Como ter uma mente mais criativa? Veja o que dizem os especialistas

Por Guilherme Santiago – Estadão – 30/03/2023

Criatividade não é um dom, mas uma habilidade que pode ser praticada por qualquer um e trazer benefícios ao bem-estar; saiba como ‘treinar’ a mente para ser mais criativo

Criatividade é um conceito com diferentes significados. Para alguns, ser criativo significa ter ideias revolucionárias que solucionam problemas. Para outros, pode ser a capacidade de criar ou imaginar algo nunca visto antes. Seja qual for a definição que mais faz sentido para você, fato é que o exercício da criatividade é um importante aliado do bem-estar.

Diferente do que estudiosos do tema já chegaram a acreditar, a criatividade não é um presente divino ou dom. Trata-se, na verdade, de uma habilidade, que pode ser praticada, aprimorada e desenvolvida por qualquer pessoa. “Acreditar que a criatividade é um dom pressupõe um predomínio de aspectos meramente biológicos”, diz Patrícia Schelini, psicóloga e docente da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). “Mas hoje sabemos que o meio e as condições também são importantes para o despertar criativo.”

Para a especialista, ao pensar ‘fora da caixa’, fica mais fácil encontrar caminhos para resolver dificuldades do cotidiano. Uma mente criativa é capaz de descobrir novas maneiras de enfrentar questões familiares, de superar dificuldades de relacionamento e até mesmo de desenvolver aspectos da vida profissional. Tudo isso, conforme explica a psicóloga, corrobora para uma maior sensação de bem-estar. “Muitas vezes não conseguimos solucionar problemas copiando algo que já foi feito. É necessário pensar de uma forma diferente”, explica Patricia.

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Retiro para mentes criativas

O ambiente foi fundamental para a escritora Thais Gurgel, que potencializou suas habilidades criativas durante um retiro. O objetivo era viver uma experiência em sua própria companhia, porém, quando conheceu o retiro A Arte de Viver – inspirado no livro O Caminho do Artista, de Julia Cameron –, percebeu que além de um momento de autocuidado essa vivência também traria benefícios para sua vida profissional.

“Foi o primeiro retiro que eu fiz. Lendo a descrição, achei a minha cara”, diz. “Era um fim de semana em contato com a natureza e com várias atividades que ajudariam a despertar a criatividade. Como sou escritora, achei que ia me ajudar bastante. E de fato ajudou”, conta ela, que mergulhou nessa experiência em setembro de 2021.

As atividades incluíam pintura, desenho, música, dança, escrita, fotografia, aromaterapia e rodas de conversa. Todas realizadas com o objetivo de despertar o potencial criativo de cada pessoa. E o resultado foi bastante positivo. “Eu sinto que o retiro foi importante para eu poder descansar e ter trocas com outras pessoas, o que, com certeza, me ajudou a escrever com mais leveza e ter melhores ideias”, explica.

Como a ciência explica a criatividade?

Ter ideias criativas pode ser resultado de um ambiente favorável, como no caso da escritora Thaís, de aspectos da personalidade e até mesmo de certas habilidades cognitivas. No entanto, é comum para todas essas situações o aparecimento de uma cascata de eventos na mente, que é responsável por impulsionar a criatividade.

“Os estudos mais recentes mostram que existem duas redes neurais envolvidas no processo criativo”, diz Antônio Jaeger, doutor em psicologia e docente da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele explica que a criatividade é resultado da interação entre um área do cérebro chamada rede neural padrão com outra denominada córtex pré-frontal.

A rede neural padrão fica mais ativa em momentos que o cérebro está em repouso e menos focado no mundo exterior, mas continua em vigília. “Como quando estamos pensando de forma distraída no que fizemos mais cedo, no que vamos fazer mais tarde, no que vamos jantar e em várias outras memórias”, descreve. Já o córtex pré-frontal vai ser responsável por filtrar essas ideias, como uma central de controle. “Ele vai ser o juiz, vai mediar e julgar os pensamentos que fazem sentido ou não.”

Esse é o processo de ter novas ideais. “E fazemos isso com frequência, é uma função humana bastante comum”, afirma o especialista. “A diferença é que, quando acertamos em cheio e temos uma ideia considerada inovadora, chamamos de criatividade. Mas a verdade é que estamos tendo novas ideias o tempo inteiro.”

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Mentes criativas em qualquer idade

Ter ideias criativas fez parte da rotina do publicitário aposentado Appio Ribeiro por mais de duas décadas. Para continuar exercendo essa habilidade, ele decidiu inscrever-se no curso ‘Criativa Idade’, realizado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP), com coordenação e idealização da professora Jane Barreto.

A proposta do curso é mostrar que idade não é fator limitante para mentes criativas. Por meio de atividades envolvendo músicas, jogos eletrônicos, oficinas de teatro e fotografia, os participantes – todos com mais de 60 anos – podem desenvolver novas competências e habilidades. E foi isso que chamou a atenção de Appio, que garante os benefícios de poder continuar exercendo sua criatividade.

“Eu sou um cara muito irrequieto, não consigo ficar muito tempo fazendo a mesma coisa”, revela. “Por isso que o curso fez tão bem para mim”, diz. “Acredito que uma mente criativa é o que faz a pessoa não envelhecer. E eu quero continuar aprendendo e fazendo diferente daquilo que já fiz. E pude fazer tudo isso no curso Criativa Idade.”

Para Jane, estar há 8 anos liderando a iniciativa é uma oportunidade para testemunhar a mudança em seus alunos, que acabam levando a criatividade para vida cotidiana. “Percebo a mudança de olhar, de pensamento e atitudes”, diz. “Eles passam a olhar com outras lentes para si mesmo, para o outro e para o mundo através da aula de fotografia e colocam-se diante do outro com maior segurança a partir das aula de teatro”, explica.

Como ser mais criativo?

Assim como para escritora Thaís e o publicitário Appio, exercer a criatividade pode trazer muitos benefícios e existem caminhos para ‘treinar’ a mente para que ela seja mais criativa. De acordo com Marta Simone, coach pela Sociedade Brasileira de Coaching e especialista em criatividade, o primeiro passo para despertar o potencial criativo está nas ações do cotidiano. “É quase como uma escolha por um estilo de vida mais criativo”, diz. “Escolher realizar atividades do dia a dia de um modo diferente ou não convencional é importante para exercitar a criatividade.”

Tente caminhos diferentes para chegar ao trabalho, comece a olhar os objetos e pensar em outras utilidades para eles e imagine como resolveria situações hipotéticas. “E se não houvesse mais cadeiras no mundo? Como seria?”, sugere.

Feitos com consciência e consistência, esses exercícios podem tornar a mente mais criativa. É quase como uma preparação para que, em determinadas situações, fique mais fácil de encontrar soluções criativas para resolução de problemas ou conflitos.

Resgatar o espírito de criança também pode ajudar. Segundo a especialista, mesmo na vida adulta, é importante separar um momento para brincar – pode ser por meio de atividades esportivas sem competições ou jogos, como os de tabuleiro, de imaginação e de cartas. “Essas atividades lúdicas trabalham áreas do cérebro que a gente não trabalha por achar que ser adulto é ser uma pessoa séria”, diz. “Mas a gente esquece que brincar também é coisa séria e essencial para a criatividade”, pondera.

Junto com o resgate do lúdico, é importante deixar de lado o medo do julgamento – assim como fazem as crianças, mesmo que de forma inconsciente. “Ao longo da vida, criamos barreiras para a criatividade que as crianças não têm. E o medo do olhar do outro é uma delas”, afirma. “Por isso é importante evitar os julgamentos e deixar de lado o medo do que vão pensar. Ninguém nunca criou nada criativo sem errar antes. Não tem criatividade sem erro”, diz.

Até mesmo os momentos de ócio podem ser importantes para potencializar as habilidades criativas. Quando não fazemos nada, é possível relaxar a mente para que novas ideias surjam. A especialista explica que uma mente cansada e em um ambiente de cobranças tem menores chances de ter ideias criativas. Exemplo disso é que muitas pessoas costumam ter boas ideias durante o banho.

Dentre outras atividades realizadas no retiro, Thais Gurgel apostou na pintura para explorar suas habilidades criativas

Dentre outras atividades realizadas no retiro, Thais Gurgel apostou na pintura para explorar suas habilidades criativas Foto: Deise Carvalho

Coloque a criatividade em prática

  • Livre-se de julgamentos. Para uma mente mais criativa, é importante deixar de lado qualquer receio com possíveis julgamentos. Aceitar todo tipo de pensamento faz parte do processo de ter boas ideias – assim como nas sessões de brainstorming, que são comuns ao ambiente dos negócios.
  • Aposte em brincadeiras. É comum acreditar que a brincadeira é uma atividade restrita à infância. No entanto, elas podem ser bastante positivas para a criatividade. Nesses momentos, é possível exercitar o raciocínio lógico, a memória e outras habilidades cognitivas importantes para ser criativo.
  • Use a imaginação. Exercícios de imaginação podem ser poderosos para a criatividade, além de simples de serem executados. Imagine como você resolveria problemas hipotéticos, pense em novas utilidades para determinados objetos, crie situações e tente imaginar sua experiência com elas.
  • Mude a rotina. Rotinas bem definidas podem ser importantes para algumas pessoas. Porém, se o objetivo for expandir as habilidades criativas, pode ser interessante fugir dos padrões em certas ocasiões. Tente fazer outros caminhos para o trabalho, saia da zona de conforto e busque por novos desafios.
  • Anote tudo. Nem sempre nossa mente consegue armazenar todas as novas ideias – até mesmo porque novas ideias surgem o tempo todo. Por isso, ter um bloco de notas sempre por perto pode ser importante para que nenhuma ideia se perca. As maiores inspirações e as ideias mais criativas podem aparecer quando menos se espera.
  • Busque inspiração. O bloqueio criativo pode acontecer com certa frequência. Para lidar com ele – e até mesmo evitá-lo – é importante ter boas inspirações. Pode ser por meio de músicas, livros, filmes, pinturas, peças de teatro ou qualquer outra coisa que te deixe inspirado. Um ambiente leve e agradável também pode ajudar nesse processo.
  • Seja curioso. A curiosidade é a chave para mentes mais criativas. É a partir dela que certos questionamentos aparecem, novas descobertas são feitas, outras informações são absorvidas e uma bagagem de ensinamentos é criada. Tudo isso pode ajudar a potencializar as habilidades criativas.

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O plano da Amazon para ganhar do ChatGPT e Google na corrida das IAs

A divisão de nuvem da gigante varejista aposta em inteligência artificial para engenharia de software. Se der certo, pode dominar um mercado corporativo que atualmente é pulverizado

André Lopes – Exame – 14 de abril de 2023 

Muito além de responder perguntas, gerar artigos e conceber fotos como a do Papa Francisco de jaqueta puffer branca, a inteligência artificial (IA) é o segredo para uma operação mais produtiva e barata para as empresas. E não é um assunto para o futuro. Segundo o World Economic Forum, 52% das atividades laborais serão destinadas às máquinas até 2025.

É sabendo disso que a Amazon tem redesenhado sua divisão de computação em nuvem para novas ofertas de IA. Na quinta-feira, 15, três novos anúncios evidenciaram que a empresa é mais uma gigante da tecnologia a tentar lucrar com a IA generativa, a tecnologia por trás do ChatGPT.

Mas diferente da OpenAI, a divisão Amazon Web Services (AWS) tem como alvo clientes corporativos, que terão em breve processadores personalizados que, segundo ela, podem executar software de IA de maneira mais eficiente e barata do que os concorrentes.

Já na seara de ferramentas, a empresa comandada por Adam Selipsky apresentou o Titan, um bot treinado em grandes quantidades de texto para resumir conteúdo, escrever rascunhos, ideais ou assumindo a função de responder perguntas em canais de atendimento.

Ele será disponibilizado em um serviço da AWS, chamado Bedrock, onde os desenvolvedores podem explorar modelos construídos por outras empresas que usam IA generativa, incluindo softwares como o AI21 Labs, Anthropic e Stability AI.

“Acreditamos que os clientes vão precisar de muitos modelos diferentes de IA generativa para diferentes propósitos, e é improvável que qualquer modelo atenda a todos os clientes ou mesmo a todas as necessidades de um cliente”, disse Adam Selipsky, CEO da AWS, em entrevista ao Wall Street Journal, no evento de lançamento dos novos produtos.

Outro recurso que a empresa está promovendo é o CodeWhisperer, que gera e corrige códigos de programação. Ele competirá diretamente com o GitHub Copilot da Microsoft, que usa IA generativa. Anteriormente, a Amazon havia disponibilizado o CodeWhisperer apenas para um pequeno número de usuários.

Concorrência

Do outro lado da disputa, a empresas validam suas apostas com o grande público, ajudando no corporativo, mas em trabalhos mais simples como editores de texto, buscadores e automatização de pequenas tarefas.

A Microsoft, por meio de uma parceria com a OpenAI, fabricante do ChatGPT, integrou a tecnologia de IA generativa em seu serviço de busca na Internet, o Bing, e planeja implantar essas ferramentas nos produtos da fabricante de software.

O Google, da Alphabet, está correndo para fazer movimentos semelhantes. A Meta lançou seu próprio modelo de linguagem ampla e disse que um trabalho semelhante se expandirá em toda a empresa.

Mas da Amazon, para o consumidor final, até o momento, só resta a velha, e não tão inteligente, Alexa.

André Lopes

Repórter Com quase uma década dedicada a cobertura de tecnologia, também foi repórter de cotidiano e ciências na Revista VEJA. Na Exame desde 2021, colaborou na coluna Visão Global e hoje atua nas edições especiais Melhores e Maiores e Exame CEO

https://exame.com/tecnologia/o-plano-da-amazon-para-ganhar-do-chatgpt-e-google-na-corrida-das-ias/

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Indústria de games abraça inteligência artificial apesar de medo

Ferramentas similares ao ChatGPT dominaram conferência de game nos EUA

Tiago Ribas – Folha – 7.abr.2023 

A indústria de games está animada com os avanços da inteligência artificial. Ferramentas e palestras sobre essa tecnologia foram destaque na GDC (Conferência de Desenvolvedores de Games) deste ano, realizada em San Francisco. Ainda assim, a simples junção das letras IA parecia invocar sentimento de medo em muitos dos participantes do evento.

Isso não acontece por falta de conhecimento, já que pelo menos desde os anos 1980 a indústria de games faz experimentos com a criação automatizada de conteúdos. No entanto, a popularização e o avanço tecnológico de ferramentas de IA generativa, como ChatGPT e Midjourney, funcionam como um catalisador da insegurança dos trabalhadores do setor. Em especial para aqueles que estão começando a carreira em um ambiente econômico já ruim, com as ondas frequentes de demissão em empresas de tecnologia.

Estande da plataforma de games chinesa Yahaha

Estande da plataforma de games chinesa Yahaha, que expôs na GDC ferramenta de inteligência artificial para ajudar usuários a criar conteúdo em seus jogos – Divulgação GDC

O medo transpareceu até em grandes lançamentos realizados na GDC. Ao revelar seu Ghostwriter, ferramenta que falas curtas de personagens secundários com inteligência artificial, a Ubisoft tomou o cuidado de destacar que o instrumento precisa de participação humana para revisar e selecionar as melhores linhas de diálogo. Segundo a empresa, a ferramenta não está substituindo os roteiristas, mas sim, os aliviando de uma de suas tarefas mais chatas e trabalhosas.

Na conferência, o cientista da equipe de pesquisa e desenvolvimento da Ubisoft e criador do Ghostwriter, Ben Swanson, afirmou que a ferramenta foi desenvolvida em conjunto com a equipe de roteiristas da empresa. Ainda assim, ele admitiu que muitos viram a novidade com desconfiança.

Fora da gigante de games francesa, houve mais críticas que elogios. “Esses textos secundários são o primeiro trabalho remunerado (e creditável) que muitos roteiristas conseguem no início da carreira”, afirmou Sam Winkler, roteirista sênior da Gearbox, que trabalhou em títulos como “Borderlands 3” e “Tiny Tina’s Wonderlands”, no Twitter. “Se você trata uma parte da sua história como chata, adivinha? Ela vai ser”, completou.

Alanah Pearce, roteirista que trabalhou em “God of War Ragnarök”, também usou a rede social para criticar a novidade da Ubisoft. “Ter que editar diálogos feitos por IA parece mais demorado do que escrever eu mesma. Preferiria que grandes estúdios usassem o orçamento de ferramentas como essa para contratar mais roteiristas”, escreveu.

A ferramenta da Ubisoft, no entanto, é apenas o início do que promete ser uma revolução na forma como os videogames são produzidos e jogados.

A startup californiana Inworld, por exemplo, expôs em seu estande na conferência uma ferramenta de inteligência artificial que faz NPCs (personagens não jogáveis) responderem em instantes a perguntas e comentários criados pelo jogador. Ela funciona de modo similar ao ChatGPT, mas seguindo parâmetros para o personagem estabelecidos pelo desenvolvedor. É possível ver a ferramenta em ação em um mod do jogo “Mount & Blade II: Bannerlord” e em vídeo do game “Origins“, em desenvolvimento pela própria Inworld.

O programa funciona bem na parte técnica, mas a qualidade dos diálogos (genéricos e repetitivos) e a voz sintetizada da inteligência artificial deixam a desejar e mostram que a tecnologia ainda está longe do alto padrão demandado dos games de primeira linha, os chamados “AAA”. Ainda assim, é um início.

Já a plataforma chinesa de criação de jogos Yahaha esteve presente na GDC mostrando como a IA pode facilitar o desenvolvimento de games, inclusive por amadores. Com o sistema levado pela empresa para a conferência era possível criar jogos em 3D sem saber praticamente nada sobre programação ou design. Bastava ao usuário descrever em forma de texto o que ele queria que a IA se encarregava de buscar e posicionar objetos, iluminação, animações etc.

Esse é um dos usos mais promissores para a inteligência artificial nos games, tanto que outras plataformas para criação de jogos, como Roblox e Unity, vêm desenvolvendo e experimentando ferramentas semelhantes.

Segundo Andrew Maximov, ex-diretor técnico de arte da Naughty Dog e fundador da Promethean AI, empresa que cria ferramentas de inteligência artificial, esse uso da tecnologia assusta trabalhadores que gastaram anos de vida e rios de dinheiro estudando e se especializando em programas para desenvolver games.

“Observando a complexidade da nossa indústria e a forma como os cursos e a indústria de softwares fazem você pensar que as ferramentas são tudo o que você precisa para a sua profissão, é muito fácil se perder na ideia de que as ferramentas são quem você é”, afirmou Maximov. “Mas isso não é verdade, assim como compor uma música não é a mesma coisa que saber tocar um instrumento.”

Em sua palestra sobre como a IA pode transformar a indústria de games, Maximov destacou mais a capacidade analítica dessas ferramentas –de entender, catalogar e disponibilizar recursos de um banco de dados, por exemplo– do que suas capacidades puramente generativas, sobre as quais ainda pairam questões éticas e legais.

Andrew Maximov fala durante sua palestra na GDC

Andrew Maximov durante sua palestra na GDC – Divulgação GDC

A legislação sobre registro de propriedade intelectual gerada por inteligência artificial não está consolidada. Maximov alertou também para os riscos de ferramentas que usam como matéria-prima imagens capturadas indiscriminadamente na internet plagiarem artistas e criarem figuras baseadas em material sob proteção de copyright.

“Se você quer ficar rico rapidamente, pegue um jogo que cria conteúdo gerado por usuários com uma dessas ferramentas, crie milhares de imagens, faça uma busca reversa até achar uma imagem que se pareça a alguma coisa que alguém já fez, procure o artista e convença-o a processar a empresa que fez o jogo”, afirmou Maximov. Ele é uma das testemunhas de acusação na ação movida por artistas contra as plataformas DreamUp, Midjourney e Stable Diffusion, que criam imagens por IA a partir de comandos de texto.

“Qualquer empresa de games que tenha algum tipo de controle sobre sua propriedade intelectual vai desencorajar o uso desse tipo de conteúdo até que todas as questões legais estejam resolvidas.”

Seja qual for o resultado das ações na Justiça e o avanço da tecnologia, não há dúvida de que o futuro do desenvolvimento de jogos estará ligado de alguma forma a ferramentas de inteligência artificial. Com isso, o maior risco não é perder o emprego para uma IA, mas sim, para alguém que saiba como trabalhar com ela.

O jornalista viajou a convite da Abragames (Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Eletrônicos)

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Vida na ‘velocidade 2x’: entenda quando a pressa vira patologia

Sensação de ganhar tempo ouvindo mensagens ou aulas aceleradas pode ser fantasiosa, além de criar problemas na comunicação

Melina Cardoso – Folha – 6.abr.2023 

Que atire o primeiro celular quem nunca deu aquela aceleradinha num áudio de Whatsapp para chegar logo no ponto da mensagem ou ganhar tempo para resolver outros pepinos do dia.

O analista de TI Daniel Costa, 43, é uma dessas pessoas. Ele sempre se considerou um cara tranquilo, mas a possibilidade de acelerar as mensagens ou assistir às aulas da faculdade e da pós —os quais cursa concomitantemente— fez com que percebesse uma agitação fora do normal.

O estudante Gustavo Margato, 18, é adepto da velocidade dois para áudios e vídeos – Folhapress

“Não consigo mais acompanhar vídeos em velocidade normal. Fico ansioso para chegar logo no ponto que preciso ouvir. Inclusive, se eu pudesse, aceleraria também algumas pessoas”, diz, referindo-se às “reuniões intermináveis com algumas pessoas mais lentas”.

Daniel reconhece, porém, que tanta pressa já o atrapalhou. “Precisei voltar alguns vídeos para ouvir novamente na velocidade normal. Acabei perdendo tempo”, ri.

“Eu acelero tudo que é possível. E com isso, acabo ficando cada vez mais acelerada. Inclusive, percebo que ao mandar áudio, eu já falo na velocidade dois”, conta a social media Ariel Komatsu Miranda, 36.

“Também não tenho paciência para ouvir os áudios e sempre avanço para ver se tem mais coisa. Já perdi muitas informações importantes porque pulei a mensagem”, confessa.

Ariel diz que essa pressa “além da conta” veio com a pandemia. “Acelerei demais e agora não consigo voltar”, diz a mãe de Rafaela, 10, Monique, 9, e Caio, 8.

Para a psicóloga Karina Theodoro, essa “pressa normalizada” em nossa sociedade pode ser um perigo. “Quando aceleramos uma mensagem, a fala pode mudar para um tom de raiva. Como isso entra na nossa cabeça? Quantas relações são quebradas por má interpretação?”, questiona.

“Do ponto de vista da psiquiatria, a aceleração é normal. A preocupação entra quando a pessoa sai desse contexto de correria —ao encerrar o dia de trabalho ou de estudos, ou quando sai de férias—, mas continua agitada”, explica Mário Rodrigues Louzã, coordenador do Programa Déficit de Atenção e Hiperatividade do Instituto de Psiquiatria do HC.

O estudante Gustavo Margato, 18, também é adepto da “velocidade 2x” para tudo. “Quando vejo aulas aceleradas, me forço a prestar mais atenção”, pontua.

A sensação de ganhar tempo ouvindo mensagens ou aulas na velocidade dois pode ser fantasiosa, diz Louzã. “A mente humana tem capacidade de processamento linear e suporta até uma velocidade. Quando as frases estão muito aceleradas não dá tempo para o cérebro concatenar o que está sendo dito. A pessoa aprende de forma misturada, confusa ou superficial”, pontua.

“A evolução humana não se dá na mesma velocidade da tecnologia. Temos que aceitar que temos limite”, finaliza o especialista.

https://www1.folha.uol.com.br/tv/2023/04/vida-na-velocidade-2x-entenda-quando-a-pressa-vira-patologia.shtml

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Sam Altman, pai do ChatGPT, não está preocupado com os perigos da inteligência artificial

Por Cade Metz –  Estadão/The New York Times – 10/04/2023 

Presidente executivo da OpenAI defende que ferramenta deve ser introduzida aos poucos para as pessoas

THE NEW YORK TIMES – Esbarrei com Sam Altman pela primeira vez em 2019, dias depois de a Microsoft concordar em investir US$ 1 bilhão em sua startup de três anos, a OpenAI. Por sugestão dele, jantamos num restaurante pequeno, sem dúvidas moderno e não muito distante de sua casa em São Francisco.

No meio da refeição, ele levantou seu iPhone para que eu pudesse ver o contrato que havia passado os últimos meses negociando com uma das maiores empresas de tecnologia do mundo. O documento dizia que o investimento de um bilhão de dólares da Microsoft ajudaria a OpenAI a construir o que foi chamado de inteligência artificial geral (AGI, na sigla em inglês), uma máquina que poderia fazer qualquer coisa que o cérebro humano fosse capaz.

Mais tarde, enquanto Altman tomava um vinho doce como sobremesa, ele comparou sua empresa ao Projeto Manhattan. Como se estivesse falando da previsão do tempo do dia seguinte, disse que a tentativa dos Estados Unidos de construir uma bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial foi um “projeto com a dimensão da OpenAI – o nível de ambição a que aspiramos”.

Ele acreditava que a AGI traria prosperidade e riqueza para o mundo como nunca havia sido visto. E também temia que as tecnologias em desenvolvimento por sua empresa pudessem causar sérios danos – espalhar desinformação, prejudicar o mercado de trabalho. Ou até mesmo destruir o mundo tal como conhecemos.

“Tento ser franco”, disse ele. “Estou fazendo algo bom? Ou muito ruim?”.

Em 2019, isso parecia ficção científica.

Em 2023, as pessoas estão começando a se perguntar se Altman era mais presciente do que imaginavam.

Agora que a OpenAI lançou um chatbot online chamado ChatGPT, qualquer pessoa com conexão à internet está a um clique de distância da tecnologia que responderá a dúvidas urgentes sobre química orgânica, escreverá um artigo de duas mil palavras a respeito de Marcel Proust e sua madeleine, ou criará um programa de computador que lança flocos de neve digitais em uma tela de laptop – tudo isso com uma habilidade que parece humana.

Sam Altman é acusado de imprudência

Conforme as pessoas percebem que essa tecnologia também é uma forma de espalhar mentiras ou até mesmo convencer as pessoas a fazer coisas que não deveriam, alguns críticos estão acusando Altman de imprudência.

Recentemente, mais de mil especialistas em IA e líderes da tecnologia pediram à OpenAI e a outras empresas que interrompessem seu trabalho em sistemas como o ChatGPT, dizendo que eles apresentam “grandes riscos para a sociedade e a humanidade”.

E, no entanto, quando as pessoas agem como se Altman quase tivesse concretizado sua visão de longa data, ele recua.

“A propaganda exagerada sobre esses sistemas – mesmo se tudo o que esperamos for certo no longo prazo – está totalmente fora de controle no curto prazo”, disse ele em uma tarde recente. Segundo Altman, há tempo para entender melhor como esses sistemas vão, no fim das contas, mudar o mundo.

Muitos líderes do setor, pesquisadores de IA e especialistas veem o ChatGPT como uma mudança tecnológica fundamental, tão significativa quanto a criação do navegador da web ou do iPhone. Mas poucos conseguem entrar em acordo quanto ao futuro dessa tecnologia.

Alguns acreditam que ela irá proporcionar uma utopia na qual todos têm todo o tempo e dinheiro necessários. Outros acreditam que ela poderia destruir a humanidade. Também há aqueles que gastam boa parte de seu tempo defendendo que a tecnologia nunca é tão poderosa como todos dizem ser, insistindo que nem o nirvana, nem o dia do juízo final estão tão próximos quanto pode parecer.

Altman, 37 anos, empresário com cara de garoto e esbelto, dos subúrbios de St. Louis, mostra-se tranquilo no meio disso tudo. Como CEO da OpenAI, ele de alguma forma personifica cada uma dessas visões aparentemente contraditórias, na esperança de equilibrar as inúmeras possibilidades à medida que faz avançar essa tecnologia estranha, poderosa e com falhas para o futuro.

Isso significa que ele é frequentemente criticado por todos os lados. Entretanto, aqueles mais próximos a ele acreditam que as coisas estão como deveriam ser. “Se você está incomodando igualmente ambos os lados, então você está fazendo algo certo”, disse o presidente da OpenAI, Greg Brockman.

Passar um tempo com Altman é entender que o Vale do Silício impulsionará essa tecnologia, apesar de não estar muito seguro de quais serão as implicações. Em um determinado momento durante o nosso jantar em 2019, ele parafraseou Robert Oppenheimer, líder do Projeto Manhattan, que acreditava que a bomba atômica era um avanço científico inevitável. “A tecnologia acontece porque é possível”, afirmou. (Altman chamou a atenção para o fato de que, por acaso, ele e Oppenheimer fazem aniversário no mesmo dia.)

Ele acredita que a IA vai surgir de uma forma ou de outra, fazer coisas maravilhosas que nem mesmo ele consegue imaginar e que podemos encontrar formas de amenizar os danos que ela possa causar.

É um ponto de vista que reflete a própria trajetória de Altman. Sua vida tem sido uma ascensão bastante constante em direção a uma maior prosperidade e riqueza, impulsionada por um conjunto eficaz de habilidades pessoais – sem falar de um pouco de sorte. Faz sentido que ele acredite que algo bom vai acontecer e não algo ruim.

Mas se ele estiver errado, há uma saída de emergência: em seus contratos com investidores como a Microsoft, o conselho da OpenAI se reserva o direito de acabar com a tecnologia a qualquer momento.

O pecuarista vegetariano

O alerta, enviado junto com com as instruções de como chegar até o destino, era “cuidado com as vacas”.

A casa de fim de semana de Altman é um rancho em Napa, na Califórnia, onde os fazendeiros cultivam uvas para vinho e criam gado.

Durante a semana, Altman e seu parceiro, Oliver Mulherin, um engenheiro de software australiano, dividem uma casa em Russian Hill, na região central de São Francisco. Mas quando chega sexta-feira, eles vão para o rancho, um lugar tranquilo entre as colinas rochosas e cobertas de relva. A casa construída há 25 anos foi reformada para ter uma aparência simples e contemporânea. O aço corten que cobre as paredes externas é oxidado de forma impecável.

À medida que você se aproxima da propriedade, as vacas vagam pelos campos verdes e pelas estradas de cascalho.

Altman é um homem que vive entre contradições, mesmo em seu refúgio: um vegetariano que cria gado de corte. Ele diz que o seu parceiro gosta deles.

Durante uma recente caminhada à tarde pelo rancho, paramos para descansar à beira de um pequeno lago. Observando a água, discutimos, mais uma vez, o futuro da IA.

Sua perspectiva não mudou muito desde 2019. Mas as palavras usadas por ele foram ainda mais ousadas.

Ele disse que sua empresa estava desenvolvendo tecnologia que “resolveria alguns dos nossos problemas mais urgentes, aumentaria de verdade o padrão de vida e também descobriria usos muito melhores para a vontade humana e a criatividade”.

Ele não estava exatamente seguro quanto aos problemas que ela iria resolver, mas argumentou que o ChatGPT mostrava os primeiros sinais do que é possível. Então, depois de dar um suspiro, disse temer que a mesma tecnologia pudesse causar sérios danos se acabasse nas mãos de algum governo autoritário.

Altman tende a descrever o futuro como se ele já existisse. E faz isso com um otimismo que parece descabido no mundo de hoje. Ao mesmo tempo, ele tem um jeito de concordar rapidamente com o outro lado da discussão.

Kelly Sims, sócia da empresa de capital de risco Thrive Capital, que trabalhou com Altman como consultora da diretoria da OpenAI, disse ter a sensação de que ele estava constantemente discutindo consigo mesmo.

Segundo ela, “em uma conversa, ele defende ao mesmo tempo dois pontos de vista”.

Origem no Vale do Silício

Ele é em grande parte um produto do Vale do Silício, que cresceu muito depressa e com entusiasmo em meados da década de 2010. Como presidente da Y Combinator, uma aceleradora de startups do Vale do Silício e investidora de startups em estágio inicial e semente, de 2014-19, ele assessorou um número incontável de novas empresas – e foi perspicaz para investir pessoalmente em várias que se tornaram marcas famosas, entre elas Airbnb, Reddit e Stripe. Ele se orgulha de reconhecer quando uma tecnologia está prestes a atingir um crescimento exponencial – e depois imaginar a curva no futuro.

No entanto, ele também é o produto de uma comunidade on-line estranha e extensa que começou a se preocupar, na mesma época em que Altman chegou ao Vale do Silício, que a IA um dia destruiria o mundo. Chamados de altruístas racionalistas ou eficazes, os integrantes desse movimento foram fundamentais para a criação da OpenAI.

A questão é saber se os dois lados de Altman são, no fim das contas, compatíveis: faz sentido trabalhar naquela curva se ela puder terminar em desastre? Altman está sem dúvidas decidido a ver como tudo vai se desenrolar.

Ele não é necessariamente motivado pelo dinheiro. Como muitas fortunas pessoais no Vale do Silício que estão vinculadas a uma ampla variedade de empresas de capital aberto e fechado, o patrimônio de Altman não está bem documentado. Mas, enquanto passeávamos por seu rancho, ele me disse, pela primeira vez, que não tem participações na OpenAI. O único dinheiro que pode ganhar com a empresa é um salário anual de cerca de US$ 65 mil – “independentemente do valor mínimo para o seguro saúde”, disse ele – e uma fatia irrisória de um antigo investimento na empresa pela Y Combinator.

Seu mentor de longa data, Paul Graham, fundador da Y Combinator, explicou a motivação de Altman assim: “Por que ele está trabalhando em algo que não o tornará mais rico? Uma resposta é que muitas pessoas fazem isso quando têm dinheiro suficiente, o que provavelmente é verdade no caso de Sam. A outra é que ele gosta do poder.”

É assim que Bill Gates deve ter sido

Georgeann Kepchar, ex-professor de Sam Altman

No final da década de 1990, a John Burroughs School, uma escola privada de ensino fundamental e médio batizada com o nome do naturalista e filósofo americano do século 19, convidou um consultor independente para observar e analisar a vida cotidiana em seu campus nos subúrbios de St.Louis.

O relatório do consultor incluiu uma crítica importante: o corpo discente estava repleto de homofobia.

No início dos anos 2000, Altman, um estudante de 17 anos da John Burroughs, começou a tentar mudar a cultura da escola, persuadindo individualmente os professores a afixar placas de “espaço seguro” nas portas de suas salas de aula como uma declaração em apoio aos estudantes gays como ele. Altman saiu do armário durante seu último ano na escola e disse que a St. Louis de sua adolescência não foi um lugar fácil para ser gay.

Georgeann Kepchar, que ministrou a disciplina de ciência da computação na escola, via Altman como um de seus alunos mais talentosos na matéria – e com um raro dom de encorajar as pessoas a seguir novos caminhos.

“Ele tinha criatividade e visão, combinadas com a ambição e a personalidade forte para convencer os outros a trabalhar com ele para colocar em prática suas ideias”, disse ela. Altman também me disse que havia pedido a um professor claramente homofóbico para afixar uma placa de “espaço seguro” só para trollar o cara.

Graham, que trabalhou ao lado de Altman durante uma década, via a mesma persuasão no homem de St.Louis.

“Ele tem um talento natural para convencer as pessoas a fazer as coisas”, disse Graham. “Se não é inato, é algo que foi completamente desenvolvido antes de ele fazer 20 anos. Conheci Sam quando ele tinha 19 anos, e lembro pensar naquela época: ‘Então é assim que Bill Gates deve ter sido’.”

Gates e o futuro CEO da OpenAI se conheceram em 2005, quando Altman se candidatou para uma vaga na primeira leva de startups a receber investimentos da Y Combinator. Ele conquistou a vaga – que incluía um aporte semente de US$ 10 mil – e depois de cursar seu segundo ano na Universidade Stanford, largou a faculdade para fundar sua nova empresa, a Loopt, uma startup de rede social que permita o compartilhamento da localização do usuário com amigos e familiares.

Hoje ele diz que, durante sua curta estadia em Stanford, aprendeu mais com as inúmeras noites que passou jogando pôquer do que com a maioria das demais atividades universitárias. Depois de seu primeiro ano na instituição, ele trabalhou no laboratório de IA e robótica supervisionado pelo professor Andrew Ng, que viria a fundar o principal laboratório de IA no Google. Contudo, o pôquer ensinou Altman a ler as pessoas e a avaliar os riscos.

Mostrou-lhe “como perceber padrões nas pessoas ao longo do tempo, como tomar decisões com informações não muito precisas, como decidir quando valia a pena o desconforto, de certa forma, para conseguir mais informações”, ele me disse enquanto passeávamos por seu rancho em Napa. “É um ótimo jogo.”

Depois de vender a Loopt com um lucro modesto, ele passou a integrar a Y Combinator como sócio em regime parcial. Três anos depois, Graham deixou o cargo de presidente da empresa e, para surpresa de muitos em todo o Vale do Silício, escolheu Altman, então com 28 anos, como sucessor.

Trajetória na Y Combinator

Altman não é um programador nem um engenheiro nem pesquisador de IA. Ele é a pessoa que define a agenda, reúne as equipes e fecha os acordos. Como presidente da Y Combinator, ele expandiu a empresa quase abandonada, criando um novo fundo de investimento e um novo laboratório de pesquisa, aumentando em centenas o número de instituições assessoradas a cada ano.

Ele também começou a trabalhar em diversos projetos fora da empresa de investimento, inclusive na OpenAI, que fundou como uma organização sem fins lucrativos em 2015 com um grupo que incluía Elon Musk. De acordo com o próprio Altman, a Y Combinator cresceu cada vez mais preocupada que o envolvimento dele em tantas atividades prejudicasse seu desempenho.

Altman decidiu voltar a focar num projeto que teria, como ele mesmo disse, um impacto real no mundo. Ele cogitou a política, mas escolheu a IA.

Altman acreditava, segundo seu irmão mais novo Max, que ele era uma das poucas pessoas que poderiam mudar de forma significativa o mundo por meio da pesquisa em IA, ao contrário de tantas outras que poderiam fazer isso por meio da política.

Em 2019, quando a pesquisa da OpenAI estava decolando, Altman assumiu as rédeas, pedindo demissão do cargo de presidente da Y Combinator para focar em uma empresa com menos de cem funcionários que não estava segura de como faria para pagar as contas.

Em um ano, ele transformou a OpenAI em uma organização sem fins lucrativos com um braço com fins lucrativos. Dessa forma, ele tinha a possibilidade de conseguir o capital necessário para construir uma máquina que pudesse fazer qualquer coisa que o cérebro humano fosse capaz.

Arrecadando ‘10 contos’

Em meados da década de 2010, Altman dividia um apartamento de três quartos e três banheiros em São Francisco com seu namorado na época, seus dois irmãos e as namoradas deles. Os irmãos deixaram de viver juntos em 2016, mas continuam reunidos num grupo de bate-papo, onde passam bastante tempo zoando uns aos outros, como só irmãos podem fazer, disse seu irmão Max. Então, um dia, Altman enviou uma mensagem dizendo que planejava levantar US$ 1 bilhão para a pesquisa de sua empresa.

Um ano depois, ele tinha conseguido fazer isso. Depois de dar de cara com Satya Nadella, CEO da Microsoft, em uma reunião anual de líderes de tecnologia em Sun Valley, Idaho – muitas vezes chamada de “acampamento de verão para bilionários” –, ele negociou pessoalmente um acordo com Nadella e o diretor de tecnologia da Microsoft, Kevin Scott.

Alguns anos depois, Altman enviou uma mensagem para seus irmãos novamente, dizendo que planejava conseguir mais US$ 10 bilhões – ou, como ele disse, “10 contos”. Em janeiro, ele conseguiu isso também, assinando outro contrato com a Microsoft.

Brockman, o presidente da OpenAI, disse que o talento de Altman está em entender o que as pessoas querem. “Ele realmente tenta encontrar o que mais importa para uma pessoa – e, depois, descobre como dar isso a ela”, disse Brockman. “Esse é o algoritmo que ele usa sem parar.”

O acordo colocou a OpenAI e a Microsoft no centro de um movimento que está prestes a criar uma nova versão de tudo, desde motores de busca a aplicativos de e-mail e tutores online. E tudo isso está acontecendo em um ritmo que surpreende até mesmo aqueles que acompanham essa tecnologia há décadas.

Em meio ao frenesi, Altman continua com a tranquilidade habitual – embora admita usar o ChatGPT para ajudá-lo a resumir rapidamente a avalanche de e-mails e documentos que chegam para ele.

Bill Gates, Steve Jobs e Mark Zuckerberg deixaram uma marca indelével na estrutura do setor de tecnologia e do mundo. Sam Altman vai ser uma dessas pessoas

Kevin Scott, diretor de tecnologia da Microsoft

Scott acredita que Altman acabará sendo estudado ao mesmo tempo que Gates, Steve Jobs e Mark Zuckerberg.

“Essas são pessoas que deixaram uma marca indelével na estrutura do setor de tecnologia e talvez na estrutura do mundo”, disse ele. “Acho que Sam vai ser uma dessas pessoas.”

O problema é que, ao contrário dos dias em que a Apple, a Microsoft e a Meta estavam começando, as pessoas estão bem conscientes de como a tecnologia pode transformar o mundo – e como ela pode ser perigosa.

O homem do meio

Em março, Altman tuitou uma selfie com uma luz alaranjada na qual se via ele sorrindo entre uma mulher loira fazendo o sinal da paz e um cara barbudo usando um chapéu fedora.

A mulher era a cantora canadense Grimes, ex-esposa de Musk, e o cara de chapéu era Eliezer Yudkowsky, alguém que se autodescreve como pesquisador de IA e acredita, talvez mais do que qualquer pessoa, que a IA poderia um dia destruir a humanidade.

A selfie – tirada por Altman durante uma festa que sua empresa estava realizando – mostra como ele está próximo desse modo de pensar. Mas ele tem suas próprias opiniões a respeito dos perigos da IA.

Yudkowsky e os textos escritos por ele tiveram um papel importante na criação tanto da OpenAI como da DeepMind, outro laboratório determinado a desenvolver inteligência artificial geral.

Ele também ajudou a dar origem à vasta comunidade online de altruístas racionalistas e eficazes que estão convencidos de que a IA é um risco existencial. Este grupo surpreendentemente influente é representado por pesquisadores de muitos dos principais laboratórios de IA, inclusive da OpenAI. Eles não veem isso como hipocrisia: muitos deles acreditam que, como entendem os perigos com maior clareza do que qualquer outra pessoa, estão na melhor posição para desenvolver essa tecnologia.

Altman acredita que os altruístas eficazes desempenharam um papel importante no surgimento da IA, alertando o setor para os perigos. Ele também acredita que eles exageram sobre esses perigos.

Conforme a OpenAI desenvolvia o ChatGPT, muitos outros, inclusive o Google e a Meta, estavam construindo tecnologias semelhantes. Mas foram Altman e OpenAI os escolhidos para compartilhar a tecnologia com o mundo.

Muitos da área criticaram a decisão, argumentando que isso provocou uma corrida para lançar uma tecnologia que não dá respostas corretas, inventa coisas e, em breve, poderia ser usada para espalhar desinformação de forma rápida. Recentemente, o governo italiano proibiu temporariamente o ChatGPT no país, mencionando preocupações com a privacidade e receios com a exposição de menores a conteúdo inadequado.

Altman defende que, em vez de desenvolver e testar a tecnologia totalmente em segredo antes de lançá-la para o público, é mais seguro compartilhá-la aos poucos para que todos possam compreender melhor os riscos e como lidar com eles.

Ele me disse que seria um “início bastante lento”.

Quando perguntei a Altman se uma máquina que pudesse fazer qualquer coisa que o cérebro humano fosse capaz acabaria anulando o preço do trabalho humano, ele rejeitou a ideia. E disse que não conseguia imaginar um mundo no qual a inteligência humana fosse inútil.

Caso esteja errado, ele acha que pode se redimir com a humanidade.

Altman reconstruiu a OpenAI como o que chamou de empresa com lucro limitado. Isso lhe permitiu conseguir bilhões de dólares em recursos financeiros, prometendo lucro a investidores como a Microsoft. Mas esses lucros têm um valor máximo possível, e qualquer receita além desse teto será redirecionada para a parte sem fins lucrativos da OpenAI fundada em 2015.

Seu grande plano é que a OpenAI atraia boa parte da riqueza do mundo por meio da criação da AGI e, em seguida, redistribua essa riqueza para as pessoas. Em Napa, enquanto conversávamos sentados perto do lago no coração de sua fazenda, ele descartou vários valores – US$ 100 bilhões, US$ 1 trilhão, US$ 100 trilhões.

Se a AGI criar de fato toda essa riqueza, ele não tem certeza de como a empresa irá redistribuí-la. O dinheiro pode significar algo muito diferente nesse novo mundo.

Como me disse uma vez: “Sinto que a AGI pode ajudar com isso”.

https://www.estadao.com.br/link/empresas/sam-altman-pai-do-chatgpt-nao-esta-preocupado-com-os-perigos-da-inteligencia-artificial/

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Profissão ‘memeiro’: com milhões de seguidores, criadores de posts de humor são disputados por empresas

Donos de perfis populares na internet participam de painel no Rio2C, evento da indústria criativa que começa hoje

Por Ronald Villardo O GLOBO – 11/04/2023 

A cada vez que alguém dá uma “curtida” ou compartilha uma piada inocente numa rede social, mais um passo é dado na consolidação de uma das estratégias de marketing mais poderosas da contemporaneidade: a criação de memes. Por trás dela, quase invisíveis, estão seus produtores, os “memeiros” ou “mememakers”. São jovens de classes sociais diversas e com formações acadêmicas que passam longe das escolas de comunicação. E grandes companhias pagam muito dinheiro para terem suas marcas incluídas nas peças de humor publicadas em perfis com milhões de seguidores, como @soueunavida, @perrenge-chique e @saquinhodelixo, entre tantos outros.

Contando até com uma premiação própria, o Meme Awards (memeawards. com.br), o fenômeno dos memes não poderia estar de fora dos painéis do evento Rio2C, que acontece entre hoje e domingo na Cidade das Artes, Zona Oeste carioca, reunindo mais de 1.200 profissionais de várias áreas da indústria criativa. Em 11 palcos, o festival contará com debates, oficinas e palestras de profissionais, que vão do audiovisual aos games, da música à publicidade, território onde os memeiros têm passeado com pompa e circunstância.

Quando cunhou o termo “meme” para o livro “O gene egoísta” (1976), o biólogo e escritor ateu Richard Dawkins certamente não imaginava que havia criado um tipo alternativo de divindade. A palavra que nasceu para definir “uma unidade de informação cultural que se propaga de indivíduo para indivíduo dentro de uma sociedade” virou o Santo Graal do marketing. E a viralização é uma espécie de graça a ser alcançada por toda e qualquer marca disposta a pagar o que for necessário por isso.

— Os memes viraram uma espécie de entretenimento capaz de disputar atenção com as plataformas de streaming — diz Flávio Santos, CEO da agência de publicidade MFields, que mediará o painel “A contracultura dos memes” hoje no Rio2C. — A linguagem memética traz um descompromisso compromissado.

Por descompromisso, entenda a informalidade das postagens de humor que transforma situações cotidianas em autoironia. Por compromisso, entenda que não vale tudo por uma viralização.

— Há limites para este humor. Há assuntos que tratamos com mais cuidado, ou mesmo ignoramos — diz o memeiro Fabio Santana, criador do @soueunavida, que contabiliza 18 milhões de seguidores e subindo dia após dia.

Tal código de ética informal parece ser um dos denominadores comuns entre os mememakers. Procurado por marcas como Coca-Cola e McDonald’s, entre outras grandes, para viralizar conteúdos bem-humorados para as marcas, o criador Alan Pereira, do perfil @saquinhodelixo, lista alguns dos produtos que não têm vez na sua página.

— Recusamos clientes de sites de apostas on-line e de entregas de comida, por exemplo. Entendemos que há problemas com questões trabalhistas nesses serviços — explica o memeiro, que também participará do painel de hoje na Cidade das Artes e afirma cobrar R$ 30 mil por um post simples no Instagram. — No TikTok, ainda não temos um valor definido, pois estamos estudando a plataforma.

Quem pode recusar clientes também pode se manifestar politicamente. É o que entende o memeiro Matheus Diniz, do perfil @greengodictionary, que nasceu no Twitter mas atualmente injeta energia na movimentação da página no Instagram, onde ostenta mais de 1,5 milhão de seguidores.

A decisão de se associar à agência Play 9, por exemplo, só aconteceu porque o influenciador Felipe Neto, o sócio mais pop da empresa, é defensor de ideias progressistas.

— Meu perfil é oficialmente contra a extrema direita. Só aceitei o convite deles (da Play 9) porque tenho a garantia de que não serei censurado nos meus posicionamentos — afirma Diniz, de 26 anos, que largou a segurança de um emprego público na Prefeitura de Goiânia, em 2020, para se dedicar exclusivamente ao perfil, que publica traduções literais para o inglês de expressões tipicamente brasileiras.

Meme Awards

Os perfis de memes competem diretamente com aqueles dos influenciadores, famosos por cobrar altas somas para associarem suas imagens a produtos que visam a um público cada vez mais amplo. A diferença entre eles é que os memes transformam tudo em humor diretamente ligado à vida cotidiana de quem os acompanha. É a tal da identificação que gera no seguidor o desejo de compartilhar imediatamente o que acabou de lhe provocar uma risada.

Ainda que muitos dos memeiros mais populares do país sejam egressos de áreas que não têm muito com a ver com o universo da comunicação como a conhecemos, alguns deles já pisam no meio acadêmico com passos firmes. Este é o caso de Gabriel Félix, do perfil @southamericanmemes e criador do prêmio Meme Awards (memeawards.com.br), lançado há dois anos em parceria com a agência carioca de publicidade Flocks.

— Terminei o ensino médio, mas não fiz e não tenho vontade de fazer faculdade — conta Gabriel, que já deu palestras na ESPM do Rio e na UFF.

Aos 23 anos, Gabriel mudou-se de Caraguatatuba, no interior de São Paulo, para o Rio aos 17, quando foi contratado pela Flocks para o curioso cargo de “consultor de memes”, devidamente registrado no Linked In do rapaz.

O convite veio de Marcelo Madureira, um dos sócios da agência, depois de entrevistar Félix para o seu canal do Youtube por conta do sucesso do @southamericanmemes.

Por conta dos Meme Awards, Gabriel tornou-se uma espécie de referência entre os memeiros brasileiros. Tanto que ele prepara o lançamento da sua própria agência de conteúdo para web, a Handover Creative, com lançamento oficial marcado para o próximo mês.

— No hub da Handover, contaremos com mais de cem mememakers de todo o país — conta Gabriel, que planeja financiar cursos para preparação de jovens pretos de comunidades para assumirem cargos de liderança na indústria criativa. — Há muita criatividade nas comunidades, mas as pessoas não conseguem desenvolver (esse talento) porque têm que trabalhar de motoboy para sobreviver.

O professor Viktor Chagas, do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da UFF e coordenador do projeto on-line Museu de Memes (museudememes. com.br) destrincha algumas das características essencialmente brasileiras do fenômeno.

— Nossas piadas não são como as dos americanos, do tipo ‘perco o amigo mas não perco a piada’. Por aqui, temos uma característica mais autodepreciativa — diz o pesquisador. — É um tipo de humor nos ajuda a rir de nós mesmos, especialmente no contexto da grande desigualdade social em que vivemos.

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Militares chineses planejam lançar 13 mil satélites para fazer frente à Starlink, de Elon Musk

Por Cate Cadell – Estadão/Washington Post – 10/04/2023 

Uso bem-sucedido dos satélites Starlink na guerra na Ucrânia foi percebido como uma grande ameaça à segurança nacional de Pequim

Pesquisadores militares da China estão pedindo a rápida mobilização de um projeto para uma rede nacional de satélites para concorrer com a Starlink, da SpaceX, preocupados com a possibilidade de os satélites com sinal de internet de Elon Musk representarem uma grande ameaça à segurança nacional de Pequim após o seu uso bem-sucedido na guerra na Ucrânia.

Pesquisas e estudos recentes da China e fontes informadas a respeito do programa dizem que estão em andamento planos para a mobilização de uma mega constelação nacional de quase 13 mil satélites de órbita baixa, enquanto cientistas militares desenvolvem pesquisas para “suprimir” ou mesmo danificar satélites da Starlink no caso de um conflito.

Um obscuro projeto com apoio do governo – ao qual o setor chinês de satélites se refere como GW, ou Guowang, que significa Rede Estatal – começou a ganhar força em 2021, como rival das redes de satélites dos Estados Unidos e outros serviços civis de sinal de internet. Mas, nos meses mais recentes, pesquisadores chineses compartilharam publicamente e em caráter privado diante de autoridades militares a sua preocupação com o atraso do projeto em relação à Starlink, devendo receber total atenção depois que a tecnologia de comunicação da SpaceX suportou os testes práticos na Ucrânia.

“A constelação da Starlink finalmente revelou sua aplicação militar no conflito entre Rússia e Ucrânia”, disse um acadêmico de Pequim informado a respeito do projeto chinês.

“Agora o foco será a aceleração do desenvolvimento da constelação própria da China . . . e a exploração de medidas defensivas contra satélites estrangeiros como os da Starlink”, disse a fonte, que falou sob condição de anonimato por se tratar de um tema sensível.

As preocupações chinesas com a segurança nacional diante da Starlink ocorrem em meio a uma corrida espacial cada vez mais acirrada entre Pequim e Washington, com ambos os países investindo pesado em tecnologia defensiva de ponta e missões de exploração – incluindo esforços concorrentes para levar o homem a Marte.

Grandes redes de satélites de baixa órbita com sinal de internet como a Starlink e projetos rivais da Amazon e da Boeing – que se situam entre 500 km e 2.000 km acima da superfície da Terra – são empreendimentos comerciais pensados para oferecer acesso de banda larga à internet em áreas de baixa conectividade.

A SpaceX, de Musk, opera atualmente mais de 3 mil satélites, e tem planos de levar este número a aproximadamente 42 mil. A empresa enviou milhares de terminais da Starlink para a Ucrânia desde o início da guerra, e o serviço se tornou uma ferramenta essencial na comunicação militar.

Mas o sucesso tecnológico da Starlink no campo de batalha foi abafado pela estratégia política chantagista do seu diretor executivo, incluindo a ameaça de interromper os serviços de comunicação e um alerta em fevereiro segundo o qual forças ucranianas estariam usando o sistema para propósitos ofensivos não autorizados. A empresa diz que seu serviço de internet “não foi criado para ser usado como arma” e adotou medidas para impedir a Ucrânia de usá-lo para ativar seus drones.

Satélites ultrassecretos

Ao longo dos dez anos mais recentes, o Pentágono passou a depender cada vez mais do setor espacial comercial, aproveitando os veículos de lançamento reutilizáveis da SpaceX, criados por Musk, para lançar satélites de defesa ultrassecretos. Em dezembro, a SpaceX anunciou a expansão deste trabalho, revelando um projeto chamado Starshield – diferente da Starlink – e voltado para os propósitos de segurança nacional dos governos. O anúncio trouxe ansiedade a Pequim, onde pesquisadores temem que ele possa prejudicar o sigilo dos programas militares chineses.

“Depois que o Starshield for concluído, ele será o equivalente à instalação de câmeras de vigilância sobre todo o mundo. A partir desse momento, operações militares como o lançamento de mísseis balísticos, mísseis hipersônicos e caças será facilmente detectado pelo monitoramento dos EUA”, disseram em dezembro pesquisadores da Universidade de Engenharia Espacial do Exército de Libertação Popular ao site oficial de notícias militares da China.

A SpaceX não divulgou informações indicando que o projeto incluiria essas capacidades. Seu site voltado ao público em geral diz que o projeto oferecerá capacidades de observação e comunicação, e equipamento para receber cargas não especificadas em seus satélites.

A SpaceX e a Embaixada da China em Washington não responderam às tentativas de contato.

Campo de batalha

Mesmo sem evidências de que redes comerciais como a Starlink sejam usadas atualmente para os propósitos de vigilância indicados pelos acadêmicos chineses, elas já revelaram seu potencial no campo de batalha. Serviços como a Starlink têm a capacidade de oferecer comunicação barata e de alta velocidade via internet em situações em que as demais infraestruturas estiverem indisponíveis.

De acordo com os analistas, em conjunto com serviços comerciais de imagens via satélite como Planet Labs e Maxar, a Starlink pode transmitir aos soldados informações quase instantâneas a respeito do que está ocorrendo no campo de batalha.

Soldados na Ucrânia dizem ter usado a rede para acompanhar ao vivo as imagens transmitidas por drones e para melhorar a precisão do fogo de artilharia, poupando munição. Ela também permitiu aos soldados manter o contato com amigos e parentes.

“Quer gostemos ou não, [Musk] nos ajudou a sobreviver aos momentos mais difíceis da guerra”, disse Mykhailo Podolyak, assessor do presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, em publicação no Twitter em outubro.

Enquanto isso, as ambições da China são limitadas por obstáculos tecnológicos e pela capacidade de lançamento. No ano passado, pesquisadores em Xian, no centro da China, realizaram testes bem-sucedidos envolvendo um propulsor de foguete reutilizável, mas sua tecnologia fica atrás da empregada pela SpaceX. Uma autoridade chinesa disse à mídia estatal que a expectativa é chegar ao primeiro veículo reutilizável de lançamento capaz de decolagem e aterrissagem verticais (semelhante aos foguetes da SpaceX) mais ou menos em 2025.

Projetos estatais

Em 2021, Pequim anunciou a criação de uma nova firma, liderada por nomes escolhidos entre os melhores grupos estatais aeroespaciais, para supervisionar o desenvolvimento da mega-constelação de satélites de baixa órbita. Chamado de China Satellite Network Group Co. Ltd., o empreendimento foi pensado para consolidar os programas iniciais de satélites civis e estatais e acelerar o desenvolvimento do projeto nacional, de acordo com analistas e fontes informadas a respeito dos planos.

Um ano antes, a China apresentou documentação à União Internacional das Telecomunicações – agência das Nações Unidas responsável pela definição dos padrões na comunicação – descrevendo sua intenção de lançar inicialmente 12.992 satélites operando em determinadas frequências dentro de um cronograma não especificado.

É difícil determinar quantos satélites ligados ao projeto nacional estão atualmente em órbita porque, de acordo com os analistas, é provável que iniciativas anteriores tenham sido absorvidas pelo plano nacional, mas diferentes programas estatais e civis da China lançaram, juntos, um número relativamente pequeno deles, algo na ordem das dezenas. Também é improvável que tenham as capacidades operacionais dos modelos mais novos lançados pela Starlink.

Mas a trajetória chinesa é exponencial.

“Este ano, existe uma chance considerável de a China lançar algumas dezenas de satélites de baixa órbita destinados às comunicações. E, no ano seguinte, talvez sejam algumas centenas de lançamentos”, disse Blaine Curcio, fundador da Orbital Gateway Consulting, que acompanha o desenvolvimento da indústria chinesa de satélites. “Em cinco anos, se me disserem que a China terá 2 mil satélites de comunicações em órbita baixa, eu diria que esse número é o mínimo.”

Mas a chegada tardia da China ao mercado também pode limitar seu acesso às frequências abertas em órbita bixa. “Em 2015 e 2016, quando houve uma espécie de corrida do ouro nas frequências de órbita baixa, os chineses simplesmente não participaram”, disse Curcio. “E acredito que isso será um obstáculo para eles, algo que cria certa urgência.”

Em um estudo divulgado em fevereiro, uma equipe de pesquisadores na Universidade de Engenharia Espacial acusou os EUA de se apoderarem dos recursos de órbita baixa, incluindo frequências, e disse que o rápido desenvolvimento da Starlink não era apenas um projeto comercial, mas um “plano de interesse competitivo e estratégico” por parte do governo americano.

Os pesquisadores também descreveram potenciais métodos para desativar os satélites da Starlink, caso venham a ser usados futuramente em operações militares dos EUA. “É difícil danificar fisicamente a constelação da Starlink “, disse o artigo, destacando a possível chuva de destroços que um ataque aos satélites criaria.

“Assim sendo, lasers, micro-ondas de alta potência . . . podem ser usados para danificar os equipamentos de reconhecimento armados nos satélites da Starlink”, disseram os pesquisadores, referindo-se à técnica que desabilitar um satélite sem destruí-lo, evitando assim os destroços. Os pesquisadores militares chineses também sugeriram “aproveitar” possíveis pontos fracos nos serviços de internet da Starlink para mobilizar ataques cibernéticos e “paralisar sua rede de comunicações”.

A fonte em Pequim informada a respeito do programa disse que esse tipo de pesquisa já “se encontra em um nível relativamente sofisticado. O maior desafio é monitorar as operações da Starlink”, disse a fonte. “O tamanho da constelação dificulta a compreensão do seu real propósito.”

Ainda que o programa seja relativamente recente, a ansiedade de Pequim em relação à Starlink mostra como é tensa a concorrência entre EUA e China no setor espacial.

“Se estão falando em vulnerabilidades da Starlink ou do Starshield, é porque sabem que elas existem e já as estudaram em seus sistemas”, disse Martin Whelan, vice-presidente sênior do Grupo de Sistemas de Defesa da Aerospace Corporation, centro de pesquisa e desenvolvimento com financiamento federal que oferece análise e experiência técnica para os programas espaciais americanos. “Mas isso me diz que estão pensando em atacar uma capacidade e negar o acesso a ela, coisa que sempre deixa os militares americanos nervosos.”

Whelan disse que uma das maiores preocupações ao lidar com os crescentes programas espaciais chineses é a falta de comunicação. “Os EUA registram seus satélites; os orçamentos podem ser consultados, tudo pode ser lido. Mas, do lado chinês, tudo é menos transparente.”

Não é a primeira vez que a China se surpreende com o rápido desenvolvimento dos satélites da Starlink. Em 2021, Pequim apresentou uma queixa na ONU, alegando ter sido obrigada a realizar manobras evasivas em duas ocasiões para evitar uma colisão entre sua estação espacial e os satélites da Starlink, o que levou a duras críticas contra a SpaceX e Elon Musk na China.

Musk estaria planejando uma viagem à China este mês para se reunir com funcionários do alto escalão do governo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

https://www.estadao.com.br/internacional/militares-chineses-planejam-lancar-13-mil-satelites-para-fazer-frente-a-starlink-de-elon-musk/

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Paul Krugman: Ofensiva energética de Putin fracassa com transição verde inesperada na Europa

Por Paul Krugman – Estadão/NYT – 09/04/2023 

Países europeus resistiram notavelmente bem à perda de suprimentos importados da Rússia após a invasão da Ucrânia

Vladimir Putin invadiu a Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022. Desde então, a Rússia lançou quatro grandes ofensivas. Três foram militares; a quarta foi econômica. E embora você não ouça muito sobre essa última ofensiva, seu fracasso apresenta algumas lições muito importantes.

Todos sabem da primeira ofensiva militar: a tentativa de blitzkrieg que deveria tomar Kiev e outras grandes cidades ucranianas em questão de dias. Muitos observadores – especialmente, mas não apenas, os direitistas ocidentais que fetichizaram as supostas proezas das Forças Armadas russas – esperavam que essa blitzkrieg fosse bem-sucedida. Em vez disso, ela se transformou em uma derrota épica: paralisados por uma obstinada defesa ucraniana, os russos acabaram recuando após sofrer enormes perdas.

A segunda ofensiva foi mais limitada em escopo: um ataque de primavera no leste da Ucrânia. Mais uma vez, muitos observadores esperavam uma decisiva vitória russa, talvez o cerco de grande parte do Exército ucraniano. E os russos fizeram alguns avanços graças à esmagadora superioridade da artilharia. Mas essa ofensiva parou quando a Ucrânia adquiriu armas de precisão ocidentais, especialmente as agora famosas Himars, que causaram estragos nas áreas de retaguarda russas. A Ucrânia acabou conseguindo lançar contra-ataques que recuperaram terreno significativo, principalmente a retomada Kherson.

Em imagem de arquivo, trens de hidrogênio em estação de Wehrheim, na Alemanha

Em imagem de arquivo, trens de hidrogênio em estação de Wehrheim, na Alemanha Foto: Michael Probst/AP – 5/4/2023

A terceira ofensiva russa, um ataque de inverno na região de Donbas, ainda está em andamento, e é possível que a Ucrânia opte por se retirar da cidade de Bakhmut, um local de pouca importância estratégica que, no entanto, se tornou palco de combates incrivelmente sangrentos. Mas a maioria dos observadores que li vê o empreendimento como mais um fracasso estratégico.

De certa forma, porém, a derrota mais importante da Rússia não ocorreu no campo de batalha, mas na frente econômica. Eu disse que a Rússia lançou quatro grandes ofensivas; a quarta foi a tentativa de chantagear as democracias europeias para que abandonassem seu apoio à Ucrânia cortando o fornecimento de gás natural.

Havia motivos de preocupação nessa tentativa de transformar o abastecimento de energia em arma de guerra. A invasão russa da Ucrânia de início interrompeu os mercados de várias commodities – a Rússia é um grande produtor de petróleo, e tanto a Rússia quanto a Ucrânia eram grandes exportadores agrícolas antes da guerra – e o gás natural parecia um ponto de pressão especialmente sério. Por quê? Porque o gás natural não é negociado em um mercado global. A maneira mais barata de enviar gás é por meio de gasodutos, e não estava claro como a Europa substituiria o gás russo se o fornecimento fosse interrompido.

Muitas pessoas, incluindo eu, ficaram preocupadas com os efeitos de um embargo de gás russo. Isso causaria uma recessão europeia? Os tempos difíceis na Europa prejudicariam sua disposição de continuar ajudando a Ucrânia?

Para lembrar

Bem, a grande história aqui – uma história que não foi muito divulgada na mídia, porque é difícil relatar coisas que não aconteceram – é que a Europa resistiu notavelmente bem à perda de suprimentos russos. O desemprego na zona do euro não aumentou; a inflação subiu, mas os governos europeus conseguiram, por meio de uma combinação de controle de preços e ajuda financeira, limitar (mas não eliminar) as dificuldades criadas pelos altos preços da gasolina para as pessoas.

Fontes alternativas

A Europa conseguiu continuar funcionando apesar do corte da maior parte do gás russo. Por um lado, isso reflete uma transição para outras fontes de gás, como o gás natural liquefeito enviado dos EUA.

Por outro, resulta dos esforços de economia que reduziram a demanda. Uma parte representa um retorno temporário à geração de eletricidade a carvão, outra parte maior reflete o fato de que a Europa já obtém muito de sua energia a partir de fontes renováveis.

E, sim, foi um inverno excepcionalmente quente, o que também ajudou. Mas o resultado final, como diz um relatório do Conselho Europeu de Relações Exteriores, é que “Moscou fracassou em seu esforço de chantagear os estados da UE por meio do corte de gás”. De fato, a Europa intensificou seu apoio militar à Ucrânia, principalmente enviando tanques de guerra que podem ajudar na contraofensiva ucraniana que se aproxima.

Balanço

Então, o que podemos aprender com o fracasso da ofensiva energética da Rússia? Primeiro, a Rússia parece mais do que nunca uma superpotência Potemkin, com pouco por trás de sua fachada imponente. Seu tão alardeado Exército é muito menos eficaz do que se anunciava; e, agora, está claro que é muito mais difícil do que se pensava transformar em arma de guerra seu papel como fornecedor de energia.

Em segundo lugar, as democracias estão mostrando, como muitas vezes no passado, que são muito mais duronas, muito mais difíceis de intimidar do que parecem. Por fim, as economias modernas são muito mais flexíveis, muito mais capazes de lidar com a mudança, do que alguns interesses investidos querem nos fazer acreditar.

Desde que me lembro, os lobistas dos combustíveis fósseis e seus apoiadores políticos têm insistido que qualquer tentativa de reduzir as emissões de gases do efeito estufa seria desastrosa para os empregos e o crescimento econômico.

Mas o que estamos vendo agora é a Europa fazendo uma transição energética nas piores circunstâncias possíveis – repentina, inesperada e drástica – e lidando muito bem com isso, o que sugere que uma transição gradual e planejada para a energia verde seria muito mais fácil do que os pessimistas imaginam. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

https://www.estadao.com.br/internacional/paul-krugman-ofensiva-energetica-de-putin-fracassa-com-transicao-verde-inesperada-na-europa/

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POR QUE BRINCAR COM IA É A MELHOR MANEIRA DE OBTER UM ESPÍRITO CRIATIVO NA EMPRESA

Os criativos devem explorar o desconhecido e experimentar sem regras para entender as possibilidades da tecnologia

Por PJ Pereira* – AdAge  06 de abril de 2023.

Comecei minha carreira na publicidade como “o cara digital” em uma agência.

“Vá brincar com isso”, disse meu chefe, “e faça algumas coisas legais, e descobriremos o que fazer com isso”. Com uma frase, ele tirou a pressão por uma monetização impossível, estabeleceu alguma disciplina em ser ágil e não gastar demais e conteve o impulso de tentar organizar o pensamento sobre o que ainda não tivemos chance de pensar.

Brincar me liberta. Isso tirou o peso e a pressão dos meus ombros e permitiu que eu me concentrasse na única coisa que importava: fazer. Porque só experimentando coisas reais podemos entender o que faz uma diferença real.

Não esperávamos que alguém nos ensinasse. Não contava com livros ou tutoriais. Observamos as novas possibilidades sendo lançadas e perguntamos: O que podemos fazer com essa nova possibilidade?

Uma geração inteira de líderes em nosso setor nasceu dessas experiências. Há outro nascendo agora também. Uma geração que ousa brincar com o desconhecido. Para experimentar sem regras. Para tentar domar ou surfar ou fazer parceria com a Inteligência Artificial.

Brincar é a estratégia evolutiva de um mamífero para aprender sobre o mundo ao seu redor. É a estratégia que encontramos para explorar o desconhecido antes que haja conhecimento suficiente para ser transferido. Brincar é a estratégia para apreender o novo.

Nos últimos anos, tenho brincado com as aplicações criativas da IA. Aprendi a criar imagens, a escrever com elas, a construir animações para estruturar histórias… sem obrigação de formar um entendimento total da fera. E através dessa exploração, algumas lições preliminares estão começando a tomar forma:

Esqueça a separação entre ideias e execução

Essa é uma distinção temporária em nosso mercado. Os artistas geralmente se orgulham de como realmente fazem as coisas. E de alguma forma o mundo da publicidade caiu na ideia da linha de produção. Adivinha? Um dos maiores impactos da IA é diminuir a distância entre a ideia e sua manifestação. Ainda requer prática, habilidade e técnica, mas nada disso parece mais um abismo. E essa é uma oportunidade revolucionária. Mas há um problema: você deve estar fazendo coisas. Se você está apenas dizendo aos outros o que fazer… você ainda não está jogando.

IA é um novo tipo de computação

A IA não se baseia em máquinas que seguem ordens, mas em máquinas que sabem como aprender. Como consequência, as ferramentas que nascerem dele também serão muito diferentes. É como passar de uma bicicleta para um cavalo. Agora você tem mais potência, mas seu veículo tomará algumas decisões por conta própria.

Suas habilidades serão desperdiçadas, e tudo bem

Com milhões de dólares sendo investidos neste campo, o progresso é mais rápido do que qualquer outra tecnologia já experimentou. Isso significa que novos recursos, interfaces e fluxos de trabalho estão sendo recriados quase mensalmente. Não use isso como desculpa para esperar pela estabilidade, no entanto. O verdadeiro aprendizado desse estágio não é a habilidade de usar uma ferramenta específica. É a compreensão das possibilidades – presentes e futuras. Uma perspectiva sendo moldada enquanto falamos, por aqueles que ousam jogar no caos.

Se suas mãos não estão sujas… você é um seguidor

Sei que o mundo atual nos faz acreditar que os líderes lideram e os seguidores fazem. Mas no contexto de um salto geracional como este, as regras são invertidas. Se você quer liderar o futuro, deve estar fazendo isso agora. Porque todas as nuances virão de suas frustrações, surpresas e sua necessidade de improvisar com uma tecnologia que está longe de estar pronta.

Há problemas

Viva com isso. Alguns são tecnológicos, como a incapacidade atual da IA de desenhar mãos (de alguma forma, sempre há dedos demais!). Esses serão corrigidos mais rápido do que imaginamos. Depois, há questões éticas (e legais) que a indústria também precisará abordar – questões sobre autoria, plágio, propriedade do conteúdo usado para treinar essas máquinas. São questões muito importantes que precisam ser discutidas. Mas vai demorar um pouco até chegarmos a um consenso. Isso torna o jogo uma estratégia ainda mais importante – permite-nos experimentar a tecnologia em uma escala menor, com apostas mais baixas e entender as nuances e especificidades que devemos considerar ao tentar definir regras gerais maiores.

Todas essas lições me trazem de volta ainda mais ao meu passado. Não quando consegui meu primeiro emprego em publicidade, mas quando ganhei meu primeiro computador quando criança. Não preciso mais programar. Mas aprender como um computador pensa me deu uma vantagem contra muitos criativos ao meu redor. Agora, olhando para esse novo estágio da computação, posso ver os padrões se repetindo. A ponto de, quando meu filho adolescente me disse que queria ser diretor de cinema, dei a ele o melhor presente que pude pensar: ensinei-o a começar a brincar com IA.

Um presente. Isso é o que é. Para meu filho, para você

Agora vá brincar.

*PJ Pereira é fundador e  creative chairman na  Pereira O’Dell e um dos maiores publicitários brasileiros, reconhecido internacionalmente. Mora em Nova Iorque.

https://adage.com/article/opinion/why-playing-ai-best-way-gain-creative-edge/2484531

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Para sobreviver, o jornalismo terá de olhar para trás

Será preciso retomar ofício de artesão, usando as mãos, a inteligência e a sensibilidade

Rodrigo Tavares* – Folha – 5.abr.2023 

Já não me lembro se se chamava Manuela ou Maria a minha professora de datilografia numa escola pública na pequena cidade de Castelo Branco, em Portugal, na década de 90. Dominava uma máquina de escrever como uma instrumentista. Mas perdeu o emprego poucos anos mais tarde quando a disciplina saiu do currículo de ensino.

Quando a cadeira de dactylographia foi introduzida em Portugal, em 1847, prometia-se aos alunos que estariam “habilitados para a vida comercial e exercendo honrosos e lucrativos cargos no continente, ilhas, África e Brasil”. A verdade durou cerca de 150 anos.

Aula na escola de datilografia Remington, em 1922 – Reprodução

Serão os jornalistas as novas Manuelas ou Marias? Quem solicitar hoje a um algoritmo de aprendizado profundo como o ChatGPT que escreva sobre a apresentação no tribunal do ex-presidente Trump, no dia 4 de abril, poderá receber, em poucos segundos, todo o tipo de texto (mais opinativo, mais analítico, apenas factual), com nuances e expressões idiomáticas em diferentes línguas. A qualidade, sinceramente, não é inferior à dos artigos sobre o mesmo tema produzidos por seres humanos para a imprensa brasileira.

Há duas perspectivas sobre esse fenômeno. A primeira salienta, com razão, que a inteligência artificial (IA) utiliza uma base de dados preexistente e, por isso, é um agregador de informação, não um criador. Para escrever sobre Trump, o ChatGPT apoiou-se (sem respeitar direitos de autor) em milhares ou milhões de notícias publicadas sobre o tema. Ou seja, a IA depende da existência prévia de jornalistas que criem o conteúdo. Também se argumenta que a IA poderá ser uma ferramenta de assistência ao jornalista, facilitando a contextualização, ajudando-o a escrever mais rapidamente, simplificando o alinhamento de textos a manuais de Redação, tentando encontrar novos ângulos para tratar uma reportagem.

Despertamos para a IA com o ChatGPT em 2023, mas já em 2018 a Forbes tinha lançado o Bertie, uma plataforma de IA que aprende o estilo de escrita dos jornalistas, identifica os tópicos sobre os quais normalmente escrevem e fornece sugestões para melhorar a qualidade de uma notícia (estilo, conteúdo, dados, fotos) ou recomenda tópicos de tendências em tempo real para cobrir.

O ChatGPT concorda com essa perspectiva minimalista da transformação. Diz ele que “a IA é atualmente mais adequada para tarefas repetitivas e padronizadas, enquanto o jornalismo envolve habilidades humanas como o pensamento crítico, a investigação, a análise de dados, a entrevista, a contextualização e a tomada de decisões éticas”. A Manuela ou Maria sobreviveriam à virose da inteligência artificial.

A segunda perspectiva já preparou o seu funeral.

A tendência a curto prazo é que a inteligência artificial possa analisar e interpretar imagens e vídeos, entender o significado de áudios e escrever textos originais. As máquinas não sentem. Mas disporão de ilimitados recursos para coletar, avaliar e produzir informações, sem intervenção humana. Serão capazes de entrevistar em tempo real e de detectar incongruências ou novidades na informação emitida pelo entrevistado. Poderão também ser as máquinas a dar, literalmente, a cara pelo conteúdo que produzem.

Já em 2018, a agência de notícias chinesa Xinhua apresentou o seu primeiro âncora de TV criado por IA, uma espécie de William Bonner algorítmico que pode comandar telejornais por dias seguidos, sempre atualizado. Os jornalistas humanos, como produtores e apresentadores de conteúdo (hard news), serão como aparelhos de fax, internet discada, telefone fixo ou máquina de escrever.

"Robô" apresentador de telejornal criado por inteligência artificial na China

“Robô” apresentador de telejornal criado por inteligência artificial na China – Reprodução YouTube

Mas não será o fim do jornalismo. Renascerá em pelo menos duas dimensões.

A primeira é a da checagem. O jornalista será aquele que apura, confronta e compara informações originalmente produzidas por IA. Um gatekeeper. O ponto de partida poderão ser as atuais agências de apuração de dados, criadas para verificar a credibilidade de discursos políticos ou a veracidade de informações que circulam nas redes sociais. Desde o surgimento, em 2003, da primeira plataforma de checagem de informações, o FactCheck.org, emergiram no Brasil cerca de uma dezena de projetos semelhantes, incluindo o Mentirômetro, desta Folha.

No Brasil, a revista piauí também tem uma coordenação de checagem que apura meticulosamente todas as informações produzidas pelos próprios autores, um trabalho que vai muito além da edição de texto.

Já em 1913, o americano Ralph Pulitzer foi o primeiro a criar, no seu jornal, o extinto New York World, uma equipa interna de verificação de dados para garantir a fidedignidade das informações prestadas ao público. A verificação de informações não é uma atividade menor do jornalismo, mas um dos seus fundamentos.

Outra dimensão é a do jornalismo investigativo, aquele que pressupõe bastidores, análise lacaniana do significado e significante de cada palavra sussurrada, acesso a fontes de informação confiáveis e interpretação cognitiva de informações não públicas. Para celebrar o seu centenário, a Folha destacou 100 grandes “furos” de reportagem. Quase nenhum poderia ter sido dado por uma ferramenta de IA.

As redações emagrecerão e haverá redução significativa de custos, mas talvez a IA tenha o efeito secundário de estimular o jornalismo a voltar à sua missão primordial de apuração crítica da verdade.

Hoje muitos jornalistas, principalmente os mais jovens, fazem um trabalho industrializado e escassamente remunerado, guiados mais pela estatística de impacto do que pelo pensamento crítico.

O futuro do jornalismo talvez implique um retorno ao ofício de artesão, o de criar objetos por meio da transformação da matéria-prima usando as mãos, a inteligência e a sensibilidade como os principais instrumentos de trabalho.

*Professor catedrático convidado na NOVA School of Business and Economics, em Portugal. Nomeado Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial, em 2017

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rodrigo-tavares/2023/04/para-sobreviver-o-jornalismo-tera-de-olhar-para-tras.shtml

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