O Poder da narrativa na gestão

No final é tudo sobre contar histórias: aquelas que contamos para nós mesmos e aquelas que contamos para os outros

Por Sérgio Cavalcanti* Exame Publicado em: 29/12/2020

Gosto de trabalhar com jovens talentosos que valorizam experiência e cabelos brancos. Olhos e ouvidos atentos às histórias que tenho para contar tornam nossas conversas ricas e gratificantes. As perguntas me fazem aprender mais, rever conceitos, aprimorar modelos, criar um círculo virtuoso.

Esses jovens se surpreendem inicialmente quando sugiro que façam um curso de escrita criativa. Certamente esperavam a indicação de algum curso de planejamento estratégico, inovação, finanças corporativas, com o Damodaran ou outro expert do mundo corporativo. Os cursos ministrados pelos cardeais do conhecimento são importantes, aprender é sempre importante, mas minha sugestão é dirigida a uma habilidade subapreciada.

Saber contar histórias é uma habilidade fundamental para qualquer líder e deveria ser parte do currículo das escolas de negócio. Contar histórias é um ato comunitário, envolve compartilhamento de conhecimentos e valores. É um dos elementos mais unificadores da humanidade, central para a existência humana, ocorre em todas as culturas no mundo. Através de histórias, transmitimos conhecimentos, valores, propósito, inspiração, criamos novas perspectivas, abrimos mentes e corações. Histórias têm o poder de tornar coisas presentes, definir prioridades, dar vida a questões fundamentais, estabelecer pautas sociais.

Ao ouvir uma história, uma função no cérebro chamada “acoplamento neural” é ativada, o que permite ao ouvinte converter as ideias apresentadas em experiências próprias. Isto torna o conteúdo mais pessoal, mais fácil para o ouvinte se identificar, o que aumenta a influência delas.

Com o advento das redes sociais, o poder da narrativa ficou claro e inequívoco. A habilidade de contar histórias virou uma potente arma nas guerras culturais travadas diariamente no mundo virtual, com sério impacto sobre o que pensamos e como tomamos decisões. Não é diferente nas organizações.

Seres humanos são sedentos por sentido, tentam entender o ambiente que os rodeiam, buscam criar um nexo para uma jornada que sabem finita. Por isso histórias são fundamentais e saber contá-las é uma arte a ser desenvolvida.

Histórias bem contadas são poderosas, naturais, revigorantes, energizantes, persuasivas, holísticas, divertidas, comoventes, memoráveis e autênticas. Por meio delas, compartilhamos paixões, medos, tristezas, dificuldades, alegrias e encontramos um terreno comum para que possamos nos conectar e nos comunicar com outras pessoas. As narrativas nos ajudam a dar sentido às organizações e tornam os storytellers inesquecíveis.

Por isso, caro leitor, faça um curso de escrita criativa. Aprenda a contar histórias a colaboradores, gestores, investidores e todo tipo de stakeholder. Será divertido e trará um imenso retorno.

*CEO e fundador da Nationsoft e Mestre em Gestão pela Stanford University

https://exame.com/blog/sergio-cavalcanti/o-poder-da-narrativa/

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Por que líderes inclusivos são bons para as organizações e como se tornar um

Por Juliet Bourke  e Andrea Titus HBR 29/03/2019(Tradução Evandro Milet)

As empresas contam cada vez mais com equipes diversificadas e multidisciplinares que combinam as capacidades coletivas de mulheres e homens, pessoas de diferentes heranças culturais e trabalhadores mais jovens e mais velhos. Mas simplesmente reunir uma mistura de pessoas não garante alto desempenho; requer liderança inclusiva – liderança que garante que todos os membros da equipe se sintam tratados com respeito e justiça, sejam valorizados e sintam que pertencem, e sejam confiantes e inspirados. Uma pesquisa envolvendo 3.500 avaliações de funcionários de 450 líderes descobriu que os líderes inclusivos compartilham seis comportamentos – e que muitas vezes os líderes superestimam o quão inclusivos realmente são. 

Estes são os comportamentos: comprometimento visível, humildade, consciência de preconceito, curiosidade pelos outros, inteligência cultural e colaboração efetiva.

As empresas contam cada vez mais com equipes diversificadas e multidisciplinares que combinam as capacidades coletivas de mulheres e homens, pessoas de diferentes heranças culturais e trabalhadores mais jovens e mais velhos. Mas simplesmente reunir uma mistura de pessoas não garante alto desempenho; requer liderança inclusiva – liderança que garante que todos os membros da equipe se sintam tratados com respeito e justiça, sejam valorizados e sintam que pertencem, e sejam confiantes e inspirados.

Ter postura inclusiva não é apenas bom para as equipes. Nossa pesquisa mostra que melhora diretamente o desempenho. Equipes com líderes inclusivos têm 17% mais probabilidade de relatar que têm alto desempenho, 20% mais probabilidade de dizer que tomam decisões de alta qualidade e 29% mais probabilidade de relatar comportamento colaborativo. Além disso, descobrimos que uma melhoria de 10% nas percepções de inclusão aumenta a frequência ao trabalho em quase 1 dia por ano por funcionário, reduzindo o custo do absenteísmo.

Que ações específicas os líderes podem realizar para serem mais inclusivos? Para responder a essa pergunta, pesquisamos mais de 4.100 funcionários sobre inclusão, entrevistamos aqueles identificados pelos seguidores como altamente inclusivos e revisamos a literatura acadêmica sobre liderança. A partir dessa pesquisa, identificamos 17 conjuntos discretos de comportamentos, que agrupamos em seis categorias (ou “traços”), todos igualmente importantes e que se reforçam mutuamente. Em seguida, construímos uma ferramenta de avaliação de 360 ​​graus para uso pelos seguidores para avaliar a presença dessas características entre os líderes. A ferramenta já foi usada por mais de 3.500 avaliadores para avaliar mais de 450 líderes. Os resultados são esclarecedores.

Estas são as seis características ou comportamentos que descobrimos distinguir os líderes inclusivos de outros:

Compromisso visível: eles articulam o compromisso autêntico com a diversidade, desafiam o status quo, responsabilizam os outros e fazem da diversidade e inclusão uma prioridade pessoal.

Humildade: eles são modestos em relação às capacidades, admitem erros e criam espaço para que outros contribuam.

Conscientização do preconceito: eles mostram consciência dos pontos cegos pessoais, bem como das falhas do sistema, e trabalham arduamente para garantir a meritocracia.

Curiosidade sobre os outros: Eles demonstram uma mentalidade aberta e profunda curiosidade sobre os outros, ouvem sem julgamento e procuram com empatia compreender aqueles que os rodeiam.

Inteligência cultural: eles estão atentos às culturas dos outros e se adaptam conforme necessário.

Colaboração eficaz: eles capacitam os outros, prestam atenção à diversidade de pensamento e segurança psicológica e se concentram na coesão da equipe.

Essas características podem parecer óbvias, semelhantes àquelas que são amplamente importantes para uma boa liderança. Mas a diferença entre avaliar e desenvolver boa liderança em geral e liderança inclusiva em particular está em três percepções específicas.

Em primeiro lugar, a maioria dos líderes do estudo não tinha certeza se os outros os consideravam inclusivos ou não. Mais particularmente, apenas um terço (36%) viu suas capacidades de liderança inclusiva como os outros, outro terço (32%) superestimou suas capacidades e o terço final (33%) subestimou suas capacidades. Ainda mais importante, raramente os líderes estavam certos sobre os comportamentos específicos que realmente têm impacto em serem avaliados como mais ou menos inclusivos.

Em segundo lugar, ser classificado como um líder inclusivo não é determinado pela média das pontuações de todos os membros, mas sim pela distribuição das pontuações dos avaliadores. Por exemplo, não é suficiente que, em média, os avaliadores concordem que um líder “aborda a diversidade e a inclusão de todo o coração”. Usando uma escala de cinco pontos (variando de “concordo totalmente” a “discordo totalmente”), uma classificação média pode significar que alguns membros da equipe discordam enquanto outros concordam. Para ser um líder inclusivo, é preciso garantir que todos concordem ou concordem fortemente que estão sendo tratados com justiça e respeito, são valorizados e têm um sentimento de pertencimento e estão psicologicamente seguros.

Terceiro, a liderança inclusiva não trata de grandes gestos ocasionais, mas de comentários e ações regulares, em menor escala. Ao comparar o feedback qualitativo em relação aos líderes mais inclusivos (25% superiores) e menos inclusivos (25% inferiores) em nossa amostra, descobrimos que a liderança inclusiva é tangível e praticada todos os dias.

Essas respostas textuais de nossas avaliações ilustram alguns dos comportamentos tangíveis dos líderes mais inclusivos do estudo.

Compartilha suas fraquezas pessoais: “[Esta líder] perguntará abertamente sobre informações das quais ela não tem conhecimento. Ela demonstra uma maneira de trabalhar humilde e despretensiosa. Isso deixa os outros à vontade, permitindo-lhes falar e expressar suas opiniões, o que ela valoriza. ”

Aprende sobre diferenças culturais: “[Este líder] dedicou um tempo para aprender as manhas (palavras comuns, expressões idiomáticas, costumes, gostos / desgostos) e os pilares culturais.”

Reconhece os membros da equipe como indivíduos: “[Este líder] lidera uma equipe de mais de 100 pessoas e ainda assim se dirige a cada membro da equipe pelo nome, conhece o fluxo de trabalho que eles apóiam e o trabalho que fazem.”

Os textos a seguir ilustram alguns dos comportamentos dos líderes menos inclusivos:

Supera os outros: “Ele pode ser muito direto e opressor, o que limita a capacidade das pessoas ao seu redor de contribuir para reuniões ou participar de conversas”.

Mostra favoritismo: “O trabalho é atribuído aos mesmos melhores em desempenho, criando cargas de trabalho insustentáveis. [Há uma] necessidade de dar aos novos membros da equipe oportunidades de se provarem ”.

Desencoraja visões alternativas: “[Este líder] pode ter ideias muito definidas sobre tópicos específicos. Às vezes é difícil obter uma visão alternativa. Há o risco de que sua equipe evite apresentar pontos de vista desafiadores e alternativos ”.

O que os líderes dizem e fazem tem um impacto desproporcional sobre os outros, mas nossa pesquisa indica que esse efeito é ainda mais pronunciado quando eles estão liderando equipes diversificadas. Palavras sutis e atos de exclusão por parte dos líderes, ou ignorar os comportamentos exclusivos de outros, facilmente reforçam o status quo. É preciso energia e esforço deliberado para criar uma cultura inclusiva, e isso começa com os líderes prestando muito mais atenção ao que dizem e fazem diariamente e fazendo os ajustes necessários. Aqui estão quatro maneiras de os líderes começarem:

Conheça sua projeção de liderança inclusiva: busque feedback sobre se você é percebido como inclusivo, especialmente de pessoas que são diferentes de você. Isso o ajudará a ver seus pontos cegos, pontos fortes e áreas de desenvolvimento. Também sinalizará que a diversidade e a inclusão são importantes para você. Agendar conversas regulares com membros de sua equipe para perguntar como você pode fazer com que eles se sintam mais incluídos também envia a mensagem.

Seja visível e fale: conte uma narrativa convincente e explícita sobre por que ser inclusivo é importante para você pessoalmente e para a empresa de forma mais ampla. Por exemplo, compartilhe suas histórias pessoais em fóruns e conferências públicas.

Busque deliberadamente a diferença: dê às pessoas na periferia de sua rede a chance de se manifestar, convidar pessoas diferentes para a mesa e alcançar uma rede mais ampla. Por exemplo, busque oportunidades de trabalhar com equipes multifuncionais ou multidisciplinares para alavancar diversos pontos fortes.

Verifique seu impacto: procure sinais de que você está tendo um impacto positivo. As pessoas estão copiando seu modelo de atuação? Há um grupo mais diversificado de pessoas compartilhando ideias com você? As pessoas estão trabalhando juntas de forma mais colaborativa? Peça a um consultor de confiança para lhe dar um feedback sincero sobre as áreas nas quais você tem trabalhado.

Há mais a ser aprendido sobre como se tornar um líder inclusivo e aproveitar o poder de diversas equipes, mas uma coisa é certa: os líderes que praticam conscientemente a liderança inclusiva e desenvolvem ativamente sua capacidade verão os resultados no desempenho superior de suas diversas equipes.

Juliet Bourke é sócia da Human Capital, Deloitte Australia, onde lidera a prática de Consultoria em Diversidade e Inclusão e co-lidera a prática de Liderança. Ela é a autora de Quais duas cabeças são melhores do que uma: como diversas equipes criam ideias inovadoras e tomam decisões mais inteligentes. Envie um e-mail para julietbourke@deloitte.com.au

Andrea Titus é consultora em Capital Humano, Deloitte Australia, e candidata a PhD em psicologia organizacional na Macquarie University. Envie um e-mail para aespedido@deloitte.com.au

https://hbr.org/2019/03/why-inclusive-leaders-are-good-for-organizations-and-how-to-become-one

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Como as empresas estão monitorando os funcionários no home office

A promessa era de liberdade, mas a realidade é diferente. Cada vez mais companhias usam softwares para acompanhar o dia a dia dos colaboradores

Por Amauri Segalla Atualizado em 4 fev 2021, 19h28 – Publicado em 5 fev 2021, 06h00 

A adoção do home office por empresas de diversos setores levou a uma série de análises apressadas. Alguns especialistas disseram que os escritórios sumiriam do mapa (claro que houve uma transformação, mas o desaparecimento está longe). Outros afirmaram que o trabalho a distância impulsionaria os comércios locais, já que, ao ficar mais tempo em casa, as pessoas realizariam maior parte de suas compras nos arredores da residência. Isso não ocorreu por uma simples razão: com a explosão do comércio eletrônico, foram as corporações gigantescas que mais se expandiram. A terceira projeção imprecisa diz respeito à liberdade para cumprir a labuta diária. 

No trabalho a distância, cravaram os observadores corporativos, os profissionais teriam liberdade para fazer o que bem entendessem, usufruindo do tempo da maneira que considerassem adequada. Nada poderia ser mais falso do que a última premissa. No home office, os funcionários nunca foram tão vigiados pelas grandes companhias, que passaram a usar a tecnologia para fazer marcação cerrada nos colaboradores. De certa forma, os chefes jamais estiveram tão atentos aos movimentos dos subordinados — cada e-mail, conversa, site visitado ou relatório está na mira de quem manda.

A americana Microsoft, uma das maiores empresas de tecnologia do mundo, criou um software para medir a produtividade dos funcionários. Chamado Productivity Score, ele identifica tudo o que o colaborador faz durante o dia. Com o equipamento, os chefes sabem quantos e-mails profissionais foram enviados, quem desliga a câmera em reuniões e até o tempo que a pessoa fica na frente do computador. Para tornar o sistema mais rigoroso, os funcionários receberiam uma pontuação de acordo com as informações coletadas pelo software. 

EM CASA - No computador e no celular: webcam tira fotos a cada cinco minutos do profissional – Morsa Images/Getty Images 

A ideia da Microsoft parecia tão radical — e recebeu tantas críticas — que a companhia decidiu voltar atrás, abandonando o tal sistema de pontuação. “A liberdade de trabalho é uma ficção do home office”, diz o consultor Eduardo Tancinsky. “Por mais que o mercado tenha mudado nos últimos anos, ainda é ousado demais permitir que o empregado disponha da maneira que quiser do seu tempo, incluindo não fazer nada.” 

Há uma certa ironia no fato de as empresas de tecnologia, supostamente mais abertas às inovações impostas pelos ventos da transformação, serem as mais preocupadas em controlar os funcionários. A também americana Zoom, que viu seu programa de videoconferência se tornar uma febre na pandemia, adotou o home office em larga escala, mas usa um software de monitoramento para acompanhar o expediente de sua equipe.

No Vale do Silício, o lar das empresas de tecnologia dos Estados Unidos, programas como o Sneek, que tira fotos com a webcam, viraram a febre do momento. O funcionário que trabalha em casa é fotografado em períodos predeterminados — a cada cinco, quinze ou vinte minutos, a depender da rigidez do chefe ­—, como se fosse uma máquina programada apenas para trabalhar. O Sneek se tornou um sucesso global. Segundo a empresa, a base de usuários semanais cresceu 250% desde o início da pandemia. 

É mais ou menos isso o que faz a Time Doctor, empresa que se define como “um instrumento para empresas e indivíduos se tornarem mais produtivos”, mas que no fundo consiste apenas em um software que capta fotos periódicas da webcam. Outro programa, criado pela startup Einable, usa inteligência artificial para calcular a rapidez com que os colaboradores em home office executam diferentes tarefas.

A crescente vigilância suscita alguns questionamentos. Até que ponto as empresas têm o direito de controlar o que os funcionários fazem no expediente? Segundo a nova Lei Geral de Proteção da Dados (LGPD), o monitoramento deve ser limitado ao uso de dados relacionados ao trabalho e não é permitido que as companhias tornem públicas as informações obtidas através da vigilância. A avaliação de desempenho do empregado, porém, não está prevista nas novas regras da LGPD. De todo modo, dizem os especialistas, a recente legislação precisa de tempo para ser assimilada pelas empresas e pela sociedade. 

De todas as transformações impostas pela pandemia do coronavírus, o home office talvez seja a mais efetiva. O trabalho a distância, de fato, é uma tendência que veio para ficar. Não significa, porém, que o ambiente de trabalho será revirado do avesso. Há desafios pela frente. Como será possível construir uma cultura empresarial se parte dos funcionários trabalha a distância? 

A construção de um DNA corporativo deve-se, sobretudo, ao relacionamento entre as equipes, à troca diária entre chefes e subordinados, aos acertos — e erros — compartilhados. Como fazer isso se as pessoas estão separadas? Como criar redes colaborativas permanentes se cada profissional está em seu próprio canto? A tecnologia encurta caminhos e é forte aliada, mas não traz respostas para tudo. Esse é um desafio que as empresas terão de superar.

Publicado em VEJA de 10 de fevereiro de 2021, edição nº 2724

https://veja.abril.com.br/economia/como-as-empresas-estao-monitorando-os-funcionarios-no-home-office/

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Bezos deixa dia a dia da Amazon para ir em busca do sonho de morar na lua

Bezos diz em carta a funcionários que vai se dedicar à sua empresa aeroespacial Blue Origin, a seu fundo de mudança climática, à filantropia e ao jornalismo

Por Josette Goulart  Veja Publicado em 3 fev 2021

Quando era um menino de 5 anos, Jeff Bezos ficou encantado com a partida da nave Apolo 11 rumo à lua e depois com os primeiros passos de Neil Armstrong em solo lunar. Ele mesmo conta que naquele dia virou um apaixonado por tudo o que envolvia o espaço. Espaçonaves, lua, estrelas, astronautas. Desde então, ele tem um sonho: conquistar o espaço. É um sonho tão sério que anualmente ele injeta 1 bilhão de dólares, que ganha com a Amazon, na Blue Origin, sua empresa aeroespacial. O objetivo é tornar as viagens espaciais tão baratas ao ponto que milhões de pessoas possam ir morar na lua ou em outros planetas. Nesta semana, Bezos anunciou a seus funcionários que vai deixar o comando do dia a dia da Amazon, a gigante do varejo, para se dedicar mais à Blue Origin. Além disso,  ele também irá se ocupar com assuntos mais mundanos como: a mudança climática e seu Earth Fund; as famílias carentes e seu Day 1 Fund; o jornalismo e seu Washington Post. 

Em uma carta enviada a seus funcionários na terça-feira, 2, Bezos disse que ele nunca teve mais energia do que agora e que está entusiasmado com o impacto que essas organizações, às quais ele agora vai se dedicar, podem ter. E ele também recomenda que todos os funcionários da Amazon continuem inventando e que “não se desesperem quando a princípio a ideia parecer maluca”. 

Jeff Bezos quer tornar viagens espaciais tão baratas que pessoas possam morar na lua ./Divulgação 

Para que mais maluca do que a ideia de morar na lua? Ou uma empresa cuja missão é “construir uma estrada para o espaço para que nossas crianças possam construir um futuro”? Seu sonho é tão sério que uma ex-namorada de Bezos chegou a dizer que ele só tinha a Amazon para ter dinheiro suficiente para conquistar o espaço. Ele nunca negou que era verdade. E a Amazon lhe deu muito dinheiro, de fato. A empresa que nasceu numa garagem para vender livros virou uma das maiores varejistas do mundo, se embrenhou no mundo do cinema com o streaming Prime Video e está na casa das pessoas com sua inteligência artificial de nome Alexa. Hoje, vale mais de 1,7 trilhão de dólares, emprega 1,3 milhão de pessoas, é uma das empresas mais tecnológicas do mundo e tornou Bezos um dos homens mais ricos da Terra. 

A Amazon é tão grande e lucrativa que já caminha sozinha, nos moldes do que também acontece com outras empresas de tecnologia trilionárias como a Apple, que cresceu ainda mais depois da morte de seu fundador, Steve Jobs. Agora a empresa terá como CEO Andy Jassy, que está há duas décadas na empresa e até então comandava a Amazon Web Services, divisão de armazenamento e processamento de dados da companhia. Bezos sai do comando do dia a dia para ser presidente executivo, algo como presidente do Conselho de Administração.  

Se a Amazon lhe serve para conquistar seus sonhos, o sonho de conquistar o espaço nunca esteve tão perto para Bezos. A Blue Origin fechou um contrato de mais de meio bilhão de dólares com a Nasa, em abril do ano passado, para desenvolver um módulo lunar que pretendem mandar à lua em 2024. Em dezembro do ano passado, Bezos foi para o Instagram e mostrou a foto de um motor que ele disse que seria o primeiro a levar uma mulher à lua. Agora em janeiro, Bezos fez o primeiro teste de uma viagem com cápsula tripulada. Foi um sucesso. Em março deste ano, a Nasa deve escolher duas empresas para continuar construindo seus protótipos para uma viagem tripulada à lua. Entre os concorrentes está a SpaceX de Elon Musk, o homem que hoje rivaliza com Bezos no ranking dos homens mais ricos do mundo e que também quer conquistar o espaço.

Mas apesar de sua paixão pelo espaço, os assuntos mais mundanos também devem ganhar especial atenção de Bezos, porque isso lhe dá prestígio e também acalma os corações de seus próprios funcionários. O empresário já foi muito criticado pela forma como trata seus funcionários e então lançou um novo pagamento mínimo a eles. Com a eleição de Biden, chegou a propor que a Amazon ajudasse a distribuir as vacinas, desde que seus funcionários furassem a fila da vacinação. Há um ano, os funcionários também criticaram a forma como a Amazon trata o meio ambiente. Agora Bezos tem o Earth Fund, um fundo de 10 bilhões de dólares para aplicar em projetos de defesa do meio ambiente. Como ele mesmo terminou a carta a seus funcionários: “Lembrem-se de questionar. Deixem a curiosidade ser sua bússola. Continua sendo o Dia 1”. 

https://veja.abril.com.br/economia/bezos-deixa-dia-a-dia-da-amazon-para-ir-em-busca-do-sonho-morar-na-lua/

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Veja 15 profissões em alta para 2021: saúde e tecnologia saem na frente

  • Levantamento do LinkedIn mostra profissões, habilidades e panorama geral do mercado de trabalho brasileiro após a pandemia
  • Por Victor Sena – Exame  3 fev 2021

A pandemia causou pelo menos dois impactos fortes no caminho que o mercado de trabalho estava seguindo: há agora mais demanda para profissionais de saúde e de tecnologia, devido à transformação digital que as empresas têm passado.

Um levantamento da rede social profissional LinkedIn aponta os 15 empregos que mais cresceram entre abril e outubro de 2020 em comparação com o mesmo período de 2019. Os empregos em alta foram definidos pelo LinkedIn a partir da análise de 15.000 cargos para descobrir os cargos que mais cresceram.

Por ser um dos países mais atingidos pela pandemia, os dados mostram um investimento do Brasil em projetos de pesquisa relacionados ao novo coronavírus. Organizações de estudos clínicos como o Instituto Butantan estavam entre as principais empresas que contrataram pesquisadores e profissionais do setor farmacêutico para suprir essa demanda.

Enfermeiros de terapia intensiva, por exemplo, registraram uma taxa de crescimento recorde de 820% em comparação com o ano anterior. Houve, ainda, um aumento de 34% nas contratações de especialistas em saúde mental devido ao estresse ligado ao bem-estar.

Desenvolvedores, engenheiros de software, designers de produtos e especialistas em segurança cibernética são algumas das profissões que têm se destacado. Além disso, o LinkedIn identificou que pelo menos 20% destes cargos abertos são para funções remotas. Na grande São Paulo, por exemplo, um levantamento da empresa Catho mostra que as vagas na área de tecnologia subiram 600%.

Veja a lista completa:

1. Médicos especializados

Principais competências: enfermagem em terapia intensiva, farmácia clínica, medicina, fisioterapia, terapia ocupacional e biologia

Cargos mais comuns: enfermeiro(a) de terapia intensiva, enfermeiro(a) de saúde pública, enfermeiro(a) de pronto-socorro, clínico geral, fisioterapeuta, farmacêutico(a), médico(a) e especialista clínico

2. Cargos em tecnologia 

Principais competências: Git, Unity, JavaScript, React.js, Scrum, design de experiência do usuário (UED), SQL, design de interface do usuário e Cascading Style Sheets (CSS)

Cargos comuns: engenheiro(a) de software, desenvolvedor(a) de backend, desenvolvedor(a) de jogos, desenvolvedor(a) de frontend, consultor(a) de design de produto, designer de interface do usuário, desenvolvedor(a) de web e analista de segurança cibernética

3. Farmacêuticos e pesquisadores 

Principais competências: monitoramento clínico, boas práticas clínicas (BPC), boas práticas de laboratório (BPL), pesquisa clínica, bioquímica e hematologia

Cargos comuns: técnico(a) em medicina, cientista de laboratório médico e assistente de laboratório

4. Cargos em vendas e desenvolvimento de negócios

Principais competências: negociação, gestão comercial, e-commerce, pré-vendas, planejamento de negócios, negociação, gestão de vendas

Cargos comuns: especialista em vendas, gerente de vendas, assistente operacional de vendas

5. Especialistas em E-commerce

Principais competências: e-commerce, gerenciamento de logística, produtos SAP, operações de depósito, controle de estoque e gerenciamento da cadeia de suprimentos

Cargos comuns: diretor(a) de cadeia de suprimentos, técnico(a) em logística, analista de estoque, operário(a) de estoque, gerente de e-commerce, analista de e-commerce

6. Profissionais autônomos de conteúdo digital 

Principais competências: experiência em podcasts, YouTube, marketing digital e edição de vídeos

Cargos comuns: podcaster, YouTuber, coordenador(a) de conteúdo e editor(a) de vídeo

7. Especialistas em marketing digital

Principais competências: marketing de influência, marketing digital, growth hacking, experiência de usuário (UX), mídias sociais, Search Engine Optimization (SEO)

Cargos comuns: gerente de mídias sociais, especialista em estratégias de posicionamento, consultor(a) de marketing digital, produtor(a) de conteúdo e redator(a) para experiência do usuário.

8. Profissionais de finanças 

Principais competências: serviços bancários, negociação, planejamento de negócios, investimentos, finanças corporativas, mercado de capitais e análise financeira

Cargos comuns: diretor(a) financeiro(a), corretor(a) de ações, consultor(a) de serviços financeiros, contador(a), supervisor(a) de contas a receber e bancário(a)

9. Telemarketing

Principais competências: telemarketing, atendimento ao cliente, vendas, etiqueta ao telefone

Cargos comuns: representante de telemarketing, operador(a) de telemarketing e especialista em telemarketing

10. Cargos de apoio à saúde 

Principais competências: experiência em farmácia e com medicamentos, funções de recepcionista, atendimento ao paciente, análises clínicas e gestão de saúde

Cargos comuns: assistente de farmácia, consultor(a) de saúde, gerente de operações clínicas, encarregado(a) médico(a), coordenador(a) médico, assistente de saúde

11. Serviços criativos  

Principais competências: ilustração, arte, ZBrush, jornalismo, design gráfico, modelagem 3D, redação, Adobe Illustrator

Cargos comuns: ilustrador(a), artista 3D, redator(a), figurinista e designer gráfico

12. Análises de dados 

Principais competências: Apache Spark, Hadoop, SQL, Python, Data Science, Tableau, Google Analytics

Cargos comuns: engenheiro(a) de dados, analista de dados, analista de desempenho e analista de validação

13. Cargos de sucesso de clientes 

Principais competências: atendimento ao cliente, experiência do cliente, negociação, planejamento de negócios, liderança de equipe e central de atendimento

Cargos comuns: atendimento ao cliente, líder de equipe de atendimento ao cliente, especialista em central de atendimento, gerente de sucesso do cliente, parcerias estratégicas e gerente de experiência do cliente

14. Profissionais do setor de varejo

Principais competências: vendas no varejo, merchandising, vendas, atendimento ao cliente e marketing

Cargos comuns: especialista em varejo e especialista em merchandising

15. Especialistas em saúde mental

Principais competências: psicoterapia, psicologia, psicologia de aconselhamento e saúde mental

Cargos comuns: psicoterapeuta e psicólogo(a) clínico(a)

https://exame.com/carreira/veja-15-profissoes-em-alta-para-2021-saude-e-tecnologia-saem-na-frente/?amp

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Pequenas empresas apostam no Spotify e TikTok para vender mais em 2021

Pesquisa feita pela startup mLabs, de gestão de redes sociais, identificou quais são as tendências digitais dos pequenos negócios em 2021

Por Da Redação Exame Publicado em: 31/12/2020

Fones de ouvido diante do logo do Spotify

SPOTIFY: maior serviço de streaming de música paga do mundo (Christian Hartmann/Reuters)

O Spotify e o TikTok são as grandes novas apostas dos empreendedores brasileiros em 2021. Pesquisa feita pela startup de gestão de redes sociais mLabs mostra que os dois aplicativos estão empatados com 28% dos votos como o novo canal de negócios que as pequenas empresas estão dispostas a investir no próximo ano. 

Realizada com 2.392 profissionais que tomam decisões dentro de agências e pequenas empresas, a pesquisa aponta o Telegram na segunda posição (22%) das grandes apostas. 

Em 2019, o TikTok também estava em primeiro lugar (26%) e o Spotify em segundo (21%). Segundo a mLabs, a grande variedade de podcasts no país é responsável pelo crescimento do Spotify como um grande canal de negócios. “A quarentena acelerou a adoção de estratégias digitais, principalmente para os pequenos negócios”, diz Rafael Kiso, fundador da mLabs.

Quanto aos canais que devem receber mais atenção e esforço das agências e empresas, a pesquisa mostra que o Instagram (96%), o Whatsapp (88%) e o Facebook (83%) seguem na liderança, o que reforça a relevância deles no país.

“Os canais de performance comprovadas geram segurança para as empresas do ecossistema digital. O retorno em publicidade nestes apps é praticamente garantido, o engajamento é alto a um custo acessível”, afirma Kiso.

Em relação a investimento em tecnologia em 2021, o monitoramento de redes sociais (86%) aparece em primeiro lugar, seguido por automação de marketing (77%) e SAC Social/Social CRM (71%). 

Quanto a profissões mais desejadas pelas empresas e agências, os analistas de social media e comunidades (75%) serão os mais requisitados ao longo do próximo ano. Depois, na segunda e terceira posição, aparecem analistas de inbound (64%) e programadores web (61%). 

A pandemia também mudou a forma com que as empresas e agências trabalham. As reuniões online (91%) são a principal tendência de trabalho, seguidas pelos treinamentos online (88%) e eventos online (86%).

https://exame.com/pme/pequenas-empresas-apostam-spotify-e-tiktok-2021/

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Ironicamente, as máquinas tornarão a medicina mais humana

Médicos trabalharão cada vez mais com máquinas inteligentes

Guilherme Hummel, Coordenador Científico – HIMSS@Hospitalar | 22 Out, 2020

“Em uma década, mais de 90% dos procedimentos cirúrgicos serão feitos por robôs, e 70% das visitas ao hospital serão realizadas na própria casa do paciente usando Telemedicina”. Não é uma afirmação aleatória, mas uma sentença inequívoca do Dr. Eyal Zimlichman, vice-diretor do Sheba Medical Center, o maior hospital de Israel, onde também é chief medical officer e chief innovation. Em setembro último, no webinar “AI to the Rescue: How Startup Tech Is Reinventing the Hospital”, Zimlichman deixou a audiência atônita com essa afirmação. Ele faz coro com inúmeros outros especialistas que apostam na inteligência artificial (IA) e na robótica para transformar completamente a medicina moderna. Ao contrário do que se pensava há uma década, nos dias de hoje boa parte dos médicos envolvidos com IA já considera que seu uso pode tornar a medicina mais humana, dando aos médicos wingspan’ (envergadura) para interagir mais intensamente com os pacientes. Ela pode produzir cuidados mais eficazes e rápidos, eliminando muitas das funções ‘mundanas’ que consomem o tempo dos médicos.

Eric Topol, médico, pesquisador, fundador e diretor da organização sem fins lucrativos Scripps Research Translational Institute, explica: “O aprendizado de máquina pode liberar os médicos da necessidade de escrever ou digitar as informações clínicas dos pacientes. Podemos estar há décadas perdendo o significado real e verdadeiro de cuidar-do-paciente”. Em seu livro “Deep Medicine: How Artificial Intelligence Can Make Healthcare Human Again”, Topol mostra seu otimismo e aderência ao uso intensivo de IA na saúde. “Além de humanizar os cuidados com a saúde, o ‘aprendizado profundo de máquina’ também vai reduzir o erro humano clínico e ajudar os médicos a tomarem melhores decisões”, explica ele. “Os radiologistas eliminam falsamente a doença dos pacientes em 32% das vezes, enquanto gastroenterologistas regularmente deixam de perceber pequenos pólipos que são tão pré-cancerosos quanto os maiores”, continua Topol. Em meio a uma pandemia frenética, muitos médicos estão percebendo que as máquinas inteligentes permitirão a eles fornecer cuidados mais individualizados e com maior probabilidade de sucesso. Por outro lado, persiste a corrente que acredita que as mesmas máquinas são uma ameaça aos profissionais de saúde, que seriam substituídos por robôs, equipamentos e sistemas. Há até fervor em contestar o chamado ‘falso avanço da medicina’, sempre defendendo que a autonomia do médico não deve ser questionada por qualquer ‘máquina digital’.

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A Covid-19 está acelerando o processo de transformação na academia médica e na cadeia de serviços clínicos. Essa jornada tem na inteligência artificial algo como um “Virgílio segurando a mão de Dante para levá-lo ao próximo nível”. Uma pesquisa conduzida pelo MIT Technology Review e GE Healthcare, publicada em 2019, mostrou que 80% dos profissionais de saúde consideram que as ferramentas de inteligência artificial os ajudam a mitigar o esgotamento profissional, possibilitando um melhor atendimento clinico. “Ao contrário do medo comum, mas não comprovado, de que as máquinas substituam os trabalhadores humanos, as tecnologias de IA na área de saúde podem na verdade estar ‘reumanizando’ o atendimento”, explica o relatório. A pesquisa foi realizada com mais de 900 profissionais de saúde (antes da pandemia), descobrindo que boa parte deles já estão usando IA para melhorar suas análises, permitir melhor assertividade de tratamento, refinar o diagnóstico e reduzir claramente a carga clínico-administrativa, liberando-os para dar mais atenção aos pacientes. O estudo descobriu também que as equipes médicas com projetos-piloto de IA gastam 1/3 a menos de tempo em relatórios e outras tarefas sistemáticas, enquanto aqueles com programas extensos de IA gastam 2/3 a menos de tempo com essa artilharia burocrático-assistencial. Além disso, 45% dos participantes disseram que IA os ajuda a aumentar o tempo da consulta médica, bem como o tempo para realizar cirurgias e outros procedimentos. Aquelas equipes médicas que iniciaram mais cedo, e hoje utilizam IA em projetos mais extensos, conseguem obter ‘70% a mais de tempo para os procedimentos assistenciais diretos com os pacientes’, explica o estudo. Isso deverá significar também redução do burnout médico, ampliação do tempo de estudo do profissional e aprimoramento de suas práticas clínicas. Os céticos, por outro lado, sempre têm uma carta na manga: “as máquinas digitais trucidam a humanização da medicina”.

Humanização é um conceito intrincado de entender por apresentar características subjetivas e complexas. O que é cuidado humanizado para uma pessoa pode não ser para outra. O que está claro é que dentro da expressão ‘atenção humanizada’ está o contexto de respeito (aos costumes, desejos, crenças e valores dos pacientes). Ou seja, independente do atendimento clínico, é mister considerar as particularidades de cada paciente, e incluir no atendimento carinho, dedicação e atenção às suas angústias. Todas essas ações coordenadas exigem do profissional de saúde algo que hoje ele tem cada vez menos: tempo. Com um déficit de profissionais em quase todos os países, incluindo no Brasil, é pouco provável que neste século exista uma ‘solução’ para melhorar a efetividade do tempo médico que não passe pela adoção das ‘máquinas de inteligência artificial’. Exemplo: uma enfermeira entra em seu turno do Duke University Hospital quando ouve um ‘alarme-máquina’. Era o aplicativo Sepsis Watch sinalizando que um paciente estava sob risco de desenvolver sepse. O software transmite alertas de um algoritmo que é alimentado por 32 milhões de data-points de pacientes já tratados no hospital. O sistema (um deep-learning) foi desenvolvido pelo hospital para sua equipe de enfermagem, permitindo uma resposta de proteção rápida e dando mais segurança, tranquilidade e tempo de atendimento aos pacientes. Assegurar proteção em tempo hábil sempre será um sublime gesto de humanidade.

O uso de IA no setor de saúde deve crescer rapidamente a uma taxa anual de 40% até 2022 (US$ 6,6 bilhões, contra US$ 600 milhões em 2014). Alguns dos motivos dessa expansão são claros: as máquinas inteligentes despressurizam os sistemas, aliviam a carga na tomada de decisão e poupam o ‘leadtime’ dos profissionais de saúde. Como explica Michael Brady, professor de imagens oncológicas na University of Oxford: “Descobrimos que quando combinamos tecnologias de imagem baseadas em IA com o trabalho dos radiologistas, os resultados superam em muito quando esses dois eixos operam sozinhos, um sem ajudar o outro”. Ainda de acordo com Brady, médicos oncologistas, por exemplo, podem examinar 200 casos por vez, sendo que a maioria das informações que eles examinam não é clinicamente significativa. Bijoy Khandheria, cardiologista no Aurora Health Center (rede norte-americana com 15 hospitais e mais de 150 clínicas), define melhor a meta: “Afinal, na saúde, a prioridade é o paciente. Com IA, os humanos não estão indo embora; estão apenas tomando decisões mais inteligentes e com menos erros”.

As ‘máquinas inteligentes’ diferem dos avanços médicos anteriores. As tecnologias passadas eram usadas para aumentar a capacidade física dos profissionais de saúde (o estetoscópio melhorou a audição, o raio-X a sua visão, etc.). A inteligência artificial está entrando na arena como um ator ‘moralmente’ diferente. As plataformas de IA vão liberar tempo dos médicos para aprimorarem a sua empatia com os pacientes. A combinação de empatia e criatividade-técnica é o que justifica o paciente assumir uma posição de confiança no médico. A empatia, portanto, desempenha um papel central na interpessoalidade do cuidado. Ela rejeita o paternalismo e une o médico ao paciente para encontrar as soluções adequadas. Um fotógrafo neste século, por exemplo, gasta infinitamente menos tempo com a tarefa mecânica de processar o filme, tendo muito mais tempo para a expressão criativa e para sua relação com o entorno, sendo, portanto, cada vez mais humano. Atendimento médico humanizado não pode ser só um clichê, ou um programa de conscientização sem o ferramental para torná-lo factível. Essa fase de introdução de máquinas inteligentes, sistemas em deep learning, robótica, telehealth, health-analytics, etc. será também um movimento de aprendizado para o paciente, que em breve estará também reavaliando seus valores, suas premências e aquilo que espera dos serviços médicos. Ou seja, a percepção da humanização médica também vai mudar. Com descreveu o psiquiatra, antropólogo e professor na Universidade Harvard, Arthur Kleinman, em seu último livro (“The Soul of care: the moral education of marido and doctor”): “O cuidado é um processo de compartilhamento, no qual damos e recebemos atenção, afirmação, assistência prática e apoio emocional. Cuidar envolve momentos de terror e pânico, de dúvida e desesperança, mas também momentos de profunda conexão humana, de honestidade e revelação, de propósito e gratificação. Assim, o domínio do cuidado médico se estende muito além dos limites da medicina”.

Guilherme S. Hummel

Coordenador Científico – HIMSS@Hospitalar Forum

eHealth Mentor Institute (EMI) – Head Mentor

https://www.saudebusiness.com/eventos/ironicamente-mquinas-tornaro-medicina-mais-humana

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Pix vira rede social, local de flerte e vale até para ‘nudes’

Sistema de pagamentos instantâneos criado pelo BC no fim de 2020 ganha usos inesperados nas mãos dos brasileiros, entusiastas dos relacionamentos digitais

Carolina Nalin, Sérgio Matsuura e Pollyanna Bretas O Globo 29/01/2021 

Chrystian Santanna, de 25 anos, e Amanda Costa, de 24, reataram um namoro de oito anos depois que ele conseguiu quebrar o gelo da amada com um Pix de R$ 2 e uma mensagem na identificação da transferência Foto: Domingos Peixoto / Agência O GloboChrystian Santanna, de 25 anos, e Amanda Costa, de 24, reataram um namoro de oito anos depois que ele conseguiu quebrar o gelo da amada com um Pix de R$ 2 e uma mensagem na identificação da transferência Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo

RIO E BRASÍLIA – Dar um match e flertar com o crush correm risco de virar coisa do passado. “Anota o meu Pix” passou a ser a senha para indicar que há espaço para um relacionamento.

Dois meses depois da entrada em vigor do sistema de pagamento instantâneo e transferência sem custos, o brasileiro conseguiu agregar funcionalidades ao Pix que vão muito além do imaginado pelo Banco Central (BC).

Tire suas dúvidas:  Saiba o que é o Pix e como ele funciona

Ele se converteu numa mistura de rede social, caminho para conquistar a cara-metade — por meio da transferência de valores modestos, até na casa dos centavos— , e balcão de negócios.

Quem já conquistou espaço em redes sociais, convida seus seguidores a ir muito além dos likes e partir para a demonstração de apreço por meio de transferências. E há até quem troque “mimos”, que vão desde um lanche até nudes no celular, por meio da ferramenta.

A equipe do presidente do BC, Roberto Campos Neto — que já veio a público reconhecer que o Pix não foi criado como rede social —, não poderia imaginar que ele viraria até mesmo ferramenta de solução de conflito.

BC: Pix poderá ser utilizado para movimentar conta salário em 2021

Chrystian Santanna, de 25 anos, e a namorada, Amanda Costa, de 24 anos, estão juntos há oito anos, mas se desentenderam. Seguindo o roteiro tradicional do ensaio do fim nos tempos atuais, Amanda cortou laços: bloqueou o namorado no WhatsApp, no Instagram e até nas ligações.

Chrystian Santanna, de 25 anos, e Amanda Costa, de 24, reataram um namoro de oito anos depois que ele conseguiu quebrar o gelo da amada com um Pix de R$ 2 e uma mensagem na identificação da transferência Foto: Domingos Peixoto / Agência O GloboChrystian Santanna, de 25 anos, e Amanda Costa, de 24, reataram um namoro de oito anos depois que ele conseguiu quebrar o gelo da amada com um Pix de R$ 2 e uma mensagem na identificação da transferência Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo

O caminho para reconquistar o afeto contou com a bênção inadvertida do BC, por meio de uma mensagem enviada no espaço de identificação da transação por meio do Pix.

— Apareceu no celular uma notificação do aplicativo do banco e me surpreendi. Quando vi, era um Pix dele no valor de R$ 2. Achei engraçada a forma como ele tentou entrar em contato comigo. Na hora até passou a raiva. Mas respondi no WhatsApp: “podia ter sido um valor maior, né?” — brincou Amanda.

Plano de saúde:  Preço dispara com cobrança retroativa do reajuste adiado em 2020. Calcule o seu

Chrystian diz que a transferência foi uma forma de entrar na brincadeira das redes e promete escalar o valor repassado:

— Era o que eu tinha na conta, tinha acabado de fazer compras. Mas ela merece muito mais. Em outra oportunidade será transferido um valor maior.

Mais do que juros e boletos

Criada há menos de uma semana em uma rede social, a página de humor PixLovers, foi concebida pelo gerente de banco Vagner Castro para se dedicar a compilar os relatos de quem usa o sistema para se relacionar.

As histórias vão desde modestos R$ 2 enviados com o convite de um encontro até a transferência de R$ 200 em troca da foto dos pés de uma moça.

— Estamos acostumados com a seriedade dos bancos. Quando acessamos uma conta corrente pelo aplicativo só vemos juros, contas a pagar, boletos… E aí quando você se depara com uma mensagem carinhosa, de afeto, isso muda um pouco a forma como as pessoas se relacionam com o dinheiro — resumiu Vagner, que avalia que a prática ganhou espaço por surpreender quem recebe a transferência.

‘Me manda um Pix aí’

Nas redes sociais já circulam exemplos de uma tabela do “PixTinder”, em alusão ao aplicativo de relacionamentos, com uma configuração de preços de correlação duvidosa com as boas práticas de orçamento.

O envio de R$ 10 significa “quero um date”, módicos R$ 2 são sinônimo de elogio, na linha “te acho lindo”, mas só a força do ódio misturada com o humor pode levar o cidadão ao ponto máximo da tabela: R$ 20 para dizer “te odeio, kkk”.

Nem sempre, porém, o meio de transferência é capaz de reatar laços. O produtor multimídia Edu Moraes, de 22 anos, recebeu um pedido de desculpas de um amigo através de mensagem no Pix. Os dois se desentenderam e um bloqueou o outro nas redes de contato:

— Um amigo, do qual me afastei, estava me devendo R$ 10. Ele transferiu o valor e escreveu ‘Desculpa qualquer coisa, e aqui está o dinheiro’. Eu não respondi.

‘PixTinder’ é um sinal da cultura digital brasileira

Para especialistas, o Pix para o relacionamento social reflete uma combinação de fatores. Entre eles, está a possibilidade de flertar ou se expressar sem ser visto ou julgado, o que abre a porta para extravasar opiniões.

Além disso, o espaço restrito do campo de mensagem ajuda a tornar o galanteio objetivo e direto. Ou seja, além da surpresa com a transferência acompanhada de texto, não há muito espaço para poesia ou para sustentar longas conversas.

Para abordar alguém, basta ter sua chave do Pix, coisa que muitos brasileiros resolveram compartilhar em aplicativos ou redes.

Pix:  Veja os principais golpes e saiba como se proteger

— Esse fenômeno já se manifestou anteriormente no Instagram e também no Linkedin, que é uma rede social de negócios e de busca de oportunidades de trabalho. A gente já percebe que é uma característica muito forte no país: os brasileiros utilizam bastante os aplicativos para a busca de relacionamento — afirmou Fábio Mariano Borges, professor de Sociologia do Consumo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-SP).

Ele avalia que o fato de as mensagens passarem por uma instituição financeira pode gerar uma sensação de segurança ao usuário, quando na verdade todas as recomendações indicam que compartilhar indiscriminadamente a chave do Pix pode ser um caminho para dor de cabeça com risco de fraude.

Piada, ajuda e lanche

Entre os novos usos do sistema, já existem grupos para “troca de mimos” em redes sociais. No Facebook, o “Grupo onde homens enviam Pix para mulheres”, criado em novembro, reúne mais de 13 mil pessoas interessadas em receber ou dispostas a dar recursos financeiros por meio da plataforma.

Lolla Ferreira, uma das moderadoras, explica que a ideia é criar um espaço para participantes se conhecerem e se divertirem. E, de quebra, ajudar alguém que precise.

— Se você tem alguns centavos sobrando na sua conta, o que não dá nem para sacar, por que não transferir para alguém que está juntando para comprar um lanche ou um doce e fazer alguém feliz? — perguntou Lolla, contando já ter recebido vários “mimos”, com valores entre R$ 0,10 e R$ 10.

O grupo inclui “mimos” para as histórias mais engraçadas ou fotos mais criativas, além de pedidos de ajuda e muita paquera.

A moderação revisa todas as postagens públicas, proibindo fotos de cunho sexual, mas nas conversas privadas acontece a troca de nudes por transferências financeiras.

— No grupo rola muita venda de packs (fotos e vídeos de pessoas nuas), o que tentamos barrar. Mas o que acontece no privado não temos como controlar — disse Lolla. — Mas tem muita gente que manda um Pix sem segundas intenções.

BC não encampa novos usos do Pix

O BC já refutou o uso do Pix como rede social e desta vez não parece disposto a entrar no espírito de brincadeira como ocorreu no lançamento da nota de R$ 200.

Na ocasião, o vira-lata Caramelo, que estrelava os memes sobre a cobiçada nova cédula, foi incorporado à campanha de divulgação da nota.

Mesmo de forma reservada, técnicos da autoridade monetária evitam comentar os novos usos da plataforma e se resumem a repetir a mensagem de que o sistema deveria ser usado apenas para pagamentos e transferências.

Para especialistas, há risco de vazamento de dados pessoais que compartilham informações sensíveis em redes, ao divulgar uma chave Pix com número de CPF, celular ou e-mail.

— O risco é ter a conta invadida, o que é um problema grave já que a pessoa teria acesso à conta e poderia fazer operações. Alguns bancos estão implementando bloqueios de certos caracteres no envio de mensagens via Pix, que poderiam facilitar o uso de links usados como meio para clonar a chave e dar acesso à conta — afirmou Henrique Castro, professor de Finanças da FGV-EESP.(

*Colaborou Gabriel Shinohara

https://oglobo.globo.com/economia/pix-vira-rede-social-local-de-flerte-vale-ate-para-nudes-24861088?GLBID=1242ace35c57cd903ef1eea7b20fdeca96c67586e414c4e693057515f38734d375f4f374c66624c737177374e4150314e70644767346d4a7a6c6a4d784c4f397774427839775a37314c522d2d4833356b6f4652415479777a6e78714e41546f6b4944473168513d3d3a303a6576616e64726f2e6d696c65745f323031335f36

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Pix sexual: como o sistema começou a ser usado como ‘arma’ de paquera

Sistema digital de pagamentos virou rede de relacionamentos, mas especialistas alertam para golpes

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo 29 de janeiro de 2021 | 

Quase ninguém mais sabe o que é um piropo. De origem castelhana, um piropo é uma palavra ou frase de elogio endereçado a outra pessoa. No melhor dos mundos, poetas, compositores e apaixonados escrevem versos (piropos) sobre quem se ama. No pior dos mundos, piropos são grosseiros e, ao cruzarem a linha do assédio moral ou sexual, transformam-se em casos de polícia. 

PixSistema de pagamentos Pix passa a ser usado para paquerar Foto: Marcos Muller/Estadão

Toda essa ‘piropada’ do parágrafo acima é para falar da improvável nova plataforma utilizada para paqueras virtuais. Não, não são as já tradicionais redes sociais ou aplicativos, como Tinder e Inner Circle. Hoje, os piropos invadiram o Pix e criaram o Pix sexual

Pix, para quem ainda não foi apresentado, é um sistema de pagamento instantâneo lançado em meados de novembro pelo Banco Central. Basicamente, o usuário pode usar o seu número de CPF, telefone ou e-mail como chave (senha) do Pix. As transferências podem ser feitas com qualquer valor (inclusive 1 centavo), sem custos adicionais. Além disso, o usuário pode enviar uma mensagem no comprovante de pagamento. Normalmente, essa mensagem serviria para uma breve descrição dos motivos do pagamento, mas…

Mas o brasileiro na internet tem um humor todo peculiar e não demorou para aparecerem coisas como: “Coloquei uma chave pix aleatória na bio do meu Tinder e tem maluco me mandando dindin pelo meu número kkkkkkk” (@Manda_pedrosa). Ou ainda: “Não me mande flores, me mande um PIX. É assim que se paquera agora?”( @lillydearaujo). 

Nas redes sociais, a modalidade já foi apelidada de “pixtinder” e seus adeptos de @pixsexuais (pessoas que se sentem atraídas por quem faz transferências financeiras por Pix). A ideia é que, ao se identificar a pessoa do seu interesse, o indivíduo faça uma transferência bancária acompanhada por um galanteio (um convite para jantar, um elogio).

Ainda nas redes, nasceu uma tabela que relaciona valores financeiros ao nível de interesse da pessoa. Por exemplo, R$ 1 é igual um “adoro você”; R$ 2 vale um “te acho lindo” e um R$ 10 é um legítimo “quero um date”. Já um depósito de R$ 20 pode significar “te odeio, kkk”. 

“Eu vi uma reportagem sobre o assunto e pensei: ‘quero se paquerada assim também’”, brincou a assistente social e fotógrafa Liliane de Araújo, 39 anos. “Aí, mandei um Pix para um contatinho, um rolo eterno. Aí, recebi um Pix com uma mensagem e um depósito de 10 centavos. Postei nas redes sociais e me zoaram demais. Brinquei que essa paquera tirou minha conta do zero”, completou.

O economista Vagner Castro, 27 anos, experimentou o “pixtinder” e disse que funcionou. “Cheguei a mandar para um menina com quem estava saindo. Mandei um ‘oi’ com o meu telefone. Ela me chamou no WhatsApp, acho engraçado…”, contou. Mais do que usar o Pix para um flerte, Castro teve a ideia de abrir um perfil no Instagram para reunir histórias e prints desse tipo de abordagem. Trata-se do @pixloveers. 

Na página, prints com transferência de R$12 seguido da seguinte mensagem: “Tu vai terminar comigo por causa de um sonho, Ana?”. Ou pedidos de desculpas acompanhado por R$ 5: “Amor, na moral, foi só um beijinho, me desbloqueia”. Além de cantadas, as mensagens podem servir para explicar melhor pedidos feitos por delivery. Ao transferir o pagamento para uma pizzaria, a pessoa escreveu no Pix: “não põe cebola na pizza, obrigado”.

No aplicativo de paquera, Inner Circle, o uso da palavra “Pix” subiu 147% em um período de um mês. “Não temos acesso ao teor das conversas, portanto, não sabemos se as pessoas estão fornecendo os seus dados no aplicativo, mas é possível pesquisar por palavras e, realmente, a palavra ‘Pix’ teve um aumento considerável”, disse Ximena Buteler, gerente de marketing do Inner Circle. “Claro, é importante lembrar que o aplicativo não recomenda que as pessoas forneçam esse tipo de dado pessoal, como CPF, em suas conversas”, completou.

A brincadeira fugiu do controle, ganhou escala e levou o próprio Banco Central a se manifestar, dizendo que o “Pix é um meio de pagamento e não uma rede social”. Camila Mickievicz, especialista em direito e tecnologia, adverte para os perigos do chamado pixtinder. “O risco é acentuado. Entregar a chave do Pix para alguém pode significar disponibilizar o CPF. Com o CPF e o nome completo, alguém mal-intencionado pode fazer compras no seu nome. Se a chave é o telefone ou o e-mail, os problemas podem ser muito sérios também”, comentou.

“A gente precisa explicar para as pessoas a importância de proteção dos dados pessoais nesse ambiente digital. Já estão sendo aplicados golpes pelo Pix. O que começa com uma brincadeira, pode terminar com muita dor de cabeça”, finalizou Camila. 

https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,como-o-pix-comecou-a-ser-usado-como-uma-plataforma-de-paquera,70003597550

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Geekonomy: do nicho ao mainstream

  • Bússola estreia coluna sobre o atraente mercado da cultura nerd, que mobiliza legiões de fãs e movimenta cifras bilionárias em todo o mundo
  • Por Cauê Madeira* Exame 29 jan 2021

Entretenimento geek, nerd, pop. Os termos são variados e muito amplos, mas extremamente rentáveis. Essa é a estreia de uma coluna para conversar sobre a cultura do fã, sempre sob a perspectiva do negócio, do impacto na economia e do comportamento de consumo.

A franquia Harry Potter já arrecadou mais de US$ 21 bilhões no mundo todo, entre livros, lançamentos no cinema e licenciamento de centenas de produtos. Em dez anos, o faturamento da Marvel Studios – só com filmes de super-herói – ultrapassou os US$ 30 bi. Esse valor é semelhante ao faturamento do Mario ao longo dos anos, que é provavelmente o mais conhecido personagem de videogame do mundo.

Em comum, nos três exemplos dessas impressionantes empreitadas de sucesso no entretenimento transmídia, está a origem na subcultura de nicho. Ou seja, a formação de comunidades em torno de um interesse em comum. Esse, por sua vez, costuma ser uma temática ou assunto que não se encontra tão facilmente na estante de qualquer loja. E, por incrível que possa parecer, a literatura fantástica, as histórias em quadrinhos e a própria origem dos videogames remontam a um período em que não era tão simples ter acesso a tudo isso – como é hoje.

A cultura pop cresceu, explodiu e virou mainstream por meio de produções com temas que se desdobram pelo cinema, games, quadrinhos, literatura, música, licenciamento de produtos, entre tantas outras frentes.

Possivelmente o mais notório e perene produto desse tipo de comportamento seja o interesse em torno da franquia de filmes de Star Wars, que no fim da década de 70 angariou uma legião de fãs e que encontrou sobrevida e continuidade – após o fim de sua trilogia cinematográfica original – nos quadrinhos, games, livros e milhares de produtos licenciados. George Lucas, criador da história, produziu uma segunda trilogia no início dos anos 2000 e, em 2012, vendeu sua franquia (de 35 anos de idade à época) para a Disney por 4 bilhões de dólares.

Disso desdobrou-se mais uma trilogia, alguns filmes spin-off e muitas séries derivadas, que hoje são o carro-chefe da plataforma de streaming Disney+ na guerra contra Amazon Prime Video e Netflix.

Fato é que Star Wars sobreviveu e se sustentou ao longo dos anos com base em sua comunidade de fãs. Nerds, geeks e aficionados que por anos consumiram os desdobramentos da história em todos os tipos de mídia, desenvolveram um laço afetivo baseado em nostalgia e envolvimento emocional e, por fim, trouxeram novas gerações de fãs para o grupo. É, afinal, uma grande família.

E essas famílias, como falado, nascem dentro de nichos e subculturas. São interesses e temas tão pulverizados e diversos que é praticamente impossível classificá-los por algo além do próprio interesse profundo.

Imagine microuniversos de colecionadores de action-figures, cosplayers, jogadores de RPG, board games, card games, fanfics. Ou aficionados por universos narrativos, como obras literárias, desenhos animados e títulos de videogame. As possibilidades são infinitas, e o potencial de conversão de negócios também.

O interesse na cultura de fãs não se limita aos produtores de conteúdo. Há espaço de veiculação de mídia, branded content, product placement, licenciamento e toda uma sorte de possibilidades de negócio que geram interesse para marcas de praticamente todas as indústrias.

A relação com esse ecossistema de consumo transcende o produto ou a produção, justamente por conta da relação afetiva de cada comunidade com seu objeto de interesse. Portanto, fazer parte disso é também impactar diretamente estilos de vida, comportamentos, o que se come, o que se veste, o que se usa e se compra. É uma relação de intimidade e, se feito da maneira correta, cumplicidade também.

O modelo e a forma de se consumir esses conteúdos mudaram muito ao longo dos anos. O que não muda é o investimento emocional e o profundo interesse desses grupos que se formam a cada dia, seja na lojinha do bairro, no grupo de WhatsApp ou na plataforma digital mais próxima de você.

A vingança dos nerds nunca fez tanto sentido.

*Sócio-diretor de Growth na Loures Consultoria

https://exame.com/bussola/geekonomy-do-nicho-ao-mainstream/?amp

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Como Jeff Bezos mudou tudo ao comprar o jornal Washington Post

Por João Luiz Rosa, De São Paulo — Valor – 28/05/2019

Paul Farhi tem uma visão privilegiada da imprensa americana. Responsável pela cobertura de mídia do “Washington Post”, no qual ingressou há 31 anos, ele acompanha há muito tempo as tentativas das companhias jornalísticas de reagir à crise provocada pela internet, incluindo um dos movimentos mais contundentes do setor — o do próprio “Post”, vendido ao bilionário Jeff Bezos, fundador da Amazon, em 2013.

“Bezos mudou tudo para nós. Estamos indo muito bem. Caminhávamos para o vermelho e, agora, voltamos ao lucro. Como dono, ele faz as melhores coisas que se pode fazer. Nos dá muito dinheiro. E não nos diz o que fazer”, diz Farhi, que trabalhou como repórter de negócios, política e estilo, antes de assumir a área de mídia no “Post”.

O bilionário não é visto com frequência no jornal, que no fim de 2015, depois de 43 anos, se mudou para uma nova sede, a três quarteirões do antigo escritório. São três ou quatro visitas por ano, diz Farhi. Quando vai à redação, Bezos se encontra com Marty Baron, editor-executivo do “Post”.

Baron foi o jornalista que autorizou a investigação dos primeiros casos de pedofilia na Igreja Católica, quando estava à frente do “Boston Globe”. No cinema, foi interpretado pelo ator Liev Schreiber no filme “Spotlight” (Oscar de melhor filme em 2016). Foi um trabalho de interpretação perfeito, diz Farhi. “Ele [Baron] é muito quieto, atencioso e, você sabe, meio rabugento. Mas é um jornalista muito, muito bom.”

Bezos pagou US$ 250 milhões à família Graham, que comandou o “Post” por mais de 80 anos. Desde então, não se sabe quanto investiu na companhia, porque os números não são públicos. Mas o reforço à redação tem sido recorrente em sua gestão, com a contratação de profissionais. Em meados de 2017, o bilionário disse, em evento, que os jornais precisavam parar de encolher para não reduzir sua relevância, e informou que o “Post” contratara 140 pessoas desde a aquisição.

“A fórmula, creio, é investir muito na área editorial, em repórteres, editores, jornalismo… E, então, o público virá atrás da informação”, afirma Farhi, que veio ao Brasil a convite do Insper.

A aquisição do “Post” não é um caso isolado entre as grandes companhias jornalísticas dos EUA. Com as dificuldades financeiras se agravando, outras empresas têm sido compradas por pessoas ricas, em especial magnatas da indústria de tecnologia. O “Boston Globe” foi adquirido por John Henry, dono do time de beisebol Red Sox; a revista “Atlantic”, por Laurene Powell Jobs, viúva de Steve Jobs, da Apple; e a “Time”, por Marc Benioff, da empresa de software Salesforce.

O “Globe” está ‘ok’, avalia Farhi. “Não se ouve falar de grandes cortes por lá”. A “Atlantic” é um “caso interessante”, diz. A revista é “competitiva” e faz “bom jornalismo”, mas produzi-la é caro. Como não cobra assinatura para acessar seu site, a “Atlantic” depende muito de atrair um volume maciço de acessos para gerar publicidade e sobreviver. “E criar tráfego pode degradar a qualidade, porque você precisa colocar um monte de caça-cliques [textos com apelos chamativos ou exagerados], o que não é bom.” Apesar disso, a revista está em um caminho ascendente. “Parece que estão melhores a cada mês.”

O caso da “Time” é diferente. “Não sei mais quem lê a revista”, diz Farhi. Ele compara a publicação à sua extinta rival “Newsweek”, cuja marca persiste em um site na internet — “uma sombra do que costumava ser”, diz. “Não sei como eles [a Time] continuam no negócio.”

Encontrar um dono rico pode não ser suficiente, adverte Farhi. “Há bilionários e bilionários. Rupert Murdoch [que comprou o “Wall Street Journal”] é um tipo de bilionário e Jeff Bezos é outro. Donald Trump pode ser bilionário, não se sabe, mas ele seria um tipo diferente de proprietário [de jornal]”, diz Farhi, numa referência à recente polêmica que eclodiu sobre o real valor fortuna do presidente dos Estados Unidos.

A aquisição do “Post” por Bezos, seis anos atrás, despertou temores de que o jornal teria sua autonomia comprometida, principalmente em relação aos negócios da Amazon. Mas Farhi diz que a cobertura permanece independente e o jornal vai contratar um repórter em Seattle para cobrir especificamente a Amazon.

Como exemplo da independência, ele cita o episódio rumoroso entre a Amazon e a cidade de Nova York. A gigante de comércio eletrônico pretendia construir na vizinhança do Queens — uma das cinco regiões da cidade — parte de sua segunda sede, com a abertura de 25 mil empregos. Boa parte da população e dos políticos, no entanto, não recebeu bem o projeto, o que levou a companhia a mudar de ideia.

O “Post” foi o primeiro jornal a divulgar que os executivos da Amazon estudavam desistir do projeto, de US$ 3,7 bilhões, devido à oposição crescente. “Fizemos uma cobertura justa”, diz.

Em vez de tentar assumir a orientação editorial do “Post”, Bezos acrescentou uma visão de negócios ao jornal — e isso faz a diferença, afirma o jornalista.

A companhia se apoia, hoje, em um tripé de receita. A publicidade impressa continua a ser uma delas, mas numa proporção incomparavelmente menor que no passado. Os anúncios digitais completam o braço publicitário, mas ainda não são tão significativos.

No que o “Post” tem avançado fortemente são as assinaturas digitais. São quase 2 milhões de assinaturas, que atraem 85 milhões de usuários únicos por mês, diz Farhi. Essa ênfase deu novo fôlego à companhia, permitindo atrair leitores de outros Estados americanos e do exterior, que não leriam o jornal não fosse pela internet.

O terceiro fluxo de receita é o que mais caracteriza a intervenção de Bezos no modelo de negócios do “Post”. Trata-se do Arc Publishing, conjunto de softwares que o jornal criou e passou a vender como serviço. Os programas ficam armazenados na infraestrutura da AWS, braço de serviços de nuvem da Amazon. Mais de 30 companhias adotaram o pacote, segundo divulgou o “Post”.

Concebido para facilitar a publicação de notícias, o Arc passou a incorporar outras funções desde seu lançamento, em 2014. As mais recentes incluem desde a administração de paywall (software que define o que pode ou não ser visto de graça em um site), até a captura de e-mails dos leitores. O Arc pode representar uma receita adicional de US$ 100 milhões para o “Post”, disse recentemente o chefe de tecnologia da empresa, Shailesh Prakash.

As mudanças de comportamento provocadas pela internet têm atingido duramente os jornais americanos. Na maioria deles, de 75% a 80% da receita ainda vem do meio impresso, que perde espaço rapidamente, diz o jornalista. Como não estão conseguindo encontrar maneiras de compensar essa diminuição com novas receitas digitais, muitas publicações estão enfrentando o risco de desaparecer.

“Há três jornais que serão os prováveis sobreviventes [nos EUA] e se fortalecerão no futuro: o ‘Post’, o ‘New York Times’ e o ‘Wall Street Journal”, diz Farhi. A forte base de assinantes é a credencial comum entre o grupo remanescente.

Circulação cadente. A circulação dos diários americanos caiu para menos da metade em trinta anos, do pico de 63,3 milhões em 1984 para estimados 30,9 milhões em 2017, segundo o Pew Research Center, organização de pesquisa sediada em Washington.

A receita publicitária dos jornais, que somou US$ 49,9 bilhões em 2005 — seu mais alto patamar histórico — caiu para US$ 16,6 bilhões dois anos atrás, de acordo com o levantamento. No mesmo período, o número de jornalistas nas redações diminuiu de 72,6 mil para 39,2 mil.

A preocupação maior é com cidades cujos jornais não têm as mesmas possibilidades de buscar novas fontes de renda, como o “Post” e os outros grandes títulos, diz Farhi. A imprensa regional, que já foi exuberante nos EUA, está sob ameaça.

Estudo da Universidade da Carolina do Norte mostra que quase 1,8 mil jornais fecharam as portas nos EUA desde 2004, principalmente em cidades menores. Cerca de 200 condados americanos não têm mais nenhum jornal em circulação. E 1.449 dos 3.143 existentes no país só contam com um jornal, geralmente semanal, de acordo com o estudo, apropriadamente chamado “O deserto de notícias em expansão”.

“Como as pessoas de Cleveland obtêm informação [local]

se o jornal que sempre foi o mais forte da cidade tem, creio, 32 jornalistas para cobrir uma área com 2 milhões de pessoas? Isso é insano”, exemplifica.

Para atrair leitores, diz Fahri, o jornalismo vai exigir uma combinação cada vez mais efetiva de meios diferentes para transmitir notícias, incluindo formatos como “podcasts”, vídeos e canais em rede sociais, muito procurados pelas gerações mais jovens.

A própria família oferece exemplos do poder de atração desses novos formatos, diz. Seu filho mais velho, de 34 anos, e que também é jornalista, adora ouvir “podcasts”, algo que não existia quando Farhi começou. A mais nova, de 26 anos, já empregou suas habilidades dramáticas em um deles. Atriz de teatro musical, ela foi recentemente contratada para participar de um “podcast”, como se fosse em uma antiga radionovela. “É o futuro voltando ao passado. Trata-se de algo novo, mas também muito velho.” (do Valor Econômico)

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