Fundadores de startups de sucesso lideram uma nova geração de investidores

O Brasil está formando um exército de novos investidores de startups. Quem está por trás dos aportes pode oferecer muito mais do que dinheiro

Por Rodrigo Loureiro

Publicado em: 27/08/2020

A pandemia marcou a dominação definitiva das empresas de tecnologia. O Mercado Livre, varejista online criado em 1999 e que já vale quase 60 bilhões de dólares, conquistou o posto de maior companhia da América Latina, deixando tradicionais gigantes, como Vale e Petrobras, para trás. Um mês antes, a montadora de carros elétricos Tesla, criada por um empresário que fez fortuna com um meio de pagamento digital e agora quer desbravar Marte, tornou-se a mais valiosa do planeta ao ser avaliada em 206 bilhões de dólares e ultrapassar a japonesa Toyota. As cinco maiores empresas do planeta também são de tecnologia e já somam valor de mercado superior a 7 trilhões de dólares.

A Apple, sozinha, vale 2 trilhões. A maior fortuna do planeta? Também é de um empresário tech — Jeff Bezos, com quase 200 bilhões de dólares. Tanto no mundo quanto no Brasil a pandemia acelerou a criação de startups de tecnologia. Somente no Brasil, o número de startups triplicou nos últimos cinco anos, chegando a 12.655 empresas no final de 2019 — 26,5% mais do que em 2018. Também no ano passado, investidores aportaram mais de 4,6 bilhões de dólares em operações da América Latina. O Brasil ficou com 58% desse volume, de acordo com dados da Associação para Investimento de Capital Privado na América Latina (Lavca). Mesmo assim, o Brasil carece de investidores que turbinem negócios promissores ainda em estágios iniciais. A boa notícia: empreendedores que já criaram seus negócios aproveitaram a pandemia para acelerar os investimentos. É a roda do capitalismo tech girando.

Uma pesquisa da organização Anjos do Brasil, que fomenta o investimento-anjo no país, e obtida com exclusividade pela EXAME, mostra que o valor aportado por empresas brasileiras nesse tipo de investimento, considerado um pontapé financeiro para as startups, foi pouco superior a 1 bilhão de dólares em 2019. Mesmo com um crescimento de 9%, o valor é menos de 4% do registrado nos Estados Unidos durante o mesmo ano, de 25 bilhões de dólares, conforme um relatório da Angel Capital Association. Essa diferença torna o Brasil um país com solo pouco fértil para jovens empresas. Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) mostram que, de 1.044 startups, pelo menos 30% delas não sobreviveram ao ano de 2018. Dessas, 40% culparam a dificuldade de acesso a capital. Se as empresas já sofrem para conseguir deslanchar suas operações, fica mais difícil que um dia o país possa criar titãs da indústria no mesmo patamar do Mercado Livre. “Para que existam mais startups e para que elas sejam mais maduras, é preciso aumentar a pirâmide”, diz Cassio Spina, fundador da Anjos do Brasil. “Isso começa pela base.”

Esses anjos são empreendedores que já atingiram o sucesso em startups e agora querem armar seus discípulos com dinheiro e experiência para alavancar suas operações. São fundamentais na guerra contra as desfavoráveis probabilidades num país que insiste em ser pouco camarada com negócios promissores. “Decidimos aplicar na Canary um modelo em que empreendedores ativos investem em startups”, diz Mate Pencz, cofundador da Loft, ao lado de Florian Hagenbuch. Pencz refere-se à Canary, fundo de investimento criado em 2016 pelos fundadores da Loft, além de Julio Vasconcelos, do Peixe Urbano, e Marcos Toledo e Patrick Picciotto, da gestora M Square. Em pouco tempo, a Canary tornou-se uma espécie de clube dos fundadores brasileiros de ­start­ups que agora querem investir em novos negócios. Nessa lista estão nomes como David Vélez (Nubank), Benjamin Gleason (Guiabolso), Paulo Veras (99), Israel Salmen (Méliuz) e Fernando Gadotti (Dog­Hero). Mike Krieger, cofundador do Instagram, e Hugo Barra, executivo com passagens por gigantes como Facebook, Google e Xiao­mi, também já se envolveram com o fundo.

É um movimento que já aconteceu lá fora. Empreendedores como Jeff Bezos (Amazon), Jack Ma (Alibaba), Jack Dorsey (Twitter), Bill Gates (Microsoft) e Marc Benioff (Salesforce) passaram a se sentar do outro lado da mesa nas reuniões entre empreendedores e investidores. “É um fundo baseado em rede. Queríamos aproximar os fundadores de empresas de tecnologia que já queriam ajudar”, diz Toledo, que atuou como investidor do banco americano JP Morgan e passou pela gestora de investimentos M Square antes de fundar o Canary.

Já são mais de 60 empresas que receberam investimentos da Canary, que no ano passado informou ter mais de 75 milhões de dólares para injetar em operações brasileiras. Entre as empresas investidas estão companhias como a Buser, de compartilhamento de viagens de ônibus; SouSmile,­ healthtech odontológica; e Volanty, e-commerce de carros usados. Os detalhes sobre como essas startups são escolhidas são guardados em segredo, mas sabe-se que os nomes são debatidos entre os sócios do fundo na tentativa de encontrar um novo unicórnio — nome dado a uma empresa avaliada em mais de 1 bilhão de dólares, caso de companhias como Nubank, 99, iFood e PagSeguro.

Entre os empreendedores/investidores do país está Diogo Roberte, um dos fundadores da fintech PicPay, que em agosto deixou a sociedade da companhia e anunciou que se dedicaria a turbinar novos negócios. Entre as investidas estão a Mora Rocks, de moradias a preços acessíveis, a Clarke, que otimiza custos com energia, e a Capsu, que redesenha moradias populares. Aos novatos, empreendedores como Roberte levam um conhecimento de gestão e um olhar aguçado sobre mercados promissores para o futuro. Alessio Alionço, fundador da Pipefy, startup que atua com sistemas de gerenciamento profissional e recebeu 63 milhões de dólares em investimentos, já se beneficiou de investidores mentores. Entre eles estão Morten Primdahl e Alexander Aghassipour, fundadores da desenvolvedora de soft­wares Zendesk. “Invisto em startups em que posso fazer a diferença no crescimento, onde me sinto mais confortável para tomar risco”, afirma ­Alionço.

Já foram quatro negócios apoiados por investimentos que fez sozinho, na faixa de 10.000 a 50.000 reais, ou por fundos de capital de risco. O discurso é semelhante ao de Diego Martins, da Acesso Digital, startup que atua com sistemas de identificação e já captou 40 milhões de reais. “Os melhores investidores são aqueles que estão devolvendo um pouco da experiência”, diz Martins, que já investiu em sete empresas desde o começo do ano. O em­preendedor se refere ao que aconteceu com sua operação quando teve a mentoria da Endeavor, organização sem fins lucrativos que fomenta o empreendedorismo no Brasil.

“Ser empreendedor pode ser um papel muito solitário. Por isso, ter alguém do seu lado que já passou pelos mesmos problemas é fundamental”, afirma Maria Teresa Fornea, fundadora da startup Bcredi, que atua com o oferecimento de crédito imobiliário. Em um ambiente majoritariamente masculino, em que 93% dos investidores-anjo brasileiros de startups são homens, de acordo com a Anjos do Brasil, ela é uma das poucas mulheres que vestiram a camisa de investidora. Nessa função, Tetê, como é mais conhecida, já participou de duas rodadas de investimento, com algumas dezenas de milhares de reais, seja sozinha, seja com os fundos Honey Island Capital e Caravela Capital. “A ideia era pulverizar um pouco do risco e dedicar um pouco menos de tempo a isso”, afirma. Ela diz que não tem tempo de participar de processos de pesquisa, que são mais trabalhosos, mas que faz questão de participar de reuniões para ajudar a formular estratégias e guiar o negócio na direção correta. Seus investimentos, na casa de algumas dezenas de milhares de reais, foram direcionados para startups como a Troc, que atua com um brechó online, e as fintechs Quanto, que atua na simplificação de dados bancários, e Partyou, de pagamentos digitais.

Escolhida duas vezes como a melhor investidora-anjo do Brasil e cofundadora do grupo Mulheres Investidoras-Anjo, Camila Farani já participou de mais de 40 aportes em startups. Antes disso, porém, fundou o Grupo Boxx, que atua no ramo alimentício, e passou pelo grupo varejista Mundo Verde, vendido em 2014 ao empresário Carlos Wizard Martins. Nessa época, ela aprendeu mais sobre como organizar um negócio dentro de uma grande empresa ao mesmo tempo que se aproximava do mercado de startups.

Isso moldou sua tese pessoal de investimentos, que hoje é focada em empresas dos ramos de varejo e alimentação. Atualmente, Farani é um dos “tubarões” do programa televisivo Shark Tank Brasil, em que empreendedores apresentam seus negócios na tentativa de obter investimentos de grandes nomes da indústria. Mas talvez um tubarão mais cauteloso. “Minha tese é baseada num múltiplo que eu consiga atingir. Não tenho aquele perfil de extrapolar ou esperar o máximo”, diz. No comando da G2 Capital, uma butique com investimentos em mais de 50 startups, ela já fez aportes em ­empresas como a Levaê, que tem um fast-food de comidas saudáveis; a Lysa, que desenvolve um cão-guia robô; e a Saipos, que atua com sistemas de gestões para restaurantes.

Ao lado de Farani no Shark Tank Brasil está João Appolinário, fundador da varejista Polishop. Ele simboliza o interesse de empresários de companhias mais tradicionais em um mercado em ascensão. O empresário já investiu em 16 startups diferentes. “Eu busco empresas que tenham conexão com o mundo que eu já estou, que é o varejo. Eu sempre procuro uma sinergia. As startups sempre trazem uma atualização, a modernidade, a visão atual do que está acontecendo no mercado.”

Dessas, duas tiveram suas operações encerradas. “A gente entra, investe, mas o negócio depende do empreendedor. A pessoa busca o dinheiro, consegue e acha que resolveu o problema”, diz. Entre os investimentos que fez no programa, que já superam a barreira de 1 milhão de reais, estão companhias como as startups Ledax, que desenvolve sistemas de iluminação LED, e a Kuba, fabricante de fones de ouvido de alto padrão. Appolinário afirma que “o dinheiro tem um peso muito pequeno”. Para ele, o bem mais valioso de uma parceria nesse sentido é o conhecimento em outras áreas do negócio que vão além da tecnologia, como a questão administrativa e financeira. É algo que pode fazer a diferença, ainda mais em um país, segundo ele, onde “é muito difícil empreender”.

Os investimentos-anjo dão impulso às startups e são fundamentais na construção de companhias promissoras que, mais tarde, receberão investimentos dos fundos de private equity. Um desses fundos é o americano 500 Startups. São mais de 10.000 empresas analisadas por ano e investimentos em centenas de companhias ao redor do mundo, incluindo nomes conhecidos, como Grab, rival do Uber no mercado de aplicativos de transporte, e Udemy, plataforma de cursos online. Para descobrir novos talentos, a 500 Startups reformulou sua estratégia e vai passar a olhar com mais atenção para a América Latina e principalmente para o Brasil. Para fazer isso, trouxe o executivo Flavio Dias para seu quadro societário. Ele não é fundador, mas passou os últimos anos no comando de algumas das maiores varejistas do Brasil, como Walmart, Cnova e Via Varejo. Desde 2014 atuando também como investidor, ele já realizou aportes em 12 negócios diferentes. Um deles, com destaque, foi feito na Olist. “Há um terreno muito fértil no Brasil.

Vários fundos estão fazendo um excelente trabalho no país, mas ainda há muita oportunidade para a entrada de capital de qualidade”, afirma. Seu trabalho não será apenas assinar cheques. A ideia é usar a experiência como gestor e ajudar as empresas a enfrentar problemas comuns do mundo dos negócios. “Esse lado operacional, de execução, é menosprezado pelos empreendedores mais novos”, afirma Dias.

Anjos ajudam, mas o ambiente empreendedor precisa de mudanças na legislação no Brasil. Cassio Spina, da Anjos do Brasil, por exemplo, sugere que o país adote isenções fiscais para atrair investimentos em ­startups. “Aportes em ­start­ups são investimentos que têm risco mais elevado e não têm liquidez. É preciso estimular”, afirma. Uma forma sugerida por ele seria abater parte do imposto de renda cobrado desses investidores. Atualmente tramita no Congresso o Projeto de Lei Complementar no 46 (PLP-46), conhecido como Marco Legal de Startups. A medida visa permitir que o regime tributário Simples integre também empresas declaradas em formato de Sociedade Anônima (S.A.), além de prever mais segurança e benefícios aos investidores, como o abatimento de parte do imposto de renda daquele investidor. Enquanto isso não acontece, já que a proposta ainda aguarda apreciação do Plenário, um caminho mais natural se apresenta como promissor. A queda da taxa de juro, atualmente em 2%, impacta diretamente nos ganhos de investimentos de renda fixa e deve acelerar um movimento migratório para ativos de renda variável em várias frentes ­— incluindo, em último estágio, as startups. “A queda da taxa Selic fará com que investidores busquem investimentos de risco”, diz Giácomo Diniz, professor de finanças no Ibmec-SP. “Mas é importante ressaltar que o investimento em startups seria um dos mais arriscados.”

Em rara entrevista dada recentemente à EXAME, Eduardo Saverin, cofundador do Facebook, diz que “está na hora de a América Latina ter multinacionais campeãs”. Ele, que também é investidor, realizou recentemente seu primeiro aporte em uma empresa da região. Foram 15 milhões de dólares aplicados na operação da Yalochat, do México. O valor foi repartido entre os fundos B Capital Group, que comanda, e o Sierra Ventures.

Em uma live transmitida pela EXAME, outro dos maiores bilionários brasileiros, Jorge Paulo Lemann, afirmou que num futuro próximo cinco das dez maiores empresas do país serão de tecnologia. O caminho está traçado. Mas, para o Brasil ter seus gigantes de tecnologia, precisa que os empresários não só invistam em novatos mas também perseverem em suas companhias. Se conseguirem escalar seus negócios a um patamar superior, eles poderão atrair ainda mais investimentos ao mercado brasileiro, sendo possivelmente mais decisivos no amadurecimento do ambiente local. Precisamos de mais novatos, mas precisamos de gigantes.

Fundador da Anjos do Brasil, organização que atua com a missão de fomentar o investimento-anjo no país, Cassio Spina afirma que o baixo número de investidores no Brasil se dá pela falta de incentivos no setor. “Aportes em startups são investimentos que têm risco mais elevado e não têm liquidez. É preciso estimular as pessoas”, afirma.

Por que o Brasil ainda carece de investidores de startups?

O Brasil começou a desenvolver o ecossistema de startups de forma tardia. O empreendedor não criava um negócio pensando em expandir, mas com o objetivo de sobreviver. Isso agora está mudando. É preciso dar estímulos para os investidores-anjo, que realizam o primeiro aporte nesses novos negócios. Outro fator é a questão do custo de oportunidade. Até pouco tempo atrás a taxa de juro Selic estava acima de 15% e superou 40% durante a década de 1990.

Quais incentivos poderiam ser criados para impulsionar o investimento-anjo no Brasil? Pode dar um exemplo?

Veja o caso do Reino Unido. Lá há isenção fiscal que abate 50% do valor investido no imposto de renda. Não se trata de uma renúncia fiscal, porque a startup investida eventualmente vai pagar impostos, diretos e indiretos. Aportes em startups são investimentos que têm risco mais elevado e não têm liquidez. É preciso estimular as pessoas.

A pandemia pode ser considerada a principal culpada pelos resultados ruins do setor em 2020?

É um impacto muito forte. Os resultados iniciais das pesquisas com investidores já eram bem negativos. Metade deles planejava zerar ou diminuir radicalmente seus investimentos em startups. Houve uma aliviada nos últimos meses, mas isso não resolveu o problema. Os investidores ainda estão sendo afetados.

A instabilidade política que o Brasil atravessa atrapalha na hora de investir em uma startup?

Diretamente, não tanto. A cena política tem pouco reflexo nesse tipo de investimento porque se trata de aplicações de médio e longo prazo. Mas há um efeito indireto que é causado quando essa instabilidade é refletida na economia. Uma crise econômica pode gerar restrições ao próprio investidor e aos empreendedores.

https://exame.com/revista-exame/de-fundador-a-investidor/

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK  para WhatsApp ou

https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Oito coisas que nos parecem muito modernas, mas que os romanos antigos já faziam

Romanos já pintavam grafites, compravam comida de rua e difundiam ’fake news’…

JAIME RUBIO HANCOCK 31 AGO 2020 – El Pais

Nós, os ocidentais, nos consideramos herdeiros, pelo menos em parte, dos romanos antigos. Fundaram muitas de nossas cidades, nossa língua vem do latim e inclusive estradas e rodovias, em muitos países europeus, foram construídas sobre antigas estradas romanas. Embora às vezes também nos sintamos, felizmente, distantes de muitos aspectos de sua cultura, como as guerras de conquista e as lutas de gladiadores. Como lembra ao EL PAÍS o historiador Néstor F. Marqués, quando examinamos os conceitos que existem por trás de algumas dessas manifestações culturais vemos que não é tão difícil encontrar paralelos entre muitas de suas atitudes e as nossas.

Reunimos algumas dessas atividades e costumes que podem parecer mais ou menos modernos, mas que já eram feitos, à sua maneira, pelos romanos da República e do Império. Com uma advertência do próprio historiador ouvido pela reportagem: não se deve cair no “presentismo”. Em outras palavras, uma coisa é comparar e estabelecer analogias para nos ajudar a entender melhor o passado (e nosso presente) e outra, bem diferente, é “introduzir nossos vieses” para justificar crenças e opiniões que nem sempre têm muito a ver com a história.

1. Pintar grafites. Deixar mensagens nas paredes “deve ter sido bastante comum nas grandes cidades”, nos contou Ana Mayorgas, professora do departamento de História Antiga da Universidade Complutense de Madri, com quem conversamos para um artigo sobre os grafites de Pompeia. Esta cidade tinha entre 10.000 e 20.000 habitantes quando foi sepultada pela erupção do Vesúvio no ano 79, e mais de 11.000 grafites estão preservados em suas paredes. Na verdade, o fato de essas inscrições serem tão frequentes, explicou Mayorgas, é um dos indicadores de que “amplas camadas da população tinham a capacidade de ler pelo menos algumas frases”.

E o que os romanos escreviam? Textos muito curtos e mensagens muito diretas. Além dos “Satura esteve aqui” e similares, há mensagens de cunho amoroso e sexual, anúncios de vendedores de barracas e lojas, bem como slogans eleitorais. Outro grupo importante é o da reprodução de versos conhecidos, especialmente da Eneida. Também havia algo bem ao estilo Tripadvisor clássico (“Pagarás pelos teus truques, estalajadeiro. Você nos vende água e fica com o bom vinho para você”). E Néstor F. Marqués aponta uma que o faz lembrar o Twitter: “Me admiro, parede, que você não tenha desabado, tendo que aguentar tantas bobagens escritas sobre você”.

2. Difundir notícias falsas. O historiador explica que algumas dessas inscrições nas paredes eram comparáveis aos boatos que vemos no mural do Facebook. Por exemplo, um desses grafites afirmava que “o sindicato dos ladrões e das prostitutas” apoiava um candidato às eleições locais. Talvez, como nos boatos atuais, muita gente não acreditasse, mas é claro que a difamação (e a zombaria) não são uma arma política apenas de nossa história recente.

Marqués é precisamente o autor do livro Fake News de la Antigua Roma e explica por telefone outros casos de destaque de campanhas difamatórias. Por exemplo, muitas das histórias que chegaram até nós sobre os imperadores, como os excessos de Calígula, Nero e Domiciano. Em geral, os imperadores assassinados eram demonizados após sua morte. Em vez disso, como Mary Beard escreve em SPQR, aqueles que conseguiam morrer na cama e organizar sua sucessão eram lembrados como generosos e devotados a Roma.

O professor lembra que a história é escrita pelos vencedores. Tanto Suetônio, autor de Vidas dos Doze Césares, quanto Tácito, autor dos Anais, trabalharam para o imperador Trajano. E que melhor maneira de fazer este imperador parecer bom do que falar mal dos anteriores? Por exemplo, Marqués conta que Domiciano, recordado como um tirano cruel, foi um imperador “muito eficiente, bom administrador, perfeccionista e justo”. A título de exemplo, as moedas de prata e ouro de seu reinado tinham 99% de pureza, o que significava que as contas estavam saneadas.

3. Organizar campanhas eleitorais. Já mencionamos que havia eleições: os romanos podiam se dedicar à carreira política e judiciária, com cargos sujeitos a eleições. Principalmente durante a República, embora durante o Império também houvesse votações anuais para cargos locais. Claro, não havia salário, razão pela qual só privilegiados podiam se dedicar a essa carreira.

De fato, custavam dinheiro. Marqués explica que os candidatos pagavam obras públicas, como a nova pavimentação de uma praça, por exemplo. Candidatar-se a uma eleição para cargos como pretor ou cônsul incluía um nível de generosidade que às vezes “nem sempre era fácil de distinguir do suborno”, escreve Beard, acrescentando que os políticos romanos contavam recuperar o que tinham investido (e algo mais) durante o exercício do cargo.

Cícero denunciando Catilina no Senado, em um afresco de Cesare Maccari (1899).

Algo semelhante a comícios também era realizado: as contiones, que eram organizadas antes das assembleias e nas quais os candidatos tentavam atrair o voto dos cidadãos com discursos e debates (Cícero fez seu segundo e quarto discurso contra Catilina em contiones, explica Beard em seu livro). Havia até “colagem de cartazes”, diz Marqués. Durante a campanha, os candidatos mandavam pintar slogans a seu favor nas paredes da cidade. Esses trabalhadores (ou seguidores) saíam à noite em grupos com diferentes tarefas: um deles caiava a parede, outro desenhava as letras e um terceiro segurava uma lamparina a óleo.

4. Admirar atletas famosos. Os gladiadores e, principalmente, os cocheiros de bigas e quadrigas (aqueles veículos antigos puxados por cavalos) eram admirados pelos fãs de jogos e corridas. O Circo Máximo, onde aconteciam corridas de quadrigas, podia acomodar cerca de 250.000 espectadores, em uma cidade de um milhão de habitantes no século I. O historiador especialista em Roma Antiga, que compara essas corridas à Fórmula 1, dá como exemplo Caio Apuleio Diocles, cocheiro lusitano cuja carreira esportiva foi gravada numa lápide erguida por seus admiradores. Diocles se aposentou tendo acumulado uma fortuna que, segundo algumas estimativas, o tornaria o atleta mais bem pago da história.

Juvenal (o mesmo que criticou o “pão e circo”) acreditava que os romanos admiravam demais os gladiadores. Um pouco como quando alguém se queixa da atenção que damos a Cristiano Ronaldo e Messi. Escreve com desprezo em uma de suas Sátiras sobre Eppia, a mulher de um senador que teve um caso com um gladiador chamado Sergio. Este lutador tinha um braço ferido e o rosto cheio de cicatrizes: “Mas era um gladiador! (…) Por isso o preferia aos irmãos e ao marido: é da espada que elas gostam”. Marqués acrescenta que os gladiadores eram vistos como pessoas diferentes e incríveis. Havia até lendas urbanas, como a de que seu sangue era afrodisíaco.

5. Comportar-se como esnobe em relação a vinhos. Como explica Mark Forsyth em Uma Breve História da Bebedeira, os romanos foram os primeiros a se preocupar com a origem, a variedade e o ano de colheita dos vinhos. Marqués cita, por exemplo, um cartaz publicitário de uma taberna de Herculano no qual aparecem várias jarras, cada uma com um preço diferente de acordo com sua qualidade e idade.

Um dos mais bem avaliados era o do monte Falerno, perto da atual Nápoles, um vinho branco que era envelhecido durante dez anos. E a colheita mais famosa foi a de 121 a.C., o falerno opimiano, que leva o nome de Opímio, o cônsul da época (as colheitas eram designadas com o nome do cônsul, que mudava a cada ano). Supõe-se que tenha sido bebido por Júlio César (cerca de 60 anos mais tarde) e Calígula (160 anos depois). O poeta Marcial qualificou esse vinho de “imortal”, mas dificilmente seria algo tragável depois de tantas décadas. Na verdade, como Forsyth também conta, muitos dos antigos lacres de vinho eram provavelmente falsos.

6. Reclamar do senhorio. Os edifícios de apartamentos (insulae, ou ilhas) eram muito comuns em Roma. Como Mary Beard escreve em SPQR, eram “oportunidades de investimento atraentes para seus proprietários”. Como o próprio Cícero, que em uma carta comentou que um de seus edifícios estava a ponto de desabar e “não só os inquilinos, mas também os ratos” tinham ido embora. Segundo Beard, ele não escreveu isso envergonhado, mas com escárnio e superioridade.

Nesses edifícios, as moradias menos confortáveis e espaçosas ficavam nos andares superiores, sem espaço para cozinhar ou lavar. E, o que é pior, com uma rota de fuga muito difícil em caso de incêndio, algo frequente. Em outra de suas sátiras Juvenal escreve que a cidade “em sua maior parte se apoia em uma frágil viga, porque com ela o senhorio evita a queda e, uma vez que cobriu a abertura de uma velha fenda, nos aconselha a dormir tranquilos antes do desabamento iminente”. Embora as leis de moradia tenham mudado muito desde então, alguns lerão estas linhas escritas há mais de 1900 anos e se lembrarão do último remendo feito pelo senhorio: “Está como novo. Deixe um balde aqui para a água, não fale muito alto e melhor não abrir a janela à tarde. Mas está como novo”.

7. Comprar comida de rua. Os romanos que tinham boa situação podiam cozinhar e comer em casa; para o resto, como vimos na seção anterior, era mais difícil: no caso de querer algo que não fosse equivalente a um sanduíche, tinha de ir a bares e tabernas.

Além de sentar nesses estabelecimentos, em cidades como Pompeia e Herculano ainda estão de pé os termopólios, estabelecimentos onde se podia comprar comida pronta para viagem. Tinham um balcão com buracos nos quais eram colocados recipientes de barro com comida quente ou fria. Marqués lembra que ao meio-dia era habitual comer pouco e rapidamente na rua se, por exemplo, não havia tempo de voltar para casa. A refeição importante era o jantar (às cinco ou seis da tarde, ou às sete se fosse um banquete). Quem podia, certamente tirava um meridiatum, ou seja, uma sesta.

8. Ler um jornal. Um dos pequenos prazeres da vida moderna é sair para passear (agora, com máscara), comprar o jornal e lê-lo em um terraço, respeitando a distância de segurança. Até o século XVIII não havia jornais, mas os romanos tinham algo semelhante à sua disposição. Podiam se aproximar do fórum, onde todos os dias uma cópia da Acta diurna populi romani (os fatos diários do povo de Roma) era pendurada.

Na Acta, que alguns mandavam copiar à mão para enviar e distribuir em todas as províncias, havia propostas de leis, fragmentos de discursos e resumos do que aconteceu no Senado. A decisão de pendurar esse diário foi de Júlio César. Ele não o fez para aproximar as decisões políticas do povo. Como explica Tom Standage em Writing on the Wall, seu objetivo era mostrar como os senadores se opunham às suas políticas populistas, para ter o apoio dos cidadãos e cimentar suas ambições de se consolidar como ditador.

Depois de alguns anos, a Acta começou a incluir informações além da política, como funerais e divórcios, além de fatos curiosos que Plínio, o Velho, compilaria em sua História Natural. Por exemplo, uma história que hoje continua sendo publicada de vez em quando, embora com outros protagonistas, é claro: um cachorro se recusou a abandonar o cadáver de seu dono, chegando até a tentar resgatá-lo quando foi lançado no rio Tibre.

Além da Acta, Marqués lembra o papel dos porta-vozes e pregoeiros (praeco). Eram funcionários do Estado que informavam no fórum as notícias do dia e que também podiam anunciar as horas, atuando como relógios humanos.

https://brasil.elpais.com/estilo/2020-08-30/oito-coisas-que-nos-parecem-muito-modernas-mas-que-os-romanos-ja-faziam.html

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/ClAdy1GuMchCtm12T5xPcp  para WhatsApp ou

https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

O modelo econômico chinês: homem-forte da China tem uma nova pauta econômica

Xi Jinping está reinventando o capitalismo de estado e não deve ser subestimado nesse processo; também não se pode esperar que a força de US$ 14 trilhões do país desapareça

The Economist, O Estado de S.Paulo 16 de agosto de 2020 

O enfrentamento dos Estados Unidos com a China está se intensificando perigosamente. Na semana passada a Casa Branca anunciou o que pode ser uma proibição iminente ao TikTok e ao WeChat, dois aplicativos chineses, impôs sanções aos líderes de Hong Kong e enviou um membro do gabinete a Taiwan. Esse aumento na pressão reflete em parte objetivos eleitorais: o posicionamento duro diante da China é um ponto-chave da campanha do presidente Donald Trump. 

É em parte ideológico, sublinhando a urgência dos falcões do governo em reagir em todas as frentes a uma China cada vez mais assertiva. Mas reflete também uma suposição que esteve por trás da atitude do governo Trump em relação à China desde o início da guerra comercial: a ideia segundo a qual essa abordagem dará resultados, porque o capitalismo de estado da China movido a anabolizantes é mais fraco do que parece.

A lógica é de uma simplicidade sedutora. Sim, a China produziu crescimento, mas somente ao apostar em uma insustentável fórmula de endividamento, subsídios, clientelismo e roubo de propriedade intelectual. Se pressionada o bastante, sua economia pode ceder, obrigando suas lideranças a fazerem concessões e, finalmente, abrir algum espaço em seu sistema de comando estatal. Nas palavras do secretário de estado Mike Pompeo, “os países do mundo que amam a liberdade devem induzir a China a mudar”.

Simples, mas errado. A economia da China foi menos afetada pela guerra de tarifas do que o esperado. O país demonstrou muito mais resiliência diante da pandemia da covid-19 (o FMI prevê para a China crescimento de 1% em 2020 e, para os EUA, contração de 8%). O mercado de ações com melhor desempenho do mundo este ano é o de Shenzhen, e não o de Nova York. E, como diz o título, o líder da China, Xi Jinping, está reinventando o capitalismo de estado para a década de 2020. 

Esqueça as siderúrgicas poluentes e as cotas de produção. A nova pauta econômica de Xi é fazer os mercados e a inovação funcionarem melhor dentro de limites bem definidos e sujeitos à vigilância ilimitada do Partido Comunista. Não é a fórmula de Milton Friedman (economista norte-americano defensor do liberalismo), mas essa mistura implacável de autocracia, tecnologia e dinamismo pode impulsionar o crescimento por anos.

Não é de hoje que a economia da China é subestimada. Desde 1995 a fatia da China do PIB em valores de mercado aumentou de 2% para 16%, apesar das ondas de ceticismo ocidental. Chefões do Vale do Silício desmereceram as empresas de tecnologia chinesas como meras imitadoras; especuladores de Wall Street disseram que cidades-fantasma de apartamentos vazios trariam um crash bancário; estatísticos temeram a manipulação dos números do PIB e foi dito que uma fuga de capitais desencadearia uma crise monetária. 

A China desafiou os céticos porque seu capitalismo de estado se adaptou, mudando de forma. Vinte anos atrás, por exemplo, a ênfase era no comércio, mas agora as exportações respondem por apenas 17% do PIB. Na década de 2010 as autoridades deram a empresas de tecnologia como Alibaba e Tencent espaço o suficiente para que se tornassem gigantes e, no caso da Tencent, criassem um aplicativo de mensagens, WeChat, que também funciona como instrumento de controle do partido.

Agora, a próxima fase do capitalismo de estado da China está em andamento — vamos chamá-la de “Xinomics”. Desde o momento em que assumiu o poder, em 2012, o objetivo político de Xi tem sido consolidar o controle do partido e esmagar as dissidências no país e no exterior. Sua pauta econômica é pensada para aumentar a ordem e a resistência contra ameaças. E há motivos para isso. O endividamento público e privado aumentou muito desde 2008, chegando a quase 300% do PIB. 

Os negócios se dividem entre firmas estatais antiquadas e um setor privado que lembra o Velho Oeste, onde há inovação, mas também autoridades predatórias e regras nebulosas. Conforme o protecionismo se dissemina, as empresas chinesas correm o risco de serem excluídas de alguns mercados, perdendo o acesso à tecnologia ocidental.

São três os elementos principais da “Xinomics”. Primeiro, um controle mais rigoroso do ciclo econômico e da máquina de endividamento. Os dias de crédito generoso e isenções desproporcionais são coisa do passado. Os bancos foram obrigados a reconhecer a atividade fora dos balanços patrimoniais e criar proteções. O crédito é oferecido em um mercado de obrigações mais limpo. Diferentemente da sua reação à crise financeira de 2008-09, a resposta do governo à covid-19 foi contida, com um estímulo equivalente a cerca de 5% do PIB, menos da metade daquele aprovado nos EUA.

O segundo elemento é um estado administrativo mais eficiente, cujas regras se apliquem de maneira mais uniforme na economia. Mesmo com Xi usando leis impostas pelo partido para semear o medo em Hong Kong, ele construiu um sistema jurídico comercial no continente que reage muito melhor às empresas. Antes raros, pedidos de recuperação judicial e processos de quebra de patentes aumentaram 500% desde o início do governo dele, em 2012. A burocracia foi reduzida: agora são necessários nove dias para a abertura de uma empresa. Regras mais previsíveis devem permitir um melhor funcionamento dos mercados, estimulando a produtividade da economia.

O elemento final é apagar a fronteira entre empresas estatais e privada. Empresas administradas pelo governo são estimuladas a melhorar o retorno financeiro e atrair investidores privados. Enquanto isso o governo exerce controle estratégico de empresas privadas, por meio de células do partido dentro destas. Um sistema de lista de proibição ao crédito castiga as empresas pelo eventual mau comportamento. 

Em vez de uma política industrial indiscriminada, como a campanha “Made in China 2025” lançada em 2015, Xi está dedicando os esforços aos pontos de gargalo da cadeia de suprimento nos quais a China seja vulnerável à coerção estrangeira ou possa exercer sua influência no exterior. Isso significa alcançar a autossuficiência em tecnologias chave, como semicondutores e baterias.

A “Xinomics” trouxe bom desempenho no curto prazo. O ritmo de acúmulo de endividamento diminuiu antes da chegada da covid-19 e o choque duplo da guerra comercial e da pandemia não levou a uma crise financeira. A produtividade das estatais está aumentando e investidores estrangeiros estão injetando dinheiro em uma nova geração de empresas chinesas de tecnologia. Mas o verdadeiro teste virá com o tempo. A China espera que sua nova forma tecnocêntrica de planejamento central consiga sustentar a inovação, mas a história indica que um processo difuso de tomada de decisões, fronteiras abertas e liberdade de expressão seriam os ingredientes mágicos.

Uma coisa está clara: a esperança de um confronto seguido de capitulação é equivocada. Os EUA e seus aliados devem se preparar para uma disputa muito mais longa entre as sociedades abertas e o capitalismo de estado da China. Uma estratégia de contenção não vai funcionar: diferentemente da União Soviética, a imensa economia da China é sofisticada e está integrada ao restante do mundo. 

Em vez disso, o Ocidente deve reforçar sua capacidade diplomática e criar novas regras estáveis permitindo a cooperação com a China em determinadas áreas, como o combate à mudança climática e às pandemias, e preserve o comércio ao lado de proteções melhores para os direitos humanos e a segurança nacional. Não se pode esperar que a força da economia de US$ 14 trilhões do capitalismo de estado da China desapareça. É hora de abandonar essa ilusão. 

/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,o-modelo-economico-chines-homem-forte-da-china-tem-uma-nova-pauta-economica,70003399109

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK  para WhatsApp ou

https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Carros elétricos ‘aceleram’, e Brasil dá largada na corrida pelo níquel

Vale, maior produtora global do metal, busca parcerias para desenvolver baterias para os veículos, que devem chegar a 135 milhões em 10 anos no mundo

Bruno Rosa e Ramona Ordoñez

30/08/2020 – o Globo

RIO – A produção de carros elétricos pisou no acelerador e desencadeou uma verdadeira corrida ao níquel, metal essencial para a produção de baterias para os automóveis. Esse rali pode colocar o Brasil no centro do mapa global dessa indústria, que tem alto potencial de crescimento nos cálculos de investidores e da Agência Internacional de Energia (AIE).

A Vale, maior produtora global de níquel, já busca parceiros para o desenvolvimento de baterias com o objetivo de pegar carona na expansão do segmento.

O bilionário Elon Musk, fundador da Tesla, acenou recentemente com a possibilidade de um “contrato gigante” para a mineradora capaz de oferecer níquel a preço baixo e mínimo impacto ambiental.

A preocupação não é à toa: as ações da fabricante de carro elétrico acumulam alta superior a 400% este ano na Bolsa de Nova York, embaladas pela produção aquecida, que superou as projeções de analistas no primeiro trimestre.

Além da Vale, que tem produção de níquel em Brasil, Canadá, Indonésia e Nova Caledônia, o mercado é disputado por mineradoras como a australiana BHP e a russa Norilsk Nickel.

As projeções para o futuro são otimistas. Segundo a AIE, o total de veículos elétricos em circulação no mundo poderia saltar de 9,4 milhões de unidades para 135 milhões em dez anos. O cenário esperado para o Brasil também é de rápida expansão.

Frota de 1 milhão até 2030

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) prevê que a frota de carros híbridos (movidos a combustão e baterias) passe dos atuais 30 mil para um milhão até 2030. A avaliação é que a indústria teria capacidade de crescer mesmo neste ano, marcado pela pandemia.

— Nossa estimativa central é que as vendas globais de carros elétricos este ano excedam as de 2019, chegando a 2,3 milhões de unidades. Isso eleva o número total de carros elétricos nas estradas em todo o mundo para um novo recorde de quase 10 milhões, cerca de 1% do estoque global de automóveis — avalia Jacob Teter, analista de Política Energética da AIE.

Ele continua:

— As vendas aumentarão também no Brasil, mas a velocidade de penetração no mercado é difícil de prever, depende de o país estabelecer um ecossistema, política de apoio, conscientização e educação do consumidor.

Mudança  climática

Segundo analistas, a expansão da indústria reflete a preocupação com a redução de emissões de gases poluentes causadores do efeito estufa, como registrado em carros movidos a diesel ou gasolina.

Para as empresas, a questão é saber se a rápida expansão será viável diante do fator preço, que torna o produto ainda restrito, em grande parte, ao consumidor de alta renda. No Brasil, cada veículo sai, em média, a R$ 175 mil.

— Os carros elétricos fazem parte da transição energética dos países. Mas ainda é um mercado novo. A Tesla não tinha nada até alguns anos atrás. O desafio hoje é saber se vale subsidiar um setor que é voltado para uma classe de alta renda — afirma Rafael Araújo, consultor técnico da EPE.

No longo prazo, a projeção da EPE é que, com um empurrãozinho de políticas públicas, o país teria 61% de carros híbridos e 11% puramente elétricos em um horizonte de 30 anos.

Mesmo diante destas incertezas, a aposta das mineradoras já começou. Segundo o diretor executivo de Metais Básicos da Vale, Mark Travers, o mercado está em rápida evolução, criando oportunidades em potencial, como o estabelecimento de parcerias estratégicas com fabricantes.

Segundo Travers, a capacidade de níquel da Vale hoje é de aproximadamente 200 mil toneladas, mas o plano é expandir. Um dos principais trunfos da empresa é concentrar cerca de 40% da oferta do níquel Classe 1, que conta com menos impurezas e aumenta a eficiência das baterias.

A Atlantic Nickel, produtora do mineral com sede na Bahia, pretende dobrar sua capacidade nos próximos anos para atender ao mercado crescente de eletrificação.

Pesquisa da companhia aponta que as baterias, que respondem por cerca de 6% do consumo de níquel no mundo, devem ficar com 40% da oferta total em 2040. Hoje, o níquel é usado em sua maior parte na indústria de aço inox.

— Iniciamos nossos investimentos em 2019. Confirmamos o potencial de uma nova mina subterrânea, que tende a dobrar nossa capacidade de produção. Toda essa demanda por carros elétricos vem elevando o preço da commodity. Hoje, o desafio do setor como um todo é buscar reservas do níquel ideal para carros elétricos — diz Paulo Castellari, presidente do Grupo Appian no Brasil, dona da Atlantic Nickel.

Modelos no Brasil

O Brasil tem condições de ganhar importância no cenário mundial de níquel. Estimativa da Agência Nacional de Mineração (ANM) aponta que a produção de níquel puro deve mais que dobrar no país, pulando das 65.254 toneladas anuais para algo entre 140 mil e 150 mil toneladas em cinco anos.

Segundo a ANM, a projeção faz parte de um cenário otimista com a entrada de projetos e a reativação de minas. A produção no Brasil fica atrás de Indonésia, Filipinas, Rússia, Nova Caledônia, Canadá, Austrália e China.

O grupo PSA, dono das marcas Peugeot e Citroën, tem como estratégia mundial ter até 2025 todos os seus modelos também na versão elétrica ou híbrida. Hoje, tem sete totalmente elétricos e seis híbridos. Até o fim de 2021, serão 21 nessas categorias. Em duas semanas, o grupo lançará seu primeiro carro elétrico no Brasil, o novo Peugeot 208 e-GT.

— A tendência mundial é que os carros elétricos continuem com crescimento, mas é necessário ter incentivos fiscais — destaca Pablo Averame, vice-presidente de Marketing da empresa.

A Nissan também aposta em modelos elétricos. Em 2019, começou a vender o seu primeiro modelo no país, o Leaf, que já vendeu quase meio milhão de unidades em todo o mundo. O presidente da Nissan do Brasil, Marcos Silva, diz que, embora a pandemia tenha prejudicado, Japão e China já retomaram as vendas:

— A pandemia fará com que as pessoas pensem em questões como sustentabilidade. E aí se pensa no carro elétrico.

Segundo Hermann Mahnke, Diretor Executivo de Marketing da GM América do Sul, o segmento triplicou de tamanho nos primeiros seis meses do ano. A montadora já oferece opções de carros elétricos em seus principais mercados, incluindo o Brasil, que começou a ser distribuído em fevereiro.

– Estamos investindo US$ 20 bilhões no desenvolvimento de uma nova geração de veículos elétricos.  Até 2023 a tecnologia estará disponível para 20 modelos da GM. A pandemia está acelerando um processo de transformação e e certamente os veículos elétricos, com zero emissão de poluentes.

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK  para WhatsApp ou

https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

O que mudou nos países que já adotaram o 5G

A polícia se tornou mais eficaz, a velocidade de transmissão de dados disparou e as máquinas ficaram mais inteligentes

Por Sabrina Brito –  Publicado em 14 ago 2020 Veja

Na Coreia do Sul, em algumas cidades da China e em certas regiões da Suécia o download de filmes em alta resolução demora poucos segundos para ser finalizado. As videochamadas jamais travam. A polícia usa câmeras de altíssima qualidade conectadas à internet que captam imagens em tempo real, 24 horas por dia, sete dias da semana. Mães atarefadas vestem seus bebês com fralda dotada de sensores que avisam quando ela está suja. Testes com carros autônomos são bem-sucedidos. 

Essa sucessão de bons resultados se tornou possível graças à rede de internet móvel 5G, pivô da atual Guerra Fria entre Estados Unidos e China, tecnologia que está prestes a transformar a vida de bilhões de pessoas em diversos países — até mesmo no Brasil. As mudanças se devem a um fator essencial: velocidade. Com o 5G, a internet é pelo menos 100 vezes mais rápida do que a da geração anterior, atalho para o mundo da inteligência artificial. A transmissão de dados será imediata. Os aparelhos vão se conectar entre si. A vida não será mais como antes, como provam as primeiras experiências nos países que já adotaram o sistema.

As aplicações do 5G são ilimitadas. “Ele vai tornar as cidades mais inteligentes”, diz Daniel Batista, cientista da computação e professor de programação do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo. O especialista dá um exemplo prático. Na maioria dos municípios, apenas algumas poucas avenidas, ruas ou ciclofaixas são monitoradas por câmeras. Com o 5G, praticamente todo o espaço urbano poderá ser esquadrinhado pelo olhar atento dos sistemas de vídeo. Outro potencial uso ajudará a salvar vidas.

 “Com o 5G, será possível, por exemplo, ter sistemas de GPS em ambulâncias conectados a um serviço de emergência que abriria os semáforos à medida que o veículo se aproximasse do local do acidente ou do hospital”, afirma o professor da USP. A mesma lógica vale para carros de polícia, que teriam prioridade na passagem por faróis ou outros reguladores de trânsito. 

Os veículos autônomos, que têm consumido bilhões de dólares em investimentos das montadoras, terão um estímulo para virar realidade. Para funcionar sem oferecer riscos, eles dependem de uma rede complexa de sensores interligados por inteligência artificial. Antes do 5G, o carro autônomo poderia demorar alguns centésimos de segundos mais para tomar uma decisão, como desviar de um obstáculo ou frear bruscamente. Na era do 5G, a resposta do automóvel será imediata, e a probabilidade de alguma falha de conexão afetar o seu funcionamento será reduzida a quase zero.

Na Coreia do Sul, maior adepta do 5G no planeta, a produção desses veículos foi impulsionada pela instalação da nova rede, que se deu em abril de 2019. O país, o primeiro a adotar o 5G comercialmente (desde então foi seguido por Estados Unidos, Reino Unido, Suécia e China), pretende investir 20 bilhões de dólares até 2022 para ampliar o uso da tecnologia. 

Atualmente, 6 milhões de sul-coreanos têm acesso ao 5G, mas os outros 45 milhões de habitantes esperam pela chance de adotar o sistema. Na Suécia, o 5G deu novo impulso à indústria de games. Desde o advento da tecnologia, no fim de 2019, o download de jogos on-line aumentou 200%. 

O Brasil vê a tecnologia como um sonho distante. O leilão das frequências 5G, que serve para determinar quais empresas poderão operar a nova rede, está marcado para 2021 — isso se não houver, como é típico no país, atrasos ou adiamentos. No mês passado, a Claro anunciou a implementação, em algumas regiões e em caráter experimental, do 5G DSS (Compartilhamento Dinâmico de Espectro, da sigla em inglês), espécie de transição entre o 4G e o 5G, que é dez vezes mais veloz do que o primeiro.

Enquanto o 5G não chega, será preciso melhorar a segurança das redes de internet. “Com o aumento da taxa de transmissão de dados, criminosos vão conseguir vazar informações privadas em poucos segundos”, diz o professor Daniel Batista. O avanço da tecnologia suscita debates apaixonados sobre os limites da inteligência das máquinas. “Com equipamentos aprendendo diversas funções, passaremos a ser escravos da tecnologia”, afirmou a VEJA o professor de comunicação wireless na King’s College London Mischa Dohler. O 5G, de fato, provocará grandes revoluções. Resta à humanidade saber usá-las.

Publicado em VEJA de 19 de agosto de 2020, edição nº 2700 

https://veja.abril.com.br/tecnologia/o-que-mudou-nos-paises-que-ja-adotaram-o-5g/

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK  para WhatsApp ou

https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Homo Zapiens e a limonada digital

por Evandro Milet


Na pandemia muita gente aprendeu a utilizar ferramentas que não sabia usar e que talvez até rejeitasse. Avós agora sabem como se comunicar com os netos pelas plataformas, muitos usaram pela primeira vez o comércio eletrônico, quantidade grande se viciou em joguinhos eletrizantes, outros aprenderam a descobrir filmes e séries no Netflix. Professores aprenderam como se comunicar em uma ainda precária educação à distância emergencial, empresas que relutaram muitos anos com o teletrabalho agora dizem que não voltarão mais aos escritórios, pelo menos não na mesma proporção. O fato é que a pandemia foi um antecipador de futuros para quase todos, menos para grande parte das universidades federais. 

Enquanto as universidades particulares se sentiram pressionadas pela possibilidade de perda de alunos e reagiram com o EAD que deu para fazer, professores de universidades federais continuaram a receber dinheiro público sem contrapartida de trabalho, em uma apropriação indébita escandalosa. Alunos que se esforçaram durante todo o ano passado para conseguir passar em uma universidade federal ficaram agora todo o primeiro semestre sem aulas. A justificativa, à la socialismo cubano, é ridícula: se todos não podem ter a educação online por falta de acesso a computadores ou internet, então que ninguém tenha. 

Louve-se a Unicamp, que logo em março identificou os alunos que não tinham recursos e deu um jeito de conseguir computadores e acesso a eles. O elogio se estende a poucas outras como o Ifes que se virou para acessar os alunos. Enquanto isso a Ufes deixou seus alunos em casa sinalizando uma incompetência deprimente. 

Daqui para frente todos terão de enfrentar problemas maiores, que a transformação digital forçada acelerou. As crianças que estão entrando nas escolas são todas nativos digitais e tem que enfrentar a posição fora de época que considera transgressão um aluno usar celulares em sala de aula. Os celulares são quase uma prótese, uma extensão do braço, um amplificador de sentidos e não tem sentido afastá-los. E nas aulas virtuais não há como vigiar transgressões. Há que se conseguir uma maneira de conviver com isso. Alunos não precisam mais decorar aquilo que eles têm acesso na hora que quiser e os professores e os métodos terão que considerar isso. 

O mercado de trabalho quer profissionais com a alma digital  e não faz sentido separá-los da sua ferramenta básica. Se a geração passada já mudava hábitos zapeando canais na TV, essa geração zapeia páginas na internet, sem paciência com qualquer atraso, e se comunica pelo zap. Temos o novo Homo Zapiens e podemos aproveitar esse meteoro da pandemia para fazer desse limão uma limonada digital, mudando a forma de ensinar e incorporando definitivamente o mundo digital no ensino.

 Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK para WhatsApp ou

https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

O open banking está pronto e deve revolucionar o sistema bancário

Programas de pagamentos como o PIX e plataformas de open banking prometem mudar a vida financeira dos brasileiros a partir de novembro 

Por Josette Goulart, Luisa Purchio – em 7 ago 2020  Veja

Quando o Uber chegou, os taxistas se revoltaram. De repente viram seu mercado ameaçado por concorrentes que cobravam mais barato, ofereciam um serviço com mais qualidade e ainda ofertavam água e bala de graça aos clientes. Teve carreata, tentativa de leis para barrar os aplicativos e choradeira. Não adiantou, o consumidor gostou do serviço. Os taxistas não tiveram escolha além de aceitar e se adaptar. 

Pois uma revolução nos mesmos moldes está prestes a acontecer no sistema bancário brasileiro, gestada em plena pandemia, que levará as instituições tradicionais a mudar a forma de relacionamento com seus correntistas — sob risco de acabarem como os antigos taxistas. Termos como PIX, API e open banking vão mudar radicalmente a forma como as pessoas e as empresas realizam suas transações financeiras em um prazo já definido pelo Banco Central, a partir de novembro. 

O PIX, a primeira inovação a ser lançada pelo BC, é a nova TED, com a diferença de que funcionará 24 horas por dia, sete dias por semana. O novo sistema, que poderá ser utilizado a partir do celular, promete alterar diretamente a forma como as pessoas pagam suas contas e fazem suas compras, pois elimina a necessidade de dinheiro ou de cartão de débito ou crédito. Com o uso do sistema, o custo de operação das empresas de telefonia, água e luz, entre outras, também cai, porque o PIX elimina a necessidade de emissão de boletos físicos. 

O sistema de pagamento instantâneo, entretanto, é apenas o começo de um processo que culminará em outra novidade, o open banking. Essa é a inovação mais radical, pois permitirá que os clientes tenham acesso a seus dados e histórico financeiro (hoje eles são mantidos pelos bancos) e compartilhem com qualquer instituição regulada pelo Banco Central. A tecnologia por trás dessa plataforma aberta é chamada API.  

O modelo de funcionamento é comparável a um site que permite que o usuário se cadastre via Facebook ou Google, o que gera o compartilhamento dos dados. No caso do open banking, o cliente poderá esco­lher quais informações quer compartilhar e com quais empresas. Com isso, poderá optar por aquelas que ofereçam condições e taxas mais vantajosas para os serviços que lhe interessem. As mudanças são tão significativas que deixam eufóricos representantes de entidades setoriais como Cláudio Guimarães, diretor executivo da ABBC, associação que defende os interesses de bancos de pequeno e médio porte. “O custo vai cair muito. Finalmente o cliente será rei”, comemora.

Obviamente, clientes com histórico de maus pagadores terão dificuldades em um sistema que promete tal grau de transparência. A expectativa é que, no auge do funcionamento do open banking, todos os dados estejam disponíveis em um único aplicativo. Caso uma pessoa queira comprar uma casa maior, por exemplo, basta acessar a plataforma e conferir todos os bancos com financiamentos disponíveis para seu perfil financeiro e sob quais condições. “O open banking é a integração de toda a vida econômica em um só lugar, como conta-corrente, poupança, aplicações, compras e meios de pagamento, de forma que se pode avaliar e negociar do mesmo jeito que se faz hoje nas compras a crédito no varejo”, diz Pietro Delai, executivo da consultoria IDC. 

Para os bancos pequenos e médios e as fintechs que têm dificuldades para fazer análises de crédito mais consistentes, o open banking abre uma avenida de oportunidades. Com a abertura dos dados pessoais, é como se um banco pudesse entrar no sistema de um concorrente e saber tudo sobre o cliente que ele quer conquistar. A Stone, uma fintech que nasceu como operadora de máquinas de cartões e hoje concede crédito a pequenas empresas, já está operando na tecnologia do open banking. Seus clientes podem fazer pagamentos de folha de salários, contas de luz, água, fornecedores, tudo de forma automática, sem o processo manual, via API. Quando a abertura de dados efetivamente acontecer, a Stone já estará com um produto mais bem-acabado.

 Em relação aos bancos tradicionais, há vantagens e desvantagens em igual medida. No primeiro caso, a disputa pelos clientes com concorrentes menores será atroz. No segundo, é que terão acesso a dados de clientes de outros grandes bancos, que até então não estavam disponíveis. O maior problema que enfrentarão é de natureza tecnológica. Os grandes bancos brasileiros funcionam com sistemas antigos herdados de suas dezenas de aquisições. “É como se eles estivessem numa corrida de 100 metros rasos carregando uma bigorna”, compara Rafael Stark, fundador da fintech Stark Bank, empresa que já nasceu aberta e que opera a tecnologia de API com clientes como o Rappi. 

Em meio ao processo de implantação do open banking, algumas instituições chegaram a pleitear a alteração do cronograma por não terem condições de atualizar suas plataformas digitais a tempo, mas o Banco Central manteve regras e prazos. A primeira fase começa em novembro, com dados públicos das próprias instituições. Depois serão abertas informações dos clientes e, em outubro de 2021, começam a ser oferecidos produtos em plataformas abertas.

O acirramento da concorrência com as fintechs não é a única dificuldade no horizonte dos bancos tradicionais. Startups como o Nubank, que rapidamente conquistaram milhões de clientes, chegaram a preocupar os bancos em um primeiro momento, mas o incômodo passou rápido. O problema é que as empresas de tecnologia — e nesse caso se incluem as gigantes como Apple, Google e Facebook — também vão entrar na concorrência. “É questão de tempo, ainda mais que elas já estão acostumadas a lidar com plataformas abertas”, avalia o consultor Cezar Taurion, ex-­executivo da IBM. 

As três big techs, por sinal, já possuem seus próprios sistemas de pagamento, sendo o WhatsApp Pay o mais novo do trio. As empresas de telefonia também prometem entrar no jogo. A Claro já tem tudo pronto para lançar a própria fintech e deu o primeiro passo ofertando crédito, nos moldes do que já fez a Vivo. A multinacional de origem mexicana não se posiciona oficialmente sobre essa nova ofensiva, mas o diretor da operação brasileira, Maurício Santos, diz que o open banking abre a possibilidade para a entrada de outros setores da economia. Obviamente, Bradesco, Itaú e Santander, os principais bancos privados do país, guardam a sete chaves os planos para o embate. E terão de ser ágeis, uma vez que os concorrentes já estão com a faca entre os dentes.

Publicado em VEJA de 12 de agosto de 2020, edição nº 2699

https://veja.abril.com.br/economia/o-open-banking-esta-pronto-e-deve-revolucionar-o-sistema-bancario/

 Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK para WhatsApp ou

https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Metamorfoses ambulantes

O que Raul cantava como preferência nos anos 1970 tornou-se obrigação nos 2020

Nizan Guanaes  24 agosto 2020 na Folha

Eu prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

O que Raul cantava como preferência nos anos 1970 tornou-se obrigação nos anos 2020.

Isso vale para as pessoas e isso vale para as empresas. Sua capacidade de mudar é o maior seguro contra sua capacidade de ficar para trás.

As empresas mais valiosas do mundo são empresas de tecnologia, e elas têm o DNA da mudança. Facebook, Google, Apple, Amazon investem bilhões e bilhões e bilhões de dólares todos os anos na busca de novas tecnologias (e na aquisição de rivais inovadoras).

O melhor momento para inovar é quando as coisas estão indo bem. O maior freio à inovação é a complacência. A estratégia mais importante da sua empresa é a estratégia de mudança, é ela que garante o futuro. Alguém grande na empresa precisa focar isso, mas não o fundador ou o presidente-executivo, por mais brilhantes que sejam.

Isso vale para as empresas, isso vale para as pessoas. Vivemos vidas cada vez mais longas, que exigirão transformações pessoais. Antes, uma pessoa com 50 anos começava a planejar sua aposentadoria. Hoje, ela precisa planejar sua vida profissional para a segunda metade da sua vida. É preciso se preparar para ter várias vidas e várias atividades. E é normal se assustar com isso.

O Abilio Diniz fez 80 anos e organizou uma festa para falar de longevidade com qualidade. Ele reuniu os melhores do mundo em saúde, alimentação, atividade física. Um cientista barbudo subiu ao palco e disse que naquele momento estava nascendo um ser humano que não vai morrer. Ele será como um carro, que troca as peças e segue rodando.

Por isso voltei a estudar em Harvard. Se não dá para ter cabeça e disposição de 20 anos, dá para aprender como eles pensam. E agregar a minha vasta experiência, que isso não tem Mastercard que compre.

Eu já estou na minha quarta vida. Entrei na publicidade como redator. Naquele tempo a Bahia já era muito criativa, mas atrasada como mercado publicitário. A melhor ideia da minha vida foi vir morar em São Paulo. Quando cheguei aqui, todos os publicitários eram chiques. Só falavam em Nova York, Londres, e queriam fazer coisas superinteligentes.

Eu me posicionei diferente: vou falar do Brasil, para o Brasil. E falar o óbvio, demonstrar as coisas boas do produto. Duas agências eram ícones naquele tempo, a W/GGK, do mestre Washington Olivetto, e a Talent, do mestre Júlio Ribeiro. Uma era criação, a outra era planejamento. Eu, pretensiosamente, quis ser a W/GGK Talent, juntando as duas. Deu tão certo que vendi muito bem a minha agência.

Saí por contrato da publicidade e fundei o iG, numa época em que as pessoas perguntavam: “Mas, Nizan, esse negócio de internet vai dar certo?”.

Do iG, voltei à publicidade e criei com meus sócios um dos maiores grupos de comunicação do mundo. Deu tão certo que vendi muito bem o meu grupo.

Agora tenho uma empresa de estratégia, porque, num mundo em transformação acelerada, a estratégia mapeia os caminhos. Mas quero ter poucos clientes porque é preciso tempo para estudar e viajar, tempo para me informar, senão você é que fica para trás.

Meu pai era ascensorista quando conheceu minha mãe. Ele tinha um livro no colo, e ela perguntou o que ele estava lendo. Ele respondeu que estava estudando medicina. Ele sabia que a educação é o ascensorista da vida. Virou médico de sucesso e, com minha mãe engenheira, criou os filhos com retidão, educação e cultura.

O que você está aprendendo para a sua próxima vida?

Nizan Guanaes

Empreendedor, criador da N Ideias

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/nizanguanaes/2020/08/metamorfoses-ambulantes.shtml

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

O plano do Google de provocar uma disruptura no ensino superior é exatamente o que o mercado de ensino superior precisa

Uma rápida olhada no modelo do Google mostra por que as faculdades devem se preocupar.

Jon Miltimore

por Jon Miltimore(tradução Evandro Milet) 

Minha esposa e eu recentemente contratamos um consultor financeiro que está nos ajudando a mapear nosso futuro financeiro. Ele parecia surpreso por não querermos tirar proveito da cláusula 529 do código tributário dos EUA, que ajuda os pais a economizar para a educação de seus filhos.

“Você tem três filhos”, disse ele. “As chances são de que pelo menos um irá para a faculdade. Não tem o que discutir. 

”Mesmo assim, questionamos. Gosto de reduzir minhas obrigações fiscais tanto quanto qualquer outra pessoa, mas a verdade é que tanto minha esposa quanto eu temos sérias dúvidas sobre o ensino superior. 

Embora nós dois tenhamos frequentado a universidade, as opções hoje parecem menos promissoras do que antes. 

A faculdade pode ter sido uma decisão sem discussão no passado para pais e alunos que podiam pagar, mas esse não é mais o caso. Custos crescentes, inflação de notas, redução de valor dos diplomas, a politização dos campi e uma série de outras questões tornaram menos claros os benefícios antes claros da faculdade.

Apesar de tudo isso, uma grande parte de mim ainda quer que meus filhos façam faculdade, porque parece que há poucas opções disponíveis. Isso pode estar mudando, no entanto.

Em julho, Kent Walker, vice-presidente sênior de assuntos globais e diretor jurídico do Google, anunciou no Twitter que a empresa estava expandindo suas opções de educação.

Foi um golpe direto na indústria de ensino superior da América.

“Diplomas universitários estão fora do alcance de muitos americanos, e você não precisa de um diploma universitário para ter segurança econômica”, escreveu Walker no blog do Google. “Precisamos de soluções novas e acessíveis de treinamento profissional – de programas vocacionais aprimorados à educação online – para ajudar a América a se recuperar e se reconstruir.

”Hoje, o @google está lançando um novo programa de empregos digitais abrangente para ajudar os americanos a voltar ao trabalho, quebrar barreiras educacionais priorizando habilidades e apoiar a recuperação econômica do país. Detalhes em minha postagem e destaques abaixo. https: //t.co/c4GrH5OA6h

– Kent Walker (@Kent_Walker) 13 de julho de 2020

Com certeza, é difícil imaginar alguém assumindo a indústria de ensino superior de US$ 600 bilhões dos Estados Unidos. No entanto, uma rápida olhada no modelo do Google mostra por que as faculdades devem se preocupar.

O Google está lançando vários cursos profissionais que oferecem treinamento para empregos específicos de alta remuneração e alta demanda. Os graduados do programa podem receber um “Certificado de Carreira do Google” em uma das seguintes posições: Gerente de projeto (US $ 93.000); Analista de dados ($ 66.000); Designer UX (US $ 75.000).

Embora o Google não tenha dito quanto custaria para receber um certificado, se for algo próximo ao Certificado de Profissional de Suporte de TI do Google, o custo é bastante baixo, especialmente em comparação com a faculdade.

Esse programa de suporte de TI do Google custa US$ 49 por mês para inscrições. Isso significa que um programa de seis meses custaria cerca de US $ 300 – mais ou menos o que muitos estudantes universitários gastam apenas com livros didáticos em um semestre, destaca Inc. 

Compare esse preço com o da faculdade, em que os alunos pagam em média cerca de US$ 30.000 por ano quando computados os custos de mensalidade, hospedagem, alimentação, taxas e outras despesas.

Ao contrário da faculdade, o Google não apenas entregará a você um diploma e o mandará embora. A empresa prometeu ajudar os graduados em suas buscas de emprego, conectando-os a empresas como Intel, Bank of America, Hulu, Walmart e Best Buy.

Os graduados também serão elegíveis para uma das centenas de oportunidades de aprendizagem que a empresa está oferecendo.

A Universidade ‘Vale a pena’?

Em economia, usamos um termo simples para falar sobre o que vale algo: valor. Sabemos que o valor é subjetivo. Mas se os consumidores compram algo livremente, isso sugere que os consumidores atribuem um valor àquele bem mais alto do que o preço.

Julgar o valor de um diploma é complicado, no entanto. Não é como comprar bife no mercado. Os compradores estão, em sua maioria, protegidos dos custos no curto prazo, e os benefícios da compra se estendem por muitos anos.

Sabemos que para muitos alunos, a faculdade é um excelente investimento que aumenta seus ganhos, enquanto para outros será um mau investimento porque eles não se formam ou adquirem habilidades de trabalho que não se traduzem em aumento de ganhos. (Por exemplo: eu trabalhei em um bar depois de receber meu diploma de graduação; não ganhei mais dinheiro porque tinha um diploma.)

Também sabemos que os preços e o valor mudam com o tempo. No caso do ensino superior, os preços aumentaram fortemente nos últimos 30 anos, enquanto o valor diminuiu.

Como Arthur C. Brooks apontou no The Atlantic em julho, de 1989 a 2016, os custos universitários com mensalidades e taxas aumentaram 98% em dólares reais (ajustados pela inflação), cerca de 11 vezes a renda familiar média.

Ao mesmo tempo, há evidências convincentes de que, embora o preço da faculdade esteja aumentando drasticamente, o valor dos diplomas está diminuindo devido ao excesso de diplomas.

Para pais como eu, a ideia de gastar US$ 350.000 para mandar meus três filhos para a universidade, para ser franco, me deixa um pouco enjoado. Do jeito que está, eu não vejo valor nisso. (Como digo à minha esposa, no entanto, isso não significa que não vou mandar meu filho para Princeton se ele ou ela for admitido e eu acreditar que a faculdade é a escolha certa para esse filho em particular.) Nos últimos dois anos, sempre que pensava no futuro dos meus filhos, ficava cada vez mais nervoso. Se não for a faculdade, então é o quê? Por que não existem opções melhores? Está aí uma grande necessidade.

A beleza dos mercados livres é que as necessidades não ficam sem atendimento por muito tempo. Em um sistema livre, a inovação tem uma forma de preencher as lacunas para atender ao que os consumidores desejam.

A expansão do sistema de certificação do Google oferece duas coisas que os jovens (e seus pais) valorizam muito: 1) treinamento em habilidades profissionais; e 2) prestígio.

Não subestime o poder deste último. Prestígio vale muito. Na verdade, quando você olha para a educação real que muitos estudantes universitários recebem hoje, prestígio é o que eles estão comprando, não educação.

O valor dos diplomas pode ter diminuído durante anos, mas pais e filhos ainda podiam aceitar os custos excessivos porque havia uma certa quantidade de status e reconhecimento conferidos simplesmente por estar na faculdade e depois se formar.

Grandes corporações como o Google têm mais a oferecer do que imaginam. No mercado de hoje, ter o Google em um currículo pode oferecer o mesmo prestígio de uma universidade – e possivelmente muito mais em termos de habilidades profissionais.

Assim que as empresas descobrirem que sua marca pode oferecer as mercadorias que os consumidores desejam – treinamento e validação para o trabalho -, isso pode perturbar o modelo educacional atual. É possível que as corporações também possam trazer um ressurgimento do antes popular estilo de aprendizagem prática que pode ser rastreado desde o Código de Hammurabi na Antiga Babilônia até os programas de treinamento de negócios de hoje, como Praxis e Google.

No mínimo, programas como os Certificados de Carreira do Google oferecerão competição muito necessária para o sistema universitário e opções adicionais para jovens que procuram dar seu próximo passo no mundo.

Pais do mundo, alegrem-se!

Jon Miltimore

Jonathan Miltimore é o editor-chefe da FEE.org. Seus artigos e reportagens têm sido tema de matérias na revista TIME, The Wall Street Journal, CNN, Forbes, Fox News e Star Tribune.Bylines: The Washington Times, MSN.com, The Washington Examiner, The Daily Caller, The Federalist, Epoch Times.

https://fee.org/articles/google-s-plan-to-disrupt-the-college-degree-is-exactly-what-the-higher-education-market-needs/amp

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK para WhatsApp ou

https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Impactos da Pandemia na Educação: Uma Entrevista com Cláudio Moura Castro

Por André Medici no blog Monitor da Saúde  Ano 14, Número 109, agosto de 2020

Os efeitos da Covid-19 afetaram muitas vidas em todas as suas dimensões, mas certamente uma das dimensões onde o impacto parece ter sido maior foi a da educação. O ano de 2020 parece ter sido perdido em termos de progressos educacionais. Será verdade? Pode-se dizer que nem tanto ao mar e nem tanto à terra. É o que revela a entrevista de Cláudio Moura Castro.

Cláudio é um dos maiores especialistas em educação e formação profissional no Brasil, detendo uma vasta trajetória nacional e internacional. Nascido no Rio de Janeiro, foi bem cedo para Minas Gerais incorporando a perspectiva e a cultura daquele Estado em seu DNA intelectual. Graduado em Economia pela UFMG, mudou-se para os Estados Unidos onde fez mestrado na Yale University e, na sequência, doutorado na Vanderbilt University, ambos em Economia.  A passagem de Yale para Vanderbilt ocorreu através de uma longa viagem cruzando os Estados Unidos pela Route 66 no dorso de uma motocicleta. Ao longo do tempo complementou sua formação com cursos nas Universidades de Berkeley e Harvard.

Suas atividades como professor incluíram várias universidades como a PUC-Rio de Janeiro, Universidade de Chicago, Universidade de Brasilia, Univeristé de Geneve e Université de la Borgnone. No Brasil, liderou várias instituições como o Centro Nacional de Recursos Humanos (CNRH) do IPEA e foi Diretor da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) do Ministério Educação.

Passou um longo tempo de sua vida no exterior, inicialmente como Chefe da Unidade de Políticas de Formação da Organização Internacional do Trabalho em Genebra (Suiça), mudando-se depois para Washington, onde foi economista da educação do Banco Mundial e posteriormente, Assessor-Chefe de Educação no Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Ao retornar para o Brasil, na primeira década do milênio, Claudio foi assessor de grupos privados de educação superior, como o Pitágoras e Positivo e atualmente atua na consultoria Eduqualis e também como colunista da Revista Veja e do jornal Estado de São Paulo. Tem cerca de 50 livros e 300 artigos acadêmicos publicados em temas como educação, políticas sociais, saúde, ciência e tecnologia. Tem também interesse e publicações em áreas como turismo-aventura, arquitetura, ofícios manuais, marcenaria, mecânica, e expedições de aventura. Um livro que congrega parte dessas aventuras e é uma leitura imperdível é “Meio Século no Limiar do Perigo”, publicado em 2005 pela Editora Record.

******

Monitor de Saúde (MS) – Uma das principais estratégias de combate a Pandemia do Covid-19 foi o distanciamento social, que inclui um conjunto de várias medidas, dentre as quais a primeira tomada na maioria dos países (ainda no início de março) foi o cancelamento das aulas presenciais em quase todos os países desenvolvidos, mas também nos países em desenvolvimento afetados pela pandemia. De acordo com dados da UNICEF para fins de julho de 2020, 1,7 bilhões de estudantes estavam temporariamente sem aulas, afetando 98% da população estudantil no mundo. Quais estratégias os países estão utilizando para evitar que haja uma perda, não só no ano letivo, mas principalmente, nos níveis de aprendizado dos estudantes?

Cláudio de Moura Castro (CMC) – Para início de conversa, ensino a distância (EAD) não é novidade. Em 1728 foi anunciado um curso pela Gazeta de Boston, oferecendo material para ensino e tutoria por correspondência. Em 1829, cria-se na Suécia, o Instituto Líber Hermondes, que ofereceu cursos à distância para mais de 150.000 pessoas. Essa modalidade dá um grande salto com a invenção do selo de correio, em meados do século XIX. Portanto, começando com o ensino por correspondência, o caminho do EAD vem sendo trilhado por mais de dois séculos.

No Brasil, em 1904, o Jornal do Brasil registra um anúncio oferecendo profissionalização por correspondência para datilógrafos. No ano de 1939, surgiu em São Paulo o Instituto Monitor, seguido do Instituto Universal Brasileiro. Ambos ofereciam cursos profissionalizantes. Estima-se em vários milhões de brasileiros aprenderam assim a consertar rádios. 

Em meados dos anos 50, aprendi também reparação de rádios, cursando o Monitor. E aprendi melhor por correspondência os assuntos equivalentes ao ensinado no nível médio.

Os avanços digitais tornaram as comunicações no ensino a distância amplamente mais rápidas e eficientes do que pelo correio. Mas a ideia é a mesma. Nada de novo. De resto, no ensino superior, antes da pandemia, a matrícula no EAD brasileiro já se aproximava da presencial.

O que há de novo e nem tão bem-vindo é o uso do EAD no ensino básico. Está longe de ser uma solução satisfatória, pois a presença física é essencial nesse nível. Porém, é a distância ou nada.

Por ser uma solução antes inexistente para este alunado, a transição sofreu com o inevitável atropelo e com a inexperiência de operar nesse nível. Não obstante, foi extraordinário o esforço para vencer essa barreira inicial. Considerando o formidável desafio, não se pode dizer que a escola fracassou.

MS – Os dados mostram que muitos países, especialmente os países mais avançados, têm utilizado tecnologias digitais, como a tele-educação, para manter a regularidade das classes nas escolas. Estas estratégias são eficientes, no sentido de cobrir a totalidade dos conteúdos transmitidos em aulas presenciais? Há alguma avaliação de que a qualidade da educação não está caindo pela troca de experiências presenciais por experiências digitais?

CMC – Mesmo países como o Brasil usam a Internet, Blackboard, YouTube, Zoom e múltiplas outras ferramentas. Não há nada de essencial que não esteja sendo usado dentre nós. Inexiste uma diferença significativa no que se adota nos nossos melhores sistemas de ensino, em comparação com, digamos, os Estados Unidos. O grande fosso é entre categorias de escolas. As melhores privadas embarcaram rapidamente e incorporaram todo o repertório tecnológico. Mas daí, é morro abaixo. A disponibilidade de computadores e banda larga cai, quanto mais pobre a escola – e inevitavelmente, os alunos. Dependendo de como se define ‘disponibilidade de tecnologia’, entre metade e 90% dos alunos têm alguma coisa que lhe permite o acesso às redes. Quando nada, um smartphone. Mas há uma diferença enorme entre os extremos. E note-se, uma família com cinco alunos, mesmo de classe média, não tem cinco computadores em casa. No limite inferior, algumas redes distribuem e recolhem materiais escritos nas casas dos alunos mais desprovidos. Está longíssimo do desejável, mas é melhor do que nada.

Diante desse quadro tão variado, os resultados não são menos díspares. Milhões de alunos perdem pouco ao frequentar o novo sistema. E há quem ganhe, pois as discussões digitais são mais eficazes para certos perfis psicológicos. Na outra ponta da distribuição, há muitos alunos a quem nada é oferecido ou que, desencorajados com a má experiência, abandonam o curso.

 MS – Ainda que haja o uso de estratégias digitais para substituir as aulas presenciais, nem sempre isso é possível dado que nem todos os alunos tem disponibilidade de tecnologia (computadores e internet) para aulas digitais. Nas economias avançadas, as escolas buscam levar aos estudantes mais carentes os computadores e a conexão para evitar estas perdas. Mas isto não ocorre nos países em desenvolvimento e de renda baixa. Qual o impacto que isto poderá trazer no aumento da inequidade de oportunidades futuras, para usar a linguagem de Amartya Sen, dado que a desigualdade educacional está na raiz das futuras inequidades sociais e na dinâmica do desenvolvimento econômico? É possível ter estratégias alternativas para evitar estas nefastas consequências?

CMC – Há respostas divergentes para duas questões paralelas. Na primeira, consideremos que a educação sempre serviu para arrumar as pessoas dentro de uma hierarquia econômica – que a curto prazo a pandemia não afeta. Quem tem mais e melhor educação, já começa em um galho mais alto. E vice-versa. Como todos estão sendo prejudicados, pode-se imaginar que esta ordenação não vai mudar muito. Na segunda questão, todos sofrem por receber uma educação improvisada. Porém, é pior para os mais pobres. Esta perda subtrai do já limitado capital humano que tem nossa sociedade. É um grande prejuízo, mas é de longo prazo e não temos como medi-lo de forma confiável.

MS – Como a Covid-19 tem afetado o desempenho da educação pública no Brasil? Por exemplo, na área de educação básica, os municípios estão dando boas respostas para evitar perdas de aulas e conteúdos educacionais na escola pública? Como os Estados estão enfrentando isso na educação secundária. Como o governo federal enfrenta a questão na educação superior?

CMC – Uma coisa é certa: o COVID-19 precipitou uma revolução tecnológica no ensino formal. Quem se persignava diante de um computador ou seus aplicativos, de um dia para o outro, passou a usá-los em tempo integral. Esse talvez seja o lado positivo mais espetacular da crise, uma vez que as tecnologias digitais podem trazer grandes benefícios, se bem usadas. Difícil imaginar que, ao fim da crise, tudo será abandonado.

Todavia, a qualidade do que acontece segue linhas quase previsíveis. Os estados sulinos, de São Paulo para baixo, reagiram rapidamente e estão se saindo tão bem quanto se poderia esperar. Algumas secretarias estaduais se organizaram seriamente para apoiar suas escolas. Filantropias como a Leman Foundation e o Instituto Unibanco montaram programas para ajudar as secretarias.

No resto do país a situação é muito variável. No Fundamental, os municípios mais estruturados e com educação melhor parecem mostrar dinamismo e capacidade de reação.  Em outros, já precários no seu ensino tradicional, não se pode esperar muito.

O MEC, mergulhado no maremoto das incessantes mudanças de equipe, pouco pôde ou soube oferecer para ajudar estados e municípios. O mais óbvio seria financiar tecnologia para escolas e alunos mais pobres. Mas sua ação tem sido tíbia. Com o novo Ministro, parece que vai mover-se nesta direção.

MS – Há no Brasil alguma diferença entre as estratégias, recursos e processos de enfrentamento da crise do Covid-19 na educação entre os setores público e privado de educação?

CMC – Monumental! O sistema privado, seja no Básico ou no Superior, em semanas ou dias se baldeou para a EAD. Claro, instituições alertas como o INSPER e FIA-USP andaram rápido e bem. Outras menos, mas não consta que alguma ficou paralisada, em qualquer nível.

Já no lado público, há duas situações fundamentalmente distintas. Praguejando, lamentando e sofrendo, o ensino básico foi arrastado para o EAD, algumas redes mais rapidamente do que outras. Não estavam preparadas e não tinham os meios financeiros e intelectuais para a transição. Mas a fizeram.

Em contraste, quase todas as universidades federais, simplesmente, empacaram. Segundo sua explicação, como nem todos os alunos têm acesso pleno à tecnologia, passar os cursos para EAD seria prejudicá-los, aumentando a desigualdade. Mas note-se que, segundo a Fundação Leman, quase todos os alunos do ensino médio têm, pelo menos, um smartphone.  É de se imaginar que, no ensino superior, quase todos tenham também computadores. E, não nos esqueçamos, o correio funciona. Seja como for, pela lógica das universidades públicas, é preferível prejudicar a todos do que apenas a uma pequena minoria. A se registrar, algo como meia dúzia das federais embarcaram no EAD (e vale notar, USP e Unicamp também).

MS – Quais são as diferentes modalidades de enfrentamento da crise da educação em escolas e universidades públicas e privadas?

CMC – Escolas tecnologicamente mais bem equipadas usam aplicativos como o Zoom para continuar com as aulas, seguindo o mesmo modelo do presencial. É a fórmula que menos terremotos provoca. E funciona. No nível superior, o EAD já é uma realidade consolidada em muitas instituições. Nessas escolas, seja com materiais escritos, seja com clipes televisivos, a única mudança é a migração de todos os alunos para a modalidade a distância. Naturalmente, para quem já era fraco ou não tinha EAD, as dificuldades foram maiores. Mas não nos esqueçamos, neste nível, a maturidade dos alunos e seus meios econômicos já são bem superiores. E como mostram os resultados do ENADE – pré-pandemia – entre distância e presencial não há diferenças significativas em favor de uma ou outra alternativa.

No nível Básico, a situação é muito mais incerta. Para começar, embora inevitável, não é uma boa solução suprimir a convivência com pares e professores.

 Na sua operação, algumas redes caminharam para soluções ao estilo Telecurso 2000, ou seja, a mesma aula para todos os alunos. Ilustrando, um único professor dá o curso de português da quarta série para toda a rede. O que complementa essas aulas é bem mais variado e de eficácia igualmente diferente.

A experiência norte-americana mostrou o enorme potencial de usar projetos, mais do que aulas expositivas regulares. Mas não tenho informações sobre esta prática no Brasil.

Um problema novo é que o aluno do ensino básico requer muito mais apoio pessoal. Necessita sentir-se parte de um grupo social e pode precisar atendimento personalizado para vencer as barreiras que vão aparecendo. Mas não creio que tenhamos informações adequadas sobre o desempenho das escolas nesse tópico.

MS – Um dos problemas associados a pandemia do Covid-19 é a sua instabilidade dada pelo risco de retornos ao crescimento de contaminados e novas ondas pandêmicas. Vários países estão passando por esse processo recentemente, como a Nova Zelândia, levando a ameaças de fechar novamente as escolas. Mesmo que as escolas não fechem, a insegurança dos pais deixa de levar as crianças às escolas. Nesse processo de incertezas, é possível fazer com que o modelo de educação digital passe a ser uma regra permanente e não uma exceção associada a crise?

CMC – Qualquer solução única para todos seria um desastre. Dado o maior grau de maturidade dos alunos do ensino superior há indicações de que o híbrido seja amplamente melhor do que o presencial tradicional. Ou seja, em casa mais leitura e mais escrita. E menos tempo ouvindo preleções. Fica o presencial para discussão e socialização. Mas quem olha para o mapa do Brasil logo vê que as distâncias impedem muitos de viver próximo a um curso. Portanto, o EAD puro é inevitável.

Nos primeiros doze anos de ensino, não pode estar em cogitação manter o ensino a distância, uma vez superados os riscos da pandemia. Além do que já foi mencionado, esse regime exige mais disciplina e responsabilidade pessoal, o que é uma capacidade mais precariamente distribuída entre os mais jovens e, em particular, entre os mais pobres.

Porém, à margem das rotinas presenciais, a nova tradição de reuniões a distância tem boas razões para ser mantida. Por exemplo, não seria mais fácil reunir-se com os pais por esta forma? Igualmente, muitos usos da tecnologia, impostos pela distância, podem ser mantidos no futuro.

Quando voltarão as aulas presenciais? O pior cenário seriam voltar todas no mesmo dia, pois em cada lugar a pandemia tem a sua dinâmica própria. Seja como for, lamento confessar que não saberia dizer quando deve começar o lento processo de volta às aulas. De fato, é particularmente ambígua, mesmo a literatura técnica mais séria sobre esse assunto.

MS – No caso da educação superior, o modelo digital de @learning tem sido utilizado por muitas universidades e cursos digitais, especialmente ao nível de pós graduação, antes vistos com maus olhos, passam agora a ser encarados seriamente e muitas universidades de grande porte, como as Ivy-Leagues norte-americanas (Harvard, Stanford, Berkeley) estão utilizando este modelo como principal em muitas áreas. É possível que esse modelo passe a acontecer com maior frequência em outros níveis educacionais?

CMC – Entre a realidade e a imagem há uma distância. Ou como já dito, o fato vale menos do que a versão. Quando Sir Walton of Perry recebeu a missão de criar a Open University, logo procurou Oxford e Cambridge. Mas foi rechaçado sumariamente. Hoje já se viu que um bom EAD deixa pouco a desejar diante do presencial. E o híbrido, além de mais barato, mostra rigorosamente o mesmo resultado.

Com quinze anos de idade, morando no interior das Minas Gerais, ao fazer o curso do Monitor, achava que estava sendo muito bem servido. Era melhor e mais prático do que a escola local. Paradoxalmente, o curso por correspondência tinha mais atividades concretas e com as mãos do que a escola. Mais de meio século depois, pesquisas rigorosas mostram que minha percepção juvenil não estava equivocada.

Na Rússia, na década de 30, uma boa proporção dos estudantes de Engenharia estudava por correspondência. Nos fins de semana, iam praticar nos laboratórios e oficinas da escola. 

Mas números nem sempre enfrentam com êxito as mitologias arraigadas. Persistiu um ceticismo arrogante por décadas, desqualificando o ensino a distância. A pandemia veio mostrar a infantilidade de tais preconceitos.

Façamos um exercício intelectual singelo. Tomemos dois cursos fracos, um presencial e outro EAD. No primeiro, os alunos passam vinte horas semanais sentados diante de um professor que fala sem parar. Ou seja, a interação é mínima. Apenas para ouvi-lo, como é o caso, pouca diferença faria se estivesse em Tóquio, com o Zoom. Mas como aulas expositivas de 50 minutos não funcionam no EAD, para cumprir a carga horária, os cursos são obrigados a mandar os alunos lerem, escreverem e resolverem problemas. Ora, essa segunda solução é mais próxima do ‘ensino ativo’, amplamente mais eficaz que o ‘passivo’, que consiste em ouvir preleções. Ou seja, pela natureza do processo de ensino, o EAD é obrigado a usar uma pedagogia superior.

MS – Quais as tendências que podem ser estabelecidas para a educação no mundo pós-pandêmico dos próximos anos?

CMC – Obviamente, espera-se mais uso de modalidades a distância. Podem ser cursos inteiros, como já ocorre na graduação e na pós-graduação lato sensu. Ou então, reduzindo a carga presencial de outros. O que é para ler e escrever, será feito em casa. Para os laboratórios e discussões, se preservará o espaço físico da faculdade.

A pandemia reforça a tendência recente de usar mais metodologias ativas na sala de aula. Quebrado o encanto da velha aula expositiva, tudo fica mais fácil. E ao se experimentar novas fórmulas, facilita-se o diálogo, em vez do tradicional monólogo.

Rompido o tabu das tecnologias digitais, entra em cena o LMS, como Blackboard e Moodle. E mais vídeos, prontos ou feitos pelo professor. Mais aulas invertidas – apoiadas no YouTube. Mais discussões e chats a distância. Mais celebridades acadêmicas falando para turmas imensas.

Haverá mais pragmatismo e menos superstição, diante das escolhas de como conduzir um curso e suas tecnologias.

E como consequência, haverá também mais poder para aqueles encarregados de lidar com as tecnologias.    

Impactos da Pandemia na Educação: Uma Entrevista com Cláudio Moura Castro

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal basta clicar no link: 

https://chat.whatsapp.com/BJnVYTeAIS5EDxI3py98KK

Este é um grupo de WhatsApp restrito para postagens diárias de Evandro Milet. 

Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/