Internet of toys e o tratamento de dados de crianças e adolescentes

Uso destes dispositivos demanda maior cautela do Estado e da família, uma vez que envolvem um público hipervulnerável

Renato Opice Blum *com Renata Carolina Troca Cabella – Febrabantech 14/02/2023

A internet of toys, na tradução literal da palavra significa “internet dos brinquedos” ou “brinquedos conectados”, trata-se de brinquedos infantis que necessitam estar conectados à internet ou bluetooth. São brinquedos “inteligentes” capazes de interagir com a criança ou o adolescente, não apenas por meio de frases repetidas ou músicas gravadas, como os brinquedos tradicionais. 

A grande maioria desses brinquedos se conectam sem fio a banco de dados online e são capazes de reconhecer vozes, imagens e identificar comandos, perguntas e solicitações. Utilizam tecnologias de sensores, câmeras, inteligência artificial e conectividade para responder de forma individualizada e personalizada ao que é falado pela criança e, concomitantemente, colher dados pessoais dos pequenos usuários.

Em outras palavras, referidos brinquedos, quando estão online ou quando o Wi-Fi ou bluetooth estão acionados, podem, o tempo todo, ouvir e processar dados pessoais ou imagens, tais como os smartphones ou as smartTVs.

Em 2015, a Mattel em parceria com a empresa US Toy Talk lançou a boneca Hello Barbie, anunciada como a primeira boneca interativa, capaz de ouvir a criança e responder a ela. A Hello Barbie se conectava com a internet e, de acordo com os fabricantes, as conversas gravadas poderiam ser ouvidas posteriormente pelos pais. Todavia, para interpretar e responder as perguntas o conteúdo era enviado para a Toy Talk para processamento das informações.

No entanto, foi verificado que, quando conectada, a boneca ficava vulnerável a ataques, permitindo acesso fácil às informações, arquivos de áudio armazenados e acesso direto ao microfone, além de acesso a outros dispositivos conectados à internet e informações pessoais sem qualquer consentimento dos envolvidos.

Semelhante à Hello Barbie, tivemos a boneca Cayla, fabricada pela empresa Genesis Toys, que em 2017 foi banida pela Agência de Telecomunicações da Alemanha que, sob o alerta de possíveis falhas de privacidade, ordenou que os pais destruíssem ou desabilitassem a boneca. O brinquedo poderia ser utilizado para espionar ilegalmente as crianças, podendo eventuais atacantes se conectar ao brinquedo e falar com a criança ou o adolescente sem intermediação ou vigilância dos pais.

Assim, considerando a recente comercialização desses smart toys é nítido que os impactos do uso no desenvolvimento infantil ainda não foram devidamente avaliados. O assunto merece reflexão não só familiar e social, como também jurídica, uma vez que esses brinquedos alçam preocupações sobre as potenciais ameaças à segurança da informação.

Em meio a essa revolução tecnológica a qual crianças e adolescentes estão inseridos, as finalidades podem ser educativas ou recreativas, mas também podem violar direitos fundamentais.

Dessa forma, é necessário garantir especial proteção aos pequenos consumidores reconhecendo que as crianças estão em posição de maior fragilidade em relação à vulnerabilidade reconhecida ao consumidor padrão, pois possuem discernimento mais reduzido.

Afetada a essas situações a LGPD veio justamente para regulamentar o tratamento de dados pessoais, em particular nos meios digitais, devendo os dados que podem ser coletados em três: os dados pessoais, os dados pessoais sensíveis e os dados anonimizados. Os dados pessoais são informações relacionadas à pessoa natural identificada ou identificável. Os dados pessoais sensíveis são aqueles que dizem respeito a origem racial ou étnica, convicção religiosa, opinião política, filiação a sindicato ou organização de caráter religioso, filosófico ou político, dados referentes à saúde ou à vida sexual, dados genéticos ou biométricos quando vinculados a uma pessoa natural. E os dados anonimizados são aqueles relativos a titular que não possa ser identificado, considerando a utilização de meios técnicos razoáveis e disponíveis na ocasião de seu tratamento.

No entanto, especificamente sobre o tratamento dos dados pessoais de crianças e adolescentes, o art. 14 da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais – LGPD (Lei nº 13.709/2018) dispõe, apenas, que o tratamento de dados pessoais de crianças e adolescentes deverá ser realizado em seu melhor interesse e que o tratamento de dados pessoais de crianças deverá ser realizado com o consentimento específico e em destaque dado por pelo menos um dos pais ou pelo responsável legal.

Levando-se em consideração a quantidade de dados que podem ser expostos não se pode concentrar essa possível invasão à privacidade somente ao consentimento dos pais ou responsáveis.

De acordo com pesquisas apresentadas no site https://twisted-toys.com/br/: 72 milhões de pontos de dados serão coletados de uma criança antes de completar 13 anos; 61% das crianças de 8 a 12 anos foram contatadas por alguém que não conhecem enquanto jogavam; serviços digitais populares, como Facebook, têm sido usados em casos conhecidos de preparação de crianças para fins sexuais e tráfico de drogas; 29% das crianças entregam seus dados pessoais a pessoas que conheceram online, incluindo seu número de telefone celular e endereço residencial; 15 dos principais sites usados por crianças tinham termos e condições demasiadamente complicados; uma pessoa comum precisaria reservar quase 250 horas para ler corretamente todos os termos e condições que aceita ao utilizar serviços digitais; 73% dos jovens não leem os termos e condições de qualquer plataforma que utilizam; entre outras situações alarmantes.

Conforme visto, a utilização desses smart toys demanda maiores cautelas por parte do Estado e da família, uma vez que os reais interesses e usos advindos com os dados capturados por esses brinquedos envolvem um público hipervulnerável, diferente dos demais destinatários, com o agravante de que excluir as crianças e os adolescentes do uso das tecnologias não é mais possível considerando que as gerações atuais são nativas digitais. Vale dizer que sem poder separá-los é dever da família e do Estado respeitarem os direitos fundamentais das crianças e dos adolescentes, bem como as regras de proteção de dados, implementando medidas que possam acompanhar pari passu a evolução tecnológica cada vez mais rápida e prodigiosa, mas também temerária.

*Renata Carolina Troca Cabella é formada em Direito pelo Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas, com pós-graduação em Processo Civil pela Pontifícia Universidade de São Paulo, além do Contencioso em Escala. Tem competência em Direito do Consumidor, Litígios Civis e Redação Jurídica

https://febrabantech.febraban.org.br/especialista/renato-opice-blum/internet-of-toys-e-o-tratamento-de-dados-de-criancas-e-adolescentes

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Planejamento urbano, teorias da conspiração e a cidade de 15 minutos

A ideia virou tema de muitas teorias da conspiração. Mas é assim que as pessoas costumavam viver


Adele Peters – Fast Company Brasil – 15-03-2023 

Quando morava em Oakland, na Califórnia, costumava levar apenas cinco minutos para chegar na biblioteca local, na cafeteria e no restaurante de comida mexicana do bairro. Meu apartamento ficava a poucos quarteirões do dentista, de uma loja de ferramentas, de uma sapataria, de duas livrarias e de quatro supermercados.

Se andasse por mais alguns quarteirões, eu podia ir ao cinema ou tomar um trem para São Francisco. De vez em quando, pegava minha bicicleta e ia até um parque que ficava a menos de 10 minutos da minha casa. Sem dúvida, gastaria menos tempo se fosse de carro, mas era tão perto que não havia por quê.

planejadores urbanos vêm defendendo a “caminhabilidade” há décadas.

O conceito de “cidade de 15 minutos” – projetada para que tudo o que precisamos no nosso dia a dia esteja a uma curta distância a pé ou de bicicleta – não é nova. Em Paris, onde a prefeita Anne Hidalgo ajudou a popularizar a ideia, algumas partes já se encaixavam nessa definição. 

“Podemos ver exemplos disso em lugares onde a maior parte do desenvolvimento urbano aconteceu antes da guerra, antes da expansão em massa do uso de automóveis”, aponta a urbanista Mallory Baches, diretora de desenvolvimento estratégico da organização sem fins lucrativos Congress for the New Urbanism. 

Alguns planejadores urbanos vêm defendendo a “caminhabilidade” há décadas. Porém, a ideia de cidade de 15 minutos só ganhou força nos últimos anos, tanto como forma de reduzir a poluição causada pelos carros quanto para aumentar a qualidade de vida.

Por exemplo, no ano passado, a cidade de Cleveland, em Ohio, passou a adotar o conceito em sua estrutura de planejamento urbano.

Mas, à medida que mais cidades começaram a discutir o tema, surgem reações contrárias. No Reino Unido, o deputado do Partido Conservador Nick Fletcher chamou a ideia de “ um conceito socialista internacional” que “custará a nossa liberdade pessoal”.

Conspiracionistas alegam que os residentes da cidade de Oxford – que tem planos de adotar o conceito de cidade de 15 minutos e reduzir o tráfego em algumas estradas – ficariam presos em seus próprios bairros.

Esse tipo de argumento encontra apoio em falas como a do comentarista conservador Jordan Peterson, que afirmou que a ideia era “apenas mais uma moda passageira sequestrada por aspirantes a autoritários”.

Mas, na realidade, ela promove mais liberdade, não menos. Não é necessário ficar preso no trânsito apenas para fazer alguma coisa do dia a dia. Além disso, mais pessoas teriam a opção de ir a pé ou de bicicleta para o trabalho, ou de trabalhar em home office, para não precisar usar o carro.

Existem vários benefícios. Menos tempo gasto dirigindo ou procurando lugar para estacionar significa mais tempo livre para fazer coisas que você realmente gosta. Segundo um estudo recente, andar dois mil por dia passos pode fazer com que o risco de morte prematura caia de 8% a 11%. Caminhar reduz o estresse e deixa as pessoas mais felizes. Diminui o risco de diabetes e de doenças cardíacas.

Outro estudo mostra que quem que leva uma hora para chegar no trabalho precisa ganhar 40% a mais para ser tão feliz quanto alguém que tem a possibilidade de ir a pé. Além disso, a cidade de 15 minutos contribui para a socialização. E a lista de benefícios continua.

VELHOS HÁBITOS

Como o nome sugere, o conceito não é apenas sobre um bairro específico, mas sim sobre oferecer às pessoas da cidade inteira facilidade de acesso para o que precisam no dia a dia. Zonas de 15 minutos se estendem para além dos bairros e se sobrepõem. E, obviamente, nenhum residente precisa ficar preso à região onde mora.

a ideia de cidade de 15 minutos descreve o futuro das cidades.

Ainda assim, as pessoas tendem a rejeitar a ideia de mudanças na infraestrutura urbana que possam facilitar a caminhada e o ciclismo. Mesmo na cidade de Berkeley, na Califórnia, que é conhecida por ser bastante progressista, a construção de uma ciclovia encontrou forte resistência por parte de moradores que temiam perder vagas para estacionar seus carros.

Mas as pessoas esquecem que o planejamento urbano impositivo foi o responsável por criar a dependência de carros, afastando áreas residenciais do comércio, construindo ruas largas para favorecer o tráfego e diminuindo, ou mesmo, eliminando as calçadas.

Mesmo que a expressão “cidade de 15 minutos” seja esquecida, a ideia não morrerá. Como Baches diz, “a ideia de cidade de 15 minutos descreve o futuro das cidades.”


SOBRE A AUTORA

Adele Peters é redatora da Fast Company. Ela se concentra em fazer reportagens para solucionar alguns dos maiores problemas do mundo

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Escuro, abafado e rende milhões: saiba como são os submarinos que levam drogas para a Europa

De Pablo Escobar a submarino fantasma, tática é utilizada há mais de 20 anos por narcotraficantes em todo o mundo

Por Letícia Messias – O Globo – 15/03/2023 

Quase duas toneladas de cocaína e três homens foram encontrados pelas autoridades dentro do submarino Quase duas toneladas de cocaína e três homens foram encontrados pelas autoridades dentro do submarino Divulgação/Exército da Guatemala

Uma mancha no mar foi o suficiente para chamar a atenção das embarcações que navegavam próximo a ilha de Arousa, na Espanha, nesta segunda-feira. A suspeita de que havia algo errado fez com que as autoridades espanholas encontrassem um narcossubmarino vazio no local. Somado ao submarino “fantasma” achado à deriva nas águas colombianas, a descoberta fez com que subisse para dois o número de navios utilizados para o tráfico de drogas apreendidos nesta semana.

Os episódios recentes chamam a atenção para uma tática pouco falada, mas utilizada há mais de 20 anos por narcotraficantes em todo o mundo, sendo o colombiano Pablo Escobar (1949-1993) o pioneiro. Entre os casos mais famosos, no entanto, está a saga do primeiro submarino do tráfico apreendido na Europa, em 2019, que saiu da fronteira do Brasil com a Colômbia.

No dia 25 de outubro daquele ano, Agustín Álvarez embarcou em um voo que o levaria de Madri ao Brasil — e que terminaria com a sua prisão. Na época aos 29 anos e com diversos títulos de navegação conquistados na Espanha, onde nasceu, ele se considerava apto para realizar uma missão quase impossível: atravessar da América à Europa em um submarino de 21 metros com 3 mil quilos de cocaína a bordo.

Ao lado de dois equatorianos, o percurso de 9 mil quilômetros foi feito com cerca de 20 mil litros de combustível. Como recompensa, os três tinham a promessa de receber U$ 100 mil (cerca de R$ 408 mil à época). Eles passaram 26 dias em uma embarcação que podia submergir até dois metros de profundidade, mas sofreram problemas técnicos ao longo do caminho. O primeiro veio no décimo dia: os dois tubos que saem da popa e servem para injetar ar no motor quebraram.

De acordo com relatos feitos pelos traficantes na prisão, o ar passou a ser “irrespirável”. Para contornar a falha, eles tiveram que abrir a escotilha durante algumas horas do dia para ter ventilação. Também perderam uma bolsa com alimentos e água que a embarcação levava e tiveram o depósito de óleo rompido, o que bastou para impregnar toda a área, inclusive os pacotes de cocaína.

— Foi quando eles decidiram abandonar e afundar o submarino, lá na Espanha. Em um primeiro momento eles pensaram que poderiam voltar para recuperar a droga, mas foram capturados — disse ao GLOBO o professor de engenharia naval da Universidade de São Paulo (USP) Gustavo Assi. — A sorte deles foi que o problema ocorreu quando estavam na costa. Se isso acontece no meio do Atlântico já era, não tem resgate.

‘É como entrar em uma bomba’

Quando Álvarez foi preso, as autoridades espanholas falavam em uma “operação histórica”. Isso porque a descoberta, feita em 24 de novembro daquele ano, representava um marco: era o primeiro narcossubmarino encontrado na Europa que vinha do outro lado do Oceano Atlântico — o que não significa, porém, que tenha sido o primeiro a tentar realizar o tráfico de drogas com um navio submerso.

Até onde se sabe, Pablo Escobar já contava com dois exemplares em sua frota marinha na década de 1990. Segundo Assi, a época também coincide com o aparecimento de submarinos semelhantes, quando criminosos passaram a usar os cascos de embarcações de alta velocidade e os tampavam com uma capa de fibra de vidro. Assim, faziam com que fosse possível afundar um pouco a embarcação na água.

— Mas obviamente o objetivo desses barcos é enviar a maior quantidade possível de droga, e não a segurança da tripulação — ressaltou.

Submarinos do tráfico

Submarino que atravessou o Atlântico foi encontrado abandonado na costa espanhola — Foto: Reprodução

O professor explicou que essas navegações duram algumas semanas e, por isso, a tripulação varia de duas a três pessoas, que alteram os turnos entre si. Elas dividem um espaço escuro, fechado, sem janela e ventilação. É, segundo ele, como uma cabine de carro, sem espaço para se levantar e circular. Durante os dias em que passam no submarino, é nesse ambiente que devem comer e fazer necessidades fisiológicas.

— A droga fica disposta de forma que haja um corredor central para que a pessoa possa se deitar — explicou. — Mas a cabine é minúscula e o calor é imenso, porque o motor, que geralmente é a diesel, é separado da tripulação por uma parede sem isolamento acústico ou térmico. Então, é como uma missão suicida porque o risco é altíssimo. A pessoa entra em uma bomba que corre o risco de explodir.

‘Evolução da engenharia’

As construções dos submarinos utilizados por traficantes são, em grande parte das vezes, feitas em “condições obscuras”, como em oficinas escondidas ou no meio da mata, segundo Assi. Na maior parte das vezes, os navios conseguem ficar submersos em até dois metros de profundidade, de modo que é possível garantir, ao menos por um tempo, a camuflagem.

— Mas depois é preciso subir até a superfície para trocar o ar da cabine. Esse é o momento vulnerável do submarino — disse. Agora, porém, eles estão ficando cada vez mais refinados. Alguns deles já são afilados, com camuflagem e um conhecimento avançado de como trabalhar o motor, além de serem silenciosos. Há uma evolução da engenharia de construção desses submarinos.

https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/03/escuro-abafado-e-rende-milhoes-saiba-como-sao-os-submarinos-que-levam-drogas-para-a-europa.ghtml

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Bioeconomia pode gerar US$ 284 bi em negócios até 2050

Ações conjuntas entre setores da indústria tem potencial para reverter perdas provocadas pelo desmatamento

Por Mônica Magnavita — Para o Valor, 13/03/2023

A bioeconomia, considerada uma das vertentes para o desenvolvimento sustentável na Amazônia, e que prioriza a produção de baixo carbono, pode gerar faturamento industrial adicional de US$ 284 bilhões por ano, até 2050. As estimativas da Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI) levam em conta uma série de ações conjuntas nas quais o agronegócio e os setores de alimentação, farmacêutico, de cosméticos e de genética assumem protagonismo.

“Se conseguirmos zerar o desmatamento ilegal, dá para inverter a economia da Amazônia em menos de dez anos. É possível dar valor à bioeconomia rapidamente”, afirma o cientista climático Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), citando potencial de geração de US$ 50 bilhões na região, em uma década. As projeções por trás dos números refletem experiências em curso, comprovando que o valor de sistemas agroflorestais é superior ao da substituição de florestas por pastagens. Atividades desenvolvidas por cooperativas, como a da C.A.M.T.A, em Tomé-Açu, no Pará, produtora de mais de uma centena de produtos, obtêm rentabilidade de cerca de US$ 1 mil por hectare por ano. Já o retorno com a criação de gado na região gira em torno de US$ 100,00 por hectare por ano.

Os dados, citados por Nobre, um dos principais estudiosos da Floresta Amazônica, dão uma pista do potencial dos investimentos em bioeconomia. Segundo o pesquisador, há duas décadas, a indústria do açaí gerava, por ano, US$ 50 milhões em vendas. Hoje, já atingiu US$ 1,2 bilhão na Amazônia e US$ 15 bilhões no mundo.

“Quando se desenvolve produtos da nova economia há mercado internacional para eles”, diz Nobre, que dirige a Amazon Third Way Initiative/Projeto Amazônia 4.0, que tem entre suas metas a criação de um instituto de tecnologia na região, nos moldes do americano Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), com investimentos de US$ 1 bilhão destinados a formar milhares de estudantes em bioeconomia.

Mas, para levar adiante tais projetos será preciso diminuir os riscos dos investimentos privados, o que demandará, a seu ver, uma ação fundamental: o combate rigoroso ao crime na região, refletido, sobretudo, no desmatamento e no garimpo. “Investidores internacionais ainda não levam a sério as políticas adotadas para conter a ilegalidade na Amazônia. Combater o crime é um desafio para todos nós”, afirma Nobre.

O cientista participou de um debate ao lado do governador do Pará, Helder Barbalho (MDB-PA), sobre bioeconomia durante o Fórum Ambição 2030, realizado pelo Pacto Global da ONU no Brasil. O evento marcou, neste início de março, um ano do lançamento de sua estratégia em torno da Agenda 2030, conjunto de metas e ações para enfrentar mudanças climáticas. O Pará, um dos maiores emissores de gases de efeito-estufa no país devido a desmatamento e mudanças no uso do solo, quer deixar no passado essa triste posição e adotar novo modelo econômico, de baixo carbono.

A meta é atingir em 15 anos status de carbono neutro e, para tanto, o governo elaborou um Plano de Estadual de Bioeconomia. O Pará, aliás, tem boas chances para se tornar a sede da COP30, em 2025, decisão que será conhecida em maio, segundo Barbalho, cuja equipe distribuiu chocolates para a plateia, entre eles o de cupuaçu, premiado recentemente em Londres por sua qualidade e seu sabor.

“Isso demonstra que é possível construir uma economia sustentável na Amazônia. Precisamos investir em ciência, tecnologia e inovação, precisamos conhecer o que possuímos e a partir daí desdobrar com a iniciativa privada todas as oportunidades que isso pode gerar”, diz o governador. Uma das iniciativas nessa direção é o projeto de lançamento de um bioparque, idealizado para ser referência de conhecimento.

Estudo recente coordenado pelo TNC, Natura e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) estimou em US$ R$ 30 bilhões a receita para o Pará até 2040 com bioeconomia. O potencial previsto para exportação de 43 produtos compatíveis com a floresta chega a US$ 120 bilhões.

Outra estatística relevante diz respeito ao aumento da renda na região a partir das atividades produtivas desenvolvidas pelas cooperativas. Estudo do professor Francisco Costa mostra que parte da população que trocou a pecuária pela produção de açaí e produtos agroflorestais saltou da chamada classe E para a classe C, conforme classificação do IBGE. “Isso, mesmo sendo a maioria dos produtos primários, ainda não industrializados. As poucas cooperativas na Amazônia conseguiram melhorar a vida da população”, diz Nobre. O Brasil detém entre 10% e 15% da biodiversidade mundial que, somada aos conhecimentos tradicionais da Amazônia, abre portas para o desenvolvimento da bioeconomia na região.

https://valor.globo.com/publicacoes/suplementos/noticia/2023/03/13/bioeconomia-pode-gerar-us-284-bi-em-negocios-ate-2050.ghtml

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Como a China está virando a principal exportadora de veículos do mundo?

À medida que as marcas de automóveis do país conquistam cada vez mais clientes estrangeiros, o país está prestes a se tornar o segundo maior exportador mundial de veículos de passageiros

Tom Hancock – Exame – 16 de fevereiro de 2023 

“Ele chama muito a atenção, em parte devido à cor, em parte porque as pessoas não sabem o que é”, diz Tatt, que esperou quatro meses para que o veículo fosse enviado de Luqiao, no leste da China. “Tinha algumas preocupações de que a qualidade de fabricação pudesse não ser a melhor”, diz ele. “Após o teste de direção, todas as outras dúvidas foram eliminadas.”

À medida que as marcas de automóveis da China conquistam cada vez mais clientes estrangeiros como Tatt, o país está prestes a se tornar o segundo maior exportador mundial de veículos de passageiros, um marco que pode remodelar a indústria automobilística global e desencadear novas tensões com parceiros comerciais e rivais.

As vendas internacionais de carros fabricados na China triplicaram desde 2020, atingindo mais de 2,5 milhões no ano passado, segundo dados da Associação de Carros de Passageiros da China. Isso é muito pouco (cerca de 60.000 unidades) atrás da Alemanha, cujas exportações caíram nos últimos anos. Os números da China, atrás do Japão, mas à frente dos Estados Unidos e da Coreia do Sul, anunciam o surgimento de um formidável rival para os estabelecidos gigantes automobilísticos.

As marcas chinesas são agora líderes de mercado no Oriente Médio e na América Latina. Na Europa, os veículos vendidos fabricados na China são principalmente modelos elétricos da Tesla e antigas marcas europeias de propriedade chinesa, como Volvo e MG, e marcas europeias, como Dacia Spring ou BMW iX3, produzidas exclusivamente na China. Uma série de marcas locais, como BYD e Nio, também está em ascensão, com ambições de dominar o mundo dos veículos de nova energia. Apoiada pela ­Berkshire Hathaway Inc., de Warren
Buffett, a BYD já está encantando os compradores de veículos elétricos em países desenvolvidos, como a Austrália.

É apenas o começo, de acordo com Xu Haidong, vice-engenheiro-chefe da Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis, apoiada pelo governo chinês. A meta é vender 8 milhões de veículos de passageiros no exterior até 2030 — mais do que o dobro das vendas atuais do Japão, diz ele.

– (Arte/Exame)

A tendência ressalta que a China deixou de ser a “fábrica mundial” de aparelhos eletrônicos, eletrodomésticos e brinquedos de Natal de baixo custo. Ao mudarem para produtos mais complexos e sofisticados para mercados competitivos e altamente regulamentados, as empresas chinesas estão escalando a cadeia de valor da produção — um fator-chave do crescimento que transformou a outrora batalhadora economia comunista no rolo compressor quase capitalista de 18 trilhões de dólares de hoje. De fato, o Índice de Complexidade Econômica organizado pelo Laboratório de Crescimento da Universidade Harvard, que analisa a gama de produtos que um país exporta, classifica a China em 17o lugar no mundo, um aumento em relação ao 24o lugar há uma década.

“Temos de mantê-los na tela do radar, sem contar os suspeitos de sempre”, disse o CEO do Mercedes-Benz Group AG, Ola Källenius, durante o Paris Motor Show em outubro. “A intensidade competitiva está aumentando. É a época mais divertida para trabalhar no setor automotivo desde 1886” — o ano em que Carl Benz, o pai do automóvel, lançou o primeiro carro movido a gasolina — “mas também é a época mais incerta”.

O aumento nas exportações de carros passou despercebido nos Estados Unidos, em parte porque aconteceu durante a pandemia de covid-19 e em parte porque as montadoras chinesas estão focadas principalmente na Europa, na Ásia e na América Latina. A General Motors vendeu cerca de 40.000 de seus SUVs compactos Buick Envision, fabricados na China, nos Estados Unidos em 2021, mas as tensões políticas, a prevalência das tarifas da era Trump e os subsídios destinados a aumentar a produção doméstica de veículos elétricos diminuíram o apelo desse mercado.

A entrada na Europa havia ­muito era uma meta para as empresas chinesas, que começaram a expor em salões de automóveis no continente no início dos anos 2000. Uma série de malsucedidos testes de segurança por volta de 2007 frustrou essas esperanças. “Francamente, pensei que isso seria para sempre”, diz Jochen Siebert, da JSC Automotive, empresa de consultoria automotiva em Singapura.

Mas, graças ao aumento da automação e à resultante padronização — o Grupo Goldman Sachs diz que as novas fábricas de automóveis na China têm os níveis mais altos de uso de robôs do mundo —, essas preocupações agora já não existem mais. À medida que a qualidade melhorou na última década, os carros chineses começaram a se sair bem nos testes europeus de segurança. As rígidas restrições da China à poluição do ar também ajudaram a maioria de seus carros a atender aos padrões europeus de emissões.

“Para enfrentar os chineses, teremos de ter comparáveis estruturas de custo”, afirmou o CEO da Stellantis, Carlos Tavares, em 19 de dezembro, falando a repórteres em uma fábrica de trens de força em Tremery, no norte da França. “Como alternativa, a Europa terá de decidir fechar as suas fronteiras, pelo menos parcialmente, aos rivais chineses. Se a Europa não quiser se colocar nessa posição, precisaremos trabalhar mais na competitividade do que já fazemos.”

Em um ano divisor de águas para os carros fabricados na China, as exportações para a União Europeia aumentaram 156% em 2021, para 435.000 unidades, segundo a Eurostat. Mas o rápido aumento nas remessas de VEs do país corre o risco de provocar uma reação política na União Europeia, de acordo com Agatha Kratz, diretora do Grupo Rhodium. “Parte disso é apenas porque as empresas chinesas estão melhorando, mas parte disso é excesso de capacidade na China”, diz ela. “Isso vai ser um ponto de atrito. Isso poderia gerar uma reação muito forte na Europa em termos de proteções comerciais.”

O Polestar, carro de preço premium que Tatt comprou, é uma exceção: a China tende a exportar carros relativamente baratos. Cerca de 13.700 dólares, o preço médio de um veículo de passageiros fabricado na China e exportado foi cerca de um terço do valor do carro alemão em 2021 e cerca de 30% menor do que um japonês, de acordo com dados fornecidos pela Comtrade, da ONU. Isso significa que é mais provável que os carros chineses representem uma ameaça para os modelos japoneses e sul-coreanos mais baratos do que para as marcas alemãs.

As autoridades em Pequim não estão muito preocupadas, pelo menos por enquanto. “Está provado que a força da indústria automobilística de um país será finalmente testada pelo mercado internacional”, diz Gao Yang, diretor de investimentos estrangeiros do Ministério do Comércio. Ele acrescentou que o governo incentivará as montadoras chinesas a adquirir empresas estrangeiras.

Tendo demonstrado que é um confiável centro de fabricação para as principais empresas do setor, a China lidera o ataque na próxima fronteira: veículos elétricos. As montadoras locais acharam a plataforma elétrica relativamente fácil de dominar em comparação ao complexo motor de combustão interna.

“A mudança para a bateria significa que o motor não é mais um diferencial”, diz Alexander Klose, vice-presidente executivo de operações no exterior da Aiways Automobiles, fabricante de veículos elétricos puramente chinesa, que já vendeu vários milhares de veículos na Europa. Tecnologicamente, “criou-se um nivelado campo de jogo”, diz ele.

Um esforço global para reduzir as emissões de carbono e salvar o planeta levou Pequim a encorajar fabricantes e compradores de veículos elétricos com subsídios, enquanto uma robusta cadeia local de suprimentos tornou mais barato fabricar um veículo elétrico na China do que em qualquer outro lugar. A fábrica da Tesla em Xangai produziu quase 711.000 carros no ano passado e respondeu por 52% da produção mundial da empresa. As medidas também geraram dezenas de fabricantes nacionais, como a Aiways. Muitos mal conseguiram, mas BYD, Nio e XPeng estão entre os destaques com potencial para brilhar no cenário global.

– (Arte/Exame)

A BYD, que também fabrica suas próprias baterias e chips, é a maior fabricante de veículos elétricos no país. Tem ambições de se tornar a Toyota dos EVs para o maior comprador mundial, e está apostando que suas próprias células e semicondutores a ajudarão a atingir esse objetivo.

A maior concorrente da Tesla provavelmente será uma empresa chinesa, disse o CEO, Elon Musk, em uma teleconferência com analistas após os resultados trimestrais da fabricante de veículos elétricos.

Questionado sobre as empresas automobilísticas chinesas, Musk disse que elas “trabalham mais arduamente e trabalham de maneira mais inteligente”, descrevendo-as como as mais competitivas do mundo. “Se eu fosse dar um palpite”, disse ele, “provavelmente alguma empresa fora da China seria a mais provável para ficar atrás da Tesla”.

“Não estamos escondendo o fato de que somos chineses, e os europeus estão lentamente se acostumando com o fato de que os produtos da China são de alta qualidade”, diz Alan Visser, diretor global da Lynk, uma marca de veículos elétricos da Geely,­ que diz ter mais de 180.000 usuários registrados na Europa para seus serviços de aluguel. A Geely disse que suas exportações totais foram de 190.000 veículos em 2022, e a meta é de 600.000 por ano até 2025.

Desde a venda de apenas alguns milhares de carros em meados da década de 1980, as montadoras chinesas percorreram um longo caminho. Até 2018, quando a Tesla foi autorizada a ser a única dona de sua fábrica na China, as montadoras estrangeiras tinham de formar parcerias com empresas locais para fabricar na China. Enquanto empresas estrangeiras guardavam sua tecnologia mais avançada, os players locais tornaram-se competitivos aprendendo processos com seus parceiros e por meio de aquisições de marcas como Volvo e Lotus. Um ritmo acelerado de crescimento na demanda doméstica fez da China o maior mercado automotivo do mundo em 2009.

Em 2018, as vendas domésticas caíram pela primeira vez em quase três décadas, enquanto os veículos fabricados localmente estavam se tornando competitivos nos mercados internacionais.

“As montadoras chinesas viram isso e disseram: ‘Este período de rápida expansão está chegando ao fim’. E muitas delas disseram: ‘Vamos tentar outros mercados’”, diz Stephen Dyer, diretor administrativo da consultora AlixPartners em Xangai e executivo da Ford.

O crescimento da cadeia de suprimentos na China também acompanhou a fabricação de automóveis. As empresas nacionais agora fabricam quase todas as peças, inclusive aquelas que importavam até cerca de uma década atrás, como aço de alta resistência e fibra de vidro reforçada. Como resultado, a China teve um superávit comercial em veículos e peças de veículos pela primeira vez em 2021. No entanto, as linhas de montagem ainda dependem de máquinas avançadas do Japão e da Alemanha.

“Parece que houve uma mudança radical”, diz Dyer. “A tendência de longo prazo é aumentar as vendas de marcas chinesas em todo o mundo.”

(Com Chunying Zhang, Selina Xu, Craig Trudell, Albertina ­Torsoli e Wilfried Eckl-Dorna.)

https://exame.com/revista-exame/a-montadora-do-mundo/

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SXSW – Robôs não vão superar pessoas, diz cofundador da OpenAI

Em festival de inovação, Greg Brockman, líder da dona do ChatGPT, diz que foco da empresa é o ‘bem para a Humanidade’

Por André Miranda e Luiza Baptista — Austin, EUA – O Globo 12/03/2023 

Greg Brockman, líder da OpenAI, fala no SXSW, nos EUA: empresa virou o centro das atenções com ChatGPT

Greg Brockman, líder da OpenAI, fala no SXSW, nos EUA: empresa virou o centro das atenções com ChatGPT Jordan Vonderhaar

A fila para acessar um auditório de dois mil lugares no quarto andar do Centro de Convenções de Austin, no Texas, era tão grande que chegou a invadir o terceiro. No palco, a estrela era Greg Brockman, um homem tranquilo mas de fala rápida, na faixa dos 30 anos, cujo nome ainda é pouquíssimo conhecido no mundo, mas cuja empresa cofundada e presidida por ele virou uma sensação desde o fim do ano passado. O grande assunto do primeiro dia do maior festival de inovação do mundo, o South by Southwest (SXSW), foi a OpenAI e suas ferramentas de inteligência artificial, sobretudo o ChatGPT.

Brockman, contudo, deixou mais perguntas no ar do que ofereceu respostas. Numa apresentação mediada pela jornalista Laurie Segall, ele saiu pela tangente quando o assunto foi regulação e desemprego pela automação.

Insistiu que o desejo da OpenAI é fazer o “bem para a Humanidade”, mas admitiu que houve casos de desinformação na plataforma. E afirmou que os robôs não tomarão decisões melhor do que as pessoas.

A OpenAI foi fundada em 2015, mas passou a ser conhecida mesmo em novembro de 2022, quando tornou público o ChatGPT, um sistema de inteligência artificial que responde a qualquer tipo de pergunta de seus usuários e se aperfeiçoa constantemente.

O ChatGPT pode desde explicar para um aluno do ensino médio quem foi Darwin numa linguagem simples, quanto pode criar em segundos os códigos para um profissional de animação fazer um filme sobre a teoria da evolução das espécies. Rapidamente, passou a ser usado por estudantes, publicitários, artistas, advogados, médicos, jornalistas e qualquer outra profissão que exija conhecimento específico e raciocínio.

— Minha mulher teve uma doença misteriosa, foi a vários médicos ao longo de três meses até descobrir o que era. Aí eu fiz um teste no ChatGPT, sinalizando os sintomas e perguntando o que poderia ser. Ele deu algumas opções, a segunda era a correta — disse Brockman. — Mas isso não quer dizer que eu quero substituir os médicos. A inteligência artificial serve para te dar sugestões, ela oferece ideias para que as pessoas tomem suas decisões.

Aportes bilionários

A OpenAi já recebeu investimentos de bilionários da indústria da tecnologia, como Elon Musk, Reid Hoffman (cofundador do Linkedin) e Peter Thiel (cofundador do Paypal).

Recentemente fechou um contrato de bilhões de dólares com a Microsoft, que está incorporando a tecnologia do ChatGPT em seu buscador, o Bing. A empresa também é criadora do DALL-E, ferramenta lançada em 2021, para a geração de imagens por inteligência artificial.

— Eu sinto que nossa missão é ser benéfica para a Humanidade, por isso surgimos como uma empresa sem fins lucrativos. Mas, para ter o impacto que gostaríamos, precisamos de mais e melhores computadores. Foi preciso levantar recursos e não é fácil para uma empresa sem fins lucrativos conseguir centenas de milhões de dólares. Daí somos uma empresa estranha, sem fins lucrativos, mas com um braço que pode trazer lucro para seus investidores e acionistas — explicou Brockman.

No início da apresentação, a jornalista Laurie Segall perguntou quem na plateia utilizava o ChatGPT, e mais da metade levantou a mão imediatamente — a sensação é que o restante ou estava cansado ou era blasé demais para se mexer.

Brockman disse ter consciência do sucesso da plataforma e de quanto isso cria pressão sobre a responsabilidade por possíveis erros.

— Em 2015, nós percebemos que essa tecnologia de inteligência artificial era alcançável. Ainda demorou quase uma década para estarmos onde estamos hoje, mas tínhamos um sentimento de que iria acontecer. Hoje, as pessoas percebem que não é ficção científica — disse Brockman. — Mas sabemos que precisamos ser cuidadosos. Não é porque o ChatGPT diz que uma coisa é verdade que ela é verdade. Isso não serve para humanos, e também não deve servir para a inteligência artificial.

Sobre algumas das críticas e dos temores em torno do ChatGPT, Brockman manteve o mesmo discurso apaziguador de quem jura querer fazer o bem. Assim, tratou de regulação e de automação da mão de obra:

— Estamos bem engajados a conversar com os legisladores sobre regular a inteligência artificial, mas não temos todas as respostas. Há um debate acontecendo agora, estamos construindo um novo tipo de internet — afirmou, antes de ser perguntado se a tecnologia vai tirar empregos. — Sim, vai. A questão é quais empregos. Robôs tiram o trabalho manual de algumas pessoas. Mas os humanos são muito mais capazes de fazer coisas que as máquinas. O ChatGPT não está aqui me entrevistando. Ele não tem a capacidade de fazer julgamentos que você tem.

‘Sistema igualitário’

Outra crítica comum trata dos casos de erros cometidos pela ferramenta. Brockman explicou que o ChatGPT considera várias fontes de informação e que estão trabalhando para aperfeiçoar a plataforma. E disse acreditar que, no futuro, ele vai ajudar o jornalismo a combater notícias falsas.

— Queríamos que um sistema fosse igualitário e tratasse todos os sites convencionais igualmente, mas acho que as pessoas estavam certas em nos criticar — admitiu, ressaltando que é possível utilizar sua tecnologia para combater desinformação. — Eu acho que a tecnologia não tem sido simpática de várias formas ao jornalismo. E acho que a IA pode ser bastante útil para o jornalismo.

https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2023/03/robos-nao-vao-superar-pessoas-diz-cofundador-da-openai.ghtml

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Ninguém avisou. Agora, é tarde demais para parar o TikTok

O algoritmo de recomendação do TikTok está sendo replicado por outras plataformas, colocando-nos em universos individuais, feitos por mãos invisíveis


Mark Wilson – Fast Company – 11-03-2023 

Uma mulher de leggings e botas Ugg posa para uma selfie. Uma jovem anda por uma varanda vestindo uma blusa com estampa de oncinha. Uma poltrona reclinável de couro se estende por uma confortável sala de estar. São algumas das imagens que aparecem em um feed de produtos à venda.

Esta é a nova seção “Inspire” do aplicativo da Amazon. Com lançamento previsto para este ano, é a resposta da empresa ao TikTok: um feed personalizado e com curadoria automática de vídeos de usuários, todos com links para compra. Apesar de ter pouco interesse nos produtos, confesso que me senti atraído.

Nos primeiros anos da internet, cada página, ícone ou conteúdo era meticulosamente projetado e mais ou menos estático, mas muita coisa mudou de lá para cá. Hoje, o que vemos online é cada vez mais criado em tempo real e adaptado para cada usuário.

A internet não é mais a mesma. Ela está cada vez mais automatizada e diferente para cada pessoa.

Os produtos que aparecem na página inicial da Amazon mudam de acordo com os hábitos de compra de cada consumidor. As músicas na lista de reprodução do Spotify são recomendadas a partir do que você ouviu e curtiu recentemente.

Mas o TikTok levou essa ideia ainda mais longe com seu feed. A mistura excêntrica, confusa e cativante de vídeos curtos é otimizada a partir de cada toque na tela, pausa e visualização. O resultado é uma espécie de canal de TV a cabo personalizado, refletindo seus (supostos) gostos.

Agora, as principais plataformas de tecnologia estão correndo para adaptar seus produtos. Serviços como Instagram, YouTube e até Amazon copiaram o design do TikTok e passaram a ter seus próprios feeds de vídeo. Isso representa uma mudança na internet como um todo. Ela está cada vez mais automatizada – e diferente para cada pessoa.

INTERNET QUÂNTICA

Este é um fenômeno que Mark Rolston e Jared Ficklin, respectivamente fundador e sócio da empresa de design com foco em tecnologia Argodesign, apelidaram de “internet quântica”. O nome vem de pesquisas no campo da física quântica, que demonstram que os átomos apenas se comportam como partículas ou ondas quando são observados.

A internet agora é alimentada por um código de computador autônomo que gera, sob demanda, muitas das coisas que vemos. O conteúdo, em outras palavras, existe apenas para o indivíduo que o observa. “Quando olhamos para esse processo [quântico]”, diz Rolston, “[o software] se torna muito diferente… você nunca tem certeza do que pode aparecer.”

Ou seja, não estamos mais na mesma página. Literalmente.

A segmentação e personalização de conteúdo na internet, na verdade, começaram bem antes de o TikTok virar febre em 2018. Em 2007, o Facebook alterou o feed cronológico para priorizar postagens com base em seu algoritmo.

Uma década depois, a Netflix passou a recomendar filmes e séries de acordo com os “gostos” dos usuários, inclusive personalizando a arte do thumbnail para atrair os espectadores. Em 2018, mais de 70% do conteúdo assistido no YouTube foi recomendado por um algoritmo.

Hoje, milhões de pessoas usam as mesmas plataformas,

as plataformas se tornaram muito eficientes em criar feeds que prendem os usuários, através da curadoria de conteúdo.

mas ninguém recebe o mesmo conteúdo. O que vemos é moldado por nossos hábitos – também conhecidos como dados pessoais, filtrados com base nas metas das empresas por trás dessas plataformas. Nossas preferências e interesses acabam tendo pouca influência nisso.

Na última década, essas empresas nos convenceram, de forma bastante habilidosa, de que o monitoramento de nossos hábitos e gostos serve para tornar a vida mais fácil.

“A internet permitiu que as empresas começassem a coletar dados pessoais, combiná-los em conjuntos e [fazer] inferências sobre nós”, explica Sarah Myers West, diretora administrativa do AI Now Institute da Universidade de Nova York, que estuda as consequências sociais da inteligência artificial.

NÃO EXISTE MÍDIA SOCIAL GRÁTIS

Impulsionadas pelo rápido acúmulo de dados, pelo crescente poder computacional da nuvem e pelo constante aprimoramento da ciência da computação, as plataformas se tornaram extremamente eficientes em criar feeds que prendem os usuários, através da curadoria de produtos e conteúdos.

Mas é claro que nada disso é de graça. “Essas empresas estão otimizando coisas que lhes permitem ganhar dinheiro – sua atenção, vontade de clicar em um anúncio e intenção de efetuar uma compra”, afirma West.

as empresas não revelam como seus algoritmos operam, o que torna quase impossível medir seu impacto total.

Já vimos as consequências disso: bolhas de informação. Apesar de divertidas e, ao que parece, inofensivas, elas podem levar a pensamentos e comportamentos autodestrutivos, radicalização e até genocídio. Mas estamos apenas começando a lidar com seus efeitos.

As empresas de rede social estão sob investigação de legisladores por seu potencial de divulgar desinformação e conteúdo manipulador. Em janeiro, o distrito escolar de Seattle entrou com um processo inédito contra o TikTok, Instagram, Facebook, YouTube e Snapchat, acusando as empresas de direcionar crianças a conteúdos viciantes que causam depressão, ansiedade e incentiva o cyberbullying.

Um dos maiores obstáculos para qualquer tipo de regulamentação é a natureza efêmera desses feeds individualizados. Além disso, as empresas não revelam como seus algoritmos operam, o que torna quase impossível medir seu impacto total.

A curadoria automatizada foi ganhando espaço e hoje está em todos os lugares. E, surpreendentemente, tudo isso aconteceu em um momento no qual o conteúdo ainda é produzido por pessoas.

Crédito: Ibrahim Rayintakath

No ano passado, tivemos uma prévia do que está por vir. Plataformas de IA generativa, como Dall-E, Midjourney e Stable Diffusion, foram lançadas para o grande público e revelaram o quão habilidosas são em produzir imagens detalhadas, fantásticas e convincentes, a partir de apenas algumas palavras.

No final de 2022, quando a OpenAI revelou o ChatGPT, um chatbot que é capaz de fazer pesquisas e escrever artigos, poemas, roteiros e piadas, ficou claro que dentro de alguns anos os algoritmos poderiam muito bem se tornar não só os curadores, mas também os criadores das postagens em nossos feeds.

A curadoria automatizada foi ganhando espaço e hoje está em todos os lugares.

Em novembro do ano passado, o Museu de Arte Moderna de Nova York recebeu a exposição Unsupervised, uma instalação do artista de dados Refik Anadol, que inclui uma tela gigante capaz de gerar uma nova obra de arte 30 vezes por segundo. Seu sistema de IA aprendeu a criá-las a partir das mais de 100 mil peças do acervo do museu.

No entanto, ele não foi alimentado com descrições, títulos ou informações sobre as obras. O resultado é uma animação inspiradora e em constante mudança gerada a partir do pensamento da inteligência artificial.

“É o que acontece quando você não adiciona o viés humano”, observa Anadol. Antes que se possa processar o que está vendo, a máquina já criou uma nova imagem. É como uma corrida sem linha de chegada.

Agora, imagine um feed superalimentado por IA generativa para cada uma das oito bilhões de pessoas na Terra. A cultura pop já se aventurou por esse tema em filmes como “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, “Homem-Aranha no Aranhaverso” e “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo”. Passamos a tentar compreender o infinito desde que os algoritmos começaram a explorá-lo.

IAs DRIBLANDO ALGORITMOS?

No mundo real, esse fenômeno provavelmente resultará em um multiverso de banalidades: seu feed pode acabar se tornando um poço sem fim de episódios de “House Hunters” ou de “The Office” gerados por IA, com milhares de temporadas, enquanto o meu me mostra uma infinidade de dancinhas protagonizadas por influenciadores artificiais com aparência extraterrestre.

Apesar de divertidas, as bolhas de informação podem levar a comportamentos autodestrutivos, radicalização e até genocídio.

Por outro lado, a IA generativa também pode criar terrenos perigosos, com os algoritmos buscando maneiras cada vez mais inovadoras de contornar a moderação de conteúdo. Assim como os humanos aprenderam a driblar a política de não-violência do YouTube postando vídeos com altos teores de crueldade, mas que ainda respeitam as diretrizes da plataforma, a IA pode automatizar esses esforços.

“Teremos vídeos de pessoas se agredindo fisicamente, porém, sem sangue. Ou talvez o sangue não seja vermelho, seja verde”, diz Jeff Allen, ex-cientista de dados da equipe de integridade do Facebook que cofundou o Integrity Institute para abordar os males das redes sociais. “Essa [estratégia] se aplica a todos os campos, como desinformação. Quantas mentiras a IA pode produzir antes que sejam tomadas atitudes?”

Uma coisa é certa: enquanto as grandes empresas estiverem pagando por todo esse machine learning – e lucrando com o engajamento dos usuários – o futuro será moldado por seus objetivos. E, nesse multiverso, a criatividade infinita dos algoritmos pode acabar servindo apenas para vender mais um produto.

A humanidade está prestes a vislumbrar o infinito. Mas, talvez, tudo o que encontremos lá seja um par de botas Ugg.


SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos

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DNA empreendedor: pode o perfil genético influenciar a decisão de empreender?

A literatura em empreendedorismo aponta diversos fatores, que vão desde o gosto pelo risco até o anseio por uma atividade profissional menos rotineira

Por Leandro S. Pongeluppe* – Exame – 15 de fevereiro de 2023

O que leva alguém a ser empreendedor(a)? A literatura em gestão e empreendedorismo aponta diversos fatores, que vão desde o gosto pelo risco associado à atividade empreendedora, o desejo de tentar algo novo ou até mesmo o anseio por uma atividade profissional menos rotineira. Em um estudo publicado no periódico Management Science em 2008, Nicos Nicolaou, Scott Shane, Lynn Cherkas, Janice Hunkin, e Tim Spector testaram algo differente, o perfil genético como fator direcionador do empreendedorismo.

Em avaliação de impacto, entendemos a importância de criarmos um grupo contrafactual, ou grupo de controle, para a comparação do que naturalmente aconteceria caso um determinado projeto não existisse. Os autores utilizaram essa lógica em seu estudo. Para testar se características genéticas influenciariam no desenvolvimento de empreendedores, os autores utilizaram o contrafactual mais comum na natureza, gêmeos idênticos.

Nicolaou e seus co-autores compararam as taxas de empreendedorismo entre gêmeos monozigóticos (ou seja, gêmeos idênticos) com as taxas de empreendedorismo entre gêmeos dizigóticos (ou seja, gêmeos intra-uterinos). Note que isso permite aos autores controlarem o teste por uma série de fatores como idade, laços familiares, experiências de vida, dentre outros. Ademais, a comparação entre mono e dizigóticos permitiu isolar apenas o fator genético, dado que gêmeos idênticos compartilham exatamente o mesmo DNA, enquanto gêmeos intra-uterinos possuem DNA até 50% diferente entre si.

Os resultados deste experimento natural mostram que fatores genéticos determinam sim uma maior propensão à atividade empreendedora. Ou seja, não apenas fatores externos do ambiente determinam a escolha profissional das pessoas, mas também fatores genéticos podem influenciar esta decisão, como no caso da escolha de empreender em um novo negócio.

*Leandro S. Pongeluppe é professor assistente da Wharton School, University of Pennsylvania. Especialista em avaliação de impacto socioambiental, Leandro é Ph.D. pelo departamento de gestão estratégica da Rotman School of Management, University of Toronto. Seus principais interesses de pesquisa são compreender como a gestão de organizações pode contribuir com o avanço dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU.

https://exame.com/colunistas/impacto-social/dna-empreendedor-pode-o-perfil-genetico-influenciar-a-decisao-de-empreender/

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Mundo vive transformação sem volta para economia verde, diz especialista em sustentabilidade

Jeremy Oppenheim, que fez palestra no Fórum Ambição 2030, promovido pelo Pacto Global no Brasil, afirma que estamos em momento de inflexão semelhante ao das mudanças digitais nos anos 1990

Por Andrea Vialli* — O Globo – 09/03/2023 

Jeremy Oppenheim diz que atualmente há mais investimento em energia limpa do que em combustíveis fósseis Jeremy Oppenheim diz que atualmente há mais investimento em energia limpa do que em combustíveis fósseis Carol Carquejeiro/Valor

A economia global chegou a um ponto de inflexão: ou se move na direção de um modelo de negócios baseado na baixa emissão de carbono, com matriz energética limpa e restaurando a biodiversidade, ou não vai conseguir lidar com desafios como o aumento da pobreza, as pressões inflacionárias e a crise climática. O momento de transformação é semelhante ao vivido na década de 1990, com a ascensão da economia digital impulsionada pelo acesso à internet: em 20 anos, as atividades e setores econômicos ligados à economia verde serão mainstream, enquanto as atividades mais poluidoras cairão na obsolescência.

Essa é a visão do economista britânico Jeremy Oppenheim, CEO e sócio fundador da consultoria Systemiq, especializada em inovação sistêmica em sustentabilidade e um dos principais palestrantes do Fórum Ambição 2030, realizado pelo Pacto Global no Brasil em parceria com a coalizão Aya Earth Partners, em São Paulo, na terça-feira. Oppenheim, que visita regularmente o Brasil desde 1998, quando trabalhava para o Banco Mundial e hoje atua na estruturação de cadeias produtivas sustentáveis na Amazônia, vê o momento como único.

“O Brasil tem todos os pré-requisitos para estar no cerne dessa nova economia emergente, com sua combinação de florestas, matriz energética com alto percentual de fontes renováveis e capital humano”, diz.

Qual sua visão sobre o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e da Agenda 2030? Quais são as metas que mais avançaram e quais as que têm progresso mais lento?

Fizemos progressos, mas também tivemos retrocessos importantes nos últimos anos. Se olharmos para os indicadores relacionados a direitos humanos, paz, justiça e democracia, como o ODS 16, não podemos ser ingênuos: a guerra entre Rússia e Ucrânia abalou todo o progresso, e ainda houve perdas da integridade da democracia em muitos países, inclusive no Brasil, que sobreviveu a ataques antidemocráticos às instituições.

Entre os indicadores ligados à dimensão social, temos um cenário muito semelhante no curto prazo, especialmente nos últimos três anos, quando retrocedemos em razão da pandemia, da alta nos preços dos alimentos e da energia em razão da guerra. A pobreza aumentou e há mais pessoas sofrendo de fome crônica, o que criou um cenário muito desafiador. Mas há pontos positivos na área de direitos humanos, com o aumento da informação e da conscientização que a tecnologia e as mídias sociais proporcionam, inclusive denunciando cadeias produtivas problemáticas. Entre os indicadores ambientais, é fácil pintar um cenário sombrio, mas quero trazer um certo otimismo.

Onde é possível ser otimista?

No conjunto de indicadores relacionados ao meio ambiente. Por um lado, os riscos são cada vez maiores. Continuamos a emitir gases de efeito-estufa de forma cumulativa na atmosfera, o desmatamento cresce, continuamos a despejar poluentes químicos e plásticos nos oceanos e no meio ambiente de forma acentuada e estamos perdendo áreas ricas em biodiversidade. Por outro lado, o setor de energia limpa recebe mais investimentos do que os combustíveis fósseis. Vejo essa mudança acontecendo em todos os lugares, até mesmo nos países do Oriente Médio, que têm apostado fortemente em ser um hub da economia de energia verde, com energia solar e hidrogênio obtido de fontes renováveis. Vemos países, empresas e investidores reconhecerem que precisam mudar, isso não acontecerá da noite para o dia porque é um sistema que já dura centenas de anos, mas já está acontecendo.

Os fluxos de capital estão se voltando para essa economia?

Está acontecendo. E é negócio, não é mais só responsabilidade social corporativa ou ESG. Hoje, quem está se ocupando da agenda são os CEOs, os diretores financeiros, diretores de estratégia, pois o assunto tomou uma dimensão estratégica. Isso é uma mudança real e está presente em múltiplos segmentos econômicos: sistemas de produção de alimentos, mercado imobiliário, transportes, energia, bioenergia.

Para onde quer que você olhe, é possível ver que a sustentabilidade está tomando outra proporção. CEOs e investidores sabem que precisam criar novos modelos de negócios, com um uso mais eficiente dos recursos naturais, não apenas fazer greenwashing. Há ainda um contexto geopolítico, pois países como Estados Unidos, China e os da União Europeia agora concorrem para ver quem coloca mais recursos nas atividades ligadas à economia verde e indústrias limpas. É um processo de reindustrialização em novas bases.

Fala-se muito no Brasil como um dos países-chave para a economia do futuro, baseada no baixo carbono e na valorização da biodiversidade. No entanto, nossas emissões de gases de efeito-estufa cresceram 12% em 2021, principalmente por causa do desmatamento. O que é preciso para corrigir a rota?

A maior parte do desmatamento é impulsionada por atividades ilegais, seja para conversão de terras para fins agrícolas ou garimpo. Primeiro, é preciso reconstruir as capacidades de fiscalização do Estado e aplicar as leis ambientais. O governo anterior [de Jair Bolsonaro] fechou os olhos e até encorajou as atividades ilegais na Amazônia, e isso levou a recordes no desmatamento, e isso precisa parar. Além disso, são necessários investimentos para aumentar a produtividade da agropecuária, pois não faz sentido ter um ou dois bois por hectare. Mas para avançar temos que tornar mais economicamente viável manter a floresta em pé do que derrubada.

Fazer com que as pessoas que vivem nas bordas da floresta não queiram desmatar, e colocar os incentivos no lugar certo. É preciso criar ativos financeiros a partir dos serviços que a natureza presta, e remunerar as comunidades por esses serviços, e também investir fortemente na educação, especialmente nas vertentes ligadas à tecnologia, para que as pessoas possam ter a opção de permanecer onde vivem e empreender a partir de uma nova visão da economia da floresta.

Como passar do modelo linear de exploração dos recursos naturais para uma abordagem sistêmica?Primeiro, é preciso tornar os negócios da economia limpa, circular e regenerativa mais atraentes. Isso se faz retirando os incentivos ruins, como os subsídios aos combustíveis fósseis e às indústrias lineares e poluentes. Mas é preciso ter em mente que a economia já está em transformação e, em 20 a 25 anos, no máximo, ela será outra. Vejo um paralelo com o que ocorreu com a economia digital nos anos 1990. Estamos exatamente no ponto de inflexão da nova economia.

Quais são os paralelos entre a ascensão da economia da internet e a economia verde?

Um dos paralelos é o aprendizado exponencial que as duas vertentes proporcionam. As sementes da revolução digital deram frutos, de modo que ela se tornou mainstream na década de 2010 e hoje as empresas mais valiosas são do setor de tecnologia da informação. O meio do caminho foi por volta de 2005, quando os smartphones começaram a se popularizar, a era do iPhone veio em seguida, as mídias sociais explodiram e hoje moldam comportamentos.

No que tange à economia verde, em 2023 estamos exatamente nesse meio do caminho, nesse ponto de inflexão. A aceleração desse potencial virá, pois há forças regulatórias e também de mercado levando a esse caminho. Tal como na economia digital, havia os críticos, que diziam que aquilo tudo não passava de uma “bolha da internet”. Hoje existe essa reação, especialmente de políticos e empresários conservadores em relação ao ESG, mas o caminho é sem volta.

https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2023/03/mundo-vive-transformacao-sem-volta-para-economia-verde-diz-especialista-em-sustentabilidade.ghtml

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Golpes usam IA para simular vozes de entes queridos e roubar dinheiro

Por Felipe Demartini | Editado por Claudio Yuge | Canaltech 08 de Março de 2023 

Imagine receber uma chamada de emergência de um familiar ou cônjuge, pedindo ajuda financeira após um acidente ou problema com a lei, apenas para perceber, bem depois, se tratar de um robô. A alternativa parece saída diretamente de um filme, mas é bem real, com criminosos utilizando inteligência artificial para simular vozes conhecidas e aplicar golpes.

A evolução da tecnologia levou a uma explosão das chamadas “fraudes do impostor”. De acordo com números da Comissão Federal de Comércio (FTC, na sigla em inglês), esse foi o crime digital mais comum nos EUA em 2022, com mais de 36 mil casos registrados ao longo do ano. A prática também trouxe o segundo maior prejuízo aos cidadãos, com mais de US$ 11 milhões perdidos, cerca de R$ 56 milhões.

Uma reportagem do jornal americano The Washington Post demonstrou casos em que a IA foi absolutamente convincente. Em um deles, um casal de idosos perdeu mais de US$ 15 mil, aproximadamente R$ 77 mil, após a falsificação da voz do próprio filho, que estaria sendo acusado de matar um diplomata americano após um acidente de carro. O contato envolveu indivíduos reais, se passando por advogados e policiais, além da tecnologia, com a transferência acontecendo a partir de um caixa eletrônico de criptomoedas.

As situações também começam a chamar a atenção dos bancos. Foi o que impediu um casal de idosos no Canadá de transferir mais de US$ 2,2 mil, ou cerca de R$ 10 mil, após terem o neto supostamente preso e solicitando o pagamento de fiança. O gerente da instituição usada para o saque notou o problema e alertou aos dois sobre o golpe, que já havia sido sofrido por outro cliente na mesma semana.

Mesmo criminosos com pouco conhecimento tecnológico seriam capazes de realizar fraudes desse tipo. Softwares de geração de modelos de voz estão disponíveis ao público e custam pouco, com valores de assinatura a partir de US$ 5 (aproximadamente R$ 25) de acordo com a quantidade de falas geradas; o céu é o limite, assim como as opções de tom, volume, níveis e outros ajustes que tornam a simulação mais realista.

Enquanto softwares de simulação de voz por IA se tornam mais precisos, dados em redes sociais e sites de conteúdo são o que não faltam; também não existem regulamentações sobre o uso dessa tecnologia (Imagem: Gerd Altmann/Pixabay)

Enquanto isso, obter amostras se torna cada vez mais fácil. Meros stories no Instagram ou mensagens de áudio no WhatsApp podem ser usadas para treinar modelos de simulação de voz por inteligência artificial, e a quantidade de informações só aumenta caso a vítima tenha um podcast, canal na Twitch ou goste de publicar vídeos no YouTube e outras redes sociais.

Celebridades, claro, são um alvo usual, mas os cidadãos comuns se tornam cada vez mais o centro da mira, justamente, pela maior possibilidade de ganhos. A fidelidade dos modelos criados é alta, enquanto mesmo indivíduos com conhecimento desse tipo de fraude e da própria tecnologia podem acabar caindo pela tensão de um contato de emergência altamente realista.

Há como se proteger de golpes com IAs que simulam vozes?

Ao falar sobre o aumento dos casos, as próprias autoridades americanas admitem que eles ainda são difíceis de rastrear. As chamadas se originam de diferentes lugares do mundo, enquanto a preferência por criptomoedas faz com que os fundos transferidos sejam rapidamente pulverizados. Além disso, há uma dificuldade técnica, principalmente de forças policiais locais, em lidar com as fraudes altamente tecnológicas.

Enquanto isso, segundo a FTC, a conscientização é o melhor caminho. No Brasil, a dinâmica do crime via inteligência artificial se assemelha à dos velhos golpes do falso sequestro, com a abordagem dos cidadãos, também, devendo ser parecida. É importante se certificar que o contato é legítimo e que o ente querido efetivamente está em perigo antes de ceder a pressões ou realizar transferências. Muitas vezes, basta uma ligação ou mensagem de texto para perceber a fraude.

A FTC possui guias de melhores práticas no uso de inteligência artificial e controle de recursos pelas empresas, com contatos constantes sobre os riscos e danos em potencial envolvidos no uso da tecnologia. Entretanto, não existem regulamentações jurídicas para a atuação de desenvolvedores desse tipo de solução, principalmente quanto à moderação de uso ou penalização caso os softwares sejam usados para fins mal-intencionados.

Fonte: The Washington Post https://www.washingtonpost.com/technology/2023/03/05/ai-voice-scam/

https://canaltech.com.br/seguranca/golpes-usam-ia-para-simular-vozes-de-entes-queridos-e-roubar-dinheiro-242442/

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