Estados e empresas nas mãos de uma só pessoa estão arruinando o mundo


Ambos têm a mesma vulnerabilidade: a idiossincrasia de um líder solitário superestimado

Por Simon Kuper, Financial Times/Valor 22/11/2022

“A compra do Twitter é um acelerador para criar o X, o aplicativo de tudo”, explicou Musk, em 4 de outubro, sobre o Twitter. Passadas quatro semanas, depois de o escritor Stephen King ter se oposto à ideia de pagar US$ 20 mensais para a ter a certificação do Twitter de autenticidade da conta, Musk retrocedeu. “Que tal US$ 8?”, tuitou, de sua “sala de guerra”, na sede da empresa, em San Francisco. Desde então, o Twitter engavetou a ideia de certificação paga.

Às vezes, Musk se parece cada vez mais a uma versão (não sanguinária, felizmente) de Vladimir Putin. A compra do Twitter por absurdos US$ 44 bilhões lembrou a tentativa de tomada, extremamente hostil, da Ucrânia por Putin, na qual o autocrata pretendia dar uma lição à presa. Agora, enquanto Musk está destruindo a própria empresa, as Forças Armadas de Putin fogem da recém-anexada Kherson, um lugar que supostamente seria parte da Rússia “para sempre”.

As duas formas organizacionais dominantes da atualidade são praticamente as mesmas: o Estado autocrático nas mãos de um só homem. Ambas têm a mesma vulnerabilidade: a idiossincrasia de um líder solitário superestimado.

As “bandas” de um homem ficaram fora de moda por muito tempo. China e Rússia passaram décadas sob liderança coletiva depois de os líderes solitários Mao e Stálin terem matado milhões. No mundo dos negócios de dez anos atrás, nenhuma das dez empresas mais valiosas do mundo ainda era administrada pelos fundadores.

A essa altura, entretanto, Putin, Xi Jinping, a Meta, de Mark Zuckerberg, a Tesla, de Musk, e a Amazon, de Jeff Bezos, já estavam em ascensão. Então, Mohammed bin Salman tornou-se o único governante da Arábia Saudita e controlador, na prática, da segunda empresa mais valiosa do mundo, a Saudi Aramco. Outro herdeiro, seu colega Donald Trump, tentou administrar os Estados Unidos como uma incorporadora imobiliária familiar.

Estados e empresas de um só homem têm ciclos semelhantes. A princípio, mesmo que o objetivo do autocrata seja enriquecer-se, ele também almeja aprovação, então evita a autossabotagem. Sem estar amarrado a regras, ele parece ser mais ágil que seus rivais, regidos coletivamente. Com o sucesso, adquire certa aura. Ele estabilizou a Rússia/inventou o Facebook/construiu carros elétricos. Logo, é um gênio! Se ele quiser se tornar presidente vitalício ou outorgar a si mesmo ações com direito a voto dez vezes maior que o das outras ações, bem, o que poderia dar errado?

No entanto, o sucesso inicial em geral deve-se a uma confluência única de sorte, momento e da pessoa em questão. Poucos homens são capazes de repetir a maestria duas vezes. Pior, a arrogância toma conta da pessoa. Tendo desafiado os pessimistas da primeira vez, o autocrata os ignora na segunda vez. “Avance rápido e quebre coisas” era o lema inicial de Zuckerberg, mas acabou se tornando o de Putin também. Além disso, o autocrata fica entediado. Depois de comandar a Rússia ou o Facebook sem data para ir embora, cada dia começa a parecer igual. Presumivelmente, foi por isso que Bezos saiu. Ele colocou Andy Jassy no comando da Amazon, despachou a si próprio para o espaço e agora está interessado em um time de futebol americano.

Musk, Zuckerberg e Putin permaneceram no cargo, mas, assim como Bezos, buscaram novos estímulos. Enquanto os acionistas ou os policiais secretos russos imaginavam que seus autocratas ainda estavam impiedosamente dedicados a ganhar dinheiro para eles, na verdade eles haviam evoluído a interesses mais elevados. Zuckerberg, por exemplo, parece ter decidido que seria muito legal construir um “metaverso” de realidade virtual, não importa o custo.

A pandemia provavelmente acelerou esses processos de desenvolvimento pessoal. Enquanto Putin passou o lockdown estudando a história ucraniana, Musk parece tê-lo passado no Twitter: sua média de tuítes por dia decolou. Enquanto isso, o isolamento deles foi se consolidando. O investidor Chris Sacca tuitou na semana passada: “Um dos maiores riscos da riqueza/poder é não ter mais ninguém a seu redor que possa contê-lo […] Uma visão de mundo cada vez menor, combinada a um isolamento intelectual, leva a bobagens fora de sintonia […] Recentemente, observei como aqueles ao seu redor se tornavam cada vez mais bajuladores e oportunistas […] concordar com ele é mais fácil, e há mais vantagens financeiras e sociais.” Sacca estava falando de Musk, mas podia muito bem estar se referindo a Putin.

Antigos apoiadores agora horrorizados não conseguem parar o autocrata. Zuckerberg está livre para torrar o dinheiro dos acionistas porque tem o controle dos votos na Meta, assim como Putin na prática controla os da Rússia, enquanto Musk dissolveu o conselho do Twitter. Se tudo isso é assustador, espere até que o mais poderoso dos autocratas, Xi Jinping, descubra uma paixão. As organizações não precisavam ser disfuncionais desse jeito.

Para um modelo alternativo, tome-se o caso da Apple. Seu mandatário Steve Jobs provavelmente preservou sua reputação ao morrer antes que a arrogância tomasse conta. A Apple de hoje não é muito inovadora, mas tornou-se a empresa mais valiosa do mundo ao monetizar sucessos anteriores, especialmente o iPhone. Sua liderança coletiva está alerta aos riscos. Quando a Apple faz bobagem, como com o teclado borboleta de 2015, em algum momento corrige o rumo. Um dia, Tim Cook vai dar lugar a um novo CEO, nada empolgante. De fato, a Apple é dirigida como a Alemanha. “Feliz é a terra que não precisa de heróis”, escreveu o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Feliz é a empresa também.

(Tradução de Sabino Ahumada)

https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2022/11/22/estados-e-empresas-nas-maos-de-uma-so-pessoa-estao-arruinando-o-mundo.ghtml

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Um comentário em “Estados e empresas nas mãos de uma só pessoa estão arruinando o mundo

  1. É impresionante a semelhança do que estava ocorrendo no Brasil nos 4 ultimos anos. Organizações inteiras foram colocadas a serviço do presidente e seus subordinados e filhos. No apagsr das luzes soubemos que oficiais de alta patente receberam quase 1 milhão de reais em 2 meses. Afora o barulho em torno das urnas eletrônicas. É fichinha perto de outros mandatarios ou “donos de empresa” mas a moda pegou…. Gostaria de colocar a guerra da Ucrania. Teve um tratado dizendo que os paises que fazem fronteira com a Russia não poderiam se ligar a OTAN . Então, “o que é combinado não é caro” . Mas, concordo que Putin tem uma maquina mortifera ao seu redor.

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