Por cortes na pesquisa, universidades brasileiras caem em ranking internacional de qualidade; veja as melhores

País enxugou financiamento entre 2014 e 2022; nesta semana, governo sancionou recomposição de fundo para investimento em ciência e tecnologia

Por Bruno Alfano — O Globo – 15/05/2023 

Faculdade de Medicina da USP USP Imagens/Divulgação

Vinte e nove universidades brasileiras caíram de posições na edição de 2023 do World University Rankings (CWUR). De acordo com a publicação, o principal fator para o declínio geral das instituições brasileiras é o desempenho em pesquisa, em meio à intensa competição global de instituições bem financiadas.

— Embora o Brasil esteja bem representado no ranking deste ano, as principais instituições do país estão sob pressão crescente de universidades bem financiadas de todo o mundo. O financiamento para promover ainda mais o desenvolvimento e a reputação do sistema de ensino superior do Brasil é vital se o país aspirar a ser mais competitivo no cenário global — afirmou Nadim Mahassen, presidente do Center for World University Rankings.

As 10 melhores do mundo

  • Harvard (EUA)
  • MIT (EUA)
  • Stanford (EUA)
  • Cambridge (Reino Unido)
  • Oxford (Reino Unido)
  • Princeton (EUA)
  • Chicago (EUA)
  • Columbia (EUA)
  • Pensilvânia (EUA)
  • Yale (EUA)

Um estudo de 2022 do Observatório do Conhecimento em parceria com a Frente Parlamentar Mista da Educação apontou que os seguidos cortes do governo brasileiro do orçamento na Ciência e Tecnologia entre 2014 e 2022 tiraram da área quase R$ 100 bilhões neste período.

Nesta semana, o presidente Lula sancionou R$ 4,18 bilhões ao orçamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), principal fundo de financiamento de pesquisas acadêmicas do país. A medida recuperou integralmente os recursos do FNDCT, que passa a dispor de R$ 9,96 bilhões para investimentos. No mês passado, o orçamento das universidades federais também foi recuperado para 2023.

O Brasil tem 54 universidades entre as duas mil primeiras. Dessas, 23 melhoraram em relação ao ano passado, duas mantiveram suas posições e 29 caíram no ranking.

As 10 melhores da América Latina e do Carine

  • USP (posição geral: 109ª)
  • Universidade Nacional Autônoma do México (276ª)
  • Unicamp (344ª)
  • UFRJ (376ª)
  • Universidade de Buenos Aires (382ª)
  • Pontifícia Universidade Católica do Chile (390º)
  • Unesp (424º)
  • Universidade do Chile (438º)
  • UFRGS (467º)
  • UFMG (503º)

A Universidade de São Paulo, a melhor qualificada do Brasil e da América Latina, caiu seis posições e alcançou o 109º lugar. Ela perdeu pontos em qualidade do ensino, empregabilidade e qualidade do corpo docente, mas melhorou no indicador de desempenho em pesquisa.

Já a Universidade de Campinas (Unicamp) subiu duas posições e atingiu o 344ª lugar, enquanto a Federal do Rio de Janeiro caiu 15 posições, para a 376ª – à frente da Universidade Estadual Paulista, na 424ª posição, e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na 467ª posição.

— Esforços devem ser feitos para garantir que o Brasil atraia acadêmicos e estudantes de ponta, que o aumento do número de matrículas nas universidades seja acompanhado de aumentos na capacidade de ensino e que os gastos com educação superior como porcentagem do PIB nacional cresçam constantemente nos anos seguintes — defendeu Mahassen.

A CWUR classifica as universidades de todo o mundo de acordo com quatro fatores: qualidade da educação (25%), empregabilidade (25%), qualidade do corpo docente (10%) e desempenho em pesquisa (40%). Neste ano, 20.531 universidades foram classificadas, e as primeiras colocadas integraram a lista Global 2000, que inclui instituições de 95 países.

Pelo décimo segundo ano consecutivo, Harvard é a melhor universidade do mundo. Ela é seguida por duas outras instituições privadas dos EUA, MIT e Stanford, enquanto as britânicas Cambridge e Oxford – classificadas em quarto e quinto lugar, respectivamente – são as principais instituições públicas de ensino superior do mundo. O restante do top ten global é completado por universidades privadas dos EUA: Princeton, Chicago, Columbia, Pensilvânia e Yale.

— Embora os resultados do estudo deste ano reafirmam que os Estados Unidos têm o melhor sistema de ensino superior do mundo, 80% das universidades americanas caíram na classificação devido à intensificação da competição global de instituições bem financiadas, particularmente da China. O declínio geral das universidades americanas é acompanhado pelo desempenho das instituições francesas, alemãs e japonesas. Já o declínio das universidades britânicas e russas foi menos severo. Com as instituições chinesas desafiando as ocidentais, as universidades americanas e europeias não podem se dar ao luxo de descansar sobre os louros — afirmou Mahassen.

https://oglobo.globo.com/brasil/educacao/noticia/2023/05/por-cortes-na-pesquisa-universidades-brasileiras-caem-em-ranking-internacional-de-qualidade-veja-as-melhores.ghtml

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Vem aí a ‘nacionalização metálica’: protecionismo em itens necessários para transição energética

Diante desse cenário, será necessária a entrada em produção de mais minas e com muita pressa

Por Adriano Pires – Estadão – 13/05/2023 

Os minerais são a parte mais crítica da solução para uma economia de baixo carbono. De acordo com a Benchmark Mineral Intelligence, se o mundo quiser atender à crescente demanda por metais para baterias, por exemplo, serão necessárias 59 novas minas de lítio, 62 novas minas de cobalto e 72 novas minas de níquel até 2035 (sem incluir a reciclagem).

A demanda por elementos de terras raras deve crescer de 400% a 600% nas próximas décadas, e a necessidade de minerais como lítio e grafite, usados em baterias de veículos elétricos, pode aumentar em até 4.000%. Um carro elétrico típico requer seis vezes mais insumos minerais do que um carro convencional, enquanto um parque eólico offshore, 13 vezes mais minerais do que uma usina a gás de tamanho similar.

A Organização para Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) destaca que muitos minerais cruciais para a transição energética estão concentrados em poucos países. Hoje a China produz de 60% a 70% dos elementos de terras raras do mundo. Os EUA produzem pouco mais de 14% e a Austrália, 6%. A República Democrática do Congo e a China foram responsáveis por cerca de 70% e 60% da produção global de cobalto e elementos de terras raras, respectivamente, em 2019. A América Latina responde por 40% da produção global de cobre, liderada pelo Chile, Peru e México. O Chile, com 11 milhões de toneladas em reservas, é o segundo maior produtor mundial atrás da Austrália.

O movimento de “nacionalização metálica” tem gerado estratégias protecionistas. A Bolívia, que possui os maiores depósitos de lítio do mundo, passou a exigir o controle estatal sobre sua extração e processamento em 2008. O México nacionalizou o lítio no ano passado e anunciou que apenas joint ventures com controle majoritário do Estado poderiam explorar o mineral. O Chile anunciou em abril que também exigirá que o Estado controle 51% dos empreendimentos futuros.

Mina de lítio da Sigma Lithium em Minas Gerais Foto: Mário Santos/Sigma Lithium

Grandes importadores, como os EUA e a União Europeia (UE), intensificaram os esforços para aumentar as restrições à exportação e diversificar o fornecimento de materiais críticos. Políticas como a Lei de Redução da Inflação, dos EUA, e a Lei de Matérias-Primas Críticas, da UE, buscam incentivar o desenvolvimento de suprimentos localmente.

Continua após a publicidade

Nessa corrida dos minérios raros, o Brasil possui uma posição relevante. A Vale é uma das maiores produtoras mundiais de níquel, cobre e cobalto, com minas e instalações de processamento no Canadá, Indonésia e Brasil. Hoje a Vale já tem um contrato de longo prazo para fornecer à Tesla níquel para as suas baterias. Além disso, a mineradora também se associou à Ford e à Huayou Cobalt em uma instalação de processamento de níquel de US$ 4,5 bilhões na Indonésia.

Diante desse cenário, será necessária a entrada em produção de mais minas e com muita pressa. No entanto, a aprovação regulatória e ambiental global para novas minas está em seu nível mais baixo em uma década.

https://www.estadao.com.br/economia/adriano-pires/nacionalizacao-metalica-protecionismo-transicao-energetica/

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Como a Uber fez do Brasil um laboratório para exportar inovação

Rodrigo Loureiro – Neofeed – 12/05/2023 (Resumo feito pelo ChatGPT)

O artigo relata como o Brasil se tornou um laboratório de inovação para a Uber, que utilizou o país como um local para testar novas funcionalidades e serviços que posteriormente foram exportados para outros países.

Entre as inovações testadas pela Uber no Brasil estão o pagamento em dinheiro, que foi implementado pela primeira vez no país, a oferta de corridas com motoristas particulares, que depois se expandiu para outras cidades do mundo, e a introdução de serviços de entrega de alimentos, como o Uber Eats.

O artigo também destaca como a Uber teve que se adaptar às particularidades do mercado brasileiro, como a necessidade de trabalhar com dinheiro em espécie, a complexidade das leis trabalhistas e os desafios de segurança enfrentados em algumas cidades.

Por fim, o artigo argumenta que o sucesso da Uber no Brasil se deve em grande parte à sua capacidade de inovar e se adaptar a novas circunstâncias, algo que é essencial para qualquer empresa que deseja prosperar em um ambiente cada vez mais competitivo e dinâmico.

Leia no link

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

IA do Spotify quer te ajudar a descobrir o que você nem sabia que gostava

Spotify conhece seu passado musical e quer investir na personalização para moldar seu futuro


NATE BERG – Fast Company Brasil – 12-05-2023 

A inteligência artificial saltou dos nichos tecnológicos mais nerds para o mercado de massa dos memes da cultura pop. Aquela clássica preocupação distópica sobre o surgimento de máquinas assassinas foi suplantada por uma questão bem mais imediata e consumista: como a IA pode nos entreter?

A resposta, aparentemente, é: de mil maneiras. Neste momento de futuro ameaçado, estamos explorando o imenso potencial da IA generativa e do aprendizado de máquina para uma ampla gama de novidades, desde escrever um comercial de TV até rejuvenescer o Indiana Jones ou vestir um casaco fofo no Papa.

O Spotify, gigante do streaming de música e player poderoso da indústria musical do século 21, acaba de entrar nessa briga com sua própria IA. Sua nova ferramenta  DJ usa IA generativa para criar uma voz que fala individualmente com usuários do aplicativo enquanto oferece uma lista de reprodução altamente personalizada, com base nos gostos e no histórico de cada um.

Em uma voz amigável que atende pelo nome de X, o DJ pode avisar a um usuário que vai tocar um gênero específico de música, pode desenterrar algumas das canções mais tocadas pelo ouvinte três anos atrás ou sugerir uma nova música de alguma banda que ele ainda não ouviu, mas é provável que goste.

PROCESSO TRANSPARENTE DE RECOMENDAÇÃO

Quando a ferramenta DJ foi lançada, em fevereiro, em versão beta para clientes premium nos EUA e no Canadá, gerou muita expectativa em clientes de fora dessas regiões. O mundo estava assistindo a um novo recurso sofisticado de inteligência artificial se conectar a um aplicativo muito familiar, que milhões de pessoas já usam diariamente. O poder da IA agora está criando listas de reprodução.

Mas o Spotify encara o seu DJ como muito mais do que um tempero de IA em um caldo criado por algoritmos. De acordo com a empresa, trata-se de uma ferramenta essencial para ajudar as pessoas a encontrar novas músicas de que realmente gostem.

Enquanto grande parte da internet está se tornando uma névoa incompreensível de curadoria algorítmica, o DJ do Spotify oferece uma janela de transparência em seu processo de recomendação.

AJUDAR AS PESSOAS A ENCONTRAR NOVAS MÚSICAS É FUNDAMENTAL PARA O MODELO DE NEGÓCIOS DO SPOTIFY, DANDO A ELAS MAIS MOTIVOS PARA CONTINUAR PAGANDO PARA OUVIR.

“Acredito que a descoberta de novas canções é uma necessidade humana fundamental”, diz Emily Galloway, diretora sênior de design de produto da equipe de personalização do Spotify. “Não acho que essa necessidade humana básica tenha mudado com o tempo, mas continuamos a tentar diferentes tipos de tecnologia para resolver isso e inovar nesse espaço”.

Ajudar as pessoas a encontrar novas músicas também é fundamental para o modelo de negócios do Spotify, dando a elas mais motivos para continuar pagando para ouvir. Acontece que a IA é uma maneira prática de fazer isso acontecer.

Mas o DJ vai além de vasculhar o histórico do usuário e sugerir novas músicas para tocar, o que o Spotify já fazia. O verdadeiro poder da IA é seu elemento vocal, baseado na voz lúdica do chefe de parcerias culturais do Spotify, Xavier “X” Jernigan.

O DJ X chama o ouvinte pelo nome, anuncia algumas músicas e fornece fatos ou informações sobre por que certos gêneros ou artistas estão sendo tocados. “Descobrimos que essa estratégia realmente faz sucesso porque as pessoas se abrem mais a escutar algo de que nunca ouviram falar se elas entenderem por que estão sendo recomendadas para aquela música”, diz Galloway.

Crédito: Spotify

O LADO HUMANO DA TECNOLOGIA

A IA generativa faz as recomendações e a função de voz, mas grande parte da personalidade dessa IA vem de uma sala cheia de profissionais humanos, bem vivos. Essa equipe tenta dar personalidade ao DJ X e trabalhar com os editores do app injetando conhecimento de música e cultura musical no recurso de IA, o que treina o algoritmo. No fim das contas, é mais ou menos isso o que você ouviria de um DJ de verdade em uma estação de rádio.

O VERDADEIRO PODER DA IA É SEU ELEMENTO VOCAL, BASEADO NA VOZ LÚDICA DO CHEFE DE PARCERIAS CULTURAIS DO SPOTIFY, XAVIER “X” JERNIGAN.

Chamar uma ferramenta de inteligência artificial de “DJ” certamente irritará algumas pessoas, principalmente os verdadeiros disc jockeys que se especializam em escolher a música certa para o momento certo. Galloway diz que dar nome a uma ferramenta é sempre complicado, mas que o DJ não está tentando substituir o formador de opinião humano.

“O que é mais exclusivo nessa experiência, em comparação com a maioria das coisas no Spotify, é aquilo a que sempre retornamos: tem uma voz falando com você”, diz ela. “Queríamos chamar o usuário pelo nome, para remeter a esse aspecto único.”

O objetivo do DJ é simplificar e filtrar os estimados 100 milhões de músicas e faixas da biblioteca do Spotify, ajudando os ouvintes a ouvir o que gostam, mas também sonoridades que ainda não sabem que gostam. E isso vale para os artistas e criadores de conteúdo que despejam suas criações em um catálogo infinito, que pode parecer um buraco negro.

“No final das contas, também estamos tentando otimizar a descoberta de novos sons e conduzir essas conexões profundas e significativas. Assim, temos que pensar em ouvintes e criadores e em promover esses encontros”, diz Galloway. “A personalização realmente está na raiz do Spotify.”


SOBRE O AUTOR

Nate Berg é jornalista e cobre cidades, planejamento urbano e arquitetura. 

https://fastcompanybrasil.com/co-design/ia-do-spotify-quer-te-ajudar-a-descobrir-o-que-voce-nem-sabia-que-gostava/

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Nossos clones digitais estão chegando

Plataforma Synthesia permite criar cópias virtuais de pessoas com IA

Ronaldo Lemos – Folha – 7.mai.2023 às 11h56

  • Dentre todas as mudanças que a inteligência artificial traz, uma das mais inquietantes é a possibilidade de criar cópias digitais de nós mesmos. A empresa Synthesia oferece o serviço. Você grava um vídeo de 15 minutos em frente a uma tela verde, com boa iluminação, e manda para lá. Dez dias depois a empresa habilita seu clone virtual criado usando IA. O clone é uma réplica não só da sua imagem, mas também da sua voz. O custo é uma taxa anual de US$ 1.000 (cerca de R$ 5.000), mais uma assinatura mensal de US$ 30 (R$ 150). Se a ideia é clonar só a voz, há empresas que oferecem o serviço por US$ 5 (R$ 25) mensais.

Uma vez que o clone é criado, você pode usá-lo em qualquer tipo de vídeo. Um professor pode dar uma aula com o clone (simplesmente inserindo o texto). Um político pode fazer um pronunciamento. Dá inclusive para escolher o cenário e até mudar o idioma (são 120 línguas disponíveis). Dá também para fazer ligações telefônicas com a voz clonada. E participar de videoconferências ao vivo. Está com preguiça de ligar a câmera no Zoom? Coloque o clone no seu lugar.

A evolução do deepfake, futuro da criação de conteúdo – Reprodução/Synthesia

Diante dessa novidade, o que poderia dar errado? Muita coisa. Uma jornalista do jornal Wall Street Journal chamada Joanna Stern resolveu testar as possibilidades. Ela criou seu clone digital e o colocou para interagir com pessoas no mundo real em situações diversas. Ligou para sua irmã com a voz clonada e a irmã acreditou que era ela. Ligou para seu pai pedindo que ele enviasse um número de documento sensível, e o pai enviou.

Ela também ligou para seu banco nos Estados Unidos, que usa reconhecimento de voz para autorizar o acesso ao atendimento. O banco reconheceu a voz como sendo a dela e autorizou o acesso ao sistema. Isso mostra que segurança será um dos desafios. Uma vez que a voz é clonada, ela pode ser usada em fraudes e crimes. Alguém pode usar sua voz para dar um golpe, fazer ameaças, calúnias e assim por diante.

Algumas empresas dizem ter filtros que impedem esse tipo de uso. Outras não tem nada disso. O que é preocupante porque em breve vai ser muito fácil clonar a voz de qualquer pessoa, mesmo sem o seu consentimento. Considerando que o Brasil é o paraíso dos golpes na internet (e que todos nossos dados pessoais vazaram e estão disponíveis online) é altamente recomendável conversar desde já com parentes e amigos para que comecem a duvidar de mensagens de voz enviadas no seu nome, mesmo que na sua própria voz. Na dúvida, vale fazer uma chamada de vídeo para se certificar de que a mensagem enviada é verdadeira.

PUBLICIDADE

Você pode pode perguntar: “mas, Ronaldo, a chamada de vídeo também não pode ser falsificada?”. Pode sim, só que a qualidade ainda não é boa. A jornalista do Wall Street Journal não conseguiu enganar por muito tempo as pessoas durante uma chamada de vídeo. Os participantes logo notaram que tinha algo de errado. Só que com o avanço da tecnologia, em breve a falsificação de vídeo vai se tornar cada vez mais perfeita. Com isso, bancos, certificadoras digitais e outros serviços que têm usado vídeo e voz para autenticar seus clientes estarão em maus lençóis. Junto com todos nós.



Já era – estúdios de fotografia especializados em tirar fotos da família

Já é – estúdios para gravação de podcasts

Já vem – estúdios especializados na criação de clones digitais para inteligência artificial

Ronaldo Lemos

Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2023/05/nossos-clones-digitais-estao-chegando.shtml

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Nem tudo é Maktub

Peço licença aos leitores e leitoras. Hoje não consigo escrever sobre economia. Um pouco, talvez

 Zeina Latif – O Globo 10/05/2023

 Meu pai foi um homem de sorte.

Nasceu em uma aldeia na Palestina, na época do mandato britânico, após a partilha do Império Otomano. O mundo dividido pelos vencedores da Primeira Guerra Mundial trouxe graves consequências históricas. Ao menos meu pai aprendeu inglês, atributo que lhe abriu muitas portas profissionais. Uma reflexão: por ironia, o domínio da língua inglesa pode ter contribuído para a Índia se inserir no mundo da tecnologia digital.

Jovem inquieto e desajeitado para seguir a profissão de pedreiro, dos familiares, contou com a sorte de ter um pai sábio, que o mandou estudar em Belém. Mais sorte ainda ter sido acolhido por uma família cristã, amiga do meu avô, mesmo ele sendo muçulmano. Não fosse isso, teria sido impossível realizar o sonho de estudar.

Foi, assim, acumulando capital humano por meio da escola. O conhecimento de matemática e o raciocínio lógico fizeram a diferença adiante. Papai não fugiu à evidência empírica quanto à importância da educação para a mobilidade social.

Na criação do Estado de Israel, a região de sua aldeia foi inicialmente incorporada à Jordânia. Isso não o poupou do trauma do conflito, que o fez passar por situações que uma criança não deveria, em meio ao pânico dos adultos, deixando marcas em sua personalidade. Mas, por sorte, escapou da morte e da Nakba. Seu vilarejo foi poupado da destruição, e sua família, mesmo mais empobrecida, foi preservada.

Jovens, em qualquer parte do mundo, precisam de perspectiva de futuro, algo que se perdeu na vida dura dos palestinos. Meu pai inquieto poderia ter engrossado a estatística daqueles que se desesperam, mas ele optou por emigrar aos 21 anos.

Utilizou suas economias, fruto de salário como técnico em contabilidade em banco na Jordânia, para comprar passagem na terceira classe do navio para o Brasil. Não sem antes prover algum conforto aos pais, como a compra de uma geladeira. Causou um grande espanto na aldeia, que não conhecia aquela modernidade.

Poucos dias após sua chegada, por sorte, conheceu minha mãe, estudante de Biologia (antiga história natural) da USP, que passava os finais de semana na casa dos pais, em Campinas. Só foi possível o diálogo entre eles por causa do domínio do inglês. O mascate tentava vender mercadoria para a senhora portuguesa, humilde e analfabeta.

Por sorte, ela se interessou pelo produto e chamou a filha, letrada, para tentar entender aquele rapaz de língua enrolada e com as mãos destreinadas machucadas pelo peso das mercadorias.

Por sorte, veio para um país que muito prometia. E ainda, para um estado que crescia rapidamente, São Paulo. Em pouco tempo deixou de ser mascate para se tornar professor de inglês de um executivo de uma multinacional. Foi a porta de entrada no mercado de trabalho formal.

Em um país aberto e acolhedor, ele não precisou se isolar em comunidades estrangeiras, algo comum em outros países. Teve sorte. Rapidamente se incorporou à sociedade. Muitos já não identificavam seu sotaque.

Bom de matemática, dialogava com os engenheiros em seus empregos. Assim, cresceu. Viveu o Brasil do milagre econômico, obteve crédito habitacional e tinha acesso a bons serviços públicos.

Como muitos imigrantes, era disciplinado e poupava bastante — um hábito menos presente nas classes médias daqui, com consequências econômicas e sociais. Sua poupança o permitiu, mais adiante, empreender no comércio. Ele conquistou a liberdade no Brasil e prosperou. A maioria ficou para trás, confinada em suas aldeias.

Ele sabia de seu grande esforço, mas também de sua sorte. Por isso mesmo, era grato a Deus e ao país que o acolheu. Entristecido pelos problemas brasileiros, me pediu para trabalhar para que meu filho não desista do Brasil. Hoje muitos preferem seus descendentes fora do país.

Sorte minha ter sido filha do Ibrahim. Pai rigoroso, não poupou esforços para que tivéssemos acesso a boas escolas. Apoiou, sem questionar, minha escolha de sair de casa para estudar Economia na USP, em São Paulo.

Na noite de sexta passada, meu pai fez sua passagem.

Que os mais humildes não dependam tanto da sorte para darem certo na vida. Que contem com liberdade e igualdade de oportunidades. Esse precisa ser o objetivo de todos os governantes.

Que os mais humildes não dependam tanto da sorte. Esse precisa ser o objetivo dos governantes.

https://oglobo.globo.com/economia/zeina-latif/coluna/2023/05/nem-tudo-e-maktub.ghtml

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

A linguagem inclusiva já está disponível

Se o seu objetivo não for polemizar a língua, nem desmerecer tanta gente que clama por ser incluída num discurso que as exclui desde sempre, vale o esforço.

Por Isabel Clemente* – Valor – 04/05/2023 

Pense no texto como uma estrada. Se for segura, bem pavimentada e sinalizada, não apresentar cruzamentos perigosos, você vai permanecer nela o tempo que for. Sem se preocupar com buracos, há uma grande chance de você ainda aproveitar a vista.

Um texto bom é um pouco assim. Você não esbarra em obstáculos nem cai em armadilhas. Toda palavra parece estar no lugar certo. A leitura flui. Quebra-molas na leitura são feitos de interrupções, explicações excessivas empilhadas numa única sentença. Fora os símbolos matemáticos. Sabe quando alguém insere barra na escrita? Porque não decidiu entre eu e ou, daí optou por e/ou? Tentou usar uma linguagem neutra de gênero e agregou asterisco, arroba e uma fileira de palavras separadas por barra?

As soluções que têm aparecido para minimizar o domínio do masculino na língua portuguesa não estão pacificadas. A polêmica é grande. Na verdade, é uma guerra. Já sabemos que símbolos tornam a leitura menos acessível a certos grupos, como pessoas com dislexia e deficiência visual dependentes de inteligência artificial. Todes não inclui todos e todas, então continuamos sem um pronome neutro que englobe todo mundo. E olha aqui “todo mundo” gritando na minha cara.

Não estávamos preparadas para questionar, lá atrás na escola, por que o plural seria sempre masculino mesmo que a maioria esmagadora do grupo fosse de meninas. É fato, gente, que isso foi uma arbitrariedade. A vigência do plural masculino e a tendência de se referir também ao masculino no singular em textos genéricos foi uma decisão tomada em algum momento da história da nossa língua. Herdamos uma sociedade patriarcal. E como representatividade tem tudo a ver com autoridade, quanto mais representantes de um grupo são vistos pela língua, mais espaço e poder eles têm, e menos relevância é dada aos demais. Como bem resumiu a escritora portuguesa Grada Kilomba, “a língua, por mais poética que possa ser, tem também uma dimensão política de criar, fixar e perpetuar relações de poder e violência, pois cada palavra que usamos define o lugar de uma identidade.”

Movimentos para tornar as línguas mais inclusivas estão acontecendo no mundo todo, em espanhol, francês, italiano, até árabe. A lista é longa e inesperada. Nem o alemão, com sua complicada sintaxe, escapou. Hannover foi a primeira cidade da Alemanha a adotar oficialmente uma linguagem mais inclusiva em seus comunicados, li no “Washington Post”. A iniciativa começou em 2019. Outro dia. Em vez de se referir ao eleitor ou a eleitora, por exemplo, eles preferem a pessoa que vota, o que não soa ruim.

Linguistas responsáveis pela atualização do Petit Robert, dicionário referência da língua francesa, decidiram incluir o pronome neutro iel (uma combinação de “lui” – ele – e “elle” – ela) porque seu uso havia aumentado muito na França. Despertou a ira dos tradicionalistas. O debate lá está quentíssimo. Tem um ensaio ótimo no Lit Hub caso você queira se aprofundar, intitulado “The makers of this French dictionary are under fire for including gender-inclusive language”.

Em 2015, boa parte da imprensa americana adotou o pronome “they”, do plural sem gênero do inglês, como pronome neutro e singular para se referir às pessoas independente do gênero. A prática se disseminou na literatura, nos jornais, na internet. Mesmo no inglês, língua que não sofre – como as latinas – influência tão marcante de gêneros nas palavras, a mudança foi polêmica. Houve chiadeira. Mas, olha que curioso, Shakespeare usava “they” no singular como pronome neutro porque o uso de “he” (ele) foi uma imposição dos gramáticos da era Victoriana.

Norma culta muda na marra sim. Alguém precisou parar de escrever farmácia com ph de uma hora para outra para se atualizar. Jogamos fora o acento agudo de plateia e outros. Abolimos a trema. O estilo da nossa escrita também mudou. Eu causaria espécie se começasse a escrever num estilo parnasiano-bucólico-pastoril. Escritores como Machado de Assis e Lima Barreto buscaram aproximar a escrita do discurso, num tempo em que aquela escrita mais natural não era aceita pela elite. Os modernistas retomaram com força esse ideal na semana de 1922. O gramático Evanildo Bechara lembra, em “Estudos da Língua Portuguesa”, que “todo movimento inovador, qualquer que seja a natureza, tem sempre seu lado iconoclasta, isto é, pretende derrubar conceitos e preconceitos arraigados por uma tradição, substituindo-os por novos parâmetros, que o tempo se encarregará de minimizar ou apodrecer.”

Dito tudo isso, eu só queria chamar sua atenção para uma forma de escrever mais inclusiva com os recursos que a língua já tem. Vai facilitar a conexão com as pessoas que você quer alcançar, independentemente se você já adotou todes, resiste a ele ou não sabe o que pensar a respeito. Tem tempo para refletir.

Vou listar algumas soluções bem simples.

A saudação “boa noite a todos, todas e todes que vieram me prestigiar”, tão comum em lives nas redes sociais, é longa. A comunicação eficaz deve mirar também nas pessoas que carregam crenças com as quais discordamos. Não seria mais natural um “boa noite a vocês que vieram me prestigiar”? Ou, melhor ainda, “boa noite para você que está me assistindo”, já que assistir a um vídeo é uma atividade individual? O singular cria uma intimidade ainda maior no distante mundo digital. E ainda tem caminhos mais informais, como um “boa noite, pessoal, gente, galera, turma, povo”, quem sabe “malta”. Esse eu trouxe de Portugal. Adoro.

O mundo corporativo tem muitos desafios nesse campo. Que tal se referir à clientela em vez de o cliente; liderança ou alta gerência, em vez de top executivos ou os chefes? Funcionários podem ser um time, ou a equipe. Por que não trocar os informes destinados a “investidores” para “quem investe”? Acionistas sem artigo antes também resolve. Uma grande empresa anuncia em seu site de forma quase isenta “precisamos de profissionais plurais e versáteis, abertos ao diálogo e ao contraditório”. Sem “abertos”, podia ter completado a frase com “que saibam dialogar e lidar com o contraditório”.

Às vezes, o segredo é evitar adjetivos e recorrer aos substantivos originais para elaborar frases que não fechem num gênero só. Uma empresa pode ser mais inovadora se, em vez de anunciar “aqui somos inovadores”, apostar mais na “procura incessante por inovação”.

O português tem lindas palavras neutras. Aprendemos que elas são “comum de dois” porque era assim que se dizia então, mas elas são neutras. É só usar sem o artigo. Estudantes, artistas, jornalistas, juristas, profissionais. Sua lista particular deve ter mais. Limar artigos não costuma dar problema, pelo contrário, torna inespecífico o grupo ao qual se dirige. Por exemplo: um comunicado direcionado “a profissionais com mais de dez anos de casa” não é o mesmo que um comunicado direcionado “aos profissionais” ou aos “muitos profissionais”. Resista a “muitos” e “os” porque não fará diferença. Sem artigo, empregadores podem ser chamados de contratantes; e chefe pode entrar sem drama e sem artigo. Num texto bem formulado, fornecedores estão na lista das parcerias comerciais, dos fornecimentos. Aliás, sabia que não existe artigos em latim?

Nem sempre dá para fugir das palavras com gênero, nem encontrar rotas alternativas. Faz parte. Você deverá levar em conta audiência, contexto e propósito do texto. Escolha a coerência e a elegância. Sempre dá para ampliar o alcance do que se quer dizer com repertório e criatividade. Se o seu objetivo não for polemizar a língua, nem desmerecer tanta gente que clama por ser incluída num discurso que as exclui desde sempre, vale o esforço.

A escrita é um meio para sensibilizar, informar, seduzir, convencer e divertir. Qualquer que seja sua intenção, é preciso incluir técnicas para cativar sua audiência, evitando cacos e ruído. Vivemos tempos de muitos conflitos. Trazer mais gente para o debate tornou-se urgente. Uma linguagem inclusiva é das ferramentas mais poderosas que temos à mão para chegar lá, pavimentando nossa estrada com palavras mais amistosas.

*Carioca, é formada em Jornalismo pela PUC-Rio e mestre em Escrita Criativa pela Royal Holloway, University of London

https://valor.globo.com/opiniao/isabel-clemente/coluna/a-linguagem-inclusiva-ja-esta-disponivel.ghtml

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Inteligência artificial já corrige redações, explica exercícios de matemática e ensina programação

Desenvolvimento da tecnologia oferece ferramentas que já estão mudando as rotinas escolares, mas especialistas apontam formas adequadas de uso

Por Bruno Alfano — O Globo – 07/05/2023 

Alunos do Poliedro aprendem a programar com ajuda do ChatGPT Divulgação

A professora de redação Sileyr Ribeiro, de 31 anos, tem em média 35 alunos do 3º ano do ensino médio se preparando para o Enem na rede estadual do Espírito Santo. Cada um faz 20 redações ao ano, o que dá pelo menos 3.500 textos para corrigir com a máxima atenção que o desafio exige. Desde o ano passado, no entanto, Syleir divide a tarefa com uma máquina.

O atual nível de desenvolvimento da inteligência artificial oferece ferramentas que já estão mudando as rotinas escolares. A tecnologia vem chegando através de plataformas contratadas por redes de ensino públicas e privadas e também da criatividade dos professores que lançam mão dos recursos gratuitos disponíveis como o ChatGPT ou o Midjourney.

Em vez de usar o tempo para correção manual das redações, a professora Sileyr ganhou horas extras para se dedicar à análise dos dados que indicam os avanços ou dificuldades de cada estudante. Um ganho na eficiência pedagógica porque ela pode, assim, identificar problemas pontuais ou coletivos de aprendizagem de forma muito mais precisa e ágil. A plataforma utilizada é a Letrus, que está em todas as escolas da rede estadual do Espírito Santo.

— A inteligência artificial é uma ferramenta à disposição e não um substituto do docente. O professor trabalha junto à plataforma e não em função dela. É parte do processo que o docente acompanhe o passo a passo da execução das tarefas, que dê exemplos para a turma, faça correções individuais de alguns exercícios e planeje intervenções de acordo com os resultados obtidos — analisa a professora, que defende a tecnologia como aliada. — A plataforma auxilia ao reunir os dados para otimizar o trabalho do professor.

A lógica da inteligência artificial não tem fronteiras e pode ser aplicada a diversas áreas do conhecimento. Um núcleo de pesquisa da Universidade Federal de Alagoas desenvolve uma tecnologia em que o próprio aluno fotografa a questão solucionada e a submete ao robô que vai corrigi-la e, ao mesmo tempo, esmiuçar os erros no processo de resolução. A ferramenta, que já vai ser testada em escolas, ajuda a descobrir os conceitos que não foram bem assimilados pela turma.

— A nossa ideia foi construída a partir do contexto da escola pública brasileira. Tem computador em sala? Não. Tem um dispositivo para cada aluno? Não. Então, o estudante faz toda a atividade no papel da forma como faz hoje tradicionalmente e nós construímos um sistema tutor de inteligência, que vai auxiliar o aluno e entender suas dificuldades — diz Ig Ibert Bittencourt, professor da Ufal que está em Harvard.

A iniciativa é fruto do trabalho do especialista que, neste momento, desenvolve com outros pesquisadores uma nova área de exploração da tecnologia aplicada ao ensino, chamada de IA na educação desplugada. O conceito é que a unidade de ensino não precisa dispor de um aparato gigantesco de máquinas para se beneficiar dos avanços tecnológicos.

— Não adianta demandar um arsenal de equipamentos que nunca vão chegar para quem mais precisa, os alunos da educação pública. Ao mesmo tempo, cria soluções que com certeza poderão auxiliar milhões de professores e alunos de diferentes realidades do país — pontua.

‘Personalização extrema’

Algumas plataformas contam com serviços similares ao da Letrus no ensino de outras línguas. Basicamente porque medem tanto a evolução coletiva quanto a individual da aprendizagem. Além disso, elas funcionam mediando as tarefas que os alunos precisam fazer. Se ele vai melhor, recebe exercícios mais difíceis. Se errar algum ponto, tem aquele conteúdo trabalhado com mais ênfase. Uma dessas plataformas é a Edify.

— O futuro é da personalização ao extremo. Um aluno que gosta mais de esporte terá um tipo de conteúdo diferente do que prefere games, mas os dois vão estar trabalhando a mesma competência, o mesmo objetivo linguístico de diferentes formas — diz Marina Dalbem, CEO da Edify.

Doutor em Engenharia da Informação na Universidade de Osaka (Japão), com tese na área de inteligência artificial aplicada à educação, e professor de Harvard, Seiji Isotani diz que a tecnologia deveria estar mais presente na escola na medida em que as habilidades digitais são fundamentais na contemporaneidade:

— Se a gente não introduzir as tecnologias no ambiente escolar, haverá um problema na nossa percepção de educação de qualidade.

No exterior, conta o especialista, o acesso mais facilitado à tecnologia de ponta permite pedagogias imersivas. Um aluno consegue, por exemplo, abrir um corpo humano utilizando realidade aumentada para entender o funcionamento dos órgãos visualmente.

— Há uma disrupção pedagógica acontecendo que a gente precisa pensar. Ela se dá integrando a tecnologia de maneira persistente e coerente em todo o processo de aprendizagem, em vez de só usar a tecnologia de maneira pontual — afirma.

Frenesi do ChatGPT

Por aqui, as escolas também começaram a utilizar o ChatGPT, ferramenta que viveu um frenesi de popularidade depois de ser liberada e impressionar muita gente pela sua capacidade de produzir conteúdo. Junto do sucesso, veio a preocupação da comunidade escolar com plágio. Se a máquina pode produzir textos inéditos, como garantir que os estudantes não a utilizem para que a IA faça suas atividades? Algumas redes de ensino proibiram o uso. Outras decidiram incorporá-lo.

Professor de pensamento computacional, Israel Peres, do Poliedro, pede para que os alunos façam consultas ao ChatGPT sobre formas de interligar equipamentos como um sensor de distância para que ele tenha certa funcionalidade.

— Existe um exercício de expressão. O aluno tem que se expressar muito claramente e de forma objetiva para que a máquina entenda. O estudante sabe que precisa de uma contextualização para resolver o problema, senão a IA não vai entender o objetivo final e não vai entregar o resultado esperado — afirma.

Apesar de impressionar, o ChatGPT não é oráculo. O pior é que, quando ele não sabe, inventa. Perguntado quem é Bruno Alfano (o autor desta reportagem), a plataforma inventou uma biografia, apontando lugares onde o repórter não trabalhou e até atribuindo a ele a autoria de um livro que nem existe. Na avaliação de Peres, é preciso aprender a fazer as perguntas para usá-lo adequadamente:

— Tem aluno que desiste de usar porque, às vezes, dá mais trabalho explicar o que quer para o ChatGPT do que realizar a atividade.

Já Isotani defende que não só a ferramenta seja aprimorada para estar em sala de aula, mas que alunos e escolas também se preparem para sua utilização. Do ponto de vista pedagógico, diz o especialista, tem que ser explorada como um “companheiro de aprendizagem”. Isso significa que não se pode esperar que o ChatGPT tenha 100% das respostas.

— O aluno precisa ter a capacidade de identificar se o que a máquina produziu está correto e, se for o caso, ir melhorando o resultado. Esse é o melhor jeito de usar o ChatGPT: fazendo perguntas, recebendo dicas e sanando as dificuldades até que se consiga aprender um determinado conteúdo — defende o professor de Harvard.

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Thomas Friedman: ChatGPT e mudança climática são duas gigantes caixas de Pandora

Por Thomas L. Friedman – Estadão/New York Times – 07/05/2023

Se lidarmos com a IA com a mesma negligência que lidamos com a aurora das redes sociais vamos quebrar coisas com mais rapidez, mais força e mais profundidade do que qualquer um possa imaginar

O dicionário Merriam-Webster observa que uma “caixa de Pandora” pode ser “qualquer coisa que pareça algo ordinário, mas seja capaz de produzir males imprevisíveis”. Tenho pensado muito em caixas de Pandora ultimamente, porque nós, Homo sapiens, estamos fazendo uma coisa que nunca fizemos antes: abrindo duas caixas de Pandora ao mesmo tempo, sem nenhuma ideia do que poderá sair de dentro delas.

Uma é rotulada como “inteligência artificial”, exemplificada por plataformas como ChatGPT, Bard e AlphaFold, que atestam, pela primeira vez, a capacidade da humanidade de manufaturar algo divinal, que se aproxima da inteligência em geral, excedendo em enorme medida a capacidade intelectual com a qual nós evoluímos naturalmente.

A outra caixa de Pandora é rotulada como “mudanças climáticas”, e com ela, nós, humanos, estamos pela primeira vez determinando de maneira divinal a transição de uma era climática para outra. Até aqui, esse poder restringia-se amplamente às forças naturais envolvendo a órbita da Terra em torno do sol.

Para mim, a grande dúvida, conforme abrimos as caixas simultaneamente, é: que tipo de regulações e ética temos de instaurar para lidar com o que sair voando de dentro delas?

Sejamos sinceros, nós não compreendemos o quanto as redes sociais seriam usadas para minar os dois pilares fundamentais de qualquer sociedade livre: a verdade e a confiança. Então, se nós lidarmos com a IA generativa com a mesma negligência — se adotarmos novamente o mesmo mantra inconsequente pronunciado por Mark Zuckerberg na aurora das redes sociais, “mova-se rápido e quebre coisas” — meus amigos, nós vamos quebrar coisas com mais rapidez, mais força e mais profundidade do que qualquer um possa imaginar.

“Houve uma falha de imaginação quando as redes sociais foram lançadas e depois uma falha em não responder responsavelmente às suas consequências não imaginadas uma vez que elas permearam as vidas de bilhões de pessoas”, disse-me Dov Seidman, fundador e presidente do HOW Institute for Society e da LRN. “Nós perdemos muito tempo — e o nosso caminho — no pensamento utópico de que apenas coisas boas poderiam resultar das redes sociais, por simplesmente conectar as pessoas e dar-lhes uma voz. Nós não podemos permitir falhas similares com a inteligência artificial.”

Portanto existe “um imperativo urgente — tanto ético quanto regulatório — para que essas tecnologias de inteligência artificial devam ser usadas apenas para complementar e elevar o que nos torna singularmente humanos: a criatividade, a curiosidade e, na nossa expressão mais sublime, a capacidade de ter esperança, ética, empatia, determinação e de colaborar com os demais”, acrescentou Seidman (membro da diretoria do museu fundado por minha mulher, o Planet Word).

“O ditado que diz, ‘Com grande poder vem grande responsabilidade’, nunca foi tão verdadeiro. Nós não conseguiremos suportar uma outra geração de tecnologistas proclamando sua neutralidade ética e nos dizendo, ‘Ei, nós somos apenas uma plataforma’, enquanto essas tecnologias de IA estão possibilitando formas exponencialmente mais poderosas e profundas de empoderamento humano e interação.”

Por esses motivos, eu questionei James Manyika, que dirige a equipe de tecnologia e sociedade do Google e o Google Research, onde está sendo conduzida grande parte dessa inovação em IA, em busca de sua opinião a respeito das promessa da IA e seus desafios.

“Nós temos de ser ousados e responsáveis ao mesmo tempo”, afirmou ele. “A razão para sermos ousados é que, em tantos campos diferentes, a IA tem potencial para ajudar as pessoas com tarefas cotidianas e enfrentar alguns dos maiores desafios da humanidade — como assistência de saúde, por exemplo — e ocasionar novas descobertas científicas, inovações e ganhos em produtividade que levarão a uma prosperidade econômica maior.”

A inteligência artificial fará isso, acrescentou ele, “dando às pessoas de todas as partes acesso à totalidade do conhecimento do mundo — em suas próprias línguas, em seus meios de comunicação preferidos, via texto escrito, fala, imagens ou código”, entregues por smartphones, TVs, áudios ou e-books. Muito mais gente conseguirá obter a melhor assistência e as melhores respostas para melhorar suas vidas.

Mas nós também temos de ser responsáveis, acrescentou Manyika, citando várias preocupações. Primeiro, essas ferramentas precisam ser totalmente alinhadas com os objetivos da humanidade. Segundo, nas mãos erradas, essas ferramentas poderiam causar um dano enorme, seja em se tratando de desinformação, falsificações perfeitas ou ataques de hackers (os bandidos estão sempre entre os primeiros a adotar novas tecnologias).

Finalmente, “a engenharia está à frente da ciência em certa medida”, explicou Manyika. Ou seja, até as pessoas que estão construindo esses ditos grandes modelos de linguagem, subjacentes em produtos como ChatGPT e Bard, não entendem completamente como eles funcionam e o escopo total de suas capacidades. Nós somos capazes de projetar e construir sistemas de IA extraordinariamente capazes, acrescentou ele, que podem ser expostos a alguns poucos exemplos de aritmética ou a uma língua rara ou a explicações de piadas e serem capazes de começar a fazer muitas outras coisas com esses poucos fragmentos impressionantemente bem. Em outras palavras, nós não entendemos completamente ainda quais coisas boas ou ruins esses sistemas são capazes de fazer.

Portanto, nós precisamos de alguma regulação, mas isso tem de ser feito cuidadosamente e de modo iterativo. Um regime único não dará conta de tudo.

Por quê? Bem, se estivermos mais preocupados a respeito de a China superar os EUA em inteligência artificial, vamos querer turbinar nossa inovação em IA, não diminuir seu ritmo. Se quisermos democratizar verdadeiramente a IA, podemos nos sentir tentados a abrir seu código-fonte. Mas códigos abertos podem ser explorados. E o que o Estado Islâmico faria com o código? Então temos de pensar em controles de armamentos. Se estivermos preocupados com a possibilidade de sistemas de IA agravarem discriminações, violações de privacidade e outros males sociais facciosos, da maneira que as redes sociais fazem, vamos querer regulações o quanto antes.

Se quisermos tirar vantagem de todos os ganhos em produtividade que a IA deverá gerar, vamos precisar de foco na criação de novas oportunidades e redes de segurança para todos os assistentes jurídicos, conselheiros financeiros, tradutores e trabalhadores que cumprem tarefas repetitivas que poderiam ser substituídos imediatamente — e talvez advogados e programadores amanhã. Se estivermos preocupados com a possibilidade da IA se tornar superinteligente e começar a definir seus próprios objetivos, independentemente de levar em consideração ou não o estrago para os humanos, vamos desejar impedi-la imediatamente.

Isso é tão real que, na segunda-feira, Geoffrey Hinton, um dos pioneiros nos projetos de sistemas de inteligência artificial, anunciou que estava deixando a equipe de IA do Google. Hinton afirmou acreditar que o Google está se comportando responsavelmente com o desenvolvimento e a aplicação de seus produtos de IA, mas que queria estar livre para falar abertamente a respeito de todos os riscos. “É difícil ver como seríamos capazes de evitar que atores perversos a usassem para cometer maldades”, disse Hinton a  Cade Metz, do Times.

Porque quanto mais ampliarmos a escala da inteligência artificial, mais a regra dourada precisará ser ampliada: faça às pessoas o que você gostaria que fizessem por você”

Isso tudo somado diz uma só coisa: nós, enquanto sociedade, estamos na iminência de ter de decidir a respeito de algumas contrapartidas bem grandes à medida que introduzimos a IA generativa.

E regulação do governo, sozinha, não nos salvará. Eu tenho uma regra simples: quanto maior o ritmo da transformação e maiores os poderes divinais que a humanidade desenvolve, mais tudo o que é antigo e vagaroso importa como nunca; mais tudo o que você aprendeu na escola dominical — ou em onde quer que você tenha encontrado sua inspiração ética — importa como nunca.

Porque quanto mais ampliarmos a escala da inteligência artificial, mais a regra dourada precisará ser ampliada: faça às pessoas o que você gostaria que fizessem por você. Porque dados os poderes cada vez mais divinais dos quais nos estamos dotando, todos nós seremos capazes de fazer coisas às outras pessoas com mais rapidez, economia e profundidade do que nunca antes.

O mesmo vale quando se trata da caixa de Pandora climática que estamos abrindo. Como a Nasa explica em seu website, “Nos 800 mil anos passados, nós tivemos oito ciclos de eras glaciais e períodos mais quentes”. A era glacial mais recente acabou cerca de 11,7 mil anos atrás, dando espaço para nossa atual era climática — conhecida como  Holoceno (que significa “inteiramente recente”) — que foi caracterizada por estações estáveis que permitiram agricultura estável, a construção das comunidades humanas e, em última instância, a civilização como a conhecemos hoje.

“A maioria dessas mudanças climáticas é atribuída a variações muito pequenas na órbita da Terra, que alteram a quantidade de energia solar que nosso planeta recebe”, nota a Nasa.

Bem, diga adeus a esse passado. Há atualmente uma discussão intensa entre ambientalistas — e geólogos da União Internacional das Ciência Geológicas, a organização profissional responsável por definir as eras geológico/climáticas da Terra — a respeito da humanidade ter se retirado do Holoceno e ocasionado uma nova era, chamada Antropoceno.

Esse termo vem “de ‘antropo’, que designa ‘humano’, e ‘ceno’, que significa ‘novo’— porque a humanidade causou extinções em massa de espécies de plantas e animais, poluiu os oceanos e alterou a atmosfera, entre outros impactos duradouros”, explicou um artigo da Smithsonian Magazine.

Cientistas que estudam o sistema terrestre temem que esta era fabricada pelo homem, o Antropoceno, não terá nenhuma das estações previsíveis do Holoceno. A produção agrícola poderia se tornar um pesadelo.

Mas, nesse aspecto, a inteligência artificial poderia ser nossa salvadora: apressando descobertas na ciência de materiais, densidades de baterias, fusão como fonte de energia e uma energia nuclear modular e segura que possibilitem aos humanos administrar os impactos das mudanças climáticas inevitáveis neste momento e evitar outros efeitos inimagináveis.

Mas, se a inteligência artificial nos permite uma maneira de atenuar os piores efeitos das mudanças climáticas — se a IA, com efeito, nos der uma segunda oportunidade —, melhor seria que a aproveitássemos corretamente. Isso significa mais regulações inteligentes para ampliar rapidamente a escala da energia limpa e a escala dos valores de sustentabilidade. A não ser que disseminemos uma ética de conservação — uma reverência à natureza selvagem e a tudo o que nos provê ar limpo e água limpa — nós poderíamos terminar em um mundo em que as pessoas se sentem no direito de dirigir através da floresta tropical, já que seus Hummers são movidos totalmente a eletricidade. Isso não pode acontecer.

Conclusão: essas duas grandes caixas de Pandora estão abrindo. Deus nos salve se nós adquirirmos poderes divinais suficientes para abrir o Mar Vermelho, mas não dimensionarmos os Dez Mandamentos. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

https://www.estadao.com.br/internacional/thomas-friedman-chatgpt-e-mudanca-climatica-sao-duas-gigantes-caixas-de-pandora/

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Uma máquina que lê mentes? Entenda como cientistas conseguiram transformar pensamentos em palavras

Resultados obtidos pelo melhor sistema de leitura de mente já produzido são impressionantes. Entenda como o estudo foi feito

Por Fernando Reinach – Estadão – 06/05/2023 

Imagine você deitado em uma máquina que monitora seu cérebro. Aí você pensa para si mesmo “eu preciso tirar minha carteira de motorista”. Ao lado um computador que processa a atividade que ocorre em seu cérebro, submete a imagem da atividade cerebral a um decodificador, e na tela aparece a frase “eu ainda não aprendi a dirigir”. O que aparece na tela não é exatamente o que você pensou, mas é muito parecido. Esse é o tipo de resultado obtido com o melhor sistema de leitura de mente já produzido. Não é perfeito, mas é impressionante. Vale a pena entender como esse sistema funciona e suas implicações na privacidade do pensamento humano.

A máquina onde o voluntário se deita é um equipamento de ressonância magnética funcional, similar ao usado nos hospitais para obter imagens do nosso corpo. A diferença é que ele é capaz de detectar a quantidade de oxigênio no sangue que circula em cada pedacinho de nosso cérebro. Mas, ao invés de tirar uma foto, como fazem os existentes nos hospitais, ele faz um filme. Nesse filme é possível observar como a quantidade de oxigênio no sangue que circula em cada milímetro cúbico do cérebro varia ao longo do tempo.

Quando os neurônios em um dado local do cérebro estão ativos, eles consomem mais oxigênio e o nível de oxigênio baixa no sangue. Quando os neurônios entram em repouso, o nível de oxigênio volta ao normal. Dessa maneira, o filme produzido por esse equipamento mostra que áreas do cérebro estão ativas ou inativas a cada momento.

Exemplo: quando uma pessoa fecha os olhos, a parte do cérebro que recebe os impulsos vindos da retina diminui sua atividade e isso aparece no filme. Esse equipamento tem sido usado para descobrir as áreas do cérebro que são ativadas durante diferentes atividades, como o andar, o sonhar, o falar, o imaginar e assim por diante. É um instrumento poderoso.

Nesse experimento, três voluntários deitaram nessa máquina com um fone de ouvido e, por 16 horas, ficaram ouvindo uma série de podcasts. Durante todo esse tempo a atividade dos neurônios de cada microrregião de seus cérebros foi registrada. Desse modo, cada vez que a pessoa ouvia uma frase, a máquina de ressonância registrava as áreas do cérebros que estavam ativas.

No final, os cientistas tinham um filme de 16 horas de atividade cerebral e a correspondente trilha sonora (o podcast) que tinha provocado a resposta do cérebro a cada palavra ou frase ouvida. Esses dados foram usados para treinar um sistema de inteligência artificial capaz de correlacionar padrões de atividade cerebral a frases. O resultado desse treinamento é um software decodificador, capaz de transformar cada padrão de atividade cerebral em uma palavra ou frase.

De posse desse decodificador, os cientistas fizeram o inverso: pediram aos voluntários que imaginassem narrativas. Enquanto eles imaginavam as frases na mente, a máquina de ressonância registrava a atividade em todo o cérebro e submetia o filme ao decodificador. Esse, por sua vez, tentava deduzir, a partir das imagens da atividade cerebral, o que os voluntários estavam pensando.

É o exemplo acima: imagino que ainda preciso tirar a carta de motorista e o decodificador informa que ainda não sei dirigir. O resultado não é perfeito, e está longe de acertar sempre, mas é impressionante como o decodificador consegue não só descobrir o que os voluntários estavam pensando, mas colocar em palavras esses pensamentos. Para surpresa dos cientistas, o decodificador consegue descrever não só pensamentos que envolvem palavras ouvidas ou imaginadas mas também pensamentos que envolvem imagens ou filmes mudos. Se você mostra para o voluntário uma foto de uma menina, o sistema escreve menina na tela. Ou seja, ao ver a imagem da menina, o cérebro do voluntário é ativado em regiões semelhantes às ativadas quando a pessoa ouve a palavra menina.

Esse experimento mostra que estamos chegando perto de deduzir o que se passa na mente de uma pessoa simplesmente observando que áreas do seu cérebro estão ativas. Em teoria, no futuro, uma pessoa não vai precisar nos contar o que está pensando ou sentindo, basta observar a atividade cerebral dessa pessoa para saber o que se passa pela mente da pessoa. As implicações morais e éticas do uso dessa tecnologia são enormes. Hoje nossos pensamentos só podem ser descobertos por outra pessoa se nós os relatarmos.

Esse reduto de privacidade pode, em teoria, deixar de existir. Esse sistema pode ser usado em interrogatórios policiais substituindo os polígrafos, ou mesmo sessões de tortura em interrogatórios. Mas não se preocupe, esses sistemas ainda são imprecisos e os decodificadores (que transformam as imagens em palavras) são específicos para cada pessoa, ou seja, o decodificador construído para um voluntário não funciona em outro voluntário. O mais impressionante é que estamos começando entender como a mente é produzida pelo cérebro.

Mais informações: Semantic reconstruction of continuous language from non-invasive brain recordings. Nat Neurosci https://doi.org/10.1038/s41593-023-01304-9 2023

Fernando Reinach é biólogo

https://www.estadao.com.br/ciencia/fernando-reinach/uma-maquina-que-le-mentes-entenda-como-cientistas-conseguiram-transformar-pensamentos-em-palavras/

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/