzindo kits de alfabetização midiática para escolas e o público em geral com propostas de exercícios.
Outra organização relevante no país é a Mediametka, que atua com alfabetização midiática desde 1950, quando os fundadores passaram a alertar sobre os riscos que os quadrinhos podiam causar em crianças. Hoje, a organização também tem projetos na área de inclusão, processo criativo e diversidade cultural para que as crianças e adolescentes do país conheçam os processos midiáticos e saibam como eles funcionam na totalidade.
Essa estrutura, aliada a outras políticas de segurança nacional, como a segurança digital, criam um ambiente que visam reduzir a longo prazo os impactos da desinformação veiculada inclusive nas redes sociais, que funcionam na Finlândia com as mesmas regras de todo o mundo.
As plataformas são as responsáveis por regular e sinalizar potenciais conteúdos falsos e aumentaram a atenção dedicada à desinformação após a pandemia de covid-19, mas essa mediação é vista muitas vezes como falha. Em muitas ocasiões, os conteúdos falsos são removidos somente após viralizar e os danos já terem sido causados.
“É por isso que a abordagem governamental finlandesa que integre segurança na Internet, literacia digital e mediática e a manutenção de uma forte confiança institucional ajuda, a longo prazo, a travar as notícias falsas e a reduzir o seu impacto”, declarou Bauvois.
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O Macaco Elétrico Jornalismo, educação, tecnologia e as combinações disso tudo
Por Paulo Silvestre – Estadão – 28/11/2022
Mercado de TI sofre com baixa diversidade nas equipes, dominadas por homens brancos
A oferta de empregos de tecnologia vem crescendo de maneira mais acelerada que a de outras áreas no Brasil. Até agosto desse ano, o segmento cresceu 5,1% comparado ao fechamento de 2021, frente a 3,7% de todos os setores. Isso acirra a disputa por talentos em um mercado onde literalmente sobram vagas e para o qual as universidades não conseguem suprir suas demandas.
Com isso, empresas do setor investem na formação dos profissionais que necessitam e até os “roubam” de outras áreas, oferecendo capacitação e condições atraentes para quem tope fazer uma transição de carreira. ONGs e as próprias universidades também investem em capacitações pontuais para diminuir esse déficit e evitar que o setor entre em crise.
Até o momento, isso tem sido suficiente, mas a demanda cresce de forma exponencial. Por isso, não há garantia de que esses movimentos continuem “tapando o buraco” de um segmento cada vez mais crítico para a sociedade. Além disso, eles não resolvem uma dor histórica da área, que é a baixíssima diversidade entre os profissionais, o que leva a entregas menos alinhadas com o que o mercado precisa.
Uma pergunta que surge naturalmente é: se há uma demanda explosiva por esses profissionais, por que o Brasil não consegue formá-los?
Esses dados fazem parte de um levantamento recente feito pela Brasscom, a associação das empresas de TI e comunicação. Em dezembro, outro estudo da entidade apontou que o mercado brasileiro demandará 797 mil profissionais de TI entre 2021 e 2025, mas nossas universidades formam apenas 53 mil pessoas no setor por ano. Ou seja, se o país depender apenas dessas graduações, faltará mais de meio milhão de profissionais até 2025.
“Já era para a gente ter colapsado, mas não é o que está acontecendo”, afirma Sergio Paulo Gallindo, presidente da Brasscom. Para esse ano, o estudo previa uma demanda de 132.765 profissionais de TI, o que está se concretizando. E a demanda vem sendo atendida. “São profissionais de outras áreas, profissionais que já estão em cursos superiores e fazem uma capacitação em programação, passam por um processo seletivo e pegam um estágio ou um trabalho”, explica Gallindo.
Essa demanda, entretanto, cresce exponencialmente. Para 2025, o cálculo é de que sejam necessários 206.940 profissionais de TI. Para o executivo, a solução paliativa que está funcionando hoje pode não dar conta daqui a pouco: “a gente tem um dever de casa gigantesco para esse negócio não colapsar”.
Não adianta ficar apenas tentando alargar a saída do funil se, na sua boca, ele capta poucas pessoas para o setor. “No Ensino Básico, a gente incentiva pouco essa curiosidade pela ciência, pela engenharia, pela matemática, deixando de criar a vontade no adolescente de buscar uma faculdade nisso”, sugere Gustavo Bodra, CTO da StartSe. “E, se não há demanda, as universidades não criam mais cursos”, conclui.
Se a digitalização de negócios e de nossas vidas já crescia de maneira rápida antes da pandemia, ela fez com que isso explodisse. É como se todas as empresas, de repente, passassem a ser também uma empresa de TI. Para Bodra, “quem ainda pensa que não é, seu concorrente vai passar na frente”.
“Houve esse boom e o mercado de tecnologia como um todo não conseguiu formar pessoas na mesma velocidade”, explica Fernanda Saraiva, diretora de RH da SAP Brasil. Ela acrescenta ainda outro fator para a oferta insuficiente: muitos jovens entram nas faculdades, mas não as concluem porque não conseguem pagar. “Daí fica todo mundo pescando no mesmo aquário para conseguir profissionais”.
“O interesse dos jovens por carreiras de tecnologia é um dos mais baixos”, afirma Gallindo. Quanto à evasão, o estudo da Brasscom aponta que, para graduações presenciais na área tecnologia, chega a 32%. “E ela afeta muito as camadas menos favorecidas, onde você encontra negros e negras”, explica.
Baixa diversidade
De fato, o setor de tecnologia no Brasil é fortemente dominado por homens brancos, longe de refletir a diversidade da população. Segundo o Censo do Ensino Superior de 2019, realizado pelo INEP, ligado ao Ministério da Educação, as mulheres são maioria no ensino superior no Brasil, respondendo por 56,1%. Mas se considerarmos apenas as carreiras de tecnologia, essa porcentagem desaba para apenas 14,8%. Além disso, para cada estudante negro, há seis estudantes brancos.
“A diversidade nesse mercado vai fazer com que ele tenha uma visão mais holística para soluções de tecnologia que permitam atender a sociedade tão diversa na qual nós vivemos”, explica Cecília Marshall, fundadora do projeto Ser Mulher em Tech, que incentiva meninas a escolher carreiras no setor. “A liderança feminina traz um olhar diferenciado, como se pôde ver na gestão da pandemia, em que países liderados por mulheres tiveram resultados mais positivos”, acrescenta.
De fato, para um setor que respira inovação, ter equipes em que todos são iguais tende a piorar o negócio. “Não tem forma melhor de inovar que trabalhar com diferentes pontos de vista”, afirma Saraiva.
Gallindo acrescenta que as habilidades para tecnologia são equivalentes em todos os gêneros e raças. O predomínio de homens brancos no setor deriva, portanto, de aspectos culturais e econômicos.
Todos eles afirmam que políticas públicas de ensino devem incentivar o gosto pela área entre os jovens e patrocinar a diversidade, mas as empresas têm um papel decisivo nesse processo. Elas devem não apenas apoiar as escolas e os professores, como também os estudantes. E isso pode ser feito com capacitações, bolsas de estudo e iniciativas que mostrem aos jovens que matemática e ciências podem ser divertidas, e têm o poder de mudar o mundo, mas em linguagens que eles entendam. Dentro de casa, as companhias precisam criar métricas de diversidade e promover modelos de liderança com mulheres e negros: eles servem para inspirar jovens desses grupos que pensam em abraçar essas carreiras.
É um dilema enorme e complexo, mas que precisa ser discutido, em busca de uma solução. O mercado exige profissionais mais completos em todos os setores. Se, de um lado, profissionais de TI não podem mais “fugir”, por exemplo, de habilidades de comunicação, os de Humanidades precisam aprender aspectos técnicos para se destacar.
Essa é uma incrível oportunidade, pois a combinação desses recursos cria uma sociedade melhor, o que tem muito valor para quem deseja crescer no mercado. Todos devem, portanto, se envolver no incentivo dos jovens e no fomento à diversidade.
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Por Márcia De Chiara, Luiz Guilherme Gerbelli e Cleide Silva – Estadão – 28/11/2022
Zona Franca de Manaus sente alta de investimentos em abertura de novas unidades ou em expansão de projetos já existentes; conceito de cadeias globais de fornecimento foi posto à prova pela pandemia e pela guerra entre Rússia e Ucrânia
Começam a surgir no País os primeiros sinais de mudanças nas cadeias de abastecimento da indústria e do comércio, provocadas pelo choque dapandemia e da guerra entre Rússia e Ucrânia. A disparada dainflação global, a interrupção no fluxo de mercadorias e o aumento do preço dofrete marítimo estão levando a indústria a investir na verticalização da produção ou a prospectar mercados de mais baixo risco para novos investimentos. Esse movimento deixa de lado o modelo tradicional deglobalização e aposta na regionalização.
Desde de 2020, o que se vê naindústria de bens duráveis, como eletroeletrônicos, eletroportáteis, informática, autopeças e motocicletas, é o avanço de novos projetos para produzir localmente parte dos itens que antes eram importados, sobretudo da China.
Esse movimento já aparece naZona Franca de Manaus (ZFM), que é a porta de entrada de empresas estrangeiras por oferecer benefícios fiscais. Lá, o número de projetos industriais aprovados não para de crescer desde o início da pandemia. Em 2020, a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), aprovou 142 projetos; em 2021, foram 176 e a perspectiva é fechar este ano com 198, segundo o coordenador de projetos industriais da Suframa, o economista Marcelo Pereira.
Os investimentos estão ligados à fabricação de itens de informática, eletroeletrônicos e motocicletas. Neste ano, 36% dos projetos se referem à implantação de novas fábricas e o restante é novos produtos em indústrias já instaladas. “Há sinalização de que mais empresas irão produzir bens finais e componentes na Zona Franca”, observa, ponderando que depois de aprovado, as companhias têm até três anos para colocar o plano em operação.
Do total de projetos, 34% são de empresas que estão chegando ao Brasil. É a maior fatia de companhias estreando no País nos últimos cinco anos. Antes da pandemia, a participação dos estrangeiros girava em torno de 20% e, em 2020, subiu para 30%. A maior parte das novas empresas estrangeiras com projetos aprovados é da China, que está novamente às voltas com o lockdown. Mas há também companhias da Índia, dos Estados Unidos, do Japão e do Peru. “Muitas estão chegando à Zona Franca porque querem diversificar o negócio, tirando parte da produção antes concentrada em um único continente”, explica Pereira.
O Brasil, na visão de especialistas, aparece na lista dos destinos com mais chance de fazer parte desse novo modelo de regionalização da cadeia de produção, ao lado de México, Vietnã e Austrália. O País é favorecido por ter potencial para produzir com uma matriz energética limpa, não ter conflitos geopolíticos, ser capaz de abastecer a América Latina e estar relativamente próximo dos Estados Unidos e da Europa.
“Com a guerra comercial entre Estados Unidos e China, as placas tectônicas se moveram e, depois, com a pandemia, as empresas perceberam que não dá para produzir num lugar que só é mais barato”, afirma Pedro Renault, economista do banco Itaú. Para Rafael Cagnin, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), ficou claro com a pandemia que o peso dado para o risco de ruptura precisa ser maior dentro das estratégias das empresas.
Maior procura por máquinas
Outro sinal da regionalização da produção aparece na forte demanda por máquinas importadas pelas indústrias. ”Este ano, vamos crescer as vendas entre 8% e 12% e seguimos batendo recordes a cada mês”, afirma o economista Paulo Castelo Branco, presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais (Abimei).
Os associados da entidade precisam hoje ao menos de 180 dias para conseguir entregar as máquinas que vendem, o dobro do prazo médio normal. O aquecimento das vendas do setor, segundo Castelo Branco, ocorre porque as empresas estão demandando mais máquinas para produzir localmente manufaturados. “É um começo de reindustrialização”, afirma.
No segmento de máquinas e equipamentos – um dos termômetros mais importantes da indústria -, o movimento de substituição de importação fez o faturamento do setor crescer nos últimos três anos. Em 2021, a alta foi de 28%. “Houve um surto de investimentos com os nossos clientes aumentando a produção local e querendo ficar fora do risco trazido pela importação e alta de custos”, afirma José Velloso, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).
Em 2022, o setor deve ter uma queda de 5% no faturamento – no início do ano, a expectativa era de alta de 5%. “Mas esse resultado é mais ocasionado pelo aperto (de juros) do Banco Central do que pela falta de vontade de investir”, diz Velloso.
Entre os setores que lideram a compra de novas máquinas importadas, estão o automotivo, de motocicletas, eletrodomésticos da linha branca, implementos rodoviários, móveis, eletroeletrônicos e embalagens. Castelo Branco, da Abimei, observa que, se não faltassemsemicondutores, componente chave dos veículos, a demanda do setor automotivo por máquinas poderia ser ainda maior.
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O setor automotivo tem um grande projeto de atrair fabricantes de componentes que são importados, principalmente da Ásia. Com a crise pela falta de semicondutores – que levou à paralisação de fábricas de veículos no mundo todo –, a indústria brasileira colocou todos os seus esforços nesses projetos para ficar menos dependente dos países daquela região.
A Stellantis, por exemplo, dona das marcas Fiat, Jeep, Citroën e Peugeot, desenvolve atualmente um projeto de componentes para o novo Citroën C3, que começou a ser produzido em sua fábrica em Porto Real (RJ). Segundo a empresa, já foram nacionalizados com fornecedores em Minas Gerais e São Paulo os itens alavanca de abertura do capô, mola a gás, kit de ferramentas, pedal de freio e berço motor, antes importados da Índia. O projeto continua e novas peças também passarão a ser produzidas no País, como componentes de suspensão.
Mondial investiu em sua fábrica em Conceição do Jacuípe (BA) para nacionalizar a produção de ferro elétrico, air fryer, multiprocessador e caixa acústica Foto: Divulgação/Mondial
Geração de emprego
“A globalização está sendo substituída pela regionalização tanto pelas multinacionais como pelas empresas brasileiras”, afirma o presidente da Abimei. E esse movimento, frisa, é positivo para o País, pois gera empregos e pode ampliar a participação da indústria noProduto Interno Bruto (PIB), elevando ao maior crescimento da economia.
AMondial, fabricante de eletroportáteis, por exemplo, acelerou a nacionalização a partir de 2020. Passou a fabricar no Brasil ferro elétrico, air-fryers, multiprocessadores e caixas acústicas, antes importados da China. Com isso, abriu mais de mil postos de trabalho em sua fábrica em Conceição do Jacuípe (BA).
“Era algo que estava previsto para fazermos em quatro anos e fizemos em um”, afirma Giovanni Marins Cardoso, sócio-fundador da empresa, que hoje lidera o segmento no País. Com a pandemia, diz ele, aumentaram o custo e a dificuldade de trazer esses eletroportáteis da China e a opção foi produzir no Brasil. Com a produção local, a empresa ganhou agilidade para atender a demanda. “Se a venda no varejo vai bem, a fábrica começa a produzir mais no dia seguinte, mas se dependermos da importação da China uma nova remessa demora entre 90 e 120 dias para chegar.”
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Para viabilizar a produção doméstica dos quatro eletroportáteis, foram investidos em um ano e meio R$ 80 milhões em máquinas e equipamentos. “Dobramos o nosso parque de injetoras e desenvolvemos fornecedores locais de resistência elétrica, termostato e embalagens”, conta Cardoso. A companhia planeja uma nova rodada de nacionalização para fabricar localmente secador de cabelo, escova secadora, aspirador de pó e cafeteira.
“O setor (de eletroeletrônico) passa por uma profunda transformação porque esse modelo de globalização tornou vulnerável a indústria do mundo inteiro”, diz Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Elétrica e Eletrônica (Abinee). “Nós, inclusive, estamos esperando para os próximos dias que seja editada a Medida Provisória que vai incentivar a vinda da produção de semicondutores para o Brasil, porque, do ponto de vista estratégico, o País está muito mais próximo da Europa e dos Estados Unidos do que a Ásia. E, portanto, nós teríamos uma vantagem comparativa.”
Comércio substitui parceiro comercial
Enquanto a indústria ensaia substituir importações para vencer os obstáculos da inflação global e da dificuldade de fornecimento, o comércio não pode esperar. Por isso, saiu em busca de importar mais produtos acabados de países onde os preços recuaram.
Um estudo feito pelo economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fabio Bentes, que compara as quantidades médias importadas de 3,7 mil bens de consumo de janeiro a outubro, entre 2012 e 2019, período pré-pandemia, com janeiro a outubro, entre 2020 e 2022, revela que houve substituição de países fornecedores desses produtos.
As quantidades importadas de parceiros comerciais tradicionais do Brasil, como Estados Unidos, Países Baixos, França e Coreia do Sul, por exemplo, registraram quedas na faixa de dois dígitos na pandemia em relação ao período anterior. A explicação para o recuo nas compras externas, segundo o economista, foi o forte aumento dos preços em dólar nesses países no período analisado.
A saída dos varejistas foi ampliar as quantidades compradas de outros países, onde os preços recuaram em dólar no período, como Índia, Bélgica, Portugal, Turquia e Vietnã, por exemplo. Na lista dos parceiros comerciais com maiores crescimento de volumes importados no período em análise aparecem também os vizinhos Peru, Paraguai e Chile. “Os parceiros comerciais mais próximos do Brasil estão ganhando força”, observa Bentes. Ele ressalta que, no curtíssimo prazo, a estratégia do varejo para driblar a alta de preços e problemas logísticos foi substituir parceiros comerciais.
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“Não houve uma substituição do manufaturado importado pelo nacional ainda”, diz Bentes. Ele lembra que esse processo leva algum tempo para que as novas fábricas entrem em operação. Aliás, os números mostram exatamente isso. Apesar de o volume de manufaturados importados ter recuado 5% em dois anos de pandemia, a produção industrial doméstica está ainda 11% abaixo das vésperas da decretação do estado de emergência sanitária.
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Para evitar atrasos, empresas do setor buscam fornecedores locais, tocam programas de formação e assinatura de contratos antes de entrar numa licitação
Por Bruno Rosa — O Globo – 14/11/2022
Perto de iniciar obra de uma grande ferrovia em Mato Grosso, a Rumo vem prospectando fornecedores no estado e busca dar condições para que eles possam atuar em maior escala Divulgação
Ações para buscar fornecedores locais, programas de formação e assinatura de contratos antes de encarar uma licitação. É assim que companhias de infraestrutura estão buscando empresas de construção civil Brasil afora para evitar riscos e atrasos justamente por uma oferta reduzida de empreiteiras.
Em jogo estão investimentos da ordem de R$ 500 bilhões para a próxima década em setores como os de ferrovias, rodovias, energia e saneamento, de acordo com projeção da consultoria Alvarez & Marsal (A&M).
A espécie de força-tarefa para desenvolver uma nova carteira de fornecedores em construção e engenharia começou a ser traçada após a Operação Lava-Jato, quando o esquema de corrupção revelado pela Polícia Federal afetou em cheio as grandes construtoras do país.
Esse movimento ganhou ainda mais força após os impactos da Covid-19, quando as empreiteiras, que começavam a sinalizar uma recuperação, voltaram a sofrer com paralisação de obras e aumento dos custos devido à desorganização da cadeia global.
Para se ter uma ideia, de acordo com fontes, o total de empregados das três maiores construtoras — Odebrecht (hoje Novonor), Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa — passou de cerca de 165 mil para os atuais 49 mil colaboradores. Marcos Ganut, sócio-diretor da A&M e líder das áreas de Infraestrutura e Projetos de Capital, destacou que pode ocorrer uma restrição de empresas para executar todo o volume de obras, que é estimado em R$ 500 bilhões na próxima década.
Baixa capacidade
Desde 2019, o governo federal leiloou cem ativos de infraestrutura de transportes, garantindo a contratação de R$ 116,4 bilhões em investimentos, com 49 concessões de aeroportos, 36 arrendamentos portuários, além de sete projetos ferroviários e rodoviários.
— Temos ainda um movimento de aumento de preços com pressão nos custos que começou na Covid e se agravou com a guerra na Ucrânia. Havendo também a recuperação econômica do pós-pandemia, que traz nova pressão. Quando você olha todo esse panorama, ter capacidade de atender todas essas obras será desafiador para a construção civil — diz Ganut.
A Rumo está prestes a iniciar as obras de construção de uma ferrovia de 730 quilômetros em Mato Grosso, com investimento que pode chegar a R$ 15 bilhões. O alto volume de aporte da companhia vem exigindo soluções criativas, segundo Guilherme Penin, vice-presidente de Regulação e Expansão da empresa.
Têm sido feitos roadshows em Mato Grosso para prospectar fornecedores que, em diversos casos têm capacidade técnica, mas pouco capital para tocar uma obra grande.
— Passamos a trabalhar contratos em que seja possível dar condições a essas empresas de tocar uma obra maior, seja com carteira grande de obras espaçadas no tempo ou fornecer aço e concreto para esse fornecedor. E usamos a capacidade da Rumo de maneira que essa empresa não fique estrangulada.
Segundo ele, a estratégia atual ocorre porque há uma reacomodação do espaço que era ocupado pelas empreiteiras mais tradicionais e que começa a ser preenchido por outras empresas:
— É um momento em que, se você tem grandes obras para fazer, você tem alguns desafios para encontrar fornecedores com capacidade para essas grandes obras. Além disso, somam-se dois outros fatores, como custo de capital elevado em função de subida da taxa de juros e a crise na cadeia de suprimentos.
Rui Chammas, diretor-presidente da ISA CTEEP, empresa presente em 17 estados e que opera uma rede de transmissão por onde trafegam 30% da energia elétrica do país, lembra que só os leilões de linhas de transmissão previstos para o ano que vem devem gerar novas obras em torno de R$ 50 bilhões.
— E a obra de uma linha de construção leva quatro anos. Cada empresa tem sua estratégia. A gente não entra em leilão descoberto. Negociamos as condições e conversamos antes de entrar em um leilão — disse ele, destacando que a empresa tem hoje projetos que somam investimentos de R$ 10 bilhões nos próximos cinco anos.
No Nordeste, a Monte Rodovia fez parceria com construtoras locais — Foto: Divulgação
Francisco Bulhões, vice-presidente de Relações Institucionais da Monte Rodovias, empresa que tem três concessões que pertenciam à Odebrecht na Bahia e em Pernambuco, diz que há hoje uma combinação de aumento nos custos dos insumos e baixa oferta de empresas no cenário de construção civil.
—Temos percebido uma escassez desses parceiros. Tivemos dificuldade de achar parceiros em determinadas regiões ao participar de alguns leilões.
Segundo ele, a saída para continuar com os investimentos foi buscar parceiros em diferentes regiões do país como forma de aumentar sua competitividade. Para Claudio Frischtak, sócio da Inter. B, há uma preocupação hoje de faltar construtoras.
— É uma preocupação real porque, ainda que não haja um boom de investimento, há um volume grande de investimento privado em setores como saneamento, rodovias, ferrovias e energia. Houve novas concessões e antecipações de concessões que preveem grande volume de investimento concentrado nos primeiros anos.
Vinda de estrangeiros
José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), destaca a falta de grandes obras no país nos últimos anos, a pouca preparação e planejamento das médias construtoras e a baixa capacitação da mão de obra.
— O setor chegou a ter três milhões de vagas, caiu para 1,9 milhão e hoje está em 2,6 milhões. Esse cenário complexo deve se agravar entre 2024 e 2025, quando vai ocorrer o pico das obras.
BRK Ambiental faz evento para ajudar na formação de fornecedores — Foto: Divulgação
O setor de saneamento, que ganhou marco regulatório há dois anos, também colocou a menor oferta de empreiteiras no radar. Com investimento anual de cerca de R$ 1 bilhão, a BRK Ambiental vem desenvolvendo uma série de iniciativas para desenvolver os fornecedores como eventos especiais.
Teresa Vernaglia, CEO da empresa, destacou que o cenário hoje não é confortável. Ela lembra que a companhia vem fazendo parcerias com empresas regionais de engenharia. Uma das estratégias, disse ela, é buscar uma parceira já com uma companhia de construção antes de entrar um leilão.
— Criar essas parcerias regionais também é muito importante porque não tem grandes empresas nacionais, o que ajuda a gerar emprego localmente também. Hoje, não tenho problema de obra atrasada, o que não quer dizer que a gente não esteja atento para que isso não aconteça. Isso é um processo de alerta contínuo.
Ex-diretora do BNDES, Marilene Ramos, diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade do Grupo Águas do Brasil, lembra que, tanto pelo volume de concessão nos últimos anos no setor de saneamento quanto pela perspectiva de obras, a falta de empresas poderá vir a se tornar um problema. A empresa tem plano de investimento de R$ 4,7 bilhões ao longo da concessão.
— No caso do saneamento, como as concessões são recentes, não entraram os investimentos maiores. Acredito que as empresas precisam entender melhor essa demanda que está vindo e se preparar para ela. Eventualmente, o mercado vai acabar se abrindo para empresas estrangeiras também, que podem vir e suprir essa demanda, dependendo obviamente da conjuntura internacional.
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Paralelamente, as montadoras buscam alternativas para driblar a crise de abastecimento, fazendo acordos com as fabricantes de chips ou até mesmo avaliando produção própria em parceria com as empresas do setor.
O desequilíbrio entre oferta e demanda de chips daqui para frente não será tão crônico e generalizado como ocorreu no ano passado, quando10,6 milhões de veículos deixaram de ser produzidos em todo o mundo. A previsão para este ano da consultoria Auto Forecast Solutions (AFS) é de uma perda de 4,3 milhões de unidades, e a tendência é de novas reduções.
No Brasil, a perda foi de 378 mil veículos em 2021 e de 182 mil neste ano (até agora). O País importa a totalidade de semicondutores pois abriga apenas algumas empresas de montagem final. Há alguns meses, montadoras e outros segmentos passaram a defender, junto ao governo federal, um plano para atrair fabricantes de chips ao País.
Uma Medida Provisória já assinada pelo ministro da Economia,Paulo Guedes, com incentivos à produção local, deve ser enviado ao presidente Jair Bolsonaro, e está na lista dos temas a serem discutidos com a equipe de transição do governo deLuiz Inácio Lula da Silva, que assumirá em 1º de janeiro.
Mais chips nos automóveis
A manutenção do choque de demanda por mais dois a três anos é corroborada por estudos de várias consultorias internacionais. O mais recente deles, feito pelo Boston Consulting Group (BCG), aponta como uma das justificativas o aumento da demanda por chips automotivos.
Hoje, a participação do setor automotivo nas vendas mundiais de semicondutores é de 8% e deverá aumentar para 11% em 2026, enquanto outros segmentos, como smartphones e PCs devem reduzir suas fatias (ver quadro). O mercado total atualmente é de cerca de US$ 670 bilhões e deve chegar a US$ 1 trilhão em 2030.
Mesmo com a inauguração de 29 novas fábricas de chips a partir deste ano e a desaceleração global das vendas de automóveis, ainda faltará produtos no mercado.
“Os novos automóveis terão, em média, o dobro de semicondutores que os modelos atuais por causa da introdução de novas tecnologias de segurança, conectividade e, em especial, pela eletrificação”, afirma Masao Ukon, diretor de Automotive & Mobility do BCG.
De acordo com o estudo da consultoria internacional, concluído em outubro, em 2021 cada automóvel continha o equivalente a US$ 640 em chips, valor que este ano está em US$ 710. Em 2030 chegará a US$ 1.170, prevê o BCG.
“O conteúdo embarcado nos automóveis vai aumentar muito, principalmente em mercados como China, Europa e Estados Unidos, onde haverá maior penetração de veículos elétricos”, diz Ukon.
Segundo ele, os chips se tornaram cruciais para os novos veículos e seu uso maior vai continuar causando desequilíbrio entre oferta e demanda pelo menos nos próximos dois a três anos, mas a falta será focada nos componentes usados em tecnologias mais avançadas.
Mesmo no Brasil, onde a eletrificação está um passo atrás em relação a outros países, a demanda por semicondutores vai crescer pois os carros locais também estão cada vez mais sofisticados. Uma vantagem é que talvez o País precisará de alguns tipos de chips que vão sobrar lá fora, como os usados nos modelos a combustão.
Lições pós-covid
A dependência de fabricantes da Ásia, como China e Taiwan, também vai continuar, ainda que EUA e Europa aumentem a produção com os bilionários investimentos que vêm fazendo. Hoje, metade da produção global de semicondutores é feita na China Continental (33%) e em Taiwan (16%). Das 29 novas fábricas anunciadas, 16 são nessas duas regiões.
O diretor do BCG destaca que a crise dos chips, que foi induzida pela pandemia de covid, trouxe lições importantes sobre como as montadoras gerenciam suas cadeias de suprimento, antes baseadas no just-in-time.
Os novos automóveis terão, em média, o dobro de semicondutores que os modelos atuais em razão das novas tecnologias de segurança, conectividade e, principalmente, pela eletrificação”
Masao Ukon, diretor do BCG
O sistema de manter estoques baixos e adquirir componentes e matéria-prima de acordo com a necessidade significava grande economia de custos, mas deu certo enquanto as cadeias globais de suprimento funcionavam.
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Com o lockdown e paradas de produção em quase todos os países, especialmente na China, onde o vírus da covid surgiu, somado a eventos extraordinários como seca em Taiwan e Malásia (água é essencial na produção de chips), incêndio em uma fábrica no Japão, fortes nevascas no Alasca (onde estão várias fábricas americanas), bloqueio do Canal de Suez e falta de navios e contêineres para transporte mostram que mudanças de estratégia são necessárias.
“Muita coisa o tem evoluído no setor – ressalta Ukon –, com várias ações adotadas pelas empresas”. Elas estão buscando se posicionar, se proteger e participar de forma mais ativa da cadeia produtiva e não ficar apenas dependendo de fornecimento ‘spot’ (operações concretizadas na hora).
Desde meados de 2021 ocorreram vários anúncios de parcerias, cooperação com fabricantes de semicondutores ou desenvolvimento de tecnologia própria, tentando um engajamento mais ativo na cadeia produtiva, com acordos diretos com fornecedores, buscando também diversificar a dependência de uma região, de um fornecedor, afirma Ukon.
A BMW assinou, há um ano, contrato de garantia de fornecimento direto com o desenvolvedor de microchips de alta tecnologia Inova Semiconductors e com a fabricante de semicondutores GlobalFoundries (GF). Andreas Wendt, responsável pela Rede de Compras e Fornecedores da BMW global, disse que “o acordo pioneiro marca o próximo passo lógico para garantir suprimentos de maneira mais proativa”.
A americanaGeneral Motors fez acordo estratégico com a fabricante de chip Wolfspeed em outubro de 2021, que desenvolverá soluções de dispositivos para os futuros veículos elétricos da montadora.
Um mês depois, a GM também informou que está trabalhando com sete fornecedores de chips em três novas famílias de microcontroladores que reduzirão o número de chips exclusivos em 95% dos novos veículos da marca. Entre as parceiras estão Qualcomm, Renesas e Infineon.
Em junho do ano passado, a francesa Renault e a STMicroelectronics anunciaram cooperação na concepção, desenvolvimento, produção e fornecimento de sistemas para conjuntos eletrônicos usados em veículos à bateria e híbridos.
“Esta parceria garante o futuro abastecimento de componentes chave e vai nos ajudar a concretizar nossa ambição de democratizar os veículos elétricos, para que sejam acessíveis e rentáveis”, disse o CEO da Renault, Luca de Meo.
A fabricante de peças automotivas Denso, pertencente à japonesa Toyota, se juntou em fevereiro ao projeto da Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. (TMSC) de construção de sua primeira fábrica de chips no Japão. O grupo já tinha parceria com a Sony e receberá US$ 350 milhões em investimentos da Denso.
Também há parcerias e acordos estratégicos entre aFord e a GF,BMWeMercedes-Benz com a Qualcomm e a Nvidia,Volkswagencom a ST Microeletronics e a TSMC, eStellantis com a Foxconn e a Waymoara.
Já a Tesla (em parceria com a TSMC e a Samsung), aHyundai e a BYD, com divisões próprias, pretendem produzir seus semicondutores.
O começo da crise
Além dos carros, chips são usados em computadores, eletroeletrônicos, maquinários, em sistemas de IA (inteligência artificial, na tecnologia 5G, entre outros)
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A crise de desabastecimento começou no fim de 2020, quando fábricas no mundo inteiro suspenderam a produção para evitar aumento de contaminações. Nesse período, ocorreu um boom de consumo de PCs, celulares e até eletrodomésticos pela população que ficou trancada em casa.
A volta das atividades de vários setores, como o de carros, ocorreu em ritmo mais acelerado do que se esperava. As fábricas de chip não deram conta da demanda que já vinha crescendo antes da covid. E seguem sem dar conta.
Governo já tem MP para incentivo à produção local
Está nas mãos do ministro da Economia, Paulo Guedes, uma Medida Provisória já assinada por ele para ser entregue ao presidente Jair Bolsonaro com incentivos à produção de semicondutores no Brasil.
Prometida desde meados do ano, é possível que a MP fique para ser avaliada pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O tema será tratado pelo grupo de transição.
Otimista com a possibilidade de produção local, o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Márcio de Lima Leite diz que o custo dos benefícios está incluído no orçamento de 2023.
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Entre as medidas da MP estão redução de Imposto de Importação e de PIS e Cofins para máquinas e equipamentos de produção e possibilidade de participação societária de bancos públicos como o BNDES.
Fábrica abandonada em Minas Gerais
O banco de fomento já tem participação de 33% na Unitec, fábrica de semicondutores em Ribeirão das Neves (MG), pronta desde 2015 mas que está abandonada por problemas entre os acionistas.
Fábrica abandonada em Minas Gerais é oferecida para interessados em produzir chip no País Foto: Washington Alves/Light Press/Estadão
A fábrica que mantém estrutura moderna e vários equipamentos tem sido usada para atrair investidores. Ela recebeu US$ 1,2 bilhão em investimentos e poderia entrar como parte dos benefícios para a produção nacional de chips.
Segundo Leite, o uso das instalações e infraestrutura pode antecipar em dois anos o início da produção. Uma fábrica leva quatro anos para ficar pronta.
“Quatro grupos já manifestaram interesse em avaliar a produção no Brasil”, diz Leite. Um é a Renesas, do Japão. Os outras três não tiveram nomes revelados. Duas deles teriam procurado recentemente o governo para conversar. Segundo fontes do mercado, uma seria a Samsung e outra a Hyundai, mas elas não confirmam.
Na opinião de Masao Ukon, diretor do BCG, é preciso avaliar se é mais competitivo produzir chips localmente ou continuar importando, levando-se em conta o investimento necessário (cerca de US$ 2 bilhões) e a necessidade de alta demanda para torná-la viável.
Leite ressalta que, somando todos os setores, o Brasil importa por ano cerca de US$ 14 bilhões em semicondutores, sendo cerca de US$ 1,5 bilhão pelo setor automotivo. Além da demanda local, os chips poderão ser exportados, diz.
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A inteligência emocional é fundamental para a liderança
AJ Hess – Fast Company Brasil 24-11-2022
Foi-se o tempo em que a proficiência técnica era a qualidade mais desejada para um líder. Embora o conhecimento teórico e a experiência na área sejam importantes, agora são consideradas habilidades de nível básico – sem elas, o candidato sequer entra no páreo.
Além disso, muitos trabalhos hoje são tão complexos que precisamos contar com toda uma equipe de pessoas competentes. Mas as habilidades técnicas não bastam para avançar na carreira se os líderes não tiverem a capacidade de se comunicar, de cooperar ou de estabelecer uma cultura que apoie a valorização e o desenvolvimento de suas equipes.
Por isso, a inteligência emocional é fundamental para a liderança. São os líderes que definem o tom de sua empresa. Se eles não tiverem inteligência emocional, isso afetará o engajamento, a satisfação, a rotatividade e, por fim, o resultado financeiro.
A boa notícia é que a inteligência emocional não é algo estático. Ela pode ser estimulada, e os líderes podem desenvolver a deles, aumentando seu potencial de liderança. Um líder emocionalmente inteligente é aquele que, através de seus comportamentos, demonstra estas sete qualidades:
SINCERIDADE
Líderes emocionalmente inteligentes são sinceros, honestos
inteligência emocional não é algo estático, ela pode ser estimulada e os líderes podem desenvolvê-la.
e reais. São os maiores incentivadores da empresa. Demonstram acreditar continuamente no próprio trabalho, no de seus colegas e no sucesso da equipe.
O apoio sincero dos líderes pode ajudar uma empresa em tempos difíceis. Se isso faltar, vai ser difícil para os outros manter a fé e a crença naquilo que estão fazendo.
DISPOSIÇÃO PARA SAIR DA ZONA DE CONFORTO
O crescimento e o desenvolvimento exigem que continuemos a ultrapassar os limites do que nos sentimos confortáveis em fazer. Líderes emocionalmente fortes sabem disso e continuam a se esforçar e encorajar aqueles ao seu redor a ir além do que estão familiarizados.
CAPACIDADE DE CONTROLAR AS EMOÇÕES
Em tempos de dificuldade e de crise, os funcionários buscam orientação vinda dos superiores. Eles querem saber a gravidade da situação e como devem agir. É crucial que os líderes sejam capazes de mostrar calma externa e manter a compostura, gerenciando suas próprias emoções.
Mesmo que não tenham soluções imediatas, é fundamental conseguir manter a calma diante das dificuldades. Isso pode ajudar a equipe a concentrar sua energia em encontrar soluções, em vez de desperdiçar tempo e esforço com medo e preocupação.
AUTENTICIDADE EM TODOS OS MOMENTOS
Esse tipo de líder é sempre claro sobre suas intenções e sobre as razões por trás delas. Isso significa que os funcionários não precisam se preocupar em decifrar ou ler nas entrelinhas dos discursos da chefia, o que os mantém mais bem informados sobre os objetivos e motivações da empresa.
Líderes emocionalmente inteligentes acreditam que a vida precisa ser experimentada e aproveitada ao máximo.
Líderes emocionalmente inteligentes são autênticos porque compartilham o máximo que podem com seu pessoal, em todos os momentos, e esperam o mesmo dos outros. Além disso, tratam todos da mesma forma, independentemente de sua posição na empresa ou na vida.
RELACIONAMENTO DE FORMA HUMANA
Líderes emocionalmente inteligentes estão cientes de suas emoções e de como a parte emocional afeta tudo o que fazemos. Também são hábeis em ler as emoções dos outros, individualmente ou em grupos. Interagir com as pessoas em um nível humano permite que os líderes façam com que as pessoas se sintam vistas e ouvidas, mesmo em momentos de desacordo e conflito.
RECUSA EM DEIXAR QUE OBSTÁCULOS BLOQUEIEM SEUS OBJETIVOS
Falhas e contratempos são partes inevitáveis do caminho para qualquer recompensa que valha a pena e que, eventualmente, se transformará em sucesso. Líderes emocionalmente inteligentes sabem que haverá obstáculos e já se preparam para eles. Procuram encarar isso como uma aprendizagem necessária e não levam os contratempos para o lado pessoal.
Para eles, as decepções fazem parte da jornada de aprendizado e desenvolvimento pois entendem que, no fim das contas, esses momentos vão acabar por ajudá-los a alcançar seus objetivos.
NÃO SE DEIXAR ABATER PELO PESSIMISMO
Todo mundo tem momentos em que está deprimido, com vontade de reclamar e que precisa se esforçar mais para se manter otimista. Líderes emocionalmente inteligentes não estão imunes a esses sentimentos. No entanto, nunca permitem que eles se instalem de forma permanente em suas mentes.
Líderes emocionalmente inteligentes estão abertos a apoiar os sentimentos dos outros, mas se distanciam de pessoas que reclamam constantemente ou são sempre negativas. As pessoas de quem se cercam têm uma perspectiva positiva e preferem enxergar o lado bom da vida.
Líderes emocionalmente inteligentes acreditam que a vida precisa ser experimentada e aproveitada ao máximo e atraem (e são atraídos) pessoas que vivem alinhadas a essa mesma crença.
SOBRE O AUTOR
AJ Hess é editor da seção Worklife da Fast Company.
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É CEO da Always On Ciência e Engenharia de Dados. Tem mais de 20 anos de experiência em posições de liderança estratégica tanto em grandes empresas como em startups do mercado digital. Trabalhou no desenvolvimento e na implantação de algumas das principais ferramentas de martech no Brasil, sendo hoje parceiro certificado da Oracle (CX) Responsys. Tem reconhecida autoridade em transformação digital, ajudando empresas a obterem resultados financeiros expressivos por meio de estratégias em dados, CRM, vendas (on e offline) e integração multicanal.
Em nosso artigo anterior, apresentamos uma visão geral do que é o Varejo 3.0 – você pode conferir aqui -, e prometemos apresentar as tecnologias-chave para o funcionamento desse novo e revolucionário ecossistema.
Mas antes temos que deixar claro um ponto: usamos a expressão “tecnologias-chave” em um sentido bem amplo, envolvendo não apenas os aplicativos e outros programas de computador, mas todo o conjunto de instrumentos, métodos e técnicas necessário para garantir que uma empresa possa trazer o foco para o comprador individual.
A transformação digital precisa estar no centro de todas as estratégias e modelos de negócios.
Como dissemos no outro artigo, o Varejo 3.0 é construído através de sinergias de marketing e cadeia de suprimentos em tempo real, montadas sobre uma base de dados de transações identificadas. E isso requer a integração de canais online e offline, logística e dados através de uma cadeia de valor.
Habilitando o Varejo 3.0
Para habilitar o Varejo 3.0, é necessário, portanto, não apenas ter as ferramentas tecnológicas certas, mas estruturar todos os processos e rotinas a partir de uma nova mentalidade, em que o cliente é de fato rei e sua vontade, soberana.
Dito isso, vamos ao que chamamos de tecnologias-chave.
1. Abordagem omnicanal
Uma experiência de compra omnicanal se estende da loja física à navegação móvel, comércio eletrônico, vitrines no local, mídia social/digital e outros canais cruzados. Isso significa que todos os canais de venda e de marketing estão integrados, que não importa por onde a compra seja realizada, na loja, no site, no celular, ela se dá sempre de forma tranquila e consistente. De acordo com um estudo apresentado no Customer Think.com, as empresas que implementaram uma abordagem omnicanal obtiveram benefícios cruciais para o seu sucesso a longo prazo – aumentaram a retenção dos seus clientes em 89% e o faturamento anual em 9,6%.
2. Chatbots e outras ferramentas baseadas em IA e ML
O varejo tem que estar preparado para lidar com assistentes de voz, assistentes robóticos, entrega via drones etc. E, principalmente, com os chamados customer chatbots, que oferecem suporte instantâneo e 24/7 para buscas de informação, rastreamento de pedidos, gerenciamento de reclamações e pós-venda. Além disso, podem ser conectados com o CRM das empresas para garantir uma experiência personalizada.
Os resultados são incríveis. A Cars24, que vende carros usados online, usa um chatbot para responder a perguntas frequentes, como a idade do veículo, para diminuir o estresse nos contact centers. A iniciativa reduziu as despesas com o call center em impressionantes 75%. Além disso, a interação com o chatbot resulta em 1/3 das vendas.
Em outro exemplo, a CEAT, maior produtora de pneus da Índia, alcançou uma taxa de conversão de 21% graças ao seu chatbot orientado por IA que entende a intenção do usuário. Ele recomenda modelos de pneus dependendo das preferências do cliente (por exemplo, pneus amigáveis à pegada de carbono) e aprimora os recursos de comércio conversacional da empresa.
3. Dispositivos baseados em IoT
A expressão Internet das Coisas (IoT) descreve a rede de objetos físicos incorporados a sensores, softwares e outras tecnologias com o objetivo de conectar e trocar dados com outros dispositivos e sistemas pela internet. Os varejistas atualmente já lidam com sensores de segurança, sensores para rastrear o status do estoque à venda (temperatura, força etc.) e monitoramento de rede. Agora, precisam lidar também com outros dispositivos com tecnologia para rastrear a jornada digital do cliente e beacons, adaptando o processo de compra a cada comprador individual. Assim, os clientes podem receber ofertas personalizadas, assistência para encontrar produtos e checkout fácil – e aumentam a propensão a gastar mais em cerca de 40%, segundo a consultoria Built.In.
A Amazon Go é um excelente exemplo de lojas físicas conectadas a um sistema de IoT. Vamos falar mais sobre a rede no próximo artigo.
4. Serviços baseados em localização
A partir dos dispositivos anteriores, será possível saber quando clientes específicos estão na loja e disparar, por exemplo, alertas em tempo real para que um funcionário vá até um local da loja para auxiliar um cliente. Outro serviço importante pode ser um alerta para quando um cliente entra pela porta ou está no estacionamento para pegar um pedido online. Na Regent Street, em Londres, cerca de cem varejistas – incluindo Karl Lagerfeld, Armani Exchange e Brasserie Zedel – instalaram sensores que acionam ofertas personalizadas por meio de um aplicativo cooperado. Essa combinação de “geofencing” e inteligência artificial (para personalizar ofertas) aumentou a venda em 7,4%.
5. Self-checkouts
Também chamados de assisted checkouts (ACOs) ou self-service checkouts, são máquinas que oferecem mecanismos para os clientes completarem suas transações sem precisarem usar as caixas tradicionais. É fundamental implementar checkouts baseados em aplicativos móveis, em reconhecimento facial e outras tecnologias de simplificação dos processos de compra. Um estudo da Raydiant sobre experiências de self-checkout descobriu que quase metade dos clientes usará o self-checkout quase exclusivamente quando estiver disponível. Quando perguntados com que frequência usariam um quiosque de autoatendimento, aproximadamente 48,7% dos entrevistados disseram “basicamente o tempo todo”. A pesquisa também revelou que por volta de 30,6% dos entrevistados dizem que usam quiosques de autoatendimento algumas vezes e geralmente mudam seus hábitos de caixa com base na natureza dos itens que estão comprando e no comprimento da fila do caixa. Durante o estudo, apenas 3% dos entrevistados disseram que nunca usam um self-checkout.
6. Modelo Click and Collect
O Varejo 3.0 tem como um dos seus pilares esse modelo que basicamente permite o seguinte:
Compre na loja e envie da loja para casa.
Compre online e retire na loja.
Compre online e devolva à loja.
Compre na loja e devolva pelo correio com etiqueta de devolução do site do varejista.
Compre online e retire em local de terceiros, como lojas de conveniência e armários.
Não por acaso, em 2022, as vendas no modelo nos Estados Unidos devem crescer 19,4% em comparação com 2021. Depois de aumentar mais de 100% durante o primeiro ano da pandemia de Covid-19, as vendas no varejo do Click and Collect devem continuar a crescer ainda que a um ritmo mais lento.
Em resumo…
Houve uma mudança de paradigma no mundo do varejo com o debate mudando do online x loja física para a necessidade de engajamento total e gerenciamento contínuo da experiência do cliente. Seja uma loja online ou física, a transformação digital precisa estar no centro de todas as estratégias e modelos de negócios.
No próximo artigo, vamos mostrar alguns exemplos de empresas que já estão totalmente imersas no Varejo 3.0. Até lá.
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Ambos têm a mesma vulnerabilidade: a idiossincrasia de um líder solitário superestimado
Por Simon Kuper, Financial Times/Valor 22/11/2022
“A compra do Twitter é um acelerador para criar o X, o aplicativo de tudo”, explicou Musk, em 4 de outubro, sobre o Twitter. Passadas quatro semanas, depois de o escritor Stephen King ter se oposto à ideia de pagar US$ 20 mensais para a ter a certificação do Twitter de autenticidade da conta, Musk retrocedeu. “Que tal US$ 8?”, tuitou, de sua “sala de guerra”, na sede da empresa, em San Francisco. Desde então, o Twitter engavetou a ideia de certificação paga.
Às vezes, Musk se parece cada vez mais a uma versão (não sanguinária, felizmente) de Vladimir Putin. A compra do Twitter por absurdos US$ 44 bilhões lembrou a tentativa de tomada, extremamente hostil, da Ucrânia por Putin, na qual o autocrata pretendia dar uma lição à presa. Agora, enquanto Musk está destruindo a própria empresa, as Forças Armadas de Putin fogem da recém-anexada Kherson, um lugar que supostamente seria parte da Rússia “para sempre”.
As duas formas organizacionais dominantes da atualidade são praticamente as mesmas: o Estado autocrático nas mãos de um só homem. Ambas têm a mesma vulnerabilidade: a idiossincrasia de um líder solitário superestimado.
As “bandas” de um homem ficaram fora de moda por muito tempo. China e Rússia passaram décadas sob liderança coletiva depois de os líderes solitários Mao e Stálin terem matado milhões. No mundo dos negócios de dez anos atrás, nenhuma das dez empresas mais valiosas do mundo ainda era administrada pelos fundadores.
A essa altura, entretanto, Putin, Xi Jinping, a Meta, de Mark Zuckerberg, a Tesla, de Musk, e a Amazon, de Jeff Bezos, já estavam em ascensão. Então, Mohammed bin Salman tornou-se o único governante da Arábia Saudita e controlador, na prática, da segunda empresa mais valiosa do mundo, a Saudi Aramco. Outro herdeiro, seu colega Donald Trump, tentou administrar os Estados Unidos como uma incorporadora imobiliária familiar.
Estados e empresas de um só homem têm ciclos semelhantes. A princípio, mesmo que o objetivo do autocrata seja enriquecer-se, ele também almeja aprovação, então evita a autossabotagem. Sem estar amarrado a regras, ele parece ser mais ágil que seus rivais, regidos coletivamente. Com o sucesso, adquire certa aura. Ele estabilizou a Rússia/inventou o Facebook/construiu carros elétricos. Logo, é um gênio! Se ele quiser se tornar presidente vitalício ou outorgar a si mesmo ações com direito a voto dez vezes maior que o das outras ações, bem, o que poderia dar errado?
No entanto, o sucesso inicial em geral deve-se a uma confluência única de sorte, momento e da pessoa em questão. Poucos homens são capazes de repetir a maestria duas vezes. Pior, a arrogância toma conta da pessoa. Tendo desafiado os pessimistas da primeira vez, o autocrata os ignora na segunda vez. “Avance rápido e quebre coisas” era o lema inicial de Zuckerberg, mas acabou se tornando o de Putin também. Além disso, o autocrata fica entediado. Depois de comandar a Rússia ou o Facebook sem data para ir embora, cada dia começa a parecer igual. Presumivelmente, foi por isso que Bezos saiu. Ele colocou Andy Jassy no comando da Amazon, despachou a si próprio para o espaço e agora está interessado em um time de futebol americano.
Musk, Zuckerberg e Putin permaneceram no cargo, mas, assim como Bezos, buscaram novos estímulos. Enquanto os acionistas ou os policiais secretos russos imaginavam que seus autocratas ainda estavam impiedosamente dedicados a ganhar dinheiro para eles, na verdade eles haviam evoluído a interesses mais elevados. Zuckerberg, por exemplo, parece ter decidido que seria muito legal construir um “metaverso” de realidade virtual, não importa o custo.
A pandemia provavelmente acelerou esses processos de desenvolvimento pessoal. Enquanto Putin passou o lockdown estudando a história ucraniana, Musk parece tê-lo passado no Twitter: sua média de tuítes por dia decolou. Enquanto isso, o isolamento deles foi se consolidando. O investidor Chris Sacca tuitou na semana passada: “Um dos maiores riscos da riqueza/poder é não ter mais ninguém a seu redor que possa contê-lo […] Uma visão de mundo cada vez menor, combinada a um isolamento intelectual, leva a bobagens fora de sintonia […] Recentemente, observei como aqueles ao seu redor se tornavam cada vez mais bajuladores e oportunistas […] concordar com ele é mais fácil, e há mais vantagens financeiras e sociais.” Sacca estava falando de Musk, mas podia muito bem estar se referindo a Putin.
Antigos apoiadores agora horrorizados não conseguem parar o autocrata. Zuckerberg está livre para torrar o dinheiro dos acionistas porque tem o controle dos votos na Meta, assim como Putin na prática controla os da Rússia, enquanto Musk dissolveu o conselho do Twitter. Se tudo isso é assustador, espere até que o mais poderoso dos autocratas, Xi Jinping, descubra uma paixão. As organizações não precisavam ser disfuncionais desse jeito.
Para um modelo alternativo, tome-se o caso da Apple. Seu mandatário Steve Jobs provavelmente preservou sua reputação ao morrer antes que a arrogância tomasse conta. A Apple de hoje não é muito inovadora, mas tornou-se a empresa mais valiosa do mundo ao monetizar sucessos anteriores, especialmente o iPhone. Sua liderança coletiva está alerta aos riscos. Quando a Apple faz bobagem, como com o teclado borboleta de 2015, em algum momento corrige o rumo. Um dia, Tim Cook vai dar lugar a um novo CEO, nada empolgante. De fato, a Apple é dirigida como a Alemanha. “Feliz é a terra que não precisa de heróis”, escreveu o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Feliz é a empresa também.
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